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Copyright by Luzia Margareth Rago


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Revisão: Suely Bastos
Silvio Chagas
Beatriz Siqueira Abrão
Composição: Linoart
Fotos: Arquivo EDGÁRD LEUENROTH
Capa: Tsabel, sobre ilustrações da Revista Eu Sei Tudo, 1920, A.E.L.,
!>
UNICAMP e fofo de O Estàdo de' São Paulo, álbum publicado
em 1918.

UNIVERSJDJIDE FEDERÍL DE UBERLllDIl


BIBLIOTECA CENTRAL
ProcedênciaV fLl *9 JU M Ü iC -*
■çjl.... ufcsa.tjs.^.e.í.í!.............................
V alor Oz% H ^ , S L ^ .........................................._
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Santa.:Efigênia — São Paulo, SP
Tel. 223-6522 ' -

1985
Impresso no Brasil
Printed in Brazil

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Margareth Rago
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Do cabaré ao Tar
nA Utopia da Cidade Disciplinar

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B rasil: 1890 — 1950 13
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Paz a Terra
INTRODUÇÃO

Uma imagem mítica:- Átila, o temível guerreiro huno, comanda


aúnvasão dos bárbaros. »Gom a espada de -Martè, deus- da guerra ,
semíeiava tei&òr.-pòr todá a parte. Nas terras que seus exércitos devas-
tam -a grama'ja não cresce. Desestabilização1dá ordem social, amea­
ça"'ide èàoÉpM íifaág id: dd vidã divilidãda. 'Ncá tempos' modernos, o
périgo da-devastação provém de outras plagas. Ou antes, 'do. mundo
m ais‘mviliMdo: os imigrantes que chegam com outros hábitos,
outras cabeças,- estranhos desconhecidos.
“ Não é certamente so.b as leis do inipério dissoluto, onde
domihám á*s prostitutas nacionais,' que se revolve a mocidade levia­
na e^vicibsa destá* corte, mas é debaixo da pressão ou da influênciá
tirânica*que'nela exercem as prostitutas estrangeiras que geme e se-
defirili'a .bolidiahámente grande .parte da sociedade do Rio de Janei-
ro”, lastimava o medico Ferraz de Macedo em 1873. A degradação;
Idos costumes, as práticas dissolutès, o alcoolismo, o jogo, o crime,;
{as doenças" que penetram pelo porto de Santos em companhia dos
|trabalhadores italianos, espanhóis, portugueses, polacos, a nova
j mania das greves, a “ lepra” da luta de classes: tudo se passa como!
?se os “ novos bárbaros” ^aportassem entre no:s.
Marca de uma ruptura profunda: um passado tranqüilo, ca-;
raçterrstico da “ índole pacífica de nossos concidadãos” ,, desta nossa;
gente que no dizer de um chefe de polícia, em 1904, “acolheu;
comeprofunda simpatia” o reforço da ação policial sobre a cidade;
de S|o Paulo. De outro lado, a: constatação-de um presente onde;
| imperam as dissensões sociais, o scon flitos políticos, os surtos:
epidêmicos, a criminalidade ampliada, os hábitos dissolutos, a pro-
1,mi-scuidade das.?habitações sujasde-fétidas; a-proliferação dos gate-;
I nis, vadios-e cafiéns. A,ameádadã~ intranqüílidade social, da conta-)

1.1
■'slí'.-" -V-iíXíy.i-
minagão-física e moral, da destruição da nação,' da“
raça: resultados-aef-astQs^^sQmbrios da„chegadã; dos lmi^rantes. -C* ‘
“ Basta .(, . .) penetrar na habitação aglomerada deitZian^Tpara
se depreender, desde logo, que o menor preceito de higiene e; de
moral, que é a base do edifício social, ali não existe”, constatava
desolado o inspetor sanitário de São Paulo, dr. ÈVáristo' lin^éigaj
ao visitar as habitações operárias do Bom Retiro, Bexiga e Brás,
em 1894.
Indícios de uma anormalidade social, as práticas Populares
de vi d a^e la z e r do^TribalRSdirEsIIaBiii^dos^ improdutivos. dos
pobres, das mulheres públicas, das crianças que vagueiam abaiido-
nadas nas ruas-vão "se tornando objeto de profunda preocupação
de médicos-higienistas, de autoridades públicas,,de setores da bur­
guesia industriai, de filantropos e reformadores sociaÍs7nas-<^
W-;W iniciais do séciulo^XX. Crescimento..úrbano-industrial, expansão
demográfica, na cidade moderrmT'—
ta~— os vizinhos já não se conhecem, não se pode oonfiar em qnem
está do lado, os sentimentos se tornamrniais- superficiais,--Os antigos
laços de solidariedade se rompem, a xlíja-já, .nã,o é como antes*
Percebidos como selvagens^HtpiOíantes^imeivilizadosT rudes,!
feios e -grevistas-Jsohre os trabalhadores urbanos , que compõem a
classe operária ..fo -■«------ •*
Brasil-jconstitui-se-maulatinamente Mma y a sta ^ ^ ^ te morciMr
de" uma m m
trabalhador.. {aócih^uSmTssòTlinase
^ ser,
_ lal.ao pfole|;^mvi
assim já^podemos chanfá-lo. ^ S j u racao d $ ;m a l/ |S.v
convúlsõè^íuturas da h lstd rià,^ rentaM a
rariado p às^ p élâicò n i& àfã^ M oS ^ ^ te^ cK toaaejM iiR O íS am en -

gem projetiva de “ bárbaros^ justifica, 'deSdobralse^èm

^ perseguem o trabalhador em ^todos; os momentos ide sua Vida,-*âtè


V nas horas de lazer, buscando ^definir sua maneira de pensai?, de
sentir, de agir e erradicar praticas e hábitos considerados^erni-
iy • ciosos e-tradicionais. ■■ >/•;*
° Para tanto, a red d im cãíu isL.família consfituinpeca mestra., Idm
modelo imaginário, de mulher, voltada para a intimidadeffdo lar> e
§um{ na. redirecionada para a escola
que se criam no pais
do nascimento da intimidade operária ,, para
píejirôs' e autoridades competentes sugerem a construção
tjíçges higiênicas e confortáveis,
^ente, nem tudo se passa com©* se imagina. Para reali-
zar reformadoras^ as classes dominantes enfrentam
as^resisténciaelenazeS de trabalhadores que presen^ln 'suai tradi-
(pfesTTsisf^^ que valorizam sua aHvidãde“
que"cukuam^eae~santos. que possuem.todo um código
;de\representações simbólicas.- E. além disso, que progressivamente
aderem às bandeiras de luta levantadas pelos anarquistas e anarco-
sindicalistas que, ao lado de outras correntes políticas, procuram
impulsionar o movimento operário no país.
^^^Poütadorgs- de. u m íp ifá fÊ x ^ e transformação radical da socie­
dade, os 4ibertários aparecem comò depositários das esperanças de
j realizaçãq dos anseios de indivíduos negados e oprimidos em todos
osftnpmehtos: de; sua vida cotidiana e qüe sé.unem numa solidarie-
dadqfdéiej^ssei a partin de uma experiência comum. Assim entendo,
reeórre^ágíaà* ensinamentos do hisWrfador inglês'E. P. Thompson,
iam© sen processo; dêtcohstituição eir^pán-
tè^ d^S^sBfè$utand*é? eohtra* as imposições'autoritárias dos domi­
nantes, Obtido suas fóririás de vida,, definindo seu modo
^cpltural ei construindo suas entidades de resistência política .1
filiação dòs âharqúistas no Br||i§e sua influência
de e justo,’ dl! fim da exploração do trabalho e da
doifeàbp^jpdlítidáí ida autogestão .da produção, do fim do Estado,
^pfejxíèta educ®lifflK do amor livre e de tantos
Oflfèi te!Éá'^áej;lho míhímo, são profundamente fascinantes.
Assim tamííjSm entendo o eco' que ressoou de vozes que falavam
nó processed ^ 'fo rm a çã o do proletariado, acredito "que devemos
mterrõgáSps^iguilo que se propuseram,-o que certamente exclui a
construç|6 àójpariido político dito revolucionário-e a participação
no campo da luta político-parlamentar. Seria apenas por ingenui-
dadè^que se recusaram a criar uma instituição que consideravam
hierárquica e centralizadora? Seria tão-somente a propalada “ falta
de. visão política” ?

l. 'E. P., Thompson. La Formación Histórica de la Clase Obrera. Barce­


lona, Laia,, 1977.

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na ruja. Desvendam os inúmeros e sofisticados mécãhisfnòs tecnoló»!
gicos Ido exercício da dominação burguesa. . ,*•;
A análise do poder em sua positividade, como rede de relações,
que se exerce molecular, ininterrupta e ramificadamente, em’ todo'sj
os domínios da vida social, produzindo individualidades, ades-
trandq os gestos, elevando a rentabilidade do trabalho ~ -como|
apontja Michel Foucault — , abre toda uma* perspectiva'metodOlogica
que pjermite repensar a atuação dos;anarquistas a partir- de.outros’
parâmetros.2 Embor;a situados em eâàppos teóricos e’‘metodológicos
diferenciados, Thompson e Foucault chamam*a atenção.pára Outros
moméntos do exercício da dominação burguesa, possibilitando■re­
cuperar as práticaspolíticas “não-Qrgamzadas” do proTetatiádp é
desfazer o generalizado mito do atraso e do apoliticismO^dds liber­
tários/ • . ■ ■F,-
Gom estas lentes e com <
fábricas, dos bairros e vilas <
no país, àtenftja para todas "as
que a a n a r q u i s t a n
pelo1discurso patronal dos.
cobertas foram muitas. Ao 1
viagem. . . '

2. Michel Foucault. Vigiar e Punir. Petrópolis, Vozes, 1977.

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I. FÁBRICA. SAT-ÂNICA/FÁBRICA HIGIÊNICA

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^.■•-ffiPrNttpequena'e mal iluminadasala da gráfica situada à rua Santa
Cruz da Figuéifá, n.9 1, em São'Paulo, 0 tipógrafo -Edgard Eeuen-
rpth conversa* epm alguns- compánhèiros. Discute corn 0 .advogado
Ngno Va£cp. e com .0 -linotipistai-Mota Assunção a elaboração "do
.primeirojnúmero ,de um.jornal operário: A Terra Livre. O espanhol
MampèlMosçosO; também participa da reunião. Estamos: no an o' de
1905. O primeiro número desteiiperiódico anuncia:

í .. SorrtQS socialistas- e anarquistas. Como socialistas,, atacamos o


instituto da..mropriedade^.-pm:ada^^jnQral^ue-,aJfeiHLjijorJbase.
; P°* todos,,.sem., que •a pãrte

15
anarquista, OipintonGigi Damiani, desembarcará dois anos ^antgs no
Brasil, após ser libertado das ilhas-prisões da Itália, onde permane­
cera detido em função de sua militância^política nos regentes^movi-
mentos populares de sua terra. Nas «prisões por onde passa, conyive
com outros tantos militantes libertários, entre os quais Orestes Ris-
tori e GercMai.: Todos ioptaní ipelai imigração aò Brasil.
Encontrando-se aqui e conhecendo outras figuras de destaque do
movím^to~~oin rário q ü eT e^ terão intensá
participação política nos -acontecimentos que se sucedem. Junta­
mente eom ~O restiT TQ p^^ em~S ao”"? aulo, Gigi
Damiani funda o jornal libertário La Battaglia, enquanto que em
1903, com Alexandre Cerchiai e Rodolfo Felipe, inaugura outro
periódico de tendência-semelhante: L a Barricata. Mas é muitos- anos
depois que surge a mais famosa de todas.as publicações libertárias:
A P leb er pnidallosam^ Leuenroth.
Folheando as páginas já bastante amareladas destes jornais,
reunidos há não muitos anos, a primeira impressão que me causam
é a de uma riqueza muito grande? ide idéias e de acontecimentos
de um período que yem sendo recentemente recuperado. Um uni­
verso vai-se delineando gradativamente aos meus olhos e é inevitável
a pergunta: o que queriam aqueles loucos românticos? Loucos?
Rom ânticos? '
Muitos são os que se preocupam ou mesmo antecipam a realiza­
ção deste sonho: mudar a vida, transformar o mundo embíutébido e
infernaF das longas horas-de trabalho: extenuante è ’insújapna^ i das
humilhações doídas e das derrotas cptidiânas, num pa^s^lpp|sjvel.
A J;qra dó sono,quebra -se
^eúnem ;e decidem òs rumós jd^lugriclo"dlausegpi^-at e - 4Pfeigos
püblícaHòs nesta imprensa nascent^e^artesanaltproeu^m^âncentivar
o espírito de luta, (estimular..as rejsistenpias, nos, locafssde .tçabalho,
informar e apoiar as pequenas guerras que se travam diariamente:
denúncias de exploração-,, notíciasffida 4batalha motióis®®;* ifegistros
de avanços e recuos, de vitórias e--fracassos. ;nb •
Mas não só destes temasjvive a^imprensa apariltúfem^dàs pri­
meiras décadas do século -no•-Bsásilh**'•&!& -fala Mazer,
registra excursões e piqueniques, sessões, culturais, conferências
educativas, -discute uma nova m oral/ Bropõe> uma* nova maneira
de viver, *anuncia rum mundo fundado na igualdade, na liberdade,
e na felicidade, que deve ser construído ‘ por todos■os oprimidos,1'
aqui e agora.
.i Procuro recuperar este projeto de fundação de uma mova' -sõCie-
■ ' *

a adesão de milhares de trabalha-:


doresu>a<á^cemm> com a.' promessa^da instituição de um mundo em •■=
que éáda *temem;, Será;, dono dos Dg.Q.prÍQS-MQa. Propondo a reorgani­
zação -da--.atividade dp trabalho e dos múltiplos campos da vida
social^ie&j^elhari^os desejos e prometem realizar as perspectivas de
inúmeros, tyabfAhadores, frustrados passo a passo, pela imposição
incessante- da -vontade, dos dominantes.
O:;|no^im|i^o ^-alas-tpfrsç. rapidamente, conquistando várias fá­
bricas, dp .-^aj^a^|d6fes?.- á despeito de toda a violência
da repressão'ptl^mzada'peips setores privilegiados e das inúmeras
estrategias^di'seipjinares'constituidas com o- obietivo de produzir umeu
mova-, figura =do.-trabalho. politicamente submissa, mas economica­
mente rentáyél. " *"■“
•Desde^cedo, afinal, os dominantesVvêem desmoronar a imagem
disciplinada | laboriosa que haviam projetado sobre, o imigrante
"êiofopeyT^Nêm da Asia, nem da A lrlca'’, os trabalhadores provê-
“mentes do sul da Europa, brancos e civilizados como se desejara,
trazem consigo não apenas uma forca de trabalho, mas todo um
coniunto de expectativas_de, ...y-akumJIIde^ "TKO
entrarem nó país, fazem explodir todas, as projeções continuámente
lançadas sobre seus ombros.. procurando cada vez^miais^-incisiva^-.
mente áfirmar suamrópria identidade. Indolentes, preguiçosos, boê­
mios, gteytsta's'cm'anarquistas,•-segundo. a, representação imaginária
ç^f| ^íg^j;p ela sociedade .burguesa, lutam para definir sua nova
s^|ernas :ide representações, dos .valores e
3ãsf çrênçás qúê lhes' são próprios.1
,.t ^s^pectatiyas•'burguesa^^ir.ojetadas.-sobre o imigrante recém-*
* ^ contto.am ente. Em contrapartida, os indus-
cf e
iciíám Lfixar sua. mão-de-obra nas fábricas,.- recorrendo a.
.....
Üp.,m terior.dtp"espaço ,da,,produção ao percurso de volta à casa.,
----- -— ------ - —r ........ •• ...,
penetram em sua, habrtaçao, invadindo e procurando controlar ate
mesmo mementos mais inesperados de sua viaa^cotidianarMais
3o que quatq^ier outro"~grupó social, os imigrantes aparecem aos
qlhos dos setores privilegiados 'da sociedade- imersos num estágio
ameaçador de*transição:, recém-saídos de seus países, de suas regiões
de o rige^ 'aip d a não definiram o novo mo.do de vida. Como será
ele? Ó desconhecido assusta: é preciso que se ensine aos trabalhado-

l•M:3£Í£,"§Íjel].a; \Br.esciaiji, -Liberalismo: ideologia e Controle Social. Tese


de Doutoramento, USP, ]976.

I7

\
rès njtdes e ignorantes uma novià ‘f<
adeqúada, antes ’que eles mesrrfòs o
ser ofganizado segundo os interest
do.'capita
a'pajtu da cdnstkSp^He^EnFSi^^rM E
Todoi tipo de compdrta^ ^
1~o4^^
/fesfijFsiT'
íb enllH a^
Na-íábrica,'' w^mtSWSz^^ de um nheci-
mentos e de técnicas coercitivas visa tránsformar súa^^éttrutúta
psíquica e jn c u tir hjábitos regulares de trabalho,, desde as origehs
da industrialização. Q~ que . p o r sua vez, provoca- a eclosão de
violentas manifestações *3ê resistência jà nova disciplina industri^L. >
.... Ks inúmeras formas de luta desencadeadas dentro e fòra dos
( murols da fábrica, durante as duas décadas iniciais do século, ates-
\tam à recusa operária a se submeter às exigências da__explqração
j capitklista e, mais ainda, a desesperada tentativa de concretizar? a

\ a radicalização das lutas travadas Contra a orgMlzàçaÕ


! do processo produtivo aponta para a proposta /ah>arquist&
p í ã s U â D r o d u g ^ . <3 c õ n t r o r r d F p t e ^ S ^
horizontes do movimento operário, eÜmféstb^da* cor
. ,-.l t *»*«*, <3*mm
sindicalista, ao lado das mais
efetivadas no cotidiano da produção.1 *
Choque de duas vontades/ emMte' de
o mundo do trabalho aparece, na
lugar privilegiado do exercício dè u
que ele deveria destruir, ocg&

. força produtiva, expressa nãor ape


eclodem no período, mas també
industriais procuram convencer a
aumento da prodpLtividade der
naçãb por esses homens, mulHferes
ter-se sem nenhuma,o,bieção.
LíÍos._^mekoa.. an ò s^ ^ sécu lQ ^ ^ té-^ ^ n O ^ a^ áiM Jdá.- défcàjlE,
ira b a lh á d b ^ ^ r^ iíitM
se dç forma pontual.(manifestando o descon ceS M §^ ^ !m ^ l]£
mm
18
iH ®
•passagem para a
suaimfe’l i ssiste :á „unxa~jmttdança nos regimes
s5ZT5;O.ÍQto.. racional de?-produção do’"novo
viíK jbI ^ e7reHefín!doenqüan-
wvkggtimfe^
ryMfÍMà"lC^,mòd&tMaA^e¥efia entãO' constituir -o-,palco, formador
^nèja^giimjòrbdíftfeia,'atraivés ife formai cadà>/ez'mais'insidiosas
I gv^^|yp55^I]âQn^-naç^X)r.-Ivi-as,..ao mesmo tempo, deveria figurar
como p jugar da atuação de um outro tipo de patrão, moderno e
agilizado, em ^oposição à antiga figurando. proprietário \3êsp 2 im l
"arbltyãfio T nide do^pass'acbr-—-
Do império da violência física e direta exercida no âmbito da
fábrica, onde 0 industrial ditava irreverentemente as normas de
conduta, procurando padronizar os comportamentos segundo sua
vontade, determinando os horários, oè\salarios e todas as formas
de relacionamento entre capital e trabalho, passa-se progressiva-
mente para a introdução de novas, técnicas moralizadoras, discipli­
nas'doces é suaves.
Portanto^ antes .raesmo da introdução dq-taylorismo e do for-
dismp,'^ delineia:&e o desejo burg.uês: de construção da
Sfíéáhij

Üm%ftov^e4^o|nla(dos gestos ,

^âáfáb^ba ferfha*«significado um campo de experimentação


íl^ l^ f r a m 'esfraféffês* ’dè controíe e 'de fixação .cia força
Wnpárece fora de dúvida. A ^elaboração de procedimentos
^^,||ígúaís a burguesia industrial procura. impon. sua vontade
M % d e , ° H a ,rebddei# viiencia,se na^própria representa-
-unidade p r o ^ v a ^ v •, >'
“péçfiva Ho trabalho, a}fábrica- apareceícomo lugar detes-
tável da dominação e doaniquilam entodacriatividade dá^èlasse
operária, constantemente constrangida -a stfjeitar-ge •'ás imp%si^o'es
exacerbadas dos patrões, '>Associadã^àsrima,» feãdgg|ájMgdi.-dte§fe .
3ijBgg)U'. do*wséaaeàí£>, as prliiiras^jaQtiiiàs •dá^ imbrfen^anafQtiléta
retratam o sistema de fábrica como ■dispositivo dè ,’fabficàçãò dos
*(corpos ■dóceis ” , na ’ expressão de ’Foucault;''
Desde os primeiros números, os jornais operários atacam com
unhas e dentès esta instituição disciplinar que os dominantes que­
riam apresentar revesHda dá i i ^ g ^ 'd a neiâMKdadfe, da neceésida-
de econômica e do progresáo^sóèM. Se. t>eló ládó dós p átrõéá/á |
Unidade fabril é represeútâdá í coihò espaço héütrô dá píòdp<çãõ, }
através de uma. composição estática que procura registrar o núm e-,
ro de máquinas, de peças, de compartimentos e dê *ò||fêâ]EÍb&. tan i-'•
bém considerados como. fatores de produção, pelo lado destes, esta
construção imaginária dá fábrica responde a uma intenção* discipli-
nadora precisada. de incitar explicitamente áo trabalho^ obrigando
o operário a reápeitar as normas da hierarquia fabril
f" O discurso operário sobre a fábrica traduz, desde cedo, a
| revolta contra a, imagem edulcorada do mundo do tràbalho proje-
I tada pelo imaginário burguês. F à lp dar'fábficá. Significa, nesta
| perspectiva, questionar praticamente a organização capitalista do
processo de produção por vários lados. Neste movimento, as estra­
tégias de luta preconizadas pelos libertários, desde a sabotagem,
o boicote, o roubo, a destruição de equipamentos, até a greve geral,
confíuem na direção dás práticas' d è' resistência cq.tftiaqf *criacias.
I pèla combatividade operária. V n
Diante da recusa inesperada que os industriais enfrentam por
parte de um operariado que se neg?i, a xomppjfcar.rS^ipassixf^í^Híf
de acordo com normas de conduta preestabelècidas, os patrões in­
troduzem progressivamente tecnologias cada vez mais aperfeiçoadas
de adestramento e controle no interior da fábrica.

I ( . . . ) desgraçadamente poucos têm algum interesse pelas suas


1tarefas ( . . . ) não se submetem a . nenhum controle sistemático,
/ n ã o permanecem em seus empregos, não se importam côm os
^-j contratos ( . . . ) ,
I

reclnmavafn os proprietários da'fábrica Uniãò ítabirana, de Minas.


Gerais,<fp7!n^ referindo-se áos>bperário^’mdisCibljhad&
que abandõnãvam_aeus empregos, d e s i l ^
internos, negavambse a obedecer às normas impostas pela organiza-
ção capjtalista da produção.2 Nem mesmo o apelo do salário parecia
ter^uita^jÉ|ç^çía7em forçar -o trabalhador a submeter-se aos horá­
rios e. aó rjitmo dà produção:

entregues às suas vidas indolentes, trabalhando três ou quatro dias


por semána, eles não querem ganhar mais do que um salário mise­
rável, porque só pensam em comer, mastigar palitos, beber cachaça
e se bbtfrompêrem;3 " t

Como na nau de Ulisses, os trabalhadores deveriam tampar os


cérâ pãrá^riâq -fcèdêrèmr' às'’'tpntãções do encantamento
ctas'-áeírfiW&. tf&b* áübtòér^eíft' aòs' impulsos que os atraíssem para
fora. Deveriam tornar-se práticos:

Viçosos jfc concentrados, os trabalhadores devem olhar para fren­


te é deixar de ladp o* que'estiver ao lado. Eles devem sublimar o
impülsò que os pressiona ao desvio, aferrando-se ao esforço suple­
m entar.4 .

Obstinadamente, os operários resistem às técnicas punitivas


introduzidas no espaço produtivo pará sujeitá-los às rígidas imposi­
çõesd os patrões: a imagem da fábrica-prisão construída pelo dis­
curso operário^ visa a desmistificar a idealização do espaço de tra­
balho realizada pela linguagem do poder. Na imprensa anarquista,
inúmeros artigos retratam as situações de opressão, de humilhação
e de violência física e moral vivenciadas pelos produtores, constan­
temente vigiados por superiores hierárquicos?
1
ÒS PRESÍDIOS. INDUSTRIAIS
A Companhia Paulista
: -• O chéfe* dá estaçab Jündiaí da Companhia Paulista de Vias F é r ­
reas é umímódeló de tirânia, um carcereiro exemplar, e é por isso
qúè^aíGia.^ © estima e. ampara. È este pequeno czar que estabelece
os regulamentos despóticos que pesam sobre os empregados com o
uma; b arra;d ç chumbp: (ví Terra Livre, 1 2 -4 -1 9 0 6 ).

2h Stanley Stein, Origens ç Evolução da Indústria Têxtil. Rio de. Janeiro,


Campus, 1979, p. 71.
3. /dé/n,, p. 71.
4 / Max HOrklièimere T. Adorno, “Conceito de Iluminismo”, in: Os Pen-
sadojres. Sãò, Paulo, Abril Cultural, 1980,. ;p. 110.

21
Ml
V§i-

^meaçadora pára a
por esta geraçaO* opçrana como.
antfQ~'rda perl ! ç l 0 e:"da^ pf^llàlcão
ração! promíscua
da desagregação da família em função dá.paM cí^açao’
infantil nas: fábricas reaparece no discurso operário, refl
meSmá percepção moral ‘ do espaço da produção que s,e eyidencia
nás descrições de Marx e de Engels, sobre os estabelecimentos fabris
ingleses:5

( . . . ) as fábricas, isto e, esses lupanares, essas pççilgfs onde


sé encerram milhares de proletárias, sap sem.dúvida possívelX..,’.,
fpcos permanentes de degradação e de prostituição (O Arrijgo
do Povo, 5- 7-1902).

Çonstantemente desvalorizado por esta forma d a exg|$ípip, da


violêpcia direta, física e visível sobre se,u corpo^4p?tinad& a Pro*
duzir uma nova economia dos gestos adaptados à dinâmica da
produção, o trabalhador luta pela revalorização de sua figura en­
quanto produtor direto da riqueza socfal. e,enquanto.SPÍ dpt^do tie
criatividade e de um sa.ber próprios. Para. enfrentar esta,orèsist«|ncia,
todo um conjunto de encarregados qta exercício da ,yigjl|nejá, mes­
tres, contramestres, inspetores, fiscais deve ser integrado <nçsjte lpg|r
em qjue a imposição de comportamentos padronizados vijsa impécfer
a emergência da ação espontânea. , /o •

A maquinaria de controle e a regulação, do cotidiano*


; ’ : «5< * >.'*
A irregularidade do ritmo de trabalho, o?absenteí&iaq^q pouco
comprometimento aos trabalhadores icqm as exigênciâ^.jío'5capífal
e cpm o novo modelo produtivo explicam a introduçãQíd^rigorosos
regulamentos internos de fábrica destinados a constfasrgê-los ao
trabalho. Reuni-los num espaço facilmente controláVetiftiãd' fora
suficiente para garantir a realização das tarefas e seu- envolvimento
com a produção. Por isso, os industriais procuram definir normás
estritas de comportamento pára assegufqr não apenas o .compareti-
■! K-. . ''
5. Karl Marx, O Capital. México, Fondo de Cultura Econômica, 1’946,* vol,
1., p. 328; Friedrich Engels, A Situação da 'C'tasse* In­
glaterra. Portp, Apontamento, 1977. ‘ ’ ' '~r ! .sy ..

