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Do original: The Moral Molecule
Tradução autorizada do idioma inglês da edição publicada por Penguin Group
Copyright © 2012, Paul J. Zak

© 2012, Elsevier Editora Ltda.

Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei no 9.610, de 19/02/1998.


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Copidesque: Shirley Lima da Silva Braz


Revisão: Edna Cavalcanti e Roberta Borges
Editoração Eletrônica: Estúdio Castellani

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ISBN 978-85-352-1446-8
Edição original: ISBN: 978-0-525-95281-7

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CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ

Z25m Zak, Paul J.


A molécula da moralidade [recurso eletrônico] : as supreendentes descobertas sobre a
substância que desperta o melhor em nós / Paul Zak ; tradutor Soeli Araujo. – Rio de Janeiro :
Elsevier, 2012.
recurso digital

Tradução de: The moral molecule : the source of love and prosperity
Formato: PDF
Requisitos do sistema: Adobe Acrobat Reader
Modo de acesso: World Wide Web
ISBN 978-85-352-1446-8 (recurso eletrônico)

1. Psicologia social. 2. Comportamento humano. 3. Livros eletrônicos. I. Título.

12-2529. CDD: 302.14


CDU: 316.472.4
Para minhas filhas Alexandra e Elke, que, com seu amor,
me tornaram uma pessoa melhor e mais feliz.
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Agradecimentos

Incontáveis pessoas muito generosas tornaram possíveis a elaboração


deste livro e a pesquisa que o fundamenta. Entre elas, em primeiro lugar
está minha esposa, Lori, que passou muitos dias sem minha presença
enquanto eu viajava pelo mundo realizando pesquisas. Ela sempre me
incentivou a continuar minha missão, mesmo que significasse momentos
difíceis para ela. Minhas filhas, Alex e Elke, ficaram bastante impacien-
tes para que eu chegasse logo em casa, mas persistiram e estavam sempre
me esperando na porta para me abraçar quando eu chegava. Meus pais,
Donald e Dorothy Zak, me deram o dom da curiosidade que tornou pos-
sível minha jornada e me deram o amor para sobreviver às dificuldades
que enfrentei.
O incomparável William Patrick foi meu parceiro na escrita, críti-
co, motivador e agora amigo. Este livro não seria um décimo do que
é sem ele. Absolutamente imprescindíveis para este desafio foram mi-
nha brilhante agente, Linda Loewenthal, e minha incrível advogada, Jeff
Silberman, que nos colocaram, a mim e Bill, em contato e forneceram
sábios conselhos o tempo inteiro para que o processo fosse adiante. Meu
editor na Dutton, Stephen Morrow, me deu a liberdade e o incentivo
para escrever uma história científica improvável sobre um novo aspecto
da natureza humana e foi um entusiasta deste livro desde a primeira reu-
nião. A confiança de Stephen e do presidente da Dutton, Brian Tart, em
mim e neste projeto nunca foi abalada. Eles foram fabulosos em todos os
momentos, da elaboração à publicação do livro.
Muitas pessoas e instituições generosas financiaram minha pesquisa,
como Dr. Jack Templeton, Dr. Barnaby Marsh, Dr. Kimon Sargeant,
Dr. Paul Wason e Chris Stawski, da John Templeton Foundation; Dra.
Margaret Gruter e Monika Gruter Cheney, do Gruter Institute for Law
and Behavioral Research; Gordon Getty, do Ann and Gordon Getty
Foundation; Victoria Seaver Dean, do Seaver Institute; Dr. Lis Nielsen
do National Institute on Aging; Gerry Ohrstrom, Skip Stein, e os cinco
diretores da Claremont Graduate University, que possibilitaram meu
trabalho diretamente, Dr. Steadman Upham, William Everhart, Dr.
Robert Klitgaard, Dr. Joseph Hough Jr. e Dra. Deborah Freund.
Meus intrépidos colaboradores foram os que mais se arriscaram traba-
lhando comigo e fizeram a maior parte da pesquisa: Dr. Robert Kurzban,
Dr. William Matzner, Dr. Stephen Knack, Dr. Jorge Barraza, Dra. Karla
Morgan, Dr. Jang-Woo Park, Dra. Moana Vercoe, Dra. Vera Morhenn,
Laura Beavin, Dr. Ahlam Fakhar, Beth Terris, Veronika Alexander,
Dra. Sheila Ahmadi, Dr. Ronald Swerdloff, Dr. Walter Johnson, Dr.
Cameron Johnson, Dr. Markus Heinrichs, Dr. Michael Kosfeld, Dr.
Ernst Fehr, Dr. Urs Fischbacher, Dr. Bill Casebeer, Dr. Jeff Schloss,
Dr. Michael McCullough e Dra. Elizabeth Hoge.
Conselheiros valiosos me orientaram e com frequência participaram
de minhas pesquisas incomuns, como Dr. Yannis Venieris, o falecido Dr.
Jack Hirshleifer, Dr. C. Sue Carter, Dr. Cort Pedersen, Dr. David Levi-
ne, Estela Hopenhayn, Dr. Herb Gintis, Edward Tama, Linda Geddes,
Nic Fleming, Dra. Helen
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Fisher, Dr. Michael McGuire, Dr. Lionel Ti-
ger, Mary Jaras, Andrew Mayne, Tenente-Coronel William Fitch, Pro-
fessor Adam Penenberg, Dr. Michael Shermer, Dr. Matt Ridley, Kenshi
Fukuhara, Itay Heled, Karl Jason, Stephanie Castagnier e Professor Oli-
ver Goodenough. Eles nunca disseram “impossível” e, por meio de sua
nobre sabedoria, aprimoraram tudo o que pensei em fazer.
Finalmente, há muitos amigos queridos e colegas que sofreram por
quatro anos, lendo e ouvindo incessantemente as histórias deste livro e
que generosamente me presentearam com seu tempo, energia e experti-
se. Eles aprimoraram as ideias e tornaram meus pensamentos substan-
cialmente mais afiados. Uma pequena lista inclui Dr. Cameron John-
son, Dr. Vance Johnson, Joana Johnson, Dr. Walter Johnson, Dr. Sana
Quijada, Dr. Earl Quijada, Paul Wheeler, Justice Thomas Hollenhorst,
Tim Brayton, Luzma Brayton, Dr. Thomas Borcherding, Dr. Thomas
Willett, Dr. Arthur Denzau, Dr. Joshua Tasoff, Dr. Cyril Morong,
Dr. Jeff Schloss, Dr. Paul Ingmundson, Dr. Michael Uhlmann,
Dr. Jean Schroedel, Dr. Jacek Kugler, Dr. Gerald Winslow, Dr. Brian Bull,
Dra. Carla Gober, Bruno Giussani e Chris Anderson.
Todos os listados aqui e muitos outros compartilharam comigo seu
amor. Sou incomensuravelmente grato.
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Introdução

Casamento vampiresco

E
ra um belo dia para um casamento, o sol inglês espiando por detrás
das nuvens inglesas enquanto os convidados se reuniam, com seus
melhores trajes. A cerimônia, em Huntsham Court, mansão vito-
riana em Devon, deveria começar em 10 minutos. Eu deveria ter chegado
uma hora atrás.
Estacionei o Vauxhall alugado no pátio de cascalhos, deixei o motor
ligado, saltei do carro vestindo um jaleco, para o reconhecimento ime-
diato do território inimigo e, em seguida, convoquei um dos convidados
para me ajudar a carregar a centrífuga de 70 quilos e os 30 quilos de gelo-
seco que trouxera no carro. Numa segunda viagem, levei as seringas, 156
tubos de ensaio previamente etiquetados, torniquetes, lenços umedecidos
com álcool e band-aids vindos da Califórnia.
O plano elaborado com Linda Geddes, a noiva, era colher duas amostras
de sangue – uma antes e uma depois dos votos – de alguns amigos e parentes
presentes. Durante a festa que se seguiu à cerimônia, apenas o pai de Linda
se opôs. A mãe do noivo estava doente, portanto não a levamos em conta.
Coletar sangue em casamentos não é uma tradição nessa região da
Inglaterra ou em qualquer outra que eu conheça. Nesse caso, a noiva era
redatora da New Scientist e vinha acompanhando minha pesquisa. Linda
também era conhecida por suas histórias bizarras. Um dia, subitamente,
ela me convidou para atravessar o Atlântico para vê-la casar. Não porque
fôssemos grandes amigos, mas porque ela queria que eu fizesse uma ex-
periência que comprovasse uma teoria. Apenas por diversão, ela queria
ver se a exaltação emocional de seu casamento alteraria o nível de oxitoci-
na dos convidados, o mensageiro químico que eu vinha estudando havia
alguns anos. (Atenção: não confundir com o analgésico OxyContin, do
qual, em geral, as pessoas abusam.)
A oxitocina é basicamente conhecida como um hormônio reprodutivo
feminino e, em geral, é associada mais ao que costumava acontecer nove
meses após o casamento do que aos votos matrimoniais e champanhe.
Esse hormônio controla as contrações durante o trabalho de parto, si-
tuação em que as mulheres deparam com a oxitocina sintética, a ver-
são disponível comercialmente que os médicos injetam nas grávidas para
induzir o parto. A oxitocina também é responsável pela serenidade e a
concentração de que as mães desfrutam ao amamentar. E então voltamos
para o fato de que a oxitocina também se presta bem a casamentos – as-
sim esperamos –, já que ajuda a criar o calor interno que tanto os homens
quanto as mulheres sentem durante o sexo, uma massagem ou mesmo
um abraço.
Linda não me procurou por causa de qualquer novidade que eu pudes-
se ter sobre a oxitocina como hormônio do nascimento ou do aconchego,
mas por conta da função completamente nova que eu descobrira para a
substância. Minha pesquisa demonstrara que esse mensageiro químico é,
na verdade, a base do comportamento moral, tanto em relação ao cérebro
quanto ao sangue. Não só nas relações íntimas, mas em acordos de negó-
cios, na política e na sociedade em geral. Uma teoria, reconheço, com a
qual é preciso se acostumar.
Estou realmente afirmando que uma única molécula – a propósito,
uma substância química que cientistas como eu podem manipular em
laboratório – explica por que algumas pessoas são tão extrovertidas e ou-
tras, tão frias e distantes? Por que há pessoas capazes de enganar e roubar
e outras às quais você pode confiar a própria vida? Por que alguns mari-
dos são mais fiéis que outros e por que – por sinal – as mulheres tendem
a ser mais generosas que os homens?
Em uma palavra, sim.
No início de 2001, conduzimos, alguns colegas e eu, uma série de
experiências que mostravam que as pessoas reagem de forma mais gene-
rosa e carinhosa, mesmo em relação a estranhos, quando têm o nível de
oxitocina elevado.
Como referência para a medição do comportamento, consideramos
a disposição das pessoas que se submeteram ao experimento a repartir
dinheiro em tempo real. Para medir a elevação do nível da oxitocina,
colhemos e analisamos o sangue dos participantes.
Como sabemos, o dinheiro pode ser convenientemente mensurado
em unidades – moedas de 5 e 10 centavos, notas de $10 e $20 –, o que
significa que pudemos quantificar o grau de generosidade pela quantia
que alguém se dispunha a dividir. Pudemos, então, correlacionar os valo-
res com o aumento do hormônio verificado no sangue. Mais tarde, para
nos certificarmos de que não se tratava apenas de mera associação, mas de
uma reação verdadeira de causa e efeito, infundimos oxitocina sintética
nas vias nasais dos participantes da experiência – a melhor forma de
le­vá-la diretamente ao cérebro. Quanto à causa e ao efeito, descobrimos
que poderíamos abrir e fechar a resposta comportamental, como se fosse
uma mangueira de jardim.
Mas nosso trabalho demonstrou, antes de mais nada, que você não
precisa infundir uma substância química no nariz de alguém nem fazer
sexo ou mesmo abraçar alguém para elevar o nível de oxitocina que gerará
uma postura mais generosa. Por sorte, tudo o que precisamos fazer para
deflagrar essa molécula da moralidade é demonstrar confiança. Quando
demonstramos confiar em alguém, a oxitocina dessa pessoa aumenta, re-
duzindo a possibilidade de ela se retrair ou de trair sua confiança. Em ou-
tras palavras, a sensação de ser confiável torna as pessoas mais confiáveis
de fato, o que, com o tempo, faz outras pessoas confiarem mais, o que,
por sua vez...
Se você identificou aqui uma estrutura de círculo vicioso, que se re-
troalimenta e que, em última instância, gera uma sociedade virtuosa, está
começando a entender do que se trata. Esse é o aspecto mais estimulante
da pesquisa.
Obviamente, há muitas outras questões a se considerar, pois nenhuma
substância química no corpo age sozinha; outros fatores na experiência
de vida da pessoa também contam. Mas como veremos nos próximos
capítulos, a oxitocina reúne o tipo de comportamento generoso e cari-
nhoso que toda cultura, em qualquer lugar do mundo, endossa. É a forma
correta de se viver, o estilo de vida colaborativo, propício e pró-social que
todas as culturas do mundo chamam de “moralidade”.
Não significa que a oxitocina sempre nos torne generosos e confiáveis.
No mundo bruto e caótico em que vivemos, ser aberto, solícito e generoso
o tempo inteiro seria como andar com uma placa pendurada no pescoço
chamando-o de idiota. Não se trata disso. A molécula da moralidade funcio-
na como um giroscópio e nos ajuda a manter em equilíbrio a postura de lidar
com a confiança, a cautela e a desconfiança. Portanto, a oxitocina nos ajuda a
transitar pelos relevantes benefícios sociais da comunicabilidade e pela sensa-
ta cautela de que precisamos para evitar que sejamos passados para trás.
O que intrigava Linda, a noiva, era a capacidade de a oxitocina reco-
nhecer e responder à natureza precisa da interação e do vínculo humanos;
tanto que ela que me convidou para o casamento. Ela queria testemunhar
todas as promessas de ser fiel, amável e dedicado se concretizando não
apenas no comportamento dos convidados, mas em seu sangue.
Huntsham Court fica a cerca de quatro horas de distância, a oeste de
Londres, escondida entre vilarejos com nomes pitorescos, como Lower
Washfield, Stoodleigh e Clayhanger. Havia uma igreja anglo-saxônia no
entorno – a ponto de desabar, diga-se de passagem –, mas a cerimônia
oficial aconteceria na mansão, um pavilhão de caça antigo, impregnado
com cheiro de madeira queimada e painéis de carvalho que enquadravam
cabeças de animais mortos havia muito tempo.
Depois de minhas idas e vindas corridas, como o clichê do cientista
maluco, acomodei-me num espaço fora do salão central, reservado para
meu laboratório portátil – a centrífuga emprestada pela University of
Exeter e o gelo-seco de Londres. Para que Helen, uma enfermeira amiga
da noiva, que concordara em coletar os sangues, encontrasse o cômodo
onde eu estava, alguém pendurou na porta uma placa improvisada onde
se lia “laboratório”.
Estava satisfeito em ter uma assistente local e formalmente qualifi-
cada, mas quando Helen apareceu, usava salto alto e um vestido de seda
bege em vez de uma vestimenta cirúrgica adequada ou um jaleco, como
eu havia imaginado. “Não há possibilidade de erros aqui”, pensei.
Verificamos o protocolo para o experimento e me certifiquei de que
todo o equipamento estava pronto e funcionando. Então, com minha
elegante colega a reboque, parti em busca da primeira vítima.
Para minha sorte, Linda estava atrasada. Encontrei-a na suíte da noi-
va, no andar de cima da mansão, sendo arrumada e mimada pela mãe e
pelas madrinhas, três jovens com vestidos vermelho-brilhante, adequa-
dos para um casamento “vampiresco”.
Na verdade, Linda e eu nunca tínhamos nos visto pessoalmente, mas
nessa ocasião especial ela me cumprimentou com abraços e beijos mesmo
assim.
“Você está pronta?”, perguntei.
Ela esboçou um sorriso nervoso enquanto a amiga enfermeira dava
início aos trabalhos, amarrando o torniquete e passando o algodão com
álcool no braço da noiva.
“Não gosto muito de agulhas”, respondeu.
“Você me diz isso agora?”, perguntei, tateando o bolso do jaleco em
busca dos sais aromáticos que tinha levado por precaução, para o caso de
um desmaio inesperado.
Apesar de tudo, nem a noiva nem os convidados, tampouco aque-
les que de fato desmaiaram (para ser honesto, adoro ver sangue) ou a
dedicação de Linda em busca de boas histórias, nada disso estragou
seu grande dia.
Pelo que percebi, os amigos e a família acabaram se divertindo com
toda essa história de coleta de sangue.
Depois dos votos e da assinatura da certidão de casamento dentro da
mansão, foram todos para fora da casa para o Handfasting,* uma tradição
celta segundo a qual os votos são feitos entre o casal debaixo de uma ár-
vore adornada com grinaldas (como se faz na Inglaterra) e fitas coloridas,
supervisionada, nesse caso, por um jornalista hindu que, eu supus, estava
representando todas as religiões.
Em seguida, a festa continuou na mansão e voltamos a coletar sangue
– 24 amostras em menos de 10 minutos. Tarefa cumprida. Linda e Nic,
o noivo boa-praça, poderiam seguir em frente com a champanhe, o jantar
e a dança no gramado ao som da banda. Já estigmatizado como o cien-
tista nerd, voltei para a mansão para colocar os tubos com as amostras
na centrífuga, separando o soro do plasma das hemácias e congelando as
substâncias do sangue de que precisava para analisar alterações no nível
de oxitocina. Então, com os tubos de ensaio mergulhados no gelo-seco,
saí de fininho e iniciei a longa jornada de volta a Londres e, de lá, para
a jornada ainda mais longa até meu laboratório na Claremont Graduate
University, ao sul da Califórnia. Levou duas semanas (e cerca de $500)
para as amostras chegarem por FedEx, e mais $2 mil para a análise do
sangue. Enfim, os resultados mostraram exatamente o que esperávamos:
um simples registro da habilidade de a oxitocina ler e refletir as nuan-
ces de uma situação social e, por conseguinte, tornar-se o monitor e o
regulador-chave do comportamento moral.
Todo mundo sabe que cerimônias de casamento são carregadas de
emoção. Por isso as pessoas choram. Por isso os garanhões do filme Pe-
netras bons de bico iam a tantos – para pegar as garotas já meio bêbadas e
prontas para ceder à primeira investida. Mas as amostras de sangue cole-
tado em Huntsham Court nos mostraram algo muito mais interessante.

* Nota da Tradutora: Handfasting é um rito pagão de origem celta-eslava. Até o século XVII,
“handfast” significava contratos de casamento reconhecidos legalmente. No Handfasting, não
há restrições ao fato de pessoas do mesmo sexo se casarem. Esse ritual pode ser seguido em
outras cerimônias religiosas, não necessariamente de origem pagã.
As alterações nos níveis individuais de oxitocina no casamento de Linda
poderiam ser mapeadas como o sistema solar, com a noiva como se fosse o
Sol. A diferença entre a primeira e a segunda coleta, de apenas uma hora,
mostrava que o nível do hormônio na própria noiva aumentara 28%. E
para cada pessoa que participou da experiência, o aumento de oxitocina
foi diretamente proporcional ao estado e à ligação emocional da pessoa
com o evento. A mãe da noiva: 24% de aumento. O pai do noivo: 19%.
O próprio noivo: 13% e assim sucessivamente, com irmãos, amigos e
convidados mais afastados emocionalmente da cerimônia.
Você poderia questionar por que o nível do hormônio do pai do noi-
vo era maior que o do próprio noivo. Falaremos sobre essas questões
em mais detalhes ao longo do livro, mas a testosterona é um dos vários
hormônios que podem interferir na liberação de oxitocina. Se parar para
pensar, verá que não é nada surpreendente o fato de eu ter encontrado
variação de 100% de testosterona na amostra do noivo.
Nossa pequena experiência no casamento demonstrou, no fim das
contas, o tipo de sensibilidade graduada e condicionada que permite a
oxitocina nos conduzir pela confiança e cautela, generosidade e autopro-
teção, não somente em resposta à natureza oficial dos relacionamentos
– a mãe, o genro, o colega da escola temido por todos, um completo
estranho –, mas em resposta às circunstâncias sociais do momento. Devo
me sentir seguro e acolhido por essas pessoas ou preciso estar alerta? É
uma situação na qual a oxitocina pode estabelecer os parâmetros ou tra­
ta-se de uma troca em que a sobrevivência será garantida pela elevação de
um hormônio relacionado ao estresse, que me deixará alerta? Ou talvez
seja uma situação em que o melhor desfecho acontecerá quando a oxito-
cina dominar parte das pessoas e uma boa dose de testosterona dominar
a outra parte?
É a sensibilidade da oxitocina na interação com outros mensageiros
químicos que ajuda a explicar por que o comportamento humano é tão
infinitamente complexo – e por que é tão difícil manter por mais tempo
a felicidade que sentimos em uma festa de casamento. (Existe uma piada
antiga sobre um finlandês que não conseguia entender por que a esposa
estava tão infeliz. “Eu disse que a amava quando a pedi em casamento”,
ele disse. “Não vejo por que tenho de ficar repetindo isso.”)
Mas aqui está a maior compensação resultante de uma experiência
muito maior, realizada em meu laboratório por um corpo maior de pes-
quisadores: depois de séculos de especulação em relação à natureza hu-
mana, ao comportamento humano e a como decidimos o que é certo,
temos novidades que podemos usar – a prova empírica contundente que
esclarece o mecanismo do centro do sistema de orientação moral. Como
qualquer engenheiro poderia afirmar, a compreensão do mecanismo bá-
sico é o primeiro passo rumo ao aprimoramento do resultado de um sis-
tema. Quando o resultado é o comportamento moral, não se trata de uma
questão trivial.
Há poucos anos, novos insights sobre os motivos que levam as pessoas
a se comportarem de um ou de outro jeito inundaram campos de estudo
como economia comportamental, neurociência social, neuroteologia, es-
tudos evolutivos sobre altruísmo e cooperação, inclusive pesquisas sobre a
felicidade. Esses dados sugerem que, como espécie, somos muito menos
egocentrados – e, em geral, muito mais gentis e colaborativos – do que
se supunha.
Mas, até agora, esse avançado insight científico sobre a natureza hu-
mana – considerando tanto o lado positivo quanto o negativo – ainda
levanta a questão: Dado que os seres humanos podem ser tanto racionais
quanto emocionais, impiedosamente corrompíveis e extremamente ge-
nerosos, vergonhosamente egocentrados e completamente altruístas, o
que determina quais desses aspectos da natureza humana se sobressairão
em determinadas situações? Quando confiamos e quando desconfiamos?
Quando somos solícitos e quando nos retraímos? A resposta está na libe-
ração da oxitocina.
O nível de oxitocina se eleva quando recebemos uma demonstração
de confiança e/ou quando algo nos deflagra compaixão e afinidade, a que
chamamos hoje de empatia. (Falaremos mais sobre isso no Capítulo 4.)
Quando a oxitocina se eleva, ficamos mais gentis, generosos, colaborativos
e carinhosos. Mas quando os cientistas chamam esses comportamentos
de pró-sociais, na verdade é uma forma mais técnica de dizer que seguem
a Regra de Ouro: “Aja com os outros como gostaria que agissem com
você.” Este livro nos mostrará por que e quando o efeito da oxitocina
acontece e como podemos fazê-lo ocorrer com mais frequência.
O fato de a molécula da moralidade poder abrir a caixa-preta na na-
tureza humana não significa que não reste nada para os filósofos e teó-
logos debaterem. Apenas algumas discussões sobre o livre-arbítrio ou as
virtudes passam a não fazer mais muito sentido se não levarem em conta
as contribuições científicas. E a ciência evoluiu bastante desde que os
primeiros profetas tentaram revelar o que Deus queria que fizéssemos e
desde que os filósofos tentaram fundamentar o poder da razão.
Depois de todos os debates teológicos e discursos filosóficos e, agora,
com todas as evidências mais recentes, temos a certeza de que os seres
humanos são criaturas intensamente sociais. O cérebro humano reage
de forma mais intensa a uma expressão facial que a qualquer outra coi-
sa, pois a sobrevivência nos primeiros anos de vida depende exclusiva-
mente da boa vontade de terceiros – mais conhecidos como os pais – e
de sua disposição a investir nos filhos. Mesmo quando crescemos e nos
tornamos capazes de cuidar de nós mesmos, continuamos dependentes
de uma rede de colaboração social para continuarmos vivos e saudáveis.
Somos, na verdade, o que os zoólogos chamam de espécie obrigatoria-
mente sociável, o que significa que nos desenvolvemos em grupo e que
não conseguimos nos manter física ou emocionalmente saudáveis por
longos períodos sozinhos. Tudo isso explica por que nos interessamos
tão profundamente por expressões faciais, emoções e comportamentos
alheios – quem faz o que para quem, quem é confiável e quem é o falso
bonzinho que se esconde por trás de um sorriso fingido. A oxitocina nos
prepara para reagir de forma apropriada, mesmo quando não fazemos
ideia do que está acontecendo.
Neste livro, investigaremos a influência da oxitocina nas pessoas, nas
relações pessoais e na sociedade. Ao longo da obra, veremos como as
várias experiências de vida e diferentes formas de pensar podem alte-
rar o efeito da substância. Analisaremos também a influência da religião
– fator bastante relevante nas discussões sobre moralidade – assim como
a da economia de mercado. Então, seguiremos o caminho inverso e dis-
cutiremos como a substância pode influenciar essas sólidas instituições.
Um ponto recorrente será o fato de que, a menos que a liberação de
oxitocina seja deficiente, a Regra de Ouro já é conhecida pelo corpo.
Quando tudo acontece conforme previsto, sentimos a recompensa ime-
diata, que varia desde uma vida mais saudável e feliz a – acredite ou não
– uma economia mais próspera. A maioria das pessoas não precisa levar
uma pancada na cabeça, ouvir longos sermões ou ser ameaçada com o
fogo do inferno ou com alguma maldição para querer tratar bem o próxi-
mo. Para tornar natural essa vontade, precisamos apenas criar as circuns-
tâncias em que a oxitocina possa exercer sua influência, o que significa,
grosso modo, manter distante ou bloquear a influência dos demais hormô-
nios. Não é tão fácil quanto parece, claro, mas acho que você concordará
que conhecer o funcionamento do sistema é um ótimo começo.
Começamos com a história da oxitocina no casamento, um começo
mais que apropriado, já que, como você deve lembrar, trata-se de um
hormônio ligado à reprodução. Uma ligação biológica entre sexo e mo-
ralidade? Que ideia!
Centenas de milhões de anos atrás, no início do desenvolvimento se-
xual, dependendo da generosidade do desconhecido, era uma boa manei-
ra de se tornar uma refeição: “Peixe grande come peixe pequeno” era a
ordem do dia, todos os dias. Como era possível, então, duas criaturas se
juntarem para reproduzir? Elas precisavam de um mensageiro químico
que as fizesse perceber que era seguro confiar ao incitar rapidamente um
comportamento gentil em resposta à manifestação de confiança. Parece
familiar?
O papel da confiança está interligado com todos os assuntos que dis-
cutiremos neste livro, permeando, inclusive, o início da história de como
acabei me envolvendo com este trabalho. Como explicarei detalhada-
mente adiante, comecei, de fato, minha carreira acadêmica elaborando
modelos econômicos que fazem os países prosperarem. O trabalho inicial
demonstrava que os fatores mais importantes para se determinar se uma
sociedade será ou não bem-sucedida não são os recursos naturais, a edu-
cação, a qualidade do seguro saúde ou a ética profissional da população.
O fator mais relevante para determinar o futuro de uma economia é o
fato de ela ser ou não digna de confiança – uma questão moral. Esse foi
o insight que me levou à Molécula da Moralidade.
Bem antes disso, já era fascinado pelo poder da confiança, sobretudo
porque descobrira os perigos de confiar demais. Aconteceu quando eu
era jovem, ainda bastante inocente, e me tornei vítima de um clássico
golpe – como costumamos dizer, caí no conto do vigário. Esse foi o pon-
to de partida para minha carreira de pesquisador. Este livro é o resumo
do que aconteceu até aqui.
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Sumário

Agradecimentos vii

Introdução Casamento vampiresco xi

CAPÍTULO 1 O jogo da confiança 3


Das pequenas trapaças à riqueza das nações

CAPÍTULO 2 Lagostas apaixonadas 29


A evolução da confiança

CAPÍTULO 3 Sentindo a oxitocina 53


O circuito que nos traz a HOME

CAPÍTULO 4 Bad boys 77


As complexidades dos gêneros

CAPÍTULO 5 Os desconectados 103


Vítimas de abuso, genes ruins e más ideias
CAPÍTULO 6 Onde o sexo toca a religião 131
Saindo do self

CAPÍTULO 7 Mercados morais 157


O líquido da confiança e o malefício da ganância

CAPÍTULO 8 Vida longa e feliz 185


Mímica que gera uma democracia de baixo para cima

Notas 213

Índice 221
entra falso rosto
Página deixada intencionalmente em branco
C A P Í TU L O 1

O jogo da confiança
Das pequenas trapaças à riqueza das nações

A
cena do crime foi na estação ARCO, uma comunidade tosca na
periferia de Santa Barbara, onde trabalhava meio expediente como
frentista, depois da escola.
Um dia, estava encostado na porta da entrada do escritório, sentindo
a brisa bater e esperando pelo próximo cliente, quando um homem bem-
vestido, mas que parecia preocupado, surgiu caminhando pela lateral do
posto.
“Talvez você possa me ajudar”, ele disse. “Tenho uma entrevista de
trabalho lá em Goleta e não sei o que fazer.”
“Qual o problema?”, perguntei.
“Bem, olha...” Ele estendeu a mão, segurando uma dessas caixas bo-
nitas de uma joalheria chique da cidade. Em seguida, abriu a caixa, que
continha um colar de pérolas que reluzia ao sol da Califórnia.
“Fui ao banheiro do posto e encontrei isto no chão. Estranho, não?
Alguém veio procurá-lo?”
“Ainda não.”

3
A molécula da moralidade

“Cara, isto é uma joia. Alguém deve estar transtornado por ter perdido
este colar. O que devemos fazer? Não posso ficar com ele.”
Ficamos parados por um momento, observando as pérolas, que, aos
olhos de um menino de 18 anos como eu, pareciam realmente caras.
Então, como uma deixa da próxima fala de um personagem, o tele-
fone tocou. Fui até a mesa e atendi. Um homem do outro lado da linha
disse: “Acabei de vir do seu posto. Estava com um colar que comprei para
minha esposa e acho que o deixei cair enquanto...”
“Ei!”, exclamei. “Não acredito... o cara está bem na minha frente. Ele
o achou no banheiro masculino.”
“Inacreditável!”, o homem respondeu. “Olha, diga a ele para ficar onde
está e guardá-lo para mim. Estarei aí em meia hora.”
“Claro!”
“Vou lhe dar um telefone”, disse ele, enquanto dizia os números. “Es-
cute... diga a ele que estou levando $200 pelo inconveniente. Ele salvou
minha vida ou, para dizer o mínimo, meu casamento.”
Recoloquei o fone no gancho e expliquei com empolgação a meu novo
amigo que o dono do colar chegaria em meia hora e traria uma recom-
pensa de $200, mas ele não me pareceu muito empolgado.
“Cara... não posso esperar. Tenho de estar em Goleta em meia hora
e preciso muito conseguir este emprego.” Ele me olhou e perguntou de
novo: “O que devemos fazer?”
Pensei por alguns minutos, enquanto ele me observava.
“Ficarei aqui até o fim do expediente”, afirmei. “Acho que posso es-
perá-lo chegar.”
“Pode?”, ele sorriu com alegria e deu um longo suspiro. “Cara, perfei-
to! Então podemos rachar o dinheiro.”
“Sério?”, indaguei, surpreso, já pensando como usaria minha parte da
recompensa.
“Claro!”
Então, ele mordeu o lábio, parecendo novamente preocupado.
“Só tem um problema... eu não vou voltar para estes lados.”

4
O j o g o d a co n f i a n ç a

“Tudo bem. A gente divide antecipadamente. Toma... dou a sua parte


agora mesmo.”
Foi o que fiz. Na verdade, peguei $100 emprestado do dinheiro do
posto e passei para o cara que havia acabado de conhecer, não fazia nem
cinco minutos.
Tenho certeza de que, a essa altura, você já tenha se dado conta de que
o colar de pérolas era falso; apenas estava numa caixa que parecia cara e,
claro, o cara do telefone era comparsa do que apareceu no posto com a
caixa na mão.
E então pergunto a você: Como alguém pode ter sido tão estúpido a
ponto de cair nesse golpe e dado dinheiro com base numa história barata
e numa coincidência absurda?
Eu teria ficado cego pela ganância?
Sem dúvida, apareceram dois cifrões em meus olhos quando vi a joia
e ouvi a palavra “recompensa”. Mas eu era um garoto razoavelmente es-
perto, com talento para números e para solucionar enigmas. Portanto, se
alguém tivesse de desconfiar do golpe...
Tampouco era o caso de eu ter aprendido a diferenciar o certo do
errado. Acha que seus pais foram rígidos? Os meus me tiraram da escola
católica por não ser rígida o suficiente. Embora pareça piada, antes de
eu nascer, minha mãe era freira. Ela passara quatro anos no Sisters of
Loretto at the Foot of the Cross,* e cresci assistindo a missas em latim,
aspirando a fumaça do defumador como coroinha. Ela inspecionava a su-
jeira do meu quarto com luvas brancas e deixava bem claro que tínhamos
nascido pecadores e éramos movidos por sentimentos que deveriam ser
rechaçados e monitorados incansavelmente para não nos comportarmos
mal. Minha mãe usava a abordagem clássica para administrar a natu-
reza humana: a de cima para baixo, repleta de “deveis” e “não deveis”,
que dominaram a história ocidental. Ela baseou a criação dos filhos no

* Nota da Tradutora: Irmandade na cidade de Santa Fé, Novo México, Estados Unidos, hoje
conhecida como Comunidade de Loretto.

5
A molécula da moralidade

pressuposto de que o comportamento altruísta e moral era impossível


sem a onipresente ameaça de punição, e, quanto mais terrível, melhor.
Imagine a imagem do inferno de Hieronymus Bosch.*
Mas quando me lembro do incidente da ARCO, não é a ganância que
me vem à mente, nem qualquer pecado mortal com os quais os filósofos
e teólogos (e minha mãe) se preocupavam tanto. Acredito que minha
motivação veio do genuíno desejo de ajudar. O pobre sujeito tinha uma
entrevista importante, parecia perturbado, em apuros, quase desespera-
do. A primeira coisa que fez foi pedir que o ajudasse, e ele de fato parecia
precisar de ajuda. Mais que isso: ele parecia confiar demais em mim, com
base em tudo o que disse. Ele estava contando com um garoto, ainda na
escola, para ajudá-lo a devolver o colar a quem de direito. Por várias ve-
zes, perguntou-me: “O que devemos fazer?” Em seguida, incumbiu-me
de resolver a situação. Depois de uma demonstração de confiança como
aquela, ajudá-lo me pareceu o mais correto a ser feito.
Na faculdade, me especializei em Biologia Matemática e Economia,
mas a dúvida sobre como temos a certeza do que é certo continuou comi-
go. Lia muito sobre filosofia moral e até teologia e, após a graduação, ma-
temática, biologia, economia e preocupações morais se reuniram em meu
primeiro trabalho sobre a relação entre confiabilidade e prosperidade.
Vamos agora pular para novembro de 2001.
São 2 horas e atravesso a cidade carregando os equipamentos para
o laboratório que consegui emprestado na UCLA (University of Cali-
fornia, Los Angeles) ao convencer um professor de lá com doutorado,
chamado Rob Kurzban, a colaborar comigo. Convoquei dois alunos de
graduação para servirem tanto de Sherpas** como de passageiros oficiais
para que eu pudesse usar a faixa seletiva da autoestrada. Sou professor

* Nota da Tradutora: Jeroen van Aeken, cujo pseudônimo era Hieronymus Bosch, foi um pintor
e gravador neerlandês dos séculos XV e XVI. Muitos de seus trabalhos retratam cenas de pecado
e tentação, e ele recorria com frequência à utilização de figuras simbólicas complexas, originais,
imaginativas e caricaturais, muitas consideradas obscuras na época.
** Nota da Tradutora: Membros do povo tibetano que vivem no Himalaia, Nepal e Tibete, famo-
sos por suas habilidades em montanhismo.

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O j o g o d a co n f i a n ç a

titular de Economia na Claremont Graduate University e estou no iní-


cio de um projeto de pesquisa um tanto atípico, ampliando as fronteiras
da área em que atuo, o que significa que estou tendo de fazer ciência
da mesma forma que os produtores independentes fazem cinema – pe-
dindo espaços para locação, implorando por financiamento e transpor­
tando equipamentos por toda a cidade no meu carro. Hoje fizemos
cerca de quatro viagens entre Claremont e Westwood, com duração de
uma hora e meia cada trecho.
Embora ainda não tivesse consciência, estava prestes a inventar um
novo campo de estudo chamado neuroeconomia, ao realizar a primeira
versão vampiresca do Jogo da Confiança.

O Jogo da Confiança: como funciona

Esta é uma ferramenta de pesquisa clássica em economia experimental,


para a qual reservaremos um bom tempo. Digamos que você esteja na fa-
culdade e precise de uma renda extra, portanto concorda em participar do
chamado estudo de decisões financeiras. Você é levado a uma ampla sala,
como a que peguei emprestado da UCLA, com 15 ou 16 desconhecidos,
e se senta numa pequena baia com um computador. Você lê as instruções
on-line, que confirmam que você tem $10 na conta apenas por ter com-
parecido, mas receberá mais em breve, pois o computador perguntará, de
forma randômica, a um participante anônimo – vamos chamá-lo de Fred
– se ele gostaria de transferir seus $10 ou parte do valor a outro partici-
pante anônimo, que é você.
Mas por que ele faria isso? Porque, de acordo com as regras on-line
que Fred e você leram há pouco, qualquer quantia que ele doe triplicará
de valor quando cair em sua conta. Porém, multiplicar seu dinheiro não
seria uma atitude meramente altruísta de Fred. As regras dizem tam-
bém que, se ele transferir dinheiro a você, você deverá doar parte de seu
montante triplicado de volta a ele. A pergunta é: Você o fará? Você seria
confiável a ponto de retribuir?

7
A molécula da moralidade

A beleza deste teste está no fato de que não há pressão social para que
você seja generoso e se comporte da melhor forma, pois os computadores
omitem a informação sobre quem fez o quê. Até os encarregados pelo
teste identificam os participantes apenas por códigos. Portanto, seja o
Mestre do Universo ou Madre Teresa de Calcutá, o modelo moral que
você escolhe seguir ao dar algo (ou nada) de volta fica totalmente a seu
critério. Mesmo no final do jogo, ninguém saberá o total que você rece-
beu, a menos que o diga.
Digamos que Fred, apenas para se mostrar, tenha separado $2 dos $10
que recebeu e transferido para você. Os $2 triplicaram, e foram depositados
$6 em sua conta, o que significa que agora tem $16 ($10 + $6), e Fred, $8
($10-$2). Portanto, você está indo muito bem. Você não sabe quem fez a
doação, mas sabe que recebeu um adicional de $6 e que o responsável por
isso é um doador anônimo em uma das outras baias. Também sabe que a
decisão do doador foi baseada na expectativa de que você seria decente o
suficiente para, pelo menos, dividir parte de seu montante. Afinal, abrir mão
de $2 não vai tirar pedaço. Parece digno – como pagar os 10% ao garçom que
nos serve num restaurante. É o que as pessoas decentes fazem, correto?
Digamos que você decida dar $3 de volta a Fred, o que o deixará com
$13 e aumentará o montante de Fred para $11 – um aumento real de $3
para você e $1 para ele. Não é muito, mas, ainda assim, é melhor do que
o início do jogo. Por outro lado, você estará em seu direito se optar sair
com os $10 originais mais o bônus de $6 resultantes da doação de Fred,
apenas com um “Valeu, otário!”.
À medida que os valores transferidos aumentam, o potencial de ganho
se torna mais interessante. Se Fred estiver realmente confiante e optar por
arriscar tudo, dando a você todos os $10 originais, o valor será triplicado
em inesperados $30, e você passará a ter $40. Se você for escrupuloso e
justo, dividirá o novo montante com seu parceiro anônimo e ambos aca-
barão com $20 – o dobro do que teria ganhado se ele não tivesse confiado
e você não tivesse feito jus a essa confiança.
Eis a pergunta que vale $64 mil: Se você não tiver qualquer obrigação
de ser digno de confiança e se ninguém ficasse sabendo, por que faria jus

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O j o g o d a co n f i a n ç a

à confiança de um estranho, num gesto recíproco que resultaria em me-


nos dinheiro no seu bolso? Se ninguém jamais saberá, qual o problema de
ser um idiota ganancioso e passar a perna no cara? Bem, de acordo com a
teoria econômica que dominou a maior parte do século XX, é exatamente
isso que você deveria fazer.
Os economistas caíram de amores pelo conceito de “egoísmo racio-
nal”, que pressupõe que cada indivíduo toma decisões com base em van-
tagens pessoais e em cálculo racional para saber onde exatamente está a
vantagem.
Os teóricos da economia haviam sido inspirados pelas ideias da físi-
ca teórica, em especial na área da termodinâmica, com seus sistemas de
estímulos e resultados em direção ao equilíbrio. A beleza do egoísmo ra-
cional como princípio organizador residia no fato de permitir aos econo-
mistas simplificar bastante os modelos matemáticos. Se os seres humanos
tomam decisões (a) de forma racional e (b) com base em seus próprios
interesses, os criadores dos modelos não precisam levar em consideração
emoções, idiossincrasias de personalidade ou repentinas faltas de lucidez.
Cada pessoa – ou, pelo menos, a pessoa teórica que habita nos modelos
– sempre avalia as opções e faz escolhas lógicas usando como critério o
melhor para ela.
Um cara chamado John Nash, inspirador do filme Uma mente brilhan-
te, de Ron Howard, ganhou o Prêmio Nobel de Economia em 1994 por
aprimorar o conceito de egoísmo racional, que resultou numa fórmula mais
sofisticada e extremamente influente chamada O Equilíbrio de Nash. De
acordo com o Teorema de Nash, sua atitude no Jogo da Confiança deve ser
tão somente guardar qualquer quantia que lhe seja dada, mesmo que você
saiba que outra pessoa tenha, em parte, lhe dado dinheiro na esperança de
uma atitude recíproca. Da mesma forma, o Equilíbrio de Nash afirma que
a outra pessoa deveria ser sensata, esperar o comportamento egoísta e não
confiar sequer um centavo a você. Afinal, vocês são completos estranhos.
Claro, a consequência involuntária desse comportamento “racional” – ou
seja, ser o número um – é a perda de oportunidade, para ambos, de ganhar
multiplicando o valor e, em seguida, dividindo-o.

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A molécula da moralidade

Por mais de um século, a ideia de que o comportamento humano é


fundamentalmente racional e egoísta foi transmitida como mensagem
de Deus a milhões de alunos, muitos dos quais se tornaram líderes de
poderosas empresas e instituições governamentais. Existem as pessoas
que, com frequência, estabelecem padrões de comportamento em Wall
Street, no governo e nos conselhos de multinacionais. Porém, com todo
o respeito a John Nash e seu Prêmio Nobel, o Jogo da Confiança mostra
que o egoísmo racional é impiedoso quando se trata de pessoas.
Nos Estados Unidos, a quantia inicial chegava a $1 mil e, nos paí-
ses em desenvolvimento, o equivalente a três meses de salário. Seja com
grandes ou pequenas somas, em dólares ou dinares, os participantes qua-
se sempre se comportavam com mais confiança e confiabilidade do que
as teorias previam. Em minhas próprias experiências com o jogo, 90%
das pessoas na posição A (os que confiavam, como Fred) davam certa
quantia para o jogador B (os que recebiam, como você), e cerca de 95%
dos jogadores B retornavam parte do dinheiro, com base em... o quê?
Gratidão? Um discernimento inato do que é certo e errado?
Ou esse comportamento poderia estar relacionado com um hormônio
reprodutor com propriedades curiosas que incluem confiança e confiabi-
lidade recíproca?

Uma ideia bizarra?

Um colega me disse que era “a ideia mais estúpida do mundo”, mas,


para mim, fazia todo o sentido. Ao menos, sentido suficiente para me
fazer verificá-la com mais cuidado antes de descartá-la como uma ideia
bizarra.
Nossos ratinhos de laboratório humanos – os alunos da UCLA que
concordaram em participar da experiência por uns trocados – começa-
ram a chegar e se acomodar por volta das 9:30. Às 10 horas, fui para a
frente da sala vestido com um elegante jaleco e fiz algumas considerações
iniciais. Agradeci a eles por concordarem em participar e os lembrei – já

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O j o g o d a co n f i a n ç a

tínhamos explicado tudo no e-mail de seleção – de que já tinham ganha-


do $10 apenas pela participação.
Então, resumi o que daríamos – a mesma história sobre o jogador A
e o B, que descrevi poucas páginas atrás –, mas com um novo elemento.
Logo após a decisão, amarraríamos torniquetes nos braços dos partici-
pantes para colher seu sangue.
Não houve reação perceptível. Eles sequer pareciam notar minha pre-
sença; sequer pareciam acordados.
Pedi que se conectassem nos computadores das baias com seu código
de usuário particular e lessem as instruções. O protocolo descrevia em
detalhes como suas decisões poderiam transformar os $10 de que já dis-
punham em mais ou menos dinheiro.
Então, comecei a perceber sobrancelhas se arqueando e expressões um
pouco mais animadas. Eles pareciam ter acordado. Era como se estives-
sem pensando: “De que se trata? Uma combinação de Quem quer ser um
milionário com ‘General Hospital’?”
Eu tinha de manter todos ocupados enquanto focava as decisões indi-
viduais de cada participante seguidas pela coleta de sangue. Assim, pedi a
um grupo que preenchesse uma pesquisa de personalidade.
Comecei a chamá-los pelos códigos de usuário, selecionados de for-
ma randômica. “Número 6, por favor, tome sua decisão e, em seguida,
levante a mão.”
Nesse ponto, a pergunta – cuja resposta achávamos que sabíamos – era
se algum jogador A optaria ou não por transferir parte ou todo o dinheiro
para um jogador B anônimo, escolhido de forma aleatória. O jogador
A confiaria o suficiente para doar dinheiro, contando que o B agiria de
forma recíproca e daria um valor em retorno?
Quando uma aluna viu alguém levantar a mão, imediatamente levou
o jogador A, que tomara a decisão, a uma sala menor anexa, preparada
para colhermos o sangue. Parecia improvável que o tipo de decisão que
o jogador A tinha de tomar, um cálculo um tanto frio, afetaria o nível de
oxitocina, mas colhemos o sangue mesmo assim, para termos certeza – já
que se tratava de uma experiência inédita. Tínhamos certeza, porém, de

11
A molécula da moralidade

que qualquer alteração hormonal em qualquer participante seria provisó-


ria. Pesquisas em animais haviam demonstrado que a oxitocina se eleva
em resposta à estimulação apropriada e, então, se normaliza em aproxi-
madamente três minutos, o que significava que a coleta de sangue deveria
ser feita logo em seguida à decisão.
Para fazer as honras na sala de coleta, tínhamos um médico residente
da Van Nuys* chamado Bill Matzner. Em início de carreira, Bill decidira
fazer pós-graduação comigo, com especialização em Economia da Saú-
de. Convenci-o a estudar a economia dos vampiros, e agora ele se via na
situação de ser meu técnico em sangue.
Como médico, Bill era inestimável para minha pesquisa improvi-
sada – lembre-se de que, nesse momento, eu ainda era o tipo de cara
que usava o bloco de notas do computador, não o que trabalhava em
laboratório – e recebia doações de tudo, desde band-aids e algodão até
as centrífugas, os dispositivos mecânicos que giravam o sangue para
separar o soro do plasma das hemácias. Mas com prática estabelecida
e muitos assistentes, Bill estava um pouco enferrujado em coleta de
sangue, então me ofereci como cobaia para que ele pudesse praticar
em mim. Não era minha intenção torturar as pessoas sem necessidade,
então ensaiamos o passo a passo do protocolo, incessantemente, para
nos certificar de que poderíamos agir com rapidez, sem desperdiçar o
tempo (ou o sangue) de ninguém.
Outro problema foi que a centrífuga gentilmente cedida por Bill não
era a de 7.000 refrigerada. Não só a oxitocina desaparece rapidamente da
corrente sanguínea, como se decompõe logo em temperatura ambiente.
Portanto, é preciso colher o sangue e refrigerá-lo com muita rapidez. Por
sorte, vinha planejando essa aventura por um bom tempo e, enquanto va-
gava pelo campus no final do semestre, deparei com alguns alunos fazendo
as malas para passar o verão em casa. Sem grande dificuldade, consegui
convencê-los a doar seus minirrefrigeradores em prol da ciência.

* Nota da Tradutora: Bairro de San Fernando Valley, região de Los Angeles, Califórnia.

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O j o g o d a co n f i a n ç a

Com nossa tecnologia precária, desenvolvemos um protocolo que abran-


gia desaceleração das amostras, transferência das substâncias separadas
do sangue para microtubos, congelamento rápido a –100 graus centígra-
dos com uso de gelo-seco e armazenamento do material no freezer ultra-
frio de Bill por 20 minutos na UCLA até que tivéssemos uma quantidade
suficiente de amostras para analisar.
Quando todos os participantes A já haviam se decidido, e seu sangue,
colhido, autorizamos a liberação dos resultados aos participantes B. Al-
guns podem ter se retraído, mas, com base no histórico do Jogo da Con-
fiança, sabíamos que a maioria teria uma agradável surpresa ao encontrar
alguns dólares a mais na conta.
Agora era o momento de verificar quantos estariam dispostos a dividir
a diferença e doar de volta parte do novo montante.
“Número 9, por favor, tome sua decisão. Em seguida, levante a mão.”
Novamente, se o fato de perceber a demonstração de confiança de um
jogador A fez a oxitocina de um jogador B aumentar, tínhamos pouquís-
simos minutos para captar esse aumento.
O participante 9 sentou-se e dobrou a manga da camisa. Bill amarrou
o torniquete e injetou a agulha. O participante gemeu de dor. Bill inseriu
a agulha de novo e, mais uma vez, ouvimos o gemido. Olhei para a sala
principal, onde os demais jogadores, como pude ver do anexo, se volta-
vam em direção ao som que vinha da sala onde estávamos. Bill precisava
de mais prática, além das sessões que tivéramos.
Outro voluntário desmaiou, o que resultou num dilema. Não sabía-
mos quantas amostras válidas conseguiríamos e, além disso, tínhamos de
agir muito rápido com cada participante, antes de o leve rastro de oxito-
cina voltar ao nível normal.
Debruçamo-nos sobre o pobre rapaz: Bill com a seringa e uma aluna
tentando segurar o participante inconsciente enquanto ele desmoronava
da cadeira.
“O que você quer fazer?”, Bill me perguntou.
Eu estava desesperado para ter algum dado. “Vamos colher o sangue
dele e depois o reanimamos.”

13
A molécula da moralidade

Mas nem com suco de laranja e biscoito conseguimos reanimá-lo. In-


formei aos participantes que estávamos com um pequeno problema e su-
geri que navegassem na internet enquanto tentávamos resolvê-lo. Levou
cerca de 15 minutos, mas finalmente consegui colocar nosso companhei-
ro desfalecido de pé.
De volta à sala principal para retomar a experiência, percebi que um
dos participantes estava num site de cunho sexual – não exatamente por-
nográfico, mas um site de música com vídeos “quentes”. Preocupado com
os efeitos que essas influências externas pudessem causar nele, anotei seu
código de usuário quando ele foi colher sangue. Verifiquei o resultado
depois e, como previa, seu nível de oxitocina – lembrem-se: o hormônio
reprodutor – estava nas alturas. Por conta dos estímulos externos que
sofreu, tivemos de desconsiderar o resultado de seu exame de sangue.
No ano e meio seguinte, repetimos a versão vampiresca do Jogo da
Confiança 14 vezes. De novo, era uma experiência bizarra, e eu só podia
levá-la adiante quando conseguia angariar milhares de dólares por meio de
doações, levar todo o equipamento para a UCLA, fazer o maior número de
sessões possível, armazenar as amostras no freezer da sala de Bill, em Van
Nuys, no caminho para casa. Em algum momento, teríamos amostras sufi-
cientes para realizar uma análise de dados estatisticamente significativa.
Eis o que descobri.
Primeiro, verificamos os níveis de confiança e confiabilidade espe-
rados, o comportamento moralmente generoso que desafia o egoísmo
racional e o Equilíbrio de Nash. Também observamos compensações fi-
nanceiras por honestidade – o que, dada minha pesquisa sobre os fatores
que tornam as sociedades prósperas, não me surpreendeu. Os jogadores
A que decidiram confiar nos parceiros anônimos terminaram, em média,
com $14, ou seja, 40% a mais do valor inicial. Os jogadores B, que rece-
beram dinheiro de parceiros que confiaram na reciprocidade, saíram do
laboratório, em média, com $17, ou seja, com 70% de lucro. Portanto,
o comportamento social positivo estava resultando na prosperidade de
nossa pequena população de graduandos, mesmo que o lucro não tenha
sido distribuído igualmente.

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O j o g o d a co n f i a n ç a

Mas o que se passava no sangue e no cérebro? Neste primeiro Jogo


da Confiança vampiresco, estávamos de fato trabalhando na base do im-
proviso, portanto tínhamos de nos precaver para não interpretarmos e
chegarmos a conclusões sem fundamento. (Além disso, eu era econo-
mista! O que eu sabia sobre valores sanguíneos?) Por isso, continuamos a
realizar o estudo repetidamente, até que tivéssemos uma amostra grande
o suficiente que pudesse embasar nossas conclusões. E encontramos uma
correlação direta e impressionante entre o nível de oxitocina de uma pes-
soa e sua disposição a responder à demonstração de confiança, dando de
volta parte do dinheiro acumulado.
Por outro lado, diversos fatores podem contribuir para quase todas as
respostas biológicas ou comportamentais. Portanto, para apontar o que
estava ou não causando o comportamento virtuoso, medimos as taxas
de outros nove hormônios, como a testosterona masculina e o estradiol
e progesterona femininos, que interagem com a oxitocina para verificar
se estavam exercendo alguma influência. Em seguida, correlacionamos
todos os dados fisiológicos com perguntas de pesquisa de personalidade,
como “Você bisbilhota os pertences de seus colegas de quarto quando
eles não estão?”, “Com que frequência você bebe?” e “Com que frequên-
cia vai à igreja?”.
Depois de intermináveis horas de análise, não descobrimos qualquer
relação entre esses outros fatores e a generosidade recíproca que obser-
váramos. O único fator que poderia explicar esse comportamento era o
aumento do nível de oxitocina. Mas como saberíamos que era confiança
que impulsionava a resposta da oxitocina? Como poderíamos nos certifi-
car de que não era o recebimento do dinheiro?
Para verificar essas questões, realizamos uma experiência controlada
em que todas as circunstâncias eram as mesmas, à exceção de um ele-
mento: a confiança de uma pessoa em outra. Em vez de o participante
A decidir por conta própria se transferiria ou não parte do dinheiro para
o participante B, organizamos uma forma de tornar a escolha aleatória.
Com o orçamento limitado, uma forma independente de fazer ciência,
fui até o Walmart comprar um contêiner de plástico transparente, revesti

15
A molécula da moralidade

o lado de fora com fita isolante escura e enchi-o com bolas de pingue-
-pongue numeradas de um a dez. Nessa versão aleatória do jogo, sem ter
a confiança como base, eu chamaria o código de usuário, e o participante
correspondente tiraria uma bola da caixa na frente de todos. O número
da bola seria o valor abatido de sua conta e triplicado ao ser transferi-
do para a conta de um participante B selecionado de forma aleatória. A
transferência do dinheiro ainda acontecia, mas sem a interferência dos
participantes.
Quando os participantes recebiam o dinheiro transferido por conta da
decisão de alguém confiar neles, seu nível de oxitocina aumentava 50% a
mais do que o nível daqueles que recebiam o dinheiro com base no sor-
teio das bolas de pingue-pongue e na eventual sorte de ser escolhido. Os
que sabiam que seu lucro advinha do fato de outra pessoa confiar neles
devolveram quase o dobro – 41% do total – do que os que receberam
a transferência por sorteio – apenas 25% dos participantes devolveram
parte do montante.
Para fechar com chave de ouro, quando a transferência original se
baseou em confiança, havia também uma correspondência regular direta
entre o valor da transferência e a resposta do receptor. Quanto mais di-
nheiro transferido, mais elevado o nível de oxitocina, maior o montante
devolvido no final. Quando o dinheiro vinha do fator sorte, não havia
qualquer correlação entre o nível de oxitocina e a generosidade (ou não)
demonstrada pelo participante B.
Tínhamos acabado de descobrir o primeiro estímulo não reprodutor
para liberação da oxitocina nos seres humanos, o que me deixou muito
feliz por vários motivos, alguns dos quais envolvem frustrações na profis-
são que eu vinha exercendo.

