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Fundamentos da

Ciência Política
Autor: Prof. Renato Bulcão
Colaboradora: Profa. Josefa Alexandrina da Silva
Professor conteudista: Renato Bulcão

O professor Renato Bulcão estudou Filosofia e fez o mestrado em Comunicação na USP.

Participou do laboratório Escola do Futuro, que desde a década de 1990 pesquisou e promoveu o ensino a distância.
Atua em várias instituições como professor de Filosofia, abordando especialmente as questões de estética, enquanto
desenvolve seu doutorado.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

B933i Zacariotto, William Antonio

Fundamentos da ciência política. / Renato Bulcão. – São Paulo:


Editora Sol, 2015.

180 p., il.

Nota: este volume está publicado nos Cadernos de Estudos e


Pesquisas da UNIP, Série Didática, ano XIX, n. 2-068/15, ISSN 1517-9230.

1. Ciência política. 2. História da política. 3. Política moderna.


I.Título.

CDU 32

© Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou
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Material Didático – EaD

Comissão editorial:
Dra. Angélica L. Carlini (UNIP)
Dra. Divane Alves da Silva (UNIP)
Dr. Ivan Dias da Motta (CESUMAR)
Dra. Kátia Mosorov Alonso (UFMT)
Dra. Valéria de Carvalho (UNIP)

Apoio:
Profa. Cláudia Regina Baptista – EaD
Profa. Betisa Malaman – Comissão de Qualificação e Avaliação de Cursos

Projeto gráfico:
Prof. Alexandre Ponzetto

Revisão:
Lucas Ricardi
Giovanna Oliveira
Sumário
Fundamentos da Ciência Política
Apresentação.......................................................................................................................................................7
Introdução............................................................................................................................................................7

Unidade I
1 A Política e os seus sentidos.................................................................................................................9
1.1 O estado de natureza e o meio ambiente .................................................................................. 12
1.2 Uma breve investigação sobre a igualdade................................................................................ 16
1.3 A autoridade na Idade Medieval .................................................................................................... 19
1.4 A compreensão da política................................................................................................................ 20
1.5 A política é uma expressão da sociedade.................................................................................... 23
1.6 O liberalismo e a defesa do indivíduo ......................................................................................... 27
1.7 A construção histórica do nacionalismo..................................................................................... 29
1.8 Como foi estabelecida a atual cultura política conservadora ........................................... 32
1.9 O espaço da Sociologia....................................................................................................................... 35
2 A Construção da Cultura Política Moderna ........................................................................ 39
2.1 Política e poder...................................................................................................................................... 41
2.2 A história da ditadura.......................................................................................................................... 44
2.3 A cultura política contemporânea................................................................................................. 45
2.4 A política da opressão......................................................................................................................... 51
2.5 Fundamentos do poder político...................................................................................................... 51
2.6 Breve história da força ....................................................................................................................... 55
2.7 A instituição da Ciência Política...................................................................................................... 55
2.8 O Estado é consequência da Ciência Política............................................................................. 57
2.9 O Estado nacional................................................................................................................................. 60
Unidade II
3 A democracia na Antiguidade Clássica..................................................................................... 67
3.1 O nascimento da política................................................................................................................... 67
3.1.1 A política dos cidadãos ressurge em Roma.................................................................................. 72
3.1.2 O idealismo de Platão............................................................................................................................ 74
3.1.3 A influência de Platão através de séculos de Filosofia............................................................. 76
3.1.4 O realismo de Aristóteles...................................................................................................................... 79
4 Roma e o Pensamento Repúblicano............................................................................................... 84
4.1 A República e a cidadania: classes sociais e eleições............................................................. 88
4.2 A organização da República............................................................................................................. 89
4.3 O pensamento de Marco Túlio Cícero........................................................................................... 92
Unidade III
5 As bases do poder teocrático........................................................................................................... 98
5.1 Breve introdução à fundação do judaísmo e seu monoteísmo.......................................100
5.2 As diferenças entre os romanos e os cristãos..........................................................................101
5.3 A fundação da teocracia..................................................................................................................102
5.4 Da religião à política..........................................................................................................................103
5.5 O controle do pensamento e das terras.....................................................................................105
5.6 A ideia de religião depois da Idade Média................................................................................108
5.7 Santo Agostinho e a filosofia patrística.....................................................................................110
5.8 Santo Tomás de Aquino....................................................................................................................117
6 A Racionalização da Política com Maquiavel.....................................................................121
6.1 O Príncipe – Resumo da obra.........................................................................................................124
6.1.1 A década de Tito Lívio – a releitura de Maquiavel da República Romana.............................. 128
Unidade IV
7 A Formação do Estado Moderno...................................................................................................136
7.1 A forma de utilização das ideias ..................................................................................................140
7.2 A política como forma de organizar a vida social.................................................................143
7.3 A contribuição romana.....................................................................................................................146
7.4 Democracia e cidadania ..................................................................................................................148
7.5 Os ideais socialistas............................................................................................................................149
7.6 Liberalismo e socialismo ..................................................................................................................150
7.7 As ideias filosóficas que dão suporte ao liberalismo e ao socialismo modernos......153
8 As Questões da Participação Política.........................................................................................158
8.1 A questão dos partidos políticos...................................................................................................164
Apresentação

Os fundamentos da Ciência Política são em princípio as formulações filosóficas que antecederam a


criação das Ciências Humanas. Estas últimas foram desenvolvidas na prática a partir do século XIX.

É preciso ter claro que a diferença principal entre a Filosofia e a Ciência é que esta precisa ser
comprovada com a possibilidade de repetição de um determinado experimento. Quando aquecemos a
água e ela se transforma em vapor, modificando seu estado físico, mas não a sua composição química,
isso pode ser comprovado por qualquer pessoa. Então a Ciência Humana deve sugerir que determinados
fenômenos que acontecem em decorrência do comportamento humano podem ser repetidos caso
algumas regras sejam respeitadas. Em outras palavras, as Ciências Humanas tentam decifrar as regras
que determinam o comportamento humano, através da Sociologia, da Psicologia, da Economia e de
algumas outras modalidades.

Este livro-texto traz para seu leitor a possibilidade de descobrir a origem de determinados
pensamentos que estão presentes na vida cotidiana. Muitas das ideias que pensamos hoje já tinham
sido pensadas séculos atrás. Então certas ideias que fundamentam a política moderna, tais como os
conceitos de justiça, poder e liberdade, já estavam sendo discutidas séculos antes do nascimento de
Jesus Cristo. Entender as teorias modernas da Ciência Política é aprender como tais ideias chegaram até
os nossos dias.

Hoje em dia, concordamos que foi o italiano Maquiavel quem primeiro percebeu que, para
construirmos uma nação, é necessária uma política que se impõe de cima para baixo, em favor dos
habitantes de um território. O inglês Hobbes foi quem pensou de forma racional a organização do poder
para a construção do Estado. Ele percebeu que a política é uma atividade diferente da religião e da moral
e serve para criar e impor a verdade, ou seja, ideias que as pessoas conseguem entender, o que é melhor
do que simplesmente criar ideias nas quais as pessoas precisam acreditar.

Estudar os fundamentos da Ciência Política não faz ninguém mudar de religião, mas eventualmente
pode sugerir um novo entendimento do que é a política. No nosso caso, a política é o nosso objeto de
estudo; por isso, vamos tentar entender como esta se constituiu ao longo dos séculos e como devemos
começar a estudá-la.

Introdução

A diferença entre estudar as teorias políticas e os fundamentos da Ciência Política é perceber que
as teorias políticas podem ser baseadas em ideias que não são passíveis de ser cumpridas pelos seres
humanos. Já a Ciência Política estuda apenas como essas teorias aconteceram na prática, tentando
verificar o que funcionou bem e quais as suas consequências para a sociedade humana.

Seguindo os preceitos científicos desenvolvidos a partir do Renascimento e estruturados pelo


Iluminismo, não desejamos separar as formas políticas em boas ou más. O importante é verificarmos
como as ideias causam efeitos e consequências na vida das pessoas.

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Este texto tem forte influência filosófica e não julga os acontecimentos a partir de seus resultados
históricos. Também não sugere que fatos como a escravidão foram certos ou errados, apenas se contenta
em perceber que existiram na vida dos seres humanos.

Assim, a leitura deve sempre ser acompanhada da reflexão do aluno sobre aquilo que está lendo.
Como os fatos narrados dizem respeito aproximado à época em que eles surgiram, não comparamos
ou discutimos a ideia de escravidão na Grécia, em Roma e no Brasil. Mas as conclusões sobre o que
aconteceu com as sociedades escravagistas no passado servem para que possamos fazer a ponte sobre
a nossa própria história.

Isto vale do mesmo modo para as ideias de formas de governo corruptas e degeneradas, e as ações
públicas que os governantes tomam e são impopulares, mas necessárias para o bem-estar do povo.

O importante é que o aluno perceba que apesar de o ser humano existir na Terra há aproximadamente
150 mil anos e dispormos de uma história escrita aproximada apenas nos últimos 5 mil anos, já
acumulamos experiências suficientes para distinguirmos o que é bom, ruim e conveniente para a
organização política da sociedade.

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Fundamentos da Ciência Política

Unidade I
1 A Política e os seus sentidos

Para desvendarmos os sentidos da política, precisamos antes pensar na cultura que a sustenta. Política
é uma atividade que varia de acordo com cada cidade, com cada país. A atividade política é um aspecto
da atividade cultural de uma sociedade que acaba influenciando as suas atividades socioeconômicas.
Aquilo que é comido depende daquilo que é plantado. Aquilo que é construído depende da forma que
é utilizado.

As formas de uso são dadas pela cultura. Mas cultura, assim como política, não é um substantivo
com uma definição simples. Para aquilo que nos interessa, podemos dar à cultura um sentido mais
simples: um conjunto de normas, valores e símbolos que constroem a ideia de tradição de uma
sociedade.

Limitamos aqui a cultura às representações evidentes que os atores sociais têm de si mesmos. Em
outras palavras, cultura é o que as pessoas acreditam que seja uma expressão das ideias delas mesmas.
Esses atores reconhecem que a comunidade a que pertencem contribui para a orientação de suas
atitudes. O motivo disso é que toda ação humana está inscrita num contexto, desenhado em grande
parte pela situação geográfica. Uma cidade à beira-mar tem o mar como influência. Uma cidade no
meio das montanhas tem os vales como ponto de referência. Uma cidade à beira de um deserto tem
uma relação muito especial com a água.

O comportamento humano nos diversos ambientes acaba por formar hábitos e costumes.
Hábitos são ações que se repetem diariamente na vida do indivíduo. Costumes são a forma que os
indivíduos de um determinado local escolhem para realizar estas ações. Em todos os lugares do
mundo é hábito se alimentar, mas os costumes locais vão determinar as diferenças na culinária de
cada lugar. O hábito deriva de uma necessidade humana; o costume é construído pela facilidade
de criar um hábito.

Os costumes formam a tradição, e a tradição cria a herança cultural. Ambas formam padrões
de comportamento no campo social e na atividade política. Isso não impede que novidades sejam
introduzidas nessas comunidades, mas sempre tais novidades precisam de informação e medidas
educativas para que sejam adotadas.

Quando olhamos a atividade política de uma sociedade, verificamos de que forma ela se manifesta
como parte da ação cultural daquela sociedade. Sempre há um grupo preocupado com a herança cultural
da sociedade, que podemos chamar de tradição. A tradição apela sempre à manutenção de costumes
do passado. Se minha avó fazia e dava certo, prefiro continuar fazendo assim. Esses costumes formam
a tradição simbólica de uma sociedade e afetam seu processo político.
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Unidade I

A tradição simbólica permite que as pessoas construam suas representações sobre as instituições
políticas e sobre a prática associativa e colaborativa. No passado, esse papel social estava diretamente
ligado às funções e profissões que as pessoas exerciam. Um pescador vestia roupas de pescador, falava
como um pescador e treinava seus filhos para serem pescadores.

Ora, sabemos que não existem regras fixas para as categorias roupas de pescador ou palavras de
pescador. Mas, mesmo assim, o pescador, enquanto ator social, acredita que ele habite a sua aldeia
com uma participação especial: a construção da representação de si mesmo. As representações são os
indícios que permitem investigar o comportamento político dos atores sociais.

Cada grupo que forma a sociedade, sejam familiares ou profissionais, exibe seus costumes e seus
humores em relação à vida pública. Podemos até mesmo fazer uma pesquisa para sabermos como cada
grupo pensa, verificando sua aprovação ou desaprovação sobre determinadas questões. Tais questões
podem ser a adesão às normas ou a transgressão das normas, seu engajamento político num assunto ou
sua apatia pelos problemas que afetam outras pessoas. Quando pesquisamos e analisamos a participação
política de um grupo dentro de uma sociedade, ou de toda uma cidade, ou mesmo de um país, estamos
fazendo ciência política.

As análises sobre a cultura política indicam hoje em dia a preocupação com o funcionamento da democracia.
Esse ideal moderno de uma sociedade livre e igualitária é tentado em várias sociedades, e até hoje temos
dificuldades em implementá-lo. Os princípios políticos da democracia, na sua versão construída pelos filósofos
do Iluminismo, vingaram de forma diferente em cada sociedade. Quando fazemos estudos comparativos
entre as sociedades, percebemos quais características democráticas são importantes para cada sociedade. Isso
significa que existem formas diferentes de as pessoas se sentirem livres e iguais.

Há um consenso de que a base da liberdade política é um contrato social, expresso através de uma
Constituição que assegura deveres e direitos aos cidadãos. Na política moderna é importante que as
sociedades instituam um aparato legal que opere como pilar social.

Alguns países, como os Estados Unidos da América, mantêm a mesma Constituição desde 1789,
com apenas 27 emendas, que são apêndices ao texto original. Outros, como o Brasil, produziram muitas
Constituições, demonstrando uma necessidade histórica de rediscutir o projeto de nação.

Saiba mais

A Constituição Brasileira de 1988 é a que rege atualmente o Brasil. Uma


Constituição é um contrato civil que determina as bases de relacionamento
das pessoas numa República. Consulte o texto:

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, 1988.


Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.
htm>. Acesso em: 10 abr. 2014.
10
Fundamentos da Ciência Política

As leis representam acordos públicos, e pensamos que isso deva ser a forma de expressar o consenso
daquela sociedade. Mas como o número de humanos cresceu por muito tempo sem que houvesse
instrumentos de comunicação capazes de lidar com o crescimento da população, o Iluminismo pensou
a democracia representativa com três poderes para resolver este problema. O Poder Legislativo deve
ser formado por representantes do povo, escolhidos num processo eleitoral que seja lícito e permita a
representação de posições divergentes. O Poder Executivo, também eleito legitimamente, deve administrar.
O Poder Judiciário deve demonstrar autonomia em relação ao Executivo e é outro fundamento para a
democracia. É interessante notar que, na maioria dos países, o Poder Judiciário constitui um corpo
estável de funcionários públicos, que não são votados, mas escolhidos através de concursos públicos
apenas entre uma classe de profissionais, que são os advogados.

Encontramos em muitos países essa condição formal do Estado democrático, mas as diferenças de
classes e sua inevitável desigualdade de acesso às instâncias políticas acabam excluindo da participação
aqueles com maiores dificuldades socioeconômicas. Nesse sentido, é importante que a educação para a
política seja parte integrante dos esforços culturais de uma sociedade.

A sociedade politicamente moderna não exibe apenas uma fachada formal de constituição dos três
poderes. A democracia contemporânea exige a transformação da realidade através da cultura política
– processo que promove a participação do cidadão e pretende também favorecer uma diminuição das
desigualdades sociais.

Quando a cultura de uma sociedade permite, através da educação, que os valores cívicos sejam
sedimentados na cultura, a política se torna decorrência destes valores. Este tipo de cultura possibilita a
formação de cidadãos participativos.

Por outro lado, algumas sociedades insistem em manter valores tradicionais, que permitem uma
cultura que pretende privilegiar poucos e subjugar a maioria das pessoas. Neste sentido, os valores
individualistas apoiados pelo exercício da força acabam causando a apatia da maioria. A política acaba
sendo apropriada por interesses de grupos particulares.

A Ciência Política pesquisa, portanto, quais os valores dos indivíduos dos grupos que formam uma
sociedade. Pesquisas de opinião medem a evolução da cultura política e seus efeitos sobre as instituições.
Percebemos também mudanças dos valores políticos em determinadas gerações, ou como consequência
de desastres naturais, ou promovidos pelos seres humanos.

Um comentário interessante do filósofo Mário Sérgio Cortella é que no Brasil “política é coisa de
idiota” (CORTELLA; RIBEIRO, 2010, p. 7). O termo original idiótes, em grego, significa aquele que só vive a
vida privada, que recusa a política, que diz não à política. No cotidiano, foi feita uma inversão do sentido
original de idiota. Sua expressão generalizada é: “Não me meto em política”.

Estudar a participação política através do comportamento dos grupos sociais é tarefa proposta pelo
cientista político norte-americano Robert Putnam. Para ele, a eficiência das instituições políticas não
é fator suficiente para que a democracia funcione. Também não explica os motivos dos avanços em
direção à liberdade e à igualdade em alguns países. Putnam (1997) realizou uma pesquisa comparativa,
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Unidade I

com cidades italianas que dispunham dos mesmos equipamentos institucionais. Segundo ele, o capital
social é um fator fundamental para avaliarmos o funcionamento das instituições democráticas.

O capital social é o conjunto dos valores e procedimentos normativos sociais que permitem a
confiança mútua entre os cidadãos. A confiança opera como elemento de agregação, facilitando a
colaboração entre as pessoas e multiplicando os laços associativos. Quando o capital social de uma
determinada cultura política é positivo, contribui para o funcionamento das instituições democráticas.

Os cientistas políticos discutem hoje em dia se são as instituições que determinam a construção da
democracia ou se é a cultura política que influencia esse processo.

Neste sentido, Cortella e Ribeiro (2010) comentam:

Vou pensar a mesma coisa numa outra frequência: a ideia de democracia é


uma ideia que ganha configuração no Ocidente. Não é uma ideia oriental,
asiática, do ponto de vista de ação política pública. Se voltarmos nosso
olhar para a Índia e a China, por exemplo, para focar duas nações que
provavelmente terão o domínio do século XXI, a China adota uma prática
confucionista, na qual é forte a noção de dever na tradição, e a lógica do
indivíduo está conectada ao imediato da família.

Portanto, o “não me importo” é muito sério em uma sociedade que tem


formação confucionista: “Não me importo fora do campo da minha
comunidade imediata”. Na Índia, em que vigora a noção de casta, a
possibilidade de pensar a democracia alcança menos valor do que teve
a independência. É curioso supor que um país que conserva, ainda hoje,
a organização por castas – apesar de não formalmente, porque a lei não
permite, mas é o que existe na prática –, tenha conseguido levar a população
a lutar pela independência.

Embora a democracia seja uma invenção, digamos, ocidental, isso não


quer dizer que ela não possa ser universalizada. Ao contrário, precisa ser
universalizada. No entanto, nem no seu próprio berço, no século V a.C., ela
era valorizada como o foi depois (CORTELLA; RIBEIRO, 2010, p. 45).

1.1 O estado de natureza e o meio ambiente

Toda vez que os pensadores da civilização propuseram alguma forma de organização política, se
reportaram ao estado de natureza. Isso é simplificado na tradição judaico-cristã como o tempo em que
o ser humano viveu no paraíso.

Mas, para os pensadores, o estado de natureza de alguma forma sempre foi visto como um momento
de grande dificuldade para a humanidade. Essa dificuldade sempre foi determinada como uma dificuldade
de sobrevivência.
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Fundamentos da Ciência Política

Platão escreveu no III Livro de Leis sobre a condição em que os homens ficaram depois da destruição
de suas cidades por enormes catástrofes:

Esta é a condição dos homens depois da catástrofe: uma terrível e ilimitada


solidão, a terra imensa e abandonada; mortos quase todos os animais e os
bovinos, sobrou apenas um pequeno grupo de cabras, qual mísero resto,
para que os pastores recomeçassem a vida (PLATÃO, 2010, p. 677).

Por outro lado, Sêneca exaltou o estado de natureza como uma condição ideal para o ser humano.
Ele descreveu a idade de ouro, em que os homens eram inocentes, felizes e viviam com simplicidade,
sem necessidade de bens supérfluos. Não tinham necessidade de governo ou de leis, porque obedeciam
aos mais sábios. Mas o progresso da técnica trouxe a ganância e a corrupção (SÊNECA, 1970), por isso
foi necessária a instituição do Estado.

Outra descrição dura do estado de natureza foi feita por Hobbes, que sugeriu que o estado de
natureza foi a guerra de todos contra todos: “Enquanto vivem sem um poder comum ao qual estejam
sujeitos, os homens encontram-se na condição que chamamos de guerra, e tal guerra é de um homem
contra o outro”. Isto acontece porque, sendo iguais por natureza, os homens também têm os mesmos
desejos e, desejando as mesmas coisas, procuram preponderar uns sobre os outros (HOBBES, 2008, p.
13). A fundação do Estado, de um poder soberano, é o único meio para sair da condição de guerra,
própria do estado de natureza.

No Iluminismo, durante o século XVIII, o estado de natureza volta a ser elogiado por Jean Jacques
Rousseau. Antes dele, Locke já pensava o estado de natureza como um estado de perfeição. Para ele, na
medida em que cada um, através da liberdade de suas próprias ações, pudesse manter suas posses sem a
permissão de nenhuma estrutura de poder hierarquizada, seria um estado de perfeita liberdade (LOCKE,
2006). De alguma forma, vemos que essa descrição é muito parecida com as descrições idealizadas do
funcionamento de uma tribo de índios.

Rousseau exaltou a perfeição desta concepção do estado de natureza no livro Discurso Sobre a
Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens, com o argumento de que nessa condição
o homem obedece apenas ao instinto, que é infalível (ROUSSEAU, 1978). No seu tratado sobre educação,
Emílio, Rousseau afirmou que tudo o que era criado por Deus seria perfeito – portanto, toda a natureza.
Mas aquilo que o homem tocava acabava por degenerar (ROUSSEAU, 2014).

Para Rousseau, o estado de natureza seria o critério para julgar a sociedade presente e construir
um ideal de progresso. Sua proposta para um estado de civilização seria alcançado com um contrato
social.

Para Kant, no estado de natureza não prevalecia nenhuma justiça; portanto, não há como se falar
em um estado de perfeição para o convívio humano (KANT, 2013). Hegel acreditou que o estado de
natureza fosse um conceito equivocado no qual estaria incluída a premissa de que há um direito
natural. Segundo ele, a interpretação do “direito natural” como algo presente no estado de natureza
difere do direito determinado pela natureza da coisa (KANT, 1989). Depois de Hegel, a noção de estado
13
Unidade I

de natureza deixou de ser estudada pelos filósofos, mas permanece até hoje no senso comum, por causa
da força que essa fantasia encontra no pensamento religioso e no pensamento utópico.

Também no pensamento sociológico o estado de natureza é visto muitas vezes como a condição
humana antes da constituição da sociedade civil, e isso é uma herança do pensamento contratualista,
que também fundamenta muito do pensamento do direito até hoje.

Já a noção de natureza como sinônimo de meio ambiente percorreu um vasto caminho histórico.
Aristóteles pensava o ambiente através de suas observações da influência das condições físicas,
especialmente do clima, sobre a vida dos animais e do homem em particular, inclusive da sua vida
política (ARISTÓTELES, 2008).

Em 1648, no século XVII, Montesquieu (2005) supôs que o clima atuasse de forma importante
sobre a formação do caráter e das paixões dos seres humanos. As leis de cada povo de alguma forma
espelhavam essas diferenças. Então a consequência da junção entre essas duas ideias era de que o meio
ambiente é determinado pela natureza do local.

A principal diferença entre o estado de natureza e a atual noção de meio ambiente é que o
estado de natureza não tinha tamanho limitado. Todo o planeta vivia no estado de natureza. Hoje
sabemos que cada parte do planeta acaba se diferenciando da outra, tanto pelo clima como pela
fauna e flora, que estão presentes, e isso configura diversos ambientes.

O meio ambiente é um complexo de relações entre o mundo natural e o ser vivo, que influi na vida e
no comportamento do ser humano. Tal noção tem como primeiro registro mais aceito a obra do biólogo
Étienne Geoffroy Saint-Hilaire (1835). Augusto Comte (1978) adotou o termo com o mesmo sentido, e
assim nós o utilizamos até hoje.

O positivismo atribuiu ao ambiente físico e biológico a causa determinante de todos os fenômenos


propriamente humanos, desde a literatura até a política. A obra de Hippolyte Taine contribuiu para a difusão da
tese de que os ambientes físico, biológico e social sempre determinam todos os produtos e valores humanos,
e isso basta para explicá-los. Em Filosofia da Arte na Grécia, de 1865 (1970), Taine afirmou que a obra de arte
é produto necessário do ambiente e que, por isso, pode-se inferir dele não só o desenvolvimento das formas
gerais da imaginação humana como também a explicação para as variações de estilos, as diferenças de escolas
nacionais e até mesmo os caracteres gerais das obras individuais (TAINE, 2009).

Esta é a noção que permanece até hoje. A noção de ambiente, ou meio ambiente, continua
fundamental para as ciências biológicas, antropológicas e sociológicas. Mas o conceito original de Taine
foi se diluindo gradualmente. Não existe uma relação mecânica e automática entre o ambiente e o
organismo, nem entre o ser humano e o grupo social.

Não se acredita mais que exista uma relação de determinismo causal absoluto entre as duas coisas.
Em 1934, Kurt Goldstein percebeu que a ação seletiva do ser, sobre o qual o ambiente age, “[...] não é
algo acabado, mas vai-se formando continuamente, à medida que o organismo vive e age. Poder-se-ia
dizer que o ambiente é extraído do mundo pela existência do organismo, ou, mais objetivamente, que um
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Fundamentos da Ciência Política

organismo não pode[rá] existir se não conseguir encontrar no mundo, talhar nele, para si, um ambiente
adequado, contanto, naturalmente, que o mundo lhe ofereça essa possibilidade” (GOLDSTEIN, 2000).

Da mesma forma, Arnold Toynbee (1987) escreveu:

O ambiente total, geográfico e social, em que está compreendido tanto o


elemento humano quanto o não humano, não pode ser considerado um
fator positivo a partir do qual as civilizações foram geradas. É claro que
uma combinação virtualmente idêntica dos dois elementos do ambiente
pode originar uma civilização num caso e deixar de originá-la em outro,
sem que seja possível, de nossa parte, explicar essa diferença absoluta em
seu surgimento com alguma diferença substancial nas circunstâncias, por
mais exatos que tenham sido os termos da comparação (TONYBEE, 1987).

Há uma ação do ambiente sobre a vida e sobre as criações dos seres humanos, mas que deve ser
entendida como causa, e não como princípio da ação. George Herbet Mead disse: “O ambiente é uma
seleção dependente da forma viva” (MEAD et al.,1938). Quando Heidegger analisou o ser no mundo,
afirmou que a determinação essencial da existência é existir no mundo, pois sem existir no mundo
não se existe. Ele questionou a noção de ambiente, sugerindo que a biologia apenas pressupõe o que é
ambiente (HEIDEGGER, 2006).

Você deve entender que toda forma de organização social surge quando os seres humanos se
organizam para sobreviver na natureza. Sobreviver na natureza, sem a construção de aldeias e nenhuma
organização social além de um grupo de seres vagando por savanas e se escondendo em cavernas, é o
que caracteriza o estado de natureza.

Há muita dúvida sobre como começa de fato a organização social. Alguns sugerem que é antes
da fundação das aldeias, quando as famílias se organizam em tribos nômades vivendo da caça e da
colheita de frutas e tubérculos. Outros sugerem que é no momento em que começam a enterrar seus
mortos. Há também outra linha de pensamento, que considera apenas o momento em que a agricultura
é desenvolvida, criando a necessidade da construção das aldeias em volta dos campos.

Porém, todos os pensadores antigos e modernos concordam com a ideia de que não teria sido
possível começar a construir aldeias se não houvesse algum nível de entendimento entre eles, um
combinado que permitia alguma organização das tarefas necessárias para o sucesso da agricultura. É
isso que é chamado de contrato. As pessoas contrataram (mesmo que apenas verbalmente) suas tarefas.

Observação

Ao longo deste livro, assim como aconteceu ao longo da história,


a discussão será sempre como e por que a liberdade, a justiça e toda a
organização social foram construídas pelos seres humanos, para evitarem a
volta ao estado de natureza e facilitar sua sobrevivência no mundo.
15
Unidade I

1.2 Uma breve investigação sobre a igualdade

Para o ser humano moderno, a democracia é um ideal. Mas nenhuma democracia pode existir sem
que se aceite o princípio de igualdade. Vamos examinar como se pode determinar a igualdade dos seres
humanos.

Já percebemos que o meio ambiente influencia o desenvolvimento dos seres humanos, mas, por
algum motivo que ainda desconhecemos, isso acontece de forma diferente para cada ser e para cada
grupo de seres humanos.

Para que os seres humanos se entendam como iguais, é necessário estabelecer um contrato entre
eles. A isso se dá o nome contrato social. Para que haja um contrato social, é necessário que se parta
do princípio desenvolvido por Rousseau, de que todos são iguais perante a lei, que é a base da sociedade
contratualista. A discussão do que é igualdade, porém, trilhou um longo caminho até que se pudesse
formular essa ideia.

Para Aristóteles, o significado de igualdade deveria ser entendido como uma categoria
de quantidade. Assim, para ele, são iguais as coisas “[...] que têm em comum a quantidade”
(ARISTÓTELES, 2012).

Para Leibniz (2004), igualdade é a relação entre dois termos, quando um pode substituir o
outro. Dois termos são considerados iguais quando podem ser substituídos um pelo outro no
mesmo contexto, sem que mude o valor do contexto. A noção de igualdade como possibilidade de
substituição serve tanto para as relações puramente formais de equivalência matemática quanto
para as relações políticas, morais e jurídicas. Assim, a igualdade dos cidadãos perante a lei é
a possibilidade de substituição dos cidadãos nas situações previstas pela lei, sem que mude o
procedimento desta.

Nesse sentido, Charles Sanders Peirce [s.d.] insistiu que a igualdade moral ou jurídica de uma pessoa
numa determinada condição não pode ser diferente daquela de outra pessoa nas mesmas condições.
Portanto, o juízo de igualdade só pode existir dentro de um contexto, que serve para a determinação das
condições às quais os termos devem satisfazer para serem considerados substituíveis.

Isso significa que a autoridade deve ser instituída para que se resguarde o valor da igualdade
de todos os indivíduos de uma sociedade. Um policial ou um juiz deveriam, portanto, entender que
todas as pessoas devem receber igual tratamento. Mas sabemos que isso não acontece sempre,
porque inventamos os fundamentos da autoridade em cada sociedade, já que eles não existem no
estado de natureza.

Chamamos de autoridade todo poder exercido por um homem ou um grupo sobre outro homem ou
todo um grupamento social. Tal relação existe numa infinidade de casos. Temos a autoridade do Estado,
a dos partidos políticos, a da Igreja, mas também a autoridade do cientista. Todo poder de controle sobre
as opiniões e os comportamentos individuais ou coletivos é chamado de autoridade.

16
Fundamentos da Ciência Política

Mas, para a Filosofia, qual a justificativa da autoridade? Como podemos validar o princípio da
autoridade? O problema filosófico da autoridade diz respeito à sua justificativa, isto é, ao fundamento
sobre o qual sua validade está fundamentada.

A primeira teoria para tal fundamento vem de Platão, sendo adotada também por Aristóteles: a
autoridade deve pertencer aos melhores, e a natureza é que se incumbe de decidir quem são os melhores.
A conclusão é que, se não nascemos diferentes no estado de natureza, tornamo-nos diferentes por
causa do estado de natureza.

Platão divide os homens em duas classes: os que são capazes de se tornarem filósofos e os que não
o são. Os filósofos são movidos naturalmente por uma tendência irresistível à verdade; os outros são
“naturezas vis e mesquinhas” que não entendem o que é a filosofia. Portanto, a própria natureza acaba
fazendo uma divisão entre os que podem exercer a autoridade e os demais, que estão destinados à
submissão (PLATÃO, 2000). Essa desigualdade radical dos homens também é aceita por Aristóteles como
fundamento natural da autoridade:

A própria natureza ofereceu um critério discriminativo fazendo que dentro


de um mesmo gênero de pessoas se estabelecessem as diferenças entre os
jovens e os velhos; e, entre estes, a uns incumbe obedecer, a outros mandar
[...] (ARISTÓTELES, 2008, p. 1333).

A diferença entre jovens e velhos é temporária, pois os jovens ficarão velhos e no momento certo
assumirão o comando. Então a diferença substancial e fundamental fica limitada ao pequeno número
de cidadãos dotados de virtudes políticas. Portanto, seria justo que eles se alternassem no governo, já
que a maioria dos cidadãos comuns é desprovida de virtudes e destinada a obedecer (ARISTÓTELES,
2008, p. 1261).

Assim, a ideia dessa concepção grega de autoridade é uma divisão natural dos cidadãos em duas
classes, das quais só uma possui o direito de exercê-la. Dessa forma, Platão e Aristóteles criaram o
critério de distinção entre duas classes. Toda ideologia que pressupõe esse tipo de pensamento sugere
a existência de uma aristocracia. Essa distinção justifica todo tipo de exclusão, como o racismo e até
mesmo o capitalismo.

A segunda teoria é a de que a autoridade se baseia na divindade. É isso o que está escrito por Paulo
no Capítulo XIII da Epístola aos Romanos (1980, p. 457):

Que todos se submetam às autoridades públicas, pois não existe autoridade


que não venha de Deus, e as que existem foram estabelecidas por Deus. Por
isso, quem resiste à autoridade opõe-se à ordem querida por Deus, e os que
se opõem receberão a condenação. É que os detentores do poder não são
temidos por quem pratica o bem, mas por quem pratica o mal. Não queres
ter medo da autoridade? Faz o bem e receberás os seus elogios. De fato, ela
está ao serviço de Deus, para te incitar ao bem.

17
Unidade I

Mas, se fazes o mal, então deves ter medo, pois para alguma coisa ela traz a
espada. De fato, ela está ao serviço de Deus para castigar aquele que pratica
o mal. É por isso que é necessário submeter-se, não só por medo do castigo,
mas também por razões de consciência.

Essa epístola foi fundamental para a concepção cristã de autoridade. Santo Agostinho (2012a) insiste
no caráter sagrado do poder temporal, considerando o soberano como representante de Deus na Terra.

Lembrete

Muitas vezes este livro trará pensamentos de Paulo, que foi o primeiro
teólogo de fato da Igreja Católica. Paulo nasceu romano e se converteu
ao cristianismo depois de adulto. Foi o primeiro grande escritor dos
ensinamentos do cristianismo. Os católicos mantiveram seus escritos no
Novo Testamento. Ele é muitas vezes chamado de São Paulo ou de Paulo
de Tarso.

A mesma tese foi adotada por São Tomás de Aquino quando afirmou que Deus é o primeiro dominante
e que dele deriva todo domínio (AQUINO, 2011).

Essa concepção de autoridade do soberano coincide em parte com a dos filósofos gregos, mas de forma
invertida, pois, na concepção teológica, a autoridade independe do consenso dos súditos, ela é imposta.
Mas a autoridade de Deus justifica toda autoridade que seja exercida de fato. A autoridade defendida
por Platão e Aristóteles não sugere que a classe dominante se perpetue no poder. Mas a autoridade
advinda de Deus permite que toda autoridade que é exercida de fato foi disposta ou estabelecida, e isto
basta para que ela seja considerada legítima. Assim, nada impede que ela seja perpétua, ou seja, que o
filho do rei herde tal autoridade.

Essa forma de autoridade é aceita também por Hegel no século XVIII. Para ele, o Estado é “a realização
da liberdade” ou “o ingresso de Deus no mundo” (HEGEL, 2010), o que estabelece que a autoridade e a
força coincidam: quem possui força para impor-se não pode deixar de gozar de uma autoridade válida,
já que toda força nasce de Deus e, portanto, é divina.

A terceira ideia de autoridade se opõe a essa autoridade que vem de Deus. A autoridade não é a
posse de uma força, mas o direito de exercê-la, que deriva do consenso daqueles sobre quem ela é
exercida. Essa doutrina nasceu com a filosofia dos estoicos, e seu primeiro defensor foi o pensador
romano Cícero. O pressuposto fundamental desse tipo de autoridade é a negação da desigualdade
entre os homens.

Para Cícero, todos os homens receberam da natureza a razão, e esta é a verdadeira lei que comanda
e proíbe retamente; por isso, todos são livres e iguais por natureza (CÍCERO, 2004b). Entendida dessa
forma, a autoridade se origina na vontade dos seres humanos, porque, segundo Cícero, quando os povos
mantêm íntegro o seu direito, nada há de melhor, de mais livre, de mais feliz, uma vez que são senhores
18
Fundamentos da Ciência Política

das leis, dos juízos, da guerra, da paz, dos tratados, da vida e do patrimônio de cada um. Cícero pensava
que só um estado assim pode ser chamado legitimamente de república, isto é, “coisa do povo”.

1.3 A autoridade na Idade Medieval

Às vezes o reconhecimento de que a fonte da autoridade é o povo une-se ao reconhecimento


do caráter absoluto da própria autoridade. Essa foi a forma de ideia de autoridade assumida na
Idade Média. Em 1310, Dante Alighieri escreveu: “O povo romano, por direito e não por usurpação,
assumiu a tarefa do monarca, que se chama império, sobre todos os mortais” (ALIGHIERI, 2006,
p. 3). Em 1347, Guilherme de Ockham (apud GOLDAST, 1960, p. 899) entendeu que “[...] o Império
Romano foi certamente instituído por Deus, mas através dos homens, isto é, por intermédio dos
romanos” (GOLDAST, 1960, p. 899).

Ainda segundo Ockham, a autoridade papal seria limitada pelas exigências dos direitos e da liberdade
das pessoas sobre as quais essa autoridade se estendia. Seria uma autoridade de um principado
ministrativus, não dominativus (OCKHAM apud GOLDAST, 1960, p. 899). Nicolau de Cusa sugeriu, em
1434, que até as autoridades eclesiásticas deveriam respeitar este princípio, pois:

Como todos os homens são naturalmente livres, qualquer autoridade que


afaste os súditos da prática do mal e limite sua liberdade com o temor de
sanções deriva só da harmonia e do consentimento dos súditos, quer resida
na lei escrita, quer na viva, representada por aquele que governa (CUSA,
1964, p. 56).

No mundo de hoje, para que as leis possam organizar uma sociedade justa, vemos o predomínio
do contratualismo e do jusnaturalismo. O contratualismo abrange uma grande quantidade de teorias
filosóficas, políticas e jurídicas, que nascem da ideia de Rousseau de que o Estado precisa de um contrato
social entre as pessoas, que permite organizar o direito positivo. O direito natural é aquele derivado das
forças da natureza, mas, em outras interpretações, derivado também de Deus. Mas esta forma de direito
precisa ser detalhada para poder dotar o Estado de mecanismos de direito.

Já o jusnaturalismo se divide em dois momentos distintos: o jusnaturalismo medieval é uma forma


de direito que nasce com São Tomás de Aquino a qual pressupõe que toda ordem jurídica nasce do
poder de Deus. Já o jusnaturalismo moderno parte do princípio de que o direito é subjetivo e anterior ao
direito positivo, que é o direito que regulamenta as ações a partir de um contrato que constitui o Estado.
Portanto, cabe ao direito positivo, ou seja, às leis e aos mecanismos do direito, garantir que os direitos
subjetivos sejam respeitados. Essa corrente de pensamento defende que, quando uma lei que rege um
determinado assunto prejudica uma pessoa, deve prevalecer o seu direito individual.

Embora essas formas de entendimento do direito não possam ser invocadas como justificativas
suficientes nem para a constituição do Estado, nem mesmo do direito e suas leis, ninguém mais duvida
de que a origem da autoridade é humana. Mas como se alcança um consenso que permita que a
autoridade possa ser exercida? E quais são os limites a que devemos obrigar que a autoridade obedeça?

19
Unidade I

Sabemos que, na política, a autoridade abrange um campo maior do que o da pesquisa científica.
Portanto, as pessoas precisam chegar ao consenso de quais são os limites que precisam ser impostos
às pessoas que desejam exercer autoridade. Qual o limite do que um presidente pode fazer? Qual
o limite da autoridade de um delegado de polícia? O que precisa ser proibido no comportamento
público de um juiz?

Também no campo acadêmico, a autoridade científica precisa ser conquistada dentro dos limites
próprios de cada campo do conhecimento. É o reconhecimento público das pesquisas e das ideias que
confere a aceitação que fundamenta toda autoridade científica. As modalidades, as formas e os limites
institucionais desse reconhecimento são muito diferentes e constituem os problemas fundamentais na
política, no Estado ou na Academia.

Devido ao reconhecimento da dificuldade de se alcançar o consenso, a filosofia moderna


abandonou o princípio de autoridade como princípio assumido para a disciplina e a orientação
da pesquisa. A autoridade em filosofia é representada pela tradição religiosa, moral, política ou
mesmo pela simples tradição filosófica. Mesmo quando a autoridade não se apoia na força das
instituições políticas que nela se fundam, a autoridade age sobre a pesquisa filosófica tanto de
forma explícita, com o prestígio que confere às teses que apoia, quanto de forma disfarçada,
impedindo e limitando o questionamento e apoiando a ignorância e os tabus. Portanto, é fazendo
uso da autoridade que pensamos a também política. Essa é a autoridade que evocamos quando
fazemos ciência política. E o que é política?

1.4 A compreensão da política

Política é um nome que serve para designarmos muitas coisas. Pensamos na doutrina do direito e da
moral como política, a teoria do Estado é política, a arte ou a ciência de governar é política, o estudo dos
comportamentos intersubjetivos também é política. Vamos ver como se configura cada caso.

A doutrina da moral e do direito foi descrita na Ética de Aristóteles. A investigação do que devem ser
o bem e o bem supremo, segundo Aristóteles, pertence a uma ciência: “Essa ciência parece ser a política.
Com efeito, ela determina quais são as ciências necessárias nas cidades, quais as que cada cidadão deve
aprender, e até que ponto” (ARISTÓTELES, 2009, p. 109). Esse conceito da política manteve-se por muito
tempo na filosofia. Hobbes escreveu que:

A política e a ética, ou seja, a ciência do justo e do injusto, do equânime e


do iníquo, podem ser demonstradas a priori, visto que nós mesmos fizemos
os princípios pelos quais se pode julgar o que é justo e equânime, ou seus
contrários, vale dizer, as causas da justiça, que são as leis ou as convenções
(HOBBES, 2012, p. 59).

Portanto, neste tipo de compreensão, política é saber organizar os princípios do que é justo, para que
as pessoas alcancem o bem supremo.

O segundo significado de política foi exposto no livro Política, de Aristóteles:


20
Fundamentos da Ciência Política

Está claro que existe uma ciência à qual cabe indagar qual deve ser a melhor
constituição: qual a mais apta a satisfazer nossos ideais sempre que não
haja impedimentos externos; e qual a que se adapta às diversas condições
em que possa ser posta em prática. Como é quase impossível que muitas
pessoas possam realizar a melhor forma de governo, o bom legislador e o
bom político devem saber qual é a melhor forma de governo em sentido
absoluto e qual é a melhor forma de governo em determinadas condições
(ARISTÓTELES, 2008, p. 21).

Segundo Aristóteles, a política teria duas funções: descrever a forma do Estado ideal e
determinar a forma do melhor Estado possível em relação às circunstâncias. A política, enquanto
teoria do Estado, seguiu o caminho utópico da descrição do Estado perfeito, como Platão havia
feito quando escreveu a República. Mas também serviu de manual dos modos e dos instrumentos
para melhorar a forma do Estado, de acordo com o realismo trilhado pelo próprio Aristóteles, de
ajustar o ideal ao real.

Nem sempre conseguimos distinguir uma coisa da outra. Quando Hegel propôs o Estado enquanto
“o Deus real”, e o caráter da divindade do Estado foi aceito pela historiografia, a política pretendeu dar
caráter descritivo e normativo à Teoria do Estado.

Heinrich von Treitschke foi um pensador alemão, um dos primeiros defensores do nacionalismo
moderno. Para ele:

A tarefa da política é tríplice: em primeiro lugar deve investigar, através


da observação do mundo real dos Estados, qual é o conceito fundamental
de Estado; em segundo lugar, deve indagar historicamente o que os povos
quiseram, produziram e conseguiram e por que conseguiram na vida política;
em terceiro lugar, fazendo isto, consegue descobrir algumas leis históricas e
estabelecer os imperativos morais (TREITSCHKE, 1916, p. 2-3).

A obra de Treitschke demonstra como deve ser a política: um comportamento público derivado da
Teoria do Estado. Ao mesmo tempo, ele defende que a Teoria do Estado é uma força, pois este é de fato
o significado de qualquer divinização do Estado. Em outras palavras, se o Estado é o bem supremo, ele
também deve ser tratado como uma coisa divina.

Em seu terceiro significado, a política surge como arte e ciência de governo. Este é o conceito
defendido por Platão em seu discurso Político (2009), com o nome de “ciência régia” (ARISTÓTELES,
2008, p. 259). Aristóteles assumiu este conceito como a tarefa da Ciência Política e propôs uma
descrição: “Um terceiro ramo da investigação é aquele que considera de que maneira surgiu um
governo e de que maneira, depois de surgir, pôde ser conservado durante o maior tempo possível”
(ARISTÓTELES, 2008, p. 27).

Foi este conceito aristotélico de política que Maquiavel acentuou com suas palavras:

21
Unidade I

E muitos imaginaram repúblicas e principados que nunca foram vistos nem


conhecidos como existentes. Porque é tanta a diferença entre como se vive
e como se deveria viver, que quem deixa o que faz pelo que deveria fazer
aprende mais a arruinar-se do que a preservar-se, pois o homem que em
tudo queira professar-se bom é forçoso que se arruíne em meio a tantos que
não são bons. Donde ser necessário ao príncipe que, desejando conservar‑se,
aprenda a poder ser não bom e a usar disso ou não usar, segundo a
necessidade (MAQUIAVEL, 1996, p. 22).

Portanto, essa terceira percepção de política é aquela mais próxima do senso comum, que entende
como “fazer política” todo tipo de comportamento ou ação que beneficie diretamente o poder de
uma pessoa.

É isso também o que o iluminista alemão Christian von Wolff definiu como “[...] a ciência de dirigir
as ações livres na sociedade civil ou no Estado” (1969, p. 222). Essa é a ciência ou a arte política à qual
fazemos referência no discurso comum. Sobre este conceito, Kant (2010) escreveu:

Embora a máxima “A honestidade é a melhor política” implique uma teoria


infelizmente desmentida com frequência pela prática, a máxima igualmente
teórica “A honestidade é melhor que qualquer política” é imune a objeções;
aliás é a condição indispensável da política (KANT, 2010, p. 44, tradução
nossa).

Hegel (1997), por outro lado, escreveu:

Já se discutiu muito sobre a antítese entre moral e política e sobre a


exigência da segunda conformar-se à primeira. Sobre isso cumpre apenas
notar, em geral, que o bem do Estado tem um direito completamente
diferente do bem do indivíduo, e que a substância ética, o Estado, tem
sua existência, seu direito, imediatamente numa existência concreta, e
não abstrata, e que somente essa existência concreta (e não uma das
muitas proposições gerais, consideradas como preceitos morais) pode
ser o princípio de sua ação e de seu comportamento. Aliás, a visão do
suposto erro que sempre deve ser atribuído à política nesta suposta
antítese baseia-se na superficialidade das concepções de moralidade,
de natureza do Estado e de suas relações do ponto de vista moral
(HEGEL, 1997).

É interessante notar que Hegel aqui concorda com Maquiavel quanto ao princípio da moral e da
política. O que Hegel denomina como existência do Estado é o que Maquiavel denomina de realidade
efetiva. Apesar de Hegel ter declarado superada a antítese entre política e moral, o conflito entre as
duas coisas existe na prática política e na consciência comum. Até hoje as formas de equilíbrio que
às vezes a política e a consciência alcançam são provisórias e instáveis.