V-
22
:feÍ;í||ÉStif
d i ^ o ’do^Õperariado na fábrica, mas ainda a execução regu­
lar *d%sunâtividhde produtiva.
' v-'0 ’s*l^gulahi&htos internos dé -fábrica, definem as «modalidades
d6., exèftíéiò'-<fcP jpoder e traduzem a ‘ tentativa de universalização
da raciáifalidaclt^burguesa. Desempenham um papel fundamental na
constituição' das relações de dominação no interior da unidade
produ&yá: impõem regras de conduta, instauram códigos de-penalh
dãdè,,dè punições e prêmios, de modo a gerirem^ nos'mínimos de­
talhes todos os movimentos dos trabalhadores.
Nos jornais anarquistas, as críticas inyestem(contra)o controle
vdo fèmpoT uma vez
mana, déteiffimknlb' hoririés de entrada, de almoço, de* saída,
Instaülándõdlm ^micrbpbnalTdaHe"do~temp ^ ,
ausehciiprf^^ atividades e tudo aquiIõ~que"líghrfique
.B^à^xpliôfaiS-do- capital,^-Segundo- vl Voz. do
T rabalhador, de 1-3-1913, os regulamentos estipulavam:

, .. Horário — A hora de entrada para os empregados do sexo


masculino é às 7 da manhã e para os do sexo feminino, às 8 horas.
A h ora de saída é às .6 d a tardé, para todos ps empregados, salvo
•o dia em qüe a direção julgar necessário prolongá-la até às 7 da
'náife; ■'('• •*•)' ' “
‘ p ’ , íxt V\
\ A entrada é feita sempre* pela porta'do ângulo formado pela rua
Ufiigúaiana e travessa do Rosário, a qual será fechada cinco minu­
tos^ depois das horas estabelebidas para a entrada e a' volta* das
refeições. * ;

ÇLaffigó continua questionando as normas disciplínadoras,


imp^^as^arèitrariameníe segundo av Vontade patronal: “ são feitas
pèlSs;íp'atrõds para os operários e modificam-se áo bel-prazer dos
patrppsr^lsfum momento em que inexistia; qualquer legislação tra­
balhista que limitasse a exploração desenfreada do capital -no inte­
rior dó ^processo produtivo, os únieps- obstáculos impostos ao exer­
cício arbitrário: e voraz do poder -patrórtal eram representados pela
resistência conflitual dos trabalhadores. Na verdade, tòdos'os movi­
mentos-:dò> operário, sua postura,-,seus atos, seu ritmo de trabalho,
sua próptíadiistórra-pessoal e profissional são objetQ.dc um controle
d iscip lin ary: imagem de um acampamento military, objetivando-se

6. Michel FÒucáult, Vigiar e Punir, op, cít., p. 159.


j- 'v
23
extrair o máximo rendimento e anestesiar a explosão ,da rrevqfta
latente. .
Os regulamentos internos incideln sobre a própria distribuição
dos indivíduos no espaço da produção de modo a impedir sua livre
circulação, fixando-os junto à s . máquinas e curforcircuitando toda
forma de articulação espontânea. O despotismo da hierarquia fa­
bril, determinando minuciosa e arbitrariamente o .cotidiano d.o tra­
balhador contradiz, portanto, , o argumento ideológico da liberdade
dás relações contratuais. As normas disciplinam às idas e perma­
nências no banheiro, dispjpem sobre a duração do almoço, proíbem
as conversas n a é íio ra s ^ f frabáiho,^ instauram üma vigilância inin­
terrupta através do jogo de olhàres entre empregadores e empre­
gados . Segundo A Terra L iv re , de 12-4-1906:

O empregado que se achar conversando, quer com colegas, quer


com estranhos no serviço, ou fumando, ou fora do postp, embora
por força maior, será severámenlfe.punido. ( . . . ) Áo rtíiçtório só
pode ir um empregado dè cada Vez, devendo pedir licença e expli­
car o que váF fazer.

s ã o % ^ tê h S ^ ^ ^ õ ^ iw io y rb lo q u e a r tòda troca que possa refôrçar


' isso
mesmo, na Fábrica Cedro e Cachoeira, de Minas Gerais, proibia-se
a circulação dos operários no interior da empresa ou fora dela,
estipulando-se ainda as seguintes interdições:

—- Deixar seu lügar, máquina ou repartição, para passear ou con­


versar com pessoas de Outras máquinas ou repartições;
— sair da fábrica sem licença por escrito do administrador ou
mestre;
— Passear de uma para oütras repartições sem autorização dos
mestres; ( . . . )
—- Escrever, ler livros, jornais ou outra qualquer distração incom­
patível com a boa ordem do trabalho.7

p p '. aparece corno ameaça de perigo, assim como toda

que podem'significar uma. tomada de consciência v por parte do

. 7. Centenário da Fundação da Fábrica Cedro, “Histórico, lS72-.1972”, .p .,77.

24
m w w m m m * W m tm um m m m i*
&ÊÊÈm m — m m *. # # §>»?
trabalhador.® Tática de antiaglomeração, se por um lado as normas
atingem o operário como um corpo coletivo, pretendendo constituir
um- conjunto ordenado e coerente de trabalhadores, anulando ten­
dências caóticas. e hábitos individuais, por outro lado, distribuem
individuálmádamente os produtores diretos, buscando dissolver os
laços’ique'OS'unem no processo de trabalho.
•*, A Tepressão ào álcool,, ao fumo, aos jogos, às diversões e aos j
‘•$.a#°s&srê^ela, -por.-siiô. vez,. a- tentativa de negar o sentido confli- \
tu al‘da.ação operária, .desqualificada como manifestação instintiva, 1
selüagtm descontrolada e .dçsviante. • /n
pelos
iCLjneios utilizados
pelos patrões para M c ^ o s rentfeento e_eara_insiaii=
tar, a confoafoêncifl entre ftles^lP.nquanta na Ciá. Fabril Paulista um
avfsú: anunciada'a introdução desta, prática de. estímiilo material:
/ ; ^ /'■ v * \ ; . ■ 'A; t \ , \.
vDaq^ííipara4 frente diráçãd dará* uma'graüficação mensal de
•./I'Í^iÍ0)^];s“às íecèlãs qüe fizerem uto máximo de tfabalho — uma
*grâtífícáção dé 101000 rs às que fizerem um mínimo de — . Ainda
àquelas operárias qüe tiverem merecido seis gratificações mensais
de 15S000 durante o ano, haverá um prêmio anual de 60$000,

em 1907, os.operários da fábrica Votorantim denunciavam o siste­


ma de prêmios como “ pernicioso e imoral” .89

8. Charles Dickens, em seu livro Hard Times (Penguin, 197 9 ), mostra que 1
a classe trabalhadora inglesa sofreu o mesmo cerco por parte dos patrões,
no início do século XIX. Segundo ele, os patrões ficavam aturdidos com
as- leituras dos operários, que se recusavam a se tornarem sóbrios cida­
dãos: “Havia em Coketown uma biblioteca que todos podiam freqüentar,
e o senhor Grandgrind muito se preocupava com o que poderíam ler ali;
ponto a respeito do qual pequenos riachos de estatísticas corriam periodi-
camente para o grande oceano de estatísticas, no qual nenhum mergulha-
dtír conseguiriacdéseer w certa profundidade, voltando ileso. Notava-se, con­
tudo, certa. circunstância, desanimadora, triste, pois mesmo estes leitores in- ;
sistiam em admirar-se. Adpiíravam-se da natureza, das paixões, das espe­
ranças humanas, das dúvidas, lutas, triunfos e derrotas, despreocupações,
pensamentos, sofrimentos, da vida e da morte de certos homens e de cer- ' j
tas mulheres cdmúns! Âs vezes, depois de quinze horas de trabalho, pu- \
nham-s;e a ler histórias.a respeito de homens e mulheres.que sé assemelha-
vam^mâis ou menos a eles, ou de jovens que também’ se .lhes assemelha-
v&m” P. Thompson, opi 'cit., Capítulo 16, pinta também corn cores vii.
momento' lde;}réjíféissão- 'patronal à cultura da classe operária. 1
9T1J^íáÍii,«Alice(-BL. Éibéiro,: Condições de Trabalho nas Indústrias Têxteis ]
j^aiíl/^ia^.-ipipseí-de^Mesitrado,, Unieamp»-P- 187. . i

25
Poder.normativo, os regulamentos inlernos pretendem diferen­
ciar e classificar os produtbres diretos, estabelecendo aéírbferfeácfâs
do péssimo ao bom comportamento através da comparação das
condutas. Permite, assim, hierarquizá-los .segundo os preceitos da
moral burguesa: aos ..“indesejáveis ’’, a punição e a ridicularização
peja exp0sição-de...sua§,..fqtografias no quadro de avísósTTCDs retratos
/dos,operários penalizados nas fábricas têxteis deveriamiseF afixados
“ em lugar bem., visível da fábrica de_JVV.SS^*-^para- qng"sirva) de
escarnamento para o seu pessoal pperáno” , propunham os indus­
triais articulados no Centro dos~Industrials.'.de Fiação e Tecelagem
de São Paulo (CIFTSP), em 1928, em circular 'confádenciakde&n0 29.
Certamente, muitos outros mecanismos coercitivos ' átoàtò^ nb
sentido de determinar a produção dos comportamentbsridifeipI|fe|
dos e produtivos exigidor*peÍo.
midação pessoal, remuneração extremamente baixa, “listais nb^rás” ;
identificação policial nos livretes, s.é|undo o.exexpplor 4o^ipdustriais
frpncesbs e pelos quais -os emp£e$árii§>s?Je a,poMpia.pops|tp^'|jafo^rma-
çêjes minuciosas sobre a ^história pqsspal le^p^|ssippq|^dp', trab[aTha-
dbr,-demissões-nos setores em quesa meeapizaçâ©»(|gesçen|t^des­
qualifica. a atividade profissional, como-’m«stúndúátri&&&êxtei£) de
alimentação, de vestuário, de fósforos, etc. . ;
Estas modalidades de disciplinarização da força ,‘|?e jrajijàlhp
fábril convergem no sentido de'se exercerem de maneira cada vez
mais insídiosa e sutil, tendo em vista fazer com que o 'trabalhador
interiorize a vigilância do “ olho dtí poder” , iífuá|Ç ^^s xJH^qpe
seja realmente vigiado, à medida qué a lógica da 'disciplina IffSril
sé sofistica com a mecanização. . ,Vs
- : Progressivamente, os industriaisJprocúram‘' ^ 8 p çbfn "quedos
operários inl roje tem a disciplina ^nõticaN do trâíiaíf^.indu^^àl,
pjrescindindo do recurso à utilização llaTqrça br.qta ,e pgáscarajiçjó
P exercício do poder por um dispurspjCLue^se apresenía^eomo cientí-
fjeo, racional e moderno. As formas de vigilância^©;'controle f l l K l 1
deixam paulati namente de se maniféstarjem esseífcíatmente' pela
rppressão exterior e subjetiva da vontade patronal,.i^nsfefinâV^ê
para. o interior do processo técnico de organizaçãp .do^trabâlho.
Fora da fábrica. „a.„r^efirdpãffL4 Q ^ ^ a^ &s^ ^ ^ es!;: al yês
da promoção _da^imjaamLmQjÍelo dê &
e de uma_nova„percepçl.a c u lte 3 -- d a --.c m ^ a ,^ p ix ^ ^ lJi|
® »l*i!F 8f!*ss:* a í

^ ^ ic a 5 ;:^tmu^r^^consid&radas ameaçadoras
3ar|, a. ^sgHilj^gaEdg. lQj%ffiL.Í.ò,la1’

âJ^l^stèio^gs.^^diaiiâS do proletariado,.

p ro k ta riadQ-aQ

r a n â ^ i f e inúmeras formas de resistência, surdas, difusas, organi-


Zá<áà$ ou‘M<^ ‘t^ás’^permanentes, efetivadas no interior do.espaço
dâ - questionamento prático da lógica da organização
cápitàiisfa' do trabalho assume expressões diferenciadas, como o
roubo de peças, a destruição de equipamentos, a sabotagem, o boi­
cote, além das grevesv, e são ppsitivamente valorizadas pelos anar-
qip^tqs e Vnarcp:sindicálistas/-co;mo “manifestação dâ acão dire­
ta,'.( > v ) -^aue. trazem ^em si carafêrT^volucionário no,
> w sentido„de
(*U
transformação>da sociedade” (A Terra Livre » 12-11-1^07).
rsadâs ^a ipartrr demma- perspectiva que recusa-a lógica do
ás'dutas miúdas e diárias do proletariado traduzem uma
atMdadetradica'1 de contestação ao modelo burguês de organização!
dá-produção. ‘C entra a tentativa de atomização dos produtores dire­
tos, a pí6|>ria "situação do trabalho na fábrica cria a necessidade
de-sua socializagão, a partir da formação de grupos'informais, unidos
por uma Mentidade de^ interesse e de objetivos, e que vai frontal-
fhenfê'- cqirarái á* imposição' de uma organização "formal e exterior.
ÂÓ'"sê reci^fr'"I*obedecer -às normas do trabalho e aos" ritmos produ­
tivos impÔStos pelo capital1, esta Çòntó-qrg_amzacJd'dos trabalhado-
| res mámfesfa uma tendência no sentido de determinar as regras
de- comporiamênto dentro da fábrica e de organizar sua própria
atiyidarde,^: apdfitando para a gestão "autônoma da produção.10 As
^kitàs “ocültas^)do proletariado,, silenciadas pela tradição acadêmica,
coítícah^efn”Xeque o prõpr|o'1fundamento da rea:lidáde capitalista
de-produção. Exigem a mobilização de todo um aparato de vigilân-
ciapâFa cõnklrarfger ò trabáÍHador a submeter-se' às normas disci­
plinarás % um''amplo arsenal ;de saberes qúe permitam que os
indus„&Jús prescindam ca,da vez máis não so dà habilidade profissio­
nal' ddvoperáriò, màs de stía própria presença física, hojèámeaçada
pelos robôs.

10. Cornelius Castoriadis,’1 UExpérience du Mouvement Ouvrièr. Paris, 10/


18, 1974, vol. I, p. 95; Amnéris lÉaronh A Estratégia'da Recusa. São Pau­
lo, Brasiliensé, 1982.

27
As formas originais de resistência criadas^jajXjaQtijdiano pelos
próprios operários, desde o início; da irtdüstrializaçãQAísão amnla-

cão social, sem ter de -passar,' peLa^ ea ia çã Q ^ á ,m n cL.organismo


burocrático' coústituído ncálimlreduzidõ n ssim
Domingos Passos explicãvá ò valor da àçê de
9-7-1920:

A açaò direta é a-principal característica dos sindicatos operários


revolucionários, em contraposição à ação indireta, qué Constitui a
norfha, principal das Organizações operárias de* orientação marxista
ou socialista ( . . . ) . .
: Nas lutas pela ação direta o trabalhador, como principal inte--
. ressado nas questões,1 é chamado a- agir diretamente .:eon íraós: seus
éxploradores, .enquanto pela ação.mdiretaj.preconfeáda^ppídS!mar­
xistas, burgueses e socialistas, o trabalhador; é; lèvadó: a entregar
nas mãos de felizardos políticos,, ditos proletários, todos os seus
interesses sociais ( . . . ) .

Para os anarco-sindicalistas, ao lado das lutas explícitas,, que


deveríam ser travadas através dos sindicatos,..considerados como as
organizações mais perfeitas de resistência, as. lutas miúdas e subter­
râneas efetivadas no âmbito da fábrica minariam ,a propjig, organi­
zação capitalista da; produção. Portanto, não teriam utn caráter
meramente ‘‘economicista” , como considerou a tradição marxista-
leninista, nem unicamente negativo: o que estaria em jogo seria a
própria constituição das relações de produção que sustentam a
ordem burguesa.
Embora a greve geral seja considerada como o .principaPmeio
de resistência política pelos libertários, as lutas cotidianas efetivadas
no espaço do trabalho, como a qtíebra de equipamentos, a contesta­
ção dos regulamentos internos, a sabotagem, o questionamento, dire­
to da. hierarquia fabril são amplamente propagandeadas como táti­
cas valiosas e como meios de educação .e de preparação do. prole­
tariado para sua emancipação, geral. Segímdo A Voz do Trabalha­
dor, de 3-8-1909: ' . . ' • . ..

28
( . . . ) Q uando'um patrão quer reduzir os salários, aumentar o
horário ,de trabalho, ou suprimir, por capricho, por ser mais conve­
nient^ e sem causa justificada, algum operário
d a; oficina, aplica-se a . boicoiàgem a este patrão, por
meio de anúncios, circulares, reuniões, manifestações ( . . . ) con­
vidando o público a que não compre os seus produtos ( . . . ) .

Alguns estudos mencionam os boicotes organizados pelos anar­


quistas' ^ Moinho Matarazzo e das demais em-
presas?^$sfe grupo, em Í9Ò7; em 1909, contra a cerveja da Cia.
Antártica, cpmplementando a greve dos vidreiros da fábrica Santa
Marina^ de. propriedade dos mesmos donos; ou, ainda, em 1919,
contra, as mercadorias da Cia. Antártica Paulista, visando defen­
der os interesses do consumidor, mas também reforçar as greves
desencadeadas contra os patrões.11
A saboíâgem também é considerada como método comple­
mentar à greve ou como tática alternativa^ no caso da impossibili­
dade de se cruzarem os braços na fábrica. Significa não apenas re-
duzir á 'éxtraçãò- da mais-valia, ao diminuir o ritmo da produção,
cdmo tàmb^ém dèteriorar Ò produto, o que acarretaria maior pre­
juízo ãb proprietária a ainda “ inutilizar a matéria-prima” , encare­
cendo os custos dé produção. Entre as discussões do Segündo Con­
gresso: (>pêráriò Estadual' de São Paulo, reunido emM.9.08, os ope­
rários ressaltavam a importância da sabotagem, em relação aos ou-
trõ^Mfííétbdbs de luta possíveis: '

( . . . ) A sabotagem é, de por si, um método de luta que pode,


em certos casos, surrogar (sie) com alguma vantagem, a greve e
consiste erri prejudicar o proprietário de oficina ou da fábrica, con­
tinuando a. perm anecer. no trabalho. D im inuir consideravelm ente
a produção, fazer com que a mesma resulte de qualidade inferior,
inutilizar a matéria-prima: tudo isto é ação de sabotagem, e desde
que se proceda com a devida cautela pode esta ação trazer à nossa
4^usa, muitas vantagens,12

A Voz d o Trabalhador , porta-voz do COB, explicava, em


30 •8.-1909, a origem da palavra sabotagem. Proveniente de um méto-

l í . Franciséo Foot Hardman e V. Leonardi, História da indústria e do


Trabalho na Brasil. São Paulo, Global, 1982, p. 340; Michael Hall e Paulo
Sérgio'Pinheiro, A Classe Operária no Brasil. São Paulo, Alfa-Ômegá, 1979.
voLíI^f. T7C-r
12, idem , opi Cití, p. 105.

29

\
do cie; iulet utilizado pelos trabalhadores ingleses e conhecido como
Go Cdfimy, significava "caminhar devagar, com toda a Cófnodidade’’,
e (oral muito empregada desde 0 sécujlò XVIII.' A tradição política
dos trabalhadores ingleses, que défáidta a contestação direta das
relaçõies hierárquicas na fábrica, era buscada pelos anarco-sinclica-
Iislas no Brasil:

/
y ( . . . ) os patrões declaram que o trabalho e a ligeireza são
mercadorias à venda, da mesma forma que õs chapéus, ás camisas
\ ou a carne.
i Já que são mercadorias venrdêda-emos da mesma fòrm à^queío
chapeleiro vende os seus chapéus- A mau- preço dão má
mercadoria. Nós taremos o mesmo. ( . " . . ) Nós pode.moáupòr em
piá ti ca o Go Canny, a tática d e .‘‘trabalhemos: pouco re*'mal”, aité
qpe nos escutem e atendam. (. . . ) .
I Eis aqui. claramente definido o Go Canny, a sabotagem: Ã má
paga. man trabalho.

Klém da propaganda e difusão .deste,s;.mét^QSt-fíle.^^^tênc^.


os jqrnais libertários registram ump profusaot-.-de
combativas nas indústrias do período, desmistifieando o mito; (Jp
atraso político dos operários em geral,
A Terra L iv re, de 13-10-1907, publica uma reportagem stí<|b|f
a resistência dos produtores na fábrica de tecidos São. Jjo|gpím, em
que reivindicavam, entre outras coisas,-aumerUo .salarial:,, eronçle a
ameaça de sabotagem obtivera bons resultados:

O dono da fábrica, sabendo que o pessoal estava disposto a


qmpregar a “sabotagem” (destruição dos m ateriais), ^tratou de
qhamar os operários, e disse-lhes. quev ced ia-a tudo o que<pedissem:
Operários e patrões entraram nunt acordo iraediatamente; ■(. .

■Em 8-8-1909, comentando os choques decorrentes da repres­


são que se abatia sobre o movimento operário, A Voz do Traba­
lhador noticiava o emprego da sabotagem em outra fábrica:

Em Santos, deram-se no mês passado fatos que assumiram a


maior gravidade e que, no entanto, a imprensã, que tanto barulho
IIcz pela .sabotagem praticada na fábrica de gás,, apenas noticiou
em lacônicos telegramas.

Constantes denúncias de boicote, roubo, sabótagemb.desitrMtíj


cão dos meios de produção, na imprensa anarquista ouvnas e ire # 1

70
ís s f e :
WEÊÊÊ
lares -GonfMenoiais dosvpatroest enraivecidos-dão o colorido das agi-í
tações véi>sl’ -que■cobrem<as duas décadas•iniciais do século.)
AnaLisando a importância de uma gre-ve v-ítoriosa realizada pelos|
iôçelàésiâa fábrica •Gruzèir-©,. A ;V oz clv TmbalHcálor- com tnúva que
a.<siaip:l;es. paralisação do tiabalho assustava menos aos empresários.
quewjpodiam?-substituir.'daciimenite os operários revoltados, dado à
grande quanfidade de mão-de-Pbra existente pára urh setor alta-
mente'mecanizado-de-produção,» do que »a ■destruição das máquinas
e equipamentos que representavam capitai investido e, portanto,
um prejuízo muito maior aos patrões:

( . . . ) . m a s ’ quando óSi^d^eráríôs, em vez de cruzarem-se de


braços. (sicf[ assumiram um'a »ouíra atitude, quando pensaram que
antes de abandonar joOtrabàlho deviam destruir os maquimsmos e
todos o s : instrumentos, de trabalho, quando pensaram em inutilizar
o que reprèsèWtava o'cápítai*b.ttrguês, as coisas mydâram de aspecto.
Os operários adquirem-se com a maiof ‘facilidade e por qualquer
preços mas, as máquinas não se’ podem adquirir da mesma maneira.
.G fotem 'gPttHíléf qiiáffldsl' dâs quais hão sé pode dispor em todos
os moméheps ( . . : ) r( A VOz do Trabalhador, 1 3 4 -1 9 0 9 , grifes
m eu s). . • •. ’ r '

n A compreensão de que a riqueza material está diretamente nas


m ^ s,4 o - produtor, embora pertença ao capitalista, e. de que isto
si^m ica uma ameaça muito grande ^ o capital revela; a- profundi-
daaj^da crítica, operária. Os trabalhadores estavam cientes de que
o industrial necessita de todo um aparato físico e moral para con­
trolar seus passos, garantir a conservação dos meios de produção
que, emb.ora não lhes pertençam’ juridicamente, estão em suas mãos
nã práfiçá cotidiana.' Os anarquistas, por sua vez, quebram esta
estratégia de'disciplinarização do trabalhador ao propor como meio
de lutá a própria destruição dos instrumentos de trabalho ,e da fá­
brica, õu seja', 'da riqueza material, e não o respeito servil ; ao
cumprimento das obrigações. Em 19G8, o mesmo jornal informava
sobre a destrufção de armazéns por operários que trabalhavam na
construção

da ligaçfo^ de Muniz Freire a Engenho Beeve ( . . . ) ; levantaram


seu protesto contra o ato abusivo desse empqeiteirp usurpador,
dem olindo alguns armazéns (o que já deviam ter feito) e casti­
gando-o,.poirp assobios ( A Voz do Trabalhor, 6-’12-l 9 0 8 ).

31


Frente à resistência operária.^persistente-, os dominantes: sãó^
forçados a reelaborar as formas de'relácionament03;com.òs empre­
gados, inventando meios cada vezumàisu.sQfistic^dõs ,.e cengenhpsós j
de adestramento físico e móral: buscas-;-tate-ant-esr. -p'oldtiihadaso'de |
erros e acertos, que evidenciam a crescente preocupação' patronal j
em. impor autoritariamente sua maneira de organizar as relações
sociais, dentro e fora dos -muros da . fábrica, definindo inclusive: as
relações familiares e as formas de habitação da classe trabalhadora^

À pedagogia “paternalista” dos patrões

A ausência marcante de publicações oficiais que informem so­


bre as condições de trabalho do proletariado emergente nas pri­
meiras décadas do século sugere o desinteresse .por parte do poder
instituído,, diante da situação dos trabalhadores noí; país.. Situação
que a imprensa operária não cansou, de denunciar,, A-preocupação
com a “ questão social” evideneia-s.è de. maneira .mais. concreta no
período das .manifestações-gr^istas d e ’19.1:7 a 1920v'como respos­
ta às crescentes mobilizações. dos dominados13.
ç Várias associações patronais são cohstituídas-em função das
^ greves desencadeadas pelos trabalhadores, cujo nível dè orgãniza-
(jcão aumenta visivelmente no final dos anos 10. Desde o final'clo
século X IX , os operários procuravam se drgartizar .criartdo . ehtida-
des de classe como a Liga Opérária da Cia'. Pàulista, dos ferroviá­
rios; a União dos Trabalhadores Gráficos, criadà em 1890; a Uniãò
Auxiliadora dos Artistas Sapateiros,
sistência dós Trabalhadores em
;ítT
ciedade l.° de Maio, formada em Santos, emM^Q4re- qüe incluía
pedreiros, carpinteiros e pintores'; a JJniãò dòs pperáriós em Cons­
trução Civil ou p Sindicato dós! Trabalhadores em'Fabricas de Te­
cidos. ' .7 ...
Pelo lado dos patrões, a grove : d.os,sapateiros desencadeada
em 1906, no Rio de Janeiro, determina a formação do Centro dos

13. Ângela C. Gomes, Burguesia e Trabalfíò~. Rio de lánéíro, 'Uãnipus. T9f?.


A autora mostra Weste estudo a eihefgêricia das *discussões ique sé trayam
na Câmara dos Deputados sobre à legislação- ;sòcial; assim còmo a^jprópria
constituição •'das entidades organizãtivas do" •patrotíato,s' em *função>N â à s '
mandas cada vez mais pressionantes do movimento operário (p. 119 e-ss).

52

■ xéJê''
Industriais de Calçados e Classes Corretivas.14 Em seguida às gre­
ves de 1*91-7/ que se iniciam no setor têxtil, os industriais do ramo
fundam o "Centro dos Industriais de Fiação e Tecelagem do Algo­
dão (CIF3*A)' no Riõ de Janeiro, e no ano seguinte, o Centro dos
Industriai^ de Fiação e Tecelagem de S. Paulo (CIFTSP), O em- ..
presariadodecide unir-se e tomar decisões conjuntas mais sistemá- .
ticas TelMazés. faH^as^criscentes mobilizações do movimento ope­
rário. Não é mero acaso que a década dé 20 assista a<5 lortaíeci-
mento do patronato, cada vez mais articulado com as forças re­
pressivas do Estado, e que a “ questão social” ocupe um espaço
progressivámente maior no conjunto de suas .preocupações. Afinal,
as primeiras medidas da legislação trabalhista nascem.em . propor-
IffiTãò- a S a ie n t^ a Tepitéssao pollciaíiõbre a classe operária.__ ^
Em alguns casos, as iniciativas de criação de entidades de de­
fesa dós intefesses dò; proletariado, tòrriadas por ele próprio, são
•absorVidás^hlás'industriais, apropriadas e devolvidas reformistica-
mente sob. a forma de “benefícios” , como no caso da Liga Operária
dòs'Tèrfdviários Ha-Cia. Paulista, ^quêpassa, a formar a Sociedade
Bèheficente dos'Empregados da Çia/dirigida pela empVesa. Do mes-
mô 'módò; a Associação Protetbra* oas 'Famílias dos Empregados da
Cia.,'também fundada por ferroviários, é assumida pela cúpula di-
reto r^ àã^ ém p fte, ddgo~em ségüída; as cooperativas de consumo
of’ganizadas pelos trabalhadores desta mesma empresa, em 1902,
fãmbém :sSd‘/capi'd*áme'átd ílpropriadasf pêlos ‘patrões è devolvidas na
fòrnia de;fmèdidás;í:pfótètoras tomadas pelos empresários para de­
fender ;sdu!s êmpregádõs.15
‘''‘' ’Etó^sfcá, .0 d è é ilo ^ tr ónay^è dêtetraitifir m namipfros da for­
mação' d o j ^ im^dind.o sua auíoconsírncão espontânea
cada vez mais sofisticada—
o movimento-oneráriQ-se-
esea-par -ao cõntrólé do poder..No -e ntanto, a.nr.â--
direta e o “ pa-
jS S ^ riid ^ d e fe n d id o - pot.alguns patrões. É evidente que o empre­
gador não podería apenasvreprimir, excluir e punir a força de tra­
balho,1já que precisava garantir sua coesão e unidade no interior...

14. Maria Cecília Baeta Neves, “Greve dos sapateiros de 1906 no Rio de
Janeiro: notas .de pesquisa”, in: Revista de Administração de Empresas, vol.
13, n.° 2, Rio de Janeiro, 1973.
P $ í %n\m^Ferróvià e Ferroviários. São Paulo, Cortez, 1982, p.

