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O fato organizacional como fato social total*

Maurício Serva**

S U M Á R I O : 1. Introdução; 2. Fato social em Durkheim; 3. Fato organizacio-


nal como fato social; 4. Fato social total em Mauss; 5. Sociedade de orga-
nizações e sociedade salarial; 6. Fato organizacional como fato social total;
7. Conclusões.

P A L A V R A S - C H A V E : fato organizacional; fato social total; teoria das organi-


zações.

Atualmente parece ser consenso que nunca vivemos numa sociedade em


que o indivíduo depende tanto da ação de organizações formais para a satis-
fação de suas necessidades. Assim, analisar as organizações passa a ser uma
tarefa desafiadora, necessitando a teoria das organizações do apoio das
demais ciências humanas, tal como a antropologia e a sociologia. Baseado
nos estudos de Marcel Mauss, Émile Durkheim e Guerreiro Ramos, propo-
nho o tratamento do fato organizacional como fato social total, visando
aperfeiçoar os estudos e ampliar os horizontes da teoria das organizações.

The organizational fact as a total social fact


There seems to be a consensus that never have we lived in a society in which
the individual depended so much in the action of formal organizations for
the satisfaction of its needs. Thus, the analysis of organizations becomes a
challenging task, and organizational theory needs the support of the other
human sciences, such as anthropology and sociology. Based on the studies
by Marcel Mauss, Émile Durkheim and Guerreiro Ramos, this paper pro-
poses to analyze the organizational fact as a total social fact, seeking to
improve the organizational theory.

* Artigo recebido em jun. 2000 e aceito em mar. 2001.


** Doutor em administração pela EAESP/FGV e professor titular da Unifacs. O autor agradece
ao professor Pedro Jaime Júnior pelas críticas e sugestões à primeira versão deste texto. Entre-
tanto, a responsabilidade pela versão final é unicamente do autor.

RA P R i o d e Ja ne ir o 3 5( 3 ) : 1 31 - 5 2 , Ma io / J un . 20 0 1
1. Introdução

Desde os anos 1950, as organizações, seus fenômenos intrínsecos e suas inter-


faces com a sociedade vêm sendo objeto de estudo da sociologia. Baseados na
obra de Max Weber, autores como Talcott Parsons, Amitai Etzioni, Philip Selz-
nick, Peter Blau e Robert Merton desenvolveram vários estudos que vieram a
constituir o campo da sociologia da burocracia, mais tarde ampliado e rebatiza-
do como sociologia das organizações. A partir de então, ficou implícito que todos
os autores filiados a tais campos de estudos consideravam o fato organizacio-
nal como um fato social, pois digno de ser objeto da sociologia.
Todavia, a necessária explicitação do fato organizacional como fato so-
cial, apontando devidamente as conseqüências epistemológicas deste ponto
de vista analítico, não foi fornecida por nenhum dos autores mencionados, e
sim pelo sociólogo brasileiro Alberto Guerreiro Ramos. Em sua abordagem do
“fato administrativo” — como ele mesmo o denominava —, Guerreiro Ramos
retorna à tradição durkheimiana, sintetiza os elementos que compõem o refe-
rido fato e apenas sinaliza rapidamente que o considera também um “fenô-
meno social total”, na acepção de Marcel Mauss. Ao fazê-lo, Guerreiro Ramos
elege a categoria da totalidade como fundamental para a análise científica de
qualquer fenômeno; em seguida, o autor envereda pelo tratamento da totali-
dade inerente ao fato administrativo pautando-se na teoria de sistemas.
Neste estudo, pretendemos demonstrar que o fato organizacional —
como preferimos denominar o que Guerreiro Ramos chamava de fato adminis-
trativo — pode ser tratado como um fato social total. Primeiramente, nos re-
portamos a Durkheim e sua definição clássica de fato social, para situar o fato
organizacional no âmbito dos fatos sociais, como o fez Guerreiro Ramos. Em
seguida, visitamos o trabalho de Mauss, sintetizando a gênese do seu conceito
de fato social total para acoplá-lo aos conceitos de sociedade de organizações e
de sociedade salarial, ambos difundidos pela sociologia. Assim, afastamo-nos re-
lativamente da abordagem de Guerreiro Ramos, pois, embora tratemos o fato
organizacional como fato social total, não o fazemos a partir da teoria de siste-
mas, e sim da antropologia de Mauss. Ao final, apontamos algumas implicações
que uma abordagem dessa natureza pode ter para a atual teoria das organizações.

2. Fato social em Durkheim

Na introdução do seu famoso estudo As regras do método sociológico, publica-


do em 1895, Durkheim lamenta que grandes teóricos que o antecederam, tais
como Spencer e Mill, tivessem elaborado estudos genéricos sobre a natureza
das sociedades sem demonstrar qualquer preocupação com o método que
aplicavam à análise dos fatos sociais. Fazia, então, apenas dois anos da divul-
gação de Da divisão do trabalho social, trabalho que notabilizou Durkheim nos

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meios científicos e que já manifestava implicitamente o cuidado do autor com
as questões metodológicas. Não satisfeito, Durkheim julga por bem demons-
trar os princípios metodológicos da observação e análise sociológicas numa
obra à parte, destinada a submetê-los à discussão. Imbuído desta intenção, o
autor escreve As regras, uma demonstração detalhada e rigorosa de como deve-
ria o sociólogo proceder na construção definitiva da sociologia como ciência.
A forte preocupação de Durkheim é perfeitamente compreensível: àque-
la época, a sociologia ainda não ocupava um espaço plenamente reconhecido
no conjunto das ciências. Com a publicação de As regras, Durkheim fornece a
primeira grande sistematização da sociologia, estabelece os contornos desta
disciplina científica e faz escola, dando prosseguimento à aplicação rigorosa
desta metodologia em vários estudos posteriores, como é o caso de O suicí-
dio, publicado em 1897.
Logo no título do primeiro capítulo de As regras, Durkheim lança a se-
guinte questão: o que é um fato social? Argumenta o autor que, antes de dis-
cutir qual é o método adequado ao estudo dos fatos sociais, se deve conhecer
os fatos assim designados. Daí, elabora a seguinte definição: “é um fato social
toda a maneira de fazer, fixada ou não, suscetível de exercer sobre o indiví-
duo uma coação exterior; ou ainda, que é geral no conjunto de uma dada so-
ciedade tendo, ao mesmo tempo, uma existência própria, independente das
suas manifestações individuais” (Durkheim, 1978:92-3).
Para Durkheim, as características distintivas do fato social são a sua ex-
terioridade em relação às consciências individuais e a ação coerciva que ele
exerce sobre o indivíduo. Assim, exterioridade e coerção compõem a essência
do fato social. A primeira característica indica que os fatos sociais são fenô-
menos coletivos e, como tais, brotam da vida em comum; levando esta carac-
terística às últimas conseqüências, Durkheim isola totalmente a emergência
do fato social do nível do indivíduo e chega a afirmar que a primeira e a mais
fundamental regra para a observação desses fatos é considerá-los como coi-
sas. Uma tal reificação do fenômeno social sofreu críticas severas ao longo do
desenvolvimento das ciências sociais, enquanto a indicação da segunda carac-
terística — a coerção — tem sido aceita sem maiores restrições. De todo modo,
a contribuição de Durkheim representou o marco definitivo do estabelecimen-
to da sociologia como uma ciência autônoma.
Após esta sumária apresentação da definição elaborada por Durkheim,
tomamos por base o estudo de Guerreiro Ramos para caracterizar o fato orga-
nizacional como fato social.