22
Fundamentos da Ciência Política

O atual significado de política foi adotado a partir de Augusto Comte, o fundador do positivismo.
Este conceito é o mais próximo do que é aceito pela Sociologia. Comte deu o nome de Sistema de
Política Positiva (1854) à sua obra máxima sobre Sociologia. Ele acreditava que os fenômenos políticos,
tanto em coexistência quanto em sucessão, estivessem sujeitos a leis invariáveis, cujo uso pode permitir
influenciar esses mesmos fenômenos. Na prática, foi o primeiro a pensar política não como filosofia,
mas como ciência. Em outras palavras, Comte percebeu que em todas as nações, em todas as épocas, em
todos os povos, a política fabrica acontecimentos semelhantes. Então deve existir uma forma científica
de se observar esses comportamentos, para que se possa prever e prevenir as ações dos seres humanos
na condução do Estado.

Foi nesse sentido que Gaetano Mosca, certamente o primeiro cientista social italiano, entendeu por
política a ciência da sociedade humana. Justificou esse termo da seguinte maneira:

Chamamos de Ciência Política o estudo das tendências acima mencionadas


(“leis ou tendências psicológicas constantes, às quais os fenômenos sociais
obedecem”) e escolhemos essa denominação porque foi a primeira a ser
usada na história do saber humano, porque ainda não caiu em desuso e
também porque a nova denominação sociologia, adotada depois de Auguste
Comte por muitos escritores, ainda não tem significação bem-determinada
e precisa, compreendendo, no uso comum, todas as ciências sociais (MOSCA,
1923, p. 4).

Hoje em dia não podemos mais confundir Sociologia com o estudo da Ciência Política, porque a
Sociologia se tornou mais do que apenas isto.

1.5 A política é uma expressão da sociedade

Apenas em uma coisa todas as definições de política concordam: é uma expressão do comportamento
de uma sociedade de seres humanos. Num sentido geral a sociedade é um campo de relações
intersubjetivas, ou seja, das relações humanas de comunicação. É a sociedade que engloba a totalidade
dos indivíduos entre os quais ocorrem essas relações regidas pela comunicação. As relações ocorrem
entre as pessoas de forma condicionada ou determinada. Portanto, sociedade é sempre alguma coisa
contratada, mesmo que o contrato não seja escrito.

A primeira ideia de sociedade foi introduzida na cultura ocidental pelos estoicos, principalmente por
Cícero. Para os gregos e os romanos, os aspectos estruturais e sociais de um grupo humano estavam
ligados, e não se podia distingui-los do conceito de polis – o espaço da cidade onde a política acontece.

Mas como os estoicos eram cosmopolitas e habitavam várias cidades tanto no período grego como
no romano, a sociedade passou a ser considerada como independente do Estado e da organização
política. Quando expôs a doutrina dos estoicos, Cícero considerou que os homens nascem para sua
agregação e para a sociedade e a comunidade do gênero humano. Esse é o conceito de sociedade
adotado pelo jusnaturalismo moderno. Também como na filosofia estoica, o conceito de sociedade é
acompanhado do conceito de direito natural.
23
Unidade I

O direito natural é utilizado pelo jusnaturalismo para delimitar o campo da sociedade. Huig van
Groot (Grócio) escreveu que a conservação da sociedade em conformidade com a inteligência humana
é fonte do direito propriamente dito (GROOT, 1925, tradução nossa).

Da mesma forma, para Hobbes a sociedade era uma associação decorrente das necessidades humanas
e do medo. Ela seria constituída pelas relações humanas de utilidade recíproca (HOBBES, 2008). Também
Kant (1963) nos forneceu definições indiretas da sociedade, nos textos que denotam a tendência natural
do homem para a sociabilidade:

O homem tem inclinação a associar-se porque no estado de sociedade


sente-se mais homem, vale dizer, sente que pode desenvolver melhor
suas disposições naturais. Mas também tem forte tendência a dissociar-se
(isolar‑se) porque tem em si também a qualidade antissocial de querer voltar
tudo para seu próprio interesse, em virtude do que deve esperar resistência
de todos os lados e, por sua vez, sabe que terá de resistir aos outros (KANT,
1963, tradução nossa).

Em Fichte, o conceito de sociedade surge da mesma forma: “Chamo de sociedade a relação recíproca
entre seres racionais” (FICHTE, 1794, p. 33, tradução nossa). Podemos até mesmo propor a partir deste
ponto de vista que a análise científica da sociedade pode ter como objetivo a finalidade que o gênero
humano deve buscar, através dos meios que a razão indicar para alcançar esta finalidade, que seriam
as formas da política. Isso é o que as teorias políticas de Platão e de Aristóteles sugerem. Também as
teorias jusnaturalistas pensam a sociedade buscando essa mesma razão. Podemos examinar ainda
as condições que possibilitam as relações humanas. Essas condições foram definidas de várias
maneiras, e sua definição pode ser considerada a primeira tarefa da Sociologia.

Max Weber identificou essas condições de relacionamento humano na atividade social, que ocorre
de acordo com uma ordem deliberada e relativamente constante (WEBER, 1913, tradução nossa). Émile
Durkheim considerou uma característica da sociedade humana os modos de agir que são impostos de
fora e se consolidam nas instituições (DURKHEIM, 2001).

A própria ação ou o próprio comportamento pode ser considerado como um elemento objetivo,
que pode definir o campo das relações humanas, segundo o pensamento de Talcott Parsons
(2010). A forma de Parsons entender a sociedade atribui a ela esse caráter de “campo”. Isso torna a
sociedade o resultado de um constructo conceitual. Em outras palavras, a sociedade deixa de ser
uma forma de se chamar as pessoas que vivem numa determinada cidade e passa a ser a forma
que denominamos todas as pessoas que vivem de acordo com um mesmo conjunto de regras. Por
isso podemos utilizar o termo sociedade brasileira, que engloba milhões de pessoas diferentes,
em lugares diferentes.

Isso retira da ideia de sociedade sua característica de totalidade real e do ideal normativo. Em outras
palavras, a ideia de sociedade passa a ser aquilo que determinamos que é: pode ser toda a sociedade
brasileira, mas também apenas os jogadores de um time de futebol, ou mesmo apenas as crianças de
um bairro. Em outras palavras, uma sociedade passa a ser um grupo de pessoas com características
24
Fundamentos da Ciência Política

semelhantes que queremos delimitar. Como consequência, a política passa a ser os comportamentos e
as ações que devem ser assumidos pelas pessoas, para zelarem pela continuidade daquela sociedade.

O conceito de sociedade como totalidade de indivíduos entre os quais há relações intersubjetivas,


ou seja, enquanto mundo social, está ligado ao conceito de sociedade como organismo. Os gregos já
haviam comparado a comunidade política e o Estado a um organismo. Os estoicos também compararam
a sociedade como comunidade de seres racionais a um organismo. Também Augusto Comte chama a
sociedade de “organismo coletivo” (COMTE, 1978, p. 442).

Por sua vez, Herbert Spencer (1820-1903) chama de superorgânica a evolução que conduz
à sociedade e considera a própria sociedade como um organismo cujos elementos são, em primeiro
lugar, as famílias e depois os indivíduos isolados. Segundo Spencer (1873), o organismo social difere
do organismo animal porque a consciência pertence apenas aos elementos que o compõem, pois a
sociedade não tem órgãos de sentidos como os animais, mas vive e sente apenas através dos indivíduos
que a compõem.

A concepção de Karl Marx de sociedade não difere muito dessas definições anteriores. Sua visão se
baseia em Hegel (2010), para quem a sociedade civil é uma fase imperfeita ou preparatória do Estado,
que é a Ideia Divina realizada na Terra:

A substância que, enquanto espírito, se particulariza abstratamente em


muitas pessoas, em famílias (a família é entendida como uma pessoa) ou em
indivíduos, que por si estão em liberdade, são independentes e particulares,
e perde seu caráter ético; isso porque essas pessoas, enquanto tais, não
têm na consciência e como objetivo a unidade absoluta, mas sua própria
particularidade e seu ser por si: daí nasce o sistema da atomística (HEGEL,
2010, p. 174).

Este sistema é precisamente a sociedade civil enquanto “conexão universal e mediadora de extremos
independentes e de seus interesses particulares” (HEGEL, 2010, p. 184).

Assim, a sociedade civil compreende, em primeiro lugar, o sistema das necessidades; em segundo
lugar, a administração da justiça; e em terceiro lugar, a polícia e a corporação, ou seja, os órgãos que
detêm a tutela dos interesses particulares (HEGEL, 2010, p. 188). Mas Marx inverteu a relação da sociedade
civil com o Estado e considerou a sociedade como princípio de explicação do próprio Estado e de toda
ideologia: “A minha investigação desembocava no resultado de que tanto as relações jurídicas como as
formas de sociedade e estado não podem ser compreendidas por si mesmas nem pela chamada evolução
geral do espírito da sociedade humana, mas se baseiam, pelo contrário, nas condições materiais de vida
cujo conjunto Hegel resume, sob o nome de sociedade civil, e que a anatomia da sociedade civil precisa
ser procurada na economia política” (MARX, [s.d.]).

Na linguagem comum e mesmo nas disciplinas da Sociologia, a palavra sociedade costuma


ser usada com o significado de conjunto de indivíduos caracterizados por uma atitude comum ou
institucionalizada. Neste sentido, a ideia de sociedade designa tanto um grupo de indivíduos quanto
25
Unidade I

a instituição que caracteriza esse grupo, como acontece nas expressões sociedade comercial ou
sociedade capitalista. Esse emprego é tão óbvio que não se encontram definições nem filosóficas, nem
científicas dele. Mas há uma pequena parcela da sociedade que chamou especial atenção à Sociologia
contemporânea. Isso porque seu estudo é ao mesmo tempo uma discussão das ideias de aristocracia
propostas por Platão e Aristóteles.

Neste sentido, o matemático e pensador italiano Vilfredo Pareto foi o primeiro a perceber que uma
pequena minoria sempre detém o poder em qualquer forma de sociedade humana. No Trattato di
Sociologia Generale (PARETO, 1923), o autor percebe que essa minoria decide sobre qualquer ramo ou
campo de atividade e, mesmo em política, é essa minoria que decide sobre os problemas do governo.
Pareto conceituou a elite como o conjunto “[...] daqueles que têm os padrões mais elevados em seu
ramo de atividade” (PARETO, 1923, p. 9) e chamava de “classe governante eleita” aqueles que, direta ou
indiretamente, formam o governo. Sugere inclusive que há uma “circulação da classe eleita” (PARETO,
1923, p. 10) para explicar o fenômeno da passagem de grupos humanos da classe eleita para a classe
não eleita e vice-versa. Essa teoria foi um dos pontos fundamentais da doutrina política do fascismo e
do nazismo.

Percebemos então que a discussão sobre a sociedade e suas políticas acaba por abordar a relação
entre o indivíduo e o grupo. Caímos então naquilo que parece fundamentar esse movimento das elites,
que é o individualismo. Individualismo é toda ideologia ou política que atribui ao indivíduo humano um
valor preponderante em relação à comunidade da qual ele faz parte. Isso pode chegar ao absurdo de
alguém acreditar na tese de que o indivíduo tenha valor infinito e a comunidade tenha valor zero. Várias
correntes de pensamento antagônicas entre si, como o anarquismo e o liberalismo, adotam alguma
forma de individualismo.

Sobre o individualismo também se constrói o jusnaturalismo moderno do direito, da filosofia do


contratualismo, do liberalismo econômico e da luta contra o Estado. O jusnaturalismo sugere que
se atribua ao indivíduo direitos originais e inalienáveis que ele conserva, mesmo que de maneira
diferente ou limitada, em todos os corpos sociais de que faz parte. Um grande exemplo disso são os
direitos humanos.

O contratualismo consiste em considerar que a sociedade humana e o Estado são resultantes de


convenção entre os indivíduos. No início da Idade Moderna, a revolta dos calvinistas em Genebra
constituiu esta doutrina, que foi frequentemente usada como negação do absolutismo do Estado ou
como base moral para limitar os poderes do Estado. O liberalismo econômico, próprio dos fisiocratas e
da escola clássica de Economia Política, é a luta contra a ingerência do Estado nos assuntos econômicos,
e a defesa da iniciativa econômica para o indivíduo. Este é um aspecto característico do liberalismo
individualista e fundamenta o capitalismo. Seu maior exemplo é a defesa do empreendedorismo como
comportamento desejado.

Portanto o individualismo pode ser resumido na Sociologia como a luta contra o Estado e a tendência
a estabelecer limites à sua ação. Um dos mais importantes documentos do liberalismo moderno é a obra
de Herbert Spencer, O Homem contra o Estado (1884), em que ele combate a ingerência do Estado (e do
governo constituído) na esfera econômica, e até mesmo na saúde e no ensino público.
26
Fundamentos da Ciência Política

A defesa do individualismo pretende defender os interesses do cidadão, quando estes não estão
de acordo com os interesses do grupo. Adam Smith, em Riqueza das Nações (1776), considerava que a
ordem natural era a característica dos fatos econômicos e servia como garantia dessa coincidência de
interesses (SMITH, 2008).

1.6 O liberalismo e a defesa do indivíduo

Em 1690, John Locke, na obra Ensaio sobre o Entendimento Humano fez uma crítica à predestinação
e aos conhecimentos inatos. Ele foi um dos primeiros que formulou teoricamente o empiricismo: a ideia
de que os conhecimentos vêm das experiências sensíveis e não estão nos indivíduos como uma herança
de sangue. Ao nascer, o indivíduo teria uma mente aberta à aquisição dos saberes, tal qual uma página
em branco (LOCKE, 2012).

Essa formulação teve efeitos importantes sobre a Pedagogia. É uma reflexão que está associada
ao espírito liberal, porque reforça a ideia de igualdade natural entre os indivíduos. Também valoriza a
autonomia dos sujeitos no processo de aprendizagem e autoconstrução.

Para John Locke, à medida que as relações interpessoais se tornam mais complexas, as leis naturais
se mostram insuficientes para controlar os juízos parciais e o exercício das paixões. Para evitar riscos e
preservar seus direitos, os homens, por livre consentimento, devem decidir realizar um contrato social
para estabelecer a autoridade estatal. A nova instituição terá como finalidade manter a segurança e a
garantia dos direitos individuais (LOCKE, 2006).

A passagem do estado de natureza para a sociedade política, via contrato social, não representa
para Locke uma ruptura. O contrato social seria estabelecido para preservar os direitos naturais. Para
ele, alguns direitos individuais são inalienáveis, intransferíveis, pois são naturais. São o direito à vida, o
direito à propriedade e à busca da felicidade que devem permanecer na posse do indivíduo.

O liberalismo pensa a sociedade civil como uma esfera separada e autônoma do Estado. A sociedade
civil deve ser uma dimensão com regras próprias, imune à ação do poder governamental. Portanto, o
indivíduo do liberalismo se mostra precavido em relação ao Estado. O Estado deve ser vigiado, e qualquer
ameaça do Estado contra os direitos individuais torna legítima a rebelião contra as autoridades.

Os liberais aceitam que a autoridade democraticamente estabelecida exerça a coerção contra


o indivíduo, dentro de limites predefinidos. Esses limites são a legalidade e a transparência dos
procedimentos. Qualquer ação repressiva deve atuar para preservar os direitos sociais.

A instituição política deve ter a função de proteger a sociedade dos indivíduos para que eles, no
exercício das suas liberdades, possam aprimorar a si próprios e, por consequência, as instituições. As
regras da política devem garantir o exercício da livre competição entre indivíduos proprietários.

Portanto, o liberalismo acredita que é a análise do comportamento dos indivíduos que explica o
processo histórico e social. A liberdade é pensada como a causa e o efeito das interações individuais. Os
indivíduos, competindo entre si pela realização dos seus interesses, acabam por beneficiar toda a sociedade.
27
Unidade I

Como decorrência dessa competição, os melhores se destacam, e a comunidade fica protegida da paralisia
e da fraqueza apática das massas e de sua simbiose com o estado burocratizado. Esse pensamento é que
fundamenta a defesa moderna do capitalismo.

Confia-se que os indivíduos, na busca da realização dos seus interesses, formem uma associação
perfeita, com interdependência, equilíbrio e desenvolvimento. Essa apologia à sociedade do contrato
torna-se então a celebração do mercado. Assim, o pensamento liberal entende que o mercado nada mais
é do que a maior expressão da liberdade.

A perspectiva liberal introduz a preocupação com a divisão dos Poderes do Estado em Executivo,
Legislativo e Judiciário. As três esferas devem funcionar com autonomia relativa, e cada uma delas
tem a função de controlar e contrabalançar as demais. Tal divisão é uma das garantias contra
a formação de Estados absolutos. O Poder Judiciário deve se restringir à aplicação da lei sem
distinção. O governante é apenas um executor das leis que os representantes do povo elaboram.
As leis traduzem a vontade geral nas casas legislativas, onde as decisões devem obedecer ao
princípio da maioria.

Para evitar o risco de a maioria se tornar totalitária, os liberais adotam a pluralidade como valor
democrático. As sociedades que se querem livres devem preservar a existência de diferentes grupos,
inclusive os minoritários. Devem também estimular a concorrência destes grupos na sociedade. Isso só é
possível com a manutenção da autonomia dos indivíduos e dos grupos sociais no mundo político.

Outra característica do liberalismo é a participação política indireta. A forma político-institucional


aceita pelos liberais não prevê a ação direta dos cidadãos na gestão política. Não há plebiscitos. Os
interesses devem ser apresentados através de organizações e processos representativos.

Para um liberal, a representação de interesses convive com a ideia de liberdade política. O parlamento,
os partidos e as associações representativas constituem, dentro da perspectiva liberal, o contraponto
ao Poder Executivo. O conjunto das associações representativas, o espaço econômico do mercado e
a dimensão da formação da opinião pública constituem em seu conjunto a sociedade civil. Esta se
encontra separada do Estado e é autônoma, com a função de exercer influência sobre as decisões e
ações de governo.

Alguns instrumentos do direito político contemporâneo, como o habeas corpus, cujo princípio
de lei garante que ninguém pode ser mantido preso sem acusação formal, mas também as cartas de
direitos do homem (Os Direitos Humanos, o Estatuto da Criança e do Adolescente etc.) são resultado da
preocupação liberal em conter o Estado.

Mas quando a economia da Revolução Industrial começou a demonstrar sinais de enfraquecimento,


percebeu-se que o afastamento do Estado das atividades econômicas não resolve todos os problemas,
nem a desordem, nem as desigualdades sociais. Quando isso aconteceu, a fase individualista do
liberalismo chegou ao fim, e os liberais passaram também a recorrer à ação do Estado. A primeira vez
que isto aconteceu claramente foi na queda da Bolsa dos Estados Unidos, em 1929.

28
Fundamentos da Ciência Política

As ideias de elite e o individualismo acabaram levando à discussão sobre a hegemonia. Para os


estoicos, a hegemonia é a razão que anima e governa o mundo. Cícero a descreveu desta forma:

Chamo de parte regedora ou governo aquilo que os gregos denominam


hegemonia, da qual pode e deve estar o mais excelente em cada gênero de
coisas. Assim, é preciso que também a parte em que está o governo de toda
a natureza seja entre todas a melhor e a mais digna do poder e do domínio
sobre todas as coisas (CÍCERO, 2004a).

Na busca da hegemonia, o século XIX preparou ideologias, construções enviesadas de ideias filosóficas,
que culminariam na formação dos Estados Nacionais no século XIX. A mais poderosa das ideologias, que
ainda está entre nós, se chama nacionalismo.

1.7 A construção histórica do nacionalismo

Ao mesmo tempo que a Ciência Política estava se formando, o nacionalismo surgia como uma força
que a acompanha desde então. O conceito de nação começou a ser formado a partir do conceito de
povo, que dominou a filosofia política do século XVIII. O conceito de povo foi exacerbado recorrendo‑se
à importância dos fatores naturais e tradicionais em detrimento dos atos voluntários. Isso significa que
o povo seria constituído essencialmente pela vontade comum, que é a base do pacto originário que
fundamenta a vontade de se considerar iguais as pessoas que participam de uma mesma cultura. A
nação é seu resultado natural e seria constituída por vínculos independentes da vontade dos indivíduos.
Assim, o mesmo povo pode ser composto de raças diferentes, religiões diferentes e até mesmo línguas
diferentes, além de todos os outros elementos que podem ser compreendidos sob a cultura da tradição.

Diferentemente do povo, que não existe senão em virtude da vontade deliberada de seus membros
e como efeito dessa vontade, a nação nada tem a ver com a vontade dos indivíduos. A nação seria um
destino que paira sobre os indivíduos, e do qual estes não podem fugir sem trair seu povo. A nação
começou a ser concebida claramente no início do século XIX. O nascimento desse conceito coincide com
o nascimento da fé nos gênios nacionais de um povo e nos destinos de uma nação particular, e a isto
se deu o nome de nacionalismo.

O início de tal ideia pode ser identificado no conceito de povo que permanecia ligado aos ideais
cosmopolitas do século XVII. Mas já em Rousseau encontramos a condenação desses ideais. O apego de
Rousseau ao conceito de cidade-estado, conforme a ideia que existia na Grécia Antiga, faz o pensador
contrapor-se a tal universalismo. Isso porque Rousseau acreditava que povo deve ser um conceito
sempre aplicado a uma polis, e não considerado como igual indiscriminadamente, como antes previa a
ideia católica de “povo de Deus”.

Essa insistência o fez exaltar o valor do Estado nacional:

São as instituições nacionais que formam o gênio, o caráter, os gostos e


os costumes de um povo, que o fazem ser ele mesmo e não outro, que lhe
inspiram o amor ardente pela pátria, fundamentado em hábitos impossíveis
29
Unidade I

de erradicar, que o fazem morrer de tédio entre outros povos, em meio a


delícias das quais está privado em seu país (ROUSSEAU, 1782).

Mas foi apenas no século XIX que a questão do nacionalismo se fez presente. Após a derrota de
Napoleão, as potências europeias voltaram a desenhar suas fronteiras, que tinham sido alteradas pelas
conquistas de Napoleão. Isto se deu no Congresso de Viena em 1848.

Também foi necessário restaurar a ordem absolutista do Antigo Regime. Os países vencedores, Áustria,
Rússia, Prússia e Reino Unido, sentiram a necessidade de selar um tratado para restabelecer a paz e a
estabilidade política na Europa, já que os momentos de instabilidade regionais sugeriam novas revoluções.

As diretrizes fundamentais do Congresso de Viena foram o princípio da legitimidade, a restauração,


o equilíbrio de poder e, no plano geopolítico, a consagração do conceito de “fronteiras geográficas”. O
princípio da legitimidade defendia a restauração dos legítimos governos e as fronteiras que vigoravam
antes da Revolução Francesa.

A ideia de equilíbrio do poder considerava que o fenômeno Napoleão na Europa foi possível porque
ele havia organizado recursos materiais e humanos que, aliados à sua capacidade política e militar,
tinham permitido aquelas conquistas. As potências vencedoras decidiram então repartir os recursos
materiais e humanos da Europa, para que nenhuma pudesse ser mais poderosa que a outra, gerando um
equilíbrio de poder.

Os representantes dos governos mais tradicionalistas tentaram restaurar o Antigo Regime (as
monarquias hereditárias) e bloquear o avanço liberal. O princípio da restauração tentou evitar o regime
repúblicano que na França (e nos Estados Unidos) tinha acabado com os privilégios reais e instituído o
direito legítimo de propriedade aos burgueses. Os governos absolutistas defendiam a intervenção militar
nos reinos em que houvesse ameaça de revoltas liberais.

O princípio do equilíbrio pretendia uma organização dos poderes econômico e político europeus. Os
territórios de alguns países sofreram divisão, como o da Confederação Alemã, que foi dividido em 39
Estados. A Prússia e a Áustria foram consideradas líderes desses países alemães. Finalmente, em 1815, as
fronteiras da Europa foram redesenhadas.

O novo mapa da Europa resultou numa separação entre diversas etnias. As pretensas nacionalidades
não foram levadas em consideração. A garantia da paz deveria ser preservada pelas fronteiras geográficas
estabelecidas justamente para evitar que qualquer potência viesse a romper o equilíbrio proposto. Foi a
primeira vez que a humanidade recorreu a acidentes geográficos para estabelecer a ideia de adequação
do ambiente em detrimento da cultura.

Em Discursos à Nação Alemã (1808), Johann Gottlieb Fichte escreveu o primeiro documento do
nacionalismo alemão. Segundo Fichte, o povo alemão é visto como “[...] o único povo que tem direito
de ser chamado de povo, sem outra designação, ao contrário dos ramos que dele se separaram, como,
aliás, indica por si só a palavra alemão” (FICHTE, 2010, p. 8). Portanto, para Fichte, a cultura é que deveria
unificar a ideia de povo com a de nação.
30
Fundamentos da Ciência Política

Aproximadamente trinta anos mais tarde, Hegel deu inicio à sociologia alemã com a ideia de “espírito
de um povo”, que serve como fundamento para o conceito atual de nação:

O espírito de um povo é um todo concreto: deve ser reconhecido em sua


determinação. [...] Desenvolve-se em todas as ações e em todas as tendências
de um povo e realiza-se até a fruição e a compreensão de si mesmo. Suas
manifestações são religião, ciência, arte, destinos, acontecimentos. É tudo
isso que confere caráter a um povo, e não o modo como ele é determinado
por natureza (como poderia sugerir o fato de a palavra natio ter derivado de
nasci) (HEGEL, 1920, p. 42).

O espírito dos povos é constituído alternadamente pelo “Espírito do Mundo”’, pela “Razão Universal”
que preside os destinos do mundo, e segundo Hegel o povo que melhor espelha nacionalmente essas
duas qualidades é aquele que se sobrepõe aos demais. É importante entender que Hegel não está
fazendo uma apologia ao nacionalismo. Na obra Filosofia da História (1999), ele está verificando por
que culturas não europeias não alcançam uma projeção de dominação no mundo comparadas com as
nações europeias. O nacionalismo é uma explicação filosófica, muito antes de se tornar uma ideologia
prática, para explicar a importância de um país no contexto dos demais países.

Isso é expresso no conceito de espírito do povo enquanto encarnação ou manifestação de Deus no


mundo, e portanto do caráter e da vida histórica da nação. Tal explicação inclui todos os elementos do
nacionalismo europeu do século XIX, e de todo nacionalismo existente até hoje.

Observação

O nacionalismo é primeiro uma explicação filosófica, para depois se


tornar uma ideologia. Na forma de ideologia ela tomou diversos rumos,
mas principalmente na forma de uma ideologia para derrubar a nobreza,
que insistia em reprimir a democracia e a república. Na Alemanha, essa
resistência à república é tão forte que acaba criando espaço para a formação
do Partido Nacional-Socialista, que se tornou a base política de Hitler.

Em meados do século XIX, logo depois de publicado o pensamento de Hegel, surgiram por toda a
Europa livros e panfletos exaltando a ideia do nacionalismo. Giuseppe Mazzini, maior opositor e ativista
contra o rei da Itália no século XIX, buscou na tradição uma tentativa de conciliar os ideais universalistas
do iluminismo com o nacionalismo. Sugeriu que o sentido de uma nação é o modo como um povo
pode servir ao objetivo geral da humanidade. Pasquale Stanislao Mancini propôs a ideia de nação como
fundamento do direito internacional em sua obra Delia nazione como fondamento dei diritto dellegenti,
de 1851.

Na França, foi o historiador Jules Michelet quem incitou o nacionalismo com o livro O Povo, em
1843. Na Rússia, o escritor Dostoiévski se tornou um nacionalista e defendeu essa posição em algumas
das suas obras literárias.
31
Unidade I

As duas grandes guerras do século XX apelaram para o nacionalismo. Tal ideologia encontrou
na força militar dos voluntários o grande diferencial da nação. Essa ideia de diferenciação, que
começou com o fascismo italiano e com o nacional-socialismo alemão, seguiu a ideia hegeliana e
romântica do privilégio que o “Espírito do Mundo” concede à nação em que prefere encarnar-se,
pois o único sinal desse privilégio é precisamente a força vitoriosa que uma nação pode exercer
sobre as outras.

1.8 Como foi estabelecida a atual cultura política conservadora

O ideal da modernidade política presente no projeto iluminista dos séculos XVI e XVII não conseguiu
ser alcançado até hoje. A herança da tradição é cultural e carrega o peso da história. Essa herança
histórica não se fundamenta na igualdade, na liberdade e na razão, mas nos valores, crenças e costumes,
que sustentam a hierarquia, a diferença e a religião.

Antes da Idade Moderna, durante a Idade Média, as relações sociais e políticas seguiam o princípio
da divisão da sociedade em duas classes: a elite, representada pelos nobres, e o povo. Tal divisão era
atribuída a Deus, pois ele teria feito os homens diferentes uns dos outros e predestinado o caminho de
cada um na Terra.

Mesmo no Brasil, que foi descoberto quando o feudalismo na Europa se encaminhava para seu fim,
a cultura tradicionalista da Idade Média se enraizou e tornou-se a referência para o comportamento
dos indivíduos. A tradição criou e reproduziu uma rede hierárquica de relações baseadas no mando e na
subserviência. A nobreza e o clero, por gozarem dessa superioridade entendida como natural e divina,
detinham a posse das terras. Este foi o sistema das capitanias hereditárias. A permissão de trabalhar a
terra era uma concessão desses indivíduos superiores aos camponeses.

As relações sociais se baseavam no princípio da dádiva, que em Sociologia chamamos de


solidariedade tradicional. Como contrapartida por um favor concedido, os grupos dominantes exigiam
dos dominados, além de parte de impostos e produtos, a lealdade e a fidelidade. Como pagamento
de sua bondade, os que dominavam exigiam respeito à hierarquia e conformismo com as diferenças.

Lembrete

As relações da sociedade tradicional estavam baseadas no princípio da


força, e a legitimação da dominação pela força se transformou também
numa cultura política, que construiu um código da hierarquia que foi
chamado de natural. Mesmo entre a elite havia a troca de favor e lealdade.
Esses comportamentos recíprocos eram regidos por sentimentos como a
bondade e a afetividade, assim como seus opostos, o ódio e a violência.

No sistema feudal, não se acreditava que houvesse uma distinção entre o público e o privado. Não
se permitia nenhuma ruptura da tradição, nem do indivíduo, nem do grupo.

32
Fundamentos da Ciência Política

Com a Idade Moderna, surgiram ideias que objetivaram modificar as representações do mundo. Mas
a transição das ideias tradicionais para as novas não foi um processo de avanço contínuo. Ainda hoje
em dia, as ideias tradicionais têm muita força nas sociedades.

Há, porém, uma clara correlação entre o desenvolvimento econômico e o comportamento social.
Algumas nações parecem ter avançado na substituição dos valores tradicionais. Em outras, temos a
impressão de que ocorreu um retrocesso cultural.

A mudança principal foi o entendimento de que as relações interpessoais devem se estabelecer com
confiança e tolerância. Mas mesmo com a adoção de comportamentos modernos em termos de produção
e consumo no funcionamento da economia, convivemos com práticas tradicionais nos campo social e
político, ou seja, com relações interpessoais que não primam nem pela tolerância, nem pela confiança.

A vontade popular, que para Rousseau é a instância máxima de decisão e do exercício do poder,
é expressa pela vontade geral. Para ele, esta seria a única possibilidade de construção da liberdade.
Rousseau acreditava que o ordenamento político capaz de civilizar e libertar a sociedade só acontecesse
com a soberania absoluta do povo. Hobbes, ao elaborar sua teoria sobre o poder absoluto do Estado,
desconfiou da natureza humana e sugeriu que, se os indivíduos não são controlados por um poder
maior, podem tentar sua destruição mútua.

No século XIX, a construção do pensamento liberal teve como principal característica a oposição à
concentração absoluta do poder. Historicamente, o liberalismo nasceu na passagem do século XVII para
o século XVIII como fundamento da luta da burguesia revolucionária contra a Monarquia absolutista. O
liberalismo combateu a concentração do poder do Estado e do coletivo, o que aconteceu em nome das
liberdades individuais, principalmente, contra as tradições defendidas pelos nobres e pelo clero católico.

O primeiro grande momento do ideário liberal foi a Revolução Gloriosa de 1688, na Inglaterra.
Seu resultado prático foi a limitação dos poderes da monarquia, com o consequente fortalecimento
do parlamento.

A luta moderna por liberdade está fortemente associada às guerras religiosas, devido à reivindicação
da autonomia moral para o indivíduo, que seguiam as ideias de Locke. A opinião pública, e não o
Estado, deveria apresentar os limites éticos ao indivíduo. É possível localizar aí um princípio favorável
ao pluralismo de convicções, valores e comportamentos. Com o pluralismo aceito, a relação política
entre os homens não deveria se pautar por dominação fundada em diferenças, sejam elas associadas à
herança familiar, à religião, à tradição, à inteligência, ou mesmo às características físicas.

Para o liberalismo, a legitimidade do poder devia estar assentada no consentimento, e as autoridades


deviam ser escolhidas democraticamente. Trata-se de uma teoria e um ideário político que defende o
fim do direito divino da monarquia ao poder e a superação da esfera privada como fonte de legitimidade
da autoridade política. O princípio do consentimento associado à ideia de um “estado de natureza”
como ponto de partida do processo histórico coloca Locke entre os pensadores catalogados ao mesmo
tempo como jusnaturalistas e contratualistas.

33
Unidade I

Diferentemente de Hobbes, que via barbárie na condição de natureza, Locke entendeu que no estado
de natureza os indivíduos viviam em relativo equilíbrio e harmonia, sob as leis e os direitos naturais.
Isso porque a natureza humana, para ele (assim como para Rousseau), não é má. Assim, o “estado de
natureza” lockiano se configurava como um espaço pré-social e pré-político, no qual os seres humanos
mantinham a liberdade e a igualdade. Tal equilíbrio era proporcionado pelo respeito à propriedade como
direito natural. Ele dá à propriedade um sentido amplo: “[...] tudo que pertence a cada indivíduo, ou seja,
sua vida, sua liberdade e seus bens” (ARANHA; MARTINS, 1986, p. 249).

Locke, ao elevar a propriedade a um direito natural fundamental, apresentou uma característica da


teoria liberal, mas é preciso reconhecer que, no seu contexto histórico, a posse de bens nos primórdios
da humanidade era uma garantia de sobrevivência, e não um capricho de direito divino.

Para Locke, no início dos tempos o trabalho era o limite da propriedade: ninguém acumulava o
principal meio de produção, que é a terra, para além daquilo que seu trabalho pudesse transformar em
produtos. Mas ele ponderou que, com o surgimento do dinheiro, a acumulação de bens para além das
necessidades imediatas tornou-se possível e aceitável, pois é uma forma de precaução do indivíduo
contra as intempéries da natureza.

Para o pensamento liberal, o acúmulo de riqueza e as diferenças sociais dele resultantes são legítimos,
pois nascem da diferença da capacidade de trabalho dos indivíduos. Portanto, o direito a essa diferença
deve ser protegido pelo Estado. Desse pensamento decorre que as tarefas fundamentais do Estado
são assegurar o direito de propriedade daqueles que acumularam bens em relação aos demais e dar
garantias para a livre-troca desses bens no mercado.

Um bom comentário sobre o liberalismo é o de Renato Janine Ribeiro:

Retomando sua questão, Mario, acho que alguns hoje entendem liberdade
e direito como uma propriedade ou como um objeto de consumo. Por essa
razão, o indivíduo reivindica o direito a fumar, a viver sua sexualidade, ou
seja o que for, mas a partir de uma visão consumista. Como é dono do carro,
pensa que o utiliza como quiser. Como tem o direito de votar, acha que se
trata apenas de uma questão de consumo. Nos dois casos, tende a pensar
que são direitos sem obrigações.

Isso reduz muito o alcance do direito e da justiça, porque nas ideias de direito,
justiça e liberdade está embutido, ainda que indiretamente, certo sentido de
dever. Quando compro um produto, de fato tenho sobre ele o poder de usar
e não usar, até de jogá-lo fora. Mas os direitos ligados à vida em sociedade
estão ligados a obrigações. O indivíduo não pode ter direitos se não cumprir
certos deveres. Tanto isso é verdade que pode perder o direito à liberdade
de movimento – e, em algumas sociedades, até o direito à própria vida –,
dependendo do crime que cometer. Se não for capaz de viver em sociedade,
ela pode, desde que por meio de um processo legal, concedendo-lhe todo o
direito de defesa, tirar sua liberdade. Esse lado complexo da liberdade é mais
34
Fundamentos da Ciência Política

difícil de ser entendido. Vivemos numa sociedade em que o consumismo


chegou ao ponto de entender os próprios sentidos jurídicos – como direito,
dever e liberdade – enquanto objetos de consumo. Então, é muito fácil uma
pessoa dizer: “Faço isso porque quero, porque tenho” (CORTELLA; RIBEIRO,
2010, p. 10).

Observação
Como você percebeu, foram muitas concepções que construíram a ideia
de política que temos hoje em dia. É importante notar que sem alguma
forma de organização política seria muito difícil para nós conseguirmos
manter a organização social, e sem ela não haveria civilização.
Mas as civilizações são expressões das culturas, isto é, da forma que as
pessoas se organizam para conviver. As culturas são formas hierárquicas
de organização dos símbolos que são importantes para os povos. Assim
surgem as hierarquias de valores.
Daqui para frente você estará o tempo todo verificando as propostas
para as hierarquias dos valores da cultura ocidental.

1.9 O espaço da Sociologia

No sentido de entendermos também a Ciência Política enquanto atuação da Sociologia, vamos rever
seus conceitos principais e seu desenvolvimento histórico.

Sociologia é a ciência da sociedade, entendendo-se por sociedade o campo das relações intersubjetivas.
O termo foi criado em 1838 por Auguste Comte para especificar “[...] a ciência de observação dos
fenômenos sociais” (COMTE, 1978, p. 14). Hoje em dia, a Sociologia estuda todo tipo de análise empírica
ou teoria que se refira aos fatos sociais.

Neste sentido, a Sociologia estuda as relações intersubjetivas, em oposição às “filosofias” ou


“metafísicas” da sociedade, que no passado pretendiam explicar a natureza da sociedade de modo geral,
independentemente dos fatos e de forma categórica.

Na Filosofia ocidental, desde sempre foram feitas observações úteis e decisivas do campo social.
Algumas são importantes postulados da ética e da política, mas tais observações não se constituíam
numa disciplina autônoma, dotada de metodologia própria.

Foi Comte quem percebeu a Sociologia como sistema em seu conjunto. Numa mimese da física
newtoniana, Comte percebeu que podia investigar as leis que regem o comportamento social. Para ele,
tratava-se de estudar uma Física social, cuja primeira parte seria o estudo da ordem social, que seria
estática; e a segunda, o estudo do progresso social, que seria dinâmico (COMTE, 1978). Estudando a
Sociologia, seria possível
35
Unidade I

[...] perceber nitidamente o sistema geral das operações sucessivas –


filosóficas e políticas – que devem libertar a sociedade de sua fatal tendência
à dissolução iminente e conduzi-la diretamente a uma nova organização,
mais progressista e sólida que a fundada na Filosofia Teológica (COMTE,
1978, p. 7).

Seria possível distinguir dois conceitos fundamentais de Sociologia, a Sociologia Sintética (ou
Sistêmica), cujo objeto é a totalidade dos fenômenos sociais a serem estudados em seu conjunto,
em suas leis; e a Sociologia Analítica, cujo objeto são grupos ou aspectos particulares dos
fenômenos sociais, a partir dos quais são feitas generalizações. Nessa segunda fase, a Sociologia
fragmenta-se numa multiplicidade de correntes de investigação, e é mais difícil reencontrar sua
unidade conceitual.

A Sociologia é uma ciência descritiva que visa determinar as leis da evolução superorgânica, que
regem o progresso do organismo social. Nesse sentido, a Sociologia é o estudo da ordem progressiva da
sociedade de modo geral (SPENCER, 1873). Esse conceito inspirou a primeira organização da Sociologia
em todos os países do mundo. Aceito por W. G. Summer (Folkways, 1906), nos Estados Unidos, e por
Wundt (Volkerpsychologie, 1900), com o nome de Psicologia dos Povos, na Alemanha, a Sociologia
nasceu dominada pelo princípio da evolução, pensada como uma forma de progresso necessário para a
humanidade.

Um grande avanço na Sociologia Sistêmica foi o Tratado de Sociologia Geral (1916–1923) de Vilfredo
Pareto, que pensou a Sociologia como uma ciência positiva que estuda “a realidade experimental pela
aplicação dos métodos já comprovados em Física, Química, Astronomia, Biologia e nas demais ciências”.
Por outro lado, repudiou qualquer construção sistêmica muito complexa e qualificou de metafísicas e
dogmáticas as doutrinas sociológicas de Comte e Spencer (PARETO, 1923). Segundo Pareto, o caráter
essencial da ciência é lógico-experimental [...] e implica dois elementos: o raciocínio lógico e a observação
do fato. Contudo, o objetivo da ciência sociológica continuou sendo formular as leis que descrevem em
seu conjunto aquilo que Pareto chamou de equilíbrio social, que ele comparou às vezes a um sistema
mecânico que podia ser medido, e outras vezes a um organismo vivo (PARETO, 1996).

Pareto também insistiu no caráter de “uniformidade experimental” das leis, no sentido de que
todo fenômeno concreto acontece quando algumas leis físicas atuam em conjunto; isso significa
que toda explicação científica é aproximativa e parcial (PARETO, 1996). Ainda mais distante do
ideal dos sistemas de Sociologia é o corpo de análises que Pareto apresentou em seu Tratado, cujo
objeto é principalmente aquilo que ele chamou de “ações não lógicas”, cujos elementos estariam
nos resíduos e nas derivações, ou seja, nos resultados únicos que podem ser observados de fato no
comportamento de uma sociedade.

O marco da passagem da ideia de sociedade sintética para a analítica é a obra de Émile Durkheim.
Durkheim não aceitou o pressuposto fundamental da Sociologia Sistêmica, que acreditava que a sociedade
constituísse um todo ou um sistema orgânico. Durkheim escreveu: “O que existe, o que só é dado à
observação, são as sociedades particulares que nascem, se desenvolvem e morrem, independentemente
umas das outras” (DURKHEIM, 2001, p. 48). Ele verificou que o objeto da ciência social deveriam ser os
36
Fundamentos da Ciência Política

fatos que se podem observar: “Os fatos sociais consistem em modos de agir, pensar e sentir, exteriores
ao indivíduo e dotados de um poder de coerção graças ao qual se impõem a ele” (DURKHEIM, 2001, p.
48). Considerar os fatos sociais, deste modo, significa considerá-los como coisas, independentemente de
preconceitos subjetivos e das vontades individuais.

Essas mesmas ideias foram adotadas por Max Weber. Weber qualificou a Sociologia como
diferente das outras disciplinas antropológicas. Ele identificou o objeto da Sociologia na
uniformidade da atitude humana, que é dotada de sentido. Se há sentido na atitude humana,
podemos alcançar sua compreensão. Segundo ele, é a ação humana que “[...] refere-se, segundo
a intenção de quem age, à atitude dos outros” (WEBER, 1913, p. 243). O curso desta ação “[...]
é determinado também por essa referência [e] pode ser explicado por essa referência” (Ibidem,
p. 243). Em outras palavras, o estudo daquilo que as pessoas fazem de fato é que determina o
entendimento de como uma sociedade é organizada.

A segunda ideia fundamental da Sociologia de Max Weber é a separação que estabeleceu entre a
investigação empírica ou lógica e as avaliações práticas ou éticas, políticas ou metafísicas (WEBER, [s.d.]).
Mesmo que seja mais fácil propor esta separação entre as duas coisas: fatos que podem ser medidos e
teorias do porquê de estes fatos acontecerem; essa proposta vale até hoje como regra para o sociólogo.

Weber sugere que é sempre necessária uma investigação empírica particular daquela sociedade
ou daquele grupo que se está pesquisando. A pesquisa pode determinar as uniformidades de atitudes
que constituem o objeto da Sociologia. Também essa forma de pensar guiou o desenvolvimento da
Sociologia contemporânea. A Sociologia atual trabalha com a pesquisa empírica particular, através da
coleta de dados e das propostas de técnicas adequadas de observação.

Hoje a Sociologia dispõe de um conjunto de técnicas que podem ser classificadas em quatro grupos
fundamentais:

• as técnicas de observação (observação direta, livre ou controlada, observação clínica, observação


participante etc.);

• as técnicas de entrevista, que vão desde a entrevista livre até os questionários;

• as técnicas de experimentação e técnicas sociométricas, que descrevem as relações sociais


espontâneas através da participação ativa dos sujeitos estudados;

• as técnicas estatísticas, que a Sociologia compartilha com as outras disciplinas sociais.

Com o uso dessas técnicas, foi realizado um grande número de pesquisas de campo.

A pesquisa sociológica não se desenvolveu por igual em todos os países. Na Inglaterra, a Sociologia
descreveu principalmente o mundo dos primitivos, suas instituições e seus comportamentos
fundamentais. Na França, além de descrever a mentalidade dos povos primitivos, conservou o caráter
teórico, dedicando-se ao estudo de problemas fundamentais e metafísicos.
37
Unidade I

Nos Estados Unidos, a pesquisa sociológica resultou numa grande quantidade de trabalhos em
muitas linhas diferentes: o estudo da sociedade urbana; o estudo da estratificação e da mobilidade
social; o estudo dos grupos étnicos; o estudo da família; o estudo de pequenos grupos; a sociedade
industrial e suas relações nos locais de trabalho; e a religião na sociedade.

Apesar dessa grande quantidade de trabalhos sociológicos, sua atuação foi descrita por Edward
Shils (1910-1995) da seguinte forma: “O principal defeito da Sociologia americana é o inverso de sua
principal virtude: sua indiferença, até agora dominante, para com a formação de uma teoria geral
está estreitamente ligada à sua avidez de precisão na observação imediata” (SHILS, 2013). Ou seja, são
feitas muitas observações quantitativas específicas sem que sejam estabelecidas as relações teóricas
entre elas.

Esse caso se repete em todos os países em que a pesquisa sociológica alcança algum
desenvolvimento. Mesmo aqueles que mais insistem na importância das técnicas objetivas às
vezes sentem saudade das propostas sistêmicas da sociedade. Mesmo hoje em dia encontramos
tentativas de estabelecer uma teoria sistêmica do objeto da Sociologia, que é a ação social
(PARSONS, 2010).

Os sociólogos de inspiração marxista acreditaram na ideia de que o controle dos meios de produção
poderia originar a teoria geral que explicaria todos os movimentos da sociedade. Esses movimentos
seriam sempre percebidos como uma luta das classes dominantes contra as classes dominadas. Mesmo
que tais ideias – também adotadas pelos expoentes da Sociologia brasileira, como Florestan Fernandes
e Octavi Ianni – expliquem muito bem as tensões sociais, diversas revoluções modernas questionam a
postura tradicional marxista. São exemplos a Revolução Iraniana de 1979, que estabeleceu o domínio
dos religiosos no poder, e a adoção chinesa de dois sistemas, o socialista e o capitalista, para áreas
diversas do país.

Na prática, nem sempre as tensões sociais dizem respeito ao controle dos meios de produção,
mas, por vezes, apenas à distribuição do poder político entre as diversas classes sociais. A maior
discussão diz respeito ao controle coletivo ou privado de determinados aparelhos de Estado,
tais como o poder de polícia, o sistema geral de saúde ou a distribuição da alimentação. Com a
novidade das preocupações ecológicas introduzida no século XX, os seres humanos perceberam
que o planeta é sua responsabilidade, independentemente do controle dos meios de produção de
uma determinada sociedade.

No momento atual da Sociologia, podemos prever que as tentativas de conceituação teórica venham
a obter sucesso, mas é improvável que voltemos ao pensamento sistêmico que guiou a Sociologia na
sua primeira fase. Isso se dá porque, quando comparamos a Sociologia com as demais ciências que
estudam o comportamento humano, e mesmo a etologia e seu estudo do comportamento animal,
verificamos que as ações dos seres vivos são sempre diretamente influenciadas pelas características
do ambiente. Mesmo as plantas se desenvolvem de uma maneira diferente em cada ambiente, e, no
caso dos seres humanos, as variações culturais acabam por dificultar teorias gerais que deem conta
das diferentes sociedades.

38
Fundamentos da Ciência Política

2 A Construção da Cultura Política Moderna

O ideal moderno pressupõe em parte a realização da república pensada pelos iluministas, mas avança
no sentido de uma cultura política da participação geral, o que significaria permitir uma participação
direta dos indivíduos, superando a ideia de representatividade, que ainda facilita uma cultura política
da submissão das classes sociais.