O vínculo perdido

Por conta de sua inveja da Física, a Economia tradicional abraçara a Ma-


temática, em detrimento do real interesse na natureza humana, apesar do

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O j o g o d a co n f i a n ç a

fato de a Economia ter nascido como ramificação da Filosofia Moral. E


a pergunta-chave da Filosofia Moral – se os seres humanos são essencial-
mente bons ou maus – tem de ser a discussão mais longa de todas, desde
o início dos debates filosóficos.
Pouco depois de Moisés receber os Dez Mandamentos no Monte Si-
nai, os Salmos descreviam a humanidade como “seres um pouco abaixo dos
anjos”. Em defesa de um ponto de vista contrário, o dramaturgo romano
Platão declarou que “o homem é o lobo do homem”. Filósofos, pregadores
e políticos vêm avançando desde então, oferecendo teorias para definir a
essência de nossa moralidade, desde a ideia medieval do pecado original até
o pensamento do século XVII, de que nosso estado natural era “a guerra
de todos contra todos”, passando pelo pensamento romântico de que nas-
cemos como uma tábula rasa sobre a qual todo tipo de bondade pode ser
inscrita, se vivermos no ambiente apropriado durante a infância.
Não se trata apenas de uma disputa acadêmica, mas de uma discussão
com consequências, pois cada vertente teórica compete para influenciar
nossas leis, normas culturais e políticas sociais.
Há 250 anos, um desconhecido professor da desconhecida University
of Glasgow publicou um livro chamado Teoria dos sentimentos morais, no
qual argumentava que o comportamento generoso e benevolente tinha
origem em nossos vínculos afetivos com as pessoas. O autor afirmou que
o sofrimento alheio gerava um vínculo o qual ele chamava de “simpatia
mútua”.
Em retrospecto, parece óbvio. Sabemos que o sofrimento alheio pode
resultar numa força imediata tamanha que faz soldados se atirarem con-
tra granadas para protegerem os parceiros das explosões. Às vezes, obriga
pessoas comuns a pularem nos trilhos do metrô para salvar da morte
completos estranhos.
Entretanto, Teoria dos sentimentos morais gerou tanta polêmica que
alunos de toda a Europa de repente se concentraram em Glasgow para
estudar com o autor. Da noite para o dia, o incógnito professor se tornou
uma celebridade intelectual do século XVIII que, mesmo com os olhos
salientes e as crises convulsivas, dificilmente de adequava a esse papel.

17
A molécula da moralidade

Ele morava com a mãe e era tão ausente que se perdia com frequência
nas florestas, falando sozinho, vestido apenas com as roupas de baixo.
Ainda assim, o conceito de simpatia mútua foi tão devastador, e o livro,
um sucesso tão estrondoso, que ele passou a viajar para dar palestras e se
aproximou de Voltaire e Benjamin Franklin, com quem conviveu até o
resto de seus dias.
Por que tanta polvorosa? Bem, por séculos, grande parte do pensamen-
to moral era como o de minha mãe, associado ao pecado original e à que-
da de Adão. Mas aqui estava uma teoria que explicava o comportamento
moral que não se resumia a frear nossa perversão “natural”. Essa teoria
não supunha, como o filósofo do século XVII Thomas Hobbes, que nosso
estado natural era o de “guerra de todos contra todos” nem confiava numa
autoridade maior, ou num místico sexto sentido, ou num cálculo racional
e restrição em nos ajudar a superar nossa tendência à lei do mais forte.
Em vez disso, a Teoria dos Sentimentos Morais sugeria que esse com-
portamento consciente e benevolente era intrínseco à nossa constituição
psicológica, e que vinha à tona de forma bastante natural de nossas relações
sociais. O discernimento do que é certo e errado é, em outras palavras, uma
habilidade inata do ser humano, uma reação instintiva.
A maioria dos filósofos seculares manteve algo muito semelhante à visão
sombria da Igreja sobre nossas inclinações naturais, assim como uma abor-
dagem descendente para nos manter na linha. A única diferença era que, em
vez de um deus da Cólera, que nos ameaçava para obter nossa submissão, a
força descendente que os filósofos viam lutar para impor o controle era a ra-
zão humana. Platão descreveu a mente como um cocheiro tentando adestrar
os impulsos animais e selvagens do homem, os quais ele caracterizava como
cavalos vigorosos. Dois mil anos depois, a Razão Pura dispunha de um de-
fensor ainda mais zeloso, o filósofo alemão Immanuel Kant.
Na visão de Kant, o único aspecto que nos tornava humanos e livres
era agir de acordo com as regras que nós mesmos nos impúnhamos, pro-
jetadas pela razão. O fundamento dessas regras, o qual ele chamou de
Imperativo Categórico, diz que para se chegar à virtude, devemos agir
como agiríamos se nossa ação fosse se tornar lei universal. No entanto,

18
O j o g o d a co n f i a n ç a

a pureza da Razão Pura de Kant pode ter falhado em afirmar que, para
que qualquer ação seja de fato moral, deve visar totalmente à lei da mora-
lidade. Se agirmos com base na moralidade apenas porque nos sentimos
bem sendo virtuosos, não conta. E não há exceções, independentemente
do resultado. Se o ato de mentir viola a lei universal, não devemos mentir
jamais, mesmo que um psicopata assassino esteja atrás de seu amigo e
dizer a verdade sobre seu paradeiro possa resultar em sua morte.
Se essa linha de raciocínio puro parece fria e pouco prática, é apenas
um dos muitos problemas com abordagens descendentes em geral. As
abordagens que, como as de minha mãe, confiam em ensinamentos reli-
giosos vão de encontro ao fato óbvio de que existe algo em torno de qua-
tro mil religiões diferentes no mundo, e que cada uma agrega suas regras
particulares às orientações básicas para o comportamento pró-social. Ao
longo da História, nada gerou mais derramamento de sangue e violência
implacável que os conflitos entre as diferentes formas de se chegar a Deus,
a razão principal pela qual os filósofos seculares tentaram se sobressair em
relação a toda essa divergência e encontrar respostas universais através
da razão. Mas nesse esforço, os filósofos mantinham o mesmo desprezo
– que em geral caracteriza a religião – por nossa biologia. O esforço de
abandonar a mera “carne” depende da noção de que a mente – e a vonta-
de própria, a alma e o indominável espírito humano – de alguma forma
está à parte do corpo, o que, de acordo com essa visão, a ciência moderna
estaria – desculpe, Senhor Kant, comprovadamente errada.
Somos criaturas biológicas, portanto tudo que somos advém de pro-
cesso biológico. A biologia, por meio de seleção natural, recompensa e
incentiva comportamentos adaptáveis, o que significa que contribuem
para a saúde e a sobrevivência de tal modo que produzem o maior núme-
ro de descendentes adiante. Por incrível que pareça, ao seguir essa diretriz
da sobrevivência do mais forte, a natureza chega às mesmas conclusões mo-
rais oferecidas pela religião, ou seja, de que é sempre melhor se compor-
tar de maneira colaborativa e – na falta de uma palavra melhor – moral.
A natureza chega exatamente ao mesmo ponto seguindo um caminho
diferente e talvez mais universal.

19
A molécula da moralidade

A noção da simpatia mútua foi muito mais centrada no homem que


qualquer outra, o tipo de filosofia moral que poderia deixar o embrionário
Movimento Romântico, pronto para dar ao mundo o Bom Selvagem e os
Direitos do Homem, para trás de forma irrecuperável. Se grande parte da
História da humanidade foi impulsionada pela crueldade de pensadores
obcecados como Hobbes, talvez tenha sido por influências específicas do
sistema. Modificar a natureza e a extensão dessas influências pode resul-
tar na modificação da reação moral.
No século XVIII, ainda faltava muito para que a ciência pudesse con-
tribuir para a discussão sobre o comportamento, portanto nosso professor
nerd de Glasgow foi compreensivelmente um pouco vago em relação ao
funcionamento do sistema de simpatia mútua. Ainda assim, vemos algo
muito parecido – que chamamos de empatia – impulsionando a conduta
moral a milhares de pequenas gentilezas todos os dias. A cada dia, em
todo o mundo, incita bilhões de pessoas a compartilharem o que têm
com quem se preocupam.
E, mesmo assim, depois da primeira onda de entusiasmo, a simpatia
mútua perdeu a batalha das grandes ideias na filosofia moral. Em parte,
foi ofuscada pela teoria da Pura Razão de Kant, que veio à tona mais ou
menos na mesma época. Mas havia outro golpe intelectual por chegar,
cujo impacto seria ainda maior.
O romantismo pode ter captado as artes e, até certo ponto, a situação
política do final do século XVIII, mas, no mundo do trabalho, o es-
pírito real da época era um pensamento novo chamado Capitalismo. O
espírito empreendedor estava em alta, e a tradição, em declínio. Homens
ricos e poderosos começaram a abrir negócios e a construir fábricas, ao
mesmo tempo que dispensavam pensamentos medievais, como preço jus-
to e noblesse oblige.* Uma vez que suas imensas máquinas estavam prontas

* Nota da Tradutora: Noblesse oblige significa, ao pé da lera, “nobreza obriga”. Essa expressão é utiliza-
da quando se pretende dizer que o fato de pertencer a uma família de prestígio ou de ter certa posição
social ou um nome tradicional obriga a pessoa a proceder de forma adequada, à altura do status social
ou intelectual. Outro uso da expressão é quando se trata de elevação de sentimentos ou de conduta,
ou seja, é possível falar-se de nobreza de sangue, mas também de nobreza de caráter.

20
O j o g o d a co n f i a n ç a

para entrar em funcionamento, eles fechavam os pastos abertos, para que


os arrendatários não tivessem escolha a não ser trabalhar nas fábricas.
O homem que o capitalismo transformou em teimoso, sem orienta-
ção sentimental moral para essa nova era de espírito empreendedor, foi
Adam Smith, autor de A riqueza das nações. A ironia está no fato de Adam
Smith ser o mesmo professor com a cabeça nas nuvens cujo primeiro
livro colocara o sentimento humano como o centro do debate sobre mo-
ralidade. Na verdade, foi o tempo livre que ele obteve em consequência
do sucesso do primeiro livro que lhe possibilitou escrever A riqueza das
nações, cujo impacto foi tão estarrecedor que, comparativamente, faz pa-
recer a Teoria dos sentimentos morais um fracasso.
Muitos fatores podem explicar esse efeito eletrizante, mas uma frase,
citada repetidamente nos últimos dois séculos, transmite a essência do
avassalamento:

Não esperamos que nosso jantar venha da benevolência do açouguei-


ro, do cervejeiro ou do padeiro, mas da consideração por seus próprios
interesses.

Numa época em que o Ocidente se movia além dos pensamentos de


pecado e dos limites que esses pensamentos impunham, eis um divisor
de águas. No mundo medieval, a busca pelo ganho pessoal era consi-
derada orgulho, inveja e ganância. Mas agora, de acordo com o já céle-
bre Adam Smith, ganho pessoal obtinha uma nova categoria linguística,
chamada de “interesse” pessoal; não era mais um vício, mas uma virtude!
A evolução pessoal não era mais vista como resultado de paixões incon-
troláveis. Agora, na Era da Razão, evolução pessoal era algo razoável. E
o melhor de tudo: a busca racional e sensata pelo ganho pessoal fazia a
máquina girar e colocava mais comida no prato de todos.
Desde aquelas palavras fatídicas de Smith, o que se perdeu do entu-
siasmo geral pelo interesse pessoal do açougueiro e do padeiro foi como
aquelas frases se adaptam ao contexto do maior empreendimento inte-
lectual de Smith, que tinha muito mais a ver com a virtude na iniciativa

21
A molécula da moralidade

individual que com qualquer endosso de comportamento egoísta, em


causa própria. Mesmo assim, Smith foi aceito e venerado como o fun-
dador da nova ciência chamada Economia. Ao mesmo tempo, seu status
como filósofo da moralidade entrava em declínio.
Para os economistas, a frase de Smith sobre “seu próprio interesse”
não só representava uma mudança de valores, mas também a possibili-
dade de uma nova e abrangente forma de explicar o comportamento. E
assim nascia o homo economicus, um ser altamente racional e egoísta, que
habita nos livros de economia e nos modelos econômicos, e – pelo menos
em teoria – cuja motivação pode advir de qualquer fator, à exceção da
simpatia mútua.
Como economista que passou a estudar o comportamento moral,
sempre tive uma queda por Smith, o moralista mal compreendido, pai da
Economia. Como ele, sempre preferi estudar o homo sapiens real ao homo
economicus teórico. Sempre fui atraído pelas bases reais das questões eco-
nômicas – como taxas de natalidade, aspectos demográficos geracionais e
a quantidade de recursos que os pais investiam em cada filho. O amor pa-
terno não é geral? Então por que nem todos os pais expressam seu amor
tentando dar aos filhos a melhor preparação para a vida? Em geral é pelo
fato de não terem tempo nem os recursos necessários, pois costumam ter
mais filhos do que conseguiriam sustentar. No fim das contas, aspectos
como fertilidade e investimento parental* – questões biológicas – afetam
profundamente a economia.
Foi esse tipo de trabalho sobre fertilidade e demografia que me le-
vou a investigar outros fatores interpessoais que afetam a prosperidade;
a confiança, o mais forte deles. Passei mais de um ano desenvolvendo
meu modelo que demonstrava que o nível de confiança numa sociedade
é o fator mais forte que determinará se ela irá prosperar ou permanecer
na pobreza. Ser capaz de cumprir contratos, confiar no fato de que os

* Nota da Tradutora: Característica comportamental observada pelos psicólogos evolucionistas


em algumas espécies e que significa o cuidado que os pais têm com os filhotes após o nasci-
mento. O investimento parental é um comportamento associado ao fator biológico da neotenia,
característica das espécies cujo filhote nasce incapaz de sobreviver por si só.

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O j o g o d a co n f i a n ç a

outros cumprirão o prometido e não vão trapacear ou roubar é um fator


mais importante para o desenvolvimento econômico de um país do que
educação e acesso a recursos – ou que qualquer outra coisa.

A chegada da oxitocina

Em 2000, assisti a uma conferência sobre economia e legislação no Gruter


Institute for Law and Behavioral Research. A conferência foi no verão, fora
de temporada na estação de esqui em Sierra Nevadas, e no longo traslado
do aeroporto de Reno até a estação, sentei-me ao lado do único passageiro
– além de mim – que não trajava vestimenta especial para uma viagem de
mountain bike. Começamos a conversar – ele também estava indo assistir
à conferência – e assim conheci a antropóloga Helen Fisher, autora dos
livros Anatomia do amor e Por que amamos?. Começamos a comparar anota-
ções sobre nossas pesquisas, e mencionei meus estudos sobre investimento
parental. Passados alguns instantes, ela me perguntou: “Você já pensou em
estudar a oxitocina como a explicação para tudo isso?”
Oxitocina? Nunca ouvira falar. Mas quando ela a descreveu como uma
ligação química, mordi a isca.
Mais tarde, de volta ao hotel, pesquisei na PubMed* e rapidamente
descobri que a oxitocina é uma molécula, ou peptídeo, que funciona como
neurotransmissor, enviando sinais ao cérebro, e como hormônio, levando
mensagens pela corrente sanguínea. Em 1906, quando Sir Henry Dale
identificou-a pela primeira vez na glândula pituitária, denominou-a com
uma combinação de palavras gregas que significavam “rápido” e “par-
to”. Obstetras e ginecologistas vieram a conhecê-la porque ela controla
o início do trabalho de parto e o fluxo de leite para a amamentação. Mas
além da esfera da reprodução, pesquisadores da área da medicina aparen-
temente nunca pararam para estudá-la.

* Nota da Tradutora: PubMed é um banco de dados que possibilita a pesquisa bibliográfica em


mais de 17 milhões de referências de artigos médicos publicados em cerca de 3.800 revistas
científicas.

23
A molécula da moralidade

Porém, fiquei intrigado sobretudo quando encontrei um vasto corpus


de pesquisa sobre a oxitocina feita por biólogos que estudavam pequenos
animais hirsutos. Injetada diretamente no cérebro de algumas espécies
(a propósito, experiência proibida com seres humanos), a oxitocina fun-
cionava como uma mítica poção do amor, criando um vínculo emocional
monogâmico poderoso e imediato. No mundo altamente social de rata-
zanas e marmotas americanas, demonstrou regularizar todas as formas de
vínculo, incluindo a ligação com um companheiro, a tolerância com com-
panheiros de gaiola ou colônia e até mesmo a tolerância com as próprias
crias. Ao inibir a oxitocina, pesquisadores induziram as fêmeas a evitar
os filhotes. Quando outros cientistas induziram a liberação da oxitocina,
as fêmeas alimentaram filhotes de outras fêmeas, como os cachorros que
ocasionalmente adotam gatinhos órfãos.
Em geral, o que mais me intrigava era a qualidade do hormônio. Na
natureza, a oxitocina aumenta quando sinais do ambiente indicam que é
seguro relaxar e se aninhar. Quando os sinais desaparecem ou são subs-
tituídos por outros – como os de perigo –, é hora de voltar ao jogo de
mostrar as garras e competir por alimento.
Ao ler sobre todas essas pesquisas nos periódicos de Biologia, não
pude evitar pensar que o sinal da oxitocina – uma sensação calma mas
provisória, altamente dependente de uma avaliação da segurança do mo-
mento – se assemelhava à confiança. Foi quando as possibilidades real-
mente interessantes começaram a surgir. Ligação... confiança... investi-
mento parental... Pareciam conceitos completamente diferentes, até você
perceber o mecanismo subjacente.
E se a ligação entre as ratazanas e a confiança entre os humanos
tivessem origem na mesma substância química? E se a oxitocina fosse,
na verdade, a assinatura química para aquela força ilusória de ligação
que Smith chamara de simpatia mútua? Então, relembrando minha
pesquisa sobre prosperidade e o aumento do poder de confiança, tive
de rir. E se essa “Molécula da Moralidade” – se a oxitocina fosse isso
– fosse também um elemento essencial para o que Smith chamava de a
riqueza das nações?

24
O j o g o d a co n f i a n ç a

Foi um momento “eureca” para mim, em que a possibilidade de tan-


tas ideias ao mesmo tempo me deixou um pouco tonto. Se eu pudesse
demonstrar uma ligação direta entre a oxitocina e a preocupação com as
outras pessoas, isso significaria que a noção da simpatia mútua não era
somente uma abstração ou uma metáfora pré-científica, como a dos qua-
tro humores. Eu poderia muito bem imaginar que, com a ajuda de alguns
milhões de anos de refinamento evolutivo, o mesmo sistema básico que
permitia criaturas primitivas baixar a guarda e se misturar e, em seguida,
retomar a guarda no momento certo poderia ajudar os seres humanos
modernos a manter o discernimento entre competição e colaboração, be-
nevolência e hostilidade, talvez até entre o que chamamos de bem e de
mal. E já que a confiança era o fator número 1 que ajudava as sociedades
a se moverem rumo a maior prosperidade...
Bem, era uma grande teoria, mas uma teoria, por si só, não vale
nada, a menos que possa ser comprovada. Foi então que comecei a
me reequipar para acrescentar o estudo sobre sangue e cérebro a meu
portfólio de técnicas de pesquisa. Aprendi, quando criança, nas ho-
ras que passava no laboratório de engenharia de meu pai, o valor de
experimentar e investigar além dos limites comuns. Voltei, então, ao
Massachusetts General Hospital para me aprimorar na área de neuro-
ciência. Comecei a circular pelo departamento de Neurologia na escola
de Medicina próxima, frequentar palestras e apresentar trabalhos para
juntas médicas. Eu já era professor titular – mas de Economia, não de
Neurociência. Portanto, essa nova área de interesse significava um re-
começo para mim.
Foi nessa época que mencionei meu novo projeto de pesquisa a um
amigo obstetra e ginecologista. “É a ideia mais estúpida do mundo”, ele
me disse. “É apenas um hormônio feminino.”
“E daí? E, a propósito... os homens também a produzem.”
“Mas é insignificante. Parto. Lactação. Só isso.”
Eu tinha de confiar em minha intuição. Se eu estivesse errado, sabia
que, no mínimo, estaria errado na análise, o que significaria que teríamos
uma resposta: sim ou não.

25
A molécula da moralidade

Por fim, acabei com um freezer cheio de sangue na minha sala no


departamento de economia, o que levou um dos decanos a se referir ao
meu trabalho como “economia de vampiro”, mas não me importava com
a chacota. Estava determinado a descobrir se o conceito de simpatia mú-
tua tinha algum teor verídico, e a única maneira era fazê-lo secretamente,
que foi o que fiz, começando com os Jogos da Confiança na UCLA.
O que antes parecia uma ideia estúpida – o comportamento pró-social
generoso acionado por um hormônio reprodutor em resposta à confiança
– agora parecia bom demais para ser verdade, quase uma versão cientí-
fica de uma parábola que se aprende na escola dominical. Porém, se a
oxitocina permitia que as ratazanas convivessem em harmonia em suas
colônias, por que não os humanos? Para espécies sociais, se o compor-
tamento moral é mais adaptável que o cruel, só faria sentido se houvesse
um fundamento biológico. E onde seria mais provável de se originar do
que na reprodução, fase em que todos os vínculos e ligações têm início?
Refleti sobre esse imperativo biológico enquanto observava os volun-
tários deixarem a sala naquela primeira manhã na UCLA. Eles tinham
de passar no caixa para pegar o montante acumulado e – como se tratava
de uma população de graduandos jovens e solteiros – havia certa empol-
gação no ar quando comparavam o valor arrecadado entre si.
Ouvi parte da conversa, e as perguntas mais frequentes eram: “Quem
era você?”, “O que faria?” e “Como você descobriria?”.
Não me surpreendeu o fato de não ter ouvido sequer um aluno dizer:
“Fui um completo canalha. Acumulei o máximo que pude e não dividi
nada.”
Tampouco ouvi qualquer garota dizer: “Sim. Tendo a ser fria e retraí­da,
e não confio em ninguém. Por isso, guardei o valor inicial. Que se dane!”
Com base em seus próprios reportes, pensaríamos que todos na sala
estavam se candidatando ao Teach For America* para ajudar na prepara-

* Nota da Tradutora: Teach For America é uma instituição sem fins lucrativos que seleciona
recém-formados e profissionais para lecionar por dois anos em comunidades carentes em todos
os Estados Unidos.

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O j o g o d a co n f i a n ç a

ção de refeições em cozinhas públicas e ler para cegos. Todos os alunos


cuja conversa pude ouvir alegaram ter sido um exemplo de probidade
moral, seja magnanimamente confiante ou generosamente confiável.
Esse fato gerou duas observações adicionais. A primeira é que o com-
portamento pró-social é um chamariz sexual. Na verdade, dar presentes –
demonstração de generosidade – é a regra número 1 para o ato de cortejar
em todas as sociedades humanas e em algumas animais. Quem gostaria
de ter um parceiro egoísta e autocentrado?
A segunda é que as pessoas mentem muito para impressionar o parcei-
ro potencial. Por outro lado, os seres humanos são extraordinariamente
bons em identificar mentirosos. Para pleitear o status de ser uma pessoa
confiável – em oposição a um vigarista de um único e rápido encontro –,
ela deve realmente fazer por merecer.
Portanto, faz sentido afirmar que a natureza combina como o velho
ditado russo: “Confie, mas investigue.” A oxitocina é uma molécula peri-
gosa que torna possível caminhar nessa linha tão tênue: confie e se apro-
xime de alguém quando os estímulos certos estiverem presentes, mas es-
teja preparado para recuar e entrar em estado de alerta quando o estímulo
diminuir. Como a oxitocina passou a ser o regulador cuidadosamente
modulado do comportamento de confiança e como a confiança abriu ca-
minho para comportamentos sociais mais complexos, como a empatia, é
uma história com muito mais detalhes – que nos leva de volta ao tempo
e às profundezas do mar.

27
Página deixada intencionalmente em branco
C A P Í TU L O 2

Lagostas apaixonadas
A evolução da confiança

P
ense numa simples lagosta.
Nunca se pensou no estranho crustáceo homarus americanus
como particularmente moral ou romântico (a menos que, obvia-
mente, seja servido na manteiga e com um bom vinho branco). Com uma
carcaça blindada e garras enormes, esses animais são altamente agressi-
vos, extremamente protetores de seu território e, pelo menos em cativei-
ro, conhecidos por comerem seus semelhantes.
Mas se estiverem de bom humor e num ambiente menos iluminado,
as lagostas até podem ser dóceis, num ritual de galanteio, como uma
cena com foco suave dos antigos filmes franceses. Tudo começa quando
a fêmea libera um aroma sedutor na gruta do macho, em seguida entra
na gruta e sai da concha. Como em muitos roteiros cinematográficos,
encontrar o parceiro ideal exige que elas se desvencilhem daquela casca
dura e protetora. Mas para uma lagosta, sair da concha significa ficar
altamente vulnerável, até que uma nova casca se forme, o que sugere um
enorme gesto de confiança. A fêmea deve confiar sua vida inteiramente

29
A molécula da moralidade

ao macho que escolheu; alguém que, em outras circunstâncias, ela trataria


como rival, se não como uma ameaça. O sinal químico que a faz baixar
a guarda tempo suficiente para o acasalamento e para o crescimento da
nova casca é um remoto precursor da oxitocina. Uma substância pareci-
da, que aparecerá mais tarde em nosso conto sobre a moralidade, induz o
macho a protegê-la, cuidar dela e tratá-la com gentileza.
Podemos chamar o que verificamos no ritual de acasalamento da la-
gosta de “confiança” e comportamento moral em resposta a essa confian-
ça? Isso seria um avanço de 100 milhões de anos em relação aos humanos.
Não obstante, o que podemos dizer é que o mecanismo fisiológico mais
básico de todos os nossos impulsos morais remonta a um tempo muito
anterior de os animais sequer se aventurarem em terra. Tudo começou
com o sexo.
O fato de os precursores da confiança e da reciprocidade serem tão
primitivos, de o DNA hereditário de nosso comportamento moral estar
tão incorporado em células do corpo e de tudo ter origem na reprodução
sugere muito claramente que o que chamamos hoje de moralidade não é
uma questão secundária para a civilização, nem algo irrelevante que vai
contra a natureza, mas algo profundamente relacionado com a sobrevi-
vência básica.
Se a biologia da reprodução parece algo simples e um improvável pon-
to de partida para questões relevantes que se tornariam posteriormente
objeto de preocupação de profetas, padres e filósofos, pergunte-se o que
o aborreceria mais: o fato de seu cônjuge alterar um pouco a relação de
despesas da semana anterior ou de ele ter um momento de sexo extra-
conjugal durante uma escala inesperada em outra cidade? O desejo de
direcionar a energia sexual para o resultado mais construtivo socialmente
é a essência de todo sistema moral de toda cultura do planeta.
Este capítulo oferece um panorama de como esse sistema de orienta-
ção moral, com base na substância da reprodução, teve origem e evoluiu.
Primeiro, estabeleceu vínculos entre os parceiros; em seguida, entre os
“casais” e suas crias, e, então, entre os membros do núcleo familiar e
seus companheiros e parentes imediatos. A maneira como passamos a

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Lag o s ta s a pa i xo n a d a s

conhecer o funcionamento de toda essa estrutura é uma notável história


de investigação.
Mas a resposta a esse enigma nos leva à mais importante questão a
ser resolvida por nós, como espécie. Sob a influência da oxitocina, é fácil
comportar-se com generosidade, cuidado e preocupação em relação às
pessoas com quem temos profundos vínculos pessoais. O maior desafio
é: como estender esse comportamento virtuoso àqueles com quem não
temos quase nada em comum e a quem nunca vimos pessoalmente?
Para começar a responder a essa pergunta, precisamos começar com
a história evolutiva que remonta cerca de 700 milhões de anos atrás. O
primeiro personagem que encontramos nesse conto são as criaturas ma-
rinhas, tão primitivas que seu sistema nervoso operava mais como um
código de computador do que o que se consideraria um cérebro. Para
computadores, a escolha é sempre binária, o que significa que existem
apenas duas alternativas. Para esses animais, a escolha binária não era
entre um e zero, mas entre sim e não, pare ou ande, aproxime-se ou
retraia-se. Um impulso faminto levaria ao avanço. Um estímulo doloroso
ou desagradável resultaria numa retração imediata. Uma ameaça esti-
mularia o hormônio do estresse, o que resultaria na retração ou numa
demonstração de hostilidade – a famosa reação “luta ou fuga”. Angústia
mental sobre ambiguidade moral não fazia parte do pacote: Devo trair
meu marido, que está me traindo? Burlar o pagamento de impostos da
empresa para a qual trabalho? Matar uma pessoa para salvar cinco? Sub-
meter-me a Hitler para evitar uma guerra?
Os grupos de substâncias que orquestraram essas reações de luta ou
fuga operavam como propulsores de foguetes guiando uma nave espacial.
Trabalhando contra, elas ligavam e desligavam, empurrando nossos an-
tepassados mais antigos em direções opostas em momentos diferentes. Se
o animal estivesse programado corretamente, andaria em zigue quando
deveria andar em zague e vice-versa, e só poderia viver o suficiente para
reproduzir. É dessa forma que a natureza sempre mede o êxito – sobre-
viver por tempo suficiente para transmitir os genes à próxima geração e
à seguinte.

31
A molécula da moralidade

No segundo capítulo dessa história, porém, surgiu a necessidade de


um comportamento mais flexível e sutil que a abordagem do tipo “tudo
ou nada”. Animais mais complexos como as lagostas devem juntar-se
para copular, mas a reação de lutar ou fugir induzida pela ansiedade que
sempre fez os animais serem cautelosos em relação aos seus iguais era
muito valiosa para ser desprezada. Afinal, a cautela também ajuda na
sobrevivência dos animais. Portanto, o recomendável era uma suspensão
temporária, acionada pela circunstância correta, um tipo de trégua que
duraria apenas o tempo suficiente para a cópula e reprodução, e desapa-
receria em seguida, com o término do encontro.
Sempre que uma inovação ocorre na natureza, é acidental, ínfimos
incrementos num tempo absurdamente longo. Em sistemas vivos, o me-
canismo mais primário de alteração conta com erros genéticos, como
mutações. Quando uma dessas inovações acidentais supera as existentes,
o novo gene permanece e se espalha. É “naturalmente selecionado” pelo
próprio sucesso, o que significa que mantém um tipo de criatura espe-
cífica viva por mais tempo, em maior quantidade, produzindo crias em
maior número. No entanto, como se trata de um processo de tentativa e erro,
novos sistemas são gerados sobre os antigos, com novas instruções e apri-
moramentos em vez de substituições.
De volta aos mares antigos aos quais estamos nos referindo, num tem-
po em que a vida animal se resumia à vida marinha, o primeiro hormônio
do estresse “luta ou fuga” era uma substância chamada vasotocina, cons-
tituída de nove aminoácidos. Um belo dia, acidentalmente, alguns peixes
há muito esquecidos vieram ao mundo com dois desses nove aminoá-
cidos alterados. A nova proteína que se formou pela alteração dos dois
aminoácidos – que hoje chamamos de isotocina – produziu um efeito
exatamente oposto ao estresse do tipo “luta ou fuga”. Essa nova molécula
reduziu temporariamente a ansiedade, o que permitiu ao animal rela-
xar, ter menos medo de um encontro e facilitou o sexo, o que compro-
vadamente era uma boa consequência. Por isso, essa proteína mutante
permaneceu e proliferou, tornando-se, com o tempo, um traço padrão
da química corporal dos peixes. Com a isotocina, o antigo hábito de se

32
Lag o s ta s a pa i xo n a d a s

aproximar ou se retrair se estendeu e passou a abranger aproximação mú-


tua. A proteína ainda acrescentou mais uma alternativa fundamental para
a reação do tipo “luta ou fuga”, a “diversão”.
Por meio de milhões de outras mutações ao longo de centenas de mi-
lhões de anos, a isotocina e a vasotocina continuaram a evoluir à medida
que a natureza abriu caminho, por puro acaso, para formas mais elevadas
de vida, finalmente chegando a mim e a você. Com o tempo, uma varian-
te da isotocina se metamorfoseou em oxitocina. A vasotocina se transfor-
mou em vasopressina e arginina, e hoje, juntas, ainda atuam como dois
propulsores que guiam nosso comportamento reprodutor – e moral.
Temos um longo caminho pela frente antes de chegarmos ao ponto de
termos duas pessoas vestidas com robes brancos discutindo sobre a virtu-
de sob o brilhante sol de Atenas, mas, mesmo assim, a dimensão moral
da família de moléculas da oxitocina começou a surgir há muito tempo.
O ponto de partida se deu no momento em que o aspecto reprodutor
se estendeu com a chegada de outro elemento que vem enlouquecendo
machos e fêmeas desde então: a escolha.
Peixes machos preferem fêmeas grandes por darem mais crias, uma
tendência que vem se perpetuando apenas pelo fato de mais peixes machos
nascerem com a preferência genética, herdada pelos pais, por fêmeas
grandes. As fêmeas da maioria das espécies preferem machos fortes, fe-
rozes e dominantes. Esse fato também se perpetua, pois os genes mascu-
linos desses machos permitem que as crias das fêmeas obtenham maior
sucesso reprodutor.
Quando o elemento “escolha”, chamado de seleção sexual, foi in-
corporado à competição básica por sobrevivência, chamada de seleção
natural, o ritmo da evolução se acelerou bruscamente. As fêmeas fazem
a maior parte das escolhas nesse jogo e, como todo homem sabe muito
bem, a escolha das fêmeas coloca o macho para trabalhar no sentido
de provarem que valem a pena. Ações que encantam as fêmeas podem
ser uma simples demonstração de aptidão – testemunhar alces dando
golpes com a cabeça ou sapos competindo para ver qual consegue coa-
xar mais alto e por mais tempo. Mas em espécies nas quais os machos

33
A molécula da moralidade

ajudam na criação dos filhotes, a competição passa a considerar aspec-


tos mais práticos. Nessas espécies, o macho tem de demonstrar não só
habilidade de servir como fonte de proteção e provisão, mas também
de comprometimento. É nesse momento que a questão da virtude entra
em cena.
Hoje, espera-se que os machos da espécie homo sapiens deem à par-
ceira potencial um apoio incondicional, apenas para demonstrar que têm
boas e sérias intenções, evidenciadas pela habilidade (e disposição) de
queimar três meses de salário com um presente ou um gesto. Verificamos
o mesmo padrão entre os pássaros e em abelhas africanas, que se alimen-
tam dos excrementos de elefantes. Nesse caso, os machos mostram que
são confiáveis e estão comprometidos ao dar de presente à sua amada um
bolo de estrume de elefante, sobre o qual ela porá os ovos, em vez de ir a
uma joalheria.
Em relação ao galanteio humano, a generosidade tem sido uma es-
pécie de isca desde os tempos em que significava dividir larvas e carne
de mastodonte. Hoje, as mulheres ainda gostam quando o homem é ge-
neroso com a mãe delas e se dispõe a jogar videogame com o cunhado
caçula, pois esse comportamento sugere que ele será um marido gentil e
generoso.
Mas a generosidade também abrange uma tradição ainda mais evo-
lutiva: o fato de as mulheres se encantarem com uma característica mas-
culina que, na verdade, é uma desvantagem duvidosa: a exibição exacer-
bada da boa forma. A plumagem extravagante de alguns pássaros parece
afirmar: “Se consigo sobreviver no mundo selvagem com esses chumaços
estúpidos de penas vermelhas saindo da minha cabeça, devo ser um cara
e tanto!”
A generosidade pode ser considerada uma desvantagem, pelo fato de
que limita o poder de crueldade de uma pessoa ao tentar obter o que de-
seja. No entanto, no momento do cortejo, ela diz: “Não preciso ser um
canalha ganancioso que quer tudo para si. Sou tão capaz e adequado que
posso ser generoso. Serei bondoso com você.”

34
Lag o s ta s a pa i xo n a d a s

É evidente que existe uma grande diferença entre perder algumas ho-
ras fazendo uma bola de estrume de elefante e ter de passar os 40 anos
seguintes trabalhando numa fábrica de pasta de dentes, treinando a Little
League,* levando o lixo para fora e sendo gentil com a família da esposa.
O grande salto para o progresso ocorreu quando a natureza surgiu com
uma nova forma de vida, uma nova categoria – a das criaturas hirsutas,
conhecidas como mamíferos sociais.

O sexo e a ratazana solteira

Antes de começarmos o estudo do Jogo da Confiança com humanos, a


pesquisa mais sofisticada sobre oxitocina e sobre o que pode ser vagamen-
te chamado de comportamento moral foi feita com ratazanas – roedores
gorduchos com olhos pequenos e grandes orelhas, que os fazem parecer
um personagem da Disney. Nos anos 1980, uma jovem cientista chama-
da Sue Carter queria investigar como a química cerebral se diferenciava
em duas formas de criaturas sociais intimamente relacionadas mas que
se comportavam de modo bastante diferente. Quando ela mencionou o
que vinha investigando a Lowell Getz, um biólogo de campo, seu colega
do departamento da University of Illinois, em Urbana-Champaign, ele
acenou para fora da janela e disse, basicamente, “aproveite-os”. As pra-
darias logo atrás do campus estavam lotadas com os animais de que ela
precisava.
A ratazana da pradaria e seu primo, o rato do campo, são um estudo
de contrastes, embora vivam em ambientes parecidos, comam alimen-
tos parecidos – em geral, grama –, enfrentem predadores semelhantes
e compartilhem progenitores genéticos similares. Entre os machos, as
diferenças comportamentais são antagônicas, como o dia e a noite.

* Nota da Tradutora: Instituição sem fins lucrativos em Williamsport, Pensilvânia, Estados Uni-
dos, que organiza ligas jovens locais de beisebol e softball nos Estados Unidos e no mundo.

35
A molécula da moralidade

Os ratos machos da pradaria (Microtus ochrogaster) são animais do tipo


boa-praça. Eles convivem pacificamente em grupo, permanecem com suas
parceiras por toda a vida e reservam bastante tempo para os filhotes.
Os ratos do campo (M. pennsylvanicus), por outro lado, são jogadores
e solitários. Não convivem bem com vizinhos, seduzem todas as fêmeas
que podem e passam para a seguinte com a maior rapidez sem qualquer
consideração.
Um psiquiatra chamado Cort Pedersen já havia demonstrado que a
liberação da oxitocina era a explicação para o comportamento materno
em animais de laboratório. As fêmeas virgens da espécie dos ratos bran-
cos que os cientistas em geral usam como cobaias atacam ou ignoram
os filhotes que encontram pela frente pelo fato de não haver o instinto
maternal sem a substância química correta no corpo. Proveja estrogênio a
essas desconfiadas fêmeas e elas adotarão qualquer filhote que esteja por
perto – instinto materno à flor da pele. Essas mamães ratazanas brancas
tentam amamentar, lamber e cuidar dos filhotes, até mesmo protegê-los
contra suas próprias mães biológicas.
Quando esses mesmos animais têm crias, e as substâncias químicas
corretas são liberadas como deve acontecer em circunstâncias normais,
passam horas intermináveis cuidando, alimentando e protegendo a cria.
Sob a influência da oxitocina, eles sentem menos dor e ficam menos su-
jeitos à dispersão, desempenhando seu papel materno mesmo quando os
pesquisadores tentam enlouquecê-los com barulhos e luzes. Mas ao dar
a uma ratazana de laboratório que acabou de ter cria uma droga que
iniba a ação da oxitocina, ela negligenciará completamente os filhotes e,
em consequência, eles morrerão. Por mais triste que seja, esse é o mesmo
efeito que verificamos em mães que fumam crack ou que foram tão abu-
sadas que seus hormônios do estresse bloqueiam o efeito da oxitocina.
O trabalho de Sue Carter foi especialmente provocativo porque am-
pliou a ligação entre a oxitocina e o comportamento reprodutor ao incluir
nessa relação também o comportamento social em geral. Ela demonstrou
ser o número de receptores de oxitocina que revestem as áreas do cérebro
relacionadas à compensação que explica o estilo de vida das ratazanas

36
Lag o s ta s a pa i xo n a d a s

da pradaria, monogâmicas e agregadoras, e o de seu primo, os ratos do


campo, antissociais e não confiáveis.
As áreas de recompensa são ativadas quando um indivíduo entra em
contato com o prazer de qualquer natureza, seja comida, sexo, cocaína ou
(no caso dos seres humanos) ouvir, num programa de rádio, um ponto
de vista com o qual concordam. Para os ratos machos da pradaria, morar
com uma fêmea familiar aciona a liberação da oxitocina, que se instala
nessas regiões e reforça o comportamento ao liberar outras substâncias
químicas que induzem a sensação de bem-estar e os compelem a se com-
prometer e se estabilizar na relação. Esse mesmo esquema acionado pelas
substâncias químicas indutoras de bem-estar ocorre quando os ratos da
pradaria deparam com os filhotes, pois o cérebro recompensa e reforça o
pacote completo de vida familiar e paternidade.
Assim como o pai que se esparrama no sofá com a esposa e os filhos,
o rato da pradaria se sente bem em passar tempo com a família. E assim
como os indivíduos que fazem o tipo boa-praça e se relacionam bem
com todo mundo, tanto na loja de informática quanto nos encontros do
VFW,* o rato da pradaria sente o aconchego do companheirismo em vez
da sensação de ameaça sempre que sai da toca, o que gera uma atmosfera
agradável na comunidade. Em relação aos seres humanos, o resultado é
uma abundância de virtude cívica.
Os ratos do campo, por outro lado, carecem de receptores de oxitoci-
na, necessários para absorver os sinais de prazer acionados por quaisquer
estímulos sociais, o que os faz parecerem garanhões insaciáveis, com uma
extensa lista de ex-namoradas, mas sem amigos verdadeiros; ou aquele
vizinho excêntrico que mora sozinho e ameaça atirar em qualquer pessoa
que pise em seu gramado.
Mas a oxitocina também ativa os sistemas cerebrais inibidores da dor e
do medo. O sexo entre os mamíferos pode facilmente se tornar uma luta
de foice. Portanto, a habilidade da oxitocina de reduzir a sensibilidade à

* Nota da Tradutora: VFW é o acrônimo de Veterans of Foreign Rights, organização americana


dos veteranos de guerra em terras estrangeiras.

37
A molécula da moralidade

dor – especialmente a sensibilidade das fêmeas – contribui para la dolce


vita. Por isso, os genes da oxitocina saem vencedores na seleção natural,
a grande competição que avalia quantos filhotes gerados viverão o sufi-
ciente para também reproduzir.
O sexo também envolve riscos, e a oxitocina oferece vantagens adicio-
nais ao reduzir a sensibilidade ao estresse, incluindo o medo do desco-
nhecido. Animais que receberam, no laboratório, oxitocina injetável fica-
ram muito menos desconfiados e mais curiosos que os que não receberam
a substância. Pegue vários ratos de pradaria ou qualquer fêmea da espécie
dos mamíferos, injete uma boa dose de oxitocina, e eles estarão prontos
para começar a explorar o território, investigando e se misturando uns
aos outros. O nível de agressividade é reduzido, e eles se tornarão mais
próximos e colaborativos, a ponto de dividirem a comida.
Em espécies socialmente monogâmicas, a oxitocina liberada durante o
sexo cria um elo para a vida toda. Porém, no lado masculino da equação,
a monogamia inclui mais do que estar próximo à eleita. Manter o vínculo
entre o casal significa estar preparado para se defender de outros machos
que consideram sua fêmea irresistível. Portanto, quando os mamíferos
machos monogâmicos fazem sexo, o cérebro libera, além da oxitocina, a
molécula do carinho, a “prima” vasopressina, a substância que descende
do hormônio do estresse dos peixes. A porção “guarda e defesa” do “a luta
ou a fuga” se tornou parte da brincadeira, com o comportamento protetor
focado não só no parceiro, mas também nos filhotes.
Portanto, seja na badalação noturna, no fato de esbarrar em algum
semelhante dentro da toca ou no ato de balançar o Júnior no colo do
papai, é a oxitocina e seus parceiros químicos que tornam todos mais
pró-sociais.
Em seres humanos, as regiões cerebrais associadas às emoções e aos
comportamentos sociais – a saber, a amígdala, o hipotálamo, o córtex
subgenual e o bulbo olfativo – são revestidas de receptores de oxitoci-
na. Mas o efeito do hormônio é registrado em todo o corpo, sobretudo
quando se conecta a receptores no coração e no nervo vago, que emite
o impulso nervoso ao coração e ao intestino, reduzindo a ansiedade e a

38
Lag o s ta s a pa i xo n a d a s

pressão arterial e resultando no calor que sentimos nas bochechas, que,


em geral, associamos ao sexo.
Mas há uma disseminação ainda maior de substâncias químicas.
Quando um estímulo social positivo induz a liberação da oxitocina, a
molécula da moralidade, por sua vez, aciona a liberação de dois outros
neurotransmissores de bem-estar: dopamina e serotonina. A serotonina
reduz a ansiedade e melhora o humor. A dopamina está associada a com-
portamentos que levam à busca pelo atingimento de metas, direciona-
mento e reforço de aprendizagem. Ela motiva e torna agradável a busca
por atividades que resultam em recompensa.
Essa cascata de reiteração se torna ainda mais envolvente e interessan-
te, mas vamos aqui nos ater à biologia básica, a história sobre como nosso
entendimento dessa biologia alcançou o nível seguinte.

Manipulando a moralidade

A história natural é como um canal de televisão sobre a natureza – algo


a que você assiste. Você observa de perto, faz anotações interessantes e,
ao longo do tempo, começa a perceber como as coisas funcionam. Mas
depois de certo tempo, ainda é necessário ir ao laboratório para o que
chamamos de experiência controlada, em que isolamos e manipulamos
várias partes do quebra-cabeça para testar nossas pressuposições e encon-
trar a prova definitiva.
No ano 2000, um inteligente e talentoso neurocientista da Emory
University, em Atlanta, chamado Larry Young, realizou uma série de
manipulações que mostraram o funcionamento da oxitocina com preci-
são espantosa. Ele criou um ratinho geneticamente modificado, que não
era um carinha de bigodes e luvas de boxe, mas um animal de laboratório
cujo gene da molécula da moralidade fora extraído. Sem a oxitocina em
sua programação genética, o rato desenvolveu amnésia social. A perda
apenas desse gene e do hormônio produzido por ele eliminou a possi-
bilidade de reconhecer outros ratos, parceiros de longa data. Ratos que

39
A molécula da moralidade

tinham suas parceiras de cativeiro e que, inclusive, conviviam com outros


ratos se tornaram excêntricos e solitários.
Eliminar o comportamento ao remover um único gene foi uma de-
monstração um tanto convincente de causa e efeito. Mas para, de fato,
comprovar a teoria, Young e seus colegas deram um passo a mais e in-
verteram o processo. Eles injetaram oxitocina no cérebro dos ratos ge-
neticamente modificados, recolocando o único ingrediente que haviam
removido previamente. Como num passe de mágica, a amnésia social
desapareceu. Os ratos voltaram a reconhecer seus velhos parceiros e a
conviverem harmoniosamente com eles.
Em seguida, Young pegou um rato do campo fêmea – os solitários e
preguiçosos, para começar – e, usando um vírus inofensivo como vetor em
seu cérebro, inseriu o gene que codifica o receptor da vasopressina. Em
seguida, ele enfileirou duas lindas ratazanas e as colocou em frente aos
machos modificados. Não surpreendeu o fato de que esses ratos do cam-
po malandros imediatamente viraram grandes pegadores, cheios de amor
para dar. Mas depois do sexo, esses animais, que deveriam comportar-se
como playboys grosseiros, agora queriam se aconchegar e se aninhar com
a mesma fêmea repetidas vezes. Mesmo na presença de outras fêmeas
perfeitamente atraentes, esses machos modificados ignoraram o canto da
sereia e se mantiveram fiéis. A introdução dos receptores da vasopressina
mudou o comportamento desses animais, de nômades e sem raízes para
companheiros fiéis.
Conheço algumas mulheres que se empolgam quando menciono
manipulações genéticas que possam transformar cafajestes em parceiros
monogâmicos. Mas cada espécie tem suas diferenças em termos de re-
ceptores de oxitocina e vasopressina. (Modificar os genes de um homem
jamais seria aprovado pela análise de ética da universidade.)
Mesmo assim, queria tentar algo similar em meus voluntários huma-
nos. Queria verificar se poderíamos ir além da associação entre a oxitoci-
na e a generosidade, que já tínhamos demonstrado no Jogo da Confian-
ça, e usar manipulações para pôr fim a qualquer dúvida sobre o que de
fato causava o quê. Tudo de que eu precisada era uma forma de injetar

40
Lag o s ta s a pa i xo n a d a s

a oxitocina diretamente no cérebro humano. Em seguida, os participan-


tes do experimento participariam do Jogo da Confiança e, se tudo desse
certo, eu poderia “ligar” a oxitocina como se fosse um interruptor de luz.
Caso eu também me certificasse de que todas as demais variáveis que
poderiam afetar o comportamento se manteriam inalteradas, seria uma
comparação absolutamente clara entre o cérebro sob efeito da oxitocina e
sem o aspecto pró-social.
Há alguns anos, médicos criaram inaladores nos quais poderíamos
administrar doses preestabelecidas de oxitocina sintética para mães que
precisavam de uma ajudinha com a amamentação. Mas esse tipo de in-
fusão não era como um esguicho de descongestionante para desobstruir
as vias aéreas. São necessários quatro jatos em cada narina para absorver
uma colher de chá do ingrediente ativo e fazê-lo entrar na corrente
sanguínea. Além do mais, não é nada agradável a experiência de ficar
fungando e com o nariz escorrendo. Ao me preparar para adaptar a
técnica para o nosso estudo, o maior problema com que deparei foi a
burocracia.
Nos anos 1980, o Food and Drug Administration* aprovara um ina-
lador de oxitocina para o uso em mulheres que tinham dado à luz re-
centemente, mas o produto acabou caindo no mercado, portanto essa
versão aprovada pelo FDA deixou de ser produzida, o que me pareceu
um retrocesso para meu esquema. Porém, um psicólogo suíço chamado
Markus Heinrichs me enviou uma cópia de sua dissertação. Ele tinha
administrado em voluntários humanos para verificar seu efeito sobre o
estresse. Portanto, era evidente que os equipamentos ainda estavam dis-
poníveis na Europa.

* Nota da Tradutora: O FDA (Food and Drug Administration) é o órgão governamental ame-
ricano que controla os alimentos (tanto para seres humanos quanto para animais), suplementos
alimentares, medicamentos, cosméticos, equipamentos médicos, materiais biológicos e produ-
tos derivados do sangue humano. Qualquer novo alimento, medicamento, suplemento alimen-
tar, cosméticos e demais substâncias sob sua supervisão é minuciosamente testado e estudado
antes de ser aprovado para comercialização.

41
A molécula da moralidade

Liguei para Markus, e ele me recomendou uma farmácia na Suíça


onde, com a prescrição adequada, eu poderia encomendar um inalador
de oxitocina, que seria enviado para mim na Califórnia mergulhado num
recipiente com gelo. De repente, eu estava de volta às atividades até que
comecei a preencher o formulário. Para o FDA aprovar os inaladores
importados, cujo nome comercial era Syntocinon, para uso nos Estados
Unidos, eu tinha de mostrar que a fórmula era idêntica à da oxitocina
originalmente aprovada por eles.
Portanto, eu teria de encontrar os produtores europeus do Syntocinon.
Esse produto específico já havia passado por diversas empresas, mas, ao
investigar, descobri que o inalador Syntocinon estava sendo produzido
naquele momento pela Novartis. Levei mais alguns meses, mas, por fim,
encontrei o contato da empresa que pudesse me explicar exatamente o
que, além da oxitocina, continha no líquido posto no inalador. Infeliz-
mente, o ingrediente ativo era o mesmo, oxitocina, mas havia diferença
nas soluções e fragrâncias.
Parecia bastante trivial, mas o detalhe era que o FDA era uma preo-
cupação. Ele estabelece as regras, e os pesquisadores têm de segui-las à
risca ao trabalhar com voluntários humanos. Portanto, compilei todas as
informações e mandei para o FDA. E fiz isso de novo. E de novo.
Continuei mandando minha solicitação por quase dois anos. Final-
mente, encontrei um funcionário do governo que se prontificou a me
ajudar, possibilitando-me fazer uma comparação minuciosa de todos os
ingredientes que compunham o Syntocinon e o inalador americano pre-
viamente aprovado.
Mas eu não queria que a pesquisa ficasse completamente estagnada
enquanto todo o processo estava em curso. De acordo com o manual de
ética, ainda havia uma pessoa que poderia servir de cobaia – eu mesmo.
A oxitocina se decompõe rapidamente no estômago, sem qualquer
efeito biológico. Por isso, uma questão que eu precisava entender era
o volume que eu precisava colocar nas cavidades nasais para que fosse
absorvida pelo cérebro em vez de descer pela garganta. Também queria

42
Lag o s ta s a pa i xo n a d a s

verificar se a infusão irritaria as vias nasais, os olhos ou qualquer outro ór-


gão. Então, tentei todo tipo de prática para levar a oxitocina ao cérebro:
inaladores de vários tipos, conta-gotas para pingar no nariz ou mesmo
aspirá-la por meio de uma colher.
A autoexperimentação é uma questão delicada, portanto, cada vez
que eu tentava um novo método, sentava no escritório de minha esposa
no centro médico. Ela é neurologista e, ocasionalmente, me observava
enquanto fazia seu trabalho. Um dos efeitos colaterais mais comuns da
oxitocina nas mulheres é o vazamento de leite do seio, mas eu não estava
muito preocupado com isso. Como hormônio reprodutor, no entanto, a
oxitocina tem receptores em todas as partes do corpo, inclusive no cora-
ção. O pior cenário possível seria meu coração desacelerar tanto a ponto
de eu perder a consciência. Por isso era bom estar a poucos metros da
emergência.
Com certeza, eu inalaria o máximo que conseguisse do hormônio,
então ficaria quieto, sentado no escritório de minha esposa mandando
e-mails e esperando para ver o que aconteceria. A cada meia hora, ela
aparecia, acariciava meu ombro para ver se eu estava consciente e per-
guntava: “Como você está?” Todas as vezes, uma parte específica do meu
corpo “batia continência”. “Para registro: advirta os participantes mas-
culinos dos próximos estudos sobre os efeitos colaterais inofensivos mas
potencialmente constrangedores.”
Depois de uma espera de dois anos, meu contato no FDA informou
que as versões americanas e europeias da fórmula da oxitocina não eram
compatíveis.
“Então qual o próximo passo?”, perguntei.
“Experiência controlada em laboratório”, ele respondeu. “Da etapa
um à quatro. Não há outra forma de provar que é seguro.”
Era uma hipótese absurda, e eu estava ficando desesperado. Expe-
riências controladas em laboratório são o que as empresas farmacêuti-
cas fazem quando vão lançar uma medicação nova que gerará bilhões ao
mercado. Essas experiências levam anos e são absurdamente caras.

43
A molécula da moralidade

Por sorte, como pudemos constatar, um artigo estava prestes a ser pu-
blicado na New Scientist (escrito por Linda Gueddes, a do casamento vam-
piresco). Ele descrevia minhas experiências iniciais do Jogo da Confiança
com a oxitocina. A editora me perguntou se poderia mandar o rascunho
do artigo para um economista experimental na Suíça chamado Ernst Fehr,
que recentemente havia publicado um estudo sobre altruísmo. Eu disse ao
editor que Fehr era um concorrente potencial e que eu preferia não com-
partilhar o artigo ainda, mas o rascunho foi enviado do mesmo jeito. Fehr é
um pesquisador muito inteligente e dinâmico, e suspeitei que ele veria com
muita facilidade que, depois que você mede a oxitocina no sangue, o passo
lógico seguinte seria manipulá-la no cérebro.
Sentindo a pressão, liguei para Markus Heinrichs, na Suíça.
“Não consigo aprovação aqui”, disse a ele. “Vamos trabalhar nisso jun-
tos. Eu preencho o protocolo e você faz a infusão no seu laboratório, em
Zurique.”
“Que engraçado você me pedir isso agora”, ele respondeu, “há dois
dias, um economista chamado Fehr me pediu a mesma coisa”.
Nós três nos falamos por telefone e chegamos a um acordo para tra-
balhar em conjunto na University of Zurich, bem longe dos olhos do
FDA.
Em Zurique, fizemos a infusão em 100 voluntários com o Syntoci-
non, o spray nasal altamente concentrado que poderia levar a substância
diretamente ao cérebro. Para criar um grupo controlado para compa-
ração, fizemos a infusão de uma solução de efeito placebo no mesmo
número de pessoas. Nenhuma das substâncias causou qualquer sen-
sação identificável, portanto ninguém sabia quem havia recebido qual
substância.
Então começávamos o Jogo da Confiança com nossos voluntários es-
timulados (ou não). Por sorte, não houve ataques cardíacos ou incidentes
envolvendo ereções não desejadas. O lado positivo foi que os partici-
pantes infundidos com oxitocina deram 17% a mais de dinheiro do que
os que inalaram o placebo. Um aspecto ainda mais drástico foi que os

44
Lag o s ta s a pa i xo n a d a s

jogadores A, sob efeito da oxitocina, ficaram tão confiantes de repente


que transferiram todo o dinheiro para os jogadores B, mais que o dobro
do que os que se tornaram confiantes sob o efeito do placebo.
Esse fato comprovou claramente a demonstração de causa e efeito
que eu vinha buscando. Fazer o cérebro liberar oxitocina por meio de um
estímulo natural – o trabalho que fizera na UCLA – foi revolucionário.
Dessa vez era apenas uma confirmação. Mas devido a peculiaridades no
processo de avaliação acadêmica, a pesquisa de Zurique foi publicada
primeiro e causou frisson. Quando me dei conta, estava em Nova York
falando em rede nacional sobre a oxitocina – grande parte do meu tra-
balho até então – para todos os Estados Unidos. O maior benefício de
toda essa divulgação foi o fato de eu não precisar mais trabalhar de forma
independente ou implorar por apoio à “ideia mais estúpida do mundo”. A
Fundação John Templeton, em especial, foi bastante generosa, doando
$1,5 milhão para a continuação da pesquisa.
A fundação me permitiu ir atrás de uma indagação: se o efeito da oxi-
tocina era limitado a situações de ganha-ganha, como no Jogo da Con-
fiança, ou se elevaria a generosidade também em situações de soma-zero
– aquelas nas quais o ganho de alguém é necessariamente a perda de
outra pessoa. Nesse ínterim, encontrei uma forma de driblar meus pro-
blemas com o FDA ao elaborar meu próprio inalador de oxitocina com a
aprovação da instituição. Portanto, eu ainda não havia abandonado defi-
nitivamente a abordagem independente à ciência.
Usando dispositivos caseiros, realizei outra experiência na UCLA, em
que dei $10 a cada participante, fiz com que inalassem oxitocina e, então,
pedi que dessem parte do dinheiro a outro participante anônimo. Era
tudo o que tinham de fazer – dar um presente. Não era o caso do jogador
A que precisava doar ter de pensar como o jogador B reagiria. Era mera
questão de altruísmo. A reação do jogador B não exerceria qualquer in-
fluência no final.
O resultado? Bem, se você se lembra do casamento vampiresco, mos-
tramos como a oxitocina é sensível à natureza precisa dos relacionamentos

45
A molécula da moralidade

humanos. A molécula da moralidade reage aos vínculos humanos e, nesse


simples teste, não havia qualquer elo que estimulasse reação ou qualquer
fator para considerar ao decidir o que fazer. Portanto, a infusão da oxito-
cina não fez coisa alguma.
Então, fizemos o mesmo procedimento de infusão enquanto os par-
ticipantes jogavam o que chamamos de Jogo do Ultimato, em que há
um Proponente e um Reagente, e seus montantes finais são somados. O
Proponente ganha $10 para começar, mas a pegadinha está no fato de
que, para permanecer com parte do valor, ele deve oferecer uma parte ao
Reagente. A armadilha ainda maior é que o Reagente precisa concordar
em dividir a soma final. Caso contrário, ninguém ganha nada.
No Jogo do Ultimato, a maioria das pessoas se recusa a aceitar a dis-
tribuição de 9 para 1 por uma questão de princípios. Você pode pensar
que $1 – ou mesmo $2 – é melhor que nada, mas, aparentemente, não
significa muito quando uma das partes se prende à ganância. Ao serem
confrontadas pela injustiça flagrante, as pessoas parecem sentir mais pra-
zer (lembra as áreas da recompensa no cérebro?) em se manter fiéis aos
princípios do que em acumular dinheiro. Nos Estados Unidos e na maio-
ria dos demais países desenvolvidos, ofertas de uma divisão de menos de
30% são quase sempre rejeitadas.
Quando conduzimos esse estudo em que ganhar dinheiro dependia de
traquejo social (produzindo uma situação ganha-ganha, aceita por ambas
as partes), uma infusão de oxitocina elevou o nível de generosidade em
80%!

