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Traducção de
BELISARIO VIEIRA RAMOS
(engenheiÍo ciyili

CIA. BRASIL IDITORA


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INDICE
Prelacio ib trdttctwt 5
Introdrcçfu 1í
PRIMEIRA PARTE
Coracteres funda,m'entacs ila phibsophb positirtu
Pludlosqhia Pnmciro 2f
I - À positivitlade 2e
U - À abstracção 31
III - A noção da lei .... 38
fV - Irreductibilidade das categorias de pheno-
- menos e immutabilidade das leis naturaes 4,
V Leis naturaes dos phenomenos politicos, ou
- leis sociologicas donde a possibilidatle tle
rtma sciencia social . 59
YI Coordenação subjectiva das sciencias abs-
- tractas conforme a sociologia ü1
VII Resumo da philosophia primeira 68
-
SECUNDÀ PARTE

Objecto
- dn ph,itosophia po§thlo Serte ency-cl'ope'
ilico itas sciencia"s abstroctas- Pltíbsophb se'
gunl,a - T6
I Instituição da série encyclopedica das scien-
- cias abstractas lr
II Exposiqão da série encyclopedica segundo gI
- escala objectiva
,.,^osinologia est.ud,o d.a áerro, Mathematica
_I -
II 87
Astronomia q0
III -.-- Physicà ... .
s0
IV -- Chimica ....... §[
-V
VI
-- Sociolo gia estuAo d,o nrrrne*, ni"logi, . 92
Sociologia propriamente dita sciãncia, so-
- cial x06
Estatica Social 110
Dynamica Social 1'[7
Moral 128
Moral Theorica 1E
im
Conclusão - .. xtD
À{oral theoric" .
13S
fnorat praiica- ... .. . ... . .. .. . 155
TERCEIRÂ PARTE
Cbnelusão social liÍt?
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ruPUL§O CONSELHO E)(ECUçÁO
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(B) JERAN.QIJIÀ TEÓRICÀ DAS CONCEPÇÕES
UNIVEBSIAÍ,,
OU qUADBO AINTÉTICO DA ORDEM
OU SÉfE üs
§EGUNDO UMA ESCÀIÁ ENCICLOPÉDICA DE CINCO

sistemátlco da ADE
FILOZOETÀ POZITIVÀ, ou conbecimento

Àbstrata" ou
n"l"ao f,-aamental da ezistên' 1.. MÂTEMÁITCÀ
1
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ESÍUDO
Ínrimelro numérica, depols geo-
'--àú"a' e enÍtm Eecâüica) l*u U
l-a DÀ IÍNBA, '
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OU celéste, ou Asmof'IoMIA EE-§à N
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x Concréta, ou 2'' ! sere.l. ou FIzIcA .. ' 3
Estudo diréto atrE órdeE matertol o
ETZICÀ
COSMOLOGIÀ
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"6proidamente dita)
especia|, ou QTTIMIcA ' 4
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Pstuáo geret ate órdem vitÊl
3.O l-a
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tr'inêl ou 4.. soclor-.ocrÀ . .. 6 1.4
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OU
Eetudo 'diréto da lcolettvo. ( próPrtÊmente dita)
, \es
SOCIOLOGIÀ órdêm huEÂna ',lrrdt tdrrt õ.. MORÂI,
(Bôb8do 24 de iulbo de 18ã2)
Pêrts, 10 d€ Dente de 64
col[18,
Àutor do § itê PílôzoliÃ' PozitioÁ e do §isúeflã
Pollt m PoÊltioo.
( 10, lÍotrslêur - le - Pri.Bct)
IX

Comte ioi leuado a hnaginnr que a cociedtde tambem ile'


lr.la estàr sujcita a leis noturaes: a eaistencta h,umqna ú,o
pod,erio ser mai,s arbitraria clo que o eaistencta astrono'
m,ôca. As ci.ttilisaçoes que se d,esenuoh)ern' as que desa'ppa'
recent, ds guerra,s que tcrn hauid'o, as legàsnções que se
f azem, t'utt'o d,ete ter sádo resultado rle leis naturaes d,omi'
nando as oontad.as ltumantas . O Ttoliteisrno succeil,eu ao
f etiahismo, o dmperôo ronxano d,esabou, o cathol,íctsmo tri'
umltltow, tudo osso detttd'o a leís naturaes supet-iores d,s
uonta,Tes h'un7ano,g .

Augusto Comte rprocurott (l,esoobtir essas l,eis . Jti


era urn ro,ag o d,e g eni,o e tl,e immensa d,ed,icaçd'o socÇa|,.
Quancto os ieus Yollego,s procuraud,m galgar as escadas
ilo Instiliuto, no intuito de satislazer d,s swas arnbições
pessoaes, Ãugusto Comte entregaua'se d,esintenessad'a'
mente d problemn h'umano.
sol,uçd,o d,o
Poi,s bum: aos 24 a,nnos, em 1822, Qtrtuessqndô uma
situaçã.o penosissima ( Augusto Contte era oltrigudõ a
trabath,ar oito horas por dia pwta oiuer), elle consegue
d,escobrdr as prdmciras lcàs sociologicas
.Essas tre'is sdo:
1.'?odas as concepções humanas passam por tres es'
tados: teologico ou ficticio', metaphysico ou abstracto, e
scientifico ou positivo .
2." Essa passagem se faz com uma velocidade pro-
porcional á gõneraúdarle dos phenomenos correspcnd-en'
tes. .&' issoô que enplica o facto de um mesmo cerebto
a,presentar, ao rnesmo tmtpo, os tres estailos, racioci'nan'
dio, po, e*ámplo, positioamente em mathsmatica, m9t-a'
pkysicamentà ent- biologi,a, e, teologicamente etn eocdolo'
gia
" eNomotal .

ponto tle tsista Tttatico: A actividade é a princi'


pio militãr conquistadoia, depois defensiva, e por fim in'
dustrial pacifica .
Descobeú.ds a§si"?.4s leis sociologiaas, Attgusto Com'
te inaugurou a a,pp:ticdção d.ellas ti reorgenNzação íld 8o'
<ned,ade, d,a ntesm.a mantei,ra qlrc na cvnstruVçdo rle uma
X
' DJlÉfqil,tloul o?,.rtlocuoc n a
'ocl,boloel fiLoot, o JrlrllreQrls à&àp anb úc?t\|uaic§ út Vlfiop rr§84 E
't?üwvurfi,H op 'sD..rEnqil e toonl?rllâtü| 'sa»'Lou 'sàFtttç4s§âreu 6.DI,
opunlucaeileJ ltÚ,p! oWruL I.t.tt .ttlLllaúoc ,J.tdutno '? o$I (*)
ti D,b a$uoc otll/tônv cy sDÔua?uag $punlold snp DMn
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ogu nulalqo.Lil as§e .Bu7n11I Dp Dpvp?"r,o?.tc{tt.t o noxvan2co.r'd,
'ppü!n oluroc ol8n6 ,v E\\b utà nzoc? niutlu 'uaq qo{
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oo .r,.|led,unc l}/.ul.,aap anb 8D o 't'eq\ng1 p -L?tad'ulo) lilD?fuàp
enb ieç\cunt sD ruuapr'ooc ep u?la'soroll sof, nynb-to"cN op
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-to4 'ottltyua@s J,as n!&op oc?"Loal .tapoil, oaou o enb oeeoil,
oD'ocxdoloal DJo ocllortloc o.Lcopr,acDs o lunÍ 'Dtpeq aWpI
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Tailnil, o Du$p
-oul rwpE?cos ou ozot ola,ep enb 'oc!,toeql upod, twt' ep
opôgngpttoc o otdtaa âpryDl,coe op opSoztu»d"tooú V
'uteluêg mb eegÜogmlrail, eD ut'àJwtloil&e
sagõ;Jhc sapuntí eop ouÀtpug q ap791
-'enb'4,r,otuo7co.til
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Dôde oncorth'ar em'fim' o' combrnaçdn d'o genio cotrl & gran'
rleza noral feminina, i,§to é, com a ternura e a p\treu' '

Quet' i,sso d,i,zcr que Augttsto Comte nã,o tioesse conh'eciÃo


õutras mullteres emimentes e pu'ras?
Nd,o. Mas, as outras erãm mais ou menos teo-:l'ogi''
cu,s; ao po,sso qtLe Cloti'lde era plenam'ente -emancipada, de
tat sorte qtr,e ã En reza e ternura n'ella só prottinham d'ct
encctlmcôà ite sí,.ct natu,reza, sem nenhuma rnescld ila 'i'n'
teresse pessotl ile t,gcontpensa ltúura ou terror'd'e casti'
go postunto .

Houue uma Mul,h.er cminente, Sophia -Gerrnann, que


pod,i.a ter olierecido ao nosso Mestre a combdnação -dc ge'-
hío e d.a puiezo. Mas em Sophia Gcrnr,ain-uma .Ceploraael
hnperfeiçã,o pÍt ysi,ca d'eoôa trcutralizar demasiado Ô l''§-
natilrát de tal cotr,juncÚo. (n) Em üotdlile, ao
"""arírti
contrario, ttrd'c ccruaomia Ttci a patedte r a suú emi'nenct"t'
tnolrJ ; t>ó'ltez«, qsít'ysica, aiÍ/tcilaaaes d'a uld.a, tendenci'as
t;t te,'i,rlas, qnc' o inry eítianí 1ta, a unt m,eio -potlco mot'ali''
zad,o. Auqusto Contic nã,c téue mais cluuid'a; teconh'ecetl',
crtrat:ez iíe Clotild,e , o oerdruleirc twTto iln nattt'rcza fe'
minina.
(^') Vide o Corresponden cis' de A't+!l tl$to Co,ntc e Clotildc cÜrtÍt
'
161. AlLi noaso mestre diz :
,,Felícíto-üo{ , ftois, m.inha nnbre e ter'nÍú Clotild,e' de q1rc o
uoceo bello pon;ir íntellectual upoie-se solldalnente aobre ulttú
pet''
leiçao moril td,nto fiollts segurü q.lltlttto telit'.eil esltontan'e'Í1nl''-nte {'
"euã
o\era,çfu Lnuolúntari'a ' Vós me eobreuileÍell bosto'nte ' espero
Lri. oorà wao'a", ,un dia glonlicat'.*oa' nrcymo 1)ublicdment ' ilú' P

lii"fii iàpnruca aTtrecíaçã,o . Q*an'to a ríüin1', conto qrrc a mírtlw


iir"Liír""2" tnÍatíllatei ôbterú' emlim il'tl Dossa sincel"ü n1l'd'Ltstiú
à pteciosa- autorim,çdtt d,e reniler cont:enientemente u ln honlena.
solemtte ü essd, 1tntuÍeza' ercepcionel, qtl«ndo nedÍL fossc' para
-Àtturo.ro
J1eín
áfld,irectarrcnte íro to.sao aefio 7an d,igno tA''Jo real' ntl'is
irtirà, ao qwe oc rnelhores demonstrações philosophica'e ' Eaad
ttlilr,nca unTca d,ecislra, do Wrezo, lnoro,l conl d' aupeiotlilnd'c
;;;i;í'rrd" ee rialieou,'em nãssos dias, stAia l,td' illustte 'ü'llrcr
ile quam üos confid,el a l,et unt entinente opuscLt'ío, gto'rént' tma de'
ploiooet, dnltrtet'Íeàçdo ptlgslco, ileü14, entúo 'noutreiizo,t' ttLulto o dÉcen-
dentc natuiol'ilo- tal- cõnfuncto, cnlo íntetro ualnr, segun'do etperc'
uos esÍd rasel.:.jÍ]da lozcr etnlhn centlr digfidnnêntd'.
..rli.ri,-
'

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-. Ora, d,osde entãa a ph,llasopttda se transformow am


rcl,igiã,o. O que oem a ser a reiiglã,o? Muita'gente pen_
sa....(apeaar úe que o bom senso ou,lgar jú reóonh,ecàu o
aontrario, corno o mostratn as erpressõei _ relàgiã,o do
deuer,_rel,ôgi,ão d,a honra etc,) . . .- muifa gente pen*a que
rekgid,o é o mesmo que teolagismo.
A religüo é a systematiaação compttet:u d,a oid,a hu-
mana, indiuil,ual, e aol,lectdoa; é a coorãenação to:tal, da
eaistencia, ílo physico e d,o moral: d,o sentimento corno
ila intelligencia e datactitid,ad,e. Isto é que é relôgião, E,
a coord,ernção de to(la hora, il,e toilo instanie. ás cousos
m,ais groesei,ras se ennobressenl, coyn a ietiàtdo,
f)orEue
nossa al,ma nãn ofua senã,o apoidd enx rlosso cirpo. A
litsro d,o maiar dns trngsti,cos, Thomaz d.e Kempôs, reôonhe-
ceu isao. A religião é obra da Yoila kt Humaniilad,e. Sen
religid,o nã,o ha eaistencôo posshseÍ,. Áquel,es que ilizenl
não ter religião, gttdl'dern, guer qneiram quer não, os iles-
troços ila rel,igi,ão das su,as Md,es. Nos templos, odnxoo tv-
temperar essa unid,ade reli,gtosa, que os attri,ctos do oidn
tend,em a abalar.
Com e.fÍeito, na uid,a publ cd,, rm, uid,a il,o homem so-
brétudo, ilão-se attrictos contdnuos, que tentlem a íles-
úar ila unid,ade reli,,qàosa; nã,o t«ssim na uda da Mulher,
que é um acto .d,e cul,to cotttür,tíad,o, utn eretcicôo constan-
te doa instinctos sympathicos; os at ran.ios fu. casa, os ser.
oiços mais modestos, m.ais repugnantes rnesrno, tuclo é
o d,m,or quê ,noüe; é quem, diri4e o braço. Com o hotnem
é o contrarío; nã,o é a sympathia ctue o estin ul,a em ge-
ral na oida ,prdtica, sã,o ns eoci,taQões il,a aobi4a, d,o or'-
gulho e d,a oaid,aile, Precisa, pois, d,e qu,ando e,tn, üez re-
temperar o seu altruism,o i prvckü roconcentrdr-se, efi,t,
momentos artifictaes, pa,ra pensar em, eites quc só desper-
tem o amor. .8, ,isso que é a oração.
Ha muita gente que ili,z que só comprehnnde o pu-
drc.na igreia. Mas, (leante ilo ilesôala,bro que arruina a
socôefud,e, o sqcerilocio catholi,co ou qtnl,quàr outro ha ile
oru)ãar os bro,çoe? EUe entàndn, por Güetlplo, que.o cd-
..?
x/
fififrnto cirsi,l, é un mal,; d,ooe calar-se? Não. TotL ile
prpgctr ç coitrario, tem de faaar propaganda il,e tna, il,otu
trina. O que é preciao é qu,e o laço por &M conta.
Mb.s é indispensatsel, taú,fum que a propaganila aci-
entiliea e metagthysica se laça nq's mesrnas cond'içõee, E:
itúeressante: não qucrerh sltstentar o genesis, ríLqa 8u3'
tmtam o monismo, o translormôsmo, etc!,,, A liberiladni
espiritual detse ser para'todos. Si a mnasa popúlar nílo
quizer accedtat a nosla. d,owtrina,... Pq,ciencia! Nós nd,t
queremos) nern pard, nós nem para ninguem, o apoia do
th,esouro e d@s |fu,ôonetds .
Nós, positictistaa, não temos rsnhumd antipoth,i,a For
nenhum sa,cerilocio, aeja conficista, tittilista, cath,ol,lco,
etc. A tod,os rend,emns nosga lr,ornendgern, ?tlo,s com a il,e-
nenhum saeerd,ocío, se i ü conf ucista, bud,hlsta, catholico,
Dq,hi o maior preito que rend,ernos d,o so,derilocôo catho-
lico, ytor cujo ônherneilio recebemos a herança ile todo o
Pussado.
Essa relàgi.ão positioa, portanto, Augusto Cotnte fun-
d'ou, et|stamatizailo a ct tura ilos instinctos al,truistos .
Não ha naila granile sem o altruisnlo. Efiercdtemos o al-
truisrno, Ttratiquemos actos ile altru,ivno, contemplemos
quad,ros de altruismo nel,a i,ndustria e pela d,ite, d, üerild-
deitta arte, aEntl,a gue s6 i,ileal,isü o qu,e ht ile iligno na
na,tureza humana, e ndo uma reali,d,a,ile grosseira, Assôm.,
por eaemplo, a Mulher tem uestes; é portanto, só nessos
oondições que a deoemos ieytroil,úzi,r. Entrvtanto, leoan-
tam-se estatuas d,e mullr,eres nuas. Que arte é esfi? Com-
prehend,e-se que tribw eeltsagens se estaziem nd, contenn-
placã,o ile esttúuas de mulheres nua,s, porque oi,oem nesse
estailo ahi; mas nã,o se comytrehendte isso em nopulaeões
eioàlisad,as, a nrto ser nk reproducção ilos quailros seloa-
gens, senx perda liustamente ilesse engrtniledrnento rnotal
que realiza o coniunnto (la cioili^saad,o. (muitos aplausos).
Pois fum . O calto positdtsista é o enercicr,o 'ilns i,ns-
tinetos altruistas, meiliante d contqrLpldÇõ,o de tudo qtkn-
to é oerdadairamente grdnde. O dogma é o conjuncto il'o
XV'

sabúr pooitiüos: o, acàancia,, redl,, uti,l, clara, orgatuiotr, tela,-


tiua, e sympathica. Não dá eupl,àcaçd,o do mwr,il,o. Qu,al a
arigem il,estc? Nd,o ss,bemo§, rwm precisamos sá,ber. Te-
tnos d,e agir sem a solução desses problemas th,eologicos
e metaph.ysicos, e só com os conllecàrnentos ila sciencia po-
sdti,ua. E' corno o nauegante: tem,em torno ile si, sómen-
te os mares e as estt'etlns, cot;tsitlta os astros, rztio como
axtrologo, mfrs corno o,stronorno, laz os seus calcul,os, e,
como tem contiança, na construação §a nauào, prosegue
na sua d,errota conl aegurünça. Esse é que é o nosso d,og-
n7a, que ánsytit'a a nossa i,nd,ustria e nossa poli,tàca, como
a nossa rnoro,l.
E o nosso reginen? O nosso regàmetu é a oystemati-
zaçã,o da paa, iustamente graças ao al,truismo esclareci-
do pela sciencàa positiua .
Logo, par.u d,ar a solução d,o probl,ema prol,etq,rto, pre-
cisamos d,izer quaes sd,o as leis ila organizaçã,o social,
ta,nto no nonto ile ulsta estati,co, corno no ponto d,e oista
d,ynamàco.
O ponto d,e oista estati,co consi,ste na consdd,eraçõ,o dc
tud,cto que obseruamos em tod.ds as sociedailes hurnands,
em qualquer tem,po. Ora, por'tod,a narte, desile as tribus
sel,oagens até ás nações níai,s c'Lvi,lisadas, nõs encontra-
mos senlpre estes cdnco elem,entos": 1-' O Capdtal, 2.'
A Familia. 3.' A Linguagem, 4.' - Á Autori,ilaile
-Tem,poral, 6 $.o -A Autorid,ad,e Espi,ri,tual-
.
-
O conÍerencdsta d,ôssertand,o sõbre estes ainco el,e-
mentos, d,e que a Sociedade se cornpõe. mostra oue el,les,
melhorados, sltstema,tisod,os, e princípalmente, ilirigid,os
pelo altraismo, trarã,o a d,esejaila, soluçã,o d ou,esã,to soctal,
poi,s oue, "pd,ra saluiar a Humanidad,e só o que preci,sa-
mos é: amor, mai,s o,rnor e sernnre dnto'f'.
Que a trailucçã.o ila parte deste ldtsro, que se reÍere
d obra d,e Augusto Comte, traga proueito 'aos d,estino de
nossa Patria,, é toda a esperamça il,o

TnaoucroR
Introducção

Não ó facil resumir em poucas paginas táo consr-


deravel conjuncto, oual é-a philosophia positiva; menos
facil ainda ê e^pc. iob formà famiiiar ideias táo eleva-
das . Tcdavia, a importancia clo assumpto vulgarisar
o que cremos' ser a mais forte concepção geral - e a mais
verrda.deira, entre tantos systems"s que até hoje clispittatn
a adhesão do 1:ublico nos cleciCiu a tentar a emllicsa '
-
Trez granrles maneiras de comprehender as cousas
a theolõgia, a metaphysica e a scienctâ quasi con-
-temporaneâs na origem, ainda que táo aiastadas - pela ve-
lociáatle de seu desenvolvimento, e relativâmente a serr
apogéo que se é forçado a encaral-as como successivas,
partilham hoje o eterno dominio de toda a philosophia: o
crplicaçã,o clo mtmdo e do hom,em .

Â.incla que, tendo sobretutlo as duas extremas, sutr's


raizes nas primeiras manifestações do pensamento hu-
mano, ellas teem na realidade tratado, uma apóz outra,
cle maneira ccmpleta, o grande problcma que impõe,á
nossa intelliget cia a necõssi'Jade cle conhecer o duplo
meio onde temos de viver e nos desenvoiver c mundo
exterior e a sotiedade o agente da evoluqão- huraana e
o theutro sobre c, qual -elle deve realisar seu destino.
 philosophia theologica or.r a explicaqáo sobrena-
tural das cousis pelos deúes ou pelo Deus' trcuxe a pri'
meira. soluçáo. HÍas. sua.s effirmaqões desrnentidas pela
experiencia, estão hoje cada vez mais abandcnadas. Àpoz
tei dominado por toda plrte, ella vio chegar seu declinio'
e neste mome"nto assistimos a desa.ppâ rição eccelerada
entre os povos mais a,diantados, dessa synthese antiga '
 metaphysica tambem, ou a ontologia' que explica
ROB INET

tudo por abstracções personificadas, por enticlades,


-
das quaes a Natureza no que coneerne ao irundo, a Alma
quando se refere ao homem e o Potso quando tem em vis.
ta a sociedade, representam as principaes, apoz ter
minado longa e surdamente sua predecessora, - a substi-
tuiu finalmente no dominio philosophico, em todos os es-
piritos activos que, ainda hoje fornece á politica suas
formulas geraes e serve de estructura ou alicerce á ürs-
trução do Estado nos collegioe d has-faculdades.
Por fim veio a sciencia.
Nascida, com os primeiros ensaics de numeraçào, na
mais longinqua antiguidade, por assinr dizer nos confins
da animalidade, ella se constituiu e se extendeu de seculo
em seculo, de modo a invadir successivamente todo o do-
minio da tehologia. e da metaphysica e ar substituir, fi-
nalmeute, com suas explicações reaes, âs approximações
chimericas e necessariamente provisorias c{a.s duas men-
talidades sobrenaturaes.
 sciencia explica agora o mundo, o homern, suas
propriedades respectivas e a sociedade, segundo seus ele-
mentos constitutivos, suas rêlações reciprocas, sem o au-
xilio de vontades arbitrarials ou divinas, nem de outra
qualquer entidade .
E' precieo advêrtir aqui unicanrente que, sob o pon-
to de vista philosophico ou geral, a interpretação scienti-
fica se desdobra, e constitue em nossos c1ias, dous corpos
de cloutrina muito differentes, uma, a syntliese objec-
tiva, o Materialismo, e outra,-a synthese subjectiva, o
Positiukmo .
A primeira destas philoscphias, não liber.ta Ílinda da.
tendencia para o absoluto que é o caracter logico funda-
mental da theologia e da metaphysica, pretencle com es-
tas, dar respostas definitivas a todas as questõeÉ: ori-
gem e fim das cousas, essencia dos corpos, formação pri-
maria dos seres, de ma,neirá, 'a fornecer, partinilo, soJa,
do ume materia amorphe omnigeradora, scJa dê ume mo-
leculo tndlvlsivol, o "atomo", considerado nÉo maie eomo
PHTLOSOPHIA POSIÍIVA 2l

uma orcs!ào do nosoo erpiritot ou um ertiÍicio do lo5ioo,


uraE coEo exirtindo rÊalmente na tr8tureza, Por um co-
tego de trenstormaçõe8 indetinitas, uma serle homoge-
ne8, uln eucadeamento perteito de individuos, §em hto-
úna, Bem nrptura, Bem uehuma solução de contÍnuidade.
D' este, o materialiasmo propriô dos chimicos, dos natu-
relietas e dos physiologrstas. Quanto ao dos mathe'
maticos, consiste em fazer entrar as leis dos phenomenos
mais complexos e mais especiaes naquellas de factos maig
gerees e mais simples, por exemplo, em querer reduzir
oB pheuomenos vitaee e mesmo moraes a estrictas ques-
tões de movimento, ou ás leis da mecanica , Tende a re'
duzir todos os acontecimentos a uma unica categorÍa, e
todas as leis dos phenomenos possiveis, a uma só lei ma'
thematica.
Elm seu conjuncto, o Materialismo propõe pois, conr
dados em parte positivos e em parte utópicos, uma ex'
plicação metaphysica do mundo e do homem. Para se
convencer disto hasta lembrar a ideia que elle dá da ma-
teria, que proclamu como ouüros o fazem com a divin-
dade : "sem limites no espaço como no tempo, infinita e
eterna"; ailegação absolutamente inverificavel e que só
tem criterio na imaginação daquelles que a sustentam .
O positivismo, ou a philosophia das sciencias, pelo
contrario, só especula sobre os materiaes accumulados
pela observação e sobre os factos ensaiados pela experi-
mentação; afasta necessariamente as conjecturas arbi-
trarias, todas as hypotheses não verificada.s Eobre a ori-
gem e o fim das cousas, sobre as causas primarias e fi-
naes, sobre a essencia d,o§.se-res, sobre a reductibilidade
illimitada dos phenomenos e dos corpos, sobre a transfor'
mação das forças e a transmutação das especies. Procura
o coÍno e não o porque, o estado real dos corpos, suas pro-
priedades constantes, as relações espontaneas dos pheno'
menos, as leis naturaes de suas reacções reciprocas. Em-
fim, na interpretação do granile todo, elle estabelece a
unidade, não em relação â eua naturesa propria, que não
)) ROB INET

ha. em parte a-lgumu, mâ§, no euteudimetrto humauo, fa'


zeirclc u classificaçáo das pi'o1:riedadcs, e em seguida e
dos sercs que as manifestain, em relação á Eíurnanidade.
E' unia coordenação airstract: concebida sob o 1:onto de
vista clo homcm ou do su.fb,:úo, e não sob o clo mundo ou
do <sb jecto .
As ciuas synthestls sioirrntificas modertras, abordan'
o mcsmc probletna, o ti'atam pois, de maneira abso-
ci<.r
lutamente differente, o Materialismo conservà em §eus
reativos intellectuaes, um mixto de a'osoluto, de meta-
physica ou de theologismo limitado, e procede sobre tudo
no-ponto de vista concreto; o I'ositivismo regeita qual-
quer vestigio do sobrenatural e só age sob o ponto de
vista ahstrncto para alcançar o conjuncto da realidade.
Esta é a ma.neira de ver, tão nitiilamente caracte-
risacla e tão differente de qualquer outra, conhecida sob
o nome de philosophia positivà, que temos em mira re-
suríir aqui;ó a construcgãc adrniravel de quc Augusto
Comte foi o poderoso architecto. Ellc concebcu sua lre-
cessidade e formou seu piano, intloduzindo ahi todos os
rnateriaes preparados pelos seus antecessoreg e aquelles
que scu proprio genio lhe pernrittiu reunir e coordenar.
Eis aqui comcí elle rnesmo reconhece esta immensa
collaboração:
"Desde que a situação afasta toda tendenci;r pura-
mente negativa, não ha, de verdadeiramente desábredi-
tadas entre as escólas philosophicas do ultimo seculo, se-
não as seitas inconsequentes cuja preponderancia deve
ser ephemera. Os ciemolidores incompletos, como Voltai-
re e Rousseau, que acreditavam derribar o altar conser-
vando o throno ou reciprocamente, estáo irrevogável-
mente decaidos, apoz terem dominatlo, segúndo sef des-
tino normal, as duas geraçôes que pr?pararam e -com'
pletaram a explosão revolucionaria. Mas, depois qqe -a
reconstrucqáo entrou para a ordem do dia, a att-eriQáo
publica volta-se cada viz mais para a grande e immor{al
ôscóla de Diderot e de [Iume, que realmente caracterisa
PHILOSOPHIA POSITIVA 23

o XVIII Beculo, IigaDdo-o ao precedente por Fontenelle


e ao seguinte poi Condorcet. Igualmente emancipados
enr religlão e eir politica, estes possântes pensadores ten-
diam nlecessariamente para uma reorganisaçáo total e
directa, ainda que ccnfusa devesse ser a noção dessa re-
forma. E' de uma tal escóla que eu me honrarei sempre
de descender immediatamente por intermedio de meu
preclrrsor
- "À'esta essencial, o eminente Condorcet. . ."
grande fonte historica. tenho constantemen-
te ligado tambem o que offerecem de l'erdadeiramente
eminente nossos adoersorios, quer theologicos quer me'
taphysicos. Emquanto I{ume-co4stitue meu prlncipal pre'
cursór nhilosopliico. Kant se acÀa á elle accessoriamente
iigado;^sua cóncepção fundamental não foi verdadeira'
mãnte systematisáda e desenvolvida senão p-eio Positi'
visrno (i) . Do mesmo modo, sob o aspecto politico, Con'
dorcet deve ser ccmpletado por De Maistre, de quem as'
simiiei clcsrlc minha iniciação, todos os principios essen'
ciaes (2), que não são mais àpreciados agora scnão peta
cscóla posifiva. Taes são, com Bichat e Gall. como pre-
cu"sore.'= scientificos, os sei§ predecessores immediatos
riue rne ligarão sempre aos trez paes systematicos da ver-
á.,á"i"o piitosopiria moderna, Éacon, Descarte's e Lei-
bnitz. Em virtude desta nobre filiação, a edade media'
intellectualmente resumida por S . Thomaz de Aquino'
Itogerio Bacon e Dante, me sttbordina- directamente ao
priãcipe eterno dos verdadeiros pensado'res, o incompa-
ravel Àristoteles" (3)
A philosophia- positiva termina, pois, realmentê a

(1) Á. di6tincqào do subiectlvo ê do objectil'o '


ieÍ .e' ""patrçao dos poãeres espirituâl e temporal R'
fgi eugusto ôomte, Ôatecismo positivista, prefacio ' -
ôomte ãasceu em 1b de janeiro de 1?98, eú l\Íontpêllier, de
unr& familia burguêsa (seu pãe era caixa da recelta -geral do de-
pi"ir*""t" a.-Éeraurti . Cào elle fol posto no lycêo, -onde náo
tardou em mostrer faclltdades excepclonaês pat'â o aprendlsado das
tettras e sobretudo pare as sctenclâs, e uma força' de esplrlto §ln-
24 ROB INET

revolução mental comeqada sob Thales e pythagora"§ pel8


fundação da mathematica abstracta, base essenciaf de
todo o regimem scientifico. Esta revolução, espontanea
na antiguidade, e coordenada, a seu tempo, por .A,risto-
teles, foi percebida por Descartes sob seu aspecto syste.
matico quando elle assignalou ccmo devendo convergir
para a reforma completa do entendimento humano, apoz
a substituição da sciencia á theologia e á metaphysica
f,'ol continuada da maneira a mais vigorosa e mais de-
cisiva durante o seculo XVIII, por Ccndorcet buscando
estabelecer uma theoria positiva da sociedade, e por Bi-
chat, GaIl e Cabanis, que se propuzeram dar uma crpli-
cação positiva clo homerq; e foi finalmente completada
por Augusto Comte, no começo do seculo XIX pela fun-
dação da sciencia social e pela instituição da serie en-
cyclopedica das sciencias abstractas, que consagram a
passegem para o estado scientifico, de todas as ordens
de pesquisas possiveis.

