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A desaprovagao da crian¢ prestados & crianga. & apenas quando a crianga cresce que ele renuncia A maior parte de sua autoridade em favor do irmao de sua mulher, retendo parte dela no caso das meninas, no que diz respeito 20 casamento. » Assim, a participacio do/maridd € definida estritamente pelo cos- fume, sendo considerada socialm: ispensdvel. Uma mulher com ‘wma_crianga e sem mari m_grupo_andmalo e incompleto. ae de sua mie é uma particularizagio dda desaprovagao genérica de tudo quanto nao esté de acordo com 0 padrlo social accito ¢ a organizagao tribal te filhos € 0, dating) as fungoer aay 7. A COLETA E A INTERPRETACAO DOS cito que estejafaltando | SS Desse modo, apesar de ignorarem a necessidade fisiol6gica de um homem para a constituigé , encaram-no como socialmente indispensavel. Isso € mui A paternidade, completamente suas partes componentes. Portanto, nao & um de seus membros. [se] desconhecida em seu sentido bi nda assim 6 s i : dogma social que afirma jia deve ter um pai uma mulher A auséncia de clareza filos6fica nos assuntos relacionados com 0 deve se casar antes que possa ter filhos; em toda casa deve haver um trabalho de campo etnogrético e sociolégico tornou-se um grande obsté- denen culo as minhas primeiras tentativas de observar ¢ descrever as instituigdes nativas; considero, portanto, de fundamental importincia demonstrat as dificuldades que encontrei e 0 modo pelo qual procurei resolvé-las. A instituigdo da familia individual é assim sobre um forte sentimento de sua necessidade, totalmente compativel com a absoluta ignorancia de sua fundamentagao biolégica. O papel sociold- ‘Uma das regras fundamentais sobre as quais baseei o trabalho de gico do pai é estabelecido definido sem nenhum recoahecimento de sua campo foi “‘coletar fatos puros, mantendo separados os fatos das inter- natureza fisiol6gica protacdes”. Essa regra é correta se entendermos por “interpretagoes” todas as especulagdes hipotéticas sobre origens etc. e todas as genera- lizagdes precipitadas. Mas hé uma forma de interpretagdo dos fatos et eet cee asi area eT refiro-me A interpretagio que descobre as leis gerais na dade dos fatos; que distingue o essencial do inrelevante, que “a € ordena os fendmenos, relacionando-os mutuamente. Sem t pretagées, todo trabalho cientifico de campo degenera em um simples colecionamento de dados e, quando muito, consegue uma miscelénea de fatos sem qualquer conexao mais profunda, que nunca poder revelar a estrutura sociol6gica de um povo, apresentar uma descri¢do orginica s Reproduaide de Maumowart, B. Bloma: the, apts of the, death in, he 144 de suas erencas ou ainda reproduzir a visio nativa do mundo. A natu: reza freqiientemente nfo-orginica, fragmentéria, incoerente, de grande parte do material etnol6gico de nossos dias deve-se ao culto do “fato puro”. Como se fosse possivel fazer uma trouxa com “os fatos tais como so encontrados” e trazé-los para que nossos estudantes possam fazer generalizagdes e construgdes teéricas em cima deles! Na verdade, tal procedimento é totalmente impossivel. Se se des- pojar um distrito de todos os seus objetos materiais e trazé-los sem uma preocupacao de descrever cuidadosamente o modo como so usados (um método que tem sido empregado sistematicamente em algumas possessoes nio-britinicas do Pacifico), se teri formado uma espécie de colecéo de museu com pouca validade cienttfica pelo simples fato de que a ordenagio, a classificacéo, a 1agio dos fatos devem ser feitas ‘no campo, tendo como referéncia 0 todo orginico, constituido pela vida social nativa. Eo qué impossivel com os fendmenos mais \dos — 08 objetos