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SIM SIM e NÃO NÃO

Dr. Belcorígenes de Souza Sampaio Júnior

Não tenho nenhuma militância política, nem pretendo doutrinar ninguém. Aliás,
compreendo com muita clareza a advertência bíblica de que “cada um dará conta de si
mesmo a Deus”. Contudo, como cristão e jurista não posso me calar diante desta
ameaça que paira sobre todos aqueles que, como eu, possuem a doutrina cristã como
regra de fé e vida.
Não obstante ao hercúleo esforço semântico que alguns fazem para dissimular a
mascarada intenção de nivelar as verdades eternas da fé religiosa ao plano da mera
opinião pessoal, pode-se claramente notar nos textos que tentam veicular a doutrina
cristã com o ódio homossexual, a eiva da influência ideológica do academicismo ateísta
e amorfo entronizado no nosso país. O principal sintoma disto é a louvação da
ambigüidade e o sacrifico da coerência lógica, tudo em nome de uma pretensa
“aceitação” do diferente, e sob o epíteto da promoção da “igualdade”. Esquecem-se de
que a igualdade, como bem a definiu Aristóteles, é a mera correlação ou equivalência de
quantidades. Em outras palavras, ao aferir iguais direitos aos cidadãos em uma
determinada sociedade é que se esta promovendo a igualdade, e não ao subtraí-los.
Assim, a lei “anti-homofobia” (não é surpresa que o conceito da expressão seja vago), é
o supremo dos paradoxos da mediocridade reinante na pretensa “massa pensante” deste
país, pois promove exatamente o contrário do que afirma combater. Se aprovada
teremos a seguinte situação: Um homossexual poderá afirmar a sua identidade-
ideológica de militante da causa gay, já um opositor desta ideologia não o poderá fazer
sob pena de prisão. Tal deformação jurídica já nasce sob a égide da
inconstitucionalidade, pois sacrifica a liberdade ideológica, religiosa e de manifestação
do pensamento, garantidas na nossa constituição de 88. Antes disto, é uma agressão ao
bom-senso e à lógica.
Aqueles “cristãos” que permanecem “comprometidos” com algumas ideologias político-
partidárias que sustentam tal aberratio fingem desimportância do tema, mancomunados
que estão com a nova cartilha política internacional, centrada no relativismo moral e na
negação dos valores judaico-cristãos, informadores do cabedal axiológico ocidental. Daí
que as ambigüidades de caráter são passivamente toleradas, podendo personalidades
anticristãs como Marta Suplicy, por exemplo, assumir a defesa do aborto, da eutanásia,
do casamento homossexual, e ato contínuo proferir mimos a líderes e entidades ditas
“cristãs”. Aliás, alguns líderes religiosos há muito estão sendo preparados para assumir
seu papel de importância nesta Nova Ordem. São “pastores caídos”, grande parte
deles enlameados pelos pecados e praticas que esta classe política tenta
“normatizar” e “normalizar” entre nós: desagregação da família, corrupção,
dossiês, etc. Alguns tão grandiloqüentes se fazem notar que parecem
irremediavelmente atingidos pela “síndrome de lúcifer”.
Enquanto a massa ignara marcha entorpecida pelos “chavões” e “palavras de ordem”
desta nova era sem Deus e sem os Seus valores, um exército de pequenos frankensteins
intelectuais se prepara para deificar o novo homo-saber. Ele é formado por uma
multidão de universitários forjados nas entranhas de um aparelho ideológico
contaminado pelo entropismo filosófico reinante em muitas universidades brasileiras. A
estes falta-lhes por completo a capacidade de perceber algo além do imaginário
simbólico da sua cartilha ideológica. Só lhes é permitido enxergar à frente, em uma
verdadeira miragem maotsetunguiana, com direito inclusive à total ausência da dialética
do bom senso.
Jesus ama o pecador, porém odeia o pecado. Assim toda e qualquer manifestação de
violência contra quem quer que seja deve ser combatida, inclusive a violência daqueles
que tentam calar e punir os cristãos que “ousarem” exercer o seu direito constitucional
de afirmar a sua ideologia, a sua crença, os seus valores e a sua identidade cristã.
Por fim, e a título de clarificação, a “fórmula” de Jesus a respeito do uso dos frutos
como critério identificador entre “joio e trigo”, é realmente bem “simples”, não
cabendo aqui quaisquer relativizações retóricas. No caso em tela podemos
exemplificar assim: nenhum pastor ― líder religioso, sacerdote, etc. ― que
defenda a relativização da vida e apóie o aborto e a eutanásia, por exemplo, pode
ser considerado trigo. VOCE CONSEGUE IMAGINAR JESUS CRISTO DANDO
APOIO A ESTAS CAUSAS?

