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OS ESTUDOS ESTRATÉGICOS,

A DEFESA NACIONAL E A SEGURANÇA INTERNACIONAL

Eurico de Lima Figueiredo 1


O que são os “Estudos Estratégicos”? De início, as dificuldades de entendimento
surgem do próprio modo como o termo “estratégia” é utilizado de maneira frouxa e
imprecisa na literatura em geral, seja nacional ou não. “Estratégia de marketing”
“Estratégia Financeira”, “Gestão Estratégica”, eis apenas alguns exemplos de como a
expressão é usada livremente, sem maior preocupação com as diversas acepções com
que ela é empregada pela comunidade que atua na área. Talvez a imprecisão
terminológica derive, pelo menos inicialmente, de sua origem etimológica, porquanto
Strategos, em grego, significa general, ou aquele que lida com as questões gerais que
2
envolvem o planejamento e a operação das batalhas. Mesmo nos âmbitos onde se
poderia esperar alguma nitidez conceitual, a indefinição ou impropriedade prevalecem. 3
Na literatura concernente ao assunto, a expressão tem sido empregada, em
termos gerais, em sentido estrito e em sentido amplo. Em sentido amplo, a expressão
refere-se ao papel do poder militar na política internacional face aos meios
econômicos, políticos e diplomáticos (mas não apenas esses), tendo em vista a
consecução dos objetivos de Estado. Em sentido estrito ela indica o conjunto de
procedimentos que informa as operações militares, requerendo, assim, conhecimentos
especializados e particulares, tais como aqueles ensinados e praticados nas escolas de

1
Professor Titular de Relações Internacionais e Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense
e Presidente da Associação Brasileira de estudos da Defesa, ABED (junho de 2010).
2
A palavra strategos deu origem a seus derivados, como strategikon e stratagema. Na Grécia antiga,
essas palavras referiam-se ao aprendizado da “arte da guerra”. Os estratagemas definiam ciladas,
artifícios ou ardis capazes de levar a vitória sobre os inimigos. Sobre a etimologia da palavra, ver Coutau-
Bégarie, 2003:57/58.
3
O VII Encontro Nacional de Estudos Estratégicos, ENEE VII, realizado em Brasília, em novembro de
2007, sob patrocínio do Gabinete Institucional da Presidência da República, é um bom exemplo. Os
objetivos propostos na ocasião foram quatro; o Futuro da População; o Futuro do Território; o Futuro da
Globalização; e o Futuro da Ciência e Tecnologia. Discutiu-se desde as epidemias e as desigualdades, até
os quilombos e as fronteiras; desde o comércio mundial e as empresas brasileiras no exterior até as células
- tronco e a biossegurança. Entre os 20 subtemas previstos nos quatro blocos, apenas um relacionou-se,
diretamente, com à questão estratégica (“As Forças Armadas de que o Brasil irá necessitar”). Nenhum
bloco foi dedicado à Segurança Internacional e/ou à Defesa Nacional, sendo que o primeiro termo,
“Segurança”, foi deixado em aberto, podendo referir-se à segurança internacional, à segurança nacional,
ou ainda à segurança pública. Em nenhum dos blocos foi proposto o ”futuro da segurança e da defesa
nacional” conceitos centrais nos Estudos Estratégicos

1
altos estudos militares. 4
Denominações gerais podem abrigar denominações particulares; o inverso é
uma impossibilidade lógica. Os termos “Defesa” e “Segurança” não devem ser
considerados como sinônimos de “Estudos Estratégicos”. Um e outro portam
conteúdos conceituais próprios, enquanto “Estudos Estratégicos” guardam acepção
mais ampla e compreensiva. Nesse sentido, “Defesa”, “Segurança” (nas suas diversas
acepções), 5 e outras temáticas estariam incluídas na área dos “Estudos Estratégicos”.
Na verdade, os chamados Estudos Estratégicos supõem várias subáreas com
especificidades próprias. Na pauta da área constam análises das relações entre forças
armadas e sociedade; investigações sobre as organizações e instituições militares;
estudos de História Militar; exames das conexões entre o poder político e a indústria
de defesa; pesquisas relativas à ciência, à tecnologia e à eficiência militar; inquéritos
teóricos a respeito das interações entre “Estudos Estratégicos” e Relações
Internacionais”, etc. Dessa complexidade surge, como não poderia deixar de ser,
dificuldades conceituais, controvérsias ou cismas, seja no plano teórico, seja no
6
metodológico. Para uns a área teria escopo multidisciplinar (Baylis e Wirtz, 2002);
para outros seu objeto seria o fenômeno bélico (Proença Filho); 7 para outros ainda os
Estudos Estratégicos, antes de terem um objeto nítido, constituem-se em “um ambiente
de pesquisa, de reflexão e de perspectivas onde assuntos relacionados às questões militares
encontrariam espaço comum” (Oliveira, 2006). Uma quarta posição considera que, sendo
o Estado o agente por excelência da formulação, do planejamento e da ação estratégica, a
essência epistemológica da área é de substância política (Figueiredo, 2009-A). Nessa
visada, os Estudos Estratégicos teriam como focos centrais a defesa e a segurança dos
sistemas estatais nos âmbitos nacional e internacional (Figueiredo, 2009-B).

4
No caso do Brasil, a Escola de Guerra Naval (EGN); a Escola de Comando e Estado Maior do Exército
(ECEME); e a Escola de Comando e Estado Maior da Aeronáutica (ECEMAR), esta última uma das
unidades que compõem a Universidade da Força Aérea (UNIFA).
5
Pode-se falar de “Segurança Internacional”, “Segurança Nacional”, Segurança Pública”. Mais
recentemente foi proposta a expressão “Segurança Interna”, visando talvez, com essa última acepção,
flanquear as dificuldades semânticas subjacentes, no Brasil, na denominação “Segurança Nacional”. A
suposição é que, com a consolidação do processo republicano, e a vigência ininterrupta dos
procedimentos democráticos, a expressão “Segurança Nacional”, livre da significância passada, possa ser
empregada pela comunidade científica sem maiores percalços.
6
“Strategic Studies cannot be regarded as a discipline in its own right. It is a subject with a sharp focus –
the role of military power- but no clear parameters, and it relies upon arts, sciences, and social sciences
subjects for ideas and concepts”. Baylis e Wirtz, 2002:4.
7
Os Estudos Estratégicos configuram “a expressão disciplinar do estudo científico do uso da força, do
fenômeno bélico”. Proença Filho, 2004: 114.

