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Nem só de poesias vive a escrita

não escrevo poesias


entalho poemas

Poesia
é estado de espírito
são fios não tecidos
colhidos entre almas soltas
e matérias interiores

poesia é divina
mas informe, ou quase
sozinha
empalha o mundo
num vrido lírico
e fosco

já o poema cresce a tijolos


a golpes, a murros, a urros
a cálculos
lento, construído
trançando os fios
de poesia
erguendo algo que significa

o poema sangra, vibra


só depois da martelada
ou do nó
que ata dentros a foras

poesia pode ser íntima


poema se compartilha

poesia nasce do nada


nem de nós ela precisa, para ser viva

poema só vale a lida


Quando erguido com o sopro da poesia.
cachoeira comprovou
em cascatas de propinas
que Goiás contém Brasília
Ode a Nina
E nesses dias de concreto e cinza
Ou quando o mundo em brasas
Infernalmente nos abraça
Dias de amargo fel no cárcere dos lábios
É das lambidas que me flui o riso
Pleno de branca e peluda folia
Cemitério de luz
Quantas palavras
Morrem na língua
Quanta mentira
Vaza entre os dentes
Quantas estrelas
No cemitério de luz?

Quanta poesia
Vira fumaça
Quanta porrada
Quebrando sonhos
Quanta verdade
No cemitério de luz?

Quanta viagem
Morre no porto
Quanta miséria
Constrói escombros
Quanto mais tédio
Mais cemitérios de luz

Quanta doçura
Amarga a mágoa
Quanto mais ódio
Muito mais medo
Mas, quanto amor
Parte do corpo pra luz?
Tosse
Minha geração chutando a esperança
Mordendo abraços
Aprimorando o cinismo
Vomitando cidadania
Entorpecida pelo petróleo
Fumando faunas
Deflorando floras
Defumando faunos
Floreando falos
Estuprando fetos

Vi a justiça na depravação
E o dinheiro distribuir pobrezas
Vi a verdade escrita num panfleto
Vi a verdade atrás de tantas máscaras

Amor embriagado de carbono


Vi a verdade servindo ao demagogo
O milionário crer no próprio esforço
Eu vi o mérito virar macumba (ou mistificação?)
Vi o mérito virar desculpa
Vi a verdade estilhaçada

Eu vi a celebração do fracasso
Analfabetas crianças terroristas
Vejo a mentira travestida em meta
Milhões de eus estéreis de nós

Leio poetas comprados domesticados


brandindo caninos contra sua própria matilha
entregando a alcateia aos predadores
cinzelando peleguismos nas páginas dos jornais

E burocratas simulando literaturas em seus gabinetes


gritando justiça a bombardear perdigotos na malta
Cineastas filmando a miséria a custo de notas frias para deslizar smokings sobre red carpets
E sacerdotes rasgando a Palavra
A amarga e sagrada Palavra

Eu vi a pélvis de Hebe Camargo com todo respeito enquanto a dor do câncer lhe permitia
vender mais duchas para asilos com pessoas úmidas a fermentar o próprio mofo nas virilhas
enrugadas
Eu li a obra de magia lilás que tilintava moedas enquanto a ladainha dava a volta ao mundo só
pra dizer acredite que o universo conspira a seu favor
Vi coelhos vira-latas saírem da cartola direto para o ninho das águias e depois voarem
hidrófobos para a Suíça

Eu vi os dias se sucederem enquanto os mantras não podiam nos salvar de nós mesmos e a
roda girava pela força do veneno

Ouço o grito de gol ouço o grito de dor ouço o grito de plástico a cada começo de ano sendo
entoado pelos anônimos de abril e chego a ter pena de quem sonha com a oportunidade de
poder dizer que é vítima da edição

Leio as letras escarradas pelas vítimas esquecidas das editoras que não querem prejudicar
ninguém e sabem que o problema é o mercado não poder suportar mais um fracasso

Vi a fogueira dos diplomas sacros e dos diplomas laicos e a cidade entregue a charlatães que
ganem bíblias e metralhadoras em púlpitos
Jaccuzis sem Zolas

Eu ouço a música pedindo o refrão e eu sei que o refrão é muito importante

Eu leio páginas sobre outras páginas que se enroscam e se trançam em torres de celulose com
tinta e mofo e fungos para depois aspirarmos as cinzas dos mortos e morrermos um pouco
também

Depois das páginas vento e depois das lágrimas chão e depois do beijo peso e depois da festa a
vela e depois da morte a dúvida

O cio

Os tigres eram três velhos que usavam bengala e vomitavam cerveja depois de engolirem bem
as palavras nazistas e lançarem seus ódios sobre as velas içadas das minorias
Os tigres apoiavam políticos de vários partidos com dinheiro lícito e quando precisavam de
alguma ajuda com a papelada sempre havia um legislador para lhes prestar socorro.
Os tigres se cansaram de tanta democracia por causa de seu preço elevado pois na ditadura era
tudo mais fácil
Os tigres voaram para o Paraguai e lá compraram fazendas e presidentes. Depois voaram para a
Venezuela, mas lá é tudo muito confuso
Os tigres com suas bengalas são imortais que vomitam palavras e bebem cervejas
Os tigres se reproduzem com velocidade controlada e voam pelas américas e áfricas e só
mostram os dentes na hora exata do ataque

Chacrinha Silvio Santos Bolinha Ratinho Raul Gil Luciano Huk Barros de Alencar Jota Silvestre
Serginho Groissman Gugu Liberato Gilberto Barros Celso Portiolli José Luiz Datena Flávio
Cavalcanti Fausto Silva Rodrigo Faro num oferecimento…
Quando chegar o natal quero ser cristão como o Cristo ensina
ser menor que os menores
desprezar os primeiros lugares
cear com a corja
entregar a segunda capa
andar dois mil passos
mas gostaria de parar de apanhar na cara, ao menos um pouco

Quando era criança aprendi que o natal são presentes


Sonhos realizados
Comer até entupir
Usar roupa nova
Ver os adultos se embebedarem
Assistir a filmes antigos na TV
Montar presépio com bonequinhos que vinham na bandeja do iogurte
Quando fiquei adulto descobri que por detrás do natal há o Cristo
Descobri que o Cristo sangrava pendurado qual animal degolado
Cristo degolado pelos pulsos, degolado nos tornozelos
Cristo enforcado em todas as articulações
Cristo coroado pelo homem, desprezado por si mesmo
Cristo aprendendo como os homens cuidam de seus amigos quando os amigos não oferecem
mais nada
Esse Cristo entregava presentes mágicos
Não tinha onde reclinar a cabeça
Depois de aprender, pode acontecer quando nos damos conta de nossa ignorância
E dos defeitos feios que empunhamos como estandarte,
Senti uma vergonha de muitas dores
Por descobrir minha infância monstruosa

benflogin amoxilina rinossoro novalgina aas tylenol benzetacil voltarém penicilina berotec
inalação de eucalipto compressa quente compressa fria anador dilatil lisador dorflex
merthiolate mercúrio cromo criolina sarnapin denorex maracujina diazepan rivotril fluoxetina
paroxetina insulina humana insulina regular lantus levemir lispro losarcan metformina
cloridratos ácidos sinvastatina plasil cebion buferin…