8ulêr, qlle logo ao salr da infânct& o lnduztu a uma c.mpleta


emanclpaçã.o theologlcs.
Âos qulnze B.nnos, fez elle aos dlscipuloe de gua classe, sub.s-
tltulndo o professor doente, o curso completo de mathematlcas es-
peclaes. Aos dezesseis, entra.va para a escóla Dotvtechnlca, saindo
dols annos depols sem poslçã,o nêm compensaçEo êlguma, no tompo
do llcenciamento da escóla pelo governo da HestauÍs.ção
Em sêg'uida fixou residencla em Par:ls como proÍêssor d-o ma-
themetlcas, para náo mais se sJfastar. Fol o seu melo dê exls-
tencla.
Me6, Buê naturesa o impulslonave; consagrava todo o tempc,
dlsponivel ú. fundaçáo do Posltlüsmo. E' Lssirn qrie, fóra do seu
enslno proflssional elle chegou e publtcar em differentes collecções,
de 1819 a 1826, uma série de opusculos Eobre a politba consi,7eru,ile
como sclenckr d,e obserDd,çõ,o (l) .
Dê 1826 a 1842, por medttações lninterruptas, em cursos par-

.. (7)deApreci.uçdo
(Abril 1820).
sunl:na) id, d,o conjuncto do trtd,ssado mnile.rno
pla,no dos traballlos sci,entificos necessttrios
-
fd.d, Íeorgonisdt. a seciedaile (MaIo de lg2?) . _ Conoid,erd,çõeg
eobre o pgiler espíritud,l (Marco ale 1826).
PHILOSOPHIA POSITIVA 25

tlculoreo ou tIçõ€§ publlcas por molo da luprenra, 6lle clebor€.Ya,


sob todos os aspectos essenciies, o systems de pb!,o6oPhla poEltlv&
que nã"o delxou de ampliar at6 seus ulutDo€ dlas (r) .
- Àugusto Comte não tnterroEpla com lsso o reu enalno sclon-
tlfico piopriamente dtto, quêr em aua co8a, quer DÊg dlversoe lna'
titulçõãs, quer na lssoótagão llvre, ditB Polltecbnlca, de que elle
foi pron:otor e uln dos fundadoreE. qucr emflm nâ EscólE Poly'
tecúlca, onde fot Bucc€Êsttimente, de 1830 Ê 1848, repetldor s exê'
minedor',
Publlcava em 1843, um "Tratsd,o elemetúor ile goartuetrlÍt orti'
l,lttlca d, t2'ez ilimensões" e em 1844, um Trdtoilo philasPhíco ile
attrotwmlo popular .
Flns.lmente, dosde 1848, ellê deu á 8ue ecção e á seua tr&be-
Ihos um caracter me,ls dlrêctamente socl&l. Asslm, publlcou €m
L852, o Ctttec'lsnta posititlsta, em 1855, O Appello ctos Conscn)a'
dores,, e de 1851 a 1854, eu8, obra capita,l, o Basten$ de Ttolltlm'
postrtll,\s. Ào megmo tempo, prope,gav& em curso§ publlcos, o con-
Juncto de sue düttrlna, fundava a. Socleds.de Posltivlste porê pre-
parar nesta, sua applicâqr1o, e iniclava a§ plimelras menlÍesteções
do culto da Humanldâde.
No momento em que elle la começar a redacgÁo de um Tre-
tÊdo de moral poslttva, cujo plano e todas as partes já m a.chLvo-Er
traçados em seu pensamento, e que devia formar e Ee8unda ilarte
cle sua Synrrà€sé subio€tiDo,, (aos 59 anno8, 7 mezêâ e 1? dl*B) a
morte o veio surprehender (5 do gêtembrc de 185?) (3).

(L') Oured ile Pbilocopkia Posítl'Dtt, obre fundementÂI, €tu act$


volumes 1830-1842) . Diorl.ffso aobrc o eslnr|to poeiúioo (Fev. de
1844). Sgsteno ile - politlad ,ltosltiua, tretâ.do dê Soclologis, lno'
Utulndo- a rellBláo da Humanlds.de, (4 volume§) (1851-1854) , or
tres prlmelros §âo relâ.tivos ao dqsenvolvlmento e ao apêrfêlçoa-
meDto de phtlosoptrte positlva; o quarto, quadlo do futulo hrlmallo
com a a.ppticBçáo declslva 6, reorganlsaçü.o d8. sociedÂde. -- 8!,í-
these aubjectiuo, ou o systema unlvers&l de concepções pmprla'g eo
estâdo normal de Humanldade; 1.' volume (Loglcu po{r.tirxl\ s
unlca nâ.o acabeda (1856).
()2 hdtcamos ao8 loltores que quelrÀm detslhes biogt npiricos
§obre o fundâdor do PoÊltlvlsmo as obraE se8uintes: Lettres d'A1t'
gltsto CdnTte d M. Vela,t, 181õ-1844, colleção essenclal, L vol.
em-8.'; Pari§, Dunod, julho, 1870. I'ettres i[ Augüste Comte ii
lolln Etuatrt Mill, f84L1A46i 1 vol. -em-8.', em c&sa de E. Leroux,
L877. Aperçus générau.s s.r la iloctrirte positít:iste, por À. M.
-
de Lombreil; 1 vol. em-13.u, Capcuc, 1858, Notice sur I'oeuçre
e sur 1,, oie il'Auguste Comte, pelo dr. RobineL; - 1 vol. 6m-8.", 2.4
ediçÉo, Dunod, 1860 Do VlLt ité ilo lq' via et d,e ld iloctrlfle d;Au'
-.
z6 ROB INET

gttate Comte, por M. Anclré Poey; em-12.o, GeÍmer Baillicle,


loi d@ trois éroús, respost& á M. F enouvier,
- La
Dunod, 1867.
por E. Semerie; trochura em-8.., E. Leroux, 1875. Iú. Littr.é
- Bei.Iliàte,
ct A1L!) kste Comte, po| M. Ándré Poey; em-12.", Gerrner.
Par{s, 1879. Bíographical hístory oÍ philoso?llA, por G. H.
Lewes; em-8.",- Parker, I,ondres, 1857. -,- La Rettte bcci(lp-ntolc,
opusculo e corre8pondencis,.
Todas as pubtic&ções da e8cóla po8itivlsta se encontrarn na
Iua Monaieur-le Pdnce, n.. 10, Parig .
PRIIúEIRÀ PAITTE

- IiACIERES
C.r\ !'UND:\MENTAES DA PI{ILOSCPFIIA
PCSiTIVA PHILOSO.'HIA PRIMEIEÂ
-
t

l. A positividado
-
Qual é o estado positivo da razão humana ?
Para o theologo, referimos á4ueiie que crê e quc
ainda não fez neuhuma concessâ.o ás ideias modertras, o
rnio por exemplo, é um effeito direeto da intervenção
da divindade, sob qualquer noÍne que a personifique; é
um acto da sua vontade. Quer se trate de Jupiter pagã.o.
ou do Deus dos catholicos, o raio é sempre um instru-
mento das vinganças celestes, e não ha para os crente§.
que queiram desarmar a colera do Todo Poderoso' se'
não os meios apropriados.
Ao contrario, pera o sabio, o raiõ náo ê senã,o a re'
petiqão em ponto grande de uma expertencia diariamen-
te feita e á Eua vontade em ponto pequeno em seu labo'
ratorio, quando estabelece'o cantacto de dous corpos
electrisados de maneira differente.
Tal é pois, a natureza funilamental. absoluiamente
distincta, dô espirito theologico e do espirito scientifico.
assim como daJconclusões a qrre êhegam: o primeiro não
vê em todas ag cousas senão a acça-o de um poder so'
brenatural em face do qual, a unier attitude propicia é
a do crente respeitmo que deve curvar'§e fazendo pre'
ces, ou ouíiras démonstrações analogas, áfim de a tornar
favoravel; o segrndo náo vê êm tudo senão proprieAades
naturaes e relações invariaveis cujo effeito pode ser pFe-
visto e vantajoiamente modificado por uma, §abia e cla'
rlvidente intervenção do homem, Porque, no caeo do
reio preclsamente, atnda que sue e*senela seje ebsolutc'
30 ROB INET

mênte desconhecida, é perfeitamente conhecido o seur


modo de agir, para poder, em grande numero de casos,
prever seus effeitos e afastar seus êstragos.
Emfim, entre estas duas maneÍras de explicar as
cousas, vem se colocar historibamentE um terceiro metho-
do, que serve de intermediario, e que consiste em attri-
bruir a producção do phenomeno, não mais a vontades ar-
bitrarias ou divinas que o provocaram a seu bel pra-
zer, náo mais a factos naturaes que determinai'am suas
relaqões de successão e de semelhança, porem sim, a prin-
cipios abstractos, tendo, fóra da materia ou dos corpos
nos quaes se maniÍestam, uma existencia propria, inde-
pendente, absoluta. E' o metaphysica, intermediaria ine-
vitavel entre a theologia e a sciencia, entre as concepções
thcistas e as explicações positivas.
Retomando o e:remplo precedente, emquauto o raio
não é para o theoloE;o senão o producto directo de unra
vontade divina, emquanto o sabio não vê ahi senão a
consequencia inevitavel de uma propriedade das nuvens
electrisadas, o metaphysico prccurâ para esse caso, tt
acqão de lluàdos electricos do qual elle concebe a exiJten.
cia essencialmente distincta dos col'pos, e suppõe dotados
de qualidades proprias a deter,minar tão temiveis effeitos.
Assim, o fundamento proprio do estado positivo do
espirito humano, o cer'âcter essenciâl da mentalidade po-
sitiva, é afastar tudo que venha da imaginação na ex-
plicaçãc das cousas e só procedel" por constataqão real,
por obsentaçd,o; é eiiminar todas as supposiçáes inde-
monstraveis e inverificar,-cil, c r;c li:Liritar a observar e
constatar relaqões nâturaes, afirn de prevel-as para mo-
difical-as em nosso proveito logo que se tolne possivel,
ou para suppcrtal-as convelientemente Iogo que seja iu-
eccessivel ao nosso poder. E' a.incia, desde que os sercs
sejam enumerados em seu conjuncto e conhecidos sob o
aspecto concreto, investigar as propriedades que ellcs
possuem e estudar cacla uura dellas, abstracção feita dc
qualquer outra e do proprio eorpo oncle ella se obscrva,
PHILOSOPHIA POSITIVA 3r

de maneira a oclrstatar seus effeitos e suas relações. E'


emfim, grupâr' pelas §ua§ affiDida'de§
-suaestas propriedades
naturaeÀ e complicâção espontânea.
Obseroar c raciõcinar, tal é pois toda a philosophia
positiva. A esta proposição devemos dar algum desen'
volvimento-
ll. A abstracção
-
À primeira concepção futr<latnental da pt-rilosophia-
positivf consiste na distincção que eiia cstabelece, para
õ estudo dos corpos, entre os seÍes e os Tth,enomenos, o'r)
as propriedades communs aos seres.
Nà multiplicidade infinita dos objectos rlue- the offe'
rece o espectatulo do rnunrlo, o homem não vê.de relance
senão o conjuncto, úodos, individuos produzindo actos
sirnples. Só no firn de longo tempo é levado a decompor
cadã um clos seres que observa, cada ttma das acções que
o impressionam, e ã Êepârâr' por uma operaçã-o scmpre
delicàda a abstrctcç4á cs eleinentos de cada effeito'
-, é, as propriedades conrmuns
as partes- de cada tod':, isto
a tantcs individucs distinctcs .

A) Na',ur eN, d'd' a,bstr1,cçAo


-
Àpanhar em cliversos seres ou ol:jectos uma prop-ric-
dade dommi;m, e conceiler esta proprieCado inclependen-
temente dcstes seres, ô fazer urna abstracQão. O ferro' a
madeira, a cortiça dã.o a quem os tem na mão a ideia
de um certc pcso, rrrâs é uma idóia coucreta e o,ue fic.a
como tal emquanto não se a sepa,?1a dos objectos mais
ou menos pesãdos, que tletarir nsseimento á essa ideia '
Para se alõançar a ideia abstracta do peso e fazer abs
tracqão, é preóiso chegar r- coirsiderar o phenomcno do
puso em si- proprio, inãepenclentcmente dos corpos onde
élle se produz. O peso torna-sê então um pheuomen<r
abstraefo, car:acteriãado por um certo nttmero de pro'
32 ROBINET

priedades constdhtês que sõo encontradas por toda partô


onde existir um objecto pesado.
À aptidão de abstrahir, ou a faculdade mental da
observação abstraeta que pertence á organisação cere-
bral do homem (1), e dos principres animaes, -consiste,
pois, em reconhecer as propriedades communs aos diffe-
rentes corpos e em retel-as fixas no espirito com bag-
taate persistencia afim de em seguida rãciocinar sobre
ellas.
Consideremos um prisma de vidro talhado regular.
mente, semelhante áquelles de que os physicoo se servem
para demonstrar a composição da luz. Este objecto tem
lma aonsti,twi.çã,o clti,mica fixa; elle vibra c resôa com o
úoque, é conoro; elle se manifes ta el,ectrbo pelo attrito ;
tem uma temperatura particular; é pesado; tém uma lor-
Vta.
geonetri,co definida. Seu ootume depende das suyter-
fôcies que o circunscrevem; estas superficies teem tdnhas
que as limitam. Estas linhas teem tambem entre si re-
lações de comprimento de que depende o volume do cor-
po . Se, se applicar a estes comprimentos uma medida
commum, suas relações se e:rprimiráo finalmente por sim-
ples relações d,e numeros. Teremos chegado entáo, da
nossa analyse, e puras noções de quantid,ad,e além da
qual nã,o ha nada de mais nitidamente comprehensivel
para o espirito .
. _ Nesta decomposiqão gradual, acatramos de pôr em
evldencia os atributo s, pr opricdad,e s, phenommos- (todos
estes tenmos são synonymos) qus nosso crystal apre-
sent4; nós o temos analysad,o . À combinação em sentido
inverso de suas differentes qualidades reproduziria a
realÍdade material, o que chamamos o esúodo concreto do
corpo .

Afastemos agora, polo pensamento, todas estas pro-

(1) VeJB C@rtd,E oobro oa anlrndea e eoüÍa o hooncrn, de Geotre


Froy 9 tambcm o qu.edro das 18 fu[cçõe6 c€rebraes, na Z,' partô
doeto llvro, na Blologta.
PHILOSOPHIA POSITIVA 33

priedades de ordem chimica, physica, mathematiea, ex-


cepto uma unica, a proprdedaíle electnca, sobre a qual
concentraremos nossa attençáo; approximemos a activi-
dade electrica do vidro da propriedade semelhante que
outros corpos manifestam a um certo gráo quando sub-
mettidos á uma semelhante analyse . Isolemos esta pro-
prieclade das suas respectivas sédes ou dos oo,rpos que
a produziram, e estudemol-a na.s circunstancias de sua
producção, nas variações de intensidade, em todos os
seus effeitos: teremos feito abstracção, e não somente
a observação abstracta, mais ainda a theoria abstructa
da electricidade, pelo mencs em seu eÊtado es[atico.
Vê-se, pois, [ue, para abstrahir, nossa intellilencia
pitssa por duas phases logicas inseparaveis, ainda que
distinctas: numa, ella decompõe o corpo em seus attri-
butos constituintes: é a analyse, ou a observação abstra-
cta; na outra, ella estuda o attributo commum a varios
corpos pela meditação abstracta. Àugusto Comte for-
mulou esta operação da maneira seguinte: generd,Iisünilo
por abstracç,ão, a tlworàa isola cad,a phenomeno d,e tod,os
aquel,les ile que está real,mente acompanhado, púrd, cont-
paral-o aos ef fei,tos semelltantes que comportem tod,os os
outros casos, rnesrno hypotheti,cos (7\ .
A abstracção substitue pois, a contemplação directa
dos seres pelo estudo das eai,stencias.
A extensão, o m,ovimento, o peso, a temperatura, o
som, a luz, a electricidade, a composição material ou chi-
mica e tantas outras circunstancias isoladas pela obser-

(1) Para êsta grando questã.o da abstracção, vêJa Âugusto


g,omtei Systeme de pki,losoÍ)hde pouti,ue; Eastqrne il,e pol,ltique po-
sitiDe et Eynth,ese su,blecttüe. M. PiErre Lalflto, Oours de plli-
losopkie premiàre na Reule -Oceid,entdle; Les grand,s tllpes ile
VHunwni,té t. 1." e 2.., sobretudo e apreciaçáo de Archimedes .
Dr. Balzagette (ao qual attribuimos o que precede) i Nottüed1t,
-
ili'ctdonno,|re pll,il,osopktqüe et scientildque artigos ABSOLUTO'
ABSTRÀCÇÃO, ACT"MDÂDE DÀ MÀTERIÀ, na reü8t4. lntitu-
lada: L,ü trtoltrtiqua positlue .
34 ROBINET

vaçã,o abstracta na contemplação dos corpos, sobretudo


aqueltres de ordem inferior, pedras, mineraes, montanhas,
rios, mares, astros, representam a eni,stenci,d, pltysica; os
phenomenos da vida vegetativa e animal constatados en-
tre os seres já mais complicados, flores, arvores, Ieões,
cavallos, homens, etc., compõem a esistencis, ui,tal; em-
fim, os acontecimentos offerecidos pelos póvos, que são
ainda seres mais elevados, constituem a eni,stenci,a social'.

modos de existencia, geometrica, mecaJrica, physica, chi-


mica, biologica, social e moral, que a meditaçáo intlu-
ctiva e deductiva, institue finalmente as grandes cons-
trucqões positivas, que representam a ordem universal .

Todavia, é preciso sempre lembrar que a abstracção,


mesmo applicada ás sciencias, não basta para completar
a realidade, e qtie, nd, pratica se ê forçado a acceitar as
relaqões directas com os seres quaesquer, consideraclos
eorno individuos, ou syntheticamente, sem decompôl-os
em 6eus elementos abstractos .
E' aqui que todas as partes do saber concreto, scien'
cias ou conhecimentos quaesquer,,cosmographia, historia
natural, anthropologia, etc., assumem toda sua impor-
tancia, sem esquecer todavia que só o saber abstracto
Íhes permittiu de se constituir ( 1) .
Ha pois, uma razão concreta e uma razão abstracta,
uma maneira de comprehender as cousas considerando
directamente os seres, os individuos: é o processo syn-
thetico; e outra c,Ôntemplando os phenomenos, os acon-
tecimentos que apresentam os seres: é o processo ana-
lytico. Uma e outra servem ao espirito humano na con-
quista dà realidade.
O caracter essencial da positi,vi'ilade consiste porem,
na abstracção systematica e na generalidade das con-
cepções abstractas.
(1) Que seriâ a historia íatura,l sem a physica, a chimlca e a
biologia ? Que seria & propria anthropologia, sem a blologie e e
§ociologia ?
PHILOSOPH IA POSITIVA 35

Tendo em vista a complexidade natural, contingente


ou fatal de seres quaesquer, não podemos, já ficou dito,
co[hecel-os bem, por observação concreta, directamente
ou de conjuncto, e a analyse é entáo indispensavel para
se chegar, na parte que lhes diz respeito, a um sufficiente
conhecimento, o que entretanto, fica sempre approxima-
do. As leis concretas sobre cuja acção não temos duvida
alguma, são muito complicadas para que possamos che-
gar a descobril-as, ao passo que as leis abstrâctas que
regem os diversos modos de existencÍa, oú as tlifferentes
categorias de phenomenos, são ao contrario, bastante
accessiveis pâra que possamos penetrar convenientemente
e explicar a actividade de que gosam,
Assim, como estudar de conjuncto nossa atmosphe-
ra? como descobrir directamente suas leis? E' bem certo
que só se conhece realmente as manifestações de peso,
calor, hygrometricidade, electricidade, composição chi-
mica, etc., que em tal conjuncto se combinam, cujas Ieis
proprias ou concretas nos sâo bastante ignoradas para
impedir, por exemplo, a exacta previsão do tempo. Da
mesma sorte, e com mais forte razáo, parâ os seres mais
complicados. Àssim, a cosmographia, .a historia natural,
a economia politica e a anthnopologia, alem de outras
sciencias concretas, são ainda menos suscéptiveis de nos
revelar suas leis e de permittir. ahi previsões do que a
meteorologia e a geologia, etc.; ao passo que a astrono-
mia, a physica, a chimica, a biologia e mesmo a sciencia
social, que estudam a existencia e não o ser, nos revelam
suas leis e nos permittem verdatieiras prophecias scien-
tificas sobre o encadeanrento dos phenomenos ou acon-
tecimentos que constituem seu objecto.
A abstracção é pois o ponto de partida, a fonte de
onde nasce toda a sciencia, toda construcção mental real,
toda coordenação verdadeira, e, qualquei pesquisa theo-
rica, para ser positiva, deve se applicar ao estudo das
existencias (extensão, movimento, peso, calor, combina-
ção material, vitalidade, socialidade, etc. ) , dei,xando zr
36 ROB INET

dos seres ou dos individuos á investigação pratica, agri'


cola, industrial, artistica. Philosophicamente,'só ha de
accessivel e mesmo indispensavel,. as leis abstractas, sem
as quaes não ocnheceriamos suff icientemente nenhuma
existencia, nem mesmo nenhum ser.
Emfim, só a abstracqão nos póde revelar uma ordem
fundamental, universal, resultante da coordenação geral
das leis naturaes de todas as categorias de existencias, e
só ella tambem permitte instituir em ponto grande, nossa
acção sobre o duplo meio exterior, nos fazendo conceber'
systematicamente todos os casos de modificabilidade pos-
siveis, em logar de nos lançàr ás cegas em semelhantes
pesquisas,
I
. _.. -_:r-_E-r?rrlÇ;E _:lt!?84

B\ Ponto d,e uista esto,tico e ponto cle uista ilyrtami,co


- tlo Estu'do dos corPos

E' ainda á abstracção, scientif icamente applicada'


que é preciso referir o proces'so logico, aliás proprio da
pirilcsóptria positiva, do estudo dos corpos sob o duplo
aspecto estatico e dynamico, isto é, relativamente ao seu
estado de repouso e de actividade, processo este que per-
mitte chegai á uma approximação mais rigorosa e mais
completa da realidade .
Elle resolve ao mesmo tempo a questão, de ontra
forma insoluv el, d,a transoendencia' e da immanenci(t das
propriedades, formula pedantesca e toda modeina de
ópiniões antigas e muito oppostas sobre a actividade dos
seres; ou bem consideral-os-emos com os theistas, como
inertes, só agindo após a influencia de vontades sobre-
naturaes etteri,ores a elles, deuses, semi-deuses e outros
agentes sobre-naturaes (ê a trattscedencia) ; ou bem. af-
firmaremos com os metaphysicos, considerando seus
attributos, o movimento, o som, a electricidade, a affini-
rlade chimica, a contrâctibilidade, etc., como entidades
fluidas, ethereas, residindo nelles proprios, mas distin-
PHILOSOPHIA POSITIVA 37

ctaÊ (é a, irllrnanenciq,) ; ou ainda, consideraremos todas


essas qualidades como propriedades naturaes dos cotltos
tentlo nelles sua séde habitual, mas, distinctas delles,
como se fossem orgãoil ou partes quaesquer que só lhes
servissem de substractum material (continúa sendo a
immanencia), o que é ainda a crenQâ da maior parte dos
sabios .

Tudo isto é um resto de metaphysica que não poderia


admittir a philosophia positiva.
Para esta, não ha corpos em repouso ou em activi-
dade, aptos a agir ou em exercicio, no estado estatico ou
no estado dynamico, e apresentando propriedades diffe-
rentes nos dois casos; mas o ser ou orgão que manifesta
estas propriedades de extensão, de movimento, de luz,
de sensibilidade, de motricidade, etc., jamais poderia ser
separado dessa propriedade que é um dos seus attributos
proprios, uma de suas maneiras de existir e de suas qua-
lidades intrinsecas. Os corpos estão em equilibrio otl
estão agitados, são sonóros, pesados, luminosos, electri'
cos, sensiveis, contracteis, etc..; mas, jamais o equilibrio,
o movimento, o calor, o magnetismo, etc., existem nelles
isoladamente, no estado de entidades independentes da
propria materia, inorganica ou organica, cujas proprie'
dades não são senão inseparaveis attributos.
E' por um artificio logico, repetimos, por uma ope-
ração do nosso espirito, em uma palavra, pela abstracção'
que rios separamos dos corpos as propriedades que elles
possucm, para mais efficazmente estudal-os.
Aos olhos pois, da philosophia positiva, que vê as
cousas como ellàs são, não ha pois, nem transcend'encr,a,
nem rnmq,nencia. Ls propriedades náo sáo outra 'cousà
mais que a substancia em acção; e os substantivos pelos
quaes se designa os attributos communs a todos os corpos
ou a muitos dentre elles não representam seres reaes' po'
rem sim imagens âpparentes, abstractas para nos§o ce-
rebro; não ha peso., co,lor nem oid,a etc., mas sim corpos
pesa(l,os, quentés, uíctos, em uma palavra, corpos dotados
38 ROBINET

destes differentes modos de existencia . Emfim, a ma-


teria é eminentemente acttua, não somente aquella que
chamamos organi:a, que apresenta propriedacles elevadas
de sensibiiidade e de motrtcidade, mas tambem a inorga-
nica que tem todas as propriedades physicas e chimicãs.

lll. A nocão de lei


-
-
A segunda concepção fundamental da philosophia
positiva,. a lrrincipal é necessario dizer, aqúlla que a
caracterisa essencialmente, é a noção de tci natu,ral,, pois
que considera todos os phenomenos reaes, isto é, obÀer-
vados, comd estando sujeitos a leis immutaveis.
O que é, pois, iei natui"al, em opposição ás leis di-
tadas pelos corpos politicos, ou pelos governos, e cujo
cotrjuncto constitue a leg aliilaíle arti,fici,al?
Toda lei natural consiste em uma relação fixa e:<is-
tente entre phenomenos da mesma natureza, ou ainda,
de naturezas differentes, apprehendida pelo nosso espi-
rito, ora induzindo, ora deduzindo, de noções desagie-
gadas do que houver de commum em factos revelaãos
pela observação e pela experiencia.
Estas relações se referem á semelhança dos pheno-
menos, á sua coexistencia, ou então á sua successáo; ha
pois, ,cis d,e successão e leis d,e semelhança .

A) Lcis d,e sttccessão


-
Estas exprimem uma relaqão invariavel entr.e phe_
nomenos de natureza distincta, que permitte prever as
variações de um desde que se tenhaãs do outro.
Assim, descobriu-se em physica, que os volumes oc-
cupados por uma massa dada de g{z em temperatura
constante, estão llo razd,o inuersa clas gtressões qu,e elles
supportarn. Pois bem, a relaqão inversà do volume para
PHILOSOPHIA POsITIVA 39

a pressão é aqui, a relação constante que exiate entre


os dois phenomenos variaveis, volume e pressão. Se o
volume augmenta, a pressão diminue; se o volume di-
minue, a pressão augmenta; a relaçã.o porém, não varia
jamais (1) . Na realidade, o volume depende de duas
condições, da pressão e da temperatura, e para estabe-
lecer a relação exacta, se é obrigado na pratica, a de-
compor a relação geral em geus elementos simples e a
procurar separadamente, e successivamente as vãriações
correspondentes aos differentes gráos de temperatura e
de pressão, ou a não considerar senã.o um delles, o que
mostra que uma verdadeira lei só diz respeito a dois
phenomenos em reciproca relação.
Do mesmo modo, a lei da queda dos graves só ex-
prime a relação constante que existe, para um @rpo
que cáe, entre o espaço pencorrido (ou a altura da qüe-
da) e o tempo gasto; o que se expressa pela formula:
o espaço percorriil,o cresce proporcionalmente ao quq-
drad,o d,o tempo,
Sob um outro aspecto, a lei natural deve ainda ser
considerada como a dependencia regular de um pheno-
meno em relação a um outro, ou melhor, como a medida
segundo a qual, as variações de um phenomeno são de-
terminadas pelas de um outro.
"Os mathematicos, diz Pierre Laffitte, teem duas
expressões de precisão perfeita para distinguir os dois
phenomenos e indicar a posição de cada um em relação
ao outro. Chamam oariaoel i,nilepend,ente áquella que va.
,ria ou que se faz variar arbitrariamente, e aariauel, il,eiten-
ilente á.q:uella cujas variações proprias ficam subordina-
das ás variações da primeira. Tomemos para exemplo, a
formula que estabelece o comprimento da circumferencia

VP'
(1) -:- donde vP : v,P'
- v'P
e conltâDte é VP.-
40 ROBINET

em relaqão âo comprimento do raio (cir. C : 2 z R) :


aqui, a variavel independente é o raio (R), pois que, á
medida que elle vatia, faz variar a circumferencia em
proporção sempre igual, e a variavel dependente é a cir-
cumferencia, que em suas variações segue as variações
do raio. Os papeis ficam invertidos no caso em que se
queira determinar a grandeza do raio sendo conhecida
a da circumferencia; mas, a relação, isto é, a lei que liga
os dois phenomenos permanece a mesma".
"Esta lei, esta dependencia regular, uma vez estabe-
lecida, nada é mais srmples que prever, e dahi pnoviden-
clar, ou nos resignar, segundo o caso em questáo. Nós
saberemos nos precaver todas as vezes que nos for pos-
sivel influir sobre a variavel independente, como acon-
tece quando procuramos obter uma certa variação deter-
minada de tal phenomeno mathematico, physico, chimico,
biologrco, sociologico mesmq ou moral, fazendo variar
um tal outro phenomeno que temos á nossa üserição e
do qual aquelle depende. O geometra faz variar oorno
entende a grandeza de uma circumferencia, de um cir-
culo, ou de uma esphera, augmentando ou diminuindo o
tamanho de seu raio; o engenheiro augmenta ou diminue
a extensão de um corpo fazendo variar para mais, ou
para menos, a sua temperaturq; o medico modifica a
funcção do apparelho urinario modificando de uma certa
maneira a do apparelho circulatorio; o moralista obtem
ceÉos actos excitando ou desenvolvendo certos senti-
mentos" . (Curso de phàl,osophio. prirneird,, quinta lição,
ta Revue occidentale,3.o anno, janeiro de 1880) .

