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Disciplina: Direito do Consumidor

Professor (a): Beatriz Gontijo


Nome: Alexandre Henrique da Silva

Direito do Consumidor - Conteúdo


 Introdução sócio-econômica

 A essência do Direito do Consumidor remonta à busca da igualdade


material aristotélica, tendo em vista que na prática, na maioria das vezes,
busca-se, por meio de normas protetivas, garantir a igualdade face à
situações de desigualdade fática, jurídica e econômica entre as partes
envolvidas nas relações jurídicas consumeristas.

 Lança-se mão, nesse contexto, do Princípio da Vulnerabilidade, de


Direito Material, o qual converge no sentido de que todo consumidor é
vulnerável, seja de forma fática (sendo uma de suas espécies a
informacional), técnica, econômica e jurídica, utilizado no art. 4º, §1º, do
CDC.

Esta não se confunde com a hipossuficiência, que se relaciona ao


Direito Processual, o que repercute, por exemplo, com a inversão do
ônus da prova.

 Quanto ao contexto sócio-econômico, verificou-se inicialmente, ao longo


da história, a existência de um Estado liberal, de natureza não
intervencionista, sendo que a Constituição Liberal, visando somente a
garantia das liberdades individuais, refletia a organização econômica
vigente, norteada pela concepção de um mercado natural, o qual
funcionaria por si mesmo.Nesses mercados, ocorria uma relação privada,
pautada por normas civis, inexistindo intervenção e tutela por parte do
Estado.

 Em virtude de mudanças sócio-econômicas, como a concentração de


empresas, aumentou-se o poder econômico-fático das pessoas jurídicas
produzidas, que passaram a ser utilizados na relação jurídica com o
consumidor.

Em razão disso, também foi incrementada a despersonalização das


relações com o consumidor, manifestada, por exemplo, pelos contratos
de adesão, o que diminuiu mais ainda a capacidade de negociação dos
compradores.

Nesse contexto, o Estado se viu compelido a intervir nessas relações


jurídicas, de forma normativa reguladora, cuja natureza é indireta, com
vistas a fiscalização do mercado. Nesse contexto, destaca-se o art. 174 da
CR/881
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Art. 174. Como agente normativo e regulador da atividade econômica, o Estado exercerá, na forma da
lei, as funções de fiscalização, incentivo e planejamento, sendo este determinante para o setor público e
indicativo para o setor privado.
§ 1.º A lei estabelecerá as diretrizes e bases do planejamento do desenvolvimento nacional equilibrado, o
qual incorporará e compatibilizará os planos nacionais e regionais de desenvolvimento.

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Citou-se como marco o discurso de John F. Kenedy, em 1962,


evidenciando os direitos do consumidor, e documento da ONU. No
Brasil, esse papel coube à CR/88.

 São fundamentos da tutela do consumidor:

i) Necessidade de proteção do consumidor, na medida em que se


reconheceu a sua vulnerabilidade;

ii) Busca pela igualdade material aristotélica;

iii) Estipulação de limites ao exercício da atividade econômica,


notadamente a propriedade privada e à livre iniciativa.

iv) A relativização da vontade (cujo maior instrumento jurídico é o


contrato), dogma liberal, e consideração da autonomia privada,
calcada na boa-fé objetiva, com deveres contratuais anteriores,
concomitantes e posteriores às avenças.

 Introdução constitucional

 Na perspectiva do Direito do Consumidor, o art. 5º, inciso XXXII, da


CR/88, estipula que a tutela dos empregados é um direito do indivíduo,
sem prejuízo da possibilidade de tutela das pessoas jurídicas,
também garantida:
Art. 5.º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer
natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no
País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à
segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
XXXII - o Estado promoverá, na forma da lei, a defesa do consumidor;

Os direitos do consumidor seriam considerados de 3ª Dimensão, na


medida em que não se considera não só a relação do indivíduo perante o
Estado, mas também a relação entre eles.

Haveria também, nesse contexto, a observância da força normativa dos


princípios.

 A proteção do consumidor, por ser direito fundamental, é, consoante


consolidado no art. 60, §4º, CR/88, cláusula pétrea, consagrando-se
também o Princípio da Vedação ao Retrocesso.
Art. 60. A Constituição poderá ser emendada mediante proposta:

§ 2.º A lei apoiará e estimulará o cooperativismo e outras formas de associativismo.


§ 3.º O Estado favorecerá a organização da atividade garimpeira em cooperativas, levando em conta a
proteção do meio ambiente e a promoção econômico-social dos garimpeiros.

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§ 4.º Não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a


abolir:
(...)
IV - os direitos e garantias individuais.
 Conforme também consigna o dispositivo do art. 5º da CR/88, o art. 170,
V, CR/88, consagra o caráter de norma de eficácia limitada da defesa
do consumidor, dependendo de lei regulamentadora.

Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho


humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência
digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes
princípios:
V - defesa do consumidor;

 Do mesmo modo, previu o art. 48, do ADCT, acerca da criação da


norma consumerista:

Art. 48. O Congresso Nacional, dentro de cento e vinte dias da


promulgação da Constituição, elaborará código de defesa do
consumidor.

 Levando em consideração os dispositivos de natureza constitucional


acima evidenciados, foi editada Lei 8.078/90, chamada de Código de
Defesa do Consumidor – CDC. Nesse contexto, dispõe o art. 1º do
diploma, que consagra a intervenção indireta do Estado de forma a
limitar os contratos privados, por meio de normas de ordem pública e
interesse social.

Art. 1.º O presente Código estabelece normas de proteção e defesa do


consumidor, de ordem pública e interesse social, nos termos dos arts.
5.º, XXXII, 170, V, da Constituição Federal e art. 48 de suas
Disposições Transitórias.

 Lei de Ordem Pública e Interesse social

a) Norma de ordem pública

 Quanto à previsão de norma de ordem pública referida no art. 1º do


ADCT, extrai-se, em razão disso, que ela não é suscetível de renúncia
pelos seus titulares, podendo ser reconhecida de ofício.

Destaca-se que as normas de ordem pública não remetem,


necessariamente, a regras de direito público, visto que o próprio CDC é
norma de direito privado, mas é de ordem pública.

 Críticou-se, nesse contexto, a Súmula 381 do STJ, que consagra o


seguinte entendimento:

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381. Nos contratos bancários, é vedado ao julgador conhecer, de ofício,


da abusividade das cláusulas.

Ocorre que este é contrário ao rol exemplificativo e ao sentido do art. 51


do CDC, que possibilita o reconhecimento de ofício da abusividade de
cláusulas contratuais e poderia perfeitamente ser aplicável aos contratos
bancários.

Não obstante, o art. 63, §3º, CPC/152, possibilita o reconhecimento de


ofício de cláusula de eleição de foro, inexistindo qualquer ressalva
quanto aos contratos bancários.

 Anteriormente, não se admitia a retroatividade das normas do CDC


antes da sua entrada em vigor, sob pena de violar os atos jurídicos
perfeitos e o direito adquirido. Ressalta-se, contudo, que, mudando
entendimento anterior, pelo art. 2035, § único, do CC, pode haver um
abrandamento mínimo dessas normas, podendo ser admitido uma
retroatividade mínima para garantir a aplicação das normas do CDC nos
casos de contratos celebrados no passado e que atualmente produzam
efeitos sucessivos no tempo, inclusive após a entrada em vigor do CDC.
Art. 2.035. A validade dos negócios e demais atos jurídicos, constituídos
antes da entrada em vigor deste Código, obedece ao disposto nas leis
anteriores, referidas no art. 2.045, mas os seus efeitos, produzidos após
a vigência deste Código, aos preceitos dele se subordinam, salvo se
houver sido prevista pelas partes determinada forma de execução.
Parágrafo único. Nenhuma convenção prevalecerá se contrariar
preceitos de ordem pública, tais como os estabelecidos por este Código
para assegurar a função social da propriedade e dos contratos
.
b) Norma de Interesse Social

 As normas de interesse social envolvem o interesse da sociedade,


cabendo nas situações em que é realizada a participação do Ministério
Público.

c) Diálogo das Fontes

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Art. 63. As partes podem modificar a competência em razão do valor e do território, elegendo foro onde
será proposta ação oriunda de direitos e obrigações.
§ 1.º A eleição de foro só produz efeito quando constar de instrumento escrito e aludir expressamente a
determinado negócio jurídico.
§ 2.º O foro contratual obriga os herdeiros e sucessores das partes.
§ 3.º Antes da citação, a cláusula de eleição de foro, se abusiva, pode ser reputada ineficaz de ofício pelo
juiz, que determinará a remessa dos autos ao juízo do foro de domicílio do réu.
§ 4.º Citado, incumbe ao réu alegar a abusividade da cláusula de eleição de foro na contestação, sob
pena de preclusão

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 Sua base é consubstanciada no art. 7º do CDC:

Art. 7° Os direitos previstos neste código não excluem outros decorrentes


de tratados ou convenções internacionais de que o Brasil seja signatário,
da legislação interna ordinária, de regulamentos expedidos pelas
autoridades administrativas competentes, bem como dos que derivem dos
princípios gerais do direito, analogia, costumes e eqüidade.

Parágrafo único. Tendo mais de um autor a ofensa, todos responderão


solidariamente pela reparação dos danos previstos nas normas de
consumo.

Nesse contexto, o diálogo das fontes abarca a integração de um maior


número de fontes, de outros ramos do direito, para obter a resolução de
determinado caso consumerista. É o caso de utilização do ECA para
justificar a vulnerabilidade de uma criação ou adolescente, por exemplo.

 Ressalta-se a possibilidade de aplicação simultânea das leis


consumeristas com outras leis. A prescrição e a decadência referidas
no CPC, por exemplo, são regulamentadas pelo CC, como na aplicação
simultânea da Lei 8987/95 e do 22 do CDC.

Pode ser verificada também a aplicação coordenada das leis, como na


aplicação subsidiária das normas do CDC quando a Lei 7347/85 é
omissa, no tocante à tutela coletiva. Pelo art. 732 do CC, os contratos de
transporte em geral são submetidos em geral às regras do CC, ao passo
que nos que contenham relação de consumo há principal aplicação do
CDC.

Art. 732. Aos contratos de transporte, em geral, são aplicáveis, quando


couber, desde que não contrariem as disposições deste Código, os
preceitos constantes da legislação especial e de tratados e convenções
internacionais

Não obstante, há também a influência recíproca, isto é, na qual se


utiliza o conhecimento de outras áreas do direito no âmbito da
interpretação doutrinária e jurisprudencial do direito do consumidor.
Possui um caráter essencialmente hermenêutico.

 Princípios consumeristas e direitos do consumidor

 A essência dos princípios de proteção ao consumidor é consubstanciada


no 4º, que elenca os princípios, e 6º do CDC, determinante dos direitos
básicos do consumidor3.

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Art. 4º A Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo o atendimento das necessidades
dos consumidores, o respeito à sua dignidade, saúde e segurança, a proteção de seus interesses
econômicos, a melhoria da sua qualidade de vida, bem como a transparência e harmonia das relações de
consumo, atendidos os seguintes princípios:

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a) Princípio da vulnerabilidade

 É consubstanciado no art. 4º, inciso I, do CDC, remontando a uma


presunção legal de que todo consumidor definido por lei é vulnerável,
sendo derivado essencialmente do Princípio Constitucional da
Igualdade, aos moldes aristotélicos.

 Ressaltou-se a diferença da vulnerabilidade com a hipossuficiência. A


primeira consiste em uma presunção legal, de natureza material, ao passo
que a segunda é um conceito processual previsto no art. 6º, inciso VIII, do
CDC, a ser analisado no caso concreto pelo juiz e que possibilita a
inversão do ônus da prova. É requisito alternativo para essa inversão, de
acordo com a ordinária experiência do juiz, juntamente com a
verossimilhança das alegações.

 Em regra, há divisão da vulnerabilidade em 3 espécies:

a) Técnica: O consumidor não possui capacidade para aferir as


propriedades técnicas do produto ou serviço adquirido.

b) Jurídica: Presume-se que o consumidor desconhece seus direitos e


deveres básicos decorrentes do CDC.

c) Fática: Os consumidores são economicamente diferentes,


vivenciada pelas distinções econômico-sociais. Consiste em

I - reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor no mercado de consumo;

II - ação governamental no sentido de proteger efetivamente o consumidor:


a) por iniciativa direta;
b) por incentivos à criação e desenvolvimento de associações representativas;
c) pela presença do Estado no mercado de consumo;
d) pela garantia dos produtos e serviços com padrões adequados de qualidade, segurança, durabilidade e
desempenho.

III - harmonização dos interesses dos participantes das relações de consumo e compatibilização da
proteção do consumidor com a necessidade de desenvolvimento econômico e tecnológico, de modo a
viabilizar os princípios nos quais se funda a ordem econômica (art. 170, da Constituição Federal), sempre
com base na boa-fé e equilíbrio nas relações entre consumidores e fornecedores;

IV - educação e informação de fornecedores e consumidores, quanto aos seus direitos e deveres, com
vistas à melhoria do mercado de consumo;

V - incentivo à criação pelos fornecedores de meios eficientes de controle de qualidade e segurança de


produtos e serviços, assim como de mecanismos alternativos de solução de conflitos de consumo;

VI - coibição e repressão eficientes de todos os abusos praticados no mercado de consumo, inclusive a


concorrência desleal e utilização indevida de inventos e criações industriais das marcas e nomes
comerciais e signos distintivos, que possam causar prejuízos aos consumidores;

VII - racionalização e melhoria dos serviços públicos;

VIII - estudo constante das modificações do mercado de consumo.

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subespecialidade desta a vulnerabilidade informacional,


considerando o descompasso entre as informações explicitadas pelo
fornecedor e as necessárias à correta informações do consumidor. É
tutelada sobretudo no âmbito da saúde e segurança deste.

Explicitou-se, também, a chamada hipervulnerabilidade, que


consiste em uma vulnerabilidade agravada, como é o caso de idosos,
crianças e deficientes que não tenham consciência sobre os atos
jurídicos realizados.

 Inversão do ônus da prova

 Quanto ao ônus da prova, regula de modo geral o art. 373, caput do


CPC/15, que consagra, no processo civil relacionado as lides comuns, a
regra do ônus estático da prova:
Art. 373. O ônus da prova incumbe:

I - ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu direito;

II - ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou


extintivo do direito do autor.

 O CPC/15, nesse contexto, consagrou a possibilidade de distribuição


dinâmica do ônus da prova, no art. 373, §§1º e ss. Para tanto, exige-se
como requisitos formais a fundamentação da decisão judicial, a
garantia de possibilidade da parte contrária se desincumbir do ônus e a
ausência de criação para esta de uma prova diabólica, ao passo que os
materiais se relacionam à impossibilidade ou excessiva dificuldade para
cumprir o encargo, bem como a maior facilidade de obtenção da prova.
§ 1.º Nos casos previstos em lei ou diante de peculiaridades da causa
relacionadas à impossibilidade ou à excessiva dificuldade de cumprir o
encargo nos termos do caput ou à maior facilidade de obtenção da
prova do fato contrário, poderá o juiz atribuir o ônus da prova de
modo diverso, desde que o faça por decisão fundamentada, caso em
que deverá dar à parte a oportunidade de se desincumbir do ônus que
lhe foi atribuído.

§ 2.º A decisão prevista no § 1.º deste artigo não pode gerar situação
em que a desincumbência do encargo pela parte seja impossível ou
excessivamente difícil.

§ 3.º A distribuição diversa do ônus da prova também pode ocorrer por


convenção das partes, salvo quando:
I - recair sobre direito indisponível da parte;
II - tornar excessivamente difícil a uma parte o exercício do direito.

§ 4.º A convenção de que trata o § 3.º pode ser celebrada antes ou


durante o processo.

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 A inversão do ônus da prova não é regra de julgamento, devendo ser


feita no saneamento do processo (que não precisa ser feito em um
momento único), nos termos do art. 357, III, do CPC/154.

 Quanto às espécies de inversão do ônus na prova, no âmbito do


Direito do Consumidor, dispõe o art. art. 6º, VIII, do CDC, segundo
uma regra de distribuição dinâmica específica, que é direito diante da
presunção de vulnerabilidade do consumidor, sem excluir as regras gerais
do CPC/15, no que não for contrária (subsidiária):
Art. 6º São direitos básicos do consumidor:

VIII - a facilitação da defesa de seus direitos, inclusive com a inversão


do ônus da prova, a seu favor, no processo civil, quando, a critério do
juiz, for verossímil a alegação ou quando for ele hipossuficiente,
segundo as regras ordinárias de experiências;

Há, dessa forma, duas espécies de inversão do ônus da prova no


âmbito consumerista:

i) Ope judicis: É procedida por decisão judicial mediante o


cumprimento de requisitos judiciais alternativos, quais sejam,
hipossuficiência, segundo as regras de experiências do juiz
(visão processual)5, ou verossimilhança das alegações, por meio
de decisão judicial.

ii) Ope legis: É automática, na medida em que há a distribuição do


ônus da prova legal pelo fornecedor. Ocorre nos casos de:

 Acidente de consumo, no que tange ao defeito;

 Responsabilidade por fato do produto ou do serviço (arts.


12, §3º, e 14, §3º, do CDC)6;

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Art. 357. Não ocorrendo nenhuma das hipóteses deste Capítulo, deverá o juiz, em decisão de
saneamento e de organização do processo:
III - definir a distribuição do ônus da prova, observado o art. 373;

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Art. 375, CPC/15. O juiz aplicará as regras de experiência comum subministradas pela observação do
que ordinariamente acontece e, ainda, as regras de experiência técnica, ressalvado, quanto a estas, o
exame pericial.
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Art. 12. O fabricante, o produtor, o construtor, nacional ou estrangeiro, e o importador respondem,
independentemente da existência de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por
defeitos decorrentes de projeto, fabricação, construção, montagem, fórmulas, manipulação,
apresentação ou acondicionamento de seus produtos, bem como por informações insuficientes ou
inadequadas sobre sua utilização e riscos.
§ 1.º O produto é defeituoso quando não oferece a segurança que dele legitimamente se espera, levando-
se em consideração as circunstâncias relevantes, entre as quais:
I - sua apresentação;
II - o uso e os riscos que razoavelmente dele se esperam;
III - a época em que foi colocado em circulação.

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 Publicidade (art. 38 do CDC7).

 Ressalta-se que a inversão do ônus da prova não se confunde com a


inversão das despesas com a prova, segundo entendimento do STJ,
que permanece com o que possua condições em remunerar o seu
pagamento. No caso do consumidor, geralmente é invertido do ônus
probatório e financeiro, ao passo que em outros casos só há o inversão
do ônus da prova, por esta ser diabólica, por exemplo, enquanto o
financeiro permanece com a parte a quem deveria fazê-la.

 Em regra, o fornecedor alega a impossibilidade de produção de


determinada prova, constituindo prova negativa (diabólica). Esta,
contudo, pode ser afastada, no âmbito do direito do consumidor, por
meio de provas indiretas positivas, caso demonstrada toda a diligência
da empresa em outros aspectos, v.g., como as regras de higiene de
produção, da estrita observância dos aspectos técnicos e legais durante
esta, da culpa exclusiva da vítima, da força maior.

 Por fim, toda convenção do ônus da prova de forma contratual deve ser
feita em favor do consumidor, nos termos do art. 51, inciso VI, do
CDC.

Art. 51. São nulas de pleno direito, entre outras, as cláusulas


contratuais relativas ao fornecimento de produtos e serviços que:

VI - estabeleçam inversão do ônus da prova em prejuízo do


consumidor;

§ 2.º O produto não é considerado defeituoso pelo fato de outro de melhor qualidade ter sido colocado
no mercado.
§ 3.º O fabricante, o construtor, o produtor ou importador só não será responsabilizado quando provar:
I - que não colocou o produto no mercado;
II - que, embora haja colocado o produto no mercado, o defeito inexiste;
III - a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro.

Art. 14. O fornecedor de serviços responde, independentemente da existência de culpa, pela reparação
dos danos causados aos consumidores por defeitos relativos à prestação dos serviços, bem como por
informações insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição e riscos.
§ 1.º O serviço é defeituoso quando não fornece a segurança que o consumidor dele pode esperar,
levando-se em consideração as circunstâncias relevantes, entre as quais:
I - o modo de seu fornecimento;
II - o resultado e os riscos que razoavelmente dele se esperam;
III - a época em que foi fornecido.
§ 2.º O serviço não é considerado defeituoso pela adoção de novas técnicas.
§ 3.º O fornecedor de serviços só não será responsabilizado quando provar:
I - que, tendo prestado o serviço, o defeito inexiste;
II - a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro.
§ 4.º A responsabilidade pessoal dos profissionais liberais será apurada mediante a verificação de culpa.

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Art. 38. O ônus da prova da veracidade e correção da informação ou comunicação publicitária cabe a
quem as patrocina.

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b) Princípio da boa-fé objetiva

 É um princípio que se irradiou para o CC, sendo aplicado a qualquer


contrato, sendo definido pelo art. 4º, III, do CDC:
Art. 4º A Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo
o atendimento das necessidades dos consumidores, o respeito à sua
dignidade, saúde e segurança, a proteção de seus interesses
econômicos, a melhoria da sua qualidade de vida, bem como a
transparência e harmonia das relações de consumo, atendidos os
seguintes princípios:

III - harmonização dos interesses dos participantes das relações de


consumo e compatibilização da proteção do consumidor com a
necessidade de desenvolvimento econômico e tecnológico, de modo a
viabilizar os princípios nos quais se funda a ordem econômica (art.
170, da Constituição Federal), sempre com base na boa-fé e equilíbrio
nas relações entre consumidores e fornecedores;

Quanto ao seu conceito, remonta a deveres de conduta ética, leal,


proba, cooperativa, esclarecedora em relação ao consumidor, sem a
utilização de termos incompreensíveis para a outra parte contratual.

 No tocante à diferença com a boa-fé subjetiva, esta remonta a um


pensamento íntimo das partes, a um animus no momento da celebração
contratual. No âmbito consumerista, é indispensável a verificação da
boa-fé.

 Cumpre mencionar que a boa-fé objetiva deve ser respeitada durante


toda a vigência contratual.

 Quanto à sua operacionalidade, e considerando o diálogo das fontes,


são funções da boa-fé objetiva:

i) Interpretativa: Segundo o art. 1138 do CC, a boa-fé objetiva


possui função interpretativa.
ii) O controle dos atos abusivos de direito, segundo o norte do
art. 187 do CC9. Esse fator ocorre não no exercício de um
direito, que é legítimo, mas no seu abuso, que extrapola os
limites da lealdade e razoabilidade.

Nesse contexto, destaca-se como atos abusivos elencado na


doutrina a chamada vedação ao venire contra factum proprium,
baseada na teoria da confiança, que seria a impossibilidade de
adoção de condutas contrárias à reiteradas manifestações da

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Art. 113. Os negócios jurídicos devem ser interpretados conforme a boa-fé e os usos do lugar de sua
celebração.
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Art. 187. Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-lo, excede manifestamente os
limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons costumes.

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parte em determinado sentido. Explicitou-se também a


supressio e a surrectio.

Explicitou-se como abuso de direito a conduta vedada pela


Sumula 302 do STJ:

302. É abusiva a cláusula contratual de plano de saúde que


limita no tempo a internação hospitalar do segurado.

O adimplemento substancial do contrato é exemplo de conduta


que cria legítima expectativa de cumprimento contratual.

iii) Integradora: Prevista no art. 422 do CC10, gerando deveres


anexos laterais, de probidade e lealdade, antes (publicidade),
durante e depois (recall) da celebração contratual.

Do princípio da boa-fé e da função integradora são originados


deveres dos fornecedores e direitos dos consumidores,
anexos, como:

 direito à informação: inserido dentro do conceito de


vulnerabilidade fática, sendo um subespécie dela. Abrange
do direito à informação sobre como se usa determinado
produto ou serviço, sobre como funciona/composto, seu
valor e sobre advertências claras acerca de efeitos diversos,
conforme consignado no REsp 586 314 – MG;

 direito de proteção: de segurança (física e


patrimonial) e de saúde (física e psiquíca), visando
evitar acidentes de consumo, por exemplo;

 direito de lealdade e cooperação recíprocas. O


próprio credor pode, por exemplo, afetar o próprio
adimplemento da obrigação pelo devedor. A violação
positiva do contrato ou adimplemento ruim implicaria
no descumprimento de deveres anexos.

c) Princípio da solidariedade

 É consolidado no art. 7º, §único11, do CDC, que estabelece, em


cláusula geral, de maneira genérica, a solidariedade dos
fornecedores, aqui entendidos de maneira genérica e ampla,
incluindo simultaneamente comerciantes, fabricantes, distribuidores,

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Art. 422. Os contratantes são obrigados a guardar, assim na conclusão do contrato, como em sua
execução, os princípios de probidade e boa-fé.
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Parágrafo único. Tendo mais de um autor a ofensa, todos responderão solidariamente pela reparação
dos danos previstos nas normas de consumo.