O problema das instituições políticas e sociais é favorecer a integração dos indivíduos à


sociedade sem prejudicar o princípio da liberdade individual. Um dos problemas do projeto
contemporâneo é sempre a tentativa de integração dos indivíduos a uma cultura nacional.
O esforço de construção de uma identidade nacional geralmente significa um desrespeito às
diferenças dos grupos minoritários.

A construção da identidade é o processo que permite a conquista da autonomia. Para o indivíduo,


a construção da identidade é um processo de autorreconhecimento. Nesse processo, o sujeito mantém
alguns valores da sua herança afetiva e familiar, mas rejeita outros. Isso acontece também com o
grupo no qual ele está inserido. Esse é o processo de elaboração da identidade política. Os indivíduos
refletem sobre as características culturais que os fazem semelhantes aos outros e percebem que essas
características influenciam seu comportamento social e político. Assim, há um processo de avaliação
sobre a herança cultural e social do grupo, e os indivíduos decidem em que medida vão preservar essa
herança ou contestá-la.

Assim o grupo constrói sua identidade e exercita a autonomia. Por um período, a ênfase na identidade
comunitária de determinados grupos pode dificultar a construção da cidadania. Mas na construção de
uma cidadania nacional é difícil imaginar que uma adesão voluntária à nação aconteça, quando as
pessoas não descobrem qual o seu lugar no todo social.

Um exemplo disso são as sociedades indígenas americanas. Tanto nos Estados Unidos quanto no
Brasil, os índios adotaram uma série de novidades técnicas com as quais entraram em contato. Depois
de conhecerem a Medicina ocidental, dificilmente voltam a depender exclusivamente da Medicina
tradicional, que continua em sua cultura como uma forma auxiliar de tratar do espírito. Os territórios
indígenas são respeitados ou como um Estado soberano, ou como uma área separada sob a tutela do
Estado. Por outro lado, a participação política regional e nacional é buscada pelos povos indígenas,
sendo alcançada quando alguns indivíduos desses grupos passam a se comportar como cidadãos do
Estado-nação onde seus territórios estão inseridos.

A construção da identidade nacional é eficiente quando passa por um processo de elaboração das
identidades dos diferentes grupos da sociedade, especialmente daqueles que são impedidos de participar
da política. O desafio é permitir a participação política como substituição da luta entre os diferentes
grupos, para a construção do interesse comum.

Desde Rousseau e Locke, a resposta é a educação. A construção do projeto político moderno depende
do esforço de todas as instituições. Mas a escola tem um papel especial nessa construção. A ideia é
que a cultura da cidadania pode ser aprendida numa escola politizada. A instituição escolar, seja ela
39
Unidade I

privada ou não, deve estar voltada para o interesse do público. Isso poderia contribuir na elaboração das
identidades dos jovens, no aspecto individual e também na dimensão coletiva.

A escola pode alterar comportamentos, incutir a responsabilidade cívica, difundir a adesão social e
tentar a construção de uma cultura política capaz de equilibrar a autonomia individual e a integração
social. Enquanto não realizamos isso, ficamos com as palavras de Cortella e Ribeiro (2010):

Ribeiro: Vejo uma coisa meio paradoxal hoje. Por um lado, gosto muito de
nosso tempo porque estamos vivendo o período de maior liberdade de toda
a história. Nunca antes, na história deste mundo, houve tanta liberdade
política e pessoal. Metade da humanidade se expressa, se organiza, vota,
tem a orientação sexual de seu agrado. Logo, dessa perspectiva, a política
se expandiu muito. Tanto é assim que atualmente há certa convergência
de conceituação entre política e democracia. Quando os teóricos definem
uma ou outra, dizem que as duas passam pela fala, pela conversa, pelo
diálogo. Elas se opõem às ditaduras porque nestas não há liberdade de
expressão. Daqui a um tempo é possível que predomine a ideia de que não
há política que não seja democrática, e então talvez não se ouça mais
falar em política stalinista, em política ditatorial etc. Talvez se ache que
uma “política ditatorial” é uma contradição... Esse é o aspecto positivo
do mundo contemporâneo. Por outro lado, o negativo – ou, pelo menos,
preocupante – é o desinteresse pela política, que você apontou. Quer dizer,
ao mesmo tempo que meia humanidade está se beneficiando de avanços
democráticos, boa parte das pessoas está enojada pela descoberta ou pelo
avanço da corrupção (aliás, é discutível se ela realmente aumentou ou
apenas se tornou mais visível) (CORTELLA; RIBEIRO, 2010, p. 7).

[...]

Cortella: Em relação à política, observamos uma atitude de desprezo, de


asco ou nojo e ainda uma atitude de tédio. Considero que, na atualidade,
predomina uma visão de desprezo ou de asco ou de tédio em relação à
participação política, no sentido contrário ao de idiótes como autodefesa
(CORTELLA; RIBEIRO, 2010, p. 18).

[...]

Ribeiro: Você não está falando de política só no contexto do Estado: quando


elegemos o presidente, escolhemos a economia; quando elegemos o prefeito,
focalizamos a cidade que queremos. Aliás, esta segunda escolha tem até um
impacto mais direto sobre nossas vidas do que a do presidente. Mas, para
além disso, você pensa no condomínio, na relação com as outras pessoas;
podemos estender o raciocínio e incluir as relações familiares, as amizades.
Tudo isso é político, concordo com você (CORTELLA; RIBEIRO, 2010, p. 11).
40
Fundamentos da Ciência Política

2.1 Política e poder

Para entendermos os mecanismos de poder dentro das sociedades, vamos primeiro ler uma opinião
do filósofo Renato Janine Ribeiro:

Vou agora expressar uma opinião otimista em relação à visão que as pessoas
têm da política. Ela se assemelha, a meu ver, às dores de parto, e existe todo
um processo histórico nessa “gestação”.

No século XX há um parto extraordinariamente longo de algo que podemos


chamar de democracia de massas. Quando se inicia o século passado,
democracia nem sequer é um elogio. Essa palavra começa a ser valorizada
com a Segunda Guerra Mundial, quando se defrontam as potências do
Eixo e os países que se autodenominam democracias (vários dos quais
efetivamente o eram). A partir daí a palavra democracia ganha um status
positivo que, antes, não tinha. Desde 1945, é raro o regime que não se diz
democrático. O que aconteceu? Um grande número de pessoas ingressou na
política. Para piorar as coisas, nas décadas de 1920 e 1930, entre os fatores
que levaram aos totalitarismos esteve o seguinte: a Primeira Guerra Mundial
foi travada de maneira puramente liberal: os feridos, as viúvas e os órfãos de
quem morreu não receberam apoio. Foi cada um por si. Não houve projeto,
ao longo ou depois da Primeira Guerra Mundial, para integrar aqueles que
os franceses chamavam de gueules cassées, aqueles que tiveram a cara
arrebentada, seus órfãos ou quem quer que fosse. Resultado: essa multidão
vai formar os bolchevistas na União Soviética, os fascistas na Itália, os
nazistas na Alemanha, e assim por diante.

Já na Segunda Guerra Mundial, os norte-americanos planejam com muita


antecedência o que será o Pós-guerra, com a reconstrução dos países
devastados e a reintegração dos sobreviventes. Então, qual era o panorama
entre as duas guerras? Uma multidão entrou na política como massa de
manobra nazista, fascista, mas a ela se vendeu a ideia: “Olhe, você, plebeu,
tem voz. Você não tinha no tempo do Kaiser, mas tem agora com Hitler”
(ainda que fosse para gritar “Heil Hitler”, agora eles tinham voz). Essa
incorporação de grandes massas não é um processo fácil, mas, se começa
mal, com as massas fanáticas dos totalitarismos, depois se aprende.

Ao longo do tempo, ganha-se conhecimento e experiência sobre as


questões políticas. Mas vejamos como isso é demorado. Numa democracia
que em mais de dois séculos não conheceu golpe de Estado nem ditadura,
os Estados Unidos, na eleição de John Kennedy, em 1960, votam todos,
mas quem decide ainda são os patrícios, a elite. Kennedy é meio outsider,
porque é católico de origem irlandesa, mas sua família era riquíssima e seu
pai tinha sido embaixador na Grã-Bretanha. Enfim, ainda é uma política
41
Unidade I

entre patrícios. Porém, nos anos que se seguem, ocorre uma plebeização da
política. Uma multidão muito maior, que já votava, começa agora também a
opinar, a intervir mais nas questões políticas – e isso muda tudo (CORTELLA;
RIBEIRO, 2010, p. 43).

Como vimos, hoje em dia, tornou-se um consenso que a democracia deve ser a forma de participação
política. Percebemos, pelo comentário que acabamos de apresentar, que o século XX herdou uma
situação do século XIX, quando a maioria da população ainda estava afastada da participação
política. Isso se deu principalmente como reação às guerras de Napoleão. Relembrando um pouco
a história, a Revolução Americana e a Revolução Francesa introduziram as primeiras repúblicas da
Idade Moderna. Na França, isso permitiu que mais tarde Napoleão, um general de origem burguesa,
se tornasse imperador. Tal situação só tinha acontecido antes na Roma Antiga, com Caio Júlio César.

Depois que Napoleão foi derrotado, as monarquias que se sustentavam bem ou mal desde a Idade
Média promoveram durante o Congresso de Viena de 1848 a Restauração, movimento que adotou as
fronteiras geográficas na Europa, criando inclusive novos reinos na Alemanha. As monarquias restauradas
só foram paulatinamente substituídas por repúblicas após a Primeira Guerra Mundial. Assim, na primeira
metade do século XX a participação política da população estava de fato começando. Lembramos que,
na maioria dos países do Ocidente, as mulheres só começaram a votar a partir da década de 1940.

Para entendermos melhor esse quadro, vamos resgatar as formas de governo e comentar suas
características.

O historiador Heródoto, que viveu 400 anos antes de Cristo, comentando sobre formas de governo,
perguntava:

Como poderia ser um governo bem-instituído o domínio de um só homem,


se ele pode fazer o que quer sem dar satisfação a ninguém? O monarca
tende a tornar-se tirano. Por outro lado, o governo do povo é com certeza
o melhor, porque nele todos são iguais, mas também tende a degenerar e
a tornar-se desenfreada demagogia. Por isso, a melhor forma de governo é
uma boa monarquia (HERÓDOTO, 1999, tradução nossa).

Ora, se reclamamos hoje em dia dos problemas da democracia, percebemos que cinco séculos antes
de Cristo esses problemas já estavam presentes na vida política. A democracia se torna demagógica,
ou seja, os políticos dizem aquilo que as pessoas querem ouvir para alcançarem o poder. Interessante
pensar que a solução sugerida por Heródoto não seria uma tirania (ditadura), mas uma monarquia.

Na República, Platão defendeu que o Estado ideal seria governado por uma aristocracia, composta
por filósofos. Mas ele sabia que a primeira degeneração da aristocracia é a timocracia, ou seja, uma
aristocracia fundada na conivência que nasce quando os governantes se apropriam de terras e de casas.
Platão sabia que os seres humanos são frágeis em seu caráter e que, uma vez instituída a aristocracia,
logo aqueles que detinham o poder iriam tentar perpetuar esse poder, independentemente de sua
capacidade de governar em favor do povo.
42
Fundamentos da Ciência Política

A segunda forma de governo descrita por Platão é a oligarquia. A oligarquia acontece quando
a classe dominante é composta por pessoas que detêm patrimônio e na prática se constitui no
governo dos ricos. A terceira forma é a democracia, na qual a todo cidadão é lícito fazer o que
quer e participar diretamente da vida política. A quarta forma é a degeneração política quando
ela se transforma em tirania, que muitas vezes nasce da excessiva liberdade da democracia
(PLATÃO, 2000).

Platão voltou ao assunto em Político. Distinguiu três formas de regime político: aquele em que
um só manda e todos obedecem, aquele no qual poucos mandam e finalmente aquele em que muitos
participam. Para ele, essas formas de governo, sejam ou não regidas por leis, motivam respectivamente
a tirania, a aristocracia ou a oligarquia e as duas formas da democracia, a regida por leis e a demagógica
(PLATÃO, 2007d).

Aristóteles concordou com Platão, mas percebeu que para a democracia, as formas de governo
sugerem outras duas categorias, que precisam ser diferenciadas: pode haver democracia quando os
homens livres governam ou quando os ricos governam; a diferença é que os ricos são poucos e os
homens livres sempre formam um número maior (PLATÃO, 2007d).

As três formas de governo sugeridas por Platão se tornaram as aceitas até hoje. Os escritores políticos
da Idade Média, do Renascimento e da Idade Moderna se referem a essa classificação. Mas notamos que
as diversas formas de governo não constituem formas diferentes de Estado. A soberania, que constitui
o caráter fundamental do Estado, é una e indivisível. Assim, um Estado pode manter sua soberania, mas
pode ter diferentes formas de governo para sua manutenção. O Brasil foi por muitos anos uma ditadura
e depois se transformou numa democracia. Nos dois casos, continuou a ser uma república, que garantiu
a integridade do território nacional.

Na monarquia, a soberania é controlada pelo rei. O rei pode delegar seu poder e governar de modo
democrático. Isso acontece hoje em dia na Inglaterra, na Espanha, na Bélgica, na Holanda, na Dinamarca,
na Suécia e no Japão.

Hobbes pensou que a diferença das formas de governo depende da qualidade das pessoas às
quais é confiado o poder soberano. Tem-se democracia, aristocracia ou monarquia, conforme o
poder soberano seja confiado ao povo, aos nobres ou ao rei, respectivamente. Quanto às chamadas
degenerações das formas de governo, elas são apenas três denominações diferentes dadas por quem
odiava o governo ou os governantes (HOBBES, 2008). Em outras palavras, Hobbes dizia que devemos
sempre esperar pela degeneração de uma forma de governo, pois a degeneração faz parte da filosofia
daquela maneira de governar.

Montesquieu, filósofo iluminista francês, modificou a divisão tradicional, afirmando que o


governo pode ser repúblicano (um conjunto de democracia e aristocracia), monárquico ou despótico.
Ele pensou as formas de governo a partir dos princípios que sustentam o seu funcionamento.
O governo popular baseia-se na virtude cívica e no espírito público do povo; a monarquia, no
sentimento de honra da classe militar; o despotismo, no temor (MONTESQUIEU, 2005). Essa ideia
de Montesquieu mudou o entendimento sobre as formas de governar porque ele percebeu que a
43
Unidade I

liberdade que os cidadãos gozam num Estado não depende da forma de governo desse Estado, mas
da limitação dos poderes de quem governa, garantida pela forma de organização daquele Estado.
Ele escreveu:

A democracia e a aristocracia não são Estados livres por natureza. A liberdade


política encontra-se nos governos moderados. Mas nem sempre existe nos
Estados moderados: permanece só quando não há abuso de poder. [...] Para
que não seja possível abusar do poder, é preciso que, pela disposição das
coisas, o poder refreie o poder. Uma constituição pode ser de tal forma que
ninguém seja obrigado a cumprir as ações às quais a lei não obrigue nem a
deixar de cumprir as que a lei permite (MONTESQUIEU, 2005, p. 6).

Isso vale tanto hoje em dia quanto para a época de Montesquieu. A experiência histórica
do mundo mostrou que a liberdade e o bem-estar dos cidadãos não dependem da forma de
governo. A participação que os governos permitem aos cidadãos na formação da vontade estatal
e a rapidez com que os governantes são capazes de melhorar suas diretrizes políticas e suas
técnicas administrativas. Por isso, na moderna teoria política geral, a distinção ou classificação
das formas de governo não tem realmente importância. Podemos até hoje pensar utilizando as
categorias propostas por Heródoto.

Observação

Timocracia é a forma de governo baseada no desejo de honrarias que,


segundo Platão, é uma corrupção da aristocracia. Para Aristóteles, era uma
forma de governo baseada na riqueza.

2.2 A história da ditadura

A ditadura é chamada de filosofia de tirania. Nessa forma de governo, o arbítrio de uma ou várias
pessoas representa a lei. O conceito de tirania foi elaborado pelos gregos, juntamente com o de
Constituição livre. A definição de tirano já se encontra nos versos de Eurípides, que descreveu o tirano
como aquele que faz desaparecer todas as leis e as substitui pela sua vontade.

Para Platão, a tirania é a consequência da excessiva liberdade que pode surgir nas democracias.

Ao fugir da fumaça – como se diz – da servidão sob um governo de homens


livres, o povo acaba caindo, com a tirania, no fogo da servidão sob o
despotismo de servos e, em troca daquela liberdade excessiva e inoportuna,
é obrigado a vestir a túnica do escravo e a sujeitar-se à mais triste e amarga
das servidões, a de ser servo dos servos (PLATÃO, 2000, p. 383).

Aristóteles (2008) pensava que a tirania adiciona os males da democracia aos males da oligarquia.
Tanto a oligarquia quanto a tirania possuem como finalidade o enriquecimento de poucos, por isso
44
Fundamentos da Ciência Política

na oligarquia e na tirania aqueles que mandam não têm confiança no povo. O povo é desarmado, e
a população amedrontada é afastada das cidades e espalhada pelo campo. Da democracia a tirania
combate a aristocracia e promove sua destruição (PLATÃO, 2007d).

Na Idade Média, São Tomás de Aquino considerou que quando a monarquia se transformava em
tirania, o mal era menor do que quando um governo de maioria se corrompia. Assim, condenava o
assassinato do tirano, sugerindo paciência aos súditos para suportar a maldade, até que um poder
superior (Deus) viesse eliminá-lo, pois essa maldade, no fundo, seria um castigo de Deus para
aquele povo.

Outro pensador cristão, João de Salisbury, defendeu o assassinato do tirano, por considerar que o
tirano é um rebelde contra a lei à qual tanto os reis quanto os cidadãos estão vinculados (SALISBURY,
[s.d.]). Essa ideia foi defendida também pelos adversários da monarquia e pelos jusnaturalistas do séculos
XVI e XVII. Locke escreveu que:

Onde acaba a lei começa a tirania, quando a lei é transgredida em prejuízo


de outros: e todo aquele que, no exercício da autoridade, exceder o poder
que lhe foi conferido pela lei e usar a força para realizar em relação aos
súditos o que a lei não lhe permite, está deixando de ser magistrado e, por
estar deliberando sem autoridade, pode sofrer oposição tanto quanto sofre
oposição qualquer outro que viole pela força os direitos alheios (LOCKE,
2006, p. 90).

O conceito de tirania serviu para formação do liberalismo político, pois tudo o que o liberalismo
combatia tinha princípio na tirania. Esse fundamento foi um dos temas da retórica revolucionária e
liberal a partir do século XVI. Hoje adotamos a ideia de ditadura no lugar de tirania, pois tecnicamente
a ditadura foi instituída em Roma para designar o momento provisório quando o Senado atribuía a um
general romano plenos poderes para fazer voltar a ordem e a tradição. Hoje em dia, o ditador, seja civil
ou militar, sempre se apoia nas Forças Armadas do país para controlar o povo. A rigor, a diferença entre a
tirania e a ditadura é que na tirania o próprio tirano era fonte exclusiva de todo o mal, e numa ditadura
existe um grupo armado que se torna a fonte do mal.

2.3 A cultura política contemporânea

Os valores na sociedade da Idade Moderna se opuseram ao mundo medieval. Na Idade Moderna,


entre os séculos XV e XVIII, assumiram o princípio de que os homens são iguais. Portanto, não podia
existir justificativa razoável para que um ser humano dominasse o outro. O Estado foi entendido como
uma construção coletiva, perante o qual todos têm responsabilidades, deveres e direitos. O princípio do
direito é fundamental para existir a cidadania. Esses valores hoje em dia são aceitos pela maioria das
sociedades nacionais.

Atualmente, uma sociedade em que os menos favorecidos se percebem como inferiores e se sentem
felizes com os favores oferecidos por uma política pública é uma sociedade que reproduz a lógica da
hierarquia e da subserviência. Isso acontece sempre que o governo adota programas assistencialistas.
45
Unidade I

Com a cultura política atual, há um desejo de valorização das coisas públicas diante das
privadas. O espaço público é o lugar do exercício da cidadania. No espaço público as pessoas
se encontram para atuar de forma solidária, buscando o interesse coletivo, sempre adotando
a igualdade política. Os direitos cidadãos conquistados não geram dívidas de um para com o
outro. São criados compromissos recíprocos que constroem os vínculos pessoais que formam a
sociedade.

Não se deve confundir a solidariedade expressa muitas vezes na forma de caridade com a
solidariedade alcançada pela cidadania. A solidariedade política surge de uma ação de apoio mútuo
entre os cidadãos, para conquistarem direitos ou para se ajudarem em caso de desastres naturais. Esta é
a ação dos movimentos sociais.

Quando as classes dominadas buscam seus direitos como cidadãos, são vistas pelas elites como
mal‑agradecidas, desleais e perigosas. Para que a hierarquia seja restabelecida, emprega-se a opressão,
que pode vir através da força policial, de um sistema judiciário corrupto ou até mesmo de ações das
Forças Armadas.

Na cultura política contemporânea, tentam-se conciliar duas ideias que tiveram origens
antagônicas: a liberdade e a igualdade. A liberdade, no sentido moderno, surgiu através da filosofia
liberal contra o domínio do Estado sobre o indivíduo. Por ser contra o Estado, a liberdade individual
pode sugerir o individualismo, uma forma de atuação egoísta na sociedade. A igualdade é mais
antiga e estava presente desde os pensadores gregos. Mas, no sentido original, não havia igualdade
para todos numa sociedade. A igualdade historicamente sempre foi pensada como dos pares, ou seja,
entre iguais. Só depois da influência do pensamento dos socialistas do século XIX, principalmente
de Karl Marx, é que a igualdade veio contemplar todos os homens. Isso também se deve a um
pensamento liberal: todos os homens nascem iguais.

Então o que se deve discutir é a cultura da liberdade. O problema é que o termo liberdade
tem mais de um sentido. Num primeiro momento, a liberdade é entendida como a ausência de
condições e de limites. Essa liberdade pressupõe que cada um possa fazer o que quiser, na hora
em que desejar. Porém, sabemos que ninguém sobrevive fora da sociedade, pois desde que o ser
humano se organizou socialmente, há mais de 150 mil anos, é necessário um grupo para facilitar
a sobrevivência.

A liberdade também é entendida como a possibilidade de escolha, segundo a qual a liberdade é


limitada e condicionada, e, portanto, finita. Podemos tentar discutir alguns conceitos de liberdade, pois
essa liberdade sem nenhuma limitação tem um problema metafísico: é livre aquilo que é causa de si
mesmo? Aristóteles compara o ato voluntário ao conceito de liberdade infinita. Para ele, voluntário é
aquilo que é princípio de si:

Nas coisas em que a ação depende de nós a não ação também depende; e
nas coisas em que podemos dizer “não” também podemos dizer “sim”. De tal
forma que, se realizar uma boa ação depende de nós, também dependerá de
nós não realizar má ação (ARISTÓTELES, 2009, VI, 11).
46
Fundamentos da Ciência Política

Para Aristóteles isto significa que o homem é o princípio e o pai de seus atos, assim como de seus
filhos, e que só para quem tem em si um princípio próprio, o agir ou o não agir depende de si. Assim, o
homem é o princípio de seus atos (ARISTÓTELES, 2009).

Cícero concordou com essa noção aristotélica de “princípio de si mesmo”: ele entendeu que, na
medida em que o ser humano é regido pela alma, é também a vontade que acaba determinando seus
atos, pois isso configura a natureza humana (CÍCERO, 2004a). Os estoicos, como Cícero, admitiam
que as ações que têm em si mesmas causa ou princípio eram livres, pois a liberdade é conferida pela
autodeterminação, e apenas os sábios seriam autodeterminados, isto é, pensariam com a razão perante
os fatos (CÍCERO, 2004a).

Esse conceito foi aceito por toda a Idade Média. Tal definição, que se aplica a todos os seres vivos,
privilegia o homem porque a causa dos movimentos humanos é aquilo que o próprio homem escolhe.
Santo Agostinho concordou com essa ideia da liberdade da autodeterminação. São Tomás acreditava
que para existir liberdade não fosse necessário o homem ser a primeira causa de si mesmo, como de fato
não é, pois a primeira causa é Deus. Mas a Primeira Causa não impede a autocausalidade do homem
(AQUINO, 2011).

Guilherme de Ockham percebeu que a liberdade era externa ao ser humano e, nesse sentido, não
seria regida pela vontade, mas pelas contingências que cada pessoa experimentasse. Contudo, ele
não sabia determinar como a vontade que tem a liberdade de escolher exercer uma ação é livre. A
liberdade só existiria depois de exercitada, quando, voluntária ou involuntariamente, uma pessoa
exercesse uma escolha com liberdade (ABBAGNANO, 2007).

Já os iluministas, como Leibniz, entendiam a liberdade a partir de um caráter metafísico diferente,


como nascida da inteligência quando percebe a diferença entre o bem e o mal (ABBAGNANO, 2007).

Temos a necessidade da liberdade, pois procuramos o bem nas nossas ações, e a inteligência percebe
que sem liberdade não se alcança o bem. Esse conceito fez Kant admitir o caráter “numênico” da liberdade
(númeno significa alguma coisa que só existe enquanto ideia, sem existência concreta): “Se tivermos de
admitir a liberdade como propriedade de certas causas dos fenômenos, ela deve, em relação aos fenômenos
como eventos, ter a faculdade de iniciar por si a série de seus efeitos, sem que a atividade da causa precise
ter início e sem que seja necessária outra causa que determine tal início” (KANT, 2010, p. 456). A faculdade
de iniciar por si um evento é exatamente a causa sui (causa de existência) do conceito tradicional de
liberdade. Mas Kant advertiu que, mesmo como causa sui ou espontaneidade absoluta, “[...] a causa livre,
em seus estados, não pode ser submetida a determinações de tempo. Não deve ser um fenômeno, deve ser
uma coisa em si, e só os seus efeitos devem ser julgados fenômenos” (KANT, 2010, p. 458).

Kant tentou conciliar a liberdade humana com o poder de autodeterminação, com o determinismo
natural que, para ele, constitui a racionalidade da natureza. Isso ainda existe nas filosofias espiritualistas,
nas quais a autodeterminação é considerada uma experiência interior fundamental.

Dentre as ideias de liberdade surgidas no século XIX, Bergson afirmou que o conceito de liberdade
situa-se entre a noção de liberdade moral, isto é, da “[...] independência da pessoa perante tudo o que
47
Unidade I

não é ela mesma” e a noção de livre-arbítrio, segundo o qual aquilo que é livre “[...] depende de si mesmo
assim como um efeito depende da causa que o determina necessariamente” (BERGSON, 1888, p. 131).
A ideia de Bergson demonstra que existem motivos para que a vontade possa ser demonstrada, e é essa
vontade que permite que uma pessoa tenha coragem de se autodeterminar.

Já no século XX, Sartre definiu a liberdade como a escolha que o homem faz de seu próprio ser e do
mundo:

Mas exatamente por se tratar de uma escolha, na medida em que é feita,


essa escolha geralmente indica outras tantas como possíveis. A possibilidade
dessas outras escolhas não é explicitada nem proposta, mas é vivida no
sentimento de injustificabilidade e expressa na absurdidade da minha
escolha, consequentemente do meu ser. Assim, minha liberdade devora a
minha liberdade. Sendo livre, projeto o meu possível total, mas com isto
proponho que sou livre e que posso aniquilar esse meu primeiro projeto e
relegá-lo ao passado (SARTRE, 1997, p. 624).

Mas uma escolha que não pode realmente escolher, que não é limitada por determinadas condições,
não é uma escolha de verdade.

Na política, se utilizamos a concepção de liberdade em si, liberdade sem nenhuma restrição do


indivíduo em relação aos outros indivíduos e toda a sociedade, sem nenhuma obrigação relativa ao
direito de existir, caímos na situação de anarquia. Seguimos aqui as explicações do conceito de liberdade
no Dicionário de Filosofia de Abbagnano (2007).

O primeiro a escrever contra este tipo de liberdade foi Platão. Ele tentou demonstrar o excesso de
liberdade do regime democrático, quando a recusa de deveres cria a desordem pública, pois

[...] torna os cidadãos tão suscetíveis que, tão logo se lhes proponha algo que
pareça ameaçar sua liberdade, eles se melindram, rebelam-se e terminam
rindo das leis escritas e não escritas, porque não querem de forma alguma
submeter-se a nenhum comando (PLATÃO, VIII, p. 563).

A liberdade passou a ser entendida pelas pessoas como a ausência de medida e a recusa de normas.
A melhor descrição dessa ideia de liberdade foi expressa por Max Stirner: “[...] o indivíduo que não tem
causa fora de si, que é sua própria causa e causa de tudo” (STIRNER, 2004, p. 136).

Há outra forma de entender a liberdade, que nasce da necessidade. Nessa forma de entendimento,
a liberdade é absoluta e não pertence nem sequer ao indivíduo, mas está no universo. Essa maneira de
entendermos a liberdade absoluta sugere que a liberdade seria uma coisa que se poderia alcançar por
meio do exercício da autodeterminação. Contudo, segundo Cícero, essa autodeterminação deve estar de
acordo com a ordem do mundo natural e seu destino, e apenas os homens sábios teriam conhecimento
de como lidar com ela. Dessa forma, somente eles seriam realmente livres (CÍCERO, 2011).

48
Fundamentos da Ciência Política

Espinoza repensou este conceito e propôs que apenas Deus seria livre em essência. Todos os demais
seres teriam suas ações movidas pela necessidade ou pela coação de alguma forma. Mas, utilizando a
razão, o ser humano poderia alcançar algum grau de liberdade, desde que tentasse casar a razão com
a percepção daquilo que já está dado na própria natureza. Como a natureza é obra divina, a liberdade
do ser humano surgiria do amor intelectual por Deus, que seria equivalente ao amor com que Deus
se ama (ESPINOSA, 2010, p. 32).

Abbagnano (2007) percebe que Hegel buscou a liberdade real do ser humano, em vez de um conceito
abstrato de liberdade. Essa liberdade real, realidade mesma do homem, só seria encontrada dentro das
regras do Estado. Hegel propõe, portanto, que o “Deus real” em que Spinoza teria buscado sua proposta
de liberdade na verdade é o próprio Estado, proporcionando através de suas leis uma liberdade concreta
ao ser humano. Esta seria a realidade onde podemos encontrar liberdade. Assim, o Estado é o centro dos
outros aspectos concretos da vida: direito, arte, costumes, bem-estar.

No Estado, a liberdade é realizada objetiva e positivamente. Isso significa que a vontade universal se
realiza através dos cidadãos que, nesse aspecto, seriam seus instrumentos na medida em que a realidade
e a satisfação alcançadas pela liberdade não podem ser confundidas com o livre-arbítrio do indivíduo. O
que Hegel queria dizer é que podemos até andar livremente num país onde impera a ditadura, mas essa
liberdade aparente não garante que o Estado proteja seus cidadãos. (HEGEL, 1999).

No século XX, Jaspers acreditou que quando o indivíduo faz alguma coisa porque sente que
é seu dever fazê-lo, está exercendo seu livre-arbítrio por meio da autodeterminação (JASPERS,
2011). Assim, dentro do contexto da sua existência, o ser humano estaria sempre pensando seu
livre-arbítrio a partir do engajamento no mundo, geralmente através de uma ideologia de partido
político ou causa humanitária. Nesse caso, a vontade seria relacionada à liberdade de atuar dentro
de um determinado contexto social, que no fundo é previamente determinado ou pela política na
qual a pessoa acredita, ou pela religião que ela professa. Essa é a explicação, por exemplo, para a
atuação voluntária dos terroristas suicidas.

Há um terceiro entendimento de liberdade, que é a liberdade de escolha, seja ela motivada ou


condicionada. Neste sentido, a liberdade não é a autodeterminação absoluta, mas a determinação da
medida, da condição ou da modalidade de escolha que permite ao indivíduo garantir sua sensação de
liberdade. Livre é quem possui, em determinado grau, determinadas possibilidades.

Tal conceito seria a justa medida proposta por Platão no seu livro As Leis. Essa liberdade vivida pelo
indivíduo é limitada pelas possibilidades objetivas dos modelos de vida disponíveis. Então, as possibilidades
de se viver com liberdade estariam sendo limitadas pelas diversas formas e pelos vários modelos de se
poder conviver em sociedade, mas todas elas determinam suas regras de convivência. Assim, a liberdade
é limitada pelas possibilidades objetivas, que determinam no fundo as escolhas possíveis. Isso recebe em
Filosofia o nome de determinismo, que mesmo sem propor um caminho único de como viver a vida com
liberdade condiciona a partir de suas escolhas reais as próprias condições da sua liberdade individual.

Hobbes afirmou que não se pode não querer aquilo que se quer (não se pode não ter fome quando
se tem fome, não ter sede quando se tem sede etc.), mas que é possível fazer ou não fazer aquilo que
49
Unidade I

se quer (comer ou não comer quando se tem fome etc.). Existe, pois, uma liberdade de fazer, não uma
liberdade de querer (HOBBES, 2012).

Locke conseguiu expressar melhor esse conceito no terreno político ao negar que a liberdade
consistisse em cada um fazer o que bem entendesse. Afirmou:

A liberdade natural do homem consiste em estar livre de poderes superiores


sobre a Terra, em não estar submetido à vontade ou à autoridade legislativa
de ninguém e em possuir como norma própria apenas a lei natural. A
liberdade do homem em sociedade consiste em não estar sujeito a outro
Poder Legislativo além do estabelecido por consenso no Estado, nem ao
domínio de outra vontade ou à limitação de outra lei além da que esse Poder
Legislativo tiver estabelecido de acordo com a confiança nele depositada
(LOCKE, 2006, p. 50).

Em outras palavras, uma vez que toda sociedade determina suas regras e leis, temos a liberdade de
escolha sempre limitada por elas. Para que haja liberdade política, é necessário que as leis a permitam,
e isso acontece quando todos controlam o excesso de liberdade das outras pessoas. Se há um problema
de liberdade política, é porque os cidadãos não participam nem da elaboração, nem do cumprimento das
leis, e isso acaba restringindo as próprias escolhas dos cidadãos.

Kant percebeu que a liberdade é finita no sentido de que as leis, a liberdade jurídica ou mesmo a
liberdade política não permitem que um cidadão resolva não obedecer às leis que considera erradas ou
injustas (KANT, 2010).

No século XX, Dewey traduziu esse conceito de Kant como uma ideia do pragmatismo:

Às vezes se afirma que, se é possível demonstrar que a deliberação determina


a escolha e é determinada pelo caráter e pelas condições, é porque não
existe liberdade. É como dizer que uma flor não pode produzir fruto porque
provém da raiz e do caule. A questão não diz respeito aos antecedentes da
deliberação da escolha, mas às suas consequências. Qual é sua característica?
Dar-nos o controle das possibilidades futuras que se abrem para nós. Esse
controle é o núcleo da nossa liberdade. Sem ele, somos empurrados de trás,
com ele caminhamos na luz (DEWEY, 1922, p. 311).

A liberdade que Heidegger fala como “transcendência” e “projeção” do homem no mundo também
é uma liberdade finita, porque é condicionada e limitada pelo mundo em que se projeta (HEIDEGGER,
1997, p. 69). Sabemos que a consciência não dá demonstrações de liberdade absoluta. A conclusão é
que o conceito de liberdade como autocausação, que vimos em Bergson e Sartre, não é sustentável.
No plano político, o conceito de liberdade como poder de fazer o que apraz e o conceito de liberdade
como poder absoluto do Estado, da Igreja, da raça ou do partido a que o homem pertence (etc.) são
igualmente insustentáveis.

50
Fundamentos da Ciência Política

2.4 A política da opressão

A maior discussão política desde Platão é: quais são os limites da vida em sociedade? Lembremos
que para os gregos o importante era o que acontecia dentro da polis – a cidade-estado grega. Viver fora
da cidade era buscar os perigos da natureza, o que não fazia o menor sentido.

Platão pensou que nem sempre a liberdade permitia aos homens a melhor condução da sociedade.
Vimos antes como ele acreditava que o excesso de democracia tornaria os cidadãos corruptos. No seu
sentido político original, a utopia de Platão escrita na obra República sugeria que muitas vezes eram
necessárias tiranias ou regimes duros para “pôr a casa em ordem”.

A Filosofia cunhou o conceito de absolutismo para toda forma de governo autoritária. O termo
surgiu na primeira metade do século XVIII para indicar toda doutrina que defenda o “poder absoluto”
ou a “soberania absoluta” do Estado. O absolutismo na Igreja Católica reivindicava para o Papa, como
representante de Deus sobre a Terra, a soberania absoluta sobre todos os homens, inclusive os príncipes,
os reis e o imperador. Mas Hobbes defendeu o absolutismo para o benefício do rei, o que foi posto em
prática desde o Renascimento, até o início do século XX.

Como contraponto desse poder absoluto de um sobre todos, surgiu o absolutismo democrático,
teorizado por Rousseau no Contrato Social e adotado por Marx e pelos escritores marxistas como
“ditadura do proletariado”. Todas essas formas do absolutismo defendem igualmente, embora com
motivos ou fundamentos diferentes, a exigência de que o poder estatal seja exercido sem limitações
ou restrições.

Nesse sentido, o protótipo do absolutismo enquanto doutrina política moderna é o idealismo


romântico, segundo o qual, na Filosofia, não é o filósofo como homem que se manifesta e fala, mas o
próprio Absoluto que chega à sua consciência e se manifesta. Em outras palavras, a ideia é superior ao
pensamento de um indivíduo, portanto o ser humano apenas serve de mensageiro das ideias.

Tal mística romântica é que serve de fundamento tanto para o fascismo quanto para o nazismo ou o
comunismo. Qualquer ideologia que pensa em abranger a totalidade absoluta do ser esquece que apesar
de a liberdade real do ser humano ser a liberdade de escolha dentro de limites, nem por isso esquecemos
que há uma ideia de liberdade total, na qual ninguém deve nada a ninguém nem precisa colaborar com
o outro para ser livre.

2.5 Fundamentos do poder político

O fundamento do poder político é o exercício do poder. Mas o poder pode ser entendido de três
formas básicas: a substancialista, a subjetivista e o poder relacional (BOBBIO, 1980). No substancialismo,
o poder é uma substância, uma coisa, um conjunto de elementos externos ao homem. Então, o poder
tem concretude, e quem se apossar dele controlará os demais. O poder é, portanto, um meio do qual
alguns se apropriam para alcançar um determinado fim. A substância que confere poder muda de
acordo com o contexto histórico: pode ser um símbolo, pode ser o dinheiro.

51
Unidade I

Essa substância nem sempre é concreta, pois muitas vezes é expressa apenas em termos do
domínio tecnológico. Mas a tecnologia acaba por fornecer armas que permitem concretizar o poder.
Em tempos de paz, a inteligência, a riqueza econômica e os símbolos religiosos substituem em parte
o poder das armas.

É esta a opinião de Hobbes que caracteriza o poder soberano pela concentração dos meios. Isso
permite que alguém exerça a força, com o objetivo de comandar o conjunto da sociedade. A concepção
substancialista enfatiza o caráter vertical e assimétrico do poder. A ação do poder é hierárquica, e quem
o detém exerce uma persuasão para obter o comportamento desejado. Esse tipo tem como qualidade
maior a coerção, a força que uma pessoa exerce sobre a outra.

Max Weber observou que mesmo que a natureza ofereça o suficiente para a satisfação de todos os
homens, alguns se apropriam de mais do que precisam, gerando a escassez, o conflito e a dominação.
O próprio poder seria assim um bem escasso, apropriado por uns em detrimento de outros. Mas como
é possível ver essa ideia do poder funcionando numa sociedade democrática? Por princípio, numa
democracia, o poder estaria distribuído entre iguais. Mas, num regime absolutista ou totalitário, podemos
identificar na força a origem do poder.

Há também a ideia subjetivista do poder. Nessa teoria, o poder é um atributo de determinados seres
humanos, uma capacidade individual que permite influenciar o comportamento das outras pessoas. É
desse modo que Locke entende o poder. Os atributos de um indivíduo ganham objetividade ao serem
reconhecidos e referendados pelo grupo. Esse é o entendimento de poder da perspectiva liberal. A
competição entre os indivíduos possibilita que os mais aptos se destaquem e ocupem as posições
hierarquicamente superiores.

O sociólogo norte-americano Talcott Parsons adota uma visão mais simples do poder que
opera na sociedade moderna. Utilizando a distinção feita por Weber entre força e poder legítimo,
Parsons não acredita que a coerção atue nas sociedades democráticas (LEBRUN, 1984). Para ele,
nessas sociedades atuam fatores como a tradição, os costumes e as crenças como catalisadores
do consenso, em torno do interesse comum, configurando-se na autoridade e no poder. Parsons
(1983) acredita que para existir uma relação de poder são necessárias legitimidade e confiança:

[...] é uma capacidade generalizada de garantir a execução de compromissos


obrigatórios assumidos por unidades de um sistema de organização
coletiva, quando as obrigações são legitimadas com respeito à sua relação
com metas coletivas e quando, havendo recalcitrância, existe a garantia de
cumprimento através de sanções situacionais negativas – qualquer que seja
a agência real incumbida dessa garantia (PARSONS, 1983, p. 24).

Segundo Parsons (1983), haveria ênfase dos compromissos mútuos, que impediriam os
detentores da força de exercer o poder. A autoridade seria estabelecida pela competência
demonstrada e da confiança adquirida junto ao grupo. A legitimidade da autoridade estaria
fundamentada no bem comum.

52
Fundamentos da Ciência Política

A questão que surge é se a obediência das regras pelos cidadãos é o resultado da percepção de que
seus representantes elaboraram as leis que eles aprovam ou se a obediência aos princípios legais está
baseada no temor da punição. Para Lebrun (1984), a ordem social não advém de um poder fundado na
autoridade e no consenso; resulta da coerção, e quando as pessoas estão livres do controle, transgridem
as regras.

O exercício do poder também é entendido como a relação entre as pessoas, quando uma delas obtém
sucesso ao provocar um comportamento na outra. Esta é a formulação de Robert Dahl (1988) que
correlaciona poder e liberdade. O exercício do poder de um sujeito sobre outro limita a liberdade do que
sofre a ação. Quando alguém exerce o poder, o outro tem sua liberdade restringida. Se alguém goza de
liberdade, o efeito é o não poder do outro. Segundo Dahl, o poder opera na forma de um jogo, e nunca
se impõe de maneira unilateral.

Como a ação da força supõe a resistência, a assimetria entre força e resistência nunca é definitiva.
A tensão caracteriza as relações de poder derivadas da força. Com essa concepção de poder relacional,
percebe-se que o ser humano é sujeito e, ao mesmo tempo, objeto do poder. Assim, a ideia de poder com
substância perde o sentido. Sem ação, não há poder.

Mas, na política, o convencimento do outro não é resultado da violência. A boa política é induzir
o comportamento do grupo sem a necessidade da coerção, mas com o convencimento. Esse poder
conquista a obediência, sem o uso da violência ou da posse de bens materiais. Aqueles que obedecem
entendem tal obediência como uma dominação legítima ou como o exercício do poder de autoridade.
Max Weber classificou três tipos de dominação legítima: a de caráter racional, a baseada na tradição e
aquela fundada no carisma (WEBER, 1991).

O exercício do poder legítimo de caráter racional tem como agente a autoridade legalmente
constituída; é o poder legal encontrado nas sociedades modernas. Sua base é o ordenamento
jurídico, que submete a todos em igual grau. Tanto as autoridades quanto os cidadãos obedecem
aos princípios legalmente instituídos. As leis criam o fundamento legal para o contrato entre
os membros da sociedade. O exercício da autoridade é racional e se justifica pelo interesse
comum. O ordenamento jurídico é impessoal e a execução do poder se faz pelo corpo de
funcionários selecionados pela competência, a chamada burocracia. A pretensão moderna é
impedir a dominação de um tirano. No Estado moderno, os cidadãos obedecem à autoridade
juridicamente estabelecida.

Segundo Weber, a outra forma de dominação legítima é a de caráter tradicional. O exercício do


poder está vinculado à crença nos costumes herdados e sedimentados. O poder tradicional tende a ser
patriarcal. O agente do poder estabelece um vínculo de patriarca, que pode ser também patronal, com
seus servidores. O mandatário espera dos servidores a fidelidade pessoal. Os dominados assumem o
perfil de súditos.

A terceira forma de poder legítimo é a carismática. A autoridade é reconhecida por algum valor
supremo do chefe, revelado por ações no campo religioso ou militar ou no enfrentamento de alguma
provação. Os dominados assumem como um dever a obediência ao líder carismático. O carisma
53
Unidade I

exerce o poder com apelos emocionais, como se uma missão tivesse de ser cumprida. Seus súditos
recebem da autoridade um apoio afetivo e inquestionável. No poder, o líder carismático valoriza seus
seguidores de confiança.

Locke investigou o critério da legitimidade para distinguir as esferas de poder. O poder paterno
tem um fundamento natural. A condição de gerador é que confere ao pai a ascendência sobre o filho.
O poder do senhor sobre o escravo, por sua vez, tem uma legitimidade baseada no princípio do grave
delito que gerou, como punição, o estado de servidão. Esse grave delito poderia ser simplesmente perder
uma batalha na defesa de seu povo.

Diferente das formas de poder anteriores, o poder civil teria sua legitimidade fundada no consenso
explícito dos cidadãos. Como informa Bobbio, “[...] trata-se de três formas clássicas do fundamento de
toda a obrigação: ex natura, ex delicto, ex contractu” (BOBBIO, 1987, p. 79), ou seja, o poder opera sobre
bases distintas em cada caso: a base natural, o poder por decorrência de um delito e a base contratual.
Em que pese o esforço desses pensadores, acrescenta Bobbio, a distinção entre as formas de poder
opera, nesse caso, no âmbito dos valores.

As argumentações apresentadas por Aristóteles e Locke demonstram como deveria ser cada
forma de poder, sem levar em conta o exercício real do poder. Esses argumentos não explicam
por que as autoridades do poder civil às vezes se comportam como pais ou ditadores perante os
cidadãos. Então utilizamos outro critério para caracterizar o poder civil; o conceito de soberania,
conceito que foi historicamente associado ao Estado. O Estado é visto como a instituição que
concentra o poder de exercer a força física, a coerção, sobre uma população dentro de um
determinado território.

Hoje em dia, é essa característica que distingue o poder civil dos demais poderes. Na teoria política
moderna, também a força desempenha um importante papel na caracterização do poder. Weber nota
tal distinção quando escreve: “Poder significa toda oportunidade de impor sua própria vontade, no
interior de uma relação social, até mesmo contra resistências, pouco importando em que repouse tal
oportunidade” (WEBER, 1971, p. 219).

Nessa definição, Weber associa o poder à força, ao utilizar os termos “imposição” e “resistência”.
Poder é justamente o comando de uma ordem, que um indivíduo ordena a outro, na expectativa de que
seja obedecido. A combinação entre a ordem e a obediência constrói o campo do poder. A dominação é
expressa pela possibilidade de uma ordem ser cumprida por uma pessoa ou um grupo, seja por ação de
uma força explícita ou implícita.

Para Weber, o poder político não se caracteriza pela ação coercitiva o tempo todo. O desafio político
é justamente construir da legitimidade da autoridade. A eficiência do poder é medida pelo grau de
obediência imposto pela disciplina. O poder é eficiente quando a resposta ao comando é rápida, simples
e automática.

54
Fundamentos da Ciência Política

2.6 Breve história da força

Precisamos sempre lembrar que a democracia no Ocidente deixou de existir quando a República
Romana se transformou em império, o que ocorreu depois de uma guerra civil comandada por militares,
quando o general Caio Júlio César assumiu o poder. Nesse momento começa o Império Romano.

No Império Romano, e até a Idade Média, a ideia de sociedade de classe é cada vez mais fortalecida.
Assim, depois de quatro séculos de império, vamos ver que os senhores de terra, os militares agora
chamados de cavaleiros, reorganizam o território da Europa, sempre a partir da força.

Quando a Igreja Católica começa a insistir em se tornar proprietária de terras e assumir a força militar,
essas duas características terrenas passam a ser uma dádiva de Deus. A vitória militar também passa a
ser considerada um presente de Deus. Isso bastou para que todos os cavaleiros resolvessem prestigiar a
autocracia religiosa, ou seja, o poder maior passou a ser daqueles que falavam em nome de Deus.

