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4. Tema: o mito como origem e fundação de Portugal.

5. Estrutura interna

. 1.ª parte (1.ª estrofe) – Definição de mito:


. Tese: «O mito é o nada que é tudo» (metáfora e paradoxo): é «nada» porque, dada a
sua natureza, não tem consistência nem fundamento, não existe na realidade, não é
um facto, mas dá uma explicação para todas as coisas, está na origem dos grandes
acontecimentos. Ou seja, é algo que «oculta» a verdade, mas também concorre para
a esclarecer;
. «O mesmo Sol que abre os céus / É um mito brilhante e mudo»: o mito é um
acontecimento habitual, presente aos olhos de todos, mas exige ser decifrado (é um
enigma - «mito brilhante» -, nítido, claro, mas mudo, daí a exigência de ser
decifrado), como o sol, que faz romper a manhã («abre os céus» - personificação).
Note-se que o culto do sol, de origem pré-histórica, está associado a grande número
de ritos iniciáticos. Por outro lado, de acordo com as conceções rosa-crucianas, o
mundo é o corpo de Deus. O sol é, para Pessoa, «a apresentação visível de Deus na
matéria criada»;
. «O corpo de Deus / Vivo e desnudo»: o mito é uma fonte de criação («Deus») que
aparenta nada significar («corpo morto»), mas é «vivo e desnudo», isto é, encontra-
se nele tudo, explicação para tudo, é um mito vivo, a luz celeste.
Como se trata de uma tentativa de definição, os verbos encontram-se no
presente do indicativo, que confere às afirmações um valor universal e intemporal.
Por outro lado, a presença dos paradoxos brilhante / mudo, morto / vivo, pretende
exprimir o quanto de indefinível o mito possui.

. 2.ª parte (2.ª estrofe) – Ulisses enquanto mito: o herói Ulisses, ainda que não tenha
existido, foi transformado em mito, através do qual se explicou a origem de Lisboa
(Olisipo > Lisboa) – representando Portugal, como sua capital – e projetou, por ser um
herói ligado ao mar e às viagens, o povo português para a glória, concretizada nas
longas viagens marítimas rumo ao desconhecido, vencendo, com audácia, os perigos.
Esta estrofe é a concretização da definição dada na primeira estrofe,
particularmente no primeiro verso: o mito que é Ulisses passou de nada a tudo, ao
dar nome a uma cidade e fazendo transcender-se um povo e um país, apresentando-
se como exemplo e apontando um caminho.
Ulisses «Foi por não ser existindo», isto é, ele é um ser mítico, portanto não
existiu, mas, também por ser um mito, existe na memória cultural de um povo.

. 3.ª parte (3.ª estrofe) – Conclusão: a lenda (o mito) fecunda a realidade, dá-lhe nova
vida, um sentido.
O mito é colocado num plano superior à realidade, à vida, que está «em
baixo», é só «metade de nada», transitória e mortal, por isso, quando não apoiada no
mito, definha, «morre». Só adquire vida aquilo que o mito fecunda. O mito
permanece, a vida morre. Dito de outra forma, sem mito não há vida.
Note-se, porém, que há autores que apresentam outra interpretação para os
dois versos finais. De acordo com essa interpretação, o sujeito poético aludiria à
morte como libertação ou energia redentora, numa perspetiva iniciática.
De acordo com a conclusão do texto, o que verdadeiramente importa não é a
existência real de Ulisses, mas aquilo que ele representa: o futuro glorioso de
Portugal só poderá concretizar-se através da vivência do mito e da energia criadora
que ele liberta.

6. A origem mítica de Portugal


Através deste texto, Pessoa serve-se da origem lendária de Portugal para
explicar a importância do mito e desta para explicar o que deverá ser Portugal.
Ulisses, o herói da guerra de Tróia – inventor do estratagema do Cavalo de Pau – e
protagonista da Odisseia-, é um dos grandes mitos da civilização grega, matriz da
civilização ocidental e, segundo a lenda, na sua viagem de regresso á pátria, teria
aportado em Portugal, fundando Lisboa, a futura capital do reino.Ulisses é tomado
como pretexto para justificar que o mito, embora um nada, é necessário. Ele foi
herói, resistiu, impôs-se aos seus inimigos, sulcou os mares, cometeu ou esteve na
génese de grandes feitos – como Portugal fez (o império real) e deverá fazer (o
império de base espiritual). O importante é que Portugal se encha de coragem e
denodo, para vencer a mediocridade do presente.
Ao recuperar esta lenda e elegê-la como um dos primeiros poemas
de Mensagem, Pessoa tenciona conferir a Portugal uma origem mítica que é mais
valiosa do que qualquer origem histórica. Além disso, a gesta de Ulisses ajuda a
explicar a vocação marítima dos portugueses, também eles ligados ao mar e às
viagens, como o seu mítico fundador.