B) Leis il,e semnlhança


-
A segunda especie de leis estãbelece as relações de
semelhança que existem entre phànomenos já o,bservados,
e só serve para ampliar a applicação das leis de suc-
cossão, fazendo entrar tal acontecimento, até então sup-
PHILOSOPHIA POSITIVA 4I

posto distincto, em outro, mais geral, cuja lei de suc-


cessão já é conhecida. Por exemplo: Newton, constatan'
do que o peso nã,o é senão um caso particular da gravi-
tação, ou melhor arnda, assimilando a lei de gravitação
á. do peso, estabeleceu com isso, uma lei de semelhança,
pois o peso era tido até então como phenomeno distincto;
igualmente, Lavoisier, quando faz entrar o phenomeno
dà combustão em outro mâis geral, o da combinação dos
corpos, mqstra que a madeira que queima tal como o
cobre que se oxyda são dois factos em tudo semelhantes,
e que, ló differêm, porque os corpos que lhes servem de
séde são de natureza differente. Nestes dois casos as
leis de semelhança ficaram ,congraqadas com as leis de
succesaão. (M. P. Laffitte).
As primeiras, por sua Datureza e§sencialmente indu-
ctiva, piecedem geralmente ás segundas, que são-o typo
verdadeiro do quê se deve entender pot lei natural' .
Esta é, pois, em definitivo, a relação invariavei que
existe entre ãois phenomenog de natureza distincta, pela
qual, um varia por meio do outro, com uma intensidade
-circunstancias
dependente das do meio em que a acção
se realisa. Ella representa a constanci,o na Darieilaile '

C) Historico ila noçã'o de lei


-
À noção de lei natural, como já ficou dito, -foi intro-
duzida nd mundo, pelo menos em relação ao Occidente,
pela escola pythagãrica ; é ella que marca o inicio da
evolução scientifica.
Esta noção decisiva surgiu na Grecia, com Thales'
pela descoberta do primeiro theorema de geometria ' Foi
-seguida
I+ em Crotonã por Pythagoras, ao.qual. succedeu
Aichimedes. Por eleÀ, o regimem das leis naturaes foi
applicado aos numeroJ e á e:rtensão; exte-ndeu'se ao céo
cãà Hipparco e com os astronomos d'Àlexandria. Du-
rante a 1'dade media, foi eontinuada pelos arabes e logo
42 ROB INET

transmittida aos Occidentaes. Copernico continuou a


geometria; Galilêo fultdou a physica estabelecencto as leis
do peso, e dilatou assim conslderavelmente o dominro àas
Ieis naturaes. Com Irtervton e Volta, a gravitação, o ca-
lor, a luz e a electricidade lhe foram õubmett]idas. No
fim do seculo XVIII, Lavoisier e Berthollet abriram para
ellas, as portas do mundo chimico. pelos esforços de Bi-
chat, de Gall e de Broussars, os proprios phenoinenos da
vida passaram ao seu dominio. EmJim, Àugusto Comte
após os preliminares fornecidos por Montesõuieu e Con-
dorcet concluiu a derrota dos deuses e das'entidades e
arrebatou-lhes a explicação dos factos politicos, que elle
fez entrar para o dominio da sciencia]
E'-preciso juntar comtudo, que, se o espirito hu_
m_ano descobriu as primeiras leis -naturaes colm Thales,
não teve a dd,ei,a de lei, senáo com Montesquieu que deu a
sua primeira definição. (Laffitte)
A descoberta e a noção deviam necessariamente re-
sultar da ordem exterior que manifesta o mundo e da
constituiçâo especiâl que toina nosso cerebro apto a ado-
ptâr uma tal harmonia .
., Depois
rito
das leis Iogicas que lhe são proprias, o espi-
h-umano partiu de uma primeira óbservação inrlu-
ctiva feita sobre as relações cónstantes, as mais- simples,
as de successão, após â qual as nür"ãricas en-
gendram umas e outras, para extender ""iaaáe"
em seguida esta
noçao. de successão regular, á todos os phenomõnos, guia_
tendenei a espontanea da noss a- intelligencia -para
;!"_p-"]"
torm.ar sempre hypothese a mais simples e-mais i5rm_
pathica compativel com o ,conjuncto dãs conhãcimentos
que possue. E, o que era então apenas uma hypothese
ousada ou uma generalisação subjãctiva premaiüra, foi
lenta e incontestavelmente verificado, á medida que a
s,giencia. augmentou e que, por trabalúos secuiares] t"m
clemonstrado, para todas as ordens de phenomenos, o
que. na origem não era apenas, senão a illuminação'do
_
genio theorico.
PHILOSOPHIA,POSITIVA 43.
E)' assim que a noção de lci foi g-radfltivamente es-
tabelecida pali
todas as categorias de aconteçimentos
reaes, e que o espirito positivo os tcm successivamente
libertado da interpretação theclogica e mctaphysica,
pondo fóra de duvida que todos, sem excepqão, estão su'
jeitos a relaqões invariaveis de successão ou de seme-
Íhrnçr, isto é, a leis naturaes immutaveis. Este vasto
conjúncto é que constitue o objecto da philosophia po'
sitiva .

lV. I rreductibilidade das categorias de phenomenos


- e immutabilidade das leis naturaes.
A terceira concepção fundamental da philosophia
positiva, at ideia md'õ propria desta -doutrina é que, ha
iluenom"no" i,rr echlctiu àt's, propriedade-s, -acontecimentos
ã por conseguinte, leis que não se poCe fazer entrar ou
reduzir a outros.
Tal é o duplo movimento de assimilaqão e de des-
assimilaqão que constitue a vida em todos os parenchy-
mas, em todos os tecidos ou mesmo, em todos os elemen-
tos anatomicos animaes ou vegeta.es, e que, apezar da
analogia mais perfeita, não se pode entretanto reduzir a
simples combinações chimicas, nem sobretudo, a simples
propriedades physicas de endosmóse e de exosmóse, de
capillaridade, de coaptação, de attracção, etc. ltrm uma
palavra, ha em todos os corpos organisados, qualquer
cousa que elles teem de proprio, que se ndo encontrd id'
mais nos typos inor g an'icos e que os especifica de uma
maneira absoluta, irreductivel a qualqucr outro.
E'que, com effeito, na relaqão que existe entre dois
phenomenos sendo um tuncçd,o do outro, a variaqão não
se clá senão na intensidade delles e jamais cm seu arranjo
ou eln sua successão, nem em sua natureza, isto é, em sua
semelhança. O conjuncto das leis naturaes, physicas, bio-
logicas, sociologicas e moraes, s çrilem uniuersal emfim,
.44 ROBINET

é eúão immutavel em suas disposições fundamentaes,


isto é, quanto á permanencia de natureza e de relação
dos phenomenos quaesquer; só é modificavel o que con-
cerne a suas disposições secundarias, ou quanto á inten-
sidade na variaçáo dos diversos acontecimentos.
Assim, a grande lei da evolução mental descoberta
por Augusto Comte é inflexivel no que se refere á suc-
cessão dos phenomenos intellectuaes, que se faz sempre
immutavelmente, pode-se dizer, partindo das ficções theo-
logicas para as abstracções metaphysicas, afim de che-
gar depois ás concepções positivas . E' porem, modifi-
cavel na intensidade, a successão podendo se operar corn
uma velocidade muito variavel segundo as condições em
que se realisar . Jamais, para uma ordem determinada
de phenomenos, o estado positivo precedeu ao theologico,
ou ao estado metaphysico, e a ordem de successão se
applica ás nossas ideias quaesquer que ellas sejam. Só
pode variar a rapidez do movimento intellectual .
Mesmo as perturbações pathologicas confirmam esta
regra fundamental, pois que, na loucura o espirito hiu-
mano decae do estado positivo para voltar ao estado
theologico e mesmo feitichista pàssando pelo interme.
diario metaphysico.
Do mesmo modo para os póvos, que, nos periodos
de decadencia que constituem suas molestias proprias,
apresentam um movimento semelhante de retrocesso.

A) "Op1tosiçdo d,o Maberial,ismo'a, este pri,nci,pio


- f undamental d,a Philosophia positiaa"

O Materialismo, já o vimos, não admitte esta espe.


cificação dos phenomenos e dos seres, esta separação de
existencias; elle pretende que tudo pode ser reajustado
a um ú ser, our a uma só lei, a lei mecanica por exemplo.
Deste adagio mais literario que scientifico: Natureaa
nã,o úi sal?os, expressão do sentimento muito justo da
PHILOSOPHIA POSITIVA 45

gradação das cousas, esta doutrina, apoiando-se sobre-


[uaã n'a chimica e na physica, e pondo de lado todas as
considerações de ordeú biologica e sociologica que esta-
belecem a separação dos seres e das categorias de pheno'
*órro., con"ü" com tal identidade objectiva, que no fun'
ão permittiria nenhuma distincção entre os indivi-
"aó
duos nem entre as existencias. Corpos quaesquer' espe'
ciàs, famitias, classes, não seriam senão a metamorphose
directa do atomo chimico se desenrolando, ile uisu, em
,á, .raui, ininterrupta de compostos mineraesorganicosbinarios'
i""t rrio" e quaternaiios, depoiJem compostos
cada vez máis complicados, protoplasmas, amébas, mo-
,*tia"s, vibriões, elementos anatomicos de todas
"ã""t
;; iúü;r=, teciclos, o"gáo", apparelhos, emfim,por seres de
todas- as sortes, desde o equivalente de azoto, exem-
plo, até o homem e Para alem delle.
Actualmente, o que a Inglaterra, a Allemanha e a
França teem de maiJ sabio (sem falar mesmo dos ato'
mistas cujas ideias as mais simples formam como uma
i"iroautçío ás theorias transcenãentaes que vamos lem'
brar) aciedita que se achou emfim, em estq'do natioo, rLàs
profundezas do- oceano, essa materia amorpha produ-
àtora espontanea de todos os seres, derivada em si pro'
^reaeqão
pria da dos compostos mineraes -os mais eleva-
'd.os:
matiàre- de oie, composé uàtal, sarcode, amoeba uul
g aris, protoplasma,- ur schleim, bathgbius H oecleelli, pro'
'
tobathybitts de bessel,s, etc .
Tám-se mesmo da-do a formula chimica deste limo
creador, desta alma mater:
Cm'tBOXAzy f P ou S; tem-se feito-della a des-
cripção e o retrato;' tem-se procurado obtel-a nos labo-
(simplesmente tratâr a agua do mar pelo al'
"rdoiio"
cool) ; e o batLybius, que não é nern- vegetal, nem-animal'
nem mineral, é os tres a um só tempo (7) ,

(1) N. do T. Sobre os Protozoarios (inJusorio§, vlbÊões' mo'


naao.]'r"rtlc"iro", -Àarr-, foraminlferos, monérʧ, emlbos, redlo'
46 ROBINET

. Esta ultima _concepção lembra directamente, por sua


clareza, a trindade christã, com a qual não lhe falta affi-
nidarre psychologica, pelo menos na pretensão de tudo
explicar.
Não temos nenhuma intenqão, de rir.
Dotando tâo arbitrariamente a materia de faculda-
des creadoras universaes e de poder absoluto na forma_
çã.o. dos scres, a lalsa sci,enci« snbstitue a cntidade theo-
logrca ou o ser sobrenatural conheciclo sob o nome de
Cread,or por- uma ficção tão indemonstravel quanto chi-
merica, muito menos recommendavel sob toàos os as-
pectos, sobretudo no ponto de vista social e moral, pois
que, o gerador das cousas, nessa utopia raotlerna, é cágo,
inconsciente e sem rnoralidade. Ainda mais, acceitando
a actividacle eterna e espontanea desta pretendida crea-
ção não creada, cuja fecundidade parecã entretanto es-
gotada depois de tão longo tempo, ãs formações, as me-
Ihor ordenadas e as mais complícadas, noss-os materia_
listas trouxeram ainda da theologia; mas, quão infe-
riores são aos S. Basile, aos Nemlsius, aos S. Âugu.-
tinho, aos Âtbert Ie Grand, acs Rogcr Bacon, aos S. Éoa-
ventura explicando a naturezar dõ hornem pelas causas
finaes e pela sabedoria divina!... (1)
Penetrando bem o assumpto, este systema chimico-
biologico nâo é senão um composto de noções concretas e
de theorias metaphysicas, de Àypotheses não verificadas,

rios, etc . ) diz C . Novacs em sua Histolia. Natural : ,.Sã,o animaes


uniccllulares, os scres mais simples do reino animat . úncontram-
se no,fundo dos r,egatos, nas aguas estag-nadas, nos mares, por
tocla
a parte onde as plantâs lJe dchdn em ui,tt de decomposicdo': peque_
nos animaes, cuja presença só podemos pelceber pór meio áo mi-
croscoDio" (paginas 58 e b9).
., (1) Saint
Íaqitleron;
Àugustin, De qlrüntidu(le anit)1«c; Saint Basile, .Aa.
Ncmesius, Trdité d.e ln naturc d,e l,honune; Albert le
.OElr'es, Lyon, 1651: R. Bacon, Opus md,jus, átc.; Saint
Grand,
Ijoaventure, Commentait.e sur le fiLditt'e des sentences, etc.
PHILOSOPHIA POSITIVA 47

ou de utopias oppostas ás construcçõe§ scientificas mais


bem estabelecidas.
Não se tem, com effeito, deante de si, em todos os
desvarios cosmogonicos, senão apenas as oisões do mi-
croscópio e da imaginação, em logar da observação real
e da meditação scientifica. E, se substitue de toda fornru
ou por toda parte, o concreto ao abstracto, o ser ao facto,
a historia natural á biotoxia, virada para o sentido ob-
jectiuo e não mais no artificial ou logico, da anatomia e
da physiologia comparadas; se, se admitte gue as plantas
teem vida iguat á dos animaes, a vida de relação, que
sentem, teem discernimento, e vontade sem para isto ter
cerebro, porque pasmar que os theologos (que exacta-
msÍrgs sinda se imitam aqui) pretendam que se continue
a amatr, a pensar e a agir após a morte quando o corpo
já foi destruido? A objecçáo de Crudeli' á Marechala não
existe mais.
Tudo isso nasce da confusâo que elle estabelece, ape'
zar dos trabalhos e demonstrações da verdadeira scien'
cia nos seculos XVIII e XIX, entre a materia e a orga-
nisação, entre a existencia em seu gráo mais elementar
(physico e chimico) ou a actividade inorganica e a pro'
pria vida, que elle attribue aos mineraes, como fazem os
feüchistas; é não distinguindo ainda a vegetalidade da
animalidade, e esta da Humanidade, que a synthese con-
creta (o Materialismo) obtem. e mántem seu caracter
objectivo.
Não levaremos mais longe esta discussão ; affirma-
remos unicamente que, quanto a nós, os esfórços tenta-
dos recentemente para derrubar as proprias bases da bio-
logia e estabelecer as analogias que existiriam entre cor-
pos inorganicos e os corpos organisados, sob relação da
iorma, dã composicão chimica, da estructura, do cresci-
mento, do movimento e da sensibilidade, em uma palawa,
da vida, não foram estabelecidas e não podem receber'
apparencia de realidade senão após uma grosseira e inac-
cóilavel confusão estabelecida entre as propriedades phy-
48 ROB INET

sicas e os attributos physiologicos dos corpos. O apho-


risma d'Harvey sobre a geração, modificado por Augus-
to Comte afim de representa.r suff icientemente o estado
actual da sciencia: omne ntiuwn er oiuo, persiste como
formula exacta da realidade (1).
E' preciso notar que as especulações da philosophia
materialista, em toda esta questão, se apoiam princi-
palmente nas considerações sobre os infinitamente pe-
queno§, exclusivamente quasi sobre typos microscopiqos,
difficilmente observaveis e pouco conhecidos, que se
acham no extremo Iimite da animalidade como da ve-
getalidade, e que, uma vez sahindo desse mundo equivo-
eo (eu diria intermediario), as distincções começam en-
tre as especies e sobretudo, entre os reinos, como parÍI
os individuos, e se êlevam de mais em mai§, para., em
seguida se tornarem inexoraveis.
A transformação perde então sua apparente objec-
tividade, e o milagre da transformação da materia mi-
neral organica, da pretense passagem habitual consta-
tada, da morte para a vida, da geração espontanea e da
transformação indefinida dos organismos vegetaes ou
animaes, nã,o merece mais credito.
Verdade é que, milhões de seculos são necessarios
para completal-a. . .
A eaperimentação, apesar da tendeucia actual para
reconduzir a chimica e a biologia á antiga alchimia, (quo
tambem tinha seu absoluto: o ouro potavel fiaou incog-
nito a qualquer interrogação deste genero, nada mais
fez por synthese de nossos elementos mineraes, da ma-
teria organica e apta a formar sponte sua seres vivos,
senão cordeiros com tigtes, des cycadées avec des fougêres
et des lichens, ou seulement des infusoirea avoc le bathy-
bius Ho€ckelii .

(1) N. do T. Ornne üàüu.m eÍ ooo (Harvey)


PHILOSOPHIA POSITIVA 19

ÀB ôutras pretensões da philosophia materialista no


curso de assimilação dos phenomenos mais elevados e
menos geraes aos mais simples, ou para fazer reduzir as
sciencias superiores ás inferiores abordando directamen-
te o conhecimento dos seres em vez do das existencias.
a historia natural e a antropologia em vez da biologia
abstracta e da sciencia social, estes processos logicãs,
dizemos, applicados ás especulações póliticas e moraes.
conduzem a resultados bem mais graves que aquelles da
subversão da antiga construção sCientificá.
. P-or exemplo, o Darwinismo, de que o Materialismo
assimilou, no ar, os principaes resultados, formulou como
typos de leis naturaes um conjuncto de vistas concretas
mais ou menos confusas sobre as tendencias e as rela.
ções geraes dos reinos vegetal e animal, que elle acredita
ser a realidade fóra de qualquer discussão, e das quaes
as consequencias sociaes jamaÍs parecem affectat-o.
Uma destas pretendidas leis, estabelecida sobre a
observação_e s_obre pretendido calculo, consistia em que
a progressão de çrescimento das especies viventes selia
Seometrica, ao passo que, os alimentos cresceriam so-
mente em progressão arithmetica: donde, vem a con-
clusão immediata de uma insufficiencia de materiaes nu-
tritivos, que tornaria fatal a luta pela existencia e o ex-
terminio dos fracos pelos fortes.
E' a lei de Malthus levada da economia politica,
outra sciencia concreta, para a historia natural e para a
anthropologia por M. Darwin, Haeckel, etc.
AIem das graves objecções que se pode formular
contra esta pretendida lei, e da difficuldade de organi-
sar, por tempo sufficientemente longo, uma estatistica
universal das especies vegetaes e animaes (mesmo para a
especie humana não está feito esse trabalho), e dos pro-
gressos da industria humana ou da producção agricola
e manufactureira que ceatuplica as fontes alimentares.
e da educabilidade dos animaes sociaveis, principalmen.

tÉ. .'É"
50 ROBINET

te a do homem, que diminue sua voracidade e sua feroci-


dade nativas, em umâ palavra, da reacção systematica
da sociedade contra o mundo, e da attenuação das fata-
Iidades cosmicas e biologicas, nos parece que nos proprios
termos dessa lei se encontra a demonstração de sua fal-
sidade: com effeito, de que se nutrem as especies ? o
que é que Ihes serve de alimento? Sem duvida, as espe-
cies alimentam umas ás outras. Ora, todas as especies,
emquanto se alimentam, se nutrindo dellas crescem na
proporçáo geometrica, e algumas com umâ fecundidade
prodigiosa ; como pois, diminuir sua relação, negar sua
total existencia pata desenvolver-se apenas em progres-
são arithmetica na occasião em que chega sua opportuni-
dade ile sen)ir de alimento ás ouTras especies Quanto
mais que as especies comestiveis, animaes, sobre tudo
vegetaes, justamente se reproduzem como muito mais in-
tensidade que as especies devorantes ? A lei, pois, nos
parece falsa, sem merito .
De mais, sem passar o Rheno nem a Mancha para
termos a formula do Darwinismo politico, encontral-o-
hemos entre nós no tratado escripto por um dos repre-
sentantes mais distinguidos do Materialismo .
Aconte Ías rüçds retarilailas, e o numero é conside-
ravel, diz M. Ándré Lefevre, o que aconteceu ás espe-
eies fósseis : ellas teem morrido por impossibitidade de
viver. Não ha duvida que a mudança de meio lhes haja
sido cruel. A verdadeira causa de moüte é a irremedia-
vel desproporção. Natla póde conservar as raças que
cumpriram seu cyclo. Seria preciso estendel-o, e sahir
delle, para impedir a expansão fatal dos grupos mais
vivazes. A lei, da natu,rez,a é, afi,nal ile contas, a lei, d,a,
historia. Os póvos relativamente poupados, aquelles que
se defendem coÍn mais energia, Sandwichianos, Néo-Zé-
landezes, não são menos dizimados que as tribus mas-
sacradas ou corrompidas pela intromissão européa. Em
vão tenham ellas sido postas em guarda para garantir
PHILOSOPHIA POSITIVA 5l

sua passatem a uma nova atmosphera, serão rnortas


por estarern sendo reparada.s (\) .
Não é este um dos pontos que menos distingue o Po-
sitivismo do Materialismo, é até a maneira absoluta-
mente divergente com que cs dois systemas encaram esta
questão da civilização dos povos mais adeantados, e é
um dos mais nobres privilegios da philosophia positiva
esse de ter, por uma analyse historica e psychologica
inatacavel, estabelecido os pontos de reparo, e os pro-
cessos sociaes por meio dos quaes se poderá no futuro,
fazer esta propagação civilizadora, que terá por fim
'el,eua,r as nações retardada,s em vez de destruil-as .

Refutando M. Lefêvre, o dr. Dubuisson disse ex-


cellentemente: "Os professores allemães não teem in-
vocado razões novas quando, ha oito annos, .justificam
o esmâgamento da f,'rança pela Allemanha, e na proxima
occasião as mesmas razões serão ainda invocadas. Exis-
tirão então, signaes certos pelos quaes se reconheça que
uma raça tem ou não tem cumprido seu cyclo? que está
ainda, ou já não está mais em proporqão? Qual o aclver-
sario que não se poderá sempre acusar de degenerescen-
cia e cle decrepitude ? Àssim, todos os crimes internaci-
onaes teem sido legitimados com argumentos desta for-
ça. Em vista disso, demonstrada a theoria da selecqáo,
provado que nós Francezes, como simples Sandwichianos,
devemos desapparecer, porque nos tornamos uma raça
inferior, nada teriamos a fazer de melhor senão esperar
christãmente a morte .
Não é, todavia, por simples curiosidade quc estuda-
mos as leis naturaes. Nós as estudamos para abrandar
seu ,rigor, ou ainda para. invertel-as em nosso provei-
to. Escutamos o corpo humano, para prevenir ou curâr
as molestias; procuramos conhecer âs condiqões da pro-
duccão do raio para desvial-o: porque não poderemos
tambcm preservar os povos quê uma lei natural haja
( t) Lu Pltilosot)à iú , Reinwald. 1879
52 ROB INET

marcado para a morte ? Em todo o caso não é util que,


sob o pretexto de darwinismo, precipitemos com as pro-
prias mãos o momento de sua desapparição (1) .
Outra cousa se vê quando os seleccionistas applicam
as luzes da historia natural á questão social, mesmo en-
tre os proprios póvos mais adeantados, e fazem surgir
a politica da zoologia. Jamais, erro e pedantismo táo
perigosos foram expostos com tal inconsciencia ! Corn
respeito aos pobres, que formam a immensa maioria das
sociedades modernas, chegam a proclamar sua extermi-
naçáo como um beneficio; é a piedade e a fraternidade,
que felizrnente enfrentam seus sophismag, como um eri-
me. Lêde Weinhold, lêde Haeckel, lêcle Malthus, que nos
repugna citar aqui..., mas, apressai-vos, para repouso
de vosso coração e para honra do espirito humano, em
voltar a Augusto Comte, a esta grande e inatacavel dou-
trina social, que tem o nome de philosophia positiva,
inspirada plenamente na fonte generosa da Revolução
Franceza, no impulso magnanimo e no espirito de jus-
tiça que produziram a Declaraçd,o ilõs ilireitos ilo h,omem
e do cüaddo, e que poz seu genio a serviço da redempção
dos desherdados, da liberdade dos humildes, do proleta-
riado e das mulheres, aproveitando todas as forças im-
mensas, intellectuaes, mo,raes, industriaes ou praticas,
desenvolvidas pelo labor dos seculos, na construcção des-
ta nobre systematização .
Esta, de resto, tem por si os mais decisivos attes-
tados cla historia, porque, no inicio da evolução huma-
na, no momento em que a fatalidade zoologica domina-
va realmente sobre a reacção social, os velhos eram fa-
talmente sacrificados, e os meninos, que não fossem jul-
gados bastante robustos, seriam destruidos ao nascer
pelo chefe da familia . Estavamos ahi em pleno darwi-
nismo! por toda parte em seguida, á medida que o aug-

(1) Revista Occidental, tomo II, peg. 303


PHILOSOPHIA POSITIVA 53

mento dos meios de viver, a t.arrnÍrçã,o cl,o -ca'pital,, os


progressos da industria e o desenvolvimento da sociabi-
Iidade já fizeram seutir seus effeitos, o menino e o velho
veo serdo conservados, cercados de todas as atte[ções
de seus parentes e postos sob a tutella da sociedade .
A sciencia ssgtal, por si, não é, nem menos favora-
vel nem menos explicita .
As condições cosmologicas e ecpnomicas que permit-
tiram a formação do capital, ou a reserva parcial dos pro-
ducto,s de uma geração para â. seguinte, após o duplo
aspecto, que estes prod,uctos se conserud,tn por mais tem-
po çpe o necessari,o paro, prod,uzir outros, e que um inil,i-
oiiluo poíle prod,uzir mudto mais ilo qwe el,l,e consom,e)
oppõem um desmentido formal am principios do darwi-
nismo social .
A lei, d,a natureeo não é pois, a let, ild, histori,q, (l) e
a falsa logica da philosophia materialista tem-na con-
duzido a conclusões tão inacceitaveis em politica e em
moral como em physica ou em biologia. E' preciso nes-
te assumpto segu-ir ainda as rectificações do Positivis-
mo quando elle affirma que os phenomenos sociaes e mo-
raes são irreducth.teis, ainda que sejam affectados por
influencias inferiores, cosmicas e biologicas, das quaes
entretanto elles não resultam; que estes phenomenos
teem leis proprias sui generis, cujo agrupamento consti-
tue sciencias distinctaq; e que emfirfrIelles podem contra-
balançar as fatalidades primarias da nossa situaqão e
a"§segurar ao conjuncto da nossa especie melhores des-
tinos. .-r 'i I grg.+'$
Quanto a pretensão do Materialismo de fazer entrar
todos os pheno,menos, mesmo os mais elevados, em um
mais simples do qual seja a razão ou a lei, jamais foi
tão completa como com Descartes, que só admittia phe-
nomenos de forma e de movimento ; e ainda sendo os mo-

(1) N. do T.
- Na hlrtoria
riaturaes depols de modiflcadas
os factos representam a,s lcls
pelo meio corrêspondente.
ROBINET

vinrerrl"os corlsiderâdos, pelo iliustrc pensador, unica-


nrente uo ponto de vista geoiirerrico, rsto é, c«rmo Ía-
zendo parte do que se clrarna hoje a "crnenlatrca.. sera
precrsu recoi)hecer que elle náo admittia senáo phenome-
nos de foÍmo ou visuaes.
Ora, em nossos dias, o Materialismo adrnitte a for-
ma e tamDerrr a iorça, o que em defrnitivo, é uma con-
cessáo ao prrncipio de irreductibilidade dos phenomenos.
Com effeito, desde que a noção de força em nosso cn-
tendimento, provem incontestavelmente de que nos so-
mos dotados de "um sentido da musculaqão" que nos per-
mitte apreciar nossos proprios esforços para resistrr a
uma pressão exterlor, segue-se que os materialistas, ac-
ceitando esta noçâo, admittem pelo menos duas catego-
rias de phenomenos distinctos e irreductiveis, aquelles
que são revelados pelo sentido da musculação (1).
Abandonando o rigor theorico de Descartes, para
que uma esphera ouca ou cheia do mesmo volume seja
cousa identica, nossos materialistas não admittindo se-
não a forma, ficam em flagrante delicto de inconsequen-
cia, porque, se acceitam a noção de força, ou o phenome-
no do peso como um facto distincto, a que titulo regei-
tam elles os da electricidade, do calor etc. (Já o es-
colheram de facto, como causa primaria universal), que
nos são revelados tambem pelos sentidos especiaes ?
Ao Materialismo de Descartes, foi Newton que deu
o golpe mais decisivo, introduzindo em mathematica
u noção de massa como elemento indispensavel á no-
ção de força (2).
Se considerarmos no presente a theoria materialis-
ta moderna sobre a transformaçáo das forças, veremos
que ella ainda trahe essa constante preoccupação de fa-

(1) Veja para a descripçáo desta funcçaro de nosso cercbro, a


muito decisfva e muito notavel these do dr. Dubuisson: Dos q,ntro
sentidos d,o tdcto, e enl particular, d.o, m,usculaçiia ou sentid.o 'ttr,us-
cula.r, 1874, (Paris, Leroux).
(2) M. P. Laffite,,Corrrs de phl,losophie premilre.
PHILOSOPHIA POSITIVA 55

zor entrar phenomenos distinctos e irreductiveis nag


duas unicas categorias pela mesma acceitas, as do ca'
lor por exemplo, as do peso, de onde nasce &.noção de
forçã; constataremog ao mesmo tempo que nada se tem
demonstrado â esse respeito e que essa maneira de ver
não é senâo pura hypothese, uma maneira toda meta-
physica de generalizar a lei de Ner"rton sobre a acAão e a
,reacção em mecanica.
Como dar uma ideia destà'Ôoncepção turva, fóra do
natural, e longe de toda a realidade 1
Um corpo posto em movimento com um& certa ve-
lociriade, poi propulsão, tracção, choque, percussão, tor'
na-se quehte, muitas vezes lumino§o, e algumas vezes'
mas müito maig raramente, electrico' Se elle entra em
equrlibrio, ou em repouso, póde-se constatar ainda duran-
te algum tempq sua elevação de temperatura, seu esta-
do luminoso, seu gráo de electrização '
Àssim, o metaphysico (fosse elle sabio), que clnce'
be sempre as propriedades dos corpos, movimento, tem-
peratura, luz, como sendo distinctas dos proprios corpos,
óu como entidades, forças, fluidos que só residem na
substancia, sem confundir com elle, suppõe que quando
um movel passa do estado de actividade ao de equilibrio
ou de repoüso, {üê o movimento cessa nelle ou o abando'
na, e quã se constata ahi o calor e luz, a lorça c}rama'
da por elle mooi,mento nío desappareceu, pois que' se'
gunão eIIe ainda, nenhuma força se perde, mas §e trars'
forma, ou se ildsf arça, como queira, em outras forças
chamadas calot, lttz, etc., que não seriam senão trans-
formaqões de forma da força movimento.
Outro exemplo: P

"Em psychologia alem de outras, escreveu M. Ju-


les Soury, o trabaúo produzido é sempre igual ás for'
ças empiegailas, o que corresponde dizer que ds forças
não sv ariam, unicamente se transformam. Nossos pen-
samentos e nossas afferções, nossos"liwos e nossa§ e§'
56 ROBINET

tatuas, nossas revoluções e nossas eftes não são eenão


lr4rlsrolmaçoes cto caror §olar", -(1) .
rasslrlr, para est;e €scnp[or, zcroso propaganústa
da prrur.rsopnra rratenausra iulema e urgieza, a rorça,
prrüral.ra eteflra, nao creactar e o c,alor solar, da qual
nossa nutnçao, nossa resplraçao, nossa locomoçao, nos_
sos §ellumeD.tos e nossos pensarnentos nao sao senao
transrormaçoes ou drslarces.
i,\ ao se poderla lr mars longe e mais directo.
§oD o ponto de vl8ta da philosopnra posrtiva, ao
contrarro, nao haveria aÍri, como ja temos ooservaclo,
§eDao corpos em movime[to ou em equrlrnrio, no estado
ctynamico, no estado estatlco, quentes, lu.minosog, elec-
trrcos, etc., segundo manirestem elles actualme[te taes
ou quaes destas proprÍedades intrinsecas oe sua suDg-
tancia.
- - À{o caso que nos occupa, o physico mede a veloci-
dade do movel, calcula sua toiçá multiplicando sua
ruassa por sua velocidade, coustata sua temperatura,
etc., mas se abstem de toda divagação sobre a causa
primarin e a essencra do movimenio, e soDre sua pre-
tendida transmutagáo em c&lorico, em luz ou em electri-
cidade. Estende até á physica a lei de correlaçáo das for-
gas descobertas em mecânicar m&s não vae alem da rea-
I,dade. E e sabe, todavia, que a todo instante tor-
ças naturaes nascem e se perdem na reacção contiuua
que exercem uns sobre os ouüros os drfferentes corpos
e a multiplicidade infinita dos seres.

B Sete cútegoriq,s d,e plrcnomenos ômed,uctiueis


-
O autor da philosophia positiva, após uma analyse
e uma comparação profunda de todos os phenomenos
reaes ou de todos os modos de existencia lioje consta-

(1) "Republique française,, Dumero de 18 de Julbo ats lgg0


a
PHILOSOPHIA POSITIVA

tados, reconheceu dentro e1les, seôe wtegorias das quaeo


nenaluna lne pareceu pooer entrar nas outras, de ma'
nerra a reguzrr o numero dellas ' E' um caso conturgen'
te ou qe oDservaçao, relatlvo ao estudo positrvo e lnte-
gral dB ordem natural .
-Ebtes sete caEegorlas comprehendem os phenotnenos
de numer o, de exf,ensao, e de movimento, o1t 'ínatnamati'
oos (1) . Os factos pnysicos chamaclos q,strona Licos 12) ,
quanoo se os consràera nog astr€s, e ptlAsicos propria'
me'me d,r,tos (3) quardo se estuda a 'I'erra soD o Ponto
de vÍsta de suaa propriedaoes mais geraes (peso, ca'
lor, luz, etc.) .; atr,imit:os (4), quando §e a estuda no que
ella tem de mais especial, isto e, em sua composiçáo.
O conjuncto deste estudo, relativo ao mundo rnorga'
nico, da uácureza morta, recebeu tambem o nome de cos'
mologia. })m seguida veem os phenomenos que apreBen-
tam ãs seres organisados ou vivos, a extstencia bi,ologi-
co (5) ; e emfim, os relativos á ordem humana, primei-
ro, collectiva, que se referem aos phenomelos - politicos
ou socíoes (6); depois, sob o aspectos individual, ou fac-
tos rn'oraes (7)..
Esta^s sete categorias de acontecimentos, que r-e-
presentâÍn a ordem natural em sua totalidade, são então
inreductiveis umas ás outras, isto é, cada categoria des-
de os phenomenos mathematicos até os moraes, contem
pelo ríenos um elemento 'a m&is, uma marreira de ser
iova que a distingue da precedente e impede que ahi fi'
que classificada.
Demais, póde-se notar que os phenomenos os mais
simples, como os de numero, de extensão, e de movi-
mento, ou a existencia mathematica, sáo ao mesmo tem'
po os mais geraes, isto é, proprios de um grande nu-
mero de seres; da mesma sorte que, os mais complica'
dos, os factos sociaes e moraes por exemplo, são tam-
bem os mais especiaes, ou particulares a um numero
de seres mais restricto.
Nada póde fazer melhor comprehender o que é ume
ROB INET

sciencia ab-stracta, isto é, a explicação positiva de um


grupo it'reductivel de phenomenós naluraês, physicos, vi-
taes, soclaes, etc., ou de uma existencia cspecial, con_
form-e as leis que lhe são propnas .
_ Toda sciencia propriamente dicta é uma construc-
ção theorica, em parte objectiva, em parte subjectiva,
cujos elementos constituinies, -sui
acontôcimentos ge-
neris.
-- -
fornecidos pela observação abstracta, são óm
seguicla
_cotejados e classificados pela meditação inducti-
va e deductiva que delles tira e óordena asleis, as re_
lações constantes de semelhança e sobretudo de suc_
cessão .