Belcorígenes de Souza Sampaio Júnior


Advogado
Professor Universitário
Mestre e doutorando em Direito
Sacerdote Cristão

Divulgação: www.juliosevero.com
http://juliosevero.blogspot.com/2008/06/sim-sim-e-no-no.html

RESPOSTA
Minha militância (missão) é o Reino de Deus, e às vezes ela envolve, senão a política,
pelo menos as causas pelas quais se ocupa. Não sou Sacerdote, mas sacerdócio real e
cristão comum, e como tal, responsável por pelejar pela fé. Nesse sentido, te doutrinar.
Por isso, digo-te o que disse o escritor bíblico Judas: “senti a necessidade de vos
escrever”.
E digo isso para que o que eu venha escrever tenha o máximo de clareza possível.
Assim, as cartas são dadas logo no início: não estou dizendo nada sobre a lei em
questão. O objetivo é puramente doutrinário. É sobre a sua pretensão de biblicidade e de
estar agindo conforme o testemunho cristão. E isso, é óbvio, não envolverá critérios
ideológicos, antes, pretende-se mais bíblico que o autor do texto quis parecer estar
sendo.
O que se segue é a minha tentativa de cristão que, sem pecar (o que você não
conseguiu), mostrar à maneira cristã (o que você passou longe) o erro de outro cristão
(cristão mesmo, sem aspas), meu irmão.
Uma vez delimitado meu objetivo, obrigo-me a centrar-me nos trechos a ele
relacionados.

1 - Você escreve:

“Aliás, alguns líderes religiosos há muito estão sendo preparados para assumir seu papel
de importância nesta Nova Ordem. São “pastores caídos”, grande parte deles
enlameados pelos pecados e praticas que esta classe política tenta “normatizar” e
“normalizar” entre nós: desagregação da família, corrupção, dossiês, etc. Alguns tão
grandiloqüentes se fazem notar que parecem irremediavelmente atingidos pela
“síndrome de lúcifer””.

Até onde sua generalização não nos permite identificar alguma pessoalidade, suas sutis
especificações a possibilita. Essa em especial: “dossiês”. Outras menos explícitas:
“síndrome de lúcifer” (um título de um livro?). O conjunto delas, acrescido de
elementos contextuais restritos ao blog (conhecidos debates de opinião com o autor do
blog) e externos a ele - que abarcam opiniões de figuras cristãs de liderança nacional
quanto à matéria, torna a questão ainda mais conclusiva. Não citou nomes, e seria mais
corajoso de sua parte. Além de mais justo: dar-lhe-ia o direito que você, como jurista,
sabe que é constitucional: o direito de defesa. Se a intenção foi ser ético demais, o
problema é que acabou sendo de menos. Em suma: estou eu enganado, ou você está
falando do Rev. Caio Fábio?
Se não pretendia doutrinar ninguém, digo que melhor seria. Pois ocuparia uma cadeira
mais humilde, que a de juiz que acabou se sentando. Você diz, não doutrinando, mas
emitindo juízos: “... parecem irremediavelmente atingidos pela “síndrome de lúcifer””.
Suas palavras destilam juízos, meu irmão.
De fato, é constitucional o direito de afirmar a sua ideologia. Não é, contudo, cristão
jogar com essa sua parcialidade algum irmão aos cuidados de Lúcifer. É constitucional,
falastes bem, mas não fales disso como valores e a identidade cristã.
Se é sua preocupação sincera ser mais do Evangelho, deveria fazer a pergunta a si
mesmo e não para os outros: VOCE CONSEGUE IMAGINAR JESUS CRISTO
AGINDO ASSIM?