2
Não obstante tais dificuldades conceituais, (que, aliás, permeiam outras áreas
de conhecimento), os Estudos Estratégicos já se incorporaram aos currículos e pautas
de investigação nos centros de pesquisa e ensino nas principais universidades do
8
mundo ocidental (mas não apenas nele). Já antes do término da Segunda Grande
Guerra, os Estudos Estratégicos começaram a ganhar destaque nos Estados Unidos e,
9
quase ao mesmo tempo, na Grã-Bretanha. A centralização inicial dos Estudos
Estratégicos nesses dois países não parece ter ocorrido devido a razões fortuitas. Os
EUA, no contexto desenhado pela vitória aliada em 1945, passaram a ocupar papel
central na ordenação política mundial. Por outro lado, a Grã-Bretanha parecia manter
veleidades de grande potência, herdeira de longo passado imperial. A criação e o
desenvolvimento de pólos de estudos e pesquisas no sistema universitário civil
sinalizava a necessidade de se contar com a academia para a análise e compreensão da
complexidade das novas configurações do sistema internacional, onde o papel militar
era crucial. No Brasil, no contexto da Guerra Fria, a principal referência foi a Escola
Superior de Guerra, a ESG, instituída em 1949, sob a liderança do marechal Cordeiro
de Farias. 10
Este ensaio não propõe avaliação geral do “estado da arte” na área em questão, o
que escaparia, inclusive, às diretrizes traçadas pelo editor do livro. Guarda como
principal objetivo, tão apenas, fornecer ampla introdução sobre o tema. A bibliografia
internacional será considerada na medida em que se faz presente na produção brasileira,
dando-se maior ênfase, sempre que possível, a essa última. A idéia é oferecer, no
decorrer da argumentação, espécie de guia bibliográfico, sem pretensões à exaustão,
pelo menos em forma indicativa. O público-alvo é o estudante da graduação e da pós-

8
Outros centros de estudos e pesquisas existem espalhados em todos os continentes, mas foram criados
muito depois daqueles estabelecidos nos países centrais. Não cabe considera-los na linha de
argumentação e exposição que aqui se desenvolve.
9
Ainda no decorrer da Segunda Guerra Mundial, em 1943, experiência clássica foi conduzida por Edward
Mead do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de Princeton, nos EUA. Ele reuniu 21 scholars,
em geral historiadores, norte-americanos e europeus, que, em esforço conjunto, refletiram sobre os
principais formuladores da compreensão moderna e contemporânea das questões estratégicas, desde
Maquiavel até Hitler. O esforço levou a publicação do livro Construtores da Estratégia Moderna editado
por Mead. Cerca de 30 depois, Peter Paret chamou para si , em 1986, a tarefa de reeditar a obra, visando
sua atualização e expansão em dois volumes. A Editora Biblioteca do Exército publicou os dois em
português, o primeiro em 2001, e o segundo em 2003, ambos sob o título de Construtores da Estratégia
Moderna: de Maquiavel à Era Nuclear.
10
O marechal Cordeiro de Farias, organizador e primeiro comandante da instituição, assim se posicionou
sobre a influência norte-americana: “Eu sempre digo: nós somos filhos do War College, admitimos com
orgulho esta paternidade, mas não existe nada mais diferente do War College do que a Escola Superior de
Guerra”. (Camargo e Góes: 1981: 417).

3
graduação, além dos professores e pesquisadores na área, sem deixar de mencionar o
público interessado em geral.
A primeira parte do trabalho traça panorama da área em rápidas pinceladas. A
segunda situa o quadro atual da comunidade de estudiosos no País e suas principais
tendências. A terceira delineia as perspectivas futuras dos Estudos Estratégicos entre
nós. Animam tais pretensões, como não poderia de ser em um ensaio como este, a
preocupação com a síntese, sempre sujeita às inevitáveis lacunas e omissões.

O Panorama Geral

A economia política que correspondeu ao desenvolvimento do sistema


capitalista revolucionou o mundo e, ao mesmo tempo, o mais complexo e terrível
conflito humano: a guerra. Com a primeira Revolução Industrial, entre 1750 e 1850, - e
as “grandes transformações” que dela advieram, para usar a conhecida expressão de
Karl Polanyi - assistiu-se ao crescente intercâmbio entre civis e militares, mormente no
âmbito da ciência e da tecnologia. Seria somente no decorrer do século XX,
notadamente após a Segunda Guerra Mundial que, nos países centrais do mundo
ocidental, a cooperação ganharia densidade no âmbito das questões sociais e históricas
referentes à política da guerra. A tendência de civis e militares se debruçarem sobre os
assuntos estratégicos, à luz das grandes transformações nos tempos da Revolução
Industrial, já se delineava em seus contornos contemporâneos desde o século anterior.
Engels (1820/1895), por exemplo, principal parceiro de Marx (1818/1883),
devido a sua expertise nesses assuntos, ficou conhecido como o “General de
Manchester”. 11 No entanto, em geral, os mais conhecidos e importantes estrategistas da
época eram de origem militar. O caso de Clausewitz (1780/1931) talvez seja, nesse
sentido, paradigmático. Por um lado, o autor de Vom Kriege, além de militar, foi
também filósofo da ciência e da guerra. Sua biografia mostra bem como, no seu tempo,
e até quase meados do século seguinte, os grandes estudiosos e teóricos das relações
estratégicas - ocupando a guerra o papel central – eram de origem castrense. 12
Por
outro, a obra de Clausewitz não foi produzida no âmbito acadêmico. Em seu tempo, a

11
Cf. Engels, 1976. Trata-se de livro organizado pela Editorial Estampa, sediada em Lisboa, Portugal,
reunindo vários trabalhos seus sobre assuntos militares.
12
Não se pode deixar de mencionar que, na literatura sobre a guerra moderna, lugar de destaque deve ser
dado não a um militar, mas a Maquiavel (1469/1527), em seu clássico “A Arte da Guerra”, escrito entre
1519 e 1520. A problematização da importância da obra do secretário florentino nos tempos modernos
encontra lúcido exame em Gilbert, 2001: 27/53.

4
atenção aos assuntos militares no sistema acadêmico das grandes potências desenvolvia-
se, quase que tão somente, no campo da ciência e da tecnologia visando a produção
bélica. A produção de conhecimento crítico, voltada para a análise das relações
estratégicas, que implicava em necessário aporte baseado nas Ciências Sociais, só se fez
13
sentir muito mais tarde. Como já assinalado, seria tão somente no decorrer dos anos
40 do século XX que se constituíram os primeiros centros desse tipo, de início, nos
países vencedores do conflito, os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a França,
espraiando-se, a partir daí, paulatinamente, pelo resto do continente. 14
Nos Estados Unidos foi criado, no final de 1945, o Naval Postgraduate Studies
que, em dezembro de 1951, passou a funcionar em Monterey, Califórnia. O National
War College foi criado em julho de 1946 e já em setembro seguinte foi formada a
primeira turma de alunos. No King’ s College, em Londres, foi organizado o
Departamento de War Studies em 1947 e, em 1951, o Departamento de Estudos da
Defesa. Na França, em novembro de 1948, foi instituído o L'Institut des Hautes Études
de Defense Nationale (IHEDN). O International Institute for Strategic Studies (IISS),
criado em 1958, voltado para à análíse dos conflitos politicos-militares, teve sede em
Londres e, atualmente, conta com escritórios nos EUA e Singapura. A National Defense
University (NDU), nos Estados Unidos, foi fundada em 1976. A relação hoje é bastante
extensa, notadamente nos Estados Unidos. 15

