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Sonhos e Outras Verdades

Ficção

Poncio Arrupe

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Babinha e Babi

... Tudo a postos na plateia improvisada na sala de convívio. As mesas foram


encostadas às paredes, e uma dezena de fileiras de cadeiras de diferentes feitios e
proveniências ocupam agora o centro da sala. O palco, tapado por uma cortina rosa
vivo, situa-se num estrado elevado um metro do chão, junto à parede oposta à da
entrada na sala ... A assistência aguarda pelas pancadinhas de Moliére, tal como em
todos os carnavais anteriores, desde que há memória na clínica. Os doentes daquele
hospício psiquiátrico são essencialmente os mesmos, uma cara ou outra nova em relação
ao ano passado. João ignora se entre os actores haverá algum recente. Certamente que
Babinha será, como tem acontecido nos últimos carnavais, a argumentista, a encenadora
e a actriz principal. Bastava-lhe pisar o palco para provocar uma explosão de
gargalhadas incontroladas de toda a audiência, em muitos dos espectadores até ao
paroxismo. Desde o primeiro dia que ali chegou que tomou conta dos estados de humor
daquela gente, e ainda bem, segundo a opinião de psiquiatras, psicólogos e enfermeiros
(João não conseguiu evitar o pensamento malicioso de que certamente a extensão média
das estadias naquele hospício tinha aumentado desde que Babinha tinha chegado. Assim
como o número de camas preenchidas. Provavelmente isto justificaria uma redução
significativa no que a sua família paga mensalmente àquela instituição de luxo! Babinha
a sua mãe já terão pensado na questão ..., certamente.). Babinha, quando saía de licença,
principalmente por insistência da mãe, passado pouco tempo pedia para retornar ao
hospício alegando que ainda não estava bem do seu “esgotamento”. Assim que
regressava era logo rodeada no átrio de entrada por uma multidão de amigos e amigas
em devoção, que lhe tocavam, sorriam, e imploravam por uma atenção, um olhar, um
dizer, um toque, um qualquer sinal de reconhecimento. Babinha sabia bem
corresponder, adoptando a sua habitual postura teatral de movimentos e gestos amplos,
sobressaindo do alto dos seus elegantes saltos e da sua cabeleira resplandecente,
impecavelmente penteada e colorida de loiro nos melhores cabeleireiros. Num corrupio
distribuía atenções a todos, meticulosamente, imitando por vezes, na perfeição, frases
que tinha ouvido a psiquiatras e psicólogos. Quando o fazia deixava o outro em êxtase,
em estado de incondicional reconhecimento, como se tivesse recebido ali a chave para a
porta da felicidade.

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... Ouve-se um objecto algo pesado a cair ao chão por de trás da cortina de cena, de
imediato vários pares de olhos se olham interrogativamente, e um burburinho alastra por
toda a plateia ... os preparativos pareciam estar atrasados ... Um dia, fazendo uso da sua
relativa notoriedade no meio, construída nas discotecas da sua adolescência, conseguiu
transformar um dos seus primeiros regressos ao hospício num tema de reportagem de
uma revista de socialites. Saiu com uma grande profusão de fotografias em que Babinha
surgia banhada em admiradores, e com diversos testemunhos abonatórios e laudatórios
da parte seus amigos. O título que deu à estampa foi: “Babinha Teixeira na Clínica X”.
Por baixo, em sub-título: “Babinha Teixeira leva a sua alegria e amparo a uma clínica
psiquiátrica”. João sorri perante a recordação, particularmente porque todos aqueles
amigos das fotografias rivalizavam com Babinha no que diz respeito às roupas e
adereços que usavam. Eram sem dúvida os doentes psiquiátricos ideais para surgirem
sem perturbar o mundo de glamour e aparências a que a revista se dedicava ...
Tinha também transformado todos os eventos diários naquela instituição em
perfeitas caricaturas das regras de vivência em alta sociedade. Babinha tinha-as
decorado de tanto ver novelas brasileiras e séries inglesas passadas nos solares da
nobreza do princípio do século vinte. Sua mãe, que, em vão, também tentou que ela
aprendesse a falar francês e a tocar piano, contribuiu de feição decisiva para aquele
gosto pelas regras de salão, motivada pela intenção de ajudar Babinha a cativar um bom
partido ... Uma pequena parte da família já se conformou e conta com os carnavais no
hospício ... No entanto, a maioria ainda encara aquele evento anual como uma
actividade a prazo, meio terapêutica, meio caritativa, que Babinha faz questão de levar a
cabo em solidariedade para com os seus amiguinhos, nas suas palavras, “bastante mais
doentes do que ela”. Amiúde explica que o seu estado é apenas o resultado do cansaço
que advém das pressões diárias resultantes da exposição pública continuada.
Mentalmente transformou as suas longas estadias na clínica em intervalos para descanso
e recomposição da sua áurea de estrelato.
... João tenta reconstruir o passado de Babinha para tentar perceber como tudo terá
começado ... Lembra-se de ... entretanto ouvem-se as de Moliére. A cortina abre e de
imediato quase toda a plateia se desmancha em gargalhadas incontidas. Babinha surge
em atitude de grande dama, queixo levantado, olhar no infinito, passadas cadenciadas,
de braço dado com outro paciente que, aparentemente, faz de seu marido, e que se limita
a acompanhar os passos de sua mulher. O actor improvisado olha alternadamente para
ela e para a plateia, num enorme esforço para conter o riso, esforço esse denunciado nos