materiais — 6 mais impossivel ainda com do comportamento nativo, se escondem nas profundezas de sua mente, ou estio apenas parcial- ‘mente consolidados nas cerimdnias ¢ instituigdes. No campo, depa- ramo-nos com um caos de fatos, alguns dos quais tio pequenos que parecem ser insignificantes; outros, tio amplos que parecem dificeis de serem abrangidos de modo sintético. Mas, em sua forma bruta, esses fatos néo so ainda cientificos, so profundamente enganosos © s6 podem ser captados corretamente pela interpretagio, que penetra sob sua aparéncia, apreendendo ¢ fixando 0 que’ é essencial. Apenas as leis @ as generaltzacoes so jatos cientificos, ¢ 0 trabalho de campo consis ‘inica e exclusivamente, na interpretagdo da caética realidade s subordinando-a peri lquer esta qualquer mapa de uma aldeia ou de um territério, qualquer genealogia, qualquer descrigdo de uma ceriménia — em suma, todo e qualquer documento etnol6gico — é, em si, uma generalizagio; a veves, uma generalizagio bem dificil, pois sempre se tem que, primeiro, descobrir © formular as regras sobre © que relatar fe como relatar; todos os esquemas devem ser esbocados de modo a expressar certas estratégias econdmicas ¢ sociolégicas; qualquer gencalo- gia dove expressar as relagdes de parentesco entre pessoas © 96 serd vilida se também forem coletados todos os dados relevantes sobre essas pessoas. Em todas as ceriménias, 0 essencial deve ser distinguido do acidental, 0s aspectos importantes dos insignificantes, os elementos hhabituais daqueles que sio variéveis a cada desempenho. Embora isso 145 mo, 0 fato € que a infortunada énfase sobre ua sendo usada constantemente como principio norteador das instrugdes para o trabalho de campo. Retornando a0 assunto principal, quero acrescentar algumas regras que formular — no s6 para resolver algumas , como também pata faze ido-as de modo a permit aqui aplica-se apenas ampla ou dife- as crengas, ou, de um modo mais especifico, as neste artigo. No decorrer dos meus estudos de campo, o principio geral mais importante com relagio as crengas que fui obrigado a respeitar ¢ levar em consideragao foi o seguinte: uma crenga ou um item do nfo é um simples retalho de informacio que possa ser retido fonte casual qualquer ou de algum informante ocasional ¢ postulado como axioma, de maneira simplista. Ao contrério, cada crenga esté refletida em todas us mentes de uma dada sociedade e se expressa em muitos fenémenos sociais. Trata-se portanto de algo muito complexo, de social sob formas extremamente variadas, ccasticas, enganosas. Em outras palavras, hd renga que deve ser.cuidadosamente estudada; ria renga deve ser analisada em seu movimento nessa dimensio ada levando-se em conta 0s diversos tipos de ges nas quais pode ser encontrada. Ignorar stimar a variedade de formas assumidas por assumindo simplesmente que as variagdes néo so importantes, és que nao pode ser formulado 1 informagio etnolégica sobre crencas de ‘Os nativos acreditam na existéncia de sete ‘ou, ainda, “Nesta tribo encontramos a crenca de que o espirito ata as pessoas nos bosques” etc. Tais afirmagées so indubita- velmente falsas, ou, 0 plural) ndo possuem q suas préprias crengas e idéias. Além do que, essas crengas e idéias no existem apenas nas opinides conscientes, explicitamente formuladas pelos 146 membros de uma comunidade. Elas esto incorporadas nas insttuigées sociais © expressas. no comportamento nativo, dos quais devem ser desembaracadas. E esses relatos etnolgicos “unidimensionais” nfo deixam nunca transparecer que o problema nao é to simples como aparece no modo como é colocado, O etnégrafo consegue um informante fe, de suas conversas com ele, julga-se