13
Cf. Coutau-Bégarie, 2003: 54/55.
14
A cooperação civil-militar no campo estratégico esteve no nascedouro da ex - URSS. Lênin confiou a
Trotsky a organização do Exército Vermelho. Formado o Estado soviético, a formulação da Estratégia de
Estado ficou a cargo do Partido Comunista sob controle civil. Os oficiais-generais das três forças armadas
só podiam alcançar os postos mais preeminentes na medida em que ascendessem, também, na estrutura
partidária. A partir de “lógicas políticas distintas” em relação ao modelo prevalecente no ocidente,
ocorreu também a circunscrição da “Estratégia Militar” no quadro da “Estratégia de Estado” ao comando
civil dos líderes comunistas.
15
Cf. Arkin, 1998. Eis breve lista compilada pelo autor deste artigo a partir de Coutau-Bégarie, 2004:
981 / 982):
Air Force Doctrine Center: www.hpafdc.maxwell.af.mil
Air University: www.au.af.mil
Australian Forces Defence Academy: www.lib.adfa.oz.au/web/military/militaire/htm
Clauswitz: www.mnsinc.com/cbassfrd/CWZHOME/CWZBASE.htm
College canadien de defense: www.cfcsc.DND.ca/Nexus;
Fondation pour la recherche stratégique: frstrategie.org ; Institut for Stratégie Comparée:
www.stratisc.org
Institut for National Strategic Studies: www.ndu.edu/ndu/inss/insshp.html (on y trouve notamment les
“McNair Papers” ; International Affairs Network: www.pitt.edu/~ian/
Interational Institute for Strategic Studies: www.isn.ethz.ch/iiss/iisshome.htm
International Relations and Security Network: www.isn.etzh.ch/
Joint Chiefs of Staff: www.dtic.mil/jcs
Joint Forces Quarterly: www.dtic.mil/doctrine/jel/jfq_pubs/index.htm
Joint War fighting Center: www.jwfc.js.mil/;
Military History Documents and Web Sites: www.csusm.edu/A_S/History/websites/military.Html;

5
Nos centros acima referidos a expressão “Estudos Estratégicos”, passou,
paulatinamente, a designar conjunto de análises e investigações voltadas para a
compreensão do papel da força militar no sistema internacional. Começaram a surgir,
em ambiente universitário, os primeiros currículos e projetos de pesquisas sobre o
assunto de forma mais sistemática e organizada, iniciativas em geral marcada pela
cooperação entre civis e militares. Mesmo quando, nesses centros, a direção ficava nas
mãos de militares, os dirigentes não eram escolhidos devido a critérios corporativos, ou
aos postos ocupados na alta hierarquia das forças armadas: prevaleciam seus méritos
intelectuais próprios, havendo, progressivamente, preferência pelos portadores de
titulação acadêmica. As composições mistas dos corpos dirigentes e docentes,
carregando aspectos positivos no contexto dos valores da sociedade democrática,
porquanto se supunha plena liberdade acadêmica, geraram, contudo, problemas de
ordem teórica e conceitual que têm reflexos, por uma via ou outra, até hoje. É o caso,
por exemplo, em certos textos, da dificuldade se distinguir as noções de “Estratégia” da
área de conhecimento “Estudos Estratégicos”, como se verá mais adiante.
As tendências teóricas em jogo mostravam a formação de um tipo de “ciência
positiva” cuja expressão maior foi a aplicação da chamada “teoria dos jogos” à análise
de questões como “dissuasão”, “escalada nuclear”, “controle de armas”, etc. Em outra
vertente, de cunho histórico, tiveram notável influência a produção voltada para o
confronte leste/oeste, “Ocidente versus Oriente”. A obra do inglês Arnold J. Toynbee
(1889/1975) tornou-se referência significativa. Já famoso pela repercussão de sua
grandiosa obra sobre as civilizações no meio acadêmico, iniciada em 1934 e concluída
em 1961, ele ficou mais conhecido por livros como o “O Mundo e o Ocidente”,
publicado no Brasil em 1955. A leitura ideológica de suas idéias passou a nutrir tipo de
racionalização, corrente durante a Guerra Fria, segundo a qual perpassavam as relações
estratégicas conflitos considerados inconciliáveis. Derivaram daí concepções relativas
ao antagonismo entre um suposto “mundo livre”, no campo ocidental “capitalista”, e um
pretenso “mundo das trevas”, no campo oriental “comunista”. Não raro, entendia-se por

Military Review: www.cgsc.army.mil/milrev/index.htm;


National Defense University Library’s Defense: www.ndu.edu/ndu/library/military.html;
Naval Doctrine Command: www.ndc.navy.mil
Naval Institute: www.usni.org; Naval War College: www.nwc.navy.mil
Naval War College: www.usnwc.edu/nwc/press.htm;
Parameters: carlisle-www.army.mil/usawc/parameters;
RAND: www.rand.org;
US Army Military History Institute: www.army.mil/usamhi.

6
“Ocidente” um governo e/ou um país que, mesmo situado no “Oriente”, identificava-se
com os Estados Unidos. Nessa lógica do tipo “nós” (“Ocidente”) versus “eles”
(“Oriente”), ficava difícil entender como o Japão e Taiwan, situados no “Oriente”,
incluíam-se no chamado “Ocidente” capitaneado pelos EUA, enquanto Cuba, situada no
“Ocidente” era, na verdade, “exótica”, por ser parte do “Oriente” (isto é, no campo de
influência da ex-URSS). Paradoxalmente, entretanto, a lógica apocalíptica que dessa
análise resultava, fundada no temor do holocausto nuclear, acabou propiciando, tanto no
“lado do ocidente”, sob hegemonia norte-americana, como no “lado do oriente”, sob
16
hegemonia soviética, a estabilidade estratégica. Embora tais idéias tenham caducado
com o final da Guerra Fria, ressurgiram, nos anos 90 do século passado, na conhecida
obra de Samuel Huntigton, “The Clash of Civilizations and the Remaking of World
17
Order”, publicada em 1996. Com leitura toda própria no que concerne não só ao
entendimento do conceito de “civilização”, como também ao de sua utilização para a
compreensão da ordem mundial pós-guerra fria, Huntigton colocou novamente em
pauta os dilemas do Ocidente, para muitos influenciando com suas idéias a formulação e
a ação estratégicas dos Estados Unidos, principalmente na era Bush, filho. 18
No campo da análise influenciado pelas teorias e métodos na área das Ciências
Sociais, ganhou espaço um tipo de produção científica onde se colocava na pauta dos
estudos e pesquisas as questões relativas à história militar; ao funcionamento e estrutura
da corporação militar como instrumento de defesa e segurança do Estado; a análise da
“mente militar”; as relações entre civis e militares, ou forças armadas e sociedade; a
interação entre a corporação e os três poderes constitucionais; entre outras linhas
temáticas de investigação. O livro de Huntigton The Soldier and the State, publicado

16
Pereira, 1984.
17
Huntigton publicou uma espécie de “trailer” de seu livro, na forma de artigo (“The Clash of
Civilizations?”) na revista Foreign Affairs em 1993. Originário desse artigo surgiu o livro Choque de
Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial, publicado em 1996, traduzido e publicado em
português, em 1998, pela Biblioteca do Exército Editora (Bibliex).
18
A hipótese central de Huntigton é que os conflitos no mundo, após a Guerra Fria, não são de caráter
predominantemente ideológico ou econômico, mas “cultural / civilizatório”. A política global seria
permeada por choques entre países e grupos de diferentes civilizações. “As falhas geológicas entre
civilizações serão as frentes de combate do futuro”. Huntigton (1996). Não só seu conceito de
“civilização” sofreu fortes críticas, como também a sua classificação foi considerada arbitrária. O Brasil,
por exemplo, está situado em tipo de “civilização” latino-americana e não “ocidental”, porquanto esse
tipo de civilização, a latino-americana, resulta de uma espécie de hibridismo entre a civilização ocidental
e a indígena. No caso, o que vale para países da América Latina não valeria para os Estados Unidos, país
marcado também marcado pelo processo de miscigenação. Críticos mais ácidos apontam as similitudes
entre as idéias fundamentalistas de Huntigton com as de Osama Bin Laden, inimigo maior dos Estados
Unidos.