No Renascimento, para diminuir a força das autoridades religiosas, os pensadores formularam a


ideia de uma tirania sem a participação decisiva do poder religioso. O Iluminismo aplaudiu a ideia, e os
reis que adotaram essa forma de governo foram chamados de déspotas (tiranos) esclarecidos. A ideia
desse “esclarecimento” era que a razão devia pautar seus comandos, e não mais os motivos religiosos. O
poder viria da vontade, e não mais do destino.

Do ponto de vista do poder, foi a técnica que acabou com essas monarquias esclarecidas.
Resumidamente, aconteceu da seguinte forma: os reis sustentavam os religiosos para serem apoiados
na sua forma de governar. Mas quando a ciência abriu terreno para as grandes navegações, e logo depois
para a Revolução Industrial e o uso das máquinas, a classe dos burgueses, que eram historicamente
dominadas pelo poder militar dos reis, pensou que estava na hora de mudar o jogo.

Isso aconteceu de fato no final do século XVIII, com a Revolução Americana em 1772 e a Revolução
Francesa em 1789. Na França, a forma repúblicana de governo durou apenas dez anos. No século XIX, a
Monarquia Francesa foi restabelecida. A República dos Estados Unidos da América dura até hoje.

Depois da Primeira Guerra Mundial, as monarquias foram derrotadas na Rússia e na Alemanha. A


França já tinha voltado a ser república antes da guerra. Surgiu então a ideia de democracia como forma
adequada dos governos. Somente depois da Segunda Guerra Mundial é que foi formado o consenso de
que a melhor forma de governo para um país é a democracia.

2.7 A instituição da Ciência Política

Os dois autores que podem ser considerados os fundadores da Ciência Política são Maquiavel
(1469-1527) e Hobbes (1588-1679). É notável a coincidência de que os dois pensaram a política no
período histórico em que os burgueses aparecem de fato na vida política da sociedade ocidental. O
que estimulou esse avanço da burguesia foi o aquecimento do comércio, que permitiu a criação dos
bancos, e as grandes navegações, que proporcionavam altos lucros para aqueles que investiam no
financiamento das expedições.
55
Unidade I

Mas apesar da importância de Maquiavel, que estudamos anteriormente, há uma disputa


ideológica de quem foi o fundador da Ciência Política. Maquiavel e Hobbes perceberam como a
sociedade estava mudando e pensaram as formas de política que vigoram até hoje.

Primeiro Maquiavel percebeu que na formação da unidade nacional a política hierarquicamente


verticalizada iria se impor. Mas foi Hobbes quem teorizou a ideia do Estado Absoluto, que foi a ideia que
acabou vingando e construindo a formação dos Estados nacionais modernos.

Hobbes propôs com lógica uma teoria que justificou o poder absoluto do Estado contra o
indivíduo. A teoria era puramente filosófica e dedutiva, mas seu primeiro resultado foi não
apenas a necessidade de impor uma monarquia absoluta, mas também o fundamento racional
do poder, que justifica o modelo de Estado. Sua maior obra, o Leviatã, abriu espaço para o Estado
totalitário, despótico. Hobbes percebeu que a política como instância autônoma é diferente e
superior em relação à religião e à moral, porque consegue criar e impor a verdade, ou seja, ideias
que as pessoas conseguem entender, o que é melhor do que simplesmente criar ideias nas quais
as pessoas precisam acreditar.

Hobbes não era um defensor do Estado despótico, tirânico, no qual o mandatário por capricho
individual e desejos privados impõe a sua vontade pessoal ao povo. Sua obra propunha que se
incutisse o temor nos cidadãos em nome do interesse público maior, que é a preservação da
paz e da vida. Hobbes e Maquiavel tinham percebido que a política tem uma lógica própria. O
governante deve se adaptar à lógica da política de sua sociedade, para fundar o Estado e fazê-lo
funcionar. O mandatário que não atender a essa regra coloca em risco a sua autoridade e também
a estabilidade da sociedade.

No século XVI, esse tipo de pensamento era considerado radical. Isto porque Hobbes entendia que o
Estado, para existir, devia ser autossuficiente, diferente e independente da religião e da moral. Seu Estado
funcionaria como uma máquina regida por uma lógica objetiva. O Estado seria, portanto, a instituição
que de fato possibilita a existência da sociedade e do indivíduo. Essa visão de Hobbes incorporou a
ciência que nascia naquele momento, principalmente com as ideias de Bacon (1561-1626) e Galileu
(1564-1642) e o desenvolvimento da metodologia científica desenhado por Descartes (1596-1650). Os
religiosos detestaram tais ideias.

Maquiavel, mesmo sem trabalhar com a elaboração de um saber científico, é considerado o fundador
da ciência porque pensa o Estado. Em Maquiavel há uma dimensão humana, subjetiva, que atua
através da virtude do príncipe. Em outras palavras, quem manda deve ter sensibilidade aos desejos da
sociedade. Para Maquiavel, a religião desempenha uma força na sustentação do mundo político, sempre
a serviço do poder. Aqui surge uma diferença entre Maquiavel e Hobbes, pois o italiano acreditava que
a sociedade é consequência do Estado. A análise da realidade política de Maquiavel, embora sem estar
estruturada num método científico de análise, levou em conta os fatos históricos. A partir desses fatos,
ele construiu um raciocínio indutivo sobre o funcionamento do jogo político. Em outras palavras, a
lógica de Maquiavel era de que, se alguma coisa tinha funcionado em determinada época, poderia
funcionar também em outra.

56
Fundamentos da Ciência Política

2.8 O Estado é consequência da Ciência Política

É interessante pensar que quando falamos do Governo do Estado, ou do Estado Nacional, não nos
damos conta de que muito antes da ideia do Estado substituir a de reino como forma de organizar uma
sociedade que habita um território, não existia nenhum Estado na forma em que quase todos os países
do mundo são constituídos hoje.

A palavra “Estado” pode ser descrita como uma organização jurídica que exerce coerção sobre todas
as pessoas de uma sociedade. Quem primeiro utilizou a palavra Estado, na forma que dizemos hoje em
dia, foi Maquiavel no seu livro O Príncipe (1513).

Existem três formas de se pensar o Estado moderno. A concepção organicista se baseia na ideia
de que o Estado é independente dos indivíduos e anterior a eles, ou seja, primeiro existe o Estado
e depois surgem as pessoas que o compõem. A concepção contratualista defende que o Estado é
criado pelos indivíduos através de um contrato, que é a constituição. Já a concepção formalista
acredita que o Estado é uma formação jurídica, ou seja, um ordenamento que só existe depois da
constituição. As duas primeiras concepções estão presentes desde os gregos, e a terceira forma
data do século XX.

A concepção organicista nasce da analogia entre o Estado e um organismo vivo. O Estado seria um
homem em grandes dimensões; suas partes ou membros não podem ser separados da totalidade. Então,
da mesma forma que um organismo precisa de todas as suas partes para existir, a totalidade precede as
partes. Essa concepção de Estado nasce com os gregos, e Platão considerava que no Estado as partes e
os caracteres que constituem o indivíduo estão escritos em tamanho maior e, portanto, são mais visíveis
(PLATÃO, 2000).

Aristóteles afirmou que:

O Estado existe por natureza e é anterior ao indivíduo, porque, se o indivíduo


de per se não é autossuficiente, estará, em relação ao todo, na mesma relação
em que estão as outras partes. Por isso, quem não pode fazer parte de uma
comunidade ou quem não tem necessidade de nada porquanto se basta a si
mesmo não é membro de um Estado, mas fera ou Deus (ARISTÓTELES, 2008).

Esses pensamentos ressurgem na história da Filosofia, mas, no mundo moderno, foi o romantismo
que celebrou o caráter superior e divino do Estado. Segundo Fichte, na nossa época, mais do que em
qualquer outra que a precedeu, todo cidadão está submetido à finalidade do Estado, está completamente
compenetrado dele e tornou-se seu instrumento (FICHTE, [s.d.]).

Essa mesma concepção de Estado foi descrita por Hegel (2010) de uma forma curiosa, porque ele
comparou o Estado a Deus:

O ingresso de Deus no mundo é o Estado: seu fundamento é a potência da


razão que se realiza como vontade. Na ideia do Estado não se devem ter em
57
Unidade I

mente estados particulares, instituições particulares, mas considerar a ideia


por si mesma, este Deus real (HEGEL, 2010, p. 78).

No pensamento de Hegel (1999), como o Estado é um “Deus no mundo”, a existência racional do ser
humano só existe dentro dele:

Só no Estado o homem tem existência racional. A educação tende a fazer que


o indivíduo não permaneça como algo de subjetivo, mas se torne objetivo de
si mesmo no Estado. [...] Tudo o que o homem é, deve-o ao Estado: só nele
tem sua essência. O homem só tem valor e realidade espiritual por meio do
Estado (HEGEL, 1999, p. 90).

Interessante notar que, na percepção organicista de Estado, a religiosidade se transforma no dever


cívico do indivíduo. Fazer em nome do Estado equivale a fazer em nome do todo, e dever obediência ao
Estado equivale a dever obediência a Deus.

Na concepção contratualista, o Estado é obra humana. Essa é a concepção dos estoicos, que
consideravam o Estado como res populi. Segundo Cícero, o Estado (res publica) é coisa do povo, e
o povo não é qualquer aglomerado de homens reunido de uma forma qualquer, mas uma reunião
de pessoas associadas pelo acordo em observar a justiça e por comunidade de interesses (CÍCERO,
2011). Portanto, o Estado era antes de tudo uma República, coisa do povo e organizada pelo povo.

Essa concepção é simetricamente oposta à primeira. O Estado não tem dignidade ou poderes que os
indivíduos não tenham conferido ou reconhecido, e sua unidade não é substancial ou orgânica e não
precede nem domina seus membros ou suas partes. A unidade vem do pacto ou da convenção entre as
pessoas, e só vale nos limites de validade do contratado. Mas Rousseau distingue entre a vontade de
todos e a vontade geral:

Aquela (vontade de todos) visa somente ao interesse comum; esta (vontade


geral) visa ao interesse pessoal e é a soma das vontades particulares; mas
retire-se dessa vontade o mais e o menos que se destroem mutuamente e
ficará, como soma das diferenças, a vontade geral (ROUSSEAU, 2013, p. 15).

Embora Rousseau justifique a vontade geral como uma soma algébrica das vontades particulares, ela
é parecida com a racionalidade perfeita do Estado orgânico.

As duas primeiras concepções de Estado são aquilo que os juristas consideram hoje o aspecto
sociológico do Estado, ou seja, sua realidade social. O Estado é considerado a comunidade formada
por um grupo social que reside num determinado território. Essa concepção fundamentou a
descrição de Estado formulada por juristas e filósofos do século XIX, independentemente de sua
corrente filosófica. O Estado é entendido como resultado de três elementos: a soberania, o povo
e o território. Desses três elementos eram feitas descrições independentes do conceito filosófico
de Estado.

58
Fundamentos da Ciência Política

Para o austríaco Ians Kelsen (1881-1973), o Estado é simplesmente a ordenação jurídica em seu
caráter normativo ou coercitivo:

Há um único conceito jurídico de Estado, que é o de ordenação


jurídica (centralizada). O conceito sociológico de modelo efetivo de
comportamento orientado para a ordenação jurídica não é um conceito
de Estado, mas pressupõe o conceito de Estado, que é o conceito jurídico
(KELSEN, 1949, p. 192).

Dito de forma simples, o Estado “[...] é uma sociedade politicamente organizada porque é uma
comunidade constituída por uma ordenação coercitiva, e essa ordenação coercitiva é o direito” (KELSEN,
1949, p. 194).

Kelsen não nega que existam fatos, ações e comportamentos ligados à ordenação jurídica estatal,
mas afirma que tais fatos, ações ou comportamentos são manifestações do Estado, só enquanto
acontecem “[...] segundo uma ordenação normativa, cuja validade deve ser pressuposta” (KELSEN,
1949, p. 193). Essa doutrina define de modo simples e elegante os elementos tradicionalmente
reconhecidos como próprios do Estado. O território é “[...] a esfera territorial de validade da
ordenação jurídica chamada Estado” (Ibidem, p. 212). Isso significa que um Estado pode crescer e
diminuir de tamanho.

O povo é a “esfera pessoal de validade da ordenação”, ou seja, as pessoas que aceitam a ordenação
jurídica (KELSEN, 1949, p. 237). Assim, qualquer imigrante que resolve habitar num outro Estado
automaticamente aceita as regras daquele Estado.

Já a soberania, segundo Kelsen, depende da escolha que se faz do primado do direito estatal ou
do direito internacional. Na primeira hipótese, do direito estatal, o Estado é soberano só em sentido
relativo, pois nenhuma outra ordenação, que não a internacional, é superior à sua ordenação jurídica. Na
segunda hipótese, a do direito internacional, o Estado é soberano no sentido absoluto e original do termo
(KELSEN, 1949). Ou seja, um Estado pode ser aceito ou destruído por outros Estados, independentemente
da forma que seus habitantes o constituem, seja pela ideia de organicidade ou de contrato.

O pensamento de Kelsen simplifica o conceito de Estado, reunindo todos os elementos deste na noção
fundamental de ordenação jurídica. Esse novo conceito de Estado de Kelsen não estabelece diferença
entre o Estado absolutista e o Estado liberal, ou entre o Estado democrático e o Estado totalitário. A
expressão “Estado de direito”, que é o Estado que respeita e garante os direitos do indivíduo, do ponto
de vista de Kelsen, não faz sentido.

Para Kelsen, Estado e direito são a mesma coisa. Mas como explicar então a eficácia e os limites da
coerção que acontecem em todos os Estados? Quais são os limites da ação do Estado sobre a religião,
os costumes e a educação moral? Outra complicação é que nesta formulação de Estado podem existir
leis que acabam se anulando, pois podem beneficiar igualmente dois grupos diferentes de pessoas. Por
exemplo, como podemos estabelecer as regras à livre circulação das pessoas, quando elas podem se
locomover a pé, de automóvel ou de transporte público? Alguma coisa deve determinar a hierarquia do
59
Unidade I

que é mais importante para a totalidade dos indivíduos. Em outras palavras, a concepção de Kelsen é
tão técnica que se afasta das questões da vida real. Para resolver esse problema, surgiu um atributo do
Estado, que é a nação.

2.9 O Estado nacional

Todos os países do mundo hoje em dia se entendem como Estados nacionais. A nacionalidade rege a
circulação das pessoas pelo planeta. Por isso, existem passaportes, que conferem uma qualidade jurídica
às pessoas. Na maioria dos países modernos, o passaporte serve como único documento de identidade,
pois permite a circulação dentro e fora do país.

Na antiguidade, uma nação era o conjunto de muitas tribos de um mesmo ramo familiar. Uma nação
era o reconhecimento de que todos eram parentes. Hoje em dia, a ideia de nação moderna muitas vezes
se confunde com a de Estado. Mas há uma diferença de qualidade.

O conceito de espírito nacional foi criado por Montesquieu no século XVIII. Segundo Montesquieu,
muitas coisas conduzem os homens: o clima, a religião, as leis, os princípios de governo, as tradições, os
costumes, os usos e a partir daí se forma o espírito nacional geral, que é seu resultado (MONTESQUIEU,
2005). Montesquieu chamou o espírito nacional de “alma universal”, mas não conseguiu explicar naquela
época sua importância para a construção do Estado.

Hegel (1999) foi quem concebeu o espírito nacional como o verdadeiro sujeito da história:

O espírito nacional da história é um indivíduo de natureza universal mas


determinado: em geral, uma nação; o espírito nacional de que tratamos
é o espírito da nação. Os espíritos nacionais das nações distinguem-se
conforme a ideia que fazem de si mesmos, conforme a superficialidade ou a
profundidade com que compreenderam e aprofundaram o que é o espírito
nacional (HEGEL, 1999, p. 47).

Isso é que permite que todos nós sejamos brasileiros, independentemente de raça ou credo religioso.
É o espírito nacional que une as pessoas em torno da defesa do Estado. Então, já que é possível
entendermos a concepção de Estado apenas como um conjunto de regras jurídicas, as pessoas aceitam
essas regras de acordo com a ideia que fazemos do que é a nossa nacionalidade. Isso geralmente é
expresso através de símbolos, como o hino e a bandeira nacional. Mas também acaba sendo expressado
através de costumes, como a culinária nacional ou o cuidado com o patrimônio público e privado. O
espírito nacional é o que confere ao Estado o atributo ou a qualidade para que ele seja considerado
um país. Neste sentido, muitos países do mundo congregam duas ou mais nações. Alguns adotam a
forma jurídica de confederação, em que os diversos Estados gozam de certa autonomia, mas as Forças
Armadas, e o regime econômico seguem diretrizes aceitas por todos. Outros são federações, onde a Lei
Maior, a Constituição, é aceita por todos, e as leis locais são obrigadas a respeitar essa Lei Maior.

Segundo Hegel (1999), pode acontecer que um espírito nacional assuma o papel de “espírito do
mundo” (Weltgeist), de guia e sujeito único da história.
60
Fundamentos da Ciência Política

O Weltgeist é o espírito do mundo, tal como ocorre na consciência humana;


os homens estão para ele como as realidades singulares estão para a
totalidade que as consubstancia. E esse espírito do mundo conforma-se ao
espírito divino, que é o espírito absoluto. Assim como Deus é onipresente,
está em todos os homens, aparece na consciência de cada um, isso é o
espírito do mundo (HEGEL, 1999, p. 118).

Essa noção de espírito do mundo (Weltgeist) é o que está por trás de movimentos de libertação, de
revolta e até mesmo do movimento ecológico.

Quando um país se torna um Estado autoritário, o espírito do mundo permite que seus cidadãos lutem
por uma democracia. Quando o Estado se torna corrupto, o espírito do mundo clama por honestidade
e justiça. Quando as empresas decidem matar as baleias, ou destruir as montanhas em nome do lucro
privado, é o espírito do mundo que se revolta.

Resumo

Quando pesquisamos e analisamos a participação política de um grupo


dentro de uma sociedade, ou de toda uma cidade, ou mesmo de um país,
estamos fazendo Ciência Política. A Ciência Política pesquisa os valores dos
indivíduos dos grupos que formam uma sociedade. Pesquisas de opinião
medem a evolução da cultura política e seus efeitos sobre as instituições.

Desde Aristóteles, os pensadores verificaram que existe uma relação


entre a natureza do local onde as pessoas habitam e seus comportamentos.
O desenvolvimento desses comportamentos acaba por moldar uma
determinada forma de viver naquele lugar. Essa forma de comportamento,
quando compartilhada por um grupamento humano, recebe o nome de
cultura. A cultura é o que cria a diferença entre os seres humanos e os
animais. Os animais ainda vivem no estado de natureza e obedecem a seus
instintos, que seguem as leis básicas que regem todos os organismos vivos:
sobreviver e se reproduzir. Por outro lado, as ações humanas organizadas
pela cultura repelem o estado de natureza, criam regras de convivência
e assim acabam por impelir os seres humanos a adaptarem a natureza,
criando assim um ambiente propício para sua existência.

A ideia de igualdade nasce com a percepção de que todos os


seres racionais pensam com a razão. Se todos têm esta capacidade,
eles devem ser considerados iguais. Mas existem dificuldades quando
pensamos na igualdade, pois nem todas as pessoas exercem autoridade
dentro do grupo da mesma forma. Então a diferença entre aqueles que
têm autoridade e aqueles que não têm serviu por muito tempo como
uma linha divisória entre as pessoas. Para justificar isso, os filósofos
61
Unidade I

tentaram explicar que algumas pessoas são mais inteligentes ou mais


sábias do que outras. Eventualmente essa qualidade seria um dom divino,
dado por Deus. O problema é que toda justificativa da autoridade de
alguns sobre a maioria cria uma exclusão: os que podem e os que não
podem. Para que se possa organizar uma república, e implantar uma
democracia, é necessário que todos sejam considerados iguais. Assim, a
vontade individual pode ser respeitada.

A autoridade é a possibilidade de se exercer o poder. Mas todo poder


deve ser exercido segundo princípios. O princípio mais simples para
fundamentar a autoridade é quando as pessoas alcançam o consenso
de que alguém tem o direito de exercê-lo. Mas para que isto aconteça
de uma forma controlada, é necessário que se organize um conjunto de
regras, às quais comumente damos o nome de leis. As leis podem ser feitas
a partir de um contrato entre todos, ou podem ser feitas para aceitar as
peculiaridades de cada um. Mas como nenhuma autoridade se mantém
indefinidamente, é necessária a política enquanto espaço de negociação
da autoridade.

A política foi desde os gregos pensada como uma arte e como uma
ciência. Política enquanto arte é a forma como um ser humano molda
seus comportamentos para obter sucesso entre seus pares. Por outro lado,
a política como ciência serve para governar, e governar politicamente
é liderar uma comunidade em favor de determinadas metas. Como as
metas acabam visando ao bem de todos, o governo acaba deixando de
lado as necessidades pessoais de cada um. Então, quando há governo,
muitas pessoas serão obrigadas a fazer o que não querem, para que todas
alcancem as metas gerais. Isso pode ser feito através do exercício da força
de uma pessoa ou de um pequeno grupo de pessoas, mas pode também
ser alcançado nas discussões de uma sociedade, quando o consenso obtido
através do voto determina a vontade da maioria.

Na Idade Moderna, os pensadores perceberam que a liberdade é o


espaço de exercício da vontade do ser humano. Sem ter liberdade, não é
possível ter ou exercer nenhuma vontade. A vontade é a condição primeira
para a liberdade, e a maior prova de liberdade é poder fazer escolhas.

O conceito de nação começou a ser formado a partir do conceito de


povo, que dominou a filosofia política do século XVIII. O povo nasce da
vontade comum, que é a base do pacto de sua formação. Já a nação é
constituída por vínculos independentes da vontade dos indivíduos: a nação
supera as diferenças de etnia, de religião, da língua e de outros elementos
que pertencem à cultura da tradição.

62
Fundamentos da Ciência Política

Hegel disse que o “espírito de um povo” é o fundamento do conceito


de nação, além de ser uma manifestação de Deus no mundo. O espírito
dos povos é composto de duas partes: o “Espírito do Mundo” e a “Razão
Universal” que preside os destinos do mundo. Segundo Hegel, o povo que
melhor espelha nacionalmente essas duas qualidades é aquele que domina
os outros. O nacionalismo nasceu como uma explicação filosófica para
explicar a importância de um país no contexto dos demais países, isso antes
de se tornar uma ideologia prática. Mas como a explicação demonstrou,
como alguns países dominam os outros, isso serviu para a inspiração da
ideologia nacionalista.

Na linguagem comum e nas disciplinas da Sociologia, a palavra


sociedade costuma ser usada com o significado de conjunto de indivíduos
caracterizados por uma atitude comum ou institucionalizada. Neste
sentido, a ideia de sociedade designa tanto um grupo de indivíduos quanto
a instituição que caracteriza esse grupo, como acontece nas expressões
sociedade comercial, sociedade capitalista ou mesmo sociedade
brasileira. Esse emprego é tão óbvio que não se encontram definições
filosóficas ou científicas dele. Mas há uma pequena parcela da sociedade que
chamou especial atenção à Sociologia contemporânea. São os indivíduos
que de alguma forma exercem autoridade sobre as outras, dominando a
política. Tais pessoas não aceitam ser incluídas facilmente em qualquer
sociedade, pois se acham superiores a elas. Isso é verificado através da
percepção do individualismo, e é o individualismo que determina no fundo
a forma de aceitação das leis e toda a conformação do direito.

Existe uma tensão entre a defesa dos direitos individuais e a dos direitos
coletivos. Isso porque o liberalismo acredita que os direitos individuais se
sobreponham aos direitos da coletividade da sociedade. Para que haja um
governo, é necessário que se organize a sociedade sempre a partir de uma
hierarquia representativa. Cada grupo social vota em um representante
para defender seus direitos. Mas como os mais ricos acreditam que são uma
elite, não desejam que o Estado atrapalhe suas formas de interação com os
demais. Acreditam que são uma elite porque dominam as riquezas dentro
de uma sociedade. A forma mais fácil de se conseguir esse tipo de defesa é
através do nacionalismo. Muitos instrumentos legais de inspiração liberal,
porém, vieram ajudar todas as pessoas. São as legislações que reconhecem
os direitos individuais – por exemplo, os Direitos Humanos.

A nobreza e o clero acreditavam que fossem superiores por direito divino


e detinham a posse das terras numa sociedade em que a maior criação de
riquezas vinha da agricultura. A permissão de trabalhar a terra era uma
concessão das classes superiores aos camponeses.

63
Unidade I

Rousseau acreditava que o ordenamento político capaz de civilizar e


libertar a sociedade só acontecesse com a soberania absoluta do povo. Mas
Hobbes, ao elaborar a teoria do poder absoluto do Estado, desconfiou da
natureza humana e sugeriu que, se os indivíduos não fossem controlados
por um poderiam maior, podem tentar sua destruição mútua. Então, quando
os burgueses resolveram depor as monarquias e o poder do clero, adotaram
o liberalismo, no qual a legitimidade do poder deve estar baseada no
consentimento e as autoridades devem ser escolhidas democraticamente.
Trata-se de uma teoria e de um ideário político que defende o fim do direito
divino ao poder da monarquia e a superação da esfera privada como fonte
de legitimidade da autoridade política.

Mas os burgueses que estavam enriquecendo com a Revolução


Industrial também assumiram o ponto de vista de que os mais capazes e
trabalhadores são aqueles que enriquecem. Portanto, seus trabalhadores
deveriam se submeter às suas ideias e à sua forma de estruturar a sociedade.

A Sociologia nasceu da percepção de que o comportamento social pode


ser estudado cientificamente através de observações dos fatos sociais que
acontecem na realidade.

Este estudo pode ser qualitativo e propor uma teoria geral sobre o
comportamento social. Mas os fatos precisam ser medidos de forma
quantitativa para poderem fundamentar as teorias. Como os resultados
das aferições quantitativas nunca chegam a estar de acordo com as
teorias gerais, é necessário encontrar explicações específicas para
determinados comportamentos sociais. A principal tentativa sistêmica
no século XX foi baseada no marxismo e tentou explicar tudo a partir
do controle dos meios de produção. Mas os fatos superaram essa teoria
sistêmica, e hoje percebemos que os problemas ecológicos que afetam a
humanidade de modo geral devem ser resolvidos por medidas que estão
acima das ideologias.

O ideal moderno avança no sentido de uma cultura política da


participação geral. Isso permite a participação direta dos indivíduos,
superando a ideia de representatividade, que ainda facilita uma cultura
política da submissão das classes sociais.

A construção da identidade nacional é eficiente quando passa por


um processo de elaboração das identidades dos diferentes grupos,
principalmente daqueles que são impedidos de participar da política. O
desafio é permitir a participação política como substituição da luta entre
esses grupos, para a construção do interesse comum.

64
Fundamentos da Ciência Política

Isso é alcançado com uma educação que ensine às pessoas a autonomia,


que é a possibilidade de reflexão entre os valores herdados da tradição
cultural familiar ou de classe social, para que de forma autônoma o ser
humano escolha aquilo que ele deseja manter como valores válidos e
também os novos valores que deseja assumir.

As diversas formas de governo foram descritas por Platão. É importante


entender as diferenças entre a aristocracia, a oligarquia, a democracia, a
tirania e a monarquia.

Uma nação é organizada enquanto Estado para a manutenção da


soberania nacional. Mas a soberania pode ser preservada por diversas
formas de governo. Montesquieu percebeu que pode existir liberdade nos
diversos tipos de governo. Isso depende muito mais dos limites impostos
aos governantes pelas instituições do Estado, isto é, das leis.

O conceito de tirania tomou formas e nomes diferentes na Idade


Moderna: o absolutismo e o totalitarismo foram os termos que substituíram
tirania, mas o conceito não mudou. Todas essas palavras significam um
regime no qual o arbítrio individual ocupa o lugar da lei e o governo não
pode ser mudado a não ser pela violência.

Uma sociedade é construída através de vínculos pessoais que determinam


o compromisso entre as pessoas. Isso permite o estabelecimento de direitos
e deveres.

Existe uma diferença entre liberdade e igualdade. Percebemos que,


quando todos querem ter igualdade, precisamos antes determinar quais os
limites individuais da liberdade de cada um, já que todos têm os mesmos
direitos. Neste momento surge a solução para os iguais: se todos têm os
mesmos direitos, têm também os mesmos deveres para com os demais.

Existem duas concepções de liberdade que surgem do mesmo conceito


comum: a liberdade não conhece limites.

Precisamos entender a liberdade como um conceito que podemos


utilizar na prática. Caso contrário, a liberdade não permitirá de fato
nossas escolhas.

O poder pode ser visto como uma substância, como a capacidade subjetiva
de liderar e comandar ou como uma relação consentida entre duas pessoas.
A legitimidade do poder surge das leis, de uma tradição patriarcal, ou então
do carisma pessoal do mandatário. A força é sempre o que faz o poder ser
obedecido, mas a legitimidade é o que faz o poder ser respeitado.
65
Unidade I

A fundação da Ciência Política é creditada a Maquiavel e a Hobbes.

O Estado se forma a partir de uma concepção orgânica ou de uma


concepção contratual. A primeira concepção pensa o Estado como um
ser humano grande, e na segunda o Estado é formado pelas leis que o
constituem. Quando entendemos a concepção de Estado como um conjunto
de regras jurídicas, percebemos que o espírito nacional une as pessoas em
torno da defesa do Estado.

66
Fundamentos da Ciência Política

Unidade II
3 A democracia na Antiguidade Clássica

3.1 O nascimento da política

É possível identificar na Grécia Antiga e em Roma as principais explicações sobre a origem da vida
política que nos afeta até hoje.

Mas os gregos também identificavam suas principais explicações para suas origens em histórias
ainda mais antigas. Eles acreditavam no mito das “Idades do Homem”. A primeira é a Idade de Ouro,
quando os seres humanos conviviam com os deuses e eram também imortais. Os seres humanos
nasciam diretamente da terra. A vida transcorria em paz e harmonia, sem nenhuma necessidade de
leis e governo.

Então, no momento em que os humanos descobriram o fogo, Zeus os transformou em mortais, e a


Idade de Ouro acabou. Eles passaram a viver nas florestas, sem roupa nem moradia, sendo ameaçados
pelas feras e pelas intempéries, e precisavam caçar e colher frutos para viver. Com o fogo, conseguiram
aprender a cozinhar os alimentos, e em seguida passaram a trabalhar na metalurgia. Construíram
cabanas, teceram seu vestuário, fabricaram armas para a caça e finalmente formaram famílias.

Nesse momento, começa a Idade do Ferro, quando os homens organizados em grupos passam a
fazer guerra entre si. Entre a Idade do Ouro e a Idade do Ferro, os gregos acreditavam que tudo tivesse
acontecido numa transição entre a Idade da Prata e a Idade do Bronze. Como a guerra imperava, os
deuses então intervieram e enviaram aos homens um escolhido, que redigiu as primeiras leis, criando o
governo (CHAUI, 2000, p. 491).

Platão utilizou este mito – e também Cícero, séculos depois – para explicar através de uma
metáfora a origem das leis e sua importância na formação da política e da própria ideia de legislador.
As leis e os legisladores zelavam pela razão da vida política, instituindo a ordem, a harmonia e a
concórdia entre os seres humanos que viviam juntos numa polis – a forma grega de pensar a cidade e
o conjunto da sua população ao mesmo tempo. Portanto, foi o uso da razão para organizar a cidade
que fez surgir a política.

Essa descrição do nascimento da política pode ser encontrada numa série de referências que contém
algumas variações. Na obra do poeta grego Hesíodo O trabalho e os dias, a origem da vida política
começa com a doação do fogo aos homens, presente do semideus Prometeu. Com domínio do fogo, os
seres humanos puderam perceber-se como seres diferentes dos animais. Entenderam a necessidade e as
vantagens de viverem em sociedade para facilitar a produção, e a melhor forma de facilitar o trabalho
foi dividindo todas as tarefas em etapas, criando a cooperação.
67
Unidade II

Uma vez vivendo em comunidades, as tribos pediam aos deuses sua benção, e a maior delas
foi as leis para poderem formar governos. Descobriram então que os deuses não cuidam de todos
os problemas – é necessário encontrar soluções humanas para várias questões. Mesmo sem deixar
de acreditar nos deuses, os seres humanos criaram as leis e as instituições, o que fez surgir a
comunidade política.

Essa lenda é sintética o suficiente para se tornar uma teoria política, e foi o que os sofistas fizeram.
Para eles, tanto as ideias quanto as práticas e os costumes permitiram aos seres humanos as instituições
de convenções sociais, que acabavam sugerindo as leis. Assim, a tradição e os costumes constituem a
convenção, e foram a obediência e a defesa dessa convenção que fundaram a atividade política.

Observação

Os sofistas eram homens estudados, que se intitulavam filósofos.


Trabalhavam como professores particulares e como advogados, para
defender comerciantes nos julgamentos públicos nas praças dos mercados.
Sabemos das atividades dos sofistas através das obras de Platão, que,
seguindo a posição pessoal de Sócrates, seu professor, detestava os sofistas.
Para Sócrates, o conhecimento não pode ser vendido, e nenhum homem
sábio vende seus serviços de convencimento em favor de uma causa.

Outra ideia para o nascimento da política é a teoria de que a política é consequência da natureza,
porque a constituição da cidade também é uma decorrência da natureza. Isto porque a natureza dos
seres humanos seria diferente da natureza dos animais, já que os seres humanos se comunicam e
refletem sobre a realidade utilizando palavras. A consequência desse raciocínio é que os seres humanos
são naturalmente sociais, e, como observou Aristóteles, são animais políticos. Então, ao conhecermos a
natureza humana, encontramos as causas da política. Ainda segundo essa teoria, o motivo para a vida
em comunidade e a vida política é a própria comunicação, que, entre os seres humanos, é natural, e
assim a natureza funda a política.

Na Grécia, a vida política era buscar sempre a justiça para regular a comunidade. A primeira noção
de justiça tinha sido pensada como um mito. A lei divina instituiu a ordem do Universo, e desta ordem
universal nasceu a harmonia das coisas e, como consequência, a justiça entre os homens. Assim, a
percepção da justiça entre as coisas e também entre os homens pode ser entendida como uma regra
natural. A ideia de justiça é consequência da ordem divina da natureza, e assim deviam ser também a lei
e a ordem da sociedade humana.

Com a evolução da política entre os gregos, as explicações encontradas na mitologia foram


se tornando insuficientes para explicar a realidade. Até porque essa ideia de que justo é o que
segue a lei natural é um pensamento fundamentado pela razão. Mas como a razão encontra mais
de uma solução, as filosofias de Platão e Aristóteles defenderam este caráter natural da justiça e
da lei, enquanto os sofistas defendiam que a justiça e as leis são convenções combinadas entre
os homens.
68
Fundamentos da Ciência Política

Para eles, a cidade tinha nascido decorrente de uma convenção social, em que era esperado
que as regras da boa convivência fossem lei. A justiça é o consenso que surge quando as leis são
aplicadas. A política serviria para criar ou preservar esse consenso. Quando a cidade muda, as leis
podem mudar. Assim, cidades diferentes têm leis diferentes. A justiça deveria permitir a mudança
das leis dentro da mesma cidade, sem destruir a comunidade da cidade – ou comunidade da polis,
ou simplesmente comunidade política. A única maneira de realizar as mudanças seria o debate
para se alcançar o consenso, e o acordo seria fechado através de votação, quando a expressão
pública da maioria se tornaria a lei.

Lembrete

Os sofistas eram professores que ensinavam a retórica. Eram contratados


para ensinar a debater em público, com argumentos que permitiam lidar
com questões da justiça e da política.

Assim, a finalidade da política seria encontrar a medida da justiça, e essa medida seria a lei, votada
depois de uma defesa pública de sua pertinência, e a vitória do interesse mais bem-argumentado seria
aprovada pelo voto da maioria (CHAUI, 2000, p. 493). Um homem grego só seria completo se estivesse
inserido na cidade (polis) – polis significava a comunidade de homens adultos participando autônoma
e individualmente do exercício do poder (SOUZA, 2010, p. 9). Na polis a vida social não era separada da
atuação política. A atuação política era tão importante que o próprio conceito de vida social não existia
no vocabulário grego e surgiu posteriormente em Roma. A polis grega era horizontal, o que significa que,
na origem, todos os homens livres eram considerados iguais em valor e posição, independentemente da
sua profissão (SOUZA, 2010, p. 9).

Por outro lado, na vida privada grega o homem mandava nas mulheres, nos servos e também nos
seus escravos. Na vida pública, apenas os homens livres ocupavam os cargos de governo através de um
sistema de revezamento. O espaço mais importante da cidade era a ágora, praça onde funcionava o
mercado e também eram realizados os debates e as votações políticas. A ágora era o espaço de exercício
da democracia direta e da convivência dos cidadãos (MAAR, 1982). O homem adulto em Atenas que não
participasse da vida da cidade era considerado uma pessoa estranha pelos demais. O homem “não político”
era um ser deficiente, um ídion ou ideotes, um ser carente (palavra que deu origem ao termo “idiota”).

Observação

Você não deve cair na tentação de imaginar que no passado existiram


civilizações mais justas do que as que temos hoje em dia. O comportamento
das civilizações antigas serve para nos inspirar naquilo que foram suas boas
práticas, mas não devemos acreditar que seu cotidiano era melhor.

Mesmo com a democracia, Atenas não foi sempre uma sociedade horizontal. Até o século VI a.C.,
o poder político era controlado por uma elite aristocrática que era dona das terras férteis em volta da
69
Unidade II

cidade, os bem-nascidos. Mas surgiu uma classe de comerciantes que não eram donos de terra; estes, ao
ficarem ricos, exigiram sua participação nos processos decisórios da vida política (SOUZA, 2010, p. 12).

Se alguém não conseguia pagar suas dívidas, era transformado em escravo. Também aqueles que eram
pobres, além dos escravos, passaram a exigir participação no poder político. Com isso, os bem‑nascidos
foram obrigados a reformular as instituições políticas da cidade-estado de Atenas. Em 621 a.C., Drácon
estabeleceu um conjunto de leis escritas que daria lugar às antigas leis orais (na língua portuguesa,
essas leis deram origem ao termo draconiano, aquilo que se é obrigado a seguir).

Em 594 a.C., Sólon, o novo legislador, ampliou as reformas políticas em Atenas, acabou com a
escravidão por dívidas e resolveu classificar a população ateniense através da quantidade de riqueza de
cada cidadão. Assim, os comerciantes ricos finalmente conquistaram o direito de participação política.

Surgiram instituições para formular as leis, e os juízes passaram a julgar os cidadãos de acordo
com as leis escritas. As elites proprietárias de terras se revoltaram e promoveram golpes de Estado que
terminaram com a democracia e instituíram a tirania que durou oitenta anos. Em 510 a.C., Clístenes
dividiu o povo em dez demos, que podiam escolher seus representantes políticos. Eram uma espécie de
primeiros partidos políticos. Como todos obrigatoriamente participavam de um demo, cada ateniense
podia escolher através do voto seus representantes políticos no governo da polis. A participação entre
ricos e pobres ficou mais equilibrada. Outra novidade política adotada por Clístenes foi o ostracismo,
hoje em dia chamado de exílio. Qualquer pessoa considerada uma ameaça ao governo democrático era
banida da cidade por dez anos. Com isso, eles pensavam em afastar da cidade aqueles que desejavam e
conspiravam para se tornar tiranos (SOUZA, 2010, p. 13).

A própria cidadania ganhou com as reformas de Clístenes, mas somente os homens livres, de pai e
mãe ateniense, maiores de 18 anos e nascidos na cidade eram considerados cidadãos – mulheres, escravos
e estrangeiros não podiam participar da política. Com o desenvolvimento das cidades, do comércio, do
artesanato e das artes militares, Atenas se tornou o centro da vida social, política e cultural da Grécia. A
democracia atingiu seu auge e desenvolveu duas características importantes para a Filosofia: a igualdade
de todos os homens adultos perante as leis e o direito de todos de participarem diretamente do governo
da cidade, da polis. Como a democracia era direta, e não por eleição de representantes, garantiu a todos
os homens a participação no governo (CHAUI, 2000, p. 43).

Com a diversificação das atividades na polis, cresceu também a necessidade das atividades
políticas. Todas as dimensões da sociedade passaram a ser tratadas de forma política, e essa ampliação
das atividades acabou permitindo que política viesse a denominar tudo o que envolvia o poder e a
organização da sociedade.

Assim, política virou sinônimo de toda ação para governar a coletividade organizada num Estado,
além de todas as ações públicas, contra a autoridade ou a favor dela.

Mas na Grécia a ação política pressupunha que o homem fosse justo. É necessário entender que um
homem tinha tal qualidade quando, antes de se deixar dominar pelos desejos ou por sua cólera, pensava
com a razão. Quanto mais sabedoria um homem pudesse demonstrar no convívio político, mas sua alma
70
Fundamentos da Ciência Política

se mostrava sábia e superior. Platão entendia que era justo haver uma hierarquia na cidade, e essa ordem
colocaria as almas superiores dominando as inferiores. Assim, os filósofos deveriam governar a cidade,
que seria administrada pelos cientistas, protegida pelos guerreiros e sustentada pelos produtores.

Na República idealizada por ele, as classes deveriam assumir suas funções para o bem da polis. O
inverso dessa cidade, a polis injusta, era aquela governada por proprietários, que não pensam no bem
comum, apenas em seus interesses econômicos. Uma cidade governada por militares também é injusta,
pois eles obrigariam a todo tipo de violência apenas para ver suas ideias de honra e de sucesso vingarem
através desse ofício.

Para Platão, uma cidade justa nasceria com a educação de todos os cidadãos. Homens e mulheres
desde a infância seriam cuidados com os serviços do Estado, que proveria sua educação pensando na
própria manutenção da continuidade. As funções necessárias à cidade eram todas, e a educação faria
parte também da regulamentação da vida econômica da cidade. Todas as crianças teriam a mesma
formação inicial, mas as que tivessem as piores notas seriam destinadas às atividades econômicas.
Depois de outro período escolar, novas provas indicariam os destinados ao exército. O próximo ciclo
ensinaria ciências, quando mais uma prova separaria os administradores da cidade, e os melhores dos
melhores alunos seriam os legisladores, que formariam a classe dirigente (CHAUI, 2000, p. 494).

Para Platão e Aristóteles, para medir a corrupção ou a decadência de uma sociedade, basta verificar
a forma de atuação da lei no Estado, a qualidade de sua economia e a presença da violência como
parâmetro inclusive da política. Para facilitar o entendimento dos ciclos de comportamento social
que Platão sugeriu, ele e Aristóteles pensaram motivos para que a sociedade se reorganizasse. Sua
classificação das formas de governo sugeriu limites para quando elas iriam se modificar, por deturpação
resultante do comportamento social.

A monarquia, ao ultrapassar seu limite, degenera em tirania. O rei pode se tornar tirano, o que significa
que um homem governa para servir seus interesses pessoais. A aristocracia, o governo dos melhores,
degenera na oligarquia, o governo dos muito ricos. Essa forma de governo pode acontecer na forma de
uma plutocracia, mas pode também ser uma timocracia, o governo dos militares. Também a democracia
pode degenerar em demagogia, quando muitos querem tudo para si e, finalmente, descrentes do Estado,
as pessoas experimentariam a anarquia.

A desagregação da sociedade promovida pela anarquia estaria sujeita à volta da tirania. Fica mais
organizado quando a sociedade busca num homem a ordem, fechando um círculo que demonstra a
impossibilidade de uma forma estável de governo.

Observação

São dois os vocábulos gregos que compõem os nomes dos regimes


políticos: arche – o que tem comando – e kratos – a autoridade suprema.
Quando a palavra traz o sufixo arche (arquia), sabemos quantos estão no
poder. Já as palavras com kratos (cracia) descrevem quem está no poder.
71
Unidade II

Quanto aos regimes políticos: governo de um só = monarquia (monas);


governo de alguns = oligarquia (oligos); governo de ninguém = anarquia
(ana).

Com o sufixo kratos, percebemos a autocracia, que é o poder de uma


pessoa reconhecida como rei. O poder dos melhores estava na aristocracia,
e a democracia é o poder do povo (CHAUI, 2000).

Na Grécia, e mais tarde em Roma, as civilizações foram governadas principalmente por monarquias.
Mas até mesmo esses reis, que gostavam de inventar origens divinas, enfrentavam sociedades
organizadas. Os governantes tinham de submeter as decisões a um Conselho de Anciãos ou a chefes
militares. Foi esse tipo de negociação social que acabava por transformar as monarquias em oligarquias.
O governo passava a ser controlado pelas famílias mais ricas, violentas e poderosas. Elas eram pessoas
que se consideravam “melhores” do que as demais, e isso se chama aristocracia.

Vimos que a forma de fazer política na polis mudou quando os debates e as decisões deixaram
de ser resolvidos na ágora e passaram a ser solucionados no teatro grego. No novo espaço, o debate
entre interlocutores em condições de igualdade foi substituído pela distinção entre cidadãos que
tomavam a palavra no espaço do palco e aqueles que assistiam passivamente da plateia. Os cidadãos
que demonstravam a técnica de dramatização do discurso eram mais eficientes no convencimento das
ideias, e discursar em público tornou-se uma especialização. Essa arte se tornou o critério de hierarquizar
os cidadãos. O resultado é que, depois dessa especialização, os cidadãos não se reconheciam mais nas
decisões tomadas e não entendiam o motivo de determinadas leis. A horizontalidade da polis com
a sua unidade sociopolítica desmoronou. Quando os homens livres deixaram de se considerar iguais
e aceitaram o critério de hierarquia imposto pela arte da oratória, perderam a sua igualdade e, com
ela, a sua identidade enquanto cidadãos (SOUZA, 2010, p. 11). O resultado é que os gregos perderam a
vontade de se manter unidos para resistirem às invasões estrangeiras, pois os interesses do povo e dos
aristocratas tinham se afastado muito.

3.1.1 A política dos cidadãos ressurge em Roma

Vários foram os motivos pelos quais o mundo romano conseguiu separar melhor as dimensões
do social e do político. As cidades romanas eram maiores que as cidades gregas, o que inviabilizava a
participação direta dos cidadãos, pois era muita gente para se sentar num teatro. Em vez de manterem
a polis grega, a cidade romana foi chamada de civitas. A civitas romana é uma associação de cidadãos
que respeitam um conjunto de leis, a civilis societas, que é organizada por uma sociedade jurídica,
a iuris societas. O homem político pensado por Aristóteles se tornou o homem social formulado por
Sêneca (4 a.C.-65 d.C.).

Durante a existência da República Romana, o governo foi exercido pelo Senado. Quando Júlio César
transformou a República em Império e se tornou o primeiro imperador, a gestão das leis continuou
sendo feita para cuidar da convivência social e era imposta a toda a população. Nesse modelo romano
centrado no social, surgiu a ideia de que o homem é um animal social.

72
Fundamentos da Ciência Política

Mesmo com a semelhança das Repúblicas Grega e Romana, o único governo verdadeiramente
democrático foi o de Atenas. Mesmo nas outras cidades gregas e em Roma, o governo era exercido
pelos que se achavam melhores, os aristocratas. Mantinha formas políticas para que as famílias ricas
herdassem o poder, criando uma oligarquia (CHAUI, 2000, p. 496).

Há aspectos comuns na invenção da política dessas duas civilizações. A forma de deter e trabalhar
a propriedade da terra é o grande aspecto em comum. As duas civilizações promoveram a urbanização,
e a divisão territorial das cidades acabou formando representações sociais e políticas semelhantes. A
urbanização foi decorrência dos governos dos proprietários de terra. Como os grandes proprietários
disputavam áreas cada vez maiores, eram travadas pequenas guerras de conquista, que traziam como
resultados camponeses expulsos de suas terras e escravos capturados em terras inimigas. Tanto na Grécia
como em Roma, os camponeses pobres migraram para as aldeias e se tornaram artesãos e comerciantes.
Mas com o tempo esses artesãos e comerciantes prosperavam, e suas aldeias viravam cidades que
passavam a disputar o poder com as famílias aristocratas.

Durante toda a história grega e também a romana, aconteceu o que hoje chamamos de uma luta
de classes. Com a urbanização, o confronto se dava entre os proprietários agrários e os artesãos e
comerciantes, e também dessas classes com a massa de assalariados da população urbana, que eram
coletivamente chamados de “os pobres”. As lutas envolviam as classes dos ricos, e deles contra os pobres.