... Após o que precede, na parte que interessa ao po-


sitivismo, será facil tambem represõntar o que se deve
entender por synthese subjectiua, que é a clasiificação de
todos os nossos conhecimentos reães em relaqão ao su-
ieito que faz a observaÇão, que tem a eoncep-çáo da or-
dem natural, isto é, em relação ao homem, ã'mais jus_
tamente ainda, á Humanidade.
_ Com effeito, esta classificação não tem a preten-
s-ão de representar estrictamenté a realidade objectiva
do mundo, porem sim a ideia que della faz o nosso en-
tendimento (o sujeito);- a cooidenação de suas concep-
ções_sob seu ilonto de vista, e sua únidade toda logicà,
absolutamente não existem fóra delle, e é ainda o nosso
entendimento que tira de si mcsmo os processos e os
meios desta construcgão.
Juntemos. rilqu que, esta ordem abstracta é por
_ vez
sua a mais fiel representação da ordem natural-ou
concreta: a hierarchia das existencias concorda. espon-
taneamente com a escala dos seres e dos eorpos. õbm
effeito, os mais simples dentre elles, os astros irão apre-
sentam com precisão, quasi para nós, senão propriêda_
des de ordem mathematica; em nosso gtoto, oJ míneraes
só teem, alem destas ultimas qualidaães, propriedades
physicas e chimicas; os corpos vivos, quer uãgetaes quêr
animaes, a estes diversos atontecimento., reünem novas
PHILOSOPHIA POSITIVA 59

qualidades como seia: o duplo movimento interior de


ássimilaçáo e desassimÍlação, e para os ultimos, ainda a
sensibiliáade e a mobilidade. tr)mfim, os póvos, seres col'
lectivos da ordem social, nos offerecem, alem dessas pro-
priedades já consideradas, novos phe-nomenos- de activi'
ãade, de .intelligencia e de moralidade que só nelles se
encontram com caracteristico desenvolvimento.
Não se deve pois, esquecer o que já anteriormente
indicamos, isto é, que parallelàmente á synthese subiec-
tiva, a essa grandã construcção theorica que emana da
razão abstraõta, o Positivismo tambem admitte e coor-
dena, pela razão concreta, uma outra encyclopedia de no-
ções rõlativas aos seres, propria a servir de guia ne
pra-
[ica diaria da vida, e particularmente destinada aos in-
dustriaes e ás mulherts encarregadas da educação da
infancia, na qual se cleverá sempre utilizar dos conhe-
cimentoÉ positivos iniciaes, sobré o conjuncto do meio
terrestre .

V. Leis natur,aes dos phenomenos politicos, ou leis


- sociologicas donde a possibilidade de uma
scienqia cocial

A quarta concepção essencial da philoso.phia positi'


va é quã os phenomenos sociaes (a existencia. politica)'
do me'smo môdo que os de ordem physica e biologica, são
sujeitos a leis naiuraes estaticas e dynamicas, Ieis abs-
irãctas sobre a ordem e o progresso, cujo conhecimento
constitue a Soci,oTogia ou a sciencia social; leis estas que
-nossa
representam para especie, um dominio só modi-
fiàvel sob ceitas relações e e'm certos limites '
As possiveis modificações restrictas áquellas rela-
politica
ções e liirites é que constituem o objecto da arte '
'As leiipropriamente
ou politica dita .
estaticas da ordem humana envolvem a es-
tructura de toda a sociedade, suas instituições funda'
60 ROBINET

meltes, §eu-entreleçârnento necessario: a propriedade,


a familia, a linguagem, o_
-governo temporil'ou- politico,
a ligação espiritual ou religiosa.
_ As leis dynamicas são as mais caracterizadas e en_
volv,em.os.tres aspectos essenciaes da natureza humana,
mteltectual e moral, suppondo já estudado em biologia,
tudo que fôr da ordem pirysica ãu material .
Eis estas leis,,-hoje já bem sob a de_
-aqui ,,leis
nomrnaçáo de dos tres estados,,."o"fruãia".
_7." Concebido ile' conjuncto, a lei fundamental il,a
eoolução i,núellectuat, coniiste ní, por*gáro iecàssariÃ, ae
t9d,as as theorias ltumanas por ties estaítos successil)os.
o primei_ro, theologico ou jicticia, eu"*píi eroukorio;
o segunil,o 'mntaph,gsieo ou abstracto, pur:on àt" fuansi-
t,?ri?i o.tercei,ro, posdti,uo ou scàeníd'iico, à-o-uni,co il,e-
finiti,ao" (L) .
E' preciso entender por theorias, as nossas maneiras
quaesquer de ver as cousas sobre o mundo e sobre o ho_
mem.
_ 2," A actividade hunrana, ou a acção do homem so.
bre omeio exterior, cosmico ã social,
tres phases successivas inevitaveis: opZs i"..r-t"Àf.* po"
,r, *ill,to,
q_uistadora, tmile sempre e por taíla'pàrtii, a"íe "on-
fumar
y,!r"r!ng ou ind,ustrial, passand,o por urnq, phase militar
üelensxua.
- 3." O sentimento em.feral (o instincto social), que
gi_9 tem evolução propr_iã, apresenta taryUem, apezar
drsso uma marcha ascendente, apoz a acçãõ de doià mo_
vimentos precedentes, theorico, ê pratico: a siciabàtida_
üe e d, pr\nc"tpio domestica, ílepoàs cirsàca, e türnd_se por
tim unitsersal.
- . Não que
rorturta,
é, pois, de modo algum, por uma coinciclencia
o amor pela Humanidade, em nossos dias,

1) ÁugUsto Comte, Trqtúiln


-de -trreoria^f)ositiüd,, t . I, ch . 1,
(
potiti,ctl
l:g
numana; ,- Veja todo o capitulo:
^_2^8. Ieis geraes do movlmento
inteuectual
posúvâ Aa eíotuçao
e soclal.
PHILOSOPHIA POSITIVA 6I

coincide com o advento da mentalidade scientifica e da


actividade industrial (1) .
Eis como a lei dos tres estados, envolvetrdo os attri-
butos essenciaes de nossa natttreza, o espirito, o caracter
ou a actividade, e o coração, poude fornecer a base so'
bre a qual Augusto Comte funãou a sciencia social, pois
qu", o passado e o presente, ella- deú'ons-
"&la.e..ido
tirou que o progresio definitivo (o futuro) deve con'
sistir no estàd,o positdtte fls no88o, rdzão, (le nossa acção,
e ile nossa rnoro,lid'aile, e fixou assim o fim da progressão
humana.
Mas o fundador do Positrvismo não está isolado e
sem precursores na trilha que o conduziu ao estabelecl-
mentã da sociologia . Pertsadores illustres o precederam'
Para não citar sãnão os principaes depois, de Aristote'
les, já Montesquieu havia presentido e formuledo a exis-
tencia de leis naturaes sociologicas, sem comtudo ter for'
mulado nenhuma, podendo se dizer o mesmo cle Turgot'
Por seu lado, o presidente de Brosse, em um opus-
culo notavel, reconhõceu toda a importancia do inicio
fetichista commum á nossa especie, e George Leroy-e
affinidatte deste primeiro estadt mental, moral e social
com a situação eipontanea dos animaes mais elevados e
mais approxlmadoi á nós . Condorcet foi mais longe, en'
saiou c'olrn rara felicidade traçar o quadro historico dos
progret"ot (lo espirito humano. Era uma visão de genio,
um'esboço admiiavel da marcha do nosso entendimen-
to em busca da verdade, com o presentimento da direc-
ção das leis naturaes, sem ainda comtudo, formular nem
irecisar nenhuma. Na Inglaterra, David Hum-e indicou
ós dois termos entremos da lei de nossa actividade, sem
entretanto chegar a encontrar o termo de ligação inter'

(1) N. do T. Isto é, tendo a intêlligenci€' êtungtdo o 3'"


estaa'o-,'o po"itiro,a- ecuvidâ.do devo ter ettingido tambem e 8''
pú"", a- úoustrtú e o sêntlmento dêvo ter por §!19 -vêz chegêdo
à socíahilidirde universal, ou, ao &mor pela Humanidade '

!- {rt ,,.i.4r, .,ú,---/a-í iÊ ", r-.'- ' 'rrrJ*r .}L ''


62 ROB INET

meírjario, que só pederia ser indicado pela escola retro.


grada, unica capaz de comprehender d apreciàr suffici-
entemente a edade media, annel essenciaida cadeia dos
tempos . Ágora, se collocam aqui, os trabalhos de philo-
sophia historica de Joseph de Maistre e de Bonalá, dos
quaes Augusto Comte assimilou a substancia .
Não temos duvida em admittir que um homem mui_
to pouco conhecido como philosopho e que -habitual_
mente não figura entre os pensadores de- elite, o dr.
Burdin, que em_ primeiro logar assignalamos como po_
.
dendo ahi se collocar, tenha contribuião para reunir, dàs_
envolver e precisar tantos principios preliminares .
. , Mas, para arrebatar súa orfuinaiidade e seu mêrito
á obra de Augusto Comte, os aãversarios áo Êositivis_
mo imaginaram attribuir á Burdin a dcscoberta da let
dos tres estados .
_ 9-, tal pretensão não se justifica nem de facto, nem
pela theoria.
__ ^
Como explicar, com effeito, que Saint-Simon, em
-
7822 haja, por .acto pessoal, sob súa assôgnfrtura, com-
nrado a Augusto Comte, para o Cateci,srí,o dos Inilus-
tria_es_, a publicaqão dos seus primeiros trabalhos
sobre
a philosophia politica, e, em párticular a Iei-dos tres es-
t_ador. se muito antes, em 1g13 já houvesse recebido
do
dr. Burdin communicacão destà grande desàoberta, e
aommunicado em seguid« a AugtLíto Comte? Como
mittir oue Burdin por seu lado deixasse sem nublicarad,e
propa.gar muito antes de 1822, um trabalho philosophieo
tão eonsirleravel. e oue, vivenc{o ainda e estando presen.
te em Paris, onde tinha relar?ões com'-Saint-Simàr, .,luon.
do Comte fez prrblictrr seu primeiro enu.nciarlo. o arrtor tlo
Catecismo dos Industri,aes, não se t"enlt n dirisido .a elle
antes clue ao primeiro. on gue. pelo menos o Dr,. Burdin
nã,o h,o,ia reclo.mailo de a (a lei dos tres cstados)
a pn_
te.rn,irl,ad.e? . Et então cerfo oue Comte nã.o
tinha ainda
tirlo conhccimento tla Ment,orin sohrc rr sci)?t1,ci,ít do h,o-
me?n, q,re Bur,çlin c Seint-Sinron niin tfu'21 trnham
aincla
PHILOSOPHIA POSITIVA 63

transmittido, e que, nem Burdin nem Saint-Simon, elles


proprtos jamads conluniliram os esboços sociologicos pu'
bUiaaos àm LBLS com a descoberta real, e a tormagd'o pne-
cisa ila "lei ilos tres estados" ent 1822. A obstinação dos
detractores do Positivismo sobre este ponto prova então
unicamente, a importancia da creação philosophica de
Comte, mas nada conclue absolutamente contra sua pa-
ternidade dessa lei .
Por mais notaveis e preciosos qúe sejam os traba'
lhos preliminares de que acabamos de fallar, elles não
constituiam realmente, quanto â construcção da propria
sciencia social, e á tlescoberta das leis sociologicas, senão
vistas e esboços geraes, faltando o conjuncto, a systerna-
tizaeá"o, e mõsmõ, muitas vezes eram contradictorios
ísodreiudo com respeito ao Dr. Burdin); não havia alli
de facto, construcqãã abstracta propriamente dicta '
Com effeito, Montesquieu percebeu relacões fixas
entre certos factos historicos e sustentou mesmo em
historia a noção de lei natural, mas repetimos, sem for'
mular nenhuàa. Turgot, gue acreditava em Deus. não
ousou extend er atê i politica, essa noqão, que elle só
entrevia para os factos cosmologicos, subordinando-a
bem enteádido, ao poder sobrenatural. Condorcet ape'
zar dos trabalhos de Montesquieu, Turgot e de Hume
não precisou mais a natureza da progressão normal do
nossà entendimento nem de nossa actividade. E o Dr'
Burclin, oue teve dessa progressão um presentimento
muito mais accentltado, ernbora inconsciente' atlmittia
entretanto a possihilidade de referir todos os nhenome'
nos, inclusive as manifestações do nosso âDpârelho ce'
rebral. e todas as leis naturaes, d, let'dn qrat:itacã,o, e,
ainda mais, elle acreditava com Dupuis que os dogmas
religiosos ou theologicct's hnviam sido precerlirlos pcr
um estado scientifico mais ou menos desenvolvido. o
que indica a completa subverslo e o desconheeimento
tambem completq-mesmnda progressão real e natural rle nosso
espirito por elle vagamente indlcadlo.
64 ROBINET

Póde-se então affirmar que, preparada pelos dif-


p_ensadores atrás assigaalatt?x, a qu'àstão
{ere_ntql da
firndação da sciencia social estava intacÍa antes Aã eu_
gusto Comte, e que, só elle a resolveu submettendo á
observação e á meditação abstracta os phenomenos da
historia, e deduzindo delles as leis da estructura e do
desenvolvimento da Humanidade, caracteres commung
a todos os seus elementos, quaesquer que elles sejam
individuaes e collectivos (ethnogrãphicàs, anthropãIo-
gieos politicos, sociaes, etc), em iodôs os iempos e em
todos os logares . Operação immensa e vêrdaâeiramen-
te eapital, que jamais havia sido delineada e nem
mesmo systematicamente concebida antes delle, e que
talvez, entre aquelles que a anteviram, só o illustre e in-
f,eliz Condorcet podesse leval-a ao fim, se acaao tivesse
vida mais longa.

V!. Coordenação subjectiva das scienciai abstÍactat


- conÍorne a sociologia

Quinta idéa fundamental:


Todas es nossas maneiras de ver ou concel4ões so-
bre assum-ptos quaesquer, para se tornarem -positivas
podem e devem ser coordenadas sob o ponto -de vista
social, afim de que todos os nossos conhecimentos reaes
concorram ao serviço da Humaaidade.
O que estabelecemos atrás quanto á necessidade da
abstracção e o que dissemos sõbre a irreductibilidade
das Ieis naturaes, mostra que estas grandes relações es-
pontaneas sendo necessariamente multiplas, e mesmo
em numero consideravel, impossivel se torna reduzil_as
á unidade, isto é, não é possivel encontrar ,-, qo"
prehenda e explique todas as ooutras. "o*-
.
Como, pois, fazer do conjuncto destas leis, ,,m4
syntàese que s-e
-suppõe neceesaiia para unil-as, abrau-
gel-as e guerdal-as oirnultaneamentl em nosso espiri.
PHILOSOPHIA POSITIVA 65

to, de maneira a formar um todo integral dos conhe.


cimentos positiyeg, uma escala continua das existen-
cias e mesmo dos sêres que as manifestam, e que são
o objecto real das nossas meditações?
. Sabe-se que o principio fundamental da philoso-
phia positiva consiste na concepção de uma ordem na-
tural immutavel á qual sejam submettidos os aconteci-
mentog de todos o.s generos; mas é preciso lembrar que
esga ordem envolve ao mesmo tempo, o mundo oü o
objecto, e o agente contemplador que é o homem ou o
sujeito. "Leis physicas suppõem, com effeito, leis Io-
gicas e reciprocamente. Be mosso entend,imento nd,o ae-
g.uisse espontameamente nenh,uma regra nã,o pod,eria
jamai* apreciar a lwrmoni,a enterior . O mundó sendo
mais simples e mals poderoso que o homem, a regu-
Iaridade deste seria cada vez mênos conciliavel com a
desordem daquelle. Toda fé positiva repousa então so-
bre a dupla harmonia entre o objecto e o sujeito. ,,
(Augusto Comte) .
Desde então tambem, toda lei verdadeira resulta
de uma observação exterior e de uma concepção inte-
rior, de um elemento objectivo fornecido petd mundo e
de um elemento subjectivo fornecido pelô cerebro, de
uma relação apprehendida fóra de si pelo nosso enten-
dimento, de accôrdo com a harmonia- que possa exis-
tir entre a coisa apreciada e a funcçãà apreciadora.
Assim, em todas as nossâs concepçõel, o irundo for-
nece- a materia, e o espirito determina a fórma, e é
partin-do desta disposição fundamental que finalmente
se pótle chegar a instituir a unidade theôriea.
Ha tres sortes de leis abstractas: physlcas, intel-
lectuaes ( ou logicas ) , e moraes . As prifueiras, rela-
tivas á existencia material, exprimem ai relações cons-
tantes dos numeros, da e:rtensão, do moviménto, do
peso, do calor, da electricidade, do som, da luz, etc.,
da composição e da deeomposicão chimicas, de toda vi-
talidade inferior, vegetativa e animal. As segundas
66 ROBINET

comprehendem as clispo§ições fundamentaes e os pro'


cessos essenciaes do entendimento. Emfim, as ultimas
são relativas á sociabilidade. De umas e de outras já
demos atrá.s exemplos bastante caracterizados para não
ser agora necessario repetir.
O estudo positivo do mundo e do homem surge
naturalmente da contemplação tla ordem physica, a
mais simples e mais independente, o que facilita esta'
belecer nella concepções duraveis, ao pâsso que, tendr:
em vista a complicação superior e a extrema dependen-
cia, o dominio moral durante longos seculos até nossos
dias só empiricamente tem podido ser cultivado, e seu
estudo, antes da fundação do Positivismo, não forne-
ceu nenhuma concepção systematica. Todavia, se por
um lado, o conhecimento das Ieis physicas constitue e
base de nossas opiniões reaes, por outro lado, o desti-
no das meditações humanas reside certamente na or-
dem moral, que é seu objectivo mais importante e mais
elevado, o qúe faz com que a unidade do systema não
possa se estabelecer senão pela ligação dos dois domi-
nios extremos .
Ora, esta ligação póde se operar, como de facto se
opera pela intermediaria, a scieneia social, cuja cons-
tituiçãó positiva está essencialmente caracterizada pelas
Ieis intellectuaes, pois que, dos tres elementos da exis^
tencia social (ou da vitla publica), o sentimento, a in-
telligencia e a actividade, é a intelligencia que se acha
natu-ralmente preponderante. De facto, réiativamente á
existencia collectiva, o sentimento só fornece reac-
ções intimas, que, em vista de sua reciproca opposiçã.o'
se annulam para com a especie, ainda que ellas sejam
muito importantes no conceito dos individuos, e numa
situação dada, o espirito sózinho arrasta a actividade
pela marcha que ella deve seguir e reaje sobre o sen-
timento para modifical-o no mesmo sentido.
A intelligencia, que produz creações, resultados
susceptiveis de serem accumulados e de apresentar uma
PHILOSOPHIA POSITIVA 61

gérie (1), é entã.o a unica capaz de caracterizar bas-


tante a evolução social; a suceessáo historica e as Ieis
da existencia collectiva podem então se reduzir final-
mente, a leis lcgicas, que melhor representam esta fi-
liação. São pois, em definitivo, estas grandes tonali'
dades intellectuaes e suas relações reciprocas que nos
fcrnecem o principio da coordenaqão de toclas as leis
abstractas e que nos permittem estabelecer a ligaçõo
necessaria entre o dominio pirysico e o dominio moral,
pela intermediaria do dominio logico .
Para bem apprehender, basta Iembrar aqui, as
principaes leis intellectuaes:
1.' O mundo exterior fornece ao entendimento
-
os materiaes objectivos de suas construcqões subiecti'
vas. (Hippocrates, Aristoteles, Leibnitz, K;ant, Âug:us'
to Comte).
2.^ O espirito é forçado a crear sempre por si
mesmo -as ligações subjectivas de suas impressões ob'
jectivas, necessariamente incoherentes. (Àugusto Com-
te. )
3.' Toda concepQão theorica passâ por tres es'
-
tados successivos: theologico, methaphysico e positivo'
( Àugusto Comte) .

4.' Nossas concepçõês theoricas se deeenvolvem


segundo- a generalidade decrescente e a complicação
ereseente dos phenomenos correspondentes . (Augusto
Comte).
Âs duas primeiras destas leis, estabelecendo as
bases da nossa constituiqão mental, fornecem o princi-
oio logico da systematizaeão das leis naturaes e deter-
minam seu caracter plenamente subiectivo. À terceira
estabelece as condiqões do movimento intellectual, o
fim normal e real de toda evoluqão mental, e por con'
seg'uinte a natrreza positiva da synthese final . Emfim,
a ultima, fornece o meio de instituir em todos os setls
(1) N. do T. Refêrê-se ás intelllgenclaE de ercól
-
68 ROBINET

detalhes a jerarchia das Ieis abstractas, a eBcala das


esistencias, e mesmo a série dos respectivos sêres.
Subjectivamente encarada, ella fornece o principio
da filiação real de nossas concepqões abstractas, em-
quaato que, objectivamente considerada, ella permitte
a classificação dos phenomenos. Estabelece enião unra
certa correlação verdadeira e uma harmonia profunda
entre noesas observações e nossas concepções, entre a
razão concreta e a raz o abstracta, o que permitte in-
stituir uma systematização universal .
Em resumo toda synthese objectiva ou exterior é
impossivel, visto a indivisibilidade dos sêres e a irre-
ductibilidade dos phenômenos e das leis. Só é possivel
uma synthese subjetiva, como uma coordenaqãô geral
das existencias entre si (physica, vital, social, etc. ) e
em relação á mais elevada de todas, a existencia social;
só é realizavel uma systematização de nossos conheci-
mentos sobre o mundo e sobre o homem em relação â
Humanidade, que contempla a ordem universal e a e_i-
plica afim de aperfeiqoal-a.

Vl l. Ree umo da philosophia primeira


-
- Estamos já bem adeantados no conhecimento posi-
tivo, e ainda não rabordamos o objecto proprio desta-phi-
losophia, isto é, a constituiqão da scicncia univeria,l.
que deve ser e..iposta na segunda parte deste rcsttmo ; é
que de facto só temos até aqui considerado os prolego-
menos mais indispensaveis á intelligencia da - grande
construcção scientifica, qualificada por Augusto Comte
de philosophi, segu,rrild,.
Em opposição a isto, elle denominou de ph,tlosoph,ia,
prdmeira os preliminares logicos que acabamos de recor-
dar e one formam, com um ceÉo numero de leis natu,
raes ainda mas geraes que aquellas que concorrem
para completar a série das sciencias propriamente di-
PH ILOSOPH IA POSiTIVA 69

tal, eesee prúmoiroc prôncipiot entrevistos por Bacon,


cujo estabelecimento er& um dos seus principaes il,esi,ile-
ra,to, e que foram por fim reunidos em um corpo de dou-
trina pelo fundador do Positivismo .
. O mesmo se póde dizer de uma série importante
de questôes apresentadas por Àristoteles, Leibnitz,
Hume e Kant, e resolvidas aqui por Augusto Comte .
Todavia, excepto para as principaes destas leis, eIIe
nã,o fez senão fixar o numero dellas, fornecer seu euun'
eiado e dar seu progrsmma, com algumas indicações
geraes, em seu Tratado de Politica Positiva.
Pertencia ao homem que elle chamava "seu prin-
cipal discipulo" citaremos, M. Pierre Laffite
-
apresentar a demonstração eo desenvolvimento com- -
pleto. (1)
E' por este serviço e por um trabalho equivalente
na elaboração desta sciencia moral de que só a morte
impediu o fundador do Positivismo de acahar, que Laffi'
te viu associar seu nome ao do Mestre e que não exita-
mds em alpresentar aqui como seu real continuador,
como seu Êuccessor theorico .
O corpo de doutrina então conhecido sob o nomc
de ph,i,losophdo primeira, que tambem comprehende o
conjuncto âe noções geraes que acabamos de expôr, con-
sistô em quinze grandes leis naturaes classificadas em
tres grupos successivos, nos quaes vamos encontrar a
maioi parte destas que acabamos de assignalar; essas
leis ou princtpios unitsersaes, consistem nas relações abs-
tractas as màis geraes que possam apre-sentar os pheno-
menos quaesquer; são independentes da natureza pro-
pria destes phenomenos e communs a cada das grandes
categorias de acontecimentos que a ortlem real apresen-

(!) CoLrc ik phllasopkie primiàrc €m vlnte licaões, profes-


-
sfldo vari8r veze! D& rua, Monaiêur le Prlnce.lo, de 1869 ê 1678,
pelo pl,Éno tragado por Au$Írto Comte peru, o enBlno positlvtsta;
(em üe de publlclaçã,o na nepue OcctÃantatre)
-
7o ROBINET

ta. São subjectivas, ou objectivas, isto é, relativas ao


homem ou ao mundo.
PRIMEIRO GRUPO Tanto objectivo como subjecti_
vq; cornpõe-se unicamente - de tres leis:
1." "tr'ormar a hypothese a mais simples e a
-
mais sympathica que comÉorta o conjuncto dãs dados
a representar". E, uma lei subjectiva, que se refere á
conducta do nosso entendimento, por ionseguinte lei
logica. tr)', como as duas que se segue-m, devidJa Âugus_
to Comte .

2." como immutaveis as leis quaesquer


que regem- "Conceber
os sêres pelos acontecimentos,' . E,- uma lei
objectiva, ou relativa sobretudo ao mundo exterior.
3." "Âs moCif icações quaesquer da ordem uni-
- limitadas
versal são á intensidade dos phenomenos, cujo
arranjo persiste inalteravel',. E, uma lei objectiva corno
a precedente, que ella completa.
SEGUNDO GRUPO Essencialmente subjectivo
-
sobretudo relativo ao entenümento.
Primeira sétie: Refere-se ao estado estatico da
nossa intelligencia . -
Primeira lei as construcções sub-
- "Srrbordinar
jectivas aos materiaes objectivos", a meditação á obser.
vação. (Aristoteles, Leibnitz, Kant e Augusto Comte. )
Segunda lei imagens interiores são sempre
menos vivas e menos- "As nitidas que aB impressões exterio-
res", ou, nossas lembranças que nossas sensações imme-
diatas . (Agusto Comte ) .
Terceira lei "Toda imagem normal deve ser pre-
ponderante sobre- aquellas que a agitação cerebral si-
multaneamente faz surgir"; a imagem normal, quer di-
zer, & concepção ou a representação interior a mais ap-
proximada da realidade exterio-r. (Augusto Comte).
Segunila série: Relativa eo da intelligen-
- d1mamico: surto
cia e da moral, no estado
Primeira lei entendimeno apresenta a suc-
- "Cada ficticio,
cessÃo dos tres estados: ebstracto e positivo,
PHILOSOPHIA POSITIVA 7l

para, quaesquer colrcepgõesr com uma velocidade propor-


clou&t ü, generallqaqe uo§ ptletromeno§ corresponcrenEes" '
(A. comte)
actividade é a principio conquis-
§eguncra. iei
- "A e por tlm . lnousu'lal" . (4.
tadora, oepors defenslva,
Oomte). . ..*-/
'r'erceira lei "À sociabilidade é a principio domes-
tica, depors clvrca, - e por trm ullversal, seguncto a natu-
reza pecúÍar a cada um dos tres instrnctos sympàthicos
-.(Bpêgo, veneragáo e bondade) ". (Augusto Uom[e) '
-'r'EitaCEfRO E§sencialmente oojectivo, ou
GRUPO
relativo ao mundo. -
Primeira Série:
Primeira lei "Todo estado estatico ou dynami-
co tende a persistir - espontaneamente sem nenhuma aI-
teraçáo, resrstindo ás perturbaçiies exteriores". (Ke'
pler). Póde-se constatar esta. lei, tanto em sociologia
como em biologia e em physica.
Segunda lei "Um systema qualquer mantem sua
constituição, actrva - ou passiva, quando seus elementos
soffrem mutações simultaneas, comtanto que sejam el-
las exactamente communs . " (Galiléo) . E' o caso das
pessoas que são transportadas por um vehiculo qualquer'
balão, carro, navio, e que conservam ahi suas relações
reciprocas .
Terceira lei "Ha sempre equivalencia entre a reac-
ção e a acção, se- a intensidade de ambas fôr medida de
accôrdo com a natureza de cada conflicto" (Huyghens'
Newton, A. Comte). O mundo politico, tanto quanto o
mundo physico, fornece a verificação desta lei .
Segund,a Serie:
Primeira lei sempre a theoria do
- "subordinar
movimento á da existencia, concebendo todo progresso
como sendo o desenvolvimento da ordem correspondente"
cuJas aondições quaesquer regem as Eutações, que cons-
tituem a evoluçã,o". (4. Comte).
72 ROBINET

Segunda lei classificaçáo positivq deve


proceder obedeceudo- "fed4
á generalidade crescente ou decres-
cente, tanto subjectiva como objetiva,, (4. Comte), isto
é, obedecendo á complicação augmentada ou diminuida
dos phenomenos apresentados pelos seres.
Terceira lei intetmediario deve ser nor-
- "Todo
malmente subordinado aos dois e_ltremos, dos quaes elle
opera a ligação"; por exemplo, os termos médiol da pro-
gressão intellectual e pratica, o estado abstracto e o es-
tado militar defensivo (1) .
Tal é o objecto da philosophia primeira.
_ Agora, nos é possivel dar uma fórmula geral da phi-
losophia pcsitiva: considerada em conjunctó, ela nãb é
mais qus a systematizaçáo scientifica dàs idéas humanas,
ou, a explicação real do mundo e do homem pelo regimen
das leis naturaes, substituido em tudo ao regimen das
vontades divinas. Consiste ella pois, essencialmente na
applicação completa da noção de lei a todos os phenome-
nos reaes tanto objectivos como subjectivos, ou, na con-
cepção scientifica da ordem universal, cosmologica, vi-
tal, social e moral. Por conseguinte, ella abanãona as
cauoüs, como sendo ao mesmo tempo uma pesquisa inac-
cessÍva e vã; abandona tambem o porque, e ao se pre-
occupa com o aorfto, isto é, so procura as leis effectivas
dos phenomenos de todo genero, e ;uas relações reaes e
constantes. Emfim, ella substitue por toda parte o rela-
tivo ao absoluto e desiste da syntLese objeõtiva partin-
do de -uma causa primariei, uniia e omni§eradora, para
não admittir senão leis multiplas, cuja coãrdenação-não
trúde ser feita senão subjectivamenie, em relagão ao
Gran-Ser collectivo, contemplador do meio ambiente, _
a Hrrmanidade Ào mesmo tempo, a philosophia posi_
-.
tiva _repousa inteiramente na sepáração do cõncrelo e
do abstracto, na divisáo da sciencia e da arte. Ella nã.o

-__
(1) VeJa Ceteclrrno porlüvtsta, tr. dc Mlguel Leraoe, pag,
{79, ou as expllcagões destâ6 lel8 na! pat§. 174,17õ, ZLg e Lú,-
PHILOSOPHIA POSITIVA 13

eapecul& directa.ureute senão sobre a exbtencia, eobre o§


pbenomeuor que a comÉem, e nunca, sobre os sêroe que
a ma.nifestam, aos quaes ella reserva o estudo especial á
pratica. No ponto de vista do methodo como no ponto
de vista scientifico, a philosophia positiva institue en-
tã,o, um renovamento total e um estado mais perfeito da
meutalidade humana.
Termina aqui a primeira parte deste liwo, essa
cujo fim era resumin o mais succintamente possivel as
bases logicas do Positivismo, e fazer comprehender cla'
posi-
râmente em que consiste essencialmente
tivo de nossa intelligencia. - o estado
Na segunda paúe iremos -. expôr, reduzindo aog ele-
mentoe mais simples, o systema completo das sciencias
abstractas, objecto principal da philosophia positive.
SEGUNDA PÀRTE

OBJECTO DA PFIILOSOPTIIA POSITIVA _ SERIE


ENCYCLOPEDICA DAS SCIENCIAS ABSTRACf,AS
PIfILOSOPTIIA SEGUNDA
-
l. lnstltuição d.r sérle encyclopedica daa sciencirs
- rbst?âctâr

Depois de possuir a collecção de coisas e de factog


obtidos pela observação, depois de ter o conjuncto de cG'
nhecimentos relativcs aos phenomenos e aos sêres, o
espirito positivo formou grupos, categorias, séries, e de-
duziu reiações geraes, ou leis, que deram logar ás diffe-
rentes construcções seientificas que hoje possuimos, e,
finalmente, á sciencia universal .
À mathematica foi lentamente elaborada com Ttra-
les, Pythagoras e Archimedes, até Newton, Descartes,
Leibnitz, d'ÂJembert e Lagrange; a astronomia com Eu-
doxio, Ptolomêo, Hipparcho, até Kepler, Copertrico, Huy-
ghens e Laplace . A Physica, muito mais tarde, é cons-
tituida por Galilêo, Bradley, Roemer, Watt, Volta, Sau-
veur, etc.; a chimica por Lavoisier, Scheele, Priestley,
Berthollet, Berzelius, Liebig e tantos outros ; emfim, a
biologia surgiu log'c após os trabalhos de Linneu, Jussieu,
Ilarvey, Haller, Vicq-Azir, Buffon, Lamarck, Bichat,
Gall, Broussais, Blainville, etc, , que tão solidamente es-
tabeleceram a noção positiva da ntiLa, suas condições
e seus grá"os: üegetali,a crescunt et oi,trunt ; enimnlul
crescunt, uiount, sentiunt et n?,ooent .