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perante os consumidores. Em casos excepcionais, específicos, o


CDC estabelece responsabilização diferenciada, a cada um destes.

 Feito o ingresso de determinada ação, pelo consumidor, contra todos


os fornecedores, contra o responsável pelo dano é garantida a ação
de regresso, sem prejuízo da denunciação da lide, nos termos do art.
88 do CDC:

Art. 88. Na hipótese do art. 13, parágrafo único, deste Código, a


ação de regresso poderá ser ajuizada em processo autônomo,
facultada a possibilidade de prosseguir-se nos mesmos autos,
vedada a denunciação da lide.

d) Princípio da Transparência

 Amplamente relacionado ao direito à informação, é consagrado no


art. 4º, caput, do CDC, e do direito à informação, previsto no art. 6º,
III, do mesmo diploma.

Art. 6º São direitos básicos do consumidor:

(...)

III - a informação adequada e clara sobre os diferentes produtos e


serviços, com especificação correta de quantidade, características,
composição, qualidade, tributos incidentes e preço, bem como sobre
os riscos que apresentem;

e) Princípio do Reequilíbrio

 Previsto nos arts. 4º, III, e 6º, IV, do CDC:


Art. 4º A Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo o
atendimento das necessidades dos consumidores, o respeito à sua
dignidade, saúde e segurança, a proteção de seus interesses econômicos,
a melhoria da sua qualidade de vida, bem como a transparência e
harmonia das relações de consumo, atendidos os seguintes princípios:

(...)

III - harmonização dos interesses dos participantes das relações de


consumo e compatibilização da proteção do consumidor com a
necessidade de desenvolvimento econômico e tecnológico, de modo a
viabilizar os princípios nos quais se funda a ordem econômica (art. 170,
da Constituição Federal), sempre com base na boa-fé e equilíbrio nas
relações entre consumidores e fornecedores;

Art. 6º São direitos básicos do consumidor:

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(...)

IV - a proteção contra a publicidade enganosa e abusiva, métodos


comerciais coercitivos ou desleais, bem como contra práticas e cláusulas
abusivas ou impostas no fornecimento de produtos e serviços;

 Um dos exemplos do princípio do equilíbrio seria a busca pela


modificação das prestações desproporcionais, que só pode ser feita
pelo consumidor, consagrado no art. 6º, V, do CDC.

V - a modificação das cláusulas contratuais que estabeleçam


prestações desproporcionais ou sua revisão em razão de fatos
supervenientes que as tornem excessivamente onerosas;

Mostrada a desproporcionalidade de determinada cláusula contratual


(elemento objetivo), e bastando esta, há o direito há sua modificação. No
Código Civil, há a lesão, prevista no art. 157 do CC12, que pode gerar a
anulabilidade do negócio jurídico, além da desproporcionalidade, exige-
se a demonstração da premente necessidade ou inexperiência (elemento
subjetivo), o que já é presumido em âmbito consumerista em virtude do
art. 4º, inciso I, do CDC, relacionado à vulnerabilidade.

 Já a segunda parte do art. 6º, V, do CDC, remonta ao direito de revisão


de prestações transformadas excessivamente onerosas em virtude de
fatos supervenientes, sempre pautada na perspectiva de continuidade dos
contratos.

Segundo a professora, há divergência jurisprudencial, existindo posição


de que seria permitida a revisão caso reste demonstrada a excessiva
onerosidade, a qual seria adotada pelo STJ.

Outra parte defenderia a aplicação da teoria da previsão prevista no art.


47813, que exige a extraordinariedade do evento, a extrema vantagem
para a outra parte e onerosidade excessiva, sendo mais ampla14.

12 Art. 157. Ocorre a lesão quando uma pessoa, sob premente necessidade, ou por inexperiência, se
obriga a prestação manifestamente desproporcional ao valor da prestação oposta.
§ 1.º Aprecia-se a desproporção das prestações segundo os valores vigentes ao tempo em que foi
celebrado o negócio jurídico.
§ 2.º Não se decretará a anulação do negócio, se for oferecido suplemento suficiente, ou se a parte
favorecida concordar com a redução do proveito.

13
Art. 478. Nos contratos de execução continuada ou diferida, se a prestação de uma das partes se tornar
excessivamente onerosa, com extrema vantagem para a outra, em virtude de acontecimentos
extraordinários e imprevisíveis, poderá o devedor pedir a resolução do contrato. Os efeitos da sentença
que a decretar retroagirão à data da citação.
14
“A cláusula rebus sic stantibus (locução latina que pode ser traduzida como "estando assim as coisas")
especifica que as partes de um contrato, tratado internacional ou, de forma mais geral, acordo, pactuaram
levando em consideração a situação de fato existente no momento de sua celebração, podendo assim

13
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

1 ª Parte do Art. 6º, V, do CDC 2 ª Parte do Art. 6º, V, do CDC

Direito de modificação Direito de revisão – Teoria da


base objetiva do negócio
Prestações desproporcionais jurídico

Início da avença Prestações excessivamente


onerosas

Execução da avença

Art. 167 do CC Art. 478 do CC – Teoria da


Imprevisão
Lesão e inexperiência ou
necessidade das outras partes Extraordinariedade e
(elemento subjetivo) impossibilidade

Desproporcionalidade (elemento Onerosidade excessiva


objetivo)
Extrema vantagem para uma das
partes

f) Princípio da Coerção e Repressão de Abusos no Mercado

 É consagrado no art. 4º, VI, do CDC:


Art. 4º A Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo
o atendimento das necessidades dos consumidores, o respeito à sua
dignidade, saúde e segurança, a proteção de seus interesses
econômicos, a melhoria da sua qualidade de vida, bem como a
transparência e harmonia das relações de consumo, atendidos os
seguintes princípios:

invocá-la como forma de rompimento caso mudanças substanciais ocorram de forma extraordinária e
imprevisíveis, que modificam o equilíbrio do acordo trazendo desvantagem a uma das partes.

Rebus sic standibus é uma forma sintética da fórmula latina "Contractus qui habent tractum successivum
et dependentiam de futuro, rebus sic stantibus intelliguntur", traduzida na obra de Otavio Luis Rodrigues
Junior deste modo: "Os contratos que têm trato sucessivo ou a termo ficam subordinados, a todo tempo,
ao mesmo estado de subsistência das coisas" Sua origem remonta a fragmentos do Digesto, no entanto, a
maioria dos autores entende que sua formulação deveu-se ao contributo dos canonistas da Idade Média.

No Brasil, a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça firmou-se no sentido de que a alteração da


realidade econômica não é fato imprevisível”.

Segundo a professora, a cláusula se aplica em qualquer hipótese.

14
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

(...)

VI - coibição e repressão eficientes de todos os abusos praticados no


mercado de consumo, inclusive a concorrência desleal e utilização
indevida de inventos e criações industriais das marcas e nomes
comerciais e signos distintivos, que possam causar prejuízos aos
consumidores;

 Nesse contexto, há diplomas que buscam resguardar mediatamente o


consumidor, como a Lei 12.529/11 (de Defesa da Concorrência) e a Lei
9279/90 (de Propriedade Industrial).

Consoante o 88, §6º, da Lei de Defesa da Concorrência, com a


coibição das concentrações de mercado, em controle estrutural, busca-
se proteger a coletividade, que é, em última instância, o consumidor.
Cria-se, nessa senda, um sistema de autorização, norteado pela
eficiência, que busca a repartição da parte relevante, proporcionando
ganhos para o consumidor. Há, ainda, a existência de controle
comportamental dos agentes econômicos, como o verificado na
vedação ao preço predatório.

Por fim, ressalta-se o controle estabelecido pela Lei Propriedade


Industrial, é responsável por garantir a qualidade do produto ao tutelar
as marcas, por exemplo.

g) Princípio da Racionalização e Melhoria de Serviços Públicos

 Prescreve o CDC:

Art. 4º A Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo


o atendimento das necessidades dos consumidores, o respeito à sua
dignidade, saúde e segurança, a proteção de seus interesses
econômicos, a melhoria da sua qualidade de vida, bem como a
transparência e harmonia das relações de consumo, atendidos os
seguintes princípios:

(...)

VII - racionalização e melhoria dos serviços públicos;

Art. 6º São direitos básicos do consumidor:

(...)

X - a adequada e eficaz prestação dos serviços públicos em geral.

15
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

 No tocante aos fornecedores de serviços essenciais, de caráter


contínuo, mencionados ao final do art. 22 do CDC15, eles podem ser
qualquer pessoa jurídica de direito público ou privado que prestem
serviços públicos (mediante concessão ou delegação). O serviço
público entendido como essencial seria o prestado mediante
contraprestação remunerada por preço público (tarifas), conforme
definido em contrato.

Em regra, podem ser cortados esses serviços pelo inadimplemento,


pois a continuidade não se confunde com este. Destacou-se o art 6º,
§3º, da Lei 8987/95 que, nos casos de concessão ou permissão:

§ 3.º Não se caracteriza como descontinuidade do serviço a sua


interrupção em situação de emergência ou após prévio aviso, quando:

I - motivada por razões de ordem técnica ou de segurança das


instalações; e
II - por inadimplemento do usuário, considerado o interesse da
coletividade.

Destaca-se que a cobrança do inadimplemento não pode ser


configurada enquanto ameaça para a cobrança, isto é, o
inadimplemento deve ser atual.

No caso de corte de energia elétrica, a ANEEL estabelece que o corte


de energia deve ser atual, ocorrendo em até 90 dias após o
inadimplemento, mediante notificação prévia (15 dias de prévio aviso).

Nos casos de pessoas físicas em situação de miserabilidade, o STJ


não permite o corte de serviços públicos essenciais (água e luz).

Nos casos de conflitos envolvendo fraudes de medidores, não podem


ser cortados os serviços.

As unidades públicas provedoras de serviços essenciais previstas


nos arts. 10 e 11 da Lei 7783/89 (Lei de Greve)16 não podem ter os

15
Art. 22. Os órgãos públicos, por si ou suas empresas, concessionárias, permissionárias ou sob
qualquer outra forma de empreendimento, são obrigados a fornecer serviços adequados, eficientes,
seguros e, quanto aos essenciais, contínuos.

Parágrafo único. Nos casos de descumprimento, total ou parcial, das obrigações referidas neste artigo,
serão as pessoas jurídicas compelidas a cumpri-las e a reparar os danos causados, na forma prevista
neste Código.

16
Art. 10. São considerados serviços ou atividades essenciais:
I - tratamento e abastecimento de água; produção e distribuição de energia elétrica, gás e combustíveis;
II - assistência médica e hospitalar;
III - distribuição e comercialização de medicamentos e alimentos;
IV - funerários;
V - transporte coletivo;
VI - captação e tratamento de esgoto e lixo;

16
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

serviços públicos interrompidos. Para atividades educacionais, todavia,


em que pese não ser enquadrado nos mencionados dispositivos, elas
não podem ser cortadas (para pessoas jurídicas de direito público,
como creches, e inclusive de direito privado, segundo discutido em
aula).

Destacou-se a possibilidade/legalidade de cobrança de tarifa


mínima pelos serviços de telefonia fixa, nos termos da Súmula 356 do
STJ:

356. É legítima a cobrança da tarifa básica pelo uso dos serviços de


telefonia fixa.

A lei permite a cobrança progressiva de tarifas segundo o segmento


do usuário, o que é previsto pela Lei de Serviços Públicos, conforme
entendimento consubstanciado na Súmula 407 do STJ:

407. É legítima a cobrança da tarifa de água fixada de acordo com as


categorias de usuários e as faixas de consumo.

Em caso de repetição de indébito (água e esgoto, mas extensíveis aos


demais), o prazo prescricional é de 10 anos, que é o aplicado no
Código Civil.

412. A ação de repetição de indébito de tarifas de água e esgoto sujeita-


se ao prazo prescricional estabelecido no Código Civil.

h) Harmonização dos interesses do consumidor

 Explicitou-se que deve ocorrer a harmonização da defesa do


consumidor (Princípio Geral da Atividade Econômica estabelecido no
art. 170, V, do CDC) e do avanço tecnológico-econômico, conforme
delineado no art. 4º, III, do CDC:
Art. 4º A Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo
o atendimento das necessidades dos consumidores, o respeito à sua
dignidade, saúde e segurança, a proteção de seus interesses
econômicos, a melhoria da sua qualidade de vida, bem como a
transparência e harmonia das relações de consumo, atendidos os
seguintes princípios:

VII - telecomunicações;
VIII - guarda, uso e controle de substâncias radioativas, equipamentos e materiais nucleares;
IX - processamento de dados ligados a serviços essenciais;
X - controle de tráfego aéreo;
XI - compensação bancária.
Art. 11. Nos serviços ou atividades essenciais, os sindicatos, os empregadores e os trabalhadores ficam
obrigados, de comum acordo, a garantir, durante a greve, a prestação dos serviços indispensáveis ao
atendimento das necessidades inadiáveis da comunidade.
Parágrafo único. São necessidades inadiáveis da comunidade aquelas que, não atendidas, coloquem em
perigo iminente a sobrevivência, a saúde ou a segurança da população.

17
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

(...)

III - harmonização dos interesses dos participantes das relações de


consumo e compatibilização da proteção do consumidor com a
necessidade de desenvolvimento econômico e tecnológico, de modo a
viabilizar os princípios nos quais se funda a ordem econômica (art.
170, da Constituição Federal), sempre com base na boa-fé e equilíbrio
nas relações entre consumidores e fornecedores;

Isso é possibilitado, por exemplo, pelos Serviços de Atendimento ao


Consumidor
(SAC) e pelas Convenções Coletivas de Consumo (CCC – art. 107
CDC).

 Relação jurídica de consumo

 Baseada essencialmente no Princípio da Vulnerabilidade, há uma


relação desigual estabelecida entre o consumidor e o fornecedor, que
transacionam produtos ou serviços.

 Quanto ao conceito de consumidor, ressalta-se inicialmente o


conceito standard (padrão) ou strictu sensu, consumidor seria toda
pessoa física não profissional que usa ou adquire produto ou serviço
para uso pessoal ou familiar, inexistindo, nesse contexto, fim lucrativo.

Abarcaria a chamada teoria subjetiva, lidando somente com a pessoa


física, a qual não é adotada no pelo ordenamento brasileiro, que
também tutela a pessoa jurídica (elemento subjetivo), que adquire ou
utiliza produto ou serviço (elemento objetivo), com o fim de ser
destinatário final, nos termos do art. 2º, caput, do CDC17

Para a definição de destinatário final, surgiram inicialmente 2


correntes, sendo que uma delas se aprofundou.

Pela Teoria Finalista [Subjetiva ou Pura], majoritária em nosso


ordenamento jurídico, destinatário final é aquela pessoa que retira
determinado produto ou serviço do mercado (destinatário fático) para
uso pessoal e familiar (destinatário econômico). Não pode existir,
aqui, o fim lucrativo ou profissional, devendo inexistir a inserção em
qualquer linha de fornecimento.

Com base na verificação de outras formas de vulnerabilidade no caso


concreto de determinadas pessoas jurídicas, passou-se a diferenciar o
produto ou serviço diretamente ou indiretamente inserido na linha de
produção. Nesse caso, os produtos ou serviços não incluídos como

17
Art. 2.º Consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como
destinatário final.

18
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

atividade-fim das empresas, analisados, repita-se, no caso concreto,


pode gerar uma vulnerabilidade fática, jurídica, técnica ou
informacional.

Logo, seus elementos seriam:

i. Pessoa física ou jurídicas em situação de vulnerabilidade;

ii. Destinatárias fáticas (retiram do produto ou serviço ou


serviço do mercado);

iii. Destinatárias jurídicas, com uso pessoal ou familiar, não


profissional.
Por sua vez, a Teoria Maximalista apregoa que consumidor é toda
pessoa física ou jurídica que retira produto ou serviço da cadeia de
produção (destinatária fática), independentemente dos fins. Pouco
importa se utilizado o produto ou serviço adquirido é utilizado para uso
pessoal ou para a produção. É minoritária na doutrina e na
jurisprudência.
Já em interpretação teleológica do CDC, passou-se, com a Teoria
Finalista Aprofundada, de caráter excepcional, analisada in concreto,
a alcançar as pessoas físicas ou jurídicas que utilizam ou adquirem
produtos ou serviços também para fins profissionais, mas que estejam
em condição de provada vulnerabilidade, como pequenos profissionais
autônomos, pequenas empresas, entre outras.
Já o art. 2º, parágrafo único, do CDC18, traz o conceito de consumidor
equiparado, sendo a coletividade de pessoas que tenham intervindo,
atuado em determinada relação de consumo, tanto no tocante aos
direitos difusos quanto aos direitos coletivos strictu sensu19.

18
Parágrafo único. Equipara-se a consumidor a coletividade de pessoas, ainda que indetermináveis, que
haja intervindo nas relações de consumo.

19
Art. 81. A defesa dos interesses e direitos dos consumidores e das vítimas poderá ser exercida em juízo
individualmente, ou a título coletivo.
Parágrafo único. A defesa coletiva será exercida quando se tratar de:
I - interesses ou direitos difusos, assim entendidos, para efeitos deste Código, os transindividuais, de
natureza indivisível, de que sejam titulares pessoas indeterminadas e ligadas por circunstâncias de fato;
II - interesses ou direitos coletivos, assim entendidos, para efeitos deste Código, os transindividuais de
natureza indivisível de que seja titular grupo, categoria ou classe de pessoas ligadas entre si ou com a
parte contrária por uma relação jurídica base;
III - interesses ou direitos individuais homogêneos, assim entendidos os decorrentes de origem comum.

Para tanto, diferenciou-se o conceito de direitos da coletividade evidenciados pelo art.81 do CDC 19:
i. Direitos difusos: Remetem a pessoas indeterminadas, ligadas por uma circunstâncias de fato, de
natureza transindividual (ultrapassam os indivíduos, abarcando a coletividade assim
considerada) e indivisível (incapacidade de determinar individualmente os destinatários);
ii. Direitos coletivos: Há uma relação jurídica base, remontando a um grupo, categoria ou classe de
pessoas ligadas, também de caráter transindividual, indivisível e de titularidade indeterminada.

19
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

Nesse contexto, estão incluídos os previstos no art. 19 do CDC20, aqui


entendidos os que tenham sido meramente expostos a práticas
contratuais ou abusivas, como nos casos de publicidade enganosa ou
exposição de medicamento falso no mercado.
A legitimidade para defesa dessas pessoas, isto é, tanto na hipótese do
art. 2º, parágrafo único, e 29 do CDC, geralmente é efetivada pelo
Ministério Público, pela Defensoria Pública, pelo PROCON e por
associações constituídas a mais de 1 ano.
Por fim, há também o conceito de consumidor equiparados by
stander, prescrita no art. 17 do CDC21, sendo considerado também
consumidor um terceiro, pessoa física ou jurídica, que não tenha
qualquer relação jurídica com outra de consumo e sofre dano por
acidente de consumo. É o famoso “azarado”.

Ressalta-se que são excluídos de qualquer relação de consumo


aqueles abarcados por relação trabalhista, como trocadores de ônibus
em um acidente com o automóvel.

 Já fornecedores, em conceito previsto no art. 3º do CDC, são pessoas


físicas ou jurídicos, privadas ou públicas (desde que prestem serviços
públicos pagos mediante tarifa, nos termos do art. 22 do CDC 22),
nacional ou estrangeira, bem como ente personalizado, que fornecem
produtos ou serviços em caráter habitual, nos moldes consignados
no art. 966 do CC23.
Art. 3.º Fornecedor é toda pessoa física ou jurídica, pública ou
privada, nacional ou estrangeira, bem como os entes
despersonalizados, que desenvolvem atividades de produção,
montagem, criação, construção, transformação, importação,
exportação, distribuição ou comercialização de produtos ou prestação
de serviços.
§ 1.º Produto é qualquer bem, móvel ou imóvel, material ou imaterial.
§ 2.º Serviço é qualquer atividade fornecida no mercado de consumo,
mediante remuneração, inclusive as de natureza bancária, financeira,

20
Art. 29. Para os fins deste Capítulo e do seguinte, equiparam-se aos consumidores todas as pessoas
determináveis ou não, expostas às práticas nele previstas

21
Art. 17. Para os efeitos desta Seção, equiparam-se aos consumidores todas as vítimas do evento.
22
Art. 22. Os órgãos públicos, por si ou suas empresas, concessionárias, permissionárias ou sob qualquer
outra forma de empreendimento, são obrigados a fornecer serviços adequados, eficientes, seguros e,
quanto aos essenciais, contínuos.
Parágrafo único. Nos casos de descumprimento, total ou parcial, das obrigações referidas neste artigo,
serão as pessoas jurídicas compelidas a cumpri-las e a reparar os danos causados, na forma prevista
neste Código.

23
Art. 966. Considera-se empresário quem exerce profissionalmente atividade econômica organizada
para a produção ou a circulação de bens ou de serviços.

20
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

de crédito e securitária, salvo as decorrentes das relações de caráter


trabalhista.

Ressalta-se que o fornecedor é geralmente tratado no CDC como


gênero, ressalvando o legislador nos casos em que quiser distinguir as
suas espécies, como comerciante, produtos, entre outros.
Há, ainda, os fornecedores equiparados, que, embora não participem
diretamente de uma relação jurídica principal, podem ser equiparados à
pessoa que exerce as atividades de forma habitual. É o caso de um
arquivista que mantém dados digitais sobre determinada empresa.
Com o Marco Civil da Internet (Lei 12.965/14), o guardião da porta
também é equiparado ao fornecedor, como o E-bay, AliExpress ou
Estante Virtual. Envolve a chamada economia de compartilhamento,
prevista no art. 10 da Lei 12.965/14.

 Produtos e serviços

Ressalta-se que os produtos podem ser remunerados ou não (como


amostras grátis de determinado produto).

Lado outro, os serviços sempre são remunerados, de forma direta pelo


consumidor ou indireta (pagos pela coletividade, como no caso de um
estacionamento gratuito de determinada loja ou programas de
milhagem). Exemplificou-se o caso de furtos ou veículos, previstos na
Súmula 130 do STJ24.

Além de serem remunerados, no tocante à aplicabilidade do CDC,


ele é aplicável aos bancos, como determinado pelo STJ.

A jurisprudência do STJ refinou a aplicação do CDC em outras


situações específicas.

Evidenciou-se a Súmula 563 do STJ, na qual se consignou que


somente se aplica o CDC para a previdência complementar aberta
(disponível para qualquer um, ao contrário da fechada, vinculada a
uma categoria).

Aplica-se o CDC às cooperativas de crédito (instituição financeira),


assim como os planos de saúde. Do mesmo modo, é aplicável aos
Correios e aos serviços funerários.

Aplica-se também nos contratos de transporte nos casos de omissão


do Código Civil (lei especial), segundo parte da doutrina, quando for

24
130. A empresa responde, perante o cliente, pela reparação de dano ou furto de veículo ocorridos em
seu estacionamento.

21
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

mais benéfico para o consumidor.25 Outra parte postula que somente


seria aplicável o CC, pois é lei especial.

Entende-se que não é aplicável o CDC:

i. Para os condomínios;
ii. Para locação, segundo a Lei 8.245/91, salvo nos casos de
administradores;
iii. Relações advocatícias;
iv. Atividades notariais e registrais;
v. Execução Fiscal;
vi. Previdência Social;
vii. Previdência complementar fechada (fundos de pensão
específicos a uma categoria);
viii. SUS.

 Sintetizando o conteúdo, para a identificação da relação jurídica de


consumo, temos:

a) Consumidor

i. Padrão (standard): É o destinatário final.

Teoria Finalista: Pessoa física ou jurídica que


retira determinado produto ou serviço do
mercado para uso não profissional;

Teoria Maximalista: Pessoa física ou jurídica


que retira determinado produto ou serviço do
mercado para uso pessoal ou profissional;

Teoria finalista aprofundada: Pessoa física ou


jurídica que retira determinado produto ou
serviço do mercado para uso pessoal ou
profissional, desde que haja comprovada
vulnerabilidade;

ii. Equiparado à coletividade;

iii. By Stender;

b) Fornecedor

25
Art. 730. Pelo contrato de transporte alguém se obriga, mediante retribuição, a transportar, de um
lugar para outro, pessoas ou coisas.
Art. 359. Se o credor for evicto da coisa recebida em pagamento, restabelecer-se-á a obrigação
primitiva, ficando sem efeito a quitação dada, ressalvados os direitos de terceiros.