33
!da produção: por isso mesmo, a,,auto-imagem..p;aternalista quedai-/
guns industriais constroem, e que l^çfógfogggfj.
questionar sua dimensão ideológica.,- *vjsa,,4efo^ça^pj#
simbolizada na figura do pai, e assegurar a integrand
dor ao aparato produtivo. .yytóav.A - m,;,:;. :
^ ! Átravés de <‘cpnççssões,\,cotn!o,?ja? ip^talaçãp^d
operativas, farmácias, restaurantes, escolas, vilas:
têpcia médica junto às fábricas, ejgeifêp;
torpa-se mais consistente, sistemático e
tilar, juntamente com estes “ benefíeios” , a idéiatdé.&uôLtrsfcfiIíi^4Q!-
res |e patrões pertencem a u p a
interesses comuns. A imagem da jfàmflfa. titUiiàd^rpacà^j^nsár á
fábrica, cumpre a função explícita de negar -ai existência do, con­
/ flito capital/trabalho, sugerindo a idéia de urna h g r ^ m o s a , co­
operação. entre pessoas identificadas. Representação.:qpe ps•operá­
rios criticam violentamente. . v;: , . '
j A inspeção, realizada pelo Departamento.Estadual ido.Trabalbp
(DÇT), em 1912, nas fábricas instaladas na cap jM Íq^l^tapforngçe
alguns dados, ilustrativos do “ paternalismo” dos patrqgs* p o s 31.res­
tabelecimentos visitados pelos inspetores públicos, a, grande maip^ia
é rçtratada como higiênica, bem equipada, instalad&.-em-, edifíçios
apijopriados, contando com equipamentos modernos. Também ;sfp
mencionadas algumas medidas de assistência' social', postas em .çiá-
ticá por alguns.industriais: instalação de farmácias, seguro con|ga
acidentes, assistência médica, habitações e uma esqçl.a; para osnfi-
ihos dos operários. Segundo o DET, no entanto,,,qstas medidja^de
caráter assistencial relatiyas à s^Ú^i^do tra ^ a j^ d ^ r^ ^ co n d ifp p s
de [trabalho eram ainda muito limitadas e este» org^i múblico «pfp-
curàva incentivar sua adoção pelo còrijunto Ha.^eníprps^iado.
t O caráter pedagógico deste discurso, degtij^|J©í, ao^|nd,q|| ‘
cuja mentalidade pretendia transformar, explica anaf^gü-idad^
descrições das unidades produtivas, visitadas. D^uinjajtfo,,, os ji
tores públicos realçam a higiene e a prosperi§ad%i|leste& nfe!
ções, reafirmando o sentido positiyOjj da atu.a^q^-jnp^^n^z.a ‘ i'~
empresariado; de outro, reclamam,sua maipr^arfipip^ap»
dernização das fábricas, ao mesmo tempo que-Justificará :a pr|;
neéessidade de sua presença física, como irxspetpres

a exemplo da Votorantim, onde j^pp


ma; clubes, escolas, quadras de têrns, pisçihnjil

34
água encanada, luz elé,trica e esgoto. 16 Certamente, iniciativas co­
mo esta !sãò;'exceçõès à regra, á exemplo da Vila Maria Zélia,,pon-
siderada-çdmo empreendimento modelar pelo conforto proporciona­
do aos trabalhadores e suas 'famílias. Oytras insta]açpes habitacio­
nais e r^rê^tivas podiam ser encontradas junto às fábricas de An-
toniò ‘P áK eid ò l no Brás, ou ainda na Cia. Antártica, cujas casas
eram^spefejalmente reservadas para os cervejeiros, ou então na Cia.
de.CffipÇg Clark. . ,
*■ Né'ííti©,de. Janeiro, .a Ci% *P-rogr^s^o,,Ip d u stri^ d o . Brasil, fun-
dadab'em' 1#89, possuía casas -para operários,: com luz elétrica e
agiia;:eiioanac|a. A Cia* América Fabril construíra 259 casas para
sèiifí’^Ê^te^adiós,.:àítedpjippWos “ benefícios” j enquanto que a Cia.
de Fiação e Tebéla|em Aliánga fornecia, afém dè 152 residências,
um serviço de assistência médica, uma farmácia, duas escolas, uma
crecH'èüfe?-i0Ítid'à um furido^-dê^assistêneia para atender às pensões
dos ópeririòs "falecidos. A Fábrica de Fiação e Tecidos Corcovado
põssuíá dúás’ escolas para crianças, uma* creche, .armazém de-ali-
mentos^e fâtniácia. A empresa eohstruírãf também-um edifício para
o lazer jdps^Ojiérários, onde se realzavabí -bailes :e-'representações
t e a t r a i s b b u m â sala de b ilh ar.^
Os exemplos se sucedem e mostram que, embora pouquíssimas'
medidás'*de proteção social ao trabalhador fossem tomadas-neste pe-
ríodò, não se podejnferir que os industriais como nm tndo ahjgp-
dOnassem os trabalhadores às pressões do mercado, no sen tido'^de
forçados ao trabalho na.luta pela sobrevivência. A burguesia indus-'A
trial interfere desde cedo nos rumos da formação da classe operá- /
ria, procurando neutralizar os movimentos políticos dos trabalhado-/
res efrelacionar-se com,pies de maneira individualizada, ignorando|
suarejntM?,dP^de classb; tanto quanto possível. Por outro lado, in­
centiva a..assimilação de práticas moralizadas e tenta adestrar os
dominados -para extrair o maior rendimento, possível, acompanhan­
do-os também* nos momentos de não-trabalho. Portanto, a atnacãoi
, patronal1foi marcada, ahtbigbamemte pela intenção de proteger os
'trab S àd éfesfq u e "1 7 M ^ mas, ao mes?
nrotéinpb/^g^ b n t r o ^ ,•■
naIFntativa de integrar á força^^^^^^alhogalguns em­
presários se esforçam para fazer; passar uma auto-imagem paterna­
lista: os discursos de Jorge Street revelam a preocupação de mo:>-

1^. Os Estadps^nidos do Brasil, jp,. 234, in: Maria Auxjliajdora Guzzo Dac­
ca, A Vida Fora da Fábrica. Dissérlação de Mestrado, Unicamp, 1983, p. 52.
trar que ele se sensibilizava com a sorte de fiseus” ;èínprêgàdos, ‘a&'
sim com o de stiâs fam ílias, e. que agia em seu bbhefídípf-

( . . . ) a tese americana, com Henrjç F ord à frente, doutrinava


não ser o chefe da indústria,- tutor dos séus operaínòs?: a estes
incumbia prover à sua subsistência e a dos seus, não só material
como intelectual è moral. •(. . .) Para o 'Brasil eu desde logo dis­
cordei da tese, pois conhecendo, como me prezava de conhecer,
a mentalidade e a cultura de nosso povo, eu entendia que deve­
riamos até melhores tempos passar por um período intermediário,
em que nós patrões servíssemos de conselheiros e guias, sem que
a meu ver isso constituísse uma tutoria pesada ou inconveniente
aos nossos auxiliares de trabalho.11 (Grifos meus.)

Por sua vez, as próprias pressões do movimento operário for-


*çam o patronato e o Estado a se posicionarem frente aos proble­
mas enfrentados. pelos trabalhadores. Nesse sentido, todo um con­
junto de práticas disciplinares, paulatinamente constituídas, apon­
tarão para a construção da “ fábrica higiênica” , antítese da fábrica
escura e satânica odiada pelos operários, e de uma cidade ,purifi­
cada e absolutamente saneada.
Por certo, o objetivo dos patrões não^se limita- à .redefinição
das relações de trabalho. Ambiciosos, seu sonho de erradicação da
“ lepra” da luta de classes passará pela elaboração de um amplo
projeto, de transformação de toda a sociedade.1718 Éjnêsse sen.tidc.qUe
se pode observar que a elaboração positiva -da (figure
implica- também a promoção de um novo. tipo. de Ao..antigo
proprietário; rude e. despótico, que o imaginário,copiai assimilava
ao fazendeiro -dono do escravqsyprocura-.s.eidpMi^^ttfeagábi.^atrão
moderno e civilizado^ á exemplo de umtJpjgeiS
fberto Simonsem Ou. seja, ao- trabalhador,m odern^'|^^Sl© > ’P'pro-
'dutivo, deveria* corresponder-, na “nova fábricà” ,.-r^etializada e
; apolítica, a figura do novo industrial, dinâmico e educado,, que se
. relacionaria dignamente com seüs “ empregados” ê emicujãlpfópfie-
dade já se teria superado o “antigo problema” da íülá de classes

17. Evaristo Moraes Filho (Org.), Idéias Sociais de Jorge Street. Rio de
Janeiro, Casa de Rui Barbosa, 1980, p. 448.
,18. Edgar S. de Decca analisa a constituição, no final dos anos 20, de um
projeto de industrialização cujo sentido era o de orientar toda a sociedade
sob os moldes da fábrica. O Silêncio dos Vencidos. São Paulo, Brasiliensé,
1982, Cap. IV.

36
Purificar o espaço fabril

Q uan d o, em 1 9 1 2 , o D E T realiza uma prim eira inspeção esta­


tal nas fáb ricas existentes na capital paulista, sugere aos patrões re­
calcitrances a m odernização dos estabelecim entos onde os inspeto­
res registram co n d içõ es,de trabalho instifimeniafv -^ ^ ^
das n orm as higiênicas exigidas pelo Serviço S an itário . Ao m esm o
tem po, elogia as iniciativas patronais de introdução das inovações
tecn ológicas e de rem odelação interna e extern a dos edifícios fab ris:

Apenas em um reduzido número de fábricas ( . . . ) a defeituosa


disposição das transmissões e o. pequeno espaço existente entre as
máquinas favorecem a ocorrência de acidentes. ( . . . ) Esses defeitos .
e outros — como a deficiência de ventilação e iluminação, a falta
de aspiradores de pó, a ausência de vestiários principalmente para
as operáríaS|'— , notãdos em alguns estabelecimentos, seriam facil- »
mênté corrigidos desde que houvesse, por. parte dos industriais, um
póücò de ■'boa vontade. Com ‘ pequeníssimo dispêndio de capital,
põderiam ■’esses estabelecimentos igualar, nesse sentido, as fábricas-
modelos, côrrfo a Santista, a Labor ou a Ipiranga.19

A valorização do modelo da “ fábrica higiênica” marca o des­


pontar da mudànca .para, um novo regime disciplinar, que pretende
tornar.-o espaço dá-produção tranaüiío. agradável, limpo e atraente
pãam.o trabalhador e traiddo^como um “ cidadão consciente e inte-
aGordoupom os movo? >preceitos da saúde, da higiene e
’dlv^r^l^^vP^T/ç^^Jau^S; indnsfriais; liberais resistentes às i-nova-
ções<,:5o ;.n ^ d p . mo<J^rip,ò; ,e <jjjè fazem os operários trabalharem em
es,g.<
aço5ve§^m^^<I^rta,çlps e anti-higiênicos, onde se amontoam in-
diatiatam e^^dBkraem doenças ou são acidentados. Criam, em sua
iP^ra a manifestação de uma explosividade latente
eclosão dosiçconflitos sociais. Analisando, algum
;'ás causas dt)S "acidentes de trabalho relativos aos anos
de ,1912 e 1913", os inspetores públicos afirmavam:

•Como se depreende, os principais causadores de acidentes nos


estabelecimentos industriais continuam a ser: as polias, as serras
e as plainas mecânicas, as engrenagens, as correias e a corrente
elétrica, principais provas do desleixo dos industriais paulistanos e

e-P . S. Pinheiro. A classe operária no Brasil. São Paulo, Bra-


siliense, 1981, vol. 2, p. 59.

37
do pouco caso ligado à segurança do operário — exc^panen^e^ as
pausas mais fáceis de- serem rempgidps, e,.os ap a re lh p j^ à is simples
de se tornarem .protegidos,; sem grande, trabalho nem cf&§^sa exces­
siva — que causam tão grande.trfún%ertq. de. acidentes, ..que; incapa­
citam, no mínimo parcial e per^.án|ntementé, tantas dezenas de-
trabalhadores que poderíam contiMliar. a servir corno elementos úteis
jpara, o nosso progresso industrial.^0 'fòrifos meus.)

Deodato Maia, futuro' integrante do Ministério dd Tfrabàlhõ,


Indústria e Comércio, também se revolta contra a négli|'lricia dos
patrões diante das condições insalubres e anti-Higiênicas do traba­
lho fabril, no mesmo ano:

Os edifícios de nossas fábricas, com pouquíssimas exceções, são


jvelhos pardieiros ajeitados para ;esta ou aquela indústria;, rnas nas
Instalações ou. adaptações à la diqtble, ;para tudo, . s ç ; qíha rçenos
jpara. a saúde do operário. Falta aós vetustos pas^õqsdijZjnafural,
;e a luz artificial é irregular..e defeituosa,;,mão: clispoerp ^ lçs.d e ar
suficiente para o número de pesetas ; qpj^,tcaf)aifeatn,..^u^r .$nglo*
badamente, quer. em estreitos compartimentos; pão existe reserva­
tório de água de acordo com as ■prescrições higiênicas nem tam ­
pouco aparelhos de desinfecção e daí as vertigens, as dores tora-

! cicas, a cefaJalgia, a antropoxima e ' outros •r i í á f é s ' a s
pessoas que vivem em atmosfera viciada.2’

! A necessidade de higienização da fábrica, de sua racionaliza-


içao e modernização, idéia que apenas se esboça no discufso do
■DET, será desenvolvida na década seguinte e amplathente* valoriza­
da fios anos 30, tanto no Brasil quaríto intèrnacionaim^tp,202122
1 A representação da “nova fábrica”, q'ué o % i ^ p ~os fnedi-
cos defendem perante os industriais, já fora anbnci^p,' désde o fi­
nal ‘ do século anterior, nos Estados' Unidòs, por FrèoeWíJk W. Tay­
lor,! autor dos Princípios da Administração 'Científica éhpor setís
discípulos. Pretendia eliminar e contrapor-se à imagem da “ fabrica
satânica”, escura e fétida, detestada pelos trabalhadores, que se

20. j “Condições do Trabalho na. Indústria Têxtil ’d'è S. :?kd{èfç '3olétirri dò


Departamento Estadual do Trabalho, 1914; pr 26.'. ; „
21. Maria. Alice Ribeiro, op. cit., p. 128. ■ ‘ í. :
22. Ver Anson Rabinbacb, “A estética da produção no Terceiro Reich”,
in: Recherches: Le Soldat du Travail, n.° 33-34; íParis, Cerfi; 1978’;í Aleir
Lenharo, Corpo e Alma: Mutações Sombrias d&*M’odkr
30 è 40. Tese de Doutoramento, USP, 1985. . '

38
mmfmmmmtu» *w tm m
JÊttttkfôjfcÉfc tXátãtammà
prt^p|p>lM w T
(*;
JjJt

sentiam sugf-d^em todas as suas .energias para realizar o objetivo


particular e individualista dos pátfões.23
A fáBirica “satânica”, representação criada pelos operários in-,
gleses durante a Revolução Industrial, opdseram-se inicialmente ar-
tesãos exjpjpgriados, e operários que viram’na imposição do sistema
d ^ t B m la S S ^ m E iõ d e ^ e u mòclo de vida* anterior. A "reação dos
trab m ia@ y s à. introdução dos novos maquinismos foi violenta, le-
vS iE o 'iam^esmb^Tô^ ..de grupos organizad^”^
dútes 4èjmaqui|iast como os luditas, que simbolizavam no dano ma-
tej^ijaí" s^a^-r'eslstenóia T p ^ ^ ^ lF ^ p ró p ria identidade e à expropria-
ção do saberdàzer tradicional. :,“ :r i/”’
' <1)1 ihdbstriàis e tí Estádo nã^o'hesitaram em responder: a cons­
trução ;da-;“ridva"í8B$<tã”\và.sfc<éptica p racional,, deveria, apagar todos
os ranços .e ^IçníBta^ç^^é^^yãs do passado. Fundamentada num

umcfades produtivas, à construção


Mbè^drnplos e espaçoiõs^ a •intfddução dasmovas invenções
TecniOogtcIfe1 facilitariam os- trabalhos mais pesados, enfim, a
c*íãf§i^d ^ que cs
óperanos^sê^^
lu rliiq lid ^ ^
~clQ vd.e•
•vi??a$Ifcç.rç.S; gná\çida.s trabalhando doze horas
consççutiWas,,-ou>: ain d a, dé acidentes de trabalho ocasionados pela
colpç^çlo ikdevida das máquinas.
Ãitraniíormação da aparência.interna e externa da fábrica vi­
sava a;’transformação .da subjetividade do trabalhador, do mesmo
modo que uma casa limpa e confortável, mesmo que pequena, de­
veria; despertar, o desejo de intimidade no operário, reconfortado
pelo aconchego Mo lar. Além disso, uma nova finalid,ade.. er.a atri­
buída .àt eleyaçao da produtividade do. trabalho: ©, enriquecimento
dSjãaçãeira*#*^^ mais o mero ideal
ds-satisfadfcjdttiW &ciS icioriafT^ ^
Embora estas idéias de, uma nova, gestão do trabalho fabril só
tenham- sido implementadas na década de .50, com a taylorização
da pt-odução e a criação do IDORT (Instituto de Organização Cien­
tífica do Trabalho)-, desde as décadas anteriores algumas vozes afi­
navam no mesmo diapasão: como o DET e Deodato Maia, fambpm
alguns industriais mmêdiéos sanitáristas preconizavam a construção

23, L. Margareth Rago e Eduard9 Moreira. O Qut è Taylorismo? São Pau-


lo, Brasilieiíife, 1984.

59
da fábrica organizada à imagem do l à r .^ ,n .p£betiàbiél.1 íntima ie

Roberto Simonsen, em conferência pronunciada aos seus colegas i


mesmoE mano,
,1919, Jorge Street,
descrevia médico M
O Trabalho e oderno
industrial'“progressista”
como produto da , or§
sím­
bolo do “novo
nização patrão,dorepreendia
científica” publicamente
processo produtivo, Os empresários
utilizado como meiopori
não considerarem
“evitar a todo transe“asque
necessidades vitaispara
sejam trazidas de seus trabalhadores”
o nosso Brasil as 1 .
tas de classe, as organizações artificiais” .24
Em sua opinião, inspirada no próprio Taylor, a antiga discipli­
na importada do exército, que fornecia, à indústria regras de con­
duta e a maneira de conformar o trabalhador às exigências.'da
acumulação do capital, devería ser substituída pela “ disciplina inte­
ligente e consciente — oriunda do conhecimento exato que tem o
operário da natureza de seu trabalho e da certeza do juslo reconhe­
cimento de seus esforços” .25 Dois anos após a greve geral de 1917,
Simonsen defendia a importância da introdução dé um método de
racionalização da produção que traria “ a cooperação cordial entre
patrões e operários” .
Tomando como exemplo a organização industrial d-as- empre­
sas norte-americanas, ele propunha à diretoria da Gia. Construtora
de Santos, em 1918, sua reorganização interna “em moldes mais
chegados da administração científica” . Reforka que foi iniciada no
ano seguinte. Argumentando segundo a lógiéa do “engenheiro” nor­
te-americano, este industrial afirmava que; pretçn<jh^.%á!.]perar a or­
ganização militar da :aníiga indústria,' etír .qüe “patrÓ^I -COntrames-
tres e feitores se sucedem numa preocupação 1
que da perfeita feitma dòs ísefviços”; procurando “ évólüiirmo senti­
do da administração Me fünçãò’ ” .26 R â r à y < í y i % r e n t r e as
classes” e conseguir ganhar a adesãp dõ trabaíhador na intensifi­
cação da produção, Simonsen propunha que se adotasse nas inch
trias brasileiras o tratamento individualizado dó operário; inclusi
o pagamento de salários diferenciados', de acordo com os Prin
pios da Administração Científica, elaborados por Taylor:

24. Roberto Simonsen, OTrabalho M oderno. São Paulo, Seção de Obras de


O Estado de S. Paulo, 1919, p. 1.
25. Idem , p, 11.
26. Idem., p. 35,

40
T p ía m çs deste modo individualizado o operário, interessando-o
diretajjpente na produção, tornando-o um fator crescente da riqueza
e incorporando-o grandemente na sociedade estimulada.27

Nesta' lógica, a disciplina do trabalho na fábrica deveria ser


apresentada como~necessidãdV~õFfêÍwã~l¥ru^^ ..
^ cjre n ife ~ lIe v g n O e f^ .normas”
^ p ro d u ^ ã ó S lg riit'ife g 3 à -su b in é té s^ s dn p r n - .
tgresso tecnológico e do 'desenvolvimento .rienilficQ^Ci&tcfa. técni-
ca e p rogresso apa£.eeiámJnextdcav.elmente.associados neste, discur-
so dej glarizagã& jl& Jll^ da produção.
*As normas disciplinares deixariam de ser impostas pelo capricho
de patrões ambiciosos e de contramestres desalmados, para apare­
cerem autonomizadas e inscritas no aparato técnico da produção,
isto é, dotadas de uma aparência de objetividade e de exteriorida-
de. A uma. foitoia de exercício do poder concretizada na figura hu­
mana do contramestre ou do patrão tradicional, opunha-se a vigi­
lância mecânica, exercida pelo maquinismo, aparentemente inde­
pendente de qualquer, interferência subjetiva da vontade patronal.
Assim, esta estratégia de despolitizacão da fábrica, que se con­
figura pãúlatinamente na d é c^ a de..!tn!!!!Ljcuj£ se con solid anas se-
guintes, representava a possibilidade "c[F*obtêr a intensificacão~dÍT
"H a T o rcir^ lra b a -
J& or ^ o p fq p ór condições' àtfaerítes e confortáveis no intenoFlfa
gWrícf,.. pretèndia çõntrápor-se às antigas modalidades coercitivas
qi|e V ígõraV a^ . A fábrica, dqveria ser valorizada como
“ a grandâ -i:amftia”,%com a. quil cada trabalhador se identificaria.
no mesmo momento em qüè se domesticavam as relações da família
OÇeráidqoie em que se. destilava o. gosto .pela •intim idade do lar no
prpietanãdò. Detalhes como a cor do ambiente, o grau de ilumi-
naçáòÇ' ct lareiâménBV.a, .mstàlacàor de ’-sanitários, de refeitórios, de
íarHins' em 1volta tdas' fábricas serão difundidos em função -da in.,
fluência civilizadora que poderiam exercer no espírito..dos^japy&gá».
rios, ou ainda y .la possibilidade de garantir sua saúde_eaálarido
custo,S e perdas»maiores para os industriais.
Também- o- poder médico, ná’ década de 20, procurava denun­
ciar as péssimas condições de trabalho das indústrias paulistas, res­
ponsabilizando o desinteresse dos empresários pelo estado de dege-
neração física e moral da classe operária. Fundamentado na teoria

27. Idem, p. 12.

41
biológica do meio, que sè'constitui na França ria priníèfra metade
do século X I X , o dr. José Ribeiro de Oliveira‘ Ne,tto áfiríhava, ém
192b, que a insalubridade da maioria das fábricas têxteis paulistas,
o silêncio e o desinteresse» do governo e ainda “ a má edu,cação do
operário, que não tem orientadores sinceros-e'inteligentes^nas suas
reivindicações” , dántficavam o próprio" organismo-qo írafealfeadòr.
Segundo ele, embora existisse'na capital um Serviço Sanitário :de
“ idéias modèrníSsittias” ;''é‘st'ãs'nto eram aplicadas:e ft grande máfü-
ria jdas indústrias sé encontrava ifúma* situação ltstítnãveí. Á dei’
gene ração então resultante para a saude e para o caráter do traba­
lhador era inevitável:

Os (edifícios das fábricas) do nosso Estado, além dç acanhados,


quase todos construídos sem orientação da engenharia sanitária,
! são' inteiramente destituídos de dispositivos hé,gés£ân.q$ à ‘renovação
ido agente purificador. Dest’arte ê o ar destes estabelecimentos con-
! finado, oferecendo cheiro característico, repugtíàhtè. © operário,
em tais dependências exercend>o- s e u s ‘M steres, viac^de regra -se
! habitua facilmente com esse estado;' não ■ ' -séntévi-s* dêsagraxíáveis
; sensações e fenômenos conhecidos que um estrahhove?fpéFÍmenta,
í ao se deter por instantes nesse qmbiente. Tqdayia o ataque se vai
j operando lentamente. Apresenta* distúrbios á ' quê não ,liga impór-
! tância. De assíduo ao trabalho começa a fàltar, sentindo'é dizendo
i aos seus não ser o mesmo homem eriérgicó^dé tempos pãssárdos,
i Enfraquece-se a atividade de suas funções orgânicas. -É menos
I capaz, resiste menos à fadiga, Moléstias infecciosas b atlngém com
j frequência. Domina-o a fadiga. Em breve, a anemia, a tuber-
i culose ( . . . ) .28 " ' 1 f:'

A obsessão com a sujeira, com a poeira, com a.....émármc^ ,d e


gajseThòcfvõs ê com a falta (te arêjSiéútoÍAe ^ u s t i f i c á v a
a preocupação médica
d á d ã Q trabaího~ noturno era imi?eii^|%é
elê usufruísse de luz natural', essehciâbpara o organismoroomoítárn-
bém porque “ a temperatura 'noturría iavor^c^^uàlD ^(lip | )Í54’à
abuso de bebidas alcoólicas” . D saneamento' eíaff cónáibóes5"tnate-
riais de trabalho, nesta perspectiva, produziría a eliminação natu­

28. José JR. Oliveira Netto, “Profilaxia das causas»; diretas* de dnsalubridáde
dás fábricas de fiar, tecer e tingir algodão. Comentários à situação das
fábricas paulistas em face destas causas”, in: Boletim da Sociedade de
M edicina e Cirurgia de São Paulo, 1922, n.° 5, p. 181. V '4
ral ;de>spj^M'Gcâi^iÉipui<ás> ou. antes, impediría sua emergência. Da
mesma lormavip saber médico defendia a mecanização de certas
tarefas manuais, como a mistura ;do; algodão,, como meio de defesa
da saude do .tfgbslhadprj •a ^tródu&ãp dé ventiladores e aspirado­
res! artificiais; a..rujy^tz^|jO; 4e,íp-ventaisu e,.calçados especiais de tra-
balhp ..pgr^^os, operários;, a pintura externai 4a fábrica com tinta
branca, parf. neutralizar, a influência, térmica do sol; a pulverização
da . água^.através ;de,bombas especiais; a abolição do trabalho ikh
tumo-e, .gobretudp, .a.in£tal£çj|q.'de “ bons consultórios médicos com
profissionais à testa bem remunerados” .
A mesma lógica do discurso médico aparece nas reflexões do
dr, F„ Figueira, de Mello, relativas às condições de habitação do
operariado. Insalubridade e falta de higiene só p oderíam nrndii7Ír
mdl yí duos . o que sianificaviscum"
.alto custQ. veconoin^.;^aQdialp^a. a nação:

O homem sendo o produto do meio, qual o que poderíam gerar


estes*covis que são atentados os mais revoltantes à nossa civili­
zação e ao nosso progresso ( . . . ) .
Neles hãò pode haver espírito sereno e alegre* alma animada dos
sãos intuitos de, progredir, desejo salutar de aspirar mais folgada
situação, nem propósito de obediência e ordemj morando ò ojperá-
jiotnesSesfèortiços,. sendo pelo conírério^ mais natural, que % escuri-"
dão :,daS; álcovas reflitaí-se em sua alma, gerando a maldita tristeza,
mãe das revpltas, p^ldutora dos crimes, impulsora do alcoolismo
e dos vícios.29

Nesjfes discursos,a idéia de que os gastos, despendidos na ins­


talação „<}e novos aparelhos de salubridade nas fabricas e nas habi­
tações] assim cdmo na mecaHiZaçãõnde certas^atividades manuais,
PT-xkrT^Sunênto dcT trabalhador.
na da higiériizaçao
.dy cò n d lg p es
ç & HoIÈSo^ambiénte seria. <:a uhMjETpraíü bafa*
OS patfões; ppis pro.duzjrjaenifI p ^
ç-ontro
w m s n F s w m : ÕsTndustriais poderíam con­
trolar mais eficazmente seus empregados, ou mesmo redefinir as

29. Francisco Figueira de Mello, “ Habitações coletivas em São Paulo”, in:


Boletim dmiSoefêâüde de Medicina e Cirurgia de São Paulo, vol. IX, 3.8
série, junho de 1926, n.° 4.