somos periferidos amontoados que não se aglomeram por amor mas nos amamos entre blocos
de concreto crus
somos amontoados nas beiradas da cidade enquanto alguém deseja que todos nós deslizemos
para outra cidade e para outra culpa
somos de lá e de acolá com raízes rasas na várzea
somos desbocados desbotados desdentados desalmados desarmados desmamados
desajuizados
somos defecados pelo sistema pela igreja pela escola pelo hospital que não há
somos empilhados armazenados em pontos de ônibus em coletivos em plataformas em filas
em covas em valas
somos etiquetados para depois sermos embalados encaixotados encaixados engaiolados
encurralados
somos enganados
somos desperdiçados reciclados realocados remanejados recriminados descriminados
criminalizados criminosos marginais marrentos maloqueiros vilões e operários
somos as cordas o tambor a caixa o som o sample a voz
a sinfonia em semitom
somos
só não sei se seremos sempre

Contudo a noite segue seu rumo e as estradas seguem estáticas e os homens seguem correndo
no desespero de quem não sabe onde parar.
A madrugada cheira a mato verde ou gasolina e o vento corre sempre na direção certa e os
micróbios nos comem a carne com elegância.
Os faróis estão todos quebrados porque choveu e todo mundo sabe que a chuva traz felicidade
ou morte.
O cinema é legal porque dentro dele as luzes estão todas apagadas e a única coisa que pode
brilhar além da tela enorme e além dos celulares não desligados e além do projetor são os
nossos sonhos fisgados no ar.
O cinema permite que a gente seja outro cara e tenha outra vida e outros problemas.
O cinema é pura magia ou dura realidade e tudo isso vai dar na mesma.

Robinho não sabia ler e sua mãe não se importava porque não via utilidade nas letras já que os
ônibus trazem palavras decoráveis nos letreiros
Robinho não sabia ler e seu professor não se importava porque no dia da prova do governo
Robinho sempre faltava e seu número ausente na chamada poderia ser o número a mais no
contracheque do magistério
Robinho não sabia ler e o técnico do time da várzea local não se importava porque Robinho
não jogava futebol
Robinho não sabia ler e o pedreiro não se importava porque fazer cimento e carregar tijolo é
serviço que moço estudado já não pega
Robinho não sabia ler e não se importava porque ele queria mesmo era ser adevogado porque
usava terno e era bonito

Os corpos sobrepõem-se e as chapas de algum metal frio os encaixotam e os círculos de


borracha vazada preenchidos por mais metal os conduzem
e a cidade é deflorada por buzinas e freadas bruscas e choques evitáveis.

Dormir talvez sonhar


Remédios trabalhos cansaço.
Estudos estresse esgotado.
Rancor frustrações insônia.
Trânsito ira amnésia.
Glicemia explodindo sono.
Durmo.
E não descanso enquanto minhas células se degradam e meu sangue apodrece docemente.

Os cães
Cães não cachorros
Cães têm nobreza e força no olhar e estão sempre acima
Cachorros são da sarjeta
Cachorros adoram o lixo que lhes alimenta
Cães ladram e mordem
Cachorros são atropelados e morrem
Amo os cachorros e temo os cães
Cachorros têm sede e costumam ser abandonado
Por quem um dia falou em amor eterno
Cachorros trazem doçura e sofrimento no olhar
Derramam amor sem interesse
Cães são vingativos e justiceiros
Enquanto cachorros comem carniça
Cães são carniceiros

A oração verdadeira revela os avessos sem precisar esconder a vergonha ou o medo ou a


dúvida que está marcada em toda alma humana e despetalada

O Autor da vida é o verdadeiro Ouvido Absoluto


Ele escuta e consola nossa angústia
até quando responde com todos os ecos do silêncio
com todas as curvas do não
com todas as virtudes da incompletude

Fiz um pacto com Deus e depois me esqueci


Ele não

Agora a chuva derruba as casas como aquele lobo mau


Ela vem disposta a soprar e inundar e engolir e derrubar
As pessoas são diferentes dos porquinhos porque não têm um irmão prático com casa forte de
alvenaria onde possam se esconder
A chuva é mais forte que o lobo mau e se as pessoas tivessem um irmão prático não adiantaria
nada porque a chuva também derruba casas fortes de alvenaria
A chuva espalha os rios pelas ruas e as represas pelas várzeas
A chuva abraça a terra e vira lama deslizante nas encostas dos morros
A chuva é mais forte que o lobo mau mas é neutra porque engole ricos e pobres desde que
ricos e pobres morem em morros ou perto de rios ou próximo a represas
A chuva acha estranho que haja tão poucos ricos em morros ou perto de rios ou próximo a
represas
A chuva é mais forte que o lobo mau mas é muito organizada porque sempre engole ruas e
pessoas e várzeas e rios e casas incluindo as fortes de alvenaria mais ou menos pelo mês de
janeiro
A chuva não surpreende ninguém e mesmo assim todo mundo se assusta com a chuva

Agora outrora o nervo do dente exposto e a conta atrasada imposta


Algum nenhures o tanque vazio e sempre o trânsito se interdita
Algures seja o coração vazio e o bolso a identidade

a morte é prematura quando chega antes do óbito


quando o prazer é um saco e respirar aborrece
a morte é prematura quando o sonho vira chaga
quando o riso é estupro e a solidão um prêmio

Desencadeia
A onda vinha fraca e pálida e os capitães do desprezo não fizeram caso
A onda era vermelha e era branca e era verde era paixão e era paz era esperança
Os capitães do desprezo apostavam no fracasso da onda
E a onda que não fracassa pois sendo onda segue seu destino ondulou e avolumou-se e
espraiou-se e todos os fracos descrentes oprimidos mas esperançosos engordaram a onda
A onda beijou a virtude
A onda assustou os tigres
A onda varreu a noite
A onda refez o dia
Os capitães do desprezo e os tigres agora sabem
Que não há diques nem tiros nem bombas
Que possam romper a onda
E a onda ainda nem sabe o que fazer
De sua força e beleza

De noite as vozes sangram em minha cabeça


De dia as luzes ferem o meu peito
As manhãs querem motivos para levantar
As tardes afirmam que não há mais o que procurar
Segue-se o beijo do vinho e abafa-se o grito
Traveste-se a razão crua em alegria úmida
Mas no meio da noite e no fundo da madrugada
As vozes ainda sangram em minha cabeça

O publicano e o fariseu.
há rugas nos pensamentos que brotam do asfalto estéril
dentes cambaleiam na boca daquele bêbado
o homem da rua é um corpo em decomposição que ainda respira
seu cheiro arromba os ares ao nosso redor
seu papel é nos fazer agradecer por não sermos como ele

circuito pedagógico de baixo pra cima.


as escolas foram ocupadas pelas milícias
as crianças metralham giratoriamente os coleguinhas
os governantes lançam sobre os mestres cadeias mais pesadas que o mundo
as crianças cospem nos professores
os diretores desprezam os mestres
as supervisoras são cínicas com os coleguinhas
os dirigentes se empoleiram em seus cargos de confiança
os secretários não sabem nada de educação
os governadores e prefeitos analisam planilhas e pesquisas de intenção de voto
o ministro não sabe nada de educação
economistas não sabem nada de educação
a presidência nunca respeitou os educadores
os deputados defendem os coleguinhas
os juízes pensam que entendem de tudo
os professores mordem os coleguinhas.