Portanto, o segredo para uma sociedade melhor é fazer as pessoas inala-


rem oxitocina de tantos em tantos minutos? À parte o número de obstá-
culos práticos, o caminho da infusão não é realmente necessário, sobre-
tudo depois que descobri que a natureza oferece diversas técnicas para a
liberação de oxitocina no dia a dia. Os cães esfregam o focinho e os gatos
se roçam em você para elevar a própria oxitocina. Golfinhos nariz-de-

46
Lag o s ta s a pa i xo n a d a s

garrafa se acariciam. Esses comportamentos de bem-estar se prestam ao


propósito de estreitar os laços. Com os seres humanos, os costumes não
são tão diferentes.

A importância do toque mútuo

Iniciei a pesquisa sobre a oxitocina pelo vetor da confiança. O passo se-


guinte era verificar o que eu poderia aprender sobre oxitocina e toque.
Há alguns anos, quando levei minha filha ao primeiro dia na esco-
la, fiquei encantado em ver que, enquanto as crianças entravam na sala
numa fila indiana, a professora abraçava cada uma. Quando chegou ao
fim da fila, ela encontrou um pai de 1,93 metro (c’est moi) que perguntou:
“Os adultos também ganham abraço?”
Nunca tive problemas com contato físico, mas depois de uma década
estudando oxitocina, agora advirto a todos que chegam a meu labora-
tório que, antes de nosso encontro terminar, vou lhes dar um abraço. É
impressionante como essa declaração de intenção quebra o gelo e faz as
pessoas se abrirem mais.
Infelizmente, o abraço ganhou uma fama injusta. Talvez pela supe-
rexposição dos anos 1960, mas, de alguma forma, a cultura pop o reduziu
a um clichê, uma versão tátil da música “Kumbaya”.* Por outro lado, o
movimento dos abraços grátis se tornou febre no YouTube nos últimos
anos. Esse esforço de guerra de indução de oxitocina começou quando
um australiano, sob o pseudônimo de Juan Mann, voltou de Londres
para seu país de origem e se sentiu desolado por não ter ninguém espe-
rando por ele. Convicto de que calor humano era tudo o que mais preci-
sávamos, ele fez uma placa de cartolina em que se lia “abraços grátis” e foi

* Nota da Tradutora: Música gospel afro-americana da década de 1930 que ganhou populari-
dade nos anos 1960 e se tornou o hino dos escoteiros e de outras organizações voltadas para a
natureza.

47
A molécula da moralidade

para a esquina mais movimentada de Sydney. Levou algum tempo para


quebrar o gelo, mas, por fim, a fila começou a se formar. O movimento se
tornou viral, com esforços similares em vários países, milhares de acessos
a vídeos de abraços grátis e a presença de Juan Mann no programa da
apresentadora Oprah Winfrey.
Pode ser que ainda mais pessoas tenham sido influenciadas por uma
mulher chamada Amma, a “santa do abraço”, que, diz-se, já abraçou mais
de 29 milhões de devotos. Levado por impulso, tentei visitá-la uma vez
num centro de convenções em Los Angeles, onde ela oferecia a própria
abordagem diferenciada para liberação de oxitocina. Cheguei tarde, dei-
xei o carro com o manobrista e entrei, mas a fila do abraço exigia uma
senha que eu não tinha. Ainda assim, foi uma experiência poderosa ver
as pessoas acachapadas por um simples e carinhoso abraço. Observei por
cerca de meia hora, mas eu tinha um compromisso. Quando fui buscar
o carro, o manobrista deu de ombros de disse: “É de graça.” Dei-lhe $20
de gorjeta.
Sob a perspectiva de minha incipiente pesquisa, um dos aspectos in-
teressantes sobre o abraço é o papel que a confiança desempenha. Certa-
mente, abraços podem ser tranquilizadores e inspirar generosidade, mas
também podem ser uma invasão indesejada e a violação do espaço de
alguém. (Já viu o vídeo de George W. Bush tentando afagar o pescoço
da Primeira-Ministra Angela Merkel?) A diferença é o contexto social e
a confiança social.
Abraços são uma forma de cumprimento, que, por sua vez, estabele-
cem, demonstram ou reconstroem vínculos sociais. Os cachorros cheiram
os traseiros uns dos outros. Os homens apertam as mãos, um costume
que, segundo dizem, teve origem no fato de mostrarem o braço direito
inteiro para provar que não estavam armados. Mas também pegamos no
ombro e no cotovelo, e praticamos todas as variações de beijo: em uma
bochecha, um beijo em cada uma, três beijos – na esquerda, na direita
e na esquerda de novo. (Claro que há refinamentos restritos aos casais
românticos.)

48
Lag o s ta s a pa i xo n a d a s

Cada gesto no ato de cumprimentar se destina a transmitir infor-


mações, muitas das quais relacionadas à confiança, e a maioria delas
não processamos conscientemente. Mas, em geral, o inconscien-
te se sai bem. Nada mais incômodo que um abraço fora de hora (ou mais
falso que um beijo estalado entre “(ini)amigos”. E nada mais reconfortante
que um abraço caloroso, que expressa a confiança advinda da liberação
da oxitocina.
No laboratório, às vezes acaricio a barriga de um ratinho quando que-
ro induzir a liberação da oxitocina e acalmar o bicho. Você pode fazer
o mesmo com o ser humano ao passar os dedos entre as costelas para
estimular o nervo vago, rico em receptores de oxitocina; isso emite im-
pulsos nervosos que levam as pessoas a relaxar e se sentir seguras (meus
filhos adoram). Mas trazer voluntários humanos ao laboratório para que
eu acaricie suas barrigas soa problemático.
A ideia seguinte foi trazer pessoas ao laboratório apenas para abra­
çá-las, mas também poderia parecer estranho. Alguém poderia passar
dos limites, e eu seria processado ou enxotado da universidade por as-
sédio sexual. Precisávamos de uma forma de toque que estimulasse a
molécula da moralidade, mas que mantivesse imparciais todos os as-
pectos clinicamente envolvidos. Precisávamos de uma massagista te-
rapeuta profissional, formalmente habilitada. Então, fui a uma escola
de massagens terapêuticas em Los Angeles e convoquei três instrutores
para nos ajudar. Assim, gastei $8 mil em massagem sem usufruir delas
sequer uma vez.
Na verdade, foi um dos trabalhos mais árduos que já fiz. Trazíamos
de 8 a 12 voluntários de uma vez, colhíamos o sangue, dávamos a eles 15
minutos de massagem, fazíamos com que jogassem o Jogo da Confiança
e colhíamos o sangue de novo. Para maior controle, a rotina se mantinha
a mesma, à exceção de que às vezes nós deixávamos que descansassem
por 15 minutos em vez da massagem. Esses vinham em dias diferentes
dos do grupo da massagem, para não se sentirem prejudicados por não
ter o benefício. Mas a tentativa de registrar todos os comportamentos em

49
A molécula da moralidade

tantas situações de prazer e repouso me fez sentir como num episódio


antigo de “Three’s Company”.*
Felizmente, os dados obtidos estavam em consonância com o que ha-
víamos testemunhado quando a liberação da oxitocina era induzida pela
confiança. Em geral, os que receberam a massagem tiveram 9% de au-
mento no nível da oxitocina. Mas a bonança de fato ocorreu com os joga-
dores B que haviam recebido a massagem e ainda receberam dinheiro de
um jogador A que demonstrara confiança. Para esse grupo (massagem +
confiança), a disposição de agir com reciprocidade e de dar de volta parte
do montante aumentou em 243%!
Contato físico caloroso (quando bem-vindo e de forma apropria-
da) combinado com um vínculo social provou ser a chave para o sucesso
no que se referia à indução de um comportamento generoso e pró-social, o
que parecia uma novidade que poderíamos usar.
Mas como dissemos no início deste capítulo, o aspecto mais impor-
tante para minha pesquisa foi o movimento exógeno do “sistema solar”
social com o qual deparamos no casamento vampiresco.
Vimos como a oxitocina facilita o contato entre colegas e o vínculo
com filhotes e com o parceiro. Com mamíferos sociais, o elo se expande
e inclui um grupo muito maior de parentesco e até mesmo de vizinhos
sem qualquer relação familiar. Mas para mamíferos sociais que convivem
no mesmo ambiente, a confiança é alta, de contato físico e recorrente, e
a busca pela sobrevivência é compartilhada. Portanto, todas as respostas
que eu encontrara até então ainda convergiam para a seguinte pergunta:
Como podemos gerar e manter esse tipo de sentimento familiar entre o
ainda maior número de indivíduos que compõem as sociedades humanas,
a maioria deles nunca tendo se visto pessoalmente?
Eu refletia a esse respeito há alguns anos, voando de volta para casa
após quase uma semana longe de minha esposa e meus filhos. Estava
exausto. Então, desliguei o laptop, tirei os sapatos e assisti a um filme.

* Nota da Tradutora: Seriado americano exibido entre 1977 e 1984 no canal ABC.

50
Lag o s ta s a pa i xo n a d a s

Quando me dei conta, chorava como um idiota. O filme a que eu assistia


era A menina de ouro, de Clint Eastwood, sobre uma lutadora de box que
se machuca na cabeça e não quer mais viver. Por alguma razão, aquilo
mexeu comigo, fui às lágrimas, tanto que a aeromoça me perguntou: “O
senhor está bem?”
“Sim”, respondi, “obrigado”.
Ela sorriu, eu sorri. Então eu disse: “Acho que acabei de encontrar o
próximo mecanismo de estímulo da oxitocina que quero investigar.”

51
Página deixada intencionalmente em branco
C A P Í TU L O 3

Sentindo a oxitocina
O circuito que nos traz a HOME*

N
o meu primeiro ano na faculdade de Claremont, minha esposa
fazia estágio em Las Vegas. Assim, uma ou duas vezes por mês
eu ia até lá ficar com ela. O apartamento em que ela estava tinha
piscina e, enquanto ela trabalhava no hospital, eu levava o laptop e des-
frutava um pouco do sol enquanto trabalhava.
Numa manhã – uma terça-feira, acho –, tão logo me sentei a uma
mesa do lado mais fundo da piscina, uma senhora surgiu com os dois
filhos pequenos e barulhentos. Droga... acabou minha paz, pensei. Por que
diabos ela tem de trazer os filhos para nadar às 10 da manhã?
Certamente, o de 5 anos era um terror. Ficava pulando gritando his-
tericamente, e ela gritava de volta, na tentativa de fazê-lo parar e esperar
quieto a seu lado enquanto ela punha as boias de braço no de 2 anos. Mas
com 5 anos, obviamente ele foi até o lado mais fundo da piscina e pulou,
encharcando minhas pernas com água e cloro.

* Nota da Tradutora: Human Oxytocin Mediated Empathy – Empatia humana mediada pela
oxitocina.

53
A molécula da moralidade

Em seguida, claro que, aos 5 anos, ele afundou como uma pedra. Eu
podia vê-lo se debatendo contra os 2,5 metros de profundidade da pis-
cina, mas não estava exatamente nadando; estava mesmo se afogando.
Olhei para a mãe e percebi o olhar do dilema no rosto. Era como A es-
colha de Sofia. Ela não podia deixar o filho caçula, de 2 anos, sozinho na
água para salvar o de 5. Então o que deveria fazer?
Por sorte, ela não precisou fazer nada. Mergulhei e tirei a criança do
fundo da piscina. Quando o entreguei a ela, a criança tossindo e cho-
rando, ela ainda estava tão aborrecida que não conseguiu falar comigo.
Nenhuma palavra de agradecimento – ela sequer me olhou. Apenas bri-
gava com o mais velho enquanto agarrava os dois meninos pelo braço e
os levava de volta para casa.
Quase todo animal social tem alguma forma de pedir socorro. O mais
interessante com relação aos seres humanos é que não precisamos gritar
por ajuda. Em geral, outros seres humanos conseguem perceber nossas
necessidades por dedução, pela nossa expressão – e às vezes apenas pelo
nosso olhar.
Acredito que esse tipo de envolvimento que nos permitiu essa forma
de comunicação quase telepática se baseie na oxitocina, mas eu queria
entender mais a respeito de como essas mensagens eram transmitidas
e que tipo de mecanismos incluíam. Basicamente, eu queria entender
exatamente como era sentir essa elevação dos níveis de oxitocina – a que
induz o impulso do comportamento moral.
Um de meus alunos de graduação, Jorge Barraza, sugeriu uma forma
de investigar essas questões usando o vídeo de cinco minutos para anga-
riar fundos, produzido pelo St. Jude Children’s Research Hospital, em
Memphis, Tennessee. O primeiro passo era editar o vídeo em dois clipes
diferentes de 100 segundos cada.
Na versão A, vemos um pai com um garotinho em um agradável pas-
seio ao zoológico. Eles andam de mãos dadas enquanto a criança ca-
minha com passos incertos de uma criança que acabou de descobrir a
habilidade de andar, olham as girafas, riem e conversam. Você percebe

54
S e n t i n d o a ox i to c i n a

que o garotinho não tem cabelo, mas, fora esse detalhe, tudo parece estar
na mais perfeita paz.
É a versão B do vídeo que nos golpeia com o lado pesado da história.
Eu assisti a esse vídeo 100 vezes e ainda fico abaladíssimo quando o exibo
em palestras. O vídeo começa com a história de Ben, descrita em blocos
de texto. A trilha sonora é uma música típica de quarto de criança. Em
seguida, a câmera mostra um porta-retratos com a foto de um garotinho
lindo, sem cabelos. Então, ouvimos a voz suave do pai: “Meu filho tem
um tumor no cérebro.”
Durante aqueles 100 segundos, você sente a dor daquele pai quadro a
quadro do vídeo, filmado nos corredores do hospital e nas salas de trata-
mentos, mostrando conversas sobre quimioterapia e índice de cura, en-
quanto o pequeno Ben recebe o tratamento para ajudá-lo a restabelecer
o equilíbrio depois de quatro cirurgias no cérebro. A parte mais devasta-
dora é quando o pai olha diretamente para a câmera e diz como é saber
que o próprio filho está morrendo de câncer. Ao som da música suave,
ele descreve sua relação com o filho, enxuga as lágrimas e diz: “Você não
imagina o que é saber que tem tão pouco tempo.”
Para investigar os sentimentos que esse filme altamente emocional
pode deflagrar, trouxemos 145 voluntários, colhemos o sangue para esta-
belecer os parâmetros de base e os dividimos em dois grupos. Um assistiu
à versão A, com o conteúdo emocional neutro. O outro assistiu à versão
B, cujo intuito era fazê-los chorar. Logo em seguida, colhemos o sangue
de todos novamente.
Os que assistiram à versão neutra tiveram o nível de oxitocina reduzido
20%. Uma observação para os aspirantes a roteiristas: assistir a um pai e seu
filho num passeio ao zoológico por um minuto e meio, sem qualquer drama
humano, pode tornar-se entediante e, evidentemente, a plateia se dispersou.
Mas os que assistiram ao clipe com todos os detalhes médicos de partir o
coração tiveram um aumento inacreditável no nível de oxitocina de 47% dos
valores de base. Desejei ter colhido meu próprio sangue antes e depois do
episódio da piscina, quando achei que a criança de 5 anos pudesse se afogar.

55
A molécula da moralidade

Obviamente, tínhamos encontrado um estímulo bastante dramático


para a liberação de oxitocina. Mas qual era exatamente o fator que a de-
sencadeara? Não havia fios ou cabos conectados... não havia Wi-Fi... não
havia o toque na pele para conectar a fisiologia de uma pessoa à das ou-
tras. Portanto, o que havia acontecido para elevar o nível de oxitocina?
Para descobrir mais sobre esse misterioso efeito a distância, distribuímos a
todos os expectadores uma lista com sete palavras que pudessem descre-
ver sua experiência e pedimos que as colocassem em ordem decrescente.
Entre os que tinham assistido à versão altamente emocional, com os de-
talhes da doença, duas palavras lideraram o ranking: angústia e empatia.
Ao compararmos a alteração nos valores sanguíneos de cada um com a
descrição escolhida para o que o vídeo havia provocado, a seleção da pa-
lavra angústia estava diretamente relacionada com o aumento do hormô-
nio do estresse cortisol. A escolha da palavra empatia estava diretamente
relacionada com o aumento da oxitocina.
Interessante, mas ainda resta a pergunta: “O que nos move da empatia
à ação?”
Quando vi o rosto daquela mãe na piscina em Las Vegas, sabia o que
tinha de fazer e o fiz sem pensar. Mas eu não estava sob qualquer risco
– nem me custava nada. A situação era muito diferente, porém, da que
ocorreu em janeiro de 2007, com um operário chamado Wesley Autrey,
de Manhattan, e suas duas filhas. Enquanto esperavam o metrô, um jo-
vem teve uma convulsão e caiu nos trilhos. Com a proximidade do trem,
Autrey deixou as duas filhas com um estranho, agachou na beira da pla-
taforma e estendeu o braço para puxar o jovem de volta, enquanto a com-
posição freava bruscamente, parando a 2,5 centímetros de suas cabeças.
Angústia e empatia não se opõem – na verdade, em geral, caminham
juntas. Angústia moderada aumenta a liberação de oxitocina, que nos in-
duz ao comprometimento. Quando os repórteres perguntaram a Autrey
por que fizera aquilo, ele respondeu que se inclinou até os trilhos porque
não queria que as filhas vissem um homem ser esmagado pelo metrô.
Autrey se tornou o “Herói do Metrô” em toda a imprensa americana,
título mais que merecido, mas, na realidade, as pessoas arriscam a vida

56
S e n t i n d o a ox i to c i n a

para salvar outras com muita frequência e espontaneamente. Sabemos,


através da evolução, que, para que o impulso de ajudar os outros seja tão
intenso em nós – a ponto de arriscarmos nossa própria vida –, o auxílio
mútuo deve ser altamente adaptável.
Depois que nossos voluntários assistiram ao vídeo sobre a história de
Ben, não pedimos que tivessem qualquer atitude heroica. Mas depois da
amostra de sangue e da busca pela palavra exata que descrevesse sua ex-
periência emocional, pedimos que jogassem o Jogo do Ultimato, aquele
em que o Proponente tem de fazer o Reagente concordar com a divisão
do montante final. Os que haviam tido os picos mais altos de oxitocina,
os mesmos que relataram o sentimento mais forte de empatia, fizeram
as ofertas mais generosas. Foram os mais generosos também quando ti-
veram a oportunidade de doar parte do dinheiro arrecadado para a St.
Jude’s.
Da mesma forma que me emocionei com o personagem do filme de
Clint Eastwood e sua atitude generosa para com uma estranha da qual
ele se aproximara, nosso cérebro não faz distinção entre pessoas em ne-
cessidade numa imagem fora de foco e pessoas que estejam precisando
de ajuda bem na nossa frente. Por isso nos emocionamos com grandes
filmes, músicas e arte em geral. Através da liberação da oxitocina, esses
produtos da imaginação humana nos conectam com todos os demais se-
res humanos. É o que mais queremos como criaturas sociais.

Quando optamos por fazer a coisa certa

Empatia é uma palavra mais frequentemente associada a cartões co-


memorativos do que à ciência, mas não se trata apenas de uma emo-
ção prazerosa guardada num compartimento em formato de coração no
dia dos namorados. Embora algumas áreas como o intestino sejam mais
revestidas de receptores de oxitocina e estresse, não há compartimen-
to isolado destinado às emoções, da mesma forma como não há uma
estrutura de desenho animado em nossa cabeça chamada “mente”, em

57
A molécula da moralidade

que uma lâmpada se acende quando temos uma grande ideia. Essas duas
dimensões de nossa experiência – as emoções e a razão –, embora estejam
frequentemente em conflito e às vezes trabalhem em prol de objetivos
contrários, são, na verdade, duas metades de um todo: o corpo. Temos
pensamentos e emoções, e ambos são produto dos sistemas físicos de cé-
lulas e tecidos animais em evolução há cerca de 3 bilhões de anos.
William James, o pai da psicologia experimental, definiu as emoções
como as mudanças pelas quais o corpo passa quando os sentidos captam
certos sinais do meio ambiente. A estimulação do mamilo, por exemplo,
libera oxitocina no tecido mamário, o que faz não só o leite materno
jorrar, como também altera o estado emocional da mãe. Por causa da
oxitocina, ela se concentra em seu entorno imediato, seu nível de ansie-
dade diminui e o cérebro libera dopamina e serotonina, que lhe dão a
sensação de prazer. Essas alterações emocionais são vitais para torná-la
mais tolerante a essa criatura incômoda (ou talvez uma ninhada inteira)
que demanda sua atenção e seus recursos metabólicos limitados.
Essas alterações no estado do organismo acontecem quase instanta-
neamente, sem qualquer controle voluntário ou consciência. Quando os
seres humanos tomam consciência dessas sensações físicas a ponto de
poder identificá-las e rotulá-las como angústia ou empatia (ou medo, fe-
licidade e contentamento), trata-se do que James chamou de “sentimen-
to”. Um sentimento é o estado consciente de uma emoção. A emoção é a
experiência física em nossas células e tecidos.
No entanto, mais uma vez, como uma alteração emocional – uma
experiência que nos toca – de fato nos deixa emocionados, sobretudo
quando não há contato pessoal, de pele com pele? Como o ato de as-
sistir a um filme (ou ver um bebê prestes a cair ou abandonado na rua
chorando ou a visão de seus avós de mãos dadas) pode causar o tipo de
alteração química que modifica tanto sua visão de mundo como seu com-
portamento? Como o fato de ouvir uma única palavra eleva o nível de
testosterona a ponto de os homens perderem a sanidade e partirem para
a briga em bares e boates? Como o fato de ver um sorriso do outro lado
de uma sala gera formigamento no corpo inteiro, o qual chamamos de

58
S e n t i n d o a ox i to c i n a

amor? Por outro lado, como o fato de ser digno de confiança em nossas
primeiras experiências com a oxitocina modificava o estado emocional
dos participantes a ponto de eles quererem agir de forma recíproca para
com estranhos que haviam confiado neles?
Prontamente, aceitamos a natureza física da emoção que chamamos
de medo, que não exige contato físico, pela forma como nos domina de
imediato. Quando você ouve passos atrás de si numa garagem escura,
tarde da noite, o som entra pelo sistema auditivo e fica registrado na
parte do cérebro que reage à ameaça – a amígdala –, que aciona a reação
de “fuga ou luta” pela liberação dos hormônios do estresse. Em segui-
da, o coração começa a acelerar e as palmas das mãos a suar – duas das
alterações fisiológicas que correspondem à emoção do medo. Quando
tomamos consciência de que tudo isso está acontecendo, surge, então, o
sentimento de medo.
A ardileza em relação à empatia está no fato de que o efeito é muito
mais sutil e exige que vários outros fatores coincidam.
Já mencionei a liberação da oxitocina no tecido mamário, que deflagra
o fluxo de leite e uma sensação calorosa de amor. Mesmo essa reação
materna primitiva pode ocorrer a distância, sem o toque, fios ou cabos.
A oxitocina pode fazer o leite materno jorrar e a percepção de mundo da
mãe se transformar em algo caloroso e terno sempre que ela vir um bebê,
sentir seu cheiro ou ouvir seu choro. Mas a reação emocional se baseia no
tipo de memória celular armazenada pela oxitocina. (“Esse é o cheiro do
meu bebê.”) Animais gerados sem a habilidade de produzir oxitocina têm
amnésia social permanente.
A empatia entre os seres humanos exige o mesmo tipo de associação
celular. As imagens e os sons da confiança, angústia ou compaixão po-
dem deflagrar memórias que nos levam de volta a experiências remotas
com outras pessoas. Essas memórias acionam a liberação da oxitocina,
que, por fim, gera as sensações que identificamos como empatia no nível
das células, das substâncias químicas e das estruturas cerebrais.
Mas e então? Nós nos sentimos bem e racionalmente decidimos nos
comportar de maneira mais altruísta?

59
A molécula da moralidade

Há cerca de 200 anos, os filósofos alemães começaram a falar sobre


“sentir” a arte e a arquitetura. Por fim, esse conceito ganhou terreno nas
discussões sobre pintura e construções e na seara da Psicologia. O termo
usado era Einfuhlung, que resultou na palavra inglesa empathy – um novo
vocábulo com origem na palavra grega pathos combinada com o prefixo
grego que significa “em”. Theodor Lipps, filósofo e psicólogo do século
XIX, explicava o significado da palavra empatia à sua forma: “Quando
vejo um artista de circo na corda bamba, sinto como se estivesse dentro
dele.” Mas a explicação de Lipps apenas reiterava o que nosso amigo
Adam Smith já expressara em Teoria dos sentimentos morais, em 1759:
“Quando vemos um golpe pronto para ser desferido na perna ou no braço
de alguém, encolhemos nossos braços e pernas naturalmente, e quando
o golpe vem, nós o sentimos.” Smith argumentara que imaginar “nosso
irmão sofrendo” era o suficiente para nos fazer “entrar em seu corpo e, de
certo modo, nos tornarmos um só”.
Tudo isso parece ser o que ocorre quando vemos alguém triste ou preocu-
pado e temos a sensação física de tristeza e preocupação, ou quando ou-
vimos alguém gargalhar e gargalhamos junto ou, pelo menos, esboçamos
um sorriso.
Freud considerou esse conceito de empatia imensamente relevante, e
Heinz Kohut e Carl Rogers o tornaram o elemento central da psicotera-
pia do século XX. Então, Jean Piaget, da linha da psicologia do desen-
volvimento, modificou um pouco o conceito, enfatizando o grau em que
o conhecimento da mente alheia, até mesmo ao ponto de estabelecer a
empatia, exige uma perspectiva intelectual. Afinal, seria difícil dizer que
se está empático ao testemunhar uma tragédia e se desesperar e tremer
incontrolavelmente de terror. A empatia é algo mais calmo e comedido,
mais relacionado com o outro do que conosco. Em resumo, é a diferença
entre o aumento da oxitocina e o da adrenalina.
A discussão sobre a essência da empatia persistiu por um longo tem-
po, até que a neurociência chegou trazendo o escaneamento cerebral e os
exames de sangue que nos possibilitaram procurar as respostas no ponto
exato da ação.

60
S e n t i n d o a ox i to c i n a

Jean Decety, neurocientista da University of Chicago, ajudou a deci-


frar um aspecto sobre a empatia por meio de vários estudos relacionados
com nossa percepção da dor. Ele mostrava pares de fotografias aos vo-
luntários ao mesmo tempo que escaneava seu cérebro por meio de res-
sonância magnética. Uma das fotos apresentava algo comum – a mão de
alguém com uma tesoura de poda cortando galhos; a outra foto mostrava
a mesma mão e a tesoura de poda, mas a mão sendo pressionada pelas
lâminas. Uma foto mostrava um pé descalço ao lado de uma porta aberta;
a outra mostrava a porta aberta pronta para ser encravada no peito do pé.
Quando as fotos comuns eram substituídas pelas repulsivas, áreas especí-
ficas do cérebro dos voluntários acendiam; as mesmas áreas responsáveis
por coordenar as reações emocionais à nossa própria dor. Quanto à res-
posta cerebral, qualquer indício de dor observado nas fotos era como se
você a estivesse sentindo.
Giacomo Rizzolatti, da Università di Parma, aprofundou a investiga-
ção ao conectar eletrodos ao cérebro de macacos. Sempre que um macaco
tentava alcançar algo – em geral, um amendoim –, os neurônios do córtex
pré-motor disparavam. Mas quando um dos pesquisadores alcançava um
amendoim enquanto o macaco observava, os mesmos neurônios do ani-
mal disparavam. Era como se ele próprio tivesse pegado o alimento. Se
o pesquisador pusesse o amendoim na boca, eram acionados os mesmos
neurônios do macaco que disparavam sempre que o próprio animal pu-
nha um na boca. Esses neurônios-espelho disparavam mesmo quando o
ponto crítico da ação – a mão da pessoa de fato apanhando o amendoim
– não era testemunhado. Apenas o barulho da casca do amendoim sendo
quebrado era suficiente para acionar a reação. Com um mínimo de infor-
mação, o cérebro do macaco podia inferir o que aconteceria em seguida.
Rizzolatti queria verificar se era possível demonstrar o mesmo tipo
de efeito nas pessoas, mas em geral não é permitido aos cientistas fazer
experiências tão livremente com o cérebro dos seres humanos. Portan-
to, ele encontrou outra boa saída. Em trabalho conjunto com Luciano
Fadiga, ele analisou o movimento dos músculos da mão – um sinal de
que a mão está prestes a se mover – enquanto os voluntários observavam

61
A molécula da moralidade

o pesquisador pegar vários objetos. A contração da mão era a mesma


quando os participantes observavam a ação de um terceiro e quando eles
mesmos agarravam os objetos. Não fazia diferença se conseguiam ou não
ver de fato a mão do pesquisador se mexendo até a conclusão da ação. O
cérebro criava uma sequência que preenchia os espaços em branco.
Para determinados tipos de informação, portanto, o cérebro desfaz a
barreira entre nós mesmos e os demais à nossa volta, a ponto de querer-
mos tratá-los da mesma forma que tratamos a nós mesmos, conceito que
nos soa extremamente familiar. Na verdade, isso me faz lembrar aquelas
tradições morais antigas, que fizeram parte da minha criação. A empatia,
com efeito, cria uma versão fisiológica da Regra de Ouro, o que significa
que, a situação que nos faz “agir como gostaríamos que agissem conosco”,
em parte, deve-se ao fato de estarmos literalmente vivenciando o prazer
ou a dor de alguém como se fosse conosco.
No fim das contas, Adam Smith estava certo quando afirmou que o
“sentimento de solidariedade” era a base para a ação moral. Duzentos e
cinquenta anos depois de Teoria dos sentimentos morais, podemos explicar
em detalhes o processo que Smith só conseguiu imaginar. Podemos in-
vestigar a empatia desde a elevação inicial da oxitocina até a liberação da
dopamina e da serotonina, que tornam a experiência agradável a ponto
de querermos repeti-la, e ao comprometimento social que surge como
resultado. A neurociência explica não só a Regra de Ouro, como também
a concepção de ren de Confúcio (humanismo) e as concepções budistas
de metta (amor, gentileza) e karuna (compaixão).
Mas ainda há uma enorme diferença entre o disparo dos neurônios –
que pode ser apenas estímulo e resposta – e vivenciar o que chamamos
de empatia (e, por consequência, agir de forma mais virtuosa). A mamãe
ratazana reagirá ao estresse aninhando os filhotes embaixo de si – estí-
mulo e resposta. E quase todo rato de laboratório pararia de empurrar
uma grade para alcançar a comida ao perceber que outro rato levou um
choque. Mas isso não significa que os ratos sejam empáticos, e sim que
são espertos o suficiente para suspeitar que o que é maléfico para seu se-
melhante pode ser para ele também. Mesmo entre espécies inteligentes

62
S e n t i n d o a ox i to c i n a

como os macacos, apesar de as mães protegerem as crias, não oferecem


nada que se assemelhe a um gesto empático de carinho ou de conforto,
mesmo que um dos filhotes tenha sido mordido. Com certeza, elas não
se incluem nos conceitos ren, metta ou karuna.
Jean Decety identificou quatro elementos que considerou essenciais
para a empatia, mas não são qualificadores arbitrários. Cada qual repre-
senta um dos quatro processos distintos que ocorrem em quatro diferen-
tes áreas do cérebro em resposta à visão das fotografias que ele mostrou
no experimento.
O primeiro elemento é o afeto compartilhado, que resume muito bem
o tipo de espelhamento e coexperiência descritos.
O segundo é a consciência do outro, à exceção da representação da
própria consciência, capacidade cognitiva chamada de Teoria da Mente,
que começa a se manifestar nos seres humanos por volta dos 2 anos. Ao
mesmo tempo que passamos a nos reconhecer no espelho, aprendemos
que nossa mãe não é apenas nossa extensão e começamos a entender que
outras pessoas têm pensamentos e emoções independentes das nossas.
O terceiro é a flexibilidade mental de, independentemente das cir-
cunstâncias, nos colocarmos no lugar do outro.
O quarto elemento é a autorregulação emocional necessária para pro-
duzir uma reação adequada, que se apoia na habilidade especial locali-
zada no córtex pré-frontal, chamada de função executiva. É o que nos
possibilita não gritar histericamente cada vez que alguém nos irrita ou
chorar sempre que vemos uma criança triste. A função executiva é o que
os cirurgiões de traumatologia e socorristas precisam ter em larga escala
para ser compassivos diante de situações terríveis e, ao mesmo tempo, se
manter distantes o suficiente para fazer o que é preciso.

O circuito HOME

Como o trabalho de Decety apoiava-se na percepção da dor, ele omitia


o elemento mais vital que desencadeia todo o efeito: a oxitocina – os

63
A molécula da moralidade

neurônios produtores e receptores dessa substância que, combinada com


os dois neuroquímicos do bem-estar que libera, serotonina e dopamina,
ativa o circuito HOME (Human Oxytocin Mediated Empathy – Em-
patia humana mediada pela oxitocina). A dopamina reforça o sorriso de
agradecimento que recebemos ao tratarmos alguém bem, e a serotonina
melhora o humor. É o circuito HOME que nos faz voltar a nos compor-
tarmos com moralidade – pelo menos na maior parte do tempo. Como
veremos adiante, o estresse, a testosterona, os traumas e as anomalias
genéticas, inclusive a condição mental, podem inibir esses efeitos. No
entanto, enquanto evitarmos que essas influências assumam o controle, o
sistema se retroalimenta.

O CIRCUITO HOME

Oxitocina
(busca por conexão)

Empatia
Humana
Mediada pela
Oxitocina

Serotonina Dopamina
(redução da ansiedade) (repetição pela recompensa
do cérebro)

Devido à variedade de influências às quais estamos sujeitos, os se-


res humanos podem ser bons ou maus; mas em circunstâncias seguras
e estáveis a oxitocina nos torna essencialmente bons. A oxitocina gera
empatia, que leva ao comportamento moral, que inspira confiança, que,
por sua vez, libera mais oxitocina e que, por consequência, cria mais em-
patia. Esse é o ciclo de feedback comportamental que chamamos de ciclo
virtuoso.

64
S e n t i n d o a ox i to c i n a

A observação da angústia alheia nos desperta a atenção e vivenciamos


parte do que as outras pessoas estão sentindo, o que pode causar liberação
de oxitocina, a menos que nossa própria angústia esteja além do supor-
tável. A natureza supõe que, se estivermos passando por um momento
delicado, não conseguiremos dispor, com facilidade, de tempo e recursos
para ajudar outra pessoa. Níveis altos de estresse bloqueiam a liberação de
oxitocina – em boa parte dos casos, a oxitocina é duplamente contrain-
dicada a alguém que esteja lutando vigorosamente pela própria sobrevi-
vência. A oxitocina não só gera preocupação empática (compaixão) – que
pode interferir na luta pela sobrevivência –, como entorpece a amígdala,
a estrutura cerebral que armazena e regula a ansiedade.

O CICLO VIRTUOSO DA OXITOCINA

Oxitocina

Confiança Empatia

Moralidade

A opção por ser altruísta ou heroico, sobrepujando nossa ansiedade


autoprotetora, é outra questão, e o fato de decidirmos nos sacrificar para
ajudar o próximo depende do grau de proximidade. Entraríamos em um
prédio em chamas sem pensar duas vezes para salvar um filho; soldados se

65
A molécula da moralidade

sacrificam para salvar seus parceiros, que acabaram se tornando sua família.
Embora a situação de correr risco para ajudar um estranho possa ocorrer,
somos menos predispostos a isso, e o fato de ser uma situação amedronta-
dora não é o único obstáculo. A possibilidade de uma atitude altruísta pode
ser reduzida, dependendo apenas do nível de imersão em que nos encontra-
mos em face dos nossos próprios problemas em determinado momento.
Se as filhas do herói do metrô fossem pequenas a ponto de ele ter de
se preocupar com o fato de elas engatinharem até os trilhos, ele poderia
não ter socorrido o jovem. Se ele estivesse discutindo com uma das filhas
também poderia ser um empecilho para sua reação espontânea. Se, em
vez de trabalhar com construção, fosse um banqueiro de investimentos
de alto nível e estivesse, por alguma razão, andando pela plataforma do
metrô, a sensação de distanciamento social do jovem em perigo poderia
tornar-se um obstáculo.
Por conta de sua capacidade de se desligar de todas as preocupações
pessoais, de sentir profunda conexão empática e se arriscar em nome de
outra pessoa, é que chamamos alguém como Wesley Autrey, o herói do
metrô, de herói.
Mas a natureza também desenvolveu um pouco de julgamento moral
nessas reações fisiológicas impulsionadas pela oxitocina. Estamos sempre
prontos para ajudar crianças e bichinhos fofos, em parte porque sabemos
que eles não podem ser responsabilizados por qualquer situação difícil
em que se encontrem. Em geral, não somos tão compreensivos e com-
placentes com moradores de rua adultos ou viciados em drogas. Para al-
gumas pessoas, adolescentes que engravidam também merecem o mesmo
tratamento rigoroso. “Você fez por onde”, elas afirmam, “agora, aguente
as consequências”.
Essa tendência a julgar em vez de ajudar é, em parte, resultado de
um ponto no córtex pré-frontal chamado córtex subgenual, cheio de re-
ceptores de oxitocina e que parece nivelar o grau de empatia ao regular
a liberação de dopamina no circuito HOME. A ausência de dopamina
significa ausência de recompensa em se solidarizar com o outro, o que
dificulta uma reação empática.

66
S e n t i n d o a ox i to c i n a

Novamente, a oxitocina mantém o equilíbrio entre o “eu” e o “outro”,


entre confiança e desconfiança, entre aproximação e distanciamento.
Quando o cérebro libera oxitocina, o equilíbrio se altera em direção à em-
patia, e nós contribuímos no auxílio ao próximo. Quando o nível de oxi-
tocina volta ao normal, saímos do estado de empatia, o sistema HOME
é reiniciado e estamos prontos para seguir para a interação seguinte que
possa aparecer. Quando a testosterona e outros fatores que favorecem a
punição assumem o controle, estamos prontos para atirar pedras em vez
de uma corda de salvamento.
Mas a pergunta permanece: Por que a seleção natural nos conduz
em direção ao comportamento compassivo, que, pelo menos em curto
prazo, parece desvantajoso? Afinal, os bonzinhos não ficam sempre por
último?
Bem, mesmo antes de os animais evoluírem em relação ao vínculo ca-
loroso e aconchegante, havia sérias vantagens competitivas em conhecer
o máximo possível o estado interno das outras criaturas. Quando outro
animal está prestes a dar o bote, um alerta de que ele não está num estado
de espírito caridoso pode ajudá-lo a se manter vivo. Da mesma forma,
saber que o outro está satisfeito pode poupar boa parte de sua energia e
tecido de cicatrização.
A fonte mais primitiva para esse tipo de informação era o mesmo
sistema de sinalização que vimos com as lagostas apaixonadas: detecção
química. Ainda temos um vestígio daquele sistema de mensagens alojado
adequadamente na parte mais evolutiva e antiga do cérebro: o olfato.
No entanto, muito antes de nós, já era necessário que a sinalização e
a detecção fossem mais sutis e tivessem maior poder de diferenciação do
que apenas a confiança no olfato, pois “outras criaturas” passaram a signifi-
car mais que uma ameaça, uma refeição ou uma companheira. Os filhotes
de mamíferos, por exemplo, dependem do cuidado das mães, portanto,
quanto mais a mamãe souber do que se passa com seus bebezinhos, mais
eficientemente conseguirá manter os filhotes vivos. O Junior está com
medo e precisa se acalmar? A princesinha zangada precisa ser alimentada?
Foi esse papel primordialmente materno – o de “mamãe amor”, se você

67
A molécula da moralidade

quiser definir assim – que criou as percepções sensoriais mais granulares


que, finalmente, relacionaram oxitocina com empatia. (Também ajuda a
explicar por que as fêmeas têm acesso a ambas com mais facilidade do que
os machos. Em todas as experiências com seres humanos que conduzi, as
mulheres liberaram mais oxitocina que os homens.)
Como os filhotes de mamíferos dependem da amamentação para se
nutrir, é necessária uma forte ligação entre mãe e filho; caso contrário, o
filhote não sobrevive. As mães também precisam ser tolerantes e atentas
por longos períodos, e o Junior não pode se sentir solitário a ponto de
querer passear e se perder por aí. Portanto, é nesse momento que o vín-
culo se torna uma necessidade, não apenas um acessório do bem-estar.
À medida que os vínculos biológicos se sofisticaram, passaram a incluir,
além do imprinting,* todos os demais tipos de visão e audição e associa-
ções complexas, e então, após milhões de anos, atingiram o nível que
chamamos hoje de ligação emocional.
Para os mamíferos altamente inteligentes e sociáveis como os macacos,
a sobrevivência exigiu muito mais que mamar na teta da mamãe macaca
e permanecer por perto. Para se tornar um primata decente, é necessário
reunir aprendizado social, processo que precisa começar o quanto antes,
tão logo consigam focar o olhar.
Os recém-nascidos – e isso vale tanto para os seres humanos quanto
para os chimpanzés – começam a focar os rostos e imitar as expressões
faciais poucas horas após o nascimento. Se você abrir a boca, eles vão
imitá-lo. Coloque a língua para fora, e eles também o farão. Eles come-
çam a experimentar esses gestos sociais e trabalham para dominá-los e
organizá-los em sua estrutura neural. Se essa estrutura for corretamen-
te composta, consolida os laços mais fundamentais que nos ajudam nos
primeiros anos de vida e também nos configuram para lidar bem com as
questões e os prazeres emocionais da vida adulta.

* Nota da Tradutora: Segundo a Psicologia, processo rápido de aprendizado que ocorre muito
cedo na vida de animais ou humanos e estabelece um padrão de comportamento.

68
S e n t i n d o a ox i to c i n a

Para o cérebro humano – exceto nos portadores de autismo –, o rosto


é a imagem mais relevante do universo, a que mais nos chama a atenção.
Essa fascinação tem início no momento em que nascemos e continua
ao longo de toda a vida. Mesmo transeuntes em supermercados se cur-
vam para brincar e elogiar bebês com rostos bonitos. Isso não ocorre
por acaso: a seleção natural esculpiu grandes olhos redondos e bochechas
rechonchudas para garantir o máximo apelo e maximizar as chances de
sobrevivência. A graciosidade dos desenhos animados de bebês é chama-
da de neotenia, e os engenheiros de robótica trabalham o conceito em
seus projetos quando desejam facilitar a identificação do público com
suas criações.
Com seis semanas de vida, alguns bebês conseguem se lembrar de um
gesto que um adulto tenha feito no dia anterior e imitá-lo, o que ajuda
a criança a identificar as pessoas mais relevantes, como a mãe, o pai, a
avó. Portanto, a brincadeira de esconder o rosto com as mãos e depois
descobri-lo para fazer o bebê sorrir é apenas um passatempo inútil. Tudo
se resume a se ajustar à vida social, a qual, para os hominídeos, é a única
forma de vida que existe.
Depois de dois ou três meses, tanto os filhotes de chimpanzé quanto
os bebês abrem mão dessa fascinação por rostos. As conexões neurais
básicas de que precisavam já foram feitas e, então, chega a hora do apren-
dizado social, que os levará a uma variedade maior de vínculos. Os bebês
decidem com muita rapidez em quem vão confiar (na mãe, no pai, na
avó e na babá preferida, por exemplo) e em relação a quem vão se manter
cautelosos (praticamente qualquer um que não conte com a aprovação
implícita desses responsáveis imediatos). Com o tempo, a inteligência
social precisa ser expandida.

Redes sociais desde o início

Durante os milhões de anos de nosso desenvolvimento como mamíferos


sociais, nossa sobrevivência individual dependia de como nos adaptávamos

69
A molécula da moralidade

ao grupo, e a sobrevivência do grupo dependia de como cada membro co-


laborava. Na vida adulta, nossos ancestrais “caçadores-coletores” seriam
bem-sucedidos ou malsucedidos com base em sua capacidade de julga-
mento sobre quem estava mentindo e quem falava a verdade. Em quem
confiar para cuidar dos filhos? Como conseguir uma parceria melhor na
hora de depor o líder e formar uma nova coalizão? E por quem você se
disporia a se sacrificar num momento de necessidade?
Os bebês imediatamente se atêm à angústia dos outros e reagem cho-
rando, com seus próprios gritos de aflição. Por volta dos 18 meses, uma
criança quase sempre oferecerá ajuda a outro bebê ou a um adulto, se for
possível. Em relação aos chimpanzés, mesmo na fase adulta, a probabi-
lidade de um animal ajudar outro é de 50%. Para eles, a prestimosidade
depende de afinidade, familiaridade, interações recentes e de se o animal
em questão é capaz de focar a atenção tempo suficiente para ser útil na-
quele momento específico.
Os bebês não só estão predispostos a ajudar os outros, como também
mostram certa preferência por aqueles que brincam de forma correta, e
certa aversão pelos que não o fazem, mesmo quando se trata de objetos
inanimados. Esse fato já foi demonstrado algumas vezes em estudos nos
quais as crianças viam um filme sobre formas geométricas, feito pelos
psicólogos Fritz Heider e Mary-Ann Simmel, em 1944. Nessa anima-
ção, há uma caixa com uma porta, uma bola, um triângulo pequeno e
um grande que parece ameaçar o pequeno e a bola. Percebemos, pelo seu
olhar, que os bebês se sentem atraídos pelas formas geométricas “agra-
dáveis” e tentam evitar as “desagradáveis”. Um computador, ao examinar
esse filme, assim como os portadores de autismo, não veriam nada além
de formas se movimentando num cenário de desenho animado. O cé-
rebro humano, porém, socialmente adepto e com propensão a construir
significados, vê um drama sendo revelado, com as figuras do bem e do
mal, dos vilões e das vítimas.
Ao longo de nossa história evolutiva, as crianças sobreviviam em maior
número quando cuidadas por dois adultos que incentivavam o que cha-
mamos de vínculo do casal. Como todo colegial sabe, esse tipo de ligação

70
S e n t i n d o a ox i to c i n a

entre homens e mulheres é facilitado e sustentado pelo toque caloroso,


incluindo o sexo, assim como pela empatia. Tanto o toque (sexo) quanto
a empatia compreendem a oxitocina e estão profundamente impregnados
em nossa concepção de moralidade.
De forma semelhante, a colaboração entre um grupo maior foi refor-
çada pela empatia e a confiança induzidas pela oxitocina que completam
o ciclo virtuoso. Esses impulsos biológicos – que nos dizem para man-
termos a calma e colaborar – foram corroborados por comportamentos
sociais como generosidade e outras formas ritualísticas de troca, transmi-
tidas como parte da cultura.
Entre os macacos, o principal ritual do processo “fique calmo e cola-
bore” é o tratamento, que inclui correr os dedos por sua pele, mas sem
o intuito de tirar carrapatos. Passar os dedos pela pele libera oxitocina,
que acalma, reduz a frequência cardíaca e regula a pressão arterial. Os
macacos passam cerca de 10% do tempo massageando uns aos outros
– pois o fato de se manterem calmos e colaborativos é essencial para a
sobrevivência.
O bom tratamento também é a forma mais fácil de conceder um favor
e, mesmo entre os macacos, o cérebro social é bem equipado para regis-
trar a pontuação de quem está recebendo e quem está fazendo o favor.
Estudos mostram que animais tratados pela manhã são mais inclinados a
dividir comida do que se forem tratados à tarde.
O hábito mais extremo desse ritual foi desenvolvido entre os primos
dos macacos (e nossos), os bonobos, que governam os seus como uma co-
munidade hippie, usando o sexo para amenizar qualquer sensação ruim.
A saudação típica das fêmeas dessa espécie é fazer sexo oral. Os machos,
por sua vez, se penduram nos galhos de árvore e esfregam seus pênis,
como duas espadas cruzadas. E os filhotes fazem o mesmo, como se não
houvesse amanhã, desempenhando literalmente a própria versão da ex-
pressão “macaco de imitação”. Tudo isso mantém a macacada cheia de
oxitocina, o que significa que a comunidade dos bonobos é tão pacífica
e colaborativa quanto possível. O único problema é o fato de não terem
evoluído muito nos últimos sete milhões de anos.

71
A molécula da moralidade

Tampouco evoluíram os chimpanzés, mais agressivos e competitivos


que os primos bonobos. A incumbência da evolução foi deixada para
seus primos – nós –, que descobrimos o ponto ideal da combinação entre
competição saudável e alto grau de colaboração, o impulso e a transição
da testosterona e oxitocina. Ao acionar a liberação de dopamina e seroto-
nina, a oxitocina criou o caminho motivacional que chamei de HOME.
Não se exija demais, não se aborreça muito, dê na mesma proporção que
receber. É nesse ponto que está a virtude do ciclo virtuoso.
Entre familiares e amigos mais próximos, costumamos abraçar ao
nos cumprimentar ou nos despedir, e aprendemos a dar um forte abra-
ço consolador quando alguém de quem gostamos está chateado. Mas o
comportamento social “fique calmo e colabore” dos humanos que mais
se assemelha ao tratamento dos macacos é a conversa. Antropólogos que
estudam as sociedades primitivas se surpreendem com o tempo que esses
seres gastam contando histórias sobre quem está dormindo com quem.
Claro, existem os mitos e as lendas que precisam ser transmitidos através
das gerações para manter uma cultura viva, mas detalhes picantes sobre
um vizinho parecem ser o assunto preferido. No entanto, isso não se
resume a uma conversa fiada, como parece. As conversas – sobretudo as
ricas em teor social – constroem confiança, o que tem o efeito de uma
massagem verbal, de um tratamento especial na aura e ainda libera oxi-
tocina. Além disso, elas também fornecem informações fundamentais
que influenciam a vida do grupo. Quais alianças estão se formando? Que
macho é digno de confiança e qual deles é o cafajeste que irá machucar os
corações (e abandonará os filhotes)? Hoje, o mesmo princípio se aplica a
questões como quem é o melhor mecânico e quem vai tentar lhe vender
um novo motor de arranque do qual você não precisa.
O hábito da fofoca está tão fortemente arraigado nos seres humanos
que agora, na era digital, construímos indústrias monumentais que vi-
vem da troca de informações triviais e curiosidades sobre personalidades
em reality shows inúteis, ou sobre a última internação das estrelas de
Hollywood em clínicas de reabilitação ou o último divórcio. E qual o
melhor lugar para compartilhar essas informações, que, com frequência,

72
S e n t i n d o a ox i to c i n a

levam a pessoa a compartilhar os próprios segredos? Onde a confiança e


o contato físico (e tratamento) criam um ambiente rico em oxitocina: no
salão de cabeleireiros, na barbearia, no vestiário e na aula de ioga.
Para os homens, a troca verbal não é tanto sobre as personalidades de
Hollywood, mas sobre as do esporte; as premissas, porém, são as mes-
mas. Todas as estatísticas e descrições detalhadas que viram a vida dessas
pessoas do avesso não têm qualquer finalidade, a não ser o importante
propósito de relaxar enquanto os vínculos humanos se estreitam.
Os seres humanos também constroem vínculos ricos em oxitocina por
meio dos esportes e outros jogos amigáveis, assim como os cachorros
brincam de se arranhar e morder. E as mesmas regras do processo “fique
calmo e colabore” são aplicadas, mesmo quando não há a figura do juiz
para reiterá-las. Se uma estrela do basquete da faculdade, com cerca de
2 metros de altura, vai com muita sede ao pote, transformando um jogo
amigável em jogadas pessoais brilhantes, os outros jogadores irão para
o vestiário. As regras tácitas do jogo amigável envolvem alto nível de
confiança. Você joga limpo, reconhece suas faltas com honestidade e não
fica enterrando a bola em um garoto de 16 anos que não joga tão bem e
que tem 30 centímetros a menos que você. Confiança e contato físico,
combinados com o estresse moderado de uma competição amigável, aju-
dam a criar forte amizade entre os homens que jogam juntos por anos e
conversam fiado toda semana no vestiário e, ainda assim, sequer sabem o
sobrenome uns dos outros. (A oxitocina também explica aquele tapinha
no bumbum que resultaria em um tapa na cara no escritório, mas é per-
feitamente aceitável durante o jogo.)
Também estreitamos os vínculos ao nos espelhar e imitar as pessoas ao
longo da vida. Quando crianças, começamos obcecados pelo rosto, mas
o foco de nosso cérebro em outra pessoa nunca desaparece. Se você e eu
permanecermos de pé nos olhando e eu cruzar os braços, há uma grande
possibilidade de você cruzar também. Se você esfregar o nariz, é provável
que eu esfregue o meu. Costumamos adotar os padrões de discurso dos
outros, e quaisquer gestos, desde uma gargalhada ao bocejo, podem ser
contagiantes. As pessoas imitam os trejeitos de estranhos, mesmo sendo

73
A molécula da moralidade

altamente improvável qualquer aproximação ou relacionamento futuro.


Esse tipo de reação não é apenas involuntário, como também é tão rápido
que passamos a imitar as pessoas antes mesmos de nos darmos conta.
Os terapeutas sabem que os pacientes com frequência fazem uma ava-
liação mais positiva da interação quando os profissionais imitam as pos-
turas deles. As salas de aula em que se observou maior índice de imitação
física foram as que obtiveram, na avaliação dos próprios alunos, o maior
índice de compreensão. Pessoas imitadas – mesmo que não tenham per-
cebido de forma consciente – afirmaram, mais tarde, ter uma impressão
mais favorável de alguém que as imitou. Portanto, quando há o desejo de
aproximação – você com o chefe, ou com o herói local ou com uma pes-
soa pela qual esteja interessado –, o nível de comportamento mimético
aumenta.
Às vezes, nossa tendência de imitar as pessoas gera empatia com quem
não deveria. Em um experimento, os participantes instruídos a resistir
conscientemente à imitação dos parceiros se saíram muito melhor na de-
tecção de mentirosos. (O que sugere que, se alguém me tivesse alertado
para não imitar o homem do posto de gasolina da ARCO, em Santa
Barbara, eu não teria perdido $100.)
Numa corrida de cavalos, inclinamo-nos na curva junto com o ca-
valeiro para o qual estamos torcendo. Ao assistirmos a uma partida de
softball, esticamos o pescoço junto com o campista central no momento
em que ele se estica para pegar a bola. Mas os bons atletas estão ainda
mais sintonizados uns com os outros do que os fãs com eles, antevendo os
movimentos dos colegas de equipe. A harmonia contribui para a sincro-
nia e vice-versa, o que pode fazer toda a diferença em derrubar o trabalho
de toda a equipe ou fazer uma jogada dupla, aterrissar um jumbo com
problemas no motor, fazer uma cirurgia no tórax ou servir 126 refeições
perfeitas na cozinha de um restaurante movimentado.
É nesse ponto que o cognitivo pode unir forças com o emocional para
criar o Santo Graal de todo coach ou CEO: fazer a equipe ter o mesmo
pensamento ao mesmo tempo, focando os mesmos objetivos. É o que os
psicólogos chamam de cocognição, ou seja, a capacidade de reconhecer

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S e n t i n d o a ox i to c i n a

de imediato o significado do gesto ou movimento de alguém, o objetivo


e como estão relacionados com outras ações e eventos, com o passado,
o presente ou o futuro. Pense no passo “cego” do basquete ou na forma
como jazzistas tocam juntos intuitivamente quando improvisam. Não há
ninguém ditando regras, mas todos sabem o que fazer.
Os primeiros seres humanos, mesmo depois de terem desenvolvido
o discurso, ainda precisavam desse tipo de sincronia tácita para matar
os animais maiores e encurralar e capturar os menores. As mulheres
“caçadoras-coletoras” se beneficiavam no sentido de compartilhar uma
consciência quase coletiva para as tarefas afins. Todas as crianças estão
cuidadas? Até onde podemos nos espalhar sem abrir uma brecha para um
eventual ataque predador? Essa habilidade permitia a nossos antepassa-
dos fazer inferências rápidas e às vezes vitais, com base em indícios físicos
e sensações muitas vezes imperceptíveis no nível da consciência. Tudo
isso começa com os laços criados pela oxitocina.
O ciclo virtuoso, com a oxitocina à frente e no centro, ainda é o que
mantém a sociedade unida. Mas deixamos claro, o tempo inteiro, que
a substância não é soberana. Outros fatores podem competir para nos
influenciar, e um deles é justamente tão arraigado em nossas origens se-
xuais quanto a oxitocina.

