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DOGMA E RITUAL DE ALTA MAGIA -ELIPHAS LÉVI

" Ora, a multidão nunca conspira senão contra as potências reais; ela não tem a ciência do
que é verdade, mas tem o instinto do que é forte". 4

O cristianismo não devia, pois, dedicar ódio à magia, mas a ignorância humana
sempre tem medo do desconhecido. A ciência foi obrigada a ocultar-se para
escapar às agressões apaixonadas de um amor cego; ela se envolveu em novos
hieróglifos, dissimulou seus esforços, disfarçou suas esperanças. Então foi
criada a algavaria da alquimia, contínua decepção para o vulgo, alteração de
ouro e linguagem viva somente para os verdadeiros discípulos de Hermes”. 4

A aliança original do cristianismo e da ciência dos magos se for bem demonstrada, não
será uma descoberta de medíocre importância, e não duvidamos que o resultado de um
estudo sério da magia e da Cabala leve os espíritos sérios à conciliação, considerada
até agora como impossível, da ciência e do dogma, da razão e da fé. 4

A inteligência e a vontade, exerceram alternativamente o poder no mundo; a religião e a filosofia


lutam ainda nos nossos dias e devem acabar por concordar-se. O cristianismo teve, por fim
provisório, estabelecer, pela obediência e a fé, uma igualdade sobrenatural ou religiosa entre os
homens, e imobilizar a inteligência pela fé, a fim de dar um ponto de apoio à virtude que vinha
destruir a aristocracia da ciência, ou antes substituir esta aristocracia, já destruída. A filosofia,
pelo contrário, trabalhou para fazer os homens voltarem pela liberdade e a razão à desigualdade
natural, e para substituir, fundando o reino da indústria, a habilidade à virtude. Nenhuma dessas
duas ações foi completa ou suficiente, nenhuma conduziu os homens à perfeição e à felicidade.
O que sonha agora, sem quase ousar espera-lo, é uma aliança entre estas duas forças por muito
tempo consideradas como contrárias, e temos razão de desejar esta aliança: porque as duas
grandes potências da alma humana não são mais opostas uma à outra do que o sexo do homem
é oposto ao da mulher; sem dúvida, elas são diferentes, mas as suas disposições, em aparência
contrárias, só vêm da sua aptidão a encontrarem-se e a unirem-se. 13

A nossa obra tem duas partes: numa, estabelecemos o dogma cabalístico e mágico na sua
totalidade; a outra é consagrada ao culto, isto é, à magia cerimonial. Uma é o que os antigos
sábios chamavam a clavícula; a outra, o que as pessoas do campo chamam ainda hoje o
engrimanço. O número e o assunto dos capítulos, que se correspondem nas duas partes, nada
têm de arbitrário, e se achavam indicados na grande clavícula universal de que damos, pela
primeira vez, uma explicação completa e satisfatória. Agora, que esta obra vá aonde quiser e
venha a ser o que a Providência quiser. Ela está feita, e a cremos durável, porque é forte como
tudo o que é razoável e consciencioso 13

O homem que é escravo das suas paixões ou dos preconceitos deste mundo não poderia ser um
iniciado; ele nunca se elevará, enquanto não se reformar; não poderia, pois, ser um adepto,
porque a palavra adepto significa aquele que se elevou por sua vontade e por suas obras.14
A magia é a ciência tradicional dos segredos da natureza, que nos vem dos magos. 14

Para chegar ao sanctum regnum, isto é, à ciência e ao poder dos magos, quatro coisas são
indispensáveis: uma inteligência esclarecida pelo estudo, uma audácia que nada faz parar, uma
vontade que nada quebra e uma discreção que nada pode corromper ou embebedar.

Saber, ousar, querer, calar – eis os quatro verbos do mago, que estão escritos nas quatro formas
simbólicas da esfinge. Estes quatro verbos podem combinar-se mutuamente de quatro modos
e se explicam quatro vezes uns pelos outros. 16

O homem torna-se rei dos animais, somente dominando-os ou prendendo-os; de outro modo,
seria sua vítima ou seu escravo. Os animais são a figura das nossas paixões, são as forças
instintivas da natureza. 16

Aquele que aspira a ser um sábio e a saber o grande enigma da natureza deve ser o herdeiro e
o espoliador da esfinge; deve ter a sua cabeça humana para possuir a palavra, as asas de águia
para conquistar as alturas, os flancos de touro para cavar as profundezas, e as garras de leão
para preparar lugar para si à direita e à esquerda, adiante e atrás. 17

no domínio moral há duas forças: uma que tenta e outra que reprime e que expia. Estas duas
forças são figuradas nos mitos do Gênese pelos personagens típicos de Caim e Abel. 24

Na alma do mundo, que é o agente universal, há uma corrente de amor e uma corrente de cólera
24

O verbo perfeito é o ternário, porque supõe um princípio inteligente, um princípio que fala e um
princípio falado. 25

A própria gramática atribui três pessoas ao verbo. A primeira é a que fala, a segunda é aquela a
quem se fala, a terceira é aquela de quem se fala. O princípio infinito, ao criar, fala de si mesmo
a si mesmo. Eis a explicação do ternário e a origem do dogma da Trindade. O dogma mágico
também é um em três e três em um. 25

O ternário é o dogma universal. Em magia, princípio, realização, adaptação; em alquimia, azoth,


incorporação, transmutação; em teologia, Deus, encarnação, redenção; na alma humana,
pensamento, amor e ação; na família, pai, mãe e filho. O ternário é o fim e a expressão e
suprema do amor: dois se procuram só para ficarem três. Há três mundos inteligíveis, que
correspondem uns aos outros pela analogia hierárquica: - o mundo natural ou físico, o mundo
espiritual ou metafísico, e o mundo divino ou religioso. 25

- Há, pois, dois princípios contrários, um bom e um mau? – gritaram os discípulos de Manés. -
Não, os dois princípios do equilíbrio universal não são contrários, se bem que, em aparência,
sejam opostos: porque é uma sabedoria única que opõe um ao outro. O bem está à direita e o
mal à esquerda; mas a bondade suprema está acima dos dois, e ela faz servir o mal ao triunfo
do bem, e o bem à reparação do mal. 27

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