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seus trejeitos faciais, gestuais e posturais, retorcidos, grotescos. Por vezes escapam-se-
lhe umas risadinhas finas, envergonhadas, ih, ih, ih, ih, ih, ... audíveis só por quem se
encontra na fila da frente. Atrás um outro casal segue-os. Ela tentando imitar o mesmo
tipo de atitude de Babinha, com um penteado que reproduzia burlescamente o da mãe
desta. Ele curvado sobre si próprio, cabeça baixa, olhos no chão, olhando envergonhado
a plateia, intimidado até, pelo canto do olho. Aproximam-se de uma mesa de refeições,
já posta, e com um gesto autoritário, sem falar, Babinha manda o seu marido e o outro
homem – fazia de seu pai? - para a cozinha, ali ao lado. ... João, e Rita sentada à sua
direita, procuram disfarçar o seu constrangimento com um ou outro sorriso de
complacência e de falso comprazimento. Miguel e Teresa, atrás, riem-se a bandeiras
despregadas. Teresa não cessa de apontar para Babinha. ... João pergunta-se se as duas
crianças, particularmente Miguel, não serão já demasiado crescidas, se não farão já uma
leitura não ingénua da situação ... A mãe de Babinha, a verdadeira, entre a assistência,
esforça-se por exteriorizar um riso contido, discreto, que procura anunciar um agrado
inexistente, ... eh, eh, eh, eh, ..., eh, eh, eh, eh, ... com a rapidez nervosa de uma
metralhadora.
Babinha aproveita o tempo de deslocação dos dois homens para o canto do palco,
onde se encontra a cozinha, para brindar a assistência com uma das suas sequências de
cabriolas de ginasta amadora já bem conhecidas de todos. Quase que se estatela no
chão, mas põe a assistência ao rubro, levantada, rindo e aplaudindo efusivamente.
Ouvem-se até alguns gritos de aclamação. ... João lembra-se de ... uma vez, ainda na
época em que se escondia por trás da sua máquina nova e tirava constantemente
fotografias a tudo e todos, ter sido surpreendido por Babinha. Após tê-la fotografado na
companhia de um seu namorado, ela disse-lhe solenemente e em tom generoso,
magnânimo: “Quero que sejas o meu fotógrafo!”. João só alguns tempos mais tarde é
que se apercebeu do absurdo, duplo, por ele e por ela - Babinha falava convicta! ... Teria
começado aí? ... João deveria ter-se apercebido e alertado os familiares mais próximos?
... Teria servido de alguma coisa? ... Haveria alguém disposto a olhar o assunto? ...
Valeriam a pena as indignações, acusações, ..., que certamente surgiriam? ... Entretanto
as duas mulheres, mãe e filha, sentam-se à mesa, e esperam olhando impacientemente
na direcção da cozinha onde os dois homens, depois de terem posto cada um o seu
avental, se atarefam freneticamente. Aparentemente preparam a refeição. ... João
apercebe-se agora que aquela é uma peça muda, como nos filmes mudos. As
vestimentas das personagens evocam a época, ainda que com algumas incorrecções