22
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

i. Aquele que atua no desenvolvimento da atividade,


especificamente;

ii. Gênero: Como regra, é estabelecida a solidariedade (art.


7º, parágrafo único).

c) Serviço: Deve haver a remuneração.

d) Produto: Cláusula aberta.

e) Princípios: Art.4º do CDC.

f) Direitos do consumidor: Direito Material, estabelecidos seu rol no


art. 6º do CDC.

 Direitos do consumidor

 O art. 6º do CDC26 funciona como verdadeiro índice do Direito


Material Consumerista, norteando a sua aplicação e a sua regulação
nos demais dispositivos.

26
Art. 6º São direitos básicos do consumidor:

I - a proteção da vida, saúde e segurança contra os riscos provocados por práticas no fornecimento de
produtos e serviços considerados perigosos ou nocivos;

II - a educação e divulgação sobre o consumo adequado dos produtos e serviços, asseguradas a liberdade
de escolha e a igualdade nas contratações;

III - a informação adequada e clara sobre os diferentes produtos e serviços, com especificação correta de
quantidade, características, composição, qualidade, tributos incidentes e preço, bem como sobre os riscos
que apresentem;

IV - a proteção contra a publicidade enganosa e abusiva, métodos comerciais coercitivos ou desleais, bem
como contra práticas e cláusulas abusivas ou impostas no fornecimento de produtos e serviços;

V - a modificação das cláusulas contratuais que estabeleçam prestações desproporcionais ou sua revisão
em razão de fatos supervenientes que as tornem excessivamente onerosas;

VI - a efetiva prevenção e reparação de danos patrimoniais e morais, individuais, coletivos e difusos;

VII - o acesso aos órgãos judiciários e administrativos com vistas à prevenção ou reparação de danos
patrimoniais e morais, individuais, coletivos ou difusos, assegurada a proteção Jurídica, administrativa e
técnica aos necessitados;

VIII - a facilitação da defesa de seus direitos, inclusive com a inversão do ônus da prova, a seu favor, no
processo civil, quando, a critério do juiz, for verossímil a alegação ou quando for ele hipossuficiente,
segundo as regras ordinárias de experiências;

IX - (Vetado);

23
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

 O direito à vida, saúde e segurança é previsto no art. 6º, inciso I,


ressaltando que o produto ou serviço deve estar dentro da
previsibilidade normal à incolumidade do consumidor, entendida aqui
como a coletividade, e corresponder às suas legítimas expectativas.

Existem três formas de perigo:

i. Periculosidade inerente: É inerente ao próprio produto, como


o corte de uma faca, o agrotóxico, o cigarro, entre outros. Não
possuem defeito, mas são essencialmente perigosos, devendo
existir uma informação ostensiva, sob pena de responsabilidade
civil (que é, portanto, exceção), nos termos do parágrafo único
do art. 8º do CDC27.

ii. Periculosidade adquirida: São os produtos originariamente


defeituosos, de concepção, fabricação ou comercialização.

iii. Periculosidade exagerada: É um defeito por ficção, que


abrange os produtos excessivamente perigosos, que devem
necessariamente retirados do mercado, como bonecas com
metais tóxicos.
Ressaltou-se que os produtos ou serviços colocados no mercado devem
ser seguros, sob pena de incorrer na periculosidade adquirida ou
exagerada, e, por via de conseqüência, no dever de reparação,
conforme consignado no art. 8º, caput, do CDC28. No final
Explicitou-se que o art. 10º do CDC29 consagra os Princípios da
Prevenção, que veda a colocação de mercado pelos fornecedores de
produtos ou serviços com alto grau de nocividade ou periculosidade
(há conhecimento do perigo), e da Precaução, no qual há uma

X - a adequada e eficaz prestação dos serviços públicos em geral.

Parágrafo único. A informação de que trata o inciso III do caput deste artigo deve ser acessível à pessoa
com deficiência, observado o disposto em regulamento.

27Parágrafo único. Em se tratando de produto industrial, ao fabricante cabe prestar as informações a que
se refere este artigo, através de impressos apropriados que devam acompanhar o produto.

Art. 9.º O fornecedor de produtos e serviços potencialmente nocivos ou perigosos à saúde ou segurança
deverá informar, de maneira ostensiva e adequada, a respeito da sua nocividade ou periculosidade, sem
prejuízo da adoção de outras medidas cabíveis em cada caso concreto.

28
Art. 8.º Os produtos e serviços colocados no mercado de consumo não acarretarão riscos à saúde ou
segurança dos consumidores, exceto os considerados normais e previsíveis em decorrência de sua
natureza e fruição, obrigando-se os fornecedores, em qualquer hipótese, a dar as informações
necessárias e adequadas a seu respeito.

29
Art. 10. O fornecedor não poderá colocar no mercado de consumo produto ou serviço que sabe ou
deveria saber apresentar alto grau de nocividade ou periculosidade à saúde ou segurança.

24
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
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possibilidade de que os legitimados para à propositura de ação podem


ajuizar ações coletivas, nos moldes do art. 102 do CDC, para a retirada
de determinados produtos do mercado (não há conhecimento suficiente
sobre os perigos de determinado produto).

Os §§1º e 2º do art. 10 do CDC30 consagra o chamado recall, que é um


dever do fornecedor a comunicação do fato às autoridades
competentes e aos consumidores, mediante anúncios publicitários
(veiculados na imprensa, rádio e televisão, de forma ostensiva, com a
despesa gasta pelo fornecedor), sob pena de responsabilização civil,
administrativa e penal dos responsáveis.

No tocante à responsabilidade civil do recall, a regra é a


responsabilidade pelos acidentes, independentemente se o consumidor
atender o chamado. O entendimento diverge no STJ, sendo que uma
turma entende neste sentido ao passo que outra entende que, realizado
o procedimento de comunicação de forma devida, poderia existir uma
culpa concorrente, abrandando a responsabilidade.

São tipos penais sobre o recall os previstos nos arts. 63 a 65 do


CDC31.

 Responsabilidade civil no CDC

30
§ 1.º O fornecedor de produtos e serviços que, posteriormente à sua introdução no mercado de
consumo, tiver conhecimento da periculosidade que apresentem, deverá comunicar o fato imediatamente
às autoridades competentes e aos consumidores, mediante anúncios publicitários.
§ 2.º Os anúncios publicitários a que se refere o parágrafo anterior serão veiculados na imprensa, rádio
e televisão, às expensas do fornecedor do produto ou serviço.
§ 3.º Sempre que tiverem conhecimento de periculosidade de produtos ou serviços à saúde ou segurança
dos consumidores, a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios deverão informá-los a
respeito.

31
Art. 63. Omitir dizeres ou sinais ostensivos sobre a nocividade ou periculosidade de produtos, nas
embalagens, nos invólucros, recipientes ou publicidade:
Pena - Detenção de seis meses a dois anos e multa.
§ 1.º Incorrerá nas mesmas penas quem deixar de alertar, mediante recomendações escritas ostensivas,
sobre a periculosidade do serviço a ser prestado.
§ 2.º Se o crime é culposo:
Pena - Detenção de um a seis meses ou multa.

Art. 64. Deixar de comunicar à autoridade competente e aos consumidores a nocividade ou


periculosidade de produtos cujo conhecimento seja posterior à sua colocação no mercado:
Pena - Detenção de seis meses a dois anos e multa.
Parágrafo único. Incorrerá nas mesmas penas quem deixar de retirar do mercado, imediatamente
quando determinado pela autoridade competente, os produtos nocivos ou perigosos, na forma deste
artigo.

Art. 65. Executar serviço de alto grau de periculosidade, contrariando determinação de autoridade
competente:
Pena - Detenção de seis meses a dois anos e multa.
Parágrafo único. As penas deste artigo são aplicáveis sem prejuízo das correspondentes à lesão
corporal e à morte.

25
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

 Começa a evoluir a concepção de responsabilidade civil no âmbito


consumerista passou a ser discutida a partir de um contexto de produção em
série no exercício da atividade econômica, com a criação de um mercado
para oferta de produtos ou serviços, os quais podem proporcionar,
invariavelmente, acidentes de consumo.

Norteada pela Teoria do Risco do Empreendimento, isto é, quem aufere


vantagens econômicas deve assumir os respectivos riscos, há a
Responsabilidade Objetiva do fornecedor (Teoria da Responsabilidade
Subjetiva -> Teoria da Culpa Presumida -> Teoria da Responsabilidade
Objetiva), isto é, independe da demonstração de culpa lato sensu (dolo ou
culpa strictu sensu) da conduta, devendo contar essencialmente com o nexo
de causalidade e o dano, ressalvadas as hipóteses de excludentes de
responsabilidade.

Tutela-se, dessa forma, a legítima confiança do consumidor. Como regra


geral, todos os fornecedores constantes na cadeia de produção respondem
solidariamente perante os consumidores (art. 7º, único, CDC).

 Topografia

Em regra, todos os agentes que atuem na cadeia de produção são


enquadrados como fornecedores, sendo dotados de responsabilidade
solidária.

São pressupostos da responsabilidade civil, de forma geral, o dano, a


conduta e o nexo de causalidade.

No Direito do Consumidor, a responsabilidade civil é em regra objetiva,


independendo da prova de elemento subjetivo, isto é, da culpa lato sensu
(dolo ou culpa strictu sensu).

O dano pode ser de duas espécies, quais sejam, vício ou defeito, sendo
ambos presumidos, como regra.

No nexo de causal (relação entre o produto lançado no mercado e o dano),


são levantadas, pelo fornecedor, as espécies de excludentes de
responsabilidade.

Nesse contexto, os arts. 12 a 17 do CDC estabelece a chamada


responsabilidade por fato do produto ou serviço, provocada por violação
ao direito de segurança (há impropriedade da qualidade por insegurança).
Relaciona-se geralmente ao acidente de consumo, com lesão à integridade
psíquico-física do consumidor. É o chamado defeito (como o fogão que
explode por impropriedade na fabricação e mata o consumidor), remontando
ao prejuízo extrínseco.

26
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

Ressalta-se que o art. 12 diz respeito à responsabilidade por fato do produto


(efeito consumado, não abarcando o comerciante), o art. 13 à
responsabilidade por fato do produto pelo comerciante e o art. 14 à
responsabilidade por fato do serviço.

Já os arts. 18 a 20 do CDC cuidam da responsabilidade por vício por


inadequação do produto ou serviço, com violação à integridade
econômico-patrimonial, de natureza intrínseca (e.g. fogão que não liga o
forno/aquecedor) ao próprio produto ou serviço prestado (fala-se, aqui, em
incapacidade ou qualidade por inadequação).

Destaca-se que o art. 18 remonta à responsabilidade por vício do produto de


qualidade do produto, o art. 19 à responsabilidade por vício do produto de
quantidade do produto e o art. 20 à responsabilidade por vício de qualidade
do serviço (não há previsão acerca do vício por quantidade do serviço, sendo
aplicável analogicamente o artigo anterior).

 Responsabilidade pelo fato do produto

Regulada essencialmente pelo art. 12 do CDC32, diferencia os fornecedores


segundo sua tipologia.
Há três espécies de fornecedor para fins de responsabilidade por fato do
produto, não estando incluído aqui o comerciante:

a) Fornecedor real: são o fabricante, produtor e o construtor;

b) Fornecedor presumido: é o caso do importador e do comerciante que


vende os produtos anônimos;

c) Fornecedor aparente: coloca a marca nos produtos produzidos por


outrem.

32
Art. 12. O fabricante, o produtor, o construtor, nacional ou estrangeiro, e o importador respondem,
independentemente da existência de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por
defeitos decorrentes de projeto, fabricação, construção, montagem, fórmulas, manipulação,
apresentação ou acondicionamento de seus produtos, bem como por informações insuficientes ou
inadequadas sobre sua utilização e riscos.
§ 1.º O produto é defeituoso quando não oferece a segurança que dele legitimamente se espera, levando-
se em consideração as circunstâncias relevantes, entre as quais:
I - sua apresentação;
II - o uso e os riscos que razoavelmente dele se esperam;
III - a época em que foi colocado em circulação.

§ 2.º O produto não é considerado defeituoso pelo fato de outro de melhor qualidade ter sido colocado
no mercado.

§ 3.º O fabricante, o construtor, o produtor ou importador só não será responsabilizado quando provar:
I - que não colocou o produto no mercado;
II - que, embora haja colocado o produto no mercado, o defeito inexiste;
III - a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro.

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Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

Quanto aos defeitos, tendo suas espécies delineadas no caput e §1º do art. 12
do CDC, eles podem ser de projeto (defeito por concepção), fabricação,
construção, montagem, fórmulas, manipulação (defeito por execução
durante a linha produtiva), apresentação ou acondicionamento de seus
produtos, bem como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua
utilização e riscos (defeito na manipulação).

Destaca-se que os §2º e 3º do dispositivo tratam da exclusão do conceito de


defeito. Nesse contexto, o produto não é considerado defeituoso se for
lançado outro de melhor qualidade no mercado (obsolescência), salvo se for
programada a renovação em periodicidade anual, por exemplo
(obsolescência programada), conforme jurisprudência do STJ.

São, ainda, excludentes de responsabilidade a serem provadas pelo


fornecedor:

a) Ausência de colocação do produto no mercado;

b) Inexistência de defeito do produto colocado no mercado;

c) Culpa exclusiva do consumidor ou terceiro (não deve participar da linha


de produção);

d) Caso fortuito externo ou força maior (previsto no CC)

O caso fortuito pode ser interno (relação, mesmo que esparsa, com a
atividade ou produto exercido, como um motorista de ônibus que passa
mal ou pneu que estoura, saidinha do banco iniciada dentro da agência,
entre outros) ou externo (não há relação com a atividade). Somente no
segundo caso é excluída a responsabilidade, já que na primeira há risco
do empreendimento. No caso de responsabilidade das instituições
financeiras, o próprio STJ possui entendimento consolidado na Súmula
47933.

Por meio do diálogo das fontes, seria atenuante de responsabilidade


objetiva a culpa concorrente (art. 945, CC34), tendo em vista a
desproporcionalidade entre o grau do dano e a culpa do agente.

Ressaltou-se, quanto ao risco do desenvolvimento do produto (criação e


colocação no mercado durante um determinado tempo, sendo que até o
momento não há prova de dano), que a doutrina majoritária propõe a
responsabilidade do fornecedor.

33
479. As instituições financeiras respondem objetivamente pelos danos gerados por fortuito interno
relativo a fraudes e delitos praticados por terceiros no âmbito de operações bancárias.

34
Art. 945. Se a vítima tiver concorrido culposamente para o evento danoso, a sua indenização será
fixada tendo-se em conta a gravidade de sua culpa em confronto com a do autor do dano.

28
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

Nesse caso, fala-se também da teoria do proveito (a empresa cria o produto


e obtém proveito por meio do lucro), que, juntamente com a anterior e com a
teoria do risco do empreendimento, está inserida no art. 931 do CC, é
defendida pela doutrina majoritária como também sendo causa de
responsabilidade do fornecedor.

Por fim, destacou-se a chamada Teoria da Perda de uma Chance. O termo


chance utilizado pelos franceses significa, em sentido jurídico, probabilidade
de obter lucro ou de evitar uma perda. No vernáculo, a melhor tradução para
o termo chance seria, em nosso sentir, oportunidade. Contudo, por estar
consagrada tanto na doutrina, como na jurisprudência, utilizaremos a
expressão perda de uma chance, não obstante entendemos mais técnico e
condizente com o nosso idioma a expressão perda de uma oportunidade.

Por aí se vê que, para a caracterização da responsabilidade civil pela perda de


uma chance, é necessário que essa chance, seja séria e real, e não uma mera
eventualidade, suposição ou desejo. Assim, a perda da chance deve ser vista
como a perda da possibilidade de se obter o resultado esperado ou de se
evitar um possível dano, valorizando as possibilidades que se tinha para
conseguir o resultado, para, aí sim, serem ou não relevantes para o direito35.
 Comerciante

O art. 13 do CDC36 é aplicável também à responsabilidade civil por fato do


produto, mas no tocante a um fornecedor específico, qual seja, o
comerciante. Nesse contexto, em caso de dano proporcionado por defeito, o
comerciante só responde nas seguintes hipóteses (espécies de
responsabilidade do comerciante):

i) o fabricante, construtor, produtor ou importador não puderem ser


identificados (anônimos);

35
Nesse viés, se faz necessário diferenciar os lucros cessantes da perda de uma chance, uma vez que
ambos se referem a algo que a vítima deixa de ganhar.

Assim, o lucro cessante é uma espécie de dano material, e surge quando alguém, em virtude de uma ação
ou omissão de outrem, deixa de auferir algum lucro ou vantagem, que futuramente estariam disponíveis à
vítima; é, realmente, a frustração da expectativa de lucro, é a perda de um ganho esperado.

Entretanto, diferentemente do lucro cessante, a perda de uma chance não precisa de uma prova concreta,
uma vez que, o lucro cessante incide sobre o que o indivíduo razoavelmente deixa de ganhar; assim,
necessita que haja uma comprovação e, que aponte quais seriam as perdas, a quantia perdida, de onde
seria proveniente, etc.

No caso da perda de uma chance, não existe a pretensão de indenizar a perda do resultado e sim da
oportunidade, não havendo a necessidade de provar se a vítima teria ou não, o resultado almejado.

36
Art. 13. O comerciante é igualmente responsável, nos termos do artigo anterior, quando:
I - o fabricante, o construtor, o produtor ou o importador não puderem ser identificados;
II - o produto for fornecido sem identificação clara do seu fabricante, produtor, construtor ou
importador;
III - não conservar adequadamente os produtos perecíveis.
Parágrafo único. Aquele que efetivar o pagamento ao prejudicado poderá exercer o direito de regresso
contra os demais responsáveis, segundo sua participação na causação do evento danoso

29
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

ii) o produto for fornecido sem identificação clara do fabricante, construtor,


produtor ou importador (mal identificados);

iii) quando não forem conservados adequadamente produtos perecíveis;

Quanto à natureza da responsabilidade civil do comerciante, muitos


autores apontam que a responsabilidade do comerciante seria subsidiária. A
professora não concorda com esse posicionamento, pois criaria uma
hierarquia indevida de fornecimento, principalmente na execução, que obsta
a satisfação do direito do consumidor. Além disso, como identificar outros
fornecedores além do comerciante se estes são anônimos ou mal
identificados?

Ressalta-se que o momento de identificação é na propositura da ação. A


professora defende que, nas primeiras duas hipóteses, é apontada como
responsabilidade direta e exclusiva do comerciante.

Já na terceira, colocar-se-ia no pólo passivo os dois, em responsabilidade


solidária e direta, cabendo ao eventualmente prejudicado o exercício do
direito de regresso contra o efetivo responsável, nos termos do parágrafo
único do art. 13 do CDC. Isto porque o caput utilizaria o termo “igualmente
responsável” (mais de um responderia), há o direito de regresso, além do
fato de o próprio fornecedor ter escolhido o comerciante.

 Responsabilidade pelo fato do serviço

É regulamentada pelo art. 14 do CDC37, que institui na modalidade objetiva


a responsabilidade do fornecedor por defeitos no serviço, bem como por
informações insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição e riscos, sem
distinção em relação ao comerciante.

O parágrafo primeiro é uma cláusula geral, que explicita as situações em que


o serviço é defeituoso, não sendo, igualmente como no produto, nos casos de
inovação tecnológica do produto.

37
.Art. 14. O fornecedor de serviços responde, independentemente da existência de culpa, pela
reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos relativos à prestação dos serviços, bem
como por informações insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição e riscos.
§ 1.º O serviço é defeituoso quando não fornece a segurança que o consumidor dele pode esperar,
levando-se em consideração as circunstâncias relevantes, entre as quais:
I - o modo de seu fornecimento;
II - o resultado e os riscos que razoavelmente dele se esperam;
III - a época em que foi fornecido.
§ 2.º O serviço não é considerado defeituoso pela adoção de novas técnicas.
§ 3.º O fornecedor de serviços só não será responsabilizado quando provar:
I - que, tendo prestado o serviço, o defeito inexiste;
II - a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro.
§ 4.º A responsabilidade pessoal dos profissionais liberais será apurada mediante a verificação de culpa.

30
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

Consistem em excludentes de responsabilidade por fato do serviço:

i) inexistência do defeito;

ii) a culpa foi exclusiva do consumidor ou de terceiro que não participa da


linha de produção.

Há uma exceção na qual há responsabilidade pessoal, que é do profissional


liberal pela prestação de serviços. Nesse caso, ela é subjetiva, devendo
ocorrer prova da culpa.

Não há mais a diferenciação, pelo STJ, da responsabilidade objetiva e


subjetiva pelas atividades-meio (advocacia, medicina e dentística não-
estética, entre outras) e das atividades-fim (medicina e dentística estética, por
exemplo). Em ambos os casos, há a responsabilidade subjetiva, mas nas
atividades-resultado a culpa é presumida, havendo a inversão do ônus da
prova do fornecedor em provar a realização do adequado procedimento.

No caso de erro médico, a responsabilidade do hospital (Informativo 365 do


STJ)38 é verificada nos casos em que há vínculo jurídico com o profissional
liberal. Em outras palavras, provando-se subjetivamente a culpa do médico,
por exemplo, o hospital responde solidariamente e objetivamente pelos
danos proporcionados aos consumidores.

 Responsabilidade por vício de qualidade do produto

38
RESPONSABILIDADE. CIRURGIA. Cuida-se de ação indenizatória ajuizada pela recorrida em
desfavor de hospital e de dois médicos, sob o argumento de que foi submetida à cirurgia de varizes
realizada pelos réus nas dependências do hospital, ante a negligência e imperícia do cirurgião. Foram
lesionados nervos de sua perna esquerda, de forma que perdeu definitivamente os movimentos tanto da
perna quanto do pé. A Min. Relatora não conheceu do recurso, considerando que o hospital não
demonstrou nenhuma circunstância excludente de responsabilidade e que o fato de ter admitido, em seu
estabelecimento, a atividade que se revelou lesiva é suficiente para demonstrar o liame com o hospital do
resultado danoso advindo da cirurgia. O Min. João Otávio de Noronha, divergindo do entendimento da
Relatora, entende não se poder dizer que o acórdão recorrido tenha ofendido as disposições do § 1º do art.
14 do CDC, porquanto é inequívoco que a seqüela da autora não decorreu de nenhum serviço de
atribuição da entidade hospitalar, razão pela qual não se lhe pode atribuir a condição de fornecedor a fim
de imputar-lhe a responsabilidade pelo dano. Aduz que, atualmente, tem-se remetido às disposições do §
1º do art. 14 do CDC, como sendo a norma sustentadora de tal responsabilidade. Também ocorre que, na
hipótese dos autos, não se está diante de falha de serviços de atribuição do hospital, tais como as
indicadas (instrumentação cirúrgica, higienização adequada, vigilância, ministração de remédios etc.),
mas diante de conseqüências atinentes a ato cirúrgico de responsabilidade exclusiva da área médica, de
profissional sem nenhum vínculo com o hospital recorrente. Assim, não há por que falar em prestação de
serviços defeituosos, a ensejar, por conseguinte, a reparação de danos pelo hospital. Quanto ao fato de
inexistir vínculo de emprego entre o cirurgião e o hospital, não resta dúvida, nos autos, de que o médico
cirurgião não tinha nenhum tipo de vínculo com o hospital, apenas se serviu de suas instalações para as
cirurgias. Diante disso, a Seção, ao prosseguir o julgamento, por maioria, conheceu do recurso do hospital
e deu-lhe provimento, a fim de julgar a ação improcedente quanto a ele. (REsp 908.359-SC, Rel.
originária Min. Nancy Andrighi, Rel. para acórdão Min. João Otávio de Noronha, julgado em 27/8/2008).

31
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

Relembrou-se que, no tocante à responsabilidade civil por vício, de forma


geral, que remonta à sua inadequação, seja no tocante à qualidade ou
quantidade. Seu prazo é decadencial.

Em regra, tem-se que a responsabilidade pelo vício é solidária, nos termos


do art. 25, §1º, do CDC39. Excepcionalmente, há a responsabilidade
exclusiva do fornecedor imediato nos casos de vício de medição,
remontando, portanto, aos casos de vício de quantidade, conforme
consignado no art. 19, §2º, do CDC40.