7
19
nos Estados Unidos em 1957, ofereceu espécie de guideline para uma tendência dos
Estudos Estratégicos, que foi bastante significativa na sua época e mesmo depois dela,
até hoje. 20

O Contexto Brasileiro

Escrevendo há mais de 20 anos atrás, Alfred Stepan, assinalava a carência de


uma comunidade de pesquisadores que, no Brasil, e de resto em toda a América do Sul,
21
fosse capaz de participar ou influir profissionalmente nos assuntos estratégicos. Seu
registro encaixava-se, por um lado, em termos mais gerais, nas considerações relativas à
posição dos militares nos regimes que, na época, transitavam para a democracia
(Argentina, Brasil, Chile, Espanha e Uruguai, com especial ênfase dada pelo autor em
tela ao caso brasileiro). Em termos mais particulares, Stepan destacava as dimensões das
prerrogativas militares, chamando a atenção, entre outros aspectos, para a quase
inexistência de especialistas civis capazes de colaborar na análise rotineira dos assuntos
da defesa. Como conseqüência, a ausência de expertise civil deixava os órgãos do
Executivo e do Congresso, além dos próprios partidos políticos e a sociedade em geral,
sem possibilidade de contar com o aporte de estudos e pesquisas necessários à
proposição e instrumentalização de políticas na área. Como os assuntos relativos à
defesa e segurança, nas sociedades democráticas, são de interesse de todos, e não apenas
dessa ou daquela corporação, Stepan identificava na carência um dos obstáculos ao
fortalecimento das instituições de direito no país. A preocupação do brazilianista

19
Traduzido para o português pela Biblioteca do Exército Editora, em 1996, sob o título O Soldado e o
Estado, Teoria e Política das Relações entre Civis e Militares.
20
A Sociologia e a Ciência Política norte-americanas trabalhavam com conceitos que denotavam, por um
lado enraizado preconceito em relação à América latina e, por outro, suscitaram - nas décadas de 50, 60 e
70 do século passado - certo estilo de pesquisa que serviram, naquela época, aos propósitos do
Departamento de Estado dos EUA na região e também às justificativas dos regimes militares que
proliferavam no continente. Nesse último aspecto o cientista social mais importante foi John J. Johnson.
O conceito de Latin American era empregado com significante derrogatório, enquanto o estilo de pesquisa
levava à conclusão de que a intervenção militar era a alternativa histórica mais apta a conduzir à
modernização dos países latino-americanos. Cf. o trabalho de Feres Júnior, 2005: 147 / 161. Diz ele: “Se
Huntington foi o autor mais influente dessa (linha de interpretação), John. J. Johnson, certamente seu
latino-americanista mais importante” (op. ci: 148).
21
Stepan, 1988.

8
encontrava ressonância, mais ou menos na mesma época, nas reflexões dos estudiosos
brasileiros, tais como Eliézer Rizzo de Oliveira. 22

As avaliações acima referidas requerem alguns comentários. Em países como o


Brasil, situado na zona de influência norte-americana, no contexto da Guerra Fria que
ganhava fôlego, as formulações estratégicas desenvolveram-se principalmente no meio
militar, e, em menor grau, no ambiente diplomático, ganhando pouca repercussão entre
intelectuais civis e pesquisadores da academia. Em comparação com o que ocorria nos
denominados países centrais, notadamente os EUA, a literatura dominante entre nós
exibiu contornos subsidiários ou complementares às formulações geoestratégicas
norte-americanas. A Escola Superior de Guerra, fundada em 1949, e até o final do
regime autoritário entre nós, em 1985, constituiu-se no centro formulador da chamada
“Doutrina de Segurança Nacional” que, entre outros aspectos, refletia, com verniz
23
próprio, aquelas referidas formulações.
Durante a vigência do regime autoritário (1964/1985), os debates estratégicos
24
passaram, em geral, à margem da academia. A partir de 1980, quando o sistema
passou a experimentar exaustão, começaram a surgir os primeiros centros pesquisa no
âmbito civil, embora os primeiros trabalhos, academicamente orientados na área,
tivessem já aparecido na década anterior, como se verá mais adiante. Em 1981 foi
criado o CEBRES (Centro Brasileiro de Estudos Estratégicos), no Rio de Janeiro,
associação privada reunindo principalmente oficiais da reserva, ex-diplomatas,
profissionais com formação diferenciada. Seguiram-se, entre outras, a fundação do
Centro de Estudos Estratégicos sob patrocínio da Sociedade Brasileira de Cultura,

22
“A situação torna-se mais grave dado que ainda são pouco relevantes o estudo e o debate de questões
estratégicas fora do âmbito militar. Há esforços consideráveis nesse sentido, mas os resultados e a sua
expressão permanecem discretos”. Oliveira et alli, 1987: 99.
23
“A fonte mais amplamente aceita de formulação e disseminação da doutrina de segurança nacional no
Brasil é a Escola Superior de Guerra (ESG).” (Stepan, 1986:19). Alguns autores, como Cabral (2004),
postulam que o Instituto Superior de Estudos Brasileiros, o ISEB, criado no governo Juscelino
Kubitschek , em 1955, serviu nos noves de sua atuação (ele foi extinto em 1964 por determinação do
governo militar) como espécie de contraponto à esquerda das posições esguianas. Alguns autores chamam
a atenção para o fato de que, em oposição à ESG, surgiu, em 1955, (Cabral, 2004). Não se pode dizer,
contudo, que as formulações isebianas tivessem conotação propriamente estratégica, porquanto era
rarefeita, na área, a bibliografia produzida pela instituição em pauta. Tanto em um caso (o da ESG), como
no outro (o do ISEB), não ganharam realce as análises propriamente científicas, predominando as de
índole ideológica.
24
“Uma boa explicação para isto se deve, em parte, ao fato de que no período dos governos militares
(1964-1985), os obstáculos para se analisar não só a instituição castrense, mas qualquer outro item
diretamente vinculado à participação do estamento militar na política nacional, eram quase
intransponíveis, muito difíceis de serem realizados, sobretudo para os pesquisadores brasileiros. Tal fato
era verificado não só no Brasil, mas em todo o Cone Sul, com a mesma intensidade”. Miyamoto (2001:
3). Cf. nota 34 adiante.