Todas estas sciencias sendo relativas ao mundo, cona-


tituem o que ainda se chama a pltilosophi,u ndturq,l .
Falta a ordem humana.
Foi Àugr-rsto Comte quem preencheu a lacuna, dize.
mos nós, apoiando-se nos trabalhos anteriores de Aris-
7tt ROBINET

toteles, de Hobbes, de Bossuet, de }"[ontesqtrieu, de Hume,


Ce Turgot e dos physio:ratas, de Conclcrcet, mesmo de
Vol';aire (Ensaios sobre as costumes) e rle De n,Íaistre,
para a sociologia; e sobre os de Diderot, Flume ainda,
Georges Leroy, Gall, Cabanis, pâra o que se refere á
scic:rcia do homem individual, a moral
De 1819 até 1854 elle fundou a primeira, e de 1852
atá,7857 e'laborou a segunda, sem tcdavia, ncder deixar
desta. senão a sitr-ra.qáo encyclopedica, as Iinhas geraes
c o plano .
Demais, tendo sabido assimilar o conjuncto do sa-
ber humano; a totalidade das sciencias, a noção precisa
de tudo que é observavel e demonstravel, Comte conse-
guiu ligrr tantos elementcs esparsos para formar um
systema unico, a série encyclopedica das sciencias abs"
tractas, de accôrdo com os grandes principios de philo-
sophia primeira, expostos no prirneiro capitulo.
São estas grandes influeneias natura.es cujâ acção
espontanea e permanente occasionou a cordenreão dâs
descobertas scientificas quaesquer, ou a philosol'rhia no-
sitiva, que permittiram a seu Fossante creador se en-
eontra.r'assirn em completo accôrdo, para suâ eonstrucção
systematica, com todas as tendencias espontaneas, indc-
pendentes e não coneatenadas. de seus rnais longinquos
Drecllrsores.
O quaclro que se segue, or'gânizado por Augusto
Comte, apresenta de coniuncto a confirmaqã.o desta con-
cordaneia arlmiravel, nuncâ fortuita, pois que a escala
das sciencias em sete gráos (raathematica, astronomia,
physica, chimica, biologi:, sociologia e moral) póde igual-
mente ser descendente ou ascenilenta. conform.e se collo-
ca no ponto de üsta dogmatieo e sutrjoctirro, ou no pon-
to de vista historico e ohjeetivo sem coryl isso violar ne-
nhrrrn rlns rrrincinios logicor, do clnsse,tlinto nrsitivo.
Pallindo do su,jeito pâra o oh iecto ou cl-o homem
nn râ c mundo e dos rhenomenos os mais complicadoe
e menos geraes p€ira os mais simples e mais communs,
PHILOSOPHIA POSITIVA 8t

â systemetização positiva colloca a ntarü\, á frente da


hierarchia scientifica.
Com effeito, esta sciencia, etr1 sua parte theorica,
institue o conhecimento da natureza hunrana, sobretudo
intellectual e moral, emquanto que, na sua parte pra-
tica, ella formula as regras destinaclas a aperfeiçoar
os preceitos da arte hurnana. E' pois a um só tempo a mais
completa, a mais complicada e a mais directamente util de
todas aquellas que compõem a série fundamental dog nos-
sos conhecimentos. De facto, alérn dos elementos de outras
sciencias que influem em sua constituiqão e se incorpo-
ram aos seus fins, ella especialmente considera as reâc-
ções intimas e reciprrocas do physico e do moral e tam-
bem as do sentimento sobre a intelligencia e a activida-
de, postas de lado em sociologia, como muito especlaes
e muito indirectas . Por exemplo, estudando a lei de evo-
lução da actividade humana não se leva. em conta as reac-
ções simultaneas, do sentimento, faz-se dellas abstracqão,
como se não existissem, âo pâsso que ellas se tornam pre-
ponderantes, se, em logar do caso sociolcgico se passar
ao exâme de uma questão de mcral inrlividual.
Mas a philosophia positiva não procurando senão a
lei, o como Cos phenomenos, afim de melhor dirigir a
actividade do homem pâra seu fim social, faz repousar a
seiencia moral sobre o estudo da existencia collectiva,
pois que, é preciso conhecer a soeiedade para estudar o
intlividuo que a deve servir. E' necessario possuir â
sociologia, por conseguinte, antes de abordar a maral.
Igualmente, o estudo da sciencia social sup;cõe o co-
nhecimento das leis vitaes.; porcjue os povos,- que fcr-
mam o elemento contemporaneo, t1r I'Iurnaniàarie, são
sêres vivos, e, se as coudições essenc,aes da vitaiiiladc
viessem a mudar, por e;iemplo, se o iromem viesse a po-
der viver só respirando sem comer, ou, se os lirnites cle
sua e4istencia fossem consideravelmente dilatados, os
phenomenos sociaes seriam com isto prcíundamente af-
fectados. A sociologia suppõe, pois, e institue antes del-
82 ROBINET

la, a Utologia. Mas,.por sua vez, todos os sêres vivos são


corpos, e, como taes, se acham submettidos ás leie as
mais geraes da ordem material, se bem que sua espon-
taneidade não seja amullada; donde a subordinação da
üologia â cowndlogia, que estuda o planeta sob o as-
pecto physico, como theatro das existencias superiores,
vital, social e moral .
Os termos successivos desta hierarchia são pois, de
accôrdo com suas relações de mais em mais afãstaalas
com a Humanidade: a moral, a soai,ologia, a bi,ol,ogia ?
clti,miea, a, physiea, a astronomda e a maitt ematàca . -
Mas esta escala philosophica comporta, já ficou dito
atrás, uma marcha inversa, se nos collocarmos no ponto
de vista objectivo, isto é, si se subir do mundo ao ho-
mem, lndo dos phenomenos mais simples e mâis gerae§
aog rnais especiaes e mais complicados em logar de tles-
cer, coÍno é commum, do sujeito ao objecto . Neste caso
se vae da matkematica â" moral pelos mesmos tlegráos
que indicamos : a,stronorniÃ,, phgsàca, chimàca, biol,ogôa,
sci,encia social e moral, . E' a marcha historica e esponta-
nea, aquella que seguiu o espirito humano para chegar âo
conhecimento completo das coisas, antes de poder ooorcle-
nal-o.
Demais, a complicação dos acontecimentos que sãd
o objecto de todas as nossas construcções scientificas,
corresponde naturalmente á dos sêres entre os quaes se
os póile observar, a hierarchia theorica coincide com a
destes mesmos sêres, ou pelo menos com a série dag
propriedades e dos modos de existencia que elles mani-
festam. Assim, a filiação das concepções positivas, com
o gráo de generalidade decrescénte, e de complicação
crescente corresponde á gradação das existencias physi-
ca, vital e social, como tambem com a gradação dos sê'
res, pois que, os phenomenos os mais complicados são
por toda pârte subordina.dos aos mais simples, e ainda,
ceda modo de existencia póde ser estudado entre sêres
dietinctos, de menos em menos geraeis e independentes'
ã .!. -r:ú *.i .r'--J?f r:,

PHILOSOPHIA POSITIVA 83

á medlda que vâo sendo mais desenvolvidos e mais ele-


vados .
Por e:remplo, a existencia mathematica (numero,
extensão, movimento), ainda que universal, póde sobre-
tudo ser considerada nos astros, que, em giâo de suf-
ficiente precisão scientifica, não apresentaú outra ma-
neira de ser. A existencia physica, ainda que propria de
todos os corpos terrestres, com os factos áa ordem ma-
thematica, só se encontra nos corpos que charnamos inor-
ganicos. A existencia biologica, de que todos os corpos
vivos são dotados, é a mais elevada que a maior palte
delles (vegetaes e animaes), possue. Emfim, a exiiten-
cia social, ainda mais complicada e menos geral que as
precedentes, é todavia, o gráo de maior destaque que of-
ferecem os sêres collectivos, os póvos, emquanto que, a
moral que realmente apresenta um elementô a maii que
todos os precedentes, o estudo do sentimento, não se en-
contra sufflcientemente senão no homem individualmente
considerado (1).
A hierarchia theorica comporta pois, realmente, um
duplo aspeôto, e póde ser tomàda em dois sentidos op-
postos, pois que, ella encerra juntamente, as nossas eotr-
cepções e as existencias que constituern seu objecto.
Por outro lado, sob o aspecto logico, o do methodo,
a serio ascendente (que vae do mundo ao homem) indica
a marcha normal e jndispensavel da educação theorica e
o surto grailual do verdadeiro raciocinio, que deve se

(1) N. do T. "Porto que elle (o prlnciplo Beral da hlerar-


chla abstracta) só -instltua dlrectamente à subórdinação dos s.con-
tecimentos, deve tambem conduzlr lndirectamente á dos seres. por-
quanto os phEnomenos sã.o tanto mais geraes quanto maiol. 6 o
numero das exlstenclas a que elles pertencem. Os mals stmples de
todos, embora espalhados por toda, parte, devem, pols, se enõoutrar
em slerea que náo nos offerecem outros, e nos quaes seu estudo
proprlo 6e torna, portanto, mala accessivel. Na verdade, o seg.undo
gráo theorlco esterá sempre necessari&mente reunido ao prirnelro;
6 sobrotudo lsto, Eai! do que e proprla nahrreza dos phenomenos,
84 ROB]NET

êxercer Bempre sobre objectos reaes e que, successiva-


mente, desenvolve em mathematicâ a apticlão deductiva,
em physica a inducção após observação e experimenta-
ção, a nomenclatu'ra em chimica, a comparação em bio-
logia e a filiaçáo em sociologia.
O conjuncto destes diversos processo intellectuaes
constitue o methodo objectivo.
Quanto ao methodo subjectivo, partindo do homem
para o mundo e instituindo após a consideraçáo do desti'
no social e da opportunidade actual, o systema de nossos
conhecimentos, esse escolhe os assumptos a estudar e
fixa seus diversos gráos de extensão.
Destes dois rnodos geraes de raciccinar, respectiva-
mente proprios á analyse e á synthese, resulta ,a logica
positiva, instrumento unic_o completo e unico âpto para
instituir e aperfeiçoar o conjuncto das nossas concepções.
A marcha racional da instrucção positiva é tambem
fixada pelo duplo classamento de nossâs concepções e de
nossas observações, pelo seu gráo de generalidade deeres-
cente e de ccmplicação crescente; ella prepara e foÉifica
o, sujeito á meclida que o ol:jecto se clesenvolve e aprcsen'
ta maior difficulclade.
Dahi, quer se suba ou quer se desça pelos sete gráos
da escála de nossos conhecimentos, â "moral" apparece
sempre como a sciencia por excellencia, a mais com-

que constitue o accresclmo de compliceção. Porém, quaesquer que


s11am estas accumulações auccesslves, cada nova cathegoria de
aconteclmentos poderá ser estudada em serles lndependentes da.§
segutntes, posto quê submettldos ᧠precedente§, suja apreciaçã,o
prévia permittlrá concentrar a attenção na, classe introdudda".
(Comte, Cat. positivlsta, pag. 188, tr. de Mlguel Lemos).
E' nosso inhlito, com esta. tran§cripçã.o, e§clarecer bbm o es-
pirito do leltor em ponto tão capltal da sérle encyclopedioa. Cada
úma dag scienclas encerra todas as cathegorias de phenomenos
d&s outras de ordem &nterior augmentadas, pelo menos, dê mElS
uma,, que Íazendo crescer a compllcaçêo, ao mesmo tempo, a cs'
racteúa e a dlstlngue, flcando todavia, iempre dependentê dellas,
em vlrtude das prlmelras catbeSoria§, que flc&m @mmunB.
PHILOSOPHIA POSITIVA 85

pleta e que reune directamente, por seu destino princi.


pal (que é melhorar o agente humano), o conjuncto das
sciencias ao motivo de sua coordenação, a Humanidade.
E' este ponto de vista moral que introduz na philosophia
positiva a disciplina e a unidade necessaria á sua eon-st!
trrição, prescrevendo a restricção de cada termo ency-
clopedico ou desenvolvimento e:iigido para instituição do
seguinte, e retendo a cultura feita no ponto de vista da
pratiea, ou deixando aos estudos concretos os conheci-
mentos de particularidades indispensaveis na acção te-
chnica, industrial, agricola, manufactureira ou esthetica.
Cada um rlos dois grandes processos especulativos
(objectivo e subjectivo), que acabamos de examinar of-
ferece então inconvenientes que aconselham evitar eeu
emprego systematico ; o perigo da mareha aseendente
consiste na especialidade dispersiva inseparavel de seu
earacter analytico, e que conduz a especulaqões frivolas,
á. aridez e ao orgulho scientifico. E' poro,ue, neste modo
particular de investigação, deve sem cessar, ser mantida
a preponderancia do fim social e moral. Ao contrario, na
marcha descendente ou subjeetiva, a rnoral, com sua si-
tuacão encyclopedica, não sendo guiada e Iimitadr por
nenhuma outra sciencia preliminar, ficará exposta a di-
vagações a.rbitrarias e ao mysticismo, sê não fôr regula-
da e contida pela relagão immediata que deve ter com
a funcção coordenadora, pcr sua relação directa com a
Humanidade, a que deve ella assegurar o serviQo con-
tinuo . I
Tal é sob o aspeeto moral, a principal condição da
serie fundamental das scieneias abstractas. que deve
sempre s€r dominada pelo nonto de vista social (1).
Sob o aspecto seientifico propriamente dito, o da
doutrina, a serie encvclopedica representa o conjuncto da
ordem universal , Cada gráo se sobrepõe alli ao prece.

(1) N. do T.
- E'e
jal enpoEta, na. 1., pal'te
qutntê ldeiê, ou concêpçáo fundatnêntal,
dcste llvrc, aqul conflrmada.
86 ROBINET

dente gulado por esta lei objectiva: os mads nobrca ph'ano"


menoe sã,o sernpre subordinados aos rnaig groaselros, aent
comtudo, iamais wsul,tar iklles .
Âinda que impotente para constituir a unidade exte-
rior, tão vãmente pretendida desde Thales até Descar-
tes e pelo Materialismo moderno, esta lei estabelece toda-
via entre nossâs concepções abstract&s uma ligação ob-
jectiva, inseparavel de sua coordenação subjectiva, em
vista da co-relação espontarea que existe entre a com-
plicação das e:iistencias e a dos seres. E' isto que con-
serva intacto o caracter puramenie logico da synthese po.
sitiva, mantendo atravez de tudo, a sufficiente harmonia
da razáo concreta com a razão abstracta, das leis phy-
sicas com as leis logicas, que deve earacterisar o estado
normal da razáo humana.
Àjuntemos para terminar, o facto que se relaciona
com as propriedades geraes da hierarchia das sciencia"s
abst'ractas; é que, sob o ponto de vista pratico, a ordem
real é cada vez mais modificavel á medida que sc trata
de phenomenos mais complicados . Dahi resulta que, a
arte humana, a arte moral (a moral pratica) que tem
por objecto os pheno.menos os mais complexos, é tambem
a mais sujeita a modificações. fgualmente, a escála theo-
rica fornece o principio da subordinação encyclopedica
das crúas, que coincide essencialmentê com a das scien-
cias. E' assim que as artes industriaes, os processos te-
ehnicos propriamente ditos que dependem do ccnhecimen-
to das seiencias preliminares, constituindo a cosmologia,
sáo menos complicadas e rrrenos elevadas que as artes
oriundas da biologia, e sobretudo daquellas, como a ju-
risprudencia, a politica, a hygiene e a medicinâ, que res-
pectivamente se referem á sociologia e a moral .
PHILOSOPHIA,POSITIVA 8'1

ll. Erpoigúc dr rerle encyclopedicr pclc rocále obircHvr


-
Àpós o longo preambulo, que nio é entretanto'
senão um resumo arnda muito summario dos principios
logrcos que coücorrem para a formação 'la hierarchia
fundamental das scleÍIcias abstractas, nos é enfim, pos-
sivel expor os principaes elementos desta vasta systema-
tisação.
Seguiremos aqui a marcha objectiva ou historica,
aquella-em que o espirito Ee eleva, por uma ascensáo con-
tinua, dos oÉjectos, os mais simples aos mais compexos .

C osmologia, (Esturtro d,a T e'rra)

I.O MATHEMATICA

A, Mathematica que estuda a existencia a mais sim'


ples, constitue o primeiro gráo da sciencia universal . Re-
pousa de facto sõbre noção a mais abstrac-ta que nos é
lossivel retirar da observação dos seres e dos..phenome-
i.os, a ilo n111nêÍo, que de todas as ideias positvas, é de
certo o mais geral e a mais simPles .
(De Condorcet) : "Encarando duas coizas que nos
parecem semelhantes, Ievando depois nossa attenção so-
ire cada uma em particular, em seguÍda sobre as duas
reunidas, teremos a idéia de uma couza e de duas couzas,
de um e de dois.
"Si depois de a termos visto u,ma e duas ' encarar-
mos trez. qiatrc, teremos a ideia de ufiL ' il,epois a de dois,
ade trez i de quatro, que differem entre si e que não sáo
apenas unr,,' adquirimoi entáo a ideia de uniilail,e e a de
zà repetidas mãior e menor numero de vezes ; é a ideià
do numero" (1).

(1) Condorcet "Meio de aprendel e couta! sc3;urarneDte e com


Íacllldado" (Obr& posthuma) r Parts, onno vII de Republica.
88 ROBINET

O etudo mathem_atico nÉo suppõe entáo nenhuma


outra sciencia antes'della; naó aepãirae de nónhuma in-
vestigaçã.o abstraeta mais elementãr c portanto prelimi-
nar; aborda directamente o dominio róal . À parte que
corcprchende o cstudo dos numeros chama-se cnthtnetíca.
Pelo conhecimento das leis da eatensdo e do movi-
mento, que se estudam em geometria e em mechanica,
e quc constítuem com o dos uumeros o campo natural rle
suas pesquisas, a mathematica estâbelece á noção posi_
tiva da existencia universal em seu grâo maij eleiren-
tar, aquelle que todos os seres possueú, e fóra da qual
nada pode se manifestar a nós. Tudo que nãc compor-
tar a triplice apreciação do numero, da ãstensão (oü da
forma) e do movimento ndo eoiste Benão ?to entendi,men-
to humano.
I,Io ponto de vista logico, a scieneia rriathematica
cultiva scbrettrdo o raciocinio e, no mais alto grâo, a ile-
d,ttçdo; a observação ahi é muito restricta, e-a indução
não o é mais desenvolvida; entretanto, devemos lembrar
que é na propria sciencia do calculo que nasce este dog-
ma fnndamental da philosophia positiva .. inoariabilid,aile
ilas relaÇões reces, subjectfuas e objectiuas.
À lei do classamento objectivo dos phenomenos por
sua genera{idade decrescente e sua complieação crescen-
te institue pois. a sciencia mathematica como termo fun-
damental da hierarchia scientifica, ao mesmo tempo de-
termina sua coordenagão interior com o estndo distincto
e successivo do calculo (arithrnetica, trignometria, al.
gebra, cr.lruio differencial e calculo integral), da geome-
tria (elementar, descriptiva, analytica ou geral), e da
mechanica (estatica e dynamica), cujo tenno o mais ele-
vado confina naturalmente com um dominio super^or, o
da physica.
A eni,st'encia physicd,, a que é caracterisada pelos
phenomenos do peso, calor, luz. sonoridade, electriôida-
de, e pelos do magrretismo, sendo menos elementar ou me-
nos univrrgal lr,'o e preeedentc, n6psr.t .nais simples e
PHILOSOPHIA POSITIVA 89

msls geral que e exi8tencia biologica e sobretudo que a


social, deve ter seu estudo collocado necessariamente em
um gráo intermediario entre a mathematica e os outros
termos da serie encyclopedica. E' por estas razões que
as sciencias que têm por objecto o seu estudo ou o seu
conhecimento, -precedem ao estudo systematico da or-
dein vital . De taeto, ellas têm por fim a investigação po-
sitiva do planeta que serve de campo á existencia social,
a Terra.
Estas sciencias dividem entre sí esse dàminio espe-
culativo conforme o gráo de complicaçáo crescente: Por
exemplo, a astronomia só estuda a Tena em seu aspec-
to o mais geral e o mais simples, isto é, sob o aspecto
geometrico e em suas relações mechanicas com o meio
celeste, emquanro que, a physica propriamente dita e a
chimica, a consideram em si mesma, procuraudo proprie-
dades mais e mais especiacs. Acha-se entáo constituido,
pela superposição gradual da astronom,a á mathematica,
cla physica á astronomia e da chimica á physica, o eü-
ficro completo da cosmologia, que tornece o conheclmen'
to exacto do theatro onde em seguida estudaretnos as
existencias superiores, vital, social e moral,
Nesta cqnstituiçáo, a ninguem poderá escapar a 8e'
neralidade decrescente e a complicaçáo crescente, pois
que, nêIla cada sciencia possue visiveimente um ou mais
erementos a mais que a precedente, tudo se assimilando
ao seu destino, e pois que ainda, es cateEsrias de pheno-
menos assim introduzidos são cada vez menos Serae§'
isto é, só observaveis em um menor numero de seres.
 mathematica só tem o numero, a extensão e o
movimento proprios ê todos os corpos; a astronomia só
os estuda nos astros; e a physica entrando cqm os acon-
tecimentos que lhe são proprios, só os pesquisa Dos cor'
pos terrestres .
90 ROBINET

2.O ASTRONOMIA

A astronomia, que consiste essenclalmente na theo-


ria do duplo movimento da Terra e da gravitação pla-
materia, vem pois logo apoz á mathematica . E, ligada,
como já dissemos atraz, a esta scienc.a pela mechanica,
e della recebe seu verdadeiro impulso. pois que, sem a as-
sistencia continua do calculo, da geolletrla e da dyna-
micâ, nada poderia alcançar. Neste ponto de vistr, ella
não é senão a applicação da sciencia i)tetlm nar a ma-
thematica, ao estudo de seres (os astros), que scientifi-
camente não comportam senão a triplice apreciação do
numero, da extensão e do movimento .
Entretanto, no ponto de vista iogico, aquelle em que
aborda mais dil'ectamente o estudo da ordem materral,
a astroaomia, jêL diL maior desenvolvimento e importan-
cia á meditação inductiva (ind,ucção) , que em mathema-
tica era apenàs sensivel, sendo a deduçáo a unica, quast
e.ichls.vsmente empregada.
3.O PHYSICA

Quanto á" Phgsi,ca propriamente dita, que se liga á


astronomia pelo estudo do peso ou gravitação terrestri,
que não é senão uma aplicação especial da gravitai
planetaria, tem por objecto phenomenos evidentemente
mais complicados e menos geraes, pois que, em astrono-
mia só se estuda a gravitação cons-derada no caso celes-
te, negligenciando tudo que é do dominio da physica, a
saber: os effeitos do peso na superficie da terra, o ca-
lor, a luz, o som, a electricidade e o magnetismo. Ao con-
trario, seu dominio é mencs especial que o da chimica,
que, em lcgai de considerar as piopriedádes exteriores da
materia, procede á sua anaJyse intima, á pesquisa de sua
composição molecular, e consiste essencialmente na des-
coberta das relações constantes que entre si offerecem os
phenomenos de composição e de decomposição.
_,4vF.<.]-.+.--

PHILOSOPHIA POSITIVA 9l

No ponto de vista logico, o accrtscimo nío é Eenoc


evidente : a mathemstica, colno tantas vezes teuos üto,
desenvoive sooreEudo o raciocinio deductivo, que, por sua
vez permitiu o surto da astronomia, apÓs aqurs4oes in-
duc[rvas arnda murto tracas; mas, em physrca, a induc-
gáo 'recebe pleno desenvolvimento, e esta screncia, só 8e
servrndo do rnstrumento inductivo, fuuda por outro lado,
a esperiulenteçdo, isto é, um methodo uovo e doB maic
couarderaveis oe rnvestigaçrio.

4.o cHlMlcA
A Chimica, na verdade, não traz para o apparelho
logico senao um processo bastantê Eecundario, a. nomen-
claturct; tuas, sua importancia scientüiqa é muito consi-
deravel, pois que permitte corceber a eeonomia funda-
mental da natureza, constatatdo entre todos os seres.
vivos ou inertes, org.Lnrcos ou inorganicos, a identidadc
final da composição material.
Não queremos com isto, dar a entender que a ma-
teria seja u,no, rrag que, todos o'g compostos organicos
podem se reduzir, em ultima analyse, á corpos simples
que universalmente se encontram nos compostos inorga-
nicos: o hydrogenio, o oxygenio, o carbotro, o azôto, o
phosphoro,'o enxofre, o ferro, etc.; o que basta para in'
ücar, serem todos formados dos mesmos elementos.
Devemos tambem lembrar a importancia philosophi'
ca deste quartô termo da serie das sciencias abstractas'
o que Augusto Comte resumio nestes termos :
"Ainda que, até agora, seja imperfeito o systema
dos conhecimentos chimicos, seu desenvolvimento já
contribuiu poderosamente para a emancipaçã,o geral e
definitiva da razáo humana. O caracter fundamental de
opposição a toda e qualquer philosophia theologi-a' que
nãõessariameÍrte é mais ou menos inherente a toda sci-
encia real, mesmo desde sua infancia, se manifesta, para
as intelligencias populares, por estas duas propriedades

(:,
92. ROBINET

toraelr, correlstivas de toda a philosophia poeiüva: 1.o,


previrão dos phenomenoa i Zo moditicação voluntaria
exercida eobre elles. Estas duas faculdades não podem ae
desenvolver sem que tendam inevitavelmente, cãda uma,
de uma maneira distincta mas, igualmente decisiva, a
destruir radicalmente, no espirito vulgar, toda ideia de
dire-cção do conjuncto dos factos natulaes por qualquor
vontede sobretural" . (1)

Sociologia (Estud,o il,o h,omem)

5.o EtoloctA
_ Do eatudo da composição mateiial resulta a liga-
çáo subjectiv& que une, pela chimica, a cosmologia á
biologia, ou o estudo da materialidade ao estudo da vi-
talidade, a natureza moÉa ao mundo vivo. A base essen-
cial do estudo dos seres organisados, isto é, o conjunc.
to das leis relativas á vida vegetativa, repousa de fâcto,
sobre o conhecimento dos phenomenos chimicos apresen-
tados por esses seres, e a subordinação das funcções da
aninqalidade propriamente dita, ás da vegetabilidade
fundamental ( unica vida propria dos vegetáes), acaba
por estabelecer a coordenaçáo das cousiderações peculia-
res á sciencia biologrca, couforme sua complicação cres-
cente e sua generalidade decrescente .
Alem disso, a biologia que, scientif icamente, cons-
titue a indispensavel intermediaria que Iiga a. cosmolo-
gia á sociologia, a ordem exterior á ordem humaua, en-
riquece a logica positiva com um processo dos mais inr-
portautes, a comparação. Por exemplo, comparando o
mesmo ser em suas differeutes idades, ou o mesmo ap-
parelho organico e a. mesma funcção, taes como o appa-
relho digestivo e a funcção de respiração em toda a ge-

(l) Cours de pDrlo.olülê porltlw. T. m, psgtnÍB BÍ ê 6ã


PHILOSOPHIA POSITIVA 93

rlo enimal, a biologio institue tun meio de estudo a


anatomie e a physiologia comparadas dos mÊis- po.
derosos para chegar ao ccnhecimento da - organisação e
da vida, e que, generelisado e appli:cado a outros objectos,
póde ser muito utilisado, notatiamento em sociologia.
Àlem disso, a biologia completa nma elaboração verda-
deiramente decisiva com a instituiçáo da biotaxía, igto
é, da serie que permitte ligar subjectivamente entre si,
todos os seres dotados de vida, ou do duplo movimento
interior de decomposição e de recomposiqão, assim como
os phenomenos zoologicos que geralmente se sobrepõem
desde os typos os mais infimos até o homem, que é o
termo supremo da escala biologica.
Esta immensa hierarchia não póde ser, comtudo, se-
não subjectiva, conforme já temos feito observar, e ja-
mais comporta uma plena realidade exterior, pois que,
sem fallar de outros obstaculm, taes como typos
vivos inassimilaveis por causa da singularidade - osde sua
organisação a fixidez das especies demonstra por si
-,
mesma a impossibilidade de formar com todos os seres
vivos uma serie objectiva ininterrupta .