No que tange especificamente ao sistema de responsabilização por vícios de


qualidade do produto, tem-se que os fornecedores de produtos, duráveis ou
não, respondem solidariamente pelos vícios de qualidade (e não de
quantidade, como dispõe o caput do art. 18 do CDC41) que:
i. Os tornem impróprios ou inadequados do consumo;
ii. Os vícios que lhe reduzam o valor;
iii. Os vícios decorrentes da disparidade de informações.

39
§ 1.º Havendo mais de um responsável pela causação do dano, todos responderão solidariamente pela
reparação prevista nesta e nas Seções anteriores.

40
§ 2.º O fornecedor imediato será responsável quando fizer a pesagem ou a medição e o instrumento
utilizado não estiver aferido segundo os padrões oficiais.

41
Art. 18. Os fornecedores de produtos de consumo duráveis ou não duráveis respondem solidariamente
pelos vícios de qualidade ou quantidade que os tornem impróprios ou inadequados ao consumo a que se
destinam ou lhes diminuam o valor, assim como por aqueles decorrentes da disparidade, com as
indicações constantes do recipiente, da embalagem, rotulagem ou mensagem publicitária, respeitadas as
variações decorrentes de sua natureza, podendo o consumidor exigir a substituição das partes viciadas.
§ 1.º Não sendo o vício sanado no prazo máximo de trinta dias, pode o consumidor exigir,
alternativamente e à sua escolha:
I - a substituição do produto por outro da mesma espécie, em perfeitas condições de uso;
II - a restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada, sem prejuízo de eventuais perdas
e danos;
III - o abatimento proporcional do preço.
§ 2.º Poderão as partes convencionar a redução ou ampliação do prazo previsto no parágrafo anterior,
não podendo ser inferior a sete nem superior a cento e oitenta dias. Nos contratos de adesão, a cláusula
de prazo deverá ser convencionada em separado, por meio de manifestação expressa do consumidor.
§ 3.º O consumidor poderá fazer uso imediato das alternativas do § 1.º deste artigo, sempre que, em
razão da extensão do vício, a substituição das partes viciadas puder comprometer a qualidade ou
características do produto, diminuir-lhe o valor ou se tratar de produto essencial.
§ 4.º Tendo o consumidor optado pela alternativa do inciso I do § 1.º deste artigo, e não sendo possível a
substituição do bem, poderá haver substituição por outro de espécie, marca ou modelo diversos,
mediante complementação ou restituição de eventual diferença de preço, sem prejuízo do disposto nos
incisos II e III do § 1.º deste artigo.
§ 5.º No caso de fornecimento de produtos in natura, será responsável perante o consumidor o
fornecedor imediato, exceto quando identificado claramente seu produtor.
§ 6.º São impróprios ao uso e consumo:
I - os produtos cujos prazos de validade estejam vencidos;
II - os produtos deteriorados, alterados, adulterados, avariados, falsificados, corrompidos, fraudados,
nocivos à vida ou à saúde, perigosos ou, ainda, aqueles em desacordo com as normas regulamentares de
fabricação, distribuição ou apresentação;
III - os produtos que, por qualquer motivo, se revelem inadequados ao fim a que se destinam.

32
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

Não obstante, o §1º do art. 18 do CDC estatui que o fornecedor tem o


direito de sanar o vício do produto em 30 dias, contados da cientificação do
fornecedor pelo consumidor, sob pena de improcedência do pedido, salvo nos
casos em que a extensão do vício não justifique o prazo (televisão queimada,
por exemplo) ou nos casos de essencialidade do produto (aferido no caso
concreto, como taxista que utilize carro para trabalhar), consoante consignado
no §3º do mesmo dispositivo.

Quanto à apresentação dos produtos mais de uma vez para o mesmo


fornecedor para o saneamento de vícios, há 3 posições:

i) O prazo de 30 corridos dias é contado para todos os vícios, a partir da


primeira cientificação, independentemente da espécie de vício;

ii) O prazo é de 30 dias para cada cientificação (geraria, segundo a


professora, abusos), independentemente da espécie de vício;

iii) O prazo seria de 30 dias para cada espécie de vício.

Esse prazo de 30 dias pode ser reduzido (até 7 dias) e alargado (até 180
dias), por convenção das partes, devendo, nos contratos de adesão, constar
em instrumento separado.

Uma vez transcorrido esse prazo e não sanado esse vício, pode ocorrer,
cabendo reparação por perdas e danos em ambas as hipóteses:

i. A substituição do produto por outro, da mesma espécie, marca e


modelo, inclusive por outra, se o consumidor assim preferir;

ii. O abatimento proporcional do dano;

iii. A solicitação da restituição integral da quantia paga.

No que toca aos produtos in natura, também não é necessário esperar o prazo
de 30 dais (art. 18, §5º, CDC).

A privação do uso de produto não-essencial no transcurso do prazo para


saneamento do viso pode gerar o direito à indenização, salvo se, por exemplo,
o fornecedor oferecer produtos substitutos durante o interregno.

 Responsabilidade por vício de quantidade do produto

Tem-se que, nesses casos, o fornecedor é entendido aqui como gênero,


marcado pela responsabilidade solidária, salvo nos casos de fornecedor
imediato nos casos de vícios de medição.

O vício por quantidade do produto é previsto no art. 19 do CDC, sendo


hipóteses que, respeitadas as variações decorrentes de sua natureza, qualquer

33
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

medida quantitativa (não só o líquido), quando houver disparidade com as


indicações da oferta ou mensagem publicitária, podendo o consumidor
exigir, DE FORMA IMEDIATA (sem esperar os 30 dias)42, ressalvadas a
possibilidade de pedir perdas e danos:

i. Abatimento proporcional do preço;

ii. Complementação do peso ou medida;

iii. Substituição do produto por outro da mesma espécie, marca ou


modelo, sem os respectivos vícios;

iv. Restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada,


sem prejuízo de eventuais perdas e danos.

 Responsabilidade por vício de serviço por qualidade

É regulado pelo art. 20 do CDC43, sendo vícios de impropriedade, de


diminuição do valor e de disparidade de indicações de oferta ou de
publicidade. Não precisa o consumidor esperar nenhum prazo para adotar as
seguintes providências:

i. Reexecução dos serviços, sem custo adicional ao consumidor e


quando cabível. Pode ser utilizado inclusive terceiro, arcando o
fornecedor pelos custos adicionais.

42
Art. 19. Os fornecedores respondem solidariamente pelos vícios de quantidade do produto sempre que,
respeitadas as variações decorrentes de sua natureza, seu conteúdo líquido for inferior às indicações
constantes do recipiente, da embalagem, rotulagem ou de mensagem publicitária, podendo o consumidor
exigir, alternativamente e à sua escolha:
I - o abatimento proporcional do preço;
II - complementação do peso ou medida;
III - a substituição do produto por outro da mesma espécie, marca ou modelo, sem os aludidos vícios;
IV - a restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada, sem prejuízo de eventuais
perdas e danos.
§ 1.º Aplica-se a este artigo o disposto no § 4.º do artigo anterior.
§ 2.º O fornecedor imediato será responsável quando fizer a pesagem ou a medição e o instrumento
utilizado não estiver aferido segundo os padrões oficiais.

43
Art. 20. O fornecedor de serviços responde pelos vícios de qualidade que os tornem impróprios ao
consumo ou lhes diminuam o valor, assim como por aqueles decorrentes da disparidade com as
indicações constantes da oferta ou mensagem publicitária, podendo o consumidor exigir,
alternativamente e à sua escolha:
I - a reexecução dos serviços, sem custo adicional e quando cabível;
II - a restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada, sem prejuízo de eventuais perdas
e danos;
III - o abatimento proporcional do preço.
§ 1.º A reexecução dos serviços poderá ser confiada a terceiros devidamente capacitados, por conta e
risco do fornecedor.
§ 2.º São impróprios os serviços que se mostrem inadequados para os fins que razoavelmente deles se
esperam, bem como aqueles que não atendam as normas regulamentares de prestabilidade.

34
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

ii. Restituição imediata da quantia paga;

iii. Abatimento proporcional do preço.

 Responsabilidade por vício de serviço por quantidade

Para esse, utiliza-se de forma analógica as disposições legais do vício por


quantidade de produto (art. 19 do CDC), readaptadas ao serviço.

 Prazo para reclamação

Só é aplicável à responsabilidade por vício, tendo natureza decadencial. É


previsto no art. 26 do CDC44.

Para os produtos ou serviços duráveis, o prazo decadencial é de 90 dias, ao


passo que para os não duráveis ele é de 30 dias.

Esse prazo é contado, nos casos de vícios aparentes (de fácil constatação),
da entrega do produto ou término do serviço.

No tocante aos vícios ocultos, ele é contado considerando a vida útil do


produto ou serviço, a partir da cientificação do vício.

Respeitado o prazo para a reclamação, faz-se o raciocínio atinente à


responsabilidade por vício.

Ressaltou-se que o direito de reclamação é denominado popularmente como


garantia legal. Ele não se confunde com a chamada garantia contratual, que
cobre a manutenção de um veículo, por exemplo, mediante a revisão nas
concessionárias. Ambas as garantias são somadas, não correndo
concomitantemente.

A chamada garantia estendida não é uma garantia em si, mas uma espécie de
contrato de seguro.

44
Art. 26. O direito de reclamar pelos vícios aparentes ou de fácil constatação caduca em:
I - trinta dias, tratando-se de fornecimento de serviço e de produtos não duráveis;
II - noventa dias, tratando-se de fornecimento de serviço e de produtos duráveis.
§ 1° Inicia-se a contagem do prazo decadencial a partir da entrega efetiva do produto ou do término da
execução dos serviços.
§ 2° Obstam a decadência:
I - a reclamação comprovadamente formulada pelo consumidor perante o fornecedor de produtos e
serviços até a resposta negativa correspondente, que deve ser transmitida de forma inequívoca;
II - (Vetado).
III - a instauração de inquérito civil, até seu encerramento.
§ 3° Tratando-se de vício oculto, o prazo decadencial inicia-se no momento em que ficar evidenciado o
defeito.

35
Disciplina: Direito do Consumidor
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Ressalta-se que a obsta o prazo decadencial a reclamação comprovadamente


formulada pelo consumidor perante o fornecedor de produtos e serviços até a
resposta negativa correspondente, que deve ser transmitida de forma
inequívoca, contada da notificação, bem como a instauração de inquérito
civil.

Há discussão se há, nesses casos, suspensão ou interrupção do prazo


decadencial, devendo ser defendida casuisticamente pelas partes (para o
fornecedor, defende-se a suspensão, e, para o consumidor, a interrupção).

 Prazo prescricional45

O prazo prescricional é de 5 anos para a reparação civil nos casos de danos


causados por fato do produto ou serviço com acidente do consumo,
iniciando a partir do conhecimento do dano e sua autoria.

Quanto aos demais casos, não previstos no art. 27 do CDC, há dois


posicionamentos. Um entende ser aplicável este prazo de 5 anos para
qualquer incidente envolvendo relação de consumo, ao passo que outro,
majoritário no âmbito do STJ, remonta à aplicação subsidiária do Código
Civil.

Nesse caso, haveria a responsabilidade extracontratual, com prazo


prescricional de 3 anos (art. 206, inciso V, CC), e a responsabilidade
contratual. Aqui, haveria enorme discussão. Não havendo previsão em lei
específica, o prazo prescricional para a responsabilidade contratual seria de
10 anos, conforme prazo geral (art. 205 do CC).

O STJ vem mitigando essa questão, prevendo, como casos de


enriquecimento ilícito, em concepção muito ampla, cujo prazo é de 3 anos
(art. 206, IV, CC).

 Desconsideração da personalidade jurídica

 É prevista, atualmente, no âmbito do CDC, do CC, do CPC/15 e na


legislação ambiental (Lei 9605/96). Ressalta-se, nesse contexto, duas
hipóteses:

a) Teoria Maior: Remonta a duas possibilidades. Adotada pelo CC (art. 5046) e


pela Lei de Defesa da Concorrência, ocorreria em 2 hipóteses:

45
Art. 27. Prescreve em cinco anos a pretensão à reparação pelos danos causados por fato do produto
ou do serviço prevista na Seção II deste Capítulo, iniciando-se a contagem do prazo a partir do
conhecimento do dano e de sua autoria.
Parágrafo único. (Vetado.)
46
Art. 50. Em caso de abuso da personalidade jurídica, caracterizado pelo desvio de finalidade, ou pela
confusão patrimonial, pode o juiz decidir, a requerimento da parte, ou do Ministério Público quando lhe
couber intervir no processo, que os efeitos de certas e determinadas relações de obrigações sejam
estendidos aos bens particulares dos administradores ou sócios da pessoa jurídica.

36
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

i. Desvio de finalidade: Vontade direcionada à fraudar terceiros


(Teoria Maior Subjetiva);

ii. Confusão patrimonial: É a Teoria Maior Objetiva, sendo de


difícil delineação o patrimônio dos sócios e da sociedade.

b) Teoria Menor: Possui natureza objetiva, bastando a insolvência da sociedade


para caracterização da desconsideração da personalidade jurídica. É prevista
no CDC, na legislação ambiental (Lei 9605/96) e na CLT.

No caso consumerista, é prevista pelo art. 28 do CDC47.

 Processualmente, ela é prevista nos arts. 133 a 137 do CPC/1548,


dependendo a sua realização segundo os pressupostos da lei material
Ressalta-se que a desconsideração da personalidade jurídica, pela sistemática

47
Art. 28. O juiz poderá desconsiderar a personalidade jurídica da sociedade quando, em detrimento do
consumidor, houver abuso de direito, excesso de poder, infração da lei, fato ou ato ilícito ou violação dos
estatutos ou contrato social. A desconsideração também será efetivada quando houver falência, estado
de insolvência, encerramento ou inatividade da pessoa jurídica provocados por má administração.
§ 1.º (Vetado.)
§ 2.º As sociedades integrantes dos grupos societários e as sociedades controladas são subsidiariamente
responsáveis pelas obrigações decorrentes deste Código.
§ 3.º As sociedades consorciadas são solidariamente responsáveis pelas obrigações decorrentes deste
Código.
§ 4.º As sociedades coligadas só responderão por culpa.
§ 5.º Também poderá ser desconsiderada a pessoa jurídica sempre que sua personalidade for, de alguma
forma, obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados aos consumidores.

48
Art. 133. O incidente de desconsideração da personalidade jurídica será instaurado a pedido da parte
ou do Ministério Público, quando lhe couber intervir no processo.
§ 1o O pedido de desconsideração da personalidade jurídica observará os pressupostos previstos em lei.
§ 2o Aplica-se o disposto neste Capítulo à hipótese de desconsideração inversa da personalidade
jurídica.

Art. 134. O incidente de desconsideração é cabível em todas as fases do processo de conhecimento, no


cumprimento de sentença e na execução fundada em título executivo extrajudicial.
§ 1o A instauração do incidente será imediatamente comunicada ao distribuidor para as anotações
devidas.
§ 2o Dispensa-se a instauração do incidente se a desconsideração da personalidade jurídica for
requerida na petição inicial, hipótese em que será citado o sócio ou a pessoa jurídica.
§ 3o A instauração do incidente suspenderá o processo, salvo na hipótese do § 2 o.
§ 4o O requerimento deve demonstrar o preenchimento dos pressupostos legais específicos para
desconsideração da personalidade jurídica.

Art. 135. Instaurado o incidente, o sócio ou a pessoa jurídica será citado para manifestar-se e requerer
as provas cabíveis no prazo de 15 (quinze) dias.

Art. 136. Concluída a instrução, se necessária, o incidente será resolvido por decisão interlocutória.
Parágrafo único. Se a decisão for proferida pelo relator, cabe agravo interno.

Art. 137. Acolhido o pedido de desconsideração, a alienação ou a oneração de bens, havida em fraude
de execução, será ineficaz em relação ao requerente.

37
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

do CPC/15, não pode ser realizada de ofício pelo juiz, sob pena de ser lesado
o contraditório. Ele é cabível em qualquer momento processual, desde que
assegurado o contraditório.

Segundo a professora, poderia ser defendida a possibilidade no âmbito


consumerista (assim como no Direito do Trabalho), pela vulnerabilidade do
consumidor e pelo art. 1º do CDC.

Há divergência sobre a adoção, pelo CPC/15, da Teoria Maior ou de ambas.


Para parte da doutrina e jurisprudência, o diploma adotou ambas, ao passo
que outras defendem só a adoção da Teoria Maior, dispensando a Menor o
incidente, até mesmo pelos motivos delineados no parágrafo anterior.

Seria, segundo a professora, espécie de intervenção de terceiros a


desconsideração da personalidade jurídica. Em que pese não caber
intervenção de terceiros nos juizados especiais, há previsão legal expressa
que autoriza a desconsideração da personalidade jurídica nesses casos.

É permitida, inclusive, a desconsideração inversa da personalidade jurídica,


com a responsabilidade da sociedade no tocante às dívidas ou aos atos
praticados pelos sócios.

 Outras disposições relativas à responsabilidade civil

 Destacou-se, ainda, outras questões envolvendo a responsabilidade civil 49.

 O art. 23 do CDC, ao contrário dos vícios redibitórios, previsto no CC,


define que nos vícios consumeristas a ignorância do fornecedor sobre os
vícios de qualidade por inadequação dos produtos e serviço não os exime da
responsabilidade.

 Ressalta-se que a garantia legal de adequação do produto ou serviço


independe de termo expresso, sendo proibida a exoneração ou o seu
condicionamento contratual do fornecedor, com base no Princípio da
Confiança.
Não se confunde a garantia legal, que não é nada mais nada menos que as
próprias hipóteses de responsabilidade por fato ou vício do produto ou
serviço, com o prazo para reclamação de 30 ou 90 dias.

 Já as garantias contratuais são previstas expressamente em contrato.

 Das práticas comerciais

49
Art. 23. A ignorância do fornecedor sobre os vícios de qualidade por inadequação dos produtos e
serviços não o exime de responsabilidade.
Art. 24. A garantia legal de adequação do produto ou serviço independe de termo expresso, vedada a
exoneração contratual do fornecedor.

38
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

 Inicialmente, cumpre mencionar o art. 29 do CDC50, que trata dos


consumidores equiparados à coletividade. Abarca-se, no tocante às práticas
comerciais, a coletividade, isto é, os direitos coletivos strictu sensu e difusos,
conforme já foi estudado anteriormente51. Para tanto, há a tutela coletiva
pelo Ministério Público.

 Oferta

O conceito de oferta, pelo CDC, é gênero, sendo qualquer manifestação de


vontade que busque atrair o consumidor a celebrar uma prática/um contrato
comercial.

Abarca duas espécies, quais sejam, a informação (evidenciação de


condições prévias para a realização de uma prática comercial) e a
publicidade (veiculação de mensagens comerciais veiculando produto e
serviço).

Destaca-se que a informação nem sempre vem acompanhada da publicidade,


ao passo que esta sempre é acompanhada da informação. Ambas são
obrigações pré-contratuais.

Segundo o STJ, não há diferença entre publicidade e propaganda. Lado


outro, o Conselho Nacional de autoregulamentação da publicidade –
CONAR, de natureza privada, realiza uma diferenciação entre os termos, que
seria, a grosso modo, um código de ética da publicidade. Segundo este, a
propaganda veicula uma mensagem para fins não-comerciais, ao passo que a
publicidade é aplicável às práticas comerciais.

Destaca-se que o conceito de oferta consumerista é significativamente


distinto do previsto no Código Civil, mais especificamente os arts. 427 e

50
Art. 29. Para os fins deste Capítulo e do seguinte, equiparam-se aos consumidores todas as pessoas
determináveis ou não, expostas às práticas nele previstas.
51
Art. 81. A defesa dos interesses e direitos dos consumidores e das vítimas poderá ser exercida em juízo
individualmente, ou a título coletivo.
Parágrafo único. A defesa coletiva será exercida quando se tratar de:
I - interesses ou direitos difusos, assim entendidos, para efeitos deste Código, os transindividuais, de
natureza indivisível, de que sejam titulares pessoas indeterminadas e ligadas por circunstâncias de fato;
II - interesses ou direitos coletivos, assim entendidos, para efeitos deste Código, os transindividuais de
natureza indivisível de que seja titular grupo, categoria ou classe de pessoas ligadas entre si ou com a
parte contrária por uma relação jurídica base;
III - interesses ou direitos individuais homogêneos, assim entendidos os decorrentes de origem comum.

39
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

42952. Isto porque é aplicável o Princípio da Vinculação da


Publicidade/Oferta, previsto no art. 30 do CDC 53.

Segundo o dispositivo, toda informação ou publicidade, suficientemente


precisa, veiculada por qualquer forma ou meio de comunicação com relação
a produtos e serviços oferecidos ou apresentados, obriga o fornecedor que a
fizer veicular ou dela se utilizar e integra o contrato que vier a ser celebrado.

Destacou-se os chamados puffings, que são as publicidades exageradas,


feitas em superlativo para chamar a atenção, sem a vinculação a um dado
objetivo. Se houver a ligação com um dado objetivo (como o preço), há a
vinculação do fornecedor.

Quanto ao erro na oferta, verificáveis nos encartes, por exemplo, como


faltar um 0 na divulgação do produto ou serviço, não há vinculação quando
ele for patente, compreensível à primeira vista pelo consumidor, o que é
sustentado pelo Princípio da Boa-Fé objetiva, com base no art. 4º, inciso III,
do CDC54.

São dados mínimos da oferta, relacionados ao seu conteúdo objetivo,


aqueles que afetem diretamente a sua utilização, como o preço (devidamente
visível), a forma de pagamento (à vista, parcelado, entre outro), o prazo de
validade, a composição do produto, origem, qualidade, quantidade, entre
outros, conforme delineado no art. 31 do CDC (em rol exemplificativo)55.
No caso de produtos refrigerados, os dados mínimos devem ser gravados
de forma indelével (duradoura, perene, inextinguível).

52
Art. 427. A proposta de contrato obriga o proponente, se o contrário não resultar dos termos dela, da
natureza do negócio, ou das circunstâncias do caso.
Art. 429. A oferta ao público equivale a proposta quando encerra os requisitos essenciais ao contrato,
salvo se o contrário resultar das circunstâncias ou dos usos.
Parágrafo único. Pode revogar-se a oferta pela mesma via de sua divulgação, desde que ressalvada esta
faculdade na oferta realizada.

53
Art. 30. Toda informação ou publicidade, suficientemente precisa, veiculada por qualquer forma ou
meio de comunicação com relação a produtos e serviços oferecidos ou apresentados, obriga o
fornecedor que a fizer veicular ou dela se utilizar e integra o contrato que vier a ser celebrado.

54
Art. 4.º A Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo o atendimento das necessidades
dos consumidores, o respeito à sua dignidade, saúde e segurança, a proteção de seus interesses
econômicos, a melhoria da sua qualidade de vida, bem como a transparência e harmonia das relações de
consumo, atendidos os seguintes princípios:
III - harmonização dos interesses dos participantes das relações de consumo e compatibilização da
proteção do consumidor com a necessidade de desenvolvimento econômico e tecnológico, de modo a
viabilizar os princípios nos quais se funda a ordem econômica (art. 170, da Constituição Federal),
sempre com base na boa-fé e equilíbrio nas relações entre consumidores e fornecedores;

55
Art. 31. A oferta e apresentação de produtos ou serviços devem assegurar informações corretas, claras,
precisas, ostensivas e em língua portuguesa sobre suas características, qualidades, quantidade,
composição, preço, garantia, prazos de validade e origem, entre outros dados, bem como sobre os riscos
que apresentam à saúde e segurança dos consumidores.
Parágrafo único. As informações de que trata este artigo, nos produtos refrigerados oferecidos ao
consumidor, serão gravadas de forma indelével.

40
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

Devem conter, ainda, as seguintes qualificações (subjetivas, adjetivas):

i. Claras;
ii. Corretas;
iii. Precisas;
iv. Ostensividade;
v. Língua portuguesa.

Citou-se o RESp 58631-MG, que trata do conteúdo de uma informação da


oferta56.