9
Convívio, entidade privada sediada em São Paulo, em 1983; o Núcleo de Estudos
Estratégicos (NEE) da UNICAMP, em 1985; o Núcleo de Estudos Estratégicos (NEST)
da Universidade Federal Fluminense (NEST / UFF), em 1986; o Núcleo de Análise
Interdisciplinar de Políticas Estratégicas (NAIPPE), na USP, em 1991.
Com o final da Guerra Fria, e o encorpamento do processo democrático no país,
gradualmente foram ganhando espaço as reflexões e investigações voltadas para as
questões relativas à defesa (nacional) e à segurança (internacional). 25 A emergência do
Brasil no cenário mundial, ensaiando maior protagonismo, na primeira década do novo
milênio, despertou interesse crescente em relação às questões de defesa e segurança no
cenário internacional. 26 No âmbito militar tal situação parece ter estimulado a formação
de centro de pesquisas e estudos na área. Ia configurando-se, pouco, teia de unidades
que estaria, no futuro, fadada a interagir com a malha de estudos e pesquisas que, com
certo dinamismo, já havia sido implantada na academia. O Centro de Estudos Político-
Estratégicos (CEPE) da Escola de Guerra Naval só ganhou sua atual denominação em
1990, embora suas origens remontem a 1977. O Centro de Estudos Estratégicos da
Escola Superior de Guerra data de 1993. O Centro de Estudos Estratégicos, na estrutura
da Escola de Comando e Estado Maior do Exército, foi instituído em 2000, enquanto o
Centro de Estudos Estratégicos da Universidade da Força Aérea (UNIFA) foi criado
somente em 2008. Pode-se atualmente relacionar no Brasil, pelo menos, 15 centros ou
núcleos, civis e militares, realizando estudos e pesquisas na área dos Estudos
Estratégicos. 27

25
Realce deve ser dado ao trabalho de Proença Jr. e Diniz (1998), Política de Defesa no Brasil: uma
Análise Crítica, mostrando inclusive familiaridade com o jargão especializado castrense, reconhecido até
por eminentes militares. Assim opinou o então Ministro da Aeronáutica, Tenente Brigadeiro Murillo
Santos, prefaciando o trabalho em questão: “É entusiasmante que se encontre no meio universitário quem
se proponha estudar grandes estratégias e, em particular, quem se exponha a mostrar suas idéias sem
temer críticas ou postura dogmático-demagógicas de escolas e cursos formais que devem tratar de
defesa”. (Op.cit: 13/14). Cf. também Proença Jr., Diniz e Raza (1999).
26
Entre o final do século passado e o início do novo milênio a produção aumentou significativamente. Cf.
Brigagão e Proença Jr. (2002-A e 2004-B; 2004-A e 2004-B); Cabral (2004); D’Araújo e Castro (2000);
Costa e da Silva (2004); Guimarães (2005 e 2007); Mathias e Soares (2003); Vizentini (1998). A listagem
é extensa.
27
No âmbito militar:
CEE (Centro Estudos Estratégicos da ECEME/EB)
CEPE (Centro de Estudos Político-Estratégicos da EGN/MB)
CEE (Centro Estudos Estratégicos da Universidade da Força Aérea, UNIFA)
No âmbito militar:
GAPCon (Grupo de Análise de Prevenção de Conflito Internacional, UCAM)
Grupo de Estudos Estratégicos (GEE-COPPE UFRJ)
Laboratório de Estudos sobre os Militares na Política - LEMP / UFRJ
Laboratório de Estudos sobre Militares - LEM / CPDOC / FGV-RJ

10
No decorrer da primeira década do milênio, novas iniciativas indicam que a área
experimenta processo de afirmação e expansão, sendo formados curso graduados e pós-
graduados na área. Importante papel no processo de desenvolvimento da área
desempenha o Ministério de Educação (MEC), através da CAPES, em parceria com o
Ministério da Defesa (MD). Juntos eles lançaram, em 2005, o “Programa de Apoio ao
Ensino e à Pesquisa Científica e Tecnológica em Defesa Nacional – PRÓ-DEFESA”. Em
2008, tendo em vista o sucesso obtido, as duas pastas resolveram lançar a segunda edição
28
do Programa. Como resultado dessas políticas de incentivo à área, no âmbito das
Ciências Sociais, da História e das Ciências Humanas em geral, importantes pólos de
estudos e pesquisas foram implantados no país, ganhando destaque as experiências
lideradas pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil
(CPDOC) da Fundação Getulio Vargas; pela Escola Brasileira de Administração Pública
e de Empresas da Fundação Getúlio Vargas; pela Pontifícia Universidade Católica do Rio
de Janeiro; pela Universidade Federal do Pará; pela Universidade de Brasília; pela
Universidade Federal Fluminense; pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e pela
29
Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. O número de instituições envolvidas é
ainda maior, na medida em que foram listadas acima apenas as instituições líderes, não se
fazendo menção às associadas, tanto no campo civil, como no militar. 30

Núcleo de Análise Interdisciplinar de Políticas Públicas e Estratégia da Universidade de São Paulo –


(NAIPPE/USP)
Núcleo de Assuntos Estratégicos - NAE da Presidência da República
Núcleo de Estudos Estratégicos da Universidade Estadual de Campinas (NEE/Unicamp)
Núcleo de Estudos Estratégicos e Relações Internacionais da Universidade Federal do Acre ( NEERINT /
UFAC)
Núcleo de Estudos Estratégicos Pan-Amazônicos da Universidade do Estado do Amazonas.
Núcleo de Estudos Estratégicos da Universidade Federal de Pernambuco (NEE/UFPE)
Núcleo de Estudos Estratégicos da Universidade de Brasília (NEE/UnB)
Núcleo de Estudos Estratégicos da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
28
Para efeito simplificação. os Programas em tela passaram a ser conhecidos no seio da comunidade como
Pró-Defesa I e Pró-Defesa II.
29
No Edital Pró-Defesa I foram deferidas 12 propostas pela CAPES, mas somente cinco delas poderiam ser
consideradas como capituladas no campo dos Estudos Estratégicos. Foram elas: “Consórcio Forças
Armadas Século XXI” (CPDOC / Fundação Getúlio Vargas / RJ); “Paz, Defesa e Segurança Internacional”
(Universidade Estadual Paulista – UNESP - Franca); “Rede Brasil Defesa” (Universidade Federal
Fluminense – UFF); “Projeto de Fortalecimento e Ampliação do Programa de Pós-Graduação Stricto
Sensu” (Universidade da Força Aérea – UNIFA e Universidade de Brasília – UNB); e “Consórcio
Programa Rio de Janeiro de Estudos de Relações Internacionais”, (Universidade Federal do Rio de Janeiro
– UFRJ). No Pró-Defesa II, entre 16 propostas aprovadas, figuraram as seguintes no campo dos Estudos
Estratégicos: “Forças Armadas, Estado e Sociedade no Brasil: A Perspectiva das Ciências Sociais”
(UFRRJ); “Gestão Estratégica de Defesa” (EBAPE/FGV); “Sistema Brasileiro de Defesa e Segurança,
SISDEBRAS” (UFF); “O Brasil em Missões de Paz: Inserção Internacional, Equipes Integradas e Ação no
Haiti” (UNB); e “Mortalidade e Ocupação nas Forças Armadas Brasileiras” (UFPA).

30
As unidades associadas permeiam as seguintes instituições: Academia da Força Aérea (AFA), Centro de
Estudos de Pessoal do Exército (CEP), Escola de Comando e Estado-Maior da Aeronáutica (ECEMAR) da

11
O lançamento do Pró-Defesa I, em agosto de 2005, incentivou a comunidade de
estudiosos e pesquisadores na área a criar, em outubro daquele referido ano, entidade
capaz de agrupar, organizar e vocalizar seus objetivos e interesses comuns, fundando-se a
Associação Brasileira de Estudos de Defesa, a ABED. Posta a funcionar no ano seguinte,
a instituição realizou seu primeiro Encontro Nacional em 2007, que iria se repetir
31
anualmente a partir de então. Nesses quatro encontros aproximadamente 400 trabalhos
foram apresentados, enquanto algo como 15 % deles foi selecionado pela entidade para
publicação em livros por ela patrocinados. 32
Os dois Programas beneficiaram, em grande parte, os grupos na área das
Ciências Exatas, em detrimento dos situados na de Ciências Humanas. Há, assim, a
necessidade de se contar com incentivos próprios que atendam à necessidade expansão
dos Estudos Estratégicos, seja no sentido multidisciplinar, ou não.