3. Fato organizacional como fato social

Apesar do notável desenvolvimento da sociologia das organizações observa-


do nos EUA em meados do século passado, deve-se ao sociólogo brasileiro

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Guerreiro Ramos o detalhamento do fato organizacional como fato social.
Partindo do pressuposto de que uma disciplina científica existe desde que se
evidencie que lhe corresponde um objeto próprio, um fato específico, Guer-
reiro Ramos brinda a tradição durkheimiana ao defender como primeiro passo
para a construção de uma sociologia especial da administração a definição do
fato administrativo. Mesmo advertindo que não pretendia chegar a uma defini-
ção final do objeto, o autor apresenta seu conceito: “é um complexo de elemen-
tos e de suas relações entre si, resultante e condicionante da ação de diferentes
pessoas, escalonadas em diferentes níveis de decisão, no desempenho de fun-
ções que limitam e orientam atividades humanas associadas, tendo em vista ob-
jetivos sistematicamente estabelecidos” (Ramos, 1983:7).
Guerreiro Ramos afasta-se declaradamente de Durkheim no que tange
à consideração da primeira característica proposta para o fato social: a exterio-
ridade absoluta em face das consciências individuais. Afirma o sociólogo
baiano que a concepção do fato social como tendo uma existência própria, in-
dependente de suas manifestações individuais, é insustentável, sob pena de
se incorrer num positivismo fisicalista, o qual, inclusive, levou Durkheim a
considerar os fatos sociais como coisas. Argumenta Guerreiro Ramos que a
Durkheim teria escapado “a visão dialética das relações entre o indivíduo e a
sociedade, dois aspectos inseparáveis de uma mesma totalidade, ou de um
mesmo processo de totalização” (Ramos, 1983:24). Ainda assim, Guerreiro
Ramos destaca que daquela concepção resta um resíduo válido: a explicação
do fato social não pode ser obtida mediante simples introspecção ou por re-
dução à psicologia dos indivíduos, ela só pode ser elaborada à luz de critérios
imanentes ao próprio fato social, o que equivale dizer que tais fatos necessi-
tam de uma ciência específica para sua análise. Afirma o autor que “do ponto
de vista teórico e metodológico, são distintos os fenômenos sociais dos fenô-
menos psíquicos, aos quais correspondem distintas disciplinas, com regras,
critérios e conceitos próprios” (Ramos, 1983:25).
Quanto à segunda característica, a coerção, o autor aceita-a, ressaltan-
do que ela é sobretudo uma nota da especificidade desse fato e que sua acei-
tação não implica reificá-lo. Guerreiro Ramos é taxativo ao declarar que “os
fatos sociais são coercitivos. Embora nele estejam imanentes as consciências
individuais, impõem-se a estas, como sociais que são. Se não admitirmos essa
imposição, desaparece a socialidade desses fatos. (…) Ora, os fatos adminis-
trativos satisfazem o requisito que Durkheim sintetiza com o termo coerção.
Eles se incluem entre os mais impositivos dos fatos sociais. Ninguém logra
furtar-se ao alcance de sua força coercitiva” (Ramos, 1983: 25).
Em face das concepções de Guerreiro Ramos, gostaríamos de tecer algu-
mas considerações. Em primeiro lugar, focalizamos a definição do fato adminis-
trativo, visando transmutá-la em definição do fato organizacional. Decorridos
34 anos da publicação da primeira edição do texto elaborado por Guerreiro Ra-
mos, estamos num ponto em que a evolução da teoria das organizações e tam-

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bém do cenário organizacional autorizam algumas reparações e/ou atualiza-
ções da definição proposta por aquele autor. Percebemos em sua definição uma
preocupação exagerada com o aspecto operacional da administração, posição
que talvez explique a inserção de traços nítidos do paradigma funcionalista em
seu conceito de fato administrativo. Estudos mais recentes no âmbito da teoria
das organizações permitem a identificação desses traços (Chanlat & Séguin,
1992; Burrel & Morgan, 1979; Serva, 1991), entre os quais dois estão presen-
tes na referida definição: a concepção sistêmica e sincrônica e a concepção te-
leológica.
Ao apontar o escalonamento das pessoas “em diferentes níveis de deci-
são”, Guerreiro Ramos replica a concepção funcionalista da organização
como um conjunto cujas partes são inter-relacionadas através da coordena-
ção obtida por uma estrutura de autoridade hierárquica. Isto conduz à legiti-
mação da hierarquia na ação administrativa no interior das organizações,
aceitando-a a priori como um dado. Esta é, resumidamente, a essência do
conteúdo da concepção sistêmica e sincrônica.
A concepção teleológica é decorrente da anterior: a coordenação de ativi-
dades, realizada por meio da estrutura hierárquica, é orientada para o alcance
de certos objetivos. As organizações são, então, coletividades estabelecidas para
perseguir objetivos específicos, sobre uma base mais ou menos contínua. Aí se
insere parte da definição de Guerreiro Ramos, ao indicar que o desempenho de
funções tem em vista “objetivos sistematicamente estabelecidos”.
Não queremos dizer com isso que Guerreiro Ramos foi um autor que
pautou sua obra nos estreitos ditames do paradigma funcionalista, do qual,
inclusive, foi um dos maiores críticos.1 O que queremos é chamar a atenção
para esses traços funcionalistas na sua definição do fato administrativo, visan-
do erradicá-los de uma provável definição do fato organizacional. Mais de
três décadas se passaram desde a publicação da definição proposta pelo céle-
bre autor; durante tal período, a evolução da teoria das organizações, com a
contribuição do próprio Guerreiro Ramos, ampliou seus horizontes e seus li-
mites para muito além das fronteiras impostas pelo paradigma funcionalista.
Hoje, a organização pode ser concebida de forma muito mais complexa e va-
riada do que aquela que contém as visões sistêmico-sincrônica e a visão teleo-
lógica. O que equivale a dizer que também foi ampliada a diversidade do que
chamamos ação administrativa, pois organizações diferenciadas (substantivas,
alternativas, não-governamentais, fenonomias etc.) ganharam um espaço signi-
ficativo no cenário social contemporâneo em relação às organizações burocráti-
cas tradicionais.