Essas lutas eram possíveis porque todos os habitantes homens da cidade eram convocados como
soldados nas guerras. Os soldados eram responsáveis tanto pela expansão territorial das civilizações
quanto pela defesa de sua cidade. Os homens participavam de milícias, e essa participação militar fazia
que todos se julgassem no direito de intervir nas decisões econômicas e legais das cidades. Era necessário
fazer política para solucionar essas lutas de classes (CHAUI, 2000, p. 484).

A interpretação marxista de Marilena Chaui permite uma comparação direta com o que aconteceu
com as duas civilizações. Quando a cidade é dividida em territórios regionais e há esse critério de
proximidade urbana, os demos (na Grécia) e os tribus (em Roma) têm o direito de participar da vida
política da cidade.

Para evitar o poder ditatorial, que era a autoridade da força e da lei concentrados na pessoa de um
general, gregos e romanos começaram distinguindo a autoridade pessoal privada, do chefe de família,
do poder impessoal público, controlado pela coletividade.

Os cargos do governo eram preenchidos por eleições entre os cidadãos, para tentar impedir a
manutenção do poder hereditário. A autoridade militar não podia atuar sem ordem do poder civil. Em
Roma, o poder político também significava o poder militar, mas as campanhas militares eram discutidas
e aprovadas pela autoridade política, até porque os recursos para formar um exército precisavam ser
arregimentados entre os ricos. Os chefes militares eram eleitos pelas assembleias dos cidadãos.

Gregos e romanos também separaram a autoridade religiosa do poder do governo da sociedade.


O poder político sempre manteve certa união com a religião. Os sacerdotes eram respeitados pela sua
capacidade de poder político, sem que isso se tornasse uma submissão da política à autoridade religiosa.
73
Unidade II

Nas duas civilizações, foram criadas a ideia e a prática da lei como expressão de uma vontade
coletiva e pública. A lei devia ser igual para todos e precisava também definir direitos e deveres para os
cidadãos. Através da lei, tentaram manter a diferença entre o poder político e todos os demais poderes.
Segundo Marilena Chaui, o mais importante é que impediram as pessoas de se vingarem, diminuindo a
violência social e criando um ambiente respeitado e controlado por todos (CHAUI, 2000, p. 485).

Para que as leis pudessem ser defendidas, criaram as instituições públicas, inclusive o erário público,
que dispunha de recursos para a melhoria do bem comum.

Tais características conjuntas atuando ao mesmo tempo numa sociedade diferenciam definitivamente
os seres humanos dos animais, tal a importância da política. A política fez surgir a publicidade, o que
chamamos hoje em dia de transparência. A sociedade precisa conhecer deliberações feitas em seu nome
e participar da tomada de decisão. Para gregos e romanos, a realidade social é expressa na forma da
política. Os conflitos sociais aparecem no espaço público, e a política intercede como espaço legítimo
desses conflitos.

Quando a Grécia foi dominada por Alexandre da Macedônia e, séculos mais tarde, quando Roma
deixou de ser república para se tornar o Império dos Césares, a corrupção gerou a decadência da política.
Isso permitiu o retorno à tirania e mudou a vida política (CHAUI, 2000, p. 486).

Mesmo reconhecendo as semelhanças entre os acontecimentos do passado e a vida


contemporânea, os gregos e os romanos tinham sociedades e políticas muito distantes dos nossos
valores e princípios atuais. Eles eram escravagistas e patriarcais. Só tinham cidadania os homens
adultos livres nascidos no território da cidade, e as mulheres eram excluídas da vida pública.
Gregos e romanos não viveram numa sociedade sem classes e justa, mas inventaram a política para
encontrar soluções temporárias das suas diferenças e dos seus conflitos (CHAUI, 2000, p. 487).

3.1.2 O idealismo de Platão

Anteriormente, vimos algumas ideias de Platão e Aristóteles sobre a política. Vamos a seguir estudar
a influência de Platão sobre o pensamento ocidental.

A primeira pessoa importante para a filosofia influenciada por Platão foi Aristóteles, que foi aluno
de Platão e também foi o primeiro a discutir suas ideias publicamente. Vamos relembrar os principais
elementos das doutrinas de Platão na seguinte ordem:

• Platão sugeriu uma doutrina das ideias, segundo a qual as ideias são objeto do conhecimento
científico. As ideias são entidades ou valores que têm um status diferente do das coisas naturais.
As ideias se caracterizam pela unidade e pela imutabilidade. Com base nesta doutrina, todo
conhecimento adquirido pelos sentidos (visão, audição, tato, paladar e olfato) não tem o mínimo
valor de verdade e pode eventualmente apenas impedir o acesso ao conhecimento autêntico.
Como entender esta doutrina? Pense que a ideia de mesa é mais abrangente do que qualquer
mesa que você conheça, pois quando dizemos mesa incluímos todas as mesas do mundo, mesmo
aquelas que não conhecemos.
74
Fundamentos da Ciência Política

• Ele criou a doutrina da superioridade da sabedoria sobre o saber. A sabedoria é a qualidade que
permite ao ser humano conhecer o objetivo político da filosofia, que é a realização da justiça nas
relações humanas.
• Além disso, Platão começou a doutrina da dialética como procedimento científico. A dialética é um
método através do qual uma investigação de duas pessoas consegue reconhecer uma única ideia,
para depois dividi-la em suas articulações específicas. Assim, quando duas pessoas concordam
sobre o que é uma mesa, elas podem criar mesas diferentes, e mesmo objetos como cadeiras ou
pratos que funcionam em conjunto com a mesa. Mas isso vale tanto para as ideias dos objetos
concretos, como mesas e cadeiras, quanto para ideias abstratas, como a própria justiça.

Foi a discussão dessas três doutrinas que opuseram Aristóteles a Platão e marcam a diferença entre o
platonismo e o aristotelismo. A filosofia original de Platão é, porém, maior do que o platonismo. Quando
as ideias de Platão influenciaram o Renascimento por volta do final do século XIII, elas foram adaptadas
à realidade daquela época na forma de neoplatonismo. Naquele momento, o que interessava eram as
ideias de Platão sobre a justiça para o indivíduo e a justiça na polis.

Aristóteles entendeu que o bem para um indivíduo é dependente do bem supremo da polis. O bem do
indivíduo era resultado do seu comportamento ético, e o bem da coletividade era resultado da política.
Ele pensava que o vínculo entre a ética e a política dependia das qualidades morais dos cidadãos e das
qualidades das leis. Assim, a cidade era resultado direto das virtudes dos cidadãos, pois os homens só
podiam ser bons e justos numa cidade boa e justa.

Surge aqui a questão filosófica de como estabelecer uma diferença entre a realidade e o conhecimento
racional que temos da realidade na mente – dito de uma forma mais simples, como nós conseguimos
estabelecer a diferença entre aquilo que nós imaginamos com as ideias e aquilo que realmente acontece
entre as pessoas e as coisas do mundo. Como escreve Marilena Chaui,

Não podemos saber se a realidade exterior é racional em si. Só podemos


saber e dizer que a realidade é racional, isto é, através das nossas ideias. Essa
é a posição filosófica do idealismo e afirma apenas a existência da razão
subjetiva. O que entendemos como realidade, é o que conhecemos por meio
das ideias de nossa razão (CHAUI, 2000, p. 84).

Para entender isso, é só pensarmos no que é a Lua. Precisamos de conceitos abstratos para
entender o que é o satélite natural da Terra, mas uma vez compreendidos esses conceitos, ao
vermos a Lua no céu, sabemos que ela é um corpo celeste que gira em volta da Terra, mesmo que
cada um de nós não tenha a oportunidade de ir até lá para ver se isso é verdade ou não.

Essa concepção das coisas do mundo começou com Platão. Ele defendeu a tese de que determinadas
ideias que contêm razão são inatas, ou seja, as temos na mente desde que nascemos. Tal descrição se
encontra nas obras Mênon e A República.

Num diálogo, Platão escreveu que Sócrates conversou uma vez com um jovem escravo
analfabeto. Mas, como sabia fazer as perguntas ao escravo na hora certa, ele conseguiu que
75
Unidade II

o escravo elaborasse uma demonstração do teorema de Pitágoras. As propostas e soluções


geométricas foram surgindo na mente do jovem à medida que as perguntas de Sócrates o faziam
raciocinar. Platão não entendia como, mas chegou à conclusão de que, se o escravo não tivesse
nascido com a razão, não teria conseguido demonstrar o teorema a partir da experiência adquirida
na vida (CHAUI, 2000, p. 85).

Na República, Platão desenvolve a Teoria da Reminiscência. Para ele, nascemos com a razão e com as
ideias verdadeiras, e a Filosofia nos relembra essas ideias. Conhecer alguma coisa é recordar uma verdade
que já está em nós. Esse pensamento vai influenciar diretamente Santo Agostinho séculos mais tarde.

Platão concluiu que, se não contássemos com as ideias da razão e da verdade, não teríamos como
saber que uma ideia é verdadeira. Nascemos sabendo distinguir o verdadeiro do falso.

3.1.3 A influência de Platão através de séculos de Filosofia

Séculos depois, esta foi a mesma pergunta que Santo Agostinho se fez sobre a existência de Deus:
“É falso ou verdadeiro que Deus exista? Sei no meu íntimo que tudo [o] que foi criado, foi feito por um
ser superior, portanto se creio nisso, eu existo” (AGOSTINHO, 2007a, p. 39).

A doutrina de Platão que defendia as ideias inatas atravessou os tempos. No Renascimento, os


pensadores estavam interessados em discutir o poder despótico e tirânico dos reis. A Idade Média estava
terminando sob a influência das ideias de Aristóteles, adaptadas por São Tomás de Aquino. Para os
renascentistas, resgatar as ideias de Platão era tentar recriar as bases intelectuais para discutir o poder
dos monarcas. Para isso, era necessário resgatar a razão, que estava contida nas ideias inatas.

Depois do Renascimento, começou o Iluminismo (também chamado de Idade da Razão,


aproximadamente de 1650 a 1780). Um de seus pensadores mais importantes, René Descartes,
dividiu as ideias em três tipos, cujas diferenças eram sua origem e sua qualidade. As ideias
vindas de fora surgem das nossas sensações, percepções ou lembranças, ou seja, aparecem
porque as percebemos através dos cinco sentidos. São as nossas ideias cotidianas, que nem
sempre correspondem à realidade das coisas.

Existiriam as ideias fictícias, que são as fantasias que criamos. São aquelas que aparecem
nos sonhos, que transformam pessoas em sapos, enfim, ideias que nunca correspondem a nada
da realidade. Porém, as ideias inatas seriam aquelas que não vêm da nossa experiência sensorial
porque não existem objetos sensoriais ou sensíveis para elas. As ideias inatas existem porque
nascemos com elas, e são inteiramente racionais. Por exemplo, a ideia do infinito, do número
zero, essas ideias são para Descartes “a assinatura do Criador” no espírito das criaturas racionais.
Através dessas ideias inatas, podemos conhecer a verdade.

Segundo essa teoria, com as ideias inatas –por exemplo, a ideia de verdade – podemos julgar se uma
ideia adventícia é verdadeira ou falsa. Também através dessa ideia de verdade, sabemos que as ideias
fictícias são sempre falsas. Segundo Descartes, as ideias inatas são as mais simples que formamos na
mente. Elas não são compostas por nenhuma outra ideia. A mais famosa da ideias inatas reconhecida por
76
Fundamentos da Ciência Política

Descartes é cogito, a ideia de que sabemos que existimos porque temos certeza de que pensamos. Em
outras palavras, não se consegue pensar em nada antes de se ter certeza de que você existe e está vivo.

Por serem simples, as ideias inatas seriam entendidas pela mente através da intuição. São elas que
permitiriam a dedução racional e a indução. Através da dedução e da indução nós conseguimos conhecer
as ideias complexas ou compostas (CHAUI, 2000, p. 87). Essa forma de pensamento baseado nas ideias
que permitiu a Descartes perceber as regras da razão e, portanto, começar a descoberta do pensamento
científico, está diretamente ligada ao pensamento de Platão.

No século XVII, adotou-se o termo idealismo (doutrina das ideias) como referência à doutrina
platônica das ideias inatas. O pensador alemão Leibniz (2004, p. 186) escreveu: “O que há de bom nas
hipóteses de Epicuro e de Platão, dos maiores materialistas e dos maiores idealistas reúne-se aqui na
doutrina da harmonia preestabelecida”. Esse significado de idealismo acredita no caráter espiritual da
própria realidade. Mas idealismo fez surgir dois novos significados para este termo.

O primeiro é de caráter epistemológico, que dá sustentação ao desenvolvimento das ideias. Neste


sentido, o idealismo foi utilizado pela primeira vez por Christian Wolff, iluminista alemão também do
século XVII: “Denomina-se idealista quem admite que os corpos têm somente existência ideal em nosso
espírito, negando assim a existência real dos próprios corpos e do mundo” (WOLFF, 1969, p. 36). A ideia
coincide bastante com a doutrina de Platão.

O segundo significado foi explicado pelo filósofo Kant (1980) quando definiu que:

Idealismo é a teoria que declara que os objetos existem fora do espaço ou


simplesmente que sua existência é duvidosa e indemonstrável, ou falsa
e impossível; o primeiro é o idealismo problemático de Descartes, que
declara indubitável somente uma afirmação empírica, “Eu sou”. O segundo
é o idealismo dogmático de Berkeley, que considera o espaço, com todas
as coisas a que ele adere como condição imprescindível, como algo em si
mesmo impossível e declara por isso que as coisas no espaço são simples
imaginações (KANT, 1980, p. 110).

Kant está afirmando que a ideia de Descartes “eu penso” é o princípio fundamental do conhecimento.
Ora, essa ideia é primordialmente platônica. Já no segundo significado, idealismo é um conjunto de
ideias abstratas que existem simplesmente porque alguém acredita nelas.

O filósofo alemão faz distinção entre o idealismo material e o idealismo transcendental ou formal,
que é a sua própria filosofia da “idealidade transcendental” do espaço, do tempo e das categorias,
doutrina esta que permite justificar o realismo e refutar o idealismo. Mas apesar dessa posição, a
filosofia kantiana acreditava que o fenômeno, ou seja, o objeto do conhecimento empírico, fosse uma
representação, e portanto uma ideia, e não um objeto concreto.

Para explicar isso, o filósofo Schopenhauer escreveu um livro chamado O mundo como vontade
e representação (1819) dizendo: “O mundo é a minha representação” (SCHOPENHAUER, 2005, p. 13).
77
Unidade II

Essa tese, aceita como um princípio evidente do idealismo romântico, foi compartilhada na
Filosofia moderna e contemporânea. Muitos filósofos concordaram que a ideia de uma coisa
é o objeto do conhecimento. Em outras palavras, seguindo o pensamento de Kant, quando
eu digo que estou pesando 100 quilos, o meu peso real poderia ser medido de várias formas
diferentes. Mas como eu concordei com a ideia abstrata da medida de peso em quilogramas
e aprendi a entender o que essa ideia abstrata significa, eu posso construir uma balança que
determina que eu realmente peso 100 quilos. Mas se eu não quiser respeitar essa ideia abstrata
da medida de peso, eu posso trocar os números da balança por letras e dizer que “eu peso XYZ”.
Portanto, o ser humano tem o poder de representar qualquer ideia a respeito da realidade. Esse
poder é a base do idealismo.

A segunda forma de idealismo foi a romântica e também surgiu na Alemanha, depois de Kant. É
a forma de pensamento que mais influenciou os séculos XVIII, XIX e XX. Seus fundadores, os filósofos
Fichte e Schelling, sugeriram que o idealismo romântico era subjetivo ou absoluto. A qualificação de
subjetivo pretendia contrapor esse idealismo ao ponto de vista do filósofo holandês Espinoza, que
no século XVII sugerira a redução de toda a realidade a um único princípio, a substância enquanto
matéria, e, portanto, objeto. Em outras palavras, Fichte e Schelling se recusavam a acreditar que
uma coisa pudesse existir sem que o meu “EU” ou o meu Espírito fosse dentro de mim aquilo que me
tornasse possível acreditar que todas as coisas existem, e se não existissem dentro do meu Espírito,
então não existiriam simplesmente. Esse tipo de pensamento sugere o ditado: “O que os olhos não
veem, o coração não sente”. Tal formulação é tipicamente romântica. Então, se acontecer um desastre
e eu não ficar sabendo, não tenho por que me importar com o sofrimento alheio.

Para Fichte, o Eu não é, como para Descartes, um Eu admitido só com o objetivo de poder filosofar,
mas é o eu real, o verdadeiro princípio, o prius absoluto de tudo (FICHTE, 1846). Hegel (1989a), que
também chamou de subjetivo ou absoluto o seu idealismo, esclareceu seu princípio desta forma:

A proposição de que o finito é o ideal constitui o idealismo. O idealismo da


filosofia consiste apenas nisto: em não reconhecer o finito como verdadeiro
ser. Toda filosofia é essencialmente idealismo, ou pelo menos tem o idealismo
como princípio; trata-se apenas de saber até que ponto esse princípio está
efetivamente realizado. A filosofia é idealismo tanto quanto religião (HEGEL,
1989a, p. 74).

Neste sentido, Hegel estava dessa vez explicando que, se Platão tinha razão em acreditar em ideias
inatas, principalmente que a razão estava nos homens desde o nascimento, qualquer pessoa que olhasse
para as coisas à sua volta saberia que todas as explicações sobre todas as coisas só são possíveis porque
a pessoa dentro dela consegue organizar explicações sobre sua existência. Portanto, qualquer filosofia
seria um conjunto de ideias explicativas do mundo nas quais você acredita, da mesma forma que
acredita numa religião.

O título de uma das obras fundamentais do idealismo inglês, Aparência e realidade (1893), de F. H.
Bradley, já identifica o tema que dominou o idealismo na área de influência da língua inglesa. Uma das
ideias que pareciam inatas era a de liberdade, inspiradora também de muitos idealismos. Então, Wilhelm
78
Fundamentos da Ciência Política

Dilthey, um dos precursores da Sociologia no século XIX, percebeu que os idealismos são a intuição
do mundo através das ideias propostas por Platão, seguidas pela Filosofia helenístico-romana, por
Cícero, pela especulação cristã de Santo Agostinho, por Kant, Fichte, Maine de Biran e pelos pensadores
franceses a este ligados (ABBAGNANO, 2007).

No século XX, as ideias inatas reaparecem na filosofia de Heidegger (O Ser e o Tempo, 1927) e no
existencialismo de Sartre (O Ser e o Nada, 1943). Mas Freud foi o primeiro a perceber que a ideia inata
tem limite: como escreve Chaui, se a justiça para Platão é uma ideia do poder total da razão sobre as
paixões e os sentimentos, os desejos e os impulsos, qual mal-estar acontece quando nossa consciência
é dominada pelo inconsciente, pelo desejo? (CHAUI, 2000).

Com Freud surgiu um problema para o inatismo, quando verificamos que a nossa razão pode
mudar o conteúdo de ideias que antes eram consideradas por nós mesmos universais e verdadeiras.
Também em exercício de lógica, sabemos que a razão pode comprovar que há entre as ideias
racionais algumas falsas. Se é possível que a realidade permaneça a mesma, mas as ideias que a
explicam perdem a validade, percebemos que existe um problema para se continuar acreditando
no inatismo. Um pequeno exemplo é o seguinte: na Antiguidade, era possível fazer um tijolo
queimando argila úmida numa forma. A explicação para isso é que os elementos terra e água
misturados, cozidos pelo fogo, criavam um objeto concreto. As ideias inatas entendiam que a razão
determinava que era o fogo que dava à argila a consistência depois de se cozinhá-la com água.
Mas a ciência descobriu que o motivo para as partículas de terra se solidificarem é uma reação
química dos componentes da terra, e aí nasce a questão: um ser humano nasce sabendo o que
são os elementos químicos e suas propriedades? Certamente não. Portanto, quando chegamos ao
ponto de entendermos o processo químico que permite ao fogo “cozinhar” os tijolos, já estamos
muito longe de qualquer ideia que nasceu conosco.

Em outras palavras, Platão percebeu que podemos formular uma ideia que expressa alguma coisa,
como a ideia de “mesa”. Quando falamos “na mesa”, não precisamos estar nos referindo a esta ou àquela
mesa em particular, porque estamos falando de todas as mesas que existem no mundo, sem dizer
exatamente aquela que nos serve de modelo ou de percepção real de uma mesa.

Por outro lado, quando pensamos na ideia de segurança, qualquer medo interno que sentimos, seja
medo do escuro ou de ficar sozinho, influencia imediatamente a nossa ideia de segurança. Então aquilo
que parecia simples de entender, que é uma ideia tão fácil e compartilhada por todos, assim como a
ideia de mesa, se transforma numa ideia abstrata que precisamos examinar dentro de nós. No caso da
ideia de segurança, ela precisa ser detalhada e discutida, e logo percebemos que ela não é uma ideia que
nasce com todos nós da mesma forma. Então surge a pergunta: nascemos mesmo com ideias básicas
ou adotamos essas ideias?

3.1.4 O realismo de Aristóteles

Para a Ciência Política, a definição de Aristóteles para o homem é uma das pedras fundamentais do
entendimento do ser humano. Nessa definição, Aristóteles fala da natureza racional do homem: “Quem
não pode fazer parte de uma comunidade ou quem não precisa de nada, bastando-se a si mesmo, não
79
Unidade II

é parte de uma cidade, mas é fera ou Deus” (ARISTÓTELES, 2008, I, 2, 1253). Ele tentava explicar que o
homem não pode deixar de viver em sociedade.

Para Aristóteles, há uma ligação entre racionalidade e política, e este entendimento opera até hoje
na cultura. Mas, no Iluminismo, Hobbes interpretou essa definição de Aristóteles da seguinte forma: O
homem não está apto, desde o nascimento, a viver em sociedade porque ele só se torna apto para a vida
social graças à educação (HOBBES, 2008).

Aristóteles acreditava que a finalidade da política fosse a felicidade. Isso fez suas ideias se afastarem
das ideias de Platão, mas também daquelas dos sofistas. Enquanto Platão estava preocupado com as
ideias para organização da vida, inclusive da vivência política, Aristóteles se preocupou com a vivência
imediata. Sua forma de pensar dividia as ideias e as coisas em partes, as denominadas categorias.

Então, para pensar a justiça, Aristóteles distinguia dois tipos (duas categorias) de bens: os partilháveis
e os participáveis. A água seria, por exemplo, um bem partilhável, pois podemos dividir ou distribuir sua
quantidade. O poder é um bem participável, que não pode ser dividido.

Para Aristóteles, a justiça seguia a qualidade dos bens, e uma justiça distributiva deveria dar a
cada um o que é devido; sua função seria distribuir desigualmente aos desiguais e torná-los mais
iguais. (CHAUI, 2000, p. 494). Esse tipo de justiça foi sugerido novamente mais de 2 mil anos depois,
pelo pensamento de Karl Marx: “[...] de cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas
necessidades” (MARX, 1875, p. 7).

Ainda segundo Aristóteles, numa cidade injusta, impunham-se limitações aos pobres de alcançarem
a riqueza. Na cidade injusta, as leis dificultam ou proíbem o acesso à propriedade, remuneram mal o
trabalho e cobram impostos de forma que deixer o povo sempre em dívida com os governantes. Esse
tipo de vida não traz a felicidade.

Por outro lado, Aristóteles não se iludia com a realidade da vida. Pensava que a justiça política
deveria respeitar o modo pelo qual a comunidade definia a participação no poder e considerava seus
cidadãos responsáveis pelo regime político vigente, pois este espelhava os valores mais respeitados
pelos cidadãos.

Quando uma cidade valorizasse a honra que fosse baseada na hierarquia social de laços familiares,
na terra e nas tradições, o poder seria a honra mais alta que deveria ser destinada a um só, o rei, e seria
justo que na monarquia um só detivesse o poder. Nas cidades que dão valor às virtudes da excelência de
caráter, como a fidelidade ao grupo e aos antepassados, o poder iria caber aos melhores e a aristocracia
seria justa. Mas haveria cidades que valorizariam a igualdade e considerariam as diferenças entre ricos
e pobres uma questão econômica, e não política. Neste caso, teríamos a democracia, em que seria justo
que todos participassem do poder.

Quanto às diferenças sutis do entendimento das formas da política entre Platão e Aristóteles,
pode-se afirmar que este pensava a realidade da cidade, enquanto Platão pensava nas ideias que
possibilitariam o governo delas.
80
Fundamentos da Ciência Política

Lembrete
A diferença entre as ideias de Platão e as de Aristóteles criou duas
grandes escolas de pensamento que se alternaram no tempo e nas escolas
de filosofia. Um exemplo é o movimento do Iluminismo, período no qual
Montesquieu escreveu na obra O Espírito das Leis uma ideia consoante as
de Aristóteles, de que os regimes políticos variam conforme a geografia e o
tamanho de seus territórios (MONTESQUIEU, 2005).

Para Aristóteles, quando um povo tende para a igualdade e a liberdade e vive numa cidade pequena,
tenderia a adotar a democracia. Já um povo cuja natureza fosse obedecer a uma única autoridade, e que
vivesse num território extenso, aceitaria certamente a monarquia (CHAUI, 2000, p. 496).

Se a política para Aristóteles teria como finalidade a vida justa e feliz, então ela conteria ética. Na
civilização grega, não se pensava a ética fora da comunidade política. Mas Aristóteles fazia grande
distinção entre teoria e prática, diferentemente de Platão. A prática era organizada em categorias como
fabricação e ação (em grego, poiesis e praxis). Para ele, a praxis tinha mais valor do que a poiesis. A praxis
pode ser descrita como a ação voluntária de uma pessoa racional para alcançar um fim considerado
bom. Neste sentido, a praxis é a política.

Em Ética a Nicômaco, ele escreve:

Se, em nossas ações, há algum fim que desejamos por ele mesmo e os outros
são desejados só por causa dele, e se não escolhemos indefinidamente
alguma coisa em vista de uma outra (pois, nesse caso, iríamos ao infinito e
nosso desejo seria fútil e vão), é evidente que tal fim só pode ser o bem, o
Bem Supremo… Se assim é, devemos abarcar, pelo menos em linhas gerais, a
natureza do Bem Supremo e dizer de qual saber ele provém. Consideramos
que ele depende da ciência suprema e arquitetônica por excelência. Ora,
tal ciência é manifestamente a política, pois é ela que determina, entre os
saberes, quais são os necessários para as cidades e que tipos de saberes cada
classe de cidadãos deve possuir… A política se serve das outras ciências
práticas e legisla sobre o que é preciso fazer e do que é preciso abster‑se;
assim sendo, o fim buscado por ela deve englobar os fins de todas as outras,
donde se conclui que o fim da política é o bem propriamente humano.
Mesmo se houver identidade entre o bem do indivíduo e o da cidade, é
manifestamente uma tarefa muito mais importante e mais perfeita conhecer
e salvaguardar o bem da cidade, pois o bem não é seguramente amável
mesmo para um indivíduo, mas é mais belo e mais divino aplicado a uma
nação ou à Cidade (ARISTÓTELES, 2009, I. 2, p. 678).

Entendemos que Aristóteles subordinava o bem de um sujeito ao Bem Supremo da polis em que se
encontrava. Já Platão pensava que havia uma diferença entre a justiça para o indivíduo e a justiça para
81
Unidade II

a polis (CHAUI, 2000, p. 497). Aristóteles agregou à descrição da forma de governo feita por Platão o
pensamento político ao perceber qual forma de governo é mais adequada para cada situação.

Na Idade Moderna, a questão passou a ser a construção da estabilidade social, a partir de um


ordenamento político determinado (LEBRUN, 1984). Segundo as ideias aristotélicas, não basta saber
quem governa, mas também como governa. Como sugere Bobbio (1980, p. 34), a classificação de
Aristóteles contém três formas boas de governo e suas respectivas degenerações em três formas
más. Categorizando as respostas em formas boas e más de governo, Aristóteles criou uma hierarquia
do que é um bom governo e do que é um mau. Neste sentido, ele seguiu as ideias de Platão quando
concordou que para cada forma boa pode ocorrer sua degeneração numa forma má de governo
(SOUZA, 2010, p. 21).

Exemplo de aplicação

Do polo positivo para o negativo, a hierarquia das formas de governo de Aristóteles pode ser assim
representada:

+ monarquia aristocracia política anarquia oligarquia tirania –

Verifique na história do Brasil quando podemos identificar esses regimes. Descubra o que são os
seguintes períodos históricos: Império, Regência, República Velha, Revolução de 1964, Redemocratização,
Estado Novo.

É importante notar que os limites entre uma e outra forma de governo não são bem-delimitados. A
dificuldade em distinguir a forma boa da forma má ocorre porque a política é fluida. A vida dos homens
não conhece distinções delimitadas, como na Geometria ou na Matemática. O pensamento de Aristóteles
percebeu que na realidade histórica existem formas de monarquia com características tirânicas, mas que
estavam legitimadas pelos governados. Para ele, alguns povos assumiam características servis, e, nesse
caso, o governo tirânico não poderia ser classificado como uma forma degenerada ou corrupta.

Para Aristóteles, é necessário fazer diferença entre a tirania sobre povos que não aceitavam a
submissão e a tirania sobre os povos que a ela se adequavam. Essa ideia de legitimidade do poder nasce
com Aristóteles e até os nossos dias é um tema clássico do pensamento político.

Ao comparar seu esquema com a realidade, Aristóteles também percebeu que duas formas más de
governo podem se combinar para gerar uma forma boa. O governo bom de muitos pode ser constituído
pelo resultado de elementos da oligarquia e da anarquia, pois é possível que homens livres e pobres
entrem em acordo com homens ricos e nobres, gerando o governo de muitos e aliviando a tensão social
existente entre os sem propriedade e os com propriedade (BOBBIO, 1980).

Aristóteles traz para a discussão filosófica temas que serão fundamentais para a ciência política: a
estabilidade do governo, o comportamento político das massas, a legitimidade do poder e a identificação
do interesse comum (SOUZA, 2010).
82
Fundamentos da Ciência Política

Renato Janine Ribeiro faz um comentário interessante sobre a participação política em Atenas:

– Não sei qual era a pauta usual das assembleias atenienses. O comparecimento
a elas era bem variável: ora iam mil pessoas, ora 10 mil. Nem todos compareciam
a todas as assembleias. Mas concordo que o ingrediente religioso era poderoso
na vida pública de Atenas e Roma. Uma assembleia romana não se realizava se
os augúrios não fossem propícios. Havia algo de sagrado nessas reuniões políticas
(RIBEIRO; CORTELLA, 2010, p. 22).

A influência de Aristóteles criou o aristotelismo. Alguns fundamentos da sua doutrina passaram à


tradição filosófica e inspiraram as escolas filosóficas e os movimentos políticos. O aristotelismo árabe, o
aristotelismo cristão medieval e o aristotelismo do Renascimento são exemplos de escolas que buscaram
seguir seus fundamentos. A importância atribuída por Aristóteles à natureza e o valor e a dignidade
das perguntas que fazemos em decorrência da sua existência demonstram como seu pensamento era
diferente do de Platão.

Platão pensava que as perguntas sobre a natureza só poderiam atingir uma resposta muito
improvável se comparadas ao conhecimento, enquanto Aristóteles pensava que tudo na natureza
vale a pena ser estudado, pois o verdadeiro objeto da pesquisa é a substância das coisas.

O segundo fundamento aristotélico é o conceito de metafísica como filosofia primeira e a Teoria


da Substância como fundamento da enciclopédica completa das ciências. Isso significa que primeiro
se deve formular uma explicação lógica sobre a natureza das coisas para depois investigar se a ideia é
verdadeira ou não.

Sua forma de pensar estava estruturada na doutrina das quatro causas: a formal, a material, a eficiente
e a final. A doutrina do movimento, como passagem da potência ao ato, permitiria a interpretação de
toda a realidade natural, e essa forma de pensar ainda é parcialmente utilizada pelos cientistas.

Sua ideia de Teologia, fundada nos seus conceitos de Primeiro Motor (do mundo) e do Ato Puro,
justificou a ideia de Deus defendida pela Igreja Católica durante toda a Idade Média. Junto com essa
doutrina, Aristóteles também criou a doutrina da essência substancial ou necessária, que defendia que
a alma seria a base da teoria do conhecimento e da lógica.

Talvez sua doutrina mais importante tenha sido a importância que ele atribui à lógica, que até hoje
utiliza sua forma de pensar para escrever programas de computadores. Todo conhecimento científico
moderno se baseia na lógica aristotélica para poder avançar.

É claro que as muitas escolas filosóficas e correntes de pensamento baseadas em Aristóteles


não utilizam todos esses elementos em conjunto, mas combinam aqueles que pensam ser os
mais pertinentes. Isso explica por que a influência de Aristóteles é percebida em movimentos tão
diferentes como a metafísica teológica da escolástica medieval e o naturalismo do Renascimento,
que é seu oposto.

83
Unidade II

No comentário de Mário Sergio Cortella:

– Por que estou pensando isso? Porque me parece que há aí um


componente de metafísica, no sentido de algo que é um impulso externo
ao humano na direção de uma completude do humano: a política como
arte que nos faz humanos. E, ao nos tornar humanos, separa-nos –
como queria Aristóteles – dos outros animais, de acordo com sua lógica
de gênero próximo, diferença específica. Explico: Aristóteles tinha uma
fórmula para poder dar uma definição que era “gênero próximo, mas
diferença específica”. Essa fórmula o ajudava a dar definições no campo
da linguagem. Gênero próximo: humano; diferença específica: racional.
Gênero próximo: humano; diferença específica entre os humanos:
político. O contrário disso é o idiota – que, portanto, é menos humano.
Aquilo que Marx chama de “humanização da vida e do trabalho” e que
na mensagem religiosa se interpreta como o tornar as pessoas mais
humanas, é isso que estou tentando traduzir agora em política. O que
nos torna mais humanos é justamente a capacidade do exercício da
política como convivência e como conexão de uma vida. No livro Nos
Labirintos da Moral, Yves de la Taille citou a clássica definição de ética
de Paul Ricoeur: vida boa, para todos e todas, em instituições justas
(RIBEIRO; CORTELLA, 2010, p. 22).

4 Roma e o Pensamento Repúblicano

Podemos dividir a história de Roma em diversos períodos: a época arcaica e lendária dos reis
patriarcais, semi-humanos e semidivinos, a da República e, finalmente, a da Roma Imperial. Nesta etapa
de nossos estudos nos interessa principalmente a República Romana.

No período da República, Roma tornou-se uma república aristocrática governada por senhores de
terras, chamados de patrícios. Havia esporadicamente alguma participação dos representantes eleitos
pela plebe, chamados de tribunos da plebe. O poder era dividido entre o Senado e uma instituição muito
particular chamada Povo Romano, que podemos considerar a primeira experiência da ideia do que os
ingleses chamam de Câmara dos Comuns e que no Brasil dá-se o nome de Câmara dos Deputados. Era
o espaço onde os plebeus astutos, através da riqueza ou de honras militares, passavam a fazer parte do
grupo governante.

A República de Roma estava fundamentada num governo que era submetido a leis escritas e
impessoais. A coisa pública – em latim, res publica – acontecia sobre o solo público romano, que estava
distribuído entre as famílias patrícias, mas que eram legalmente propriedade da cidade de Roma. Os
fundos públicos, que eram provenientes dos impostos cobrados, serviam para a construção de estradas,
aquedutos, templos, monumentos e novas cidades e também serviam para a manutenção dos exércitos.
A República Romana, mais do que a experiência democrática grega, é que serve de modelo aos governos
contemporâneos.

84
Fundamentos da Ciência Política

Dois cônsules, eleitos pelo Senado e pelo Povo Romano, recebiam os poderes administrativo,
judiciário e militar e controlavam o governo. O poder judiciário e o poder militar eram mantidos como
um só, com o nome de imperium.

O Senado organizava o conselho dos magistrados e zelava pela moral da religião e pela política. Roma
era uma república aristocrática, dominada pela oligarquia, composta pelos proprietários de terra, com
poderosa vocação militar. Em apenas cinquenta anos, conquistou todo o mundo ocidental conhecido.

Na medida em que se tornou a primeira potência mundial estruturada, os cônsules que também
eram generais, como Caio Júlio César e Pompeu, reivindicaram mais poder e mais autoridade. Assim, a
república aristocrática se transformou primeiro numa república monárquica, que foi iniciada por Caio
Júlio César, e depois se transformou numa monarquia, com Otávio Augusto. O consulado original foi
transformado num principado. O príncipe era o imperador, o chefe militar que detém ao mesmo tempo
o poder judiciário de fazer as leis. Era juiz supremo e senhor das terras do Império Romano.

Essas transformações políticas acabaram transparecendo nas ideias que surgiram para apoiá-las.
Acreditando na ideia de Platão do governante-filósofo, pensadores romanos como Cícero e Sêneca
escreveram a respeito do príncipe perfeito ideal e do bom governo. Mesmo as ideias políticas romanas
sustentavam a ideia grega de que a felicidade e a justiça na comunidade política deveriam compor a
ordem com harmonia (CHAUI, 2000, p. 498).

Mas, como previsto por Platão, a justiça depende das qualidades morais do governante; já Aristóteles
acreditava que a justiça só acontecesse quando apoiada também pela índole do povo. Para Platão, bastava
que o príncipe fosse o modelo das virtudes para a comunidade, que iria imitar seu comportamento.
Segundo Chaui (2000, p. 499), os romanos se perceberam filosoficamente entre a teoria platônica, que
acreditava que a educação virtuosa permitisse a boa política, e a teoria aristotélica, que acreditava
alcançar a política legítima e justa a partir das qualidades positivas das instituições da cidade, que
nasciam do comportamento virtuoso dos cidadãos.

Nessas discussões, os romanos escolheram a linha platônica, pois acreditavam que a formação do
príncipe virtuoso fosse mais importante do que a formação do povo. Como o príncipe é um ser humano
passional e racional, deveria aprender a não ceder às paixões, mas apenas à razão. Assim, devia ser
educado e aprender as virtudes que fazem um governante justo.

A virtude deveria ser construída com o conhecimento das qualidades morais. A primeira
qualidade seria a sabedoria na forma de prudência, organizada a partir do senso de justiça, de
coragem e de moderação. A segunda qualidade moral do príncipe seria a honradez, descrita como
a disposição de manter os princípios em qualquer circunstância. O príncipe deveria ser capaz de
exercer a clemência, de encontrar uma punição justa e de saber perdoar. Também deveria dispor de
sua riqueza para o serviço do povo. A terceira qualidade moral ou virtude dizia respeito ao desejo
do príncipe virtuoso. Ele escolheria a honra, com a glória e a fama. Cícero pensava que o verdadeiro
príncipe era quem nunca se deixava arrastar por paixões que o fizessem perder a razão. Deveria, em
qualquer circunstância, comportar-se como homem dotado de vontade racional. Um príncipe sábio
seria capaz de fazer um bom governo, buscando o respeito dos súditos.
85
Unidade II

Caso se transformasse num tirano, teria um comportamento passional e demonstraria vários defeitos,
sendo odiado e temido por todos. Caso isso viesse a acontecer, o príncipe se tornaria inseguro e acabaria
cercado de soldados para protegê-lo, vivendo com medo do povo. A teoria do bom governo ligava a
pessoa do governante à sua qualidade de político. Suas qualidades pessoais espelhariam as suas virtudes
públicas. Neste sentido, o comportamento do príncipe espelhava o da comunidade e, por sua vez, seria
imitado por ela tanto na virtude quanto no vício.

Ao contrário dos pensadores gregos, os pensadores romanos pensavam o aspecto prático e utilitário
das coisas, transformando o direito e a justiça em instrumentos da vontade romana de dominação do
mundo.

Assim, a Filosofia romana não criou categorias abstratas de pensamento filosófico ao estilo platônico
ou aristotélico e lidou com a realidade. Criaram um sistema filosófico voltado para a utilidade. A
influência dos pensadores gregos pode ser observada no estoicismo romano, que influenciou pensadores
e políticos como Cícero (106-43 a.C.), Sêneca (4 a.C.-65 d.C.) e o imperador Marco Aurélio (121-180 d.C.).

A Escola de Filosofia Estoica foi fundada por Zenão de Cítio (335-263 a.C.). Esta escola se expandiu
por toda a Grécia e mais tarde pelo mundo romano. Os estoicos sustentavam que o universo seria
conduzido por um princípio geral, a razão. O mundo da matéria estaria impregnado de racionalidade, e
o homem seria essencialmente racional.

Para os estoicos, os homens deviam limitar as suas necessidades e depender menos das coisas. Cada
pessoa tinha o direito de agir livremente, sem estar diretamente ligado ao Estado, e viver como um
cidadão do mundo. A atenção dos homens deveria estar na busca da virtude, e não nos costumes do
povo, nem nas leis impostas pelo Estado.

Assim, os estoicos acreditavam que o homem devesse viver de acordo com a natureza, buscando
seu aperfeiçoamento espiritual e racional e superando suas paixões e os condicionamentos que seriam
impostos pela sociedade. A base de seu pensamento era a preocupação ética com o conceito de dever. Da
Filosofia estoica foram adotados pelos pensadores romanos os temas da razão, do dever, da felicidade,
da sabedoria e da autonomia.

Na transformação da República para o Império, Roma assistiu à degradação dos costumes antigos,
à crise dos valores romanos e à invasão de influências orientais. Nesse sentido, o pensamento estoico
permitia uma maleabilidade para que se refletisse sobre todos os acontecimentos com certo grau de
distanciamento ou neutralidade, o que facilitava a convivência com as mudanças do cotidiano.

Renato Janine Ribeiro, dirigindo-se a Mario Cortella (2010), menciona:

– Mas, Mario, cabe aqui um contraponto: quando nos referimos à democracia


antiga, que foi notável em Atenas e Roma, estamos falando de algumas
dezenas de milhares de pessoas numa população global de dezenas ou
talvez centenas de milhões. Enfim, a democracia antiga foi limitada. Além
disso, tenho lido muito sobre o final da República romana, e as décadas que
86
Fundamentos da Ciência Política

antecederam o golpe de Estado de Júlio César foram caracterizadas por muita


corrupção. Mas, seja como for, volto à minha questão hiperquantitativa:
“nunca antes na história deste mundo”. Nós passamos de uma Antiguidade
em que talvez um habitante por mil vivesse numa democracia (talvez até
menos, se levarmos em conta que nessas democracias não tinham cidadania
as mulheres, os escravos, os estrangeiros) para um contexto em que metade
do mundo vive em ambiente democrático, e a expansão das democracias
parece estar continuando (CORTELLA; RIBEIRO, 2010, p. 19).

Inspirados pelos ideias estoicos, os romanos recriam a definição de justiça como a vontade
constante e perpétua de dar a cada um o que é seu. Isso é uma forma de dizer que a justiça é
fazer as pessoas se comportarem em conformidade com a lei. O que caberia a cada um já estaria
determinado por uma lei. A noção de conformidade à lei como definição de justiça acabaria se
impondo no pensamento ocidental.

Já na Idade da Razão, Hobbes escreveu que a justiça consiste simplesmente na manutenção dos
pactos. Quando não há um Estado exercendo o poder coercitivo que assegure a manutenção dos pactos,
não existe justiça nem injustiça (HOBBES, 2008).

Mesmo a interpretação de Kant da definição romana de justiça a reduz ao respeito a uma norma
já estabelecida:

Se aquela fórmula fosse traduzida por “dar a cada um o que é seu”, estaria
dizendo um absurdo, pois não é possível dar a alguém o que já tem. Para
ter sentido deve ser assim expressa: inclui-se numa sociedade em que a
cada um possa ser garantido o que é seu contra qualquer outro (KANT,
2013, p. 31).

Outros filósofos perceberam que esse conceito romano de justiça é a simples tentativa de justificar
um determinado sistema de valores. Kelsen disse:

Justiça significa a manutenção de uma ordenação positiva mediante sua


conscienciosa aplicação. Ela é justiça segundo o direito. A proposição
segundo a qual o comportamento de um indivíduo é justo ou injusto no
sentido de ser jurídico ou antijurídico significa que seu comportamento
corresponde ou não à norma jurídica que é pressuposta como válida pelo
sujeito judicante por pertencer a uma ordenação jurídica positiva (KELSEN
apud ABBAGNANO, 2007, p. 111).

Assim, percebemos que a ideia original de justiça para a felicidade foi transformada em justiça para
a manutenção da propriedade. Quer se entenda a norma como de direito natural, quer como norma
moral ou de direito positivo, a justiça seria sempre considerada uma conformação do comportamento
do indivíduo à norma. Portanto, a justiça não se refere ao comportamento específico da pessoa, mas
à eficiência da norma na sua capacidade de facilitar as relações humanas, e a norma se transformou
87
Unidade II

no objeto do juízo e do direito. Assim, os diferentes pontos de vista das diferentes teorias da justiça,
derivadas do direito romano, são os diferentes conceitos de como se pretende medir a eficiência de uma
norma como regra para o comportamento social.

Por isso, ao examinar as leis, os juristas não avaliam seu grau de justiça, mas tentam apenas
estabelecer a sua eficiência no que diz respeito às melhorias das relações humanas. Pensam simplesmente
na eficiência das leis para garantir seu objetivo fundamental, que é considerado um valor absoluto. Isso
sugere que a autoridade jurídica não necessite de ética pessoal para fazer justiça. Basta que ele julgue
de acordo com a exigência genérica da lei, que para ser justa deve estar adequada ao sistema de valores
que determina as regras de uma sociedade. Por esse motivo é que algumas sociedades permitem a pena
de morte e outras não.

Nesse sentido, a justiça prevista pelo direito romano não considerou o pensamento de Aristóteles,
que escreveu:

As leis promulgadas sobre qualquer coisa visam à utilidade comum a


todos ou à utilidade de quem se destaca pela virtude ou por outra forma;
desse modo, com uma só expressão definimos como justas as coisas que
propiciam ou mantêm a felicidade ou parte dela na comunidade política
(ARISTÓTELES, 2009, V. 1, p. 1129 b 4).

Durante a Idade Média, a identificação do bem comum com a bem-aventurança eterna de Deus se
tornou um caso particular dessa doutrina romana com a interpretação que foi feita por São Tomás de
Aquino. No mundo moderno, Hume retornou a esse ponto de vista do direito romano quando pensou
que a felicidade e a segurança seriam a finalidade útil da justiça numa sociedade (HUME, 2005). A
redução da justiça à utilidade, e não à felicidade, tem a característica de eliminar o caráter de fim último
ou valor absoluto, levando a considerá-la como solução dos conflitos humanos.

4.1 A República e a cidadania: classes sociais e eleições

Para que a existência de Roma fosse uma continuação da tradição grega, a história de sua fundação
por volta de 750 a.C. conta que Eneias, herói de Troia, fugiu da cidade derrotada e fundou a cidade
de Alba Longa, às margens do rio Tibre. Eneias se casou com a filha de Latino e se tornou o rei dos
latinos. Dezesseis gerações depois, nasceram os gêmeos Rômulo e Remo, que foram abandonados às
margens do rio Tibre. Eles foram amamentados por uma loba e recolhidos por um pastor que os educou.
Posteriormente, os gêmeos fundaram naquele local a cidade de Roma.

A história e a arqueologia indicam que Roma surgiu provavelmente como uma fortificação militar
por volta do século VIII a.C. para defender os moradores da região contra o povo etrusco.

No início da República, a sociedade romana estava dividida em quatro classes:

• Os patrícios formavam a aristocracia dos proprietários de terra e detinham todos os cargos


políticos.
88
Fundamentos da Ciência Política

• Os clientes eram romanos não proprietários que sobreviviam vendendo seus serviços aos patrícios.

• Os plebeus eram os camponeses, os comerciantes e os artesãos, e formavam a maioria da


população. Nos primeiros tempos, eles não tinham direito de participar das decisões políticas,
mas eram obrigados a lutar no exército e a pagar impostos.

• A classe sem voz eram os escravos, geralmente pessoas capturadas pelo exército após as guerras.
Portanto, no início, a cidade de Roma tinha características muito parecidas com as das cidades gregas.

O período da República Romana abrange três séculos (IV, III e II a.C.). No período, a pequena cidade
se transformou no maior império da Antiguidade. Os romanos começaram por conquistar seus vizinhos
dentro da própria Península Itálica. No século III a.C., toda a atual Itália já tinha sido dominada.

A conquista territorial foi o resultado de uma aliança entre os patrícios e os plebeus. Os


plebeus participavam das campanhas do exército e em troca recebiam terras e direitos políticos.
Além de conquistar posições de defesa, a expansão virou a força motriz da economia romana. Ao
conquistar um determinado território, saqueavam o lugar, tomavam a posse da terra e faziam
escravos.