56
DIREITO DO CONSUMIDOR. ADMINISTRATIVO. NORMAS DE PROTEÇÃO E DEFESA DO
CONSUMIDOR. ORDEM PÚBLICA E INTERESSE SOCIAL. PRINCÍPIO DA VULNERABILIDADE
DO CONSUMIDOR. PRINCÍPIO DA TRANSPARÊNCIA. PRINCÍPIO DA BOA-FÉ OBJETIVA.
PRINCÍPIO DA CONFIANÇA. OBRIGAÇÃO DE SEGURANÇA. DIREITO À INFORMAÇÃO.
DEVER POSITIVO DO FORNECEDOR DE INFORMAR, ADEQUADA E CLARAMENTE, SOBRE
RISCOS DE PRODUTOS E SERVIÇOS. DISTINÇÃO ENTRE INFORMAÇÃO-CONTEÚDO E
INFORMAÇÃO-ADVERTÊNCIA. ROTULAGEM. PROTEÇÃO DE CONSUMIDORES
HIPERVULNERÁVEIS. CAMPO DE APLICAÇÃO DA LEI DO GLÚTEN (LEI 8.543/92 AB-
ROGADA PELA LEI 10.674/2003) E EVENTUAL ANTINOMIA COM O ART. 31 DO CÓDIGO DE
DEFESA DO CONSUMIDOR. MANDADO DE SEGURANÇA PREVENTIVO. JUSTO RECEIO DA
IMPETRANTE DE OFENSA À SUA LIVRE INICIATIVA E À COMERCIALIZAÇÃO DE SEUS
PRODUTOS. SANÇÕES ADMINISTRATIVAS POR DEIXAR DE ADVERTIR SOBRE OS RISCOS
DO GLÚTEN AOS DOENTES CELÍACOS. INEXISTÊNCIA DE DIREITO LÍQUIDO E CERTO.
DENEGAÇÃO DA SEGURANÇA.
1. Mandado de Segurança Preventivo fundado em justo receio de sofrer ameaça na comercialização de
produtos alimentícios fabricados por empresas que integram a Associação Brasileira das Indústrias da
Alimentação – ABIA, ora impetrante, e ajuizado em face da instauração de procedimentos
administrativos pelo PROCON-MG, em resposta ao descumprimento do dever de advertir sobre os riscos
que o glúten, presente na composição de certos alimentos industrializados, apresenta à saúde e à
segurança de uma categoria de consumidores – os portadores de doença celíaca.
2. A superveniência da Lei 10.674/2003, que ab-rogou a Lei 8.543/92, não esvazia o objeto do
mandamus, pois, a despeito de disciplinar a matéria em maior amplitude, não invalida a
necessidade de, por força do art. 31 do Código de Defesa do Consumidor – CDC, complementar a
expressão “contém glúten” com a advertência dos riscos que causa à saúde e segurança dos
portadores da doença celíaca. É concreto o justo receio das empresas de alimentos em sofrer efetiva
lesão no seu alegado direito líquido e certo de livremente exercer suas atividades e comercializar os
produtos que fabricam.
3. As normas de proteção e defesa do consumidor têm índole de “ordem pública e interesse social”. São,
portanto, indisponíveis e inafastáveis, pois resguardam valores básicos e fundamentais da ordem jurídica
do Estado Social, daí a impossibilidade de o consumidor delas abrir mão ex ante e no atacado.
4. O ponto de partida do CDC é a afirmação do Princípio da Vulnerabilidade do Consumidor, mecanismo
que visa a garantir igualdade formal-material aos sujeitos da relação jurídica de consumo, o que não quer
dizer compactuar com exageros que, sem utilidade real, obstem o progresso tecnológico, a circulação dos
bens de consumo e a própria lucratividade dos negócios.
5. O direito à informação, abrigado expressamente pelo art. 5º, XIV, da Constituição Federal, é uma das
formas de expressão concreta do Princípio da Transparência, sendo também corolário do Princípio da
Boa-fé Objetiva e do Princípio da Confiança, todos abraçados pelo CDC.
6. No âmbito da proteção à vida e saúde do consumidor, o direito à informação é manifestação autônoma
da obrigação de segurança.
7. Entre os direitos básicos do consumidor, previstos no CDC, inclui-se exatamente a “informação
adequada e clara sobre os diferentes produtos e serviços, com especificação correta de quantidade,
características, composição, qualidade e preço, bem como sobre os riscos que apresentem” (art. 6º, III).
8. Informação adequada, nos termos do art. 6º, III, do CDC, é aquela que se apresenta simultaneamente
completa, gratuita e útil, vedada, neste último caso, a diluição da comunicação efetivamente relevante
pelo uso de informações soltas, redundantes ou destituídas de qualquer serventia para o consumidor.

41
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

São fundamentos principiológicos da oferta os Princípios da Informação,


da Transparência e da Boa-fé Objetiva.

 Responsabilidade pós-contratual

9. Nas práticas comerciais, instrumento que por excelência viabiliza a circulação de bens de consumo, “a
oferta e apresentação de produtos ou serviços devem assegurar informações corretas, claras, precisas,
ostensivas e em língua portuguesa sobre suas características, qualidades, quantidade, composição, preço,
garantia, prazos de validade e origem, entre outros dados, bem como sobre os riscos que apresentam à
saúde e segurança dos consumidores” (art. 31 do CDC).
10. A informação deve ser correta (= verdadeira), clara (= de fácil entendimento), precisa (= não prolixa
ou escassa), ostensiva (= de fácil constatação ou percepção) e, por óbvio, em língua portuguesa.
11. A obrigação de informação é desdobrada pelo art. 31 do CDC, em quatro categorias principais,
imbricadas entre si: a) informação-conteúdo (= características intrínsecas do produto e serviço), b)
informação-utilização (= como se usa o produto ou serviço), c) informação-preço (= custo, formas e
condições de pagamento), e d) informação-advertência (= riscos do produto ou serviço).
12. A obrigação de informação exige comportamento positivo, pois o CDC rejeita tanto a regra do caveat
emptor como a subinformação, o que transmuda o silêncio total ou parcial do fornecedor em patologia
repreensível, relevante apenas em desfavor do profissional, inclusive como oferta e publicidade enganosa
por omissão.
13. Inexistência de antinomia entre a Lei 10.674/2003, que surgiu para proteger a saúde (imediatamente)
e a vida (mediatamente) dos portadores da doença celíaca, e o art. 31 do CDC, que prevê sejam os
consumidores informados sobre o "conteúdo" e alertados sobre os "riscos" dos produtos ou serviços à
saúde e à segurança.
14. Complementaridade entre os dois textos legais. Distinção, na análise das duas leis, que se deve fazer
entre obrigação geral de informação e obrigação especial de informação, bem como entre informação-
conteúdo e informação-advertência.
15. O CDC estatui uma obrigação geral de informação (= comum, ordinária ou primária), enquanto outras
leis, específicas para certos setores (como a Lei 10.674/03), dispõem sobre obrigação especial de
informação (= secundária, derivada ou tópica). Esta, por ter um caráter mínimo, não isenta os
profissionais de cumprirem aquela.
16. Embora toda advertência seja informação, nem toda informação é advertência. Quem informa nem
sempre adverte.
17. No campo da saúde e da segurança do consumidor (e com maior razão quanto a alimentos e
medicamentos), em que as normas de proteção devem ser interpretadas com maior rigor, por conta dos
bens jurídicos em questão, seria um despropósito falar em dever de informar baseado no homo medius ou
na generalidade dos consumidores, o que levaria a informação a não atingir quem mais dela precisa, pois
os que padecem de enfermidades ou de necessidades especiais são freqüentemente a minoria no amplo
universo dos consumidores.
18. Ao Estado Social importam não apenas os vulneráveis, mas sobretudo os hipervulneráveis, pois são
esses que, exatamente por serem minoritários e amiúde discriminados ou ignorados, mais sofrem com a
massificação do consumo e a "pasteurização" das diferenças que caracterizam e enriquecem a sociedade
moderna.
19. Ser diferente ou minoria, por doença ou qualquer outra razão, não é ser menos consumidor, nem
menos cidadão, tampouco merecer direitos de segunda classe ou proteção apenas retórica do legislador.
20. O fornecedor tem o dever de informar que o produto ou serviço pode causar malefícios a um grupo de
pessoas, embora não seja prejudicial à generalidade da população, pois o que o ordenamento pretende
resguardar não é somente a vida de muitos, mas também a vida de poucos.
21. Existência de lacuna na Lei 10.674/2003, que tratou apenas da informação-conteúdo, o que leva à
aplicação do art. 31 do CDC, em processo de integração jurídica, de forma a obrigar o fornecedor a
estabelecer e divulgar, clara e inequivocamente, a conexão entre a presença de glúten e os doentes
celíacos.
22. Recurso Especial parcialmente conhecido e, nessa parte, provido (STJ - REsp: 586316 MG
2003/0161208-5, Relator: Ministro HERMAN BENJAMIN, Data de Julgamento: 17/04/2007, T2 -
SEGUNDA TURMA, Data de Publicação: <!-- DTPB: <span class=highlightBrs>20090319</span></br>
--> DJe <span class=highlightBrs>19/03/2009</span>)

42
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

Destacou-se que o art. 32 do CDC só impõe a duas espécies de


fornecedores a responsabilidade pela oferta de reposição de peças,
quais sejam, os fabricantes e importadores57, enquanto não cessar a
fabricação ou a importação.

Quanto cessar a importação ou produção, a responsabilidade pela oferta


de peças será mantida, considerando o tempo razoável, entendido pela
doutrina e jurisprudência majoritárias como até a vida útil do produto ou
serviço.

 Venda por telefone ou reembolso postal

É regulamentada pelo art. 33 do CDC a venda por telefone ou reembolso


postal (pagamento somente quando receber o produto pelos Correios).
Nesse contexto, deve constar o nome do fabricante e endereço na
embalagem, publicidade e em todos os impressos utilizados na transação
comercial, isto é, deve ocorrer a identificação do fornecedor 58. Isso
permite uma via de acesso direto do consumidor com o fornecedor.

Não obstante, é proibida a publicidade de bens e serviços por telefone,


quando a chamada for onerosa ao consumidor que a origina, inclusive
durante a espera.

Ela é regulamentada pela Lei 11800/08 e Decreto 6523/08.

 Responsabilidade solidária

Prescreve o art. 34 a responsabilidade solidária do fornecedor do produto


ou serviço em relação a atos de seus prepostos ou representantes
autônomos, sendo excluídos os veículos de comunicação e às agências de
publicidade, eis que não seriam prepostos (ressalvada a responsabilidade
subjetiva destas nos casos de culpa).

Quanto à responsabilidade da celebridade que divulga determinado


produto ou serviço, utilizando sua imagem, há discussão jurisprudencial
e doutrinária acerca desta, isto é, se possível ou não considerá-los como
pressupsotos.

57
Art. 32. Os fabricantes e importadores deverão assegurar a oferta de componentes e peças de
reposição enquanto não cessar a fabricação ou importação do produto.
Parágrafo único. Cessadas a produção ou importação, a oferta deverá ser mantida por período razoável
de tempo, na forma da lei.

58
Art. 33. Em caso de oferta ou venda por telefone ou reembolso postal, deve constar o nome do
fabricante e endereço na embalagem, publicidade e em todos os impressos utilizados na transação
comercial.
Parágrafo único. É proibida a publicidade de bens e serviços por telefone, quando a chamada for
onerosa ao consumidor que a origina.

43
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

Determina a Súmula 221 do STJ que aqueles que elaboram determinado


texto veiculado na imprensa são responsáveis solidariamente em relação
aos veículos de comunicação59.

 Direitos do consumidor

Caso o fornecedor de produtos ou serviços que recusar cumprir a oferta,


apresentação ou publicidade, o consumidor poderá, nos termos do art. 35
do CDC60:

i. Exigir o cumprimento forçado da obrigação;


ii. Aceitar outro produto ou prestação de serviço equivalente;
iii. Rescindir o contrato, com direito à restituição da quantia e às
perdas e danos.

Referido prazo é prescricional, de 10 anos (prazo geral) ou de 3 anos


(por vedação ao enriquecimento ilícito), o qual infelizmente vem sendo
utilizado com freqüência pelos tribunais.

 Publicidade

Regulamentada pelos arts. 36 a 37 do CDC, ela deve respeitar todos os


princípios elencados nesses dispositivos, além de outros estabelecidos
pelo CONAR 61:

a) Princípio da Identificação da Mensagem Publicitária (art. 36,


caput): Deve ser veiculada a mensagem publicitária de forma que o
consumidor perceba esta característica.

Evidenciou-se, assim, a chamada publicidade clandestina ou


subliminar, que não pode ser percebida conscientemente pelo
consumidor (geralmente em virtude de sua rapidez) e é ilegal.

59
221. São civilmente responsáveis pelo ressarcimento de dano, decorrente de publicação pela imprensa,
tanto o autor do escrito quanto o proprietário do veículo de divulgação.
60
Art. 35. Se o fornecedor de produtos ou serviços recusar cumprimento à oferta, apresentação ou
publicidade, o consumidor poderá, alternativamente e à sua livre escolha:
I - exigir o cumprimento forçado da obrigação, nos termos da oferta, apresentação ou publicidade;
II - aceitar outro produto ou prestação de serviço equivalente;
III - rescindir o contrato, com direito à restituição de quantia eventualmente antecipada,
monetariamente atualizada, e a perdas e danos.

61
Art. 36. A publicidade deve ser veiculada de tal forma que o consumidor, fácil e imediatamente, a
identifique como tal.
Parágrafo único. O fornecedor, na publicidade de seus produtos ou serviços, manterá, em seu poder,
para informação dos legítimos interessados, os dados fáticos, técnicos e científicos que dão sustentação à
mensagem.

44
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

Já o merchandising, que é a inserção da publicidade do produto


durante a exibição de determinada atração, programas e filmes, ela é
permitido caso seja facilmente entendida pelo consumidor como tal.

Os teasers são autorizados e têm a função de ser a “publicidade da


publicidade” de determinado produto.

São sanções dessas práticas, que devem ser cumpridas, sob pena de
aplicação de multa (astreinte):

i. A suspensão do anúncio (natureza administrativa); e/ou


ii. O dever de realização de uma contra-publicidade (natureza
administrativa);
iii. Infrações penais (arts. 66 a 68 CP62).

b) Princípio da Transparência da Fundamentação da Publicidade:


Previsto no art. 36, § único, do CDC, devem ser comprovados, pelo
fornecedor, em verdadeira inversão ope legis, os aspectos
(informações técnicas e científicas) evidenciados na publicidade, sob
pena de responsabilidade penal, nos termos do art. 69 do CDC63.
Relembrou-se, por exemplo, os puffings, que vinculam o fornecedor
no caso de possibilidade de aferição objetiva.

c) Princípio da Veracidade da Publicidade: A tutela da veracidade da


publicidade passa-se pela proteção contra a publicidade enganosa e a
abusiva.

A primeira, prevista no art. 37, §1º, do CDC64, induzem o


consumidor a erro (engano), mediante publicidade total ou

62
Art. 67. Fazer ou promover publicidade que sabe ou deveria saber ser enganosa ou abusiva:
Pena - Detenção de três meses a um ano e multa.
Parágrafo único. (Vetado.)

Art. 68. Fazer ou promover publicidade que sabe ou deveria saber ser capaz de induzir o consumidor a
se comportar de forma prejudicial ou perigosa a sua saúde ou segurança:
Pena - Detenção de seis meses a dois anos e multa.
Parágrafo único. (Vetado.)

Art. 69. Deixar de organizar dados fáticos, técnicos e científicos que dão base à publicidade:
Pena - Detenção de um a seis meses ou multa.

63
Art. 69. Deixar de organizar dados fáticos, técnicos e científicos que dão base à publicidade:
Pena - Detenção de um a seis meses ou multa.

64
Art. 37. É proibida toda publicidade enganosa ou abusiva.
§ 1.º É enganosa qualquer modalidade de informação ou comunicação de caráter publicitário, inteira ou
parcialmente falsa, ou, por qualquer outro modo, mesmo por omissão, capaz de induzir em erro o
consumidor a respeito da natureza, características, qualidade, quantidade, propriedades, origem, preço
e quaisquer outros dados sobre produtos e serviços.
§ 2.º É abusiva, dentre outras, a publicidade discriminatória de qualquer natureza, a que incite à
violência, explore o medo ou a superstição, se aproveite da deficiência de julgamento e experiência da
criança, desrespeita valores ambientais, ou que seja capaz de induzir o consumidor a se comportar de

45
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

parcialmente falsa (como 1 só item divulgada erroneamente) ou até


mesmo verdadeira. Pode ser também enganosa as publicidades que
deixam de informar dado ou aspecto essencial (omissivas) ou
comissivas.

Outra publicidade enganosa é a chamada publicidade chamariz,


que busca chamar o consumidor a adentrar, por exemplo, no
estabelecimento do fornecedor, geralmente de forma falsa, para
induzi-lo a comprar outro produto.

Já a publicidade abusiva é prevista no art. 37, §2º, do CDC,


verificável nos casos de exploração da vulnerabilidade do
consumidor (notadamente os hipervulneráveis, como crianças e
idosos) e de valores sociais (inexperiências, preconceito, idade e
perigosas). Há, nesse contexto, o Princípio da Não Abusividade da
publicidade.

d) Princípio da Correção do Desvio Publicitário: Como regra, o


beneficiário da publicidade responde objetivamente. Para os
publicitários e divulgadores, eles não respondem, como regra, salvo
comprovação de culpa, quando há subsidiariedade. Quanto às
celebridades que divulgam determinado produto, há discussão se eles
respondem objetivamente, subjetivamente (como as agências de
publicidade) ou não respondem.

Nesse caso, como já mencionado, são verificadas sanções no âmbito


penal (art. 67 do CDC65), administrativas (art. 56, XII, do CDC),
geralmente contrapropagandas.

e) Princípio da Lealdade da Publicidade: Prevista no art. 4º, inciso


VI, do CDC66, e é geralmente vinculada à publicidade comparativa,

forma prejudicial ou perigosa à sua saúde ou segurança.


§ 3.º Para os efeitos deste Código, a publicidade é enganosa por omissão quando deixar de informar
sobre dado essencial do produto ou serviço.
§ 4.º (Vetado.)

65
Art. 67. Fazer ou promover publicidade que sabe ou deveria saber ser enganosa ou abusiva:
Pena - Detenção de três meses a um ano e multa.
Parágrafo único. (Vetado.)

Art. 68. Fazer ou promover publicidade que sabe ou deveria saber ser capaz de induzir o consumidor a
se comportar de forma prejudicial ou perigosa a sua saúde ou segurança:
Pena - Detenção de seis meses a dois anos e multa.
Parágrafo único. (Vetado.)

Art. 69. Deixar de organizar dados fáticos, técnicos e científicos que dão base à publicidade:
Pena - Detenção de um a seis meses ou multa.

66
Art. 4º A Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo o atendimento das
necessidades dos consumidores, o respeito à sua dignidade, saúde e segurança, a proteção de seus
interesses econômicos, a melhoria da sua qualidade de vida, bem como a transparência e harmonia das
relações de consumo, atendidos os seguintes princípios:

46
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Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

o que é vedado pelo Código de Ética do CONAR (art. 32-A, do


CDC). São requisitos da publicidade comparativa:

i. Objetividade (traz maior esclarecimento em relação ao


produto concorrente, passível de comprovação entre os
produtos concorrentes, por dados objetivos);

ii. Ausência de confusão entre o produto e a marca;

iii. Não se pode denegrir a imagem do terceiro (sob pena de


abusividade);

iv. Destaca-se preço e qualidade, se diferentes.

f) Princípio da Inversão do ônus da prova: O art. 38 do CDC consiste


em modalidade de inversão do ônus da prova ope legis, nos casos de
publicidade abusiva67.

 Cobranças de dívidas

O CDC estabelece disposições sobre as cobranças de dívidas perante o


consumidor sem que haja abusos, nos termos do art. 42 do CDC68.
Dentre os requisitos, não deve ocorrer:

i. Contrangimento;
ii. Ameaça;
iii. Exposição a ridículo.

Desrespeitados esses preceitos, há ilícito penal, previsto no art. 71 do


CDC69.

VI - coibição e repressão eficientes de todos os abusos praticados no mercado de consumo, inclusive a


concorrência desleal e utilização indevida de inventos e criações industriais das marcas e nomes
comerciais e signos distintivos, que possam causar prejuízos aos consumidores;

67
Art. 38. O ônus da prova da veracidade e correção da informação ou comunicação publicitária cabe a
quem as patrocina.

68
Art. 42. Na cobrança de débitos, o consumidor inadimplente não será exposto a ridículo, nem será
submetido a qualquer tipo de constrangimento ou ameaça.
Parágrafo único. O consumidor cobrado em quantia indevida tem direito à repetição do indébito, por
valor igual ao dobro do que pagou em excesso, acrescido de correção monetária e juros legais, salvo
hipótese de engano justificável.

Art. 42-A. Em todos os documentos de cobrança de débitos apresentados ao consumidor, deverão


constar o nome, o endereço e o número de inscrição no Cadastro de Pessoas Físicas - CPF ou no
Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica - CNPJ do fornecedor do produto ou serviço correspondente.

47
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

Explicitou-se a chamada repetição do indébito, regulada pelo § único do


mesmo dispositivo, que possui como pressupostos:

a) cobrança indevida;

b) pagamento em excesso (indevido);

c) inexistência de engano justificável. Segundo a professora, a


jurisprudência do STJ das 3ª e 4ª turmas, que julgam a maioria das
causas consumeristas, exige a comprovação de má-fé. Já as outras turmas
que julgam lides envolvendo concessionárias e permissionárias a
dispensam, exigindo apenas a culpa.

A repetição do indébito enseja ao pagamento em dobro do que foi pago


em excesso, além das perdas e danos.

Não cabe a repetição de indébito, consubstanciada em cobrança em


dobro do excesso, baseada em cláusula posteriormente declarada
abusiva, em má-interpretação de lei ou tema controvertido nos tribunais.

Ressalta-se que os meios de cobrança podem ser judiciais ou


extrajudiciais.

 Bancos de dados e cadastros dos consumidores70

Destaca-se que os bancos de dados e cadastros de consumidores, que são


métodos para obtenção de informações acerca dos que receberão os
créditos, são constitucionais e legítimos, conforme declarado na ADI
1790-5. Eles podem ser privados ou públicos.

Nessa senda, bancos de dados coletam informações de forma aleatória,


ocorrendo distinção entre o arquivista e o fornecedor. Referidos dados
são transmissíveis a terceiros, sendo que o banco/registro de dados é um
fim em si mesmo. Há, também, um caráter de permanência. Independem
do consentimento do consumidor.

Lado outro, os cadastros de consumidores são vinculados a um negócio


jurídico específico a ser realizado, sendo idênticos os arquivistas e os
fornecedores. As informações, nesses cadastros, são restritos a um
âmbito interno, sendo instrumento para a concretização ao negócio

69
Art. 71. Utilizar, na cobrança de dívidas, de ameaça, coação, constrangimento físico ou moral,
afirmações falsas, incorretas ou enganosas ou de qualquer outro procedimento que exponha o
consumidor, injustificadamente, a ridículo ou interfira com seu trabalho, descanso ou lazer:
Pena - Detenção de três meses a um ano e multa.

70
Lei 12.414/2011 (Bancos de Dados) e Lei 9.502/1997.

48
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

jurídico. Não tem caráter de permanência, sendo mantidos também por


consentimento dos consumidores.

Quanto à natureza jurídica, o consumidor terá direito de acesso às


informações existentes em cadastros, fichas, registros e dados pessoais e
de consumo arquivados sobre ele, bem como sobre as suas respectivas
fontes. Seu fundamento principiológico é o da Boa-Fé objetiva, calcada
em sua função integrativa, relacionada aos deveres laterais, anexos do
negócio jurídico, com a cooperação entre as partes.

Há, nessa senda, o direito de acesso essencialmente aos bancos de dados,


a ser concedido logo após o requerimento. A denegação ao seu acesso
pode ser combatido mediante Habeas Data71, além de ensejar à
imposição de sanção penal.

Há, também, o direito à informação do consumidor, previsto no §2º do


art. 43 do CDC72, que impõe a obrigatoriedade de notificação prévia, por
escrito, ao consumidor-devedor, a ser efetivada pelo órgão arquivista,
conforme estipulado na Súmula 359 do STJ73.

71
Art. 43. O consumidor, sem prejuízo do disposto no art. 86, terá acesso às informações existentes em
cadastros, fichas, registros e dados pessoais e de consumo arquivados sobre ele, bem como sobre as suas
respectivas fontes.
§ 1.º Os cadastros e dados de consumidores devem ser objetivos, claros, verdadeiros e em linguagem de
fácil compreensão, não podendo conter informações negativas referentes a período superior a cinco
anos.
§ 2.º A abertura de cadastro, ficha, registro e dados pessoais e de consumo deverá ser comunicada por
escrito ao consumidor, quando não solicitada por ele.
§ 3.º O consumidor, sempre que encontrar inexatidão nos seus dados e cadastros, poderá exigir sua
imediata correção, devendo o arquivista, no prazo de cinco dias úteis, comunicar a alteração aos
eventuais destinatários das informações incorretas.
§ 4.º Os bancos de dados e cadastros relativos a consumidores, os serviços de proteção ao crédito e
congêneres são considerados entidades de caráter público.
§ 5.º Consumada a prescrição relativa à cobrança de débitos do consumidor, não serão fornecidas, pelos
respectivos Sistemas de Proteção ao Crédito, quaisquer informações que possam impedir ou dificultar
novo acesso ao crédito junto aos fornecedores.