capaz de formular a opiniio do nativo, digamos, sobre a vida aps a morte. Essa ido no plural e temos as Esse 6 um exemplo do que eu chamo “um P fimensbes sociais nas quais a fa, assim como ignora sua complexidade © multi — E claro que, muitas vezes, embora nem sempre, essa multiplicidade pode ser ignorada, e as variagées de detalhes podem ser consideradas is em vista da uniformidade obscrvada em todos 0s aspectos importantes de uma crenca. Mas o assunto deve ser estudado, usando-se regras met6dicas para simplificar a variedade ¢ uniformizar 2 multiplicidade dos fatos. Qualquer procedimento casual deve ser deseartado como ni ico. E, ainda assim, que eu saiba, nenhum investigador de campo, mesmo entre os ilustres, tentow ainda descobrir estabelecer essas regras met6dicas. Por isso mesmo, as observacées subseqiientes devem ser encaradas com indulgéncia, pois so apenas uma tentativa inicial de sugerit algumas conexées impor- tantes, Sio também julgéncia por se tratarem de resultados de experiéncias reais e dificuldades encontradas no campo. ‘Se no relato anteriormente feito sobre as crengas hé uma certa auséncia do observador s4o, de certo modo, enfatizadas, razio, Procurei mostrar, o mais claramente possivel, constante de considerar simultaneamente, de um lado, as instituigies aso civilizada desse principio ¢ a seguinte: quando dizemos que fereditim na infalbilidade do papa”, s6 estaremos certos se com daquela Tere. O camponds cat dogma quanto sobre 0 célculo quer comus ‘Sselvagens” 147 sociais e a interpretagéo nativa, e, de outro, 0 comportamento nativo, controlando 0 fato social pelo dado psicolégico ¢ vice-versa. Estabelegamos, portanto, as regras que nos permitem reduzir a multiplicidade de manifestagdes de uma crenca a um dado mais simples, ‘Vamos comecar com 2 afirmacio, feita diversas vezes, de que os dados brutos so praticamente caGticos em sua diversidade © multiplicidade, Podemos facilmente encontrar exemplos em meio ao material apresen- tado neste trabalho. Tomemos as crengas correspondentes A qué “Como os nativos imaginam 0 retomo dos baloma?”, Na verdade, cologuei essa questio, formulada.adequadamente, a uma série de mantes, Em primeiro luger, as respostas foram sempre fragment pois o nativo tende a responder de acordo com aquilo que a pergunta suscita momentaneamente em sua mente, mencionando um tinico aspecto @, freqiientemente, um aspecto irrelevante, Alids, um “civilizado” des- treinado faria o mesmo, O carter fragmentério das respostas pode ser parcialmente corrigido repetindo-se a pergunta ¢ usando-se diferentes informantes para preencher a rmuitas vezes, a respostas sao também desanimadorament . Inadequa- © que eu deveria fazer? Elaborar uma espécie de opiniio “ wiedade me parecia muito grande, Além disso, era s constituiam apenas uma pequena parte da infor- ‘magio disponivel. Todas as pessoas, mesmo aquelas que pareciam inca~ pazes de expressar 0 que pensavam sobre 0 retorna dos baloma e 0 que sentiam sobre eles, nem por isso deixavam de apresentar um com: portamento influenciado, de um certo modo, por esses baloma, proce- dendo de acordo com certos costumes ¢ obedecendo a determinados cinones de reagio emocional. ‘Assim, procurando respostas para a questio — ¢ para qual outra relativa & crenga ¢ ao comportamento — fui impelido a it ‘05 costumes correspondentes. Como um primeiro princi estabelecer a diferenca entre a opinitio pessoal, a 7 tigar e que formacio obtida, ‘questionando-se os informantes ¢ as préticas cerimoniais piblicas, Como (© leitor deve se lembrar, enumerei anteriormente certos dogmas que descobri, expressos nos atos costumeiros tradicionais. Assim, a crenca generalizada