Após terem dominado a Península Itálica, os romanos passaram a buscar outros territórios. O primeiro
deles foi Cartago, no norte da África, onde hoje em dia fica a cidade de Túnis. Cartago era uma grande
cidade fundada pelos fenícios, tão rica que rivalizava com a própria Roma. Dominava todo o norte da
África até o litoral da Península Ibérica.

As guerras dessa conquista foram as Guerras Púnicas (264 a.C.-146 a.C.), que se estenderam por
quase cem anos. Após três guerras, Roma dominou Cartago, tornando-se a única potência comercial do
mar Mediterrâneo.

Após a conquista da Macedônia (168 a.C.), a Grécia tornou-se parte do Império Romano, e a
influência de sua cultura começa a ser sentida no mundo romano. Veremos isso posteriormente, quando
estudarmos Marco Túlio Cícero.

A expansão romana seguiu para a Península Ibérica, a Grécia, a Gália e o Oriente. Depois de séculos
de conquista, Roma dominou toda a orla do Mediterrâneo, chamando-o de Mare Nostrum (Nosso Mar).
Nesse longo período, os plebeus lutaram para conquistar a igualdade política com os patrícios. 

4.2 A organização da República

Com a instalação da República, os patrícios romanos construíram uma organização social e


administrativa para exercer o domínio sobre Roma e desfrutar os privilégios do poder. Eles controlavam
os altos cargos da República.

Essa organização social e administrativa da República previa a existência de um Consulado


composto por dois cônsules. Cada um dispunha de um mandato de um ano, e eles eram votados pela
89
Unidade II

Assembleia Centurial. Necessariamente tinham de pertencer a famílias patrícias e ser referendados


pelo Senado. Os cônsules desempenhavam as funções de chefes de Estado. 

Observação

Quando Roma entrava em guerra, os cônsules eram substituídos por


um ditador. Os ditadores eram votados para um mandato de seis meses sem
direito a renovação e dispunham de plenos poderes para que pudessem
lidar com eventuais situações de crise social.

Essa possibilidade jurídica de transformar um general em mandatário


supremo, devido a ameaças externas ao país, permitiu que os juristas
brasileiros que eram contra a democracia no Brasil transformassem generais
em presidentes no período entre 1964 e 1985.

Foram criados Atos Institucionais, que eram leis que determinavam a


instituição da República segundo os interesses militares e em nome da
segurança nacional. Mesmo durante esse período, o Senado continuou a
funcionar, mesmo que em determinados momentos os senadores fossem
escolhidos pelos militares.

Seguindo a tradição contratualista, todos as intervenções políticas dos militares eram


acompanhadas de decretos-lei, que não eram votados pelo Congresso Nacional, mas simplesmente
determinados pelos generais.

O maior poder de Roma era exercido pelo Senado. Durante a República, o Senado Romano foi
formado pelos patrícios com mandato vitalício. Geralmente, os patriarcas das famílias ocupavam
esse posto. Era a instituição que zelava pelo poder da aristocracia, sendo responsável pela
nomeação de juízes e embaixadores. O Senado também controlava as finanças e decidia a guerra.
Havia também a Assembleia Curiata, que cuidava dos assuntos religiosos. No início de Roma, essa
assembleia tinha alguma importância, mas no período repúblicano foi conservada apenas para
preservar funções honoríficas.

Ao lado do Senado, existia a Assembleia Centurial, composta pelos militares agrupados em centúrias,
equivalentes aos batalhões modernos. Existiam mais centúrias patrícias do que centúrias plebeias. Na
Assembleia, conviviam patrícios e plebeus, todos romanos, que votavam as leis que vigoravam em
Roma. Além dos cônsules, a Assembleia Centurial elegia vários magistrados, que, em geral, tinham
mandato de um ano. Os principais cargos da magistratura eram os pretores, que administravam a
justiça; os censores, que faziam o recenseamento da população pelo critério de riqueza e zelavam
pelas tradições; os questores, que administravam as finanças e cobravam os impostos; e os edis,
que cuidavam da conservação da cidade. Também eram eleitos os pontífices, que celebravam os
cultos religiosos. Na Assembleia Centurial ainda eram resolvidas as apelações dos cidadãos contra as
decisões dos magistrados.
90
Fundamentos da Ciência Política

Uma nova magistratura foi instituída mais tarde, o Tribunato da Plebe. Essa instância surgiu no auge
dos conflitos sociais entre patrícios e plebeus para representar os plebeus. Os tribunos conquistaram o
direito de veto das decisões do Senado.

Os patrícios concentraram cada vez mais seus poderes e se apropriaram das terras do Estado. Roma
tinha na esfera militar sua principal estratégia para manter as províncias, era assim que os militares
obtinham cada vez mais poder. Dessa forma, muitas das situações jurídicas eram resolvidas simplesmente
pela força.

Com isso, o sistema repúblicano começou a entrar em colapso devido à pobreza dos plebeus, e
estes começaram a vender seus votos para poderem sobreviver, criando um processo de corrupção
generalizada.

Caio Júlio César emergiu na vida política no período das lutas internas da classe política que levaram
ao fim da República. Ele formou uma aliança com os patrícios para resolver os problemas do Estado à
qual se deu o nome de Primeiro Triunvirato. César passou a dividir o controle da República com dois
outros generais: Pompeu e Crasso.

Julio César partiu para a guerra da Gália, atual território francês. Depois de conquistar o território
para Roma, voltou para a cidade. Mas se imaginava que ele lutaria contra os exércitos de Pompeu, que
naquele momento controlava a cidade. Crasso tinha morrido na guerra, na frente oriental.

Pompeu conseguiu que o Senado o designasse como único cônsul, mas, quatro anos depois, Júlio
César derrotou-o numa batalha. O Senado dividido elegeu o general Júlio César como senador vitalício,
dando a ele poderes supremos de ditador de Roma.

Posteriormente, Pompeu refugiou-se no Egito, sendo perseguido por César, e foi assassinado pelo rei
do Egito. Quando desembarcou em Alexandria, César castigou os assassinos de Pompeu e reconquistou
a África de seu rival, o general Cipião, que pertencia ao partido de Pompeu. Depois, atacou a Hispânia,
controlada militarmente pelo filho de Pompeu.

Sua ambição parecia satisfeita, e César mostrou ser clemente. Devolveu os direitos políticos
aos proscritos e reduziu um quarto das suas dívidas privadas. Deu trabalho aos pobres, restringiu o
divórcio, favoreceu as famílias numerosas, deu direitos aos plebeus e reduziu o poder do Senado. Os
militares passaram a partilhar com os senadores dos negócios públicos. As populações fiéis da Gália
receberam direitos de cidade, e a lex julia municipalis reorganizou os municípios italianos.

No entanto, César foi acusado de querer se tornar rei e por isso foi assassinado à porta do Senado.
Um de seus filhos adotivos, o patrício Otávio, derrotou seus rivais pretendentes a governar Roma,
vencendo-os em batalhas. Depois de derrotar o general Marco Antônio, que tinha sido designado pelo
Senado Romano para governar o Egito, Otávio tornou-se o primeiro imperador romano, com plenos
poderes, e adotou o nome de Otávio Augusto. Ele se dedicou à administração de Roma e parou com as
guerras de conquista. Durante sua administração, Roma passou por um período de paz, a pax romana,
que manteve um rigoroso controle social, político e econômico.
91
Unidade II

Mas o resultado imediato da instituição do Império Romano para a história do ocidente foi o
mau exemplo da organização política por coerção militar. Depois de Otávio Augusto, a maioria dos
imperadores que o sucederam foi deposta através de golpes de Estado articulados entre proprietários
de terras e generais.

Esse exemplo foi seguido por toda a Idade Média. No ano 800, quando o rei da França e da
Alemanha, Carlos Magno, solicitou ao Papa Leão III que fosse coroado em nome de Deus, exigiu
também ser reconhecido como sucessor do Império Romano. Em 962, o rei Otto I conquistou a Itália
e passou a ser chamado de Kaiser, corruptela alemã da palavra César.

Até que os iluministas voltassem a pensar na república como forma de governo, foi a Roma
imperial que serviu de inspiração para a organização política e social da Europa. Por séculos as ideias de
igualdade foram postas de lado em favor da ideia de uma sociedade de classes proprietárias de terra,
que controlavam forças militares.

As eleições continuaram existindo entre os pares; os príncipes votavam quem seria o imperador na
Alemanha, e os cardeais votavam quem se tornaria o Papa. Porém, qualquer ideia de igualdade civil foi
combatida por aproximadamente 1.500 anos.

4.3 O pensamento de Marco Túlio Cícero

Sabemos que das ideias de Platão e de Aristóteles surgiu toda a Filosofia ocidental. Algumas
escolas tentaram ser a continuação da obra de um ou de outro, ou até mesmo a refutação delas. Em
Roma, existiram muitos historiadores e literatos, mas foram poucos os pensadores que contribuíram
para o pensamento filosófico.

Por um lado, os romanos eram muito práticos e pareciam ter pouca afeição à sabedoria. Por outro,
o mundo das ideias parecia ameaçar o sistema social e jurídico dos romanos, que no período da
República, principalmente, determinou a ordem entre os iguais e a justiça entre os desiguais.

A maior parte dos pensadores romanos pensou o direito. É como se a sabedoria romana fosse
justamente aquilo que Platão e Sócrates combatiam: sofistas vendendo o seu conhecimento através da
arte da retórica para defender o interesse dos proprietários e dos comerciantes.

A principal escola de filosofia de Roma foi o estoicismo. Essa escola já existia na Grécia, mas foi
em Roma que ela ganhou o status de corrente filosófica importante. Um de seus maiores pensadores
romanos foi Marco Túlio Cícero, que através de seus atos e de suas obras contribuiu para a formação de
parte da ideologia do mundo romano.

Como o estoicismo permitia a assimilação de ideias sobre a vida prática, tornou-se o sistema
filosófico romano para pensar a ética e o direito na República Romana. A distinção entre o lícito moral
e o lícito jurídico, bem como entre aequitas (igualdade) e utilitas (utilidade), eram consideradas as ideias
fundamentais pelos estoicos.

92
Fundamentos da Ciência Política

O sistema jurídico romano era muito mais sofisticado do que o grego, e um dos motivos é que as
leis de Roma valiam para todos os territórios conquistados. Assim, era necessário estabelecer práticas
jurídicas que pudessem ser aplicadas em cidades distantes. Como essas cidades eram dominadas, e não
território patrício, nelas não havia nem votações, nem escolhas de magistrados locais. Os juízes eram
sempre romanos.

O direito romano tinha como finalidade determinar os limites da ação dos indivíduos. Não servia
para impor o dever, mas para fazer respeitar os princípios, como o ideal para se alcançar a felicidade
através da razão humana, que devia imperar sobre a natureza.

Assim, o estoicismo ajudava o indivíduo a aceitar a adversidade. O ser humano viveria melhor se
estivesse com a razão e fosse comedido com os desejos e as paixões. A verdadeira felicidade estava na
busca da virtude, da justiça e da honestidade. As alegrias e os infortúnios precisavam ser aceitos, porque
existem na natureza do mundo.

Marco Túlio Cícero (106-43 a.C.) nasceu numa família rica, mas não patrícia, e sua educação o formou
como orador e advogado. Eleito questor, Cícero subiu nos postos públicos da República, chegando ao
Senado mesmo sem ter origem patrícia. Durante o período em que César e Pompeu, através das suas
disputas politico-militares, induziram o fim da República Romana, Cícero tornou-se cônsul, o cargo
máximo naquele tempo.

Sua obra como filósofo representa o estoicismo romano, e seu legado são considerações sobre
o direito e a filosofia romana. Em Da República, Cícero adotou a forma da dialética platônica para
investigar os problemas das formas de governo. Quando ele concluiu que a república é a melhor forma
de governo, não estava se referindo a uma ideia de república como Platão e Aristóteles, mas à própria
República Romana. Em De Legibus, ele articulou uma conversa de três personagens em que a terceira é
ele mesmo para explicar como as leis devem ser pensadas a partir do direito natural.

Em Paradoxa Stoicorum (Os Paradoxos dos Estoicos), Cícero discutiu os paradoxos através da
filosofia estoica. Em De Finibus Bonorum et Malorum (Os Extremos do Bem e do Mal), discorreu sobre
a virtude, que considerava o maior bem que pode existir.

A vantagem de Cícero é que ele tinha de fato participado da maior república que jamais tinha
existido no mundo, tinha alcançado o poder máximo, equivalente hoje em dia ao de presidente ou
primeiro-ministro, e estava escrevendo durante um exílio forçado, pois sabia que, depois que César tinha
acabado com a república, tornando-se imperador, aquilo que ele tinha visto e participado nunca mais
voltaria a acontecer em Roma.

Seu pensamento como político foi expresso na forma de discursos, alguns como advogado, mas a
maioria como senador. Seu pensamento era guiado pela ideia do direito natural como fundamento da
conduta moral e ética dos homens. Justamente no auge da República e às vésperas de Roma se transformar
em império, a discussão entre filósofos e juristas romanos girava em torno do questionamento daquilo
que é verdadeiramente justo: o justo por natureza ou o justo por lei?

93
Unidade II

Cícero sempre defendeu a lei como expressão do direito natural, porque isso era consequência
da razão natural. A lei, portanto, devia ser igual por toda parte, determinando o que deve ser
feito e o que deve ser evitado. Isso traria à lei um elo entre a consciência natural, a ética e a
prática da justiça. Caso fosse exercido apenas um direito positivo, a lei seria sempre escrita para
resolver situações imediatas, e portanto haveria dificuldades de encontrar a virtude natural que
deveria reger o ser humano. Para Cícero, não existia a coisa justa por convenção. Este foi o maior
ensinamento do estoicismo romano.

Observação

Tais ideias sobre o direito romano influenciam até hoje o direito nos
países latinos. As leis gerais que valem para todos em qualquer lugar
nasceram na República Romana.

O homem político só atingirá a virtude suprema se sua atuação estiver voltada para o bem de seu
povo. Depois de Cícero, a Filosofia estoica influenciou pensadores e homens políticos como Sêneca (4
a.C.-65 d.C.) e o imperador romano Marco Aurélio (121-180 d.C.).

Durante o período imperial romano, enquanto durou a pax romana, Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio
utilizaram a Filosofia estoica para dignificar o poder imperial. Assim, ela acabou se tornando a base do
direito romano e, indiretamente, serviu também para fundamentar a doutrina moral da Igreja Católica.

No Renascimento, quando o humanismo e o naturalismo estoico foram retomados, essas ideias


influenciaram posteriormente Montaigne, Pascal, Descartes, Espinoza e Leibniz. Os argumentos dos
estoicos sobre a existência ontológica do conhecimento da virtude no ser humano, que seria igual em
todos os homens, gerou polêmica ao afirmar que o direito natural deve se sobrepor sempre ao direito
positivo.

Resumo

A maior parte dos pensadores romanos pensou o direito. O direito


romano tinha como finalidade determinar os limites da ação dos indivíduos.
Não servia para impor o dever, mas para fazer respeitar os princípios, como
o ideal para se alcançar a felicidade através da razão humana, que devia
imperar sobre a natureza.

Cícero sempre defendeu a lei como expressão do direito natural, porque


isso era consequência da razão natural. A lei, portanto, devia ser igual por
toda parte, determinando o que deve ser feito e o que deve ser evitado.
Isto traria à lei um elo entre a consciência natural, a ética e a prática da
justiça. Caso fosse exercido apenas um direito positivo, a lei seria sempre
escrita para resolver situações imediatas – portanto, haveria dificuldades
94
Fundamentos da Ciência Política

de encontrar a virtude natural que deveria reger o ser humano. Para Cícero,
não existe a coisa justa por convenção.

A origem da lei pode ser explicada através da evolução natural dos


homens na busca da justiça ou da ideia de que os homens, depois de se
organizarem nas cidades, determinaram as leis por convenção. Quem
acreditava na ideia de convenção pensava que a lei podia ser modificada.
Nas cidades gregas, todos os homens livres eram considerados iguais, e
na ágora, a praça do mercado, eram feitas as assembleias públicas, que
determinavam as leis e os julgamentos das questões entre os cidadãos.

A vida política era mantida pelas leis e devia instituir a ordem, a


harmonia e a concórdia entre os seres humanos sob a forma da cidade
(polis). Dessa forma, foi o uso da razão que inventou a política.

Os sofistas acreditavam que, mesmo sem deixar de acreditar nos deuses,


os seres humanos criassem as leis e as instituições, e isso fizesse surgir a
comunidade política.

A teoria política defendida pelos sofistas tinha a concepção de que


o desenvolvimento das técnicas e dos costumes humanos levava às
convenções. A tradição e os costumes faziam a convenção, assim funcionava
a atividade política. Mas existia a ideia de que a política era consequência
da natureza, porque a constituição da cidade também era uma decorrência
da natureza, isso porque a natureza dos seres humanos seria diferente da
natureza dos animais, já que os seres humanos se comunicam e refletem
sobre a realidade utilizando palavras. A consequência desse raciocínio é que
os seres humanos são naturalmente sociais e, como observou Aristóteles, são
animais políticos. Então, ao conhecermos a natureza humana, encontramos
as causas da política. A finalidade da política seria encontrar a medida da
justiça; essa medida seria a lei, votada depois de uma defesa pública de sua
pertinência, e a vitória do interesse mais bem-argumentado seria aprovado
pelo voto da maioria. A política introduz a necessidade da publicidade, a
transparência para que a sociedade conheça as regras e participe da tomada
de decisão. A existência do espaço público de discussão, deliberação e
decisão significa que a sociedade convive com os acontecimentos e que as
ações não são ordenadas por uma vontade particular.

Platão sugere três doutrinas. A primeira é a doutrina das ideias, que


são entidades ou valores que têm um status diferente daquele das coisas
naturais. Com base nessa doutrina, todo conhecimento adquirido pelos
sentidos (visão, audição, tato, paladar e olfato) não tem o mínimo valor de
verdade e pode eventualmente apenas impedir o acesso ao conhecimento
autêntico. Na segunda, que é a doutrina da superioridade da sabedoria
95
Unidade II

sobre o saber, a sabedoria permite conhecer o objetivo político da Filosofia,


cuja meta final é a realização da justiça nas relações humanas. Por fim,
há a doutrina da dialética como procedimento científico, como método
através do qual a investigação conjunta consegue reconhecer uma única
ideia, para depois dividi-la em suas articulações específicas.

Acreditava-se que as ideias inatas fossem aquelas que não vêm da nossa
experiência sensorial porque não existem objetos sensoriais ou sensíveis
para elas. Essas ideias inatas sempre são inteiramente racionais e existem
porque nascemos com elas.

Aristóteles não se iludia com a realidade da vida. Pensava que a justiça


política deveria respeitar o modo pelo qual uma comunidade definia a
participação do poder por seus cidadãos, pois os regimes espelhariam os
valores mais respeitados pelos cidadãos.

Se uma cidade valorizasse a honra fundada na hierarquia social dos laços


familiares, na propriedade da terra e nas tradições, o poder seria a honra
mais alta que deveria ser destinada a uma só pessoa, o rei, e seria justo que
na monarquia só ele tivesse poder. Nas cidades onde as virtudes do caráter
fossem mais importantes, tais como a coragem, a lealdade e a fidelidade ao
grupo e aos antepassados, o poder seria dirigido pelos melhores, e seria justo
haver uma aristocracia. Outras cidades que valorizassem a igualdade não
considerariam as diferenças entre os ricos e os pobres uma questão política,
e haveria democracia, na qual seria justo que todos participassem do poder.

Para Aristóteles, há uma diferença entre a tirania sobre o povo que


não aceita a submissão e a tirania sobre o povo que aceita. A ideia de
legitimidade do poder nasce com Aristóteles e é um tema clássico do
pensamento político. Sua forma de pensar estava estruturada na doutrina
das quatro causas: a formal, a material, a eficiente e a final. A doutrina do
movimento, como passagem da potência ao ato, permitiria a interpretação
de toda a realidade natural, e essa forma de pensar ainda é parcialmente
utilizada pelos cientistas.

Sua ideia de teologia, fundada nos seus conceitos de primeiro motor


(do mundo) e do ato puro, justificou a ideia de Deus defendida pela Igreja
Católica durante toda a Idade Média. Junto com essa doutrina, Aristóteles
também criou a da essência substancial ou necessária, que defendia que a
alma seria a base da teoria do conhecimento e da lógica.

Isso quer dizer que a Filosofia romana não criou categorias abstratas
de pensamento filosófico ao estilo platônico ou aristotélico e lidou com a
realidade. Assim, foi criado um sistema filosófico voltado para a utilidade.
96
Fundamentos da Ciência Política

Os romanos foram influenciados pelos filósofos estoicos gregos, que


sustentavam que o universo era conduzido por um princípio geral, a razão.
Segundo eles, o mundo da matéria está impregnado de racionalidade, e o
homem é essencialmente racional.

A ideia original de justiça para a felicidade se transformou em justiça


para a manutenção da propriedade. Entendendo a norma como de direito
natural, como norma moral ou de direito positivo, a justiça seria sempre
considerada uma conformação do comportamento do indivíduo à norma.
Portanto, a justiça não se referia ao comportamento específico da pessoa,
mas à eficiência da norma na sua capacidade de facilitar as relações
humanas. Assim, a norma se transformou no objeto do juízo e do direito, e
os diferentes pontos de vista das diferentes teorias da justiça, derivadas do
direito romano, são os diferentes conceitos de como se pretende medir a
eficiência da norma como regra para o comportamento social.

No início da República, a sociedade romana estava dividida em quatro


classes. Os patrícios formavam a aristocracia dos proprietários de terra
e detinham todos os cargos políticos. Os clientes eram romanos não
proprietários que sobreviviam vendendo seus serviços aos patrícios. Os
plebeus eram os camponeses, os comerciantes e os artesãos, e formavam
a maioria da população. Nos primeiros tempos eles não tinham direito de
participar das decisões políticas, mas eram obrigados a lutar no exército e
a pagar impostos. A classe sem voz era a dos escravos, geralmente pessoas
capturadas pelo exército após as guerras. Portanto, no início, a cidade de
Roma tinha características muito parecidas com as das cidades gregas.

O sistema repúblicano começou a entrar em colapso devido à pobreza


dos plebeus. Nos períodos de votação, os plebeus começaram a vender
seus votos em troca de casa e comida para poder sobreviver, criando um
processo de corrupção generalizada.

No final da unidade, vimos que Caio Júlio César era um general que
formou uma aliança com os patrícios para resolver os problemas do Estado.
O Senado Romano o elegeu como senador vitalício, dando a ele poderes
supremos de ditador de Roma. Mas Caio Júlio César foi acusado de querer
se tornar rei e por isso foi assassinado à porta do Senado.

Um de seus filhos adotivos, o patrício Otávio tornou-se o primeiro


imperador romano, com plenos poderes, adotando o nome de Otávio
Augusto. Foi a Roma Imperial que serviu de inspiração para a organização
política e social da Europa durante a Idade Média. Por séculos, as ideias de
igualdade foram postas de lado, em favor da ideia de uma sociedade de
classes proprietárias de terra, que controlavam forças militares.
97
Unidade III

Unidade III
5 As bases do poder teocrático

A existência de Roma foi marcada pelo Império Romano, um Estado centralizado, controlado pelo
direito que delimitava as leis e os regulamentos que zelavam pelos interesses dos proprietários de terra
conhecidos como patrícios. No Império Romano surgiu a hierarquia verticalizada do poder, que é a
forma como os Estados nacionais governam até os dias de hoje.

É necessário explicar que uma estrutura verticalizada de poder já existia nas civilizações como forma
derivada da estrutura da família. O irmão mais velho deveria governar, os demais teriam de ajudar
a manter a família; às mulheres cabia reproduzir e obedecer. Todas as monarquias foram estruturas
hierárquicas verticais.

Observação

Os reinos na Antiguidade eram limitados a um território específico, ou,


no máximo, a um território principal e outros poucos anexados.

O império conquistado por Alexandre, o Grande, o primeiro a existir na história ocidental, era
administrado como uma confederação. Cada território adaptava sua forma de se relacionar diretamente
com o poder central. No Império Romano, a lei passou a unir diferentes territórios e povos numa mesma
unidade jurídica socioeconômica.

A verticalização e a centralização do poder encantam a mente dos homens sequiosos de poder


até os dias de hoje. Desde o Império Romano e durante toda a Idade Média, esse foi o modelo para
a organização de toda unidade jurídica socioeconômica no Ocidente, começando pelos países
europeus.

A história da Idade Média se confunde com a história da religião católica. Essa religião, na história
ocidental, atuou junto com os poderosos e até mesmo muitas vezes esteve acima do poder do Estado.
Nesse período, a religião tornou-se mais importante do que as leis.

Há duas grandes diferenças entre as leis do Estado e as da religião. A primeira é que as leis do Estado
são escritas pelos homens. Assim, servem por um determinado tempo e, quando deixam de fazer sentido
para a sociedade, caem em desuso, ou simplesmente são revogadas. Por exemplo, se em determinado
momento uma sociedade resolve fazer leis a respeito do tráfego de carroças no centro da cidade, tais leis
durarão enquanto as carroças forem utilizadas. Se esse meio de transporte for substituído por caminhões,
as leis originais poderão até servir como base histórica para as novas leis, mas não serão iguais, uma vez
98
Fundamentos da Ciência Política

que leis sobre tráfego de caminhões e de carroças precisam ser muito diferentes. Portanto, a sociedade
acaba substituindo leis antigas por modernas, de acordo com as modificações que sofre.

A segunda grande diferença é que as leis das religiões são defendidas pelos sacerdotes para que
permaneçam sempre da mesma forma, principalmente, dentro da tradição judaico-cristã. Deus,
para essas religiões, é a mesma entidade, e sua maior característica seria ser eterno (justamente
por esse atributo teria sido capaz de criar todas as coisas). Então, como para essa tradição Deus
não escreve leis diretamente – a única vez em que isso teria acontecido teria sido quando da
entrega das Tábuas da Lei para Moisés contendo os mandamentos –, seria necessário que alguém
as escrevesse. Era isso o que acontecia no Egito Antigo. Os sacerdotes escreviam as leis. Mas
naquele tempo havia a sabedoria dos sacerdotes em separar o que era a lei dos deuses e o que
eram as leis que deveriam organizar os homens.

Quando um Estado acredita que as leis da religião são mais importantes do que as leis que organizam
a sociedade, cria-se um Estado teocrático, também chamado de teocracia. O que aconteceu na Europa e
foi determinante para a civilização ocidental foi que, durante os séculos finais de existência do Império
Romano, os cristãos foram tomando a burocracia do Estado até o ponto em que o próprio imperador se
tornou cristão.

Os políticos, então, passaram a discutir cada vez mais as regras da religião, até que elas fossem
unificadas para que a religião cristã se tornasse única dentro do Império Romano. Essa novidade
social precisou de ideias e doutrinas para ser construída e sustentada. Toda a doutrina católica foi
fundamentada pela própria Bíblia e pelos Evangelhos do Novo Testamento. Porém, a adoção de uma
bíblia – um texto para unificar as escrituras – gerou possibilidades de múltiplas interpretações, que
precisaram de reflexão filosófica (CHAUI, 2000).

As correntes de pensamento cristãs não nasceram diretamente dos Evangelhos. Duas influências
foram importantes: a tradição hebraica, que há séculos vinha escrevendo e refletindo sobre o texto
religioso do Velho Testamento para poder promover a justiça entre os judeus; e o estoicismo romano,
que tinha desenvolvido o conjunto de leis que sustentavam o Império.

Os judeus não foram os primeiros a escolherem um caráter teocrático para a sua organização
social. Embora a Palestina e a Judeia fossem, vez por outra, dominadas por outras nações, é certo que
desde tempos muito antigos houve judeus morando em muitos reinos estrangeiros. Seus hábitos e
interpretações da Lei mantinham certa unidade entre as comunidades no estrangeiro e a nação judaica
na Judeia. Na prática, as interpretações da Lei eram apenas formas diferentes de entender a palavra de
Deus, que permitiam uma adaptação necessária das colônias judaicas à realidade cotidiana da nação
onde habitavam. Para isso, os religiosos costuravam a unidade do povo judeu dentro e fora de Israel
discutindo e atualizando as diferentes necessidades de adaptação da interpretação das leis de Deus.

Esse hábito de permitir que uma autoridade religiosa pudesse interpretar a Lei onde houvesse uma
comunidade judaica criou diversas correntes dentro do judaísmo. Surgiram seitas judaicas, que hoje
em dia são mais fáceis de ser identificadas em Israel, mas também nos Estados Unidos e na Argentina,
especialmente em Buenos Aires.
99
Unidade III

5.1 Breve introdução à fundação do judaísmo e seu monoteísmo

A religião judaica é extremamente importante para todas as religiões cristãs. Não apenas a história
do cristianismo se remete à mesma origem da história do judaísmo, mas também os preceitos morais,
como os Dez Mandamentos, a lei de Moisés, são os mesmos para as duas religiões. Os romanos tinham
certeza de que o cristianismo em seu início era uma invenção dos judeus e viam os cristãos como mais
uma das muitas seitas judaicas que habitavam o Império.

A principal força da fé judaica assimilada pelos cristãos foi a crença inabalável na existência de um
Deus único criador do mundo. Tudo o que existe está ligado a Ele por origem. Nesse sentido, não apenas
o monoteísmo foi uma diferença marcante em relação às religiões politeístas da Grécia e de Roma, que
veneravam centenas de deuses e semideuses, mas também a ideia de um Deus pai dos seres humanos
foi certamente a principal novidade ontológica. Segundo o judaísmo e as religiões cristãs, somos filhos
de um pai, que não tem necessidade de uma mãe para criar seus filhos.

No entendimento e na formação das religiões politeístas, encontramos sempre um mito de formação


dos homens e das coisas: tudo seria gerado por meio de um pai e de uma mãe. Para o judaísmo, fomos
gerados apenas pelo pai, e isso faz toda a diferença nessa religião. Esse pai não precisou de mãe para
criar o mundo e todas as coisas e, por isso, para os antigos, era difícil entender essa religião.

Os judeus eram não apenas o povo de Deus, mas principalmente o povo da Lei. Sempre houve entre
eles uma casta de religiosos que mantinha o hábito da leitura da Lei. As consultas sobre as questões
cotidianas recorriam sempre ao livro para a interpretação da justiça. A diferença entre a lei romana
(Lex) e a lei judaica é que enquanto a romana discutia se a lei deveria ser reescrita diante de uma nova
situação real, a judaica interpretava a realidade utilizando sempre o mesmo texto principal ao longo
dos séculos. É como se houvesse uma constituição universal que regesse todos e a interpretação fosse
apenas uma versão das mesmas ideias adaptadas para aquele caso imediato.

A força da religião judaica vem do fato de essa origem encontrar sempre no mesmo livro a forma de
organizar as ideias. De certo modo, isso não era grande novidade, pois os gregos antigos utilizavam o
livro Ilíada, de Homero, que narrava a Guerra de Troia, como fonte para explicação dos comportamentos
humanos. Contudo, no livro hebreu estava não apenas a história da criação do mundo, mas também a
história da criação do povo e a aliança de Deus com ele, prometida a Noé e a Abraão e dada a Moisés.
As regras fundamentais são curtas, claras e fáceis para qualquer pessoa entender e são apenas dez, o
mesmo número de dedos das mãos. Ademais, são numeradas sugerindo uma hierarquia e precedência.

Tudo isso é completamente diferente dos diálogos gregos para a educação das pessoas ou mesmo
das explicações lógicas para a criação do mundo. Para os judeus, não havia discussão com relação à
representação do mundo. Isso elimina a angústia de não saber a origem das coisas e economiza tempo
de discussão e dúvidas.

Para eles, todo poder pertence a Deus. Quando o cristianismo se organizou como nova religião, fez
distinção entre a Antiga Lei, dada por Deus a Moisés, e a Nova Lei, a nova aliança de Deus com o povo,
por meio de seu filho Jesus.
100
Fundamentos da Ciência Política

5.2 As diferenças entre os romanos e os cristãos

Para os romanos, Roma era a senhora do Universo, e, portanto, o imperador (na linguagem filosófica,
o príncipe) romano era o mais poderoso ser do mundo. Era ele quem garantia a paz por meio de seus
exércitos – ele não precisava de mais ninguém para decidir. Isso o tornava um déspota, um tirano e,
quando a tirania era apoiada pelas forças militares, um ditador.

Com tanto poder concentrado nas mãos de uma pessoa, o imperador passou a ser considerado divino,
imbuído dos poderes de fundador do povo, restaurador da ordem universal e salvador do Universo. Para
manter o império, o poder imperial era centralizado e hierarquizado, e isso criava uma hierarquia entre
os funcionários imperiais. Assim, em cada território, um funcionário civil ou militar exercia o poder em
nome do imperador, imitando sua forma de concentração de poder.

A Igreja Católica aproveitou essa estrutura de controle e dominação do Império Romano. A


transformação dos ensinamentos cristãos em teoria política estava ligada à ideia de aproveitar a
estrutura que o Império Romano tinha construído, para fazer valer o poder da Igreja sobre os reinos
cristãos.

“Se Jesus cumprisse a profecia do Messias libertador da religião judaica, seria capitão, rei e sacerdote”
(CHAUI, 2000, p. 500), pois era assim que o Messias havia sido imaginado e esperado. Mas, na prática,
ele foi preso e condenado pela monarquia judaica, que usou o poder do Império Romano para realizar o
seu julgamento e a sua condenação. Entretanto, a ressurreição de Jesus foi a de um líder espiritual, pois
seu reino “não é deste mundo”. Desse modo, o cristianismo pôde crescer à margem do poder político
de Roma e também contestá-lo: os reinos deste mundo seriam primeiro vistos como obra de Satanás.

Então, pela primeira vez surgiu na história uma religião que não era adotada pelo povo de
um Estado, nem mesmo como a religião de um povo étnico. Era uma seita religiosa e, como tal,
o cristianismo pregava para todo ser humano disposto a ouvir. Não havia distinção entre homem,
mulher ou estrangeiro. A dominação universal de Roma criou sem percerber a existência da ideia do
homem universal, sem pátria e sem comunidade política (CHAUI, 2000). Isso facilitou a conversão
daqueles que viviam no Império, pois, mesmo na condição social de escravo ou de plebeu, todos
percebiam que eram iguais de certa forma.

A promessa do cristianismo é de salvação individual eterna. Isso traz um ensinamento moral que é o
dever de obediência a Deus, e o amor ao próximo, inscrito pelo Pai no coração de cada um. Esse primeiro
cristianismo logo em seu princípio é uma mescla do pensamento judaico, por meio dos apóstolos, e do
pensamento romano, através de Paulo e dos primeiros padres. Assim, o cristianismo combinou a ideia
de povo de Deus com a ideia de lei de Deus, que são as concepções que permitiram organizar os povos.

A comunidade cristã era composta de iguais, já que todos eram filhos de Deus, redimidos do pecado
por Jesus depois que aprendiam a Palavra Sagrada ou o catecismo. Após batizados, os cristãos recebiam
a Eucaristia e passavam a participar da nova lei, que é a aliança do Pai com seu povo pela mediação do
Filho. A assembleia dos fiéis chamava-se ekklesia, e o espaço de reunião era a igreja, que passou a ser
chamada de reino de Deus.
101
Unidade III

5.3 A fundação da teocracia

Percebe-se a vocação política do cristianismo na escolha das palavras para explicar a nova religião.
A ekklesia era organizada por uma autoridade apostólica, que deveria reproduzir o ato final de Cristo,
que foi repartir o pão e o vinho na última ceia. Nascia assim a Eucaristia, que é o ato de entender essa
repartição como símbolos do corpo e do sangue de Cristo. Para que as pessoas se tornassem fiéis, era
necessário que aprendessem o Evangelho, que eram as palavras da nova Lei e suas boas novas, conforme
Cristo tinha ordenado no dia de Pentecostes.

O poder da Igreja veio das palavras de Jesus a Pedro:

Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do


inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do reino: o que
ligares na Terra será ligado no Céu, o que desligares na Terra será desligado
no Céu (MATEUS, 16, 18-9).

Desse modo, segundo a Bíblia, só quem for autorizado por Pedro irá para junto de Deus. Os seguidores
de Pedro também têm o poder para ligar os homens a Deus ou até mesmo de separá-los de Deus. Essa
é a fundação da Igreja Católica como instituição de poder. Esse é o poder teocrático, pois sua origem é
Deus (CHAUI, 2000). O poder (kratos) pertence a Deus (theos). Essa forma de organização da cidade e do
reino foi chamada de teocracia.

O poder teocrático é, portanto, superior ao poder político, porque o poder político é humano,
enquanto o poder teocrático vem de Deus. A assembleia (ekklesia) era uma comunidade de bons e
justos, separada do Estado e do poder imperial romano. A organização dessa assembleia estabelecia uma
hierarquia que conseguia construir aquilo que Santo Agostinho – o bispo filósofo que sedimentou os
ensinamentos cristãos da filosofia dos padres da Igreja, a Patrística – vai chamar de Civitas Dei, a Cidade
de Deus.

A Roma Imperial era a Cidade dos Homens, injusta e satânica. A instituição eclesiástica acabou
convertendo o imperador romano Constantino, que transformou o cristianismo na religião oficial do
Império. Assim, a ekklesia transformou-se numa organização que herdou a estrutura burocrática e
militar do Império Romano. À medida que cada território romano passou a ser governado por um
seguidor do cristianismo, o poder da Igreja cresceu.

Nesse ambiente governado por cristãos, os padres trataram de sair pelo mundo romano pregando a
palavra de Cristo. Com o tempo, Roma foi perdendo força nos territórios conquistados, mas sua forma
de organização hierárquica continuou a funcionar, desta feita nas mãos dos chefes locais. Mesmo em
Roma, os poderosos já tinham adotado o cristianismo como religião, e os chefes locais da províncias
fizeram o mesmo.

As terras do Império Romano deixaram de pertencer aos patrícios e foram apropriadas por
aqueles que as defendiam militarmente. Com essa nova divisão das terras, em que cada chefe
militar podia ser imperador em seu próprio terreno, todos se viram unidos na mesma religião, e
102
Fundamentos da Ciência Política

assim começou o período da história ocidental que chamamos de Idade Média, que criou uma
nova forma de ordem política – o feudalismo.

A Igreja de Cristo, sediada em Roma, pretendia-se universal e, para isso, usou a palavra katholikus,
do grego, ou catholicus, do latim, que significa universal. Portanto, Igreja Católica é sinonimo de igreja
universal. Seu dever maior era pregar os Evangelhos e a nova lei de Deus, como Cristo tinha ordenado
aos apóstolos. Seu poder fundamentava-se na exclusividade de construir uma ligação entre os homens
e Deus.

Não apenas em Roma, mas também em Bizâncio, que foi a segunda grande capital do Império
Romano e estava situada na atual Turquia, o poder da Igreja cresceu. Grande parte da sua importância
foi devida à acumulação de terras doadas pelos fiéis ao morrer. Essas doações criaram as bases do poder
econômico da Igreja. A instituição, então, passou a ser a guardiã e única intérprete dos textos sagrados
da Bíblia. Com o passar dos séculos, conquistou também o direito de ser a única intérprete de todos os
textos escritos até então: católicos, romanos ou gregos.

A educação básica, que desde os tempos da Grécia tinha sido um dever de todo homem livre, tradição
mantida durante todo o período romano, tornou-se um privilégio exclusivo dos padres. Essa diferença
permitiu que os padres pudessem interpretar aquilo que servia e o que não servia para ligar os homens
a Deus.

5.4 Da religião à política

Aproximadamente 250 anos depois de Cristo, a Igreja já reunia todos os elementos necessários para
criar sua base de poder na Terra. O vínculo entre religião e política foi construído pelos padres, que eram
aqueles que sabiam ler e escrever. Para alcançar esse fim, eles interpretavam a realidade utilizando a lei
de Deus, a lei romana e a filosofia grega, especialmente Platão e Aristóteles.

A Bíblia católica é formada por um conjunto de textos de várias épocas e de autores muito diferentes.
Foi escrita em várias línguas, mas principalmente em hebraico, aramaico e grego. Seu texto universal é
composto pelo Antigo e pelo Novo Testamento.

Para unificar essa obra, foi feita uma tradução para o latim, que era a língua do Império Romano.
O texto traduzido passou a ser considerado o legal, o original, a partir do qual todas as interpretações
deveriam ser feitas. Essa Bíblia em latim serviu de base para os critérios de aceitar ou refutar as ideias
de Platão, Aristóteles ou Cícero.

A lei de Deus era discutida entre os padres, seguindo a tradição judaica de discutir a lei entre os
sacerdotes. Já a lei romana era interpretada por meio dos ensinamentos de Cícero e de sua defesa da lei
natural. Os padres buscaram em Platão confirmar a ideia de que eles eram os sábios justos que deveriam
organizar e governar a cidade. De Aristóteles vinha o conceito de que o motivo do poder é promover
a justiça, em busca da felicidade. A felicidade e a justiça podiam ser encontradas com a escolha do
caminho para Deus (CHAUI, 2000). Da filosofia dos estoicos, a Igreja adotou a ideia de que a política é o
resultado da combinação entre a natureza e a razão.
103
Unidade III

Para conciliar as ideias dos homens com a lei de Deus, a Teologia se transformou na filosofia
dominante e encontrou no Antigo Testamento a frase “Todo poder vem do Alto/Por mim reinam os reis
e governam os príncipes”. Em Cícero, os padres obtiveram a ideia do bom governo do príncipe virtuoso,
que deveria servir de espelho para a comunidade. Ora, quem mais virtuoso do que Deus como senhor
do Universo?

Sendo o poder tido como uma qualidade de Deus, os padres sugeriram que os governantes terrenos
não precisavam representar os governados, mas representar Deus perante os governados. Portanto,
havia a necessidade de darem bom exemplo. Como o rei seria o chefe da monarquia pela graça de Deus,
o regime político organizado sob o domínio da Igreja Católica foi a monarquia teocrática.

A comunidade política era formada pela submissão da assembleia a Deus e a seu representante. O rei
detinha a ideia de justiça, por seguir o direito natural, que inscreveria aquilo que é justo em sua alma.
Ele era considerado o pai da lei e o filho da justiça pela graça de Deus e, por isso, estava acima das leis
e não podia ser julgado por ninguém, dispondo de poder absoluto. A base jurídica dessa ideia era um
preceito do direito romano que ditava: “Ninguém pode dar o que não tem e ninguém pode tirar o que
não deu”. Se o povo não tinha dado o poder ao rei, porque o poder a Deus pertenceria, o povo também
não poderia tirar o poder do rei.

Mesmo quando um rei se tornava tirânico e mau, o povo não tinha o direito de se opor a ele.
Certamente, Deus, em sua sabedoria, sabia dos pecados do povo e tinha permitido que o rei se aproximasse
de Satanás para punir essas faltas (CHAUI, 2000, p. 503).

O príncipe cristão deveria possuir as virtudes cristãs da fé, da esperança e da caridade e o conjunto das
virtudes definidas por Cícero e Sêneca como necessárias a um bom governo. Sendo o príncipe o espelho
da comunidade, em sua pessoa deveriam estar encarnadas as qualidades cristãs que a comunidade
deveria imitar.

Os cristãos entendiam que a política era uma atividade natural do ser humano. O próprio Aristóteles
pensava dessa forma, e o grande pensador da filosofia escolástica, Santo Tomás de Aquino, concordou.
Outros filósofos cristãos, como Guilherme de Ockham, pensavam, como Platão e Cícero, que a política
era a forma de convivência de uma comunidade por meio da razão. As finalidades supremas do poder
político seriam o bem e a justiça, finalidades não políticas, mas espirituais.

Os teólogos construíram, então, a ideia de corpo político do rei. O dever desse corpo era garantir a
salvação eterna e conduzir o povo para os braços de Deus. A cabeça seria o rei, o peito seria a legislação
sob a guarda dos magistrados e conselheiros do rei, os membros superiores seriam os senhores ou barões
que formavam os exércitos do rei e a ele estavam ligados pelo juramento de fidelidade ou de vassalagem
e os membros inferiores seriam o povo, que trabalhava para o sustento do corpo político (CHAUI, 2000).

A cidade de Platão, a polis grega ideal onde os homens iguais discutiam para chegar às decisões,
foi transformada, na Idade Média, no corpo político do rei. A hierarquia política e social foi considerada
natural, porque teria sido criada ao mesmo tempo que Deus criou a natureza.

104
Fundamentos da Ciência Política

Observação

Para a Igreja na Idade Média, o mundo era um cosmos organizado por


uma ordem fixa de lugares e funções. Cada ser e cada coisa ocupava seu
lugar no Universo devido a sua própria natureza.

A posição dos seres no cosmos era determinada por uma escala de graus.
Um ser de um grau inferior devia obediência ao superior, submetendo-se a ele.
Portanto, um camponês, que era de um grau inferior, devia obediência a um
senhor de terras, que era de um grau superior. Assim, na comunidade política,
a hierarquia obedecia aos critérios das funções e da riqueza, formando ordens
sociais e corporações que seriam os órgãos do corpo político do rei.

Durante a Idade Média, deixou de existir a ideia de indivíduo. Em


seu lugar, surgiram as ordenações e as corporações a que cada um
pertencia por vontade divina, por natureza e por hereditariedade. A
palavra ordenação sugere a hierarquia ordenada por graus. A palavra
corporação, por sua vez, sugere que aquele grupo de pessoas que faz a
mesma coisa forma parte do “corpo político do rei”.

Ninguém podia subir ou descer na hierarquia, a não ser por vontade


expressa do rei. Cada um nascia, vivia e morria na mesma posição social,
que era transmitinda aos seus descendentes.

5.5 O controle do pensamento e das terras

A Teologia não desenvolveu suas ideias por meio de mitologias ou “invencionices”. Mesmo sendo a
religião uma crença cujos dogmas precisam ser aceitos sem questionamento – assim como os antigos
gregos acreditavam nos poderes sobrenaturais dos deuses e semideuses –, as regras da Teologia
combinavam sempre a crença cristã e as leis romanas.

Essa combinação gerava leis, que foram sendo desenvolvidas de acordo com as necessidades práticas
de manter a concepção imperial romana da ordem do mundo e, ao mesmo tempo, permitir o ideal
eclesiástico para que a Igreja mantivesse sua influência nessa ordem.

Era preciso manter o pensamento teocrático judaico, que garantia que o acesso a Deus fosse
monopolizado pelos sacerdotes, e oferecer uma garantia teórico-política para aquela sociedade que
estava fragmentada em grandes propriedades rurais espalhadas pelo antigo território do Império.

A Igreja desejava susbtituir a realidade concreta da cidade de Roma, seu Senado e suas legiões pela
presença abstrata de Deus por toda parte, a fim de garantir que no topo da hierarquia se mantivessem
o Papa e os reis. O Papa exercia o poder espiritual, e o rei, o poder temporal (CHAUI, 2000, p. 504).

105
Unidade III

O império romano tinha se dividido entre milhares de pequenos senhores de terra, que controlavam seus
soldados para garantir o domínio das suas terras. Com o tempo, eles acabaram se organizando a partir de laços
de parentesco, repartindo a ocupação do mesmo território. Inspirados pela ideia de Platão, que afirmou que a
forma justa de se escolher um líder era a votação entre os iguais, no início da Idade Média, também chamada
de baixa Idade Média, as eleições entre os senhores de terra decidiam quem era o rei. Os senhores de terra
também conseguiram da Igreja a garantia do direito de descendência para sua familia, pois isso fundamentava
o direito de todos eles permanecerem como proprietários eternos de suas terras.

O maior problema para a Teologia foi então resolver uma questão prática que se impunha durante o
Império Romano: a política romana fazia distinção entre auctoritas e potestas. Auctoritas era o poder no
sentido de promulgar as leis e fazer a justiça. Potestas era o poder de fato para administrar as coisas e as
pessoas. A auctoritas permitia o funcionamento da comunidade política. A potestas permitia a atividade
de administração executiva. Comparados a conceitos atuais, auctoritas seria os Poderes Legislativo e
Judiciário e potestas seria o Poder Executivo.

No início da Idade Média, o Papa possuía a autoridade espiritual, voltada para a salvação, e os reis
possuíam a autoridade legal e a força administrativa temporal. Os padres e bispos administravam a
Igreja no interior dos reinos. Como administradores, os religiosos precisavam ser investidos de seus
poderes executivos pelo rei, mas isso significava que os reis podiam intervir na autoridade da Igreja e do
Papa, o que era inaceitável para a religião.