1 Ver as ácidas críticas ao paradigma funcionalista expressas em Ramos (1981).

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Assim, a partir da definição do fato administrativo elaborada por Guer-
reiro Ramos, propomos a seguinte definição para o fato organizacional: um
complexo de elementos e de suas relações entre si, resultante e condicionante da
ação de diferentes pessoas no desempenho de funções que limitam e orientam
atividades ligadas à vida humana associada. A intencionalidade em considerar
o fato em questão como organizacional reside na imagem mais fluida e, por-
tanto menos mecânica e operacional que aquela porventura sugerida pelo ter-
mo administrativo. Partindo do pressuposto de que um conceito sociológico
de organização já contém implícita e dinamicamente em si as variáveis ine-
rentes à ação administrativa (tomada de decisões, comunicação, negociação
etc.), tentamos ampliar o imaginário que se pode utilizar como substrato para
a análise do fato organizacional contemporâneo.
A definição aqui proposta é tributária daquela elaborada por Guerreiro
Ramos para o fato administrativo. Ela mantém a discordância do autor brasi-
leiro em relação à primeira característica do fato social (exterioridade) na
acepção de Durkheim. Como complexo de elementos e de suas relações entre
si, resultante e condicionante das ações de pessoas, o fato organizacional as-
sim definido revela uma concepção dialética da realidade humana, expressa
como o queria Guerreiro Ramos (1983:25): “uma totalidade aberta, ou totali-
zação, isto é, como conjunto de elementos e interações, conjunto no qual um
aspecto interno e outro externo são teoricamente distintos mas, de fato, se in-
fluenciam reciprocamente”.
Além de concordarmos com Guerreiro Ramos no que tange à validade de
um “resíduo” da primeira característica — a explicação do fato organizacional
através dos critérios científicos específicos para os fatos sociais —, chamamos a
atenção para um outro “resíduo”: o fato organizacional é, por natureza, um
produto coletivo, tanto quanto o fato social brota da vida em comum, como
bem sinalizou Durkheim. Para este autor, o substrato do fato social é “a socie-
dade política na sua íntegra ou um dos grupos parciais que engloba: ordens re-
ligiosas, escolas políticas, literárias, corporações profissionais etc.” (Durkheim,
1978:88). Ora, as organizações contemporâneas se encaixam perfeitamente na
condição de grupos parciais englobados pela sociedade política geral.
Quanto à segunda característica, não podemos deixar de admitir o cará-
ter coercitivo do fato organizacional. Todos os indivíduos que já vivenciaram si-
tuações prolongadas em organizações produtivas, principalmente naquelas
mais burocratizadas, sabem que a coerção — mesmo que indireta — é uma dos
atributos essenciais do cotidiano destes ambientes sociais. Portanto, ratifica-
mos a posição de Guerreiro Ramos quando afirma que os fatos ligados à ação
administrativa estão entre os mais impositivos dos fatos sociais. A imposição, a
coerção, é a condição sine qua non da socialidade do fato. Ressaltamos que a
coerção exercida pelo fato organizacional varia muito em intensidade em face
da racionalidade predominante na organização: numa organização substantiva
a intensidade da coerção tende a ser inegavelmente menor do que numa orga-
nização onde predomina a razão instrumental, pois naquela a maior parte das
interações é marcada pelas ações comunicativas, o que implica a negociação

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permanente através do debate racional, sem a imposição inquestionada de au-
toridade.2
Durkheim (1978:91) já chamava a atenção para a singularidade da co-
erção nas organizações econômicas: “com efeito, a coação é fácil de constatar
quando se traduz exteriormente por uma reação direta da sociedade, como é
o caso do direito, da moral, das crenças, usos e até das modas. Mas, quando é
apenas indireta, como a que exerce uma organização econômica, a coação
nem sempre é evidente”. É por esta razão que a definição aqui proposta para
o fato organizacional mantém a elaboração inicial de Guerreiro Ramos no to-
cante à coerção exercida por esse fato, pois apresenta-o também como condi-
cionante da ação de diferentes pessoas no desempenho de funções que limitam
e orientam atividades humanas.
Embora referendando-nos no pensamento de Guerreiro Ramos, dele
nos afastamos em certos aspectos. Como demonstramos, a discordância em
embutir elementos típicos do paradigma funcionalista na definição do fato
administrativo nos conduziu a refazê-la, rebatizando-o como fato organiza-
cional e modificando alguns elementos do seu conteúdo. Um outro aspecto
importante que nos afasta da formulação de Guerreiro Ramos é a forma pela
qual o autor decide abordar a categoria da totalidade inerente ao objeto em
questão. Após demonstrar que o fato administrativo atende aos requisitos que
permitem considerá-lo como um fato social, o autor opta pelo arcabouço da
teoria de sistemas para analisar a totalidade subjacente a esse fato. Aqui resi-
de, então, um outro fator que nos separa: aqui não optamos pela teoria dos sis-
temas, damos preferência ao que emerge do estudo de Marcel Mauss sobre a
dádiva e a troca nas sociedades arcaicas, em particular ao seu notável conceito
de fato social total.
Em seguida, apresentaremos brevemente o estudo de Marcel Mauss
que deu origem ao citado conceito, o qual se revela muito útil à discussão em-
preendida neste artigo.

4. Fato social total em Mauss

Entre os estudos mais significativos elaborados por Marcel Mauss, destaca-se o


Ensaio sobre a dádiva — forma e razão da troca nas sociedades arcaicas. Publica-
do pela primeira vez em 1923 no renomado periódico Année Sociologique, este
trabalho de Mauss é considerado ainda hoje um dos mais importantes textos da
ciência da antropologia. Ele é fruto de vários anos de pesquisa empreendida
por Mauss na tentativa de explicar o regime de direito contratual e o sistema de
prestações econômicas entre diversas seções ou subgrupos de que se compõem
as sociedades ditas primitivas e/ou arcaicas.

2 Estudos detalhados sobre racionalidade nas organizações, incluindo o conceito de organiza-


ções substantivas, podem ser encontrados em Serva (1997) e Ramos (1981). O estudo da ação
comunicativa é parte da obra de Jürgen Habermas (1987).

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Ao notar que no seio de povos tão diferentes e distantes entre si, tais
como escandinavos, melanésios, polinésios, tribos indígenas do Oeste do Cana-
dá, tribos do Noroeste americano, do Alaska, da América do Sul e povos africa-
nos, a prática de dar e receber presentes entre clãs, tribos e demais grupos
sociais era sistematicamente observada, Mauss dedicou-se a estudá-la com du-
plo objetivo. O primeiro diz respeito à compreensão da natureza dessas transa-
ções humanas em sociedades diferentes da nossa, chegando a conclusões mo-
rais e econômicas. O segundo objetivo é voltar-se para nossa própria socieda-
de, constatando que essa moral e essa economia ainda funcionam nas socieda-
des modernas de maneira constante, ensejando a inferência de conclusões
morais sobre alguns problemas colocados pela crise do nosso direito e da nossa
economia. Um estudo, portanto, de natureza reflexiva, uma vez que a análise
do outro pode nos ajudar a pensar sobre nós mesmos.
Empregando o método comparativo e elegendo como problema básico
de pesquisa a tentativa de identificar o que leva o recebedor a retribuir a dá-
diva, Mauss percebe que, muito mais que a simples operação econômica de
troca de bens materiais, aquelas práticas envolviam dimensões fundamentais
da vida social dos partícipes, como o estabelecimento de alianças políticas, a
demarcação de espaços de poder, a comunicação de interesses, a sucessão de
bens e os vínculos de direito. Assim, o autor afirma que “nesses fenômenos
‘totais’, como nos propomos chamá-los, exprimem-se, ao mesmo tempo e de
uma só vez, toda a espécie de instituições: religiosas, jurídicas, morais (estas
políticas e familiais ao mesmo tempo), econômicas (supondo formas particu-
lares de produção e de consumo, ou antes, de prestação e de distribuição),
sem contar os fenômenos estéticos nos quais desembocam tais fatos e os fenô-
menos morfológicos que manifestam essas instituições” (Mauss, 1974:41).
Resumindo arbitrariamente algumas das conclusões do estudo de Mauss,
seguimos a classificação proposta pelo próprio autor no quadro que ilustra este
artigo.
Com relação ao princípio da coerção exercida pelo fato social sobre o indi-
víduo, Mauss demonstrou que se aparentemente os atos de dar, receber e retri-
buir eram voluntários, em profundidade eles eram obrigatórios e sanções sociais
afetavam aqueles que não observavam tal obrigatoriedade. Analisando, por
exemplo, as práticas de troca de várias tribos norte-americanas — o potlatch —, o
autor demonstra que: “a obrigação de dar é a essência do potlatch. Um chefe
deve dar potlatch, por si mesmo, por seu filho, seu genro ou sua filha, por seus
mortos” (Mauss, 1974:104-5). A doação era, inclusive, um meio imprescindível
de conservação da sua autoridade de chefe. Quanto ao ato de receber, destaca-
mos uma passagem bastante elucidativa: “A obrigação de receber não é menos
coercitiva. Não se tem o direito de recusar o potlatch. Agir assim é manifestar que
se teme ter de retribuir, é temer ser ‘achatado’ na medida em que não se retribui.
Na verdade, é já ser ‘achatado’. É ‘perder o peso’do próprio nome” (p. 110). O
mesmo acontece com relação à retribuição: “A obrigação de retribuir dignamen-
te é imperativa. Perde-se a ‘face’ para sempre se não se retribui” (p. 112).