O Quadro Atual da Comunidade de Estudiosos no País

Shiguenoli Miyamoto, assinalando a negligência com que os assuntos militares


foram tratados na maior parte das universidades brasileiras durante a vigência do regime
autoritário (o que para ele relacionava-se às limitações à pesquisa impostas no período
em tela, 1964 / 1985), chama a atenção para alguns trabalhos de boa qualidade sobre as
relações entre forças armadas e sociedade que foram produzidos pela academia
33
brasileira, tanto aqui quanto no exterior, já nos anos 70. Se nos anos 70 as

Universidade da Força Aérea (UNIFA), Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), Escola
de Guerra Naval (EGN), Escola Superior de Guerra ESG), Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
(PUC/SP), Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Universidade Federal de São Carlos
(UFSCar). Maiores informações está disponíveis no endereço: www.defesa.gov.br/pro_defesa.

31
O primeiro Encontro foi realizado, em 2007, na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar); o segundo
em 2008, na Universidade Federal Fluminense (UFF); o terceiro, em 2009, na Universidade Estadual de
Londrina (UEL); o quarto, em 2010, na Universidade de Brasília (UNB), guarda escopo internacional,
envolvendo acadêmicos sul-americanos de diversos países do continente.
32
As diretorias da ABED indicaram para organização dos livros, intitulados Defesa, Segurança
Internacional e Forças Armadas(I,II e III), os seguintes professores: primeiro livro (publicado em 2008):
Maria Celina D’Araújo, Samuel Alves Soares e Suzeley Kalil; segundo livro (2009): Eduardo Svartman,
Maria Celina D’Araújo e Samuel Alves Soares; terceiro livro (2010, no prelo): Eduardo Svartman, Maria
Celina D’Araújo, Tânia Godoy e Vágner Camilo Alves. Cada um deles deu conta do evento realizado no
ano anterior à publicação.
33
“Mas, sem qualquer sombra de dúvida, os assuntos militares têm sido, ainda, negligenciados na maior
parte das universidades brasileiras, o que está certamente ligado ao período militar que vigorou no país de
1964 até o seu desfecho em 1985. Contudo, mesmo com todas as dificuldades relativas a tal período, alguns
trabalhos de boa qualidade sobre a instituição e o governo militares foram produzidos pela academia

12
preocupações centraram-se, na maior parte, na análise do papel militar na política
34
brasileira, a partir do início da década seguinte, com os sinais de exaustão do regime
autoritário, foi entrando em pauta as questões relativas à transição do sistema político
35
rumo ao Estado de Direito. Tornava-se necessário, assim, a produção de
investigações voltadas para a identificação e proposição de novos padrões que passaram
a reger as relações entre os militares e a sociedade. Predominavam nesses tempos, os
trabalhos voltados “para dentro”, pouco espaço ou atenção ocupando as análises
voltadas “para fora”, de índole propriamente estratégica. 36
No decorrer da primeira década do atual milênio, dando conta da complexidade
do assunto, e como resultado da ampliação da comunidade de pesquisadores na área,
tem havido a produção dos dois tipos de literatura. Com o passar do tempo, tal como
acontece em países que fortaleceram a área, possivelmente assistir-se-á a uma espécie
de “divisão de trabalho”, certas unidades especializando-se nos estudos e pesquisas
“para dentro” e outras voltadas para os estudos e pesquisas voltados “para fora”. Não
obstante o esquematismo ou artificialismo que incide nessa repartição (já que ambas as
tendências dizem respeito ao mesmo universo de preocupações), a classificação
proposta permite, pelo menos em grandes linhas, mapear-se as principais tendências em
jogo.
A tentativa de se sistematizar a produção da área pode ter como referência o
conjunto de propostas de trabalho apresentadas pela comunidade nos Encontros
Nacionais patrocinados pela entidade que, reconhecidamente, a representa, a Associação
37
Brasileira de Estudos da Defesa, a ABED. Outro evento na área, os chamados

brasileira, tanto aqui quanto no exterior, já nos anos 70, como se pode ver pelos escritos, entre outros, de
Alexandre de Barros, Edmundo Campos Coelho, Eurico Lima Figueiredo, René Dreifuss e Eliézer Rizzo de
Oliveira. Mas, foi só a partir do encerramento do ciclo ditatorial, que começaram surgir no país, centros
de estudos mais direcionados para tratar esses assuntos, no interior da universidade”. Miyamoto, op. cit:
3/4.
34
Cf. Barros (1978); Carvalho (2005); Coelho (1976); Dreifuss (1981); Domingos Neto (1980); Figueiredo
(1979 e 1980); Carvalho (1974); Forjaz (1977); Moraes (1971 e 2001); Oliveira (1976). Entre os chamados
brazilianistas: McCaan (1973 e 1982); Rouquié (1980 e 1984), Schneider (1971); Stepan (1971).
35
Cf. Araújo (1993); Brigagão (1985); Mathias (1995); Oliveira (1987-A; 1987-B; 1987-C e 1994), Soares,
D’Araújo e Castro (1995); Zaverucha (1994 e 200). Produzida fora da academia, não pode deixar de se
fazer referência a Nelson Werneck Sodré (Sodré: 1984), autor de clássica obra, História Militar do Brasil
(2010). Entre os estrangeiros: Stepan (1986 e 1988).
36
Um oficial da reserva do Exército Brasileiro, Geraldo Cavagnari, passando a atuar no Núcleo de Estudos
Estratégicos (NEE) da UNICAMP, pode ser considerado um dos pioneiros das análises estratégicas na área
no âmbito acadêmico, tanto em termos de quantidade como de qualidade. O ex-Ministro da Marinha,
Almirante Mario Flores (1992), e seu colega, Almirante Armando Vidigal (1985), também chamaram a
atenção da comunidade para seus trabalhos. No âmbito civil, na década de 90, foram pioneiras as
contribuições de Proença Jr. e Diniz (1998) e Proença Jr., Diniz e Raza (1999).
37