no retorno dos baloma esté incorporada no fato mais amplo do préprio milamala, A exposigdo de artigos preciosos (ioiova), 148, ‘a construgio de plataformas especiais (tokaikaya), a exposicéo de alimentos sobre 0 lalogua — tudo isso expressa a presenca dos baloma na aldeia, os esforgos para agradé-los, para fazer alguma coisa por eles. Os presentes em alimentos (silakutuva e bubualu'a) demonstram mesmo uma participagdo mais intima dos baloma na vida da aldeis. Os sonhos, que freqilentemente precedem tais oferendas, so tam- ‘bém aspectos comuns exatamente porque esto associados com e san- cionados por essas oferendas habituais. De certo modo, ‘a comunh&o entre os baloma e os vivos mais pessoal mai . leitor facilmente poderé multiplicar esses exemplos (relagao da crenca em Topileta e 0 pagamento que este exige com os valores que circundam © corpo do morto antes do enterro; as crencas incorporadas no ioba etc.). ‘Além das erencas expressas nas ceriménias tradicionais, hé também aquelas incorporadas nas {6rmulas mégices. Tanto quanto os costumes, cssas formulas sio estabelecidas pela tradigto de modo defi como documentos, sio mais precisas que 0s costumes, pois no é permitido ne- nhuma variagdo. Apresentei neste trabalho apenas pequenos fragmentos de f6rmulas mégicas, mas mesmo esses servem para exemplificar o fato de que, sem nenhuma divida, as crengas podem ser expressas pelos encanta- ‘mentos nos quais estao inseridas. Qualquer férmula acompanhada de um ritual expressa alguma crenga concreta, detalhada, particular. Desse modo, quando, num dos jé mencionados rituais agricolas, 0 feiticeiro coloca um fubérculo sobre uma pedra a fim de promover o crescimento das colheitas ¢ a formula que ele declama comenta e descreve sua ago, ha certas cren- ‘cas inegavelmente documentadas nessa férmula: a crenga no caréter sa- grado daquele bosque em particular (¢, quanto a isso, nossa informagao & corroborada pelos tabus que cercam o bosque); a crenga na conexao entre © tubérculo colocado sobre a pedra sagrada e os tubérculos na roca etc. ‘HA outras crengas, mais gerais, incorporadas e expressas por algumas ddessas f6rmulas. Assim, a crenga generalizada na assisténcia de um balo- ‘ma ancestral & padronizada, por dizer, pelos encantamentos nos quais se invoca esse baloma ¢ pelos ritos de acompanhamento, nos quais cles recebem seus ula’ula, foi mencionado, alguns encantamentos mégicos baseiam-se ‘em certos mitos, cujos detalhes aparecem nas férmulas, Tais mitos, ¢ 0 mito em geral, podem ser considerados, assim como os encantamentos ‘orais, como expresses fixas e tradicionais de crencas. Para uma defi- nigdo empirica do mito (vélida apenas para o material de Kiriwina), podemos aceitar 0 seguinte critério: & uma tradigdo que explica aspectos sociol6gicos essenciais (¢.g. mitos sobre a divisio em clas e subclas), 149 indo-se a pessoas cuja existéncia em épocas anteriores nfo 6 ques- lugares, ainda uum cio petri- cossos onde vivia ogro Dokonikan etc. A realidade das pessoas e das ocorréncias miticas contrasta vivamente com 0 caréter irreal das fabulas mais corriqueiras que sio contadas, ‘Todas as crencas incorporadas na tradic&o mi consideradas quase to invariéveis quanto aquelas incorporadas nas f6rmulas mégicas. De fato, a tradicéo mitica é to bem estabelecida que os relatos dos nativos de diferentes partes de Kiriwina — de Luba 8 Sinaketa — so idénticos nos menores detalhes. E, mais ainda, em uma curta viagem que fiz as il lark — cerca de sessenta milhas pertencem ao mesmo grupo podemos dizer que todas as Ges nativas podem ser consi- ‘os. Todos acreditam nelas, que ima base para @ a¢do; como as ages costumeiras no permitem variagSes