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Algumas conclusões do estudo de Mauss

Conclusões de sociologia Conclusões de sociologia


Conclusões de moral e de economia política geral e de moral

W “O sistema de prestações W “A economia da dádiva-troca não W “As sociedades progrediram na


totais constitui o mais antigo pertencia ao quadro do utilita- medida que elas mesmas, seus
sistema de direito e de eco- rismo.” subgrupos e, enfim, seus indiví-
nomia. Ele forma o fundo do W “Interesse e desinteresse, numa duos aprenderam a estabilizar suas
qual destacou-se a moral da relação complexa, explicam a relações, a dar, receber e, enfim,
dádiva-troca.” forma de circulação de riquezas retribuir.”
W “Uma parte considerável de e da circulação arcaica dos sig- W “Foi assim que o clã, a tribo, os
nossa moral e de nossa vida nos de riqueza que as seguem. povos, aprenderam — e é assim
continua estacionada na at- As pessoas eram interessadas, que, amanhã, em nosso mundo
mosfera da dádiva, da obriga- mas de uma forma muito diferente dito civilizado, as classes e as
ção e da liberdade misturadas. das de nossa época.” nações, bem como os indivíduos,
A dádiva não retribuída inferio- W “Foram nossas sociedades oci- devem aprender a opor-se sem
riza aquele quem a aceitou.” dentais que, muito recentemente, massacrar-se e a dar-se sem sacri-
fizeram do homem um ‘animal ficarem-se uns aos outros. Este é
econômico’.” um dos segredos de sua sabedoria
e solidariedade.”

Após ter analisado a dádiva como um fato social no sentido durkhei-


miano, Mauss fornece uma das maiores contribuições à ciência social ao nos
legar o conceito de fato social total: “Os fatos que estudamos são todos, per-
mita-se-nos a expressão, fatos sociais totais (...) todos esses fenômenos são ao
mesmo tempo jurídicos, econômicos, religiosos e mesmo estéticos, morfológi-
cos etc. (…) são, portanto, mais do que temas, mais do que elementos de ins-
tituições, mais do que instituições complexas, mais até do que sistemas de
instituições divididas por exemplo em religião, direito, economia etc. São
‘todos’, sistemas sociais inteiros cujo funcionamento tentamos descrever”
(Mauss, 1974:179-80, grifo do autor).
Assim como Mauss estudou fatos que exprimiam um amplo conjunto de
instituições de determinadas sociedades, classificando-os como totais, pensa-
mos que se pode proceder igualmente para com diversas sociedades contem-
porâneas. Existiriam fatos sociais que exprimiriam uma variada e complexa
gama de instituições, a ponto de espelhar uma configuração institucional tal
que nos permitisse uma melhor compreensão da dinâmica de nossas socieda-
des? Acreditamos que sim. Além disso, pensamos que os fatos organizacio-
nais pertencem a esse gênero de fatos. Na próxima seção, tentaremos indicar,
com a ajuda da sociologia, que a organização constitui uma das instâncias
que mais exprimem uma grande diversidade de instituições sociais na atuali-
dade.

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5. Sociedade de organizações e sociedade salarial

Podemos apontar como algumas das características essenciais das sociedades


ocidentais contemporâneas a quantidade, a diversidade e a importância das
organizações formais que as compõem. O fenômeno organizacional expan-
diu-se extraordinariamente nestas sociedades, principalmente ao longo do sé-
culo XX, ocupando espaços do cotidiano dos indivíduos nunca antes preenchidos
por organizações formais. A densidade desse fenômeno constitui uma das mar-
cas distintivas de nossas sociedades.
Não é por outra razão que no interior da sociologia, já na metade desse
século, foi criado um campo específico: a sociologia das organizações. O fenô-
meno organizacional interroga, questiona por si mesmo a ciência que se incum-
be de explicar a sociedade. Amitai Etzioni, um dos fundadores da sociologia das
organizações, abre o seu livro Organizações modernas, lançado em 1964 e con-
siderado um dos textos “clássicos” desse campo, com a seguinte constatação: “A
nossa sociedade é uma sociedade de organizações”. A expressão ganhou notorie-
dade, tornando-se uma espécie de máxima nos estudos posteriores que con-
substanciaram esse campo. Argumenta o autor que, em geral, nós nascemos em
organizações, passamos a vida trabalhando, nos divertindo, enfim freqüentan-
do organizações diversas. Assim, Etzioni afirma que a civilização moderna de-
pende em grande parte das organizações, o que as permite criar, em seu conjun-
to, um poderoso instrumento de controle social através da coordenação de um
grande número de ações humanas.
Ao início do século XXI é totalmente seguro afirmar que o fenômeno or-
ganizacional cresceu assustadoramente desde o estabelecimento da sociolo-
gia das organizações e o conseqüente estudo de Etzioni. Atualmente parece
ser consenso que nunca vivemos numa sociedade em que o indivíduo depende
tanto da ação de organizações formais para a satisfação de suas necessida-
des. Nesse contexto, a expressão “sociedade de organizações” é ainda mais
adequada que nos anos 1960, período em que Etzioni a divulgou. Nas últimas
quatro décadas, o processo de expansão da urbanização em todo o mundo
concorreu decisivamente para a configuração da sociedade de massa que hoje
conhecemos. Por sua vez, expandiu-se também a chamada comunicação de
massa, atingindo um grau de sofisticação nunca sequer pensado, além da am-
pliação de seu alcance afetando um número cada vez maior de indivíduos em
toda a parte. Mas, inegavelmente, os indivíduos que habitam nas grandes
aglomerações urbanas da sociedade moderna são os membros por excelência
da chamada sociedade de organizações, o tipo ideal que está na sua base e é
por ela o mais afetado, por que não dizer, dela sendo o mais dependente.
Esse indivíduo sofre todas as pressões geradas pela densidade organiza-
cional que o cerca. Etzioni reconhece que as organizações em si não consti-
tuem um fenômeno recente, uma invenção moderna, pois elas existem há
milhares de anos. Todavia, o que há de novo na sociedade moderna é que ela

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contém proporcionalmente uma quantidade maior de organizações a fim de
satisfazer uma diversidade mais significativa de necessidades sociais e pesso-
ais, incluindo um número maior de cidadãos e, conseqüentemente, influindo
mais amplamente em suas vidas. O autor constata que a sociedade moderna
exige um tipo específico de personalidade — o “homem organizacional” —
cujos principais traços são:

W adaptabilidade a mudanças constantes de papéis, devido ao ir e vir cotidia-


no entre diferentes unidades organizacionais;
W grande tolerância à frustração;
W significativa capacidade de adiar recompensas;
W orientação permanente pela realização, aqui entendida como necessidade
psíquica de obtenção de maiores recompensas materiais e simbólicas.