45
normas ,•de funcionamento; da ilábrica, -Ao
%de produção, mestavperspeetiva^Areduzida anum prdítemt" téctóeo
que os espeQÍalisías..deye:riam.^m!ar&f>ulár ;e r e s o l y e r ; - ■*/
Neste mêSmo péifíodo, re;defínè-’Sè' òLcãfríp‘cf ci*e átuá^ÔJã^s'mé-
dicos sanitariãtasi segundo" a ú o v a lhfiuên'ciav*dã escoIèF^rTé^atííé-
ricaiia, expressa pela figura dè Gèfóârldê H."de Patilá' Sôíizã*;’ iQriti-
cando as pMticasyaíitoritáriâS' do" péríodò •enKqiié' ‘ E M iò TRIM'S ^di­
rigira' o Servi‘ço -Sanitário dojEstado -de-São^ Paulo1, :ó ‘ ndvo“ diretbr
defendia ar teseisègundo -a* qual a' afUaça#inéêieá^f*rerifè; à pójftílá-
ção pobre deveria visar a- coWs6ie‘n tizap o rfd6 indiVídud, éfèfivada
a partir da criação delGfentfOs-e^ postos-de; saúde/. ReòPgáríizándo o
Serviço Sanitário,-Paula Souza determina a substituição das cam­
panhas autoritárias de effadiéaçãoMas- doenças pôr Um trabalho co­
tidiano; e permanente de ifêedueapo e de âomeSticápo dos hábitos
da população, aliado ao saneamento ambiental .30 As -concepções
que informam estas transformações das práticas sanitaristas devem
ser registradas.' ':J
Substituindo a teoria dos mia,snia£ .a 'tepxia; pasteuriana; dos
germes indicava que a doença,não,,prqvinha ,.fiindam,entalmente dos
pontos concentrados de- sujeira, mas poderia -emanar de qualquer
parte: assim, todo indiv:íduo*se tornava suspeito, aparecendo como
um portador em potencial do micróbio. A: ameaçar do contágio po­
deria estar em toda parte. Veremos que a mesma* representação da
virtualidade da doença, física ou moral, %*termittá"-á reorientapo
dos poderes públicos e dos industriais em reláçãò^ifóÇãê^flê cri­
minalidade. A atuação dos médicos higienistàs ou da polícia deve­
ria recair'sobre toda a populapop emAespeciál ds* jfobrès, e não
localizar-se aperiás sobiVôs' fócfos' âe vcorfíágio7 ou ipcidlr exclúsiva-
mente sobre criimnosbsnjá ícbmprôàadòst':
yÁA ■■ . « 5 * » '* '' '
Assim, toda umaPredefimcao i Bjri "loralizaçac
^..-£«3331
nolétariado pode “ser jpejcebi(JàcenÇjbive^^
social, segundo" úmâ’'
cia, da tecmca e do progresso. Fim -daaera da aispiplma m|||ar-na
fabrica, fim das punições c o e r^ tiv a | ^ egj^la, Jipi va-,
cinações obrigatórias,
registro- defihe os códigos de pond^ta^aponta npvos, smg|^ cje, in­
vestimento do poder, segundo uma4lógica que se pretende “ cientí-

m:
30. Emerson Elias Méhry, .A Emer^ênciandàâ^WMH'cas^Sàniíáriàsrino
de São Paulo. Tese de Mestrado, USP; pp. Í08-9I - * *. * %•«

44
j|jaderna ;e, constituída acima dos interesses particulares das

: E s ^ imodifícafiov das :tecn®iogias> disciplinares pode ainda ser


percêHeFa1 nos novos procedimentos de vigilânc.ia^adatados--na- ínte-
nor"(?a"'fÍbrica. fí de acordo com. esta lógica que os industriais têx-
teisi órgardzados, no CIFTSP, .introduzem o sistema de identifica­
ção “ científica” dos'Operários, em substituição à antiga identifica­
ção policial5Obrigatória, “que representaria talvez aspecto de vio­
lência” , irritando'ainda mais os empregados, (circular n.° 38, 1921).
Já>. de^algum tempo os patrões vinham se preocupando com
a questão da "“ repressão aos roubos de peças” , praticados nas fá­
bricas* têxteis,, ato que .percebiam-como resistência política dos tra­
balhadores à exploração do capital. Na circular confidencial n.° 39
enviada aos industriais associados do CIFTSP, o.secretário-geral da
associação ^patronal, Pupo Nogueira, informava;
k
/ O nosso venerando. Presidente, tão pr.oíundamente observador,
\ chegou à conclusão, de que, para os nossos operários, im b uíd o s de
idéias novas e inquietadoram ente ousadas , o roubo já não repre­
senta delito: o ro u bo , 'o fu rto , rep resen ta m tributo pago à fo rç a
p elo pàtfãò. Quem retira das fábricas, sub-i'epticiamente, um objeto
qualquer^'retira a sua parte dé lucros e, ou muito nos enganamos
.o u -ls to é -comunismo en h erb e (C IFT S P , circular n.° 39, 25-6-
1921, grifos m eus).

O ríbvò' sistema de enquadramento dos têxteis apresenta-se co­


mo método de “identificação científica” , procurando com este ape­
lo àlnoÇãlPdê ciêficíâ j t i S i Ç a í ^ ‘i^mb ’necessidade objetiva do de-
serivoiviínênto iíidugtríal. Si^undo *este.uQarabal.hador.^teria...uma fi-
cha cont^idi sétis dadò&pessoáls ê> uma fotografia na fábrica em
d l^ ^ m ip a v a ; Ü vin cB B tm r,g 5‘/

eerco còmp-lètò sobre ò operário,


. . as portas dÓ^mercãdò o -pressioriando-o )

í m-
* ■ qpalquer, dpsi -,srs.. associadas,. quiser livrar-se de um
'a8 i t a t ^ m fe^ is^ erci, fazer do; s.que; {cpmuniçar-se ■com este
Centrè è’ o Centro providenciará imediatamente no sentido de ser

45*
io elemento perigoso afastado dir fábricay
A sua ficha será comunicada às fábricas'-' associadâs,wÍM‘'e ‘ífüÉ^sè-
jfará com os ladrões ( “R e p re s o aos Roübds-^ Furtes’’; p. 2,
grifós meus).

: ínicialmente, o fichamento dos operários deveria ser feito pe-


lp próprio CIFTSP e pelos patrões ^em; cada fábrica;*aosipoueos, as
despesas acabaram sendo custeadas pelo próprio trabalhador, à rae-
didá que esta técnica punitiva foi sendo institucionalizada. Nesse
momento, seu conteúdo passou a ser mascarado de maneira mais
sutil e totalmente invertido, apresentando-se com sentido . contrário
ao óriginal, õu seja, como garantia e benefício ao trabalhador e
não como expressão de uma estratégia que visava discipliná-lo den­
tro da fábrica. . '
f \A resisíând^uanerária contra a introdução do fichamento pes^
soalj não' tardou a explodir. A Pl&be, de 31-10-l^Ú^L-demmciava
) esH H n ^ jcomo^uma ..humilhácaò vefgonhosa
lv para o trabalhador, tratado como um criminoso1qualqüer:

Até agora a polícia identificava jtpenas os criminosos de crimes


de certas gravidades, e os anarquistas, que são ã eles equiparados;.
Agora, para a polícia, ser operário é ser-suspeito, é ser quase
criminoso. ( . . . ) Isto é uma infâmia contra a qual ,é necessário
que os trabalhadores se rebelem, Do contrário, a moda pegará e a
medida se estenderá a todo o Estado, quiçá todo o Brasil.

; A crítica operária jeyidencip ; $a


representação imaginária do criminosq: se, num pripiei.rocmojnepto,
a npção de culpaé^dade designa^# indivíduos^ que-ítia^i^mT.çon|f|ti-
do alguma falta grave, como assassinato õu roubof, e demandava
uma ação policial estritamente repressiva, agora fodps os -indivíduos
passavam a ser considerados comp^elementos . potencialmehte* peri-
gosios, 0 que exigia uma açlo- conjunta preventiva^ ppif^parte do pjD-
der. Qualquer operário aparecia como um *Gíin|inçfso em^potépciaj:
o que estava em jogo já n|p era o crime praticado,» .mas»
dade do ato. Portanto, todas as medidas possíveis-de,prevenção .ao
comportamento desviante deveriam ser tomadas pelos poderes ins­
tituídos.
; Os opgxáriQs. reagiram violentamente,8tahtoi denunciando 0 sen-
tido do novQ._mét®áQ~dZcnquÍdrameitõ~di -:..- *'

46
•®:;ob|ètiv©;-.de&tai Medida, consiste em impedir a introdução 'de
.grevisfàiC^de/outras fá^rieasyK os quais não conseguirão trabalho
. em , parte alguma, porque ifeáps os patrões distribuirão entre si
“listas negras” com os. nomes dos operários demitidos, em ocasião
de greve (A Plebe, 1 5 -1 0 -1 9 1 9 ),

quánto recusando-se a ,§^ g m -fotografades7l:Q m cL.inform avam cau-


jA losés-xis^ ^ em circu lar con fid en ciaT ^ d ol^ rFT S P ,
de 2 2 -6 -1 9 2 7 . . ... ■
Ainda em-julho deste ano, os canteiros irrompiam em greve
protestando ■■contra a ■; wmmmmmwmimm
ww '**. S .mfwmhf CIMPll
<U
curiosa,. inovação que . os patrões pretendem introduzir, exigindo
que os operários sejam, portadores de um cartão de identificação
fornecido de um burguês p ara outro, catalogando, assim, os tra-
‘ balhadópesr^rwnm '“Se^foMefntruma mercadoria qualquer (A Plebe,
1 4 -5 -1 9 2 7 , grifos m eus).

A .despeito da adesão unânime dos industriais ao sistema pro­


posto por Pupo Nogueira, as e^pdlsões e demissões dos “ indesejá-
yeis” prolõngám.;se .por'ítpda-.a dé.çada dè 20r atestarído sua insubor­
dinação .lios métodos repressivos da burguesia industrial: as listas
s^spee^em .indicando demis.sões por roubo.de peças, boicote, saho-
t|gem, destruição de materiais, infração das normas disciplinares,
greves, etc.

O controle da fábrica: os anarquistas e a auíogestão

: Se, pelo la-do dos patrões, o ■período.que vai de 1918 a-192^


'” Bfocedimentos de
S mtfttzaGãokda.trabalhd^aüe.,ameiaAwa, as' ntsegggTtercttncigr
de.^éerêiW êkdedmrogressor^ophiiurandoi um ibroieto^
rST^Sõya ^ábriáà^^^^iõ^tlQ^ llis^oéS^H èirT^itensificagão das
formas*de r^èisféMiá áponfampara‘qlWta^éld controle do "prÕce&sa.dê

do moyimfiata-Qpftr4an.=fl -questão:: da tomada .das fábricas e da-ee*.


organização,-do processo produtivo. neste momentCL-Mstóiico 42IÊ*1
CISO*.
A proposta alternativa: de uma organização autônoma das re­
lações de trabalho aparece, na verdade, desde os primeiros núme-

47
ros da imprensa-anarquista. Mesmo que difusamente; os ‘l ibertários
propunham ’a .edificação da nova speiedadfe a^pártir^dj^ánsj^rm á--
ção da- atividade^ecoii^thiea, dg-r^ á p t W p r k ç ã o ' rfcjue-
zãs "naturais e Sbciãis^^a^aSotlr^^der-rodo poder•politico; susten-
'tóH llo~3r^m inagão de classe:" J'' '" "' '' ' *

( . . . ) é preciso abolir o princípio individual da propriedade das


riquezas (. . . ). Todas as gíãndes e pequenas empresas de produ­
ção., que são exploradas por proprietários tendo por fim !os pró­
prios interesses,, devem ser i reorganizadas por- comissões'papular es
tendo ;por*mÍEa, «exclusisameBit©,. as necessidades do povb (A Terra
JUyrgitt 6-Jfl-j

Expondo ''As vantagens dá revòlueão sócia T*. o anarquista Lu­


cas Mascolo imaginava a sociedade' do futuro como aquela em que
os meios dé droducão :seriáni:io cla í^ á d ^ ^ à 'pr6^ddãB''::seria orga­
nizada pelos próprios trabalhadores; a p l b ^ a sèr^ elirtiinada iun-
tamente com as guerras e outros, problemas -sociais; uma série de /
trab
_ ■alho
"iflfrW
Mgw
m^^M
»— dÓ
w —nu,T
„■ áiós ^Tfripfróduf^
----lri»-ii-Tr-f—
--»frim
l,i('---.'---rlr|T
| -* ' .*
seriam j^allzadòá:.PÓr empresas públicas cóleüM ^dás;3 às correnfelr
dos rios, o vént-o,-a- l u i ^ O^iol, ás ‘nquézas mineMiF^5d^nam>T's&r
transf o rmados
dutivas. Os próprios produtores diretos seriam os únicos capazes
de realizar as tarefas de execução e as de' concepção, já qüé so-31
mente eles conheceríam de fato e na prática a realidade'*dà pròdu-
ção: aí, a possibilidade de superação da divisão social do trabalho,
instaurada pelo sistema'capitalista’. ^ 1 m .

31. Assim como os marxistas, os anarquistas partem, de uma^ tnadfção inte­


lectual comum e recolhem tpda uma Jdeaüzaçjão,utópica ?da sociedade ante­
riormente formulada. Enf- Sáfnf-Simor^[expressão'maior 'dá ínspiraçãosoció-
lógica que se difunde na Europa, nas-primeiras décadas do século'XIX,
Proudhon e Marx, encontram grande parte ’das 'formulações-,que .constituem
suas problemáticas. Os três pensadores, refletem ;no interior de um mesmo
universo intelectual, debatendo questões que lhes são comuns, emboç^ lhes
dêém respostas diferentes; A "concepção dá sociedade como um sistema coe­
rente, passível de ser conhecido eientificaménteí vcomo um tdfiò'^ganido
constituído pelas;relações sociais é - que\se"OpõeííaO>Estãclõ; -pòdêr'!àútonqírli-
zado; o poder revolucionário das classes produtoras; „a necessidade.,da trans­
formação social a partir da reorganização dã vida econômica e a decadengif
do Estado, temas de reflexão tanto de Marx, quanto de Proudhon, pnscre-
vem-sè nafcoristéfôçãondàs preocupações saint%imbhiánâs'. Ve/'ÇièWe 'Ansart,_
Marx y el Anarquismo. Barcelona^ Barrai, 1972; * ‘ *

48
Npíf.ntanto, se 119s anos 10 os libertários anunciam a necessi­
dade da-ífoEmaçãoi de "comissões populares’', que deveríam gerir as
) pequenas ^.grandes, empresas ^pando unicamente a satisfação dos
interesses do povo (A Terra Livre, 6-1-1910), é em especial entre
os anos de 19,18 a 1-922 que surgem vários artigos na imprensa
anarquista, .enfatizando a importância da constituição de formas al­
ternativas de :poder na fábrica.
Em 25-9-1920, A Plebe publica o artigo intitulado “ Aspectos
da luta de classes”, em-que se propõem estratégias de luta cotidia­
na a serem:travadas,,no âmbito dá .produção, culminando na forma­
ção de. com itês de fábrica pelos operários de cada unidade fabril.
As organizações instituídas pelos trabalhadores ingleses eram vistas
como um.princípio de expropriação, “ uma limitação real do direito
de propriedade ( . . , ) que conduz naturalmente à formação do co ­
mitê. de oficinas", 0 qual se encarregaria do controle -da adminis­
tração e então^a ocupação direta das fábricas, “ como fazem neste
momento os operários italianos’’, referindo-se aos movimentos con-
selhistas de Turim. Ao controlarem a administração da fábrica, os
comitês colocariam 0 produtor direto em contato imediato com to­
do ò mecanismo de funcionamento da unidade produtiva. Deste
modo, cada trabalhador podería inteirar-se progressivamente da ati­
vidade de direção da Indústria, capacitandorse a substituir os espe­
cialistas, burgueses .e. realizar a expropriação final. Nesse sentido,
os anarquistas propunham a reapropriação de um saber que lhes.
Ip ra foubâdó pela gerência científica:

Uma outra conquista realizada em parte na Inglaterra e nos


Estados Unidos e a que já nos referimos, a fo rm a çã o de co m itês
opérários nas oficinas e nas fábricas para o controle da adrninis-
• tfaçõoy teirtvuma consequência ainda maior,
"- pfodütor èm -contato direto com o mecanismo da
segredos da administração das indústrias,
. o : interessa*© ná sua marcha e coloca-o em condições de dirigi-la
;;^após,.ja expropriação final ( . . . ) .

'm'«viOumíféçp tece uma crítica contundente à hierarquia despótiçá

Í
irfereritejaor*processo capitalista de produção e que se reproduz até
mesmb-nd interior.de um mesmo ofício, criando uma “ hierarquia
dpbfdpç%s'h^Q9ítcfui-que. este procedimento resulta de duas con­
cepções fundamentais na ordem burguesa: de„um lado, a idéia de
qüe seqv autoridade, hierarquia e mando' não pode haver disciplina

49
e organização. De outro, que o trabalho deve ser remunerado ;se-
gundo a. importância de cada ofício e a capacidade dê cada um.
Prosseguindo em sua crítica, demdistra como esta situação vivem
ciada no cotidiano pelos operários visa dividi-los, na medida em
que se pautem por valores ditos universais, instaurando uiha con­
corrência ferrenha entre aqueles que deveríam solidarizar-se. Mas,
aç mesmo tempo, o artigo revela a preocupação do militante anar­
quista em fazer com que trabalhadores de vários ofícios se identi­
ficassem com a figura desqualificada e expropriada do proletário.
Certamente, a valorização do ofício não era apenas uma imposição
ideológica dos dominantes, mas uma afirmação pessoal do trabalha­
dor diante de sua atividade.

/''T ( . . . ) Esta situação cria e mantém na mentalidade operária essas


/ jdéias e contribui para dividi-los e atirá-los uns contra os outros,
\ pficio contra ofício, profissão contra profissão, classe contra classe
\ è dentro da mesma classe, da mesma profissão, só porque há uma
I iniserável diferença de salários, o que m arca a distinção hierárquica,
(um. indivíduo contra outro, tornando assim impossível a solidape-
/ Idade entre os explorados para maior segurahçã dos exploradores.
( Notem por exemplo a diferença entre ura lindtipista e um tipógra-
”\ jfo; entre este e entre um fotogravador. Avaliem bem ò orgulho
j com que olha um decorador para um pedreiro e esté pára seu ájú-
I jdante. E donde vêm estes sentimentos? Que é que o s 1cria, que é
I [que alimenta tantas distinções? Á diferença de sa lá rio s ,p o ss ib ilh .
[ [dade de maior ou menor conforto e a noçãò decorrente.çfé que? há
j (profissões superiores e in fe rio re s ... (A Plebes 2 5 -9 -1 9 2 0 ).
Vi •
I Dois pontos parecem.fundamentais: primeim- a .percepção
aguda de como os dominantes se utilizam de mecanismos jsutis que
Instauram a divisão no interior -darmépFia- ^ S iii^ ã B ã B ^ c E ra, ins-
'dfeyendò 'uma linha divisófia que èlemèntd#.de pro-'
fissões diferentes. Segundo: a denuncrà; de aue'a diferenciacao sala-
riaí j constitui outro dispositivo estratégico do-poder visando imjpê-
dir |a articulação ã o s ^ S a nosTpolS li i i ^ ^ ^ ^ e sp ^ ^ W cittq o r-
rência e a luta.p ò F ob-jetivos estritamente pessoais. Assim, questio-
na-se o argumente amplamente dífundidc) de que a diferenciação
dos salários obedecería à lógica neutra e impessoal do. mercádÓ, di
monstrando seu conteúdo político e não técnico.
: Como alternativa de luta contra estes mecanismos sutis da do
minjação burguesa, propõe-se no mesmo artigo:

50
f j Dué^se pcganizèm un iõ es d e indústria ao invés de uniões ou
\ ginâiçatos d e ofício. QueTlléntro de cada indústm se equiparem
/ o so fício s, reivindicando pafe todos igual salário, Que dentro das
J fábricas e das oficinas a adm inistração interna seja dirigida p o r
I com itês eleitos pelos operários substituindo a o rd em hierá rqu ica por
l um a disciplina voluntária (A P leb e , 2 5 -9 -1 9 2 0 , grifos m e u s).

I A constituição de organismos operários de gestão do processo


jprodutívõT ivãm à^^'^boiiçaõjdã^^ do trabalho. À su­
pressão dá Bifêrenciação dos salários desênyõívenã na mentalidade:;
d'Q'f'ribaífiidor a idéia da justiça social, ou seja, a compreensão do’
princípio: “a cada um segundo suas necessidades, de cada um se­
gundo suas forças” . (“ Problemas da reconstrução” , A P lebe,
1 ,°-4 -1 9 2 2 ).
Em “Métodos de organização operária”, também publicado
por aquele jornal, o autor visualiza a formação em cada fábrica,
navio, oficina, etc., de um conselho de fábrica, que .teria por fun­
ção a administração da .unidade produtiva, resolvendo todos os pro­
blemas emergentes. De cada conselho de fábrica sairia um repre­
sentante, eleito pelos operários, que se reunindo aos outros forma­
ria ipn conselho de indústria, pste, por sua vez, elegéria um dele-
. g.a^p.iregipnal de todas, as indústrias, que formaria o conselho exe-
cutiyp. Em çqda bairro ou localidâde, se .constituiriam com itês d e
relações distritais, voltados para a propaganda e educação. Os car­
gos seriam revogáveis e todas as ações dos delegados de base deve-
riàm .sercòntrôládairpela base:
-f
( . . . ) Gomo medida'necessária à salvaguarda da autonom ia do
trabalhador, .todos os délegàdos o seriam com mandato imperativo
e neáhúnia . resolução seria, executada sem referendum dos organi-
v zaãqfp^ l ã fábrica, da "indústria ou.de todas as indústrias .conforme
; fqssevess^ resolução dé interesse particular ou geral (A P le b e , 1 .°-
. 4 -1 9 2 2 , grifos m eus).

Á autoridade,.e a, mecpssidai^ técnicos capitalis­


tas ou “comissários do povo” r— são questionadas nos. artigos cita­
dos, denuneia'kdo-se sua função meramente repressiva, isto é, de
vigilância e controle sobre o trabalhador, impedindo que se orga­
nizem eontra-poderes alternativos no interior da fábrica, jeguip
do os anarquistas, por serem os operários os que produzem e os
"que vivenclim ^^ da produção, a eles deveria caber _a
direção e a administração do trabalho' organizados em' conselhos

51
de fábrica ou em outras formas descentralizadas de poder. A expe­
riência da Revolução Bolchevique, com a supressão dos sovietes é
invocada para apontar a necessidade^de se ‘‘tomâr outro caminho'’:

( . . . ) É preciso' que cada operário Conheça tão bem oü melhor


que seus patrões o rriecanismo complexo da produção na industria,
em que trabalha.
Se se organizarem conselhos de fábrica, órgãos de combate sobre
a administração das fábricas que este. seja escolhido como o meio
v ■ ’..mais adequado às investigaçõesi desta natureza. ( . . . ; ) ;
*•>;. Conhecedores da .capacidade atual da produção do país, do
1 estoque de mercadorias existentes e dos meios de .transportes utili­
záveis; tendo o preparo técnico necessário a pôr em movimento
as indústrias terão os trabalhadores adquirido uma das condições
necessárias para construir, a sociedade nOVa ("Problem as da re­
construção”, ^ Plebe, l .° - 4 - 1 9 2 2 ) .

Vale atentar para a importância de .Urna proposta que questio­


na a valorização hierárquica dó ofíclóV instituída pelo irriâginário
burguês, num momento em que o taylorismo ainda não tiiansformá-
rá a estrutura da indústria no país e em que bs operários ainda
mantinham uma certa margem de controle sòbre o processo produ­
tivo, em alguns ramos da produção. Ou seja, propõe-se o redimen­
sionamento das estratégias de luta a partir de uma Outra represen­
tação da atividade do trabalho. rAo invés da identif-ícnçãn db'"trn-'
balhador com a função, que lhe é outorgada dentro de uma hierar­
quia definida pelo imaginário social’ pela bázão técnicâ, süge-
re-se a equiparacão"Vãlãriardos ofícios e a umao dos operários errf
f il S ^ O i l S l a l c Õndição de explorados pelo,capital. L|mJ>re-se que
antes da reorganização tqy lqris,ta..pA p h d Ç t í S H U , , tra*
balhaüores valorizavam ie aeiendiam sua, plIOÍiSiáSTrrf urganrzauálnff^e
em sindicatos clexofício. alie^pronuray^nxia^pha^siia,jÇArgem^de
interferência sobre, as relaçõesde~trab alho. Von isso;me|mo é que
s”erão intr o d ^ id a ^ fo ^ ik a r^ ^ fõ a u c ã o T d S
qualificando radicalmente .o c.trabálhahe^ro^cancioiio descofiteffb-
j nentcT e a résístência^osv operátiog..em^ tocha. parte!^Á o ' ^
hierarquização das .profissões''instituída^ pelo imaginário,- burguês.,
e que resulta na divisão competitiva entre: os,trabalhadores, prõpõe-
se a união dos operários em sindicatos de. industria, em;substituição
aos sindicatos de ofício, neste início da.década de.2,0’..©s anar
procuravam mostrar as fraquezas da estrutura de ofício;:do sindf
calismo brasileiro e incitavam os

52
> çle J u t a,, num momento em que a organização da indústria-sfLjno-
b dernizaYâ^aeentu adamants'. ”
Processo semelhante parece ter ocorrido em outros países. Os
operários norteramericanos advogavam a substituição dos sindicatos
de 0fÍQÍpítP®los de industria, como resposta à reorganização taylo-
rista.-do-proGesso de-trabalho, nas décadas iniciais do século.32 Este
momento histórico assiste, nos Estados Unidos, ao confronto entre
patrões e Operários qualificados pelo controle das relações de tra­
balho' nò âmbito da. fábrica. Os primeiros desejavam limitar a j
autonomia dos trabalhadores ,e intensificar o ritmo da produção j \
Os segundos' questionavam a forma tradicional do exercício do /
poder simbolizada pela figura do contramestre e sua perda crescente (
de autonomia dentro da fábrica. É neste contexto que surge o 1
taylorismo como estratégia patronal para quebrar a.relativa margem \
de autonomia que os operários qualificados detinham no interior )
da produção e a crescente força do sindicalismo americano. —
Enquanto os sindicatos defendiam, desde fins do século X IX ,
fdê Os: Contratos de trabalho fossem negociados de acordo com
'sitas exigências e, nesse sentido, que os salários fossem fixados
por categoria, Taylor e Henry Gantt propunham a individualização
dos pagamentos e que as tarefas e os rendimentos de cada traba-
Ifíadõr fossem avaliados separadamente, instituindo-se o salário
por peças, tão combatido pelos sindicatos operários.
No Brasil, se o sistema de Tavlor só é introduzido plenam^níe
na .indústria na década, de 30, desde a década de 10 estavam ocorr„„
: -8 f , ■~.•' --- T-------- r -- ------- “J=:"
rendonmldancas'''Trgfniicativas em vários,.ramos da produção, no

este! movimento, os operários, influenciados pelos


^anafeo-sindicalistas,! desenvolviam ampla luta na esfera da produ­
ção. ^Boris Fausto fornece algumas indicações sobre as resistências
trayãdas contra a introdução de novas máquinas, provenientes do
extêidor, na ferrovia (Dia. Paulista, no final de 1905, e que resultam
na/greve de 1906. Entre as queixas dos ferroviários, a Liga Operária
de jundiáí apontava a redução da jornada de trabalho e as demis-

,3‘2. Davdçl ;Mpntgomery, W orker’s Control in A m erica. Cambridge Univer­


sity Press', 1978, p. 114.
3*3. Edgar 'S, de Decca, “A Ciência da Produção: Fábrica Despolitizada”,
in: Rhvista,Brasileira de História, n.° 6, Rio de Janeiro, M arco Zero, 1984.
p. 69 e ss.

53
w
soes jprovocadas pela introdução de ufti-a .•teenolbgijá'Gápi€âMnfén$tygi
a desvalorização da atividade profissional, a ifttGhsiftoáçSO'ifovtfafto
do trabalho e o congelamento dos salários. Os trabalhadores recla­
mavam contra a desquàlificação de suas profissões: 0 maquinista
executaria o trabalho de um foguista, este o de um limpador de
máquinas e ambos se tornariam simples carregadores de carvão
oü limpadores de lixo.34
Em 1906, no Rio de Janeiro, os sapateiros;lutavam para que
o código de ética profissional defendido pela União Auxiliadora
dos Artistas Sapateiros fosse respeitado. Este procurava impedir o
"aviltamento da ‘arte’ ” , assegurando um certo grau de controle
sobre as relações de trabalho. O regulamento da União estipulava,
entre outros pontos, os seguintes artigos:

Art. 3 .° — Não coser obras de outras fábricas, nem ter em


sua fábrica operários fora da oficina, salvo acordo feito cçm a
União. *
, Art. 4 .° •— Só dar trabalho aos sócios da União, de acordo com
a Comissão do Sindicato.35

Em 1909, os sindicatos da construção civil de Santos. conse­


guiam que os patrões reconhecessem suas entidades de classe,

tendo obtido deles a garantia d e . que somente os trabalhadoíres


Sindicalizados seriam contratados! a permÍs§ão;p a r a ”Séíecádnar life
(fiscal em cada canteiro ou oficina, ,eydtar qufe os furá-grbfe fossem*
admitidos e permitir aos ò^arázakf&ès «dô: movilniftlo' íivair adiàiítè
a sua “propaganda” durante o trábalho.36 1'

O sindicato dos gráficos cariocas também procurava manter


algu|ma margem de controle sobre ás relações^éi trátóhbdexigindo
que (só os sócios da associação fossém admitidos icofflo empriégádòs?
inctjmbindo-se de garantir o fornecimento da (força de trabalho
necessária, acompanhada “ das respectivas tabelas dé ordenado” ;
asstimindo a responsabilidade de resolução de? qualquer conflito
entre industriais e empregados, tentando impedir que os conflitos

34. Boris Fausto, Trabalho Urbano e Conflito Social. S ão P au lo , Dlfel, 1977,


p. IÍ6.
35. ijdaria Cecília B. Neves, op. cit., p. 52.
36. Sheldon L. Mararn, Anarquistas, Imigrantes e o M ovim ento Operário
Brasileiro. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1979, p. 52-3.