75
Página deixada intencionalmente em branco
C A P Í TU L O 4

Bad boys
As complexidades dos gêneros

Eu estava a 12 mil pés acima do deserto, num avião com a hélice depau-
perada, atormentado por um aluno de graduação com um paraquedas
sobre o jaleco. Ele me pedia insistentemente para somar pares de núme-
ros, nos quais eu não conseguia me concentrar pelo fato de que as pessoas
andavam até o fundo do avião e desapareciam. Sentia-me especialmente
perturbado por estar sentado no colo de um instrutor enorme a quem es-
tava amarrado com mais força do que achava recomendável e, em um ou
dois minutos, ele e eu caminharíamos juntos, andando como patos, para
a traseira do caminhão e nos lançaríamos para o nada.
Tenho pânico de altura, mas, na expectativa de minha primeira ex-
periência de skydive – tudo pela ciência –, vinha tomando suplemento
de testosterona havia uma semana. Na noite anterior ao salto, coletei
meu sangue para estabelecer um parâmetro para os níveis de testosterona,
oxitocina e cortisol. Imediatamente após a aterrissagem, coletei o sangue
de novo para medir os efeitos de um salto em queda livre de 7 mil pés, a
193 quilômetros por hora. Fosse o hormônio masculino artificialmente

77
A molécula da moralidade

elevado ou apenas medo e empolgação, na hora em que o instrutor e eu


demos um salto mortal para fora do avião, gritei “Jerônimo!”, como aque-
les personagens de filmes antigos de bangue-bangue.
A testosterona incita as pessoas a fazerem coisas esquisitas. Verdade
seja dita: os homens tendem a agir de forma estranha, não as mulhe-
res. É a testosterona que estimula o ato de correr risco e a violência
entre os homens, assim como o comportamento mais característico
desse gênero: a busca incessante por sexo, desconsiderando quaisquer
consequências.
Na verdade, houve tantos homens notáveis traídos por suas libidos nos
últimos anos que é difícil acompanhar. O prêmio pelo total de relaciona-
mentos simultâneos vai para a lenda do golfe Tiger Woods. Para o pior
nome associado a um escândalo sexual, o vencedor é Anthony Weiner.
Para a audácia descarada, o destaque é o ex-governador da Carolina do
Sul, Mark Sanford, que disse estar “caminhando pela Trilha Apalache”
quando, na verdade, estava abaixo da linha do equador com a amante ar-
gentina. (Por outro lado, Arnold Schwarzenegger ter um filho com a go-
vernanta, o qual manteve em segredo por 10 anos – e, ao mesmo tempo,
manter a amante trabalhando em sua casa – foi, comprovadamente, uma
atitude ainda mais baixa.) Quanto ao impacto político, existe a obsessão
do primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi por adolescentes, o que
gerou uma revolta em Roma, e, é claro, as aventuras de Bill Clinton com
a estagiária que quase acabou com seu mandato.
Mas não apenas os machos alfa são flagrados com os zíperes abertos.
Recentemente, o mundo se ateve no empenho dos 33 mineiros chilenos
presos por dois meses em uma mina, 700 metros abaixo da terra. En-
quanto a tentativa de resgate progredia, o drama se tornou uma novela,
repleta de entes queridos reunidos no local, o que gerou enorme constra-
gimento para esposas que descobriram as namoradas fazendo vigílias (e
reclamando dos benefícios) de seus maridos/namorados presos.
Como neurocientista, sei que as várias partes do cérebro dos homens
são menos integradas que as das mulheres, o que facilita a separação do
emocional e do sexual em categorias – e atividades – distintas.

78
B a d b oys

Mas também sei que o verdadeiro condutor de um bad boy é a anta-


gonista da oxitocina, conhecida como testosterona. Esse hormônio está
presente tanto nas mulheres quanto nos homens – mas eles o têm 10
vezes mais. A testosterona é excelente para a performance atlética por au-
mentar a massa muscular e a densidade óssea, motivo pelo qual os heróis
do esporte são conhecidos por trapacear injetando testosterona sintética
na forma de esteroides anabolizantes. Também é bastante útil quando
você precisa entrar num prédio em chamas para resgatar pessoas ou ao
desembarcar na praia da Normandia, sob fogo cruzado, ou em qualquer
outra situação que envolva riscos, coragem física, força e velocidade.
O ponto é que a testosterona também causa alguns problemas, não
apenas na área dos relacionamentos íntimos. A maioria dos crimes é co-
metida por jovens, em sua maioria homens na faixa entre 20 e 25 anos.
(Assassinatos cometidos por mulheres são tão raros que nem chegam a
ser relevantes nas estatísticas criminais.) Jovens do sexo masculino têm o
dobro do nível de testosterona em relação aos mais velhos, logo o termo
envenenamento de testosterona para essa faixa etária não é brincadeira.
Dado tudo que já disse sobre o papel da oxitocina na sustentação da
colaboração social e sobre o papel da cooperação social na sobrevivência
humana, você pode se perguntar como a molécula do comportamento
impulsivo e, em geral, antissocial, a testosterona, conseguiu chegar ao
século XXI.
Bem, a testosterona foi muito sacrificada. Na pré-história, assim como
no Velho Oeste, homens que tinham excesso desse hormônio eram se-
parados do grupo genético muito cedo. Eles corriam riscos absurdos, a
ponto de morrer, ou eram tão desagradáveis e contestadores que fracas-
savam no jogo da sedução, ou ainda a tribo (ou os habitantes da cidade)
“removia-os” da rede de amigos, golpeando-os na cabeça (ou atirando
neles).
Mas embora o comportamento pró-social fosse o diferencial que
permitia ao homo sapiens competir com mais vigor – e ser vigorosamen-
te mais competitivo – com animais como nossos primos chimpanzés,
ainda precisávamos de testosterona em nosso ambiente de adaptação

79
A molécula da moralidade

evolutiva. Havia predadores que precisavam se defender, fontes poten-


ciais de proteína que, às vezes, resistiam a objetos grandes, como pedras
e toras, que, de tempos em tempos, precisavam ser movidos. Por con-
seguinte, a força física, a tolerância e a agressão fornecidas pela testos-
terona foram essenciais para permancermos vivos tempo suficiente para
reproduzir.
Além disso, na competição da seleção natural, cada grupo de humanos
primitivos ou pré-humanos estava em risco não apenas por conta de ani-
mais maiores e ferozes, mas por causa de vizinhos maiores e ferozes que
competiam com eles por recursos, incluindo a comida de que precisavam
para alimentar as crianças. Para continuar no jogo, cada tribo ou tropa
precisava de companheiros maiores e ferozes no próprio time, mesmo
desprovidos de sensibilidade (e fidelidade sexual).
Mas a causa principal de a testosterona – e os homens – existir, em
primeiro lugar, foi para melhorar a qualidade do conjunto genético ao
competir pela oportunidade de acasalar. Com o tempo, essa mesma luta
motivada pela testosterona, para ter seus próprios genes reproduzidos
na geração seguinte, criou o impulso para o status social, que alimentou
a iniciativa de melhorar a forma de fazer as coisas. Nenhuma das duas
resultou necessariamente no cara mais legal do mundo. Assim, mesmo
hoje, a testosterona ainda tem a incumbência de aumentar a motivação
e a iniciativa – não apenas a do sexo – em todos os seres humanos, mu-
lheres e homens.
Ao longo de milhões de anos de evolução, então, surgiu uma dupla
abordagem para manter as espécies vivas. Ambos os sexos eram capazes
de violência, competição e agressão, assim como união e compaixão, mas
os homens (com muita testosterona) estavam hormonalmente predis-
postos a serem líderes em violência, competição e agressão, enquanto as
mulheres (ao liberarem altos níveis de oxitocina em resposta a estímu-
los) eram hormonalmente predispostas a liderar em termos de união e
compaixão.
As mulheres são conhecidas por aparecer em registros policiais, trair
os maridos e cometer fraudes, desvios e abuso infantil, mas a verdade é

80
B a d b oys

que elas são, em média, mais empáticas, focadas, confiáveis, generosas


e caridosas que os homens. No nosso Jogo de Confiança, enquanto o
valor médio doado de volta por um jogador B masculino foi de 25%, a
média retornada por mulheres foi de 42%. No lado negativo do âmbito
comportamental, 30% dos homens retornam menos que 10% do valor,
mas apenas 13% das mulheres agiram dessa forma fria e distante. Com
relação aos comportamentos mais baixos, 24% dos homens não retornam
absolutamente qualquer valor – o que se mostrou verdadeiro em apenas
7% das mulheres.
Mas ao olharmos de forma mais ampla, um fato curioso se destaca:
a libertinagem masculina que produziu nossa perigosa galeria de patifes
conquistadores de alto nível parece associar-se, de forma totalmente in-
congruente, a um desejo masculino: o de punir os criminosos. Apesar de
minhas falhas morais de gênero bem documentadas, somos nós que nos
autoelegemos os fiscais – os juízes que sentenciam enforcamentos, os
pregadores que condenam os pecadores, os sargentos exigentes do trei-
namento militar, os CEOs que não aceitam desculpas.
Não há melhor exemplo dessa contradição que Eliot Spitzer, apresen-
tador aposentado da CNN. Promotor do estado de Nova York, casado e
pai de três filhas, ele ficou conhecido como um combatente rígido contra
o suborno, a corrupção e todos os tipos de trambiques. Como governador
de Nova York, tornou-se mais conhecido como “Cliente 9”, o patrocina-
dor de uma rede de prostituição de alto luxo, atividade altamente ilegal
em Washington, D.C.
De volta aos anos 1990, os cinco primeiros líderes do Congresso
americano que comandaram o movimento de impeachment de Bill
Clinton parecem ter a mesma dose de testosterona. Por meses, esses
homens condenaram o presidente pelo episódio do charuto com Moni-
ca Lewinsky no Salão Oval. Mas antes de a poeira baixar, esses políti-
cos republicanos de valores familiares haviam sido expostos por terem
secretos encontros extraconjugais, e pelo menos um deles teve um filho
ilegítimo.
Então a testosterona torna os homens hipócritas e desprezíveis?

81
A molécula da moralidade

Esfregue-o apenas no ombro!

Para investigar o papel da testosterona como a gêmea má da Molécula


da Moralidade, precisarei introduzi-la na equação comportamental de
maneira precisa e ordenada, assim como fizemos em nossas comparações
com os participantes com e sem a infusão de oxitocina. Por sorte, nesse
caso, havia um medicamento disponível para aumentar o nível de testos-
terona prontamente, aprovado pela FDA.
AndroGel é o preparo medicinal da testosterona sintética que tomei
antes de saltar de paraquedas. É um gel absorvido pela pele, e é conve-
nientemente disponibilizado em porções individuais em lâminas metáli-
cas, práticas e simples, como o gel antibacteriano para mãos. Na verdade,
ele parece e tem o mesmo cheiro de um gel para as mãos – o que funcio-
nou muito bem como placebo para a situação “sem testosterona extra”
em nossos estudos.
Sempre que vou submeter alguém a uma experiência no laboratório,
sirvo de cobaia primeiro para poder entender o que a outra pessoa terá de
aguentar. Assim, peguei a prescrição do AndroGel e, por duas semanas,
esfreguei esse negócio nos ombros, no mesmo horário, todos os dias. O
auge do efeito vem 16 horas depois. Então, na manhã seguinte, e a cada
manhã, por duas semanas, acordei me sentindo como se tivesse novamente
19 anos. Fiz uma série longuíssima de exercícios na academia. Não preci-
sava de muito descanso e passeava com a autoconfiança arrogante (e libido)
de um jogador de futebol americano da faculdade – que eu fora um dia.
Por sorte, ser um alfa enlouquecido pela testosterona não afetou mi-
nha habilidade em me relacionar de perto com meus filhos ou com qual-
quer outra pessoa nesse aspecto. E fico contente de relatar que saí dessa
experiência sem entrar em qualquer briga nem mesmo gritar com alguém
por uma vaga.
Nossos participantes da experiência do AndroGel se apresentaram ao
“trabalho” à tarde. Não fiquei surpreso ao perceber que, com o anúncio de
recrutamento, que pedia jovens do sexo masculino para um experimento

82
B a d b oys

com testosterona, conseguimos lotar de halterofilistas uma sala de ginás-


tica. Excluímos as mulheres do estudo por conta do risco de a infusão de
testosterona criar problemas no sistema reprodutor.
Coletamos quatro tubos de sangue dos participantes para medir seus
níveis de base de testosterona e, em seguida, os monitoramos enquanto
aplicavam o gel. “Esfregue-o apenas nos ombros, senhores... não lá em-
baixo.” Eles voltaram cedo na manhã seguinte para colhermos o sangue
novamente e para participar do jogo do dinheiro, como de hábito. Então,
voltaram seis semanas depois para repetir o processo. Em cada visita,
cada um aplicaria o AndroGel, que estimularia sua testosterona a dobrar
o nível normal. Em outra visita, sem que soubessem, eles aplicariam o gel
para as mãos, o que nos permitiria comparar diretamente o mesmo rapaz
a um garoto comum ou a um G.I. Joe.*
Ao estudarmos o resultado, verificamos que nossos machos alfa in-
fundidos com testosterona foram 27% menos bondosos no Jogo do Ul-
timato do que quando usaram o placebo. Mas a razão subjacente para
esse efeito não foi casual; é uma distinção química com um propósito.
Verificou-se que a testosterona bloqueia a ligação da oxitocina com seu
receptor, que freia o ciclo virtuoso apresentado no capítulo anterior.
Quanto mais alto o nível de testosterona, mais a oxitocina é bloqueada
e menos empatia a pessoa sente. Quanto menos empatia a pessoa sente,
menos generosa fica.
Logo, o déficit de empatia que vemos nos homens não é apenas uma
desculpa para ser mais agressivo. A testosterona interfere, sobretudo, na
absorção da oxitocina, cujo efeito é a redução da capacidade de ser ca-
rinhoso e afetivo. Em princípio, parece ser apenas um aspecto negativo.
Porém, ao tornar jovens do sexo masculino – caçadores e guerreiros – não
só mais rápidos e fortes, mas também menos camaradas, a testostero-
na também os torna menos medrosos na hora do abate para alimentar

* Nota da Tradutora: G.I. Joe é um boneco franqueado pela empresa de brinquedos Hasbro. Em
1984, a empresa brasileira de brinquedos Estrela S/A iniciou a produção dos G.I. Joe com o
nome de Comandos em Ação.

83
A molécula da moralidade

e proteger a família. Ser legal é sempre mais desejável, mas quando o


trabalho é matar lindos animaizinhos para se ter a comida necessária ou
afastar invasores que tentam pegar sua comida (ou seus filhos), ser “legal”
demais não é tão legal.

Lidando com vagabundos e trapaceiros

Nem todas as ameaças em nosso ambiente de adaptação evolutiva vieram


dos grandes animais ferozes ou dos grandes vizinhos ferozes de fora do
complexo tribal. Como os humanos confiavam muito numa estratégia
de cooperação e coesão de grupo, a sobrevivência propriamente dita era
posta em risco pelos membros do grupo que não seguia as regras – e não
apenas pelos excessivamente agressivos. Num mundo em que alimen­
tar-se envolvia trabalho árduo e risco moderado, a ameaça também vinha
de qualquer um da tribo que não fizesse uma distribuição justa. Cien-
tistas sociais chamam esse comportamento preguiçoso de parasitismo ou
ociosodade social, um problema sério. Quando o GPS da moralidade in-
terna de um indivíduo falha, é o momento em que a fiscalização alheia
precisa entrar em ação. Nossos estudos mostram que a testosterona é que
dá esse estímulo.
Ao ter as ações da oxitocina bloqueadas pela testosterona, a natureza
garantiu que aproximadamente metade da população tivesse a empatia
moderadamente prejudicada, o que significava ser cruel e até insensível
em se tratando de punição – sem choro ou desculpas. Os homens tor-
naram-se os executores legítimos da sociedade para todos os problemas,
grandes e pequenos. Até hoje, quando alguém ouve música alta na praia,
alguns gostariam de ir até lá explicar ao indivíduo sobre o barulho tran-
quilizante das ondas (ou, pelo menos, as virtudes dos fones de ouvido).
Mas pouquíssimos de fato irão até lá para ter essa conversa, e a maioria
dos que vão é composta de homens.
Até chimpanzés têm um senso inato das regras do jogo. (Se você duvi-
da, para uma mesma tarefa, dê a um chimpanzé uma uva como prêmio e,

84
B a d b oys

ao outro, um pepino e veja o que acontece. De preferência, mantenha-se


atrás de uma proteção de vidro.) No bando, um chimpanzé mesquinho
terá uma reputação bem ruim, de modo que a próxima vez que houver al-
guma refeição em potencial passando, o chimpanzé estigmatizado como
mesquinho precisará implorar e pedir por muito mais tempo para ter
alguma esperança de obter sua parte.
No primeiro experimento do Jogo da Verdade, na UCLA, bem antes
de começarmos a injetar testosterona, notamos que jogadores na posição B
devolviam consistentes 41% do que ganhavam na transferência dos jogadores
A. Mas houve uma relevante exceção. Sempre que o jogador B recebia uma
transferência de qualquer valor inferior a 30%, ele não dava quase nada de
volta. A falta de confiança implícita por essa mísera transferência realmente
marcou esses homens, pois, ao coletarmos seu sangue, encontramos um au-
mento na di-hidrotestosterona, ou DHT, a versão da testosterona com alta
octanagem que estimula remotas regiões do cérebro associadas à agressão.
O efeito da DHT no cérebro é aproximadamente cinco vezes maior que o
da testosterona. Não só libera a agressividade, como também aumenta a do-
pamina, que torna a agressividade prazerosa. E há uma correlação gradativa
precisa – quanto menores as ofertas dos jogadores A, mais altos os níveis de
DHT nos jogadores B – desde que o jogador B fosse homem. Esse efeito
não surgiu em nenhum momento em mulheres.
Mulheres que receberam poucas transferências como jogadoras B afir-
maram estar “sentidas” ou “desapontadas” e, em alguns momentos, até
“bravas”, mas a raiva jamais alcançou o ponto de quererem vingança. Em
vez disso, as jogadoras B devolveram uma quantia consistentemente pro-
porcional, a despeito de quão pequena fosse a transferência inicial que
recebessem.
Esse fato me fez pensar em todas as vezes em que vi uma mulher
acelerando para alcançar um motorista que a cortou no trânsito, gritando
insultos e talvez fazendo gestos obscenos. Nunca. E ainda vejo homens
fazendo esse tipo de coisa o tempo inteiro.
Homens com alto nível de base de testosterona estão prontos para o
disparo, e o desejo de punir é automático e emocional, direto em vez de

85
A molécula da moralidade

sutil e flagrantemente reativo. Isso significa que, quando a testosterona


está no comando, mesmo os sinais ambíguos podem acarretar problemas.
Em culturas tradicionais – na Sicília, digamos, ou na Carolina do Sul
pré-Guerra Civil Americana –, alguém que se melindre por pouco pode
ser respeitado por ser um “homem de honra”. Mas a desvantagem dessa
abordagem de vida é, sem dúvida, conseguir acompanhar uma agenda
cheia de duelos e vendetas que podem acabar com sua vida. Esse com-
portamento também causa a morte de vários garotos adolescentes, pelo
simples fato de acharem que alguém lhes olhou torto.
A evolução elegeu naturalmente esse comportamento – até certo pon-
to –, já que o simples fato de apresentar a ameaça de punição aumenta
substancialmente o comportamento pró-social, mesmo que a punição
nunca seja – ou raramente – repartida. Em estudos psicológicos, a amea-
ça de punição funciona mesmo quando é puramente simbólica.
Mas a natureza deu margem de sobrevivência a grupos cujos membros
de fato gostavam de punir os malvados, mesmo havendo um relevante
custo pessoal, e escaneamentos do cérebro apontaram que a punição ativa
áreas de recompensa do cérebro masculino ricas em dopamina, muito
mais que nos femininos.
Em nossos estudos com o gel de testosterona, a probabilidade de
os machos alfa recém-criados punirem os outros era duas vezes maior
quando apresentavam os níveis de testosterona aumentados do que
quando operavam em níveis normais do hormônio. Para verificar quão
longe eles iriam com essa gana de se vingar, adicionamos um fator extra
ao jogo: O jogador B não só poderia reter o valor que o jogador A, que
aparentemente o humilhara, havia retornado, como também poderia
efetivamente puni-lo, declarando secretamente o que pensava merecer
dele. Se a oferta do jogador A não satisfizesse esse padrão estabelecido
em segredo, ambos perderiam todo o montante em questão. Essa es-
tratégia permitia ao jogador B, à sua própria custa, punir um jogador
A pão-duro não dando a ele qualquer benefício, a não ser o deleite de
vê-lo sem dinheiro. Um total de 10% dos machos alfa criados farma-
cologicamente preferiu perder todo o dinheiro disponível a aceitar uma

86
B a d b oys

oferta baixa, enquanto apenas 3% dos que não tiveram seu montante
aumentado escolheram essa opção.
Na verdade, os participantes que tiveram seu nível de testosterona
elevado, quando comparados a si mesmos sob o efeito do placebo, con-
sistentemente exigiam um valor maior para considerar a oferta “razoá-
vel”. E tanto a mesquinhez quanto a punição acompanharam o aumen-
to de testosterona do homem. Em outro estudo, cientistas infligiram
choques elétricos suaves. Quando homens (não mulheres) observavam
um parceiro não colaborativo levando choques, vivenciavam não só a
ativação das áreas de recompensa do cérebro, mas também a balsâmica
desativação da matriz da dor. Portanto, mesmo que a vingança não seja
literalmente doce, oferece um caloroso conforto – pelo menos para os
homens.
Em suma, a testosterona e a dopamina se unem para formar o an-
ti-HOME, um sistema completo de reforço para “não ser legal”. Eu o
chamo de circuito cerebral TOP (Testosterone Ordained Punishment
– Punição Determinada pela Testosterona) de testosterona e dopamina,
que, por acaso, é exercida com frequência por homens que se veem no
topo da pirâmide social.
O benefício de haver pelo menos alguns membros do grupo ma-
chucados por amor é o fato de reforçar a moralidade ao aumentar o
preço – assim como a possibilidade de ter de pagar por ele – de um
comportamento antissocial. A TOP é ainda outro contra-argumento à
ideia de que a religião e outras invocações morais são as únicas formas
de se atingir harmonia social. Desde que estabeleçamos as condições
básicas corretas, o sistema naturalmente cria os próprios estímulos para
o seguimento das regras, assim como os desincentivos para quebrá-las.
Pesquisadores da University of Erfurt, na Alemanha, e da London
School of Economics realizaram um estudo que demonstrou intensa-
mente esses efeitos naturais. Eles usaram o que chamamos de Jogo dos
Bens Públicos, que engloba a configuração de dois clubes de investimen-
tos – A (os perdulários) e o B (os articuladores). O experimento contou
com 84 participantes em 30 repetições de um processo de dois a três

87
A molécula da moralidade

passos, dependendo do clube. Para ambos, havia a fase em que cada par-
ticipante havia decidido a que clube gostaria de pertencer, seguida pelo
estágio de dar ou não uma contribuição. A diferença era que, entre os
articuladores, havia uma terceira fase, a de aprovação ou punição, que não
existia no clube dos perdulários.
Para levar o jogo adiante, cada um dos 84 participantes recebia €20
e teria de se juntar ao grupo dos perdulários ou dos articuladores e, em
seguida, escolher quanto investiria. O montante que o participante não
investisse no fundo coletivo iria para sua conta particular.
Eis então o clímax que tornava a história interessante: o único valor
que sofreria aumento seria o montante investido na conta coletiva. No
fim do jogo, cada conta seria dividida igualmente entre todos os mem-
bros daquele clube, independente do valor dos investimentos individuais.
Diante dessa armadilha, os mais sovinas receberiam o mesmo valor que
aqueles que haviam depositado todo seu dinheiro para aumentar os lu-
cros de todos.
No fim da fase da contribuição de cada rodada, todos os jogadores
tomavam ciência de quanto cada um dera e ainda recebiam o valor atua-
lizado de seus ganhos e dos ganhos dos demais participantes, de ambos
os grupos.
Entre os perdulários, que não tinham a terceira fase de aprovação,
havia, essencialmente, um grande banner de boas-vindas aos “parasitas”
pendendo da porta, e várias pessoas aceitaram o convite para tentar sair
com algum valor sem investir nenhum.
Já entre os articuladores, não havia lugar para se esconder. Cada jo-
gador tinha o poder de recompensar os generosos, condenar os parasitas
ou ambas as opções. A punição tomou a forma de um símbolo de multa
que poderia ser designado por qualquer um e custaria €3 ao participante
designado que não dera qualquer contribuição. Mas o prazer da punição
não era gratuito. Quem designava a multa de €3 teria de pagar €1 tam-
bém. Se você quisesse recompensar um colaborador generoso, o sistema
funcionava da mesma forma. Um bônus de €1 concedido a um colabora-
dor generoso lhe custaria €1 também.

88
B a d b oys

No início da experiência, apenas um terço dos jogadores se junta-


ram ao grupo dos articuladores. (Ei, tive minha própria experiência
com freiras que batiam em nossas mãos com réguas. Quem precisa
disso?) E, na primeira rodada, os parasitas entre os perdulários foram
vistos como bandidos; não haviam contribuído com nada, mas ain-
da assim foram beneficiados pela divisão do montante acumulado na
conta coletiva.
Depois da quinta rodada, porém, ficou claro que os mais exigentes – e
colaborativos – do grupo dos articuladores estavam ganhando mais. Essa
conscientização teve seu efeito multiplicador, e mais pessoas passaram a
tentar agir da mesma forma. Na 10a rodada, 75 dos 84 jogadores já ha-
viam se filiado ao grupo dos articuladores e adotado a ideia de punição.
Com mais membros se juntando ao grupo e contribuindo espontanea-
mente, os benefícios de se ter uma organização que impunha regras com
clareza e justiça se tornaram ainda maiores. Pense na Suíça em compa-
ração ao México.
Na 30a rodada, os articuladores nadavam em dinheiro, e todos contri-
buíam tanto que a necessidade de sanções de fato desapareceu – apenas a
ameaça de punição já era suficiente. Enquanto isso, os ativos dos perdu-
lários foram reduzidos a zero.
Boa parte do crédito para os altos ganhos dos articuladores pertencia
àqueles que bancaram o custo de punir os parasitas. Nas primeiras ro-
dadas, não havia qualquer benefício óbvio de se admoestarem (além da
retribuição prazerosa do circuito TOP), mas então teve início o ciclo vir-
tuoso e tudo ficou claro: uma instituição que promove o comportamento
pró-social, não só pela recompensa aos generosos, mas pela punição dos
mesquinhos, recebe maior retorno.
Se você tem alguma dúvida, compare o valor imobiliário do Texas,
pelo menos em relação a 2011, com o do Arizona, Nevada ou Fló-
rida. Os texanos conseguiram escapar da recente e vergonhosa bolha
imobiliária ao estabelecer e impor regras que evitaram que as pessoas
transformassem o mercado em um cassino. Hoje, estão se saindo muito
bem com valores solidamente crescentes. Os outros lugares ensolarados

89
A molécula da moralidade

que mencionei adotaram o conceito de cassino e arriscaram seu dinhei-


ro como se não houvesse amanhã. Até que o amanhã chegou, e todos
faliram.
A vantagem da TOP é o fato de ser um incentivo para que a sociedade
siga as regras. A desvantagem, mais uma vez, é que os jovens chegam a se
matar quando se sentem desrespeitados. Além disso, há também a ques-
tão das discussões por uma vaga, brigas em bares e ocorrências frequentes
de violência doméstica. Os homens com maiores taxas de testosterona
se divorciam com mais frequência, passam menos tempo com os filhos,
entram em competições de todos os tipos, têm mais parceiros sexuais
(assim como dificuldade de aprendizado) e perdem o emprego com mais
facilidade.
Portanto, mais uma vez, o equilíbrio é o melhor dos mundos. Por isso,
a natureza uniu a testosterona (agressão e punição) à oxitocina (empatia e
colaboração) num mesmo grupo, em que as proporções de cada substân-
cia possam oscilar para se adequar às circunstâncias imediatas.

A abordagem feminina ao risco

O lado feminino da divisão dos gêneros deu à humanidade maior proxi-


midade com a mãe para preparar os receptores de oxitocina para a em-
patia, o vínculo entre o casal e o investimento parental. Do lado mas-
culino, havia oxitocina e empatia suficientes para fazer parte de todo o
processo descrito antes, mas não a ponto de interferir na agressividade,
na exposição a situações de risco e no cumprimento de regras induzidos
pela testosterona. Além disso, havia a descarga intermitente da testos-
terona (DHT), que alimentava o prazer genuíno de punir malandros e
indolentes, mesmo quando o ato de puni-los resultava em custo pessoal
relevante.
Mas embora as mulheres tenham maior propensão ao comportamento
pró-social, o qual chamamos agora de moral, as evidências não sustentam
os esteriótipos de gêneros. Em alguns de nossos estudos, a pessoa com o

90
B a d b oys

nível mais alto de testosterona era uma mulher, e os homossexuais mas-


culinos podem apresentar níveis de testosterona altíssimos.

Naturalmente mais servidos de testosterona, aos homens sempre coube


a incumbência de correr os riscos, incentivando as espécies a testar seus
limites, não apenas nas proezas que vemos em programas como Jackass.
Um neurocientista chamado Brian Knuston colocou jovens para assis-
tirem à pornografia para ativar seus circuitos TOP e, então, pediu que
escolhessem um investimento. Os que ficaram sexualmente estimulados
tinham 19% mais probabilidade de aplicar em investimentos de alto risco
do que os jovens que não se entusiasmaram com as meninas.
De volta aos tempos das caravanas rumo ao Ocidente, os homens do
Partido de Donner optaram por um atalho desconhecido. Infelizmente,
o caminho “mais curto” os deixou presos numa nevasca em Sierra Neva-
da. Esse episódio ficou conhecido como Passagem de Donner. Metade
do grupo morreu, e os sobreviventes precisaram recorrer ao canibalismo
para sobreviver. O relato dos sobrevientes indica que as mulheres do gru-
po haviam sido contrárias à escolha do tal atalho.
Negócios arriscados podem resultar em morte. Por outro lado, pouca
tolerância ao risco teria significado que todos os pioneiros – não apenas
os do Partido Donner das caravanas – teriam ficado em casa trabalhando
como assalariados em Brattleboro (ou em Endinburgo, para falar a ver-
dade), em vez de se tornarem donos de fazenda no Ocidente.
Portanto, mais uma vez a natureza dos dá o yin e yang, o antagonismo
entre a oxitocina e a testosterona que ajuda no equilíbrio mais sustentá-
vel, uma alternativa entre a “Kumbaya” e um pé no traseiro.
Em nossos estudos do Jogo da Confiança, o único momento em que
as mulheres foram mais sovinas que os homens foi quando estavam na
posição A e tinham de se arriscar, transferindo o dinheiro para aumentar
o retorno. O montante médio que transferiram na base da confinaça foi
$4,50 dos $10 que receberam. Já os homens se dispunham a arriscar, em
média, $6,00. A maior aversão ao risco por parte das mulheres corrobora

91
A molécula da moralidade

as constatações que revelam que elas fazem seguro de vida com mais
frequência, dirigem com mais cuidado e investem a aposentadoria em
fundos mais conservadores que os homens.
Há razões evolutivas sólidas para as mulheres serem mais cautelosas
em relação ao risco que os homens. Mas uma das duas posturas é a me-
lhor: a liderada pela oxitocina ou pela testosterona?
Nunca se sabe, até ficarmos presos em Sierra Nevada.
Os muito avessos ao risco em geral ficam inertes, e os excessivamente
adeptos ao risco morrem no meio do caminho, razão pela qual a pers-
pectiva de uma relação recíproca de equilíbrio entre os gêneros parece
oferecer melhores resultados com o tempo. Talvez os Donner devessem
ter ouvido mais os temores de suas esposas. Ou talvez devessem ter tido
um sistema como o seguido por alguns índios americanos, que tinham
(a) chefes masculinos para cada clã, mas (b) que podiam ser depostos por
meio de votos de todas as mães do clã.
A confiança propriamente dita é uma área em que a oxitocina pode
ser regulada pela testosterona para causar um efeito positivo. Confiar de-
mais – lembra o conto do vigário na estação ARCO? – é outra expressão
para ingenuidade, que pode ser tão fatal quanto cutucar uma onça com
vara curta.
Na University of Utrecht, na Holanda, pesquisadores deram a mulhe-
res pequenas doses de testosterona e, em seguida, pediram que julgassem
o grau de confiabilidade dos rostos retratados em fotografias. Sob a influência
da testosterona, as mulheres demonstravam bem menos confiança que
sob o efeito do placebo. As mais afetadas foram as que costumavam de-
monstrar mais confiança, o que significa dizer que eram as mais ingênuas
socialmente antes da infusão de testosterona.
Ocorre que a produção da testosterona nas mulheres atinge o ponto
máximo bem antes da ovulação, o que faz aumentar a libido exatamen-
te no momento em que a concepção é mais provável de acontecer, mas
também reduz a empatia o suficiente para elevar a cautela. A gravidez e a
criação de um filho exigem tanto investimento dos recursos metabólicos,
de tempo e energia que é vantajoso para a mulher se tornar cética – e

92
B a d b oys

seletiva – em relação a confiar num parceiro em potencial. Portanto, a


natureza equilibra o esforço de conceber e reproduzir – alegria no pe-
ríodo mais fértil do mês – com o esforço equivalente de evitar escolhas
precipitadas.

Campeões

Os seres humanos são programados tanto para demonstrar confiança


quanto para ser céticos, provedores e punidores, competitivos e colabo-
rativos, pois cada uma dessas forças antagônicas pode contribuir para a
sobrevivência. Mas o maior fator yin e yang pode ser o equilíbrio entre
competição e colaboração. É a testosterona que assume a responsabilida-
de da parte competitiva, no caso de ambos os gêneros.
O nível de testosterona em jogadoras de futebol universitárias era
maior antes de enfrentarem um forte advsersário específico e, quan-
do ganhavam, o nível de testosterona se mantinha alto por horas.
De forma semelhante, quando assistimos a um jogo em que nosso
time tenha perdido – mesmo pela televisão –, o nível de testostero-
na cai, independentemente do gênero. Se você tem grande identificação
com um time (e aqui temos uma influência óbvia da oxitocina), sente-se
um perdedor cada vez que o time perde. Portanto, mais uma vez temos
a testosterona interagindo com a oxitocina – na questão da empatia.
Mas não estamos falando apenas de Super Bowl ou de Copa do Mun-
do. Até mesmo ganhar um concurso de soletração pode elevar o nível
de testosterona, assim como o fato de perder o concurso diminui o
nível da substância.
Todo mundo sabe que um pouco de competição pode levar ao apri-
moramento de desempenho. O estresse moderado de uma competição
comedida pode até ser saudável – melhora a concentração, a memória e a
cognição, além de ajudar a estabelecer objetivos claros. Moderadamente,
o estresse também estimula a liberação da oxitocina, que nos motiva a
recorrermos aos recursos sociais.

93
A molécula da moralidade

Mas mulheres e homens têm pontos de inflexão para os quais os hor-


mônios dão o tom. O efeito da oxitocina é mais intenso nas mulheres.
Sob estresse moderado, elas prontamente se unem, comportamento que
a psicóloga da UCLA Shelley Taylor chama de “cuide e faça amigos”.
Nos homens, o alto índice de testosterona mantém o foco em vencer e
deixar claro aos perdedores que eles foram derrotados.
Vencer grandes desafios com muita frequência pode ter efeito cor-
rosivo pela produção excessiva de testosterona. Obter o primeiro lugar,
consistentemente e ao longo do tempo, pode reforçar alguns dos mais
agressivos e estereotipados comportamentos masculinos associados ao
hormônio.
Como já vimos, os bonzinhos nem sempre ficam por último – a ama-
bilidade, ao contrário, costuma levar ao crescimento em uma organização.
Mas, então, acontece algo curioso. O fato de estarem por cima costuma
transformar as pessoas em idiotas. Pesquisas em organizações descobri-
ram que os comportamentos mais rudes e inadequados, como uso de pa-
lavrões, flertes inapropriados e provocações hostis, vinham das posições
do alto escalão. O alcance de alto status social não só torna as pessoas
solitárias, como também afeta sua moralidade de forma perigosa.
Isso tudo nos reconduz aos machos alfa e aos escândalos sexuais. Em
2011, quando Dominique Strauss-Kahn, importante político francês e
diretor-geral do FMI, foi acusado de estuprar uma camareira de um so-
fisticado hotel em Nova York, o fato deu origem a muita autorreflexão
na França, onde o orgulho e o privilégio masculinos por não serem pu-
ritanos como os anglo-saxônios só são sobrepujados por uma reverência
cultural – e deferência midiática – pelas elites. Se você for inteligente,
elegante e influente, as regras válidas para a burguesia não se aplicam a
você. Enquanto as acusações contra Strauss-Kahn sobre o incidente em
Nova York eram retiradas, relatos de outras relações indesejadas com
mulheres começaram a surgir. A tolerância francesa em relação a casos
extraconjugais, combinada com riqueza e poder e com a relutância por
parte da mídia do país – ou de qualquer outra pessoa – para a prática de
punição, resultou num cenário vergonhoso. O fato também lançou uma

94
B a d b oys

luz sobre o volume de fraudes e de corrupção varrido para baixo do tapete


por uma atmosfera de indulgência mútua em que os poderosos pegam
carona.
Sob a influência da testosterona, líderes ficam propensos a se tornar
mais impulsivos à medida que vão progredindo. Em alguns casos, os há-
bitos gerados por altos níveis de testosterona podem ajudar um executivo
a ser mais incisivo e obstinado, ou a fazer escolhas inovadoras e vantajo-
sas, mesmo não sendo populares. Isto, é claro, a menos que – ou até que –
o frisson do risco e/ou a obstinação em busca de um objetivo inadequado
leve o executivo (e a empresa) à bancarrota, ou sua equipe à sarjeta.
Os estudos em que usamos o AndroGel não só mostraram que os ho-
mens que sofreram infusão de testosterona ficaram mais egoístas, como
também que, assim como Dominique Strauss-Kahn, se sentiam com di-
reitos adquiridos. Antes de o experimento começar, fiz cada participante
me dizer o valor mínimo que aceitaria no Jogo do Ultimato. Os mes-
mos participantes, depois da infusão de testosterona, rejeitaram 10% de
propostas que satisfaziam os valores que eles mesmos haviam designado
como “aceitáveis”. Os participantes sob efeito do placebo só mantiveram
esse tipo de inconsistência em 3% das vezes.
Pessoas no poder estabelecem menos contato visual, pelo menos quan-
do se trata de uma pessoa abaixo delas na hierarquia – que, na maioria
das vezes, é uma mulher. Em testes como o nosso, a administração da
testosterona tem mostrado inibir a capacidade das pessoas de captar o
subtexto social que o contato visual transmite. Essa pode ser, em parte,
a razão pela qual alguns chefes com níveis elevados de testosterona são
mais propensos a confiar em estereótipos e generalizações em algumas
avaliações e a racionalizar as próprias falhas. Afinal, são pessoas impor-
tantes, com atribuições importantes e, como prontamente lhe dirão, têm
uma pesada sobrecarga de responsabilidades.
Em jogos de RPG, em que os participantes desempenham um papel
relevante, os alunos que fingiam ser os chefes demonstravam muito me-
nos sensibilidade à qualidade dos argumentos. Era como se a argumenta-
ção não fizesse diferença – eles já haviam formado suas opiniões.

95
A molécula da moralidade

Deborah Gruenfeld, psicóloga da Stanford Graduate School of Busi-


ness, estudou mil sentenças proferidas pelo Supremo Tribunal dos Esta-
dos Unidos ao longo de 40 anos e descobriu que, à medida que os juízes
ganhavam poder no tribunal ou passavam a fazer parte de uma coalizão
majoritária, seus pareceres consideravam menos perspectivas e conse­
quências. (O mais assutador é que as decisões tomadas dessa forma, por
serem majoritárias, se tornam as leis daquele local.)
O resultado do progresso das mulheres no mundo dos negócios e na
política foi a igualdade de oportunidades. Foi uma mulher, a falecida
magnata do ramo imobiliário Leona Helmsley, que disse a famosa frase
(pouco antes de ser indiciada): “Pagar imposto é coisa de pobre.” Seu
estilo de vida não suportaria admitir qualquer infração, por menor que
fosse, ou aceitar uma reprimenda. Portanto, contra o aconselhamento de
seus advogados, ela mentiu para os agentes federais e acabou passando
cinco meses na cadeia. Mais tarde, ela se compararia a Nelson Mandela,
outra “pessoa de bem” forçada a ir para o xadrez. (Desculpe, Martha,
uma pequena deturpação moral nesse ponto. Passar 27 anos na cadeira
em prol da liberdade de seu povo é um pouco diferente de trapacear
numa operação com ações e mentir a respeito.)
Tradicionalmente, os homens se orgulham de ser fortes e calados e,
como Nelson Mandela, estoicos diante de dificuldades e da dor. Tam-
bém se orgulham de “não ser emocionais” em posições de liderança. No
mundo dos homens tradicionais – pense em Don Draper em Mad Men
– o distanciamento indiferente e frio é admirado, e sinais de emoção são
estigmatizados como fraqueza.
Mas as mulheres vêm argumentando há tempos que o distanciamento
indiferente às vezes é apenas um sinônimo de “emocionalmente ausen-
te”, o que significa que, ao subestimar a empatia e a intuição, os homens
perdem as sutilezas não só do contato visual, mas também das palavras,
do gestual e inclusive do contexto social.
No clássico filme 2001: uma odisseia no espaço, de Stanley Kubric, o
computador HAL decide matar todos os seres humanos na nave espacial
que está conduzindo, pois imaginou que seus “sentimentos” poderiam

96
B a d b oys

comprometer a missão. No Vietnã, o raciocínio abstrato (o Secretário


de Defesa dos Estados Unidos, Robert McNamara, ficara famoso por
trazer a gestão quantitativa para a indústria automobilística) levou ao uso
de uma métrica absurda para contabilizar as vítimas com a finalidade de
justificar táticas sem sentido. O raciocínio abstrado ainda deu origem a
declarações surreais, como: “Tínhamos de destruir o vilarejo para salvar
o vilarejo.”

Equipes da testosterona

Com a diminuição da oxitocina e da empatia, é muito fácil para alguém


virar “O Alguém”, em seguida “O Inimigo”, depois “O Demônio”. Sem
conhecer a fisiologia exata, governos e exércitos se deram conta, há mi-
lênios, de que envolver a testosterona, diminuir a empatia e aumentar
o desejo de punir, tudo isso produz ameaça externa à existência de um
grupo. Rotular os adversários como monstros ajuda a dar à nossa hosti-
lidade aquele charme extra e a acabar com qualquer vestígio do efeito da
oxitocina.
Os antigos gregos e persas se chamavam pejorativamente de bárbaros.
Nos tempos modernos, os publicitários inventaram termos como “Yellow
Peril” (Perigo Amarelo), “Axis of Devil” (Eixo do Mal), “Evil Empire”
(Império do Mal), “Hun” (huno), “Kraut” (alemão, termo usado pejorati-
vamente), “Jap” (japonês), “Red” e “Commie” (comunistas radicais) para
eliminar qualquer noção de que o adversário tivesse qualidades humanas
e, às vezes, motivos válidos para agir como havia agido, em vez de afirmar
que eram subumanos ou que estavam possuídos pelo demônio.
Vernon Smith, ganhador do Prêmio Nobel de Economia, mostrou
que somente o uso da palavra “adversário” em vez de “parceiro” já era su-
ficiente para reduzir o nível de confiança pela metade. Quando a palavra
“parceiro” era usada para descrever outra pessoa, o nível de confiança era
de 68%. Na mesma situação, quando a palavra “adversário” era usada, o
nível de confiança caía para 33%.

97
A molécula da moralidade

Às vezes, a confiança na abstração de raciocínio para a exclusão da


empatia contribui para uma deferência completamente irracional à auto-
ridade. No início dos anos 1960, o psicólogo Stanley Milgram realizou
um famoso experimento em que pedia às pessoas para administrarem
leves choques elétricos em outras fora de seu campo de visão, mas perto
o suficiente para que fossem ouvidas. Um cientista vestido com jaleco – a
“figura de autoridade” – pedia a quem estava administrando o choque
para aumentar um pouco a carga elétrica. Os participantes eram de uma
obediência inacreditável, mesmo quando começaram a ouvir os gritos de
dor. (Nem a dor, nem os gritos, tampouco o choque elétrico eram ver-
dadeiros, mas os participantes que administravam o choque não sabiam
disso.) Dois terços dos participantes aniquilaram os vizinhos com o que
pensavam ser uma carga extra quando foram advertidos de que pode-
ria ser fatal. Afinal, uma figura de autoridade os estava mandando fazer
aquilo, portanto, moralmente – pelo menos, sob seus pontos de vista –,
estavam isentos de quaisquer responsabilidades.
Em outro clássico estudo chamado o Experimento da Prisão de Stan-
ford, o psicólogo Philip Zimbardo escolheu voluntários aleatoriamente
para desempenhar os papéis de guardas ou de prisioneiro de uma peni-
tenciária simulada que funcionava 24 horas por dia. Após seis dias, o
clima na penitenciária se tornara real e feio demais, e a experiência teve
de ser cancelada. Os guardas ficaram sádicos e torturaram os prisionei-
ros, alguns dos quais se tornaram passivos e aceitaram o abuso. Outros
obedeceram prontamente quando foram solicitados a infligir punição a
outros prisioneiros. Até o próprio Zimbardo passou dos limites no papel
de superintendente da prisão, deixando de lado seu papel de psicólogo e
permitindo que o abuso fugisse ao controle.
As diferenças entre os grupos interno e externo podem sobrepujar a
empatia e trazer resultados ruins, em parte porque, quando seguimos a
maioria, o sistema da dopamina entra em ação, o que torna a identida-
de do grupo e a conformidade agradáveis. (No extremo oposto, está a
dor que sentimos sempre que somos excluídos de um grupo ou quando
uma relação termina. No fim das contas, o cérebro processa a dor social

98
B a d b oys

exatamente da mesma forma que a física.) O prazer e a dor, o estímulo


e o desestímulo reforçam a identidade do grupo ou o relacionamento,
mesmo quando o grupo se torna uma máfia.
A testosterona sinaliza a diferença entre os grupos interno e externo
mesmo numa competição inofensiva como um jogo de dominó. Em
estudo realizado no Caribe, os níveis de testosterona aumentavam mui-
to mais quando os homens eram adversários de um vilarejo vizinho
do que quando competiam pelo próprio vilarejo. Psicólogos mostraram
que qualquer atribuição aleatória dada a dois lados – “Vocês deste lado
são os pássaros vermelhos, vocês do outro lado são os pássaros azuis”
– é o suficiente para incentivar a competição entre os grupos interno e
externo.
Ao juntar todas essas forças – testosterona elevada, deferência à au-
toridade, pressão do grupo, abstrações desumanizadoras –, temos a in-
sanidade dos nazistas nos anos 1930 e 1940, ou os belgas no Congo no
fim do século XIX, que puniam os trabalhadores pela baixa produção nos
seringais cortando as mãos e os pés de seus filhos. Mais recentemente, te-
mos visto chacinas, estupros e mutilações durante genocídios nos Bálcãs,
Ruanda e Sudão, e até na guerra entre cartéis rivais de droga na fronteira
entre os Estados Unidos e o México. Se você não for um de nós, merece
morrer – e, quanto mais cruel for a morte, melhor.
Temos grande empatia pelos que nos são próximos, mas, quando nos
sentimos ameaçados, nosso cérebro faz um simples cálculo do tipo “eu
contra o outro”. Essa pessoa faz parte do meu grupo ou de outro grupo?
Ao reduzir a oxitocina, o estresse do medo diminui o ciclo da empatia,
limitando também nossa concentração a um cálculo amoral do que pre-
cisamos para sobreviver.
No livro Jarhead, sobre as memórias de Anthony Swofford sobre a
Guerra do Golfo em 2003, o autor descreve o medo que sentiu da huma-
nidade do inimigo, porque vê-lo como ser humano dificulta puxar o ga-
tilho. Matar até mesmo o inimigo desumanizado pode ser em si desuma-
nizador – e pode contribuir para o que conhecemos como transtorno de
estresse pós-traumático. Num esforço para se reumanizarem, os soldados

99
A molécula da moralidade

se abraçavam, trocavam carinhos e diziam “Eu te amo, cara”. Cada um


desses gestos libera oxitocina e reanima a molécula da moralidade, redu-
zindo o estresse e trazendo de volta para a família dos seres humanos os
homens que foram forçados a agir de forma desumana.
O poeta e líder espiritual Robert Bly passou anos no circuito de pa-
lestras defendendo a ideia de que não se pode aprimorar o comporta-
mento masculino envergonhando os homens ou tentando transformá-los
em mulheres. É necessário honrar as virtudes da testosterona – o que os
gregos antigos chamavam de andreia – e se certificar de que o ser huma-
no com toda a sua agressividade também tem uma cabeça e um coração
totalmente integrados.
Especialmente nesse contexto, a igualdade entre os gêneros é sensa-
cional, pois pode tornar a vida menos estressante para todos: as mulheres
não ficam restritas aos papéis tradicionais, enquanto os homens não sen-
tem a necessidade de reprimir seus sentimentos ou de andar por aí com
um chip no ombro. Idealmente, os dois gêneros podem compartilhar os
fardos e as alegrias da vida, não apenas um ou outro, e, ao mesmo tempo,
valorizar diferenças essenciais.
Mas, sem dúvida, a testosterona é um problema quando se trata de
comportamento pró-social. Nos homens, ela naturalmente decai por vol-
ta dos 30 anos, o que torna os homens mais velhos menos agressivos e
mais empáticos, revertendo o padrão criminal da idade quando entram
na fase da andropausa, o equivalente masculino à menopausa. Por volta
dos 30 anos, o córtex pré-frontal nos homens está finalmente conectado
por completo, o que permite que o cérebro executivo tenha melhor de-
sempenho em inibir a impulsividade, que leva à maior ponderação.
Os efeitos da testosterona também diminuem quando um homem se
compromete com uma mulher. Se, dessa relação, nascerem filhos, a tes-
tosterona dimuinui ainda mais. No meu próprio caso, brinco dizendo
que sou um “homem feminino”, já que tenho duas filhas e passo bastante
tempo escovando seus cabelos e escolhendo vestidos para elas. Mas quan-
do eu era adolescente e trabalhava com carros e jogava futebol, nunca me
imaginei fazendo esse tipo de coisa, mas hoje eu amo. Hoje me exponho

100
B a d b oys

a menos riscos (episódios eventuais de skydiving, entretanto), entro em


menos confrontos com outros homens e dirijo com mais cuidado. Tam-
bém acho que me tornei muito mais tolerante e generoso.
Outro benefício de haver homens com mais empatia e participando
mais na educação dos filhos é o fato de aumentar a atenção amorosa de
que as crianças precisam para desenvolver os receptores de oxitocina ne-
cessários para que se tornem seres humanos totalmente empáticos.
Infelizmente, o contrário também é verdadeiro. Pais disfuncionais
tendem a ser deficientes em empatia, o que, em geral, resulta em crianças
estressadas e traumatizadas, as quais, por sua vez, crescem com insufi-
ciência de receptores de oxitocina, que perpetua um círculo vicioso de
pessoas com deficiência em empatia.

101
Página deixada intencionalmente em branco
C A P Í TU L O 5

Os desconectados
Vítimas de abuso, genes ruins e más ideias

A
lguns anos atrás, no Loma Linda University Center, minha espo-
sa dirigia uma clínica de epilepsia ambulatorial com um grande
número de vítimas de trauma. Muitas eram mulheres que haviam
sido tão maltratadas que os danos emocionais manifestavam-se como
sintomas físicos, um processo chamado somatização. Convenciam-se de
estar paralíticas, ou tinham convulsões ou, ainda, ataques cardíacos.
Em animais, maus-tratos ou negligência extrema podem interromper
a conexão fisiológica que a liberação da oxitocina possibilita. Eu vim à
clínica para verificar se poderíamos usar o Jogo da Confiança para encon-
trar evidências similares em seres humanos.
A primeira paciente que analisamos era uma jovem de 22 anos cha-
mada Alicia e que, desde os 12, vinha sendo repetidamente violentada
pelo padrasto. Ainda que não houvesse nada de errado com suas pernas,
ela chegara numa cadeira de rodas. Quando os médicos a incentivaram a
ficar de pé, ela o fez e conseguiu mover-se arrastando os pés, mas em sua
mente estava completamente paralisada.

103
A molécula da moralidade

Alicia estava num estado lamentável. Enquanto colhíamos seu san-


gue, notei que a cabeça pendia e que não fazia contato visual. No en-
tanto, colaborou totalmente e se comportou bem no Jogo. Mas como
jogadora B, recebera uma transferência de dinheiro, e a manifestação
de confiança não fizera os níveis de oxitocina chegarem ao máximo.
Como havíamos previsto, seu trauma de infância desconectara os re-
ceptores de oxitocina.
Levamos um ano até fazermos os 15 pacientes com somatização pas-
sarem pelo protocolo do Jogo de Confiança. Todos tinham vida instável
e não apareciam quando prometiam, mudavam ou trocavam de telefone,
o que dificultava o contato.
Mais tarde, fizemos nesses pacientes um estudo das imagens cere-
brais, mostrando fotografias de pessoas em situação aflitiva, o que, de
modo geral, desperta empatia. Nas vítimas de trauma, a amígdala estava
desconectada. Ela tem alta densidade de receptores de oxitocina e modu-
la as emoções. Assim como Alicia no Jogo da Confiança, esses pacientes
eram emocionalmente vazios e não mostraram reação às fotos.
Quando tentamos falar com Alicia novamente para pedir que viesse
fazer uma ressonância magnética cerebral, o parente que atendeu ao te-
lefone nos disse que ela morrera e desligou antes que pudéssemos lhe dar
os pêsames ou mesmo descobrir o que havia acontecido.

Os 5%

Tínhamos encontrado evidências de insuficiência de oxitocina em nosso


primeiro Jogo da Confiança na UCLA. O último jogador naquela série
inicial de teste era um pouco gordo, tanto que meu amigo médico Bill
Matzner teve de espetá-lo quatro vezes para achar uma veia. Depois de
termos colhido o sangue, me desculpei pela dor que lhe infligíramos.
“Sem problemas”, disse ele. “Adoro essa experiência. Posso voltar
amanhã?”

104
O s d e s co n e c ta d o s

Isso me deixou curioso – a maioria das pessoas que espeto três ou


quatro vezes para uma única coleta de sangue não fica muito contente.
Assim, fiz uma pequena investigação.
Este era um jogador B. O jogador A que tinha feito par com ele trans-
ferira-lhe cada centavo do montante inicial, o que, multiplicado por três,
rendeu-lhe mais $30, que adicionados ao valor inicial perfizeram um to-
tal de $40. Embora o jogador A tivesse apostado tudo para aumentar o
tamanho do bolo para ambos, esse cara reteve cada centavo.
Na economia comportamental, o termo técnico para esse tipo de pes-
soa é não recíproco incondicional. Lá no laboratório, nós os chamamos de
sacanas.
Ao longo do tempo, descobrimos que 5% de nossos voluntários uni-
versitários eram assim. Eles optaram por não retornar nada, independen-
temente do montante que o outro jogador lhes confiara. Nesses casos, o
trauma não era um fator – todos eram universitários altamente dotados
que nunca haviam sofrido graves traumas. Quando analisamos seu san-
gue, verificamos que 5% deles tinham, na verdade, excesso de oxitocina.
A princípio, pareceu-nos contraditório, mas depois consideramos o fato
de que o sistema não reage ao nível total de oxitocina, mas ao aumento
imediato. O desligamento de seus receptores estava com defeito, inun-
dando o sistema de oxitocina, o que criara um déficit funcional. Sem
aumento, sem contraste, sem ativação de oxitocina. Sem essa ativação,
não havia empatia nem reciprocidade. Assim, embora o problema para
esses não recíprocos incondicionais tenha origem no excesso de oxitoci-
na, chamamos essa condição de Distúrbio de Déficit de Oxitocina, pois
eles não liberam oxitocina quando deveriam.
Com o tempo, descobrimos que, na verdade, existem três macroca-
tegorias de influência que diminuem ou destroem a reação à oxitocina:
temporária, adquirida e orgânica.
Qualquer pessoa pode ter um dia ruim, e as preocupações momentâ-
neas do trabalho ou problemas no trajeto de casa para o trabalho podem
diminuir essa reação. Vítimas de trauma como Alicia podem apresentar

105
A molécula da moralidade

deficiência adquirida de oxitocina num extremo, enquanto pessoas do


lado oposto do espectro social podem perder sua capacidade de empa-
tia, por conta do alto status ou rigidez mental. Deficiências orgânicas
incluem algumas doenças genéticas, sendo o autismo a mais comum, e a
psicopatologia, a mais grave.