individuais, essa classe de crengas 6 padroni- zeda pela sua corporiticagdo social e, desse modo, podem ser con- sideradas dogmas nativos ou idéias sociais de uma comunidade, em oposigdo as idéias individuais *. Para completar essa proposicio, contudo, constituem, assi ciclo mitol6sico acerca de Tudava, um anc "a0. subcla‘Tabalu (que governa somente os itens da crenga que igdes, como também sio_ exp! tendo uma existéncia plenament reconhecem a presenga dos baloma durante 0 milamala, sua expulsio no ioba etc. E todos os membros mais competentes do grupo dardo respostas undnimes na interpretagio dos ritos mégicos ete. Por outro lado, o observador nunca pode estar completamente seguro sobre sua propria interpretagao dos costumes nativos. Por exemplo, no fato mencionado acima, de que o luto extingue-se imediatamente apés um joba, parece estar inegavelmente expressa a crenca de que a pessoa espera até que o baloma do morto tenha ido para encerrar o luto. Mas 08 nativos nfo endossarfo essa interpretagio, que, portanto, néo pode set considerada uma idéia social, uma crenca padronizada. A questio sobre essa crenga ter sido ou nfo a causa origindria da pritica pertence fa uma outra classe de problemas, mas € dbvio que 0s dois casos no podem sez confundidos: 0 primeiro, onde uma crenga é formulada universalmente em uma sociedade antes de ser incorporada em uma io; 0 outro, onde a crenca é ignorada, embora aparentemente cesieja expressa em uma instituicdo. Isso nos permite formular uma definigfo de “idéia social”: £ a ajirmagio de uma crenga incorporada nas instituigdes ou nos textos tradicionais ¢ formulada unanimemente por todos os informantes com- petentes. O termo “competente” exclui apenas as criangas pequenas © 605 individuos seguramente pouco dotados de inteligéncia. Tais idéias sociais podem ser consideradas os “invariantes” da crenga nativa. ‘Além das instituigées sociais e das tradiedes que incorporam ¢ padronizam as crencas, bi um outro importante fator, que mantém com clas uma relagio sem Refiro-me 20 comportamento geral dos natives com relagio 20 objeto de uma crenga. Jé foi dito que tal com- portamento ilumina importantes aspectos das crencas nativas sobre os baloma, os kosi*, as mulukuausi* e expressa as atitudes emocionais ) ‘mulheres que possuem © poder longas. distancia cfu, Em sua forma virulentas © po temidos. (N. da T.) 154 dos nativos com relagéo a cles. Sem dévida, esse Indo da questio 6 de extrema importincia. Nao é suficiente descrever apenas as dos nativos com relacio a espiritos ou fantasmas, Esses renga suscitam profundas reagées emocionais e, antes de mi devemos procurar fatos objetivos que correspondem a es ‘emocionais, Por insuficientes que sejam os dados anteriores no que s¢ refere a esse aspecto da crenca nativa, ainda assim eles demonstram Claramente que, aperfeigoando-se 0 método, é possivel desenvolver uma investigacio ica sobre 0 aspecto emocional da crenga, obedecendo ‘20s mesmos critérios estritos da observagio etnoldgica. Podemos obter uma descricio do comportamento submetendo os nativos a alguns testes relacionados com 0 seu temor de fantasmas, ou (© seu respeito pelos espiritos etc. Tenho que admitir que, embora percebendo sua importincia, nfo consegui descobrir, no campo, o modo adequado de tratar esse assunto novo e dificil. Atualmente, posso ver de modo muito claro que se tivesse me dedicado meis ao problema teria sido capaz de apresentar dados mais convincentes e objetivos. Com relagdio a0 medo, por exemplo, os meus testes no foram suficiente- mente elaborados, nem registrados com as minGcias necessirias. E embora possa me recordar do tom — bastante irreverente, por sinal — com que 05 natives falavam dos baloma, deveria ter anotado — & rnllo o fiz — algumas expresses caracteristicas que, na época, choca- ram-me bastante. Do mesmo modo, enquanto observava 0 comporta~ mento de atores e expectadores durante uma ceriménia mégica, deveria descoberto pequenos fatos que caracterizassem a “tonica” geral da fos foram observados apenas parcial- snte (s6 os mencionei neste trab ‘okola, pois no se relacionam, real- ‘apés a morte). que esse aspecto nfo seja estudado jga algum material comps 4 nto do método de observacdo. ‘A atitude emocional expressa no comportamento — caracterizando 6 um elemento invaridvel: varia com os individuos ¢ focus objetivo (como ocorre com as crencas incorpo- igdes). Contudo, ela € expressa por fatos objetivos, que podem ser apreendidos quase quantitativamente, como ocorre quando se mede 0 grau de persuaso necessério para fazer com que um nativo se aventure sozinho em uma jornada sob condigdes assustadoras, bem como a extensio dessa jornada. Em cada sociedade ha individuos cora- josos © outros mais covardes, pessoas sugestiondveis © outras mais 152 ingensiveis ete. Mas certos tipos de comportamento sio caracteristicos de diferentes sociedades, ¢ ja seria suficiente estabelecer o tipo, uma vvez que as variagées si0 bem semelhantes em todas as sociedades. & claro que, se se puder estabelecer também as vatiagSes, tanto melhor. Para ilustrar 0 problema com o seu exemplo mais simples, 0 do medo, fiz uma experiéncia em um outro distrito Papua — em Mailu, no litoral sul — e descobri que nenhuma persuasio normal, nem mesmo a oferta de um generoso pagamento em tabaco, convenceria um nativo a percorrer, sozinho, durante a noite, um trecho além do alcance da vor e fora da visio da aldeia. Porém, mesmo 1é houve variagées, sendo que alguns homens e meninos nao quiseram correr o risco nem xrdecer, enquanto outros estavam dispostos a percorrer uma certa distincia durante a noite, em troca de um rolo de fumo, Como j& descrevi antetiormente, em Kiriwina o tipo de comportamento é totalmente diferente. Mas também af algumas pessoas sio mais me- Grosas do que outras. Talvez. essas variacSes possam ser expressas com maior exatidio, mas nfo estou em posigio de fazilo. De qualquer modo, porém, 0 tipo de comportamento permite a caracteri- zagio das crengas correspondentes, como se observa comparando Mailu Kiriwina, por exemp! 10, parece vilido, como uma primeira tentativa de exatidao, jementos da crenga — expressos pelo comportamento — como tipos, ou seja, nfo nos preocupando com as variagées individuais. De fato, os tipos de comportamento parecem variar consideravelmente de uma sociedade para outra, sendo que as diferencas individuais pare- cem ocorter em uma mesma escala em todas as sociedades. Isso nio significa que essas diferencas devam ser ignoradas, mas sim que, em uma primeira aproximagio, elas podem ser omitidas sem que com isso 2 informacio fique incorreta por ser incompleta, Passemos agora a tiltima classe de material que deve ser estudado. fa fim de entendermos as crencas de uma comunidade dada — as opinides ou interpretacdes individuais dos fatos. Estas no podem ser consideradas invariéveis, nem podem ser descritas razoavelmente através da simples indicagio do seu “tipo”. O comportamento que traduz 0 aspecto emocional da crenca pode ser des porque as variagdes ocorrem dentro de se sabe, a natureza emocional ¢ instintiva do ser humano é bastante uniforme, e, assim, as variagdes individuais permanecem praticamente as mesmas em todas as sociedades humanas. Mas com relaglo ao aspecto puramente intelectual da crenca, as 1h margem para uma ampla variagio. A crenga, é claro, nflo