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grosseiras ... por exemplo, Babinha ostentava um cinturão verde, largo, todo em
plástico.
... Provavelmente tinha começado muito antes ... João conheceu-a num dia de praia
escaldante. Ao final do dia o vasto grupo de amigos decidiu, para continuar a aproveitar
o calor, seguir directamente para jantar num restaurante à beira mar ali perto. Babinha,
como João se veio a aperceber mais tarde que era seu hábito, em poucos minutos ingeriu
meia garrafa de vinho branco gelado ... Começou a dançar ao som de I Can`t Get No
Satisfaction, apoiada num varão que suportava uma escada em caracol, a um ritmo
compassado e em pouco tempo marcado pelas palmas de todos os presentes, conhecidos
e desconhecidos. Encantou-se com as atenções e deixou cair ao chão o seu parriot de
praia, ficando em bikini. A assistência exultou, ouviram-se assobios, bravos, “tira, tira”
... Preso no elástico do bikini, na anca direita, estava um convite para um cocktail de
lançamento de um qualquer brinquedo para crianças que um dos presentes lhe havia
dado naquele dia. Babinha tinha-o guardado ali porque ia sempre para a praia de mãos
livres, só com a “roupa do corpo”, como costumava dizer. ... Um dos presentes mais
atrevido e humorado resolveu então, pedindo gestualmente autorização a Babinha, que
se soltava cada vez mais, para adicionar ao elástico um convite para um evento de
abertura de uma loja de moda. Assim o fez. De imediato gerou-se um frenesim com
toda a gente a procurar entre os seus pertences convites de qualquer tipo,
particularmente as mulheres nos seus sacos de praia e carteiras. Babinha passou então a
dançar circulando entre as mesas, meneando as ancas compassadamente e pondo-as a
jeito para todos os homens que quisessem acrescentar uma dádiva ao elástico do bikini.
Alguns não tinham convites e ficaram-se pelas notas de valor mais baixo que
encontraram. Em pouco tempo foi necessário passar ao elástico do soutien ... Minutos
depois Babinha, feliz, repleta de convites e de algumas notas, voltou ao varão onde,
exausta, suando, terminou a sua dança ao som dos aplausos e gritos da assistência
extasiada e arrebatada pelo insólito.
... As peripécias em palco continuam sem grandes variações. João sai, procurando
não dar nas vistas, para fumar um cigarro, e volta ... Era também época de carnaval. Os
convidados, conversando e usufruindo daquele dia solarengo de Primavera precoce no
espaçoso alpendre, esperavam Babinha para iniciarem o almoço. Algumas crianças
brincavam no jardim a que se acedia descendo três degraus em mármore ... João
recorda-se deste episódio que agora se lhe apresenta como significativo face a outros, e
que na altura lhe pareceu apenas denunciador da propensão de Babinha para dar mais