Um pouco de estresse pode ir longe

Um dia ruim pode acontecer de todas as formas e intensidades, e o maior


responsável pela criação da deficiência de oxitocina é o estresse, que, de
vez em quando, pode nos transformar em não recíprocos temporários. E
não é preciso que estejamos sob fogo cruzado, desesperados para achar
um emprego ou preocupados com uma criança no hospital para que o es-
tresse amorteça a liberação de oxitocina, tornando nosso comportamento
menos generoso.
Existem dois tipos básicos de estresse: crônico e agudo, e ambos in-
terferem no sistema HOME. O do tipo “fogo cruzado” resulta na li-
beração do hormônio epinefrina, também chamado de adrenalina, que
nos prepara para a “luta ou a fuga”. Embora já tenha se tornado comum
nos dias de hoje, a epinefrina acelera a frequência cardíaca e a respiração
e aumenta a pressão arterial. Níveis elevados dessa substância causam
vômito e esvaziamento dos intestinos e da bexiga. Essa reação vinha a
calhar quando nossos ancestrais precisavam diminuir sua carga enquanto
fugiam dos predadores, mas não é muito útil quando a causa do distúrbio
é a turbulência num avião ou uma divergência crítica com o chefe.
A maioria das pessoas no mundo moderno passa muito mais tempo
lidando com o estresse, que não é grande ou dramático, mas faz parte
da vida. Essa variedade, o estresse crônico, faz o organismo liberar uma
substância química chamada cortisol. Como nosso corpo evoluiu para
se ajustar ao ambiente de adaptação evolutiva – as planícies da África
Oriental há alguns milhões de anos –, esse hormônio também nos ajudou

106
O s d e s co n e c ta d o s

a escapar de ameaças, mas de maneira mais duradoura. A epinefrina é um


golpe imediato à ação, mas depois entra o cortisol para manter a frequên-
cia cardíaca e a pressão arterial elevadas e a respiração acelerada, como
se seu vilarejo fosse subitamente inundado e você precisasse de horas de
esforço para manter seus filhos em segurança. Esse hormônio também li-
bera glicose dos depósitos de gordura, de modo que os músculos tenham
energia para queimar. A desvantagem dessa adaptação, que já foi muito
útil, é o fato de que, uma vez desencadeados pelas baixas e persistentes
ansiedades de hoje, a frequência cardíaca e a pressão arterial elevadas
e os aumentos de glicose permanecem e tornam-se tóxicos de todas as
formas, causando doenças cardíacas e diabetes, assim como alterações no
comportamento moral.
Tanto os elevados níveis de epinefrina quanto o cortisol inibem a li-
beração da oxitocina, o que abala o ciclo virtuoso, gerando diminuição da
empatia e acabando com a sua preocupação para com os outros. Aqui, a
lógica evolutiva é a mesma do raciocínio por trás das instruções de segu-
rança aérea, que o aconselham a colocar a própria máscara de oxigênio
antes de tentar ajudar seu filho. Quando você está lutando pela sobre-
vivência pelos próximos 60 segundos, o alto nível de altruísmo ou até
mesmo um sentido refinado de escrúpulo moral talvez não seja o melhor
caminho.
E não é preciso tanto estresse para que nos tornemos menos virtuo-
sos. Um estudo com seminaristas descobriu que, mesmo dentre aqueles
altamente altruístas e espiritualmente comprometidos, um alto percen-
tual de jovens não parou para socorrer um sem-teto que agonizava por
estarem atrasados para a aula.
O efeito mais pernicioso de cortisol em demasia devido ao estresse
é poder levar a uma longa fadiga de empatia. Acredito que isso aconte-
ce com muitas pessoas quando as dificuldades da vida moderna se jun-
tam à superexposição à mídia. Há tantas lutas e dificuldades no mundo,
tantas pessoas e causas clamando por atenção que, às vezes, queremos
apenas nos encolher em nosso casulo. A constante cascata de estímulos

107
A molécula da moralidade

estressantes pode nos causar um “apagão”, como os médicos socorristas e


os de emergência apagam por conta do excesso da enorme responsabili-
dade que têm nas mãos.
Algumas pessoas são mais resilientes; para outras, um pouco de
estresse leva algum tempo para causar exaustão de empatia. Para al-
guns, o estresse do isolamento parece uma ameaça, o que era verdade
no caso de nossos antepassados. Assim, até a solidão pode amortecer
o circuito HOME e nos tornar menos agradáveis e carinhosos, justa-
mente quando precisaríamos. Mas a emoção mais tóxica de todas é a
hostilidade.
Nos anos 1950, em San Francisco, um cardiologista chamado Meyer
Friedman resolveu redecorar a sala de espera do consultório quando o
estofador notou que as cadeiras estavam desgastadas apenas nas pontas.
Mencionou o fato ao Dr. Friedman e, num repente, o médico experiente
e capaz pensou na hipótese de seus pacientes estarem tão ansiosos que
literalmente sentavam nas pontas dos assentos. Sua ansiedade estaria con-
tribuindo para seus problemas cardíacos? O médico começou a estudar esse
tipo de comportamento e surgiu com o conceito de “Personalidade tipo A”,
que tinha grande influência no contexto de fatores de risco para a saúde.
Esse conceito também gerou muita polêmica e foi mal interpretado.
Pessoas do tipo A são difíceis, oportunistas impacientes, mas o fato é
que milhões de Tipos A vivem felizes para sempre – e com saúde – tra-
balhando horas a fio, correndo para reuniões e gritando nos celulares. O
ponto crítico no que se refere a estresse, saúde e liberação de oxitocina é
a parte da felicidade.
Se você gosta de ser um agente de Hollywood, um banqueiro de inves-
timentos, um político ou um grande representante de vendas, e, se estiver
no topo, cheio de oportunidades, seu Tipo A está ocupadíssimo – mas
não necessariamente estressado de modo corrosivo. O que desencadeia
os efeitos mortais do cortisol é a raiva reprimida, a que surge em razão de
se sentir frustrado e ser socialmente subordinado. As pessoas com maior
risco de um ataque cardíaco ou um acidente vascular cerebral, bem como

108
O s d e s co n e c ta d o s

do Distúrbio de Déficit de Oxitocina, não são necessariamente as que


competem pelo ápice do sucesso, mas aquelas que ficaram presas no meio
do caminho.
Na Inglaterra, epidemiologistas fizeram um longo estudo do servi-
ço público britânico, chamado de Estudo Whitehall, cujos achados de-
monstraram que o pior, em termos de saúde e bem-estar, é um trabalho
de grande responsabilidade e com baixo grau de controle. Nas posições
medianas, o interruptor de fornecimento de grande estresse, o cortisol,
fica emperrado na posição “ligado”. É a mesma situação incômoda em
que médicos se sentem cerceados pelos regulamentos dos seguros, ou
professores entre pais que acham que o Joãozinho não faz nada de errado
e que os diretores escolares não reforçam regras e disciplina, e um ban-
do de pessoas vendendo bilhetes e tendo de cobrir uma extensa área de
vendas, quando o que queriam desesperadamente é estar no centro das
atenções e brilhar.
O que torna este tipo de estresse social especialmente problemático
para a sociedade é o fato de ter se tornado endêmico. A estabilidade no
emprego é cada vez menor, e a ansiedade para encontrar um lugar que lhe
garanta um salário pode causar estresse crônico. Assim, enquanto os ven-
cedores têm a oxitocina bloqueada por uma inundação de testosterona
induzida pela vitória, os que não estão indo bem podem ter sua empatia
diminuída como consequência da raiva e frustração por não vislumbra-
rem uma saída.
A mitologia americana diz que os operários são mais viris, mas, numa
sociedade em que dinheiro e status são equiparados a valor humano, estar
numa posição de subordinação pode ser humilhante. Essa talvez seja uma
das razões pelas quais vemos pessoas que ganham pouco manifestando
sua hostilidade, tentando parecer ameaçadoras, seja em coletes pretos de
couro sobre motos Harley-Davidson, seja com a cabeça raspada e exi-
bindo suas tatuagens. O mesmo acontece com jovens da cidade, com
moletons com capuz, óculos escuros e calças caindo, que deixam metade
da bunda à mostra, num estilo prisão.

109
A molécula da moralidade

Quando a humilhação do baixo status social alia-se à verdadeira in-


segurança econômica, a sensação de estar encurralado pode ferver num
afluxo de deficiência de oxitocina DHT. Talvez essa seja a razão de nosso
discurso político estar tão polarizado hoje em dia. A raiva e a falta de
empatia criam um ciclo negativo em que é muito fácil atacar e culpar “o
outro”, sejam eles imigrantes ilegais, “aqueles fundamentalistas idiotas”
ou “as elites”. Enquanto isso, as “elites” parecem completamente surdas
quando se trata de antever a forma como suas ações – resgate de Wall
Street; executivos indo a Washington em jatos particulares pleiteando
ajuda federal – serão vistas pelos cidadãos comuns.

Marcados para a vida

O problema mais enraizado para milhões de pessoas como Alicia, em


nossa história de abertura, é que sua deficiência de empatia não é uma
condição transitória, mas está profundamente gravada, resultado de sérias
cicatrizes emocionais. O principal responsável é o abuso – que engloba a
negligência e o abandono – na primeira infância. Quando gatinhos são
privados de luz, as áreas visuais do cérebro se atrofiam. Do mesmo modo,
se os receptores de oxitocina não forem estimulados por amor e atenção
desde muito cedo, não se desenvolvem.
Em 1958, o psicólogo Harry Harlow realizou uma experiência in-
fame em que tirou macacos rhesus recém-nascidos de suas mães. Pre-
senteou-os, então, com dois substitutos: um, feito de arame; o outro,
de um pano macio. Os dois substitutos podiam conter uma garrafa de
leite, mas, independentemente de qual “mãe” os alimentava, os maca-
quinhos passavam a maior parte do tempo agarrados ao manequim de
pano, correndo logo em direção a ele quando se viam assustados ou
aflitos.
Descobriu-se, porém, que, assim como a maternidade não se reduzia a
alimentar os filhotes, carinho não era apenas fazer um bebê se sentir bem

110
O s d e s co n e c ta d o s

naquele momento. Mais tarde, os macacos com mães de arame mostra-


ram atraso significativo no desenvolvimento mental e emocional. Com
os macacos criados em isolamento, a situação foi ainda pior. Mesmo após
terem podido voltar ao seu grupo de macacos, eles se sentavam sozinhos,
balançando-se para a frente e para trás. Eram extremamente agressivos
com os companheiros e, na idade adulta, não conseguiam ter relações
normais, nem mesmo desenvolver as mais básicas habilidades sociais.
Quando uma fêmea socialmente desprovida, isto é, privada de oxitocina,
ovulava e era abordada por um macho normal, agachava-se no chão em
vez de mostrar suas partes traseiras. Se um macho antes isolado se apro-
ximasse de uma fêmea receptiva, ele poderia abraçar a cabeça em vez do
traseiro e começar a empurrar.
Fêmeas criadas em ambientes desprovidos de oxitocina se tornavam
incompetentes ou mães abusivas. Até os macacos criados em jaulas das
quais podiam ver, cheirar e ouvir – mas não tocar – outros macacos de-
senvolveram retraimento social e passavam a se balançar, a se tratar com
carinho e se abraçar.
O experimento de Harlow foi brutal, mas pode ter ajudado a evitar o
que equivaleria a um desastre humanitário se sua lição tivesse sido mais
amplamente absorvida. Em vez disso, nas décadas seguintes, milhares
de crianças órfãs foram destinadas a um gulag* emocional, sobretudo na
Romênia, onde o sistema do ditador Nicolae Ceauşescu estabelecia um
responsável para cada 20 crianças, o que significava que quase não havia
tempo para a higiene básica. Abraços e outros tratamentos carinhosos
estavam fora de cogitação.
Quando os orfanatos foram abertos ao mundo em 1989, funcionários
da saúde estrangeiros encontraram crianças de 3 anos que não choravam
nem falavam. Estavam muito atrasadas no crescimento físico, habilida-
des motoras e desenvolvimento mental. Tal como faziam os macacos

* Nota da Tradutora: Sistema penal institucional da antiga União Soviética, composto por uma
rede de campos de concentração.

111
A molécula da moralidade

desprovidos de oxitocina, agarravam-se a si próprias e se balançavam para


a frente e para trás.
Mais tarde, cientistas americanos estudaram alguns desses órfãos que
haviam sido adotados. Faziam-nos brincar com os pais adotivos e, em
seguida, colhiam sua urina. Mesmo após três anos num lar amoroso, as
crianças que haviam sido emocionalmente desprovidas de cuidados emo-
cionais quando pequenas não mostravam qualquer aumento de oxitocina
depois de 30 minutos de brincadeira com os pais.
Como vimos na clínica com Alicia e outros, o comprometimento ad-
vindo da privação pode ser permanente. Em Loma Linda, usamos o Jogo
da Confiança para comparar vítimas de abuso sexual crônico na infância
a mulheres que haviam tido infâncias saudáveis. A média de confiabili-
dade não foi muito diferente entre as mulheres abusadas e as que tiveram
mais sorte – as abusadas retornaram 49%, enquanto as do grupo de con-
trole, 53%. Mas ao investigarmos além dessas estatísticas rudimentares,
as vítimas de abuso demonstraram uma gama muito mais ampla de com-
portamentos e, a seguir, está a explicação.
Vinte por cento das abusadas eram extremamente confiáveis (retorna-
ram mais de dois terços do dinheiro adquirido) em comparação a apenas
2% do grupo de controle. Do outro lado do espectro, 33% das mulheres
abusadas eram não confiáveis (retornaram menos de um terço do di-
nheiro que controlavam) em comparação a apenas 12% das mulheres do
grupo controle.
O que essas disparidades nos dizem é que o sistema HOME nessas
mulheres era fundamentalmente desregulado, o que as deixara emocio-
nalmente desconectadas. Nosso estudo de sua função cerebral mostrou
o mesmo.
O fato de lhes ter sido confiado dinheiro estava associado a 1% de
aumento de oxitocina nas mulheres vítimas de abuso, enquanto as do
grupo controle tinham um aumento médio de 7,5%. De modo bastante
curioso, quanto maior a liberação de oxitocina entre as abusadas, menos
confiáveis elas eram.

112
O s d e s co n e c ta d o s

As mulheres vítimas de abuso tinham menos da metade das amizades


em relação às do grupo de controle e eram muito mais propensas a evitar
relações românticas (60% contra 20%). As abusadas também apresenta-
vam níveis-base de cortisol 35% menores em comparação às do grupo de
controle, o que revela outra fonte de sua falta de emoção.

A deusa da ambição

Em 2011, uma equipe de filmagem veio a nosso laboratório a fim de fazer


um documentário sobre os Sete Pecados Capitais, e trouxeram uma jovem
incomum chamada Stephanie Castagnier. Se você assistiu ao programa
de Donald Trump, O Aprendiz, deve lembrar-se dela como a canadense,
perita do ramo imobiliário, que se apresentava como a deusa da ambição.
Muito atraente e feminina, mas com um impulso agressivo para fazer seu
primeiro milhão de dólares com grande facilidade antes dos 30 anos.
Projetei um conjunto de experimentos para analisar seu sistema
HOME. Apesar de toda a agressividade nos negócios, verifiquei que sua
testosterona era anormalmente baixa. Entretanto, ela tem uma anomalia
genética: seu organismo consegue extrair quantidades incríveis de DHT –
o material de alta octanagem que instiga o comportamento punitivo – da
limitada testosterona com que tem de trabalhar. O DHT, claro, bloqueia
o oxitocina. Então, como ela própria admite, Stephanie é como muitos
homens, incrivelmente determinada, mas não lida muito bem com o que
se refere à empatia. Mas sua história não para por aí.
Quando ela era criança, seu pai era traficante. Assim, sua família tinha
dinheiro em abundância, mas ela vivia numa espécie de zona de guerra,
com metralhadoras embaixo da cama, dinheiro escondido em fronhas
e eventos estranhos – às vezes, violentos – a todo momento. Quan-
do Stephanie estava no ensino médio, o abuso de drogas por parte do
pai o havia reduzido a traficante de rua e, por fim, a viciado sem-teto.
Nesse período, ele roubava o tênis da filha, a jaqueta, os livros, tudo que

113
A molécula da moralidade

pudesse lhe render alguns dólares para comprar drogas. Ela dormia com
um taco de beisebol ao lado da cama com receio de que ele a vendesse
a um de seus amigos drogados, ou que alguém arrombasse a porta e a
estuprasse. Tanto seu pai quanto sua mãe morreram de AIDS antes que
ela concluísse a escola.
Fizemos Stephanie assistir a um vídeo sobre Ben, o menino com cân-
cer, e ela nos disse que se sentira muito sensibilizada e se esforçara para
conter as lágrimas. No entanto, seus exames de sangue não mostraram
qualquer liberação de oxitocina, o que significava que sua empatia não era
verdadeira. Sendo altamente resistente e uma sobrevivente experiente,
ela sabia como e quando dizer as coisas certas.
Quando telefonei para Stephanie a fim de compartilhar os resultados
dos testes, eu a adverti de que ela talvez não desejasse saber o que eu havia
encontrado; poderia revelar muito do seu íntimo. Mas ela afirmou que
queria saber. Uma das implicações do ODD (Oppositional Defiant Di-
sorder – Transtorno Oposicional Desafiante) é a incapacidade de manter
relacionamentos românticos. Stephanie riu e disse que passava pelos ho-
mens como se fossem pares de tênis.

Autismo e ansiedade

Para milhões de pessoas, a ODD não é consequência das experiências


iniciais da vida, mas dos programas genéticos que receberam. O distúrbio
mais prevalente no qual a insuficiência de oxitocina se manifesta é o au-
tismo. Um estudo descobriu que crianças com autismo apresentam pata-
mares mais baixos de oxitocina no sangue, bem como níveis mais baixos
dessa substância no fluido espinhal, o que sugere que os neurônios pro-
dutores de oxitocina no hipotálamo não funcionam corretamente. Ou-
tros estudos encontraram variantes no receptor de oxitocina que podem
impedir a adequada ligação com o hormônio. Até agora, não há evidên-
cia conclusiva do que seja uma “causa” para o autismo, mas pesquisas com

114
O s d e s co n e c ta d o s

ratos de pradaria demonstram que, ao terem seus receptores de oxitocina


bloqueados, os animais são impedidos de formar ligações sociais afetivas
normais. Assim, a conclusão é muito forte.
O alto nível de testosterona fetal também causa a interrupção do sis-
tema HOME dos autistas. Alguns especialistas vão mais longe ao cha-
marem o autismo de “síndrome do cérebro masculino extremo”, e, nos
Estados Unidos, das seis pessoas entre as mil que nascem por ano com
essa condição, a proporção é de quatro meninos para cada menina.
O que sabemos com certeza é que o autismo afeta a habilidade de
comunicação, a capacidade de ler as emoções dos outros (empatia) e a
capacidade (e/ou o desejo) de se conectar socialmente. Padrões de com-
portamento repetitivo e estereotipado também estão associados à condi-
ção, incluindo o balançar que vimos nos macacos desprovidos de contato
próximo no início da vida. Esses comportamentos é que levam ao diag-
nóstico de autismo, em geral aos 3 anos.
Mesmo assim, a gama de insuficiência é tão ampla que o termo mais
utilizado é transtorno do espectro do autismo, sendo a síndrome de As-
perger a forma mais branda. O Asperger permite às pessoas um bom
convívio em grupos sociais, em geral enquanto funciona num nível muito
elevado em áreas que requerem expertise técnica. Alguns especialistas
argumentam que a lista de notáveis com Asperger inclui Isaac Newton,
Thomas Jefferson e Albert Einstein. Sugere-se que Bill Gates também
estaria incluído nessa lista, já que é conhecido por se balançar para trás e
para a frente durante reuniões tensas. Especula-se ainda que a indústria
de computadores jamais teria chegado aonde chegou não fosse a contri-
buição de milhares de pessoas com Asperger, altamente capacitadas, que
preferem escrever códigos a se socializar. (Há ainda especulações – e só
especulações – de que casamentos na indústria, com os dois noivos com
Asperger, têm causado uma epidemia de autismo no Vale do Silício e em
outros centros de alta tecnologia.)
Não surpreende o fato de que autistas não se comportem como outras
pessoas ao jogar os jogos favoritos dos cientistas sociais. Num estudo

115
A molécula da moralidade

envolvendo o Jogo do Ultimato, 28% dos autistas nada ofereceram. No


grupo de controle, só 3% agiram assim.
O fato de que a oferta de nenhum valor é sempre recusada – uma
perda de tempo, em outras palavras – sugere a gravidade do distúrbio.
É muito difícil conviver bem em nossa sociedade sem um alto grau de
esperteza. Por isso mesmo, os autistas tendem a aceitar ofertas baixas,
porque sua Teoria da Mente não percebe as sutilezas do toma lá dá cá, a
essência da colaboração produtiva.
Lisa Daxer, aluna de engenharia biomecânica na Wright State Uni-
versity, tem um blog chamado “Relatos de um alienígena residente”, no
qual se refere a não autistas como “neurotípicos”. Também expressa sua
perplexidade com a forma pela qual eles (ou seja, todos nós) são obceca-
dos por interação social. Ela escreve sobre como observa seus amigos as-
sistirem a Friends (um espetáculo “neurotípico”, segundo ela) e os descre-
ve imitando as expressões no rosto de Jennifer Aniston ou de Courtney
Cox. “Você, na verdade, tem de interferir para impedir os neurotípicos
de se socializar”, afirmou espantada ao NPR (National Public Radio,
organização que atua como sindicato para a maioria das estações públicas
de rádio nos Estados Unidos).
Lisa Daxer tem poucos ou nenhum desses impulsos sociais, mas, por ser
muito inteligente e uma talentosa solucionadora de problemas, percebeu a
necessidade de trabalhar o desenvolvimento de suas habilidades sociais. Afi-
nal, não importa quão brilhante seja como engenheiro, você não consegue,
sozinho, fazer uma nave espacial chegar à Lua. Como quase tudo, ciência e
tecnologia são feitas por equipes, o que exige empatia, a Teoria da Mente e a
capacidade de usar a cocognição no tratamento dos objetivos comuns.
Como outro autista realizado, o cientista de animais Temple Gra-
din, Lisa obtém, por meio de intenso esforço cognitivo, o que o restante
de nós faz intuitivamente. Não olhe fixamente. Faça rodízio. Não fique
muito perto. (Em entrevista com o neurologista Oliver Sacks, o primeiro
a chamar a atenção para Temple Gradin, ela descreveu como o fato de
estar entre não autistas a fez se sentir “uma antropóloga em Marte”.)

116
O s d e s co n e c ta d o s

Daxer resolveu memorizar uma lista de temas “proibidos”, que, segundo


ela, inclui sexo e “qualquer coisa que aconteça no banheiro”. Ela con-
sidera estranhos alguns desses tabus neurotípicos, mas compara, então,
sua aversão a certos tecidos. “Evito roupas de poliéster”, disse ela. “Eles
evitam falar sobre a morte.”
Jantei várias vezes com Temple Gradin, e a primeira vez que a vi ela
me pareceu tão frágil que, instintivamente, coloquei a mão sobre seu bra-
ço. Lembrei, então, que a maioria dos autistas não gosta de ser tocada.
Mais tarde, descobri que, aos 18 anos, ela criou uma máquina de com-
pressão na qual poderia sentir algo próximo a um abraço de alívio de
estresse, sem ter de interagir com as pessoas.
Ao jantar, Temple conseguiu manter a conversa e estabelecer contato
visual, mas sua expressão facial era como pedra, sem qualquer indício de
emoção. Após o jantar, ela não quis sobremesa e foi a primeira a sair.
A oxitocina poderia ser usada para ajudar pessoas como Lisa Daxer e
Temple Gradin a se relacionar com os outros com mais facilidade?
Há uma pesquisa chamada de teste de Quociente do Espectro Autis-
ta, que usa 50 perguntas para medir comportamentos sociais, a habilida-
de de ler as emoções dos outros e a necessidade de rotina. Num estudo
feito na Mount Sinai School of Medicine, em Nova York, 27 homens
foram classificados nessa escala e, em seguida, foram infundidos com
oxitocina. Foram convidados, então, a assistir a um vídeo em que pessoas
interagiam e discutiam eventos emocionais. Também lhes foi solicitado
que classificassem as emoções mostradas. Aqueles que haviam recebido
oxitocina tiveram a precisão emocional aumentada (comparados a si pró-
prios sob o efeito de placebo). Mas isso só aconteceu entre aqueles com
as maiores pontuações de autismo. Em outras palavras, a oxitocina não
transformou pessoas que já eram socialmente hábeis em ainda mais ha-
bilidosas ou socialmente espertas; apenas ajudou os que mais precisavam
de auxílio.
Esse estudo sugere que mesmo aqueles com os déficits mais graves
têm alguns receptores de oxitocina intactos que podem ser envolvidos

117
A molécula da moralidade

em interações sociais. Inundar o cérebro com oxitocina por meio de um


inalador tem se mostrado útil aos autistas para diminuir comportamentos
autocalmantes, tais como o balançar, aumentar moderadamente o con-
tato visual e perceber pistas emocionais na fala. Porém, o componente
mais importante do sistema HOME é a liberação de serotonina, de-
sencadeada pela liberação da oxitocina. A serotonina é, naturalmente,
o neurotransmissor que reduz o estresse e nos dá uma sensação geral de
bem-estar. Assim, o benefício causado pela infusão de oxitocina para os
autistas pode ser apenas a diminuição dos níveis normalmente elevados
de ansiedade.
Por várias razões, não creio que a infusão de oxitocina será, em algum
momento, uma terapia realista para o autismo. Para começar, a experiên-
cia da infusão é uma droga. Em segundo lugar, os efeitos duram pouco
(embora uma formulação de ação mais prolongada de oxitocina chamada
carbetocina esteja atualmente em ensaios clínicos). Quando o problema é
a escassez ou o mau funcionamento dos receptores de oxitocina, apenas o
aumento da concentração do hormônio não será de muita valia.
Um caminho mais promissor é o de aumentar o número de receptores
de oxitocina. Quase todos os pacientes neurológicos e psiquiátricos que
testei liberaram oxitocina, ainda que só um pouco. Ter mais receptores
quer dizer ter mais áreas às quais a molécula possa se conectar, o que
significa fazer melhor uso da oxitocina já disponível. Essa abordagem foi
comprovada em roedores e agora está sendo usada em ensaios clínicos
com seres humanos. Se for comprovada sua eficácia em seres humanos
e conseguida a aprovação do FDA, talvez possa auxiliar no tratamento
de distúrbios que vão do autismo à ansiedade social e ao estresse pós-
traumático.
A indiscutível vantagem de se contar com o aumento do número ou da
sensibilidade dos receptores da oxitocina é o fato de manter a integridade
da função da Molécula da Moralidade na regulação do comportamento so-
cial. Em outras palavras, ela pode ser ligada e desligada. O aumento do nú-
mero de receptores para melhorar a participação social permite que o efeito

118
O s d e s co n e c ta d o s

da oxitocina se manifeste normalmente, quando a liberação da oxitocina é


instigada por estímulos sociais apropriados, tais como sinais de confiança
ou afeição. Inundar o cérebro com oxitocina por meio de um inalador é
como pisar no acelerador de um carro – não é muito sutil ou sensível às
circunstâncias externas. Com uma simples infusão de oxitocina, os pacien-
tes podem tornar-se tão confiáveis que seriam alvos fáceis para o conto do
vigário, bem como para as mais prejudiciais formas de vitimização.
Desequilíbrios da oxitocina também podem ter sua função quando o
problema não é a incapacidade de se conectar com outras pessoas, mas
apenas sentir grande ansiedade em fazê-lo. Recentemente, ajudei numa
experiência no General Hospital of Massachusetts, em que os pacientes
com SAD (Social Anxiety Disorder – transtornos de ansiedade social)
jogavam o Jogo da Confiança. Quando estavam na posição B, devolviam
6% menos que as do grupo de controle, os quais não tinham sintomas de
SAD. Essa descoberta corroborava o fato de que os pacientes com SAD
também tinham um nível de referência maior de oxitocina, o que significa
que, mais uma ez, seu sistema já estava cheio de oxitocina, o que impe-
dira um pico em respota ao estímulo. Para os pacientes de SAD, quanto
maiores os níveis de referência de oxitocina, maior o nível relatado de
insatisfação com as relações sociais.
Houve rumores sobre um medicamento que teria como alvo o sistema
HOME, num esforço para aliviar esse tipo de ansiedade, mas ainda pre-
firo abraços a fármacos.
Há alguns anos, uma mulher do Reino Unido leu sobre nossa pesquisa
e procurou-me para perguntar sobre a filha. A jovem estava tendo ata-
ques de pânico toda vez que se via em grupo, o que incluía os escritórios
da grande empresa na qual era executiva. Descrevi como acariciar um
cachorro, receber uma massagem e estar perto de pessoas que projeta-
vam alto grau de confiança seriam capazes de ajudá-la. Se isso não desse
certo, recomendei que consultasse um psiquiatra, que poderia prescrever
um antidepressivo, como Prozac ou Paxil, que, pelo menos em roedores,
aumenta a liberação de oxitocina.

119
A molécula da moralidade

A mãe da jovem me disse que o único momento em que a filha se


sentia confortável perto de outra pessoa era quando se massageava, o que,
claro, é outra maneira de se automedicar, já que mesmo uma massagem
pode fazer o cérebro liberar oxitocina; e treiná-lo a aumentar a liberação
da oxitocina, pode facilitar a interação social. A massagem também é um
ataque direto ao estresse da ansiedade social porque, novamente, a sero-
tonina desencadeada pela liberação da oxitocina é relaxante. Por fim, a
jovem deixou o emprego na empresa e tornou-se massagista terapêutica.
Para crianças, certa ansiedade social em relação a desconhecidos as
protege, mas, com o tempo e a orientação de adultos, a criança precisa
aprender a sintonizar o sistema. Tio George, a vizinha Sue ou a profes-
sora Ann devem ser tratados como família, explicam os pais, mas aquele
estranho no shopping que quer que você vá com ele para o estacionamen-
to, não, de maneira alguma.
As lições dos pais, junto com a experiência de vida da própria criança,
colocam a parte cognitiva do cérebro em ação para ajudá-la a regular a
confiança e a desconfiança. Ao iniciar suas vidas com vínculos amorosos
a responsáveis adultos, o sistema da oxitocina se desenvolve rapidamente,
facilitando o tipo de afeto recíproco e carinho que nos é bastante útil na
idade adulta. Seja legal comigo, e eu serei com você.

Confiança em demasia

O oposto da ansiedade social é não ter quaisquer limites sociais, um pro-


blema menos comum, mas que nos oferece mais uma possibilidade no
funcionamento da oxitocina. No laboratório do neurocientista Antonio
Damasio, deparei com um participante do estudo que tinha a doença Ur-
bach-Wiethe. Essa desordem genética causa danos à amígdala – centro
da cautela –, mas deixa o restante do cérebro intacto. A senhora Smith,
vamos chamá-la assim, era totalmente aberta a outras pessoas – hiper-
gregária, na verdade –, mas não se mostrava capaz de medir o caráter

120
O s d e s co n e c ta d o s

moral de quem quer que fosse. Detectava felicidade e outras emoções nos
rostos, mas não conseguia fazer o mesmo com sentimentos como ameaça
ou perigo. Tampouco conseguia perceber os sinais mais sutis que nos
permitem determinar quais são os indivíduos não confiáveis dos quais
seria melhor manter distância.
À primeira vista, a senhora Smith nos parece desgrenhada, mas, a não
ser pela falta de contato visual, bastante normal. Depois, no entanto, ela
chega perto demais – literal e figurativamente –, deixando de manter o
habitual espaço social entre ela e os outros, o que a maior parte das pes-
soas faz de modo intuitivo. E, então, as informações pessoais começam
a fluir, com detalhes que a maioria de nós teria vergonha de relatar a um
médico ou um terapeuta. Ela não parece notar a retração das pessoas
quando descreve sua vida sexual ou detalhes de um exame médico recen-
te. Na verdade, ela não varia de comportamento ao interagir com pessoas
diferentes: amigos ou estranhos, velhos ou jovens, gentis ou maliciosos,
ela trata a todos como amigos de longa data.
Ela tem a capacidade cognitiva de viver sozinha e cuidar de seus as-
suntos, mas sua deficiência a torna uma pessoa superconfiante, o que,
muitas vezes, leva à vitimização. Essa falta de ceticismo e de julgamento
de caráter ajuda a explicar por que ela tem três filhos de pais diferentes.
Não pudemos medir os níveis de oxitocina da senhora Smith, mas a
fizemos jogar quatro vezes o Jogo da Confiança. Da primeira vez, estava
muito confiante como jogadora A, mas não correspondeu como joga-
dora B. Na segunda vez em que foi jogadora A, inverteu seu compor-
tamento e não transferiu quase nada ao jogador B com quem fazia par.
Pareceu, então, que ela estava no mesmo barco que as vítimas de trauma
como Alicia – seu regulador de confiança/reciprocidade não funcionava
direito.
A doença de Urbach-Wiethe é excepcionalmente rara. A desordem
genética mais comum que faz as pessoas se tornarem superconfiantes é
a síndrome de Williams, que afeta aproximadamente 1 em cada 10 mil
bebês nascidos nos Estados Unidos. (Ainda bem rara.)

121
A molécula da moralidade

Os pacientes com síndrome de Williams não têm medo social; por-


tanto, ainda quando criancinhas, correm para estranhos e estabelecem
intenso contato visual. Como a senhora Smith, invadirão seu espaço fí-
sico e emocional, mas de forma muito amorosa. Durante sua vida, são
hipersuscetíveis às menores oportunidades para interação social, batendo
papo com pessoas totalmente estranhas.
Quando a maior parte das pessoas é exposta a imagens de faces ex-
pressando medo, suas amígdalas são ativadas, mas os pacientes com
síndrome de Williams não reagem. A amígdala é uma região do cérebro
com alta concentração de receptores de oxitocina. Assim, é possível
que a oxitocina tenha um papel relevante nessa síndrome, o que, até o
momento, não sabemos.
Um palpite para a origem desse distúrbio é que falta, nas pessoas com sín-
drome de Williams, um conjunto de genes no cromossomo 7. Alguns desses
genes estão no hipotálamo e na pituitária, regiões do cérebro que produzem
e liberam oxitocina. Esses genes também alteram o movimento dos olhos, o
que pode explicar o motivo de os pacientes com síndrome de Williams esta-
belecerem intenso contato visual e focarem em outras pessoas comuns.
Alguma forma de terapia com oxitocina poderia auxiliar em qualquer
uma dessas condições?
Em experiências com animais, a infusão de oxitocina demonstrou alí-
vio nos sintomas de abstinência de heroína, cocaína e álcool, mas não
sabemos se isso funcionará em seres humanos. Em caso positivo, o fato
de que a liberação da oxitocina também desencadeia a liberação da sero-
tonina talvez forneça uma segunda cura: o alívio da ansiedade.
Outra promissora intervenção química é o uso do lítio, estabilizador
do humor, que também parece aumentar a oxitocina. Em 2009, pesqui-
sadores japoneses relataram que os índices de suicídio foram mais baixos
em áreas nas quais o lítio natural estava presente na água potável. (De
1929 até 1950, o lítio foi ingrediente ativo num refrigerante de sabor
lima-limão chamado Bib-Labellithiated Lemon-Lime Soda. Em 1936,
a bebida mudou de nome para 7UP.)

122
O s d e s co n e c ta d o s

Recentemente, MDMA, a droga conhecida como ecstasy, demons-


trou causar a liberação de oxitocina, o que provavelmente explique o efei-
to “amo todo mundo” da droga. Estudo recente com pacientes de um
asilo evidenciou que o ecstasy pode diminuir a ansiedade e facilitar o
caminho para melhores interações sociais. Infelizmente, até uma dose
muito pequena de MDMA parece causar danos cerebrais permanentes,
levando a depressão, ansiedade e déficits cognitivos. A disfunção produ-
zida quando a oxitocina fica ligada ou desligada por muito tempo mostra
como, em pessoas saudáveis, a substância mantém o equilíbrio entre os
níveis adequados de confiança e desconfiança em relação a estranhos.

Demasiadamente racional

Dependendo do grau de comprometimento, as pessoas com deficiência


de oxitocina têm diferentes níveis de controle cognitivo, o que pode ser
usado como contrapeso. Como autistas de alto intelecto, ou como nossa
amiga Stephanie, o sobrevivente muito inteligente, abusado na infância,
pode treinar-se a dizer as coisas certas a fim de parecer empático. En-
tão, também podemos treinar a nós mesmos a nos tornarmos zumbis
morais.
Há alguns anos, um psiquiatra chamado Dr. Ansar Haroun me tele-
fonou sem qualquer motivo aparente e pediu que fosse com ele às rondas
na clínica psiquiátrica que dirige dentro do Supremo Tribunal de San
Diego. A questão específica que levou o Dr. Haroun a me telefonar era a
influência da cognição versus da impulsividade quando se trata de com-
portamento antissocial.
“Se as pessoas são racionais”, perguntou-me o Dr. Haroun, “por que
não respondem aos sinais que o sistema judiciário lhes dá através da
punição?”
A visão de Haroun era que a psiquiatria é mais arte que ciência, porque
os diagnósticos são feitos mais com base nas observações do clínico – que

123
A molécula da moralidade

nunca são muito objetivas – do que em dados concretos. Perguntou-me


se a economia lhe daria dados concretos sobre as disfunções de decisão
dos prisioneiros. Era uma excelente pergunta; então, elaborei algumas
experiências para os presos.
Um dos detentos que conheci havia esfaqueado 21 vezes sua compa-
nheira de quarto. “Ela me incomodava”, avaliou, justificativa razoável
para esmagar uma mosca, mas não para matar outro ser humano.
Outra foi Jenn, uma sem-teto, mãe de dois filhos, 47 anos, que agora
usava um macacão laranja com as mãos e pernas acorrentadas. Ela era
traficante de metanfetamina de baixa qualidade, e sua entrevista serviu
para determinar se ela ficaria presa por difíceis 18 meses ou se ficaria
num centro de tratamento contra drogas. A mãe de Jenn fora usuária de
drogas, e a apresentara à metanfetamina quando Jenn tinha 13 anos, para
ter companhia no uso. A vida de Jenn foi por água abaixo desde então:
estupros repetidos por parte de seu padrasto, fuga de casa, casamento
com outro drogado que a espancava até a inconsciência. Finalmente,
Jenn perdeu os filhos e foi reduzida à vida na rua. “Quando minha mãe
me telefona na prisão e diz ‘eu te amo’”, ela contou, “não posso dizer o
mesmo”.
No Jogo do Ultimato com $10, quando perguntei a Jenn quanto ela
ofereceria a um estranho, ela respondeu de imediato: $5. Anotei cuida-
dosamente a resposta e perguntei como poderia ser tão justa. “Quando se
é uma traficante de drogas, se trapacear, você morre.” Quando perguntei
qual seria a menor quantia que aceitaria como jogadora B, ela respondeu:
“Um centavo.” Por quê? “Fácil. Sou uma sem-teto.”
Descobrimos que quase todos, à exceção dos detentos mais impul-
sivos, mantinham um sentido básico de justiça e reciprocidade – pelo
menos quando se tratava de decisões na clínica que envolviam dinheiro.
Esses estudos não só evidenciaram a influência de perspectivas racio-
nais, diferentes em comportamento, mas também mostraram que po-
demos desligar cognitivamente o dial de nossa reação empática quando
necessário.

124
O s d e s co n e c ta d o s

Para continuar a investigar essa ideia, eu e o filósofo e cientista cogni-


tivo William Casebeer pedimos a alunos participantes que respondessem
a 30 diferentes dilemas morais, alguns dos quais requeriam envolvimen-
to pessoal, enquanto outros permitiam aos participantes permanecer a
distância.
Trabalhamos com 81 pessoas – entre elas, 41 haviam recebido oxitoci-
na; quarenta receberam placebo. Fizemos a cada uma as mesmas pergun-
tas hipotéticas desenvolvidas pelo filósofo Josh Green, de Harvard, para
esse tipo de experimento. Eis um exemplo de um dos dilemas morais
impessoais:

Um bonde está a toda velocidade na pista, fora de controle. Se pudes-


se, você viraria o interruptor para desviar o carro e salvar as cinco pes-
soas a bordo ainda que isso significasse que o carro atingiria e mataria
uma única pessoa que estivesse por perto?

Para transformar a mesma situação mais pessoal, as condições são um


pouco diferentes:

Um bonde está a toda velocidade nos trilhos, fora de controle. Um


homem imenso, pesado, está de pé numa ponte sobre os trilhos. Se
pudesse, você o jogaria nos trilhos, matando-o, mas parando o bonde,
para salvar as cinco pessoas a bordo?

Na maioria das experiências, as pessoas respondem de modo diferente


às duas situações porque se exige que o participante se envolva em ma-
tar alguém deliberadamente para “o bem maior” de salvar cinco vidas.
O que estávamos procurando era o papel da oxitocina em tais decisões. O que
descobrimos foi que a infusão de oxitocina não surtiu efeito, uma vez que
ambos os dilemas eram hipotéticos. Embora a primeira situação fosse
um pouco mais personalizada, não era “real” o suficiente para o sistema
HOME entrar em ação.

125
A molécula da moralidade

O que era bom. Há momentos em que queremos que indivíduos se


engajem no pensamento crítico e abordem questões de modo cogni-
tivo, sem que emoções fortes interfiram. O problema ocorre quando
nos tornamos tão bons em nos distanciar que nossa empatia vai a zero.
F. Scott Fitzgerald podia estar se referindo a isso quando escreveu
sobre a “vasta falta de cuidado dos ricos”. Com a mesma facilidade,
poderia também referir-se à vasta indiferença (empatia diminuída)
de qualquer grupo de alto status, fossem CEOs ou intelectuais bem
conceituados.
Pedimos a juízes que façam julgamentos racionais, desinteressados,
não indevidamente influenciados por apelos emocionais. Também que-
remos que pessoas em posições de alto estresse como médicos e socorris-
tas sejam capazes de modular entre a empatia e o desapaixonado estado
de espírito que lhes permite realizar seu trabalho. Eles não podem fazer
uma traqueostomia de emergência ou planejar um resgate se estiverem
gritando horrorizados à vista de todo aquele sofrimento.
Certa vez, após ter falado a um grupo de advogados, um juiz federal
chegou a mim e confessou que não conseguia estabelecer empatia, o que
o levou a ter um relacionamento de ruim a péssimo com sua esposa e
filhos. Por ironia, seu trabalho envolvia ouvir os apelos nos casos de pena
de morte – o que pode ter sido o trabalho perfeito para ele. Em seu nível
de procedimentos legais, a questão não é “esta pessoa pode se reabilitar”
ou “esta pessoa merece viver” ou qualquer consideração humana, mas
apenas uma avaliação cognitiva de se “essa pessoa teve um julgamento
justo nos termos da Constituição”.
Queremos um sistema judiciário imparcial, mas quando a falta de
compaixão significa confiança exclusiva no intelecto, um Mr. Spock ou
algo com a moral obtusa parecida com a do computador HAL pode do-
minar. É por isso que ainda julgamos a maior parte dos casos perante
juízes e jurados, e não na frente de computadores, e é por isso também
que ter um júri composto de pessoas do mesmo nível que você é tão im-
portante. Racional, sim, mas também humano.

126
O s d e s co n e c ta d o s

Como já observado, ideias abstratas – sejam elas noções racistas de


eugenia ou algo tão sem graça quanto “egoísmo racional” – podem pre-
judicar a empatia e, com isso, o julgamento moral. O economista Robert
Frank, da Cornell, mostrou que os graduandos que estavam se especia-
lizando em Economia, em que a ideia de “interesse próprio” é essencial
à disciplina, tornam-se menos confiantes e generosos em experiências
quando passam de calouros a formandos. Nenhuma outra especialização
parece ter esse – por falta de uma palavra melhor – efeito antissocial sobre
o comportamento dos alunos.
O que nos leva de volta à noção original de interesse próprio de
Smith e como essa ideia, distorcida e depois entremeada como parte
da estrutura dos estudos econômicos – portanto, parte de nossa cultura
empresarial –, ajudou a criar a postura do tipo “o vencedor leva tudo”,
que não contribui para a prosperidade no longo prazo ou para o bem-
estar social.

O que fazem os psicopatas

No extremo final da ODD, está o comprometimento da empatia, conhe-


cido como psicopatologia. Há muito mais aspectos errados nos psicopatas
do que pensar muito ou transformar pessoas em abstrações. No entanto,
são, muitas vezes, notáveis por sua inteligência aguda e altamente eficaz
– porém inteiramente artificial – e por seu charme social.
Hans Reiser era muito esperto, embora não necessariamente char-
moso. Como grande figura na comunidade voltada para a programação
Linux, que desenvolve softwares gratuitos e abertos, Reiser não era o tipo
que você esperaria assassinar brutalmente a esposa. Assim, novamente,
crescemos acostumados a ver os vizinhos ficarem chocados quando o ho-
mem da família ao lado acaba por ser um monstro moral. Na verdade,
a única questão surpreendente sobre o caso Reiser foi a audácia de seu
recurso de apelação. Citando minha pesquisa, alegou que seu advogado

127
A molécula da moralidade

sofria de “excesso de oxitocina” e, portanto, não tinha empatia suficiente


para lhe proporcionar uma defesa adequada.
Os psicopatas são o oposto dos pacientes com síndrome de Williams,
que têm grande interesse nos outros, mas pouca competência para lidar
com eles. Os psicopatas podem ter uma competência social incrível no
nível cognitivo – o problema é que não se importam com ninguém, além
de si mesmos. Sua falta de empatia lhes permite tratar os outros como
objetos, e sua habilidade cognitiva lhes permite escapar impunes.
A psicóloga Anna Salter conta a história de um carcereiro de devoção
religiosa – a quem chamaremos de Joe – que sentiu pena de um estupra-
dor condenado que outros haviam descartado como psicopata.
Quando o prisioneiro jurou haver encontrado Jesus e mudou seu com-
portamento, Joe falou em seu nome perante o conselho de liberdade con-
dicional, prometendo, inclusive, levar o homem para sua casa, se fosse
solto. Após alguns meses, quando o recém-liberado condenado estuprou
e assassinou a filha de Joe, o carcereiro ficou arrasado, mas também ex-
pressou um desespero especial.
“Como pôde fazer isso conosco?”, perguntou ao homem. “Confiamos
em você.”
O assassino riu. “Você não entende, não? Sou um psicopata. Isso é o
que fazemos.”
A disposição de Joe de confiar o tornou – e, infelizmente, sua filha
– extraordinariamente suscetível a ser vitimizado. Ideias distorcidas de
religião, como ideias distorcidas de Economia ou de eugenia, podem pre-
judicar a capacidade da Molécula da Moralidade de fazer seu trabalho,
que não é nos tornar “bons”, mas nos manter em sintonia com o ambien-
te imediato da forma mais adaptável, o que em geral – mas nem sempre
– significa nos comportarmos de forma pró-social.
Pessoas profundamente religiosas por vezes se esforçam tanto para ver
o bem nos outros e para estar em sintonia com as necessidades alheias
que não conseguem ver os sinais de alerta que sugerem que a pessoa com
quem estão lidando possa estar tramando algo.

128
O s d e s co n e c ta d o s

A religião é uma força poderosa e complexa no comportamento hu-


mano, com histórico irregular, para dizer o mínimo. Então, no cômputo
geral, a religião é boa ou ruim quando se trata de bom comportamen-
to? Melhora a função da Molécula da Moralidade ou é apenas mais um
obstáculo?

129
Página deixada intencionalmente em branco
C A P Í TU L O 6

Onde o sexo toca a religião


Saindo do self

U
m Honda Civic 1982 parece um lugar bastante improvável para
uma súbita manifestação do divino. Quando Moisés ouviu falar
da sarça ardente, foi para o topo do Monte Sinai. Saulo de Tarso
viu a luz na estrada de Damasco e tornou-se São Paulo. Místicos tendem
a se esconder em cavernas ou em priorados cobertos de hera para comun-
gar com Deus. Minha esmagadora experiência religiosa – que minha mãe
freira chamaria de epifania – ocorreu quando, numa manhã, entrava no
carro para ir à biblioteca no estado de San Diego.
Na época, ainda era um graduando, vivendo na parte imperfeita da ci-
dade, num prédio de apartamentos em estilo espanhol que havia sido o alo-
jamento de oficiais durante a Segunda Guerra Mundial. O proprietário era
conhecido como Dr. Dean, que fazia números de hipnose em casas noturnas
pela cidade; a maioria dos outros inquilinos, que estavam na casa de seus
80 anos, parecia ter estado lá desde a rendição japonesa. Quando eu voltava
para casa, passava por prostitutas nas esquinas a apenas dois quarteirões.
Lem­bro-me de uma garota ali, de pé, que estaria no sexto mês de gravidez.

131
A molécula da moralidade

Verdade seja dita: acho que o ambiente do pior lado da cidade pode
ter contribuído para a experiência, do mesmo modo como você talvez
aprecie uma rosa selvagem, ainda mais se a tiver observado crescer numa
rachadura no asfalto. Também acho que andava me preparando havia um
bom tempo para algum tipo de descoberta.
Eu não fora para a faculdade logo após o ensino médio. Como aluno,
estava entediado e, embora meu pai trabalhasse na University of Califor-
nia Santa Barbara e conseguisse desconto caso os filhos a frequentassem,
nunca tínhamos, de fato, discutido a continuação de nossa educação.
Avaliado por minha irmã, meus pais nos viam como almas a serem salvas,
não como futuros adultos a serem acarinhados. Isso, sem dúvida, intensi-
ficava meu desejo de me distanciar de sua abordagem à religião.
Logo que me formei, saí de casa e consegui um emprego de vendedor
de sapatos. Após um ano, já estava gerenciando duas lojas, ganhando o
equivalente hoje a cerca de US$80 mil por ano. Mas encontrar significa-
do ou propósito não fazia parte do pacote de benefícios. Embora minha
rejeição à religião organizada, todos aqueles anos de sinos e cheiros como
coroinha tinham fincado as raízes de uma busca espiritual. Eu só precisa-
va encontrar as respostas a meu modo.
Afinal, voltei a estudar e, com muita matemática e cursos de biolo-
gia, mergulhei na filosofia e na história da religião. Recentemente, estava
estudando o pensamento confucionista e a ideia do wu wei – o conceito
taoísta de que há um ritmo natural para a energia da vida e que a tarefa é
não dominar ou interromper esse ritmo, mas apenas adotá-lo. Uma vez
sincronizado com o fluxo, ele o carrega, e as chances de uma vida feliz e
harmoniosa aumentam de maneira exponencial.
Essas noções ainda eram muito abstratas para mim quando entrei em
meu Honda na manhã em questão. Era o final do outono, e uma fria
névoa do Pacífico ainda pairava sobre as ruas. Na noite anterior, havia
deixado o rádio ligado – sintonizado na National Public Radio, como
se verificou – e, quando acionei o motor, não era a edição matutina ou
algum programa de entrevista, mas uma súbita explosão de música: o
Canon de Pachebel, em ré. Eu conhecia a peça, mas a versão que ouvi

132
O n d e o s e xo to c a a r e l i g i ão

parecia estar num tempo mais acelerado. Anos mais tarde, rastreei aquela
gravação em especial e verifiquei que havia sido executada por Sir Neville
Mariner e pela Academy of St. Martin in the Fields.
Trinta anos se passaram desde aquela manhã fria, e aquele trecho bar-
roco tornou-se um clichê nas cerimônias de casamento e formaturas do
ensino médio. Porém, para mim, ouvi-lo naquele momento foi total-
mente transformador. Os três violinos se entrelaçando com a intermi-
nável repetição do verso musical do contrabaixo. Variação após variação
dos mesmos acordes e melodia amontoando-se umas sobre as outras,
intensificando-se até que os ritmos e temas entretecidos pareceram me
agarrar e me puxar para fora da literalidade de meu carro vagabundo, es-
tacionado no meio-fio do bairro vagabundo. À medida que ouvia a mú-
sica, meu corpo inteiro pulsava com uma sensação esmagadora de amor,
pertencimento e paz. Com as lágrimas escorrendo pelo rosto, percebi um
sentido revelador de conexão com todo o universo. Toda coisa viva, cada
molécula inanimada girando em cada galáxia parecia entretecida num
único e cálido abraço. Eu estava flutuando num mar de amor infinito,
com ondas de bondade e conexão passando sobre mim.
Depois, o momento passou.
Ok – eu não estava usando drogas. Então, o que era? Outro aluno
estressado, privado de sono, à beira de um ataque de nervos? Ou talvez
algum tipo de convulsão? Um miniderrame? Ou, segundo minha mãe
dizia, Deus estava falando comigo?
Sou um cientista, e pessoas como eu devem ser intensamente secula-
res. Nos últimos anos, “pessoas como eu” – quero dizer, o neurocientista
Sam Harris, o filósofo Daniel Dennett e o biólogo evolucionista Richard
Dawkins – têm, de fato, escrito livros de enorme sucesso que jogam a
religião no lixo, em linguagem chula.
Claro, a religião se torna alvo muito fácil quando você foca o rastro de
discórdia e de derramamento de sangue que se arrastou pelas páginas da
história. Entretanto, acho que a hostilidade refletida nesses livros, bem
como a popularidade refletida em seu status de best-seller, é mais uma
reação à forma como as crenças religiosas pessoais têm invadido a vida

133
A molécula da moralidade

pública. Secularistas opõem-se às exigências veladas de que nossos líde-


res políticos têm de dizer todas as coisas piedosas certas e fazer todos os
gestos piedosos certos, tais como comparecer a orações no café da ma-
nhã. E é especialmente irritante para não crentes quando os crentes agem
como se todos precisassem estar entre os fiéis a fim de ser moralmente
castigados.
Mas enquanto cientistas como Darwin empilham desprezo, outros
compilam dados demonstrando que a religião pode ser, de fato, muito boa
para nós. Estudos sólidos evidenciam que, ao se colocarem na balança, as
pessoas religiosas são mais felizes do que as não religiosas, e que seu com-
parecimento semanal a um serviço religioso, ainda que através de efeitos
sociais que melhoram a resposta imunológica e a resistência ao estresse, as
torna comprovadamente mais saudáveis. Além disso, não há dúvidas de
que a religião tem contribuído muito para o aperfeiçoamento humano por
meio de hospitais de caridade, linhas telefônica de atendimento, escolas,
distribuição de alimentos e, sobretudo, orientação moral.
Quanto a alguma espécie de revolução secular jamais ocorrer em nos-
sa cultura, as evidências sugerem fortemente que o impulso religioso há
muito está entre nós, além de demasiadamente arraigado para pensarmos
que irá acabar logo. O antropólogo Lionel Tiger estima que 80% da raça
humana filia-se a uma comunidade de algum tipo de fé. Porém, há mais
de 4 mil variedades, cada qual com seu próprio modo de encontrar Deus,
de adorar Deus ou de tentar se beneficiar a partir da interação com Ele,
o que nos traz de volta a essa longa lista de casos em que a religião foi a
fonte da discórdia e da violência. O fato é que a religião pode fazer surgir
nas pessoas o melhor e o pior. Alguns dizem que ela é essencial para a
moralidade; outros, que divide mais do que une. Então, pondo na balan-
ça, a religião contribui ou não para os fatores positivos que vemos emanar
da Molécula da Moralidade? Faço uso das experiências para explorar o
mundo, e elas começam com uma hipótese. Tudo que sei sobre biologia
me diz que a natureza é conservadora, que usa os mesmos sistemas para
diversas finalidades. Portanto, uma boa suposição é que a Molécula da
Moralidade que nos conecta aos outros também facilita o que muitos

134
O n d e o s e xo to c a a r e l i g i ão

percebem como a conexão com Deus. Como já observamos inúmeras


vezes, somos, afinal, uma espécie obrigatoriamente gregária.
Para começar, outra premissa é que toda religião, de uma maneira ou
de outra, procura alcançar algo parecido com o que senti em meu Honda,
a caminho da biblioteca, naquela manhã, em San Diego. Os gregos cha-
mavam essa elevada experiência de ekstasis, ou “sair de si” ou “sair de seu
self”. É quando vamos além dos limites do eu que somos capazes de nos
conectar com algo maior – a essência da busca religiosa.
Eu me perguntava por que esse desejo de alcançar estados transcen-
dentais era quase universal. Também me perguntei de que maneira a
oxitocina estava envolvida. Para descobrir, eu teria de induzir algo seme-
lhante àquela experiência religiosa em meu laboratório.
Meu primeiro pensamento foi levar uma gravação de James Earl Jones
narrando a Bíblia, mas isso não funcionou. Muito Darth Vader. Con-
siderei, então, outros clipes de pessoas religiosas falando sobre sua fé,
incluindo Dalai Lama e o padre Thomas Keating, um monge trapista
e místico cristão tipo Thomas Merton. Entretanto, o problema princi-
pal era que a maioria dos alunos universitários, incluindo aqueles criados
numa tradição religiosa, não é muito religiosa, portanto eu estaria lu-
tando uma batalha perdida ao tentar acessar o imaginário convencional.
Pensei, então, em arte edificante, incluindo arte religiosa, e cenas expan-
sivas da natureza, com e sem música. No outro extremo, considerei usar
um capacete de privação sensorial que pudesse despertar alucinações.
Às vezes, devotos religiosos tentam sair de si mesmos por meio de
meditação e oração. Quando os cientistas mapeiam o cérebro de medita-
dores intensos, sejam freiras franciscanas ou monges budistas, verificam
que, entre esses devotos, o lobo parietal – uma parte do cérebro que ajuda
a manter o sentido do self – tem sua atividade substancialmente reduzida,
o que parece ser uma boa maneira de atingir o ekstasis, que permite ao self
sentir que está se fundindo ao universo.
A primeira vez em que resolvi investigar a religião foi num estudo
em que ensinávamos aos alunos a meditação de plena consciência pa-
drão, ou uma meditação conhecida como metta. Essa é uma palavra Pali

135
A molécula da moralidade

que significa “amor compassivo”. Após quatro semanas de treino, ambos


os grupos mostraram aumento na confiança, generosidade e compaixão,
mas o grupo metta foi o que apresentou maiores aumentos. No Jogo da
Confiança, o grupo metta teve um aumento de 33% de confiança, en-
quanto os que faziam meditação de plena consciência tiveram um au-
mento de apenas 7%. Também fizemos imagens dos cérebros de ambos
os grupos enquanto meditavam e enquanto tomavam decisões que en-
volviam partilhar dinheiro com outras pessoas. Descobrimos que áreas
de função executiva de seus cérebros se acalmavam, deslocando o foco
do self. O circuito HOME também se iluminava durante tarefas sociais,
evidenciando claramente que a oxitocina estava motivando suas decisões
para maior compaixão.