2 - Você diz:

Por fim, e a título de clarificação, a “fórmula” de Jesus a respeito do uso dos frutos
como critério identificador entre “joio e trigo”, é realmente bem “simples”, não
cabendo aqui quaisquer relativizações retóricas. No caso em tela podemos
exemplificar assim: nenhum pastor ― líder religioso, sacerdote, etc. ― que
defenda a relativização da vida e apóie o aborto e a eutanásia, por exemplo, pode
ser considerado trigo. VOCE CONSEGUE IMAGINAR JESUS CRISTO DANDO
APOIO A ESTAS CAUSAS?

Sua conclusão é, das minhas preocupações, a maior. E a única coisa que ela conclui é
sobre dois aspectos seus:
a) Descuido exegético.
b) Segurança injustificada.

Sinceramente não sei como alguém com a sua responsabilidade (Sacerdote), consegue
ser tão descuidado. E sendo tão descuidado, consegue ser tão seguro de si.

Biblicamente, quanto ao joio e ao trigo, não há nada mais claro do que os pontos por
mim listados e comentados abaixo e que são justamente aquilo que suas palavras
afrontam.

1- Nós não temos nem autoridade (não ganhamos essa atribuição da parte de Deus) nem
capacidade para separá-los:
“E os servos lhe disseram: Queres, pois, que vamos arrancá-lo?
Ele, porém, disse: Não”.

Por quê?

“Para que, ao colher o joio, não arranqueis com ele também o trigo”.

Em bom português: não é da nossa conta. “Cada um dará conta de si mesmo a Deus”.
Essa não é uma preocupação nossa. Antes, é-nos dito:

“Deixai crescer ambos juntos”.

2- Eles serão separados, no tempo certo, pelos agentes certos:

“Até a ceifa”
“e, por ocasião da ceifa, direi aos ceifeiros: Ajuntai primeiro o joio, e atai-o em molhos
para o queimar; o trigo, porém, recolhei-o no meu celeiro”.

