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Antropologia da Alimentação

A cultura alimentar brasileira traz em si um “mix” de diferentes culturas em sua formação,


tais como a africana, a portuguesa, a européia e a indígena.

A massificação da cultura alimentar se aplica na extensão da urbanização onde as


pessoas se aglomeram, na industrialização dos produtos alimentares e em seu marketing de
oferta, e na mídia imposta na implantação dos produtos ora colocados no mercado como
obrigatoriedade de aquisição.

Certos interesses comerciais de um produto se transformam em poder absoluto quando ocorre


indução e coerção à aquisição do mesmo produto. O abalo dos modelos tradicionais de
autoridade e poder decorrem na medida em que uma proposta de mudança é feita.

Se quisermos introduzir uma mudança, precisamos mudar os equilíbrios já estacionários


no hábito, num sentido escolhido. Quando há um hábito estacionário já formado, a existência de
forças que resistem à mudança são maiores que as forças orientadas para a mudança. Se
quisermos introduzir uma mudança, é necessário diminuir as resistências a estas mudanças e
aumentar as idéias e pressões em favor da mudança.

A alimentação brasileira é mais voltada para o prazer de comer, do que para o valor
nutritivo do alimento. Come-se por prazer e não pelo que aquele alimento representa
nutricionalmente. Não se dá ênfase ao valor nutricional do alimento, mas ao gosto e prazer da
alimentação. Em síntese a comida brasileira, a comida do povo, se concentra em massas,
gorduras, açúcares e carne.

Na cultura alimentar brasileira não há lugar de destaque para as frutas e hortaliças. O


prazer alimentar está centrado nesta mistura de massas, gorduras, doces e carnes. Daí a
proposta de um redirecionamento alimentar, de uma mudança na cultura alimentar, de uma
educação nos valores e hábitos alimentares do povo brasileiro.

Comer é mais que ingerir um alimento, significa também as relações pessoais, sociais e
culturais que estão envolvidas naquele ato. Os métodos de procurar e processar estes alimentos
estão intimamente ligados à expressão cultural e social de um povo.

A Antropologia Ecológica traça os parâmetros da Produção de Subsistência para a produção


industrial, e vemos esta evolução em três estágios:
1) As sociedades primitivas sobreviviam da caça, pesca e colheita natural, ou seja, do
que pescavam, caçavam e das raízes e frutos que colhiam naturalmente, sem
plantações e esforços para produzir.
2) Depois surge o segundo estágio, que é praticamente a produção de alimentos
onde ocorre uma domesticalização de plantas e animais, passando o homem a ser
um produtor e não caçador de alimentos.
3) O terceiro estágio é o da Revolução Urbana e Revolução Industrial, em que há a
grande concentração de pessoas nos centros urbanos, ocorrendo assim, a
necessidade de produção em grandes escalas de alimentos e inserção da
produção industrial.

Vejamos alguns exemplos:

Na Espanha, o mastigar a semente de girassol é um atividade social. Ao caminhar pelas


ruas, você encontrará um grupo de pessoas conversando e compartilhando as sementes de
girassol enquanto passam um bom tempo juntas.
Na Itália, uma refeição é um momento de profunda comunhão familiar. Uma refeição na
Itália dura até mais de 3 horas, pois este momento é reservado para estarem juntos, e o comer é
um fator social. É um grande prazer participar de uma verdadeira e típica refeição italiana.

Na Bolívia, os trabalhadores na agricultura mastigam a folha da coca, para obter energia e


força para o trabalho, substituindo uma deficiente alimentação.

“(...) O alimento é algo universal e geral. Algo que diz respeito a todos os seres humanos:
amigos ou inimigos, gente de perto ou de longe, da rua ou da casa (...) Por outro lado, comida se
refere a algo costumeiro e sadio, alguma coisa que ajuda a estabelecer uma identidade,
definindo, por isso mesmo, um grupo, classe ou pessoa (...) Temos então o alimento e temos
comida. Comida não é apenas uma substância alimentar, mas é também um modo, um estilo e
um jeito de alimentar-se (...) A comida vale tanto para indicar uma operação universal – ato de
alimentar-se – quanto para definir e marcar identidades pessoais e grupais, estilos regionais e
nacionais de ser, fazer, estar e viver” ( DaMatta, 1984).

A cultura alimentar no Brasil é algo bem peculiar, sendo que nosso hábito alimentar é
formado a partir de três povos distintos:

1) A herança alimentar dos índios: estes viviam exclusivamente da caça, pesca e


das raízes colhidas. Conhecemos bem que a natureza do índio é preguiçosa, sem
o trabalho de plantar aquilo que deseja colher. Daí uma alimentação mais
centrada em raízes, e não na produção de hortaliças e outros vegetais da
agricultura.
2) 2) A herança alimentar dos africanos: a herança alimentar dos africanos são as
comidas misturadas na mesma panela. Saiu-se do hábito de assar, para o
cozinhar os ingredientes. O arroz com alguma coisa junto, o amendoim com outra
coisa. O “cozido” junto nas panelas vem da culinária escrava africana.
3) 3) A herança alimentar dos portugueses: a base cultural da comida portuguesa é a
oliva. Ainda hoje a comida portuguesa é sobrecarregada de azeite de oliva,
ocorrendo, assim, a predominância de gorduras. O cenário de um quintal e
lavoura em Portugal é assim: Árvores de Oliva (Oliveiras), parreiras de uvas, e
plantação de couve debaixo destas para fazer o famoso “Caldo verde” que é feito
de fubá, couve e azeite de oliva. Aqui no Brasil, o óleo de oliva foi substituído
inicialmente pela gordura animal e depois por outros óleos.

A herança alimentar destes três povos distintos e a mistura de seus hábitos formaram a
deliciosa comida brasileira.

A comida é uma das expressões culturais mais significativas. A comida mexe com a
pessoa, fascina seus gostos e desejos. Na cultura alimentar brasileira, a alimentação é mais
voltada para o prazer de comer do que para o valor nutritivo do alimento. Comemos por prazer e
não pelo que aquele alimento representa nutricionalmente. Não se dá ênfase ao valor nutricional
do alimento, mas ao gosto e prazer da alimentação.

Daí a necessidade da formação de um novo conceito alimentar, da inserção de novos


valores na cultura alimentar. Trata-se de uma mudança de hábitos, em que o conhecimento da
importância das frutas e hortaliças na alimentação, venha direcionar um novo rumo para o
consumo destes alimentos e como eles irão aparecer na mesa e no dia-a-dia do povo brasileiro.
Esta informação e conscientização do valor e importância das frutas e hortaliças devem ser
feitas de tal forma que venham a mexer no âmago da cultura brasileira: comer e prazer de
comer. Para o brasileiro, as saladas e hortaliças não têm gosto, não têm sabor, não “matam a
fome”, e servem tão somente para enfeitar o prato. É preciso atuarmos numa conscientização
pelo gosto, pelo sabor, inserindo fatores de mudança cultural que mexem com o fator de
adaptação cultural mais difícil para um brasileiro: a comida.