Também pensei em explorar outras tradições que abordavam o ekstasis


por meio de um ataque direto aos neurotransmissores. No Oráculo de
Delphi, as sacerdotisas de Apollo saíam de si mesmas por intermédio de
estados de transe, a fim de adivinhar o futuro. Estudos recentes sugerem
que elas provavelmente eram ajudadas pela aspiração das emanações de
gás etileno, que embaralhavam seu cérebro e vazavam da rocha abaixo
de seu templo. No sudoeste americano, os fiéis saíam de si mesmos para
um espaço e um tempo do ritual tomando peiote. Nos Andes, a tradi-
ção religiosa inclui um chá alucinógeno chamado ayahuasca. Os jovens
hippies jamais tiveram qualquer apreço por uma religião, mas estavam
fazendo o mesmo esforço para sair de si mesmos e encontrar paz, amor e
iluminação com o LSD e a psilocibina. Hoje, a droga escolhida vai direto
ao assunto com um nome que é a tradução para o inglês de ekstasis. (De
novo, como mencionado no capítulo anterior, essa droga, ecstasy, tam-
bém produz significativos danos cerebrais.)
Místicos cristãos, pensando mais em termos de asceticismo que em
biologia, jejuavam a fim de induzir o ekstasis de “visões”. Naturalmente,
o termo clínico para essas experiências é “alucinações”. Na Idade Média,
as alucinações visuais associadas a devoções místicas pareciam ser mais

136
O n d e o s e xo to c a a r e l i g i ão

prevalentes do que agora, mas comer mofo de pão também era, especial-
mente a cepa ergot, que infesta o trigo, o centeio e a cevada. A ergota-
mina, um composto dentro do ergot do mofo do pão, é um componente
usado para sintetizar o LSD.
Também faz parte das tradições religiosas acreditar que grandes vi-
sionários como Moisés, Maomé, São Paulo e Joana D’Arc foram “visi-
tados” por anjos, deuses ou Deus. Acontece que descrições dessas visitas
se parecem muito com a descrição de convulsões causadas por epilepsia
do lobo temporal. Vi muitos epiléticos lobo-temporais, e eles são hiper-
-religiosos, sempre querendo me converter. Outras doenças – esquizo-
frenia, em particular – podem levar a compulsões religiosas, incluindo
a reivindicação de ser Deus. Se você já viu o filme O Povo contra Larry
Flint, sabe que Flynt, o rei da pornografia, atravessou uma fase durante a
qual queria transformar sua revista principal, Hustler, na primeira revista
de mulheres nuas. Os editores pensaram que ele estava maluco, e agora
ele concorda com isso. “Tornei-me profundamente religioso”, disse a um
amigo meu. “Procurei ajuda profissional e fui curado.”
O outro caminho mais comum para o ekstasis é por meio da música ou
da dança, que, com frequência, ficam muito animadas e é de onde vem a
palavra extático. Há milhares de anos, a religião organizada nasceu quan-
do nossos ancestrais descobriram que havia um efeito multiplicador para
essa abordagem específica. Lembre-se da dança tribal em torno do fogo,
em algum vilarejo na floresta tropical, os dervixes rodopiantes do misticismo
Sufi, ou os cânticos e cantos, falados em línguas, o balançar e as palmas
das religiões carismáticas como o Pentecostalismo. Quando a música e a
dança fazem parte de um ritual comunal, têm ainda mais poder, porque
permitem aos indivíduos se sentirem conectados com Deus enquanto
também se conectam uns aos outros. Então parece que dobram a quanti-
dade de oxitocina e serotonina que flui delas.
A dança pode expressar alegria ou tristeza, mas, quando bem reali-
zada, sempre leva ao contato com a vida num nível mais profundo. Em
Zorba, o Grego, um inglês tenso visita um ilha do Mar Egeu, experimen-
ta vários traumas emocionais e, então, sua última grande esperança de

137
A molécula da moralidade

sucesso econômico desaba sobre sua cabeça. Quando esse momento de


catástrofe acontece, ele não chora, não geme, nem amaldiçoa Deus. Ele
vira para seu guia terreno e elemental da vida no vilarejo numa ilha grega
e diz: “Zorba, ensina-me a dançar.”
Dançar é apenas algo muito humano a se fazer. Caso você não tenha
notado, as crianças dançam espontaneamente. Minha mãe me conta que,
quando era noviça num convento, as freiras dançavam quadrilha umas
com as outras. Ela descreve como o fato de se movimentar e rir com as
mulheres que não conhecia muito havia rompido as barreiras e a fizera
sentir-se muito mais próxima delas.
A dança parecia ser um bom tema para experimentação, pois também
me permitiria a opção de estudar o ritual sem a religião. Após um breve
levantamento de estilos, estabeleci uma antiga variação de quadrilha da
Nova Inglaterra chamada contradança. Suas virtudes experimentais in-
cluíam o fato de que todos fazem exatamente a mesma coisa, e que cada
um se associa, intermitentemente, a todos os outros. Também encontrei
um grupo de contradança, não muito longe de onde moro, disposto a dar
o sangue em prol da ciência.

Dançando com os cientistas

Meus alunos de pós-graduação e eu aparecemos no Woman’s Club of


South Pasadena às 18 horas de sábado. A dança só começaria dali a duas
horas, e precisávamos arrumar as mesas de coleta de sangue, biombos de
papel de arroz para nos dar privacidade, centrífuga, tubos e pipetas, tudo pre-
viamente etiquetado e organizado em detalhes. Aprontamos tudo com
tempo suficiente para sair para um sushi e, quando voltamos, as portas
estavam abertas, e a banda – que eu tinha pagado em troca da bondosa
participação de todos – estava se aprontando.
As pessoas que tinham ido a Pasadena para se movimentarem em
torno uns dos outros na pista de dança variavam de veteranos de 60 ou
70 anos a calouros graciosos que haviam participado só uma vez. Uma

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O n d e o s e xo to c a a r e l i g i ão

senhora com cerca de 60 anos me disse que tinha vindo porque sentia
terríveis dores nas costas, todos os dias, mas quando se juntava à dança,
a dor desaparecia. Perguntei-lhe se eram as pessoas ou o exercício que
serviam como analgésico. Ela pensou um pouco e respondeu: “Ambos.”
Dois terços dos 50 participantes naquela noite concordaram em ser
nossas cobaias. Coletamos seu sangue antes de a dança começar e depois
repetimos a coleta após a terceira ou a quarta dança. Teríamos de esperar
pelos resultados do laboratório para oferecer quaisquer conclusões sobre
a mudança hormonal, mas quanto a efeitos sociais, essas pessoas eram
obviamente muito felizes, fluindo conexão, embora sem qualquer ajuda
específica de Deus ou da religiosidade. Ao final, desci, durante uma pau-
sa da banda, para agradecer aos voluntários, e o grupo todo se levantou e
aplaudiu. Eu havia feito experimentos que receberam muita atenção da
mídia, mas esse foi o único que me rendeu uma ovação de pé.
Quando os resultados voltaram do laboratório, descobrimos que, em
média, a oxitocina havia aumentado 11% em todas as faixas de idades
e gêneros. Ficamos satisfeitos, mas não surpresos, e então os resulta-
dos ficaram ainda mais interessantes. Antes e depois da dança, também
mostramos aos voluntários diagramas de colocação social e pedimos que
pusessem um x onde achavam que se encaixavam. Quanto mais alta a
liberação de oxitocina, mais perto do centro do grupo as pessoas punham
o x. O aumento médio da proximidade a outros após a dança era de 10%.
Mas o resultado que achei mais impressionante foi que, depois de uma
ou duas horas de contradança, até essas pessoas, de modo geral muito
seculares, tiveram um aumento médio de 3% até o ponto em que se des-
creveram estar “perto de algo maior que elas mesmas”.
Com os resultados em mãos, eu queria reverter a esfera de ação e
estudar religião sem ritual. Assim, voltei-me para a Society of Friends,
também conhecida como Quakers. Seus serviços religiosos não envolvem
canto, dança ou qualquer imagem indutora de empatia, como crucifixos e
vitrais com os quais eu estava acostumado. Seus serviços sequer têm pre-
gação. Em vez disso, eles se reúnem para se concentrar comunitariamen-
te na contemplação de cada indivíduo e – presumivelmente na conexão

139
A molécula da moralidade

a – Deus. Antes de começar o experimento, participei de um serviço e


achei muito relaxante sentar em grupo por uma hora e meditar.
Terá a oxitocina desempenhado algum papel nisso? Para descobrir,
consegui a permissão da Religious Society of Friends (Associação de
Amigos Religiosos) em Claremont para instalar meus tubos e agulhas,
torniquetes e gelo numa sala de conferências onde se espera achar café
para um encontro dos colegas após o serviço religioso. Dezessete almas
corajosas nos deram dois tubos de sangue antes de sua hora de meditação
comunal e voltaram para nos dar mais dois tubos depois.
Sem ritual, não houve mudança total na média de oxitocina. Porém, isso
se deu porque aproximadamente metade do grupo teve um vigoroso au-
mento, e a outra metade, uma vigorosa diminuição. Parece que, enquanto
sentar-se em silêncio contemplativo pode criar um sentimento aumentado
de proximidade em alguns, em outros cria a desatenção conhecida como
tédio. Mas ao menos houve uma queda total de 7,3% no hormônio ACTH,
do estresse. Depois de meditar, os participantes relataram sentir-se 7% mais
próximos dos membros de sua sociedade e 4% mais próximos de “algo maior
que eles próprios”. Até a religião sem ritual faz alguma coisa.

Construindo significado

Assim, a meditação pode nos acalmar e nos desviar de preocupações de


interesse próprio, e o ritual – até mesmo a dança – acelera a oxitocina que
nos fará sentir mais conectados a outros e a algo maior. Mas como che-
garmos daí até Deus? E precisamos de Deus para nos tornar morais?
Como vimos em outros contextos, o cérebro humano é um instru-
mento para a construção de significado. No filme de Heide e Simmel
dos anos 1940 que já mencionei, pessoas presenteadas com três formas
geométricas em movimento podem aparecer com um drama sobre o bem
e o mal, vítimas e algozes. Portanto, não é difícil ver como cálidos senti-
mentos de conexão, até cores, formas e sons criados por experiências com
pessoas ou por anomalias no cérebro podem ser arrastados para narrativas

140
O n d e o s e xo to c a a r e l i g i ão

de um Criador e um Primeiro Princípio responsáveis por tudo isso. A


maioria das teorias do sonho converge para a ideia de que o que está
acontecendo é o processamento de pedacinhos aleatórios de informação
durante o sono e que, muitas vezes, a bizarra narrativa que lembramos – o
sonho – é a tentativa de o cérebro tecer todos esses pedacinhos aleató-
rios numa narrativa coerente. Ao expandir essa perspectiva para toda a
espécie humana, a escola Junguiana de psicologia considera a religião um
sonho coletivo partilhado por um grande número de pessoas.
Mesmo antes de nossos ancestrais juntarem quaisquer linhas explica-
tivas, devem ter se tornado dolorosamente conscientes de que a natureza
era muito mais poderosa que eles, o que levava a sentimentos de medo e
pavor. A consciência e a construção de significado que vieram junto le-
varam a um esforço não só para trazer um sentido a essas mesmas forças
naturais inspiradoras de temor e pavor, mas também para mantê-las tran-
quilas. Quando qualquer força natural faz as coisas acontecerem – como
quando um raio atinge uma árvore e provoca um incêndio –, nosso cére-
bro hipersocial, construtor de significado, pode atribuir intenções huma-
nas a esse poder, um hábito mental chamado antropomorfismo. O neu-
rocientista social John Cacioppo avaliou graus de solidão de indivíduos
e, em seguida, mostrou-lhes fotos de objetos distantes no espaço, como a
Nebulosa Cabeça de Cavalo, girando e movendo-se pela escuridão do in-
finito. Quanto mais solitárias as pessoas, mais tendem a antropomorfizar
esses grandes grupos de estrelas e gases, não só lhes dando características
pessoais, como também lhes atribuindo intenções humanas.
De forma similar, os antigos humanos, observando a natureza, devem
ter reconhecido a influência positiva do Sol e da chuva da primavera, bem
como a influência destrutiva das tempestades, secas e relâmpagos. Como
produtos da seleção natural, a consciência e as narrativas que tramavam
ocupavam-se muito com o mesmo esforço que ocupava a maior parte de
suas energias: continuar a vida.
Portanto, não surpreende o fato de que, com algumas ferramentas de
pedra, os artefatos humanos mais antigos já encontrados fossem totens
religiosos, na forma de estatuetas femininas de terracota, símbolos da

141
A molécula da moralidade

fecundidade e dos mistérios da reprodução. Em algumas culturas, o falo


também era venerado, e esses dois símbolos sexuais eram usados nas de-
voções com a intenção de apaziguar algum poder superior, garantindo,
assim, que os ciclos de vida continuassem, que as chuvas viessem, que o
delta inundasse e que as colheitas e o jogo fossem abundantes.
Dezenas de milhares de anos mais tarde, até após o advento dos exér-
citos e cidades-estado, matemática e filosofia, poesia e escultura, os an-
tigos gregos ainda adoravam a força da vida que chamavam de Eros,
também conhecido como sexo. Do mesmo modo como a oxitocina e a
testosterona operam como antagonistas, os mitos gregos consideravam
que Eros, o deus do amor, era o filho de Afrodite, que representava o
amor, e Ares, o deus da guerra.
Mas Eros também era uma via principal para o ekstasis e para a liberação
da oxitocina, que aumenta abruptamente no momento do clímax sexual.
Outra abordagem direta ao ekstasis foi a adoração a Dionísio, deus da epi-
fania e de tudo que fosse selvagem e irracional. Foram os ritos extáticos de
Dionísio que deram origem à Tragédia Grega, oferecendo uma maneira
especial de sair de si mesmo que se chamou de catarse, na qual os membros
da audiência sentiam profunda empatia pelos personagens no palco, reco-
nhecendo e absorvendo o pathos de nossa comum humanidade.
A reverência pelo poder reprodutivo e êxtase sexual, que começou
com as estatuetas femininas de terracota e símbolos fálicos e levavam
aos ritos de fertilidade e dança extática, finalmente foram levados para o
mundo cristão. Não importa o quanto a igreja tentasse suprimir o sexo, o
erotismo jamais esteve tão longe do espiritual quanto mais uma maneira
de sair de si mesmo. O poder do ekstasis pode ser visto na estátua de
Bernini, na Igreja de Santa Maria della Vittoria, em Roma. O tema é a
mística espanhola Santa Teresa de Ávila, e a representação de seu rosto
capta o que ela chamou de “a devoção da união” com Deus, união que, a
julgar por sua expressão, parece totalmente orgástica. “É apenas o amor
que dá valor a todas as coisas”, disse ela. “Deus é amor” é, naturalmente,
um mantra cristão, desde as encíclicas papais até os quadros de avisos nas
escolas protestantes de domingo.

142
O n d e o s e xo to c a a r e l i g i ão

O cristianismo, na verdade, dá muita importância a quatro diferentes


tipos de amor, como representado por quatro palavras gregas diferentes:
eros para amor erótico, storge para amor entre pai e filha, philia para amor
entre irmãos e agape para amor a Deus. Mas as distinções ainda não são
muito nítidas. Por exemplo, um hino batista chamado “No jardim” faz
a fé soar muito parecida com um caso de amor com Jesus. Na canção, o
orador chega a um jardim sozinho, “enquanto o orvalho ainda está sobre
as rosas”. O refrão diz:

E Ele caminha comigo, e Ele fala comigo,


E Ele me diz que sou Seu mesmo;
E a alegria que partilhamos enquanto lá ficamos,
Ninguém jamais conheceu.

O segundo verso começa:

Ele fala, e o som de Sua voz,


É tão doce que os pássaros silenciam seu canto;

Atualize a linguagem um pouco, e esse arrebatamento não fica distan-


tes das letras de canções como “He’s so Fine” ou “My Girl”.
Um hino de nome “Old Rugged Cross”, com suas imagens de amor e
sofrimento incríveis, é, com certeza, tão indutor de oxitocina – e indutor
de empatia – quanto nosso vídeo sobre Ben, o menino com câncer. Mas
o clássico hino “Chamado do altar”, das igrejas batistas, “Just As I Am”,
termina todos os versos repetindo uma linha com implicações difíceis de
ignorar:

Assim como sou, sem um apelo,


exceto que teu sangue tenha sido derramado por mim,
e que Tu me rogas que vá a ti.
Oh, Cordeiro de Deus, vou a ti, vou a ti.

Isso não é apenas empatia; é ekstasis.

143
A molécula da moralidade

O elemento mais óbvio de Eros e dos antigos cultos de fertilidade a ser


transposto para o cristianismo é, claro, a veneração da Madonna. Sendo
o cristianismo o que é, havia a exigência de que a poderosa força feminina
fosse casta, mas isso era compatível com outro conceito antigo funda-
mental a várias religiões: o nascimento virginal. No Egito antigo, Isis
supostamente nasceu de uma virgem, tal qual o deus babilônico Marduk
e o deus/homem hindu Krishna. Na mitologia persa, a mãe de Zoroastro
supostamente foi impregnada por um raio de luz. Havia origens seme-
lhantes propostas para o deus grego Perseu e até mesmo para os impera-
dores romanos depois que conseguissem ser deificados.
O nascimento virginal foi um modo de estabelecer a união entre Deus
e a humanidade, não sendo um objetivo surpreendente para altas espé-
cies sociais. Essa conexão ainda era mais atraente por ocorrer aqui em
nosso nível, dentro do reino dos hormônios e neurotransmissores, dentro
do reino da biologia. Em outras palavras, o cosmos trabalha do mesmo
modo que uma família de humanos – com amor e cuidado.
Ainda hoje, estudos apontam uma ligação explícita entre o impulso
religioso e o anseio literal de reprodução. Jovens solteiros foram expostos
a um grande número de pessoas atraentes de seu próprio sexo. Então,
presto, a porcentagem desses solteiros que professavam sentimentos reli-
giosos aumentou. A razão? É adaptável. Num ambiente em que a com-
petição sexual é mais intensa, uma atitude livre e relaxada em relação ao
sexo não é a melhor maneira de se conseguir um companheiro confiável.
Assim, os indivíduos optam pelo comportamento do tipo conservador,
monogâmico, associado aos mais religiosos ensinamentos. Então, não se
trata apenas do fato de que as pessoas aprendem uma moral sexual con-
servadora por meio da religião, mas de que atitudes conservadoras sobre
sexo e vida familiar fazem as pessoas adotarem um estilo de vida religioso
como forma de atrair e reter um companheiro de alta qualidade.
Tradições anteriores usavam o próprio sexo como uma maneira de
alcançar o ekstasis, e a prostituta do templo que podia levar os fiéis a um
estado de graça mediante a união é uma característica comum à maior
parte das religiões antigas do mundo. Porém, mesmo hoje, quando o

144
O n d e o s e xo to c a a r e l i g i ão

contato físico não vai além de um aperto de mão depois da comunhão,


conectar-se com outras pessoas ao mesmo tempo que se conecta com o
divino parece ser o centro do objetivo para o ritual religioso.

O Ekstasis ganha dimensão pública

Como vimos com os dançarinos de contradança, quando a saída de si


mesmos conduz a uma grande conexão com os outros, a liberação de
oxitocina leva ao alívio do estresse e acalma os nervos por intermédio do
sistema HOME. Assim, o ritual religioso fornece um resultado físico po-
sitivo, até mesmo antes de implementar conceitos tranquilizadores como
vida após a morte, recompensas eternas por bom comportamento e a reu-
nião com os entes queridos. A liberação de oxitocina estimula a liberação
da serotonina para reduzir a ansiedade e acalmar, enquanto a dopamina a
torna “grudenta”, ou seja, é algo que desejará continuar fazendo.
A oxitocina induz a empatia, que cria compaixão, o que ajuda os gru-
pos a se juntarem com um propósito comum. Também reforça a confian-
ça. No Livro dos Hebreus, Paulo escreveu sobre “a confiança em coisas
que não vemos”. A palavra grega que São Paulo usou para descrever a
relação de Abraão com Deus, pistis, é, com frequência, traduzida como
“fé”. Mas, na mitologia grega, Pistis era um dos espíritos que escaparam
da caixa de Pandora e voaram para o céu. Era o espírito da confiança.
Quando da liberação da oxitocina, a empatia e a conexão com Deus
vieram por meio de rituais públicos, forneceu uma conexão com outras
pessoas, que estavam, naquele momento, partilhando o mesmo senti-
mento de conexão com Deus, o que foi um golpe duplo de ekstasis – como
uma manifestação de vitalidade cósmica. Isso era o tipo de coisa que po-
dia inspirar um grupo a ficar junto, superar e suportar, a razão pela qual
a maior parte das práticas religiosas é comunal.
Darwin argumentou que crenças religiosas surgiram e resistiram por-
que tornavam as sociedades mais desejosas de colaborar e se sacrificar
pelo bem comum, o que lhes permitiu sobrepujar grupos de indivíduos

145
A molécula da moralidade

centrados em si próprios que não tinham a adesão social de uma fé com-


partilhada e um sentido de propósito além do self.
Mas esse duplo golpe é onde também encontramos a desvantagem do
fervor religioso estimulado. A mesma conexão com o grupo interno que
gera uma grande empatia, que, por sua vez, cria a disposição de se sacrifi-
car em prol do bem comum, também pode ajudar a estimular a hostilida-
de em relação a qualquer grupo externo. Quando se está tão estimulado
pelo sentimento extático a ponto de ter Deus a seu lado, os membros de
outros grupos não se tornam apenas “os outros”; eles podem tornar-se
“pecadores” ou “pagãos” ou ainda “filhos do diabo”, que precisam ser
eliminados. A imagem do ekstasis comprovou ser surpreendentemente
eficiente na encenação da Ku Klux Klan, com suas cruzes em chamas e
capuzes brancos, bem como nos enormes comícios que Joseph Goebbels
orquestrava para Hitler durante a era nazista.
Eu queria compreender por que algumas religiões produziam tendên-
cias dentro de grupos, mas primeiro eu precisava dos fundamentos de um
grupo secular cuja ligação fosse forte para comparação. Após várias reu-
niões e depois de participar de um exaustivo exercício de emboscada nas
montanhas que me deixou machucado e sangrando, consegui convencer
o tenente-coronel chefe de batalhão de oficiais da reserva de Claremont
a permitir que seus cadetes jogassem o Jogo da Confiança, tanto com
outros cadetes quanto com voluntários não militares do corpo discente de
Claremont. Para reforçar seu sentimento de grupo, os cadetes tomavam
decisões logo depois de haverem se engajado numa marcha de 15 minu-
tos do lado de fora de meu laboratório, um “comportamento ritualizado”
típico para eles.
Também fiz um grupo de alunos que se autointitulava cristão evangé-
lico jogar o Jogo da Confiança entre si, e depois fiz o mesmo com alunos
não evangélicos. Os jovens realizavam o culto e cantavam no laboratório
durante 15 minutos para seu ritual. Para servir de grupo de controle,
recrutamos um bando de alunos não filiados e os dividimos em “Verme-
lhos” e “Azuis” para formar grupos externos e internos completamente
arbitrários. Participantes do grupo de controle jogaram o jogo do telefone

146
O n d e o s e xo to c a a r e l i g i ão

por 15 minutos com sua própria cor para salientar seu grupo. Também
coletei o sangue de todos, antes e depois dos rituais.
Eis o que encontramos. Entre os participantes do grupo de controle,
os jogadores B – aqueles que talvez devolvessem o dinheiro após a experiên-
cia de serem confiáveis – devolveram 23%, estivessem lidando com um
membro do grupo interno ou com alguém de fora dele. Em outras pala-
vras, as distinções tribais artificiais e arbitrárias que havíamos criado para
eles – Vermelho e Azul – não faziam diferença.
Entre os jogadores B que eram cadetes, havia significativa influência
do grupo interno sobre quanto eles devolveriam – 51% se fossem “um de
nós”, contra 40% se não fossem. O mesmo valia para os evangélicos. Sua
tendência era praticamente a mesma – 38% devolvidos àqueles de dentro
do grupo cristão, e 28% aos de fora.
Foi entre os jogadores A – aqueles que haviam tomado a decisão ini-
cial com base na dúvida sobre se podiam ou não confiar num jogador
B – que os evangélicos se destacaram por terem uma influência forte do
grupo interno que animaram até os membros do batalhão de oficiais da
reserva. Os jogadores A evangélicos transferiram 84% do máximo que
acumularam para o grupo interno de jogadores B contra 61% dos jogado-
res B do grupo externo – uma diferença de 23 pontos percentuais. Entre
os cadetes do batalhão de oficiais da reserva, a diferença entre “interno e
externo” foi de 81% do máximo acumulado contra 74% – apenas 7 pon-
tos percentuais de diferença. Entre o grupo de controle, a transferência
era sempre a mesma, não importando se o B em questão fosse Vermelho
ou Azul. Em média, transferiram 58% do montante máximo disponível
– indicativo de níveis muito mais baixos de confiança sem algum tipo
significativo de filiação de grupo.
Parte da diferença de comportamento dos evangélicos era devido a
seus níveis mais elevados de estresse: 28% maiores que os do grupo de
controle. Eles estavam mais ansiosos em interagir socialmente (e os cade-
tes do batalhão de oficiais da reserva eram 17% menos estressados que os
do grupo de controle). Beneficiar a si próprio é algo que se espera. Mas o
problema com a influência do grupo interno, especialmente se estivesse

147
A molécula da moralidade

empolgado com o ritual, é o fato de limitar as oportunidades de conexão


pelas quais ansiamos como criaturas sociais. As mensagens das maiores
religiões do mundo repercutem em nós hoje porque pregam a promessa
de uma conexão universal e amor. A necessidade de pertencimento faz
parte de nossa natureza humana, e figuras religiosas como Jesus e Buda
parecem haver descoberto como amar a qualquer um e a todos e receber
o retorno desse amor. Porém, parece que a influência do grupo interno
facilita amar uma pessoa específica mais que a outras. A limitação de
amar nosso próprio grupo impõe, na verdade, uma punição econômica.
Em razão de confiar muito menos em estranhos, os evangélicos levaram,
em sua experiência do Jogo da Confiança, 9% a menos que os cadetes do
batalhão de oficiais da reserva.
Ao longo da história, seja numa maneira socialmente útil ou diabólica
que conduz ao genocídio, os grupos tentaram invocar um poder maior
para fazer as pessoas cumprirem as regras. Já discutimos a importân-
cia social da vontade de punir. Entretanto, nem todos estão dispostos a
punir sempre, pois o jogo pesado pode acarretar custos a quem pune. É
complicado, estressante, e há sempre a preocupação sobre pressionar ou
convidar a uma retribuição. Também é verdade que (ao menos antes do
surgimento do Google Maps) a vida real não permite que olhos atentos
estejam disponíveis em todos os lugares, a cada momento, monitorando
o que cada um de nós está fazendo.
Ter um Deus onisciente e todo-poderoso, no entanto, permitiu que
as sociedades terceirizassem a punição. Ser capaz de dizer “É Deus quem
o está punindo... não eu” tira um pouco da pressão de todas as pessoas
que, a despeito da ânsia pela punição, desejam, acima de tudo, cuidar de
suas próprias vidas e chegar ao fim do dia. Inserir Deus nessa questão
também confere à punição um status superior. Esse Deus onisciente não
é só um pouco assustador; o fator medo ajuda a fortalecer e internalizar
a mensagem de “faça direito”, pois, em última instância, não há onde se
esconder. Deus é onipresente e onisciente, portanto haverá consequên-
cias para o pecado, até mesmo se agora você estiver se escondendo de um
assassinato.

148
O n d e o s e xo to c a a r e l i g i ão

Estudos revelam que qualquer tipo de sugestionamento com o intuito


de ser observado pode levar a um comportamento melhor. A exibição dos
Dez Mandamentos, um par de olhos sobre o terminal do computador,
contar a crianças que uma princesa mágica chamada Alice está assistindo
a seu jogo ou contar a alunos sobre a presença de um ex-aluno formado,
agora falecido, cujo espírito assombra o laboratório – qualquer desses
artifícios leva as pessoas a se comportarem de modo mais pró-social e
menos egoísta.
Combinar a ideia de vigilância sobrenatural com a forma de siste-
ma de retorno – carma, o pagamento pelos pecados – permite a outros
membros do grupo um pouco do prazer da punição. Imagine o tormento
daquele transgressor quando entender o que espera por ele!

O eu mágico

Quando cientistas sociais pedem a pessoas que descrevam Deus, verifi­


ca-se que há pouca consistência nos atributos que apresentam. Nem to-
das as descrições incluem um homem branco mais velho de barba, com
manto e sandálias, ou uma mãezona carinhosa flutuando nas nuvens, ou
um computador gigante no céu. Na verdade, o único fato que emerge de
uma análise do conceito de Deus dos indivíduos é que, para cada um de
nós, Deus parece ser uma projeção do self – eu e minhas atitudes, meus
desejos e vontades –, embora um “eu” com poderes excepcionais.
Faz sentido, então, que nosso conceito de orientação moral universal
seja o de mapear o mesmo mecanismo fisiológico que modula os dois
lados de nosso próprio comportamento moral individual. Em cada um
de nós, há oxitocina suficiente para empurrar nosso comportamento em
direção ao amor e à conexão, mas também há testosterona suficiente para
ativar o medo e a punição. Portanto, é o Grande Cara (ou a Mãezona)
nos vigiando. Deus, o derradeiro Juiz Moral e Impositor, alinha-se à in-
fluência da testosterona. Deus, a derradeira Fonte de Ligação e Amor e
Preocupação, alinha-se à oxitocina.

149
A molécula da moralidade

É de se admirar, então, que a crença em Deus possa inspirar tanto atos


de imensa compaixão quanto de cruel e sectária violência?
O primeiro grupo esforçado de hominídeos, fisicamente sobrepujados
por chimpanzés e que não eram páreo para leões ou matilhas de cães
selvagens, precisavam se unir, conviver bem e ajudar uns aos outros a se
manter vivos. De modo similar, os deuses animistas de caçadores-coleto-
res primitivos e ritos antigos de fertilidade eram impulsionados mais pela
oxitocina. À medida que as tribos se tornavam maiores e mais diversas
geneticamente – isto é, nem todos eram da família –, a sobrevivência
exigia graus maiores de cumprimento da lei, portanto Deus tinha mais
testosterona. Tribos nômades tinham mais probabilidade de conhecer
outros grupos, o que criou mais uma dinâmica do tipo “nós contra eles” e,
consequentemente, aumentou a necessidade de Deus tomar um partido
e de punir – não mais uma Mãe Terra, mas o “Deus das Alturas”, que
podia ser invocado para castigar outros “caras”. Com certeza, o Deus do
Antigo Testamento nada mais é que uma forte figura de pai, não muito
agradável, que está sempre dizendo “Sou um Deus ciumento”, “Sou um
Deus zangado”. E, como a Bíblia repete sempre, esse Deus irado, o der-
radeiro bad boy, estava pronto para invocar enchentes e destruir cidades
inteiras num piscar de olhos.
Sociedades pequenas podiam, de início, confiar na natureza humana
do toma lá dá cá. Nossa espécie liderou com generosidade e confiança,
mas retribuindo – ou, pelo menos, retendo aceitação e generosidade –
sempre que houvesse violação de confiança. Então, Deus foi inventado
para reforçar essas tendências pró-sociais e para endossar castigos de ten-
dência antissocial. Finalmente, as regras tidas como advindas de Deus
foram codificadas e tiveram o poder da lei secular. Com o tempo, essas
leis se tornaram fixas, como nos Dez Mandamentos e no Código de Ha-
murabi, que estabeleceram suas exigências de modo muito claro, espe-
cialmente para os 5% de qualquer população que não tivesse receptores
de oxitocina, necessários para se conectar e se comportar com moralidade
sem imposição externa. Porém, até para os outros 95%, é útil ter uma
linha luminosa estabelecida pela sociedade para o bem contra o mal, em

150
O n d e o s e xo to c a a r e l i g i ão

especial levando-se em conta que os sentimentos morais são, natural-


mente, falíveis e sujeitos a imprecisões fisiológicas.
Apesar de o “olho por olho” ter caracterizado a maior parte dessas
antigas formas de jurisprudência, outras forças se concentraram em tra-
balhar nas soluções de “soma não zero” para a sobrevivência, que criaram
um papel para a compaixão. Os deuses guerreiros impulsionados pela
testosterona, como Jeová, Zeus e Júpiter, continuaram ditando as regras
em toda a época clássica, mas os panteões pagãos sempre abriam espaço
para uma variedade de vozes, incluindo a extática e a erótica. Enquanto
isso, as filosofias mais seculares da Grécia e de Roma infundiam o pen-
samento moral com um forte elemento de raciocínio.
O mundo judeu também teve seus místicos, bem como seus filósofos
para impregnar a rispidez do Deus da Ira, que incluíam o Rabino Hillel,
que surgiu com a Regra de Ouro várias décadas antes de aparecer no
Novo Testamento como um dos ensinamentos de Jesus.
É evidente, no entanto, que a abordagem da religião articulada no
Novo Testamento, uma perfeita combinação de várias tendências atin-
gindo proporções máximas quando o mundo clássico chegou ao ápice do
poder e entrou em colapso, foi uma ideia nova e poderosa, no momento
certo.
A tradição de testosterona de Zeus, Júpiter e Jeová era mantida por
meio de contínua reverência às antigas escrituras hebraicas, que os cris-
tãos começaram a chamar de Velho Testamento. A tradição filosófica
grega era mantida pela adoção de universo construído sobre o conceito de
Platão de um mundo alternativo e perfeito da Forma, um reino espiritual
que nós, humanos comuns, só vemos “obscuramente por um espelho”.
O poder romano rompera as velhas maneiras enquanto a Pax Ro-
mana trouxera uma variedade de culturas que mantinham contato, com
a mobilidade enfraquecendo os laços das religiões fundadas num lugar
em particular. O cristianismo preencheu o vazio ensinando que o reino
de Deus não estava dentro deste ou daquele templo, nesta ou naquela
colina daquela primavera sagrada, mas dentro do coração de cada um dos
crentes. A esse respeito, o cristianismo começou, na verdade, como uma

151
A molécula da moralidade

força moral “de baixo para cima”, com dezenas de abordagens diferentes.
Mas aqueles que desejavam uma ortodoxia, “de cima para baixo”, final-
mente venceram, e o “doce pastor” encontrou seu legado cooptado pela
derradeira organização de comando e controle, o Império Romano, que
se metamorfoseou na “Oh! Tão hierárquica”, Igreja Romana Católica.
Ainda assim, a ideia de baixo para cima persistiu na inovação do cristia-
nismo mais significativa, a volta à compaixão, após milhares de religiões
guerreiras. Assim como o culto a Dionísio teve um grande apelo para
mulheres, escravos e outros que tinham os privilégios da cidadania nega-
dos numa sociedade guerreira, o culto a Jesus oferecia o amor de Deus a
todos, não importava quão humilde nem o quanto fosse desprezado pelos
ricos e poderosos. Era o Cristo amoroso e clemente, o cordeiro de Deus
enriquecido pela oxitocina, que fez do culto a Jesus uma importante força
espiritual, capaz de durar por mais de dois mil anos.
Na Ásia, muitas religiões históricas haviam se concentrado na com-
paixão, seguindo preceitos que ofereciam a libertação do sofrimento e
acabando com intermináveis ciclos de reprodução e reencarnação. Um
deus da Ira parecia desnecessário, porque as regras já estavam muito mais
enraizadas nessas sociedades asiáticas menos individualistas, mais foca-
das em grupos. O cumprimento dessas regras era imposto pela presença
de ancestrais e pela certeza de se envergonhar em razão de mau compor-
tamento, sobretudo se isso viesse a desonrar seu grupo.
Assim, mais uma vez, tanto na religião quanto em tudo mais, a ver-
dade subjacente da Molécula da Moralidade é que não somos tão natu-
ralmente compassivos ou agressivos, generosos ou cruéis. Pelo contrário:
somos naturalmente adaptáveis. Os hormônios opostos que nos regulam
nos permitem seguir para qualquer lado, dependendo das circunstâncias.
Acontece que ser generoso, amável e confiável é, na maior parte das ve-
zes, o melhor caminho. Adotamos, então, os modelos morais que pode-
riam nos orientar a como segui-los: Jesus, Buda, o Dalai-Lama.
Assim como as imagens religiosas, os rituais comunais de comer e o
pousar das mãos sempre fizeram parte da comunhão religiosa, pois au-
mentam a oxitocina. Em nossos estudos dos Jogos de Confiança, os que

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O n d e o s e xo to c a a r e l i g i ão

mostraram o maior pico de oxitocina e eram os mais confiáveis também


eram os que se descreviam como comprometidos com a religião. Descul-
pem-me, Richard Dawkins et al., mas essas pessoas religiosas também
tiveram a maior pontuação em medições de satisfação com a vida e o
bem-estar emocional. O fator crítico ao fazer tudo isso funcionar para o
bem é o mantra enfatizado por gurus, que vão desde Jesus até John Len-
non: Tudo do que você precisa é amor.

Amor transcendente (e Lama)

O que me leva a uma epifania muito mais recente em minha vida, mo-
mento em que um disparo de oxitocina me permitiu, de verdade, sair da
concha.
Após dois anos de preparação, recebi, finalmente, a permissão da Pa-
pua, Nova Guiné, de coletar sangue de guerreiros tribais antes e após
terem desempenhado uma dança ritualística. A experiência testaria se a
liberação de oxitocina era universal. O vilarejo Malke era em Western
Highlands, um local verde acidentado, de vulcões e chuva quase constan-
te. A 30 horas de viagem da Califórnia, preciso reconhecer que, quando
cheguei, estava um pouco esgotado. Em parte, abatido pelo cheiro dos
corpos sujos. Havia cerca de mil pessoas vivendo como nossos ances-
trais evolutivos. Haviam construído cabanas de palha e sobreviviam com
inhame e repolho. Verdade seja dita, haviam abandonado o canibalismo,
no máximo, há duas gerações. Os homens estavam tão entranhados de
terra que, quando começamos a experiência, tive de usar quatro ou cinco
chumaços de algodão com álcool antes de chegar à pele e coletar o san-
gue. Usavam como “instalações sanitárias” uma vala, sem sabão e água
para limpeza – na melhor das hipóteses, uma folha para limpar as mãos.
Andavam descalços na lama e usavam roupas de segunda mão.
Recuperando-me do choque cultural e do substancial fuso horário,
também estava desconcertado pelo fato de que nosso nitrogênio líqui-
do para o resfriamento do sangue não havia chegado. Assim, sentei-me

153
A molécula da moralidade

numa colina para pensar no que fazer. Um ocidental muito alto e pá-
lido, eu era obviamente uma curiosidade, pois, aos poucos, alguns dos
aldeões começaram a se reunir ao meu redor. Em mais alguns minutos,
eu havia atraído uma multidão, desde criancinhas até avós desdentadas.
Sentaram-se à minha volta e ficaram me observando, gradualmente che-
gando mais perto. A tradição local de “ter” convidados para jantar cruzou
minha mente, mas “quem está na chuva é para se molhar”, como sempre
digo. Como as crianças eram tímidas, comecei a fazer caretas idiotas.
Elas começaram a rir e, então, todos sorriram. Todos começaram a se
aproximar ainda mais para me tocar e apertar minha mão. Oferece­ram-
-me seus cocares feitos de peles de animais, penas e grama. Flertei com
senhoras velhas – uma das quais ficava rindo e me cutucando nas costelas
– então aspirei o cheiro da selva e, por um momento, abandonei todos
os meus pensamentos ocidentais, preconceitos e preocupações. Era uma
expe­riência de mudança total de vida.
Eram as pessoas mais amigáveis e alegres com quem eu já lidara.
Como conseguem realizar suas tarefas em aproximadamente uma hora
de trabalho por dia, eles se sentam juntos e se socializam na maior par-
te do tempo. (Quando analisei seu sangue, seus hormônios de estresse
eram como de alguém que estava quase inconsciente. No entanto, eram
extremamente diligentes e atenciosos. Pedimos-lhes que construíssem
uma cabana para proteger nosso gerador e equipamento elétrico da chuva
constante – um encerado sobre estacas de galhos de árvore – e se de-
ram ao trabalho de decorar cada estaca com samambaias e flores roxas.
Também eram incrivelmente generosos de outras maneiras. Observei-os
abater um porco e assá-lo lentamente, retirando as camadas externas à
medida que cozinhava e depois, com grande pompa, o chefe distribuía o
luxo da carne, uma parte igual para cada família. Todos esperavam que
a carne fosse distribuída antes de comê-la. Mais tarde, na hora de partir,
essas pessoas que nada tinham, realizaram uma cerimônia para dar a cada
membro de minha equipe um presente belamente embrulhado com uma
nota do chefe sobre por que era importante que cada um de nós tivesse
esse presente.

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O n d e o s e xo to c a a r e l i g i ão

Os resultados confirmaram que, como os ocidentais, os agricultores


isolados da Papua, Nova Guiné, liberam oxitocina durante seus rituais.
Contudo, só por estar lá, senti que tinha aprendido algo muito poderoso.
Estava do outro lado do mundo, cercado por pessoas que não podiam ser
mais diferentes de mim. Embora fosse um completo estranho para eles,
haviam me incluído em seu vilarejo de imediato. Tínhamos chegado a
algo verdadeiramente primitivo, como o sangue do nascimento ou da
batalha. Era o amor e a empatia da oxitocina, preenchendo a lacuna de
milhares de milhas e eras de diferenças sociais. Estava coberto de lama,
mas eu me sentia extasiado, como ficara há muito ao ouvir o Cânone de
Pachebel. Experimentei a mesma sensação de amor, pertencimento e paz,
e de conexão com o universo. Essa era toda a religião de que eu precisaria
na vida. Senti-me realmente vivo, imerso no mar de humanidade.

155
Página deixada intencionalmente em branco
C A P Í TU L O 7

Mercados morais
O líquido da confiança e o malefício da ganância

P
ouco depois de o primeiro trabalho sobre infusão de oxitocina ter
me levado à rede nacional de televisão, identifiquei um novo pro-
duto sendo comercializado na internet, chamado de “líquido da
confiança”. Apenas $40 por uma quantidade suficiente para dois meses.
Que negócio da China! O site citou minha pesquisa e a cobertura da
mídia, e havia vários depoimentos, o que achei um tanto estranho, sobre-
tudo quando pensava em todo o incômodo da inação e no desconforto
do olho lacrimejando para que uma dose eficaz de oxitocina chegue ao
cérebro, sem falar no fato de que o efeito dura apenas algumas horas. E
ainda havia aquelas regulamentações ridículas da FDA sobre inaladores
de oxitocina, as quais eu conhecia muito bem.
Sem dar muita importância, voltei ao laboratório. Porém, alguns me-
ses depois, um produtor do extinto programa matutino da Fox News,
The Morning Show with Mike and Juliet, me ligou pedindo que eu fos-
se ao programa com o ombudsman da empresa “Líquido da Confiança”.
Depois disso, olhei com atenção os anúncios, que diziam: “Cada ampola

157
A molécula da moralidade

com 29 mililitros (fornecimento para dois meses) do Líquido da Con-


fiança contém os seguintes ingredientes: água purificada, álcool SD e
oxitocina.”
A oxitocina, como sabemos, é um medicamento que exige prescri-
ção médica. Portanto, ou eles estavam mentindo sobre os ingredientes,
ou violando uma lei federal ao vender um medicamento controlado sem
receita. Então, percebi o golpe, realmente baixo, mas genial. As orienta-
ções diziam borrife-o em suas roupas! Eles não estavam administrando um
medicamento sem prescrição médica – estavam vendendo um purificador
de ar caríssimo, diga-se de passagem! Caramba! Se eu soubesse como era
fácil criar uma atmosfera de confiança, teria evitado inúmeros problemas
para mim e para meus colegas cientistas em todo o mundo.
Fui ao programa de televisão e, sob o olhar da tal “ombudswoman”
(“ombudsmodel”, no fim das contas – uma garota loura, contratada duas
semanas antes) e afirmei categoricamente que aquele líquido era falso e
que aquilo tudo era uma farsa.
O Líquido da Confiança desapareceu imediatamente do mercado.
Mas um mês depois estava de volta. Da última vez que busquei no Goo-
gle, havia 76 páginas de propagandas e comentários, não só para o Lí-
quido da Confiança, mas também para uma gama de concorrentes que
haviam se aproveitado de um fragmento mal interpretado da ciência e o
tinham transformado em poções mágicas de contos de fadas para extor-
quir os ingênuos.
Esse fato levanta uma questão: quão sem-vergonha você tem de ser
para vender um produto falso que alega criar, por incrível que pareça,
confiança?
Não há nada de novo, é claro, no fato de ser sem-vergonha ou ines-
crupuloso e cínico no que se refere a ganhar dinheiro. Muitas pessoas no
mundo dos negócios pensam que falsificação e exploração fazem parte do
jogo. E que essa é uma das razões pelas quais os negócios e o comércio
sempre tiveram uma imagem um tanto negativa. “Por trás de toda for-
tuna, existe um grande crime”, essa é uma forma de ver a questão. “Não
hesite em tirar vantagem de um trouxa” é outra.

158
Mercados morais

Contrariando essas atitudes, mostrarei neste capítulo que, no cômputo


geral, e apesar de seus detratores, o mercado de fato torna as pessoas mais
morais, não menos. Os negócios apoiam o círculo virtuoso da oxitocina,
que se estende para além dos limites da família e dos amigos. Então, uma
reviravolta que virá como uma revelação aos que torcem para que “não os
deixemos em paz”, o comportamento moral de fato aumenta a eficiência
e a lucratividade de transações comerciais, o que adiciona outro elemento
ao círculo virtuoso. Um montante econômico maior – também conheci-
do como prosperidade –, sensatamente bem distribuído, reduz o estresse
e aumenta a confiança, o que facilita mais a liberação de oxitocina, o que,
por sua vez... pronto, você já entendeu.

O CÍRCULO DE PROSPERIDADE DA OXITOCINA

Oxitocina

Prosperidade Empatia

Confiança Moralidade

Esses dois tópicos podem convergir para fazer do comércio uma força
moral positiva no mundo, com a implicação do ponto de ação em que os
mercados mais sustentáveis – nos quais devemos trabalhar para obter e
expandir – são os da moralidade.

159
A molécula da moralidade

De acordo com nosso processo desenvolvido até agora, investigaremos


essa proposição de baixo para cima, olhando para a biologia que subjaz o
comportamento de mercado.
No Capítulo 4, falamos sobre seleção consanguínea e sobre o fato de
ser uma força motriz por trás do altruísmo na maioria das espécies so-
ciais. Animais sociais cuidam uns dos outros e se protegem, mesmo que
isso signifique ter de se sacrificar para o bem do grupo. Assim, é mais
provável que o grupo sobreviva e que as orientações genéticas para que
nos comportemos assim persistam, porque a sobrevivência do grupo
permite que os genes altruístas, inclusive os do sacrifício, sejam trans-
mitidos aos filhos e até mesmo aos sobrinhos e sobrinhas. Mas também
vimos como um cérebro com mais abrangência permitiu que nossas
próprias espécies descobrissem os benefícios de formas mais complexas
de colaboração social, uma das quais é a transação comercial. Evidên-
cias recentes sugerem que as primeiras transações comerciais incluíram
o comércio de pessoas.
Em 2011, uma equipe de antropólogos liderada por Kim R. Hill, do
Arizona, e Robert S. Walker, da University of Missouri, analisou dados
de 32 tribos de caçadores-coletores contemporâneos e relatou que menos
de 10% dos membros de cada bando eram parentes próximos. No fim
das contas, essa diversidade resultou de filhos e filhas que deixaram sua
família para se juntar à tribo de seus eleitos. Supondo que essa tradição
vá longe – e as evidências mostram que sim –, podemos ver como os pa-
rentes consanguíneos de cada indivíduo se espalhavam pelas populações
vizinhas. Enquanto isso, o vínculo entre o casal teria tornado a identida-
de dos pais mais explícita, o que teria facilitado que as pessoas identifi-
cassem seus parentes espalhados. Tudo isso teria dado aos membros dos
bandos vizinhos um incentivo genético para serem colaborativos em vez
de matar uns aos outros.
Mas esse mesmo aspecto da procriação entre as tribos também signi-
ficou que a seleção consanguínea se tornaria uma força menos potente
para promover o bom comportamento em cada bando, pois nem todos
seriam parentes de sangue – também haveria os agregados, o que seria

160
Mercados morais

muito mais vantajoso para a reciprocidade – a troca de favores –, assim


como para a necessidade de preservação da reputação em relação à reci-
procidade, como o incentivo de tratar bem as pessoas.

Como o comércio possibilita a generosidade

Mas o intercâmbio de pessoas entre os grupos e a familiaridade e con-


fiança inspiradas também resultaram em grandes oportunidades para a
troca de outras coisas. Talvez a tribo de lá tivesse uma técnica mais apri-
morada para fazer as pontas das flechas, enquanto a tribo de cá tinha uma
técnica melhor para moldar cuias de água. Uma forma de se beneficiar
da exposição à diversidade é imitar o que os outros estão fazendo. Mas
colaboração pacífica também significava um tipo de escambo entre cuias
de água e pontas de flecha, ou seja, cada grupo tinha a opção de se con-
centrar e se especializar em algo. Nem todas as tribos precisavam ter o
mesmo acesso a todos os recursos do meio ambiente. Portanto, a tribo A
não precisava tirar nada da tribo B para se beneficiar. Ou, como Frédéric
Bastiat, economista do século XIX, afirmava: “Quando as mercadorias
cruzam as fronteiras, os exércitos não o fazem.”
Com o surgimento do comércio, a prosperidade deixou de ser um
jogo de soma-zero. Na verdade, o significado mais comum de comércio
é: eu enriqueço à medida que você enriquece. Como parceiros comerciais
de sucesso, teremos muitas ideias em conjunto – aprendizado social –,
e você recompensará meus esforços e sustentará minha riqueza ao me
pagar pelo que eu produzir.
Nas últimas duas décadas, os cientistas puderam investigar a transição
da formas mais primitivas e autossuficientes de se ganhar a vida para for-
mas mais voltadas ao mercado, usando os mesmos jogos econômicos que
usamos em nossos estudos para quantificar os comportamentos morais.
Ferramentas como o Jogo do Ultimato produzem resultados bastante
consistentes em qualquer lugar do mundo – desde que os participantes
sejam universitários. Nesse jogo, a oferta mais comum no mundo todo

161
A molécula da moralidade

é 50% do montante, e propostas de divisão de menos de 30% são quase


sempre recusadas.
Mas quando cientistas adaptaram o jogo para usá-lo com uma tribo
chamada Machiguenga, as regras dos 50% e dos 30% desapareceram.
Entre esses horticultores de derrubada e queimada que vivem no sudeste
da Amazônia peruana, a média de ofertas era de 26% do montante e
menos de 5% das ofertas eram rejeitadas. Parece que esse povo isolado e
autossuficiente tinha um sentido bem diferente do significado de divisão,
e nenhum sentido do que significava negociar para uma solução ganha-
ganha.
Essa anormalidade estimulou o MacArthur Foundation’s Research
Network on the Nature and Origin of Preferences (Rede de Pesquisa
MacArthur Foundation sobre a Natureza e a Origem de Preferências)
a lançar uma iniciativa extremamente complicada e liderada por Joseph
Henrich, agora na University of British Columbia, Herb Gintis, da Uni-
versity of Massachusetts – em Amherst –, e Rob Boyd, da UCLA. Esses
cientistas selecionaram 15 culturas para estudar – pastorais de pequena
escala, agrárias ou nômades –, desde caçadores-coletores nas florestas da
América do Sul, horticultores forrageiros em Papua, Nova Guiné, como
o grupo que visitei, pastores nos altos desertos da Mongólia a caçadores
de baleia na Indonésia oriental. Alguns, como os Machiguenga, não co-
nheciam o conceito de comércio – eles matavam ou colhiam tudo o que
comiam e produziam tudo o que usavam. No outro extremo, algumas das
tribos em outros lugares, mesmo as que ainda viviam no mato, conse-
guiam trabalho de meio expediente em troca de salários. No meio, outros
grupos caçavam e colhiam a maior parte do que comiam, mas também
vendiam produtos agrícolas e, por fim, traziam alimentos ou mercadorias
industrializadas.
No fim das contas, o grupo Banto do Zimbábue, por exemplo – que
cultivam e vendem safras de commodities como milho, que produzem
cerâmica e cestas costuradas à mão para vender e que fazem bicos como
ferreiros e escultores – fizeram ofertas muito maiores no Jogo do Ultimato

162
Mercados morais

que os Hadza da Tanzânia, que subsistem praticamente da caça e de pi-


lhagem, como seus ancestrais faziam há 10 mil anos. Essa diferença foi
verificada em cada um dos 15 grupos estudados.
Depois de um processo extremamente rigoroso de coleta e análise de
dados, os cientistas descobriram uma correlação direta entre o comporta-
mento generoso pró-social e o grau a que determinada cultura tinha sido
exposta ao mercado. Essa exposição é chamada de integração de merca-
do, mensurada como a porcentagem de calorias domésticas compradas
em relação às calorias obtidas diretamente da natureza. Cada aumento de
20% na integração de mercado foi associado a 2 ou 3 pontos percentuais
no aumento de ofertas no Jogo do Ultimato.
Mas os pesquisadores não se convenceram facilmente. Eles também
analisaram cem outros fatores demográficos, sociais e econômicos que
podem ter influenciado esse comportamento. Eles descobriram que ape-
nas dois fatores fizeram diferença – integração de mercado e o fato de
pertencer a uma religião –, fosse o cristianismo ou o islamismo.
Na essência, a troca de mercado é um pouco como se reunir para
adorar um poder maior, pelo menos no sentido de que impulsiona um
ciclo de feedback positivo. Um mercado livre e funcional, afinal, tem a
ver com reciprocidade, o que significa atender às necessidades dos outros
para que possam retribuir na mesma moeda. A troca repetida, em vez de
um mercado caloteiro do tipo “pegue o dinheiro e suma”, requer que você
faça jus à demonstração da confiança de terceiros em você, o que significa
cumprir suas promessas, a um preço que permita que ambas as partes se
beneficiem.

A ganância é positiva?