óleo diesel camomila gasolina erva-doce etanol hortelã


um amor um rancor atração náusea compaixão ira
filas de corpos carros cadáveres
de amores e todos os sonhos à deriva
música alta empurrões fechadas
e o pavor que brilha no canto branco de qualquer olho
um rosto mistura-se ao asfalto e o sangue quente escorre para a sarjeta

grajaú, parelheiros, socorro


esses cadáveres semeados nos mananciais
essas margens com lixo tóxico
esses tiros feito agrotóxico
essa periferia de bloco de concreto e tijolo baiano
todos nus
as cinzas cravadas em cada rosto
as mansões em terrenos invadidos
as ações de despejo marretando a dignidade dos quase indigentes
a avenida estreita por onde escoam milhões a cada dia
a morte escondida atrás dos postes
essa morte
essa morte sob os pneus
essa morte na ponta de cada bala, de cada faca
essa morte
essa morte na beira de cada rio, à margem da represa
essa morte

deixamos de lado a velocidade e agora cultuamos apenas a pressa


espalhamos desespero sobre o asfalto e vivemos para administrar atrasos
adiantamos nossos relógios e dormimos a cada dia uma minuto a menos
nos acotovelamos ao redor de pontos de ônibus e desejamos chutar as bundas que nos
[empatam nas gares
Marcamos almoços às quatro horas da tarde mas já não temos fome

Fui lá na padaria Pólen


Café e goma de mascar
Ao lado amei a vergonha e voltei
Voei sobre as águas da Guarapiranga
Aterrissei na Avenida Atlântica e chorei

O sol grita lá do alto


As geleiras respondem liquefazendo-se e evaporando
A cidade descasca
Seca
Os canos colam-se de sede
E depois de alguns dias as chuvas explodem novamente

Táxi.
Desde sempre os postes nessa minha vida
Desde sempre as luzes multiplicando sombras
Desde sempre as horas a me sufocar
Desde sempre o asfalto fértil e prenhe de morte.

Apontamentos de uma noite ao sul.


Cascas de fruta podre fedem nessa noite quente
A praça Floriano Peixoto brinda o céu oco de lua e seco de nuvem
Homens zumbizando pelas calçadas para colher um resto de vida
A polícia ronda amedrontada e suja
O vento morto da madrugada
O demônio santamarense sai da toca e arreganha os dentes
As luzes vermelhas e vagas diluem o inferno das mulheres
Pelas artérias da praça o desespero beija a matilha
No largo 13 de Maio a oração a felação a faca
A lâmina brilha e ri para o diabo
O sangue seco brinda a noite.
Elo sem corrente
Bom seria nem ser nada
Soltar cada cadarço
Apegar-se ao ar
Desatar as etiquetas
Tristes tensas como cadeias

Rótulos escondem
Amordaçam em engradados.
Quer saber do Cristo?
Fique apenas com isso:
Amar, doar, doer
E voltar a amar
É pouco e bastará
Para gostar do Natal
Acredite, existe
Bem macio, um Espírito
Que nos emana esperança
Nos irmana
Vai além das compras
Das crises
Dos desabraços
Da suntuosa ceia sem sabor
Do presente indesejado
Do desejo míope realizado
Um Espírito que nos avisa
A todos os credos, aos incrédulos
Que nasceu um Salvador
À cidade de Salvador
Ainda é triste a Bahia
Rasgada entre o riso e a treva
Dessemelhante dos comerciais de cerveja
Sufocada sob os bambuzais dos versos de exaltação
Eletrocutada em praça pública sobre os trios frios

Tua máquina mercante


Treme, range e tira os pés do chão
Esparrama urina em solo sagrado
Faz de butique e pálido
O carnaval da curti$$ão

Bahia sem Salvador


Cidade de todos os sais
Em tua extensa barra navegam descaso e sujeira
Na beira do porto a bandeira do descaso desfraldada descasca
Descalços, tantos negociantes empenham a própria carne
Ardem nas areias, resistem
Assistem ao longe à opulência gritante pipocar

Tua desdentada miséria poliglota


Arreganha o analfabeto em muitas línguas
Ao turista sem fé oferecem
A grife da macumba oswaldiana
Os tambores desafinados rebumbam
E sob flashes entretêm a chique malta

Pelos largos na cidade alta


Tua beleza difusa derrama-se
Entre o ouro emplastrado nas igrejas,
E as pedras sob os pés do Pelourinho,
O sangue pulverizado pela chibata enobrece a praça
Enquanto minha consciência destila-se no cravinho
E a travestida baiana, qual o artista da fome
Caça fotos a preço de migalha

Sua boa missa negra


Onde brilham os tambores para a glória de Deus
Vê rarearem os fiéis
Enquanto o milagre da multiplicação da plateia
Enche de mancha e ruído a devoção.

Os prédios da cidade baixa


Ruína virando entulho
História virando lixo
E a gente não vira bicho
Porque resiste
Não veste a fantasia
De palhaço amestrado da corte
Não samba pra gringo ver
Mas dança pra suportar
Organizar
retomar.
Falta um pedaço

A alma só é eterna
Se está fora da matéria

Alma na matéria
Metáfora da miséria

Alma sem matéria


Fantasma, quimera

Alma aquém-matéria
Cadáver, promessa
Vômito
As cinzas me lambem a língua
O mar traga-se em pântano
Descontínuo refluxo de engodos
Desgosto
O esgoto inunda a garganta de alvorada crua
Sufocação
Assim o dia começa.
Precisa dança

É no batuque sujo
Sample de vagabundo
Sanfona, o bumbo, o cujo
Guitarra de quimbundo

É som descalço, irmão


De peito aberto, irmão
No braço forte, irmão
Alma vendida não!

É pra dançar também


Não deve pra ninguém
Rebole, sue bem
Mas pra lutar, cê vem?

Som pra contemplação


Pra movimentação
Ardor, reflexão
Chama, revolução

Bolsa família, amém


Livro de graça, tem?
Bom prato, almoce bem
Mas pra lutar, cê vem?