Ora, como seu exacto conhecimento e:ige uma suf -


ficiente classificação, o methodo rernove essa difficul-
dade estabelecendo a necessidade logica e o caracter per-
feitamente subjectivo, ou relativo ao homem, de uma tal
eonstrucção; isto permitte aperfeiçcal-a por substracgdo
d,os tgpos rebeldes, e por add,ição hypothetica d,os termos
que faltam .
E' assim que r biologia, philosophicamente cultiva-
da, estabelece uma transição gradual entre o mundo ex-
terior e a existencia social expressa na Humanidade.
A importancia de uma tal sciencia e suas relações
intimas com o conhecimento da natureza humana nos
obrigam a insistir em sua constituição'e a lembrar as
bases essenciaes sobre que ella repousa.
E' a anatomia, ou o estudo da estructura ile tudo
que tem vida, que representa o aspecto estatico da bio-
94 ROBINET

logla, corpoc organisados em estado de repouso, has


promptos a agir.
Seu fim principal, após ter estabelecido o principio
da necessidado de organizagão em um gráo qualquer, e
como condição indispensavel, manifestaçóes vitaes ainda
que as mais rudimeutares, foi, como já temos drto, desde
Arrstoteles até Blainville, instrtuir essa iuunensa escâla,
brologrca por sua vez ooJectlva o suDJectlva, destrnadê À
ligar o bomem ao vegecal pelo conJuncto graouado dog
§eres vrvos.
Quanto á physiologia, que coustitue a parte dynami-
ca da biologia, consrste essencralmente nos tactos geraes,
subordinados entre si, mas inteiramente distinctos, cujo
conjuncto exphca tanto as funcções continuas da vida d.e
nutrição como as funcções intermitentes da vida de re-
lação.
t.'Vid,a uegetati,ua.
- O facto o mais
geral que ca-
racterisa a vida, é o duplo.movimento intimo e continuo
do assimilação e de desasimilação propria de todos os
corpos organisados e que sua substancia soffre sem ces-
sar, após suas relaçôes eom o meio em que estão colloca-
dos. Assim, esta lei de nutrição constitue por si só, a
base de todos os estudos physiologicos, sem exceptuar o
ü caso do homem.
Após ella, vem a lei do desenvolvimento e do, ,ieclinio
arté a morte que é o resultado constante, é a lei da re-
producção depois da qual, a conservação da especie com-
pensa a perda do individuo. "A principal propriedade do
conjuncto dos seres vivos, diz a este respeito Augusto
Comte, consiste na aptidáo de cada um delles reproduzir
seu semelhante, como elle proprio provem Eempre de uma
fonte analoga . Não somente nenhuma existencia organica
emana jamais da natureza inorganica, como tambem, uma
especie qualquer'poderá resultar de uma outra, nem su-
periol, nsm inferior, salvo variações muito limitailas,
ainda muito pouco conhecidâs, que comporta cada uma
dellas. Existe, pois, um abysmo verdâdeiramente in-
PHILOSOPHIA POSITIVA 95

transponivel entre a Datureza inerte e o mundo vivo, c


mesmo, em menores gráos, entre o§ diver§o§ modos de
-
vitalidatle. " (1)
2: Vlao'anima). - Quanto ás trez leis que domi-
nam o conjuncto da vida animal, a primeira consiste na
necessid,attà alternntiua de eserc'tcio e de repouso, patti'
cular a toda vicla de relação, sensação e movimento, sem
exceptuar nossos mais nobres attributos: affeições, in'
telligencia, actividade (Bichat) . À segunda lei, que' como
em todos os outros casos, §upÉe a precedente, mas sem
della resultar, eonsiste na tenilenct'a que possua totla
luncçÃo ôntermittente pdrl, se tarnar habihtal, isto é, a
se rõproctuzir espontaneamente após a cessação do im-
pulso primitivo (lei do habito). Esta lei encontra seu
õomplernento natural na faculdade de imitaçã,o, a apticláo
para imitar outrem, pelo-
menos entre todas as especies
ãnimaes dotadas de sympathia, resultante tla aptidão
para imitar a si mesmo, ou a renovar aetos espontaneos
Já oroduziclos (Cabanis) . Emfim, a terceira lei da ani'
inalidade, subordineda á do habito, consiste no aqetfet'
çoamento a,o mesmo tempo anatomico e physiologico
inherente a todos os phenomenos de relaqão: sensitivos,
motores, affectivos, intellectuaes, praticos ou relativos á
ectividede e ao caracter. Para cada um delles o wrctcio
'tend,e a fortificar as funcções e os orgã,os, quÊ a pqro'ila
I
prolcngaila
- chega a enfraquecer .
Â- combinação das leis do habito e do aperfeieoe'
mento determinà uma setima lei ütal, que scientifica'
mente merece uma apreciação distincta, embora não seja
logicamente senão uma consequencia neces'ssrla das pre-
ceàentes: é a lai da hereilôtarieil,aile . Toda funcçã'o ou
estractura d,nimÃ|, estdndo a!)erÍei,çoaila até certo grdo,
a aptid.Ao de toilo ser üiuo reproduzi, t"11 sBlnelhante po.'
ileni ilesile entõo Íisar nd, especie as moiliti,cações a$fi'
ctentemente profund,os ad,quirid'aa peto inl'ioid'wo.

(1) Cstedrrao po3tüvllts pralnê 388, tr, dê MlSrrrl lJ'ltlor


-

. r** {-. ,.QíL .!r- rl arrytaÍ.- i+ú-,,-


96 ROB INET

Dahi resulta o aperfeiçoamento limitadamente con-


tinuo, sobretudo physiologico, mas, meêmo anatomico, de
cada raça ainda que por gerações ou cruzamentos suc-
cessivos, tanto mais notavel quanto a especie fôr mais
elevada e desde então mais modificavel, tarito mais, quan-
to mais activa (1) .

3." Vdil,a Sacki,. Apezar exposição das


- da existencia
leis geraes -vege[ativa eclessa
animal, esta ultima
fica-ria.incomprehensivel, se não lembrassemos aqui a ti-
gação indispensavel das impressões e das reacçôes quc
a coustltuem, por interrnedio do ei:ro cerebro-õspinÉal,
ou da medulla espinhal e scbre tuclo clo cerebro.
Toda impressão em unt ânimal qualquer imerge a
um ponto central que a percebe, a julga e cletermina úma
reacção correlativa, isto é, um movimento; seirsibilidade
e mo'oilidade são entre si ligadas por um apparelho pro-
digiosamente variado, rudiúentai cu de uma extrõma
co:npiicação, cujos orgãog podem ser reunidos ou sepa-
rados, que é a razio final das impressõcs e das reaccães
exteriores, após um impulso inteiicr.
O illustre Gall, embora o tenham tentarlo ridicula-
rizar e diminuir, foi o poderoso e o glcrio:o fundadcr da
theoria scientifi;a do cerebro, que Âugusto Comtc admi.
ra,relmente completou e systematisou .
_ Segundo elle, o eneephalo é a séde das funcçõcs ele.
vatlas, intermediarirs entre a sensibiljdade e J mobili-
dade que teem consciencia da impressão e detenninam a.
reacção . Este phenomeno, com as man,eiras de ser pro-
prias da medulla espinhal, recebeu a denominaqão es-
pecial de acçd,o refleia.
Não podemos eirt:tar aqui em nenirurn detalire, srrb-
entenda-se ahi, a medulla alongada, a meclulla espinhâI,

( 1) .4,. Comte,, Cateci^s.mo ptositixisto. pode1.-se-á


medir â dif-
Íerença do ponto ds vlgta abslracto e do concreto comD&r&ndó
gte tüeoís poaltlva, com aquella que.lhe co""espon.le no systemÀ
de Ch. Darwtn.
PHILOSOPHIA POSITIVA 91

o Eyotema de nervos interioreg e exterioreg e o grande


s5mpathico (1).; queremos unicarnente fallar do cerebro
propriamente dito .
. Como constatou o tão precioso e tão fecundo genio
de Gall, apezar dos inevitaveis erros, pois, que, a ecienciu
socigl, uniss que permitte erulumerar e classificar as
mais altas faculdades hutnanas, nã.o estava ainda fun-
dada, o cerebro é a séde anatomica il,e nossas faculil,ad,es
intel,lectuaes e rnor&es (coração, espirito e caracter, o que
se chama a alma) , e mais : é unt, apparelho íle orgãos
- e$erce uííLú
que cailo, unl ilestos furtcções. E' então o in-
termediario essencial entre o systema nervoso centrípeto
(conductor seusivel), que lhe traz todas as impressões
exterio,res e interiores, e o systema nervoso centrífugo
(excito-motor) , que leva suas determinações aos orgÉos
de e:iecução, musculos, etc .
E' aqui que começa o trabaliro de Comte : acceitando
esta sclida base de toda explicação scientifica da natu-
reza meúal e moral do homem, elle restabeleceu strbTe'
ctr,oo,mente, isto é, sob o ponto de vista do snjedÍo ou do
homem, após a observação de nossas faculdades de espi-
rito, de coração e de caracter, tirada da fonte sociologica,
da histo'ria, onde se encontram todas as manifestaçõe§
humanas, e não ulicamente após o methodo objectivo,
ou, após o estudo directo do apparclho cerebrai (dis-
secção), nem por meio dag úivissecqões feitas em animal
vivo e da experimentação physiclogica, que não pódem
muito instruir na espeeie, nem inesmo muitas vezes for-
necer confirmações, elle restabeleceu, diziamos, a classi-
ficação de Gall .
Por um trabalho preliminar estabeleccu a natureza
cle toda qualidade moral, que exclusivamente consiste em
ullrc- emoçã,o, em um desejo, nos impulsionando a qucrer
tal cu tal cousa, rnas scm uada conhecer fóra, e -sem
(1) VôJs Eobro êstô
Êu .t d. ls lnllorveuoa
ErluEpto:
- Dr. Âudlffrcnt
d rptü A[8uttc C,odê". - "Drr cor-
98 BOBINET

nada poder sobre ella. E' que, o nome de institnto cod-


vem a cada uma deseas qualidades, caracterlsando sua
cega espontaneidade. Assim, o lnstincto nutritivo nos
leva a comer, a procurar alimentoq; o instincto sexual
nos leva aos actos da procrêação, com o apêgo ao amor;
nenhum sabe, os meios para a respectiva satisfação, nem
póde provel-a; estas duas ultimas operações pertencem á
intelligencia que informa e á actividacle que executa.
Em segundo logar, Augusto Comte estabeleceu ain-
da, de accordo com as indicações da sabedoria vulgar, a
dupla significação das palavras coraçã,o e caracter, a dis-
tincção de nossas qualidades moraes em alfectiuas pro-
priamente ditas e em d,ctiua,s ot praticas.
 acção do fundador do Positivismo consistiu sohre-
tudo na definitiva determinação das funeções eerebraes e
na sua classificação pelo principio da Eeneralidade e rla
energia decres,:ente como da complicação e da digrridade
crescenteg. - ir

Desse modo, o instincto o mais universal e o mais


energlco. mas tambem o menos elevado. o que eonstitrre
a base de toda a personalidade, o instin cto nutritit,e cu
eonservador. oeeupa o gráo fundamental na hicr:arehia
das faeuldades mors.es. Em secuida veem os rela.t'rrog á
conservacão da espeeie. 16 menos universaes, menos do-
minadores e menos pessôaês oue o nreeedente. orre sã,o:
o dn§fincto seÍu,al. e o dnsti,neto maternl ou educador,
aquelle que imDulsiona a educar os filhos.
Depois delles, veem os motores affectivos dlre nos
Ieva.m a, melhorar nossa sitrracão. a,fa.stando nrimeiro os
obstaculns afim tle cs constnlir. denois, oq meios Droven-
tivos. tr'stes imnrrlsos eara.eteristicos são: o insti,n.cto
destnr,i,il.or ou milita.r. e o ingtineto eonstnrc,tor orr inrlrrs-
trial . O eon{uncto destas cinno faeuldarles firndamcntaes
foi dcsienado por Augusto Comte com o nome commum
de interesed ,
Vem denols a ambieão. menns eqolsta. iá mqlq dlcrna.
e se adsptândo tanto á socledade eoÍro ao lndivlduo.
PHILOSOPHIA 99
'OSITIVA
Ellla comprehende doÍs casos distinctos, ou duas facul-
dades elementareg: o instincto ilo orgulho, necessldado
de dominio temporal ou politico, e o instincto ila oaüailo,
necessidade de approvação theorica.
Estes sete instinctos, inclinações quando em estado
actlvo e sentimentos quando em estado passivo, corutl-
tuem a personalidade, o egoiamo.
Ha, porém, na nàtureza humana, e mesmo entre os
animaes, qualidades moraes menos espalhadas, muito me-
nos energicas e bem mais elevadas, ingtinctos sociaes ou
altrulstas, que nos solicitam a salr de nós mesmos e a
nos transnortar a outrem, nos lmpulsionando á soclabl-
lidade. São estes em numero de tres: o lnstlncto it,o apê-
go, ou affeleão entre iguaes (o marido e a mulher, os
lrmãos, irmãs, emigos\ : o instincto da tenqracão, ou o
respeito, e a affeiqão dos inferiores pelos suoeriores, dos
filhos pelos paes, etc. ; o lnsti,ncto ila bonilaile, ou a afÍei-
ção dos superiores pelos inferiores, dos paes nelos filhos,
do professor pelo discipulo, dos foÉes Delos fraeos. ete.:
este é o amor univergal, a hutnantdade. Seu conluneto
foi por Comte desiqrrado sob a denominaqã,o geral e ea-
racteristica de altrui,smo. À aecão destes tres motores
affectivos, desenvolvida pela educacão. eorrige a Derso-
nalidade naturalmente preponderante de nossa naturezâ,
adocica sua bmtalidade fundamentgl e acaba. até mesmo,
por transformar o egolsmo primitivo de nossa conducta.
A intelligencia, seg'undo Auqusto Comte, apresenta
no homem, eomo nos animaes, embora em bem mais fraco
gráo entre os ultimos, cinco funcções irreduetiveis, das
quaes quatro pela concepção e só uma pela expressão, a
saber: a contemplaçã,o concreta, ou observação dos seree.
naturalmente synthetica, pois que considera catla indi-
viduo em seu conjuncto, por exemplo, uma pedra, um ca.r-
valho, um lobo; a contemplação abstracta, relafiva aos
acoítecimento,s, aos phenomenos offerecidos pelos seres,
necessariamente analytica, pois que, considera'as proprie-
dades, abstraindo dos corpos: o movimento, a tempera-
100 ROBlNÉT

tura, a côr, a vida, etc. Estas duas faculdades relrteúêil-


tam a parte passiva do entendimento; ellas accumulam
materiaes, conhecimentos concretos ou abstractos que re-
cebem do mundo exterior por intermedio dos sentidos.
Quanto á parte activa do entendirnento, que levanta
construcções subjectivas ( proprias do sujelto contempla-
doi, nelle nascidas) com os materiaes objectivos reco'
Ihidos pela observação concreta e abst'racta, e§sa se com-
põe tambem de duas faculdades elementares ou funcções
ireductiveis: a meütaçã,o inductiua, que actua por com'
paração das imagens ou das noções adquiridas pela con-
templação, e que generalisa de accordo com o conjuncto
destes esclarecimentos ; a meil,itaçã'o dedrtctitso, quq ba'
seando-se nos productos da observação e da propria in,
ducção, apprehende relações mais difficeis e mais &fas'
tadas, chegando a coordenar, a systematisar, seja mos-
trando que um phenomeno está eontido em um outro já
conhecido, seja estabelecendo a incompatibilidade tlos tli-
versos phenomenos entre si.
Quanto á faculdade de erpressã,o, ella tem por fuac-
ção crear sigrraes por meio dos quaes nossos
gentimentos
e nossas ideias se manifestam a outrem. Della, por con'
seguinte, provêm a mimica e a lingugem, fellada ou es-
cripta, que asseguram a communicaçfts.
À acção cerebral é finalmente completada por tre§
faculdades de execução, a coro.gem,, que comprehende, a
prudencia, que retem, a firmeda, que sustenta. As duas
primeiras são os elementos essenciaês de nossa activi'
dade, e a ultima, de onde vem a-perseverança é a prin-
.
cipal condicão de todo resultado affectivo.
O quadro das dezoito funcções, atraz reproduzido,
resume admiravelmente esta grande theoria, da natureza
intellectual e moral do homem, e tambem dos animaes,
os mais elevados que pelo menos, salvo as clifferencas de
gráos, possuem todas as nossas qualidades cerebraêB ele'
mênteres .
Pera o que se refere á localização de cada uma destas
PHILOSOPHIA POSITIVA r03

faculdades, affectivas, intellectuaes, praticas, em tal ou


qual parte do apparelho encephalico, não podemos senão
lembrar aqui os principios logicos qne a isso presidem,
sem entrar em nenhum detalhe.
Primeiramente, é preciso notar que, para a philo.
sophia positiva, esta op€raçáo consfitue um caso parti-
cular do principal problema de biologia : conkecil,a a
funcção, aclüa,r o orgõ,o, e reciprocamente. Gall e Cabanis
forarn os primeiros que levaram á psychologia esse co§-
tume habitual da physiologia e insistiram na necessidade
de fazer entrar no dominio scientifico um estudo até en-
tão abandonado aos metaphysicos. Veio depois, Augustc
Comte que retomou o problema com os recúÍboe do me-
thodo positivo, enumerou systematicamente a,s altas func-
ções do encephalo, as da medulla alongada e de suas de-
pe.ndencias (theoria dos ganglios sensitivos), e forneceu
indicações correlativas sobre sua localisação.
Segundo elle, a consideração dos apparelhos dos seu.
tidos, visão, audição, olfacção, gustação, com os quaes,
principalmente, só a intelligencia está em directa rela-
Ção, deve fazer attribuir a parte anterior do cerebro aos
orgãos das faculdades mentaes (1).
Ao contrario, a parte posterior, incluindo ahi o ce-
rebello, pertenceria aos instincüos, que teem assim re-
Iações mais immediatas com as viceras, por intermedio
dos nervos interiores, notadamente pelo pneumo-gastrico
e pelos nervos chamados nutritivos.
Quanto aos orgãos especiaes dos quaes se compõe
csda uma das duas massas cerebraes (hemispherios),
estes devem ser localisados, sempre segundo Augusto

(1) À circumvolução de Broca, ou terceira cirqrmvoluçã,o (an-


têrior), reconhêside pêla, analyae anatomo-pathologlca como sEndo
a Eéde do orgã,o dos slgna.es, da linguagem o\ d,à eãpreaado, tÍaz
uma prêclora conflrmaçé,o á esta dellcada. theoria. subJectlve, ou
phyrlolodca, que es outras obrcrvagõeB do mesmo genero, eté
cntlo, Jamait de modo algum contradgseram.
I04 ROB INET

Comte, nas circumvoluções do cerebro e do cerebêllo, de


accordo com o decrescimento de energia e crescimento
de dignidade, começando de traz para deante, de baixo
para cima, dos bordos parâ o meio. Âssim, emquanto
que, os orgãos do instincto nutritivo e do instincto sexual
occupariam o cerebêllo, os da veneraqão e da bondade
ficariam na parte anterior, superior e mediana da região
affectiva do cerebro, confinando, num e noutro hemis-
pherio, com a commissura superior dos ossos parietaes,
ficando entre elles e os orgãos fundamentaes da persona-
lidade, pela ordem que acabamos de indicar, os do aper-
feiçoamento por destruição e por construcçáo, e os da
ambicão ( orgulho e vaidade).
Pcrr sua vez, as sédes respectivas dos orgãos da in-
telligencia seriam symetrica.mente colloeados, em cada
hemispherio, na parte anterior e superior do cerebro (lo-
bulo anterior); os orgãos da expressão em baixo, por
fóra e na frente.; acima delles, os da contemplação con-
creta e abstracta; em fim e successivamente de deante
para tra/,, e de baixo para cima, os da meditação indu-
ctiva, estes ultimos âpproximadõs do orgão superior da
sociabilidade, a bondade.
Quanto ás sédes das trez qüalidades praticas cora-
gem, prudencia, firmeza, isto é, das funcções ás quaes se
pode attribuir os movimentos excitados, retidos e fir-
mados, ellas occupam, Êempre de accordo com o mesmo
principio (e esta Iocalisaqão subjectiva é das mais no-
taveis por sua concordancia com as localisações de fonte
objectiva ou anatomo-pathologica), as paÉes lateraes do
cerebro correspondendo aos parietaes, adeante e atraa
da scisura de Sylvius.

À escola medica objectiva ou anatomo-pathologica


teria instituido mal a pesquisa dos centros motores, ten-
tando a descoberta de um orgão excitador especial para
-toda pelo systema muscular, o que
cada movimento executado
levaria a acceitar a õamada cinzenta como tendo
uma unica funcção, a de excitação motora; segundo Co'rn'
PHILOSOPHIA POSTTIVA r05

te, seria mais ecertado attribuir esta acçõo, de um ca-


racter mais geral, aos orgãos symetricos da coragem ou
dos moDimentos ercttailos, que se acharn na parte do ce"
rebro confinantes com os ossos parietaes. Deve-se notar
que, é ahi justamente onde os anatomo-pathologistas pro-
curaram e acreditam ter encontrado a maior parte de
suas localisações, psycho-motoras.

Àlem disso, o methodo subjectivo, ou physiologico


poderia ainda fornecer outras indicações de importancia
sobre a anatomia do encephalo, taes como: as aprecia-
ções geraes sobre os volumes relativos dos orgàos ce'
rebraes, conforme a energia das funcções corresSonden-
tes, etc,; mas, nã,o poderia determinar nem a forma, nem
a gfaudeza de cada orgão, nem com mais forte razão,
sua estructura intima . Esta ultima analyse, necessa,ria-
mente pertence ao methodo objectivo, á anatomia e so'
bretudo â anatomia comparada.
Os orgãos das funcções cerebraes propriamente di-
tas, intellectuaes, moraes e praticas, ou da actividade'
occupam a superfiCie do encephalo, a camada de subs-
tancia cinzentá do cerehro e do cerebello, e communicam
entre si por ligações uervosas particulares, sobre cuia
disposição a physiologia poderá ainda lançar muita luz'
A conducta do homem e dos animaes, cujas funcçõe§ ele-
meatares do sentimento, da intelligencia, e da actividade
são incessantemente combinadas, ficaria ine:*plicavel, se
não se admittisse de facto que os orgãos correspondentes
destas faculdades se communiquem entre si de uma ma-
neira intima. Póde-se affirmar que o exame anatomico
autorisa plenamente esta maneira de ver, pois que, mos-
tra o cerebro composto de duas substancias: uma, cin-
zenta, formada de elementos anatomicos especiaes, de
celulas eui generis, onde parecem residir as mais altâs
propriedades do systema nervoso, e que forma a trama
essencial dos orgãos da affectividade, da mentalidade e
da actividade; a outra, branca, composta de tubos con-
ductores (nervos sem nevrilema), que representa a parte
106 ROB INET

accessoria destes orgáos, aquella que os põe em relações


mutuas ou com os ganglios sensitioos (camadas opticas,
corpos estriados, etc.) de que já fallamos, nos quaes veem
se concentrar as impressões exercidas sobre o muco-
derma e nos parenchymas (1).
Ainda ha mais: a quantidade de substancia branca
que se encontra no cerebro sendo mais consideravel que
aquella que provem dos prolongamentos da medulla es-
pinhal, permitte considernr esta massa excedente de subs.
tancia branca, por exemplo, o corpo calloso, a aboboda
de trez pillares, etc., como resultantes precisamente de
ligações nervosas or nerDos sem net;rilema que trÉem eÍr
communicaçâ.o os orgãos cerebraes e cerebelósos. Ainda
que, esta anatomia tão complexa não esteja ainda feita,
não se poderia contestar as relações funccionaes das dif-
ferentes partes do cerebro, nem por conseguinte, suas li-
gaqões materiaes.
Foi em 1838, no terceiro volume do Curso d,e philo-
soph,ia positioa, após ter já feito época num artigo sobre
Broussats, publicado em Àgosto de 1828 no Journal ile
Paris (veja o appendice do t. IV de polit. posit.), que
Comte consignou suâs primeiras opiniôes sobre esta thõo-
ria do systema nervoso em geral e do cerebro em parti-
cúlar; foi enr 1852, no primeiro tomo de Sgstema de po-
litica positioa, que elle abordou este assumpto com a pre-
cisão que o aspecto geral da sciürcia tiologica compor-
tava. Emfim, ells gsnlsya tratar a fundo este problemà
em seu Tratado de moral positiva, e â continuâção ou,
a retomada de sua concepção principal, assim como seu

(1) Em que consistirá, pois, essencialmente, um orgão cÉ1'e-


b,or? em um& mâ,ssa de substoncia cinz€ntg compogta, de cêllulss
rEcebendo dlver8aa sortes do nervos, de tubog de communlcagão
intra-craneanâ, tubos affêrênt€a, que levâm r€ecçõ€a; tudo alimen-
tado por um apparelho circulatorto arterlel-venoso e llrmpbatic.o,
ê r€urtdor por uttla, atmorphera vaÍl.ev€l de tntte"la olÍtoÍpbô
narcEntt .
PHILOSOPHIA POSITIVA r07

desenvolvimento, foi depois feita varias vezes com tanto


talento quanto fidelidade pelo dr. Audiffrent nas o ras
precedentemente citadas, e por Pierre Laffite em seus
cursos de philosophia primeira e de moral . Temos pois,
o direito de nos admirar que esta parte da obra do fun-
dador do Positivismo seja ainda constantemente passada
em silencio pelos vulgarisadores scientificos mais em des-
taque, materialistas ou espiritualistas, que, sob pretextc
de psgchologid purd ott eüperimental, Levem as horras a
tantos escriptores estrangeiros, sobretudo inglezes, que
teem baseado sue originalidade philosophica nas obras
de Comte, precisamente a favor da inqualificavel obscuri-
dade systematica em que estes factos teem sido esque-
citlos pelos publicistas francezes, enganados ou cumplices.
A pretendida psychologia experimental não é senão
a physiologia do cerebro concebida por Cabanis, fundada
por Gall e por Broussais, e systematisada por Àugusto
Cornte; aquelles que, com isso, se tornam hoje celebres
na França, na Italia, na Allemanha e sobretudo na In-
glaterra, não teem feito senão mudar o titulo e a nomen-
clatura, Barapintando de metaphysíca materialista as
principaes concepções, com uma singular falta de respeito
pelos seus antepassados, com um despreso inaudito pela
filiaçã,o historica, e com tal confiança na ignorancia de
seus contemporaneo's que bastante se approxima do im-
pudor.
Seja como fôr, não queremos indicar aqui senão o
que é estrictamente indispengavel em face da physiologia
cerebral, para comprehende? a existencia e o desenvolvi-
mento dos animaes, e os âctos essenciaes de sua üda
individual ; quando resumirmos o conjuncto da sciencia
moral voltaremos a mostrar o concurso destas forças ele'
mmtares conaideradas em seu completo exercicio sobre-
tudo social, no ponto de vista tanto normal como patho-
logico, de maneira a dar uma ideia positiva dos grandes
problemas da unidade e da continuidade tlo ser, apezar
des fasrrlds6es tão diversas e muitas vezer oppostas.
106 ROBINET

Tal é o resruno da sciencia vital, que, por sue parte


Euperior, aeabada de otamúar. uos conduz naturalmente
Á socrologra.

6.0 SOCIOLOGIA PROPRIAMENTE DITA


(Sciencia rocial )

Esta estuda a existencia social, as leis naturaes dos


phenomenos politicos, que apresenta o homem viveudo
em sociedade, em um& palavra, a ordem humaua colle'
ctiva .
Estas leis, estaticas e dyiramtcas, explicem c:óíi!
serutua e a evolução de toda a Eociedade. "
A sciencia socÍal se comEie, pois, de duas partes er
genciaes: uma, estatica, que constróe a theoria da ordem:
ê outrar dynamica, que desenvolve a doutrina do pro'
gresso.
0 methodo proprio á, sociologia, alem dos outros das
sciencias que a precedem e dos quaes deve ella so uti'
lisar a rnducgáo, a deducção, a observação, a experl-
-
mentaçõo, a comparação é a, liliaçdo hwtoriaa , E,a'
-, do methodo
fim, elta tira tambem partido subiectivo para
sua propria coordenaçã,o, afim de instituir as questõee
favoiaveis e eliminar todas as que são frivolas ' Ma-s, a^s
observações directas, os materiaes concretos e documen'
tos de tõda sorte recolhidos pela historia de todos os pó'
voB e o conhecimento geographico da Terra, forman g
base especial, o substratuna indispensavel de todas as suait
concepções.
Este ponto serve mesmo para caracterisar, de uma
maneira dêfinitrva, a differeuça verdadeiramente especi-
fica que existe, sob o aspecto logico, entre a philosoptria
mateiialista e a philosophia positiva, ou, de um modo
geral, entre as duas syntheses objectiva e Eubjectiva.
Para este ftm convidamos nossoa leitores a compa-
rax o prograurma do curso, de sociologia de Pierre Laffite
PHILOSOPHIA POSITIVA i09

con o ltrdico da Soatol,ogia a ethnograpltio, do Dr. i,e'


tourneau .
Comparando esses dois intlices poder-se-á julgar
qual dos dois, Materialismo ou Positivismo, construiu a
úiencia social, e tambem, se o repertorio de factos pu'
blicado pelo uitimo daquelles autores, que propriamente
fallando-uõo é senão um mauual ethnogtaphico todo in'
teressante e precioso pelo seu conteúdo, póde -substituir
em qualquer ponto de vista, a principal creação cle Au-
gusto Comte.
Sem duvida alguma, a e§colha dos apontemeutoo
ethnographicos, anúropologicos, zoologicos, cosmologl-
coe, giographicos, etc., tem uma fundamental importen-
cia'eá sócúogia, pois que, repetimos, está nelles o srrbs-
tractum inevitavel das- observaçõee e das con§trucções
abstractas, que unicamente podem caracterisa,r a scien'
cia; mas, nd estamos plenaúente convencid-os que sobre
isto, como em qualquer terreno, a preparação do funda'
dor do Positivismo, ou, a §orrma de documentog concretos
que elle soube accumular antes de se entregar a sua§
áeditações sociologicas, em nada fica inferior, embora
não hoüvesse com ãUa feito nenhum reclame especta'
culoso, á do sabio autor da Bocàologia conforme a ethno'
graphio.
Mas, haverá ahi, apenas este ponto a discutir? Teve
Dor acaso Letounreau a pretenção de tratar da sciencia
Àocial ? Seguramente, não, pois que, para o Materialismo'
ãÀtr s"iánõia, coliecção-de dãdoJcujo obiecto se põe
e muda sempre, - não êstá ainda e não será jamais aca-
-
ú"a". Si*pi.s catalogo de factos, sem nenhuma ligação
,".ià"rt, stm nenhuÃa concepçáo precisa das relações
que entre si os liguem, ou de suas leis naturaes, ella ja-
üais enrolverá tõdos os §eus phenomenos, que indefini'
-menos,sem poãer exgotar
damente se multiplicam sua evolução '
E' isso pelo o que affirma, André Lefêvre,
cujo nome é ãqui autoridade: "Mais que qualquer outra'
Ílíz eUe, é a sociologie uma sciencia aberta, em marcha,
I IO ROBINET

inacehada. 8ô o wltirno homem techarú o cyalo; só ette


podnrd formul,ar leds ou, em sua falta os atrevidos inveu-
tores de absolutos, .aquelles que avançam para alem das
edades, acima e por fóra da realidade, trazendo de suas
longinguas viagens, revelações imaginarias,, (Veja ,,La
Republique Française" de 21 de Agosto de 1880).
"Âssim, os phenomenos sociaes náo estão até agora,
submettidos a nenhuma lei apreciavel ; nã,o podem ainda
dar logar a nenhuma sciencia real. O que se tem dito
neste sentido até hoje não é senão, visão millenaria, senão
loucura e ficçÁo; só o ultimo homem achará o segredo
(um pouco tarde para fornecer uma base á" urte poli-
tbo) ..."
Em vez disso, düemos que, eos philosciphos materiali
Iistss falte o verdadeiro espirito scientiÍico, que nâo com-
prehendem as condições logicas do problema da institui-
çôo da sciencia social, que, deploravelmente, confundem
aqui como por toda parte, o abstracto com o concretor e
se a.ssemelhâm áquelles que tomavam o cóÉe de pedras
e a construcção das escadas pela propria geometria.