Todas essas boas notícias sobre os efeitos morais do mercado levantam


uma questão: se o comércio é uma forma tão benigna de colaboração so-
cial, como avançamos do estado da natureza, no qual a troca de mercado

163
A molécula da moralidade

cultivou a virtude, para a confiança instável do colapso da Eron e AIG,


da bolha imobiliária do subprime, do maior esquema Ponzi de que se teve
notícia, de Bernie Madoff, e do maior feito jamais visto de informações
privilegiadas de Raj Rajaratnam?
Dois mil e quatrocentos anos antes dessas calamidades, Aristóteles já
havia concluído que o comércio era destrutivo à virtude porque nos fazia
focar o dinheiro, e não a sabedoria ou as outras pessoas. Aparentemen-
te, o grande filósofo estava disposto a ignorar o fato de que o mercado
também era o centro social das cidades, o lugar onde as pessoas trocavam
não só mercadorias como também ideias. Mesmo em Atenas, durante
a Idade de Ouro, o lugar de reunião para discursos políticos e debates
filosóficos era a ágora, o mercado, o mesmo lugar que se ia para comprar
galinha para o jantar da família.
Mas Aristóteles não estava sozinho em suas suspeitas. No mundo
confuciano chinês, sheng, os comerciantes, estavam apenas um passo aci-
ma dos parasitas sociais por não criarem nada tangível. A Igreja Medieval
proibia emprestar dinheiro a juros (o islamismo ainda proíbe) e, rigoro-
samente, impingia a noção do preço justo, em oposição à noção atual de
que o mercado suportará qualquer coisa.
No século XIX, os marxistas se tornaram os críticos mais ferrenhos do
mercado, a ponto de declararem que toda propriedade era roubada e que
os empreendedores provados eram inimigos do povo. Mas os marxistas
sempre ficaram presos numa visão de mundo de soma-zero, como se fos-
se apenas uma questão de distribuição (a cada um, de cada um) em vez de
expandir o montante para o bem de todos. (O que, como veremos, coloca
o ônus sobre os capitalistas para se certificar de que essa força benigna – o
mercado – realmente faz o que afirmamos, ou seja, beneficia a todos em
vez de apenas a alguns negociadores.)
Nos ano 1960, os hippies pararam de comprar e vender (pelo menos
até descobrirem as lojas que vendiam fumo) e tentaram viver de amor,
dividindo tudo. Esse espírito se mantém no Burning Man Festival, que
acontece todos os anos no Deserto de Nevada, um festival de arte e amor
em que nada pode ser comprado ou vendido (mas onde qualquer coisa

164
Mercados morais

pode ser dada para alguém). Quando fui ao festival, os únicos mercados
formais eram os de café e gelo (mas você podia comprar todo tipo de
coisa de forma clandestina).
“Os mercados são do mal” também é uma linha de discussão no movi-
mento antiglobalização “No Logo”, que descreve os protestos nas grandes
cúpulas econômicas em todo o mundo. Em 2009, até o papa participou
do ato, convocando uma pré-reunião de cúpula encíclica para o estabele-
cimento de uma “autoridade política mundial” para regular a economia e
se certificar de que sirva para o bem de todos, não apenas ao dos privile-
giados. (Aparentemente, termos como globalização e terceirização foram
difíceis para os escribas do Vaticano, que tinham de traduzi-los para o
latim.)
Com mais de 2.400 anos de firme oposição à ideia de compra e venda,
tem de haver alguma base para as denúncias de que os negócios podem
corromper a virtude. A meu ver, a origem do problema está no fato de
que os indivíduos se esquecem do significado de um mercado sustentá-
vel. Alguns empresários de fato adotam a ideia de que o comércio é mau
porque acreditam que ser frio e impiedoso lhes confere macheza, e que
ser macho – frio e impiedoso – os torna mais eficientes.
Nos dois filmes de Oliver Stone chamados Wall Street, Michael Dou-
glas interpreta Gordon Gekko, o mais impiedoso dos impiedosos a gerir
um fundo de hedge ou conseguir uma aquisição hostil. Anos depois de
ter representado o papel, Douglas disse aos repórteres que estava exausto
dos gerentes de fundo bêbados que o seguiam pelos restaurantes gritan-
do o bordão do personagem – “A ganância é positiva!” – e, em seguida,
acrescentando algo como: “Você está certo, irmão. Você é o cara.”
De alguma forma, esses caras não entenderam o fato de que Gekko
era o vilão da história, que “a ganância é positiva” deveria ter um cunho
irônico (até mesmo orwelliano, como “guerra é paz”) e que o filme fora
escrito como um conto preventivo sobre os perigos da acumulação ilícita
de dinheiro.
Certamente, os estereótipos negativos do mercado são reiterados por
líderes corporativos que buscam lucro a qualquer preço, sem medo de

165
A molécula da moralidade

estragar as comidas para bebê, de poluir os lençóis freáticos, jogar com a


contabilidade ou despedir milhares de funcionários para somar um dólar
ao valor das ações da empresa. Tenho certeza de que os fabricantes do
líquido da confiança ofereceram vários argumentos em relação ao que
estavam fazendo como sendo o bom e velho capitalismo ao estilo ameri-
cano, mesmo produzido em Bangalore ou na Bielorrússia.
Mas, na verdade, você não precisa ser um mau-caráter mentiroso para
argumentar que os ensinamentos morais e os requisitos para permanecer
no topo de uma economia de mercado são duas categorias bem diferen-
tes. Pergunte a qualquer aluno de MBA ou especialista em economia – é
o interesse próprio que rege os assuntos humanos, certo? Especialmente
as transações comerciais. Steven Levitt e Stephen Dubner afirmaram na
introdução do livro Freakonomics: “A moralidade representa a maneira
como gostaríamos que o mundo funcionasse; a economia representa como
ele de fato funciona. Não há o que se discutir sobre isso.”
Bem, na verdade, você pode. Eu discuto com essa proposição quase
todos os dias.
A moralidade não é algo que se deseja – é biologia, especificamente,
como sabemos agora, a biologia da oxitocina. Isso significa que os com-
portamentos que se alinham com o pró-social, comumente chamado de
comportamento moral, não são adaptados das aulas da escola domini-
cal, mas são estratégias de sobrevivência comprovadas através do tempo,
moldadas pela figura realista mais rígida de todas, a seleção natural.

Os pinguins e a prosperidade

Isso tudo nos traz de volta ao pai da racional e realista ciência da Econo-
mia, Adam Smith. Ao ler sua obra inteira, não apenas alguns parágrafos
selecionados, você percebe que ele defende a causa de que a busca do in-
teresse pessoal pode, de fato, beneficiar a todos, mas apenas ao considerar
a simpatia mútua que influencia as forças contrárias presentes em nós na
maior parte do tempo, a saber, a ganância e a agressividade.

166
Mercados morais

Se você assistiu ao documentário A marcha dos pinguins, sabe que os


pais dessa espécie azarada passam o inverno inteiro tolerando tempe-
raturas negativas, nos ventos uivantes da Antártida, com um ovo acon-
chegado entre os pés e a gordura da barriga. (A essa altura do ciclo
de reprodução, as mães já partiram para as águas do Oceano Antár-
tico – mais quentes, mas não como as de St. Bart – para se recuperar
da gravidez, alimentando-se de lulas.) A maneira como os machos se
aconchegam em busca de calor é essencial para sua sobrevivência e a
dos filhotes, ainda dentro dos ovos. Vital também é a forma como eles
fazem um rodízio desse processo, em que todos, em algum momento,
ficam nas extremidades mais frias para depois poderem ir para o meio
do grupo, onde conseguem se aquecer. Os pinguins também se movem
de forma que todos fiquem em algum momento nos níveis intermediários,
entre a extremidade gélida e o centro aquecido do grupo. Cada um quer
ficar no meio e chocar sua ninhada – essa é a parte do interesse pessoal.
Mas para se aquecer, ele precisa do grupo, pois sem o calor gerado pela
união dos corpos, ele e a futura prole congelariam. Para manter o grupo
vivo e, em consequência, cada um deles, todos têm de jogar limpo – e
colaborar. Nesse caso, todos têm sua vez no meio do grupo, onde po-
dem se aquecer, e todos passam algum tempo na extremidade externa
gélida, congelando.
Com os pinguins, o comportamento pró-social e o interesse pessoal
elementar de cada indivíduo (sobrevivência e reprodução) são indistin-
guíveis. Seu comportamento pró-social, que mescla o interesse individual
com o bem maior, cria um círculo virtuoso, e então o reforça num ciclo
infinito. Esse é o modelo de economia comportamental ao qual Smith
se referia.
Quanto aos seres humanos, o estudo de nossa biologia mostra que
dançamos, nos inspiramos pelo mistério de uma força superior e troca-
mos mercadorias. É apenas isso que os seres humanos fazem. Toda cul-
tura, ao longo da História, criou mercados e, quando eram contra, como
os adeptos do festival Burning Man, eles emergiam secretamente como
mercados negros.

167
A molécula da moralidade

Nos tempos antigos, as cidades eram construídas em torno dos tem-


plos, e os viajantes do século XVIII da Europa ou da América do Norte
sabiam que estavam se aproximando de uma cidade quando viam as tor-
res da igreja no horizonte. Mas pouco depois, o marco indicador urbano
passou a ser as fábricas com chaminés onduladas e de tijolos vermelhos.
Na Era Dourada, antes da Primeira Guerra Mundial, o historiador Hen-
ry Adams observou que o mercado substituíra a religião como o princípio
organizador central de todas as sociedades modernas. A energia religiosa
que já motivara a construção de grandes catedrais, afirmou ele, se trans-
formara em motivação para inventar e adquirir.
Hoje, a marca de cada cidade é um conglomerado de arranha-céus
de escritórios corporativos nos quais as commodities não são necessaria-
mente criadas, inventadas, projetadas ou produzidas, mas financiadas,
compradas e vendidas. Quanto ao fato de servirem como símbolo para a
cultura, quando os terroristas do 11 de Setembro quiseram atacar o cora-
ção da sociedade americana, não miraram a Catedral de St. Patrick ou o
Mormon Tabernacle – atacaram o World Trade Center.
No entanto, deixando de lado a perda direta da vida, nossa economia
e sociedade sofreram tantos ou mais danos como resultado de um aci-
dente muito diferente em 2008, quando aqueles que reverenciavam tanto
os mercados entraram numa onda de excesso motivada pela ganância
e se arrasaram. Ao agirem como se sua ganância pessoal fosse positiva,
os mercados foram perfeitamente eficientes e, ao manterem os consu-
midores cientes, o que os eximiu de qualquer responsabilidade moral,
corroboraram da maneira mais forte possível o pensamento daqueles que
consideram todos os mercados corruptos.
Esses impostores empedernidos e não regulamentados poderiam nos
ter poupado muito sofrimento se tivessem introjetado um dos mais im-
portantes trechos de Teoria dos sentimentos morais: “Por mais egoísta que
um homem possa ser, há, evidentemente, alguns princípios em sua natu-
reza que o fazem se interessar pela sorte dos outros e tornam a felicidade
alheia necessária para ele, mesmo que não ganhe nada com isso, a não ser
o prazer de testemunhá-la.”

168
Mercados morais

Há muito que se criticar sobre a forma como os mercados contem-


porâneos são geridos, mas uma verdade fundamental se destaca: desde
que foi transformado e turbinado pela Revolução Industrial e os valo-
res individualistas da Reforma Protestante, o mercado se provou uma
forma inigualável para a construção da prosperidade. Alguns diriam
que o capitalismo industrial levou apenas ao materialismo crasso, mas
a evidência mostra que, no cômputo geral, a prosperidade, como a re-
ligião, contribui significativamente para a saúde e a felicidade dos seres
humanos.
Por exemplo, nos Estados Unidos, de 1600 a 2002, a média de ren-
dimento ajustada aos preços aumentou 6.900%, a média de expectativa
de vida mais que dobrou, de 35 para 78 anos, e a mortalidade infantil
caiu de um terço dos nascimentos para menos de cinco mortes a cada
mil nascimentos hoje. Enquanto isso, a taxa de homicídio caiu 92%.
No mesmo período, na França e na Holanda, o índice de homicídios
caiu 88%.
Recentemente, analisei dados do World Values Survey* (Pesquisa
Mundial de Valores) sobre a porcentagem de pessoas que afirmam ser
importante ensinar às crianças a serem tolerantes, sobre o quão confiá-
veis acreditavam que os outros eram e sobre a renda média dos países.
Eu queria investigar a relação entre tolerância e confiança (indicador
da moralidade) e a renda de um país. Como mostra o gráfico a seguir,
tolerância e confiança aumentam quase em sintonia com o aumento de
renda. Existem exceções (veja, por exemplo, o Paquistão), mas quanto
mais as pessoas se afastam de rendas no nível da subsistência, sua maior
sensação de segurança proporciona o luxo de ser confiante e tolerante.
Pesquisas também mostraram que países tolerantes são mais inovadores
e produzem as inovações tecnológicas de que precisamos para sustentar
a prosperidade.

* Nota da Tradutora: Projeto acadêmico permanente conduzido por cientistas sociais para avaliar
a situação dos valores socioculturais, morais, religiosos e políticos de diferentes culturas em todo
o mundo.

169
50%

0%
20%
60%
80%
100%

10%
30%
40%
70%
90%

Hong Kong
Etiópia
Vietnã
Bulgária
Índia
Coreia do Sul
Ucrânia
Zâmbia
Marrocos
Tailândia
Indonésia
Romênia
Mali
Ruanda
Sérvia
Brasil
NÍVEIS NACIONAIS DE TOLERÂNCIA

Irã
Moldávia
Peru
China
Federação Russa
Burkina Fasso
Turquia
Chipre
Gana
Egito
Argentina
Tolerância

Espanha
Geórgia
Malásia
Itália
Jordânia
Alemanha
Japão
Eslovênia
África do Sul
México
Estados Unidos
Chile
Taiwan
Uruguai
Canadá
Colômbia
Polônia
Reino Unido
Nova Zelândia
Iraque
Países Baixos
França
Finlândia
Suíça
Austrália
Noruega
Suécia
0%
10%
20%
30%
40%
50%
60%
70%
80%

Noruega
Suécia
Finlândia
Suíça
China
Vietnã
Nova Zelândia
Austrália
Países Baixos
Canadá
Indonésia
Tailândia
Hong Kong
Iraque
Estados Unidos
Japão
Alemanha
NÍVEIS NACIONAIS DE CONFIANÇA

Jordânia
Reino Unido
Itália
Uruguai
Coreia do Sul
Ucrânia
Federação Russa
Etiópia
Taiwan
Índia
Bulgária
Romênia
Andorra
Confiança

Espanha
Polônia
França
África do Sul
Egito
Eslovênia
Geórgia
Moldávia
Argentina
Mali
Guatemala
México
Sérvia
Burkina Fasso
Colômbia
Marrocos
Chile
Zâmbia
Irã
Chipre
Brasil
Malásia
Gana
Peru
Turquia
Ruanda
Trinidad e Tobago
A molécula da moralidade

Enquanto podemos ver o ciclo virtuoso fluindo de forma impressio-


nante no progresso da pobreza para a prosperidade, a pergunta para so-
ciedades desenvolvidas é: Como preservar a moralidade que se autoa-
limenta e que é um ponto de partida para os mercados bem-sucedidos
e que produz tantos benefícios? Em outras palavras, como sustentar a
prosperidade que é responsável pela felicidade maior e, ao mesmo tempo,
nos proteger de uma sociedade que se transforma em uma república das
bananas em que o ganhador leva tudo, e que tem $200 mil em cães de
ataque, seu novo símbolo de status?
No caso da religião, descobrimos que a balança pendia para o lado
positivo, para o grau em que a oxitocina triunfava sobre a testosterona
como força motriz. Com relação à questão sobre se o mercado é positivo
ou negativo para a moralidade, a resposta se encontra no grau em que –
sem grandes surpresas – o comportamento comercial está alinhado com
a liberação de oxitocina.

Os elementos do sucesso econômico

Em meus estudos, descobri quatro elementos essenciais para manter


os mercados morais e para sugarmos o máximo de benefício econômico
que podem fornecer.

1. CONEXÃO

Minha ex-aluna de graduação, Sherri Simms, trabalha na World Vision


International, uma organização não governamental de auxílio às pessoas
carentes em mais de 100 países, e ela pôde ver, em primeira mão, como
a violência e os maus-tratos podem impedir o acúmulo de capital social
e moral, destinando alguns países à pobreza eterna. Ela queria pegar o
trabalho teórico que eu fizera comparando os efeitos da confiança na

172
Mercados morais

prosperidade e testá-lo no campo, em vez de usar os jogos econômicos


no laboratório.
Sherri sabia que o comércio não se limita a mercadorias e serviços,
mas inclui a troca de ideias e interação social em geral. Portanto, para sua
dissertação, elaboramos um experimento para verificarmos o que acon-
teceria se colocássemos quiosques com acesso grátis a internet em seis
diferentes vilarejos, em três continentes.
Cinco desses vilarejos eram rurais. O sexto, localizado pouco mais
de uma hora de carro de Bangcoc, Tailândia, era uma mistura de rural
e semi-industrial. Com a chegada da internet, as pessoas ficariam gru-
dadas à tela e mais isoladas dos vizinhos, ou a conectividade contribuiria
para o ciclo virtuoso, como vimos nas sociedades indígenas expostas aos
mercados?
Sherri conseguiu testar os moradores um mês antes e um mês depois
de terem o acesso à internet, que usaram, em princípio, para obter infor-
mações meteorológicas e sobre colheita. Descobrimos que, em cada um
dos seis cenários, a troca social rudimentar proporcionada pelo uso da
internet aumentou a confiança, assim como outras 15 medidas do capital
social. No fim da experiência, em cada um dos seis vilarejos havia mais
confiança nos demais, mais orgulho cívico, mais voluntários para ajudar
na vizinhança e mais satisfação geral em relação à vida.
Há convincentes evidências de que qualquer conexão não abusiva
contribui para o ciclo de feedback positivo porque conexão constrói con-
fiança. Dado que o sistema HOME está constantemente se ajustando
para os ambientes nos quais nos encontramos, a conexão em uma esfera
nos condiciona a colaborar em outras esferas, o que, por fim, nos leva ao
crescimento da prosperidade, que, então, acrescenta mais confiança, que
aumenta a disposição de se comportar de forma generosa e colaborativa.
Em estudo sem qualquer cunho científico conduzido para a revista
Fast Company, fiz uma experiência com uma população de um só, o es-
critor da área de negócios Adam Penenberg, para testar os efeitos das
mídias sociais como a maioria dos ocidentais as usam. Enquanto Adam

173
A molécula da moralidade

estava em Claremont escrevendo um artigo sobre minha pesquisa, co-


letamos seu sangue antes e depois de ele passar 15 minutos tuitando.
Seu nível de oxitocina aumentou 13%, e o ACTH, o hormônio do es-
tresse chamado adrenocorticotrófico, aumentou 15%. Parece que mesmo
as formas mais casuais de interação mediada pela tecnologia – o que o
psicólogo Wendi Ardner chama de “lanches sociais” – podem ter efeitos
positivos significativos.
Numa reprodução deste experimento para o Korean Broadcasting
Service, testei os sangues das pessoas antes e depois de 15 minutos do
uso privado e não dirigido das mídias sociais, e descobri que a oxitocina
aumentava em todas as pessoas testadas, e que o nível de alteração da
oxitocina estava relacionado com o nível de conexão. Um jovem parti-
cipante teve o nível de oxitocina elevado em inacreditáveis 150%. No
relatório que fiz ao KBS, conjecturei que ele poderia estar falando com
a namorada ou com a mãe. Eles verificaram – ele estava postando uma
mensagem na página da namorada no Facebook, e seu cérebro processou
a experiência da conexão como se ela estivesse na sala com ele.

2. CONFIANÇA

Quando eu trabalhava com o psiquiatra-chefe do Supremo Tribunal de


San Diego, Dr. Ansar Haroun, uma das detentas que testei, sentada com
seu macacão laranja e com as mãos algemadas, era traficante de metanfe-
tamina. No Jogo do Ultimato, ela foi escrupulosamente justa, dividindo
o montante em exatos 50%. Quando comentei sobre isso, ela respondeu:
“No meu ramo de negócios, se você trapacear, morre.”
O ciclo virtuoso nem sempre é reforçado de modo tão cruel, mas, com
frequência, a regra é: “Se trapacear, está fora do jogo.”
Durante os séculos XI e XII, os comerciantes Maghribi, do norte
da África, eram muito mais bem-sucedidos que os genoveses porque
criavam vínculos de confiança que se expandiam muito além de seus

174
Mercados morais

grupos consanguíneos, o que possibilitava o envolvimento dos agentes


locais em todo o Mediterrâneo, e o elemento-chave era tolerância zero
para trapaças – uma única infração e você estaria fora para sempre.
Portanto, a busca pelo ganho de curto prazo por meio de trapaças era
um tanto insensato, pois significava arriscar os benefícios vitalícios da
rede dos Maghribi.
O que os Maghribi sabiam por experiência própria era que a confiança
servia como lubrificante econômico, diminuindo os custos das transações
ao eliminar a necessidade de sistemas elaborados de fiscalização e apli-
cação rigorosa de regras inconvenientes. Confiança também oferece uma
vantagem tão convincente no comércio que se torna um incentivador ao
comportamento moral em qualquer outro lugar.
Judeus ortodoxos dos mercados de diamante de Nova York e Amsterdã
operam de acordo com o mesmo princípio – eles sequer verificam o con-
teúdo da bolsa quando entregam somas altíssimas. O mesmo acontece en-
tre os 900 atacadistas dos melhores sushis que operam no mercado aberto
Tsukiji, em Tóquio. Sua reputação está em jogo todos os dias, em cada lote
de peixe que vendem, em termos de qualidade e preço. Se eles quiserem
manter-se no negócio, não podem trapacear ou poupar esforços.
Quando as pessoas reclamam de ter de preencher formulários em três
vias e obter 12 assinaturas sempre que precisam lidar com o governo, a
raiz do problema está na falta de confiança. No século XIX, havia tanto
suborno e corrupção – parecia que ninguém era confiável quando não
havia um “dono” tomando conta da loja – que os níveis impeditivos de
supervisão, mais conhecidos como burocracia, foram instituídos como
reforma. Por sorte, após mais de um século de burocracia torpe, as pes-
soas passaram a se dar conta de que esses controles de cima para baixo
não funcionam e, acredite ou não, os governos locais, estaduais e até os
federais fizeram grandes avanços para a modernização, com abordagens
de baixo para cima, com base no mercado.
Os efeitos incapacitantes da falta de confiança tornam-se especialmen-
te preocupantes quando consideramos que os Estados Unidos tiveram

175
35%
45%
55%

30%
40%
50%
60%

1960
1961
1962
1963
1964
1965
1966
1967
1968
1969
1970
1971
1972
1973
1974
1975
1976
1977
1978
1979
CONFIANÇA POR ANO NOS ESTADOS UNIDOS

1980
1981
1982
1983
1984
1985
1986
1987
1988
1989
1990
1991
1992
1993
1984
1995
1996
1997
1998
1999
2000

Proporção dos que confiam em outros americanos


2001
2002
2003
2004
2005
2006
2007
2008
2009
2010
Mercados morais

uma queda na confiança desde os anos 1960, quando 58% dos america-
nos afirmaram que confiavam nos outros. Hoje, esse número é de 34%.
A empresa de consultoria americana Edelman publicou um barôme-
tro de confiança que atingiu o nível mais baixo jamais relatado em 2009.
Sessenta por cento dos funcionários entrevistados afirmaram que pre-
cisavam ouvir informações de um gerente de três a cinco vezes antes de
acreditar nelas.
Enquanto isso, entre a população em geral, uma pesquisa de imprensa
realizada em 2010 mostra que 50% dos americanos têm “pouca ou ne-
nhuma” confiança nas corporações e no Congresso. As únicas instituições
que inspiram “alto grau de confiança” foram as militares e as empresas de
pequeno porte. Nossa visão do governo e de negócios é a mesma, no sen-
tido de que a confiança parece ser inversamente proporcional à distância
de nossas casas – ou seja, confiamos mais no governo local que no esta-
dual, e no estadual mais que no federal. Em outras palavras, gostamos
de ver os rostos e de conhecer as pessoas com quem fazemos negócios, e
damos preferência aos que têm o mesmo sotaque, as mesmas raízes e que
torcem pelo mesmo time que nós.

3. FOCO NO SERVIÇO E NA QUALIDADE, NÃO NO DINHEIRO

Na escola de negócios da University of Minnesota, a psicóloga Kath-


leen Vohs colocou dois grupos diferentes de voluntários para trabalhar
nos computadores. Depois de alguns minutos, mensagens subliminares
apareceram nos monitores. Sempre muito rapidamente, um grupo foi
exposto a imagens chispantes de peixes debaixo d’água. O outro grupo
foi exposto a imagens chispantes de dinheiro. A psicologia chama isso de
priming, mas na linguagem cotidiana chamamos de poder da sugestão.
Embora os participantes não tivessem consciência das imagens, essa sem-
pre sutil influência foi suficiente para alterar o comportamento do grupo
sugestionado a pensar em dinheiro. Em tarefas realizadas imediatamente

177
A molécula da moralidade

após as imagens, eles se mostraram menos solidários, menos inclinados


a ajudar e mais propensos a trabalhar e jogar sozinhos. Quando solicita-
dos a organizar as cadeiras para uma entrevista, o grupo sugestionado a
pensar em dinheiro também escolheu manter maior distância física entre
eles e os outros.
O ciclo virtuoso induzido pelo comércio pode ser diminuído sempre
que o lucro substitui as pessoas como interesse central Num filme sobre
a máfia, ao ouvirmos a frase “Não é pessoal, é negócio”, sabemos que
alguém está prestes a ser espancado.
Por isso, Frances Frei, especialista no setor de serviços da Harvard
Business School, lembra aos alunos que a essência por trás dos negócios
é “ser útil”. Que conceito! Faz o comércio parecer como um chamado
religioso, concorda? Bem, ao considerar o benefício que pode trazer,
certamente não é uma aspiração ruim. Servir aos outros, como vimos,
causa a liberação da oxitocina e dá início ao ciclo virtuoso do comporta-
mento moral. Os mercados nos dão a chance de servir aos outros todos
os dias.
Ao mesmo tempo, o comércio global pode ser facilmente corrompido,
já que podem se tornar abstratos e impessoais com facilidade. Essa é uma
das razões pelas quais o crescimento desigual dos serviços financeiros
se tornou um problema para nossa economia. Megacorporações como o
Walmart tentam minimizar essa impressão colocando recepcionistas nas
portas das lojas.
Dadas as condições erradas, mesmo as transações cara a cara podem
tornar-se impessoais e, por consequência, desumanas, com pessoas vistas
como commodities, o que, obviamente, abre o mercado para competição
baseada no toque humano.
Antes de ser vendido para o Toronto-Dominion, o Commerce Bank
era o que mais crescia nos Estados Unidos. Não rendia as melhores
taxas de poupança, e a variedade de serviços mal se estendia ao forne-
cimento de conta-corrente. Mas, de alguma forma, essa era a questão.
Ele achou seu nicho por ser um banco de varejo, não um banco com

178
Mercados morais

diversas finalidades, uma sofisticada potência financeira, e ganhou fa-


cilmente dos concorrentes por conta do conveniente horário de atendi-
mento e por ter os atendentes mais simpáticos. Continuar oferecendo
serviços simples significava que o banco não precisava dos magos finan-
ceiros com MBAs caríssimos para explicar todas as complexidades dos
serviços – não havia complexidades. Na realidade, o principal critério
para se conseguir um emprego no banco era “o sorriso dessa pessoa
transmite tranquilidade?”
Nos últimos dois anos, conheci um grupo de empresários lidera-
dos por John Mackey, CEO da Whole Foods, que está tentando se
proteger dos aspectos negativos do comércio, praticando o que chama
de “capitalismo consciente”. Eles estão longe de ser esquerdistas so-
nhadores. Nos últimos 10 anos, as corporações capitalistas conscientes
demonstraram retornos de 1.026%, em comparação com os retornos de
331% de empresas de gurus dos negócios, como a Good to Great, de
Jim Collins.
Elas começam supondo que a primeira pergunta a ser respondida é
“Qual é seu propósito?”. O aspecto animador é que, apenas ao fazer a
pergunta, eles desafiam o pressuposto de que a única razão para você es-
tar no negócio é fazer dinheiro – ou, na linguagem atual dos CEOs, “para
maximizar o valor dos acionistas”.
Depois que o Furacão Katrina devastou New Orleans, levou três se-
manas para que a Whole Foods encontrasse todos os seus funcionários.
Quando encontraram, Mackey e o conselho decidiram pagar um ano
inteiro de salário aos funcionários da cidade, independentemente do fato
de as lojas serem ou não reabertas.
Esse tipo de preocupação pelos funcionários vai inteiramente de en-
contro à abordagem “mestre do universo”, que enxerga a tarefa do CEO
começando e terminando com o retorno trimestral. O problema da abor-
dagem de “maximizar” é que ela ignora o fato de que toda corporação
não tem apenas acionistas, mas stakeholders, que incluem clientes, fun-
cionários, a comunidade e a sociedade na qual opera. A ideia de que

179
A molécula da moralidade

gerir um negócio se resume à maximização do valor do acionista leva ao


pensamento de curto prazo, que engana o futuro e, muitas vezes, gera er-
ros colossais. É animador pensar que líderes empresariais como Warren
Buffett agora argumentam contra a ideia de fornecer relatórios trimes-
trais sobre os ganhos. É muito melhor, afirmam eles, expandir o olhar do
líder além do teleimpressor de cotações da bolsa para os próximos cinco,
dez ou mesmo vinte anos. Como seu negócio sobreviverá em um mundo
no qual os combustíveis fósseis não serão mais abundantes? Como você
se adaptará à crescente prosperidade na África? Você não faz esse tipo de
ajustes de longo prazo sem distribuir seus recursos de forma diferente,
modificando seus esforços atuais de exploração do momento atual para a
exploração do futuro.
O movimento do capitalismo consciente tem muito em comum com
o modelo de líder servidor defendido por meu falecido colega Peter
Drucker e pelo guru empresarial Ken Blanchard. A ideia aqui é que
o gestor deve enxergar as pessoas que lidera não como meios para se
chegar a um fim, mas também como um fim em si mesmo. Ao interagir
com os funcionários de igual para igual, os líderes mobilizam o sistema
HOME, em que o vínculo entre os seres humanos, em vez de medo e
coerção, são a força motriz por trás da colaboração efetiva e da produ-
tividade máxima.
A ética empresarial é outra seara na qual a oxitocina é certamente o
melhor guia possível, tendo o ciclo virtuoso como sua própria recompen-
sa. Quando a eBay era apenas uma start-up e procurava novas maneiras
de se expandir, a empresa pegou um gigantesco empréstimo do Bank of
America. Em seis meses, a CEO Meg Whitman se deu conta de que essa
nova parceria não era viável. Assim, fechou as portas e imediatamente
devolveu o dinheiro, embora essa atitude significasse que a eBay não da-
ria lucro por um ano. Em princípio, o Bank of America ficou chocado,
mas já cancelara a dívida. Nos anos subsequentes, o Bank of America deu
tanto trabalho à eBay que a empresa obteve muito mais lucros do que o
montante que voluntariamente devolveu.

180
Mercados morais

Mas Meg Whitman conta outra história ainda mais em sintonia com
nosso tema. À medida que a eBay crescia, tornava-se cada vez mais pro-
blemático traduzir os padrões éticos e de bom gosto ao se expandir para
outros países. A empresa teve de estabelecer um limite do que era ou não
aceitável vender pelo site. O critério escolhido foi: “Você ficaria confor-
tável em dizer à sua mãe o que está fazendo?” O critério foi muito eficaz
em todas as culturas.

4. TODOS SE BENEFICIAM

A suposição mais fundamental de uma economia de consumo é que ha-


verá sempre uma abundância de consumidores – pessoas com dinheiro
no bolso e confiança suficiente no futuro para gastar em todos os tipos de
mercadorias. Assim como os pinguins, os consumidores estão predispos-
tos a participar de interações sociais, incluindo a troca de mercadorias. O
termo livre comércio é equivocado se quiser dizer livre de regras, porque
todo comércio depende delas. Mas comércio justo é essencial para tran-
sações espontâneas. Se os mercados produzem uma sensação de que você
não está recebendo um tratamento justo, eles desaparecerão. O comércio
é humano. Nós somos o comércio.
O dinheiro definitivamente não compra a felicidade, mas o ganhador
do Prêmio Nobel Daniel Kahneman relata que a satisfação em relação à
vida continua a aumentar com renda de até, e provavelmente mais que,
$160 mil por ano. Mas você não tem de ganhar um salário de seis dígitos
para se sentir melhor. Se todo o resto for igual, a vida é um pouco mais
fácil com $50 mil por ano do que com $15 mil.
E apesar do fato de que a sociedade americana contém enormes dis-
crepâncias em termos de salários e padrão de vida, o poder do nosso
motor econômico gerou prosperidade o suficiente para mitigar muitas
formas de desigualdades que podem prejudicar o ciclo virtuoso. Liber-
dade econômica (a habilidade de buscar os objetivos econômicos sem

181
A molécula da moralidade

regulamentações excessivas do governo) é em si fortemente associada


à felicidade. O sociólogo Jan Ott relatou que, apesar das dificuldades
e frustrações econômicas em muitos ciclos, a felicidade nos Estados Unidos
vem aumentando. Não só isso, mas a desigualdade em relação à feli-
cidade vem diminuindo – o que significa que a lacuna em relação à
felicidade entre os mais ricos e os mais pobres está cada vez menor, o
que tem relação com ganhos não econômicos conquistados por vários
grupos. O comentarista social Will Wilkinson escreveu: “Se quisermos
menos materialistas, devemos tornar as coisas materiais mais disponí-
veis para as pessoas, a tal ponto que elas vão parar de se preocupar tanto
com o material e passar a se preocupar com aspectos como a felicidade
e o sentido da vida.”
Por isso, a economia de mercado é muito parecida com o grupo de
pinguins antes descrito. Só funciona se houver calor suficiente fornecido
pelo grupo e se esse calor for distribuído igualmente para que ninguém
congele sozinho.
A prosperidade pode ser impedida tanto por excesso de controle de
cima para baixo como pela ausência de empatia que leva à condição “o
vencedor leva tudo”, que, por sua vez, desgasta a confiança e comporta-
mentos pró-sociais decorrentes dela. Quando as pessoas se preocupam
com a sobrevivência, não só inibem a liberação de oxitocina como pre-
judicam sua confiança de consumidor, que sempre foi o primeiro passo
para as crises econômicas.
Para prosperar no longo prazo, qualquer mercado – negócio ou so-
ciedade – exige regras de troca justas, claras e exequíveis, que sustentem
o ciclo virtuoso da confiança, a liberação da oxitocina e a reciprocidade.
Isso não só torna os mercados morais eficientes – melhores na produção
de prosperidade sustentável, do tipo que não se queima por assentos de
privadas de ouro para poucos –, como também leva à crescente expansão
do bolo econômico.
Mas mesmo as correções mais apropriadas e minimamente invasivas
no alto escalão não serão suficientes para manter o tipo de confiança

182
Mercados morais

social que pode continuar a impulsionar a prosperidade sustentável. Pre-


cisamos também de uma abordagem de baixo para cima que, por meio
da liberação de oxitocina, entre no ciclo virtuoso e remova os obstáculos
à confiança que corrompem e obstruem o ciclo.
Assim como vimos as populações indígenas mudarem de uma eco-
nomia de subsistência para uma economia baseada no comércio mútuo,
a cultura também influencia. Agora é hora de olhar para a forma como
cada um de nós pode trabalhar de baixo para cima a fim de moldar nossa
própria cultura, de modo que reflita melhor a sabedoria da Molécula da
Moralidade.

183
Página deixada intencionalmente em branco
C A P Í TU L O 8

Vida longa e feliz


Mímica que gera uma democracia de baixo para cima

B
ogotá, uma cidade linda que hoje em dia atrai multidões de turis-
tas. Porém, na década de 1980 e no início de 1990, seria preciso
estar louco para ir até lá. A capital da Colômbia ficou tomada pelo
mesmo tipo de guerra contra as drogas que agora vemos ao longo da
fronteira entre os Estados Unidos e o México, com batalhas campais
nas ruas entre cartéis de drogas e entre os cartéis e a polícia. Há muitas
razões para a polícia ter finalmente ganhado, e a violência ter diminuído,
mas grande parte do crédito por trazer a vida de volta a Bogotá se deve a
Antanas Mockus, o professor de filosofia que se tornou prefeito. Quando
quis restaurar a civilidade, adotou uma abordagem de baixo para cima
para a repressão.
Como parte de seu esforço para conter o mau comportamento, Mo-
ckus fez algo que, a princípio, parece ridículo: pôs mímicos nas esquinas
das ruas. Mas acontece que as pessoas temem mais o ridículo público do
que uma intimação da polícia, então a loucura tinha método. Quando esses
artistas zombavam de motoristas imprudentes e de pedestres desatentos,

185
A molécula da moralidade

Mockus fez, na verdade, os transgressores mudarem de comportamento.


Para quebrar o medo e a desconfiança e começar a reconstruir o danifica-
do tecido social de Bogotá, Mockus também transformou imensas áreas
da cidade num bloco, restringindo o tráfego de automóveis nas noites
de sexta-feira e aos domingos. Lançou uma “Noite para as Mulheres”,
exortando os homens a ficar em casa e tomar conta das crianças enquanto
700 mil esposas e mães saíam para comemorar, com policiais femininas
a postos para manter a ordem. Respondendo a questões mais mundanas,
ele tomou uma chuveirada na televisão para mostrar como economizar
água, e o uso diminuiu 40%. Por intermédio de gestos semelhantes, con-
tando com humor e criatividade em vez de “tu o farás” ou “não o farás”,
fomentou empatia e construiu capital social – e moral. Conseguiu ain-
da que os cidadãos pagassem 10% adicionais em impostos voluntários.
Também os dias de desarmamento voluntário ajudaram a baixar a taxa
de homicídios a um quarto do nível anterior.
As tolas travessuras de Mockus como prefeito personificavam a sabe-
doria de Confúcio, segundo a qual “O grande homem é aquele que não
perde seu coração de criança”. A maior lição é que a conexão empática
humana pode ter sucesso onde as regras de cima para baixo e o medo da
punição falham.
No capítulo anterior, vimos maneiras pelas quais um toque humano
dentro do mercado pode elevar a oxitocina e abastecer o ciclo virtuoso.
Vamos procurar aqui maneiras de alcançar o mesmo objetivo de modo
mais amplo, pela sociedade como um todo. De novo, a chave é o en-
volvimento humano que faz a oxitocina subir, que aumenta a empatia e
intensifica ainda mais o envolvimento humano.
Pensei em Mockus e em Bogotá na última vez em que estive em
Nova York e vi o progresso transformar aquelas “ruas horrorosas” em
lugares nos quais seres humanos podem querer passar algum tempo, e
talvez até contribuir para a boa atmosfera do ambiente. Longos trechos
da Broadway foram transformados em calçadões com mesas de café e
cadeiras, dando as boas-vindas às pessoas e convidando-as a se sentar,
desfrutar a atmosfera festiva e conviver. Toda a cidade foi arrumada, e

186
V i d a lo n g a e f e l i z

a taxa de criminalidade está bem baixa. Bryant Park e Madison Squa-


re Park, que antes só serviam para vender e se atirar às drogas, agora
têm jantar ao ar livre, luzes nas árvores e estão abarrotadas de pessoas
circulando noite adentro. O Meatpacking District, que já foi sombrio,
está lotado de turistas e tem um parque inovador que foi inaugurado
para festejar as críticas enlouquecidas sobre os trilhos abandonados, que
agora corriam ao longo do lado oeste.
Também pensei no “coração de criança” de Mockus quando vi a foto
de capa de três policiais durões com coletes à prova de balas, sentados
no chão de uma creche no Rio de Janeiro, embalando bebês de colo.
Essa cena incongruente ocorreu numa das favelas mais pobres e tensas
do Brasil, conhecida como Cidade de Deus, um bairro tão violento
que, uma vez, a polícia se retirou, deixando as pessoas à mercê de uma
gangue de adolescentes, atirando uns nos outros com rojões de fogos.
O abandono só aumentou a desconfiança e o ressentimento dos mora-
dores em relação à polícia, mas também era incrível a brutalidade das
autoridades sempre que intervinham. Então, chegou o policiamento
comunitário com policiais que não só visitavam creches, engatinhando
com os bebês, mas também jogavam futebol com as crianças mais velhas
e lhes ensinavam a tocar violão e piano. No começo, essas “unidades de
polícia pacificadora” tinham de ser recrutadas diretamente pela acade-
mia, para garantir que os policiais não tivessem sido ainda corrompidos
pelo dinheiro do tráfico. Mas logo que a ordem básica foi restaurada,
os traficantes perderam o controle. Caminhões de terraplenagem con-
seguiram entrar e dragaram o rio estreito e cheio de esgoto. A coleta de
lixo foi instituída três vezes por semana. A evasão escolar caiu muito, e
a presença na escola aumentou 90%.
O policiamento comunitário remonta à década de 1970, em esforços
de cidades como Dallas e San Diego, para promover a cooperação e a
confiança entre cidadãos e polícia. Isso significava mais patrulhas a pé e
de bicicleta, mais policiais minoritários em bairros de minoria. Quando o
conceito chegou a Nova York, também incluiu tolerância zero a infrações
contra a qualidade de vida. A polícia se tornou mais proativa em fazer

187
A molécula da moralidade

cumprir as leis contra música alta, catracas, lixo e embriaguez em público


– a ideia era a de que a eliminação das infrações menores ajudaria a criar
um senso de comunidade na qual grandes crimes seriam menos prováveis
de ocorrer. Assim, as autoridades estavam se dirigindo a ambos os lados
da equação hormonal – colaboração e sanções – que vimos discutindo o
tempo todo.
Mais perto de casa, fui convocado para ajudar a maior força policial
do mundo, o County Sheriff’s Department, de Los Angeles, com uma
inovação que chamavam de policiamento com base em confiança. O
Xerife Lee Baca e o Tenente Mike Parker queriam montar um sistema
de liderança compartilhada em que era dado poder a agentes de linha
para tomar decisões que não fossem comuns, estrutura paramilitar de
comando e controle. Isso aumentava o grau de responsabilidade dos
agentes por suas ações, mas o sindicato apoiava isso, pois as infrações
não mais resultariam em licenças sem vencimentos; a punição seria a
participação (paga) em aulas específicas numa faculdade para melhorar
o desempenho no trabalho. A moralidade aumentou, as infrações di-
minuíram e o xerife convocou membros da comunidade para um pro-
grama de escuta e transparência, que agora está sendo copiado pelas
polícias do mundo.
Sabemos que contar com contato pessoal positivo em vez de intimi-
dação (policias emocionalmente distantes, com óculos de sol espelhados
patrulhando em viaturas) funciona no nível da comunidade. Mas perma-
nece a questão: Como podemos adaptar o conceito subjacente do deslo-
camento em direção a um pouco mais de oxitocina e um pouco menos de
testosterona para melhorar o funcionamento de sociedades inteiras?
Durante as eleições primárias de 2008, quisemos testar as perspectivas
de intensificação do toque humano; assim minha equipe infundiu 130
voluntários com placebo ou oxitocina e depois testou suas atitudes em
relação à confiança. Dado os resultados de nossas experiências anterio-
res, não foi surpreendente que as pessoas com oxitocina expressassem
mais fé em outras. Mas a subida da oxitocina não aumentou apenas a

188
V i d a lo n g a e f e l i z

confiança no pessoal do laboratório; aumentou também nas pessoas em


geral. Essa mudança de perspectiva hormonalmente induzida levou, por
sua vez, à maior confiança nas instituições cívicas, incluindo o próprio
governo. Não que a oxitocina criasse mais fé em qualquer política especí-
fica ou ideias políticas. Mas os que receberam oxitocina mostraram mais
confiança em outras pessoas que confiavam no governo. E essa é a base
para a democracia.
Resolvemos, então, dar um passo adiante. Queríamos ver o efeito que
poderia ter, se tivesse algum, a oxitocina nas preferências políticas das
pessoas. Para tanto, pedimos aos participantes que se descrevessem po-
liticamente, fosse como independente ou como membro de um dos dois
principais partidos. Administramos-lhes oxitocina e apresentamos-lhes
uma lista de perguntas e proposições como “classifique seus sentimen-
tos em relação a Hillary Clinton” ou “classifique seus sentimentos sobre
Rudy Giuliani”. Não houve surpresas: os democratas com oxitocina re-
lataram 30% mais simpatia em relação a Hillary Clinton e 29% em re-
lação ao Congresso. Mas os democratas com oxitocina também tinham
sentimentos mais positivos sobre candidatos republicanos. Democratas
sob efeito da oxitocina mostravam 28% mais simpatia por Rudy Giuliani
e 30% mais em relação a John McCain que os democratas sob placebo.
Os independentes com oxitocina mostraram mais simpatia tanto pelo
partido Democrata quanto pelo Republicano, mas por nenhum candi-
dato em particular. Para os republicanos, entretanto – aqueles que se
identificavam com o partido para quem a desconfiança é uma posição
ideológica crucial –, a Molécula da Moralidade não tinha qualquer efeito.
A oxitocina não aumentava a confiança nos candidatos republicanos, nos
democratas, no Congresso ou nos grupos minoritários.
Então, o que isso nos diz? Bem, isso sugere que a oxitocina serve para
despertar a empatia e a conexão no nível individual, que pode se espalhar
até a escala social, mas que enfrenta os mesmos obstáculos tanto como
força social quanto como força interpessoal. Um dos fatores que podem
provocar um curto-circuito na oxitocina é uma abstração profundamente

189
A molécula da moralidade

enraizada, seja essa ideia fixa um “egoísmo racional”, “essas pessoas não
prestam” ou “o governo é o inimigo”.
Observadores sociais, desde Jane Jacobs (Morte e vida de grandes cida-
des. Martins Fontes), no início do anos 1960, a Robert Putnam (Bowling
Alone), em nossa própria era, têm defendido a construção de capital hu-
mano por meio da criação de comunidades interligadas que operem em
uma escala humana. Jacobs elogiou as virtudes da Greenwich Village de
Nova York, onde em vez de ter complexos de escritórios aqui, subdivisões
lá e shopping centers a algumas saídas da estrada, as pessoas poderiam
trabalhar, brincar, adorar fazer compras – talvez até ir à escola funda-
mental – tudo dentro de alguns quarteirões. Essa confusa concentração
de atividades permite que as pessoas se conheçam – e a si mesmas – não
somente como trabalhadores, vizinhos e pais, mas tudo isso junto, como
seres humanos verdadeiros, com todos os aspectos da vida se unindo num
todo integrado.
Nas eleições de 2010, no Reino Unido, David Cameron fez campa-
nha sobre a ideia de tentar criar mais daquele sentimento de “vilarejo”
por toda a Grã-Bretanha – com transparência, responsabilidade e con-
trole de vilarejo – como um meio de revitalizar o país. Eleito primeiro-
ministro, ele estimulou não apenas a descentralização, o controle local
e as escolas cooperativadas – tudo iniciativas familiares –, mas também
a ideia de que indivíduos precisam sair e conviver com outros e fazer as
coisas acontecerem, não apenas em termos de autossuficiência financeira
e empreendedorismo, mas em todos os aspectos da cidadania, incluindo
a caridade. Ele remonta aos antigos gregos, que tinham uma palavra para
aqueles que não tomavam parte ativa na vida pública – idiotes. Adivinhe
que palavra deriva dela?
Até agora, o esforço não foi bem recebido pelos britânicos, e a fal-
ta de confiança nascida do sistema de classe, imigração rápida e estres-
se econômico – junto com a falta de um toque humano tipo Mockus
para superar essas barreiras – pode ter algo a ver com isso. Ainda assim,
a teoria por trás do esforço baseia-se em ciência sólida. Como temos

190
V i d a lo n g a e f e l i z

visto repetidamente, demonstrar confiança (e pedir às pessoas que te-


nham mais responsabilidade pessoal é um sinal de confiança) constrói
confiança, bem como empatia, generosidade e todas as outras formas de
comportamento pró-social que chamamos de moralidade. Uma pesquisa
igualmente importante demonstra que, na economia de informação pós-
industrial e globalizada, a prosperidade se baseia na habilidade de nave-
gar vastamente por diversos ambientes sociais. Para desenvolver essas ha-
bilidades, as pessoas precisam expor-se às redes sociais nas quais, mesmo
ainda pequenas, são convocadas a ficar cientes do que cria seu bem-estar,
assumir a responsabilidade e contribuir diretamente para ele.
O programa de Cameron terá sucesso a tempo? É cedo demais para
dizer. Poderia algo semelhante funcionar nos Estados Unidos? Bem, os
Estados Unidos são, certamente, um país muito maior, com enormes
diferenças ideológicas e regionais, o que aumenta o grau de dificuldade.
Mas eis o que sabemos: a prosperidade de uma nação está relacionada
com a exposição e engajamento com os outros. Os primeiros trabalhos
que fiz sobre economia, que me conduziram à oxitocina, identificaram
obstáculos à criação de sociedades muito confiáveis. Portanto, confiança
e prosperidade diminuem, a qualquer momento, as grandes discrepâncias
de renda que criam barreiras entre as pessoas. O mesmo ocorre com as
diferenças étnicas, religiosas ou linguísticas, quando se permite que per-
maneçam como impedimento. A pobreza também é uma limitação de
confiança, e o estresse do consumo de subsistência inibe as ações da oxi-
tocina. Num estudo recente com 68 mil pessoas em 33 países, sociedades
que se sentiam ameaçadas também se tornaram menos tolerantes. Assim,
mesmo em nível social, quando precisamos juntar forças, o estresse inibe
a liberação da oxitocina e atrapalha.
Esses efeitos sociais se encaixam nos obstáculos à oxitocina em indivíduos,
os quais já discutimos: genes, trauma, dependência excessiva de raciocí-
nio que chega à exclusão das emoções positivas e talvez o maior de todos
os culpados – a testosterona e seu repertório comportamental de raiva,
hostilidade e punição.

191
A molécula da moralidade

A neurociência nos dá os ingredientes necessários para a criação de


uma sociedade mais rica em oxitocina, confiante e próspera, mas as po-
líticas que adotamos para chegar lá precisam ser desenvolvidas dentro do
processo político. Portanto, minha intenção aqui é oferecer alguns pen-
samentos sobre para onde devemos nos dirigir, não ditar como devemos
remar.
Minha pesquisa revelou quatro auxiliares importantes para essa
navegação.

1. COMUNICAÇÃO INTENSIFICADA

A fim de desenvolver e, em seguida, exibir a confiança e a empatia que


manterão o ciclo virtuoso girando em direção à confiança e à prosperida-
de, precisamos interagir muito, não apenas com pessoas que se pareçam
conosco e pensem como nós. Minha pesquisa mostrou que um caminho
para atingir isso é a liberdade de associação e uma mídia livre.
Em relação a isso, aqueles que desejarem promover o engajamento cí-
vico no Reino Unido têm a vantagem de as pessoas que dirigem o gover-
no, as grandes corporações e as grandes ONGs, bem como a maioria das
pessoas que comentam essas atividades na mídia, não poderem deixar de
se encontrar no “vilarejo” expandido (embora um vilarejo muito grande)
que é Londres. Isso quer dizer que é mais provável que os adversários se
conheçam do que se vejam frente a frente com maior frequência, talvez
até se encontrando com suas famílias numa tarde de domingo.
Este tipo de interação informal, cara a cara, que tende a humanizar as
pessoas é mais difícil de se obter numa nação com três milhões de pessoas
espalhadas por um vasto continente e com muitos centros culturais, polí-
ticos e econômicos diferentes. Desde a fundação da nação, os americanos
tentaram costurar esse imenso país com a última tecnologia à mão: canais
e embarcações fluviais, serviço postal feito com cavalos, telégrafo, ferro-
via transcontinental, telefone, viagens aéreas, rádio, televisão, o Sistema

192
V i d a lo n g a e f e l i z

Interestadual Rodoviário. Agora, a costura é virtual e cada vez mais glo-


bal. Quando eu estava na região montanhosa de Papua, Nova Guiné,
sem energia elétrica, sem abastecimento ou saneamento, ainda tinha um
sólido serviço de telefonia móvel prestado pela Digicel, uma companhia
jamaicana. O chefe da tribo também tinha um celular.
Quando surgiu a computação em rede, a radiodifusão como forma de
aderência cultural foi suplantada pela multidifusão, o que significava que
a comunicação não era mais dominada por uma fonte que transmitia para
todos, mas que as mensagens podiam ser conseguidas por qualquer um
e para todos.
Seguiu-se uma explosão de mídia social e, como vimos, até o “lanche
social” no Twitter ou a verificação da página do Facebook de um ente
querido podem criar o tipo de aumento de oxitocina que faz a confiança
crescer.
A nova mídia é uma força potente incrível que tem o potencial de pro-
mover a compreensão de toda a nossa sociedade e em todas as sociedades.
Contudo, precisa ser muito bem manejada, e, como com todas as coisas,
o critério para o sucesso é até onde o que acontece amplia de fato, ao
invés de restringir, o ciclo virtuoso. Será impulsionado pela oxitocina ou
pela testosterona? Será que a comunicação promove a conexão humana
ou o anonimato e a abstração a ponto de quebrar a empatia?
Fornecer os meios para que um bilhão de vozes sejam ouvidas – ao
menos em teoria – como parte de uma conversa eletrônica global 24 ho-
ras por dia, 7 dias por semana, parece uma ótima ideia, mas não leva à
Terra Prometida do ambiente de alta oxitocina e alta confiança.
Há um aspecto problemático nisso, cuja primeira parte pode ser cha-
mada de Problema da Torre de Babel, em que notícias e diversão são
fraturadas em centenas, milhares de segmentos afundando o mundo em
informações não filtradas e inconfiáveis. Depois, há o Silo de Autoabsor-
ção de Problemas, que permite aos indivíduos adaptar tudo o que ouvem
e veem, de modo que sua experiência on-line, a exemplo do que ocorre
com o rádio e a televisão, exclua qualquer coisa que de fato expanda sua

193
A molécula da moralidade

perspectiva ou desafie seus preconceitos e preferências. Se você seguir o


comentário de Keith Olbermann ou de Bill O´Reilly só porque gosta do
que ouve, estará reforçando o que acredita, mas não conseguirá entender
a história toda. Você pode interagir com centenas de pessoas do mundo
todo, a cada dia, com um grupo de bate-papo jihadista,* cristão ou sobre
o assassinato de Kennedy, sem jamais encontrar um pensamento que o
conecte com qualquer um fora desses grupos.
Durante a Grande Depressão, tínhamos apenas os jornais cinema-
tográficos e o rádio, mas talvez tenha havido um sentido mais forte na
partilha da realidade em comum nos Estados Unidos, quando todos –
famílias de lavradores no Alabama, imigrantes recentes no Bronx, mag-
natas do cinema em Malibu – se sentavam para ouvir o presidente em
sua “conversa no pé da lareira”. De modo semelhante, lembro de ter sido
atingido pela aderência social que vi no Brasil, onde passei vários meses
viajando durante a pós-graduação. Das menores cidades da Amazônia
à capital financeira, São Paulo, todos viam o mesmo jogo de futebol, as
notícias e a novela – e conversavam sobre isso no dia seguinte, o que pro-
porcionava uma experiência partilhada num país maior que os Estados
Unidos continental.
Hoje, a mídia personalizada permite que indivíduos criem, em grande
escala, sua própria realidade, a qual não necessariamente envolve uma
realidade maior que inclua seus concidadãos. Não envolve sequer a mes-
ma família, com seus membros plugados em mídias diferentes e em cô-
modos diferentes. E, claro, a cada dia, vemos o símbolo de nossa época:
três adolescentes saindo juntos, cada qual trocando torpedos com alguém
que não está presente.
Em 2010, a Fundação Kaiser Family relatou que os americanos entre
8 e 18 anos gastam, em média, sete horas e meia por dia fazendo uso
de algum tipo de aparelho eletrônico. No mesmo ano, o Pew Research
Center descobriu que metade dos adolescentes americanos enviava 50 ou

* Nota da Tradutora: Adeptos do Jihad, luta armada contra os infiéis e inimigos do Islã.

194
V i d a lo n g a e f e l i z

mais mensagens por dia, e que um terço mandava mais de 100. Mais da
metade relatou que enviava torpedos aos amigos uma vez por dia, mas
só um terço disse que conversava com os amigos pessoalmente todos os
dias.
A adolescência sempre foi um período de intensa atividade social,
mas, em termos de desenvolvimento, também é um período em que a
formação do cérebro humano ainda está em progresso. Já discutimos
como o sistema HOME está “sintonizado” por interações iniciais e como
as amizades ajudam as crianças a construir a confiança em pessoas que
não sejam da família, lançando as bases para relacionamentos adultos
saudáveis.
Facebook, Google +, blogar, tuitar e MSN tornam possível a crianças
menos dadas conviver e desenvolver certas habilidades sociais, o que é
maravilhoso. Muitos experts argumentam que os smartphones e os lap-
tops permitem aos pais passar mais tempo em casa, o que pode resultar
em mais qualidade no tempo que pai e filhos passam juntos.
Por outro lado, a comunicação eletrônica é o que os psicólogos cha-
mam de interação de filamento único, que significa que ela não tem o
matiz do toma lá dá cá, que advém de estímulos sociais, como expressões
faciais e linguagem corporal. Alguns neurocientistas temem que jovens
“nativos digitais” já tenham mais dificuldade para ler essas dicas sociais.
(Até na era da televisão, lembro-me de professores dizendo que, a partir
daquele momento, precisavam se dirigir a cada criança individualmente,
“Jenny, pegue o livro de ortografia. Johnny, pegue o livro de ortografia”,
se quisessem obter a atenção das crianças. Dirigindo-se à classe como um
todo, veriam olhares vazios, como se o professor na frente da classe fosse
apenas um ruído de fundo, como se fosse um espetáculo a que os pais
estivessem assistindo enquanto as crianças estivessem na sala de aula.)
Ainda não foi provado, mas também há a preocupação de que a falta ime-
diata de feedback, assim como o anonimato, pode, em alguns casos, diminuir
a empatia, o que pode explicar o tipo de cyberbullying, que já se tornou um
problema sério na cultura adolescente on-line. Em minha própria casa, a

195
A molécula da moralidade

regra de não eletrônicos aplica-se até mesmo se estivermos passeando de


carro. Fazer minha família conversar mais entre si funciona para nós.
Simplificando, enquanto a tecnologia cria novas oportunidades para a
conexão, às vezes proporciona novas oportunidades para a negligência.
Em seu livro Alone Together, Sherry Turkle, diretora do Massachu-
setts Institute of Technology Initiative on Technology and Self, explora
o efeito sobre as crianças da devoção dos pais por aparelhos eletrônicos
portáteis. Ela entrevistou centenas de crianças, muito coerentes ao des-
crever seus sentimentos de mágoa quando os pais davam mais atenção
aos aparelhos eletrônicos que a elas. Citaram, ainda, os três mesmos mo-
mentos em que os aparelhos eram especialmente intrusivos e dolorosos:
às refeições, quando os apanhavam na escola ou numa atividade extracur-
ricular e durante eventos esportivos. Turtle chega a descrever o apelo dos
pais: “Ah, só mais um, rapidinho, querido”, como se fosse um alcoólatra
pedindo mais um drinque.
Será que a constante exposição a esse tipo de distração dos pais afe-
tará o desenvolvimento dos receptores de oxitocina nas crianças de hoje?
O tempo dirá. Mas, de novo, precisamos lembrar que a qualidade do
tempo de qualidade pode ser medida melhor pela quantidade de oxito-
cina liberada. Uma criança – ou um adulto – sabe quando você está com
ela e quando está fisicamente presente, mas distraído. Resultado: os no-
vos meios de comunicação podem nos reunir em novas e enriquecedoras
conversas ou podem nos atirar em nossos próprios mundos particulares,
murmurando para nós mesmos, como os loucos das esquinas, vociferan-
do como verdadeiros crentes no rádio. Precisamos ter certeza de que es-
tamos perseguindo, de fato, a conexão autêntica.