O ART. 86 DO CDC FOI VETADO, O QUE NÃO EXCLUI O CARÁTER PÚBLICO DO BANCO.

72
Art. 44. Os órgãos públicos de defesa do consumidor manterão cadastros atualizados de reclamações
fundamentadas contra fornecedores de produtos e serviços, devendo divulgá-los pública e anualmente. A
divulgação indicará se a reclamação foi atendida ou não pelo fornecedor.
§ 1.º É facultado o acesso às informações lá constantes para orientação e consulta por qualquer
interessado.
§ 2.º Aplicam-se a este artigo, no que couber, as mesmas regras enunciadas no artigo anterior e as do
parágrafo único do art. 22 deste Código.

73
359. Cabe ao órgão mantenedor do Cadastro de Proteção ao Crédito a notificação do devedor antes
de proceder à inscrição.

49
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

O prazo para a notificação, nos termos do art. 43, §3º, do CDC, é de 5


dias úteis anteriores da negativação, o qual serve para que seja evitada
uma negativação indevida.

Quanto à forma de notificação, ela é feita em carta simples (não necessita


de aviso de recebimento), sendo a prova para a sua realização feita pelo
fornecedor, segundo uma lista constante nos cadastros dos Correios,
extraída até mesmo pela internet, consoante aduz a Súmula 404 do STJ74.

Ressalta-se que o prazo pode transcorrer integralmente ou ser a


negativação indevida.

Cabe fornecedor, no prazo de 5 dias, consoante consta no art. 43, § 3º, do


CDC, retirar o nome do consumidor dos cadastros no prazo de 5 dias
úteis, a contar do primeiro dia após o eventual pagamento.

Quanto à jurisprudência do STJ, existe a incidência de dever de


reparação por dano moral provocado à personalidade no caso de
negativação indevida. Uma vez propiciada a sua incidência, que no caso
da negativação indevida é presumida, pela violação do direito à
personalidade, não há a necessidade prova do prejuízo. Eventuais danos
materiais, que também ensejam a reparações patrimoniais, podem a vir
ser utilizados como parâmetro para a sua quantificação.

Excepcionalmente, quando há anotação irregular, mas não há


negativação propriamente dita, pois o cadastro de determinada pessoa
física ou jurídica já estava negativado de forma legítima, a jurisprudência
do STJ, consubstanciada na Súmula 385 do STJ, vai no sentido de que
não cabe a reparação por danos morais75.

Não há necessidade de notificação nos casos de informações acessíveis


ao público, como o protesto de títulos executivos ou de sentença, razão
pela qual sua ausência não gera direito à indenização por danos morais.
Nesses casos, excepcionalmente cabe ao consumidor comparecer, por
exemplo, em cartório e comprovar o pagamento do débito.

Ainda na inserção do nome, se houver erro na negativação, quando


existir, por exemplo, erro, mas há inadimplência, isso também não gera o
dano moral, pois o que interessa, segundo o STJ, não é o erro na
cobrança, mas a própria inadimplência.

Quando há conta conjunta, só há negativação de quem emitiu


determinado cheque, também.

74
404. É dispensável o aviso de recebimento (AR) na carta de comunicação ao consumidor sobre a
negativação de seu nome em bancos de dados e cadastros.

75
385. Da anotação irregular em cadastro de proteção ao crédito, não cabe indenização por dano
moral, quando preexistente legítima inscrição, ressalvado o direito ao cancelamento.

50
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Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

São requisitos para que seja pedida liminarmente a suspensão da


negativação:

i. O objeto tem que ser correspondente ao valor da dívida, total ou


parcial;
ii. A contestação do débito deve ser assentada em jurisprudência
consolidada no âmbito do STJ ou do STJ;
iii. Quando dizer respeito os encargos remuneratórios (dívida
principal), e não moratórios;
iv. Deve haver caução idônea ou depósito do valor incontroverso;

No que diz respeito à demanda, a simples propositura da ação revisional


não inibe a caracterização da mora do autor, nos termos da Súmula 380
do STJ76, razão pela qual não se cabe a indenização por danos morais.
Especificamente no que tange aos contratos bancários, não há presunção
de abusividade inclusive quando os juros são superiores a 12% ao ano77.

Por fim, há o direito de retificação do consumidor sobre informações


incorretas constantes nos cadastros do consumidor, o que pode ser
garantido também via Habeas Data. Referido prazo seria de 5 dias.
Como a Lei do Habeas Data prevê o prazo de 10 dias, como medida de
cautela deve ser esperado o prazo de 10 dias antes de eventual demanda.

Prescrevem o art. 43, §§1º e 3º, do CDC, um prazo prescricional de 5


anos para a manutenção da inscrição. Em outras palavras os cadastros e
dados de consumidores devem ser objetivos, claros, verdadeiros e em
linguagem de fácil compreensão, não podendo conter informações
negativas referentes a período superior a cinco anos. Ademais, o termo
inicial de permanência da anotação dos registros de serviço de proteção
ao crédito é de 5 (cinco) anos, a partir do dia seguinte ao vencimento do
título.

Há, também, uma exclusão da inclusão do nome nos cadastros caso reste
prescrita a ação de cobrança do próprio débito.

Por fim, ressaltou-se o teor da Súmula 323 do STJ78, que determina que a
inscrição do nome do devedor pode ser mantida nos serviços de proteção
ao crédito até o prazo máximo de cinco anos, independentemente da
prescrição da execução.

76
380. A simples propositura da ação de revisão de contrato não inibe a caracterização da mora do
autor.
77
382. A estipulação de juros remuneratórios superiores a 12% ao ano, por si só, não indica
abusividade.

78
323. A inscrição do nome do devedor pode ser mantida nos serviços de proteção ao crédito até o prazo
máximo de cinco anos, independentemente da prescrição da execução.

51
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

 Das práticas comerciais abusivas

 O art. 39 do CDC79 estatui, em rol exemplificativo, as práticas


comerciais abusivas, de aferição objetiva (não precisam provocar dano
real), que podem se caracterizar na fase pré-contratual, contratual ou pós-
contratual.

 Seu fundamento principiológico trata do Princípio da Boa-fé Objetiva,


relacionada ao seu aspecto de controle (art.187 do CC). Nessa senda,
combate-se os atos com desvio de finalidade, abuso do exercício do
direito (relacionado à supressio, surrectio e venire contra factum
proprium) e/ou violadores da legítima expectativa criada no consumidor.

 Destacou-se, nesse contexto, as práticas abusivas delineadas pelo CDC:

a) Venda casada: É vedada a vinculação, sem justa causa, da aquisição


de um produto ou serviço concomitante de outro. Nesse contexto,
devem ser estabelecidos limites substantivos.

Destacou-se casos que configurariam ou não justa causa:

 O chamado “compre 3 e pague 2” só é permitido caso o


consumidor consiga adquirir a unidade do produto.

79
Art. 39. É vedado ao fornecedor de produtos ou serviços, dentre outras práticas abusivas:
I - condicionar o fornecimento de produto ou de serviço ao fornecimento de outro produto ou serviço,
bem como, sem justa causa, a limites quantitativos;
II - recusar atendimento às demandas dos consumidores, na exata medida de suas disponibilidades de
estoque, e, ainda, de conformidade com os usos e costumes;
III - enviar ou entregar ao consumidor, sem solicitação prévia, qualquer produto, ou fornecer qualquer
serviço;
IV - prevalecer-se da fraqueza ou ignorância do consumidor, tendo em vista sua idade, saúde,
conhecimento ou condição social, para impingir-lhe seus produtos ou serviços;
V - exigir do consumidor vantagem manifestamente excessiva;
VI - executar serviços sem a prévia elaboração de orçamento e autorização expressa do consumidor,
ressalvadas as decorrentes de práticas anteriores entre as partes;
VII - repassar informação depreciativa referente a ato praticado pelo consumidor no exercício de seus
direitos;
VIII - colocar, no mercado de consumo, qualquer produto ou serviço em desacordo com as normas
expedidas pelos órgãos oficiais competentes ou, se normas específicas não existirem, pela Associação
Brasileira de Normas Técnicas ou outra entidade credenciada pelo Conselho Nacional de Metrologia,
Normalização e Qualidade Industrial - CONMETRO;
IX - recusar a venda de bens ou a prestação de serviços, diretamente a quem se disponha a adquiri-los
mediante pronto pagamento, ressalvados os casos de intermediação regulados em leis especiais;
X - elevar sem justa causa o preço de produtos ou serviços;
XI - aplicar fórmula ou índice de reajuste diverso do legal ou contratualmente estabelecido;
XII - deixar de estipular prazo para o cumprimento de sua obrigação ou deixar a fixação de seu termo
inicial a seu exclusivo critério.
Parágrafo único. Os serviços prestados e os produtos remetidos ou entregues ao consumidor, na
hipótese prevista no inciso III, equiparam-se às amostras grátis, inexistindo obrigação de pagamento.

52
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

 A permissão de cartão de crédito como forma de pagamento


só para determinados limites também é vedada, não sendo
justa causa.

 A consumação mínima não constitui justa causa, sendo


também venda casada.

Ressaltou-se o conteúdo das Súmulas 473 e 356 do STJ80, que não


proíbe a cobrança de tarifa mínima pelo uso de serviços de telefonia
fixa, ao passo que veda a contratação de seguro habitacional
obrigatório com o banco mutuante ou seguradora por ela indicada.

Não obstante, a venda casada também constitui ilícito concorrencial,


previsto no art. 36 da Lei 12.529/11.

b) Recusa de atendimento: É proibido ao fornecedor a recusa de


atendimento das demandas dos consumidores, na exata medida de
suas disponibilidades de estoque, e, ainda, de conformidade com os
usos e costumes.

Logo, há o condicionamento da oferta apresentada pelo fornecedor


aos produtos presentes no estoque, que constitui limite objetivo.
Além desse, para alguns doutrinadores, como Tartuce, deve também
ser obedecido outro limite, qual seja, o uso pessoal e familiar.

Recomenda-se que seja explícita, por ocasião da divulgação, a


apresentação da vinculação da oferta aos estoques, até mesmo como
forma de eximir o fornecedor das punições por publicidade enganosa
ou abusiva. Isso evita, por exemplo, o deslocamento indevida do
consumidor.

c) Envio de produto ou fornecimento de serviço sem solicitação


prévia: Ele deve ser combinado com o parágrafo único do
dispositivo. Nessa seara, remetido determinado bem de consumo, ele
é compreendido como amostra grátis.

Constitui prática comercial abusiva, nos termos da Súmula 53281 do


STJ, o envio de cartão de crédito sem autorização prévia do
consumidor.

d) Exploração do hipervulnerável: É vedada a exploração dos


hipervulneráveis, isto é, por meio de publicidade abusiva. Em outras

80
356. É legítima a cobrança da tarifa básica pelo uso dos serviços de telefonia fixa.

473. O mutuário do SFH não pode ser compelido a contratar o seguro habitacional obrigatório com a
instituição financeira mutuante ou com a seguradora por ela indicada.

81
532. Constitui prática comercial abusiva o envio de cartão de crédito sem prévia e expressa solicitação
do consumidor, configurando-se ato ilícito indenizável e sujeito à aplicação de multa administrativa.

53
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

palavras, é vedado aproveitamento da fraqueza ou ignorância do


consumidor, tendo em vista sua idade, saúde, conhecimento ou
condição social, para impingir-lhe seus produtos ou serviços

Referido dispositivo deve ser cotejado com o dialogo das fontes,


como o ECA ou o Estatuto do Idoso.

e) Exigência de vantagens manifestamente excessivas: É vedada,


ensejando o direito à revisão, nos termos do art. 6º, IV, do CDC.
Basta a mera prova de vantagem manifestamente excessiva para que
seja revisto o contrato, considerando a Teoria da Base Objetiva do
Negócio Jurídico.

O conceito de vantagens manifestamente excessivas é previsto no art.


51,§1º, do CDC82.

82
Art. 51. São nulas de pleno direito, entre outras, as cláusulas contratuais relativas ao fornecimento de
produtos e serviços que:
I - impossibilitem, exonerem ou atenuem a responsabilidade do fornecedor por vícios de qualquer
natureza dos produtos e serviços ou impliquem renúncia ou disposição de direitos. Nas relações de
consumo entre o fornecedor e o consumidor-pessoa jurídica, a indenização poderá ser limitada, em
situações justificáveis;
II - subtraiam ao consumidor a opção de reembolso da quantia já paga, nos casos previstos neste
Código;
III - transfiram responsabilidades a terceiros;
IV - estabeleçam obrigações consideradas iníquas, abusivas, que coloquem o consumidor em
desvantagem exagerada, ou sejam incompatíveis com a boa-fé ou a equidade;
V - (Vetado.)
VI - estabeleçam inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor;
VII - determinem a utilização compulsória de arbitragem;
VIII - imponham representante para concluir ou realizar outro negócio jurídico pelo consumidor;
IX - deixem ao fornecedor a opção de concluir ou não o contrato, embora obrigando o consumidor;
X - permitam ao fornecedor, direta ou indiretamente, variação do preço de maneira unilateral;
XI - autorizem o fornecedor a cancelar o contrato unilateralmente, sem que igual direito seja conferido
ao consumidor;
XII - obriguem o consumidor a ressarcir os custos de cobrança de sua obrigação, sem que igual direito
lhe seja conferido contra o fornecedor;
XIII - autorizem o fornecedor a modificar unilateralmente o conteúdo ou a qualidade do contrato, após
sua celebração;
XIV - infrinjam ou possibilitem a violação de normas ambientais;
XV - estejam em desacordo com o sistema de proteção ao consumidor;
XVI - possibilitem a renúncia do direito de indenização por benfeitorias necessárias.

§ 1.º Presume-se exagerada, entre outros casos, a vantagem que:


I - ofende os princípios fundamentais do sistema jurídico a que pertence;
II - restringe direitos ou obrigações fundamentais inerentes à natureza do contrato, de tal modo a
ameaçar seu objeto ou o equilíbrio contratual;
III - se mostra excessivamente onerosa para o consumidor, considerando-se a natureza e conteúdo do
contrato, o interesse das partes e outras circunstâncias peculiares ao caso.

§ 2.º A nulidade de uma cláusula contratual abusiva não invalida o contrato, exceto quando de sua
ausência, apesar dos esforços de integração, decorrer ônus excessivo a qualquer das partes.
§ 3.º (Vetado.)
§ 4.º É facultado a qualquer consumidor ou entidade que o represente requerer ao Ministério Público
que ajuíze a competente ação para ser declarada a nulidade de cláusula contratual que contrarie o

54
Disciplina: Direito do Consumidor
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Nome: Alexandre Henrique da Silva

f) Orçamento prévio na execução de serviços: É proibido ao


fornecedor executar serviços sem a prévia elaboração de orçamento e
autorização expressa do consumidor, ressalvadas as decorrentes de
práticas anteriores entre as partes;

Ressaltou-se o conteúdo mínimo que deve estar presente em


determinado orçamento, qual seja, o início e o fim da prestação do
serviço, a forma de pagamento, o destaque dos preços pela mão de
obra e do material, os riscos do fornecimento, entre outros.

Em outras palavras, o fornecedor de serviço será obrigado a entregar


ao consumidor orçamento prévio discriminando o valor da mão de
obra, dos materiais e equipamentos a serem empregados, as
condições de pagamento, bem como as datas de início e término dos
serviços.

A validade do orçamento é no mínimo de 10 dias, salvo convenção


das partes em contrário, conforme delineia o art. 40 do CDC83.
Nesses casos, é necessária autorização expressa do consumidor,
ressalvadas as decorrentes de práticas anteriores entre as partes.

Impende mencionar que o consumidor não responde por quaisquer


ônus ou acréscimos decorrentes da contratação de serviços de
terceiros pelo fornecedor, não previstos no orçamento prévio.

g) Repasse de informações depreciativas: É vedada ao fornecedor o


repasse de cadastros de informações referentes a ato praticado pelo
consumidor no exercício de seus direitos. Protege o direito à
intimidade, honra e vida privada, insculpido no art. 5º, X, da
CRFB/88.

O repasse de informações que constituirão os bancos de dados não é


considerada depreciativa.

h) Desrespeito às normas técnicas: É proibido ao fornecedor colocar,


no mercado de consumo, qualquer produto ou serviço em desacordo
com as normas expedidas pelos órgãos oficiais competentes ou, se

disposto neste Código ou de qualquer forma não assegure o justo equilíbrio entre direitos e obrigações
das partes.

83
Art. 40. O fornecedor de serviço será obrigado a entregar ao consumidor orçamento prévio
discriminando o valor da mão de obra, dos materiais e equipamentos a serem empregados, as condições
de pagamento, bem como as datas de início e término dos serviços.
§ 1.º Salvo estipulação em contrário, o valor orçado terá validade pelo prazo de dez dias, contados de
seu recebimento pelo consumidor.
§ 2.º Uma vez aprovado pelo consumidor, o orçamento obriga os contraentes e somente pode ser
alterado mediante livre negociação das partes.
§ 3.º O consumidor não responde por quaisquer ônus ou acréscimos decorrentes da contratação de
serviços de terceiros, não previstos no orçamento prévio.

55
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

normas específicas não existirem, pela Associação Brasileira de


Normas Técnicas ou outra entidade credenciada pelo Conselho
Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial –
CONMETRO.

i) Recusa de venda diretamente: Não pode o fornecedor recusar a


venda de bens ou a prestação de serviços, diretamente ao consumidor
que se disponha a adquiri-los mediante pronto pagamento,
ressalvados os casos de intermediação regulados em leis especiais,
como os de atacadistas.

Não se pode recusar o fornecimento de um seguro de vida a um


consumidor doente, por exemplo. Pode ser aumentado o valor do
prêmio, mas não vedada a venda.

j) Elevação injusta do preço: É apontada na CR/88 como efeito de


uma prática ilícita concorrencial, qual seja o aumento arbitrário de
lucros. Não haveria, segundo a professora, injustiça na elevação
prévia dos preços, mas a posteriori, como no reajuste de contratos,
como a prevista no art. 51, X, do CDC, que seria uma cláusula nula a
elevação arbitrária de preços. Esta, todavia, deve ser combinada com
o art. 41 do CDC84, que autoriza um controle prévio de preços para
determinados produtos, como os de medicamentos.

k) Demais hipóteses do art. 39 do CDC85.

 Proteção contratual (arts. 46 a 54 do CDC)

 Os contratos, em uma visão clássica, consistem em um negócio jurídico


feito por uma ou mais partes capazes, capazes de expressar sua vontade, com
vistas a pactuar a realização de prestações de natureza patrimonial.

A visão contemporânea, fortemente influenciada pelos contratos de


consumo, é marcada pela limitação da autonomia da vontade pelos valores
sociais envolvidos, restando configurada a chamada autonomia privada,
associada à normas que instituem deveres e direitos relacionados a toda a
sociedade. Retira-se a noção patrimonialista para outra existencialista,
proporcionando efeitos inclusive perante terceiros.

84
Art. 41. No caso de fornecimento de produtos ou de serviços sujeitos ao regime de controle ou de
tabelamento de preços, os fornecedores deverão respeitar os limites oficiais sob pena de, não o fazendo,
responderem pela restituição da quantia recebida em excesso, monetariamente atualizada, podendo o
consumidor exigir, à sua escolha, o desfazimento do negócio, sem prejuízo de outras sanções cabíveis.
85
Art. 39. É vedado ao fornecedor de produtos ou serviços, dentre outras práticas abusivas:
XI - aplicar fórmula ou índice de reajuste diverso do legal ou contratualmente estabelecido;
XII - deixar de estipular prazo para o cumprimento de sua obrigação ou deixar a fixação de seu termo
inicial a seu exclusivo critério.

56
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Nesse contexto, ganha importância o Princípio da Boa-fé Objetiva, nas


suas funções interpretativa, de controle e integrativa, já estudadas
anteriormente. Busca-se dar eticidade aos contratos.

Ademais, lança-se mão do Princípio da Função Social do Contrato,


consubtanciado, por exemplo, nos arts. 2035 e 421 do CC. Nessa senda,
além de proporcionar efeitos entre as partes (eficácia interna), o contrato
serve a um fim maior, aplicável a toda a sociedade (eficácia externa).

Ressaltou-se, nessa senda, a Súmula 529 do STJ86, responsável por afrouxar


o Princípio da Relatividade.

É importante também evidenciar a busca pelo equilíbrio nas relações


jurídicas, com base no respectivo princípio, que pode ser restabelecido pela
revisão contratual.

 Destacou-se que há, nos contratos, cláusulas gerais e cláusulas específicas.

Nesse contexto, o art. 46 do CDC determina que não há vinculação de


cláusula contratual estranha ao consumidor, que seja para ele de difícil
compreensão ou que ele não tenha ciência prévia de seu conteúdo ou de suas
conseqüências (cláusulas surpresas)87.
Impende mencionar que a Súmula 402 do STJ88 dispõe que o contrato de
seguro por danos pessoais compreende os danos morais, salvo cláusula
expressa de exclusão.

Prescreve, também, o art. 47 do CDC que, para interpretações das cláusulas


contratuais, na dúvida se adota interpretação favorável ao consumidor89.

Lado outro, o art. 48 prescreve a vinculação dos escritos90, seja quais forem,
ensejando inclusive à implicação de obrigação de fazer. Nessa senda, há a
vinculação de qualquer tratativa, seja realizada antes, durante e após o
contrato, sobretudo quando considerada a boa-fé objetiva.

86
529. No seguro de responsabilidade civil facultativo, não cabe o ajuizamento de ação pelo terceiro
prejudicado direta e exclusivamente em face da seguradora do apontado causador do dano.

87
Art. 46. Os contratos que regulam as relações de consumo não obrigarão os consumidores, se não lhes
for dada a oportunidade de tomar conhecimento prévio de seu conteúdo, ou se os respectivos
instrumentos forem redigidos de modo a dificultar a compreensão de seu sentido e alcance.
88
402. O contrato de seguro por danos pessoais compreende os danos morais, salvo cláusula expressa de
exclusão.

89
Art. 47. As cláusulas contratuais serão interpretadas de maneira mais favorável ao consumidor.

90
Art. 48. As declarações de vontade constantes de escritos particulares, recibos e pré-contratos
relativos às relações de consumo vinculam o fornecedor, ensejando inclusive execução específica, nos
termos do art. 84 e parágrafos.

57
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

 O art. 49 do CDC91 trata do prazo de arrependimento, que constitui


verdadeiro direito potestativo do consumidor, que independe da motivação
por parte deste ou o seu condicionamento.

Ele só é aplicável quando a compra ocorrer fora do estabelecimento


comercial (especialmente por telefone, a domicílio, pela internet), quando for
a compra feita sem contato com o produto ou serviço ou possibilitada por
marketing agressivo.

O prazo é de 7 dias, a contar de sua assinatura (celebração do contrato) ou do


ato de recebimento do produto ou serviço, sendo o último a acontecer.

Nesses casos, a restituição deve ser imediata, sem condição de devolução.

O art. 49, todavia, não se aplica à passagens aéreas.

 Ademais, o art. 50 92 regulamenta as hipóteses de garantias legais e


contratuais.
A primeira é um direito de incolumidade e funcionalidade do produto. Caso
esta não seja observada, há o direito de reclamar, conforme estabelecido no
já visto art. 24 do CDC.

Por sua vez, a garantia contratual deve estar bem explicitada, havendo a
efetiva explanação para o consumidor.

Elas não se confundem com a garantia estendida, que é, na verdade,


contrato de seguro.

Pela jurisprudência, somente após transcorrida a garantia contratual,


independentemente de ser parcial ou total, é que passa a transcorrer o lapso
para a garantia legal, tendo em vista a dificuldade para a prova pelo
consumidor.