Esgoto, educação
Cultura, água e pão
Fogo no circo, irmão
Só bunda, vira, não

À noite articular
Dançar pra derreter
Não é só pra pular
Nem é só pra fugir

Quer nos ouvir tocar


Um som que soe bem
Não quer colaborar
Mas pra dançar...
Pra dançar você vem, né?
Santa Maria, 232
Tragédias não são acidentes
Elas escorrem do inevitável
Fazem a natureza sangrar
E rugir

Quando alguns dizem "tragédia"


Querem esconder
Descaso
Ganância
Falta de preparo
Ou ódio
Mas ódio
Perto da ganância, do descaso e da falta de preparo
Pode nem ser tão violento
Ou trágico

Talvez ainda pior


Não trágico, mas sórdido
Seja o jornalismo sangrento
Invasor de dores privadas
Que custeia a audiência
Com sensacionais
E torpes manchetes
Tornando os ausentes
Personagens da semana.
Conversa entre um protestante e Santa Maria
Mãe do Cristo não creio no dito
de dizer "rogai por nós"
Mesmo assim te admiro
Pelo leite, pelo mimo
Dado a quem se deu por nós

Mãe do Cristo a dor de agora


Dessas mães dilaceradas
E dos pais, irmãos, amigos
É aquela que sentiste
No Calvário ao pé da cruz
Por teu Filho, nosso Pai

Mãe do Cristo, esqueça agora


Tudo que sofreu no Gólgota
Pois os corpos se derramam
Ao pé sujo da sarjeta
Se lá houve redenção
Aqui jaz a morte vã

Mãe do Cristo, a história é triste


Com seus traços de torpeza
Pois a morte é bem mais triste
Quando inverte a natureza
Veja os pais, pesado luto
Velando suas crias frias
Mãe do Cristo é dor sem fim
Diferente do Calvário
Só lamentos, desesperos
Sem a sombra da esperança
Mais de um mês após o crime
Ninguém tem ressuscitado

Mãe do Cristo se possível


Fosse consolar os vivos
Pediria, por teu Filho
Que abraçasse os órfãos pais
A senhora sabe bem
Chorar pelos inocentes
Que não podem voltar mais.

Cidade esp(a)elhada
Eu, que não sei amar
Prédios, praças, asfalto
Que não vejo graça
No córrego lambendo minha rua
De sarjeta a sarjeta
Desprezo o acesso negado
A coletivos em ruas particulares
Eu, que sou da várzea
Mas não arrasto na terra minhas pernas de pau
Não tenho grana
(mas tenho a manha)
Ignoro a humilhação que me oferecem na Paulista
Eu, que não moro longe
Dos risos e abraços da ferida perifa
Tusso e nado
Entre fumaças e demais poluentes
Falso milagreiro, pairo
Sobre o fúnebre rio Pinheiros
Eu, que não sei amar
Apago mágoas, acendo dentes
Por São Paulo
Canção da lira morta
para Drummond
Querem, uns poetas de agora
Engenheiros de sementes ocas
Mestres de obras
Pedreiros de poços secos
Dinamitadores de pontes
Gesseiros de versos, aborteiros da comunhão
Querem, esses poetas departamentais
Ratazanas do strictu sensu:
Afagos acadêmicos
Distintos
Anêmicos
Endêmicos
Querem, esses seres cultos
Entediantes, arrogantes
Alcançar a equação do verso
A estrofe semiótica
A polifonia para decretos
O edital, a bolsa, a boca

Querem ausência
Almejam o vazio
Planejam o descompromisso
A neutralidade dos indiferentes
Um lugar na bancada
E que o poeta só finja, não sinta nem seja nada.
Aquiles
A fé na humanidade
Espelhada na cruz
É a flecha em chamas
No calcanhar de Deus

Troia
Deus também tem um
Frágil calcanhar de Aquiles
Sua humana imagem
Contrário amor?
Se o amor é invisível
Mas na face, inescondível
Se é mistério, segrediço
Enquanto cresce a olho visto
Sé é ferida não sentida,
Oásis de tristeza no deserto da alegria
Se o amor impõe o medo seco
E enxurradas de felicidade
Se ele beija a morte quente
E abraça a vida fria
Ele vai da ponta ao pico
É sereno e explosivo
Então, não se contradiz
É a fração do Absoluto
Pois está em (quase) tudo
Mais metalinguagem
Tenho feito poemas
Porque a vida assim tem mandado
Escrevo com poucas penas
Nada muito elaborado

Estrofes sem pretensão


Termino tudo em um ato
Não servem pra diversão
Pois tem cada verso chato…

Mas poemas, quando aparecem


Jorram por necessidade
Mesmo com pé quebrado
Mesmo fora de esquadro

A vida sem simetria


Pois também se faz poesia
Com a lágrima das seis e meia
Com sangue, suor e latrinas
Vem aí
Sabe os detritos
Vomitados sobre a cidade?
O mentiroso entretenimento cultural
Os programas a nos programar
O senso crítico docemente dopado
A vida dentro do esquadro mais quadrado?

Aguarde
Regurgitaremos o lixo
Com arte

Nietzsche fingia, mas sabia


Antes de Platão
Já existia metafísica

Entulho
O poeta torna-se imundo
Quando amando a regra acima de tudo
Torna o fazer e a forma construção sem conteúdo
E a fome, a paixão, a raiva, tudo entorna-se sobre um raso sem fundo
Só os gritos-palestras de homens vorazes que plantam teses em seus latifúndios
Reverberam na estante dos livros nobres, cultos, profundos, mas sobretudo mudos
Enfim, metapanaceia
E o fim
Do mundo

Pregão
Para Olavo Constantino de Azevedo Mainardi

Carrego
No peito aberto
Adubo e conservo
Esbravejo o ego

Arreganho a raiva
Sou guia cego
Arrasto a mágoa
Sei que estou certo
(pois, se há bom preço me entrego)

Desprezo
A mala é o medo
E dentro desse medo
Sempre, o preconceito
Derrame-se o leito
Sobre a cama o leite
Esparrame-se

Por prazer ou dor


O vulcão o terror
A semente

Com tesão amor


Culpa esplendor
Arrebente

O não a cadeia
Explosão imersão
Sideral
Planetas dançam
No escuro líquido infinito
Enquanto estrelas explodem
E morrem
Espalhando-se pelo mundo bem maior que o mundo
Alargando a expansão da eternidade
Rasgando com luz
A treva do silêncio

Tudo será engolido


Por um buraco negro onívoro?
Ou seremos um delírio divino
E logo teremos explodido?

Saber disso
Que é não saber
Enche-me de um pavor
Vazio.

E os homens que amam o mar


E esparramam sangue e glória
Nem só de aventura e amor
Forjam a própria história

Bastardos de açoites, dores


De órfãs arrogâncias vãs
Nascemos mestiços puros

Lusofilia
E os homens lançados ao mar
Molhados de dor e conquista
Forjaram também um país
Por mais que não façamos vista

Banharam as matas de sangue


Sem dó, piedade ou perdão
Roubaram pessoas e coisas
Daí surgiu nossa nação

Nos deram a fé sem amor


E a língua em que amamos também
Fizeram a segregação
Que nós aprendemos tão bem

Os homens lançados ao mar


Do ouro atrás sempre a correr
Lavraram as costas dos negros (cortaram cabeças dos negros)
Deixaram os índios morrer

Mas veja, os homens do norte


Se fossem marujos e pobres
Sofriam grandes privações
Faziam a glória dos nobres

Cuspidos então pelo mar


Plantaram as próprias raízes
Com tempo, viraram mestiços
Tentaram, enfim, ser felizes.