2. EXPOSIÇÃO POSITIVA À DIVERSIDADE

A exposição positiva àqueles fora de nossa família, tribo geográfica ou


cultura é outro elemento necessário para conseguirmos uma sociedade
mais dirigida pela oxitocina, pró-social e próspera. Isso se torna ainda

196
V i d a lo n g a e f e l i z

mais urgente porque há sólidas razões evolucionárias pela quais nossa


espécie desenvolveu a tendência de sermos cautelosos com aparências fí-
sicas ou comportamentos de padrões diferentes dos nossos. Afinal, há
milhões de anos o mundo social de um indivíduo era limitado quase só
ao seu vilarejo e tribo, sendo os estranhos, com razão, considerados uma
ameaça até provassem o contrário.
A psicóloga de Harvard Mahzarin Banaji mostrou como essas pre-
ferências estão profundamente fixadas. Em seus estudos, bebês brancos
preferem rostos brancos a rostos negros desde o momento mais tenro
possível de medir. Também mostrou, entretanto, que os bebês brancos
expostos a rostos negros desde cedo perdem o preconceito. Na verdade,
bebês brancos expostos a rostos negros demonstrarão, se acostumados a
ouvir inglês, sentir-se mais confortáveis com um falante de inglês negro
do que com um falante branco, digamos, norueguês. Em outras palavras,
há uma base de autoproteção para ter cautela com a diferença, mas a sus-
peita é maleável e desaparece com a exposição.
Hoje, novas ondas de imigração acrescentam novos desafios a esses
preconceitos antigos, fazendo populações estabelecidas no mundo inteiro
se sentirem oprimidas pelos recém-chegados e pela velocidade da mu-
dança cultural.
Na Europa, ser aceito como parte da nação está muito mais relacio-
nado com a cultura e a etnia do que nos Estados Unidos. Na França ou
na Alemanha, não há a tradição do cadinho, nem Estátua da Liberda-
de ou Ellis Island no porto de Marselha ou Hamburgo para acolher as
massas. No entanto, as massas estão chegando, em imensas quantidades,
de ex-colônias e outras regiões em dificuldades políticas e econômicas.
Os franceses lutam para lidar com sua grande população árabe, enquan-
to os alemães lutam para assimilar os turcos que vieram como “traba-
lhadores convidados” e ficaram. Enquanto isso, poderosos movimentos
anti-imigração ganharam força em todos os lugares, até mesmo na liberal
Escandinávia.
Minha pesquisa evidencia que, no curto prazo, a imigração reduz a
confiança, mas esse aspecto negativo é mitigado à medida que os recém-

197
A molécula da moralidade

chegados são assimilados. O problema é que, quando os imigrantes rece-


bem tamanha hostilidade, ficam à parte, como aconteceu na Alemanha,
onde a terceira geração de “alemães” turcos são mais “turcamente” duros
que seus pais. As posições endurecem, e a hostilidade alimenta a hosti-
lidade, já que cada lado se sente ameaçado pelo outro. De novo, meus
estudos mostram que a diversidade aumenta a variedade de ideias e ma-
neiras de fazer coisas que estimulam a inovação. Além disso, a aceitação
cria aceitação. Há sete anos, os Estados Unidos aprisionavam os japo-
neses étnicos em campos de concentração, mesmo os cidadãos, mesmo
aqueles cujos filhos estavam servindo no Exército dos Estados Unidos
durante a Segunda Guerra Mundial! Agora, sobretudo na Costa Oeste,
ser descendente de japoneses é tão exótico quanto ser irlandês ou polonês
em Chicago, e japoneses americanos provaram ser valiosos cidadãos e
contribuintes para a economia.
Novamente, é o tamanho e a taxa de mudança demográfica que de-
terminam, em grande parte, como as pessoas reagem às diferenças. Para
atravessar essa linha divisória, precisamos da conexão “coração de crian-
ça” de baixo para cima, sem ideias negativas a respeito de diferenças ra-
ciais ou étnicas. E há esperança, mesmo no que parecem ser os casos
mais duros, pois as atitudes são, com frequência, mais complexas do que
pareciam inicialmente.
O Arizona obteve muita atenção por sua “dura” política controversa
para imigrantes ilegais. Porém, quando se trata de refugiados interna-
cionais, apenas três estados receberam mais imigrantes, per capita, nos
últimos seis anos que o Arizona. Per capita, o Arizona recebeu quase duas
vezes mais pessoas da Somália, Mianmar, Iraque, Bósnia e Sudão que a
Califórnia e duas vezes mais que Nova York, New Jersey e Connecticut.
É o escopo de cada tendência demográfica que conta o conto: o Arizona
recebeu, em 2009, 47 mil pessoas. Supõe-se que sua população de imi-
grantes ilegais esteja se aproximando de 400 mil.
Dada a dimensão dos números, não é surpreendente que os anglos
no Arizona temam que o trecho do deserto onde moram esteja sendo

198
V i d a lo n g a e f e l i z

reanexado pelo México, e que eles acabem se tornando os estranhos. Mas


a outra questão é seguir a regra, pois os arizonianos têm uma visão di-
minuída de qualquer um que vejam “saindo da linha”. Então, de novo,
o impulso da oxitocina por empatia – ajudar os refugiados – é anulado
pelo impulso da testosterona para punir os que burlam as regras e os
regulamentos.
Para chegar ao curso correto, os arizonianos precisam seguir a lideran-
ça de Antanas Mockus em direção a menos medo e mais fiestas.

Mesmo quando falamos de pessoas cujas famílias são cidadãos america-


nos há gerações, talvez séculos, parece que estamos num intenso período
de divisão regional, cultural e política em que um pouco de impulso de
oxitocina poderia ajudar. É um problema quando americanos viajados
das costas, pessoas que conhecem seu caminho na Toscana e na Pro-
vença, talvez até na Tailândia, jamais puseram o pé no território que fica
entre a Sierra Nevada e o Rio Hudson. Ou quando viajantes de negócios
sofisticados se referem a “cidades sobre as quais se voa”, expressando um
sentimento de desdém, mais que recíproco entre aqueles que se sentem
menosprezados pelos que voam lá em cima. Não é novidade que o res-
sentimento das “elites” tenha se tornado um assunto explosivo em certos
círculos políticos. O “povinho” das cidades pequenas e do interior devol-
veu o insulto com base em seus próprios sensos de injúria, lançando uma
batalha retórica e desagregadora sobre quem é ou não verdadeiramente
americano.
Da mesma forma, os tipos de crianças que participam de acampa-
mento de velejo ou viajam para fora durante os verões, e depois vão para
universidades de elite, expõe-se pouco ou nada a qualquer um que tenha
passado seus verões ensacando mantimentos no A&P, servindo depois
no Exército para pagar a faculdade. Muitas famílias de cidades pequenas
que fornecem um grande número de militares têm pouco ou nenhuma
exposição à cultura cosmopolita e aos valores das cidades grandes.

199
A molécula da moralidade

Por essas razões, ocorre-me que um aluno do programa de intercâm-


bio doméstico pode ser bom, permitindo que as criancinhas da escola
preparatória, de cidades pequenas e rurais, se conheçam e experimen-
tem as vidas uns dos outros. A necessidade para isso se torna ainda mais
aparente quando você pensa como seria difícil ter sucesso. O filho ou a
filha de um advogado de Paris com certeza teria menos problemas em
se ajustar ao Upper East Side de Manhattan que uma criança de uma
família de agricultores de fora de Manhattan, no Kansas. A barreira
linguística não é nada, mas a barreira cultural doméstica é imensa. Um
modelo para esse tipo de intercâmbio é o Seeds of Peace, acampamento
de verão no Maine, que congrega adolescentes israelenses e palestinos.
Em apenas algumas semanas, eles conseguem tecer laços entre esses
jovens, que contribuem para uma mudança positiva e podem durar uma
vida.
William Greider resumiu o jogo do estado demográfico há poucos
anos, com o título de seu livro O mundo na corda bamba. Mas há uma frase
ainda mais antiga que carrega o espírito da oxitocina, o espírito de que
precisamos: “Estamos todos no mesmo barco.”

3. IMPARCIALIDADE PROCESSUAL

Desde 1789, a aderência principal que tem mantido a sociedade america-


na unida tem sido a Constituição, algumas regras simples que podem ser
adaptadas à evolução das circunstâncias, mas que, de modo mais impor-
tante, garantem a imparcialidade processual, a integridade institucional
e a transparência. É só pelo comum acordo de manter esses valores que
conseguimos criar e manter o tipo de confiança que possibilitou uma
nação tão heterogênea a prosperar. A Constituição incentiva a confiança
provendo igualdade perante a lei, um judiciário imparcial, liberdade de
imprensa e de reunião e uma luz para a regulação econômica moderada
que permite que o bolo econômico global se expanda. Segundo a tradição,

200
V i d a lo n g a e f e l i z

tudo isso se reúne para prover condições sine qua non para o sucesso de
uma sociedade baseada em mercado – uma tradição de mobilidade ascen-
dente baseada no mérito.
Mas fazer discursos nos felicitando pelo Sonho Americano não man-
terá a fluidez da oxitocina, nem o ciclo virtuoso girando em benefício de
todos. Nos últimos 40 anos, os Estados Unidos se tornaram duas socie-
dades distintas, com base na renda. Essa é a fórmula para uma república
de bananas, com um portão guardado pelas comunidades e as forças de
segurança privada, mais do que uma fórmula para uma sociedade em que
a confiança intensifica a prosperidade.
A diferença de renda nos Estados Unidos é exemplificada pelo dife-
rencial entre a remuneração média de um CEO e a remuneração média
de um trabalhador. Há 40 anos, era de 11 para 1. Agora é de 400 para
1. De acordo com o Bureau of Labor Statistics (Departamento de Es-
tatísticas do Trabalho), em 2010 os salários médios dos CEOs saltaram
27%, enquanto a remuneração global aumentou apenas 2,1%. Os Es-
tados Unidos agora são um lugar em que o 1% mais rico da população
controla 38% dos ativos privados do país.
Sempre houve equilíbrio entre a necessidade de prover oportunidades
e crescimento e a proporção de desigualdade que podemos tolerar. Minha
pesquisa entre países revela que prover um apoio de renda de curto prazo
(rede de segurança) aos mais pobres na sociedade aumenta a confiança e
beneficia a todos. Isso também reduz o crime. Mas apoio em demasia po-
deria nos levar de volta à geração acorrentada após a geração dependente
da previdência social. A abordagem empática é “eu acredito”, não só para
ajudar aqueles afetados aguda e adversamente pela economia, mas tam-
bém para lhes dar um meio de sair da miséria, o que não significa apenas
um emprego que lhes pague um salário-mínimo para pôr batatas fritas
num saco. O trabalho pode requerer treinamento em higiene adequada,
bem como em noções de como ser pontuais ou aparecer na segunda-feira,
embora tenham sido pagos na sexta. Para alguns, pode significar aconse-
lhamento psicológico ou medicamentos apropriados.

201
A molécula da moralidade

Isso não sai barato, e há, provavelmente, tantas ideias diferentes para
se atingir o equilíbrio correto quanto sábios economistas e políticos, mas
uma abordagem para manter a confiança viva, ao manter a oportunidade
viva, destaca-se como inatacável: o foco na quarta coordenada de nosso
mapa – a realização educacional.

4. EDUCAÇÃO

Minha pesquisa mostra que melhorar a qualidade da educação é uma for-


ma gratuita de aumentar a prosperidade. É gratuita porque reforça tanto
as outras coisas de que necessitamos para manter o ciclo virtuoso em mo-
vimento que, em última análise, o aumento dos benefícios econômicos
supera muito o custo do investimento. A educação traz mais pessoas para
a zona de conforto da renda maior, o que intensifica a confiança, o que,
por sua vez, diminui ainda mais a desigualdade, aumentando o número
daqueles que terão uma boa educação.
A promessa de fazer as escolas públicas funcionarem melhor é uma das
políticas americanas mais resistentes e perenes. Mas os dados mostram
que o fator determinante mais significativo para as crianças atingirem
seu potencial educacional é de baixo para cima – ou seja, se elas têm ou
não estabilidade e amor em casa. Também é verdade que pais realmente
motivados a investir nos filhos exigem melhores escolas.
Recentemente, as reformas educacionais levaram o ciclo virtuoso a sé-
rio ao tentar inculcar emoções positivas, como a empatia. Os educadores
estão inclusive experimentando softwares que ajudam a reduzir o estresse
e facilitam a conexão interpessoal. Mas quando se trata de intensificar a
empatia, há uma tradição que remonta há alguns milhares de anos e que
tem tido bastante sucesso em humanizar as pessoas. Chama-se exposição
de alta qualidade às humanidades – literatura, idiomas, filosofia, história,
música e arte – tudo (agora escarnecido como “inútil”) que já foi a moeda
comum de qualquer pessoa educada. Ao mesmo tempo que o estudo

202
V i d a lo n g a e f e l i z

das humanidades é sempre atacado por não ser prático, precisamos nos
lembrar de que o sistema de oxitocina é afinado e aprimorado a cada
vez que entramos na cabeça de outra pessoa, lendo um bom romance ou
ouvindo uma sonata, ou quando desenvolvemos a compreensão de outra
cultura ou outra época histórica. Assim, enquanto precisamos prover as
pessoas de habilidades técnicas que as ajudem a encontrar um emprego,
não podemos nos dar ao luxo de negligenciar as habilidades ainda mais
básicas – ler, escrever, pensar, sentir –, que lhes permitirão realizar-se
completamente como seres humanos que se preocupam com o mundo no
qual vivem e com as pessoas com as quais o compartilham.
Em 2011, surgiu um relatório que argumentava que manter a oportu-
nidade e, por conseguinte, a confiança vivas neste país não é apenas uma
ideia virtuosa para pessoas bem-intencionadas – tornou-se uma necessi-
dade estratégica. Essa análise não partiu de algum coração mole, ou de
um grupo de pensadores acadêmicos; veio de um coronel dos Fuzileiros
Navais e de um capitão da Marinha, ambos funcionários da assessoria
do Almirante Mike Mullen, presidente dos Joint Chiefs of Staff.* Os
Estados Unidos, disseram, não podem mais manter o mundo motivado,
sobretudo por meio da força militar, e a única maneira de manter nossa
posição dominante no mundo, continuaram, é por intermédio da força
do nosso sistema educacional e nossas políticas sociais. De acordo com
esses estrategistas militares, nossa primeira prioridade deve ser o “capital
intelectual e uma infraestrutura sustentável de educação, saúde e serviços
sociais para prover o crescimento contínuo da juventude americana”. En-
quanto isso, o Departamento de Defesa começou a pôr seu dinheiro onde
está a análise, no financiamento de pesquisa em neurociência do capital
moral e social, e estou orgulhoso que meu laboratório tenha sido um dos
escolhidos para ter apoio.

* Nota da Tradutora: Corpo consultivo militar mais importante de apoio ao presidente dos
Estados Unidos.

203
A molécula da moralidade

O lugar mais feliz na Terra

Um país em especial está muito à frente de nós, implementando o tipo


de visão estratégica recomendada aos Joint Chiefs of Staff, e não é a
China ou a Índia – os concorrentes com os quais normalmente nos preo-
cupamos. É a Costa Rica. De modo geral, não pensamos nessa nação
da América Central como um país que tenha algo a nos ensinar, mas
quando se considera o que conseguiram, os resultados são bem impres-
sionantes. Há 60 anos, eles tomaram a decisão de abolir seu exército
e concentrar recursos em educação. Desde então, desfrutam de uma
sociedade mais estável que a de qualquer dos vizinhos, viram sua eco-
nomia florescer e a expectativa de vida avançar à altura da dos Estados
Unidos.
Também é verdade que, com base nas pesquisas Gallup e num banco
de dados compilado por sociólogos suecos, a Costa Rica – não a Dis-
neylândia – é o “lugar mais feliz da Terra”. Comparada a outras 148
nações pesquisadas quanto à sensação de bem-estar, a Costa Rica foi a
número 1. Numa escala de 10 pontos, os costa-riquenhos se classificam
em média em 8,5. A Dinamarca veio em segundo, com 8,3. Os Estados
Unidos foram classificados em 20o, com 7,4. A Tanzânia ficou em últi-
mo, com 2,6.
Há alguns anos, quando vi as primeiras medidas de confiança pelos
países, investiguei 85 variáveis que achei que podiam estar associadas à
liberação da oxitocina, à testosterona e ao estresse de nível social. A cor-
relação mais forte que encontrei entre todas as variáveis foi a associação
entre felicidade e confiança. Essa estreita correlação se manteve indepen-
dentemente do nível de renda de um país. Ricos ou pobres, viver numa
sociedade de confiança torna as pessoas mais felizes.
Interessante, mas como uma grande nação, os Estados Unidos de-
veriam se preocupar com felicidade? Curiosamente, os pais fundadores
– dificilmente, os tolos da Nova Era – listaram a “busca pela felicidade”
na Declaração de Independência, junto com “vida” e “liberdade”, como

204
V i d a lo n g a e f e l i z

um dos direitos mais inalienáveis do homem. E há mais em relação à


felicidade do que podemos ver.
Oradores de formatura fazem, às vezes, distinção entre felicidade e sa-
tisfação, sugerindo que o primeiro é apenas um estado de espírito otimis-
ta, ou a realização temporária de um desejo, enquanto a outra se refere a
prazeres de longo prazo, mais profundas e significativas. Você está “feliz”
quando acha um lugar para estacionar. Você sente “satisfação” quando
trabalhou muito, economizou e possibilitou a seus filhos uma vida adulta
bem-sucedida.
Como de hábito, os gregos tinham uma palavra que provavelmente
descreve melhor o que procuramos. A palavra é eudaimonia, que significa
“florescer”, e deixa claro que as coisas boas que procuramos – que, com
frequência, atende pelo nome de felicidade – não são apenas transitórias
ou a satisfação superficial de um desejo, mas um estado geral de bem-
estar, uma condição que afeta toda a nossa fisiologia, incluindo melhorias
no sistema imunológico, que podem levar a uma vida mais longa, mais
saudável e à total prosperidade. A eudaimonia é “boa vida”, como definido
não por Donald Trump, mas pelos filósofos que estabeleceram os pilares
da cultura ocidental.
No Gordon Gekko de 1980, havia um adesivo popular que dizia que
“quem morre com mais brinquedos ganha”. Duvido que alguém acredite
nisso, mas, infelizmente, muitas pessoas ainda vivem como se acreditas-
sem, apesar do fato de, como nos dizem os dados da pesquisa, as atividades
diárias mais associadas à felicidade serem bastante simples. Eudaimonia
não advém de possuir uma cortina de banho de $6 mil ou de beber uma
garrafa de vinho de $400. O que as pessoas classificam como de maior
valor é ter um bom relacionamento amoroso e muitas amizades, um tra-
balho de que gostem, desfrutar a comunidade em que vivem e ter um
nível de renda bom o suficiente para reduzir o estresse de estar apenas
sobrevivendo.
Martin Seligman, pesquisador pioneiro da felicidade humana, diz que
a eudaimonia consiste em cinco tópicos: emoções positivas, engajamento,

205
A molécula da moralidade

relacionamentos, significado e realizações, o que remonta às formulações


ainda mais simples de Freud para o que as pessoas precisam: amor e
trabalho.
Outro pesquisador de vanguarda sobre o tema “felicidade”, Arthur C.
Brooks, enfatiza o que chama de “sucesso conquistado”, o que, de novo,
sugere uma proposição de longo prazo, mas que ainda não tem relação
com ganhar dinheiro e esfregá-lo na cara de outras pessoas. O sucesso
sobre o qual ele está falando pode ser a construção de uma companhia ou
a qualificação como cirurgião de tórax. Mas também poderia ser plantar
lindos tomates no quintal ou aprender a tocar banjo.
Aristóteles, outro sujeito nem um pouco alienado, baseou todo o seu
sistema de ética na eudaimonia, dizendo que a razão para se lutar por
virtude é que ser virtuoso nos torna felizes.
Em 2010, resolvi testar a ideia de Aristóteles, fazendo outra variação
do Jogo da Confiança. Nesse estudo, com 60 mulheres em idade univer-
sitária, as participantes eram todas jogadoras B e, sem seu conhecimento,
cada qual recebeu a mesma quantia – $24 – transferida de um jogador A
que estava no jogo. Configuramos assim porque, dessa vez, não quería-
mos determinar a dimensão da reação em relação à proporção do estímu-
lo, mas fornecer um estímulo consistente. Assim, poderíamos descobrir
como as mulheres que liberam muita oxitocina diferem das que liberam
pouco ou nada.
Antes de começar, fizemos todos os jogadores passarem por uma sé-
rie de pesquisas e testes que indicariam como se sentiam sobre sua vida.
Conseguimos relacionar os resultados do Jogo da Confiança – seu au-
mento de oxitocina e a consequente generosidade em relação ao estranho
que confiava nelas – com suas respostas, seus indicadores de bem-estar
ou eudaimonia. Descobrimos que as que tiveram o maior aumento de
oxitocina não foram só as que devolveram mais dinheiro, mas também
as que haviam relatado maior satisfação com a vida, maior resistência
a eventos adversos e pontos mais baixos para sintomas depressivos. As
que devolveram mais dinheiro – as mais generosas, talvez até as mais

206
V i d a lo n g a e f e l i z

virtuosas – deixaram o laboratório com o mínimo de moedas no bol-


so, mas eram, de longe, as mais felizes. E o mais importante para es-
sas adeptas da oxitocina era a conexão. Elas tinham relacionamentos de
mais qualidade (o que resultava em mais sexo, com um número menor de
parceiros), tinham mais amigos, mais relacionamentos familiares e eram
generosas com estranhos.
Portanto, a oxitocina não só é ligada aos mecanismos cerebrais que
nos tornam pró-sociais e morais, mas também aos mecanismos que nos
fazem felizes, pela ativação dos elementos no circuito HOME, ou seja, a
dopamina e a serotonina. Relacionamentos satisfatórios nos fazem felizes
e, como psicólogos e epidemiologistas têm demonstrado ao longo dos
anos, a felicidade nos torna mais saudáveis. A oxitocina reduz o estresse
cardiovascular e melhora o sistema imunológico, um truque para uma pe-
quena e antiga molécula que nos faz viver mais felizes e por mais tempo.
Loma Linda, Califórnia, onde moro, é a única região chamada de
zona sul nos Estados Unidos – um lugar no qual as pessoas normalmen-
te vivem por mais de 100 anos. Quando fizemos um estudo com esses
“longevos”, fazendo-os assistir ao vídeo “A história de Ben” e coletando,
depois, seu sangue, seus níveis de oxitocina foram aos céus. Essas pessoas
mais velhas – e mais saudáveis – dos Estados Unidos também são algu-
mas das pessoas mais amáveis que você poderia conhecer. Assim como
no caso das mulheres em idade universitária, nesse grupo, aqueles que
liberaram mais oxitocina depois do vídeo também foram os que relataram
maior satisfação com a vida, eram muito gratos pelo que tinham, mos-
travam mais preocupação empática pelos outros e apresentavam menos
sintomas depressivos. Descobrimos que a maior parte deles havia passado
a vida trabalhando com atividades que ajudavam outras pessoas, como
ensino e prática de enfermagem. Curiosamente, mesmo nessa comuni-
dade bastante religiosa de Adventistas do Sétimo Dia, quem mais liberou
oxitocina foram os menos religiosos. Era como se sua conexão com os
outros fosse tão intensa que satisfazia o desejo que muitas vezes os faz
tentar conectar-se com Deus.

207
A molécula da moralidade

Conclusão: sua boa saúde e alegria de viver por tanto tempo e feliz
devem ser toda a confirmação de que você realmente necessita para se
deixar guiar pela Molécula da Moralidade.
Enquanto escrevia este livro, perguntei a meu amigo e colega Earl
Quijada se poderia acompanhá-lo em suas rondas no asilo. Eu queria
ver se uma vida plena resultava numa morte melhor. O que vi nesses
encontros foram histórias assustadoras. Earl atende em casa e coordena
uma equipe de enfermeiros, assistentes sociais e capelães para fornecer
um tratamento de fim de vida que tenta cuidar da pessoa em geral. In-
felizmente, algumas pessoas se mantiveram pouco desenvolvidas nas si-
tuações que lhes permitiam conectar-se e vivenciar alegria. Seus últimos
dias não são bonitos.
“Hank” era um desses. Ele tinha 72 anos e estava no estágio final da
doença de Parkinson. Com doutorado e mestrado, havia trabalhado por
40 anos como médico, primeiro como interno. Mas suas habilidades com
pessoas eram tão escassas que sentar numa bancada de laboratório com
um microscópio lhe convinha muito mais do que trabalhar com pacien-
tes. Assim, tornou-se patologista. Quando o visitei, pouco antes de mor-
rer, ele estendeu as mãos cerradas, como se estivesse iniciando sua volta
à posição fetal; pesava cerca de 43 quilos. Nunca havido confiado nos
outros, principalmente em outros médicos, de maneira que foi seu pró-
prio médico até ficar acamado. A essa altura, foram trazidas auxiliares de
enfermagem para ajudar, mas seus ataques físicos e emocionais as enxo-
tavam. Quando o vi, estava pagando a uma vizinha e ao filho dela de 20
anos para mantê-lo limpo e trazer-lhe o que precisava para sobreviver.
O interior de sua casa explicava como chegara a um fim tão triste.
Nunca casara nem tivera filhos. Não havia fotos de ninguém, em lugar
algum. Nem um único sinal de uma única conexão humana. Morreu no
dia seguinte ao qual o visitei.
Outro paciente que visitei, “José”, estava no estágio final de insuficiência
cardíaca e me disse, com uma piscadela, que continuava surpreendendo
a Earl por viver tanto. Estava acamado e enfraquecido, mas a mente se

208
V i d a lo n g a e f e l i z

mantinha aguçada e com um grande senso de humor. Sua esposa havia


plantado um jardim de rosas do lado de fora da janela para lhe dar alegria,
embora ele não pudesse mais fazer jardinagem. Ele o mostrou com orgu-
lho. Seu quarto estava cheio de fotografias dos filhos e netos. Enquanto
estávamos lá, sua filha passou por lá para vê-lo, e José nos contou que seu
filho o visitava todas as noites. José não era religioso, mas me disse com
franqueza que estava tranquilo em relação à morte e que tinha vivido
e amado bastante. Seu único arrependimento? Estava fraco demais nos
últimos meses para ir ao parque ver os netos brincarem.

À procura do eu

Nos séculos XIX e XX, a economia tentou alcançar o rigor científico


cortando o reconhecimento do elemento humano de motivações, expec-
tativas e incertezas psicológicas. Felizmente, a economia comportamen-
tal e agora a neuroeconomia nos colocaram de volta no que considero o
caminho certo, que tanto combina rigor quanto perspectiva moral.
Alfred Marshall, importante arquiteto da economia realista e quanti-
tativa, encorajou seus colegas a “aumentar o número daqueles [no] mun-
do com cabeças frias, mas corações cálidos, dispostos a dar pelo menos
algumas de suas melhores competências para lutar contra as necessidades
sociais”.
Tenho muita sorte por haver encontrado um meio de estudar o ser
humano em toda a sua glória.
Há um ditado que diz “toda pesquisa é uma pesquisa do eu” e pode ser
que a deficiência de empatia no ambiente em que passei tantos anos estu-
dando economia tenha feito eu me envolver com a oxitocina, a conexão
e a moralidade. Estou, agora, definitivamente, compensando o tempo
perdido.
Abraço a todos. Há alguns anos, comecei avisando a qualquer um que
visitasse meu laboratório que, antes de saírem, eu lhes daria um abraço.

209
A molécula da moralidade

Embora isso assuste algumas pessoas – especialmente aos economistas –, vi


que esse anúncio ligeiramente excêntrico altera a profundidade da con-
versa, tornando-a mais íntima, mais envolvente e mais valiosa para am-
bos. As pessoas começam a se abrir. Suspeito que, ao prever um abraço,
também estou sinalizando o quanto confio na pessoa, portanto estou in-
duzindo a liberação da oxitocina em seu cérebro.
Minha propensão para abraçar a todos levou a revista Fast Company a
me sagrar o “Dr. Amor”, depois que abracei seu escritor, Adam Penen-
berg. Assim, deixe o Dr. Amor lhe dar uma receita: oito abraços por dia.
Demonstramos que, se você der oito abraços por dia, ficará mais feliz, e o
mundo será um lugar melhor porque você estará provocando a liberação
de oxitocina do cérebro dos outros. Por sua vez, eles farão melhores cone-
xões com os outros, tratando-os com mais generosidade, causando-lhes
a liberação da oxitocina... sim, o ciclo virtuoso começa com um abraço.
Outra coisa que faço quando alguém vem me ver é perguntar: o que
posso fazer para que sua visita seja valiosa e gratificante? Isso faz parte
de estar plenamente presente e disponível, outra lição que aprendi com a
Molécula da Moralidade.
Tento seguir essa sabedoria em minha própria vida diária e acho que
isso ajudou a me tornar melhor professor, líder de equipe, marido e pai.
Com certeza, tornou-me uma pessoa muito mais feliz. Boa parte das
mudanças que fiz são pequenas – como comprar um cachorro para meus
filhos e passar muito mais tempo brincando com eles.
Não posso jurar que essa mudança tenha regulado meus receptores
de oxitocina, mas sei que, como ex-jóquei, com 1,93 metro, ciclista de
mentira e nerd de matemática recuperado, não há nada de que goste mais
do que me jogar no sofá com minha mulher e duas filhas e pegar todas
aquelas histórias chorosas sobre menininhas e coelhos falantes – algo que
jamais teria imaginado quando jogava futebol ou mexia em carros duran-
te minha adolescência.
A devoção religiosa do “tu o farás”, que minha mãe tentou incul-
car em mim, há muito se dissipou, mas, ironicamente, algo no âmago

210
V i d a lo n g a e f e l i z

permaneceu. A oxitocina – um hormônio reprodutivo – nos torna mo-


rais, portanto, em última análise, poderia dizer que somos morais em
razão de nossas origens como criaturas sexuais. O que nos remete àquela
ideia muito cristã de que Deus é amor, ou talvez o amor seja Deus. Mas
como vimos, eros – sexo – é apenas um tipo de amor, e a oxitocina abran-
ge todas as bases. A oxitocina nos faz sentir amor ao próximo, conhecido
como philia, o amor familiar conhecido como storge, e ágape – o amor ao
divino que procuramos por intermédio da autotranscendência, que pode
ser liberada durante a dança, a meditação e a magia.
A fé de minha mãe também dizia que “o reino de Deus está dentro
de você”, que, em sua origem, é um tipo de ideia muito de baixo para
cima. Deus é amor. Deus está dentro de você. A oxitocina é amor. A
oxitocina está dentro de você. Na verdade, então, os antigos sábios esta-
vam “por dentro”. A conexão humana empática, regulada pela oxitocina,
é a chave para a confiança, o amor e a prosperidade. É a bondade que
procuramos.

211
Página deixada intencionalmente em branco
Notas

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220
Índice

A marcha dos pinguins (2005), 167 Alone Together (Turkle), 195


A riqueza das nações (Smith), 21 altruísmo
a visão do autor sobre religião, 210 e empatia, 60
abraços, 47-49 e estresse, 107-108
abstração, 97-98, 190 e o circuito HOME, 66
abuso, 110-113, 114, 124 e o Jogo da Confiança, 7-10, 45
Academy of St. Martin in the e seleção consanguínea, 160
Fields, 133 e simpatia mútua, 17-18
acesso à internet, 172-173 estudos evolutivos sobre, xviii
acidente vascular cerebral, 108 alucinações, 136
ACTH (hormônio do estresse), amamentação, 40-42, 60, 68
140 ameaças, 6. Ver também O Jogo do
Adams, Henry, 168 Ultimato
Adventistas do Sétimo Dia, 208 amígdala, 38, 59, 66, 104, 120,
agape, 143, 210 122
agressão, 81, 85, 90 Amma (a santa do abraço), 48
Alemanha, 197-198 amnésia social, 59

221
A molécula da moralidade

AndroGel, 82-83, 95 Cacioppo, John, 141-142


andropausa, 100 Cameron, David, 190-90
angústia, 54-56 capital intelectual, 203
animismo, 150 capital social, 172, 173, 186, 204
ansiedade, 66, 114-120, 122-123 capitalismo, 21, 166, 168-169
antidepressivos, 119 capitalismo consciente, 179
Aristóteles, 164, 206 carbetocina, 118
Arizona, 198-199 Carter, Sue, 35, 36
arte, 57, 135, 142 Casebeer, William, 124-125
asilo, 208 Castagnier, Stephanie, 113
autismo, 69, 106, 114-120 catarse, 142
Autrey, Wesley (O Herói do Ceauşescu, Nicolae, 112
Metrô), 56-57, 66 chimpanzés, 69, 70, 72, 80, 85
ayahuasca, 136 ciclo de prosperidade da oxitocina,
159
ciclos virtuosos
Baca, Lee, 188 e acesso à internet, 172-173
Barraza, Jorge, 54 e divisões de classes, 201
Bastiat, Frédéric, 161 e economia, 159, 167, 182
bebês. Ver crianças e bebês e educação, 202
Berlusconi, Silvio, 78 e o circuito HOME, 65
Bernini, Gian Lorenzo, 142 e o jogo dos bens públicos, 88-89
Blanchard, Ken, 179-181 e serviço, 178
Bly, Robert, 100 e testosterona, 84
Bogotá, Colômbia, 185-186 e vínculos sociais, 70, 71, 75
bonobos, 72 cidadania, 190-191
Bosch, Hieronymus, 6 circuito HOME (empatia humana
Bowling Alone (Putnam), 190 mediada pela oxitocina). Ver
Boyd, Rob, 162 também empatia
Brooks, Arthur C., 206 descrito, 63-69, 65
Buda, 152 e ansiedade social, 119
Buffett, Warren, 179 e autismo, 114, 117
bulbo olfativo, 38 e conexões sociais, 71, 173
Burning Man Festival, 164, 167 e dilemas morais, 65, 126
Bush, George W., 48 e ekstasis, 145

222
Índice

e estresse, 63, 64, 106-108 do vilarejo Malke, Papua, Nova


e felicidade, 207 Guiné, 153-155
e meditação, 136 e animais sociais, 25, 35-38, 50,
e solidão, 108 160
e trauma, 113 e aprendizado, 68-69
Clinton, Bill, 78, 81 e colaboração, xviii
Clinton, Hillary, 189 e conexões sociais, 172-174
cocaína, 37 e confiança, 27, 71, 173, 204
cocognição, 74, 116 e conversa, 72
Código de Hamurabi, 151 e desenvolvimento emocional,
Collins, Jim, 179 111
Colômbia, 185-186 e diferenças entre grupos interno
comerciantes Maghribi, 174-175 e externo, 97-101, 146-148
comércio, 160. Ver também e envolvimento, 62
mercados morais e estereótipos de gênero, 90
Commerce Bank, 178 e evolução humana, 80
compaixão, 62-63, 151-152 e fisiologia do cérebro, 38
compaixão – generosidade (metta), e nutrição de filhotes, 68-69
62 e o circuito HOME, 66-67,
comportamento altruísta, 17-18. 68-69
Ver também altruísmo; heroísmo e pegando carona, 84
comportamento colaborativo em e reprodução, 36
animais, 166-168 e status, 94, 109
benefícios de sobrevivência de, e subtextos sociais, 95, 195
xviii e traquejo social, 46
e evolução, xviii-xviii e vínculo, 49, 50
e nutrição de filhotes, 34 comportamentos de acasalamento,
e pegar carona na punição, 84-90 29-35, 50. Ver também sexo e
e políticas da comunidade, 188 reprodução sexual
e redes sociais, 69-75 comportamentos de tratamento, 71
e simpatia mútua, 20 comunicação, 192-196
e testosterona, 90, 93 comunicação não verbal, 54
comportamento divertido, 32, 38 conceito de sentir, 59
comportamento social. Ver também condição mental, 64
comportamento colaborativo confiança

223
A molécula da moralidade

barômetro de, 175-177, 176 córtex pré-frontal, 63, 100


e comércio, 174-177 córtex subgenual, 38, 67
e comportamento social, 27, 71, cortisol, 56, 77-78, 107, 108
173, 204 Costa Rica, 204
e conversa, 72 crianças. Ver crianças e bebês
e escaneamentos, 3-7 crianças e bebês
e esportes e jogos, 73 crianças órfãs, 112
e evolução, 25 cuidado infantil, 68
e gênero, 92 e abordagem feminina ao risco,
e integração de mercado, 163 90
e o circuito HOME, 65, 67 e angústia, 53-54
e pistis, 145 e ansiedade social, 120
e política da comunidade, e imitação, 73-74
187-188 e nutrição de filhotes, 34, 36-36,
e preferências políticas, 189 68-69, 101
e prosperidade/pobreza, 191 e o circuito HOME, 68
e qualidade de fim de vida, e redes sociais, 70
208-209 nascimento, xii, 23
e religião, 150-151, 152 taxas de mortalidade infantil,
e reprodução sexual, 30 168-169
e tolerância, 169-172 trauma e abuso, 110-113, 114,
e toque, 47 124
e trauma, 112 crianças órfãs, 112
excesso de, 120-123 crime, 79, 123-124
impacto econômico de, xx, 23 Cristianismo, 142-143, 152, 163
mensageiros químicos, xx Cristianismo evangélico, 146-148
o papel da oxitocina em, xiv, xix, cultas indígenas americanas, 92
15-16, 25 cultura grega
Confucionismo, 62, 132, 164 e andreia, 100
Congresso, 177 e combate, 97
consciência coletiva, 75 e ekstasis, 135, 137-138, 142
Constituição, 200-201 e eudaimonia, 205
contato visual, 95 e mercados, 164
contra dancing, 138, 145 e participação cívica, 191
corrupção, 94, 179 e pistis, 145

224
Índice

e religião, 151-152 Departamento de Defesa


mito do nascimento virginal, 144 Americano, 203-204
cultura Machiguenga, 162 Dez Mandamentos, 149, 151
cultura persa, 97, 144 di-hidrotestosterona (DHT), 85,
cultura romana, 151-152 90, 110, 114
cultura Shona, 162-163 diferenças entre os grupos interno e
culturas tradicionais, 86 externo, 97-101, 146-148
Dionísio, 142, 152
discurso político, 110, 189-190
Dalai Lama, 135, 152 distúrbio de ansiedade social, 119
Dale, Sir Henry, 23 Distúrbio de Déficit de Oxitocina,
Damasio, Antonio, 120 105-106, 109, 114, 114, 127-129
dança, 137-138, 138-140 diversidade (cultural), 161, 196-199
Darwin, 145-146 diversidade cultural, 196-200
e a Regra de Ouro, xviii DNA, 30. Ver também genética
e competição sexual, 144 doença cardíaca, 107, 108
e comportamentos sociais, 19 doença de Urbach-Wiethe, 120
e construção de significado, 2001: uma odisseia no espaço (1968),
142-143 96-97
e identificação do grupo interno, dopamina
146-148 e di-hidrotestosterona, 85
e mercados, 163, 167 e empatia, 62
e moralidade, 5-6, 134, 141, e felicidade, 207
149-150, 172 e liberação de oxitocina, 38
e psicopatologia, 128-129 e nutrição de crianças, 58
e simpatia mútua, 18 e o circuito HOME, 67
sem ritual, 139-140 e punição, 86
ubiquidade de, 134 e redes sociais, 71
Darwin, Charles, 145-146 e ritual religioso, 145
Dawkins, Richard, 133, 153 grupos interno e externo
Daxer, Lisa, 116, 117 diferenças, 98-99
Decety, Jean, 60-61, 63 dor, 38, 60-61
Declaração da Independência, 205 Douglas, Michael, 165
democracia, 189 Drucker, Peter, 180
Dennett, Daniel, 133 Dubner, Stephen, 166

225
A molécula da moralidade

eBay, 181 e dopamina, 62


economia. Ver também mercados e estresse, 63, 64, 106-108
morais e teoria do capitalismo, e imitação, 74
21-23 e moralidade, 58
e ciclos virtuosos, 159, 167, 182 e neurônios-espelho, 61-63
e conexões sociais, 172-174 e o circuito HOME, 64-69
e elemento humano em e psicopatologia, 128
pesquisas, 209 e redes sociais, 71
e insegurança, 110 e reformas educacionais, 202-203
e matemática, 17 e testosterona, 82-84, 90, 93
e moralidade, 166 e trauma, 110
e o ciclo de prosperidade da o papel da oxitocina em, xix, 65
oxitocina, 159 engajamento cívico, 38, 192-193
e o interesse pessoal racional, 9 epilepsia lobo temporal, 137
e o Jogo da Confiança, 10-16 epilepsia, 103, 137
elementos do sucesso econômico, epinefrina, 106-107
172-182 Equilíbrio de Nash, 9, 14
Homo economicus, 22 ergotamina, 136
influência da confiança, xx, 23 Eros, 142, 143, 143, 210
economia comportamental, xviii, Escandinávia, 197-198
209 escaneamento, 3-7, 157-158, 164
ecstasy (MDMA), 122-123, 136 esportes, 72-74, 93, 194
educação, 202-204 esquema Ponzi, 164
Einstein, Albert, 115 esquizofrenia, 137
ekstasis, 135, 135-137, 142-144, esteroides anabolizantes, 79
145-149 esteroides, 79
empatia. Ver também circuito estradiol, 15
HOME estresse
a natureza física de, 59 crônico, 106, 107
descrito, 59-60 e empatia, 63, 64, 106-108
e abstração, 97-98 e hormônios, 36, 140
e angústia, 54-56 e o circuito HOME, 64, 106
e autismo, 114, 117 e sexo, 38
e di-hidrotestosterona, 114 e tipos de personalidade, 109
e diversidade cultural, 199 efeitos da oxitocina, 42

226
Índice

em nível social, 204 física teórica, 9


impacto na liberação da fisiologia do cérebro
oxitocina, 106, 192 e andropausa, 100
receptores de estresse, 58 e autismo, 114
estrogênio, 36 e comunicação eletrônica,
étnico, 197 194-195
eudaimonia, 205-207 e emoções, 57, 65
eugenia, 127 e empatia, 63
evolução e função executiva, 63, 135-136
e colaboração social, xviii-xix e meditação, 135-136
e comportamentos de punição, e o circuito HOME, 65
86 e síndrome de Williams, 122
e diversidade cultural, 196-197 e trauma de infância, 104
e interesse pessoal versus Fitch, Bill, 146
altruísmo, xviii Fitzgerald, F. Scott, 126
e o impulso de ajudar, 56-57 Food and Drug Administration
e o papel da oxitocina, 25 (FDA), 42, 44, 45, 82, 157
e redes sociais, 71 França, 169, 197-198
e reprodução sexual, xx, 27, Frank, Robert, 127
29-35, 38, 80-81 Franklin, Benjamin, 18
e seleção natural, 31-32, 38 Freakonomics (Levitt e Dubner), 166
Experimento de Prisão de Stanford, Frei, Frances, 178
98 Freud, Sigmund, 60, 206
experimentos com animais, 39, 61, Friedman, Meyer, 108
63, 111, 122 função executiva do cérebro, 63,
135-136
Fundação John Templeton, 45
Fadiga, Luciano, 61-62 Furacão Katrina, 179
Fast Company, 173, 210
favelas, 187
feedback, xiv, 65, 173, 195. Ver galanteio, 31, 34
também ciclos virtuosos ganância, 5, 113, 163-166, 168
Fehr, Ernst, 44 Gardner, Wendi, 173
fertilidade, 22, 92, 142-143 Gates, Bill, 115
Fisher, Helen, 23 Geddes, Linda, xi-xii, xiv-xviii, 44

227
A molécula da moralidade

gênero, 26, 49, 86, 90-92, 96, 100 Heinrichs, Markus, 41, 44
generosidade Helmsley, Leona, 96
e comércio, 161-163 Henrich, Joseph, 162
e cultura de Papua Nova Guiné, heroísmo, 56-57, 66
154 Hill, Kim R., 160
e eudaimonia, 206-207 Hinduísmo, 143-144
e galanteio humano, 34 hipotálamo, 38, 114, 122
e religião, 150-151, 153 Hobbes, Thomas, 18, 20
e sociedades de pequena escala, Holanda, 169
150 hominídeos, 69-69, 150
e testosterona, 83 Homo economicus, 22
medição, xiii-xiv Homo sapiens, 34, 80
genética, 64, 80-81, 120, 122 humanidades, 203
genocídio, 99 humanismo (ren), 21, 62
Getz, Lowell, 35
Gintis, Herb, 162
Giuliani, Rudy, 189 identidade de grupo, 97-101
globalização, 165 Igreja Católica, 5
Goebbels, Joseph, 146 imitação, 69, 73-74
Grande Depressão, 193-194 imparcialidade processual, 200-202
Grandin, Temple, 116-117 impulsividade, 123-124
Greene, Josh, 125 inaladores, 40-45
Greenwich Village, 190 Initiative on Technology and Self,
Greider, William, 200 195-196
Gruenfeld, Deborah, 95-96 inteligência, 63
Gruter Institute for Law and interesse próprio, 21, 166
Behavioral Research, 23 Isis, 143
Guerra do Golfo, 99-100 Islam, 163, 164
isotocina, 32

Harlow, Harry, 111


Haroun, Ansar, 123, 174 Jacobs, Jane, 190
Harris, Sam, 133 James, William, 58
Harvard Business School, 178 Jarhead (Swofford), 99-100
Heider, Fritz, 70 Jefferson, Thomas, 115

228
Índice

Jeová, 151 Keating, Father Thomas, 135


Jesus, 153 Knutson, Brian, 90-91
Jogo da Confiança Korean Broadcasting Service,
descrito, 7-10 173-174
e distúrbio de ansiedade social, Ku Klux Klan, 146
119 Kubrick, Stanley, 96-97
e eudaimonia, 206-207 Kurzban, Rob, 6
e excesso de confiança, 121
e gênero, 81, 91-92
e identificação com o grupo L.A. County Sheriff’s Department,
interno, 146-148 188
e infusão de oxitocina, 45 lagostas, 29-30, 32
e retribuição, 85 Levitt, Steven, 166
e simpatia mútua, 26 Lewinsky, Monica, 78, 81
e trauma na infância, 104 Lipps, Theodor, 60
e trauma, 112 lítio, 122
Jogo do Ultimato livre-comércio, 181
descrito, 46 Livro Hebreu, 151
e autismo, 115 lobo parietal, 135
e crime, 124 Loma Linda University Medical
e empatia induzida, 57 Center, 103, 112
e sociedades primitivas, 161-163 Loma Linda, California, 207
e testosterona, 83, 95 London School of Economics, 87
Jogo dos Bens Públicos, 87-89 LSD, 136
Judaísmo ortodoxo, 175
Judaísmo, 151
Júpiter (deus), 151 macacos, 68, 71. Veja também
“Just As I Am” (hymn), 143 primatas
justiça, 46, 124, 181, 200-202 MacArthur Foundation, 162
machos alfa, 94-95
Mackey, John, 179
Kahneman, Daniel, 181 Madoff, Bernie, 164
Kaiser Family Foundation, 194 Mandela, Nelson, 96
Kant, Immanuel, 18, 19, 20 Mann, Juan (pseudônimo), 47
karuna (compaixão), 62-63 Marriner, Sir Neville, 133

229
A molécula da moralidade

Marshall, Alfred, 209 mídias sociais, 69-75, 173-174, 191,


Marxismo, 164 193, 194-195
Massachusetts General Hospital, Milgram, Stanley, 98
25, 119 A menina de ouro (2004), 51, 57
Massachusetts Institute of mimes, 185-186
Technology, 195-196 misticismo Sufi, 137
massagem terapêutica, 50 misticismo, 131, 136, 137
matemática, 17 Mockus, Antanas, 185-186, 187,
materialismo, 168-169, 205 199
Matzner, Bill, 12, 104-105 monogamia, 38, 40
McCain, John, 189 moralidade, 65, 166. Ver também
McNamara, Robert, 97 moral
meditação, 135, 140 ambiguidade moral, 31
medo capital moral, 172, 186, 204
e a síndrome de Williams, dilemas morais, 125-126
121-122 e comércio justo, 181-182
e altruísmo, 66 e competição sexual, 144
e construção de significado, 141 e conexões sociais, 172-174
e empatia, 99 e confiança, 174-177
e evolução da reprodução sexual, e foco em serviços, 177-181
32, 38 e ganância, 164-166
e o sistema HOME, 180 e generosidade, 161-163
e pressão social, 185-186 e o circuito HOME, 65, 126
e religião, 149-150 e prosperidade mútua, 166-172
e testosterona, 77-78 e punição, 87
e xenofobia, 198-199 e reação à angústia alheia, 54
fisiologia de, 59 e religião, 5-6, 135, 141,
mentira, 19, 26, 70 149-150, 172
mercado Tsukiji, 175 e simpatia mútua, 20
mercado. Ver mercados morais filosofia moral, 6, 17, 20
mercados negros, 167 manipulação, 39-47
Merkel, Angela, 48 mercados e educação, 204
Merton, Thomas, 135 mercados morais, 157-182
metta (generosidade e compaixão), o papel da oxitocina em, 158-161
62, 135 orientação, 30

230
Índice

Morte e vida de grandes cidades oração, 135


(Jacobs), 190 Oráculo de Delphi, 136
Mount Sinai School of Medicine, Ott, Jan, 182
117 ovulação, 92
Movimento Romântico, 17, 20, 21 oxitocina sintética, xii
Mullen, Admiral Mike, 203 OxyContin, xii
música, 57, 133, 137
mutações, 32
padrões éticos, 18, 42, 180
Papua, de Nova Guiné, 153-155,
não recíprocos incondicionais, 105 193
nascimento virginal, 143-144 Parker, Lieutenant Mike, 188
Nash, John, 9 Partido de Donner, 91, 92
Nazismo, 99, 146 pássaros, 35
neotenia, 69 pathos, 60, 142
nervo vago, 49 pecado original, 17, 18
neurociência, 192 Pedersen, Cort, 36
neuroeconomia, 7, 209 pegando carona, 84, 87-89, 94
neurônios-espelho, 61-63 peiote, 136
neuroteologia, xviii Penenberg, Adam, 173, 210
neurotransmissores, 38, 117. Ver Pentecostalismo, 137
também substâncias específicas perpetuação, 32-34
New Scientist, xi-xii, 44 Pew Research Center, 194
Newton, Isaac, 115 philia, 143
níveis de renda, 168-169, 181, 201 Piaget, Jean, 60
Nova York, 186-187 pistis, 145
Novartis, 42 pituitária, 122
nutrição de filhotes, 34, 36, 58, Platão, 18, 151
68-69, 101 Plauto, 17
pobreza, 192
política da comunidade, 187-188
O mundo na corda bamba (Greider), populações imigrantes, 197-199
200 primatas, 68-69
O Povo contra Larry Flynt (1996), priming, 177
137 Problema da Torre de Babel, 193

231
A molécula da moralidade

procriação, 160-161 receptores de oxitocina e


progesterona, 15 comportamento antissocial, 151
prosperidade, 25, 159, 182, 191, e a abordagem feminina ao risco,
202 90
psicologia junguiana, 141 e autismo, 115, 117-118
psicopatologia, 106, 127-129 e comportamento social, 37-38
psilocibina, 136 e comunicação eletrônica, 196
punição determinada pela e emoções, 58, 65
testosterona (TOP), 87, 88-89, e fisiologia cerebral, 38, 122
91 e mudanças no estilo de vida, 211
punição, 6, 81, 86-90, 114, e nutrição dos filhos, 101
148-149. Ver também O Jogo do e o circuito HOME, 63-69
Ultimato e o nervo vago, 49
Putnam, Robert, 190 e reprodução, 36, 40
e trauma, 104, 105, 111
reciprocidade, 124, 161, 163
qualidade de fim de vida, reconhecimento facial, 69
208-209 redes de segurança social, 201-202
Quijada, Earl, 208 Reforma Protestante, 168
Regra de Ouro, xix, 62, 151
Reino Unido, 192-193
Rabino Hillel, 151 Reiser, Hans, 127-128
raiva, 108. veja também agressão relações amorosas, 59, 114, 207
Rajaratnam, Raj, 164 “Relatos de um alienígena
rato, 39 residente” (Daxer), 116
ratos, 23-25, 35-38, 39-40 Religious Society of Friends,
ratos de pradaria (Microtus 139-140
ochrogaster), 36-38, 115 ren (humanidade), 62
ratos do campo (M. pennsylvanicus), Research Network on the Nature
36, 39-40 and Origin of Preferences, 162
razão e racionalidade, xviii-xix, responsabilização, 66-67
9-10, 14, 19, 21, 123-127 retribuição, 86-90, 148-149,
reação “a fuga ou a luta”, 31, 59, 150-151. Ver também Jogo do
106 Ultimato
reação cuide e faça amigos, 93-94 revolução industrial, 168

232
Índice

Rio de Janeiro, Brasil, 187 e estados emocionais, 58, 62


risco, 77-78, 90-92, 94-95 e felicidade, 207
ritual, 140, 152 e o sistema HOME, 117
Rizzolatti, Giacomo, 61-62 e redes sociais, 71
Rogers, Carl, 60 e ritual religioso, 145
Romênia, 112 função de, 38
Ruanda, 99 serviço, 177-181
sexo e reprodução sexual
e competição, 144
Sacks, Oliver, 116 e comportamento pró-social,
Salter, Anna, 128 26-27
sanções, 87-89, 188, 199. Ver e escândalos sexuais, 78, 81,
também punição; retribuição; O 94-95
Jogo do Ultimato e escolha, 32
Sanford, Mark, 78 e procriação, 160-161
Schwarzenegger, Arnold, 78 e redes sociais, 71
secularismo, 18-19, 133, 139 e religião, 144, 210
Seeds of Peace, 200 e seleção sexual, 32-34,
Segunda Guerra Mundial, 198 80-81
seleção consanguínea, 160-161 e testosterona, 78-79, 80, 92
seleção natural evolução de, xx, 26-27, 29-35,
e construção de significado, 142 38, 80-81
e evolução da reprodução sexual, o papel da oxitocina em, 36, 40
31-32, 38 Silo de Autoabsorção de Problemas,
e moralidade, 166 193
e neotenia, 69 Simmel, Mary-Ann, 70, 140
e processos biológicos, 20 Simms, Sherri, 172
e testosterona, 79-80 simpatia, xix. Ver também empatia;
perpetuação, 32-34 simpatia mútua, 17-18, 20, 25, 60,
Seligman, Martin, 206 62, 166
sensibilidade acidental, xvii sinais ambientais, 24
sentimento de solidariedade 62. Ver Síndrome de Asperger, 115
também empatia; síndrome de Williams, 121-122,
serotonina 128
e ansiedade social, 119 sistema judicial, 126-127

233
A molécula da moralidade

Sisters of Loretto at the Foot of the taxas de suicídio, 122


Cross, 5 Taylor, Shelley, 93-94
Smith, Adam, 21, 25, 60, 62, 166, teologia, xix, 6. Ver também religião
168 Teoria da Mente, 63, 116
Smith, Vernon, 97 Teoria dos sentimentos morais
sobrevivência, xix, 20, 30, 70, 80, (Smith), 17-18, 60, 62, 168
84 Teresa de Ávila, Santa, 142
sociedades caçadoras-coletoras, 75, testosterona
160 e andreia, 100
sociedades indígenas, 172-173, 182 e anomalias genéticas, 114
sociedades primitivas, 71-72, 74-75, e autismo, 115
161-162 e competição, 93-97
Society of Friends, 139-140 e diferenças de grupos interno e
solidão, 108, 141 externo, 97-101
somatização, 103 e emoção, 59
sonhos, 141 e empatia, 82-84, 90, 93, 114
Spitzer, Eliot, 81 e interferência da oxitocina, xvii
St. Jude Children’s Research e medo, 77-78
Hospital, 54-56 e o circuito HOME, 64, 67
Stanford Graduate School of e o Jogo da Confiança, 15
Business, 95-96 e punição, 86-90
Stewart, Martha, 96 e redes sociais, 71
storge, 143 e religião, 150, 151-152, 172
Strauss-Kahn, Dominique, 94, 95 e seleção natural, 79-80
Sudão, 99 e sexo, 78-79, 80, 92
Supremo Tribunal Americano, efeitos sociais, 192, 204
96 Anatomia do amor (Fisher), 23
Supremo Tribunal de San Diego, “The Old Rugged Cross” (hymn),
123 143
Swofford, Anthony, 99-100 Tiger, Lionel, 134
Syntocinon, 42-45 tipos de personalidade, 108-109
tolerância, 169-172
toque, sentido de, 47-51, 59, 189
Taoísmo, 132 Transtorno de estresse
taxas de homicídio, 169 pós-traumático, 100, 118

234
Índice

trauma, 64, 103, 106 violência doméstica, 89


tribos nômades, 150 Vohs, Kathleen, 177
Trump, Donald, 113, 205 Voltaire, 18
Turkle, Sherry, 195-196
Twitter, 193
Walker, Robert S., 160
Uma mente brilhante (2001), 9 Weiner, Anthony, 78
University of California, Los Whitehall Study, 109
Angeles (UCLA), 6, 10, 26, 85 Whitman, Meg, 181
Whole Foods, 179
Por que amamos (Fisher), 23
vasopressina, 38, 40 Wilkinson, Will, 182
vasopressina arginina, 32 Woods, Tiger, 78
vasotocina, 32, 32 World Value Survey, 169
Velho Testamento, 150, 151-152 World Vision International, 172
vício em drogas, 36, 122
vigilância, 149
Vilarejo Malke, Papua, Nova Young, Larry, 39
Guiné, 153-155
vilarejos, 190-191, 193
vínculo entre o casal, 70, 90-92, Zeus, 151
160 Zimbardo, Philip, 98
violência, 78, 81 Zorba, o grego (1964), 137-138

235