13
“Encontros Nacionais de Estudos Estratégicos” que, em 2009, teve a sua nona edição,
poderia ter sido objeto de pesquisa. Optou-se, entretanto, por deixá-la de lado porque,
por um lado, tais eventos jamais motivaram a criação de uma Associação que
organizasse a comunidade; por outro, a realização dos eventos tem sido intermitente (o
primeiro foi realizado em 1994, o quinto somente em 2005) e as temáticas apresentadas
muitas vezes escapam a uma definição mais rigorosa do que se entende por Estudos
Estratégicos. 38
Considerando-se o conjunto de cerca de 400 propostas levadas às comissões
organizadoras dos eventos sob a égide da ABED nos últimos três anos (2007/2009),
identificam-se sete blocos de interesses principais. São eles, por ordem de incidência:
1) - Relações entre Forças Armadas, Economia, Sociedade e Estado. (25,5% das
propostas).
2) - Defesa Nacional e Segurança Internacional em Perspectiva Comparada. (24%
das propostas).
3) - Percepções Regionais sobre Defesa e Segurança (15,5%).
4) - Estudos de caráter teórico a respeito dos Assuntos Militares e Estratégia
Militar. (14% das propostas).
5) - Pesquisas e estudos sobre os Militares, o Ensino, a Ciência e a Tecnologia.
(13% das propostas).
6) - Gênero e Forças Armadas. (5% das propostas).
39
7) - Outros / diversos (3% das propostas).
A taxionomia proposta é bastante inclusiva e camufla uma série de
subtemas. Não permite entrever a variedade dos assuntos tratados, nem ilumina
por completo a diversidade dos interesses. Como toda e qualquer quantificação,
não enseja a análise de qualidade, que exige postura crítica. Propicia, entretanto,
pelo menos preliminarmente, que sejam identificados os assuntos que têm
recebido maior atenção da comunidade na área.
O maior interesse pela temática das relações entre Forças Armadas,
Economia, Sociedade e Estado talvez resulte, como já se frisou, da corrente de
pesquisas que se estabeleceu entre nós desde meados da década de 70 até meados

38
Cf. nota três deste artigo, retro.
39
As propostas estão disponíveis no site da ABED (www.abed-defesa.org). Percentagens arredondadas.
Análise mais completa em Figueiredo, 2010 (no prelo).

14
da década seguinte no século passado. Tal atenção provavelmente refletiu as
preocupações relativas às relações entre forças armadas e sociedade que passaram
a vigorar no Brasil a partir de 1964, totalmente inéditas na história republicana do
país. No contexto do processo de abertura que se inicia no Governo Geisel e vai
até o final do governo Figueiredo (1974/1985), outros aspectos da relação
continuaram a predominar entre os pesquisadores. Como não poderia deixar de
ser, tal estilo de análise legou forte influência que se transmitiu às gerações
posteriores. Dentro dessa linha, encontram-se pesquisadores que, inclusive
propõem que o objeto dos estudos sobre defesa tenha como foco central as
instituições militares. Não obstante a relevância de tal objeto, ela não parece se
mostrar capaz de dar conta da complexidade dos fenômenos relativos à defesa e à
segurança internacional.
As análises a respeito da Defesa Nacional e Segurança Internacional em
Perspectiva Comparada encontram-se, ainda, bastante centradas nas questões
relativas às corporações castrenses. Há predominância, por exemplo, na
comparação entre as diversas forças armadas de diferentes países no que diz
respeito à defesa e à segurança, tendo como base suas histórias e suas
características organizacionais, antes de uma análise propriamente estratégica.
Somente em segundo plano, observa-se a presença de exames focados na Defesa
Nacional e Segurança Internacional no contexto do sistema internacional e
estratégico. Quando, entretanto, abre-se o leque da observação, há claros indícios
de que a comunidade está aberta à perspectiva internacionalista e histórica,
tendência relativamente recente. Os trabalhos pioneiros começaram a despontar no
decorrer da última década do século XX, ganhando fôlego na primeira década do
novo milênio. A presença deles sugere que os pesquisadores brasileiros têm
procurado, por um lado, aproximar-se de um tipo de abordagem que ocupa lugar
significativo na literatura mundial, e, por outro, preocupar-se com as
singularidades do caso brasileiro.
As investigações agrupadas sob a rubrica Percepções Regionais sobre
Defesa e Segurança têm dobrado a cada ano, de 2007 a 2009. O foco de análise
centraliza-se predominantemente nos países do cone sul (Argentina, Bolívia,
Chile, Paraguai Uruguai), sendo a Argentina, seguida da Bolívia, os casos que
mais despertaram atenção. Há mais interesse sobre o Chile do que sobre o

15
Uruguai, e mais sobre esse último do que sobre o Paraguai. Para os países situados
fora do cone sul, as atenções maiores vão para a Colômbia e Venezuela, vindo a
seguir Peru e Equador. Há poucas pesquisas sobre o Suriname e as Guianas.
Verifica-se interesse forte sobre o caso das Malvinas. Na América chamada
insular, a preponderância está no Haiti, Cuba e República Dominicana, por razões
distintas e excludentes entre si. Segmento expressivo mostra preocupações com o
narcotráfico, contrabando de armas, manutenção de fronteiras, preservação
político-militar da Amazônia, interesses brasileiros na região e possíveis
implicações estratégicas na região.
Os trabalhos relativos aos Assuntos e às Estratégias Militares - em termos
gerais (Estratégia Militar, Grandes Transformações), ou em termos particulares
(relativos a cada força singular ou à conjunção / combinação / integração entre
elas) - têm sido desenvolvidos, em grande parte, pelos pesquisadores de origem
militar. No entanto, muito deles, devido ao treinamento acadêmico que vêm
recebendo ultimamente em diversos programas civis de pós-graduação, mostram-
se capazes de focar seus objetos a partir da perspectiva política e estratégica de
base sociológica e histórica. Haverá a necessidade, entretanto, de se distinguir
sempre os Estudos Estratégicos propriamente ditos das Estratégias Militares. Os
primeiros, na sua acepção científica, dizem respeito às reflexões e pesquisas
voltadas para a análise da dimensão militar na condução do Estado, seja no plano
interno, seja no plano externo. As últimas relacionam-se à formulação, ao
planejamento e a execução da ação militar nos conflitos bélicos, tendo-se em vista
a variabilidade das hipóteses de emprego da força. No caso desse campo de
pesquisa, a participação da comunidade acadêmica civil, em cooperação com a
militar, é necessária, porquanto os assuntos tratados dizem respeito à sociedade
como um todo. Pesquisadores civis e militares bem formados podem e devem
oferecer sua contribuição. Quando se fala em Estratégias Militares, entretanto, há
de se ter a compreensão que elas dependem de formação própria, de longo e
especializado treinamento, fornecido ao longo da vida do oficial profissional.
Nesse caso, com raras exceções, a condução deve ficar tão somente nas mãos dos
militares. Estratégias Militares, contudo ainda, só ganham sentido maior quando
enquadradas no plano da política do Estado, que, nas sociedades democráticas, é
controlada pelo poder civil, como, de resto, acontece em relação a todas as demais
instituições do Estado.

16
Os exames relativos aos militares, o ensino, a ciência e a tecnologia
abrangem amplo leque de objetos de pesquisa e revelam preocupação não só com
a recuperação das bases históricas da educação militar brasileira - tão importante
no processo da conformação moderna e modernizadora do país - mas também
centram foco na importância das questões presentes e de seus desdobramentos
futuros. No que diz respeito aos assuntos mais colados ao momento atual,
destacam-se as análises dos currículos das escolas militares, em seus vários níveis,
visando argüir a lógica da qualidade profissional pretendida em face dos valores
democráticos e republicanos. Observe-se também a incidência de interpelações
relativas às questões da ciência e da tecnologia a partir do ponto de vista político -
estratégico. O surgimento de uma recente área de interesse em torno das questões
políticas presentes nos estudos e pesquisas relativos ao chamado “cerceamento
tecnológico”, assinala um estilo investigação interdisciplinar que ganha relevância
não só porque diz respeito à capacitação do país no campo da indústria de defesa,
como também porque nesse tipo de estudos e pesquisas fica evidente a
preocupação com a significação política da produção tecno-científica como valor
estratégico.40 No caso do Brasil é importante a distinção entre a investigação voltada
para a análise político-estrategica da produção tecno-científica e a produção tecno-
científica per se. Há, assim, de ficar clara a distinção entre os “estudos da defesa”,
capitulados mo âmbito estratégico, e os relativos à produção de tecnologia militar
voltada para a indústria bélica. Não havendo nítida diferenciação entre os dois, corre-
se o risco de as agências de fomento canalizar seus recursos para a área das Ciências
Exatas e não para o desenvolvimento do pensamento estratégico brasileiro
propriamente dito.