7. Significado do poema e da sua integração na 1.ª parte de Mensagem

A Mensagem apresenta uma estrutura tripartida e uma divisão simbólica:


. Brasão: as origens e os fundadores da pátria;
. Mar Português: as grandes realizações e feitos marítimos;
. O Encoberto: o futuro promissor após uma fase de estagnação.
Este poema pertence à primeira parte. As origens de Portugal, como das
grandes nações, estão envoltas na lenda e no mistério. Neste caso, é o mito de
Ulisses, o herói lendário fundador da capital do nosso império, Lisboa, o coração da
pátria.

8. Recursos poético-estilísticos

1. Nível fónico
. Estrofes: três quintilhas.
. Metro: quatro versos de 7 sílabas métricas e um, o que finaliza cada estrofe, de 4.
. Rima - esquema rimático: ababa;
- cruzada;
- consoante («tudo» / «mudo»);
- rica («rudo» / «mudo») e pobre («mudo» / «desnudo»);
- grave («tudo» / «mudo») e aguda («céus» / «Deus»).
. Transporte: vv. 2-3, 9-10, 11-12, 14-15.

2. Nível morfossintático
. Verbos:
- as formas verbais escorre e decorre, no seu aspeto durativo, traduzem a ação
duradoura e persistente do mito: este espalha-se, propaga-se e eterniza-se de
geração para geração, por isso não morre. Aquilo que morre é o lado físico e material
dos homens;
- alternância de tempos verbais:
. o presente, na 1.ª estrofe, é usado porque se trata de uma definição do mito;
. o pretérito perfeito, na 2.ª estrofe, justifica-se por tratar de uma narração do nosso
passado, a origem, o ato mítico da criação; narra a origem e construção do mito
fundador de Ulisses; situa a sua ação num passado remoto;
. o presente, na 3.ª estrofe, justifica-se porque se trata de uma conclusão: a lenda está
presente e é essencial aos feitos dos grandes povos;
. as formas perifrásticas «foi existindo» e «foi vindo» caracterizam o processo gradual
da criação dos mitos e da sua ação; por outro lado, o gerúndio atribui à lembrança de
Ulisses um valor duradouro.
. Expressão adverbial «Em baixo» estabelece uma contraposição com o que o sujeito
afirma a respeito da dinâmica do mito: este abre os céus, é um deus vivo, ou seja,
vem do alto. Porém, a expressão «em baixo» refere-se à vida desligada do mito, que,
sendo «menos que nada», morre.

3. Nível semântico

. Oximoros:
- «O mito é o nada que é tudo» (síntese da mensagem poética): o mito é nada porque
não existe e é tudo, visto que dá explicação para todas as coisas e dele brotam as
forças ocultas que projetam os povos para as grandes façanhas;
- «Foi por não ser existindo. / Sem existir nos bastou. / Por não ter vindo foi vindo»:
estas afirmações exprimem o caráter contraditório do mito.
. Metáforas - imagens:
- «O mesmo Sol… / É um mito brilhante e mudo»: o mito surge como um sol brilhante
que nos abre os céus, palavra que conota perspetivas brilhantes, ideias de
heroicidade;
- «O corpo morto de Deus vivo e desnudo”: o mito é um deus que, parecendo morto,
vácuo, se revela aos homens como vivo.
Estas duas metáforas contêm elementos fundamentais e contraditórios do mito:
a sua irrealidade («mudo», «corpo morto») e o seu dinamismo («vivo e desnudo»,
«abre os céus»).
. A dicotomia ideal – lenda (mito) / real (vida) de caráter platónico.

9. Intertextualidade com Os Lusíadas

Tal como neste poema, também Camões, n’Os Lusíadas, recupera a lenda de
Ulisses, atribuindo-lhe a fundação mítica de Lisboa:
“Ulisses é, o que faz a santa casa
À deusa que lhe dá língua facunda;
Que se lá na Ásia Troia insigne brasa,
Cá na Europa Lisboa ingente funda.»