Enquanto pacato
Pago, agradeço e faço
Inerte cidadão de bem
Enquanto me calo
Peco, engaveto e nego
O diabo ri e me agradece.

Paulistão 2013
O jogo jogado já é passado
E ainda lateja

A certeza de que poderíamos ter ganhado


Nem rumoreja
Dois times duelaram
Um competente, outro esforçado
Venceu a soma de método e vontade
Perdeu a genialidade engaiolada.
A quem venceu, parabéns
Ao vice, também.
Eu tenho, eu sangro eu tento ser
Mais um homem que compra
Outro homem que tem
Da favela a alegria
Mais o medo da polícia
No asfalto eu me arrasto
O dinheiro me guia

Matar, morrer, ter é poder (Eu mato, eu morro, pra poder)


Comprar o que eu preciso
O pão, consideração
Meu trabalho nunca chega
Ter dinheiro é muita treta
O agasalho é de marca
A etiqueta é uma chaga
Vendolhos
O desejo é maior que o que vejo
O que tenho é menor que o desejo
Não tenho e isso é tudo o que vejo
Mas desejo
E desenho
entrelinhas de som
Forma em fôrma redonda
Curva de onda
(se eu vejo e logo depois tenho
mantenho o desejo?)
Para que não me ronde em vão
Este abutre da solidão
Workshop
Buscar ajuda
Para escrever doçura
Se a massa do poema
É um pântano de amargura?

Entrincheirar palavra
A gritar justiça?
Lutar é verbo anti-higiênico
Indigesto e extinto de contracobiça

Escrever louvores a Deus…


Dá-se que o dom do poeta
É ser ao menos
Um tanto ateu
(ainda que se arrisque bebendo na fé alheia)

Gritarei basta, bosta!


Mas verso bom é o bem blasé
Desses que apenas entortam
O canto pesado dos lábios (vá entender)

Sendo assim
Escrevo semi(id)oticidades
Falo difícil pra engolir
Cuspo erudição e pop-art

Mas, voltando ao amor


(caçado em oficinas, conferências):
O amor
Ainda é o todo
Da parte que sou

poemaramaiconcreto
(incompleto, traduzido parcialmente pelos irmãos campos)
Dormenina

onde a pátria avó gentil?


antepassados de raiz africana
ancestrais da terra europeia
bisavô índio agricultor
vago sem parada
não sou quem eu sou
forasteiro nato
cem por cento mestiço
cujo DNA
são serpentinas de carnaval

Só agora não é quando


Se eu caço sozinho
É sem romantismo
Fui expulso da matilha
Por querer cravar os dentes
Na carne do próximo

Minha bondade arde e é sem massagem

Dominguinhos
Jardineiro da saudade
No jardim do sanfoneiro
Cada baixo é uma semente
Cada acorde um sentimento

Cultivando amor e riso


Ficou bem pós-graduado
Em plantar/colher saudade

Cada pétala sentida


Virou lágrima vertida
Pra chorar sua despedida
A cara do papa na capa da Caras

CARTILHA DO PÓS-CONTEMPORÂNEO EM FASCÍCULOS APRESENTA


A LETRA A
(LEVE GRÁTIS A COERENTE LETRA C E UM FABULOSO TRAVA-LÍNGUA):
A CARA DO PAPA NA CAPA DA CARAS

Depois da consulta
Na tarde transpassada pelo cinza
A lâmina fúnebre do frio
Tatua sua temperatura

Fora os exames, a dieta


Os remédios eternos
E a morte a fatiar rins e retinas
A morte a castigar os pés e as veias
Meio entupidas
A morte
Que me espreita da esquina

Sigo a tragar amarguras


Pois a doçura
Me beija e empurra
Para a sepultura
Entronizado
Salvo por Ti
Com força e poder
Nome maior, não pode haver
Senhor e dono
Do povo e do trono
De um reino que é eterno
Brilha, senhor Jesus

Apenas uma hipótese


Podia
estar encastelado
em catedrais de cristal
Podia
ser o bêbado maroto
encarnando piadas feias
Podia
ser a morte, a pele
o osso e as chagas

Podia ser famoso e triste


sorrateiro e mau
apedrejar o próprio talento
alheio, mendigar migalhas

Podia cair no poço da noite


a garganta seca
e o grito oco
Podia gargalhar feito um desgraçado
empalhar a felicidade
poupar um punhado de fé

Esta fé
O porto e a nuvem
cerziria os espelhos partidos

Dessa fé
reflexos de amor e de glória
um futuro uma veia uma cruz
o bastar-se desde que exista um Deus

A cura
a minha dor na carne de um outro
a chaga apagada com sangue
o servo senhor a servir o perdão

A cura
para todo mal o amor
a quem duvidar o amor
a cada grão de fé regado a lágrima
brota-se o perdão
amor.

Ego sum
Para Marcelo Mirisola
Arrebatado pela palavra
Que escorre da própria boca
Só isso justifica
A obra que se publica

Todo poeta é onanista


Sacerdote do parco gênio
Que cultua o próprio falo

A soberba grafada no verso


Torna-se contaminada chaga
Pelos olhos do leviatã
Pelo dente podre do cão

De arrogante torna-se submisso


Esperando das leituras a cura
E um pingo de aprovação

Vou salvar o meu pescoço


A navalha vou beijar
Vou lamber a pele e o osso
Colecionar outras bandeiras

Plantar sonhos sob o asfalto


E cravar o olhar no chão
Tomar flores de assalto
E degustar bombas caseiras

Jovem demais
Pra começar
Tarde demais
Pra terminar

Velho demais
Pra começar
Cedo demais
Pra terminar
Pós-teologia
Em nome do que é meu
Quero crer num Deus ateu
Jesus era um bom judeu
Foi por isso que morreu
Bíblia é mito, fé é pó
Feche a porta e minta só
Viva eu e viva tu
Viva o rabo do tatu

O que há de errado em mim? 4X

Deus é bom mas Deus morreu


Meu Deus fica sendo eu
Trague a morte, rasgue o véu
Fuja, a cruz é bem cruel
Muito amor pra suportar
Fácil mesmo é desprezar
O que não aconteceu
Com quem não se arrependeu?

O que há de errado em mim 3X


Tão confuso assim

Misericórdia pra quem?