O próprio autor admite que os três últimos traços, combinados, confi-


guram uma personalidade conformista. Assim, o conformismo seria uma das
conseqüências das pressões da sociedade de organizações sobre o indivíduo.
Isto posto, não nos alongaremos aqui na abordagem das conseqüências
sobre a personalidade observadas a partir da ação das organizações formais,
pois este não é o objetivo deste artigo. Gostaríamos, agora, de fazer menção ao
conceito de sociedade salarial, muito em voga atualmente e que poderá auxi-
liar a argumentação ora empreendida.
As transformações drásticas observadas nas últimas décadas no âmbito
da economia e, em particular, na esfera do trabalho têm provocado grande
impacto, ampliando substancialmente a turbulência já sentida em todos os
países desde os anos 1960. O agravamento da crise do fordismo — modelo de
desenvolvimento socioeconômico implantado nos EUA e Europa Ocidental
após a II Grande Guerra e que vingou durante 30 anos — ensejou profundas
mudanças de rumo na marcha histórica do capitalismo, desembocando, por
sua vez, numa revisão radical da utilização do fator trabalho no contexto da
produção. Uma de suas conseqüências mais graves tem sido o desemprego
em massa.
Os reflexos deste processo histórico na estrutura social é tema primor-
dial na agenda da sociologia contemporânea. Aponta-se o risco crescente do
declínio da coesão social, em razão do acréscimo espantoso do número de ex-
cluídos em todo o mundo. Assim, trabalho, coesão social e exclusão ocupam
espaços centrais no debate atual. No bojo desse debate, alguns conceitos re-
velam-se fundamentais, pois representam eixos em torno dos quais as diver-
sas abordagens e correntes buscam demonstrar a força de seus argumentos.
Um desses conceitos é o de sociedade salarial. Popularizado nos anos 1990,
na França, este conceito tem como um de seus maiores expoentes o sociólogo

F ato O rga niza c io n al c o m o F at o S o c i al To t al 141


Robert Castel, diretor de estudos na École des Hautes Études en Sciences So-
ciales de Paris.
Por sociedade salarial, diversos autores querem caracterizar a configura-
ção social instituída com o advento da industrialização e do capitalismo tardio.
Dando ênfase à dialética indivíduo-sociedade e ao trabalho, Castel (1995) iden-
tifica os elementos principais da sociedade salarial: o contrato de trabalho, a
identidade social, a cidadania, o Estado-providência, o individualismo e a “com-
petitividade social”.
O contrato de trabalho afirma o indivíduo autônomo, separado da co-
munidade. Esta individualidade, entretanto, é dialeticamente revestida de
uma forte dimensão coletiva heterônoma representada na ordem jurídico-ins-
titucional, pois o indivíduo ganha um status e proteção assegurados pelo di-
reito do trabalho. Desta forma, o contrato permite ao indivíduo existir como
pessoa privada, mas com status profissional público e coletivo, proporcionan-
do no conjunto da sociedade uma certa estabilização dos modos de vida.
A identidade social indica uma posição na estrutura social referente à
divisão do trabalho, devidamente reconhecida pelo direito. Por conseguinte,
contrato e identidade social proporcionam as condições para o pleno exercí-
cio da cidadania embasada no direito e referendada pela ação no mercado de
trabalho.
O Estado-providência é o ideal de instituição garantidora e provedora
das proteções coletivas previstas em lei.
Por último, o emprego formalizado pelo contrato propicia o desenvolvi-
mento do individualismo e, ao mesmo tempo, a participação em certas redes
de sociabilidade que funcionam como verdadeiras “zonas de integração so-
cial”. O individualismo, elevado à categoria de valor, subtrai o comunitário
como fonte de recursos objetivos e despreza a dimensão ético-política da vida
social, supervalorizando a “competitividade social”, corolário da competitivi-
dade econômica. Aqui percebemos pontos de interseção entre o estudo de
Castel e o conceito de “sociedade centrada no mercado” elaborado por Guer-
reiro Ramos.3
A crise da sociedade salarial se manifesta pela supressão crescente dos
postos de trabalho — uma contradição, já que o trabalho foi eleito como a di-
mensão social mais importante pela sociedade produtivista contemporânea —,
bem como pela precariedade do emprego. Assim, nega-se a milhões de in-
divíduos o direito de ter acesso ao pretendido status de trabalhador e, em
conseqüência, retira-se-lhe a possibilidade de contar com uma valorizada fon-
te de identidade social, além do direito à proteção legal. Tal é a gravidade da
crise que ela fragiliza e compromete a coesão social como um todo. Ao tornar
o trabalho precário, arrisca-se demasiadamente a fazer ruir um dos pilares
fundamentais da sociedade atual. Além do drama causado pelas dificuldades
econômicas vividas pela massa dos desempregados e o conseqüente aumento

3 O detalhamento do conceito de “sociedade centrada no mercado” está em Ramos (1981).

142 R e vi st a d e Ad m in is tra ç ão P úb l ic a 3 / 20 01
da pobreza, Castel aponta o risco social que o desemprego e a precariedade
do trabalho implicam: a chamada “desafiliação” social. O desemprego desco-
necta o indivíduo de redes de sociabilidade importantes e da proteção do Es-
tado (legislação do trabalho), reenviando-o bruscamente à esfera comunitária
de solidariedade, a qual, na maioria dos casos, é marcada por sérios limites
materiais e institucionais.
Chamamos a atenção para um aspecto de grande importância: a di-
mensão organizacional da sociedade salarial. Tal dimensão não foi abordada
por Castel, talvez por este não ser o foco central de seu estudo. Ao observar a
construção do conceito e o que ele representa, pode-se perceber claramente o
papel crucial que as organizações formais exercem na sociedade atual.
Em primeiro lugar, apontamos o elemento contrato. Embora o contra-
to de trabalho possa ser firmado entre duas pessoas físicas, é inegável que a
imensa maioria desses contratos envolve ao menos uma organização formal.
O contrato “típico” de trabalho é aquele firmado entre uma organização for-
mal — o empregador — e um indivíduo — o empregado.
A identidade social que advém do contrato de trabalho é reforçada pela
imagem da organização que subjaz no próprio contrato. É fato corriqueiro em
nossa sociedade salarial os indivíduos serem apresentados como “fulano, ge-
rente de vendas da empresa X”, ou “sicrano, professor da universidade Y”, ou
simplesmente “beltrano, da empresa Z”, e assim por diante. Castel dispara um
alerta para a situação crítica em que se vê um desempregado nos dias de ho-
je: a possibilidade de perda da identidade social. O desempregado, principal-
mente aquele de longa duração, tende a tornar-se um pária, um indivíduo
sem referência numa sociedade em que o mercado de trabalho é o pano de
fundo privilegiado da identidade social. Ora, não seria a organização onde o
indivíduo mantém sua relação contratual a instância última e objetiva dessa
“identidade”? Não é também pela referência a ela — organização formal em-
pregadora — que os indivíduos são apresentados socialmente? O status so-
cial de um indivíduo não provém em grande intensidade justamente do tipo,
do ramo de atividade, do tamanho e da imagem pública da organização onde
ele trabalha, como também de sua inserção profissional e posição hierárquica
ocupada na estrutura desta organização? Daí o papel decisivo exercido pela
organização no processo de construção da identidade social. Um indivíduo sem
vínculo empregatício ou qualquer outra espécie de vínculo profissional com
uma organização formal tende a ser um indivíduo sem referência, sem ponto
de apoio na densa teia organizacional que marca a sociedade contemporânea, o
que constitui uma séria desvantagem relativa face aos seus pares.
Quanto ao individualismo, não se pode deixar de reconhecer que ele é
a mola mestra do comportamento organizacional típico. Ainda que as moder-
nas técnicas gerenciais clamem pela cooperação no trabalho, pelo trabalho
em equipe, tal cooperação é limitada ao âmbito e às exigências operacionais
relativas ao cumprimento da tarefa imposta pela organização e, acima de tu-
do, delimitada pela impessoalidade. Como ilustração, relatamos uma situa-
ção bem comum na atualidade: o trabalhador deve cooperar ao máximo com