54
f^s^m^'tósoÍ^(áps,individualmente entre ambos; e, finalmente, pro­
pondo-se a organizar

uma ativa propaganda para o levantamento moral e artístico da


classe, por meio d o sèu Órgão oficial, conferências e publicações
educativas, criando, também, uma oficina própria para o ensino
técnico 6 escolas de português e desenho (A Voz do Trabalhador,
1.*-6-1909);

O elevado numero de greves desencadeadas no setor têxtil, no


/ entanto, e suas respectivas derrotas revelam a intransigência do's
’V patrões no caso dos ramos industriais em que o trabalho era des-
^ qualificado, possibilitando jogar com o emprego maciço da força
j de trabalho feminina e infantil. As iniciativas patronais visando
/ reduzir a capacidade de pressão e de intervenção dos operários
f contra a crescente exploração do capital se fazem sentir tanto pela
\ introdução das inovações tecnológicas, quanto pela constituição de
seus ’Órgãos associativos de defesa. Em 1917, convoca-se uma assem-
! bléia da União dos Operários em Fábricas de Tecido (UOFT) do Rio
I de Janeiro para discutir a, crescente substituição dos trabalhadores.
masculinos pelo -emprego dê mulheres é c ria n ça s Reclamação, aliás,
constanfB“na'iiTipTêrisa operária, e que denota a progressiva des-
qualificação que sofriam os operários, mesmo nos setores mais meca­
nizados'como* o têxtil, ao lado dapréocupação moral com a explo­
ração d o trabalho'femiriirici é-i&faritih
““ É clarp que a constatação' da existência de uma proposta de
controle operário das fáb riça^ ã .exemplo do que ocorria na Itália
no período,- não é suficiente ípara : demonstrar a dimensão de sua
penètMçã©‘:na 'classe eperária. Os dados fornecidos pela imprensa
anarquista também riãó? nos levam a conclusões mais avançadas.
Atestam, no entanto, a colocação do problema pelo movimento
opéráriò dá época e as; tentativas esparsas de constituição e de
reconhecimento destes cõntrapoderes na fábrica, ou ao contrarie
a intenção de silenciamento e’rde súbsunção destes organismo ■.
seja pelos sindicatos seja pelos patrões.
Dentre os artigos publicados pelos jornais anarquistas refe­
rentes à Tórmação de comissões operárias de base, A Plebe, de
16-10-1919,"'fornece algumas indicações. Noticia a ocorrência de
uma asseríiblèíá realizada pelos operários têxteis durante uma greve
na fábrica Jaffet, em que reivindicam, entre outros pontos, o re­
conhecimento de uma comissão interna e da União dós Operários
em Fábricas de Tecidos. Alguns dias antes, o mesmo periódico
publicava trechos de uma carta do Cotonifício Crespi, dirigida à
UOFT, em que os industriais exprimiram suas resoluções diante
da recusa dos trabalhadores de aceitarem as imposições anterior­
mente formuladas. Num tom paternalista, a empresa respondia que:

Dada a forma como foi redigido o artigo 4 .° dè dita sua comu­


nicação, não deveriam os. ter dado resposta alguma, mas para de­
monstrar a nossa boa vontade para com os nossos operários (. . . )
comunicamosrlhes quanto seguem ( . . : ) Pelo que diz respeito à
Comissão i n t e r n a precisamos saber quais as atribuições e como
foi eleita a mesma.
Repetimos que os nossos operários ficarão livres dè reclaríiàr
perante os seus superiores e, em. último caso à' gerência, seja
individualmente ou em comissão entre si escolhida em qualquer
ocasião e. para qualquer assunto. ■ •
Cotonifício Rodolfo Crespi (30-3ri919).

A UOJFT, neste momento, não :estaya sob controle dos anar­


quistas, embora contasse cora seu apoio. ..... .
A P lebe, de 30-9-1919, registra ainda , o mesmo, processo de
formação de comitês de fábrica em outros estabelecimentos, pau­
listas:

Na sucursal da M ooca, presidindo o cam arada Antonio Ealelli,


o. pessoal da fábrica Labor escolheu as suas comissões internas e
tomou importantes deliberações. ( . . . )
Às 17 hòfas reuniram-se, ná mesma sede os operários que tra­
balham na fábrica de seda Ítalo-Brasileira, para nomear òs com ­
panheiros que faltavam pára completar a comissão interna de
fábrica e discutirem o modo que deviam proceder com os com ­
panheiros que ainda não são sócios da União ( . . . ) .

Nas negociações entre a UOFT, fundada em agosto de 1917,


e os industriais, que se realizam em setembro de 1918, estes, lide­
rados por Jorge Street, reconhecem a existência do sindicato têxtil,
exigindo em troca que a UOFT. fizesse “cessar a ingerência dos
delegados de fábrica, que havia se tornado intolerável, e era de
fato um ponto básico sobre o qual não havia transigência possí­
vel” . Também o sindicato dos têxteis, de linha moderada, procurava
estabelecer relações de controle sobre as comissões de fábrica exis­
tentes nas indústrias do ramo, que deveriam, subordinar-se a ele.
Segundo o jornal O Combate, a diretoria da UOFT declarava que:

56
A U n ião n ão aprova nenhum ato de indisciplina que se verifique
dentro das fábricas (p raticad o ) por operários e também, não aprova
aqueles que incitem outros para a paralisação do serviço. Para os
que. assim procederem , a U nião intervirá com energia, tom ando as
nédéssâfias-m edidas para fazer-se respeitada em benefício da classe.
O nosso program a é bem definido: conseguir o m áxim o bem -estar
p ara os trabalhadores. . . As Comissões Internas não elevem absolu­
tamente consentir que o trabalho .seja interrompido, sem prim eiro
a União haver autorizado essa medida, da qual só se lan çará m ão
quando se. tratar, de um caso de im portância e que não possa ser
resolvido p or negociações e discutido em Assembléia G eral, nas
sedes da U n ião e da sucursal.*37

A sreferências à constituição destes organismos alternativos


de poder operário são, no entanto, escassas-nos jornais anarquistas
pesquisados,. i;eferindo-s.e ao período de 1918 a 1922 e à indústria
têxtil’ paulista.*£)e qualquer, modo, os artigos apresentados nos' JJ
jornais operários revelam que a questão do controle do processo//'’
de ^a^alhp não estava ausente do conjunto das preocupações dos jP
traí^Jhadpves, não justificando sua total omissão nas produções |
aGad|mica,S:‘SOÍ)re o movimento operário brasileiro. ^
No entanto, a questão do controle operário do processo pro­
dutivo não passava,-neste momento histórico, pela crítica da tecno- '
íogia eni'Si. ’Dotada de’ neutralidade, a tecnologia capitalista ainda .
nãò; era represérftadà como a contrett^àeão de um saber produzido
pela luta de classes, da mesma fòrmá que não se questionava a
ideologia dò trabalho, como hoje fazem os operários não identifi­
cados com. unia atividade totalmente mecanizada.38 Tanto quanto \
marxistas e socialistas, os anarquistas participavam da crença no /
poder libertador da técnica, instituída pelo imaginário burguês. (.
A ..questão da .apropríação..,.dmiábjdca e da reorganização do pro^ f
cesso de produção r.effiÉia*se--.à^destruição... das funções diretivas \
da..diferenciação sa 1arial~J5~A .lm ns for-.^-u
maçao das condições materiai.a^le-^TablllTõ':
Assim, os textos libertários relativos à máquina são apologéti-
cos,' apresentando-a como grande conquista da humanidade, a des-,
péitp;d.e seus efeitos negativos para os trabalhadores. Mesmo quaiv
do, no ano de 1928, os operários da fábrica Mariângela realizam

37. Boris Faústo, op. cit., p. 187.


38. Cornelius Gast.oriadis, “Technique”, in: Carrefours du Labirynthe. Paris,
Sepilr GqllV Esprit^.. £978 a sair em português, pela Editora Paz e Terra.

ll
umja greve contra a introdução dè teares a,ut'oináticés, que dobra-
riam a quantidade de máquinas com as quais cada operária deveria
lidar, nenhuma menção é, feita ao progresso técmco ou arniaq^naria
egii si. Apenas se questiona sua utilização social em detrimento do
tcalmUaaáíMU-.
| Do mesmo modo, embora o taylorismo sujeite uma forte resis­
tência por parte do operariado em todos osspaíses em que é intro-
dujrido, nos Estados Unidos; na França, ma*Itália, ow m? -Rússia, é
cohtra sua apropriação pelos interesses pârticuliaristàs de íima* deter-
mijnada classe social que se investe e não conjtra o sistema Tàylor
pròpriamente dito.
À mesma operação ideológica que dissocia técnica e política,
mqos e fins, recorrente no dischráo ‘ de markistas, anarquistas e
sopialistas em geral, em Iiênin ou em Trotsky] reaparece no: artigo
do anarquista Fíorêncio de Carvalho, ao criticar a faylprizaeao da
ptjodução no Brasil. Segundo ele:

A ciência a serviço do capitalismo favorece aos industriMis e


prejudica, era razão inversa, os trabalhadores. O operário!em réxer-
cicio nas fábricas ou oficinas é obrigado a em pregàr'todas*as suas
faculdades e adquirir uma perícia superior para entregar-se ao
torvelinho dos cilindros dos colossais aparelhos mecânicos, que se
movem com velocidade elétrica ( . . . ) . Como se vê, a taylorização,
a estandardização, a racionalização, vêm sendo, pelos chefes indus­
triais, adotadas e aplicadas no que elas lhe 0 ierqççm.,de;4 tU.. (Jugjito
à utilidade que possam oferecer aos trabalhadores, isso não lhes
interessa, mesmo porque o mercado de braços" e de inteligências
está abarrotado e, desse produto, a natürèisá & assáz pfódigâ (A
P lebe, 3 -1 3 -1 9 3 2 ). ;

Também os anarquistas sonhavam, com unia sociedade em que


o desenvolvimento da tecnologia libertaria ò homem do “ reino da
necessidade” , permitindo uma vida mais :liyre e. criativa, dnfdê o
trabalho seria transformado enquanto atividade' de âutocriaçlb da
humanidade,
esde ced o.a ftvólfocãn, sua apitca-
çãó. no rníèriòrBa pròclítção
.. '*..'-“■■•."■'•niT'■1 .... ~ii0ii1Ti orientou-se
'1'-r h o 5 setíH
iíi 'i ' 3o3e
ihíàl£__ e i í f f lIH
* im lW
üi*?r*m
a*~
niterferência subietivadt^^
leSendentes dá técnica, .mas não "do homem. As resistêilqãá dos
tu lffi maquinismós, fab.ris,, destrtíi^do e
Incendiando fábricas, teares aniquilando >as inovações teehcrlègicas
jque substituíain seu saSer-íazer traditional,, revelàm até* que aponto

58

m
o desenvolvèuento téoniço contém, sua própria, lógica o desejo'
patronal de dominação^ q,ue os primeiros operárips fabris ingleses
compreenderam nitidamente. v,
... No *Brasil, .o anarquista-Pylptá Assunção procurava dissuadir
os tipógrafos, em 1909, da firme intenção de destruir os novos
equipamentos mecânicos ,que «,£>;..patrão pretendia introduzir. Argu­
mentava que o processo de mecanização da indústria era irrever­
sível, necessário e positivo, a s.despéito dos males imediatos ^qye
ocasionava.,En\ sua opinião, os jyipógrafos n f q ,cojnpreendiam este
sinal dos tempos modernos, ao* afirmarem em seu, jornal O Compo-
nedor.

q u e -to d a sa s desgraças dos tipógrafos eram devidas à maldade de


certos patrões e chefes e, corno gxejmplç), citava-se o dr. Edmundo
Bittencourt. proprietário-diretqr do Correio da M anhã, um dos últi­
mos jornais a introduzir as máquinas (A Voz do Trabalhador,
15-6 -1 9 0 9 , grifos m eus).

59
Muitas vezes, no entanto, a repressão policial utilizou da
violência física contra as prostitutas e homossexuais. Jacob Penteado
recorda que freqüentemente a polícia prendia as prostitutas do
Brás que, quando não levavam uma surra, recebiam uma ducha
de água fria e tinham suas cabeças totalmente raspadas. As resis­
tências também se faziam sentir:

Vingavam-se, porém, do delegado Bandeira de Mello, cantando:


“O Doto Bandaio de Merda é home muito canaia.
Pega cabeça de nega e manda rapá a navaia!” 32

Procedimento que, aliás, prossegue nos dias de. hoje. Apesar


dos regulamentos da polícia de costumes visarem às prostitutas, de
todas as classes sociais, na prática eles incidem mais severamente
sobre a prostituição clandestina popular.
As críticas que vários setores da sociedade dirigem ao sistema
regulamentarista de controle da prostituição avolumam-se na déca­
da de 20, no Brasil. Segundo a nova corrente que passa a.predo­
minar principalmente nos meios médicos — o abolicionismo —r,
tal como ocorrera anteriormente em outros países europeus,-o antigo
método de vigilância da prostituição comportava inúmeras falhas:
em primeiro lugar, visava apenas a mulher persegui'ndo-a por um
tipo de relação em que o homem também estava envolvido. Ela era
seqüestrada e confinada em casas isoladas e especiais, fichada na
polícia como prostituta profissional, vigiada severamente pela polí­
cia e pelos médicos, acusada de ser transmissora de sífilis e de
outras doenças venéreas, sofrendo sozinha ttoda a repressão de
práticas intoleráveis para a sociedade, enquanto qüe o homem
ficava isento de qualquer responsabilidade. Além aisso, o resultado
do sistema regulamentarista então adotado fora o oposto do que
se propusera: a prostituição clandestina aumentara a olhos vistos,
tanto aqui quanto em outros países. As prostitutas inscritas fugiam
quando estavam doentes ao invés de se apresentarem às visitas
sanitárias, e tornavam-se clandestinas.
Mas o ponto sobre o qual incidia mais vigorosamente a crítica
abolicionista aos regulamentaristas era que o registro legal das
prostitutas prendia-as e impedia sua possível recuperação. A polícia
de costumes era vista como uma máquina que transformava “putas

32. Jacob Penteado, M emórias de um Postalista. São Paulo, Martins, s/d .,


p. 56.

94
ocasionais” em “ putas eternas” : a prostituta inscrita acaba se tor­
nando uma prisioneira perpétua da polícia.33
Ao contrário dos regulamentaristas, os abolicionistas recusavam
a legalização da prostituição, pois viam neste ato uma medida d e,
repressão é de controle sobre as mulheres públicas. O objetivo dos
abolicionistas não era, no entanto, a eliminação da prostituição que
também consideravam necessária, mas a libertação das prostitutas
das garras da polícia, que exercia sobre elas um poder arbitrário
e violento, e a destruição d e ' um sistema que marginalizava as
mulheres e violava o direito de liberdade individual. No entanto,
se por um- lado os abolicionistas defendem pontos como a liberdade
individual, òs. direitos do homem, o fim da intervenção do Estado
nas relações pessoais, por outro, a campanha abolicionista era
levada em nomeada decência da família, das ruas e da salvação,
do casamento. Evidentemente, não há nenhuma apologia do prazer.
Outros alvos-dê: ataque dos médicos abolicionistas, como o dr.
Flávió Góulárt, refériam-se às visitas sanitárias forçadas e muito
rápidas que não permitiam diagnosticar seguramente a sífilis; à
brevidade dos tratamentos; ao medo-do internamento nos hospitais,
levando as prostitutas a fugirem ou a usarem, de “ diversos truques
para dificultar o .exame”. Segundo eles, a administração pública
deveria oferecer tratamento gratuito às meretrizes e aos indigentes
nois dispensários estabelecidos pela saúde pública.' No caso dos
que abandonassem o tratamento, deveríam ser enviadas cartas que
advertissem contra os possíveis perigos resultantes.
No entanto, apesar dó discurso liberal dos abolicionistas, vale
lembrar que é em nome da moralização das condutas, da repressão
dos instintos e do controle das pulsões que eles batalham e nisso .
distinguem-se radicalmente dos anarquistas.

Os anarquistas! e o campo da moral

. “A vida não cabe dentro: de um .program a. . .


M. Lacerd a de Moura

.Creio que não se pode afirmar tranquilamente a existência de


uma unidade absoluta de opiniões entre os anarquistas a respeito

33. Fíávio Goulart, Profilaxia da Sífilis. Tese de Doutoramento, Rio de


Janeiro, 1922, p. 43.

95
de questões como a nova família, a emancipação da mulher, o
amor livre, o direito ao prazer, ,que constifu;èm*5ò;;.çáfiípo ;da.;iftòr.aL
No entanto apesar da abundância’ de reflexões mdiyiduais sobre
estes temas, entre outros, tento'delinear os contornos,de um projeto
libertário relativo a uma nova moral. Enquanto crítica da ordem
burguesa, as divergências se neutralizam e encontra-se uma unidade
de problematizações e valores interligando os assuntos discutidos
na imprensa anarquista em geral.
Fundamentalmente, a crítica ,endereça-se à sociedade burguesa
que, assentada na exploração do trabalho e na dominação política,
produz uma moral decadente, repressiva, opressora e que se funda
em relações sociais autoritárias, injustas e corruptas. Assim, sem
pretender definir ab.solutamente um projeto libertário de instituição
da- nova*moral, tento perceber as intuições dominantes da reflexão
anarquista relativas às relações afetivas, familiares, à moral sexual,
a partir dos artigos colhidos nesta imprensa operária.
Três principais núcleos de problematização se evidenciam
quando os anarquistas abordam' questões que procuram definir
uma nova economia do desejo: a emancipação da mulher; as rela­
ções afetivas e a moral sexual; e as práticas condenáveis.

^ ‘ ...

"y A emancipação da mulher ^

Tema freqüeute^na-4mpj^^ condigâ.Q 4e opres­


são da nluíKeT,- não jÓjda-UDperáij^brnas também. da; burguesa, é
pén sàd a e àn alisad a po r_v.ários..wantíetil^^ a-
Contra õ mito da mul_her-passiVidade>,sentÍDã^tov-.abtl^acãò.>:fSom-
bra do homem, várias..vozes ~~se... levantam; mulheres, cotnp a ,Já
conhecida Maria Lacerda de Moura (professora, jornalista e escrito­
ra), Matilde Magrassi, Maria de Oliveira, Tibi, Josefina Stefani
Bertacchi, Maria S. Soares, quê assinam artãgos nostjoría^s anar­
quistas. Além destas publicações defendendo a causa feminina,«elas
promovem reuniões, conferências, palestras educativas em vários
cantos do país-e..fundam uma Êederàcão Internacional Feminina.
Se é possível perceber no conjunto dos textos libertários uma
representação masculina da mulher, que a torna símbolo da mater­
nidade, da passividade e da fragilidade, a esta se opõe uma outra
construção contestadora dos valores dominantes. Partindo de vozes
femininas no interior dos anarquistas, nranõe-se a em and nação da
mulher d.e.todas as classes sociais dos papéis que lhe são atrjbuí-

96
dos sqçialmeiite. Ao lado.da tradicional representação da -mulher*
submissão, .emerge uma outra figura fpjmmina-;..simbelizada.- pela
que' lüfã pela transfor-
mlTçã^^ , tanto _a partir*cia própria presença
"destas..ativistas. q u & O'0'elas -:rsuáf.. projeções,. Maria Lacerda de
Moura, por exemplo, 'discutindo as concepções dos "especialistas”
sobre a inferioridade biológica da mulher, afirmava criticamente:

Eu não discuto com um homem apenas, com o Sr. Bombarda


(médico português, M R ), com Lombroso ou com F erri: protesto
contra a opinião antifeminista de que a mulher nasceu exclusiva*
mente pará ser mãe, para o lar, para brincar com o homem, para
diverti-lo.34 m i n n u M * r»am i m . , ,. i
IH iin ___ -
Não é ocasional, portanto, que encontremos nos jornais
tários artigos que, ao criticarem a situação social da mulher^ no
sistema capitalista, apontem a instrução como arma privilegiada
de libertação. Matilde^Magrassi, por exemplo, propõe que a mulher
operária nãó luto apenas põF~seus direitos no interior do espaço' "
da fábric.a,.J^a.Jinijd&jGaelhorar um^pouco'a'^ossT cM ícã”situaçao1’,
obtendo uma.jornada de trabalHo mais curta e salários mais eleva­
dos, mas que procure instruir-se para poder defender-se melhor
frente à exploração,..do.capital. Ã eâucaçlo da" muíEer trabalhadora
aparece como instrumento de luta cbniffà*"asilasses dominantes,
contfáTdi?odeií-'da Igreja e .contra o Estado,, na medida em que
efã“se consçie.atize,.de. seus direitos pessoais e ainda, possibilitando
a ín stru ^ ^ ajude. áJfimpêdlíLaue„sejam depois
vítimas do.inlnsto sistema social em que vivemos^ (Õ Ârmgõ''ão
Povo^^lj. 1-1904). A instrução da operária será também funda­
mental para que ela desmistifique a religião e a figura imperiosa
do padre, como conselheiro e guia espiritual:

Compreendereis que é inteiramente inútil q.ue confieis aos padres


.as vossas ,dores. Aconselhando-vos a resignação, o que ele faz é
impedir-vos de reagir contra quem vos oprime.

Revoltando-se, a mulher enquanto mãe e educadora servirá dp


exemplo aos. filhos que, por sua vez, também se rebelarão. E
poderá compreender ainda que a noção de pátria é uma ilusão,

34. M. L. Moura, A M ulher é uma D egenerada? Rio de Janeiro, Civilização


Brasileira, 1932, p. 62.

97
: À

que os vossos filhos nenhum deverf,têm a dcumpriri^ará^com %lk,


e que quando, em home dessa pátriá, õs viérem árráhcar^òs vossas
!braços, deveis revoltar-vqs contra1semelhante léi ( . . . ) . .

A idéia de que a mulher não é apenas portadora! de senti- |


mentos e emoções, mas de que pOssúi a meéma capacidade de
pensar, de questionar e de brigar que o homem e para a qual -a
educação é uma arma importante de luta, revela a recusa do modelo
de [feminilidade instituído pelo imaginário soçiâl. Izabel Cerruti
reafirma esta posição ao analisar as causas dá situação alienante
e ojpressiva em que se encontra a mulher na sociedade atual. Esta
só poderá libertar-se se compreender os motivos da exploração social
e desmistificar à mTtòíogiaiustificadora de suai condição:
s-jsí» • ' ' ;
Antes de tudo, e isso é o essencial, ela deve fazer uso do seu
iraciocínio para se despir dos vãos temores, dçs tolos preconceitos
e dos ridículos escrúpulos que lhe incutiu a falsa moral de Deus
e da Pátria, para assim, obter o seu pensamento emancipado (A
Plebe, 2 0 -1 1 -1 9 2 0 ).

: As barreiras à superação da alienação da mulher não se locali­


zam em sua natureza ou em sua consjtituição física, como pretende
o saber burguês, mas resultam da ação das classes dominantes
juntamente com o Estado e a Igreja. O apelo à educação, à formação
de uma consciência crítica como meio de desmistificar sua condição
social e de derrubar as cadeias impostas pelo poder çlerícal, re­
aparecem em. vários artigos, como o de Maria de jDliveira, “ A
emáncipação da mulher” , publicado em O A m igt do Povo, de
1 1 -9 -1 9 0 2 .
: Aliás, a questão.- da libertação feminina não s&Jimita à operá­
ria. De modo geral, o discurso anam uista-^ecdra^evelar a condi-
çãoi de sujeição.e..de4H«nilhação »xpâf£issâreBi.
as classes sociais, npma sociedade domihadajpelQ^ode^masculinó.
Por isso, elas devem preparár-se intelectualmente para po.der^^RT'
frentar a concorrência masculina. Assim como a mulher trabalha-
dorja, a bur.guesa'-é'-''õprTftiída, teve. íua ^yiçfejáecididá ;desde a in-
fância, aprendeu... a. reprimir seus sentímentjbs;je j ^3 !^ E Í)_ íiuíS. Jlio
sente, a “ fingir dotes que não possui” : tainbjêm ela, que “ nao é
livre nem feliz”, deve participar da luta pela-sua auto-emancipa-
ção — afirma Maria Lacerda. . r
Estas anarquistas sugerem que as proletárias se organizem em

98
sociedades -dewresistência, park que possam conquistar melhores con-
diçüèkídè m SÊ e <de' tsabalho. ^rèqüentes apelos-na?í^ p ren sa liber*
táriasugerem ; a formação de;grupos de estüdo compostos por mu-
lherés -operárias, para discutirem sua situação social e as possíveis
formas-de; résistência.
• Qs anarouistas^ defendem a libertação da mulher em todos os
p la n o s^ ^ r^ lS rso cral»- H òsfeas. -reliõ^is de trabalho até as fami-
liareE""H^se; ponto, a crítica que Izabel Cerruti *endereça às femi-
atólas ligadas à Revista FenéM na^déxa clara a posição libertária
corir relação ao significado do conceito de emancipação. Segundo
aquejaj^xistaT^ --m «lb er^ 'ev eria^ tar para: conseguir independên­
cia ft-d e ^ ^ S S fpaçâo n6-"procêssò:^ e i *
tofaí7^ara-as; anarquistas citadas, evidentenientê, esta- proposta-não
é libertadora, uma vez que se; restringe a lutar por conquistas es-
tritamentepolítieas e ainda porque aceita e justifica a própria mo­
ral burguesa. I m suas palavras:

O programa anarquista é mais vasto neste terreno; é vastíssimo:


quer fazer compreender à mulher, na sua inteira concepção, o pa­
pel grandioso que ela deve desempenhar, como fatora histórica,
para a nossa inteira integràlização na vida social ( A Plebe, 20-11-
1920).

A luta.,dasJ,mulhere.s.....na^concepgãQ-4ibcr.tária.,,.deve passar pe­


lo . questiOjjjimsQiQ^^ ,
tattfó rio interior da família^uanto^na^f^r-kar^M ão se".trata ‘ de
ccffuju^^ jno^çampo da- política instituí-'
"do^pelas;classes, dominantes,, mas de batalhar pelo crescimento pes­
soal, eomrilêtor^integrab- ♦ ’ ........ ’•

Qualquer reforma nas leis vigentes que venha a conferir-lhe dí-


reitó^ytriolítiçc!S; iguais ae>$ hoipens, não; a põe a salvo das chacotas
e humilhações, não a livra de; ser espezinhada, pelo sexo forte e
prepotente, enquanto perdurar a moral social que constrange e
prptege a prostituição (A Plebe, 2041-1920).

•K r Vfcrdade; atrknkfoirmaçãoradical da‘ condição da mulher


só será possível numa ótítrá òfgarifèáçãò *da sociedade, mais justa,
onde o amor livre assegure a integridade das relações familiares,
onde òs jovens possam escolher livremente seus companheiros e
formar, , setn contar com es obstáculos econômicos
aviltantes do mundo capitalista.