Quem me salva do quê?
O que perdoo em mim?
Minha dor só dói em mim?
Em nome de quem morreu
Quero crer num bom judeu
Crer no pó é mito meu
Quem será o deus do ateu?
Deus é bom e nem morreu
Antes ele do que eu
Beije a cruz e rasgue o véu
O pecado é bem cruel

O que há de errado em mim


Purifica-me
O que há de errado em mim
Me arrependo, sim

Volto atrás
Pra me salvar

Peripécia
Um rasgo
A fresta no muro
O duro
Desenho no escuro
Um furo
Assombra o noturno
Um mundo
De treva, pontudo
Um surto
De vida ilumina tudo
Cômoda
Uma gaveta
Não
para os sonhos
Esconde palavras
Amarrotadas
À espera
do cio

Outra gaveta
Não
para as vozes
Empilha demônios
E outros desgostos
Canção do exílio do corpo
Minha terra chora pedras e urina sangue
A dor aqui dói a todo instante
É de osso, pele e carne fraca
Na minha terra, a fome é farta

Cismo à noite, de dia tenho muito sono


Minha terra é sombra de inverno a outono
Cismo à noite, sonolento de dia
Minha pátria é luto e apatia

Minha terra tem fronteiras bem definidas


Dilacero com vizinhos chagas, agonias
Minha terra tem a marca da chibata
Covarde, escarra gritos na malta

Minha terra, quando desperta, grita


Devora os próprios filhos, salga suas feridas
Minha terra, venera a morte e o silêncio
Esnoba a periferida, esparge sangue no centro

Minha terra, sem mim, é ninguém


Comigo, até que também.
Despétala
das flores
o talo
dos sonhos
a náusea
das sombras
o vulto
da vida
eu quero tudo
Inclusão
A porta
Trancada
A margem
Pra dentro
O rio
Num cano
Amor
Relento
Profissão de fé
Sou um cristão que não deveria ter sido
Cobiço, agrido
Sonego
Minto

Tardio pra perdoar,


Sedento de castigos
Única forma de justiça que admiro

Lavo minha consciência


Na bacia de hipocrisia da igreja
Lá,onde todos somos juízes, santos
e canibais

Sou todo ruim, admito


Mas me escondo
Entre outros porcos cobiçosos de pérolas
Nos dizemos irmãos
E humilhamos em coro
Feios
Sujos
Covardes
Mas nem sempre
Somos fruto de maldade

Medrosos, mentimos
Sedentos de misericórdia
Sempre que podemos
Agredimos

E por sermos tudo isso


É que faz sentido
Esperarmos, com ardor desmedido
A redenção que vem do Cristo
Não fosse a cruz, o sacrifício
Tudo estaria perdido

fornicação
Um demônio, esse fogo
Que lambe teu rosto e crispa-me a cara
Se luz ou máscara
Gozo, devastado
Não importa aqui nada
Que não arda
Ecce homo
Meu remédio é meu erro
Que me alivia e corrói
Meu amor é meu medo
Que me protege e destrói
Meu cinismo sincero
Que me liberta e possui
No meu grito, um duelo
Pois quem eu sou, nunca fui
Consciência uma sarna
Prazer e horror sempre dá
Dar um beijo na vida
Eu danço pra agonizar
A perda do poema
Descarte
A vaidade
O parto do verso
É violento, sincero
O que não sangra
Não é arte
Só desnecessidade

Há dias em que o verso


Berra vermelhamente
Sangra entre os nervos
Exige seu parto a fórceps

Em outros tantos, contudo


Vaga vadio
Errante
Mostra a nuca, guarda a face
Ou o possuímos na mesma hora
Ou, anêmicos, se desintegram

Ontem perdi o poema


Que era fraco, mas necessário
Sobre o assunto já nem me lembro
E o poema, fraco, mas bem sedento
Foi mutilado, me esvaziou
Alumbramento
Na linha da língua
Na página boca

Gritada ou escrita
Nos dedos e dentes

A letra é o grão
A frase é semente

Desde sempre e ainda


A palavra me espanta

à parte todo o lodo


que respiro em gordas labaredas
sigo vivo meu maior artifício
desejando a glória a cada momento
do mais mudo esquecimento
a um cão que não sabe da morte
para que a felicidade seja eterna
basta amá-lo assim
cravando-lhe um riso entre os caninos
apesar da dor
que é saber do fim
erupções cardíacas nublagens nos vales da alma esperar a explosão de êxtase
provar o pavor profundo brindar o vinho da vida tragar o rum da despedida
sangrar na flor a agonia temer o cais e a partida

Texto feito de tecido


As roupas são parte do corpo
As roupas desnudam a alma
As roupas são filhas do bolso
As roupas precisam de calma

Quando amarrotadas, as roupas


Revelam a pressa ou preguiça
As roupas na praia são poucas
Costuram repulsa ou cobiça

Mas as roupas bem escolhidas


Nos dão elegância sem par
Que às vezes é tão escondida
Que mal se acredita que há

As roupas delineiam curvas


No tom, na medida, no ponto
Belezas que deixamos turvas
Talvez por temermos confronto

As roupas realçam quem somos


São nosso cartão de visita
Expõem o que de melhor temos
Disfarçam se temos defeitos

Porém o que chamam defeito


Por vezes são características
Porque não pode ser defeito
A marca que é apenas física.

Berbequim
Se é coisa é mer-
-ca-
-do-
-ria:
A crosta impura
Sobre a terra crua

Cul-
-tuamos o con-
-sumo
(a polpa do fruto, a fuga do mundo)
Nos entregamos ao sacro-
-orifí-
-cio
Inalamos o tosco ví-
-cio
Chamamos doença a cu(r)-
-ra

A posse nos poss-


ui
Enlaçamos n-
-ossos
pescoços
Na fúria do verbo eu-quero
Da presepada ao presépio
Natal é irmão gêmeo da guerra
"Gera empregos, aumenta a produção"
É antitrégua
Corrida vazia, altar da mercadoria
Natal é gula e fartura
Sede evidente de cada vez mais gordura
Queima gasolina em uma pressa sem cura
Natal é festa de máscaras e maquiagem
Protocolos de alegrias com data e hora marcada
Concentra nas ceias pílulas de solidão
Natal é festa pagã
Presépios de feltro e fezes
Adornam toda tristeza
"Num mundo de sonho e magia"

Dentro dos corações de luto


Sobre as almas castigadas
No estábulo fedorento
Na manjedoura abandonada
Entre todos os venenos
Onde abunda ou falta dinheiro
Quem sabe onde anda esse Cristo, o menino
O que ele nos dá, entregue, frágil, desde sempre sozinho
Por que veio até nós, nossos próprios deuses
O que fizemos dele, da própria glória o despimos
De onde vem sua fé em nós, pecadores contínuos?
O que faz desse menino o Cristo
É ver em cada um de nós
O bebê da manjedoura, desprotegido
Nu, com frio e sozinho
Visitado por animais
E pastores esquecidos
Ao lado dos pais, igualmente perdidos

O que faz desse menino o Cristo


É derramar sobre a humanidade
Um amor que a tudo torna um pouco divino.

Pré-leitura
Nas nuvens, Jorges, elefantes, dragões
Escreviam histórias
Que eu lia
Sem conhecer palavra escrita

No quintal de terra
Sob exércitos de formigas
Desenhava mapas
Sem saber geografia

Nos olhos de fogo do pai


No lamento surdo da tia
Tateava dramas
Encenados pela família

Na água da chuva, eu lia a tristeza


Do barro na encosta, das muitas goteiras
(No sertão e na seca, quando chovia
minha avó sorria)

Depois, quando chegada a escola


Pôr cada pingo no i
Grafar o k e o c sem cedilha
Cair no calabouço
Da gramática armadilha
Refazer todo esse mundo
No caderno de caligrafia:
Para inovar o que eu já fazia
Coloquei letras na fantasia.