F ato O rga niza c io n al c o m o F at o S o c i al To t al 143


a equipe, esforçar-se para ajudar a organização a atingir os objetivos defini-
dos pela hierarquia, mas não se deve sensibilizar — seja diminuindo sua pro-
dutividade, seja protestando de forma evidente — com demissões (sem justa
causa legal) de seus colegas. A tão pretendida cooperação tem parâmetros
bem-definidos: a primazia absoluta da organização e das exigências operacio-
nais sobre o indivíduo. Para além de tais parâmetros, o que é implicitamente
indicado é o individualismo como norma e valor básico do comportamento na
organização. A lealdade e a fidelidade a um grupo/equipe são, no fundo, ele-
mentos de natureza essencialmente comunitária, sejam eles frutos do perten-
cimento a grupos de gênero, étnicos, culturais etc., sejam, ainda, resquícios
históricos da esfera da produção artesanal pré-capitalista, da doutrina coope-
rativista ou da chamada consciência operária das primeiras etapas da Revolu-
ção Industrial. Hoje, o que é imposto pelas organizações formais da sociedade
salarial é uma espécie de “cooperação seletiva”, permeada integralmente pelo
individualismo. Não seria esta mais uma das contradições dessa sociedade?
A cooperação seletiva, tal como caracterizada acima, pressupõe e im-
pulsiona a competitividade social indicada por Castel. Inspirada na competiti-
vidade econômica das empresas e demais agentes econômicos, ela libera e
incentiva os indivíduos a lançarem-se livremente com todas as suas energias e
sem limites éticos na disputa pelo sucesso, entendido como mobilidade social
ascendente no interior das organizações formais. As recompensas diretas são
os ganhos materiais e simbólicos, aqui compreendido também o acesso ao po-
der — a possibilidade de tomar decisões sobre os destinos da organização,
bem como os das pessoas que dela participam. As recompensas indiretas são
exatamente os reflexos das recompensas diretas no ambiente social mais am-
plo (fora da organização) em que o indivíduo está inserido. Quanto maior for
a organização, mais importância relativa ela tiver, melhor for sua imagem
junto à opinião pública, tão maior será o status social que aquele indivíduo
tenderá a gozar e mais bens materiais e simbólicos ele ostentará para susten-
tar esta posição obtida.
Os efeitos individuais e sociais da competitividade social não são menos
perversos que o seu próprio processo. Eles se manifestam comumente sob a for-
ma de patologias. A despeito disso, inúmeros indivíduos encontram-se totalmen-
te imersos neste processo, tornando até muito fácil identificá-los no interior das
organizações formais nas quais trabalhamos ou simplesmente transitamos.
Não é por outra razão que a ciência se debruça atualmente sobre tais ques-
tões; estudos recentes, como os que compõem a psicopatologia do trabalho,
assim como a identificação da neurose profissional e a análise da corrosão do
caráter, já fazem parte da agenda daqueles que intentam examinar pro-
fundamente as organizações contemporâneas (Sennett, 1999; Aubert, 1993;
Dejours, 1996).
Por meio das considerações acima, tentamos demonstrar que as organi-
zações constituem em seu conjunto um dos aspectos de grande relevância
quando se pensa criticamente a sociedade atual por meio do conceito de so-

144 R e vi st a d e Ad m in is tra ç ão P úb l ic a 3 / 20 01
ciedade salarial. As organizações tomam parte ativamente de diversos proces-
sos instituintes e mantenedores da dita sociedade salarial. Cremos que a
inserção da organização como mais uma categoria poderá enriquecer a análise
da sociedade que se pode realizar a partir desse conceito. Quando os conceitos
de sociedade de organizações e de sociedade salarial, ambos elaborados pela
sociologia, são postos em perspectiva, fica ressaltada a influência que as organi-
zações formais exercem tanto na moldagem institucional da sociedade atual
quanto em sua participação ativa na dinâmica que caracteriza a vida social e a
trajetória individual do homem urbano contemporâneo.
A seguir, complementaremos este raciocínio, ao abordarmos o fato or-
ganizacional a partir da dimensão da totalidade.

6. Fato organizacional como fato social total

Como vimos, Guerreiro Ramos defendia a abordagem do fato administrativo


como um fato social total. Segundo o autor, “nossa análise do fato administrati-
vo ilustra com clareza o nem sempre facilmente apreensível conceito de ‘fenô-
meno social total’, proposto, de início, por Marcel Mauss (...) Para nós, o fato
administrativo é um fenômeno social total. (...) O que é cientificamente impres-
cindível na análise de qualquer fenômeno é examiná-lo como manifestação de
uma totalidade, não importa o nome que se dê a esta: fato ou sistema” (Ra-
mos, 1983:25). Embora fazendo referência ao conceito elaborado por Mauss,
Guerreiro Ramos opta por abordar a totalidade do fato em questão segundo o
arcabouço da teoria de sistemas. Argumentava o autor que a utilização da abor-
dagem sistêmica resultava em vantagens específicas no conhecimento daquele
fenômeno.
Malgrado as vantagens que poderíamos auferir da utilização da teoria
de sistemas, optamos aqui pela abordagem inaugurada por Mauss. Para tan-
to, empregamos o recurso metodológico da analogia.
Mauss justificou a expressão “fato social total” pela afirmação de que os
processos de dar/receber/retribuir por ele estudados punham em movimento a
totalidade de uma dada sociedade e de suas instituições ou, ainda, um grande
número de instituições. Para muitos autores da teoria das organizações, estas
são consideradas as instituições centrais e mais importantes do mundo moder-
no. Não queremos afirmar aqui a centralidade das organizações formais na vida
social; pensamos que a sociedade contemporânea é extremamente complexa e,
por conseguinte, configura uma dinâmica marcada pelo entrelaçamento dialéti-
co e multicêntrico de diversas instituições. Deste ponto de vista, as organiza-
ções formais põem em movimento um grande número de instituições e demais
dimensões da vida social, afetando cada vez mais os espaços sociais disponí-
veis aos indivíduos. São, portanto, instituições de grande importância relativa e
podem ser examinadas como uma das mais substanciais manifestações da tota-
lidade social. Partindo desta premissa, tentaremos seguir analogamente os pas-