 As cláusulas contratuais são nulas nos casos de configuração do art. 51 do


CDC:

Art. 51. São nulas de pleno direito, entre outras, as cláusulas contratuais
relativas ao fornecimento de produtos e serviços que:

91
Art. 49. O consumidor pode desistir do contrato, no prazo de sete dias a contar de sua assinatura ou
do ato de recebimento do produto ou serviço, sempre que a contratação de fornecimento de produtos e
serviços ocorrer fora do estabelecimento comercial, especialmente por telefone ou a domicílio.
Parágrafo único. Se o consumidor exercitar o direito de arrependimento previsto neste artigo, os valores
eventualmente pagos, a qualquer título, durante o prazo de reflexão, serão devolvidos, de imediato,
monetariamente atualizados.
92
Art. 50. A garantia contratual é complementar à legal e será conferida mediante termo escrito.
Parágrafo único. O termo de garantia ou equivalente deve ser padronizado e esclarecer, de maneira
adequada, em que consiste a mesma garantia, bem como a forma, o prazo e o lugar em que pode ser
exercitada e os ônus a cargo do consumidor, devendo ser-lhe entregue, devidamente preenchido pelo
fornecedor, no ato do fornecimento, acompanhado de manual de instrução, de instalação e uso de
produto em linguagem didática, com ilustrações.

58
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

I - impossibilitem, exonerem ou atenuem a responsabilidade do fornecedor


por vícios de qualquer natureza dos produtos e serviços ou impliquem
renúncia ou disposição de direitos. Nas relações de consumo entre o
fornecedor e o consumidor-pessoa jurídica, a indenização poderá ser
limitada, em situações justificáveis;

As cláusulas que retiram a responsabilidade do fornecedor é considerada


abusiva. As que reduzem a indenização são possíveis, mas desde que
presentes os requisitos, quais sejam, envolvimento de pessoa jurídica na
relação jurídica (consumidor) pleiteando a redução da indenização.

II - subtraiam ao consumidor a opção de reembolso da quantia já paga, nos


casos previstos neste Código;

III - transfiram responsabilidades a terceiros;

IV - estabeleçam obrigações consideradas iníquas, abusivas, que coloquem


o consumidor em desvantagem exagerada, ou sejam incompatíveis com a
boa-fé ou a equidade;

São as cláusulas injustas, abusivas, que proporcionam vantagens exageradas,


sendo nulas de pleno direito. Remontam ao Princípio da Boa Fé Objetiva e o
do Equilíbrio. Tutela-se a legítima expectativa do consumidor. A vantagem
exagerada é definida no §1º do mesmo dispositivo93.

V - (Vetado.)

VI - estabeleçam inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor;

É um direito legal do consumidor, nos termos do art. 6ª, inciso VIII, seja a
determinada pelo juiz (“ope judicis”) ou a prevista pela lei (ope legis),
conforme consignado nos arts. 38 e 12, §3º, II, ambos do CDC.

VII - determinem a utilização compulsória de arbitragem;

93
§ 1.º Presume-se exagerada, entre outros casos, a vantagem que:
I - ofende os princípios fundamentais do sistema jurídico a que pertence;
II - restringe direitos ou obrigações fundamentais inerentes à natureza do contrato, de tal modo a
ameaçar seu objeto ou o equilíbrio contratual;
III - se mostra excessivamente onerosa para o consumidor, considerando-se a natureza e conteúdo do
contrato, o interesse das partes e outras circunstâncias peculiares ao caso.
§ 2.º A nulidade de uma cláusula contratual abusiva não invalida o contrato, exceto quando de sua
ausência, apesar dos esforços de integração, decorrer ônus excessivo a qualquer das partes.
§ 3.º (Vetado.)
§ 4.º É facultado a qualquer consumidor ou entidade que o represente requerer ao Ministério Público
que ajuíze a competente ação para ser declarada a nulidade de cláusula contratual que contrarie o
disposto neste Código ou de qualquer forma não assegure o justo equilíbrio entre direitos e obrigações
das partes.

59
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

A arbitragem pode ser estabelecida desde que não seja anteriormente ao


dano. Em outras palavras, ela só pode ocorrer após o dano, em compromisso
arbitral, e não antes do dano (cláusula compromissória). A arbitragem é
regulamentada no art. 4º, §2º, da Lei 9307/98.

VIII - imponham representante para concluir ou realizar outro negócio


jurídico pelo consumidor;

Referidas cláusulas são as chamadas mandato, que em regra são proibidas,


nos termos da Súmula 60 do STJ 94, que impede a assinatura

Excepcionalmente, ela é permitida nos casos de administradoras de cartão de


crédito (mandatária) pelo consumidor (mandante), nos quais a primeira se
compromete a honrar, mediante limite de crédito, o compromisso assumido
pelo consumidor. Do mesmo modo, é permitido também quando as
administradoras dos cartões private label buscam recursos com terceiros.

IX - deixem ao fornecedor a opção de concluir ou não o contrato, embora


obrigando o consumidor;

Referida resilição é abusiva, na medida em que possibilita ao fornecedor


resilir unilateralmente determinado contrato pelo fornecedor com ulterior
oferecimento de preço maior ao consumidor. É muito comum em contratos
envolvendo planos de saúde.

X - permitam ao fornecedor, direta ou indiretamente, variação do preço de


maneira unilateral;

XI - autorizem o fornecedor a cancelar o contrato unilateralmente, sem que


igual direito seja conferido ao consumidor;

XII - obriguem o consumidor a ressarcir os custos de cobrança de sua


obrigação, sem que igual direito lhe seja conferido contra o fornecedor;

XIII - autorizem o fornecedor a modificar unilateralmente o conteúdo ou a


qualidade do contrato, após sua celebração;

XIV - infrinjam ou possibilitem a violação de normas ambientais;

XV - estejam em desacordo com o sistema de proteção ao consumidor;

XVI - possibilitem a renúncia do direito de indenização por benfeitorias


necessárias.

§ 1.º Presume-se exagerada, entre outros casos, a vantagem que:

94
60. É nula a obrigação cambial assumida por procurador do mutuário vinculado ao mutuante, no
exclusivo interesse deste.

60
Disciplina: Direito do Consumidor
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Nome: Alexandre Henrique da Silva

I - ofende os princípios fundamentais do sistema jurídico a que pertence;


II - restringe direitos ou obrigações fundamentais inerentes à natureza do
contrato, de tal modo a ameaçar seu objeto ou o equilíbrio contratual;
III - se mostra excessivamente onerosa para o consumidor, considerando-se
a natureza e conteúdo do contrato, o interesse das partes e outras
circunstâncias peculiares ao caso.

§ 2.º A nulidade de uma cláusula contratual abusiva não invalida o contrato,


exceto quando de sua ausência, apesar dos esforços de integração, decorrer
ônus excessivo a qualquer das partes.

§ 3.º (Vetado.)

§ 4.º É facultado a qualquer consumidor ou entidade que o represente


requerer ao Ministério Público que ajuíze a competente ação para ser
declarada a nulidade de cláusula contratual que contrarie o disposto neste
Código ou de qualquer forma não assegure o justo equilíbrio entre direitos e
obrigações das partes.

Aqui, confere-se a possibilidade de controle judicial abstrato de cláusulas


abusivas, de viés coletivo, conferido exclusivamente ao Ministério Público.

 Contratos de instituições bancárias

Envolvem a outorga de créditos ou financiamentos, sendo previsto no art. 52


do CDC95. Ressalta-se que, nos termos da Súmula 297 do STJ96, este é
aplicável às relações consumeristas.

95
Art. 52. No fornecimento de produtos ou serviços que envolva outorga de crédito ou concessão de
financiamento ao consumidor, o fornecedor deverá, entre outros requisitos, informá-lo prévia e
adequadamente sobre:
I - preço do produto ou serviço em moeda corrente nacional;
II - montante dos juros de mora e da taxa efetiva anual de juros;
III - acréscimos legalmente previstos;
IV - número e periodicidade das prestações;
V - soma total a pagar, com e sem financiamento.
§ 1.º As multas de mora decorrentes do inadimplemento de obrigações no seu termo não poderão ser
superiores a 2% (dois por cento) do valor da prestação.
§ 2.º É assegurada ao consumidor a liquidação antecipada do débito, total ou parcialmente, mediante
redução proporcional dos juros e demais acréscimos.
§ 3.º (Vetado.)

96
297. O Código de Defesa do Consumidor é aplicável às instituições financeiras.

61
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

Ressalta-se, anteriormente, encargos que surgem normalmente em virtude


da contratação, mesmo com o adimplemento (encargos de normalidade).
São vinculados à remuneração da concessão do crédito. São os juros
remuneratórios e a capitalização dos juros.

Outros surgem especificamente quanto ao inadimplemento, que são os juros


moratórios, as multas moratórias e a comissão de permanência, a qual não é
cumulada com nenhum dos encargos de normalidade ou até mesmo com os
de inadimplemento.

Cumpre inicialmente que os juros remuneratórios não se submetem ao


Decreto 22.626, conhecido como Lei de Usura. Em outras palavras, não se
aplicam o limite da lei de usura nos contratos de consumo. Nessa senda, é
aplicável a Súmula 382 do STJ97, isto é, que os juros, desde que previstos em
contratos, acima de 12% não são abusivos por si só.

No caso de ausência de previsão contratual, é aplicável a taxa de mercado


prevista pelo BACEN, eu reuniões do COPOM, entendimento corroborado
na Súmula 530 do STJ. Os juros remuneratórios, além de não serem
cumuláveis com as comissões de permanência, são devidos ainda nos
períodos de inadimplência98.

No que diz respeito às empresas administradoras de cartão de crédito,


consoante consignado na Súmula 283 do STJ99, não sofrem o limite nos
juros remuneratórios da Lei de Usura.

Por sua vez, a Súmula 422100, referente ao Sistema Financeiro de Habitação,


os contratos de financiamento também não têm limite de juros a serem
estabelecidos nos contratos, e existindo a ausência de previsão se aplica as
taxas de mercado.

97
382. A estipulação de juros remuneratórios superiores a 12% ao ano, por si só, não indica
abusividade.

381. Nos contratos bancários, é vedado ao julgador conhecer, de ofício, da abusividade das cláusulas.

98
530. Nos contratos bancários, na impossibilidade de comprovar a taxa de juros efetivamente
contratada - por ausência de pactuação ou pela falta de juntada do instrumento aos autos -, aplica-se a
taxa média de mercado, divulgada pelo Bacen, praticada nas operações da mesma espécie, salvo se a
taxa cobrada for mais vantajosa para o devedor.

296. Os juros remuneratórios, não cumuláveis com a comissão de permanência, são devidos no período
de inadimplência, à taxa média de mercado estipulada pelo Banco Central do Brasil, limitada ao
percentual contratado.
99
283. As empresas administradoras de cartão de crédito são instituições financeiras e, por isso, os juros
remuneratórios por elas cobrados não sofrem as limitações da Lei de Usura.
100
422. O art. 6.º, e, da Lei n. 4.380/1964 não estabelece limitação aos juros remuneratórios nos
contratos vinculados ao SFH.

62
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

Quanto à capitalização de juros, elas podem ser de juros simples ou


compostos. Os juros simples incidem sobre o capital inicial. Já os juros
compostos incidem sobre o capital inicial acrescidos dos juros acumulados
até o período anterior. Estes são mais benéficos nos casos de amortizações
grandes, que diminuem o acumulado do mês anterior. A capitalização é o
total devido, considerada a aplicação dos juros.

Em outras palavras, a capitalização dos juros, analisando um todo, leva em


consideração os juros, mas é mais abrangente, pois leva em conta o prazo, as
próprias taxas de juros, a amortização, entre outros valores.

Além disso, a capitalização (valor total a ser pago pelo consumidor,


considerada a incidência dos juros) pode ser anual ou mensal. A primeira é
permitida, desde que previamente pactuada no contrato. Já a mensal,
inicialmente era aplicável somente nas hipóteses legais, nos termos das
Súmulas 93101 do STJ e 121 do STJ. Atualmente ela também é permitida nas
hipóteses convencionais, conforme entendimento consignado na Súmula 541
do STJ102.

No contrato de bancária de taxa de juros anual superior a 12 vezes da


mensal, é suficiente para permitir a cobrança da taxa efetiva anual
contratada. Em outras palavras, não precisa constar expressamente no
contrato de que esses juros são capitalizados. A simples colocação de um
índice 12 vezes maior que o mensal pressupõe que o consumidor sabe que
ele é capitalizado.

No que diz respeito aos encargos moratórios, a comissão de permanência


seria encargo moratório que incide sobre os contratos de consumo (art. 52 do
CDC) durante o período de inadimplência, sendo, portanto, irretroativo, e
que não pode ser cumulada com nenhum outro encargo contratual, seja
remuneratório ou moratório, inclusive com a correção monetária, nos termos
das Súmulas 472, 294 e 30 do STJ103.

101
93. A legislação sobre cédulas de crédito rural, comercial e industrial admite o pacto de capitalização
de juros.

121. É vedada a capitalização de juros, ainda que expressamente convencionada.

102
541. A previsão no contrato bancário de taxa de juros anual superior ao duodécuplo da mensal é
suficiente para permitir a cobrança da taxa efetiva anual contratada.

103
472. A cobrança de comissão de permanência - cujo valor não pode ultrapassar a soma dos encargos
remuneratórios e moratórios previstos no contrato - exclui a exigibilidade dos juros remuneratórios,
moratórios e da multa contratual.

30. A comissão de permanência e a correção monetária são inacumuláveis.

294. Não é potestativa a cláusula contratual que prevê a comissão de permanência, calculada pela taxa
média de mercado apurada pelo Banco Central do Brasil, limitada à taxa do contrato.

63
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

Sua taxa média é aferida de acordo com o valor de mercado, devendo ser
menor ou igual que os encargos contratuais (o acessório não deve ser maior
que o principal).

Já os juros moratórios são limitados a 1% ao mês, salvo previsão legal


expressa em legislação específica, como é o caso da alienação fiduciária em
garantia, consoante consignado na Súmula 379 do STJ104.

Isso é diferente dos contratos civis, já que aos remuneratórios é aplicável o


limite da lei de usura e para os moratórios é aplicada a taxa SELIC,
estipulada pela Fazenda Pública, nos termos do art. 406 do CC105 (não
aplicável, portanto, aos contratos de consumo).

Lado outro, o art. 52, §1º, estipula que as multas moratórias não põem
exceder a 2% do valor da prestação106. Assim também dispõe a Súmula 285
do STJ107.

Quanto à descaracterização da mora, que gera uma série de efeitos, como a


neutralização da negativação, protesto, perda da posse do bem, ela é
efetivada mediante ação revisional, desde que haja a prova do abuso dos
encargos anteriores a ele. Se assim não o fossem, não restaria caracterizada a
mora.

São requisitos para a obtenção de liminar em ação revisional:

i. O objeto de discussão deve ser a dívida total ou parcial;


ii. A lide deve estar fundada em jurisprudência sedimentada no âmbito
do STJ ou do STF;
iii. A parcela incontroversa deve ser depositada ou caucionada;

Quando há novação (renegociação do contrato, como refinanciamentos), não


se são impedidas as discussões dos encargos abusivos presentes nos
contratos primitivos, consoante consubstanciado na Súmula 286 do STJ108.

104
379. Nos contratos bancários não regidos por legislação específica, os juros moratórios poderão ser
convencionados até o limite de 1% ao mês.

105
Art. 406. Quando os juros moratórios não forem convencionados, ou o forem sem taxa estipulada, ou
quando provierem de determinação da lei, serão fixados segundo a taxa que estiver em vigor para a
mora do pagamento de impostos devidos à Fazenda Nacional.

106
§ 1.º As multas de mora decorrentes do inadimplemento de obrigações no seu termo não poderão ser
superiores a 2% (dois por cento) do valor da prestação.

107
285. Nos contratos bancários posteriores ao Código de Defesa do Consumidor incide a multa
moratória nele prevista.

108
286. A renegociação de contrato bancário ou a confissão da dívida não impede a possibilidade de
discussão sobre eventuais ilegalidades dos contratos anteriores.

64
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

É facultado ao consumidor, nos termos do §2º do art. 52 do CDC, o


pagamento antecipado, desde que haja redução proporcional dos encargos.

Citou-se, ainda, as súmulas do STJ aplicáveis à correção monetária109.

 Explicitou-se os casos de superendividamento, que ocorre nos casos em


que é comprometido o orçamento de forma global de pessoas físicas
insolventes com dívidas presentes e futuras, salvo nos casos de dívidas face
ao fisco, em virtude de delitos e alimentares. Pode ocorrer em razão da
vontade (endividamento ativo) ou por fatores externos à sua vontade
(endividamento passivo).

Há projetos de lei específicos tramitando sobre o tema PLs 281, 282, entre
outros, que visam alterar o CDC e regulamentar essa insolvência civil.

 Lado outro, o art. 53 do CDC110 trata da compra e venda de imóveis e


consórcios.

Nessa senda, é nula a claúsula de decaimento para os contratos


celebrados após o CDC (antes há discussão), que prevê a perda de todas as
parcelas pagas no caso de inadimplemento.

Nos termos da Súmula 543 do STJ111, caso haja a culpa do fornecedor, ele
deve restituir os valores pagos. Se a culpa for do consumidor, é devida pelo
fornecedor a dedução dos valores devidos por perdas e danos, com correção

109
287. A Taxa Básica Financeira (TBF) não pode ser utilizada como indexador de correção monetária
nos contratos bancários.
288. A Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) pode ser utilizada como indexador de correção monetária
nos contratos bancários.
295. A Taxa Referencial (TR) é indexador válido para contratos posteriores à Lei n. 8.177/91, desde que
pactuada.

454. Pactuada a correção monetária nos Contratos do SFH pelo mesmo índice aplicável à caderneta de
poupança, incide a taxa referencial (TR) a partir da vigência da Lei n. 8.177/1991.

110
Art. 53. Nos contratos de compra e venda de móveis ou imóveis mediante pagamento em prestações,
bem como nas alienações fiduciárias em garantia, consideram-se nulas de pleno direito as cláusulas que
estabeleçam a perda total das prestações pagas em benefício do credor que, em razão do
inadimplemento, pleitear a resolução do contrato e a retomada do produto alienado.
§ 1.º (Vetado.)
§ 2.º Nos contratos do sistema de consórcio de produtos duráveis, a compensação ou a restituição das
parcelas quitadas, na forma deste artigo, terá descontada, além da vantagem econômica auferida com a
fruição, os prejuízos que o desistente ou inadimplente causar ao grupo.
§ 3.º Os contratos de que trata o caput deste artigo serão expressos em moeda corrente nacional.

111
543. Na hipótese de resolução de contrato de promessa de compra e venda de imóvel submetido ao
Código de Defesa do Consumidor, deve ocorrer a imediata restituição das parcelas pagas pelo
promitente comprador integralmente, em caso de culpa exclusiva do promitente vendedor/construtor, ou
parcialmente, caso tenha sido o comprador quem deu causa ao desfazimento.

65
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

monetária, além de uma taxa de administração (gastos com publicidade,


entre outros).

No tocante aos contratos de consórcios, a cláusula de decaimento também é


nula. Já a devolução das quantias pagas não ocorre de imediato, somente se
recebendo as quantias pagas em até 30 dias após o término do consórcio.
Eles são regulamentados pelo Decreto-Lei 911/69, que normatiza também os
contratos de alienação fiduciária em garantia. São deduzidas também a taxa
de administração, a quantia perdida com a depreciação ao uso e o prejuízo
para o grupo consorciante, a ser provado pelo fornecedor.

Ressaltou-se a Súmula 35 do STJ112, que permite sempre a correção com


devolução monetária.

A eleição de cláusula de foro contratual será sempre a do domicílio do


consumidor, nos termos do art. do CDC. Lado outro, a taxa de
administração, em que pese ser regulamentada pelo Banco Central, é
praticamente livre113.

 Contratos de adesão

Por sua vez, o art. 54 do CDC trata dos contratos de adesão, inclusive
apontando a sua definição114. São suas características:

i. Uniformidade da oferta;
ii. Elaboração prévia desta;
iii. Não há sua desconfiguração se for inserida cláusula posterior;
iv. A aceitação da oferta ocorre com a mera adesão.

Admite-se também que a cláusula resolutória é admitida, desde que


alternativa e cabendo a escolha ao consumidor.

A letra do contrato não será inferior a 12, o que denota essencialmente à


busca do legislador por limitar a abusividade na elaboração dos contratos de
112
35. Incide correção monetária sobre as prestações pagas, quando de sua restituição, em virtude da
retirada ou exclusão do participante de plano de consórcio.
113
538. As administradoras de consórcio têm liberdade para estabelecer a respectiva taxa de
administração, ainda que fixada em percentual superior a dez por cento.

114
Art. 54. Contrato de adesão é aquele cujas cláusulas tenham sido aprovadas pela autoridade
competente ou estabelecidas unilateralmente pelo fornecedor de produtos ou serviços, sem que o
consumidor possa discutir ou modificar substancialmente seu conteúdo.
§ 1.º A inserção de cláusula no formulário não desfigura a natureza de adesão do contrato.
§ 2.º Nos contratos de adesão admite-se cláusula resolutória, desde que alternativa, cabendo a escolha
ao consumidor, ressalvando-se o disposto no § 2.º do artigo anterior.
§ 3.º Os contratos de adesão escritos serão redigidos em termos claros e com caracteres ostensivos e
legíveis, cujo tamanho da fonte não será inferior ao corpo doze, de modo a facilitar sua compreensão
pelo consumidor.
§ 4.º As cláusulas que implicarem limitação de direito do consumidor deverão ser redigidas com
destaque, permitindo sua imediata e fácil compreensão.
§ 5.º (Vetado.)

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Disciplina: Direito do Consumidor
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adesão. Como não é determinada a fonte, mencionado objetivo fica, na


prática, prejudicado.

Pode existir a inserção de cláusulas que promovam a limitação do direito do


consumidor, desde que redigidas em destaque, permitindo-se sua imediata e
fácil compreensão.

Em que pese não ser possível exonerar a responsabilidade do fornecedor, por


esta ser legal, pode ocorrer a limitação da indenização nos casos de pessoas
jurídicas.

 Tutela processual [coletiva] do consumidor

 Histórico da tutela coletiva

A primeira lei do microssistema do processo coletivo é a Lei de Ação


Popular 4717/65, que inaugurou a proteção ao patrimônio público,
garantindo a legitimidade de proposição pelo cidadão, além dos efeitos erga
omnes da coisa julgada.

Posteriormente, foi promulgada a Lei 7.347/85, que trata da Ação Civil


Pública e garante a legitimidade para a proteção coletiva de forma ampliada,
delineando vários sujeitos ativos, como o Ministério Público, a Defensoria
Pública, a Administração Direta e a Indireta, entre outros.
Assim como a Ação Popular, na Ação Civil Pública a procedência gera
efeitos favoráveis para o tutelado, ao passo que a improcedência por
ausência de provas não faz coisa julgada, permitindo a propositura de ação
individual pelas pessoas. Ela também garante a proteção do consumidor
como objeto da tutela coletiva. Não obstante, criou o inquérito civil e o
termo de ajustamento de conduta.

Ressalta-se que a MP 1984-20/2000 vedou a propositura de ACP para


questões previdenciárias, tributárias, envolvendo o FGTS, entre outros.

A CRFB/88, no art. 129, inciso III, garantiu ao Ministério Público a


legitimidade para a propositura da Ação Civil Pública. Não obstante, a Carta
exemplifica o rol de objetos, abarcando qualquer direito difuso ou coletivo,
não mencionando os individuais homogêneos. Estes, entretanto, são
protegidos por meio da legislação infraconstitucionais, como a Lei de Ação
Popular, Lei de Ação Civil Pública e o próprio CDC.

Este, além de possibilitar a ACP para direitos individuais homogêneos,


regulamenta a litispendência e a extensão objetiva da coisa julgada, veda a
condenação em honorários sucumbenciais, salvo comprovação de má-fé, a
questão da competência, a vedação de denunciação da lide e o chamamento
ao processo, salvo uma modalidade, entre outros.

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Em outras palavras, o CDC se mostra de essencial importância para o


microssistema do direito processual coletivo. Entre os arts. 81 a 90, são
tratadas da defesa do consumidor, no âmbito da tutela coletiva. Já a ação
coletiva e os direitos individuais homogêneos são previstos entre os arts. 91
a 100 do CDC.

Destaca-se também que o art. 21 da Lei de Ação Civil Pública e o art. 93 do


CDC 115 determinam a aplicação recíproca dos diplomas no tocante à tutela
coletiva.