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nas vistas do que a maioria das outras pessoas ... As conversas, como habitualmente,
eram ridículas. Em primeiro lugar pelo grau de ignorância da maioria dos convivas, e
em segundo pela necessidade que quase todos patenteavam de parecerem mais cultos do
que realmente eram, tentando também atribuir-se passados dignificantes ... A mãe de
Babinha, a dada altura dizia, não se percebendo a propósito de quê, “ ... lá em casa
tínhamos um piano steinbeck!”. (João, mentalmente corrigiu – deves querer dizer
Steinway, da Steinway & Sons, tontinha! -, e perguntou-se porque ela não tinha
aprendido a tocar o dito instrumento com um mínimo de competência). Outro conviva,
em completa assintonia e em assomo patriótico despeitado, dizia em jeito de desafio, “A
europaaa não sêriaaa nadjinhaaaa si não fossiiii a alêmanhãaaa. A alêmanhãaa é
oitentaaaa porrrr centuuuu do produtuuu internuuu da europaaa”! (que confusão vai
nessa cabecinha ...!) A que a senhora steinbeck, aparentemente pretendendo retorquir ao
patriota brasileiro, respondeu “Essas brasileiras que para aí vêm, que desviam os
maridos portugueses ... deviam ser expulsas!”. Um outro conviva, em simultâneo, lança
a pergunta: “Mas já esteve na Alemanha para dizer isso?” (aparentemente tu já estiveste
e por isso gozaste o privilégio único de ver o PIB alemão a passear nas ruas, ... nós não,
por isso não podemos falar ...) ... João, naquela época, já havia abdicado de se envolver
nas conversetas porque incorria em sério risco de se comportar rudemente. Não
conseguia encontrar pontos de entrada naqueles diálogos absurdos, também por inépcia
sua, reconhece hoje. Optava por isso por se manter afastado, lendo ou vendo televisão ...
Entretinha-se também muito conversando e jogando à bola com as crianças que
estivessem por ali.
... Entretanto Babinha, no palco, realiza mais uma das suas séries de cabriolas, em
direcção à cozinha, aparentemente insatisfeita com a demora na refeição. Sua mãe
segue-a em corrida de passos curtos e rápidos ... de pinguim, parece-lhe a João. Com as
mãos na cintura, ambas olham em censura os respectivos maridos. Consultam os seus
relógios de pulso e demonstram reprovação, em perfeita sincronia, acenando com o
indicador direito, mão esquerda na cintura, e pé direito avançado e batendo com a sola
no chão. Os maridos contorcem-se de medo, não se atrevendo a olhar as respectivas
cônjuges directamente nos olhos. Babinha agarra num rolo da massa e sua mãe numa
colher de pau. Levantam-nos ameaçadoramente. Os pobres maridos alçam os braços
acima da cabeça em protecção, e acentuam os esgares faciais e posturas corporais
curvadas de terror. O de Babinha solta também as suas risada finas, de modo cada vez

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mais audível - Ih! Ih! Ih! Ih! - olhando nervosamente a plateia. Esta explode de novo e
as duas regressam à mesa em apoteose ...
... Babinha estava a chegar, finalmente! Com frequência era a última para que a
“plateia” estivesse já composta. João deu-se conta de uma algazarra sonora
desconhecida. A porta do carro fechou-se do lado lá, por trás das sebes que estabeleciam
a fronteira entre o jardim e a estrada. Ouviu-a expressar-se em tom imperativo, dando
ordens e repreendendo alguém ... Depois aflorou ao portão, espreitando, revelando
apenas a sua face. Ostentava um enorme nariz postiço, esférico, vermelho, de palhaço e
uma enorme cabeleira rosa-lilás, de caracóis. Saudou com um prolongado e sonoro
“Hellooooo!”. Alguns sorrisos e olás entre os convivas, e de imediato um pequeno
macaquinho, do ombro de Babinha, saltou para o topo do portão, e depois para dentro
do jardim, preso por uma trela. Acto continuo ensaiou um corrida rápida na direcção de
algumas crianças pasmadas e radiantes com aquela aparição. Babinha interrompeu
abruptamente a fuga com um puxão de trela ainda do lado de fora do jardim. De
imediato o macaquinho foi rodeado por todos. Alguns adultos sacaram dos seus
telemóveis para tirarem fotografias. Um ou outro de máquina fotográfica. Babinha
aproximou-se, pegou no animal e adoptou de imediato poses para se dar às fotografias.
Com Babi – era esse o seu nome - ao ombro, ou ao colo, mas sempre bem perto do seu
rosto, e do enorme nariz e vistosa cabeleira. Agia como se todos os fotógrafos
espontâneos desejassem inclui-la nas fotos. Por vezes alguns conseguiram colocar Babi
ao colo das suas crianças com a finalidade de as fotografar. Logo Babinha se juntava ao
par, acorrendo em passos muito curtos e rápidos - ... João apercebe-se agora pela
primeira vez da semelhança inacreditável com os passinhos de pinguim de sua mãe ... -,
impondo a sua presença no enquadramento. Ninguém teve a ousadia de lhe pedir que se
afastasse. Ela própria, pelo menos aparentemente, não sentiu a pressão surda evidente
nesse sentido. O patriota brasileiro disse em fundo, para quem ouvisse, “Lá no Brasiuuu
têmusss dêstiiiiss macacuuuus, máisse são bêm máiorisss ... Estiiii é portuguêisss?”. A
que a mãe de Babinha, orgulhosa da aparição desta, respondeu “Este é bem português!
É do tio Julinho, ali da Quinta da Marinha” (O tio Julinho morava perto da Quinta da
Marinha). Para além das sessões de fotografia sempre acompanhado da sua preceptora
de empréstimo, Babi exibiu ao inicio da tarde uma extensa gama de habilidades, a
comandos de voz de Babinha. Ao principio esta brilhou por diversas vezes para grande
gáudio de sua mãe, particularmente junto das crianças. Depois todos se afastaram por
desinteresse e voltaram às suas conversas e ocupações. Babinha continuou ainda a tentar