F ato O rga niza c io n al c o m o F at o S o c i al To t al 145


sos de Mauss, que apontou na constituição do sistema de prestações totais a
existência de fatos de vários tipos, tais como econômicos, jurídicos e políticos.
O fato organizacional é fato jurídico. Quer de direito privado, quer de
direito público, o fato organizacional encerra uma moralidade consubstancia-
da pelo direito. Ele diz respeito às relações sociais no trabalho, representadas
no contrato e enquadradas numa legislação específica. Um extenso aparelho
burocrático-institucional foi erguido para tratar os aspectos jurídicos do fato
organizacional, não só abrangendo as questões relativas às relações sociais do
trabalho, mas também as relações comerciais e institucionais entre organiza-
ções. Em princípio, todos os fatos organizacionais evidentes podem ter uma
expressão jurídica própria. A forma jurídica e a extensão do aparato legal pe-
los quais cada sociedade trata o fato organizacional revela o grau de impor-
tância e complexidade que tal fato assume nessa sociedade.
O fato organizacional é fato econômico. Esta, talvez, seja a mais evidente
das correspondências. Isto se deve não somente por ser a organização o lócus
privilegiado no capitalismo para a geração da riqueza material, mas também
pela primazia acordada para a dimensão econômica na formação de profissio-
nais do campo administrativo. Nas grandes organizações capitalistas, como na-
queles fenômenos analisados por Mauss (1974:179), “a idéia de valor, do útil,
do interesse, do luxo, da acumulação e, por outro lado, do consumo, e mesmo
do gasto puro, puramente suntuário, estão sempre presentes”. Mesmo não se
tratando de grandes corporações capitalistas, as organizações formais estão
sempre envolvidas com o trabalho, compreendendo as atividades de produção,
distribuição, consumo, investimento ou, ainda, a regulação de tais atividades.
No limite, é crença generalizada nos dias atuais que as organizações devem
funcionar economicamente, mesmo que não sejam focalizadas para a econo-
mia de mercado.
O fato organizacional é fato técnico/tecnológico. Como no caso do fato
econômico, o fato técnico/tecnológico que caracteriza a realidade organiza-
cional é bastante difundido. As escolas de administração, de economia e asse-
melhadas pautam geralmente a formação de profissionais na assunção do
caráter técnico da ação organizacional. Além do aspecto técnico da organiza-
ção e da realização do trabalho, a produção e o emprego de novas tecnolo-
gias tem um lugar privilegiado: a organização formal. Numa sociedade onde
a inovação tecnológica foi institucionalizada, a organização que a produz e a
difunde ganha uma posição destacada no cenário social como um todo.
O fato organizacional é fato político. Os fatos e atos organizacionais são
marcados pelo interesse, tanto individual quanto coletivo. Eles interessam aos
indivíduos, às classes e aos demais grupos sociais direta ou indiretamente en-
volvidos nas lutas simbólicas que se manifestam no interior das organizações.
Neste sentido, poder e controle são aspectos constitutivos das organizações for-
mais. Gerir, trabalhar, participar ou simplesmente transitar em organizações
significa estar sujeito às relações de poder e teias de interesses que engendram

146 R e vi st a d e Ad m in is tra ç ão P úb l ic a 3 / 20 01
coalizões formais e informais que interferem nos rumos dessas organizações,
bem como nas condutas individuais e grupais. De outra perspectiva, vê-se que,
em seu conjunto, tais organizações configuram um poderoso instrumento de
controle social. As empresas, principalmente, exercem um papel crucial de co-
ordenação social, uma vez que a sociedade complexa não tem meios suficientes
para estabelecer um mecanismo geral de coordenação/controle (Braverman,
1977). Assim, os fundamentos dos objetivos organizacionais, os meios para al-
cançá-los, os comportamentos individuais e grupais requeridos, a lógica racio-
nal instrumental e a ideologia produzida e proferida pelas organizações formais
tendem a ser transferidos para a sociedade como um todo, uniformizando uma
visão global de mundo, principalmente quando lembramos que vivemos numa
sociedade de organizações. Enriquez (1998) destaca que “a partir do momento
em que a empresa se transforma em instituição, ela se torna um conjunto que
não visa apenas à concepção e venda de ‘objetos’, mas também à elaboração de
uma cultura interna, de um simbólico e de um imaginário que devem ser parti-
lhados por seus membros. Ela visa influenciar os fenômenos sociopolíticos e tor-
na-se criadora de valor, de leis e de normas. Tudo isto vai transformar radical-
mente as condutas dos seus membros e dos clientes e terá um forte impacto so-
bre os outros participantes da vida social” (tradução livre).
O fato organizacional é fruto do fato social geral. Se as organizações in-
fluenciam a sociedade, o inverso é também verdadeiro. As ligações entre or-
ganizações e sociedade são complexas, marcadas pela mútua causalidade e só
uma abordagem dialética pode assim concebê-las (Benson, 1992). Ressalta-
mos as ligações que os fatos organizacionais têm com os fatos oriundos da es-
trutura e dos processos que caracterizam a sociedade da qual a organização
faz parte. Por exemplo, a estrutura de classes que explica a desigualdade social
acaba sendo refletida na organização, uma vez que o recrutamento das elites
organizacionais se faz, em geral, a partir dos estratos sociais mais elevados.
Assim, a distribuição social dos privilégios se vê quase intacta, se partimos da
estrutura social para a organização; os membros das classes sociais mais favo-
recidas possuem muito maior acesso ao poder organizacional, ocupando posi-
ções elevadas na hierarquia. Os processos que marcam uma dada sociedade,
tais como as questões étnicas, as clivagens sexuais, as questões relativas aos
direitos das minorias e as lutas sociais em geral, são refletidos nas organiza-
ções. De outro modo, como explicaríamos a pequena quantidade de negros e
mulheres ocupando posições hierárquicas no topo das organizações brasilei-
ras? Os preconceitos raciais, sexuais e outros, tão presentes na nossa socieda-
de, são reproduzidos no ambiente interno das organizações.
O fato organizacional é fato histórico e cultural. Os fatos organizacionais
se inscrevem num determinado contexto histórico, portanto estão sujeitos às di-
mensões de tempo, espaço e cultura. O desenrolar dos fatos organizacionais,
compondo a história da organização, não pode ser dissociado da história da so-
ciedade na qual a organização se insere. Da mesma perspectiva, a cultura que

F ato O rga niza c io n al c o m o F at o S o c i al To t al 147


singulariza uma dada sociedade se manifesta através da plasticidade dos fatos
que particularizam a organização. A condição de membro ativo de uma organi-
zação formal não transforma o indivíduo num homem organizacional autônomo
e estranho ao contexto histórico e cultural da sociedade em que vive. A aceita-
ção deste ponto de vista abre caminho para a compreensão dos processos de
construção social da realidade organizacional.
Finalizaremos propositadamente por um aspecto que não é essencial-
mente institucional, mas que aponta para uma dimensão fundamental da
vida humana associada. Como afirmamos acima, não acatamos a condição de
exterioridade radical proposta por Durkheim. Os fatos organizacionais são
também de ordem psicológica. São produtos da dimensão psíquica dos indiví-
duos e, ao mesmo tempo, produtores de condições e situações psíquicas vi-
venciadas pelos membros da organização. Os fatos organizacionais têm
estreita ligação com questões relacionadas tanto ao caráter quanto à persona-
lidade. Richard Sennett faz uma distinção importante entre estas duas instân-
cias: a personalidade refere-se a desejos e sentimentos que podem apostemar por
dentro, enquanto o caráter concentra-se sobretudo no aspecto de longo prazo de
nossa experiência emocional. Segundo o autor, o caráter é expresso pela leal-
dade e o compromisso mútuo, pela busca de metas a longo prazo, ou pela práti-
ca de adiar a satisfação em troca de um fim futuro: “caráter são traços pessoais a
que damos valor em nós mesmos, e pelos quais buscamos que os outros nos valo-
rizem” (Sennett, 1999:10). Analisando as mudanças ocorridas recentemente no
campo do trabalho — em particular, a flexibilidade —, impostas pelas organiza-
ções, Sennett conclui que tais mudanças têm afetado negativamente o desenvol-
vimento do caráter nos indivíduos, uma vez que ele depende de compromissos de
longo prazo, lealdade, confiança e ajuda mútua. Para o autor, a flexibilidade or-
ganizacional está corroendo o caráter: “como se podem manter lealdades e com-
promissos mútuos em instituições que vivem se desfazendo ou sendo continua-
mente reprojetadas?”, questiona.
No que tange à personalidade, percebe-se que a participação ativa e
continuada nas organizações formais produz conseqüências dignas de desta-
que. Para Eugène Enriquez, “a palavra desejo é ausente na vida das empre-
sas. Falar de desejo é, de fato, fazer referência à vida interior de cada um, aos
fluxos de paixões e de pulsões que animam constantemente o ser humano,
pois o desejo é por definição não extinguível” (Enriquez, 1998, tradução li-
vre). O autor denuncia a repressão do desejo nas organizações, apontando
como causa o medo do conflito. Dessa forma, os indivíduos são forçados a tra-
balhar sob a égide da racionalidade instrumental, evacuando seus sentimen-
tos e paixões. Entretanto, “a organização é um lugar onde se exprimem as
paixões mais loucas: o desejo de poder (…) o poder do desejo (…) a empre-
sa não é este lugar incolor e sem sabor de que nos falam os consultores de or-
ganizações. Ela é cheia de barulhos e de furores e nesse sentido ela é, ao
mesmo tempo, espaço de vida e espaço de morte”. A repressão de algo tão