Os juristas da Igreja então elaboraram uma legislação específica para resolver esse problema, o
direito canônico, que garantiria o poder do Papa na escolha de padres e bispos. Dessa forma, chegou-se
à conclusão de que o poder papal é uma autoridade à qual o rei deveria se submeter.

A pergunta por trás dessa ideia era se Deus tinha escolhido primeiro o Papa para abrir o caminho dos
fiéis para o paraíso ou se tinha escolhido primeiro o rei para administrar a vida dos fiéis na Terra. Estava
claro nas Escrituras que Jesus tinha escolhido Pedro para fundar sua Igreja. Portanto, para os religiosos,
a pergunta tinha nascido com uma resposta pronta.

Quando, por volta do ano 800, Carlos Magno, rei dos francos, conquistou a maior parte da Europa
ocidental, seus juristas criaram a teoria da dupla investidura para que ele pudesse se tornar um novo
imperador. De acordo com essa teoria, o imperador seria investido do poder temporal pelo Papa, que o
ungiria e o coroaria. Por sua vez, o imperador deveria jurar defender e proteger a Igreja, sob a condição
de que esta nunca viesse a interferir nos assuntos administrativos e militares do império. Assim, o
imperador dependeria do Papa para obter o poder político, mas o Papa dependeria do imperador para
manter o poder eclesiástico.

Essa forma de conciliar ambos os interesses acabou se desgastando com o tempo. Então foi
necessário criar uma nova teoria que, séculos mais tarde, permitiria a teoria da monarquia absoluta por
direito divino. A nova teoria foi a teologia política dos dois corpos do rei. Um corpo seria o do “rei pela
graça de Deus”, que seria a imitação do papel de Jesus Cristo. Segundo a religião, Jesus também tinha
duas naturezas: a natureza humana e mortal e a natureza mística ou divina, que é imortal e que o torna
filho de Deus.
106
Fundamentos da Ciência Política

Portanto, da mesma forma que Jesus, o rei teria um corpo humano, que se comportaria como um
ser humano, e um corpo místico e imortal, que seria seu corpo político. O corpo político do rei seria
dado por Deus, e só Deus poderia acabar com este corpo. Os súditos poderiam reconhecer o corpo
místico‑político do rei através de seus símbolos e pertences: a coroa, o cetro, o manto, a espada, o trono,
as terras, as leis, os impostos e tributos e seus descendentes ou sua dinastia. “Sendo filho da justiça, pai
da lei, marido da terra e de tudo o que nela existia, o rei era inviolável e eterno porque seria a imitação
de Cristo e a imagem de Deus” (CHAUI, 2000, p. 506).

Durante a Idade Média surgiu um movimento intelectual que retomou as obras de Aristóteles.
Os intelectuais e os teólogos se esforçaram em separar a Cidade de Deus – a Igreja – e a Cidade
dos Homens – a comunidade política. Chegaram, então, à conclusão de que a Igreja foi instituída e
fundada diretamente por Deus, com a doação das chaves do reino aos apóstolos. Já a comunidade
política teria sido fundada pela natureza, que teria feito do homem um ser racional e um animal
político.

A boa cidade era cristã, em harmonia com a Cidade de Deus, mas as instituições políticas deveriam
ser consideradas humanas, criadas em concordância com a ordem e a lei natural, que também derivam
da lei divina eterna. O teórico mais importante da naturalidade da política foi Santo Tomás de Aquino.
Segundo ele, como o homem é um animal social, a sociabilidade natural já existia no Paraíso antes da
expulsão dos seres humanos. Como depois do pecado original os seres humanos não perderam sua
natureza sociável, naturalmente se organizaram em comunidades e formularam as leis e as relações de
mando e obediência, criando o poder político.

Para Santo Tomás, os seres humanos perderam a inocência original, mas não perderam a natureza
original dada por Deus. Por isso permaneceram com o senso de justiça, que ele entendia como o dever de
dar a cada um o que lhe é devido, e com esse senso de justiça fundaram a comunidade política: a cidade.

A ordem e a justiça definiam a comunidade política como um instrumento humano legítimo para
assegurar o bem comum. O teólogo Guilherme de Ockham também pensou na separação entre o poder
espiritual da Igreja e o poder temporal da comunidade política e sugeriu a ideia do direito subjetivo
natural. Para que a comunidade política pudesse dar a cada um o que lhe é devido segundo suas
necessidades e seus méritos, precisaria estabelecer o critério do que é justo. Para que tanto o legislador
quanto o magistrado tivessem um parâmetro para decidir a justiça, a medida era o direito subjetivo
natural de todos os homens, tais como o direito à vida, à consciência e aos bens materiais e espirituais.
Santo Tomás de Aquino e Guilherme de Ockham introduziram, assim, através da Teologia, novas ideias
para a teoria política.

Essas ideias trouxeram benefícios à comunidade política natural. Apesar da manutenção, pelos
dois teólogos, das formas tradicionais do conceito do bom governo do príncipe cristão virtuoso,
foram eles que pela primeira vez sugeriram, ainda que de forma indireta, o direito de resistência dos
súditos a um tirano.

Os governados não podiam resistir ao mau príncipe, contestando sua autoridade através de
instrumentos legais que o forçassem a abdicar do poder, mas quando o direito subjetivo natural era
107
Unidade III

violado pelo governante, o governo se tornava ilegítimo, pois não estaria mais sendo feito em nome de
Deus, e o pacto de submissão perdia a validade (CHAUI, 2000).

Observação

Etimologicamente, a palavra religião provavelmente signifique


obrigação. Segundo Cícero, a palavra deriva de relegere: “Aqueles que
cumpriam cuidadosamente todos os atos do culto divino e, por assim
dizer, os reliam atentamente foram chamados de religiosos — de relegere
(os que reliam) —, assim como elegantes vem de elegere, diligentes
de diligere e inteligentes de intelligere –, de fato, em todas essas
palavras nota-se o mesmo valor de legere, que está presente em religião”
(ABBAGNANO, 2007, p. 858).

Para Santo Agostinho, a palavra deriva de religare (ABBAGNANO, 2007,


p. 858). Os gregos não tinham um vocábulo equivalente a essa palavra
latina: aocipeía, a palavra mais próxima, significa serviço divino. As
diferentes definições de religião podem ser classificadas pelos dois problemas
fundamentais a que correspondem: o problema da origem e da validade da
religião e o problema da função da garantia de salvação do ser humano.

5.6 A ideia de religião depois da Idade Média

Do ponto de vista da validade, uma religião pode ter origem divina, uma origem política ou mesmo
uma origem humana. A origem divina ou sobrenatural é intrínseca em qualquer religião, já que todas
elas afirmam ter como fundamento uma revelação originária que garante sua verdade. Do ponto de
vista filosófico, a religião sempre nasce de uma revelação.

Já na Idade Moderna, Hobbes (2005) pensou a religião como uma solução para o medo do futuro:

Por ser inegável que existem causas para todas as coisas que existem ou
existirão, é impossível, para o homem que tenta prevenir-se contra os
males que teme e obter os bens que deseja, deixar de viver em contínua
preocupação com o porvir, de tal maneira que todos os homens, sobretudo os
mais previdentes, vivem num estado semelhante ao de Prometeu (HOBBES,
2005, p. 242).

Hume (2005), em História natural da religião, publicado em 1757, escreveu que

[...] a religião não surge da contemplação, mas do interesse do homem


pelos acontecimentos da vida e, portanto, das esperanças e dos temores
incessantes que o agitam. Suspenso entre a vida e a morte, entre a saúde e a
doença, entre a abundância e a privação, o homem atribui a causas secretas
108
Fundamentos da Ciência Política

e desconhecidas os bens de que frui e os males pelos quais é continuamente


ameaçado (HUME, 2005, p. 35).

O pensador francês Voltaire (2002) explicou de forma mais simples o mesmo conceito:

É bem natural que um burgo atemorizado pelo trovão, afligido pela perda
de suas colheitas, maltratado pelo burgo vizinho, sentindo todos os dias
a própria fraqueza, pressentindo por toda parte um poder invisível, tenha
terminado por dizer: “existe algum ser acima de nós que nos causa bens e
males” (VOLTAIRE, 2002, p. 407).

Em Hegel (1989a) lemos que “No conceito da verdadeira religião, que é aquela em que está contido
o Espírito absoluto, está posto essencialmente que ela é revelada, e revelada por Deus” (HEGEL, 1989a, p.
564), pois “se a Deus for negada a revelação, não restaria outro conteúdo a atribuir-lhe senão a inveja.
Mas se é que a palavra espírito tem sentido, significa a revelação de si” (Ibidem, p. 560).

A ideia da origem política reduz a religião a um estratagema político e anula seu valor intrínseco.
Essa teoria foi primeiro expressa na Grécia por Platão, quando escreveu que os antigos legisladores
inventaram a divindade como uma espécie de inspetor das ações humanas, boas ou más, para que
ninguém, por medo da vingança dos deuses, ofendesse ou traísse seu próximo (PLATÃO, 2007a). Mais de
2 mil anos depois, Marx concordou com essa ideia e pensou que a religião é sugerida ao homem pela
situação de necessidade material na qual ele se encontra. Sua expressão famosa sugere que a religião
seria o ópio do povo, uma droga forte para afastá-lo da realidade (MARX, 2014).

Também no século XIX, Durkheim acreditava que a religião seria a metafísica da sociedade; “o
mito que a sociedade faz de si mesma”, no sentido de que “sociedade é a realidade que as mitologias
representaram com tantas formas diferentes, mas que é a causa objetiva, universal e eterna das sensações
de que é feita a experiência religiosa” (DURKHEIM, 1937, p. 597).

Para Durkheim, o totem é o símbolo da força que sustenta o indivíduo e a própria sociedade. Já
no século XX, o antropólogo russo Malinowski propôs que a religião e a magia surgem e funcionam
em situações de tensão emocional. Religião e magia teriam em comum o fato de oferecerem uma
resposta para situações difíceis por meio de crenças e práticas que pretendem alcançar o sobrenatural.
Mas a magia é limitada às pessoas que fazem dela um ofício, enquanto a religião congrega todos, e os
indivíduos participam dela ativamente (MALINOWSKI, 1988).

Também no século XX, Feuerbach sugeriu o entendimento da Teologia como uma forma de
Antropologia: a religião seria a consciência do infinito, por isso seria a consciência que o homem tem da
infinidade de seu ser, e não de sua limitação (FEUERBACH, 2009).

Alguns sociólogos contemporâneos perceberam que muitas vezes os ritos religiosos e as crenças
a eles associadas são motivo de angústia, de tal maneira que o efeito psicológico do ritual parece ser
um sentimento de insegurança e perigo (RADCLIFFE-BRONXN, 1952). Contudo, mesmo nesses casos é
possível reconhecer a função social da religião na forma de fortalecimento dos laços sociais.
109
Unidade III

Esse ponto de vista já havia sido desenvolvido por Malinowski (1988). Ultrapassados os limites de
controle dos acontecimentos por meio das técnicas do pensamento racional, que são, na prática, muito
limitadas, o homem reivindicava a liberdade da fé para adotar crenças libertadoras ou consoladoras. Isso
permitiu o desenvolvimento de comportamentos que prometem a salvação infalível. Obtendo ou não o
cumprimento dessas promessas, a função dessas técnicas de comportamento é dar esperança e coragem
às pessoas, para consolidar as relações individuais com os outros homens e com o mundo. Nesse sentido,
qualquer religião é um conjunto de regras de comportamento que permite a convivência das pessoas,
pois a esperança e a coragem de enfrentar acontecimentos inexplicáveis, como terremotos ou furacões,
tinham na salvação a garantia máxima de que a morte seria uma forma de benefício para aqueles que
tivessem se comportado bem.

Saiba mais

Para conhecer um pouco mais sobre o assunto, leia a obra:

MALINOWSKI, B. Magia, ciência e religião. Lisboa: Edições 70, 1988.

5.7 Santo Agostinho e a filosofia patrística

A filosofia patrística foi a primeira filosofia teológica adotada pela Igreja Católica. Seu período de
atuação se estendeu do século I ao século VII. Ela começou com as Epístolas de São Paulo e o Evangelho
de Santo João. A patrística foi o esforço teológico dos primeiros padres da Igreja em conciliar a religião
cristã com o pensamento filosófico dos gregos e romanos.

A filosofia patrística também refletiu a divisão do Império Romano no século IV da nossa era.
O fato de o Império ter sido dividido em Império Romano do Ocidente (controlado por Roma) e
Império Romano do Oriente (controlado por Bizâncio) (Constantinopla, hoje Istambul) de certa forma
prenunciou o seu fim.

Observação

A capital do Império Romano do Oriente foi Constantinopla, que


atualmente é conhecida como Istambul, cidade da Turquia.

O cristianismo também se dividiu, gerando, de um lado, a patrística grega, que fundamentou a Igreja
de Bizâncio, e, de outro, a patrística latina, que desenvolveu a Igreja de Roma. Os principais filósofos da
Igreja de Roma foram Justino, Tertuliano, Orígenes, Clemente, Santo Ambrósio, São João Crisóstomo,
Isidoro de Sevilha, Santo Agostinho e Boécio.

A patrística tentou conciliar as ideias do judaísmo com a filosofia estoica romana. Na


reinterpretação das ideias romanas, criou também as regras para a nova religião de Jesus Cristo.
110
Fundamentos da Ciência Política

Muitas das verdades aceitas pela Igreja Católica até os dias de hoje foram construídas nesse
período, muito antes de se tornarem uma regra. Foi ainda nesse período que os seguidores de Cristo
deixaram de ser vistos como de uma seita judaica, pois a adesão de tantos homens e mulheres das
mais diversas origens afastou a religião cristã da ideia de religião de um povo específico.

As explicações sobre a criação do mundo, o pecado original, a existência de Deus como trindade una,
a encarnação e a morte de Deus, o juízo final ou o fim dos tempos e a ressurreição dos mortos foram os
elementos que constituíram a Igreja Católica e foram conceitos criados e explicados nesse período. Esses
conceitos diziam respeito apenas à religião, mas uma vez que todos aceitavam a verdade dessas ideias,
os padres precisaram explicar como o mal podia existir num mundo criado por Deus, descrito como pura
perfeição e bondade.

Muitas foram as tentativas de esclarecer esse paradoxo, mas foi Santo Agostinho quem finalmente
conseguiu justificar que a consciência moral e o livre-arbítrio são de responsabilidade do ser humano e
independentes da existência de Deus. Ele se fundamentou nas ideias de Platão, que foram modificadas
para a realidade de seu tempo, num movimento que foi chamado de neoplatonismo.

A filosofia patrística inventou um parâmetro de verdades reveladas que não eram sequer consideradas
pelas filosofias grega e romana. Para os cristãos, as verdades sobrenaturais eram recebidas por uma
graça divina e, por isso, eram superiores às verdades racionais. Para impor as ideias cristãs, os padres
(pais) da Igreja transformaram essas verdades reveladas por Deus em decretos divinos, que não podiam
ser refutados por ninguém – os dogmas (CHAUI, 2000).

Santo Agostinho desenvolveu a ideia de que, para Deus, cada ser humano é uma pessoa. Essa ideia
também faz parte do direito romano, que define a pessoa como um sujeito com direitos e deveres. Se
somos pessoas, somos responsáveis por nossos atos e pensamentos. A essência da nossa pessoa é nossa
consciência. A consciência existe porque ela é a expressão da alma dotada de vontade, imaginação,
memória e inteligência.

A vontade é livre, mas, como está aprisionada num corpo humano, que vive muitas paixões e por
isso é fraco, pode ser conduzida por ele em direção à ilusão e ao erro. Por isso, estar no erro ou na
verdade depende de cada um. Entretanto, como sabemos que estamos conhecendo a verdade? Segundo
o cristianismo, tendo fé.

Para entendermos melhor, temos também de compreender como as explicações da filosofia


patrística funcionam para comprovar a existência da fé. É importante notar que elas se basearam na
razão para explicar a realidade de maneira cristã. Vamos examinar algumas delas, começando pela
explicação de Santo Agostinho (2007) do que é o tempo:

O que é o tempo? Tentemos fornecer uma explicação fácil e breve. O que


há de mais familiar e mais conhecido do que o tempo? Mas, o que é o
tempo? Quando quero explicá-lo, não encontro explicação. Se eu disser
que o tempo é a passagem do passado para o presente e do presente para
o futuro, terei que perguntar: como pode o tempo passar? Como sei que
111
Unidade III

ele passa? O que é um tempo passado? Onde ele está? O que é um tempo
futuro? Onde ele está? Se o passado é o que eu, do presente, recordo, e o
futuro é o que eu, do presente, espero, então não seria mais correto dizer
que o tempo é apenas o presente? Mas, quanto dura um presente? Quando
acabo de colocar o “r” no verbo “colocar”, esse “r” é ainda presente ou já
é passado? A palavra que estou pensando em escrever a seguir é presente
ou é futuro? O que é o tempo, afinal? E a eternidade? (AGOSTINHO, 2007a,
p. 120).

Santo Agostinho chegou à conclusão de que tempo era a intuição do movimento. Essa ideia
também contém o conceito de consciência. Isso porque, para a filosofia neoplatônica, o tempo
não existiria fora da alma. Se o tempo não existe fora da alma e tudo o que existe tem alma, o
mundo tem alma e o Universo está no tempo na medida em que também está na alma do mundo.
Para Santo Agostinho, o tempo é a própria vida da alma que se estende para o passado ou para
o futuro:

De que modo diminui e consuma-se o futuro que ainda não existe? E, de que
modo cresce o passado que já não é mais, senão porque na alma existem as
três coisas, presente, passado e futuro? A alma de fato espera, presta atenção
e recorda, de tal modo que aquilo que ela espera passa através daquilo a
que ela presta atenção, para aquilo que ela recorda. Ninguém nega que o
futuro ainda não exista, mas na alma já existe a espera do futuro: ninguém
nega que o passado já não exista, mas na alma ainda existe a memória do
passado. E ninguém nega que o presente careça de duração porque logo
incide no passado, mas dura a atenção por meio da qual aquilo que será
passa, afasta-se em direção ao passado (AGOSTINHO, 2007a, p. 127).

Ainda segundo Santo Agostinho: “Talvez fosse mais correto dizer: há três tempos: o presente do
passado, o presente do presente e o presente do futuro” (AGOSTINHO, 2007a, p. 122).

Uma ideia derivada dessa consciência de diferenças no tempo é a memória. Ela seria a forma de
percepção interna do tempo, chamada de introspecção:

Chego aos campos e vastos palácios da memória, onde estão tesouros


de inumeráveis imagens trazidas por percepções de toda espécie […] Ali
repousa tudo o que a ela foi entregue, que o esquecimento ainda não
absorveu nem sepultou [...] Aí estão presentes o céu, a terra e o mar, com
todos os pormenores que neles pude perceber pelos sentidos, exceto os que
esqueci. É lá que me encontro a mim mesmo e recordo das ações que fiz, o
seu tempo, lugar e até os sentimentos que me dominavam ao praticá-las. É
lá que estão também todos os conhecimentos que recordo, aprendidos pela
experiência própria ou pela crença no testemunho de outrem (AGOSTINHO,
2007a, p. 95).

112
Fundamentos da Ciência Política

Santo Agostinho diz também:

“Lembro que tenho memória, inteligência e vontade; entendo que entendo, quero e lembro e quero
querer, lembrar e entender” (AGOSTINHO, 2007b, p. 82).

Isso significa, de acordo com as reflexões do autor, que cada aspecto ou faculdade tem a capacidade
de olhar para si mesma e entender sua relação intrínseca consigo mesma. “A mente não conhece nada
tão bem quanto aquilo que lhe é mais acessível e nada está tão próximo da mente quanto ela de si
mesma (AGOSTINHO, 2007b, p. 74).

Em outras palavras, a memória é o que nos permitiria saber que temos uma consciência. Se sabemos
o que é o tempo e isso acontece na nossa alma, e ela se lembra de tempos que já passaram, eu me
recordo dos momentos quando pude decididr entre fazer o certo e fazer a coisa errada. Se sei disso,
minha consciência existe porque tenho memória.

Tendo certeza de que a alma existe, Santo Agostinho afirmou que o homem pode conhecer
Deus porque ele mesmo é a imagem de Deus. Memória, inteligência e vontade, em sua unidade e
distinção recíproca, reproduzem no homem a trindade divina de Ser, Verdade e Amor (AGOSTINHO,
2007b).

Isso também significa que através da consciência temos certeza da existência da alma, pois ela
também tem origem divina. Assim os poderes humanos são derivados dos poderes divinos, e isso torna
a consciência um poder importante da pessoa.

Para Santo Agostinho, todo conhecimento deriva, ao mesmo tempo, da cognição e do conhecido
(AGOSTINHO, 2007a), trazendo para o mesmo plano na realidade o objeto conhecido e o sujeito que
conhece por meio de sua consciência. Segundo ele, se isso não pudesse acontecer, não haveria condição
básica para se conhecer nada.

Ele prossegue com seu raciocínio:

As coisas são mesmo tais como me aparecem? Estão no espaço? Mas o que
é o espaço? Se eu disser que o espaço é feito de comprimento, altura e
largura, onde poderei colocar a profundidade, sem a qual não podemos ver,
não podemos enxergar nada? Mas a profundidade, que me permite ver as
coisas espaciais, é justamente aquilo que não vejo e que não posso ver, se
eu quiser olhar as coisas. A profundidade é ou não espacial? Se for espacial,
por que não a vejo no espaço? Se não for espacial, como pode ser a condição
para que eu veja as coisas no espaço? (AGOSTINHO, 2007a, p. 137).

Santo Agostinho demonstra que a certeza que o sujeito pensante tem da sua existência não permite
que se duvide dela por causa da consciência. Quem duvida da verdade tem certeza de que duvida, logo
tem certeza de que vive e pensa, portanto é a própria dúvida que fornece a certeza que a leva à verdade
(AGOSTINHO, 2007b). Esse pensamento se torna uma das pedras fundamentais da filosofia escolástica:
113
Unidade III

eu creio que existo, portanto sei que existo. Santo Agostinho utilizou essa ideia para demonstrar a
transcendência da verdade que, para ele, era a presença de Deus na alma humana.

Desse modo, Santo Agostinho considerou que o tempo permite entender que a memória existe e
que ela demonstra como o indivíduo pode escolher entre o bem e o mal. A conclusão disso é que o
indivíduo possui livre-arbítrio. Contudo, a memória também permite ao ser pensante perceber que tem
consciência, que, por sua vez, constata que a alma existe. Como a alma é uma coisa boa, pois sustenta a
vida, ela só pode ter sido feita como cópia ou parte de outra coisa boa: como parte de Deus. Por isso, o
indivíduo pode até tentar negar sua consciência fazendo alguma coisa má, mas ela estará sempre sendo
regida pelas qualidades positivas dadas por Deus.

Mas isso não era tudo. Santo Agostinho recorreu à ideia grega de amor, que é uma relação, união ou
vínculo de um ser com outro, quase uma vida que une ou tende a unir dois seres: o amante e o que é amado.
Esse sentimento existe na própria essência divina e se torna um conceito teológico, moral e religioso. O amor a
Deus e ao próximo é, assim, praticamente a mesma coisa. Amar a Deus significa amar o amor, por isso não se
pode amar o amor se não se ama quem ama. O ser humano não pode amar a Deus, que é o amor em si, se não
tiver esse sentimento por outro homem. O amor fraterno entre os seres humanos não só deriva de Deus, mas
também é Ele mesmo, e isso é uma revelação divina à consciência dos homens (AGOSTINHO, 2007b).

Essas reflexões levaram Santo Agostinho à conclusão de que o amor ao bem supremo, Deus, é o
fundamento da virtude. A cidade celestial é constituída pelo amor a Ele e tem como objetivo afastar-se
do mal. A outra cidade está na terra e é corrompida porque seus habitantes buscam somente o amor
próprio e os prazeres oferecidos pela vida terrena (AGOSTINHO, 2012a).

A cidade celestial é a cidade de Deus. Ela seria representada na terra pela Igreja. A cidade terrena é a
cidade dos homens, que persegue apenas a própria glória. Na cidade de Deus, há liberdade e felicidade.
Na cidade dos homens, o ser humano está preso ao egoísmo, o que promove um distanciamento de
Deus e conduz ao mal (AGOSTINHO, 2012a).

A ideia política proposta pelo santo não dizia que a teocracia deveria governar a cidade dos homens,
mas deixava implícito que um governo cristão, embora sujeito à corrupção, seria mais propício a que se
conseguisse alcançar a felicidade.

A injustiça estaria diretamente relacionada ao problema do mal. A justiça seria o bem supremo
(Deus), e a injustiça, o distanciamento do bem. Com base nessa dimensão teológica em que o sagrado
é considerado a fonte de todos os bens, a ideia de justiça se estrutura a partir da fé. Como Deus é a
própria justiça, a punição pela prática do mal seria justa porque se afastar do bem é uma decisão do
livre-arbítrio da vontade humana.

Santo Agostinho concluiu que: “O direito natural não foi gerado por uma opinião, mas inserido em
nós por uma força inata, do mesmo modo como, na religião, estão a piedade, a graça, a observância,
a verdade” (AGOSTINHO, 2012a, p. 4). Nesse sentido, a patrística continuou a tradição dos juristas
romanos, entendendo que a lei natural estava escrita no coração dos homens como uma força inata ou
um instinto.
114
Fundamentos da Ciência Política

Para o santo, o ideal estoico da apatia parecia desumano e impossível de ser realizado: “Não
experimentar a menor perturbação enquanto se vive neste lugar de miséria só pode ser fruto de grande
dureza de alma e de grande entorpecimento do corpo” (AGOSTINHO, 2012a, p. 9). Por outro lado,
acreditava no caráter ativo e responsável das emoções:

A vontade está em todos os movimentos da alma, ou melhor, todos os


movimentos da alma não são mais que vontade. O que é, de fato, a cupidez
ou o contentamento senão vontade consciente com as coisas desejadas? E o
que são o medo e a tristeza senão vontade que repudia coisas não desejadas?
Segundo a diversidade das coisas desejadas ou evitadas, a vontade humana,
ao permanecer atraída por elas, ou ao rejeitá-las, transforma-se nesta ou
naquela emoção (AGOSTINHO, 2012a, p. 6).

Os padres acreditavam que a graça seria a salvação que Deus oferece ao ser humano. Foi dessa forma
que Paulo a descreveu na Epístola aos Romanos quando se perguntou se existe um limite para a graça
de Deus (EPÍSTOLA..., 1980). Essa questão levantava o problema do livre-arbítrio, pois a quem caberia
determinar a salvação, ao próprio ser humano ou a Deus?

Uma vez que Deus é quem determina os hábitos e as disposições que tornam uma pessoa justa, seria
o responsável pela salvação. Entretanto, a graça pode não ser o único determinante, no sentido de que
sua concessão divina, mesmo sendo condição necessária para a salvação, não a determinaria, porque
exigiria também o bom comportamento do ser humano.

A primeira solução para essa questão foi apresentada por Santo Agostinho. Ela levava em consideração
que toda a humanidade pecou com Adão e em Adão. Portanto, o gênero humano seria uma só “massa
condenada”, e nenhum membro da humanidade poderia escapar dela, a não ser pela misericórdia e pela
graça não obrigatória de Deus (AGOSTINHO, 2012a).

O fundamento dessa solução é que a verdadeira liberdade do homem coincide com a ação agraciadora
de Deus. Segundo Santo Agostinho, a vontade só é livre quando não dominada pelo vício e pelo pecado,
e é essa a liberdade que só pode ser devolvida ao homem pela graça de Deus (AGOSTINHO, 2012a). Desse
ponto de vista, o homem não possui méritos próprios, válidos perante a divindade: seus méritos são
dons divinos que devem ser atribuídos a Deus, e não a si mesmo (AQUINO, 2009).

Lembrete

Para Santo Agostinho, a filosofia servia como veículo auxiliar que


tinha como finalidade ser misturada à fé divina. Ele tentou elucidar a
verdade e sistematizar as concepções do mundo, do homem e de Deus.
Suas concepções foram por séculos a base teológica da Igreja Católica. Ele
entendia que Deus era um ser transcendente absoluto e indivisível, que não
havia nada comparado a sua essência perfeita e eterna.

115
Unidade III

A concepção agostiniana de Deus ultrapassa a racionalidade humana. Santo Agostinho entendia


Deus como ser único, que subsiste em três pessoas distintas (trindade): o Pai, que seria a essência divina;
o Filho, que permitiria o verbo (as palavras da salvação); e o Espírito Santo, que é o amor divino que cria
tudo o que existe.

Como o homem seria feito à imagem e semelhança de Deus, estaria provido da mesma essência
divina, e tudo o que existe no Universo também conteria, de alguma forma, a manifestação da
trindade.

Para Santo Agostinho, a política era uma atividade voltada para o bem e a paz. A função política
deveria ser pautada pelo interesse dos governantes em servir a Deus:

Se, por conseguinte, se rende culto ao Deus verdadeiro, servindo com


sacrifícios sinceros e bons costumes, é útil que os bons reinem por muito
tempo e onde quer que seja. E não o é tanto para os governados como para
os governantes. Quanto a eles, a piedade e a bondade, grandes dons de
Deus, lhes bastam para felicidade verdadeira, que, se merecida, permite à
gente viver bem nesta vida e conseguir depois a vida eterna (AGOSTINHO,
2012a, p. 12).

Sem os sacrifícios sinceros e os bons costumes, os objetivos particulares dos dirigentes políticos
prevaleceriam sempre sobre os interesses da coletividade, promovendo a injustiça social e a violência:

Desterrada a justiça, que é todo reino, senão grande pirataria? E a pirataria


que é, senão pequeno reino? Também é punhado de homens, rege-se pelo
poderio de príncipe, liga-se por meio de pacto de sociedade... Se esse mal
cresce, porque se lhe acrescentam homens perdidos, que se assenhoreiam de
lugares, estabelecem esconderijos, ocupam cidades, subjugam povos, toma
o nome mais autêntico de reino. Esse nome dá-lhe abertamente, não a
perdida cobiça, mas a impunidade acrescentada (AGOSTINHO, 2012a, p. 13).

Santo Agostinho tentou organizar o pensamento cristão em favor de uma vida justa através da
religião num momento em que existia a tentativa de buscar o melhor das tradições da lei judaica e
do direito romano, adaptadas pelo entendimento dos ensinamentos de Jesus Cristo. Esse pensamento
guiou a formação da Igreja Católica no início do período feudal, quando os chefes militares tentavam se
manter como autoridades supremas na forma de príncipes de seus reinos. Está claro que a militarização
da sociedade era antagônica à fé cristã, por isso, via-se que o melhor que poderia ser alcançado era a
justiça proveniente do Deus.

O que veremos a seguir é que, depois que o feudalismo já estava instaurado por toda a Europa,
a filosofia escolástica tentou reorganizar o pensamento católico repensando a questão da justiça e
também a questão da mobilidade social .

116
Fundamentos da Ciência Política

Observação

Agostinho nasceu na cidade de Tagaste, província romana que ficava no


norte da África. Seu pai era um berbere, cidadão romano e pagão. Sua mãe,
Mônica, era berbere cristã. Com onze anos, aprendeu literatura latina e leu o
diálogo Hortensius, de Cícero, passando, então, a se interessar pela filosofia.
Com dezessete anos, seu pai mandou-o estudar em Cartago. Depois dessa
nova mudança, assumiu uma união estável com uma mulher de uma classe
social inferior. Com ela, Agostinho teve um filho, chamado Adeodato, mas
pela lei romana não podia se casar com ela.

Sua vida mudou quando foi contratado pelo prefeito de Roma como
professor de Retórica Imperial para o tribunal de Milão. Mônica, sua
mãe, conseguiu convertê-lo ao cristianismo e insistiu que ele estudasse
o neoplatonismo. Mas foi Ambrósio, o bispo de Milão, quem finalmente o
convenceu. Depois de muita insistência de sua mãe se separou da mulher e
abandonou a carreira de professor para dedicar-se a servir a Deus. Um ano
depois de ser convertido, Agostinho retornou à África. Sua mãe e seu filho
faleceram, e ele ficou sozinho. Vendeu seu patrimônio e converteu a casa
da família num mosteiro. Então foi ordenado sacerdote e cinco anos depois
foi declarado bispo de Hipona. Escreveu as regras para seu mosteiro, que
ainda são seguidas pela ordem dos agostinianos.

5.8 Santo Tomás de Aquino

A filosofia cristã da Alta Idade Média foi a Escolástica. Nos primeiros séculos da Idade Média,
a palavra scholasticus indicava um professor de Artes Liberais, depois de Filosofia ou Teologia, que
lecionava na escola do convento ou da catedral e finalmente na universidade. Portanto, escolástica
significa literalmente a filosofia da escola. Na escolástica a filosofia assumiu a forma de comentários
ou de coletâneas de questões, e seu problema fundamental foi fazer o homem compreender a verdade
revelada por Deus.

A escolástica era um exercício de atividade racional que seguia, na prática, os conceitos estabelecidos
pela filosofia neoplatônica ou aristotélica para alcançar a verdade religiosa contra a incredulidade e as
heresias. Ela se tornou a nova forma de ensinamento religioso para a revisão dos dogmas da Igreja, que
tinham sido firmados pela filosofia patrística nos primeiros trezentos anos do catolicismo.

A escolástica medieval é dividida em três períodos:

• séculos IX a XII: alta escolástica. Sua principal característica era a confiança na harmonia entre a
fé e a razão, na forma idealista neoplatônica;

117
Unidade III

• séculos XIII a XV: fez os teólogos pensarem que não há exata harmonia entre fé e razão, mas as
duas coisas não seriam opostas;

• depois do século XV: final da escolástica, que acontece quando surge o movimento intelectual do
Renascimento, redescobrindo os textos gregos e romanos que a própria Igreja tinha escondido
ou destruído.

Os textos revisitados pelos renascentistas provieram principalmente de traduções árabes dos textos
originais. Naquele momento, já se percebia claramente que entre a fé e a razão havia uma grande
distância, que por um grande período foi tratada como oposição entre as duas coisas.

O período em que Santo Tomás de Aquino atuou foi justamente o de reflexão da Igreja Católica
sobre seus preceitos elaborados principalmente por Santo Agostinho. Os princípios neoplatônicos que
permitiram a Agostinho conciliar a fé com a razão, formulada na ideia de “eu creio, eu existo”, ajudaram
a explicar e confirmar os dogmas dos padres da Igreja. Mil anos depois, era necessária uma revisão
conceitual. Até porque a sociedade feudal já tinha se consolidado e não mais espelhava claramente a
herança sociopolítica e cultural do Império Romano.

Santo Tomás foi um padre dominicano que atuou como teólogo e filósofo. Ele percebeu que naquele
momento em que a religião católica dominava a Europa, não havia necessidade do idealismo contido
em toda filosofia de inspiração platônica. O importante era se apoiar na filosofia aristotélica, mais
prática e voltada para a realidade do mundo, a fim de transformar a Teologia em ciência.

A doutrina filosófica cristã de Santo Tomás de Aquino tentou esclarecer a relação que existiria entre
a verdade revelada, a fé e a razão. Para ele, a Teologia era uma ciência suprema, fundada na revelação
divina, tendo a Filosofia como sua auxiliar na demonstração da existência de Deus de acordo com a
razão e por meio da experiência dos sentidos.

Sua doutrina racional foi a base filosófica que permitiu que o cristianismo conseguisse sobreviver
como religião dominante e praticamente única na Europa por mais três séculos, até que a degeneração
do comportamento do papa e de seus cardeais revoltou Martinho Lutero, que iniciou o movimento da
Reforma da Igreja, criando a Igreja Protestante.

Uma das grandes reflexões do pensamento de Santo Tomás foi repensar a ética como fundamento
da política. Sua filosofia social e política é uma extensão da ética. Para ele, o homem buscava, livre e
voluntariamente, sua perfeição e sua felicidade.

Adotando os princípios da ética aristotélica, Santo Tomás tentou demonstrar a possibilidade de


alcançar a felicidade perfeita a partir da elevação da natureza humana à ordem do sobrenatural, ou
seja, ao encontro de Deus. Assim, a ideia de felicidade devia corresponder a um bem infinitamente
perfeito, que é Deus, e a maneira correta de alcançá-lo seria o caminho da razão. Deus seria o
princípio exterior que conduziria o ser humano ao bem por meio da lei que deveria ser regulada
pela razão humana.

118
Fundamentos da Ciência Política

A ideia geral era a de que uma lei é uma prescrição da razão para o bem comum promulgada por
quem conduzia a comunidade e por ela aceita. Dessa forma a lei, por meio da ordem e da justiça, teria
como finalidade induzir os homens à virtude e à beatitude, conduzindo-os às observância dos preceitos
religiosos para a preservação de sua virtude. Por isso, a lei natural teria sido inserida por Deus na
consciência humana para ser reconhecida.

Essa lei natural assumiria a qualidade de lei eterna, se constituiria na “razão ou plano da divina
sabedoria, enquanto dirig[iria] todos os atos e movimentos das criaturas” (AQUINO apud GAUTÉRIO,
[s.d.]). Isso porque Deus governaria suas criaturas como consequência da divina providência. Tudo na
natureza seguiria uma lei conforme seu lugar designado por Deus no momento da criação. Ninguém
poderia conhecer a lei eterna em sua totalidade, mas todo ser racional conheceria a verdade conforme
sua capacidade. Os animais, seres irracionais, conhecê-la-iam a partir de um princípio motor interior, e
os seres racionais teriam a percepção natural daquilo que está de acordo com a lei eterna.

Toda a natureza estaria sujeita à lei eterna, pois nela estariam impressos todos os princípios dos atos
divinos. Todas as leis derivariam da lei eterna, pois participariam da mesma razão. Se uma lei não fosse
justa ou legítima, não seguiria essa razão e não derivaria da lei eterna.

Assim vemos que a ética de Santo Tomás de Aquino é fundamentada pelo direito natural. A lei
natural prescreve os atos de todas as virtudes. O ser humano prefere o bem e a conservação da vida, o
que acontece por causa da percepção humana da moral, que Santo Tomás acreditava ser um costume
por poder ser encontrada habitualmente na razão e também porque teria sido aquilo que a natureza
teria ensinado a todos os animais.

Lembrete

A lei natural se manifesta por meio da inteligência, fazendo o ser


humano distinguir o bem do mal utilizando a razão.

Os princípios da lei natural poderiam ser distorcidos pela razão em função da ignorância, dos maus
hábitos ou de fatores externos ao ser humano, como grandes catástrofes. Contudo, a lei natural não
podia ter seus princípios mudados, nem mesmo ser apagada totalmente do coração dos homens.
Portanto, a lei humana seria a aplicação concreta da lei natural às necessidades da convivência humana
na busca do bem comum.

Para ser razoável, a lei humana tinha de derivar da lei da natureza. Ela precisava ser honesta, justa e
adequada ao tempo e ao lugar. Seria justa quando ordenasse em favor do bem comum e não permitisse
o abuso do poder por quem a promulgasse. Ela seria indispensável para alcançar a felicidade, pois
garantiria uma convivência pacífica.

Santo Tomás percebia que como algumas pessoas são mais inclinadas aos vícios, seria preciso
que fossem ameaçadas pelo medo da lei. Isso permitiria que fizessem voluntariamente aquilo que
fariam apenas obrigadas pela força e pela coerção. A lei seria um preceito geral, igual para todos, mas
119
Unidade III

sua aplicação levaria em consideração as diferenças sociais. Algumas leis não atingiriam as pessoas
superiores, mas um príncipe deveria cumpri-las voluntariamente, por estar submetido a Deus.

A razão desse pensamento é que, assim como Aristóteles, Santo Tomás de Aquino considerava
o homem um animal social e político. Essa vida em sociedade seria regida pela razão, e os seres
humanos precisariam de alguém que os guiasse ao bem comum, à paz social e à bem-aventurança.
A vida virtuosa, que para Aristóteles era a verdadeira finalidade da comunidade política, seria
transformada por Santo Tomás de Aquino num meio de alcançar a presença divina, que seria,
portanto, a verdadeira finalidade da comunidade política. Assim, ele partia do pressuposto de que
havia uma causa final das coisas e de que isso explicaria a necessidade de o dirigente perseguir
o bem comum.

Aquele que buscasse apenas o seu bem particular seria um tirano. Quanto mais um governo se
afastasse do bem comum, mais injusto ele se tornaria. Para Santo Tomás de Aquino, seria na unidade
das coisas que se encontraria a perfeição. Logo, a monarquia seria o melhor regime, pois conservaria
melhor a unidade de governo. Entretanto, quando a virtude fosse eficaz para operar o mal, a monarquia
se tornaria uma tirania.

Segundo Aristóteles, se fôssemos escolher entre os governos injustos, seria melhor escolher a
democracia à tirania. Os regimes injustos se distinguem pelo pequeno número de pessoas que são
beneficiadas por ele e são ruins porque visam ao bem particular ou de só uma pessoa, classe ou
governante.

Mesmo sabendo que a tirania era um péssimo regime, Santo Tomás de Aquino preferia um governo
ruim a nenhum governo. A desordem nega a autoridade e todo o tipo de associação humana. Assim, não
seria possível que o ser humano pudesse se organizar como animal social e político.

Santo Tomás seguiu Aristóteles quando afirmou que o governo de um só seria melhor porque é o
que mais se aproxima do governo natural e o comparou também com o corpo humano. Ele justificou
sua escolha numa suposta fundamentação da história da humanidade que, segundo ele, demonstrava
que o regime unificado numa só pessoa seria o melhor, pois teria sido o tipo de governo que mais teria
dado certo.

Mesmo defendendo a monarquia, Santo Tomás também defendia um governo no qual o príncipe,
a aristocracia e o governo popular teriam participação. Segundo ele, apesar de o melhor governo ser
aquele em que um só lideraria, também seria bom que o príncipe fosse auxiliado pelos melhores, que
deveriam ser eleitos pelo povo (AQUINO, 2009). O Velho Testamento já previa a instituição de um governo
misto como a melhor forma de governar uma cidade:

E isto foi o que instituiu a lei divina. Pois Moisés e os seus sucessores
governavam o povo, sendo, como singularmente, os chefes de todos; e isso
é uma espécie de monarquia. Mas eram escolhidos setenta e dois anciãos,
conforme a virtude (AQUINO, 2009, p. 215).

120
Fundamentos da Ciência Política

6 A Racionalização da Política com Maquiavel

A Idade Média terminou com a transição para a Idade Moderna, por um movimento intelectual
que ficou conhecido como o Renascimento. Esse movimento artístico, filosófico e literário começou no
fim do século XIV e se prolongou até o fim do século XVI. O movimento surgiu na Itália e se espalhou
por outros países da Europa. A palavra e o conceito de Renascimento têm origem religiosa: o segundo
nascimento ou o nascimento do homem novo (ou espiritual) de que falam o Evangelho de Santo João
e as Epístolas de São Paulo.

Durante a Idade Média, esse conceito de Renascimento designava o retorno do homem a Deus,
à redenção do pecado capital por causa de Adão. No século XV essa palavra claramente passou
a ser empregada para designar a renovação moral, intelectual e política que pretendia recuperar
os valores da civilização greco-romana quando supostamente o ser humano teria alcançado suas
melhores realizações.

Por mais que o Renascimento tivesse pretendido ressaltar as diferenças que o distinguiam do
período medieval, os elementos de continuidade entre ele e a Idade Média são evidentes. Os problemas
discutidos pelos humanistas e filósofos renascentistas eram os mesmos discutidos durante a Idade
Média e geralmente continham as mesmas propostas para alcançar as soluções.

Houve uma continuidade entre os dois períodos históricos, mesmo que em alguns momentos tenha
parecido estar havendo uma revolução. A característica principal do Renascimento foi o humanismo,
que foi entendido como o reconhecimento do valor do homem e a crença de que a humanidade teria
sido mais perfeita na antiguidade clássica.

Havia também a vontade de renovação religiosa, com a tentativa de recuperar a revelação originária.
Essa vontade de revelação inspirou a filosofia que, por causa dela, redescobriu Platão. Contudo, esse foi
o momento em que aconteceu a Reforma Protestante da Igreja, que foi a tentativa de restabelecer o
contato com as fontes originárias do cristianismo de Jesus Cristo, ignorando a tradição medieval.

A reflexão sobre as concepções políticas foi outro movimento importante durante o


Renascimento. Maquiavel reassumiu para o conhecimento a origem humana da sociedade e do
Estado, se afastando da tradição da Igreja Católica. Também houve a tentativa de recuperar as
formas históricas originárias e a natureza das instituições sociais, como no direito, quando houve
a volta do jusnaturalismo. A investigação da natureza por meio do aristotelismo, as manifestações
de magia e da metafísica da natureza e também as primeiras conquistas da ciência moderna
aconteceram durante o Renascimento.

Maquiavel introduziu de forma definitiva a palavra Estado no vocabulário político e filosófico.


Durante muito tempo havia imperado a concepção organicista, que comparava a constituição do
Estado ao corpo de um homem e pensava seu funcionamento como um organismo vivo. Essa ideia teve
origem com Platão, que afirmou na República que no Estado as partes e os caracteres que constituem o
indivíduo estão escritos em tamanho maior e, portanto, são mais visíveis (PLATÃO, 2000).

121
Unidade III

Para Aristóteles:

O Estado existe por natureza e é anterior ao indivíduo porque, se o indivíduo


de per se não é autossuficiente, estará, em relação ao todo, na mesma relação
em que estão as outras partes. Por isso, quem não pode fazer parte de uma
comunidade ou quem não tem necessidade de nada porquanto se basta a si
mesmo não é membro de um Estado, mas fera ou Deus (ARISTÓTELES, 2008).

Essa era também a concepção de Santo Tomás de Aquino, expressa na obra De regimine principium.

Para Cícero, que era um filósofo estoico, a concepção de Estado era contratualista, ou seja, tinha
a visão de que o Estado nasce de um contrato entre as pessoas e de que é uma obra humana que não
reproduz nenhum caráter humano, mas espelha as qualidades do comportamento das pessoas que o
compõem (CÍCERO, 2011). As concepções de Estado de Cícero e Santo Tomás têm em comum a ideia de
um grupo social que reside num território, portanto partilham a noção de realidade social e são, nesse
sentido, visões sociológicas.

As propostas das formas políticas anteriores a Maquiavel tentavam sugerir como os homens deviam
viver, o que criava sistemas utópicos. A grande novidade proposta pelo pensador foi procurar entender
como os homens vivem de fato. O método proposto por ele trouxe uma prática que se tornou a grande
novidade científica do Renascimento: observar os fatos. A experiência deveria ajudar a superar as
elucubrações baseadas exclusivamente na dedução, típicas da Idade Média. Isso porque com a dedução
é possível provar a lógica da fé e da crença, mas com a experiência os seres humanos só confirmam
aquilo que pode ser tratado e medido com a técnica. Maquiavel foi o primeiro a escrever que os homens
sempre agiram com corrupção e violência (ARANHA; MARTINS, 1986).

Como já comentamos, a visão de política de Santo Tomás de Aquino era uma dedução baseada numa
visão religiosa para justificar a submissão do poder do Estado ao poder espiritual da Igreja Católica.
Maquiavel utilizou a razão para redefinir a função da política e sugeriu o uso da observação e da
experimentação para o exercício da atividade política. Nesse sentido, foi o primeiro a sugerir que existe
a possibilidade de uma ciência política (MAQUIAVEL, 1996).

Suas obras não previam nenhum tipo de doutrina que devesse ser seguida, como encontramos nas
ideias de Platão, Aristóteles, Santo Agostinho e Santo Tomás. Num movimento que relembra a obra de
Cícero, seus escritos foram fruto da sua vivência política e da necessidade que sentia de convencer as
pessoas do seu tempo.

Mesmo assim, suas ideias formam um conjunto de regras que podem ser descritas como
maquiavelismo. Essa quase doutrina política tem o objetivo de indicar o caminho por meio do qual
as comunidades políticas podem ser renovadas, mantendo as instituições intactas, mas acaba fazendo
também o contrário daquilo a que se propõe: mantém a comunidade política intacta e renova as
instituições. Pode parecer um jogo de palavras, entretanto é uma fórmula simples para prover um Estado
de continuidade política ou de intervir para mudar seu destino político sem que aconteça nenhuma
ruptura da ordem pública.
122
Fundamentos da Ciência Política

Para isso é necessário procurar na raiz das concepções das ideias políticas sua forma histórica de
funcionamento. As concepções filosóficas devem vir acompanhadas dos resultados práticos da sua
experiência no mundo real. Essa objetividade histórica e o realismo político são os dois fundamentos
daquilo que se chama até hoje de maquiavelismo.