Portanto, sendo isso tão simples e claro, lhe pergunto meu irmão, como foi que você
conseguiu não entender isso? Por descuido, meu mano!
A Palavra, simples e pura, o contradiz, e o mostra que para se pretender cristão não
basta se desassociar do relativismo. Você estava certo e se condenou quando disse
quanto ao tema do trigo e do joio: “é realmente bem “simples”, não cabendo aqui
quaisquer relativizações retóricas”. Retoricamente pecastes contra Palavra. Se tivesse o
cuidado devido, no mesmo contexto do versículo de Romanos 14 que cita (“cada um
dará conta de si mesmo a Deus”), também leria: “Bem-aventurado aquele que não se
condena a si mesmo naquilo que aprova”.
O que você fez foi universalizar a todas as situações o Jesus disse em um contexto
específico, de uma aplicação própria: “porque pelo fruto se conhece a árvore”. Mas
Jesus, meu conservo Belcorígenes, não estava se contradizendo, pois disse o que disse
em Mateus 13 (exposto acima). Contudo, é o que se deduz de suas palavras: que Jesus
se contradisse. Estou enganado ou está dito por você que ‘já que se conhece as árvores
pelos frutos’ podemos saber quem é trigo e quem é joio? É claro que é isso o que diz.
Não entendeu você, porém, os contextos distintos. E foi você quem os misturou. Não
vou expor Mateus 7 e 12 pra você, basta que leia: “E os servos lhe disseram: Queres,
pois, que vamos arrancá-lo? Ele, porém, disse: Não. Para que, ao colher o joio, não
arranqueis com ele também o trigo”.
Se é a Palavra que importa, amigo, e se é genuína a sua pretensão de agir conforme o
testemunho cristão, submeta-se à ela e redima-se humildemente. Seja Belcorígenes
mentiroso e Deus verdadeiro!
A forma como você manipula a Bíblia demonstra um descuido proporcional à segurança
que tem. Parece, pois amar a certeza mais que a verdade. Você ousadamente diz sobre o
versículo 12 de Romanos 14: compreendo com muita clareza a advertência bíblica.
Mano, oxalá compreendesse de verdade, com a clareza que afirmou compreender, o
texto bíblico “cada um dará conta de si mesmo a Deus”!
Senão veja você que, de fato, não o entendeu.
O tema do capítulo é a Liberdade Cristã e Amor Cristão. Liberdade, entenda você, que
não é esse falso dilema dicotômico (ou/ou) de sua má insinuação das palavras de
Jesus no título do texto: sim, sim, não, não. O que dizer desse: sim e não? Sim para
uns e não para os outros? Ambos cristãos genuínos e ambos perguntando-se com
sinceridade sobre a corretude ética de uma ação específica. E o que há ali? Há uma
resposta relativa à consciência da pessoa, e, universal e categoricamente: exortações
ao “andar conforme o amor”. E nessa, mano amado, sabemos nós, que tu pecastes.
Sua acidez lhe custa o testemunho cristão. Lhe custa o amor. Lhe custa a humildade
de saber que a persuação da validez da lógica aristotélica bifurcal não ‘casa’ legal
com a razão humana noeticamente afetada pelo pecado.
Aceite tu, que aquele que pensa e age diferente de você, na mesma situação, e quanto
à mesma questão, também pode ser cristão: e quem julgará é Deus que é Senhor
sobre todos. Ouça: “Quem és tu, que julgas o servo alheio?”, e também: “Para seu
próprio senhor ele está em pé ou cai”. Sendo mais enfático ainda, parafraseio: “Quem
és tu, diz Deus, que julga um servo Meu? E até mesmo se Ele cai, é para mim que
que ele cai. Não é da sua conta”.
Portanto, Júnior, tire as aspas da sua mente, e trate como cristão (sem aspas) aqueles
que pertecem ao mesmo seu Senhor, seus conservos. As aspas dos seus olhos o
impediram de ler: “tu, por que julgas teu irmão?”. E Paulo diz que o JUIZ é o mesmo
para todos: “tu que julgas teu irmão não sabes que estará tu mesmo perante o Juiz?”.
Veja-se, portanto, você mesmo perante o Juiz. Aqui Paulo ecoa Jesus: cuide menos
dos ciscos alheios, e vá tratar de tirar as suas traves.
Com o certo e errado sendo percebidos de modo diferente naquela questão, se diz: “A
fé que tens, guarda-a contigo mesmo diante de Deus”. Ora, “Um faz diferença entre
dia e dia, mas outro julga iguais todos os dias. Cada um esteja inteiramente convicto
em sua própria mente. Aquele que faz caso do dia, para o Senhor o faz. E quem come,
para o Senhor come, porque dá graças a Deus; e quem não come, para o Senhor não
come, e dá graças a Deus”.
Relativo que seja, categórico é que, amando um Único Senhor, respeitemos e amemos
nossos conservos. Para tal mandamento, não há relativização.
Portanto, te diria Paulo (especulo), e te digo eu:

Não faças perecer pelas tuas causas aquele por quem Cristo morreu.
E não identifique as suas causas, com as de Cristo. E saiba que as de Cristo,
são dEle.
Não faças perecer um cristão genuino por causa das tuas aspas. Não
destribua aspas.
Não te faças perecer a si mesmo. Não seja ácido e julgador.
Instrua-se mais na Palavra. Capacite-se para o ministério para o qual
foi chamado: não faça com deslecho.
Porque o reino de Deus não consiste nisso. Não destruas por causa
disso a obra de Deus.
“Assim, pois, siga as coisas que servem para a paz e as que
contribuem para a edificação mútua”.
Se quiser, de verdade, militar a favor do Reino, identifique-se com as
causas dele: paz, justiça e alegria. “Pois quem nisso serve a Cristo agradável
é a Deus e aceito aos homens”.

Paz e justiça sejam contigo,


Seu mano,
Eric

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