99
Assim, a luta pela emancipação; da mulhervpão^^^saí.pela.-rei­
vindicação de aceder à esfera pública simplesmente;®ks é primei­
ramente uma questão de ordem moral: tráta-se da necessidade de
libertar-se do modelo burguês, que lhe é imposto ^ _ík^,.consiruir
um anova f igu fâ^iTegado r a d aq uel a foriada nela representação bur­
guesa e máscula niò^e~apenas sentimento é nassivida-
dè7 daí a necessidaúe^ilillnstruir-se, de utilizar_sg tL jg Q te a ^ ^ íS -
lectual na crítica ideológica das instituições e das mitologias religio- •
sas e de lutar pela própria independência.
Dentre as autoras que pesquisamos, a que nos parece mais
inovadora e radical pelas suas indagações e propostas é Maria La­
cerda de Moura. Além de vários livros publicados, dirige a revista
R enascença em 1923 e, dois anos antes", funda a Federação Inter­
nacional' Feminina, com o objetivo de “ canalizar todas as energias
femininas dispersas no sentido da cultura filosófica, sociológica, éti­
ca, estética — para o advento de uma sociedade melhor” (A Plebe,
15-4-1922). Ela realiza conferências em vários centros culturais,
nos círculos operários ou na Federação Filosófica e Espiritualista
de São Paulo, contando sempre com numerosa assistência.,
A condição feminina foi tema de reflexão contínua de Maria
Lacerda, preocupada com a libertação da mulher da sujeição em
que se encontra na sociedade capitalista. Ela pregava a luta pelos.
seus direitos,..a..necessidade da instrução, da educação sexual aos
jòvensT^adiberdMe^e" amar, a maternidade “livre e lidnsclén''fe” e
a independência da mulher.,eni,,xelacãQ-àJmnosição social do casa-
mento. Crítica ferrenha das relações de dominação que se estabe­
lecem entre homens e mulheres, pretendia conscientizarias mulhe­
res de sua situação opressiva e mostrar-lhes a possibilidade de
uma participação social efetiva:

Até aqui, temos vivido a civilização uni-sexual, a mulher não


passou de espectador no cenário dá' Vida,

afirma em Han Ryner e o Amor PluraP1'. Embora tentem libertar-


se da dominação machista, as mulheres, têm de enfrentar a oposição
dos que não querem perder seus privilégios:35

35. M. L. M oura, Han Ryner e o A m or Plural. São Paulo, Unitas, 1932,


E o homem continua a querer entravar-lhe os movimentos e,
portanto, a. cercear-lhe o. progresso. A mulher só tem direito de
sair, de se' locomover se vai trabalhar, ganhar dinheiro.
Continua dando conta ao homem de todos os seus passos e
até' do, seu salário. Ê outra espécie de exploração.
É o caftismo em família ( . . . ) ,36

T ambém para ela a questão da degradação das relações fami­


liares só pode ser resolvida socialmente: apenas em uma nova or-
gamzaeat^^ ós.meç-
m *^ suas diferenças~pbHerâo.ser respeita-
ia s —Outros problemas sociais como a miséria, o alcoolismo, a tuber­
culose, a sífilis, a prostituição, a exploração da mulher e da criança,
“ a exploração do fraco pelo forte, a voragem açambarcadora de
tantas vidas na oficina, nos cortiços, na penúria — tudo, tudo nasce
do atual regirrè social cuja máxima se resume nestas palavras: se
eu não arrancar os olhos do próximo, ele arrancará os meus” .37
•Mas a transformação radical das relações... sociais, em sua.opi­
nião, não deve passar pela ditadura do partido político. Posição que
a aproxima totalmente dos anarquistas:

A política de partidos é sinônimo de farsa, astúcia, ambição


pessoal, de hipocrisia, de preconceitos.38

As relações sociais, tanto na esfera da produção quanto no in­


terior da família, na escola, ou em outros espaços de sociabilidade,
não podem ser organizadas pelo partido político, mesmo que este se
considere representante dos interesses do proletariado: é o caso, por
exemplo, do amor, impossível (segundo ela) de ser '‘organizado” .
Em trabalho recente, Miriam Moreira Leite procura desvendar
os; caminhds de Maria Lacerda de Moura, cujo pioneirismo em sua
opinião Pse deu basicamente na área de estudos sobre a condição
feminina” . 39 T am l^j^em seu parecer, ela não .poderia ser consi­
derada como uma anarquista propriamente dita, ou como comunis-,
ta ou socialista, no sentido de afiliação política. Na verdade, se esr
tá escritora mineira em muito se aproxima dos libertários, ao negár

36. Idem , p. 35.


37. M. L. Moura, A M ulher ê uma D egenerada?, op. cit., p. 257.
38. Idem , p. 177.
39. Miriam M . Leite, op, cit., p. 21.

101.
qualquer vínculo com o partido político, òu naé críticas que ende­
reça ao governo e ao clero, ou ainda na defesa de uma nova mo­
ral, do amor livre, da libertação da mulher, ela mesma nega qual­
quer rotulação política, considerando-se uma pensadora indepen­
dente.
Se nos^ tsnnos ao ickaLifiinifliflájfls^^
anarquistas, principalmente os escritos por multieras^mcL-as iá ci-
tãd^ãrperceBemos a negação da figura da miffibr “ raiáfôt .do 'ter” ,
desimadã'excluslvamente~~ã' TiM^q7de'”procriaç|o.. Por outro ladtT
não se trata de HefêndeTTlêmmista "g|||g^adfôãirTbrO;nostai âja
nqyj.mulher.d a Jà se fina S. ! de
equilíbrio. Em ‘tosque deveria ser a mulher”, ela explicita süa
concepção de feminilidade: —

^ i Entre a feminista ultra, forma híbrida, sexual e a massaia no


sentido rom ano da palavra: Stetti in casa e filò lana, existe ò
Í justo meio: a verdadeira mulher. A mulher, nem patroa. nem es-
crava, _nem ^femina nem angelica, ne m asséptica nem m e^alm al
imaf" a“mulfieiH m ^^
gérmen, m aturando-o na dor, c p n s ^ F g S ^ -b ''íc o m ^ seu sangue,
\ dá à humanidade o milagre da'viHa para ela.-jo.ela e com ela.'eter-
\: namente se renovando,;ate a o j ^ S i f l L X . . . ) '
\ Se de um lado nós.,condenamos &J m unisíaL„uUmJL . . ) doutro
:Uado"nSo" Queremoa_tãa_nonco a mulher máquina. a..múlher besta
de carga, a chamada governadeirà £A Terra Livre, 15-6-1910).

! O ideal feminino que aparece nos textos anarquistas édeliiiea-


do difusamente: não se pretende construir um modej^ acabado, èvi-
dentemente. De q u a lau e£.Jo ro aa,^ modelo !
burguês da espÕsa-mãe-dona-de-casa, vigilante, assexuada ^ o rd e ira
.corriüT
: ^
defendiam
—- | .
os médicos T lTlanfr^
..................'
^ ; do; séculb.
Critica-se mesmo a exigência que je^ faz do trabalho-excessivo da
mulher naquelélhôdelB feminino, que contraditoriamenté lhe átribhi
características de„tMQjencia, passividade, inércia:
i ■■ ' ‘ ^
Qual foi até hoje a noiva ideal ou a admirável m ã o de família
nas classes pobre e média? Aquela que sabe fazer tudo, que tra­
balha sem tréguas, e que por conseguinte ( . . . ) acaba com a
própria saúde e envelhece antes do tempo,

já que não se diverte e que não tem tempo para si. própria. Imagi­
na-se então a possibilidade do crescimento pessoal da mulher, livre
4a';-p'fiâáó' dò'$^tóêrieíô'\díbfÉiiêlticos ou da extensa jornada de traba-
llió foíá dè câsa:

Com á subdivisão do trabalho, pelo contrário, satisfeita a ta­


refa qúe Mie coriipete como costureira, tecedeira, lavadeira, cozi­
nheira; e educadora,. artista ou talvez médica, ( . . . ) poderá de­
pois dispor a seu'bel-prazer das horas livres, quer dedicando-se
ao estudo ou a exercjcios .artísticos, quer gozando as diversões a
todos‘.proporcionadas .,jpela; vida social (A Terra Livre, 15-6-1910).

A discussão sobre, a necessidade da emancipação da mulher


remete evidentemente à recusa do casamento monogâmico, da im­
posição dos cônjuges e leva à proposta de uma nova forma de rela­
cionamento afetivo.

A moral sexual

AMOR LIVRE

I
Virgens: erguei o olhar que as sombras do convento
Açostumçu a andar cerrado para a luz.
instante só ^êx&ées- dé. cruzi
, e enchèi-vos deste sol que brilha turbulento.

. Vipde gozar a. vida em toda a plenitude


e não fapeis assim a, vossa, juventude
com sonhos infantis duma bánál' pureza.

II
A virgindade é quase um crime. Cada seio
deve florir num-ser tál como a terra em flores.
Vencer o preconceito e os falsos vãos pudores
; ‘em-.que;vos abismais num subitâneo enleio.
(...)
Como na antiga Grécia esteta, rediviva,
ó virgçns, desnudai a vossa carne altiva
e fecundai, após, num sopro de energia.
B vós, homens do amor e vós que a desejais,
Arrancai-lhes da fronte as coroas virginais,
beijai-as livremente à grande luz do dia.
C. Leite (A Plebe, 21-10-1917).

103
Em um de seus livros,. Maria. Lacerda de Moura revela que o
tema do amor livre “é hoje muito discutido e necessário nas rodas
de intelectuais e proletários” .40 Afirmação intrigante para . quem
acreditava que esta questão fosse colocada recentemente. A crítica à
virgindade, exigência “ ridícula para .o homem” e “profundamentè
humilhante para a mulher”, segundo esta mesma autora, remete efe­
tivamente à negação do casamento como relação monogâmica eter­
na, legitimada pelo clero e pelo Estado. Os libertários questionam•
a institucionalização das relações afetivas e à forma pela qual as
relações sexuais se manifestam numa sociedade autoritária e repres­
siva de ponta a ponta. Por que esta necessidade obsessiva de en­
quadramento dos comportamentos sexuais, principalmente em rótu­
los prontos, acabados, aceitáveis ou condenáveis? A despeito de to­
da acusação atuàl do moralismo dos anarquistas, não se pode deixar
de considerar avançadas suas propostas de relacionamento afetivo
entre homens e mulheres.
Somente é válida uma união conjugal que se estabelece livre­
mente, independente dos interesses econômicos ou das obrigações
sociais. Vários artigos publicados na imprensa anarquista discutem
a questão do amor livre, procurando diferenciá-lo de uma valoração
burguesa:

A m or livre, não é, como alguns pretendem e outros julgam, as -


relações sexuais havidas de momento em praça pública, ou num'
andar registrado sob um número de polícia. ( . . . ) Ê um todo
formado pelo homem e pela mulher que se completam. ( . . . )
Vivem juntos porque se querem, se estimam no mais puro,
belo e desinteressado sentimento de amor; vivem juntos porque é
essa a sua vontade e não estão ligados por determinação alheia
nem por interesses que a unv digam respeito. ( . . . ) A m or livre
é a plena liberdade de amar e iiãó a forma hipócrita do casamento
em que o homem è a mulher ligados indissoluvelmente pêlo ca­
samento civil ou religioso são Obrigados pelo preconceith a su­
portarem-se com enjôo. ( . . . )
Antonio Altavila
( A Voz do Trabalhador, l .° -2 -1 9 1 5 ).
K ri
Oreste Ristori, também preocupado em desfazer qualquer iden­
tificação entre amor livre e prostituição, comiam na representação

40. M. L. Moura, Religião do A m or e da Beleza. São Paulo, Condor, 1926,


p.. 110.

104
imaginária- do sexo na sociedade burguesa, afirma que “Amor livre
e livre união” não devem ser tomados como sinônimos, um poden­
do existir sem o outro, e define sua concepção de amor livre:

O amor livre não significa a apropriação comum da mulher,


mas qüer dizer: a liberdade ilimitada para a m u lh e r, co m o para.
o h o m em , d e am ar qu em quiser, a liberdade de co n cen tra r so b re
um a pessoa, antes q u e so b re outra, todos os afetos. Quer dizer
noutros termos: subtrair-se à terrível tirania dos pais, dos parentes
e dos seus substitutos, que querem impor-lhe um marido do gosto
deles, para amar livremente o objeto dos seus sonhos (A T e rra
L iv re, 2 - 4 - 1 9 0 7 ) .

Na sociedade atual, as relações afetivas entre o homem e a


mulher são fáí|as e imorais, porque se fundam em interesses eco­
nômicos e consagram uma situação de dominação: a mulher se tor­
na escrava do homem, a quem deve obedecer servilmente. Isto, por
sua vez, significa sua total anulação social, refletindo a hipocrisia
dos sentimentos:

O matrimônio apenas serve para abreviar a duração do amor,


tornar odiosa a união. No lar, a mulher é a escrava, o homem é
o senhor; este tem o direito de mandar, aquela o direito de. . .
obedecer. ( . . . )
Como pode .existir o amor entre uma escrava e um senhor? ( . . . }
P or isso se diz: o casamento é a morte do am or. . . ( O A m ig o
do P ovo, 2 -8 - 1 9 0 2 ).

A anarquista Tibi, autora deste artigo, continua suas reflexões


mostrando que a organização familiar que se forma a partir do ca­
samento monogâmico legal gera seu oposto: a prostituição. Aliás,
pergunta, no casamento ou na prostituição, o amor não é objeto de
um comércio?

A o menos, a prostituta não precisa fingir. Todos sabem que


o seu amor é vendido, a ninguém engana.

Finalmente, conclui incitando as mulheres a se revoltarem


contra os- papéis humilhantes que devem representar, já que não
podem esperar que sua libertação seja fruto da providência divina:

105
A emancipação da mulher há de ser obra dela própria.

Embora acreditem na possibilidade da constituição de umas no­


va família na sociedade anárquica, como os marxistas, os libertá­
rios não se aprofundam no exame da natureza do laço, conjugal fu­
turo. No regime capitalista, a família se funda sobre relações de
interesse e pretende manter unidas pessoas cujos desejos são di-
' vergentes, cujas ligações são artificiais, que se qfendém, que se vio-
lenjtam, ou que se odeiam, pois umas oprimem as outras. Trata-se
portanto de desmistificar os dois pilares de sustentação da ordem
burguesa: tanto o contrato de trabalho quanto! o contrato de casa­
mento. Ao contrário, no “comunismo anárquico” a base única da
família é o amor e não uma relação mercantil: livres de preocupa­
ções econômicas, seus membros se respeitam e se aproximam, por
arriizade. Se acaso estas relações se,alterarem e tornarem-se insupor­
táveis, dissolvè-se a família e a comunidade ampara seus fillips. Não
há (nada a temer (A P lebe , 1 2 -1 0 1 9 1 9 ). Condenando o casamento
indissolúvel, portanto, os anarquistas defendem o divórcio quç, ao
contrário do que se afirma, não virá trazer a discórdia no interior
da família, mas

; oferecer um abrigo seguro, um porto de salvação àqueles p a ra os |


quais não mais sorria na terra a esperança de um clarão de ven- j
tura. ( . . . )
O divórcio não facultará a separação completa dos casais, senão :
! em casos perfeitamente definidos e quando á séparàçãò "dos C ônj0 ;
ges redundar em felicidade relãtiva p ara íàmbOs (A Lanterna, 1
1 0 -8 -1 9 1 2 ). . f

O divórcio é uma necessidade fundamental numa, sociedade !


qúe não sabe amar, que não tem tempo pára^istè,, q^cpnsèm ® as
energias dos indivíduos explorando-os até os linptSS; §uas forças. ;
Preocupadas com a sobrevivência material, copio podem as pessoas
neste sistema social relacionarem-se de outro modo que não compe- ;
titiva e autoritariamente, ameaçadas o tempo todo de perderem seu
ganha-pão, humilhadas pelos dominantes, ou. nas classes privilegia- :
das, lutando para se auto-afirmarem continuamente? Quem tem “ O
direito de am ar?”, pergunta A. Vizzotto, no artigo que A P lebe, de
18-7-1917, publica:

Quando o proletário, ( . . . ) após uma jornada de 10 a 12 horas


de trabalho, volta exausto de forças para sua casa, poderá, se é só
^ - w - ■ ' '

e qüer*airriá*4família, proeurar.tranqüila é serenamente aquela que


fterá’ de.ser a’ sua companheiraMK ? .)í7f£erá tempo, vontade, dispo-
•iu^ição^ipAra ,©jrientar?lhe o caráter, conhecer-lhe os sentimentos e as
,aspiraçpes? Xerá, ao menos, fo rça para .eupriinir-lhe p seu carinho?
A resposta tern de ser forçosamente negativa.

Portanto, o amor entre duas pessoas deve ser livre, porque não
comporta regras, não pode ser enquadrado nas formas já definidas
pelo imaginário socia},. deve fluir sem imposições. A liberdade de
amar, explica Maria Lacerda, refere-se à libçrdade interior de cada
um “ aprender a am ar’V sem-regras, livremente, sem qualquer inter­
ferência externa sobre as opções individuais, sem imposições sociais
ou ainda spm a orientação do pqrtido:

( . . . ) . , sonhar com o dominio.de um partido ou de uma ideolo-


,.gia, para todo o prbé è ‘‘orgâMizar’’ o amor segundo* os interesses
! \dé^'*paitié'õ ou desisa, câtóssê ou ideologia — é sufocar a liberdade,
dêsprézar às' éxpedêhóias do passado ( . . . ) . 41 " •:

*’vM ària Lácerda diverge de Alexandra Kollontai, membro da


(XpõMpão Operária do Paftldò Bolchèvique, em relação ao enqua­
dramento do aidor pela- moral proletária, questionando que este
posSâ^ser^-hn^anizado^-aegundo Os interesses*'do partido?'
-suQrfã, diz élm qüando se esquece do partido KõHontai^afirma
cOiãàWmtnt© ihfêiessantês, mas rWamor deve ser livre e plural, isto
évMõ^institètndtt^^dOj Não^se Màfà, 'èfÊdentèménte-, d-a";“ eòopera-
t# a ^âmbrdsé' 'Suféifá à léi da oferta e da'''iprdeurav, como -a* rdeolo-
'lití^p^sff^çpiè^-f^eif.- crer, mas da possibilidade de se criarem
nõltãs fõfnMs afetivas dè refeciõnamento:

•: ;’i •Oeixem •0. am or livré, absolutamente livre. Homens e mulheres


èneofftrãrãò, nas leis biológicas e nas necessidades afetivas e espi-
, ril^iais^ ,pv^§p.^p^iinlii,p,..a sua;>yerdade e. a sua vida. . . A solução
. só poddser individual. Gada qual ama como pode. . <42

. O, casamento monogâmico, afirma Maria Lacerda, produz


‘.'anomalias s.exu.àis”, porque nele os dois sexôs estão em absoluta
desigüaldâdè de direitos: é impossível o amor entre pessoas que se
oprimem, que têm medo de se perderem, que vivem uma relação

41. M. L. Moura, Han R yner e o A m or Plural, op. cit., p. 128.


42. Idem, p. 132.

107
de dependência e de posse; o amor-plural, o amor-camaradagem,
que é o oposto do amor exclusivista e possessivo que -conhecemos,
libertará a mulher e o homem, acabará com a exploração femini­
na, com o infanticídio, com as figuras humilhantes criadas-pela re­
presentação burguesa dos papéis atribuídos à mulher, a exemplo da
“ solteirona” e da prostituta. A mulher poderá então unir-se a quem
amar e ser mãe quando quiser:

Por que só divinizar a Maternidade-dentro do casamento legal?


( . . . ) A ceitar um senhor imposto pela religião, pela léi ou pelas
conveniências é que ê imoralidade.43

Apesar da radicalidade e da novidade de suas posições, a crí­


tica libertária desta pensadora mineira à organização burguesa das
relações sociais esbarra com os limites da assimilação de idéias que
dominavam o pensamento cultural do momento: é o caso da idéia
de eugenia, do aperfeiçoamento da raça, da influência do positivis­
mo e do evolucionismo em seus escritos e,. ao mesmo tempo, a ex­
plicitação de uma postura moralista diante de certos temas, como
a condenação dos “ tangos e ( . . . ) da fanfarra louca do jazz-band
infernal — meio seguro de abafar vozes interiores.”
No entanto, diante da prostituição, Maria Lacerda. se sente in­
dignada com a marginalização e com a infajitilização. de mulheres
a quem se qualifica como “perdidas”, como^ “ a peste das pestes” ,
refletindo uma posição novamente muito próxima da dos anarquis­
tas. Para estes, o fenômeno da prostituição é visto cpmo ma| ne-
cessário observável em todo tipo de sociedade descíç os feynpos an­
tigos. No sistema capitalista, a sobrevivência da; .família burguesa,
forma de prostituição não-oficial, pois fundad^ a partir de um con­
trato comercial, exige o funcionamento deste comércio sexual ignó­
bil. As jovens privilegiadas não podem participar da iniciação de
seus namorados, enquanto que uma série -dè'•intérdipjes '§exuáis re­
caem sobre a casada. Além do que, muitas vezes, a mulher sé casa
com um homem escolhido pelos pais e não por ela própria.
Fundameritalmente, a prostituição é dénunciada hb discurso
anarquista em relação à d o h u M ^
dutor que explora operarias inocentes; a fábrica é um antro... da
pefcdiçàb‘'e“a "miséTiâ financeira leya al' miilHeres pobres a venderem

43. M. L. Moura, Religião do A m or e da Beleza, op. cit,, p; 45. . ,

1:08
Ê Ê m m m cm m m — ® mm. mumtff
o próprio corpD-para garantirem o jsustento da família. A, .qjigem
do problema é essencialmente econômica:

Sabemos, e temos consciência de estar com a verdade, que a


mulher de nossa época que recorre à vida ignominiosa e anti-
natural da prostituição, a ela foi levada principalmente por motivos
econômicos: (A Plebe, 1 9 -1 -1 9 3 5 ).

. Nisto, este discurso segue um caminhqdjLametralmente oposto,,


ao burguês,,que apresenta o e s ta do deprostituição -eomo-antmomi-
Op aTT'cle^ trabdho. A prostituta trã'B'Sha,».se.cansa. é usada ,.e. explo-
ra3a fànto quanto a operária. Por isso ela não deve ser desprezada
nern marginalizadãíT^Bení os libertários, já que è mais uma vítima
Sc ”observar~ã origem social de grande
‘p a rtÇ a ã í mulheres, públicas para se dar conta de que o proleta­
riado fornece o Jtantingente principal. O.burguês sedutor, eterna-,
mente InsafisfsiíQ'^ vai buscar a satisfação de3 u§„.capdchosJãádir,.
nosos^masA ovens .de classê"ToaM~4n-fer-ior-,..iludidas com promessas
de luxo, de ascensão ou He~cõ'rifõftò7 e não entre as mulheres de
sua própria classe, embora isto também possa ocorrer.
Ao contrário do que dizem os médicos burgueses, a “ vocação
para a prostituição” não^ nasce de um instinto natural, mas provém
de um problema econômico. A imprensa libertária se insurge con­
tra, a teoria da prostituta nata-e, nesse sentido, são os únicos a rein­
tegrarem a puta na sociedade. Os médicos e os sociólogos, “esses
falsos homens de ciência que folheiam os livros e reviram bibliote­
cas, com o intuito de, por todos os meios, mesmo os mais repug­
nantes, fazerem a defesa do atual regime”, afirma A P lebe (19-1-
1935), querem explicar a existência da prostituição por outros mo­
tivos que não os econômicos:

Esses médicos e sociólogos, que sempre viveram confortavel-


. mente, vãó descobrir em todas as prostitutas supostas taras here­
ditárias po sistema nervoso, ou então, pronunciada preguiça e
incapacidade para a luta ( . . . ) . Dessas supostas taras hereditá­
rias , ( . . . ) eles, os “homens de ciência”, procuram fazer todo o
fundamento da prostituição.

Na verdade, *Gs anarquistas, o saber burguês não pode


explicar dev^amente pi problema prostitucional porque teria de fa­
zer a çrítica çlo sistema ^capitalista, do governo e da família exis-

109
tentje, teria de encarar a questãosocial-d
superação: r : ... : •'■' - ulJ

Tocar, também nos m otivos1Verdadeiros da prbstiiuição, séria 2


(m ostrar um a das calamidades do atUal sistemá capitalista, e,ássim
|desprestigiar um pouco a tão' celebrada organização èconômico-
política em que nos encontramos.
/
( A eliminação da prQâliftàegtoTiftm;tm toT'^^^ ^
a revolução social e a mudança..r-adieal-éas-esUrufaTg^eenoiriicaS'
com o^ íim-5o- -^ u d o -e'-so teftlld d ^ ^ m '1 TT1íveis#<^^
gueàa. - d:" '
j
Na nova ordem-_so,cial, a mulher terá co n d id ^ & ^ ^ e d d ir li-

casã quanto^do -s^utor.-quQ_a jahijgaLâ frdqüeátar ' bffifléfe. Enta©


exisjtirá uma nova moral, elaborada para ’osTiòfEens’ é 'p'afa' as thú-
í lherjes, que determinará uftla nova f o r m a te càmpbrtãriíbnto 'ehtle
os sjexos. Ambos se aproximarão naturaliÉBHte/impelídòs^Jior tinia
simpatia e atração mutuas e não pela' impòsiçaò dVmis&ria óu dáá
frusjtrações inerentes a'o -casamento- biírgüês:’A prostituição'deixará
de ser necessária. w
j O "direito ao prazer” que o s ;libertários reivindiepd'ipard' Ms
muljheres^e ;para os homens só-posferá áèf bOhcrélMdi^lia 'fiol'k
sociedade, onde todos estàrão livres da éujèiçãó ^s méi^sáffidè^rhà4-
teriéis imediatas e também dos precoi&bitcís è
pela[ religião. Os jovens rião ptfeéi&ài®^ flWtèetir -
se iijiiciarem na vida sexual, nem asMtiçaí^màhtérbínf-áè'
o dita do casamento: '

A virgindade é quase um crime. Gáda; seio *deve;rflbWr miírSti


ser tal como a terra em flores.

Muitas vezes, os anarquistas têm sido qualificados*'de'.moralis­


tas p acusados de não terem praticado o amor livre qUe TfetO :fexal-
tarám e de condenarem práticas como dança, carnavál®’fumo, bebi­
da, corno veremos no próximo item. Na vérdádepuma certa morali­
zação da classe operária se evidencia nó discurso libertário: o vício
é encarnado peio burguês, o patrão é censurado por só pensar nos
prazeres materiais. Ele é apresentado como um 'bon vivant, eércâdo
de ljuxo e refestelando-se -em orgias, dom-juah Mfátigávdl:'%hqháhfó
queio operário honesto e sem defeitos trabálhá^inmterrupfãméhlfè.

110
'A0 -liíésmõ. ifèjripQV ümá icería rdefèsa dos padrões familiares e do
modelO’ -’séxüa^burguês pode ‘rse!r-percebida no discurso anarquista.
Em aíguns fhofhenfõs, a luta contra a prostituição se move em de­
fesa y a mòfâddãdfe' de uma famíliá Operária cujos valores se asse­
melham em vários aspectos àqueles que fundam a família burguesa:
castidade pré-conjugal, fidelidade, exaltação da maternidade. Como
peftsâr ésta ambigüidáde?

Ás práticas condenáveis

Já se tomou conhecida à crítica ao moralismo dos anarquistas


quando cqpdenam o carnaval, o baile, o álcool, o fumo e mesmo
o fütepÒl corno vícios, sinais da degeneração da sociedade instituí-
da.;;P q 3faJo,,uma çertaÉ,assimilação, das representações burguesas do
la^r,-do se&o,ítç|Q>alcoolismo ou do .fumo pode sgr constatada no dis-
c.tnisOjlibertário,.que revela a nítida intenção pedagógica de contro-
tetfasTormas de lazer do proletariado. Por outro.’lado, é insuficiente
constatar a cóntradição ‘que permeia este. discurso que, ao mesmo
tempó^ddé piega d- ámor li^rre e d direito do" prazer para homens e
mulheres, condena a dança, o bar, a bebida ou o esporte. Talvez
se4*possa enveredar por uma .outra direção e pèrguntaL Sobre os ob-
.fMiWs-% dsddversários -visados* pela *doutrina anarquista. G que di-
iáef^ffespbito dásLdéCessÍdadés que póderiám estar ppr trás destas

'híuití priipéiro momento, todas as formas de lazer promovidas


péíás clashes dominantes, do baile ao futebol, são censuradas como
prMdás ifc ra is que; visam èrifraquecef e entorpecer a classe operá-
íiál désviápdd-ia do cumprimento de sua função histórica revolucío-
íiáriá^'0 c^rhaval é associado à idéia de degradação do indivíduo,
è VistÒ cómp ato/ dè imoráíidadè, representando ò momento em que
ó:'trábálÍB<t0r ,|)‘erâè süa dignidade, abandona a família, gasta suas
energies’‘€ seu salário em átividadès nocivas e inúteis. À Voz do
Trdbittíhdclor, em artigò publicãclõ em 15-2-1914, ilustra esta con­
cepção:

A B A IXO O C A R N A V A L
( . . , . ) O que é o carnaval? U m a tradição popular das mais
tolas qye ppr toda a parte existem. ( . . . ) Quantos operários per-
.... ...d,em S.epS; çmpregos, deixam os lares sem. pão, entes que lhes são
.... capôs, enfermos, atirados, desprezados, sobre o leito; quando adoe-

111
cem, e morrem, vitimados pela sua própria culpa, perdendo noites
de sono, ingerindo refrescos gelados, tendo o corpo a suar por V
todos os poros, caminhando horas inteiras, sob um sol causticante, j
rufando caixas, tocando bombos, empunhando estandartes. ( . . . ) /
O carnaval é uma imoralidade!

A mesma imagem do trabalhador que abandona o aconchego


do lar em troca do bar, deixando seus filhos doentes e famintos
chorando, enquanto a mulher se desespera e a filha se prostitui, tal
como aparece nos romances naturalistas do século X IX , a exemplo
do Germ inal , de Émile Zola, é sugerida no discurso anarquista ao
criticar o bar:

( . . . ) se em lugar de as passar (as poucas horas de descanço)


na taverna ou em outros antros do vício, se as passásseis nas asso­
ciações discutindo e trocando idéias uns com os outros sobre os as- ■
suntos que. vos interessam mais de perto ( . . . ) chegareis à conclu­
são de que é melhor, mais digno e mais humano exigir do patrão
um ordenado suficiente para sustentar a . família do que trabalha­
rem mulheres e filhos para o próprio sustento.( . . . ) ... ..
Albino M oreira (A Voz do Trabalhador, 1 9 -3 -1 9 1 3 ).