Encontrar um novo rumo


Pra entender todo esse mundo
Com palavras, cores, números

Perfurocortante
um caco de vidro
arranhando a paisagem
a faca no ouvido
da felicidade
agulhas sob as unhas
dos sonhos, das luzes
e a vida em retalhos
navalhas espadas

Usina do gasômetro
Janeiro
Um vento de veraneio
lento
Empurra os barcos
enferrujados ou apodrecidos
no Guaíba
E o deslocado hálito sertanejo
lambe nossos cangotes tensos
eriçados, lá de cima

Há uma cor quase sem vida


A refletir-se na casca da água, fina
Estilhaçada euforia
suave disritmia
E a tarde, quase morta, rumina
Um silencio de letras
A mente vazia

2013
Respeito a tristeza
Dos dias felizes
Ela é genuína
Senti-la é bem simples

Mundo mascarado
De abraços e brindes
Em nós, nossos olhos
Veredas, vitrines
Nos deixam expostos
Só nós somos tristes?

Reveillon é um véu
Tecido por risos
A dor anda nua
Banhada por lágrimas
dia da caça
meio cínico
pressinto
sob o cinto
distinto:
quadris
esquadrinham
os olhos
tolos
de
bobos
que se pensam
lobos
Verão de conflitos
O Guarujá
É a natureza verde
E líquida
Cercada de seco cinza
É o riso da vida
Escoltado pelo ray-banzinza
É a beleza rústica
Embalada
Pela nobreza pútrida
Local perfeito
Para a nudez da alma
Frenetizado
Pelo consumo
Das coisas
Das almas
Agora, as ruas
Existe um sabor nas ruas
Uma textura
Que abraço pelo olfato
Degusto com as retinas
Escuto em dimensões distintas

Nas vielas
Das tantas quebradas
No centro
Tão belo quanto horrendo
Por onde a vida se espalha
Maltratada
Às vezes linchada
Outras, renascidas do lixo

Nas ruas, o ar poluído


A voz sussurrada, o grito
De que me alimento, que respiro
Onde a tristeza é espraiada
E a alegria, um cisco

Por essas ruas deságuo


Só pelas ruas existo.
Balada do dia cinza
É a noite que cai
No meio da tarde
A vida desliza
No ventre das sombras
Folia se finda
Tão cheia de cinzas

É o meu carnaval
Que beija novembro
As bodas, natais
Virados do avesso
É a felicidade
Que nem tem começo

A paz e o amor
Abortos, desterros
Afã de calor
Inverno em dezembro
Fiapo de luz
Verão passageiro

É a tarde que cai


É o meu carnaval
Afã de calor
As bodas, natais
É a felicidade
Virada do avesso

Jurema gemeu
Ainda não era nem hora
De passar a chave na porta
Vestir-se, fingir-se de morta
Partir ou me mandar embora

Ainda não era nem dia


Pra vê-la ensaiar despedida
Salgar o café, a comida
Fazer do meu choro poesia

É tarde (demais) pra negar perdão


Coser no seu peito o (o fio do) rancor
Servir do desprezo o (amargo) licor
Vestir a mortalha do (nunca e do) não

A boca entreaberta me diz


E os olhos confirmam com luz
Que mesmo que eu seja uma cruz
Meu jeito faz você feliz

Jurema, seu lábio me diz


O que a língua tenta esconder
Que você vai se arrepender
Me aceite, não há que fazer
Matinas
Nesta manhã
As pernas vacilam
Os olhos se escondem
O peito trepida
É tarde para desejar
Bom dia?
Utopia
E um dia
No tempo certo
Sem métrica, método
Manter o mote
Seguir o mito
Colher a fome
Sangrar as taras
Desmantelar
A morte
Desmascarar
O medo
Atividade
Faço o que for preciso
Faço o que é necessário
Faço, não tem problema
Faço o que for contrário

Faço o que for do sonho


Faço o que for loucura
Não faço o enfadonho
Não faço o que tem cura

Não faço a vontade


Que me for longe, alheia
Não faço o que se espera
Mesmo que eu mesmo queira

Faço o fazer fazido


Cada vez mais benfeito
Faço do jeito errado
O torto mais direito

Faço fazer sentido


Faço valer a pena
Faço pois tenho alma
Mesmo que bem pequena

Faço qualquer bobagem


Faço qualquer pedido
Faço qualquer poema
Faço qualquer grunhido

Faço o que não quiseram


Faço o que for fingido
Faço o que não fizeram
Mas que foi prometido

Faço por alegria


Faço por desprazer
Faço, mas na verdade
Faço nem sei pra quê

Depois da tempestade
Nos fundos da casa
A janela e suas grades
Dão para o muro
Cravejado de musgo

Mais ao fundo
As casas
Descascadas pela chuva
Acima o Sol
Espremido entre nuvens
Na linha do fim a represa
E depois, o mundo

No céu rasga-se a tarde


Pra verter do ventre a noite
Que nasce entre manchas
Escarlate, laranja

De repente urge o cinza


Caindo pro azul-marinho
E mais rápido o preto
Desaba do céu, violento

O mundo no cativeiro do breu


Mas aqui dentro
Grassa a liberdade
Com a Nina
Me chamando
Para chutar a bolinha

Puzzle
tenho algo a buscar
não é felicidade
nem a cara-metade
eu preciso encontrar

tenho algo a fazer


me cansei de tentar
de me descompletar
de me desentender

tenho algo a viver


não por medo ou por sorte
mesmo que seja a morte
eu preciso saber

tenho algo a falar


que me ferver o humor
cresce como um tumor
eu preciso arrancar

tenho algo a extirpar


mesmo que sem alarde
antes que seja tarde
eu preciso afastar

tenho algo a sentir


sigo anestesiado
implodido, empalhado
eu cansei de mentir

Contraluz
Amarildo apagou
E fez-se o horror
−silencioso e sorridente−

Claudia apareceu
E o sinistro se deu
−indignação complacente−

Vieram à luz
Holofotes do ódio
De uma alma indigente
E brasileira

Não aquela mestiça


Antropofágica, tropicalista
Mas a alma desgovernada
Impenitente
Racista

Piras humanas
Archotes feitos de gente
Iluminaram a chaga
Revelaram a treva
Dessa brasileira miséria
Letramento dialógico
A leitura nunca é nula
A leitura nunca é só
O que leio enquanto escrevo?
Outros textos que dão nó

A escrita sempre é sina


A escrita é só reler
Todo texto abraça textos
A leitura é reescrever

A leitura cava mundos


A escrita é solidão
Só se escreve acompanhado
A leitura é reinvenção

Saiba, enquanto escrevo


Na minha letra releio
Leio reescrevendo
Ato Institucional
Noite
Embalsamada noite
Um corte
A morte
Um açoite
A violência
Com que cala
E arrebenta
Tudo que não seja noite

Embalsamada noite
Um trago
Um afago
Uma foice
A que ceifa
E rouba a seiva
Abortando tudo
Que não tema a noite

Embalsamada noite
O vulto
O luto
O lobo
O que drena
O sangue e a lua
Secando tudo
Que não louve a noite