E:tatica rocial

No ponto de vista estatico, a sociologia eatuda as


partes essenciaee do orgaaismo collectivo, as instituições
mãas e m apparelhos fundamentaes que servem de base
á es<istencia social: I, a propriedade; II, a familia. TrT, a
linguagem; IV, o governo temporal ou politico; V, o es-
pirituel ou religioso.
A uatureza corporal do homem, sua constituição bio-
logica, que exige um renovamento continuo de sua subs-
taucir por meio da nutrição, que por si mesmo não pode
ter logar senão pelas bebidas e pelos alimentos (senr
fallar na respiração e na nutrição gazosa), impõe como
ueceeaidade social, prim-ordial .e iuevitavel, a accornmo-
dogõo do aeio "mblçntc, cosrnologico e politico, ,s cetq,
PHILOSOPHIA POSITIVA llr
neffirsidade fuudalnental pelo trobalho ou pele .inductria '
Si uosso Bustento pudeose se effectuâr nnicamelrta pela
respiração, esta tão complicada acção do homcm sobre
o planeta, para accommodal-o a seu uso, seria de todo
inutil e sem duvida não teria nascido . l\ão é porem
aesim.
Ora, todo trabalho effectivo comporta trez phases
succesgivas : a producçã,o, a conserva,qão e a tran$rrissõo..
À questão economica, formação e aproprlação do capital,
resulta então inteiramente de nossa constitriiçÃo indirri-
dual, e é a primeira a ser abordada pela sociologia.
Ella a resolve por consideragões relativas ao mundo,
que fomece a materia propria ao supprimento de nos§a.s
necessidades materiaes, e á Humanidade, de que proveem
os qgentes da producção.
Duas grandes leis, dissemos já, Íixam a dupla in'
fluencia do homem e da natureza sobre os phenomenos
economicos:
7.' Tod,o inilioi,iluo pode produzir maw do Eue con-
aome. -
2." Os prductos são swoeptioek de duror mots
tempo ilo- que o necessario para subotitwil-os.
São estas duas disposiçoes fundamentaes que, per-
mittindo economisar, as'seguram a formação do capital.
Quer ieto dizer que o excedente da pr.oducgão sobre o con'
sumo realisavel em cada geração, pfie ser accumulado e
tranilnittido aos vindouros: tem isto permittido á so-
ciedade dispensar alguns de seus membros da producqÁo
material immediata favorecendo o advento de uma classe
contemplativa, dedicada á cultura intellectual, sem cuja
acçõo, nenhum progresso serio seria possivel.
Por outro lado, a formação do capital faz .nÀscer
tambem.a questão da apropriação ou da propriedaale, a
dupla consideração da natureza eesencialmente collectivo
de toda producção, que deve sempre coDservÊr por'si ures'
ma um destino social, e da necessidÀde de uma sffÉctâ'
gôo pessoal do capital ( productm e i.ostf,lrmsrte), 1r*rs
r l2 ROBINET

melhor testão da riquera. e par& a nôcessariê indepen-


deucia dos agentês de producção, ou do homem. (VeJa
In Poeitioisme et l;économie poúiti,que, por Pierre Laffite,
1.' vol., Paris, 1876) ,
A questão do trabalho pode ser resumida por estas
duas formulas geraes: a geração actual recebeu das
- de sua subsistencia e de suas
precedentes, para satisfação
condições de vida um capital que ella deve transmittir,
augmentado, ás gerações seguintes. Â riqueza, §ocial eÍr
sua origem, deve-o ser tambem em seu destino, conser-
vando uma apropriação pessoal necessaria, afim de ser
empregada com independencia ao servlço da sociedade.
A sciencia social estabelece assim, que a propriedade
não é de direito divino, Dem de direito metaphysico, fuo
uti et obutenil,i; que tem um caracter relatrvo, e que.é
uma funcção social, um encarto pessoal cujo exercicio
está subordinado ao interesse geral ou ao bem publico.
Quanto á familia, é tambem uma instituição espon-
tanea- imposta pela natureza do homem. A necesgidade
de se reproduzir que assegura a continuidade da especie.
approxima o homem da mulher, e funda esta associaçáo
elémentar que tornou-se o ponto de partida dos mais
vastos grupãmentos sociaes e a constituição da propris
Humanidade.
Determinada por um impulso animal qual seia-o
instincto Bexual, a úlão do homem e da mulher é entõo
mantida pela commum inclinação para educar os filhos'
ou pelo instincto educador, e em seguida, pelo desenvol-
ümênto de um sentimento mais nobre, o a1Égo reciproco
que vem consolidar e encantar a união primitiva ' Dahi a
f-amilia, que, surgida da promiscuidade para Be elever'
atravez dos differentes modos de polygamia até a mono-
gemia, finalmente propria ao Ocidente, fez, emfim, nas-
cer as maig altas aptidões mor&es de nossa especie, o
devotamento dos paes pelos filhos e a'venéiação destes
peloo Beus ascendeàtes. Neste gráo, a Bssociação não tenl
mals por fim essencial e unico a procreação porem sim,
PHILOSOPHIA POSITIVA lt3

o eperfeiçoarnento reciproco dos dois eaposos e sue coope'


ração cada vez mais intima e voluntaria na êducação de
seus descendentes. E' a associação harmonica dos dois se.
xos onde o homem representa a força e o commando, em-
quanto a mulher entra com a influencia moral e a persu-
asão: verdadeira unidade sociologice que prepara uns e
outros pa.ra a vida publica pelo desenvolvimento das af-
feições desinteressa.das, dos sacrifiaios reciprocos e dos
deveres livremente cumpridos .
A linguagem, sendo o meio indispensavel de commu-
nicação para facilitar o concurso que as operações eco-
nomicas e domesticas exigem, é o complemento indispen-
savel das duas instituiçôes fundamentaes que acabamos
de indicar. Já constatada entre os animaes, tornâ-§e sa-
liente nas primeiras associações humanas. Â importan-
cia de seu destino affectivo, intellectual e collectivo nÉo
poderia ser contestada: é uma das principaes instituições
<Ia nossa especie e que mais tem contribuido para sua
preponderancia e para seu engtandecimento.
Assim providas dos productos necesgarios â sua exis'
tencia e dos meios de commuaicação entre si, as familias
tendem espontaneamente a se grupar em associação cada
vez maiores, guerreiras ou industriaes segundo os tem-
pos e seÉrundo as necessidades, seguindo o estado nomade
ou sidentario, etc., e a formar Iogo a tribu, depois a ci-
dade e a nação, cuja manutenção e o conculso indispensa-
vel para attingir ao fim visado em commum, exigem a
coordenaçáo dos esforços, ou uma organisação politics,
em uma palavra, tm goudtno, ou, a reacqão geral de um
centro sobre todas as partes que cómpõem o orgânismo rç'
n' -'r'
social .
Ou esta influencia directora pode se exercer sobre
os interesses materiaes immediatos e se impor ás vonta'
des pela força, obtendo um concumo obrigatorio pelo com-
mando: é o governo propriamente dito, temporal ou poli-
tíco, a lei,; ou então, se dirige á intelligencia, ás opiniões
e aos sentimentos, pelo conselho, pela. demoastração. e
I l+ ROBI NET

pela persuuõo, afim de conseguir modificar indirecta-


mente oa acto§: é a influeacia espirituel ou religiosa, sus-
eeptivel de uma penetração bem mais extensa e que pódc
rtresmo. emvolver a generalidade dos homens. O Estado
nõo têm de facto se náo eompeteneia limitada âos gru-
pamsntos materiaes, sempre forçosamente retrictos, ao
passo que, pela fé, a Igreja pode envolver um numero
consideravel de Estad;os, ou mesmo todos, se a crença
fôr, como a philosophia positiva, real e por conseguintê
susceptivel de universidade .

Àinda que muito summaria, esta noção da instituições


elementares de toda sociedade noÊ permittirá dor um
ideal geral do que ê prcciso entender por existencia eociol.
Pera isto, deve-se conce }er nossa especie, o grande
aer collectivo que se cham"a & Humanidade, do mesmrr
rnodo que cada um dos individuos que a compõem, mas
enr gráo muito mais pronunciado, como sendo, dirigida
pelo sertimerto, esclareeida pela intelligencia e gârenti-
da pela actiüdadc, e tudo ieto por intermedio de dez ele-
mentoe espontaneos e essenciaes de toda ordem social,
que agui collocamos segundo o gráo de sua dignidade de-
crescente e de sua independencia crescente: o sexo affecti-
vo ou es mulheree, a classe. contemplativa ou o sacerdo-
te, e a força pratica, comprehendendo esta ultima todos
oE homens que ênerceE uma acçâo sobre o mundo, eomo
directores ou como executores.
Esta força âctiva se decornpõe em concentrada e dis-
persa, conforme resulta da riqueza ou do numero, dos
pmsqidores do capital ( instrumentcs, immoveis e num*'
rario), em uma palavra, dos empreiteiros, ou, dos obrei-
ros. Estes desenvolvem especialmente o impulso pratico
com a personâlidade que se suppõe sua principal energin'
Os primeiros, ao contrario, devem dirigir a reacção so-
cial que eleva e enobrece cada i'ez mais o trabalho indivi-
tlual . Represeutam aiuda a contiuiridac'lc, e os segundos
a solidariedaale; pois que, os thesouros materiaes. que os
ricos guardrln ê que e sociedade deixa definitivamente em
PHILOSOPHI,C POSITIVA r 15

suaÉ rnãos, provieram de uma longa accumuleçôo, de sor-


te que, o trabalho só adquire sua inteira corsag'raçâo
quando é effectuado tendo em vista ô bem comnrum .
Todo poder pratico emana pois dos detentoros do
capital, ou Ee se quer, dos patricioe, senhores dos reser-
vatorios nutritivos, indispensaveis á existencia regular
da sociedade, e cuja principal efficacia resulta de sua con
centragão. Por isto, a propriedade material é reconheci-
da como sendo a condição fundamental da actividade con-
tinua de nossa especie e a base indireeta dos nossos mais
eminentes feitos .
Quanto ao Betundo elemento pratico, o proletariado,
sem o qual o primeiro não teria razão de ser, constitue a
base uecessaria de toda população. Âlem de sua funcção,
directa e indispensavel, a producção não podendo adquirir
influencia social senão pela. união, tende a desenvolver di-
rectamente os melhores instinctos da nossa natureza.
Por outro lado, sua propria posição social attrae sem
cessâr sua attenção para as regras moraes de uma or-
ganisação cujas menores perturbeções mais especialmeu-
te eIIe supporta; e, naturalmente despido da responsabi-
lidade e das preoccupações inherentes ao exercicio de uma
autoridade qualquer, tonra-se muito proprio para chamar
todos os poderes theoricos e pratieos, sacerdocio ou pa-
triciado, ás obriga4ões reaes de seu destino social. Não
ha como a acção da mulher na familia ou na sociedade,
para vantajosamente justificar esta alçada da opinião.
Pode-se então dizer que a mais elevada acção com-
brnada dos quatro elementos fundamentaes da assoeiação
humana, as mulheres ou a influencia moral, o poder r€li-
g'ioso ou espiritual, a potencia material ou patriciado, e
o contrôle gerâl emanado do proletariado, acqão essa que
se exeree pondo em marcha as institriições-mães, descrip-
tas precedentemente, a propriedade, a familia, o governo
e a religião, deve chegar para constituir, para toda a
Humanidade, uma providencia systematica, conscietrte ê
previdente, tendente a melhorar indef initlameute sua na-
t16 ROBI NET

Lureza e sua ritua,çã,o: À provldencia feminina, que deve


sempre dominar o surto moral, predispõe logo a sentir a
continuidade e e solidariedade social, dirigintlo a edu-
caqão no seio da familia. Em seguida, a acção sacerdo-
tal faz apreciar systematicamente a natureza e o destino
dessa Humanidade, de que fazemos parte, nos ensinando
a conhecer a ordem real de que é ella um dos elementos
mais importantes . Caimos em seguida sob a preponde-
rancia directa e perpetua da providencia material, que nos
inicia na vida pratica, cujaÁ reacções affectivas e espe-
culativas completam nossa preparação e, cujas exigen-
cias effectivas, impulsionam nosso valor e nossa acção
rlefinitiva . i \:
Para precisar ainda esta noção geral cla constituição
intima da sociedade, é necessario observar que seus dols
elementos, os mais especiaes, poder espiritual ou o sa-
cerdote, que aconselha, e o temporal ou patriciado, que
commanda, formam por si sós, duas classes distlnctas, fi-
cando as mulheres e os proletarios para representar o
fundo eommum de toda populagão.
Da classe theorica, que, entre as tribus primitivas,
só era ainda representada pelos velhos, dimana a educa-
çõo systematica, e em seguida a acção consultiva sobre
toda a vida real, de guiar eada um á hermonia geral que
ella induz a desconhecer. El'pela instituicão da linguagem
que o sacerdote póde repartir os bens espirituaes de que é
depositario e guãrda.
Quanto ao patriciado, que guarda pera o serviço da
Humanidado (não póde haver outro motivo real nem le-
gitimo que justifique essa apropriaçã,o), os thesouros ma-
teúaes accumulados pelo trabalho secular do homerq; sua
funcção é de conserval-os, augmental-os, e repartil-os,
substituindo conforme a lei das condições de cada exis-
tencia, para cada productor, os materiaes que consomem
para sua subsistencia e cs instrumentos necessarios a
cumprir sua funcção ,

Todo organismo social por consideravel que seja,


-.--ríIãD

a
PHILOSOPHIA POSITIVA il?
êprêseDte neces§rarinmente e por toda parte ê gempre, o!
elementos Íundamentaes que acabsmos de indicar; e para
maie preeisáo, seja-nos permittido recorrer á uma com'
paração biologica: como tecidos fundamentaes, as mr.rlhe-
res e os proletarios; como orgãos especiaes, o patriciado
e o saeerdocio; como apparelhos mais geraes de direcQãc
e de reunião, a familia, a cidade, o Estado e a lgreja;
o consensutt social sendo finalmente mantido por este ul'
tlmo systema, que só elle póde assegurar o funcionamen'
to regular da vida material, inteÍlectual e moral, e a har'
monia sufficiente do Gran Ser, isto é, desse immenso or'
ganismo collectivo que representa a Humanidade ,
Tal é, de conjuncto, o estado estafico da existencle
eocial, ou a theoria da ortlem (1) .

Dynamícr rocial

Quanto ao estado dynamico, quanto ao seu desenvol-


vlmento, ou sua evoluqão, consistem, entre os límites cle
variedade que a sociologia tem reconhecido pretencer á
existencia collectiva, na successão de modlfica.ções corre-
lativas e fixas que soffrem, em seu movimento exponta'
neo. os elementos socla€s e as instituiqões essenciaes 1ue
acabamos de caracterisar.
Todas as observações que se tem r:odido fazer so'
bre os differentes grupos humanos evoluintlo atravez dag
edades, confirmam a existeneia de uma continrra mudan'
ça no estado das diverças camadas sociaes fundamentaes
e das instituieões-mães que seruem á sua aceáo. a con'
dicão do proletariado, do patriciado, do sacerdoeio e das
mulheres, no caracter da propriedade, da familia, da lin-
guagem, da eidaile ou do Estado e da Igreia, oue inees-
santemente variam segundo os tempos e segundo os lo'

(1) Ps!ã uma ldele completa, veJa sobre l8to, ê mag{strol ex'
poslçÉo dô Aug:ueto CoEte no tomo If, de ,oD &ystêna ile Polttltúe
Potlti,ída,
r l8 ROBINET

Bares. O merito da philosophia positiva, para gloria de


seu fundador, é ter encontrado e estabelecido por de-
monstração a lei desta variação, ou a fixidez de suas
successões, conforme a relação constante que ellas teem
'como desenvolvimento dos tres principaes aütributos de
nossa natureza, a intelligencia, a actividade e o senti-
mento. t 1:
-,4{
Todas as mutações sociaes assim observadas depen'
dem de facto da evolução destes elementos primarios em
toda manifestação eollectivâ, que, por sua vez, é domi'
nada pelas leis fundamentaes que ficam expostas na pri-
meira parte deste Iivro .
As variações da ordem social não apresentam pois,
nenhuma confusão e se affectuam num sentido e após
uma successão determinada cuja serie constitue o que
se chama progresso ou a civilisação; assim, todas as po'
pulaqões quaesquer que ellas sejam, ao mesmo tempo gue
se elevam do estado theologico e militar ao scientifico in-
dustrial, se elevam tambem em nivel moral, onde a so-
ciabiliclade a principio simplesmente domestica, torna-se
universal, e as classes assim como as instituições empres-
tam a esta evoluqâo mais geral, todos os caracteres parti-
culares de suas variações, por multiplas que ellas sejam.
Se. se puder resumir a evolução especulativa e a evolução
activa de nossa especie, reparando como tendem a se tor-
nar mais systematicas e mais synergicas, se reeonhecerâ
igualmente gue a evoluqão affectiva converge tambem, e
sobretudo, para nos tornar mais capâzes de symoathia.
Entretanto é preciso lembrar que, só a intelligencie
e a actividade é gue teem aqui uma influencia directa.
produzind-o resultados capâzes de se accumular, pois o
sentimento não se modifica senão indireetamente. sob a
pressão das mutações da razáo e da actividade (1) .

(1) Diz Comte (pag. 270 do Cat.): Pelo contrario, e rê-


gião affectiva (ou os 10 motores &ffectlvos,- ou do sentlmento), que
constitue a m&s§& prtncipal do cerebro, nÉo tem laqos dlrôcto§
PHILOSOPHIA POSITIVA I t9

No começo da evolução social, o espirito humano se


achava em grande difficuldade: toda verdadeira theoria
repousa sobre factos da observação, mas, é certo que essa
observação para ser seguida (methodisada, aproveitada),
exige uma theoria, qualquer que ella seja. Tal situaçáo
contraditcria só teve soluçáo empregando a intelligencia
um methodo puramente subjectivo, oti, tirando do cere-
bro do proprio homem, ou do sujeito, o observador, os
meios de ligar entre si os ensinamentos que o mundo só
poderla fomecer após longa elaboração. "Então diz .Au-
gusto Comte, o sentimento suppre à impotencia da intelli-
gencia, fornecendo-lhe o principic de todas as explicações,
pclas inclinaçôes correspondentes dos seres quaesquer, es-
pontanealnente assimilados ao typo humano. Ir.(as, esta
philosophia inicial é necessariamente ficticia e portanto,
aperlas provisoria. Ella institue entre a theoria e a pra-
tica um antagonÍsmo continuo que, gradualmente modifi-
cado em virtude da reacçâo crescente da actividade sobre
r inl.olligencia, se prolonga durante toda a nossa prepa-
raqão, e só termina no estado positivo. Emquanto a es-
peculação tudo attribuia a vontades arbitrarias, a acção
suppunha basear-se em leis invariaveis, cuja doutrina,
cada vez menos empirica e cada vez mais geral, acabou
por renovar o entendimento humano" (1).
Quanto á actividade, sua niarcha resulta tambem,
como a da intelligencia, da impossihilidade de qualquer
outra soluçâo primitiva. O estado social não póde sem
duvida, se consolidar e se desenvolver senão pelo traba-

com o exterlor, ao qual só se liga indirectamente o.tràvez de Êuas


t'elações propriâs com a, intelligencie e com a, actividade (istJ é,
a.trâvez das 5 funcções da intelligenciâ e das 3 qualidades firáti-
cas). N. do T.
- Este estado natural,
(1) espontaneo e inevitavel, é condem-
nado pelâ Philosophia Maüerialista sob o nome de "antropornor-
phismo". Catecismo Positivista pâ9. ts90. Traduccão de Mtgucl
Lemos. -

-t.
120 ROB INET

lho; mas, a efficiencia do trabalho suppõe a preexisten-


cia da sociedade, do mesmo modo que, a da observação
exige a systematisaqão theorica. O desfecho de uma tsl
perplexidade se opera então, a1És ainda, uma espontanea
evolução que dispensa qualquer preparação. A activida-
de guerreira prehenche, por si só, esta lacuna, em virttr-
de da preponderancia natural do instincto destruidor so-
bre o congtructor. Necessariamente collectiva, ella pro-
voca associações solidarias, consistentes e duradouras,
e determina a formaqão de grandes Estados que com-
no povo dominante . Não ha outro meio de chegar ao es-
primem a turbulencia militar por toda parte, bem como
tado pacifico, e superar a repugnancia que a principio,
inspira ao homem qualquer trabalho regular. Dê facto,
logo que esse dominio guerreiro adquire a extensão de
que é susceptivel, o regimem militar conquistador
tende a se transformar em acção defensiva, durante a
qual o proprio dominio guerreiro prcpara a propria exis-
tencia industrial, que por si mesma, adquire Iogo pre-
ponderancia .

O momeuto em que começâ esta evolução espontaneil


de nossa intelligencia e de nossa actividade é aquelle
em que saimos das simples relações de animalidade, pera
comeqar o estado social propriamente dito. Este perio-
do antigo e tão importante, cuja analyse systematica e
o conhecimento real são certamente devidos ao fundador
do Positivismo, foi designado no seculo XVIII" sob o
nome de fetichismo; é o estado primitivo e espontaneo
de toda civilisação, tal como o começo da nossa infan-
cia, ou de cada evolução individual .
Sua efficacia consiste sobretudo na fundação espon-
tanea deste methodo subjectivo de que acabamos de fa.l-
lar e que dirigirá o conjuncto da preparação humana.
N.o ponto inicial de nossa evolução, quando uma pai-
xão qualquer nos impulsiona a pesquisar as caueas dorí
phenómenos de que iguoramos as leis, af im de modif i'
cal-os após tel-os previsto, attribuimos affeiqões humonas

t rF
: H ILOSOPH IA POSIÍIVA l2l

directemente aos sereg correspo'ndentes, entre o§ quêes


oboervamoe os acontecimentos que nos interessam, em
vez de nos submettermos, como faz o theologiemo, a von-
tsdes exteriores e sobrenaturae§. A verdadeira logica,
aquella em que os sentimentos dominam as imagens e cs
signaes, tem pois uma origem fetichista, e o fetichismo é
mais natural e mais espontaneo que o polytheismo, que
elle precedeu por toda parte e sempre.
Não se pode mais contestar sua aptidáo moral, ent
vista de sua tendencia para fazer por toda parte preva-
lecer o typo humano. EIle nos torna profuodamente sym-
pathicos para com todos os seres, me§mo os mais
inertes, nós levando a concebel-os eomo vivos e essenci-
almenbe sympathicos á nós mesmos.
Sob o aspecto social, onde é menos fórte, deve'se, to-
davia, ao fetchismo importantes serviços, taes como, o
de moderar, por sua tendencia â adoraçáo material, as
destruições irÃmensas exercidas pelos póvos caçadores ou
pastoreÀ sobre os animaes e os vegetaes, e o de dirigir a
lrimeira das revoluções socÍaes, aquella que serve de
base a todas as outras, e passagem do estado nomade ao
estado sidentario, em virtude do profundo apêgo que ellc
inspira pelo sólo natal .
"A principal imperfeição deste regimen espontaneo,
diz Augüsto Comte, consiste em só deixar surgir muito
tardiarãente, um sacerdocio qualquer, capaz de regular
em seguida o surto humano. Poryuento este culto (o
do fetlchismo), embora muito desenvolvido, não exige á
principio nenhum padre, em vista de sua natureza essen-
õialmente privada, que permitte â cada um adorar, senr
intermediaiio, serei quãsi sempre accessiveis.- Apezar
dis.so, o sacerdocio acabou por surgir ahi' quando os as'
tros, por longo tempo desdenhados, se tornaram os pnn-
cipaei fetictrê, desãe então communs a vastas popula-
çõ^es. Sua natureza inaccessivel estando assaz
recohhe-
õida, suscita uma classe especial «lestinada a transmit-
tir as homenagens e a commentâ.r as vontades Neste es-
t22 ROB INET

tado final, porem, o fetichismo confina com o polytheis-


mo, que por toda parte provem da astrolatria". (1)
Esta passagem do fetichismo ao theologismc consti-
tue, por fim, a mais difficil das revoluções preliminares
da nossa intelligencia, que deve para isso, subitituir hrus-
camente, a actividade c mesmo a vida pela inercia, ns
concepção geral da materia, afim de motivar a interven-
ção divina. Todavia, os agentes e-iteriores, es vontades
sobrcnaturaes, em urna palavra, os dettscs, se introdu-
s_em espontaneamente, pelo maior esforço de subjectivi-
dade, quando o espirito humano, attingindo a segunda in-
fancie, se eleva da contemplação dos ieres á contempla-
ção dos acontecimentos, que é, como já se vio, (na pri-
meira pai'te deste livro) a unica base possivel das mêdi-
tações scientificas. Prolongando o methodo inicial, os
phenomerrcs, considerados simultaneamente numa infi.
nidade de corpos, são então attribuidos a vcntades mais
geraes, necessariamente emanadas de fóra, ou exteriores
acs seres. Está ahi o campo do polytheismo.
E' delle, principalmente, que depende o conjuncto da
preparação humana, o fortalecimento definitivo da civili-
zaçã"o.
Irlm 1.' Iogar, elle completa a philosophia inicial es-
tendo-a a nossas mais altas funcções, a nossos actos
intellectuaes e moraes, que se tornam a occupação favo-
rita dos deuses, o que não poude fazer o fetichismo, ab-
sorvido na investigação do mundo material . Ào mesmo
ternpo, o polytheisrnc consolida e desenvolve o sacerdo-
cio iniciado pela astrolatria .

De mais, todos os typos de sociedades polytheicas,


quaesquer que sejam suas variedades, apresentam duas
instituições fundamentaes e connexas: a confusáo dos
poderes, espiritual e temporal, e a escravidão da poprr-
lação laboriosa.. A primeira resulta necessariamente do
car&cter absoluto da doutrina theologica, então prepon-

(1) Cateclsmo citado patina 898


PHILOSOPHIA POSITIVA 1.23

derante, pois que, é ciirficil se limitar ao conselho quan-


oo se lalra em nome oe uma autoÍ'lcladê sem llmrtes, cuJas
Ínsplraçoes se transror'ÍIam logo crn comlnanclos sagra-
dos; e alem dlsso, esse retlmern prellmmar clevenqo so-
bre tudo, (leserlvotver as rorças rrurnâ.nas, todos os po-
deres trnnam necessrdade de ser para rsso comhtnacros
arun de vencer a rnqrscrpllna natural do homem prtmt-
trvo. (Cuânto á escravtoao, que couservava o prlsronerro
qe tuelra em vez de devoral-o ou sirnpiesmente destrutl-o,
for um progresso real no encainlnhamerrto para a socia-
bilidade, alem de permlttir, assegurando a vrda rndustrial
a povos guerreiros, o surto de conquistas indispensave,s
á tundaçáo das grandes civilisaçôes e favorecer o regi-
mem da paz. UmÍim, permittindo habituar o homem ao
trabalho, elle torna-se um meio de aperfeiçoamento pes'
soal, após, ter sido o meio de vida.
O principal exemplo social do polytheismo é a an-
tiga theocracia, ou o polytheismo conservador.; é a uni-
ca ordem verdadeiramente compl-eta que apresenta o
conjuncto da preparação humana, da qual todas as ou'
tras phases, polytheismo progressivo grego, romano, etc.,
são apenas modificações dissolventes deste regimem
fundamental.
A theocracia, cujos melhores modelos nos teem sido
offerecidos pela India e sobretudo pelo Egypto, repousa
sempre sobre duas instituições essenciaes e. correlativas;
a hereditariedade das profissões e a preponderancia da
classe sacerdotal . A primeira fornece o unico meio de
conservar o progresso realisado em todos os Seneros' na§
sciencias e nas bellas artes, na industria e na politica ou
na guerra. Mas, este regimen decomporia toda popula-
ção em castas muito separadas se a preponderancia ge-
ral da casta principal, o sacerdocio, não viesse a consti'
turr ahi o Estado, fornecendo a todas as outras profis-
sões um logar respeitado, susceptivel da mais vasta ex'
tensão.
Entretanto, a theocracia só logrou inteiramente se
t21 ROBINET

estabelecer nos trÉvos onde a cultura intellectual e o tra-


balho puderam se desenvolver antes da activitlade guer-
reira, que tornou.se por toda parte o dissolvente desto
regimen, fazendo prevalecer a casta militar sobre a cag-
ta sacerdotal. Apezar dos immensos esforços da politica
srcerdotal em desviar o ardor bellicoso para as expedl-
ções longinquas, sempre seguidas de colouisações defi-
nitivas, a üeocracia soffre por toda parte o dominio do
patriciado militar, como aconteceu na Grecia e na lta-
lia, mantendo porem os costumes antigos , Por fim, as
tendencias oppressoras procurando conservar a im muta-
bilidade náo se desenvolveram jamais senão na. ultima
phase desse regimen e ahi nasceram sempre da degrada-
ção do caracter sacerdotal, oriunda do exercicio do com-
mando e da pósse da riqueza .
Quanto ao pol5rtheismo progressivo, proveniente da
theocracia após a revolução quo deu logar á preponde-
rancia dos guerreiros sobre os sacerdotes, elle apresenfa
na historia dois modos muito differentes : um, essencial-
mente social, €omo em Roma. O primeiro Burge quando
as circuustancias locaes e politicas não permittem mais
á, actividade militar, ainda que muito desenvolvida, como
no Peloponeso e em Attica, instituir um verdadeiro sys-
tema de conquistas . Sua latente reacção impulsiona en-
tão todos os homens verdadeiramente superiores para e
cultura mental, toraada o principal objecto da attenção
publica e assim livre da disciplina sacerdota.l. Quando,
pelo contrario, a guerra poude encâminhar-se livremente
ate o dominio uuiversal, como acouteceu em Roma, centro
natural do Mediterraueo, a intelligencia se subordina á
actividade, e todos os cidadãos são ordinariqment€ ab'
sorvidos pelas solicitudes sociaes tanto no interior como
no exterior.
Estes dois modos do polytheismo progtessivo foram
igualmente necessario6, cada um Begundo sua natureza e
em sua época, ao grande movimento de civilisação que
ee fez uo Occidente depois da ruptura espontauee do jugo
PHILOSOPHIA POSITIVA t25

theocratico . Esta ultima preparação está necesserianeo'


te confomre os attributog essenciaes da natureza huma'
na, primeiro se refere á intelligencia, depois á actividade
e por fim ao sentimento .
A theocracia inicial cuitivava, simultaneamente es-
tes trez aspectos de nossa existencia, submettida assim
a regra-g completas, embora mui pouco favoraceis ao pro'
gresso. Esta disciplina era porem, a unica conveniente
ao theologismo, pois que nada, de duravel poutle ja,mais
eubstituil-a emquanto prevaleceu a synthese ficticia ' A
marcha da civrlÍsação só foi accelerada quebrando uma
tal harmonia, para desenvolver separada e succes§iva'
mente cada uma das partes da existeücia humaua, a cugto
dae outres duas. Este caracter tão incompleto nitida-
mente distingue, primeiro a elaboração grega, (desenvol'
vendo a intelligencia), em seguida a preparação romana
(desenvolvendõ actividade) e por fim a iniciação catho'
lica feudal (desenvolvendo o sentimento) .
Não entraremos na analyse, mesmo summaria, des'
ta grande elaborasão, geralmente melhor conhecida que
aquella que a precedêu; lembraremoe unicamente que 9o
regimen-da edade media succedeu uma transição ainda
mais rapida de decomposição do regimen primitivo, theo-
logico e militar, para levar a Humanidade á sua situação
delinitiva, caracterisada pela preponderancia da scien-
cia e da industria, preparada pelas edades anteriores (1).
Concebe-se facilmente o caraoter fatalmente procelo-
so da immensa crise que rematou o conjuncto dos cinco
seculos que nos seperam da edade media, acontecimento
conhecidã na historia sob o nome da Rovolução Francesa.
Resultou elle de uma discordancia inevitavel da desigual
velocidade de desenvolvimento, entre as duas progtes-
sões que representam a civilisação occidental, onde o sur-
to positivo ou ecientifico-industrial não estava de modo

(1) V€JB-re Comle gy|temq ir.o Powtbq PoelÍfuo, t, 1II


126 ROBINET

algum em condições de satisfazer as exigencias organi-


cas e reconstructoras resultantes do surto negativo, re-
volucionario, critico ou destruidor do rcgimen antigo.
Emquanto este derrubava tcdas as vistas capâzes de ins-
pirar a direcção da sociedaCe, aquelle não podia ainda
substituir senão as concepções de detalhe, relativas ás
ccndiqões cosmolcgilas e economicas .
Por isso o principal resultado da crise revoluciona-
ria foi a abolição d,a realeza, o advento do regimen re-
publicano e da liberdade de consciencia.
Embora ephemero, o novo regimen permittiu no en-
tanto a terminação e a propagaçáo, de outro modo im-
possivel, do immenso preparo scientifico que, começado
por Thales e Pythagoras continuou durante toda a edade
media e não cessou de avançar attavez da anarchia mo-
derna. No inicio da explosão francesa, essa preparação
só era súficiente em cosmologia, após o recente advento
da chimica ao estado de sciencia. Mas o surto decisivo
da biolcgia, fundada por Bichat e completada por GaIl.
completou logo, fornecendo a base scientifica necessaria
á renovação total do espirito philosophico. O conjuncto
do movimento scientifico converge então, pelos trabalhos
de Augusto Comte, ao advento da sciencia social, come-
çada pela memoravel tentativa de Condorcet, tentando
desde logo a subordinação systematica do Porvir ao Pas.
sado, apezar das- disposições as mais anti-historicas da
sociedade em que elle vivia. E' assim qrre, como já in-
dicamos precedentemente, sob a universal preponderan-
cia do ponto de vista humano, a acção subjectiva poude
emfim construir uma synthese verdadeiramente inque-
brantavel, a philosophia positiva.
Desde então foi possivel tambem considerar como
terminada a longa e difficil iniciaçáo que a Humanidade
deve ter soffrido sob o imperio constantemente decres-
cente do theologismo e da guerra, e sob a influencia in-
cessantemente crescmte da sciencia e da industria, para
em fim conceber, ao mesmo tempo que a uoção da exis-
PHILOSOPHIA POSITIVA 121

tencia normal de nossa especie, o quadro completo de


seu futuro regenerado (i).
Deve terminar aqui o esboço que acabamos de tentar
da dynamica social ou da evolução collectiva de nossa es-
pecie . Por mais imperfeito que elle seja, permittirá com-
tudo aos nossos leitores, sâIvo mais amplas informações,
reconhecer que a protressão humana ou a civilisação está
d'ora avante fixada, que existe uma theoria scientifica
do progresso, tão real e tão solidamente estabelecida
como a do movimento da terra em mecanica, pois que
permitte, para a conducta politica, previsões tão legiti-
mas, embora mais geraes e mais complexas, como aquel-
las da mecanica para os casos praticos correspondentes,
A sciencia social está pois fundada.
Observemos ainda aqui : do mesmo modo que a es-
tatica social institue a noção do consensus politico, por
seu lado, a dynamrca fornece a noção de continuidade,
pela decomposição positiva do Gran Ser em trez eleme.n-
tos successivos que asseguram respectivamente sua indis-
soluvel existencia: os predecessores ou os ancestraes
para o passado, os contemporaneos no presente e os des-
cendentes no futuro.
E' a connexidade, a indivisibilidade destes trez ele-
mentos socÍaes, tão fortemente demonstrada pelo estudo
da evolução historica, que estabelece, no tempo, a unÍ.
dade de nossa especie, assim como a ccncepção estatica
da solidariedade das gerações contemporaneas, o «le-
monstra no espaço, de maneira a pôr fôra de.toda con-
testação a realidade da Humanidade como organismo
collectivo relativamente universal e eterno, e formado,
seg'undo Augusto Comte, de todos os elementos conper-
gentes, antropologicos ou mesmo zoologicos, isto é, de to-
dos os agentes susceptiveis de concorrer para a manuten-
ção de sua existencia e para o aperfeiçoamento de sua
natureza physica e moral e de sua situação terrestre.
(1) VeJa-se Áugusto Comte T Iv e ultimo do gEstema ile
Politi,ce Positile. -
r28 ROBINET

7.o MOnAL

Por elevada que seja a posição theorica a que nos


conduziu o completo desenvolvimento da sociologia, nos
é possivel subir ainda mais .
Existem, de facto, acontecimentos mais complicados
e menos geraes que os factos politicos e sociaes; quere-
mos tros referir aos phenomenos moraes, asgim como 'l
tudo que diz respeito á actividade cerebral do homem in'
clividual -.r , $, a$.-$.
SÉo estas manifestações complexas que constituem o
objecto da setima e ultima grande categoria abstracta
apresentada pela nossa serie encyclopedica.
Antes de tudo é preciso renovar aqui tudo que já
foi dito á proposito da philosophia primeira
Àinda que Augusto Comte tenha deixado em seus
escriptos, principalmente em seu "Catecismo" e no "Sys-
tema de Politica Positiva", indicações decisivas sobre ,r
grande sciencia de que vamos nos occupar, ainda que nos
tenha mesmo transmittido o plano em manuscripto, que
foi pela primeira vez publicado na noticia que demoe d:
sua-obra e de sua vidã, quadro que temos o cuidado de
reproduzir aqui, apezar disso elle morreu no momento em
quê iria fixai o resultado de suas longas meditações a9'
teriores sobre esta ultima e verdadeiramente constrrrcção
capital.
Eis os quadros:

Moral theorlca

Instituinilo o conkectmento ila natureza huntana


Introducção: Philosophia primeira, philosophia se-
gunda, moral theorica.
Theoria cerebral (funcções interiores, funcções exte-
riores, innervação).
PHILOSOPHIA POSITIVA 129

Theoria do Gran-Ser (a Humanidade), (familia, ma-


tria, Humenidade) .
Theoria da unidade (uniáo, unidade, continuidade).
Theoria vital (existencia, saude, molestra) .
Theoria do sentimento (personalidade, sociabilida-
de, moralidade) .
Theoria da intelligencia (razáo abstracta' razão con-
creta, harmonia mental ) .
Theoria da actividade (pratica, philosophica, poe-
tiea).
Conclusão : synthese, sympathia, religião ( súnergia)

Moral pnatica

Itt stituind,o 'o aperÍeiqomnento ila notureta humana,

Introducção:
Educação propria á primeira ínfancia (desde a con'
cepção até sete annos) .
Mucaçã,o propria á segunda infancia (dos sete aos
quatorze annos) .
Educação propria á adolescencia (dos quatorze &n-
nos aos vinte e um) .
Educação propria á juventude (dos vinte e um an'
nos aos vinte e oito) .

