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Modelo Multiaxial de ACHENBACH (ASEBA) na Avaliação clínica de crianças e 1

adolescentes

O MODELO MULTIAXIAL DE ACHENBACH (ASEBA) NA

AVALIAÇÃO CLÍNICA DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES

Análise das trajectórias (in)adaptativas ao longo do desenvolvimento do


sujeito e dos processos e mecanismos envolvidos

As situações de adversidade põem em jogo processos de risco e põem à


prova a resiliência de cada sujeito, através dos mecanismos protectores que
‘lutam’ contra a trajectória de risco para a psicopatologia.

O desenvolvimento é olhado, privilegiadamente, através de uma


perspectiva organizacional, considerando uma grelha conceptual
especialmente relevante para a compreensão das múltiplas trajectórias de
desenvolvimento. Reconhece-se a dinâmica entre o desenvolvimento normal
e anormal, adaptativo e inadaptativo dos processos ontogenéticos, que por
sua vez permitem um funcionamento normal ou um funcionamento
desviante do sujeito.

A perspectiva multigeracional sublinha que «os pais transmitem aos


filhos os seus genes e proporcionam um contexto de desenvolvimento. O
desenvolvimento deve ser entendido nesta grelha conceptual». A interacção
genes – ambiente, ao longo do desenvolvimento, poderá permitir
compreender melhor as relações recíprocas entre factores
constitucionais e factores psicossociais.

Importa ainda ressaltar a valorização das interacções pessoa – contexto, o


estudo do desenvolvimento ‘no contexto’ e ao longo do ciclo de vida, o que
pode permitir:

- Apreciar as transformações e reorganizações biológicas e


psicológicas que vão ocorrendo,
- Analisar os factores de risco e factores protectores e os
mecanismos que operam no indivíduo e no seu ambiente
- Investigar o modo como as funções, competências e tarefas
desenvolvimentais que vão emergindo, modificam a expressão das
condições de risco ou de perturbação, ou conduzem a novos
sintomas e dificuldades.
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De acordo com ACHENBACH (1992), estuda-se a psicopatologia em relação


com as mudanças mais significativas que vão ocorrendo. O Modelo
Multiaxial ou Multidimensional (ASEBA) na Avaliação Clínica de
Crianças e Adolescentes, não oferece uma explicação teórica específica
sobre as perturbações, causas ou resultados, mas fornece uma grelha
conceptual para organizar o estudo da psicopatologia em torno das
sequências do desenvolvimento físico, cognitivo, sócio-emocional e
educacional.

Aparentemente, o que diferencia o comportamento normal do patológico, é


a frequência e a intensidade das queixas, muito mais do que o tipo de
comportamentos por si só. Portanto, o que distingue uma criança de uma
amostra normativa, de uma outra de uma amostra clínica, é a frequência
dos problemas comportamentais que fazem parte de um ou mais
síndromas.

Os dados epidemiológicos sugerem que a co-morbilidade afecta cerca de


50% dos casos clínicos, ou seja, cerca de metade da população clínica teria
mais do que um diagnóstico. Assim, por exemplo, existe uma elevada co-
morbilidade entre a perturbação oposicional desafiante e a
perturbação de hiperactividade com défice de atenção, ou entre
quadros ansiosos e depressivos.

Enquanto o ASEBA funciona mais como um processo estruturado de recolha


de informações, dando importância às competências (e não inviabilizando a
elaboração de um diagnóstico formal e categorial), o DSM IV analisa
categorias e destina-se mais directamente aos adultos.

ACHENBACH e a sua equipa construíram 3 Instrumentos de Avaliação:

- CHILD BEHAVIOUR CHEKLIST (CBCL) destinado a pais (de 4/18


anos) *
- TEACHER REPORT FORM (TRF) destinado aos professores *
- YOUTH SELF-REPORT (YSR) destinado à própria criança, de 11/18
anos*

São instrumentos do tipo inventário que contêm descrições simples de


comportamentos problemáticos da criança e que os informadores devem
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cotar com 0 (a afirmação é verdadeira), 1 (a afirmação é algumas vezes


verdadeira) ou 2 (a afirmação é muito verdadeira), para os últimos 6 meses
(excepto o TRF que deve ser respondido tendo em consideração os últimos
dois meses). Estes comportamentos problemáticos permitem a construção
de um perfil, estando os itens agrupados em síndromas.

A equipa utiliza ainda o SEMISTRUTURED CLINICAL INTERVIEW FOR


CHILDREN AND ADOLESCENTS (SCICA)**, entrevista semi-estruturada
para as idades de 6 a 18 anos e o DIRECT OBSERVATION FORM (DOF)**,
grelha de observação para 5 a 14 anos.

Identificam empiricamente 8 síndromas (factores ou sub-escalas):

- Isolamento
- Queixas Somáticas
- Ansiedade / Depressão
- Problemas Sociais
- Problemas de atenção
- Problemas de pensamento
- Comportamento Agressivo
- Comportamento Delinquente.

A SCICA (1994) engloba três componentes: o protocolo, com questões


sobre um conjunto de 9 tópicos, registando integralmente o discurso da
criança e os comportamentos, demorando entre 90 e 120 minutos a
aplicação; formulários de observação e auto-relato, com a codificação
respectiva, procedimento algo moroso; e o perfil, com sub-escalas:

- Ansiedade / Depressão - Comportamento Ansioso


- Problemas Familiares - Isolamento
- Comportamento Agressivo - Problemas de atenção
- Comportamento Estranho - Comportamento de Oposição.

O DOF (1986) é um procedimento para observação de crianças em contexto


escolar ou análogo, em intervalos de 10 minutos, atendendo aos
comportamentos e aos constrangimentos. Identifica 6 factores:

- Isolamento / Desatenção - Nervosismo / Obsessão


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- Depressão / Hiperactividade - Exigência de Atenção


- Agressão - Concentração na tarefa.

A Caracterização do Processo de Avaliação Clínica é estruturada em 5


eixos:

- Eixo 1: relato dos pais, englobando entrevista e CBCL


- Eixo 2: relato dos professores, englobando uma entrevista ao(s)
professore(s) e o TRF
- Eixo 3: avaliação cognitiva, incluindo testes percetivo-motores,
testes de avaliação da linguagem e testes de inteligência
- Eixo 4: avaliação física, incluindo exame médico e registo da altura,
peso, etc
- Eixo 5: avaliação da criança, englobando observação directa (DOF),
entrevista semi-estruturada (SCICA), testes de personalidade e o YSR ou
auto-relato.

Um dos aspectos interessantes deste modelo é a diversidade de


instrumentos de avaliação sugeridos, estruturando a rotina de recolha de
dados. Por outro lado, a semelhança dos itens e das subescalas, potencializa
a comparação das diferentes fontes de informação. Estes instrumentos
podem ser utilizados na avaliação inicial, na monitorização do processo de
intervenção e/ou na avaliação final dos resultados obtidos.

A avaliação inicial estrutura-se em duas sessões: uma com os pais, outra


com a criança. Fica ao critério do clínico a forma de integração da história
de vida da criança e da família (semelhante ao DSM IV). Existem estudos
empíricos portugueses já publicados.
* = tenho ** = não tenho

Psicopatologia do Desenvolvimento: trajectórias (in)adaptativas ao


longo da vida, Isabel Soares (Coord), 2000, Coimbra, Quarteto