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manter o monopólio das atenções por algum tempo, até Babi conseguir refugiar-se no
colo de uma criança e ser esquecido para seu descanso. Nessa altura alguns dos
convivas conseguiram tirar umas poucas fotografias à socapa.
... João já se havia desligado da peça ... As tropelias tornaram-se repetitivas. Os
pobres dos maridos já tinham sido ameaçados diversas vezes e, até, açoitados em pelo
menos um par de ocasiões quando, ao dobrarem-se para vigiarem o cozinhado no forno,
inadvertidamente ofereciam os traseiros a suas esposas, colocando-os mesmo à mercê.
Nos percursos entre a mesa e a cozinha Babinha cabriolou múltiplas vezes. A audiência
estava exausta de tantas vezes que tinha sido levada ao rubro. Por seu lado, Miguel e
Teresa, na fila de trás, já não riam com a mesma vontade do início da peça. ... Esta
parece aproximar-se já do seu clímax e final ... João, entretanto, procura recordar-se de
todas as profissões que Babinha, em alguma ocasião, terá nomeado como a sua. Que se
lembre ... Relações Públicas, Comunicadora, Apresentadora de TV, Conselheira de
Moda, Organizadora de Eventos, ... e recentemente Actriz!. Recorda-se bem de um
curto período em que ela tentou desempenhar a função de anfitriã num restaurante da
moda, propriedade de um amigo das suas relações de adolescência nas discotecas de
praia dos subúrbios de Lisboa. Função essa, remunerada, que Babinha acabou por
abandonar por pressão familiar, de sua mãe sobretudo ... João vai juntando peças ao
puzzle ... a frequência com que Babinha se oferecia, sem que lho pedissem, para meter
supostas cunhas, com que opinava e dava conselhos sobre como os outros se deveriam
vestir (encarava por vezes algum pedido de opinião como um recurso aos seus serviços
profissionais), como de vez em quando se afirmava grande apreciadora de assuntos do
seu total desconhecimento ... museus, Paris, champanhe, livros ... Babinha nunca
conseguiu ler um livro, apesar de ter participado em cerimónias de lançamento de
algumas biografias de amigos seus socialites, e opinado publicamente enquanto leitora
dos mesmos ...
... Finalmente duas travessas chegam à mesa trazidas pelos zelosos e receosos
maridos ... Babinha e sua mãe debruçam-se sobre as mesmas e cheiram ... encaram a
plateia com trejeitos faciais de desagrado, acenando com as cabeças ... Os maridos por
perto, observando intranquilos, aguardam. O de Babinha ... ih, ih, ih, ih, ..., o outro
olhando as duas em pânico. Repentinamente, pegam cada uma numa travessa e
despejam-na em cima do respectivo homem. Para espanto de João, como se aquele final
não fosse de todo previsível, a maior parte da plateia estoira de riso, em total
descontrolo. De seguida os mal tratados cônjuges correm em fuga para os bastidores,

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não sem antes serem pontapeados nos traseiros por suas danadas esposas. O espectáculo
termina com a plateia em aplausos, os actores agradecendo, Babinha à frente fazendo
vénias, de pés juntos, juntando e levantando as mãos em posição de reza, olhos
fechados, tocando com a sua testa nas pontas dos dedos, ...
Rita levanta-se, semblante triste, pega nas mãos das crianças e sai. João segue-os,
olhos no chão, ensurdecido pela plateia ainda em aplausos e aclamações.

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