Recrimina-se o operário que, ao invés de lutar pelos interesses


de sua classe, aliena-se nos “ antros do vício”, bebendo, jogandp,
fumando, desperdiçando tanto seu dinheiro quanto suas energias,
enfim, fazendo exatamente o jogo do inimigo. O trabalhador politi­
zado é aquele que se mantém lúcido, consciente da guerra cotidia­
na que se trava entre as classes, que acumula energias para empre­
gá-las no momento certo e que, portanto, sabe quão importante é
reforçar os laços de solidariedade que o une aos seus. familiares e
a seus companheiros de luta. A taberna deve ser evitada porque é
um espaço privilegiado da alienação política, lugar onde se con­
traem os grandes vícios e se perdem as grandes idéias. É interessan­
te observar que exatamente pelo motivo oposto o bar é condenado
no discurso burguês, ou seja, porque é o lugar da germinação e
propagação de idéias subversivas, entre outros vícios.
A Terra Livre, de 23-10-1906, publica um artigo endereçado
“ Aos jovens” :

A vós que só pensais em vos divertir, que para nada vos ocupais
da vida social, que, ao sair da Oficina, correis à taberna- ou ao
lupanar, a vós me dirijo, como muitos outros têm feito pedindo-
vos que sejais homens verdadeiros, que deixeis de ser bestas como

112
tendes sido, embora penseis ao contrário, que estudeis trocando a
venda e o lupanar pelo centro de estudos alcançando a dignidade
e a força de ser pensante e consciente dos seus direitos e do seu
valor.
José Postigo.

O centro de estudos versus o bar ou o bordel; o estudo, a


conscientização versus os prazeres da bebida, do sexo, do fumo; a
razão versus os sentidos; o espaço ventilado e higiênico versus o
salão abafado, escuro, aglomerado de corpos. Além do que, a ta­
berna é o lugar onde o operário aprenderá a beber, se tornará um
alcoólatra e será perdido para a revolução social. Dupla arma dos
capitalistas, o álcool deve ser combatido: àqueles interessa o au­
mento de seu consumo pela classe operária, tanto economicamente
quanto por mantê-la num estado de ignorância e de alienação polí­
tica. Assim, o ^Jcool é condenado no discurso anarquista como fla­
gelo das classes trabalhadoras porque degrada o operário, transfor­
ma-o num ser émbrutecido, arrasta-o para o submundo, entorpece
seu raciocínio, retira-lhe as forças, a perspectiva e a iniciativa para
a luta de emancipação social.
Na medida em que condena a bebida e o fumo por enfraquece­
rem física e moralmente o trabalhador, o discurso anarquista se
aproxima do burguês, segundo ò qual são necessários homens fortes
e sadios para “ construírem a riqueza da nação” . Num e noutro, o
bordel, o bar, a bebida, ò fumo e o jogo são condenáveis porque
destroem a saúde e o caráter do trabalhador: para os libertários, o
operário aliena-se, despolitiza-se e degenera-se; para os dominantes,
ele se perde como força produtiva e se corrompe porque adquire
idéias e hábitos subversivos. Não existe no pensamento burguês
uma linha divisória entre vícios morais e idéias políticas: ambos são
nefastos para o espírito do trabalhador e para o crescimento da na­
ção. Evidentemente, no discurso anarquista ou operário em geral, a
causa do alcoolismo nos meios populares encontra-se no tipo de so­
ciedade em que vivemos, onde a bebida, o fumo, o jogo surgem co-
,mo válvulas de escape diante de um cotidiano massacrante. No dis­
curso do poder, por seu lado, a questão remete à falta de cultura/
de educação e de civilização dos pobres, ainda em estado pré-civili-
zado.
G baile, por sua vez, é censurado como prática imoral, alie-
nante e corrompida, pelas tentações que desperta ao aproximar os
corpos de sexos diferentes.
Os anarquistas concordam com a moral burguesa que condena

113
a dança diante da ameaça que representa o: aqntato físico des jp-
vens e por alienar o trabalhador de sua missão! histórica:

Quando com eça o baile, assiste-se à cena mais repugnante deste


mundo, capaz de nausear as próprias meretrizes. A orquestra entoa
as primeiras notas para saltar, ê todos aqueles espasmados mance-
bos correm como loucos em busca da mais bem feita, para» satis­
fazer a ânsia de a apertar nos braços, de I lh e , revelar -r- i Spb
form a de am or — todo o seu desejo de posjse, p o is,que daqpele
( . . . ) enlace libidinoso ( . . . ) , daquelas' cócegas, nãò ppde resul­
tar senão a excitação dos sentidos de ambos; (A T erra L iv re ,, 5-
2 -1 9 0 7 ).

Até mesmo o futebol não escapa à crítica veemente dos anar­


quistas como prática degradante qup embrutece p trabalhador e des­
perdiça suas energias, que deveriam ser canálizàdás pam á milifan-
cia política.
j Não obstante a frequência deites artigos-ná imprensa; anarquis­
ta, reprimindo estas práticas festivas, devemos lèmbrar qu§; também
eram comuns os anúncios ou comentários de.
cluindç» bailes após as sessões de conferência ou de ;pní®é;manifes­
tação política. A título de ilustração, um cartaz de  Plebe,
22-j7-1922, convidava:

G R A N D E F E S T IV A L PRÓ-A P L E B E
Organizado pelo Centro Libertário “Terra liv r e ” realizar-se-á no
dia 12 de agosto, às 20 horas, no Salão Celso Garcia, sito à rua
do Carmo, 23. Este festival obedecerá ao seguinte:
f
PR O G R A M A
I — “A Internacional”, pela orquestra;
5 II — Conferência;
1 III — Será levado à cena o bèlo drama histórico e social, ém
quatro atos: OS CONSPIRADORES;
j IV — Baile Familiar.
l Nos intervalos haverá quermesse e venda de flores.

; Fica evidente a intenção pedagógica que permeia o discurso


anárquista, preocupado em formar o militante político conscience,
combativo e produtivo. Nessa medida, entende-sé omoralismoidèsta
doutrina que visa atingir um número cada. vez maior deTrqbal3h§ip-
res je trazê-los para a causa da revolução, fazêdqs manter, u®a »cpns-
tância relativa na participação nos centros de estudo, na leitura dos

114
jornais operários, nas discussões com seus companheiros e nas ma-
hifeslá|8Ís^ iB lieas/ tíirármánèira de viver, pode-se dizer, está com-
prometidl'Bbm este discürsò: não se trata apenas de introduzir uma
série dê: interdições, impedindo que òs operários joguem, dancem
ou bebam nas horas de lazer, mas de interferir positivamente, fa-
zéndõ' óòiòi^qitè' sé‘-engájeih- póliífcaménte e que abram'mão de uma
atividade ehS benefício dèòütfas.
Aléhí distò, pode estar em jogo uma questão mais profunda.
A condenação véèmente das atividades festivas, de bebedeiras, far­
ras, freqüêiidias a bares e bòrdéis, fumo, nesta perspectiva, visaria
-menos a repressão e a vigilância efetivas, isto é, teria. menós uma
função negativa do que visaria funcionar como m ecanism o de auto­
defesa e de prpteção da classe trabalhadora . frente à violência da
dominação çlhssistá. Como outros tantos grupos políticos que se
cònsidèrãm representantes do proletariado, os anarquistas se vêem
na obrigação de defender os representados contra a ação punitiva
dós dominantes. Reprimir o alcoolismo, a embriaguez, o fumo, e
cohdénâr o boteco e o bordel significa proibir tudo o que possa
dar márgem ou pretexto para o poder atacar. O reforço da sanção
morãl :pÔderia ser uma maneira de escapar da penalidade do Estado
e da violenta repressão policial que recaíam sobre o trabalhador e
òs;pobres ém geral.44 Além disso, e$ta tentativa de regulamentar a
moralidade cotidiana da vida social seria uma maneira que os tra­
balhadores teriam de assegurar sua própria ordem e, deste modo,
destruir a imagem operária fabricada pelo adversário, segundo a
qual os' èlemêntos das classes!sociais1inferiores são seres pré-civiíi-
zados, irresponsáveis, de vida desregrada e de hábitos perniciosos.
O que, por sua vez, justificaria à mobilização de um enorme apa­
rato policial e judicial repressivo. O que estaria em jogo na conde­
nação dás práticas referidas seria, então, a luta para desmistificar
no plano do real a imagem imoral do trabalhador construída pelo
discurso do poder e para convencer a opinião pública de que o imi­
grante podería comportar-se de acordo com a ética moral dominan-

44. E. P. Thompson, “Lucha de clasês sin clases?”, in: Tradición, Revuelta y


Consciência de.C la se, Barcelona, Crítica/Grijalbo, 1979, p. 31. Neste exce­
lente artigo, o autor mostra como a cultura dos dominantes pode ser re-
aprópriada no interior das práticas dos trabalhadores. Para Thompson, o
conceito de hegemonia está intimamente ligado à idéia de encenação e de
teatro. Neste, a construção de um contrateatro por parte dos dominados
marca a possibilidade da imprevisibilidade da ação. Ver Michel Foucault,
La Verdqd y Las Form as Jurídicas. Barcelona, Gedise, 1980, 4.a Conferência.

115
te, negando assim a necessidade do aparato policial constantemente
mobilizado pelos patrões e pelo Estado para conter os impulsos po­
pulares. Ao anarquista perigoso, subversivo, corruptor de menores,
assassino, ladrão, promíscuo e grevista, que a lei Adolfo Gordo ex­
pulsou do país, contrapor-se-ia o operário produtivo, honesto, vir-,
tuoso, educado, comportado, disciplinado, cumpridor de seus deve­
res, mas consciente de seus direitos. Trata-se, portanto, de demar­
car nitidamente as fronteiras que separam o vagabundo, o desor­
deiro, o imoral, de um lado, e o trabalhador pobre, sério, produti­
vo, disciplinado e civilizado, de outro.
A condenação moral de certas práticas sociais visaria conse-
qüentemente garantir o controle sobre a organização do lazer ope­
rário, proteger o proletariado contra a violência do exercício da
dominação burguesa, e formar o militante combativo, dedicado, la­
borioso, figura com a qual deveriam identificar-se os trabalhadores
urbanos do período. A construção deste modelo normativo, de-com­
portamento, militante refletiria como num espelho a imagem, do tra­
balhador que, inúmeras vèzes, aparece desenhado nas páginas do
jornal operário: jovem, forte, saudável, símbolo do. crescimento eco­
nômico e do progresso da nação, garantia da possibilidade do novo
mundo, contra-imagem da projeção burguesaAÀ representação ima­
ginária do operário bêbado, fumante, decaído,''selvagem e arruacei­
ro, o trabalhador sóbrio, sério e produtivo; 3 )operária prostituta.
. debochada, ameacadora-maxa os casamentos m c^ g ân ^ o s.-d as»>&tas-
ses privilegiadas, a j:r a h,albad ^ r i i ^
lia, austera e asseada.,.Aos jovens que levam “uma vida inútil .e .ve­
nenosa” , os militantes estudiosos, combativos, enérgicos e rngieni-
zados. À imagem de um mundo operário confundido cqhi d, sub­
mundo da marginalidade e da criminalidade,, contrapor-se-ia o mun­
do do trabalho e da luta, associado à noção de produtividade e de
progresso.

116

Hg
UMi •<■ >■

III. A PRESERVAÇÃO DA INFÂNCIA

Apropriação Médica da Infância 3o

De hoje em diante ficais sabendo que a higiene é a parte da


medicina que cuida da saúde de pessoas, estabelecendo as regras
do modo de viver com cuidados imprescindíveis, sobre a habitação,
a alimentarão, o vestir, o dormir, a educação, etc.

D r. Moncorvo. Filho, 19 0 1 .

Na empresa de constituição da família nuclear moderna, higiê­


nica e privatiVa, a redefinição do estatuto da criança pelo poder
médico desempenhou um papel fundamental. De uma posição se?
„A..manr
S â i ó i j a â l d â t i l l â n ^ ^ c e n -
iiaLnO-inlfixiOJlxk^^ e aten­
ção espeeiáh tratamento e alimentação específicos, vestuário, brin-
. quedos e horários especiais, cuidados fundamentados nos novos sa-
beres racionais da pediatria, da puericultura, da pedagogia e da psi­
cologia.1
Se, até o final do século X V III, a medicina não se interessava
particularmente pela infância nem pelas mulheres, o século X I X as­
siste à ascensão da figura do “rèízinho da família” e da “ rainha do
lar”, cercados pelas lentes dos especialistas deslumbrados diante
do desconhecido universo infantil e do território inexplorado da se­
xualidade feminina.
A conquista deste novo domínio de saber, o objeto-infância',
abriu as portas da- casa para a interferência deste corpo de especia­
listas, os médicos higíenistas, no interior da família. Através de três

1. Phillipe Ariès, História Social da Criança e da Família. 2 .a ed., Rio de


Janeiro, Zahar, 1981; J. Donzelot, op. cit.

117
as peças eram reaquecidas para o acabamento” . Com isso, as crian­
ça s operárias acabavam trabalhando ainda mais que os mais-velhos-
e quando a rusao do vidro retardava, aumentavam para onze, do­
ze e até quinze horas de trabalho” .30
Se o retrato da exploração infantil foi tema constante nas pá­
ginas da imprensa anarquista e operária -em geral, 'a problématiza-
cão da relação co m ’a infância para os'libertários certamente.enve­
redou por outras direções. Não apenas uma atitude defensiva de
denúncia da violência fabril, mas um pensar .sobre a formação do,
ho.mem novo, desde a mais tenra idade.

A pedagogia libertária, e a formação do homem novo

Como então formar este novo personagem capacitando-o a con­


viver com as mais variadas diferenças, de idade, sexo, cor, nacio­
nalidades, sem todos estes preconceitos que. nos atravessam, crian­
do tantos desencontros, tantas dificuldades de comunicação e en-'
tendimento? Seremos capazes de quebrar tantas molduras, de des-
fazermo-nos de nossas máscaras? A infância é uma esperança. Uma
educação especial, capaz de respeitar sua individualidade, de dei­
xá-la falar em sua linguagem, sem ter de suportar obrigações, deve­
res, punições. Por que não deixá-la encontrar seus rumos, expressar
sua diferençassem recriminações? Suportaremos não nos yer refle­
tidos em suas pulsões infantis,.como diante de.um grande espelho,
cujas formas projetassem nossas imagens reduzidas?
As experiências de/F errg fi abrem perspectivas .sedutoras.. Afi-
nal, em Barcelona, 1901, põe em.prática, suas idéffas,-' seu. projeto .
educativo e funda a “ escola moderna” . Por vários anos, a imprensa,
anarquista homenageia. Francisco Ferrer y Güardia,. na data de süa
morte: fotos, artigos, poesias, manifestações públicas., Q fuzilamen­
to em 1909 pelo governo autoritário. espanHòl é rememorado na.'
poesia publicada em A P leb e ; ’■ ’■

A M EM Ó RIA D E F E R R E R • \
E d u car para a vida a mocidade.
P ara uma vida forte e sem mentira?
H o rro r! Isto é a anarquia, isto conspira
■Contra o céu, mais o trono, mais o 'abade! ■

30. Id e m , p. 117.

146
•' M orte ao infiel, ao que à loucura aspira!
A Terra é muito nossa propriedade,
Não deixemos, m orrer a autoridade,
Como se esvai „o fumo duma pira! '

Morte ao infiel — E a terra horrorizada


Viu á ressurreição de Torquemada
. Dum m ar de sangue, horrível e iracundo;
Num renascer da inquisitoria sanha,
. Viu F errer sucumbir dentro da Espanha,
— Pára. viver no coração do mundo!
Beato da Silva

O que se pode esperar da educação tradicional, senão que cons-


. titua indivíduos PaárjJiiizadQa^jdblcek^ ?
Ê para isso"’ que sqgve a escola burguesa: .para fazer as pessoas .acei­
tarem cegamente as normas, estabelecidas, para incutir valores so­
ciais e morais da classe dominante, para produzir e reproduzir in­
divíduos concebidos à sua imagem, E isto através de relações auto­
ritárias, punitivas, coercitivasy estabelecidas entre professores, de
um lado, e alunos, de outro.;-A escola não nàsceu para disciplinar,
como afirma Ariès?
O eixo da crítica formulada pela pedagogia libertária dirige-se"'
contra o exercício dò. poder !mas—relneQes~--q-ue~se.„pj:Q.duzem...em ,to-
dÃF^õs^spãgSF de soçiá,bliida.de:. na escola, na casa,, rio trabalho,
nos luiáres.de Iazêr/FefEerpropõe um tipo de escola que.não in-
centlve o espinto ..de.:Co,mpetição'entre as.cfmnpfo, pomo-oçorre .nos
institutos, disciplinares burgueses, mas que crie condições para a
descnheria dft-nnvfl,s na r.pQpp.rflçãn,
ria- confiança e no. respeito mútuo. A escola-racional ou moderna
não .pbete:ri3tó"?e^i2*ar'. urria’ grande obra de ortopedia social, .nem se­
grega as pe.ssoas/.segunçlo', as suas diferenças. Ela pode- ser freqüen-
tada -por indivíduos de. meios sociais diferentes, de idades variadas,,
de ,am|?(Dá7ósdex&Âsylscolas. mistas facilitam o convívio e o co-
hom%s7e‘^^mTEerès, colocando-os numa relação
^^LJiigPiiiiãliÍ8>d^«,»d£sdd' cedo,
A educação anarquist.a...devx^fazer„da>xidanca_umml^nimai sei-
vagem'', na expressão , da pedagoga . sueca. Ellen Key (1894-1926),
colaboràdora do Boletirn. da.-Escola Mo.de.rna -publicado por Férrer
entre 19Ò1 e 1909 e admirada por Maria'Lacerda de Moura: porque '
ela deve,.te^XriJ.ÇÍ.qdX4j vontade firme, tornar-se um conquistador,

147
um ser observador, cheio de imaginação, forte o suficiente para po-,

s n r T ã l T " p e T ^ ^ e u n d a n te s ,e h s inan cio -a a acom odar-se, a


não se rebelar, a obedecer às inúm eras interdições: ' “ é proibi- .
do. . . O novo hom em deve ser cap az de and ar so b re •as. p ró p ria s^ /
-e=r«sS3teassi — ...........Jy.!.,...». (X
pernas, voar com asas seguras para espaços novos e dqscp.nhecidosV^
aventurar-se, m ergulhar profundam ente. N ada disso -é possível com
uma ed u cação que exige, obediência e jp J ^ iis s ã o : aos pais, aos m es­
tres, aos ch efes, aos governantes, aos p recon ceitos, a toda sorte de
im posições. E que cob râ um alto preço aos que se recusam e p re­
ferem escolher um cam inho próprio.
\
.V A c onc e pção libertária da form ação do hom em novo se ch oca
frontalm ente com o precon ceito burguês de que os castigos e a re­
pressão são instrum entos necessários e fundam entais .para a form a­
ção do caxáter desde a máis tenra idade. N stJrêp rèsên tàçâcr'biílrgoe^
sa ,)a c rianç a se assem elha a um selvagem em que prevãT^em. "os
instintos que, por n'aturéza7~saõ” p e n g õ s ò s m à K f iç q s .„ q y ,e devem
ser dom esticados pela razão.* Está oposição entre n atu reza-e cultura
aparece nitidam ente num a com unicação, apresentada no l.° C o n -.
gresso Brasileiro de P roteção à Infância por T acian o . Basílio, em
1 9 2 2 , cujo eixo é a defesa do Castigo às C rianças:

Com essa orientação racional, só há vantagens em reprimir


com firmeza as más inclinações, infligindo-se. gradativamente os
castigos .em geral, para que a criança perceba obter maior lucro
para si na abstenção da prática, de determinados atos. Ligará então
a idéia de 'bem ao que lhe é pérmítido e de rriaí ao que lhe é
vedado ou na linguagem, familiar••'se'r‘á -‘bonifú';s.è;tt-ão' 'disâgriádàr■
aos pais e feia no casò contrário.31 '

A repressão das tendências naturais da crian ça deverá ser, se­


gundo ele, tanto física, através dos c a s tig o s ’co rp orais, safanões; p al­
m adas e bofetadas, quanto passar de m odo sutil pelo gésto, pelô jo­
go do olhar, pelo tom da voz, ou pelo silêncio pesado. À/coHcepçB*^
exatarhente ò opôsto’ destnt form a de
relacionam ento opressivo com a crian ça: busca fÒrriiàr pèSsóas crí-
íicas, desenvDlxerL^ues.pon4^^ o homem das

31. Basílio Tácito, Castigo às Crianças. Memória apresentada ao I Con­


gresso Brasileiro de Proteção à Infância. Riò de Janeiro, Revista dos Tri-
l-'iinais, 1922, p. 11.

148
..iiiihem ^fiiL^^
■através,de uni' outro .procedimento pedagógico. Partindo de uma ou­
tra representação da criança, os anarquistas’ não aceitam que c l a r e­
ia. esta “cera mole", na expressão do dr. Moncorvo Filho, onde de­
vem ser inscritos os preceitos de uma moral puritana, ou um peri­
goso, ielvãgem em que predominam instintos perversos. Ao contrá-
. rio, pata os libertários, a criança possui aptidões naturais positivas
que as práticas pedagógicas devem ajudar a desenvolver,. A educa­
ção deve respeitar á personalidade infantil, atribuindo im porra n d a
|s suas necessidades' remsó_£_j*mfundas. Recuperando a fé rous-
seauniarta na bondade natural do homem, os anarquistas conside­
ram que não há por que reprimirem-se as tendências naturais da in­
fância por uma educação autoritária e vitoriana.
■:Ferrer ^criticava .os niétodos de ensino da escola tradicional,
instrumento dommacão-_de..classe: a escola racionalista não
deveria ser esta “espécie de aparelho para exame ininterrupto que
acompanha em todo o seu cumprimento a operação de ensino",
como.diz Foucault.32 Nada de exames codificando, registrando, ano­
tando, informaad.Q:se. sobre, cada gesto do aluno. Nejii„;pi:em-iGs,
nem punições., nem castigos físicos' ou morais, hierarqui-zando os
indivíduos, distribuindo-os nas escolas do melhor ao pior, do mais
bem comportado ao preguiçoso, estimulando as rivalidades....e-cara-
logando. . . Contra o sufoco da educação burguesa, Ferrer pretende
que a escola moderna consiga fazer de cada aluno seu próprio
professor. E si un dia , con ei ardor y la liberíad que nos deberán ,
çom baten los dogmas de nuestra im perfecta sabiduria, tanto m ejorl33
- A escola racionalista é laica e privada, pois sendo a religião e
o. Estado, sustentáculos dos privilégios sociais só podem oferecer um
ensino autoritário e dogmático, a serviço dos dominantes. A cultura
deve ser democratizadá, seu acesso facilitado às cam adas slesjjivo-
recidas da população e deve estar adaptada às sjaj^Lmeceestétvées,
sem a parafernália dos conhecimentos livr.eseos e inúteis. Nenhuma
classe ou grupo social tem o direito de deter o monopólio da cultu­
ra: na sòciédade burguesa, o saber torna-se uma arma nas mãos dos
ppderosòs;. a verdade semprêHihes pertence. Mas não se trata sirri-
rfÕpna^ò^do saber, É também a própria ciência,

32, Michel Foucault, Vigiar e . Punir, op. cii., p. 166.


33. H. Hoorda Van Eysinga, "Le pedagogue n'aime pas les enfantsü in:
Hole tin de. la Excuela M oderna. Barcelona, Tusquets. 1978. p. 15.

149
que se constitui pararíegitimar a dominação, que deve ser questio­
nada. Com Bakunin, ^Fep:wc©mpartilha da desconfiança em reMçtío
ao eientificismo, considerando a ciência não como um-saber neutro
mas como “ instituição de classe” . Não é à" toa, afirmà eièj que aque­
les 'que detêm o poder “ esforçando-se por >consertar ás crenças
sobre as que antes se baseava a disciplina soeialy trát-aram de dàr
às concepções resultantes do esforço científico uma signifibação
..que não podería prejudicar às instituições estabelecidas” .34'Bakuhin,
por sua vez, nptmha_àciência oficial, posta a séryiç.Quda burguçsia;
a ciência popular; oue devería' -estudaFêã'
e^aè esperanças do povo. .
T ^ ê g u n ^ a doutrina anarquista, o conhecimento deveria baséar-
na ..
e não nas “ longas e íatisantes nretec
sem sentido” (A Terra L iv re , 23-2-1907). Assini,

O que é verificável pelo próprio aluno, o que é demonstráveí,


o que é acessível, claro, lógico para a criança, o. que ela pode
por si mesma descobrir ou desenvolver — iáso será preferido a
! todas as divagaçÕes metafísicas oiui filosóficas, a todas as afirmações
impostas pela autoridade do pedante, que não podem senão habi­
tuar à. preguiça intelectual.

; Ao contrário da concepção originária de educar — do latim


educare, que significa endireitar o que está torto, concepção que
justifica a adoção de métodos autoritários de unqüadrariiéntp da
infâhcía e da adolescência — , a escola racionalista pretende favo­
recei: o desenvolvimento das' t é n ®
professor tem pouco que ensinar, más deve observar ‘/muito, apro­
veitar as circunstâncias para que seu aluno descubra pon si mesmo
os inúmeros fatos de todo gênero, as min t j s E
têm en tr e s iT l^ n ^ moderna,, *:.. -

toda impQrícãíx^iagmáMc qualquer, ipcursão na


járea metafísica abandonada e, pdueo a pouco, a experiência,, for­
m av a a nova ciência pedagógica, não só por meu empenho, mas
pela ação dos primeiros professores e, em ocasiões, até’’’pelas dú­
vidas e manifestações dos alunos.3435

34. Albert Mayol (O rg .), Boletin de la Escueía M oderna, op. cit., p. 14.
35. iMaurício Tragtenberg, “Francisco Ferrer e a pedagogia libertária”, in:
Educação & Sociedade, n.° 1, 1978, p. 30.

150
O processo de^ deveria realizar-se de maneira
?razero$ &V'como os ]og.os, ejamjíâlaidzadas
visando

arrancar o: aluno das salas de aula com mutismo e quietude insu­


portável, características da . morte, substituindo-as pela. alegria e
bem-estar infantil.

Afinal, continuava A Terra .Livre (23-2-1907), a escola não


deveria-, sèr umlngar. de tortura/rid d o j a ^ s u ,^ ^ ,
m ^ ^ T ^ a n o ^ p ra z er, onde.elas sé:sentissem à vontade e o ensino
fosse, oferecido como uma diversão,

procurando aproveitar a sua natureza irrequieta e alegre, as suas


faculdades e sentimentos,, falando mais ao o lh a r que ao .ouvido,
dedicando-se mais à inteligência do que à memória, esforçando-se
por desenvolver harmônica e integrálmente os seus órgãos.

A experiência e os ensinamentos de Ferrer y Guardia, que n a .


década de 80 do século,passado viajara para a França, onde entrara
em contato com pedagogos e com instituições educativas inovado­
ras,..são 'discutidos na imprensa anarquista em. inúmeros artigos,
ao lado de outros teóricos libertários, como Sebastian Faure e Eliseu
Réclus. Seu projeto educativo é propagandeado desde antes de sua
mórtê, embora, as primeiras escolas modernas no Brasil surjam em
1920vips comitês pró-escola racionalista debatem as idéias pedagó­
gicas daquele espanhol por vários anos antes da sua fundação.
Em A Terra Livre (l.°-l-1 9 1 0 ), eram expostos os objetivos deste
projeto, educacional: . .

A Escola Moderna propõe-se libertar â criança do progressivo


. envenenamento moral que por meio de um ensino baseado no
misticismo e na bajulação política, lhe comunica hoje a escola
religiosa oú do governo; prOvqqar junto com o desenvolvimento
da inteligência a form ação do caráter, apoiando toda concepção
moral sobre a lei de solidariedade; fazer db mestre um vulgariza-
dor de verdades adquiridas e livrá-lo das peias das congregações
. ou do Estado, para que sem. medo e sem restrições Ibe seja possível
ensinar honestamente, não falseando a história e não escondendo
as descobertas científicas.