Educação propria á virilidade (dos vinte e oito aos


quarenta e dois annos) .
Etlucação propria á madureza (dos quarenta e dois
aos sessenta e trez annos).
Educaçã.o propria ao retiro (dos sessenta e trez an'
nos até a moúe) .

coNcLUsÃo
Foi ainda a Pierre Laffitte que coube dar a ela-
boraqão, systematlca e a exposlçíio oral completa deste
,ema-te do-systema lnteiro dà phtlosophla posltlva. Elle

+
r30 ROBINET

publicou em 1878 o progrâmma deste ensino supremo,


que já professava havia alguns annos e que repetia entã.o
com mais desenvolvimento. O curso de rnoral positiva, fei-
to em dois annos consecutivos de accorclo cc,m o plano tra-
çado. pelo Mestre êm seu Tratado de politica, comprehen-
de vinte liqões para a moral theorica e vinte para a mo-
ral pratica, sendo feito publica e gratuitaúente, eom
tanto esforço intellectual quanta modesta dedicação que,
a (ausa positivista deve a Pierre Laffitte um senriqo
dos mais consiCeraveis, sendo-lhe então justamente con-
sagrada a posição que hoje occupa. Porque, se apoz a
morte de Augusto Comte, não houvesse uma pessoa ca-
paz de comprehender sua doutrina em toda súa integri-
dade, de assimilal-a, de communical-a ou ensinal-a cni
cada uma de suas partes, de defendel-a contra os ata-
ques que estava então soffrendo, emfim, de completarr
nella as Iacunas, e Laffitte foi o unico que se mostrou
-
a altura dessa difficil missão o Positivismo, soterra-
do sob um diluvio de criticos- incompetentes ou menti-
rosos, de aggressões imprudentes ou perfid3s, teria caitlo
em profundo esquecimento ou passaria ao estado de
curiosi4ade bibliographica e .iamais chegaria a este pe-
riodo de discussão publica e de vulgarisação indisnenia-
vel ao seu advento. Pe'!6 p6n65, não chegaria elle ja-
mais, a essa popularidade que o incorpora á vida publi-
ea m,oderna e faz delle um dos elementos de contróle e
tle iniciativa, entre os mais orieinaes e os mais fecundos
da actual progressão humana.

Moral theorica
À sciencia moral a ethi,ca, é mais syntheticâ que ne-
nhuma outra. E'para ella que totlos os aspectos abstrac-
tos, precedentemente estudados concorrcm espontanea-
mente para construir o guia geral da tazáo concreta r_lu
pratica .
"A cosmologia, diz Âugusto Comte, estabelece em
PH ILOSOPHIA POSITIVA l3l
primeiro logar as leis da simples materialidade. Depois,
a biologia ,constróe sobre essa base a theoria da vitali-
dade. À Sociologia por fim subordina a este duplo fun-
damento o estudo proprio da eristencia collectiva. Mas,
embora esta sciencia preliminar seja necessariamente
mais completa que as precedentes, não envolve ainda tudo
que constitue a natureza humana, pois que, nossos prin-
cipaes attributos não se acham ahi de modo algum, suf-
ficientemente apreciados . Ella considera essenciâlmen-
te no homem, a intelligencia e a actividade, combina'
das com todas as propriedades inferiores, mas sem esta'
rem directamente subordinadas aos sentimentos que âs
dominam. Este desenvolvimento collectivo faz sobretudc
elevar nosso surto theorico e pratico. Nossos sentimen-
tos só figurars na sociologia, mesmo estatica, pelos im'
pulsos que exercem sobre a vida commum, ou pelas mo-
clificações que desta recebem. Suas leis proprias só po'
dem ser convenientemente estudadas pela moral, oncle
adquirem a preponderancia devida á sua dignidaile su-
perior no conjuncto da natureza humana." (1)
Ora, a sciencia constitue sempre um simples pro'
Iongatnento da sabedoria vulgar; realmente, ella não
cria iamais nenhuma doutrina ingenita.
Srras theorias se limitam a precisar, generalisar e
coordenar os preceitos empiricos da razáo universal.
Para fundar a sciencia moral basta então, systematisar
convenientemente a divisão fundamental que o senso com-
mum percebe espontaneamente no conittneto da cristen-
cia humana, distinguindo nesta o sentimento, a intelli-
gencia e a actividade. Sendo .iá apreciavel entre os
mais antigos poetas, essa analyse se acha ahi comple-
tada empiricamente pela divisão geral dos nossos pen'
dores em pessoâes e sociaes, e, aincla que a ethica não
pudesse ser assás aborda.da por nenhuma theologia, nem
por nenhuma metaphysica, deve-se todavia registrar a

íl) Catecismo cit&do, pag. 262


lt2 ROBINET

tentativa inicial do fundador do catholicismo, §. Paulo,


para satisfazer ás exigencias do novel preceito religiooo.
Construindo sua doutrina geral da luta permanente en-
tre a natureza e a graça, entre os máos e os bong sen-
timentos, elle esbôçou realmente o conjuncto do proble-
ma moral, ao qual os mysticos do geculo XV ajuntaram
alguns dados. Só no fim do nosso seculo, sua solução po-
sitiva ou scientifica, poude emfim ser abordada.
Já ficou indicado o esforqo admiravel pelo qual o
genio de Gall fundou a theoria positiva da natureza hu-
mana, antes meamo que fôsse elaborada a sociologia;
esta lacuna explica as ineütaveis imperfeições de sua -
doutrina .

Foi eobre essa base, indestructivel no que se refere


a seus dados fundamentaes (a pluralidade de nogsos
funeções superiores, tanto mentaes quanto mor&es, o a
s&e commum destas faeuldades no apparelho cerebral)
que Augusto Comte, desde que foi construida a sciencla
social, erigiu a theoria definitiva que, propriamente fal-
Iando, constitue a sriencia moral .

Quanto ao methodo, alem de todos os processos lo-


gicos creados pelas seieucias que a precedem, e dos quaes
ella se utiliza, a inducQão, a experimen-
- a observação,
taçâo, a comparação e a filiação,
- a ethica
mente o methotlo sub,iecti,to e a formâ
usa especial-
de deducção a mal§
propria para a construeqão directa .

. O primeiro problema que ella aborda, e o princlpal,


é como iá dissemos, a theoria da alma, tomando esta pe-
lawa no sentido positivo, isto é, como uma expressã,o ge-
rel tlesigrando o conjuncto de nossas faculdades mentaes
+i_l-"
e morae§ .

Ella então estuda em primeiro loga.r as funcQões sim-


ples do cerebro; depois as funcções eompostas, lsto é, a
associaqã.o de variai faculdades elementares, cuja resul'
tante, mais habitualmente, produz os movels reaes da
conducta do homem.
Ae funcqões simples são, ae prlmeiras, relatlva§ qo
PH iLOSOPHIA PO.irTlVA r33

egoismo directo e fundamentai: instincto nutritivo, in§-


tincto sexual, instincto materno ou educador, insiincto
destruidor ou militar, instincto constructor ou Índustrial;
e ao egoismo indirecto: a vaidade e o orgulho; em se-
guida ac altruismo: apêgo, veneração, bondade. -- As
segundas se referem á intelligencia: contemplacâo con-
creta ou observação dos seres, contemplação ahstracta ou
observaçâo das propriedades, dos acontecimentcs parti-
culares aos seres, rneditação inductiva e meditacáo de-
ductiva, expressão. Âs terceiras emfim, são proprias
-
ao caracter, á actividade: coragem, prudencia, firmeza
ou per.severança. A moral fi:<a e retoma. após â bio-
logia, a natureza -propria de cada uma destas faculdades
elementares; estuda em seguida cada fâculdade separa-
damente; constata o genero de aperfeiçoarÍrento que, de
seu exercicio, resulta para cada um4; emfim, compera â
evolução paúicular ao sentimento, á intelligencia e á
actividade, no individuo e na especie.
Quanto ás funcções compostas do cerebro, aqueilas
que são a miudo e mais directamente apreciaveis na con-
ducta humana, e que immediatamente determinam nossos
aetos, resultam seja do concurso de faculdades simples
de urt mesmo grupo, como a vaidade e o instincto des-
truidor para formar a inoefu", ou da observação abstra-
eta, da meditação e da expressão para concorter ao jul''
gamento, etc.; ou ainda, da combinação de faculdades ele-
mentares, proprias aos diversos grupos affectivo, intel-
Ieetual e activo; por exemplo, a composição das fun:çôes
do egoismo como as do altruismo e do caracter, ou da
inteliigencia com o egoismo, o altruismo e o earacter,
doode que os trabalhos do espirito são inspiradoa pelo
interesse pessoal ou pelo sentimento social, precipitade e
mantidos pela coragem ou a persêverança, etc.
Do megmo mo'do que para as faculdades elementares,
a moral estabelece por fim as condições cosmologicas e
gihyeiologicas de exercicio, de evolução e de aperfeiçoa-
urerto dessss divereas combinâções meDtaê§ e morâc§, de
134 ROB'NET

modo a fixar, com precisáo os estados geraes do senti-


mentc, da intelligencia e do caracter, ou os differentee
typos psychicos proprios á aatureza humana.
Só então I nova éthica aborda a theoria ger&l ds
reacção do cerebro e dos elementos de sua acção: estudo
da sensação, sensibilidade propriamente dita, muecula-
ção, calorição, electricção, olfacção, gustação, audiçâo e
visão; exercicio, evolução e aperfeiçoamento dos senti-
dos; estudo da enertsação, motora e vegetativa ( theoria
da medulla espinhal e do nervo grande sympathico); es-
tudo da harmonia entre a sensação, as funcções interiores
do cerebro e a innervação (acção reflexa) ; reacçdo ve'
getdtàDa do lromem sobre si nlesmo ( relações do moral
e do physico) reacção do homem sobre o mundo exte'
rior; reacqão do homem sobre o homem - Theoria das
utoptas moraes . -
Logo depois, pela theoria dos seres collectivos: fa-
milia, patria, Humanidade, e dos deveres que elles com-
portam, a éthica prepâra o grande estudo da unid,ud,e da
natureza humana, embora formada de elementos diffe'
rentes e mesmo divergentes .
Ahi é que está realmente o nó essencial da explica-
ção synthetica do homem, da concepção positiva de sua
indivisibilidade, comprehendendo o estudo dâ connexáo
de todas suas partes e de todas as' suas funcções, assim
como sua coutinuidade .
A noção da urudade do ezc se estabelece após a pre-
ponderancia espontanea do coração sobre o espirito e do
altruismo sobre o egoismo, como tambem, apoz certas
constatações intellectuaes intimas sobre a successão e
a indivisibilidade dos diversos estados do ser em suas
condiqões physicas e moraea, relativamente á pessoa, á
especie, e quanto ao mundo exterior.
Dahi a theoria ütal completa, condensada na noçõo
positiva da existencia, da saúde e da molestia, na da per'
eonalidade, da sociabilidade e da moralidade, da razõo
(abstracta e concreta), emfim s actividade pratica (Bi-
PHILOS@HIA POSITIVA ltt
litar ou industrial, philosophica e poetica),; s concluaão
suprema da moral positiva, ou do conheeimento do ho-
mem individual, se resumindo na theoria geral da reli-
gião, ou BJrnthese universal, isto é, da reunião interior
e exterio'r do homem, ligado em si mesmo e novamente
ligado ao mundo e á Humanidade pela fé demonstravel.
ou pela convicção scientifica .

MORÂL PRATICA

Quanto á moral pratica fixada pelo conjuncto dos


conhecimentos resumidos precedentemente, repousa in-
teirarrrente sobre a concepção positiva do d,eoer I excluin-
do qualquer influencia sobrenatural, theologica ou meta-
physica, ella se estabelece sobre noções sociologicas e mo-
raes demoÍrstradas e sempre demonstraveis, sobre o tes-
fs6rrnhg da oonsciencia, traduzida, sobretudo, pelo re-
morso, sobre a acção da opinião publica (estima e des-
prezo), e, como sancção ultima, cada vez mais objectiva,
por um systema de penalidade correspondente.
O objecto proprÍo da moral pratica é preparar o ho-
mem para respeitar e seguir as prescripções da moral
theorica segundo um systema de educação que corneça
na creação do menino no seio materro e só termina pela
morte na velhice. Moral pessoal, moral domestica, moral
social, estes tres aspectos do dever lhe são ensinados con-
forme as idades, primeira e segunda infancia, adolescen-
cia, juventude, madureza e velhice, de maneira que tenha
em todas as circumstancias e ern todas as épocas de sua
üda, em todas as situaqões e profissões, publicas ou pri-
vada que possa occupar, sempre presente no espirito a
regra do bem que deve fazer e do mal que deve evitar,
para comnigo mesmo, para com x lamilia, a patria e a
lfumanidade.
Não podendo, por falta de espaço, nos estender mais
longamente sobre este objecto, entretento tão essencial
ii6 ROBINET

nos contentâmos em lembrar que o Positivismo Bão só


desenvolve aqui e consolida mais quc nenhuma outra dou-
trina, o systema dos deveres privados, como tambem in-
troduz toda um& serie de deveres novos, relativos á vida
publica, uma moral socdal que directamente tem raçáo no
restabelecimento da harmonia no mundo pela cmcitiaqáo
definitiva da ordem e do progresso, e pelo concu!'rio vo-
luntario e a Iivre subordinação da personalidade hurnana
ao bem publico.
TERCEIRÀ PARTE

CONCLUSÃO SOCIAT-,
L.' Resumo da Philosophta posíiiua A philoso-
-
phia positiva, ou philosophia das scieucias, é- a concepção
real do mundo e do homem. Pela observaçáo, pela expe-
riencia e, pelo raciocinio inductivo e deductivo, seguindo
uma dupla marcha objectiva e subjectiva, isto é, epr ae
elevando do mundo ao homem ou tornando a descer do
homem ao mundo, ella envolve em sua investigaçáo tudo
o que ha de real: materialidade, vitalidade, sociabilidade,
e penetra effectivamente, pela analyse e pela synthese'
no conhecimento uniiersal .

2.' Noçáo synthetictt ila Hum,anid,ade Mais uma


concepção - mestra se deduz do espectaculo immenso- que
nos apresenta essa contemplação dos phenomenos e dos
seres: a da Humanidade, que apparece em fim, pela pos-
ssnte evocação do fundador do Positivismo, como o maior
de todos os seres reaes, ou, segundo uma expressão pro'
fundamente meditada, como seja, o Gran'Set cujo defi-
nitivo apparecimento deve fechar o cyclo da antiga men-
talidade: eClinctis itiis, deoque successit Humanitas.
Nós só podemos aqrri esboçar essa noqão decisiva'
resultado supremo da obsen'açác scientificn applicada
ao conjuncto das cousas. (Para maiores esclarecimentos,
consul[e-se os liwos de Comte : Systemu ile politica pcs*-
tioa, t. 2.n,; Cateci*mo, 1." conferencia; e Sl1nthcse subje'
çtüsa, introduceâo" ) .

Fspontaneamente esboçada pela concordancia de


tres indicações isoladas, devidas respectivamente a pen-
sadoree de primeira ordem, Pascal, Leibnitz e Condorcet'
e que indicam successivamente a convergencia dos es'
forços do passado, a dependeucia do futuro para com o
t40 ROBiNET

passado, emfim, a unidade clos contempot,aneos,


grande concepqão foi systematic&mente ^insiituiaa essa,
por
Augusto Comte, após sua descoberta fundamental das lers
da evoluqão social .

Ellc define então o Gran-Ser: o conjuncto dos seres,


passados-, f],tr.o" c presentes, o que estaÉelece a unidade,
a eternidade e a immensidade dô grande org^rriarno.
Àle,s, esta palavra conjuncto indica bai'tante que a
Humanidade não comprehende indistinctamente todos os
homens. n:as. unicamente aqucilcs que podcm figular em
tal collecqão pela cooperaçào na exislenôia commirm. Iürn,
bora sejam todos filhos da i-Iurnanidade, nern todos se
tornaram scus agentes, seus servidores; um grande nu_
tnero ficou sempre composto de parasitas inu"teis, or,. cle
rerractarros nocivos: são os ociosos, vergonha e fardo de
nossa especie, on os criminoscs habit,.raeÀ, que estão sem_
ple, incljnados a perturbal-a e realmente nãb fazcm parte
dell:,. Âo contrai';o, ó preciso juntar ahi as especiôs de
an:rna.es sociaveis que lhe prestam tão poderosos auxilios,
e si:rvicr.s r.oluntarios indispensaveis âo homem.
.. Tcria livre cooperaqão habitual á execução dos des_
tinos liumanos erige com isso, o scr cot respondente em
elemento reai dessa existencia composta lhu dá u*
gráo cle importancia propor.cional á cligilidade " de sua es.
pecie c á sua efficacia individual . pú issc, é que Âu-
gusto Comte finalmente definiri a Humanidade: o aon-
juttt:to continuo d,os seres conuergenbes.
Este vasto organismo é dotado dc urna zr.ctividadc
expcntanea, impulsicnada unicamente c limitada tam
bem pela acqão <Io mundo exterior, rnas nunca resultando
delle, nós o temos visto, e se exerccndo conforme as leis
que lhe são propl"ias. A Humanidade vive e se desenvolve
entáo_ por si mesrna, sem outra influencia quc nã.o seja
aquell:r do meio que a envolve e clas aptidões que lúe
sáo particulares. Sua evolução depende exclusivamente
de stra organisação, de seu modo de vitalidade, e das
condicões cosmologicas onde ella está collocàda, seln ne-
PHILOSOPHIA POSITIVA l4t

úuna outra intervenção exterior e sobrenatural . O


Gral-Ser de um lado, e do outro a tena que lhe serve,
arl nneamo tempo, de theatro, de alimento e de regulador,
com o espaço onde iseo se move; taes são os elementos
reaes do grande problema do nosso. destino, os uuicos ob-
jectos accessiveis ás nossas inclinações, ás nossas Pes-
quizas e ás nossas acções.
O elemento fundamental deste grande organismo é,
cornc já ficou dito, a famtlàtt; o homem isolado só repre-
sent,a um animal, ou urna abstracção irrealisavei, da qtral
a. f,lumanidade não poderia resuitar. trllla náo póde provir
seaão de seres homogeneos, coll,ectiur.rs, portaiito, dentrc
os quaes, a familia forma o typo o mais simples. À re-
nniáo das familias é que, successivamente en3endra a ci-
da.le, a patria e por fim a }lumanidade. Na associação
civica. que é um typo collectivo mais ccmplexo e mais
ele'.'trdo clue o grupamento domestico, as classes repre-
sentan os diversos orgãos que e:iecutam as funcções ne-
ceesarias á conscrvaqão e &o desenvolvimento, do Gran-
Ser; mas, só pela associação religiosa pode elle cheger 1
urrra completa unidade, porque entáo trs mais altas pre-
occupações asseguram uma harmonia que até entáo só
era deter:minada pelo concurso activo necessario á satis-
faeão de necessidades menos gerâes e mgnos elevadas.
Quando se procura representar a Humaniclade. a
atte.nção logo se prende a seus orgãos actuaes, ao con-
curso rlas gerações preÊentes, numa palavra, á solidarie-
dade dos contemporaneos, muito mais que á continuidade
doa predecessores. No entanto, esta é necessaria e natu-
ralmente preponderante, pois que, a rnarcha da civilisa-
cão, o surto sociâl, dependem mais dos serviqos accumtl-
lados no tempo, ou de edadc em edade, pelas geragões
successivas que dos csforços exercidcs no espâÇo, na sú-
peúicie da terra, pelas familias co€xistentes. Qualquer
pessoa que reflicta so'ore o que deve aos outros' facii-
rnente se convencerír que recebeu muito mais tlos prede'
c@aores que dos contemporaneos.
142 ROBINET

Regulta dahi que a cooperação efficaz e permaaeute


no melhoramento da situação humana provem muito EaiE
da cpntiuuidade que da solidariedade, e que, eob este
ponto de vista, a Berie dos aucestraes se eleva cada vó
mais sobre o conjuncto dos contemporaneos. E dahi re-
sulta esta lei fundamental da ordem social: Os uitros cõo
aetnpfe, e, cada Dez ma,ia, gooernad,os pelos fiLortos, que
re?tesentqm a melhor porçõo da Humanidúe.
Cada homem digno deste nome, cada verdadeiro ser_
vidor da Humanidade possue, na realidade, duas e><isten-
cias : uma, que constitue a vida propriamente dita, sua
duraçáo corporal e temporaria, objectiva e directa ( iLsto
é, emquanto elle está, em carne e osso, em continua re.
lação com os seus semelhantes); a outra, aquella que só
começa após a morte, permanente, definitiva e indirecta
(isto é, que não se modifica mais por já estar completa
e acabada na lembrança dos sobreviventes). A primeira
deve ser qualificada de objectirso; a segunda, que provem
dos resultados accumulados durante a vida real e que só
se desenvolve no espirito e coraçãrilela tradiçã.o ou pela
lembrança de seus proprios resultados, merece o notnc
de sub jcctiua.

Esta constitue a unica immortaiidade real do homem,


sua per?etuidade relativa, ficando subordinada á impor-
tancia dos serviços que haja prestado e á gtandeza das
impressões que haja deixado após elle.
Assim, a vida objectiva ou corporal de Homero, de
Âristoteles, de Archimedes, de Themistocles, de Scipião,
de Cesar, de São Paulo, de São Elernardo, de Carlos Mag-
no, de São Luiz, de Dante, etc., foi limitada a um potrto
bem restricto de espaqo e de tempo emquanto que, sua
üda subjectiva, incorporea e permanente se extende in-
definidamente nesses dois sentidos, pela influencia cres-
ce[te de suas obras, do seu legado á ciülisação, e consti-
tue uma immortalidade, igualmente real e immaterial.
TaI é a nobre perpetuidade que o Positivismo reco-
nhece na alma humana, isto é, no conjuncto das factal-
PHILOSOPHIA POSITIVA I13

dades moraes, intellectuaes e praticas que ctraeterisam


o homem.
Tal é tambem o fim de noesa vida, sua retra, sen
destino, que consistem em viver, primeiro objectiva.mente
para outrem, afim de viver depois subjectivamente em
outrem e para outrem, ou, de uma maneira geral : para
conhecer, amar e servir á Humanrdade .
A população humana se compõe então realmente de
duas massas distinctas, cuja proporção varia sem cessar,
conservando a preponderancia crescente dos mortos so-
bre os vivos .
E' assim que, se em toda operaçáo real e importante,
a acção e o resultado dependem necessariamente dos ul-
timoe, ou do elemento objectivo, o impulso, os meiog e
a regra proveem sobretudo dos primei,ros, ou do elemento
subjecüvo.
À continuidade social ou a vida da Huma.nidade deve
então ser comprehendida da maneira seguinte: os con-
temporaneos, o publico ou a popuulação objectiva, libe-
ralmeate dotados pelo6 prdecessores, pela priorid,aile, ou
pelo primeiro elemento da população subjectiva, trans-
mittem gratuitamente aos successores, á posterídde ou
ao segundo elemento da população subjectiva, o conjunctc
do dominio humano, as aceumulações materiaes, as
acquisições intellectuaes e moraes, as instituições poli-
ticas, sociaes e religiosas, em quantidade cada vez mais
f,raca ern proporção ao que receberam. Entretanto, em-
bora a Humanidade constitua sempre, o principal motor
de uma operação qualquer pera com um servidor isolado.
quer seja um productor material, intellectual, moral (ho-
mem ou mulher, qualquer que seja) , embora isso, ella
não pode comtudo jamais agir senão por intermedio dos
orgã.os individua.es .
E' por isso que os vivos, apezar de sua crescente
aubordinação aos mortos, são indispensaveis á sua acção .

Ora, analysando esta participaçáo collectiva dos contem-


poraneos, do publico, na elaboração social, se veÉ que
ROBINET

ella lesulta definitivamente de um livre concurso de es-


Íorcos purarnente individuaes. De modo que, finalmente,
o desenvoivimento e mesmo a conservação do Gran-Set
dopendem dos livres serviqos do conjuncto de seus ser-
vidores e dos seus filhos, pois que, a inacqão de cada urn
delles, considerada isoladamente, é ordinariamente sus-
ceptivel de compensaqão.
A solidariedade é então, com a continuiciade, poreur
em Erenor gráo, e condicáo lundamental da existencia e
do desenvolvimento da Humanidade.
Que a contrluidacie venha â se rornper, e o Gran-
Ser não mais existu; que a solidariedade se enfrequeça
e sua. evoluqão se detenha, seus prog?essos e sua con-
sei'-çacão propria estarão ameaçados.
Sente-se então toda a importancia da manutenção
cie;ies <lois estados correlativos, paril assegurâ.r a perpe-
tuidade da grande existencia. Sentc-se ainda toda a int-
portancia da harmonia publica e da cooperação indivi-
dual. a necessidade do respeito ao passeCo e da coope-
raqào actual, nois que, a ruptu,ra da filiaqão e a suspensão
rio conctrso poderiam destruir o Gran-Ser, indispensavel
a caCa um Ce nós. Porque sempre baseada na livre asso-
ciação de vontades independentes, sua existencia com-
1rcsto, tende a se disscl.zel dcsde que a discordia se esta-
beleça entre seus orgãos objectivos ou directos, isto é,
entre os vivos.
Esta necessidade f unda.rnental da harmonia sc cial
ii:rpõe assim, absolutamente, a Dreponderancia univergal
e continr-ra do coraçáo sobre a intelligencia e sobre .â rrcti-
vidade, da sociabilidade sobre a personalidade, do al-
truismo sobre o egoismo. da veneraqão sobre o orgulho
quc engendra a insubordinaQão, e apresenta o amor como
a pt"irneira- conrlicão da pcrmanencia e do aperfeiçoamento
de iicssa especie.
Em resurno, a Flumanidade é um ser real., cuja Ea-
turezr composta fez desconhecida sr.ra e:-istencia por lon-
go tempo, hoie sctentifieamente demonstrada.
PHILOSOPHIA POSITIVA 145

E' o unico verdadeiro Gran-Ser, o verdadeiro Ser-


supremo; immenso, porque cóbre o mundo; eterno, por-
que envolve ao mesmo tempo, o passado, o presente e o
futuro; todo-poderoso, porque nenhuma acção intelligatte
se trúde comparar á sua .

E da Humanidade sobretudo que dependem nmsos


destinqs: é ella que nos protege contra as fatalidades er:-
teriores de nossa situação e contra as imperfeições ia-
teriores de nossa ttatureza, que noa defende contra o rnal
physico, que nos fortifica contra o mal moral . E' ella que
ãipinue para nós, por sua industria secular, o peso das
servidões naturaes e que adocica sua rudeza, mesmo pâra
corR a mais inexoravél e a mais cnrel, a morte. Fj' elia
entáo, a acção tutelar e infatigavel, unica providencia de
nocsa Terrá, que nos elevou gradualmente das miseries
da animalidadê aos encantos e á grandeza da vida sotial '
Está nella nosso apoio, está nella nossa força e ns§c
digaidade, está nella nossa espcrança e no§sa consolaçóo'
E' ella a raz'ã'o de nossa conducta, do dever, a con-
diqâo de nossa felicidade, e, a salvação do mundo não é
mais que o preço de seu successo.
3,; Á Ph,itosophia paitiaa-é o' inttoilucçõo neces-
saria ila- Politi,ca posíthsa é ita rekgião ila H*manüail'e'
Termina aqui a tãrefa a que nos ohrigamos; tão franca-
-
mente quaito a eumprimàs, tal -como fizemos presentir
a nosso; leitores, que, para uma tão vasta creaçã'o, nÉo
senão um simples jogo de espirito .
^ Sesertoda
1Éde
acção raciõnal suppôe uma theoria pretrygt-
aar, isto é, um conhecimento exacto da operação a efíe-
ctuar, ume vista nitids do fim a attingir e dos meios para
ahi cLegar, reeiprocamente, uma theoria scientifiea do
muüdo é do hoúem exige uma politica correspondentc,
uma reorgaaizeção das instituições, correlativa á reforan
das opiniães e de eoetumes. E' eíta construcção defiDi-
ttva que o fundador da religião cla humanidadc em[tsà-
hcrdCu dr seu Sgale*aa il'e Politba posithsa.

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