 São direitos a serem tutelados os direitos difusos, os direitos coletivos


strictu sensu e o direito individual homogêneo, sendo que os aspectos
processuais variam conforme o direito. São pontos de distinção a
titularidade do direito, a sua divisibilidade e a existência de relação entre o
direito e o cidadão que o pleiteia116.

a) Direitos difusos: Sua titularidade é indeterminada, indo além do


indivíduo. Ele é indivisível/incindível, não podendo ser
individualizados os seus titulares. Quanto à sua origem, ela pode ser
preventiva ou repressiva, remontando à uma situação fática (que
nasce da lesão), e não de uma situação jurídica.

b) Direitos coletivos strictu sensu: Tutelam pessoas ligadas por uma


situação jurídica anterior à lesão. São transindividuais de natureza
indivisível, não se dividindo os seus titulares, que compõem grupo,
categoria ou classe de pessoas ligadas entre si ou com a parte
contrária por uma relação jurídica base anterior à lesão.

c) Direitos individuais homogêneos: São claramente divisíveis, tendo


relação com a tutela coletiva pela origem comum, que se relacionam
essencialmente ao seu impacto social (abarcando número
significativo de indivíduos). A titularidade é, nesse viés,
determinada, existindo também efeitos distintos quanto à coisa
julgada. Não interessa, aqui, a base fática ou jurídica. Há duas
posições jurisprudenciais se é direito coletivo ou não. O STF

115
Art. 21. Aplicam-se à defesa dos direitos e interesses difusos, coletivos e individuais, no que for
cabível, os dispositivos do Título III da Lei que instituiu o Código de Defesa do Consumidor.

Art. 90. Aplicam-se às ações previstas neste Título as normas do Código de Processo Civil e da Lei n.
7.347, de 24 de julho de 1985, inclusive no que respeita ao inquérito civil, naquilo que não contrariar
suas disposições.
116
Art. 81. A defesa dos interesses e direitos dos consumidores e das vítimas poderá ser exercida em
juízo individualmente, ou a título coletivo.
Parágrafo único. A defesa coletiva será exercida quando se tratar de:
I - interesses ou direitos difusos, assim entendidos, para efeitos deste Código, os transindividuais, de
natureza indivisível, de que sejam titulares pessoas indeterminadas e ligadas por circunstâncias de fato;
II - interesses ou direitos coletivos, assim entendidos, para efeitos deste Código, os transindividuais de
natureza indivisível de que seja titular grupo, categoria ou classe de pessoas ligadas entre si ou com a
parte contrária por uma relação jurídica base;
III - interesses ou direitos individuais homogêneos, assim entendidos os decorrentes de origem comum.

68
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

determinou que é uma subespécie de direito coletivo, ao passo que


outros convergem ser uma espécie de direito individual, mas que,
devido a aspectos práticos, justificar-se-ia a tutela coletiva.

 Há discussão no que diz respeito à prescrição do tratamento da tutela


coletiva. A reparação de dano ao Erário e a ambiental são
imprescritíveis.

Na tutela do consumidor, muito se utiliza a Ação Popular, a qual


prescreve, em regra, no prazo de 5 anos. Há, contudo,
posicionamentos de que, por inexistir prazo nas ações expressas,
aplica-se o Código Civil, tendo seus prazos de 10, 3 ou 5 dias, a
depender do caso.

 Os juizados especiais são incompetentes para processar ações


coletivas.

 Quanto ao reconhecimento incidental de constitucionalidade nas


ações civis públicas, ele é possível, desde que para tratar de questão
prejudicial ao julgamento de mérito e não seja a causa de pedir fática
ou jurídica, remota ou próxima, sob pena de usurpar o controle
concentrado. Ele também não faz coisa julgada, inexistindo efeito
vinculante.

 O art.82 do CDC trata da representatividade adequada117, que trata


da concorrência na tutela coletiva do Ministério Público, dos Entes da
Administração Direta ou Indireta e de associações. Ela é ope legis
(prevista pela lei), mas, além disso, o juiz também faz um crivo de
adequação, em verdadeira análise ope iudicis.

117
Art. 82. Para os fins do art. 81, parágrafo único, são legitimados concorrentemente:
I - o Ministério Público;
II - a União, os Estados, os Municípios e o Distrito Federal;
III - as entidades e órgãos da administração pública, direta ou indireta, ainda que sem personalidade
jurídica, especificamente destinados à defesa dos interesses e direitos protegidos por este Código;
IV - as associações legalmente constituídas há pelo menos um ano e que incluam entre seus fins
institucionais a defesa dos interesses e direitos protegidos por este Código, dispensada a autorização
assemblear.
§ 1.º O requisito da pré-constituição pode ser dispensado pelo juiz, nas ações previstas no art. 91 e
seguintes, quando haja manifesto interesse social evidenciado pela dimensão ou característica do dano,
ou pela relevância do bem jurídico a ser protegido.
§ 2.º (Vetado.)
§ 3.º (Vetado.)

Art. 83. Para a defesa dos direitos e interesses protegidos por este Código são admissíveis todas as
espécies de ações capazes de propiciar sua adequada e efetiva tutela.
Parágrafo único. (Vetado.)

69
Disciplina: Direito do Consumidor
Professor (a): Beatriz Gontijo
Nome: Alexandre Henrique da Silva

Quanto à natureza jurídica da representação, há discussão se


haveria, na tutela coletiva:

i. substituição processual na tutela coletiva (defesa de direito de


outrem no processo). O STJ e o STF defendem esta tese;

ii. legitimação ordinária pela formação social;

iii. autônoma, salvo nos casos dos direitos individuais


homogêneos (ocorrendo uma representação extraordinária). É
defendida pela maioria da doutrina;

No que diz respeito à atuação do Ministério Público, houve o veto


do litisconsórcio facultativo entre os órgãos do Ministério Público
Estaduais e Federais, mas ele é plenamente aplicável, inclusive entre
este e a Defensoria Pública e outros legitimados.

As associações devem estar constituídas há mais de 1 ano, mas,


conforme a dimensão desse interesse, o juiz pode dispensar essa
constituição. Deve ocorrer também pertinência temática dizendo
respeito à pretensão.

Quanto à Defensoria Pública, deve ocorrer a proteção dos


necessitados jurídicos, nos termos da lei.

A legitimidade passiva desses órgãos sofrerem atuação que obstem


a sua atuação em âmbito coletivo, há divergência.
Uns defendem que não caberia em virtude dos efeitos da coisa
julgada, que só produziria efeitos entre as partes, e da
impossibilidade de declaração incidental nas ações coletivas,
segundo jurisprudência do STJ.

Outros, por sua vez, argumentam que caberia em virtude da


possibilidade de celebração de Convenção Coletiva de Consumo,
sendo que nesta são partes justamente o MP, a Defensoria Pública,
entre outras. Ademais, a Lei de Ação Civil Pública permite o
litisconsórcio para qualquer parte.

 Destacou-se também a questão da tutela assecuratória


específica, prevista no art. 497, § único, do NCPC118 e garantida pelo

118
Art. 497. Na ação que tenha por objeto a prestação de fazer ou de não fazer, o juiz, se procedente o
pedido, concederá a tutela específica ou determinará providências que assegurem a obtenção de tutela
pelo resultado prático equivalente.
Parágrafo único. Para a concessão da tutela específica destinada a inibir a prática, a reiteração ou a
continuação de um ilícito, ou a sua remoção, é irrelevante a demonstração da ocorrência de dano ou da
existência de culpa ou dolo.

70
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Nome: Alexandre Henrique da Silva

art. 84 do CDC119, a qual busca propiciar o resultado prático da ação.


Esta pode ser preventiva ou repressiva, não existindo a prova de culpa
ou dano.

Para haver o ressarcimento em perdas e danos, deve ocorrer o


requerimento das partes e a impossibilidade de cumprimento da
obrigação.

Cabe também liminar, que exige o periculum in mora e o fumus boni


iuris, com ou sem justificação prévia.

Entre as medidas assecuratórias, há as multas, nos termos do art. 537


do NCPC120. Independem do requerimento de parte, podendo ser
aplicada em qualquer fase processual, devendo ser compatível com a
natureza ilícita, além de ser suficiente. Pode ser modificada pelo juiz,
segundo critérios de proporcionalidade. Incide a partir do dia em que
configurou a mora, indo até o cumprimento da decisão;

 O art. 87 do CDC promove, como regra, a isenção de


adiantamentos de custas, emolumentos, honorários, entre outras, são
na comprovação de má-fé, em honorários, custas e despesas
processuais.

119
Art. 84. Na ação que tenha por objeto o cumprimento da obrigação de fazer ou não fazer, o juiz
concederá a tutela específica da obrigação ou determinará providências que assegurem o resultado
prático equivalente ao do adimplemento.
§ 1.º A conversão da obrigação em perdas e danos somente será admissível se por elas optar o autor ou
se impossível a tutela específica ou a obtenção do resultado prático correspondente.
§ 2.º A indenização por perdas e danos se fará sem prejuízo da multa (art. 287, do CPC).
§ 3.º Sendo relevante o fundamento da demanda e havendo justificado receio de ineficácia do provimento
final, é lícito ao juiz conceder a tutela liminarmente ou após justificação prévia, citado o réu.
§ 4.º O juiz poderá, na hipótese do § 3.º ou na sentença, impor multa diária ao réu, independentemente
de pedido do autor, se for suficiente ou compatível com a obrigação, fixando prazo razoável para o
cumprimento do preceito.
§ 5.º Para a tutela específica ou para a obtenção do resultado prático equivalente, poderá o juiz
determinar as medidas necessárias, tais como busca e apreensão, remoção de coisas e pessoas,
desfazimento de obra, impedimento de atividade nociva, além de requisição de força policial.
120
Art. 537. A multa independe de requerimento da parte e poderá ser aplicada na fase de conhecimento,
em tutela provisória ou na sentença, ou na fase de execução, desde que seja suficiente e compatível com
a obrigação e que se determine prazo razoável para cumprimento do preceito.
§ 1o O juiz poderá, de ofício ou a requerimento, modificar o valor ou a periodicidade da multa vincenda
ou excluí-la, caso verifique que:
I - se tornou insuficiente ou excessiva;
II - o obrigado demonstrou cumprimento parcial superveniente da obrigação ou justa causa para o
descumprimento.
§ 2o O valor da multa será devido ao exequente.
§ 3º A decisão que fixa a multa é passível de cumprimento provisório, devendo ser depositada em juízo,
permitido o levantamento do valor após o trânsito em julgado da sentença favorável à parte.
§ 4o A multa será devida desde o dia em que se configurar o descumprimento da decisão e incidirá
enquanto não for cumprida a decisão que a tiver cominado.
§ 5o O disposto neste artigo aplica-se, no que couber, ao cumprimento de sentença que reconheça
deveres de fazer e de não fazer de natureza não obrigacional.

71
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Para as associações que litiguem em má-fé, há a previsão específica


do parágrafo único, com a condenação em honorários e no décuplo
das custas, sem prejuízo da responsabilização por perdas e danos121.

 No que tange à tutela coletiva para a defesa dos direitos individuais


homogêneas, pode ser proposta pelos legitimados do art. 82 do CDC,
nos termos do art. 91 do CDC122. Estes podem atuar também como
fiscais da lei, consoante consigna o art. 92 do CDC123.

 A competência na tutela coletiva, que é absoluta, se molda segundo


a abrangência territorial do dano, com base no art. 93 do CDC124. Se
o dano:

i. For local, cabe à Justiça local;

ii. Se o dano for regional, cabe à Justiça Estadual na Capital;

iii. Se o dano for nacional, há competência concorrente da capital


do Estado ou do Distrito Federal.

121
Art. 85. (Vetado.)

Art. 86. (Vetado.)

Art. 87. Nas ações coletivas de que trata este Código não haverá adiantamento de custas, emolumentos,
honorários periciais e quaisquer outras despesas, nem condenação da associação autora, salvo
comprovada má-fé, em honorários de advogados, custas e despesas processuais.
Parágrafo único. Em caso de litigância de má-fé, a associação autora e os diretores responsáveis pela
propositura da ação serão solidariamente condenados em honorários advocatícios e ao décuplo das
custas, sem prejuízo da responsabilidade por perdas e danos.

Art. 88. Na hipótese do art. 13, parágrafo único, deste Código, a ação de regresso poderá ser ajuizada
em processo autônomo, facultada a possibilidade de prosseguir-se nos mesmos autos, vedada a
denunciação da lide.

Art. 89. (Vetado.)

Art. 90. Aplicam-se às ações previstas neste Título as normas do Código de Processo Civil e da Lei n.
7.347, de 24 de julho de 1985, inclusive no que respeita ao inquérito civil, naquilo que não contrariar
suas disposições.
122
Art. 91. Os legitimados de que trata o art. 82 poderão propor, em nome próprio e no interesse das
vítimas ou seus sucessores, ação civil coletiva de responsabilidade pelos danos individualmente sofridos,
de acordo com o disposto nos artigos seguintes.

123
Art. 92. O Ministério Público, se não ajuizar a ação, atuará sempre como fiscal da lei.
Parágrafo único. (Vetado.)

124
Art. 93. Ressalvada a competência da justiça federal, é competente para a causa a justiça local:
I - no foro do lugar onde ocorreu ou deva ocorrer o dano, quando de âmbito local;
II - no foro da Capital do Estado ou no do Distrito Federal, para os danos de âmbito nacional ou
regional, aplicando-se as regras do Código de Processo Civil aos casos de competência concorrente.

72
Disciplina: Direito do Consumidor
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 Proposta a ação, deve ocorrer a plena divulgação de seu teor por


edital, que tem a função de funcionar como intimação por edital, nos
termos do art. 94 do CDC125. Ele dará interesse para todos os
consumidores, que podem entrar como litisconsortes facultativos, sendo
que a sentença vincula para quem se habilitar, tanto no caso de
procedência ou improcedência. É desfavorável, pois a sentença genérica
já beneficia os alcançados.

 A condenação será genérica, devendo ocorrer posteriormente, nas


ações individuais homogêneas, a liquidação, imprópria, aproximada à por
artigos, visto que depende da prova do direito material, conforme
consignado nos arts. 95 a 97 do CDC126. A prova vai, portanto, além do
quantum debeatur. Nesta liquidação, devem ser provados:

i. Os fatos relacionados ao caso;


ii. O nexo causal;
iii. A dimensão do dano.

Referida liquidação pode ser promovida pela vítima ou por seus


sucessores, havendo nesse caso a execução individual, ou pelos
legitimados do art. 82 do CDC, em verdadeira execução coletiva. Esta
primeira hipótese é prevista no art. 97 do CDC. A competência para a
liquidação e execução será no juízo da liquidação da sentença (do
domicílio consumidor, nos termos do CDC) ou da ação condenatória.

Já a segunda hipótese pode ser promovida pelos legitimados do art. 82 do


CDC, somente para as vítimas que habilitaram o crédito no prazo da
prescrição da pretensão individual, nos termos do art. 98 do CDC127.

125
Art. 94. Proposta a ação, será publicado edital no órgão oficial, a fim de que os interessados possam
intervir no processo como litisconsortes, sem prejuízo de ampla divulgação pelos meios de comunicação
social por parte dos órgãos de defesa do consumidor.

126
Art. 95. Em caso de procedência do pedido, a condenação será genérica, fixando a responsabilidade
do réu pelos danos causados.

Art. 96. (Vetado.)

Art. 97. A liquidação e a execução de sentença poderão ser promovidas pela vítima e seus sucessores,
assim como pelos legitimados de que trata o art. 82.
Parágrafo único. (Vetado.)

127
Art. 98. A execução poderá ser coletiva, sendo promovida pelos legitimados de que trata o art. 82,
abrangendo as vítimas cujas indenizações já tiveram sido fixadas em sentença de liquidação, sem
prejuízo do ajuizamento de outras execuções.
§ 1.º A execução coletiva far-se-á com base em certidão das sentenças de liquidação, da qual deverá
constar a ocorrência ou não do trânsito em julgado.
§ 2.º É competente para a execução o juízo:
I - da liquidação da sentença ou da ação condenatória, no caso de execução individual;
II - da ação condenatória, quando coletiva a execução.

73
Disciplina: Direito do Consumidor
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Nesse contexto, só ocorrerá a execução coletiva quando não haver um


número compatível de habilitações dos individuais no prazo de 1 ano128.
O juízo competente será o da ação condenatória.

Não habilitadas as vítimas nesta ocasião, pode ser promovida também


pelos legitimados do art. 82, sendo revertido o dinheiro para o Fundo de
Tutela Coletiva. Nesses casos, deve ser separada uma quantia para cobrir
os créditos individualizados, até a prescrição. O juízo competente será o
da ação condenatória.

Nos casos de concursos de créditos, nos termos do art. 99 do CDC,


sempre haverá prevalência dos individuais face aos coletivos. No caso de
fundo, susta-se o seu pagamento caso pendentes segundo grau as ações
de indenização pelos danos individuais, salvo na hipótese de o
patrimônio do devedor ser manifestamente suficiente para responder pela
integralidade das dívidas.

 Ressalta-se que na execução coletiva de direitos difusos e de


direitos coletivos strictu sensu, promovida pelos legitimados do art. 82 e
pela defensoria pública (segundo a Lei de Ação Civil Pública), o juízo
competente é o da ação condenatória.

Nesses casos de procedência em direitos difusos ou coletivos strictu


sensu, os indivíduos beneficiados ou seus sucessores que quiserem fazer
valer seus efeitos promoverão a liquidação ou execução no juízo da
liquidação da sentença ou da ação condenatória, nos termos do art. 103,
§2º, do CDC129.

Art. 99.Em caso de concurso de créditos decorrentes de condenação prevista na Lei n. 7.347, de 24 de
julho de 1985 e de indenizações pelos prejuízos individuais resultantes do mesmo evento danoso, estas
terão preferência no pagamento.
Parágrafo único. Para efeito do disposto neste artigo, a destinação da importância recolhida ao Fundo
criado pela Lei n. 7.347 de 24 de julho de 1985, ficará sustada enquanto pendentes de decisão de
segundo grau as ações de indenização pelos danos individuais, salvo na hipótese de o patrimônio do
devedor ser manifestamente suficiente para responder pela integralidade das dívidas.

128
Art. 100. Decorrido o prazo de um ano sem habilitação de interessados em número compatível com a
gravidade do dano, poderão os legitimados do art. 82 promover a liquidação e execução da indenização
devida.
Parágrafo único. O produto da indenização devida reverterá para o Fundo criado pela Lei n. 7.347, de
24 de julho de 1985.

129
Art. 103. Nas ações coletivas de que trata este Código, a sentença fará coisa julgada:
I - erga omnes, exceto se o pedido for julgado improcedente por insuficiência de provas, hipótese em que
qualquer legitimado poderá intentar outra ação, com idêntico fundamento, valendo-se de nova prova, na
hipótese do inciso I do parágrafo único do art. 81;
II - ultra partes, mas limitadamente ao grupo, categoria ou classe, salvo improcedência por insuficiência
de provas, nos termos do inciso anterior, quando se tratar da hipótese prevista no inciso II do parágrafo
único do art. 81 ;
III - erga omnes, apenas no caso de procedência do pedido, para beneficiar todas as vítimas e seus
sucessores, na hipótese do inciso III do parágrafo único do art. 81.
§ 1.º Os efeitos da coisa julgada previstos nos incisos I e II não prejudicarão interesses e direitos
individuais dos integrantes da coletividade, do grupo, categoria ou classe.

74
Disciplina: Direito do Consumidor
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Nome: Alexandre Henrique da Silva

 Competência

 Nas ações de consumo de responsabilidade civil do fornecedor,


como regra a competência territorial é a do domicílio do autor130.

 Cabe chamamento do processo do segurador nos casos do réu que


contratar seguro. Se a sentença julgar procedente o pedido, condenará o
réu, que, se for declarado falido, será intimado o síndico a informar a
existência de seguro de responsabilidade. O STJ, todavia, vem
relativizando esta prescrição legal, indicando que pode ocorrer a
execução direta da seguradora, conforme consignado na Súmula 529131

 Efeitos da coisa julgada

 Os efeitos da coisa julgada, nos termos dos arts. 103 e 104 do CDC,
dependem do secundum eventum litis, isto é, com o resultado do
processo.

Nas ações de defesa dos direitos difusos e coletivo strictu sensu, os


efeitos serão:

§ 2.º Na hipótese prevista no inciso III, em caso de improcedência do pedido, os interessados que não
tiverem intervindo no processo como litisconsortes poderão propor ação de indenização a título
individual.
§ 3.º Os efeitos da coisa julgada de que cuida o art. 16, combinado com o art. 13 da Lei n. 7.347, de 24
de julho de 1985, não prejudicarão as ações de indenização por danos pessoalmente sofridos, propostas
individualmente ou na forma prevista neste Código, mas, se procedente o pedido, beneficiarão as vítimas
e seus sucessores, que poderão proceder à liquidação e à execução, nos termos dos arts. 96 a 99.
§ 4.º Aplica-se o disposto no parágrafo anterior à sentença penal condenatória.

130
Art. 101. Na ação de responsabilidade civil do fornecedor de produtos e serviços, sem prejuízo do
disposto nos Capítulos I e II deste Título, serão observadas as seguintes normas:
I -a ação pode ser proposta no domicílio do autor;
II - o réu que houver contratado seguro de responsabilidade poderá chamar ao processo o segurador,
vedada a integração do contraditório pelo Instituto de Resseguros do Brasil. Nesta hipótese, a sentença
que julgar procedente o pedido condenará o réu nos termos do art. 80 do Código de Processo Civil. Se o
réu houver sido declarado falido, o síndico será intimado a informar a existência de seguro de
responsabilidade facultando-se, em caso afirmativo, o ajuizamento de ação de indenização diretamente
contra o segurador, vedada a denunciação da lide ao Instituto de Resseguros do Brasil e dispensado o
litisconsórcio obrigatório com este.

Art. 102. Os legitimados a agir na forma deste Código poderão propor ação visando compelir o Poder
Público competente a proibir, em todo o território nacional, a produção, divulgação, distribuição ou
venda, ou a determinar alteração na composição, estrutura, fórmula ou acondicionamento de produto,
cujo uso ou consumo regular se revele nocivo ou perigoso à saúde pública e à incolumidade pessoal.
§ 1.º (Vetado.)
§ 2.º (Vetado.)

131
529. No seguro de responsabilidade civil facultativo, não cabe o ajuizamento de ação pelo terceiro
prejudicado direta e exclusivamente em face da seguradora do apontado causador do dano.

537. Em ação de reparação de danos, a seguradora denunciada, se aceitar a denunciação ou contestar o


pedido do autor, pode ser condenada, direta e solidariamente junto com o segurado, ao pagamento da
indenização devida à vítima, nos limites contratados na apólice.

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Disciplina: Direito do Consumidor
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Nome: Alexandre Henrique da Silva

i. Se for julgado procedente: Erga omnes nos direitos difusos e


ultra partes nos coletivos strictu sensu, fazendo coisa julgada
material.

ii. Se for julgado improcedente, por outro motivo que não seja
por insuficiência de provas: Fará coisa julgada material, tendo
efeitos erga omnes nos direitos difusos e ultra partes para os
direitos coletivos.

iii. Se for julgado improcedente por insuficiência de provas: Não


fará coisa julgada material, deixando de caber a discussão
sobre a extensão dos efeitos.

Já nas ações de defesa dos direitos individuais homogêneos:

i. Se for julgado procedente o pedido: Fará coisa julgada


material, produzindo efeitos erga omnes, dependendo, como
visto, de habilitação.

ii. Se for julgado improcedente: Existindo litisconsórcio, fará


coisa julgada material, sofrendo o consumidor os efeitos. Se o
consumidor não ingressar como litisconsorte, ele não sofrerá
com os efeitos da coisa julgada.

 Quanto à litispendência, ela é prevista no art. 104 do CDC132.

 Convenção coletiva de consumo

 É prevista no art. 107 do CDC133

132
Art. 104. As ações coletivas, previstas nos incisos I e II do parágrafo único do art. 81, não induzem
litispendência para as ações individuais, mas os efeitos da coisa julgada erga omnes ouultra partes a
quem aludem os incisos II e III do artigo anterior não beneficiarão os autores das ações individuais, se
não for requerida sua suspensão no prazo de trinta dias, a contar da ciência nos autos do ajuizamento da
ação coletiva.

133
Art. 107. As entidades civis de consumidores e as associações de fornecedores ou sindicatos de
categoria econômica podem regular, por convenção escrita, relações de consumo que tenham por objeto
estabelecer condições relativas ao preço, à qualidade, à quantidade, à garantia e características de
produtos e serviços, bem como à reclamação e composição do conflito de consumo.
§ 1.º A convenção tornar-se-á obrigatória a partir do registro do instrumento no cartório de títulos e
documentos.
§ 2.º A convenção somente obrigará os filiados às entidades signatárias.
§ 3.º Não se exime de cumprir a convenção o fornecedor que se desligar da entidade em data posterior
ao registro do instrumento.

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