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presente e humano, marcando o cotidiano das organizações, só poderia de-
sembocar na produção de contradições afetando a estrutura psíquica do indi-
víduo e, por extensão, afetando também o relacionamento com os seus pares.
Ainda no âmbito da personalidade, merece destaque o estudo de Nico-
le Aubert sobre patologias psíquicas geradas e alimentadas no ambiente orga-
nizacional. A definição elaborada pela autora para a neurose profissional é
significativa para a discussão desenvolvida aqui: “afecção psicogênica persis-
tente na qual os sintomas são a expressão simbólica de um conflito psíquico
no qual o desenvolvimento está ligado a uma situação organizacional ou pro-
fissional determinada” (Aubert, 1993:87). A autora ilustra este conceito com
casos reais de psicopatologias desenvolvidas e comumente observadas no in-
terior das organizações, denominadas neurose profissional traumática, psico-
neurose profissional e neurose de excelência. No mesmo campo da psicopatologia
do trabalho, é um outro conhecido autor quem afirma categoricamente: “a aná-
lise da articulação entre a organização da personalidade e organização do tra-
balho passa por uma referência privilegiada pela clínica psicanalítica” (Dejours,
1996:155). Num outro ângulo de observação da personalidade, faz-se também
alusão à relação existente entre a gestão de organizações e a interioridade: “a
gestão é também uma prática que repousa fundamentalmente sobre a realida-
de psíquica do dirigente, sobre sua interioridade. O dirigente atua sobre o exte-
rior a partir de sua própria realidade interior. (…) Quer seja no plano do
indivíduo, da prática da direção ou da própria organização, a interioridade é
uma dimensão sutilmente negada” (Lapierre, 1996:265).

7. Conclusões

A intenção de trabalhar com a categoria de totalidade na análise organizacio-


nal não é nova. Conforme ressaltamos, Guerreiro Ramos esboçou uma tentati-
va nos anos 1960. Recentemente, Vergara e Branco (1993) reelegeram a
totalidade como categoria fundamental para a teoria das organizações. Estes
autores constatam a pobreza do paradigma dominante na administração — o
funcionalismo —, causa principal da formação reducionista que é dada ao ad-
ministrador. Em seguida, Vergara e Branco pregam uma revisão dos programas
de formação e desenvolvimento de administradores, no sentido de compor as
dimensões física, intelectual, emocional e espiritual de forma integrada, em
busca de uma visão de totalidade.
Após tentarmos demonstrar que o fato organizacional pode ser analisa-
do como fato social total, gostaríamos de indicar algumas implicações que uma
tal abordagem poderá ter para a teoria das organizações. Antes de mais nada,
queremos deixar claro que esta abordagem constitui apenas mais um ponto de
vista que pode ser utilizado para a interpretação dos fenômenos organizacio-
nais. Desde os anos 1970 o paradigma funcionalista vem perdendo força de ex-

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plicação dos fenômenos que afetam as organizações. Novos desdobramentos,
novos enfoques e, sobretudo, disciplinas que nunca se interessaram pelas orga-
nizações vêm produzindo estudos e até estabelecendo novos campos de análise
nessa área. As ciências humanas e até mesmo as ciências da saúde estão redes-
cobrindo a organização como objeto de estudo. O interesse por este objeto pa-
rece ser geral.
A primeira conseqüência disso é a fragmentação que sofre a teoria das
organizações; concebida por alguns como uma “teoria geral da administração”,
esta área do conhecimento expandiu-se e fragmentou-se, dando claros sinais de
que nunca se tratou de uma teoria geral, nem tampouco de um saber unifica-
do. No nosso entender, a fragmentação atual, além do questionamento ao fun-
cionalismo, é decorrente também da importância crescente que a organização
formal assume em relação ao conjunto das instituições da sociedade moderna.
À medida que a sociedade de organizações ou a sociedade salarial avança, as
organizações tornam-se foco de interesse para diversas disciplinas. Porém, mui-
tos estudiosos mostram-se profundamente preocupados com a fragmentação
atual da teoria, sentem-se um tanto quanto perdidos.
A primeira implicação da abordagem sugerida neste artigo diz respeito a
esta preocupação: tratar nosso objeto como um fato social total significa lidar
madura e conscientemente com a diversidade e a fragmentação. Tal aborda-
gem não irá propiciar a unificação da teoria das organizações, pois a situação
atual é fruto de seu próprio desenvolvimento; pelo contrário, abre caminho
para trabalhar responsavelmente com os conhecimentos anteriores e os novos
desdobramentos, abarcando uma totalidade possível e orientada pela coerên-
cia epistemológica. Daí, quadros de análise mais ousados e mais completos po-
derão ser elaborados, mas sempre com a certeza de que a realidade organiza-
cional será mais ampla do que nossa capacidade de enquadrá-la e interpretá-la.
Uma segunda implicação decorre da anterior e aponta para o avanço
conceptual e interpretativo que o emprego dos conhecimentos e da lógica do
paradigma da complexidade poderá proporcionar à teoria das organizações.
A totalidade como categoria de análise e a dialética entre o todo e as partes
são alguns dos recursos mais fecundos entre aqueles que vêm sendo sistema-
ticamente empregados pelos autores ligados ao paradigma científico da com-
plexidade.4 Em outra oportunidade, introduzimos no Brasil a discussão sobre
os limites e as possibilidades de avanço da teoria das organizações proporcio-
nados pelo paradigma da complexidade (Serva, 1992); poderíamos retomar
tal discussão a partir da categoria da totalidade.
Outra possível implicação para a teoria das organizações provém da
fonte de inspiração da abordagem em questão: o trabalho de Mauss. Marcel

4 Uma abordagem muito representativa da totalidade e da dialética todo-partes que é empreen-


dida por autores do paradigma da complexidade pode ser encontrada em Morin (1982).

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Mauss, ao final do Ensaio sobre a dádiva, declara ter encontrado os pilares
fundamentais da vida social moral: a reciprocidade e a solidariedade. Temos
afirmado há algum tempo que as organizações têm sido um dos palcos privi-
legiados do drama humano na contemporaneidade: elas estão fortemente
presentes em nosso cotidiano, nelas passamos boa parte do nosso tempo e,
portanto, para elas levamos muitos de nossos sonhos e expectativas, nelas so-
fremos, nos alegramos, vivemos. Abordar os fatos organizacionais como fatos
sociais totais poderá ajudar a compreender um pouco mais o homem por intei-
ro, desafio da antropologia que nós, analistas organizacionais, assumiríamos
para, quem sabe, um dia, poder até ratificar a percepção de Mauss e, assim,
empregar a teoria das organizações também para colaborar na reconstrução da
reciprocidade e da solidariedade, dimensões que parecem ofuscadas na grande
maioria das organizações modernas.

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