151
Assim como Proudhon e Bakunin.. Ferrer propunha , a supera­
ção da divisão entre trabalho,-;manual e intelectual,, de modo que'
a humanidade pudesse recuperar súa unidade originária perdida,
A sociedade cindida entre aqueles que detêm o saber e aqueles
que executam as tarefas braçais só pode' comportar relações cíe
dominação; assim, a superacãi
poderia ser. conseguida na medida em que todos
sTFiTünãh^âminte atividades manuais e intelectuais, sem.
da instrução a_~iins~.e... todo trabalho físico e alienan_te—a—qu-í-h-^.
Portanto, desde a própria escola;’ o aluno deveria participar da
fabricação dos instrumentos didáticos, da manutenção das Jsalas.
do cuidado com jardins e blbliotecai^tornando-se um sujeito ativo
no processo pedagógico .cm^.todojL-Q.s.sentidos, O que seria, também,
uma maneira de quebrar a. hierarquia e 'a distância dos papéis
atribuídos a professores, alunos e funcionários,"'evitando' 'que cada
um se especializasse rigidamente em uma atividade limitada. 'Além
disso, deféndia-se a aprendizagem de um ofício manual na escola,
que habilitasse os alunos pobres a enfrentarem as contingências

A preocupação com a valorização da criança..em todos os


sentidos, com o respeito à sua particularidade, como ser que tem
vontade própria e diferente da dos adultos constitui um dos princi­
pais pontos dá proposta de educação libertária. A denúncia do
abandono dos pequenos a uma educação emboloracla, tradicional
e alienante,-“em que a vontade individual era tida como um defei­
to, que a todo transe era necessário expurgar” (/I Terra L ivre,
2-4-1907), remete à questão do direito das crianças;

Pois à pergunta: a quem pertence a crian ça? respondo resolufa-


m ente: nem à família nem ao Estado, mas a si própria,- E ao
suposto direito da Fam ília e do Estado cujas entidades n ão têm
respeito peba criança débil, ignorante e desarm ada mais que deve­
res, oponho o direito C riança (s i c ).
A criança tem direito ao pão do corp o, desenvolvimento físico:
ao pão da inteligência, desenvolvimento. intelectual* ,,e ao pão. do
c o ra çã o , desenvolvimento do seu ser afetivo ( . ... ). ( A T erra L iv re ,
1.° -1- 19 10).

pretende ser eliminando as


romeiras que opõem o trabalho manual e o intelectual e as relações
de dominação decorrentes. Meio de superar a alienação do homem,
a ‘‘instrução íntegraiT7, impediría que o saber estivesse nas mãos
de uns poucos que ditariam,, a todos os demais os caminhos a
serem ...perporridos, . permitiría, o desenvolvimento harmonioso de
todas a§, pdténcialidaçlee humanas. Assim, a criança trabalhadora,
que -na sociedade, burguesa é marginalizada, transformada desde
cqqq' ém l‘‘3bqrrò...dç.. carga”, porque, muito nova precisa entrar na
fãÈ.riQà e s.úbmeter-se às vontades dos patrões, dos contramestres,
dos próprios’Op;erários\e ainda às exigências d.a máquina, podevia
ema.ncipár*se,; aprendendo a autogovernar-se e a fazer valer seus pró­
prios desejos.- Afinal, mesmo que na sociedade burguesa a criança
pudesse freqüentar a escola e o trabalho infantil nas fábricas fosse
proibido, analisa Eliseu Réclus, que tipo de instrução recebería?
Úm saber.incompreensível, absurdo, decorativo, que lhe seria passa­
do à força, como obrigação,
O absurdo da. educacão.e do saber burgueses: obrigam-se as
crianças a assimilaremJadiLUJQLi ^ ^ .desnecessá­
rias p a r ca1. no interior de espaços celulares, fechados,
onde se exerce uma vigilância ininterrupta sobre todos. Crianças:
vocês não devem brincar, nem fazer algazarras, gritar ou agitar,
nem devem colar nas provas, nem virar para o lado. As cadeiras
já estão fixas nos devidos lugares, todos perfeitamente enfileirados.
Tudo o que importa é garantir a ordem aqui dentro, lá fora e em
toda a parte, literalmente. Sem turbulências, sem agitação, sem
risinhos e coehichos. Crianças-operárias, crianças-estudantes, o con­
trole disciplinar não faz distinções de alvos: incide sobre todas.
Ela deve aprender a respeitar, isto é, a temer, a submeter-se aos
superiores hierárquicos, aos horários, aos regulamentos, às instru­
ções, responder devidamente aos estímulos, na instituição escolar
ou no processo de trabalho. A própria materialidade dos edifícios,
com grades'é cercas por todos os lados, deve servir para instruí-las
quanto ao código ético aprovado.
Cerfamente, mais que em outras doutrinas, o interesse pela
educação ocupa posição de relevo no pensamento anarquista. A
preocupação em alfabetizar e instruininxL-Q.timer.o.-cada_ve2: maior de
possíveis leitores dá imprensa libertária...e..-di£:-,SAra^--fiub44&afQ^s--dg)u-
trihárias‘ é1 propagandísticas justifica também ’ seu interesse—pelo
p ròiètóedu^ãfivo. k
Qs/^ornak^desempenharam papel de destaque no processo de
conscientização do proletariado e atuaram como centro de organiza­
ção dar classe. Os inúmeros jornais libertários existentes no começo
do'século no Brasil, como A Lanterna , A Terra Livre, A Voz do
Trabalhador, O Amigo do Povo, La Battaglia e A Plebe, entre

153
outros, tiveram uma tiragem relátivamente expressiva em São Paulo
e no IRio' de Janeiro, durante sua existêndia.. Alguns possuíam uma
biblioteca, como A Terra Livre, O Amigo do Povo q À Plebe, .cujo
acervo era constituído por obras de teóricos ’do artárqüismo: Malá-
testa,| Kropotkin, Bakunin, Neno Vasco^José-Òiticicã/Gigi Damiàni;;
de romances de autores nacionais e estrangeiros, entre’ Os quais
figuram Eça de Queirós, Fábio Luz, Afonso Schmidt, Émile Zola,
Alexandre Dumas, Tolstoi.36 A Lanterna, cujo primeiro número apa­
rece em março de 1901, dirigido por Benjamin Motta, tem inicial­
mente a expressiva tiragem de 10 mil exemplares, aumèntando de­
pois [para 26 mil, embora posteriormente se estabilize em cerca
de 6! mil números. A Voz do Trabalhador, refundado em 19J3,
atinge uma tiragem de 3 mil exemplares iniciais e ém oito meses
passa para 4 mil, segundo informa o 3.° Congresso Operário Brasi­
leiro (COB). Portanto, como o próprio COB afiifmava, a imprensa
aparecia para os anarquistas como “o meio mais eficaz para orientar
as massas populares” .37
(Esta valorização especial do projeto educacional libertário •
também pode ser explicada pela
objetiva inelutável inscrita no desenvolvimento Histórico. ’’Ôs-Über-
•tariois'nao acreditamèm um •prõgfe s s ® “ ciéflíi- .
ficamente assegurado” no curso da história, levando à criação dá
nova sociedade. Para eles, qualquer mudança radical dependería
do esforço pessoal de cada um no séntido de sua' aüto-eniahçipação
e aí Çaberia um papel fundamental à educação enquantpdfqrmadqra
do homem novo.. O esforço/ed u cãti?\ nesse sentido,,/figurá como -
uma ação moral e como um dos meios da aeão' direta: tanto quanto .
o boicote, a sabotagem ou a greve, à edüçaçaoj mèif dé superar a- -
alienação a que o homem,está déstièadó' ú à ‘ sociedade-huirguesá,
(L_uma arma, de luta do proletariado p o r' süá autòleihahóipáção,
serti depender das falsas mémações^reprèséhtadàs pelas' escolas
públicas autoritárias ou pelo parlamentarismo. ' . .
i Aprofundando esta discussão, Cfèio que o que torna a educa
cão um valor social para os anarquistas é sua própria jzbncepjçMo
 ã revolução social\A transformação radical da sociedade, ao con

36. >her a respeito E. Rodrigues, Nacionalismo e CUltura Social. Rio ; de


Janeiro, Laem m ert, 1972; Boris Fausto, op. cil.\ Francisco F o o t Hardman,
op. cit.
37. Extraído de Michael Hall e Paulo S. Pinheiro, op. cit., pp. 198 e 217.

154
Wm4»mi r*
— v jsju.
teario -do que ^pregám os ' mamsitòè^ • ’ri㮕-lexigê^. primeiramente o
assalfo' acr P.Qj3j^da_aPiiratCLJSSta^^ re­
estruturadas todas as relações sociais, a partir daquelas que se
constituem no âmbito da produção. Na doutrimaJanamuista. a re-
criação d à sociedade não é obtida pelo jogo político: a tomada^do
áparelbo .:doJfctgdgjiã o se constitui numa preQCJimcãojanm dra. O
Estado; aueiMbede a livre organização
•dà' soèíéiládè; delve ser suprimido e não apropriado pará possibilitar
a tránsformàçãò da estrutura econômica e social. Por isso mesmo,
og anarquistas‘recusam a párticipaCãb na M a política "parlamentar.
ou, então, à constituição de um pàrtidò político centralizado que
deveria dirigir o ’movimento revolucionário de transformação social.
Recusa que a historiografia tradicional considerou como índice da
fragilidade de sua capacidade organizacional e não enquanto pro­
duto de uma outra lógica, que revela uma concepção diferenciada
da política.
Ao contrário do marxismo, o. anarquismo não se afirma como
ciência, nem pretende obter um conhecimento totalizante, científico
■c,,j ^ j g e t ^
pplmbaT Nem mesmo se coloca. ■.co.mQ..,....uma—teoma-xom-pleta ou
■.como único, capaz de conhecer cientificamente
. a^hi^rià^e^.pprtâ^to, dé jefaboraf as estratégias e. táticas de luta
“verdad^Ús O Corretas,’ para a ação'revolucionária, Bakunin afir*
maya explt:èit#men;ter “ não temoa^de.ensinar o p o vcLm as de inci-
tá-lo à revolta ” .^8 Criticando o cientificismo dos marxistas, Bakunin
çõpsileráya que sendo á teoria e a •ciência “patrimônios de uns
pjOgeoV..^, esta ppstqra acabaria levando à idéia de que “ estes poucos
dpvem dm^ir a yida social; não apenas fomentar e estimular, mas
reger-todos. os movimentos do povo” . E completava:

Segundo eles, rjo dia seguinte da revolução, a nova organização


social não tratará de estabele;©èr-$e sobre a livre integração das
associações de trabalhadores, pòVds, Comunas e regiões, de baixo
para cima ou conforme às necessidades e ao ihstinto do povo,
mas sobre o poder ditatorial desta minoria ilustrada,' que suposta­
mente expressa a vontade geral do povo.
(...) As palavras “socialista instruído” e “socialismo cientí-

38. Extraído de James J oil, Anarquistas e Anarquismo. Lisboa, Publicações


Dom Quixote, 1977, p. 105.
fico”, que se encontram constantemente nos trabalhos e discursos
de Lassalle e dos marxistas apenas provam que o pretendido Estado
popular não será senão o governo despótico das: massas trabalha­
doras por u m a . nova aristocracia, numericamente pequena, dè
verdadeiros ou falsos científicos.3^

O anarquismo aprèsehta-se cómo uma doutrina política qüe.


comporta variações em seü interior. Nao opera com os pressupostos
do marxismo, muito embora autores, como Pierre Ansar,t procurem
mostrar uma proximidade no pensamento de Proudhon e de Marx,
herdeiros da tradição saint-simòniâna, muito, maior do que á me­
mória .históriça, construída a partir, de uma luta política <pelo
controle do movimento operário internacional — afirmòü.3940 No en­
tanto, para os ánaramltãS. a Jmfciln lC ^
decorre dá criatividade dos sujeitos históricos ‘reais, de acordo com
suas experiências..yivenciais, e nãõ~~^c^ d¥senvolvimento inelutável ?
dasjgrsas^prodtiti^as. Diferentemente do marxismo, o anarquismo
não““a t T í M ^ essencial ao proletariado industrial, classe
portadora do universal pára Marx e seus discípulos. Nem mesmo o
conceito de classe é fundamental para o pensamento' anarquista,
como o é para os marxistás. Os libertários não reconhecem este
ser do proletariado revolucionário determinado por sua inserção
no processo de produção. Bakunin apostava muito mais nos "deser­
dados do sistema” em geral, èm' todos os tipos de trabalhadores e
de pobres, naqueles que "nada têm a perder”, inclusive nó lumpem-
proletariado tão marginalizado e desprezado pelos marxistas. Baku­
nin chega' mesmo á defender o banditismo na RSssia; não Obstante
tér criado discípulos tanto entre operários franceses como entre
os' artesãos 'especializados e letrados do ‘tipo ' dós relojoeiros do
Jura suíço. Considerava o proletariado. vülnérávèl aos apelos da
ideologia dominante por sua situação privilegiada em relação aos
demais trabalhadores oü desempregados. Como a revolução social
não decorrería, segundo èlès, do desenvolvimento necessário e posi­
tivo das forças produtivas, não acreditavam, que a transformação
radical da sociedade começasse'' nós‘‘;pajfeês ;máis"ltidústria^àdosi.
onde os operários seriam mais conscientes, corpo dizem os .marxis­
tas. Segundo Bakunin: ...

39. M. Bakunin, Escritos de Filosofia Política. Madri, Alíanza Editorial,


1978, vol. II, pp. 37 e 42. -
40. P. Ansart, op. cit.

156
, ; O advento da revolução social não está mais próximo em nenhum
Qutr.Ó país do que na Itália. Na Itália não existe, como nos outros
países europeus, uma classe privilegiada de operários, que, graças
aos. seus salários consideráveis, se orgulham das habilitações lite­
rárias que adquiriram; são dominados pelos princípios dos burgue­
ses, pela sua ambição e vaidade, de tal modo que diferem apenas
dos burgueses pela sua situação e não pela sua maneira de pen­
sar.41

. Embora anarquistas e comunistas sonhem com a instituição


da sociedade igualitária, sem Estado e sem classes, em que os meios
de ; produção. pertençam à coletividade, diferem quanto às suas
con cepções da política e da sociedade. Para os primeiros, a mu­
dança, social- se trava no- interior de um outro campo que, de certa
forma, abrange as múltiplas formas das relações sociais. Trata-se
da -redefinição do conteúdo destas relações que, na sociedade bur­
guesa, se caractlrizam por serem coercitivas e autoritárias, dado que
se fundam sobre a exploração do homem pelo homem. A socie­
dade anárquica, ao contrário, deve evidenciar a ausência desta
exploração e de toda forma de dominação: entre classes sociais,,
entre sexos, entre idades, entre pessoas de cores diferentes, no
interior da família, da escola, do trabalho ou em qualquer outro
espaço de sociabilidade. Não se pretende instituir um outro regime
5 político em que as relações que se estabelecem no cotidiano perma-
§ neçam inalteradas, mesmo que provisoriamente. A transformação
^ - •£; revolucionária da sociedade passa pelo questionamento prático e
^ ^ / imediato dás relações de poder, onde quer que se constituam, o
j qüe’ evidentemente inclui todo um sistema ético e um conjunto de
( valores estabelecidos. pela cultura burguesa num longo e lento
v H* J prõèésso; Mas esta revoluçionarização da maneira de viver depende
«£ & \ fúhdaméntâímente da atuação dos sujeitos históricos em busca de
"lí £ ) uma ríõvá fòfhia social e não do amadurecimento das “'condições
^ -qJ ’ objetivas” , independentes da ação subjetiva voluntária.
^ Assim- seiido, todos devem estar empenhados na mudança revo-
dk Sòcie%dey;J>‘orque ela parte de uma vontade pessoal.
•aííàrqtiistâfc afirmam uma con cepção da história,
J qüe-k;Torhã um processo de criação permanente dos sujeitos histó-
\ ricos e não o resultado de determinações econômicas independentes
\ daTntervdhção humana. Se a história é criação, a pedagogia, visan-
\ do formar .um homem novo, constitui o valor social mais seguro

41-. Extraído de James Joll, op. cit., p. 103-.

157
i*

e indispensável para a construção do novo mundo. A questãçj-se


coloca, portanto, em um campo de luta que podemos'definir como
sendo o da m oral e não o da política propriamente dito.
O tipo de sociedade que, os, libertários pretendem instituir
deve construir-se a partir da cooperação natural è-da "ajuda mútua” ,
como diz Kropotkin, entre indivíduos que se solidarizam. No dugar
do lEstado, “ fonte de todos os males” , a federação livre, a. livre
organização das associações de produtores em comunas locais que,
por sua vez, se agrupariam livremente em federações dás. comunas.
O pstado, para os anarquistas, pretende estabelecer urna unidade
artifical que violenta as tradições, os costumes e os interesses dos
diversos grupos sociais, na tentativa de anular a diversidade do
social e de criar àquilo que Lefort, comentando La Boétíè, dêfiniã
como a “ficção do Um” . Por isso, deve ser destruído ê não apro­
priado, assim como todas as suas instituições: os bancos, as univer­
sidades, a política, o exército, etc.
! Tendo como horizonte a instituição de ümá organização sojciai
formada por comunas aútônomas livremente fedéradaài bs^anarquis­
tas recusam a construção dè Um paftidõ político revqluciõnáriò que
devéria liderar a classe operária ejnquânto sua “vanguárda revòfti-
cionária” . Acreditam que esta instituição acabaria por reprodtíâr
em seu interior a divisão social edfré Os que"cqncebèhi e %àn<iam
e os que executam e obedecem, recriando ãssim relações táérar-
quicas entre seus próprios membros, tanto quanto ilntfe a; “ ^àíir
guarda” esclarecida e a más^a inconscíerife. Piara. c® anarq^slls,
os instrumentos utilizados para a instituição dà sociedade’Jifer-
tárià devem desde já refletir a natureza- da sèpíèjadè jjr o fâ ã fa
A revolução, como processò de transformação áas rêla&eis socii|s,
começa aqui e agora e não depois do saítò 'cjue “ ú ^ d ia ^ .s e r á
dadp, salto revolucionário, depois que a ditadora do proletariado,
momento transitório segundo Itáárx, for extinta..; / ç
; Bakunin, em seus Escritos dè' -Filosofia,. çidÈfo&va a
socfal-democracia alemã, que afirmava a. anterioéidude d í revolução
política sobre a revolução social, duvidando que a'extrema concen­
tração do poder nas mãos de um grupo dirigente — “ a nova classe
cierjtífico-política privilegiada” -— não signifiéaria um prolonga-^
mento da dominação sobre o trabalhador. Para? ,ele a idéia de ium
Estado popular é uma contradição em termos: o povo..não .pode
nunca ser amigo do soberano, mesmo que este se diga seu repre­
sentante legítimo, porque o Estado encarna a divisão social do

158
e "efíqüaritd existir ‘haverá “ governantes e governados,
affids! d esóràívõs®1exploradorès ê explorados” .
A revolução deveria resultar do “ acordo voluntário e consi­
derado dos esforços individuais para o fim comum” . Se admite algu­
ma organização no processo revolucionário, Bakunin afirma que
nenhuma .função deve ser permanente e todos os cargos devem
ser temporários e revogáveis:

“A ordem hierárquica e a promoção não existirão, de modo


que o comandante de ontem pode tornar-se o subordinado de
amanhã. Ninguém está acima dos outros, e se por momentos o
es.tiver é só para não estar daí a momentos, como as ondas do
mar, que vão é vêm segundo um salutar nível de igualdade”,42

O enraizamento do discurso anarquista no campo da educação

; Segundo dados fornecidos por Edgard Rodrigues e registrados


pela imprensa anarquista, os libertários tiveram intensa participação
.em atividades—culíumim e . .. especifiçamehte preocupados com a
edqpaSão popular, fundaMm^dajnfinQS..25 escolas livres.oilman
d^pasi,dentfos de ensinç profissional, grupos de, estudo, centros de
ctílfura prqietária, centros de educa,ção; artística, grupos dramáticos
e musicais.43
;ç&^JM©>Bmlo> íemj <1909, fundou-se; a Escola Moderna dirigida
ptorc^qâOi Penteado e situada ávavenida Celso ^Garcia, 262, com
ã ^ M ^ fte lffi^ ‘.fíótUrttáS 'paraxrianças de ambos os sexos e também
'atfuftbs. Logo depois, surge à Escola Moderna
n.° 2 , localizada à rua Maria Joaquina, n.° 13, no Brás, sob a
direção de Adelino de Pinho, e em São Caetano a ecola operária
dijfigida pór José AÍvbsr^íO'Mo’ ;de.Jáíféifco, sürge ii Escola l.° de
Maio,' Hè”Vila Isabel, situada na rua do Senado, 63, é a Associação
Éscolã' Mdderna. Em 19Í2, A Lanterna {3 1-5-1912) noticiava a
fundação de uma outra escdla livre dirigida por João Penteado
em São Paulo, localizada na rua Cotegipe, 26, no Bélenzinho, onde
as vadias eram ministradas nos períodos diurno e. noturno para
mèiiinos e meninas:

42. M. Bakunih, \op. cit., vol. II, p. 45-56.


43. E. Rodrigues, op. cit.; Boris Fausto, op. cit.

159
As suas aulas tanto diurnas quanto noturnas já estão funcionan­
do com regular frequência de alunos e; a inscrição para a matrícula
se acha aberta, mediante a contribuição mensal de 3$ para as
aulas diurnas e 4$ para as noturnas.
O fornecimento de livros e materiais é feito- gratüitamente aos
alunos da escola a fim de facilitar aos operários a educação e a
instrução de seus filhos segundo o método racionalista.

Seu diretor informa ainda que constam do programa as seguin­


tes matérias: português, aritmética, história do Brasil, geografia e
princípios de ciências naturais, devendo esta programação ser alte­
rada posteriormente.
A Liga Operária de Campinas também cria nesta cidade uma
escola livre principalmente para crianças, em 1907 (A Lanterna,
23-2-1907). Em Sorocaba, Santos, no Estado do Rio de Janeiro,
em Belém do Pará, Recife, Porto Alegre, em Niterói e Petrópolis
também foram fundadas escolas racionalistasj referenciadas pelos
ensinamentos do pedagogo espanhol. Em Belém, funcionava a Escola
Racional Francisco Ferrer, até 1927 pelo menos, segundo notícia
A P lebe em 26-2-1927. No-'eniahto, -19-19/ m árçá;p ’i£òmétttb7:eià
que a repressão: estatal aniquila ás mais importantes'experiências
educativas libertárias, as escolas modernas de São Paulo, situádâs
no Brás e no Belenzinho. João Pinheiro e Adelino de Piriho recebem
ofícios da polícia estadual informando que

tendo sido verificado pela Secretaria da Justiça que as süas escolas


“visando a propaganda das idéias anárquicas e a implantação do
regime comunista, ferem de modo ineludível a organização política
e social do país”. Por isso foi decretado o...açu fechamento (A
Plebe, 13-12-1919).

A ausência de informações sobre o funcionamento das. escolas


racionalistas, sobre o número de alunos inscritos, sobre as;atividades
realizadas, com raríssimas exceções, como por exempíp^ asr fiéis
comemorações do aniversário dá morte do p>edagogo Féfrèr,,; im­
possibilitam qualquer afirmação ou conhecimento mais aprofun­
dado destas práticas pedagógicas. Seus limítés., portanto, fic^m.para
ser determinados. Alguns poucos artigos informam .soprè pVqursqs
introduzidos na Escola Moderna do Belenzinho, divididos ém: curso
primário, médio e adiantado. No primeiro, ofereeiâm-se noções
de português, aritmética, caligrafia e desenho; no médio, gramática,
aritmética, geografia, princípios de ciências, Caligrafia è desenho;

16G
e-,jno.; adiantado, .gramática, aritmética, geografia, noções de ciências
físicas se ;naturais, .história; geometria, caligrafia, desenho e datilo­
grafia.-Mas nada além disso. De qualquer maneira, os artigos e
apelos propagandísticos recorrentes na imprensa anarquista suge­
rem: quê o.desejo, de criar estes centros de cultura operária, organi­
zar os proletários alfabetizando-os, conscientizando-os e mobilizan­
do-os, enfim, criando condições para o florescimento de uma cultura
operária, foi imenso e teve de enfrentar não poucas barreiras.
Sua prática, efetiva, entretanto, deve ter sido de alcance limitado,
prinqip.almente na década de 20, em que os artigos sobre a tão
fascinante e otimista pedagogia libertária vão progressivamente es-
casseando na imprensa anarquista.
Ainda um outro sonho deste primeiro movimento operário no
país merece ser registrado: a fundação da Universidade Popular
de. Ensino Livre, no Rio de Janeiro, em 1904. Organizada- nos
mdídes preconilados por Ferrer y Guardia, este centro intelectual
tinha por objetivo a “instrução superior e a educação social do
proletariado” -(O Amigo dô Povo, 2-4-1904).
Além dos cursos, a universidade deveria organizar„c.Qnf.eren-
-cias sobre assuntos..variados...enL^esjjmiTmS jL n t e r c s s e -4 o ^ r ^
balhadoresr fundaiu im .
saraus musicais. festas libertárias. excursões
publicar um boletim informativo, “cstah d ecer^ en f^^
^opüláf tendomorTím às vezes o„nrazer,.e-,a.-inst-ru-&ã€>------,e^^múéQ~^
moral entre os cooperadores” .
: A universidade eradirigida por um conselho administrativo
do qual faziam parte Elísio de Carvalho, Vitor Schobnel, Tito de ’■
Miranda, Mota Assunção, entre outros, e deveria ministrar cursos
em todas as áreas: Psicologia, Biologia, História, Literatura, Direito,
Antropologia, Matemática, Sociologia, etc., contando com a adesão
de vários intelectuais de formação positivista. Segundo O Amigo
do P ov o , de 9-4-1904, a idéia da criação de uma universidade
popular tivera um precursor em Georges Deherme, operário tipó­
grafo francês, em 1§98 — informava Élísio de Carvalho em confe-
' rência pronunciada no Centro das Classes Operárias. A instituição,
era paga e contava também com consultório médico e jurídico. A
duração de tal empreendimento foi muito breve e encontramos
apenas sucintas referências à sua existência.
A atividade das Bolsas de Trabalho francesas, movimento cria­
do pelo anarco-sindicalista F. .Pelloutier, também referenciou as
práticas culturais de cunho pedagógico desenvolvidas pelos sindi-

161
catos brasileiros. Várias atividades culturais, ^comò^conferências,
representações de peças dramáticas, apreseritâ|lo*défígrupos musi­
cais, formação de círculos de discussão e estudtí'forám organizados
pelçs sindicatos de orientação anarco-siridifealfStá: rio Brasil. Eiri
l.°-0-19O7, A Terra Livre convidava os operâfids pára participarem
dasl palestras organizadas pelo Sindicato dds Pedreiros è Carpin­
teiros, “ com o intuito de alargar a propaganda entre o elemento
operário” dos ideais do anarquismo.
Noticiava ainda a realização de conferências na sede da Asso­
ciação dos Carroceiros e Anexos, assim como de séSsÕés publicais
de propaganda organizadas aos domingos no Sindicaté dos Pedréi^õs
e Carpinteiros. Os operários têxteis também possuíam seus grupos
de cultura proletária, através dos* quais preteridiám lançar -

mão do meio mais urgente — a difusão dâ cultura entreis massas


proletárias das fábricas de tecidos, Jazendo- cora: que em .breve
tempo os trabalfaadoresrTjliquem compenetrados db vàlor, da orga*
nízaçao e compreendam qual deve ser a s ^ condutá. perante *!|
associação (A Plebe, 22-7-1922), .

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162
IV. A DESODORIZAÇÃO DO ESPAÇO URBANO

Gestão higiênica da imséria

A habitação do pobre não escapará ao desejo de disciplinari-


zaçao

^jJÊSamná' possibilidade',de instáuràr uma nova'gestão da vida


J ~ tr^p^atbr| pobre j^ccmtroÍar^a^totaHda,d é 3 S e ira ^ to s> ao re­
organizar a fina rede, 4 a s ^ E ç | e r',’^^31^anas ]S6^!^®Tr®?íaE(SEe©
“^^™ !is;!9T5S7v33Êi3ia1í^|fe,l^ v !3S33tS^ E Sa7,SSu^^a5TcClIIIJaitl!IT^I^^
'^1ifítrT-.,1.^ 11 "T " ^
■■O’^CStO^pE
“ “ " intimidade K * mI ! l a2,
m H fíB í I p M a i L i ^ q Qtfato atent0
do poder ass lá” a interf te S lZ jB tá i E ^ W r a S S ^ iE i e a r mo-
íprnn^ nrlvnt; eí s t o P * ^ - —
ciais, ot
prèoctKçãó 'fàiciqpboth- las cóhWI^Sfes^idl^âbítãbilídade do
frtealhátíòr uljoand, pkrte dds hlgiehistas sociais,'digados'aos poderes
•fpWlbs.'' OcutfáWfb com ,a medicalização davcidade, com a desin-

ttÉÉ^^^ájjMMa^agjbmeracão perniciosa**,
.em cubículos estreitos
as^%stratégias a^mtarids’^ue'-se constituem neste mo­
mento hktórico de formação do mercado livre de trabalho no Brasil
prétendem realizar o projeto utópico de desodorização do espaço
urbano, através de uma açao que,''pontual num primeiro momento,
•torna-àe depois- permanente e sistemática.