Embalsamada noite
A algema
O edema
O poema
Rasgando o dia
Cegando todos
Sobre a morte
A amnésia
E a volta
Da noite.

desconcerto sintético
as horas passam
os dias correm
os homens brigam
amores dormem

mulheres mostram
no próprio corpo
a dor vermelha
das estações

a lua vaga
minguar crescente
as novidades
dessa rotina

os céus azulam
as noites negram
se tudo muda
mudamos mesmo?

a pátria amarga
do povo o coma
os vírus mutam
pessoas morrem.
Nação Zumbi
Peso a tradição
Leio minha mão
Guitarra na embolada

Coco supersom
Sem perder o tom
Maracatu não basta

Toco um funk, irmão


Marcos, Lampião
Revolução ou nada
As palavras singram mudas
No vale dos dicionários
Cobrem-se de musgo e solidão
Pesadas pela poeira denotação

Se tocadas, tudo muda


Por poetas ou bancários
Pasteleiros, padres, artesãos
Basta injetar intenção

As palavras não se bastam


Crentes órfãs de oração
São grávidas de significado
Dispensam lances de dados
Girassol e dinamite
Contém a beleza negra
Na coma cacheada e galega
Explode entre covinhas
Infantis alegrias
Onde ela brotar
Não vingam silêncios
Nem daninhas rotinas
Outras Helenas
Provocam guerras
Esta
(se não estiver naqueles dias)
Espalha brasas, folias
Nortrop Frye
O poema não fala
Existe
Quem o lê
Que diga, que sinta
Que finja ou desminta

O poema é uma tábua


Muro do pensamento
Vitrine das emoções
O poema é concreto
Desejo
Mistério

O poema inebria
O poema
Indecifra
Cronologia
Desfazer o retrato
Do perfume que trago
A mim resta o destino
A mim resta o meu rastro

Decretar o futuro
Projetar o passado
Me equilibro no limbo
Me anteparo no vácuo

Não me toca a saudade


Nem a posteridade
Meu futuro é incerto
O passado, mistério
A leitura da alma
(um desenredo difícil)
Sempre amarrotada
Um anjo em pó refez o amor desde menino
Um anjo cínico sorriu desfez-se o mal
Um anjo tímido corou tocou seu sino
Um anjo lírico, um mistério e um sinal

Um riso torto, escandaloso e fez-se a luz


Um grande espanto, amor de pai, de tio,irmão
Amor de fato, sangue ou não, não se traduz
Amor saudade, amizade, comunhão

O véu da noite encobre a noite que há em mim


O véu da noite não esconde o meu pesar
O céu da noite expõe o luto, o breu sem fim
E o anjo em pó não deixa o amor paralisar
Disforia
Vou me entregar
Perseverar
E depois desistir

Vou suportar
E perdoar
Depois me arrepender

Vou consumir
Quero explodir
Vivendo a vida zen

Vou me importar
Desesperar
Sabendo ser blasé

Deus é por todos, nós por mim


Partir o pão na solidão
Amo-te ó flor do meu jardim
Mas sou o enxadão

Pois devagar se vai ficar


Raízes de pernas pro ar
O fim da vida é só (n)o fim
Nunca espere por mim
Nada nunca volta
Depois da vida já era
Toda Inês é morta
Desfaça o nó da quimera

Nada nunca volta


Desfaça o nó da quimera
Nem por um segundo
Seja imortal

Expiação
Preciso que venhas
Banhada em sangue
Caninos expostos
Arreganhamento

Preciso que venhas


Com luxo e luxúria
As garras vermelhas
Carnificina

Preciso que venhas


Ubre em chamas
Do seio o veneno
Violentamento

Preciso que venhas


Com fúria lasciva
Pra dilacerar
Minha própria sina
Política de vitrine
Repitamos sem saber
E vivamos de clichê
Afinal, pensar pra quê?

Ponto facultativo
É hoje que eu sigo
Desperdiçando esse dia
A brindar a vida
Memorial do corpo
Eu, rodeado de sombras
Sou também feito de surdas sombras
Danço a valsa lúgubre das trevas
Sou eu mesmo quem a mim enterra

Eu, amante da morte


Sou a carne que anuncia a morte
Refém feito do próprio pecado
Sou a foice que me tem ceifado

Eu, que não temo o diabo


Sou mais forte que qualquer demônio
Corroído a partir de dentro
Sou meu verme, que me dilacero

Eu, por mim devastado


Sou ruína, enigma destroçado
Cruz sem Cristo, só me resta o horror
Sol sem vida, amante sem amor

Eu, resto de esperança


Sofro a ânsia de um vapor de fé
Sou o fraco, tolo, quebrantado
Desgarrado, ainda aguardo o abraço
Que me aferre à vida, à redenção
passeio íntimo
tanta beleza
dançando
em minha vista
a linda passa
e nem sabe
que me conquista

o sol beija o mar


que cálido, retribui
há luz entre os corpos

a pantera lânguida
bem distante sobre a grama
tu, minha pantera

o que tu me deste
era vidro e se quebrou
ah, se fosse amor...

o castanho lábio
e o girassol sobre a fronte
onde amor se esconde
a cadente estrela
despenca sob o luar
moro em teu olhar

a vida do avesso
os dentes em minha carne
teus olhos, miragem

moça transpira grandeza


olhos e risos vazios
refém da própria beleza

que o teu amor seja pranto


teu riso verta-se em pântano
enquanto eu peço perdão

nu
assim me deixaram demônios
assim me encontrarão os anjos
e os deuses em Deus

vestindo apenas pecados


(os meus pecados)
livre de qualquer força
que tenha pego emprestado
reconhecendo meu desleixo
minha fraqueza
meu fracasso

nu
e ainda mais nu que antes
sem placenta e sem sangue
coberto pelo vácuo
deserdado de abraços
inteiro desmascarado

saudado por Jeremias


eu réu denunciado
nu
ao cabo do esgotamento
no auge da aniquilação
eu, desnudado de sonhos
revestido de medos
sou eu mesmo
meu profeta
meu carrasco

açoitado pela fé doente


meu produto
meu fiasco

só não despi esperança


dou amor
sou amado.

Não é teu gosto que me faz morada


Tenho saudade do teu falso brilho
Se não me escutas, beba a alvorada
Se não te cuspo entalo ó grão de milho

Não é teu corpo que me encharca a alma


Nem é teu verso que me toca o peito
Teu dó de peito drena toda a calma
Desfaça os nós e faça bom proveito
Quintal, solidão
Traspassada por estrelas
Mas nada é em vão

No quintal, a solidão
Pontilhada por estrelas
Fazem a dor não ser em vão
Contra Jorge Velho
Véus despindo horrores
Meu sangue vertendo açoites
Pra rasgar a noite

Quero falar da faca


Ouvir a voz da faca
Que engordurada na mesa
Entre migalhas de pãezinhos franceses
Se cala
A faca se quer na ribalta
Valentia e nobreza
Fazendo par
De capa e espada
Amanteigada
Contra tabletes de margarina

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