A temática menos visitada - Gênero e Forças Armadas - indica que a


comunidade não está na justa mão da literatura mundial. A participação feminina na
organização militar vem recebendo, em termos internacionais, espaço crescente na
literatura relativa às forças singulares no quartel final do século XX e no alvor ecer
do novo milênio. Em médio prazo a incorporação da percepção feminina na cultura
das casernas - no Brasil e no mundo onde a questão está em jogo - terá efeitos de

40
A Estratégia Nacional de Defesa propõe o estimulo ao desenvolvimento da base industrial de defesa no
Brasil. Como com seqüência, deverá surgir, no horizonte próximo, maior interesse sobre o assunto que,
aliás, divide posições, favoráveis e contrárias a tal política. Como exemplo recente desta última tendência
ver Dagnino (2010) e da primeira Longo (2009).

17
grande alcance. Incidirá sobre o próprio “ser, perceber e agir” da corporação , como,
aliás, aconteceu em todas as esferas da sociedade, mormente a ocidental, durante
todo o século XX. A influência, entretanto, ganha outra qualidade (sociológica,
antropológica, política) quando as mulheres passam a integrar, profissionalmente, a
estrutura da corporação, com possibilidades de atingir o generalato. Embora, por
enquanto, a temática ocupe incidência menor na bibliografia disponível, o interesse,
pela sua importância, tenderá a aumentar cada vez mais entre nós no decorrer dos
próximos anos, acompanhando tendência da literatura em geral na área.

A rubrica “outros / diversos” refere-se a temáticas tais como às questões


relativas ao direito humanitário, à Antropologia dos Militares, à Geopolítica, à
esquerda militar, ao terrorismo, às relações entre as políticas de defesa e a política
externa, o orçamento militar, entre outros tantos assuntos que integram a
41
complexidade do campo dos Estudos Estratégicos.

As quatro primeiras temáticas, em conjunto, respondem por quase 80%


dos interesses de nossos investigadores, mostrando mescla entre preocupações que
vêm de longe (questões relativas às organizações castrenses em seus aspectos
históricos, sociais, culturais, econômicos e políticos), com outras mais recentes de
caráter propriamente estratégico, na acepção que aqui se confere. O interesse
crescente em relação a esses últimos sinaliza que a comunidade procura novos e
próprios caminhos, ao mesmo tempo em que se sintoniza com assuntos cada vez
mais necessários à atualização do debate estratégico no país. Mais ainda: atenção
redobrada permite perceber que se desenvolvem estilos de investigação que
recusam a mera importação de esquemas interpretativos. Há preocupação com a
originalidade teórica e conceitual para o exame das questões nacionais.
A classificação aqui proposta é ainda bastante preliminar e geral, talvez até
imprecisa, mas permite dar conta da amplitude, da variedade e da extensão, em
síntese, da complexidade dos Estudos Estratégicos. Como já observado, as
denominações utilizadas embutem assuntos que, de outra maneira, poderiam ganhar
titularidade própria. Na categoria referente aos “Assuntos e Estratégias Militares",
por exemplo, incluem-se as chamadas “guerras de quarta geração", envolvendo ações

41
A literatura produzida pela comunidade já é significativa extensa em todos os “blocos”. Mas não é
possível, por questão de economia de espaço, cita-la por extensivamente. O leitor encontrará nos livros
editados pela ABED úteis referências bibliográficas sobre as diferentes temáticas aqui alinhadas.

18
em terra, no mar, no ar, no espaço exterior, no espectro electromagnético e no
ciberespaço, onde o "inimigo" pode não ser um Estado organizado, mas um grupo
terrorista, ou uma outra qualquer organização criminosa.

Perspectivas Futuras

Por onde caminhará a comunidade de pesquisadores na área dos Estudos


Estratégicos nos próximos anos? À luz do que foi proposto, deverão ser quatro as
principais tendências.
A primeira, dando continuidade a uma tradição que já vem de longe, desde os
anos 70 do século passado, será a permanência dos estudos e pesquisas voltados “para
dentro”. Continuarão em voga, em geral, as investigações de base sociológica e
histórica a respeito das relações entre forças armadas e sociedade e, em particular as
relativas às organizações militares e suas principais instituições.
A segunda, mais recente, nascente a partir dos anos 90 do século passado, e
ganhando cada vez mais fôlego no decorrer da primeira década do presente milênio,
mostrará o interesse cada vez maior nas investigações voltadas “para fora”.
Experimentarão incremento os exames do caso brasileiro no contexto das relações
estratégicas globais, dando conta do crescente protagonismo brasileiro na cena
internacional.
A terceira levará à divisão de trabalho, cada vez maior, entre as duas tendências
indicadas. Haverá inclinação para a formação de centros especializados em temáticas
diversas. Uns dedicar-se-ão aos Estudos Estratégicos em sua acepção mais genérica.
Outros concentrarão seus esforços nas relações entre forças armadas e sociedade. Com o
passar do tempo, assuntos ainda pouco desenvolvidos entre nós, como por exemplo, as
questões relativas à Segurança Internacional, deverão ganhar foros próprios. Na
próxima década deverão surgir tantos centros de estudos e pesquisas quanto necessários
para cobrir a complexidade da área, acompanhando as tendências experimentadas pelas
sociedades mais desenvolvidas. Mesmo assim, ficar-se-á bastante distante do que já
42
alcançaram tais sociedades. Há de se observar que a divisão de trabalho, tal como
aqui se propõe, é, mais uma vez, meramente esquemática. Na prática poderão não só

42
No caso dos estados Unidos, basta rápida visita ao diretório de pesquisa da International Security
Policy & Military Affairs: Information Sources da Universidade de Columbia, no endereço
www.columbia.edu/cu, para se ter idéia da complexa abrangência da área.

19
ocorrer vários tipos de arranjos institucionais em termos de estilos de trabalho e
aparatos teóricos e metodológicos. Também em termos pessoais cada investigador
poderá, no âmbito da área, dedicar-se, no decorrer da sua trajetória profissional, com
várias temáticas ao longo do tempo.
Em último, mas não por menor importância, ter-se-á, com o incremento da área,
a necessidade de se montar redes de pesquisas, nacionais e internacionais, capazes de
dar conta da necessidade de se estabelecer conectividade constante entre interesses
diversos e índoles teóricas e metodológicas diferenciadas. Aumentará o diálogo virtual
que não prescindirá, entretanto, dos encontros presenciais, que deverão igualmente
crescer. Alargar-se-á o espaço de cooperação civil-militar, porquanto é esta a tendência
observada nas sociedades que atingiram maior grau de estabilização institucional.
Não se desenvolve a Ciência entre nós, como de resto em todo sistema
democraticamente constituído, sem a organização e participação da comunidade
interessada em políticas de Estado que possam ir de encontro aos seus objetivos e
interesses. No caso dos Estudos Estratégicos não deverá ser diferente.

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