obedece 153 as leis da l6gica © devemos considerar como um fato fundamental as es, divergéncias e todo 0 caos generalizado que rtante simplificagao desse caos temas h4 uma classe de homens cuja como detentores de um conhecimento especial sobre questo. Em uma determinada comunidade, eles sao geral considerados os possuidores da versio ortodoxa, sua opi como correta. Além do mais, essa opiniéo ¢ baseada na visio tr cional recebida de seus ancestras. Em Kiriwina essa situagdo é bem exemplificada na tradigio da ‘magia e dos mitos correspondentes. Como em qualquer outra sociedade nativa que conheco, seja por experiéncia, seja pela literatura, so poucos ‘0s costumes e as tradigbes esotéricas, assim como s#0 poucos os tabus e os segredos; nfo obstante, ha um grande respeito pelo direito de um homem sobre o assunto no qual € especialista. Em qualquet aldeia, se fizermos alguma pergunta com relagio aos detalhes dos procedimentos mégicos ligados & agricultura, nosso interlocutor imediata- mente nos remeteré 20 Towosi (o feiticeiro agricola). E, posteriormente, ficamos muitas vezes sabendo que nosso primeiro informante conhecia perfeitamente todos os fatos e talvez fosse capaz de explicé-los melhor do que o proprio especialista, Apesar disso, a etiqueta nativa © 0 respeito pelo que € correto obrigam-no a nos indicar a “pessoa ade- quada". E, quando a pessoa adequada estiver presente, néo consegui- remos induzir ninguém mais a falar sot ciamos que mao queremos ouvir a opi Diversas vezes oblive informacées de um dos meus informantes habituais que, subseqiientemente, foram consideradas erradas . Quando sncionava a corre¢fo a0 meu informante original, este, via de regra, cava sua opiniGo, dizendo: “Bem, se é ele quem o diz, deve ‘Devemos, por tomar precaugoes especiais quando 0 especialista est naturalmente inclinado @ mentir, como ocorre freqiiente- mente com os bruxos (aqueles que possuem o poder de matar as pessoas por mégica). "Também nos casos em que a magia e a ttadigio correspondente pertencem a uma outra aldeia, observa-se a mesma discrigio e reserva. Somos aconselhados a buscar a informacao na referida aldeia, Se pres- sionados, talvez 0s nativos mais amigos nos contem 0 que sabem sobre ‘0 assunto, mas sempre encerrario a conversa dizendo: “Vocé deve ir 1d ¢ buscar a informagio certa na f caso das formulas migicas, tal procedimento é imprescindivel. Assim, tive que ir a Laba’i para obter a magia da pesca do kalala, e a Kuaibola para conhecer a da pesca do tubario. Consegui a mi 5 homens de Lu’ encantamento do toginivaiu, a mais poderosa forma de feitica nfo tenha conseguido o silami, ou encantamento maléfico, ¢ s6 uma parte do vivisa, ou encantamento para cura, Mesmo quando 0s conheci- mentos desejados ndo sfo os encantamentos falados, mas apenas os costumes tradicionais, podemos passar por tristes desapontamentos. Por cexemplo, o lugar adequado para se conhecer 0 mito Tudava € Laba’i. ‘Antes de ir para Id, reuni tudo o que os meus informantes de Omarakana puderam me contar e esperava conseguir uma farta colheita de infor- ‘mas, na verdade, fui eu quem impressionou os nativos ando detalhes que eles consideravam absolutamente ‘go se lembravam mais. De fato, 1é, ninguém conhecia tanto sobre o ciclo Tudava quanto o meu amigo de Omarakana, Bagido'v. A aldeia de Talaka & 0 local hist6rico onde, certa vez, uma Arvore cresceu até o céu, sendo esta a origem do trovéo. Se perguntarmos sobre a natureza do trovdo, todos responderio imedia~ : “VA para Talaka e pergunte 20 tolivalu (o chefe)”, embora 1m perfeitamente a origem ¢ 2 natureza do trovao, resultando jim a percgrinacdo até Talaka, se a empreendermos, em um grande