Por conta da importância de observar a realidade, Maquiavel é considerado por muitos o fundador
da ciência empírica da política. Tal como um cientista político atualmente, não basta aplaudir uma
grande ideia filosófica sobre como o governo deveria ser. É necessário entender como as ideias afetam
as relações sociais intersubjetivas e verificar a eficácia das regras propostas.

Outra novidade percebida por Maquiavel foi a importância do acaso na vida real. Em todo pensamento
filosófico anterior, todas as propostas sempre foram construídas como se a realidade sempre pudesse
ser submetida à razão. Contudo, a imprevisibilidade é uma condição da atividade política. O empenho
político pressupõe que os homens nunca devem desistir de uma causa, mas participar dos eventos
políticos ativamente, pois o resultado pode ser produto do acaso (MAQUIAVEL, 1996).

A curta frase do padre jesuíta alemão Busenbaum (1602-1668): “ quando o fim é lícito, também os meios
são lícitos” (BAGNO, 2008, p. 133), formulada para justificar a Inquisição, foi corrompida para “os fins justificam
os meios”. Essa foi considerada a melhor fórmula para entender as propostas da política de Maquiavel.

Maquiavel demonstrou simpatia pela honestidade e pela lealdade na vida civil e política. Ele
escreveu que os Estados regidos por essas virtudes, como a República Romana ou a democracia direta
dos suíços, eram admiráveis. Contudo, seu objetivo foi formular regras eficazes de governo com base
nas experiências políticas. Para ele, pouco importava se a eficácia de cada governo vinha revestida de
algum caráter moral. Não havia, como nas filosofias políticas anteriores, principalmente aquelas que
justificavam a tirania como virtuosa, nenhum enfoque na consideração de o governante exibir ou não
algum caráter moral ou imoral, mas na de suas regras beneficiarem o povo.

Maquiavel percebeu que a moral e a religião podem ser utilizadas como forças políticas que, como
qualquer outra força, procuram ter êxito. Ele verificou que muitas vezes a ação política é eficaz mesmo
quando exercida por leis e regras imorais e acreditava que essas práticas de dominação fossem corruptas.
Entretanto, como Maquiavel pensava que o objetivo maior era a construção de um grande Estado
italiano, não se importava em afirmar que mesmo os atos imorais que alcançam um bom resultado
deviam ser postos em prática.

Saiba mais

Conheça um pouco mais sobre as ideias de Maquiavel no site:

AMARAL, M. Maquiavel e o pensamento político. O Portal da História,


[s.d.]. Disponível em: <http://www.arqnet.pt/portal/teoria/maquiavel.html>.
Acesso em: 19 jan. 2015.
123
Unidade III

6.1 O Príncipe – Resumo da obra

Nessa obra máxima de Maquiavel, o conceito de “razão de Estado” parte do pressuposto político
assumido também por outros pensadores de que a organização da comunidade humana não acontece
sem um poder centralizado. Sem uma conduta firme, o ser humano tenderia à anarquia. Portanto, há
necessidade de manuntenção do controle absoluto dos monopólios estatais, como a coerção por meio
da força física, dos impostos e das leis. Isso justifica a repressão dos interesses particulares em favor dos
interesses do Estado (MAQUIAVEL, 1996).

A “razão de Estado” deve promover ações para preservar o próprio Estado e ser ela mesma a
justificativa para essas ações. O pensamento de Maquiavel segue a tradição medieval de justificar o
poder daqueles que já detêm o poder político (MAQUIAVEL, 1996).

Maquiavel percebeu que as várias invasões espanholas e francesas no território italiano eram
decorrência da divisão da Itália em pequenos reinos. Espanha e França já eram unificadas, criando
a base para as nações modernas. O Príncipe foi escrito para o governante de Florença, seguindo
um costume da época, que era de os pensadores escreverem diretamente para quem governava
(MAQUIAVEL, 1996).

Seu trabalho foi inovador, pois promoveu o exame crítico de várias concepções políticas da Idade
Média (ARANHA; MARTINS, 1986). Ele não tentou imaginar como o homem deveria agir ou como
deveriam ser as regras políticas, pois, do ponto de vista da filosofia, isso submete a política à regra
moral. De fato, inverteu essa relação e propôs que a política pode ser uma técnica social da construção
da unidade social e que sua consequente estabilidade pode ser contrária à moral do senso comum
(SOUZA, 2010).

Baseado na observação do comportamento das pessoas, Maquiavel concluiu que a natureza humana
é marcada pela maldade e que o ser humano naturalmente trai, é ingrato, fingido, covarde e que, muitas
vezes, aplaude a injustiça. Por isso, as disputas entre os diferentes grupos sociais e entre o povo e os
poderosos fazem que a sociedade vivencie longos períodos de conflito sucedidos por breves momentos
de estabilidade (SADEK, 1991).

Isso tudo é devido ao próprio caráter humano do processo político. Os ciclos sucessivos de caos e de
estabilidade são resultado das ações, e não de problemas humanos com a existência de Deus. Portanto,
quando os homens decidem, podem modificar essa condição de caos e, se não conseguem afastar o caos
por completo, podem pelo menos diminuir os períodos de desordem.

Esse é o projeto político descrito n’O Príncipe: como desenvolver uma técnica política de governar os
homens sem preocupação com a moral religiosa. O príncipe competente utiliza os instrumentos do poder
para unificar os vários interesses de grupos numa vontade de Estado. A política exibe uma mecânica
baseada no relacionamento social. O agir político não se preocupa com uma ideia transcendental
de bondade ou justiça, pois a ética política nunca é determinada por valores predefinidos (ARANHA;
MARTINS, 1986).

124
Fundamentos da Ciência Política

A avaliação do que é justo não pode ser elaborada com ideias filosóficas ou religiosas, mas
simplesmente com a observação do que funciona na vida prática. A medida precisa da ação política
justifica sua própria finalidade, que é a construção da estabilidade do poder. A boa ação política é
aquela que se demonstra eficaz, e sua legitimidade não nasce de nenhuma preocupação religiosa, mas
da necessidade de resolver uma situação concreta.

Maquiavel percebeu que a ética do cristianismo não favorece a construção do equilíbrio do Estado.
A lógica da política é diferente e independente do mundo religioso. Assim, segundo o pensador, uma
ação que do ponto de vista da moralidade dos seres humanos é má, da perspectiva estratégica do Estado
pode ser boa (MAQUIAVEL, 1996).

Um exemplo é a situação na qual o governante, diante de uma traição ao governo feita por seu
próprio filho, precisa resolver agir pelos princípios da caridade cristã, da afetividade paterna ou da
racionalidade política. Se escolher agir com o perdão, será admirado pelas pessoas caridosas, mas
isso não conquistará o respeito necessário para o exercício da autoridade e da confiança, valores
fundamentais para a manutenção da segurança e da estabilidade do Estado. Esses valores são
preservados com a manutenção da ordem por meio do cumprimento da lei, com a consequente
punição do culpado.

Nesse caso, praticar o bem seria irracional, pois levaria o príncipe a ser considerado um irresponsável,
o que abriria espaço para a discussão de sua autoridade e para a desordem da sociedade.

O governante é obrigado a ser uma pessoa dividida entre o ser humano como pessoa privada, com
seus sentimentos afetivos e laços familiares, e como uma pessoa que exerce uma autoridade pública
com responsabilidade de zelar por todos. Maquiavel entendeu que, na realidade política, a conduta
racional é adotar um comportamento imoral e que o realismo e o utilitarismo acabam sugerindo que é
mais benéfico para a sociedade aquilo que é útil para o interesse comum (SOUZA, 2010). Esse interesse
está sempre voltado à estabilidade do Estado, que confere a glória ao governante. Numa situação em
que nenhum pai hesitaria em perdoar, a autoridade pública precisa resolver de acordo com o interesse
público. A dimensão política pede um comportamento político. As regras são diferentes, e a maior prova
de ética é o respeito às leis da comunidade.

Para Maquiavel, a política é feita por homens livres dotados de livre-arbítrio, sujeitos de sua história
na justa medida em que dominam sua sorte submetendo-a pela força e pela coragem. Essa concepção
contrasta com a ideia medieval da predestinação determinada por Deus que acreditava na sorte e
no acaso como determinantes de quem deveria governar e quem perderia o comando do seu reino
(MAQUIAVEL, 1996).

Segundo Maquiavel, a sorte e o acaso eram obra da Fortuna, uma deusa. Por ser uma linda mulher,
ela deveria ser conquistada com a sedução. Os prêmios do sucesso da ação do homem seriam honra,
glória, riqueza, influência e poder (SKINNER, 1988).

Como em toda conquista, o homem deveria demonstrar virilidade, astúcia e coragem – ou seja,
são essas as qualidades constituintes da virtude, que é a chave do livre-arbítrio, que, por sua vez,
125
Unidade III

possibilita o controle da fortuna: a construção do próprio destino. Assim, Maquiavel inverteu a


representação religiosa do mundo, separando o livre-arbítrio das virtudes tradicionais católicas
(MAQUIAVEL, 1996).

Essa nova noção de virtude permitiu a flexibilização da moral e alertou o príncipe de que a aparência
é, muitas vezes, mais importante para a conservação do poder e da ordem do que a realidade.

Maquiavel percebeu que o povo se deixa levar pelas aparências. O príncipe, desse modo, sempre
deve parecer bom, mesmo que pratique alguma maldade. Além disso, não pode se contentar com a
razão, nem com a moral, pois é necessário combinar características humanas com os traços encontrados
nos animais. A força do leão e a astúcia da raposa, por exemplo, são qualidades que o príncipe deve
incorporar, caso deseje manter-se no poder e construir a unidade do Estado. Ser virtuoso é também ser
astucioso.

A razão humana deve ser capaz de ponderar sobre cada caso e decidir conforme a necessidade do
momento. A dicotomia principal é escolher entre o uso ou não da força para a coerção em benefício
da estabilidade do Estado. Essa virtude faz que o príncipe atue como sujeito da história, respeitando as
condições dadas e se adaptando a elas.

Maquiavel foi o primeiro a escrever que a dimensão humana da história não permite que se conduza
o processo social sem limites ou com autonomia absoluta. Marx também percebeu isso e escreveu que
os homens fazem a história, porém nas condições historicamente construídas (MARX, 1978).

Maquiavel estava atento às condições históricas quando formulou as recomendações ao príncipe. A


superação da desordem pedia a instauração de um governo forte. Quando há anarquia, é mais adequada
a construção de um principado, mas, nesse caso, o governante não deveria ser um déspota, e sim o
fundador do Estado (SADEK, 1991).

Por outro lado, quando a sociedade está numa condição de equilíbrio, com um povo virtuoso e
instituições estáveis, a república é a forma mais apropriada de governo, porque ela tem espaço para a
discussão e o conflito.

N’O Príncipe, Maquiavel faz distinção entre governos novos e antigos; conquistados pela força,
com ajuda de exércitos mercenários, herdados pela fortuna ou de principados mistos, que combinavam
elementos de cada caso. Essa observação da história que orienta a análise indutiva de Maquiavel sugere
o caminho para a ciência política.

Como dissemos, não há ideias utópicas em Maquiavel. Seu recorte da dimensão da política
propõe um funcionamento realista, cuja finalidade não é um bem moral, mas operacional, que
pode ser entendido como o interesse público na estabilidade. O exercício do poder é sempre a
condição para a ordem social. Sua ideia é que a política não é o paraíso, mas, sem ela, viveríamos
o inferno (MAQUIAVEL, 1996).

126
Fundamentos da Ciência Política

Resenha de O Príncipe

A obra O Príncipe nasceu de uma finalidade prática, mas, diferentemente das grandes
obras anteriores da filosofia, essa finalidade estava mais afeita ao próprio Maquiavel do que
a outro elemento. Em 1512, ele foi exilado de Florença e destituído de suas funções públicas.
Então a família Médici retomou o poder. Para reconquistar seu emprego público, Maquiavel
escreveu O Príncipe com uma dedicatória para Lourenço de Médici.

O livro é um manual do bom governante. Começa com uma classificação dos tipos de
governo e da melhor maneira de conquistá-los. Para isso, ele dá vários exemplos da história,
cita governos gregos, romanos e até italianos. Assim, percebemos sua preocupação com a
realidade da experiência histórica.

Então ele expõe uma parte importante do seu raciocínio, que é a virtude (virtù) e a
fortuna. A transformação de um homem num príncipe se dá de duas formas: ou pelos seus
méritos, ou por sorte. Conquistar um principado por mérito próprio é mais difícil, porém sua
manutenção é mais fácil. Contudo, aqueles que conquistam o principado através da fortuna
ou da herança precisam se esforçar para mantê-lo.

Maquiavel sugere que a virtude (virtù) não é aquilo que os católicos entendem como
virtude. Nem fortuna é sinônimo do destino determinado por Deus. Para ele, o homem não
está sob o controle da divina providência, mas é sujeito da história. Assim, ele volta aos
escritos dos gregos e romanos e resgata a ideia de que Fortuna é uma deusa, aliada àqueles
que demonstram virilidade suficiente para conquistá-la.

Um capítulo interessante é intitulado: “Daqueles que se fizeram príncipes mercê de


suas atrocidades”. Para explicar seu raciocínio, Maquiavel dá o exemplo de Agatócles, que,
por meio da crueldade, se fez respeitado. Para Maquiavel, o uso da virtù não nos permite
inferiorizá-lo com relação a nenhum outro capitão e, no entanto, a sua desumanidade e a
falta de características virtuosas não fazem com que possamos classificá-lo como glorioso.

Maquiavel caracteriza duas formas de crueldade: as proveitosas, das quais se faz uso
uma única vez por motivos de segurança, e as contraproducentes, utilizadas de forma
indiscriminada e constante.

O próximo tema é a arte da guerra. Para ele, o príncipe deveria ter como única atividade
a preocupação com os exercícios militares. Isso porque os exércitos mercenários não eram
confiáveis, mas sim indisciplinados e infiéis, capazes de mudar de lado caso fossem oferecidos
melhores salários. Se o príncipe dependesse desse tipo de tropa ou exclusivamente da sua
fortuna, estaria buscando sua ruína.

Em seguida Maquiavel fala sobre “a verdade efetiva das coisas”. Ele insiste que devemos
tratar o mundo como ele realmente se apresenta. Aquele que se preocupa mais com o
dever ser do que com o ser caminha direto para a ruína. Nesse ponto do livro, percebe-se
127
Unidade III

a defesa da praticidade das ações do príncipe, que não deve confiar em atitudes éticas
quando colocarem em risco a própria segurança do Estado.

O governante deve tentar ser, ao mesmo tempo, temido e amado. Contudo, caso precise
escolher, deve preferir ser temido. Essa constatação é consequência da concepção de
Maquiavel da natureza humana. Como ela é má, os homens se afastam do príncipe caso ele
venha a precisar de seu apoio. Por isso ele nunca pode contar com a palavra dos súditos.
Então Maquiavel utiliza metáforas das fábulas gregas para explicar as características que são
importantes para o governo: não basta que o príncipe seja forte como o leão, é necessário
que também seja esperto como uma raposa. Assim, mesmo que não possa exercer as
virtudes cristãs, deve fingir que as tem e enganar seus súditos. Por fim, apesar de temido,
é necessário que o príncipe não seja odiado e, para isso, basta que respeite principalmente
suas propriedades e suas mulheres.

No fim do livro, Maquiavel fala da unificação da Itália, motivo pelo qual muitos pensam
que ele identifica no Estado unificado um poder forte e coeso. Nesse sentido, Maquiavel se
torna também o precursor do Estado nacional moderno, que será a forma de organização
política mais importante nos séculos seguintes.

6.1.1 A década de Tito Lívio – a releitura de Maquiavel da República Romana

Lendo o livro Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio, temos um exemplo muito claro de
como a releitura das obras romanas foi realizada durante o Renascimento. Sabemos que após mil anos
de Idade Média, com as filosofias patrística e escolástica influenciando a organização sociopolítica da
Europa e com a instituição da Inquisição condenando pensadores à fogueira baseados até em acusações
sem provas, refutar a Igreja Católica era uma atitude bastante temerária.

Mesmo assim, Maquiavel evidenciou suas opiniões divergentes daquelas dos filósofos
tradicionais da época e ousou inverter a importância da religião e da política – alegando que a
segunda era mais importante do que a primeira. A religião deveria ser utilizada para fortalecer a
política e o governante, e não importava se os fundamentos da religião eram ou não verdadeiros,
se os deuses existiam ou não. Para o governante, era importante utilizar a religião para o bem da
coisa pública (MAQUIAVEL, 2007).

Segundo Maquiavel, o cristão se preocupava mais com suas questões espirituais do que com a pátria.
Já o romano prestava um juramento religioso garantindo sacrificar interesses pessoais e lutar pela
república. Os romanos utilizavam a religião como instrumento da política, que servia aos governantes
para estimularem a ação dos seres humanos (MAQUIAVEL, 2007).

Em O Príncipe Maquiavel examinou as questões políticas sempre pelo ponto de vista do governante,
já em Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio examinou a república em seus vários elementos e
tentou construir uma visão abrangente daquele sistema político. Nesse livro não há uma figura central
que conduza a narrativa, mas sim os exemplos da história.

128
Fundamentos da Ciência Política

O livro é dividido em três partes. A primeira fala das questões do governo de uma república,
a segunda sobre a condução de campanhas militares e a terceira sobre a ascensão e a queda
das repúblicas, que podemos entender também como as questões que devem ser levadas em
consideração pelo Estado.

Maquiavel comparou a natureza humana ao movimento constante do céu, do Sol e dos elementos,
sugerindo que como toda natureza se repete no nascer do dia, nas estações do ano, ao estudar as ações
dos antigos romanos seria possível verificar quando e onde eles deveriam ser imitados. A Roma Antiga
foi uma república razoavelmente estável que se manteve como um Estado e foi capaz de se expandir,
suportando uma série de conflitos internos sem ser destruída.

Para Maquiavel, o correto seria partir dos pressupostos de que a constância da natureza humana é
verificada por sua tendência à maldade e ao egoísmo e de que o poder do interesse próprio determina
os comportamentos e o espaço do conflito entre as pessoas na vida social (MAQUIAVEL, 2007).

O nascimento de uma civitas, a cidade, é o resultado da ação de grupos que antes viviam dispersos,
mas que preferiram se organizar numa área em razão da segurança ou da produção. Na constituição do
Estado (res publica), os indivíduos agrupados na cidade fundaram o Estado.

Sua ideia sugere que uma cidade deveria ser fundada onde seus habitantes precisassem se esforçar
para sobreviver, onde não houvesse tempo para contemplação e ócio. Porém, como os homens não se
contentam com pouco, se a cidade é fundada em terras férteis, onde a população obtém com facilidade
os bens necessários à vida, como impedir o ócio? A ideia de Maquiavel é induzir as pessoas a se manterem
preparadas para a guerra, mesmo que a cidade nunca venha a entrar em guerra.

Ele compara dois tipos de Estado, fundados por grupos diferentes. Um Estado surge desde o início com
uma legislação completa, o outro a desenvolve ao longo do tempo. As duas possibilidades de legislação
podem ter duas características: serem desgraçadas desde a origem ou disporem de princípios passíveis
de serem aperfeiçoados (como foi o caso de Roma) para dar conta da necessidade e da adversidade que
o Estado enfrenta. Isso porque algumas dificuldades mais relevantes podem pôr em risco a existência
do Estado. Desse modo, aperfeiçoar as leis e a forma de governo é atuar no processo de transformação
da ordem política.

O primeiro comando é sempre exercido por meio da força, mas ela precisa ser legitimada pela
autoridade moral, o que só acontece com o tempo. A moralidade permite que o Estado defina novas
formas de governo, mas elas estão sujeitas à decadência e se degeneram. Segundo Maquiavel,
isso acontece por causa de um movimento social que confere ao governante ou retira dele sua
legitimidade. Mesmo as boas formas de condução do Estado são imperfeitas e não duram. Assim, a
melhor solução para garantir a duração de um governo é uma combinação entre diferentes formas
de organização social.

As leis para proteger a liberdade nascem da desunião entre o povo e os poderosos e surgem para
regular os conflitos. Como o povo age para não ser oprimido pelos governantes, é ele quem garante a sua
liberdade. Das regras de regulamento do governo, nascem as instituições do Estado. Essas instituições
129
Unidade III

são instrumentos para evitar o uso da força dos governantes contra o povo. Dessa forma, uma crise
política não significa automaticamente uma crise do Estado.

A instituição mais poderosa para a manutenção do Estado é um ministério público, que


permite que se acuse uma pessoa ou um grupo de querer extinguir a liberdade das pessoas.
Quando essa possibilidade não existe, o povo pode se rebelar e promover manifestações de ódio
que acabam com a ordem. Quando a religião apoia as leis, o controle do povo se torna mais eficaz.
A religião permite também solidificar a união entre as pessoas e criar um único ponto de vista
da moralidade. Nesse sentido, a religião é mais poderosa do que as leis do Estado. Assim, o bom
governante recorre à religião para manter o bem-estar.

Contudo, os bons costumes só podem ser mantidos com o auxílio de boas leis. O governante deve
entender que a liberdade se manifesta de duas formas num Estado: a vontade de um grupo pequeno
que deseja ter a liberdade de comandar o povo e a vontade do povo de ter liberdade para poder viver
em segurança. Para isso, basta que o governante estabeleça leis e instituições que conciliem o seu poder
com a segurança coletiva, contudo ele mesmo fica impedido de violar as leis que criou. Assim, a base
para as leis é sempre a limitação do poder, o que equivale a dizer também que elas são uma limitação
para o uso da coerção pela força.

Segundo Maquiavel, mesmo nos períodos de ditadura romana, quando a república foi governada por
um militar com plenos poderes, sua duração e sua conduta eram limitadas pela lei. Por isso a República
Romana sobreviveu aos seus ditadores. Para ele, a ideia de virtù não pertence apenas ao governante,
mas também a todos os integrantes do Estado, para a manutenção do qual uma virtude importante é
o respeito do povo às suas instituições. A virtude importante do governante é saber que a existência do
Estado ultrapassa a sua própria (MAQUIAVEL, 2007).

A unidade política do Estado é pensada por Maquiavel como um conjunto de instituições que não
apenas regulam as relações entre o poder e as pessoas, mas também limitam o poder estatal, além
de constituir um espaço social para permitir a expressão da vontade individual num mundo cheio de
conflitos, com o menor atrito possível.

Quando os diversos interesses particulares ficam subordinados à ordem legal e institucional, o bem
comum cria a noção do Estado. Para Maquiavel, é isso o que o governante com virtù deve garantir.
Quando a autoridade também emana do povo, cabe a ele a manutenção da “coisa pública” (res publica).
Essa república se constitui de liberdade e igualdade, que permitem aflorar o sentimento de amor à pátria.

Resumo

A experiência da Roma foi marcada pelo Estado Imperial centralizado


e com ênfase no direito que delimitava os interesses dos proprietários,
os chamados patrícios. Foi nesse momento histórico que surgiu a
possibilidade de verticalização do poder, como nunca antes se tinha
visto.
130
Fundamentos da Ciência Política

A verticalização e acentralização do poder encantaram a mente dos


homens. Desde Roma e ao longo de toda a Idade Média esse foi o modelo
para a organização de toda unidade jurídica socioeconômica no Ocidente,
principalmente na Europa.

Roma era a senhora do universo, assim o imperador romano era o


mais poderoso ser do mundo. Era ele quem garantia a paz por meio de
seus exércitos. Com tanto poder concentrado nas mãos de uma pessoa,
o imperador passou a ser considerado divino, imbuído dos poderes de
fundador do povo, restaurador da ordem universal e salvador do Universo.
Para manter o império, o poder imperial era centralizado e hierarquizado, o
que criava uma hierarquia entre os funcionários imperiais.

O príncipe cristão devia possuir as virtudes cristãs da fé, da esperança e


da caridade e o conjunto das virtudes definidas por Cícero e Sêneca como
aquelas necessárias para um bom governo. Sendo o príncipe o espelho
da comunidade, em sua pessoa deveriam estar encarnadas as qualidades
cristãs que a comunidade deveria imitar.

Os cristãos entendiam que a política era uma atividade natural do ser


humano. O próprio Aristóteles pensava dessa forma, e o grande pensador da
filosofia escolástica, Santo Tomás de Aquino, concordava. Outros filósofos
cristãos, como Guilherme de Ockham, pensavam, como Platão e Cícero,
que a política era a forma de convivência de uma comunidade por meio da
razão. As finalidades supremas do poder político seriam o bem e a justiça,
finalidades não políticas, mas espirituais.

A ordem e a justiça definiam a comunidade política como o instrumento


humano legítimo para assegurar o bem comum. O teólogo Guilherme de
Ockham também pensou na separação entre o poder espiritual da Igreja
e o poder temporal da comunidade política, sugerindo a ideia do direito
subjetivo natural. Para que a comunidade política pudesse dar a cada um o
que lhe fosse devido, segundo suas necessidades e seus méritos, precisaria
estabelecer o critério do que é justo.

A história da Idade Média se confunde com a da Igreja Católica. O


movimento histórico entre o fim do Império Romano e a Idade Média e sua
organização feudal durou aproximadamente trezentos anos.

O Império Romano era centralizado a partir do controle do imperador


dentro da cidade de Roma. Em cada província romana existia um
representante do imperador que, auxiliado por tropas militares, fazia valer
a pax romana, que era basicamente a organização da justiça por meio das
leis romanas nos territórios ocupados. Isso criou uma novidade: em todo
131
Unidade III

lugar ocupado por Roma, tanto as leis como os principais costumes eram
os mesmos, o que fez os individuos se perceberem como iguais em todo
lugar.

Essa percepção da igualdade permitiu que a mensagem do cristianismo


se espalhasse por Roma e depois por todo o Império. As principais percepções
da nova religião eram de que todos eram iguais e deviam amar-se uns aos
outros.

Depois que as autoridades romanas se converteram ao cristianismo, que


se tornou a religião principal em todo o império, foi realizado um esforço
pelos primeiros padres da Igreja para unificar todos os ensinamentos que
eram feitos em nome de Cristo. Daí nasceu a ideia de Igreja Católica, que
significa a igreja universal.

Quando o poder centralizador de Roma foi deixando de existir, os chefes


militares de cada antiga província romana assumiram o poder, imitando os
comportamentos de imperador naquele pedaço de terra. Entretanto, como
todos eram católicos e tementes a Deus e muitas terras pertenciam à Igreja
Católica, que as tinha recebido como doação dos fiéis, a Igreja passou a
compartilhar com os chefes militares o poder sobre as pessoas e as terras.

Com a utilização dos ensinamentos de Cristo e com a adaptação das leis


romanas, os primeiros padres construíram um sistema de governo no qual a
lei das questões cotidianas estava submetida, por meio da interpretação do
seu sentido, aos ensinamentos da Igreja. A educação obrigatória do Império
Romano foi substituída pela exclusividade de educação dos padres para
que não houvesse contestação na interpretação das leis.

Isso criou uma forma de organização social muito peculiar. Como todos
os governantes eram igualmente católicos, eles até podiam fazer guerras
e tomar terras uns dos outros, mas, depois que o conflito acabava e o
vencedor tomava posse de seu reino, ele confirmava que ainda obedecia
às leis da Igreja e submetia seu poder aos representantes de Deus na Terra.

Isso permitiu a interpretação e a justificativa por parte dos padres de


que todo poder vinha de Deus. Assim, quem conseguia poder na Terra
estava cumprindo a vontade de Deus. Dessa forma, a sociedade foi se
estruturando para organizar a posição social das pessoas, que ao longo do
tempo foi se tornando hereditária e imutável.

Durante a Idade Média, a Igreja Católica precisou organizar a forma de


pensar o mundo para poder dar aos padres critérios de interpretação da
Bíblia e, por consequência, das leis. Dois pensadores se destacaram durante
132
Fundamentos da Ciência Política

esse período, que compreendeu aproximadamente 1.100 anos (300-1400):


Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino.

Santo Agostinho desenvolveu a ideia de que, para Deus, cada ser


humano é uma pessoa. Essa ideia também faz parte do direito romano,
que define a pessoa como um sujeito com direitos e deveres. Se somos
pessoas, somos responsáveis por nossos atos e pensamentos. A essência
da nossa pessoa é nossa consciência, que existe porque é a expressão da
alma dotada de vontade, imaginação, memória e inteligência. Em outras
palavras, a memória é o que nos permite saber que temos uma consciência.

Portanto, Santo Agostinho pensou que a memória demonstrava a


existência do livre-arbítrio e da alma, que, sendo uma coisa boa, só poderia
ter sido feita como cópia ou parte de outra coisa boa: Deus.

Santo Agostinho tentou organizar o pensamento a favor de uma vida


justa por meio da religião cristã. Esse pensamento guiou a formação
da Igreja Católica no início do período feudal, num momento em que
militares tentavam se manter como chefes supremos na forma de
príncipes de seus reinos.

Comparando o pensamento de Santo Agostinho e Santo Tomás de


Aquino, verificamos que Santo Agostinho não entendia que havia um
limite ente a fé e a razão. O processo do conhecimento fazia a razão auxiliar
o homem a alcançar a fé. Por outro lado, a fé orientava e iluminava a
razão. Para ele não havia limites entre a revelação cristã e a verdade do
pensamento racional.

Santo Agostinho considerava a filosofia platonicamente, como uma


melhor forma de encontrar uma solução sobre o que é a vida; e as ideias
do cristianismo permitiam que ela fosse bem-vivida. Para ele, a primeira
certeza era a de que a vida espiritual existia, e isto se configurava numa
verdade superior e imutável.

Na Cidade de Deus, Santo Agostinho demonstrou a metafísica


original do cristianismo, que era uma visão orgânica e inteligível da
história humana. O conceito de criação era indispensável para o conceito
de providência, que seria o governo divino do mundo. O Reino de Cristo
(ou a Cidade de Deus) seria representado pelo povo de Israel antes da sua
vinda sobre a terra e pela Igreja Católica depois de seu advento.

Para Santo Tomás de Aquino, as formas de governo eram uma realidade


tão natural como a família e as outras formas intermediárias de convivência
humana. O estado da realidade empírica, aristotélica, constituía um ser
133
Unidade III

distinto dos seus componentes, embora fosse um ser não substancial, pois
o único ser substancial seria o indivíduo.

O Estado também não seria um organismo biológico. Apesar das


analogias possíveis com organismos biológicos, seria, como todos os seres,
o resultado da aplicação de uma forma sobre uma matéria, que estaria
representada pelos indivíduos, e a forma, representada pela ordem que os
unificaria. A finalidade do Estado seria o bem comum.

O Estado precisava garantir ao homem o bem-estar material, imposto


pelo seu instinto de conservação, para que ele pudesse alcançar a salvação
da alma. Como esta era mais importante do que o bem-estar da pessoa,
não seria uma preocupação do Estado, e sim da Igreja Católica, isso porque,
no Universo, criado por Deus, tudo estaria hierarquizado pela subordinação
do mais baixo ao mais elevado. Assim, os fins temporais deviam estar
subordinados aos espirituais: por isso o Estado, que representaria os fins
temporais, estaria subordinado à Igreja, que representa os fins espirituais.
A relação entre os dois era semelhante à relação existente entre Filosofia e
Teologia, razão natural e revelação.

Segundo Santo Tomás, a qualidade ética do Estado passava a ser


obrigatória porque, quando ela deixava de existir, as leis se tornavam injustas
e formavam uma tirania. A resistência contra o tirano seria legítima, salvo
se essa tirania fosse justa, para castigar os pecados cometidos pelo povo.

Para Santo Tomás de Aquino, o poder político era uma instituição divina
que justificaria a ação política, mas visaria à natureza espiritual.

A constituição do Estado de Santo Tomás era inspirada em Aristóteles,


em Cícero, na Bíblia e na ordem feudal da Idade Média. Sua maior qualidade
foi incorporar o empirismo aristotélico ao idealismo agostiniano, criando,
para o Estado, uma finalidade clara: a felicidade temporal.

A visão agostiniana da Cidade de Deus suporia uma realização gradual


da história e uma longa luta contra a Cidade dos Homens, pois esta teria a
sua própria consistência.

Assim, para Santo Agostinho, não cabia ao membro da comunidade


julgar os governantes ou suas formas de governar, porque essa seria uma
função de Deus. Já para Santo Tomás de Aquino, o Estado surgia da natureza
social do homem e era uma sociedade perfeita, pois seria a união de muitos
indivíduos em busca do bem comum. Ele defendia a monarquia absoluta
como governo ideal, mas considerava a monarquia constitucional como
a melhor forma de governo. De um modo geral, tanto Santo Agostinho
134
Fundamentos da Ciência Política

como Santo Tomás de Aquino asseguravam à Igreja um plano superior ao


do Estado, pois a vida do ser humano seguiria para além do fim do Estado,
junto a Deus. Para os dois, entretanto, cabia ao Estado a manutenção do
bem comum.

No livro Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio (2007),


Maquiavel descreve o funcionamento detalhado do Estado romano no
período da república. Ele compara dois tipos de Estado fundados por grupos
diferentes: um Estado surge desde o início com uma legislação completa, o
outro desenvolve sua legislação ao longo do tempo.

Entretanto, os bons costumes só podem ser mantidos com o auxílio


de boas leis. O governante deve entender que a liberdade se manifesta de
duas formas num Estado: a vontade de um grupo pequeno que deseja ter
a liberdade de comandar o povo e a vontade do povo de ter liberdade para
poder viver em segurança. Para tanto, basta que o governante estabeleça
leis e instituições que conciliem o seu poder com a segurança coletiva;
contudo, ele mesmo fica impedido de violar as leis que criou.

135
Unidade IV

Unidade IV
7 A Formação do Estado Moderno

Antes de discutirmos a formação do Estado Moderno, vamos relembrar algumas passagens do livro
Política para Não Ser Idiota, com as palavras de Mário Sérgio Cortella:

Por exemplo, mencionamos aqui alguns filósofos que não tinham apreço
algum pela democracia, a começar por Platão; apesar de autor de obra
chamada A República, notamos claramente que, para ele, a democracia era
algo a ser evitado. Quanto ao mundo romano até a República, ele poderia
ter vingado na tradição democrática, mas não foi o que ocorreu.

Quando Júlio César assume o poder, na guerra civil, e se inicia o ciclo


de imperadores com Otávio, que vai até a queda do Império Romano do
Ocidente em 476, a noção de democracia não ganha espaço, não se impõe.
Patrícios e plebeus convivem, mas a noção de classe é mais forte: classe dos
cavaleiros, dos seniores, dos juniores, e assim por diante.

No mundo medieval no Ocidente, a noção de democracia evidentemente não


viria à tona porque o que predomina é uma autocracia religiosa em grande
parte e uma soberania que começará a ser ameaçada quando desponta o
mundo do Renascimento, aquilo que se chamava de monarquia esclarecida.
Faço um parêntesis anedótico: tive um professor de história, um português,
já falecido, que dizia: “Dom José de Portugal era déspota e não sabia. Aí lhe
disseram e ele se tornou um déspota esclarecido”.

Por que estou fazendo essa trajetória tão longa? Para chegar a um ponto: é
a modernidade que vai trazer a democracia como possibilidade de um valor
do indivíduo. Mas, como você colocou, Renato, é só a segunda metade do
século XX que vai colocá-la como o horizonte. Mesmo quando se começa
a valorizar a democracia, ainda havia algum desprezo por ela em várias
situações. O mesmo aconteceu em relação à escola universal. Há uma
correspondência entre a desvalorização da democracia e da escolarização
universalizada.

Na França, Guy de Maupassant dizia que se alfabetiza o povo e a besteira se


liberta, se alfabetiza a massa e a tolice se solta. Porque então o povo poderia
ler e escrever... (CORTELLA; RIBEIRO, 2010, p. 45).

136
Fundamentos da Ciência Política

A palavra “modernidade” tem vários significados, dependendo do contexto em que estamos


escrevendo. A principal confusão acontece quando utilizamos o contexto da história. A Idade Moderna é
entendida tradicionalmente como o período que se inicia com a tomada de Constantinopla pelos turcos
otomanos, em 1453, e termina com a Revolução Francesa, em 1798.

Mas há discussões sobre se tal Idade começa mesmo com esse episódio, pois outros preferem a
Conquista de Ceuta pelos portugueses, que inicia o ciclo das grandes navegações, a descoberta da
América por Cristóvão Colombo ou até mesmo a viagem de Vasco da Gama, em 1498.

Na cultura anglo-saxônica a historiografia prefere falar de sociedades pré-industriais e sociedades


industriais. Também os historiadores marxistas preferem estender a Idade Média até o início do sistema
capitalista, no século XVII. A Idade Contemporânea teria início no século XIX e perdura até os nossos
dias. Mas há também quem defenda a ideia de que no fim do século XX começou a Idade Pós-Moderna.

Todos os historiadores concordam que o sistema capitalista é um fenômeno moderno. Mas as


transformações econômicas também são decorrentes da ciência e de suas inovações tecnológicas.

Vamos assumir que a modernidade comece como movimento intelectual do Iluminismo, que acontece
depois do Renascimento, este certamente o último grande movimento filosófico da Idade Média. No
Iluminismo, a razão substituiu finalmente a religião como o fundamento para as ações humanas.

A frase de Descartes (1596-1650) “Penso, logo existo” afirma que o ato de pensar nos torna humanos.
É a razão que consegue explicar quem somos e organiza a lógica do processo histórico. O sujeito da
razão explica sua trajetória passada e pode orientar seu futuro para uma realidade melhor.

No século XIX, Augusto Comte em seu positivismo e Karl Marx com sua uma perspectiva dialética
acreditavam que com a razão o homem poderia dominar a natureza e seu destino histórico. Baseados no
princípio de que a razão é a essência do homem, as ideias de liberdade e de igualdade foram fortalecidas.

Ser racional significa ser autônomo, ou seja, ser responsável por se conduzir no mundo. Não há
nenhuma força divina ou destino escrito. O livre-arbítrio moderno é aquele que confere à pessoa
humana a liberdade de suas escolhas, guiadas pela razão.

Observação

Autonomia não é o mesmo que a liberdade, mas uma forma de o ser


humano ter liberdade dentro de parâmetros socialmente estabelecidos.

A razão permite perceber que todos os seres humanos são iguais. Não há sentido em aceitar a
autoridade em nome de uma suposta diferença que lhe garante superioridade divina ou de qualquer
outro tipo. Mas essa aceitação das ideias de razão, liberdade e igualdade foi o resultado de um processo
longo.

137
Unidade IV

Já no período do Renascimento, no século XIII, o poeta italiano Dante Alighieri tinha sugerido que
o Estado podia ser governado sem estar subordinado à Igreja Católica. Outros o sucederam, como
Maquiavel (ARANHA; MARTINS, 1986).

Mas depois de mil anos de dominação das ideias religiosas, como mudar a perspectiva? A construção
do sujeito ideal, caracterizado por racionalidade, liberdade e igualdade, levou alguns séculos para ser
realizada e aceita. Não há uma fórmula única, e as ideias do Iluminismo propuseram antes da democracia
a ideia de despotismo esclarecido, ou seja, da monarquia governada pela razão.

No campo político, o desafio moderno pode ser resumido como a forma de ordenar racionalmente
as instituições que permitem a conquista legítima do poder e sua manutenção. Trata-se de estabelecer
regras e uma instituição jurídica que regulem o jogo político sem permitir a coerção, o uso da força.

Os instrumentos jurídicos de poder deveriam permitir o seu exercício impessoal e voltado para
os interesses comuns. Neste sentido, a Idade Moderna pode ser vista como o tempo de se pensar a
democracia; já a Idade Contemporânea, como o tempo de se instituir a democracia moderna. Com
a democracia moderna, todas as pessoas participam do poder em igualdade de condições, o que
permite que o poder seja espalhado igualmente por toda a sociedade. Mas, para tanto, é necessário
que se entenda tanto a diferença entre a sociedade civil e a participação política quanto o controle
da política pela sociedade.

A democracia, que parecia uma utopia no século XIII, acabou se tornando realidade apenas no século
XX. Foram necessários quase 700 anos para que as ideias pudessem amadurecer e ser experimentadas na
prática. Durante esse período de espera, chegou-se à conclusão de que a legitimidade do poder precisa
ser racional, e o poder civil é aquele fundado no consentimento coletivo, ou seja, na vontade geral. Não
há nenhum pressuposto religioso para o poder. O Estado é laico; portanto, deve abrigar todas as pessoas,
de qualquer religião.

Em vez de buscar uma verdade moral definitiva, o pensamento moderno deixou de procurar esse
bem transcendental e valorizou os procedimentos democráticos para resolver os conflitos sociais e
promover a convivência pacífica. Na modernidade, a esfera pública, que é o espaço das disputas políticas
e da construção dos interesses comuns, é diferente do mundo privado.

No mundo privado, cada pessoa vai preferir as escolhas de valor a partir do ponto de vista de seu
grupo social. Esses grupos são a família, os grupos religiosos, os clubes e todas as formas de grupos
sociais que podem acontecer quando se goza de liberdade de escolha (SOUZA, 2010).

As instituições das esferas pública e privada são duas dimensões da mesma sociedade. Portanto, o que
acontece em uma influencia a outra. As representações racionais do mundo, iniciadas pelos iluministas,
demarcaram o espaço da política. As questões sobre o fundamento racional do poder, a legitimidade
do Estado e a construção da estabilidade vão dar contorno à dimensão política das sociedades. A ideia
de que o povo todo é a fonte do poder foi a base para a construção da autonomia da política diante
da religião. Nesse processo, também foi aceita a ideia de que o poder emana do povo, que é soberano.

138
Fundamentos da Ciência Política

Há até hoje um movimento intelectual em curso, que busca explicações sobre o funcionamento do
poder institucional e dos processos políticos. Cada filósofo, sociólogo e cientista político contribui com
seu ponto de vista para a construção do campo da política, que existe de forma autônoma em relação
à religião, à moralidade privada ou aos interesses individuais dos governantes. A Ciência Política é o
resultado desse grande processo de maturação.

Hoje em dia, conhecemos muitas fórmulas propostas para resolver as questões do Estado
e da liberdade de seus cidadãos. O liberalismo prefere a liberdade dos indivíduos atuando no
mercado; o socialismo prefere uma igualdade social garantida pelo Estado; a social-democracia
tenta combinar as duas ideias, e muitos acreditam que o seu modelo seja o melhor para permitir
a autonomia do ser humano.

Por trás das ideias modernas está a discussão entre o direito natural e o direito positivo. Na Idade
Moderna surgiu o jusnaturalismo, que teve em Hobbes um de seus maiores defensores. Essa doutrina
jurídica serviu de fundamento à reivindicação de duas conquistas fundamentais no campo político:
o princípio da tolerância religiosa e o princípio da limitação dos poderes do Estado. Desses princípios
nasceu o Estado Liberal moderno.

O jusnaturalismo é diferente da ideia tradicional do direito natural porque não considera que o
direito natural tradicional represente a participação humana numa ordem universal perfeita que viria
de Deus, como pensavam os estoicos, ou seria permitida por Deus, como pensavam os patrísticos e os
escolásticos. O direito do jusnaturalismo acredita que natural é a regulamentação das relações humanas,
que é alcançada pela razão, independentemente da vontade de Deus.

Enquanto as ideias de Descartes sugerem que a ciência não depende de Deus, o jusnaturalismo
defende que a moral e a política também não. Isso permitiu que se formulassem novas ideias a respeito
do poder soberano.

O absolutismo foi uma teoria política que defendia que alguém (em geral, um monarca) sempre
deve ter o poder absoluto, isto é, independentemente de outra pessoa ou instituição. Quando posta em
prática, tornou-se uma organização política na qual o soberano concentrou todos os poderes do Estado
em suas mãos.

As ideias teóricas mais importantes para fundamentar o absolutismo foram as de Maquiavel e as


de Thomas Hobbes. Isso nasceu da necessidade de justificar o poder centralizado e único do rei, sem
tentar admitir que eles tinham poder por causa de um direito divino. Para alguns monarcas europeus, O
Príncipe de Maquiavel era o fundamento da defesa do absolutismo. Lembramos que Maquiavel defendeu
o Estado como um fim em si e sugeriu que os soberanos podiam utilizar todos os meios lícitos ou ilícitos
para garantir a conquista e a continuidade do poder.

Thomas Hobbes escreveu o Leviatã defendendo que, em seu estado natural, a vida humana era
solitária, miserável, desprezível, bestial e breve. Para escapar da luta de todos contra todos, os homens
se uniram e formaram um contrato para organizar a sociedade civil, permitindo a um soberano todos
os direitos, para protegê-los contra a violência. Hobbes defendia a teoria de que um rei só poderia subir
139
Unidade IV

ao trono pela vontade do povo, e não pela vontade divina. A monarquia precisava ser justificada pelo
consenso social.

Para Hobbes, o homem é mau por natureza. O pensador inglês inverteu o entendimento de
Aristóteles sobre a natureza humana sociável. Autor da célebre frase “O homem é o lobo do homem”.
(HOBBES, 2008), Hobbes considerava que sem os limites de um poder soberano, os homens entrariam
em conflito violento na busca da realização dos seus desejos e vontades. Por outro lado, já que o homem
se apresentava como limite para o próprio homem, ele também permitiria sua emancipação.

A ideia de Hobbes é a de que os limites e as possibilidades do jogo político estão circunscritos à


condição humana, e não aos elementos sobrenaturais ou divinos. Os homens, que ao mesmo tempo são
maus e donos dos seus destinos, escapam da barbárie própria do “estado de natureza” ao usarem da razão
para promoverem a paz, estabelecendo um pacto ou um contrato entre si. As condições para esse contrato
estão no próprio estado de natureza, pois, se os “direitos naturais” apontam para o conflito generalizado e
aguçam a cobiça, a desconfiança e a busca da glória, as “leis naturais” indicam o caminho da paz. Faz parte
das “leis naturais” o esforço da conciliação entre os homens em nome da preservação da vida. O contrato
social, para Hobbes, supõe a alienação absoluta dos poderes individuais em favor de um Estado com força
suprema, chamado metaforicamente de Leviatã, que significa polvo marinho gigante.

7.1 A forma de utilização das ideias

A primeira Monarquia Absolutista nasceu com Luís XIV, rei da França. Seu reino era de fato governado
pelo Cardeal Mazarino, que era seu primeiro-ministro. Quando o cardeal morreu, em 1661, Luís XIV
chamou seus ministros e avisou que daquele momento em diante ele governaria sozinho, proibindo seus
ministros de decidirem qualquer coisa sem seu consentimento. Ficou conhecido como Rei-Sol, pois toda
a França deveria girar em torno dele.

O Estado absolutista foi um processo histórico que promoveu a modernização administrativa de


alguns países. A centralização política e administrativa praticamente extinguiu os exércitos mercenários
que eram utilizados na Idade Média e criou a base para o exército nacional. Permitiu também a criação
de uma burocracia civil, o primeiro com a tarefa de manter as Forças Armadas. Criou o serviço militar e o
alistamento compulsório, bem como financiou e abasteceu tropas cada vez maiores, além da construção
de centenas de fortificações militares.

Um século depois, surgiu, por contribuição de filósofos iluministas, como Montesquieu, Rousseau e
Hume, o despotismo esclarecido. Essa forma de governo era um desenvolvimento do absolutismo que
tinha sido adotado por muitos reis na Europa. O despotismo também defendia, assim como o absolutismo,
o poder do soberano sobre o Estado. Mas abriu espaço para os ideais de progresso, de reforma política e
do humanismo filantrópico. Nem todas as ideias de liberdade e igualdade do Iluminismo foram aceitas
pelos reis, que decidiam pessoalmente quais ideias podiam ser adotadas.

O despotismo esclarecido aconteceu de fato na Áustria, na Prússia e na Rússia, Estados que tinham
acabado de ser constituídos. Nesses Estados, a economia era essencialmente agrícola, e a burguesia
não dispunha de grande poder. Assim, o Estado elaborou reformas administrativas e jurídicas, dirigindo
140
Fundamentos da Ciência Política

a economia e orientando a educação, modernizando esses países. O mais famoso desses déspotas foi
Frederico II, rei da Prússia (1712-1786). Foi chamado de Rei-Filósofo porque se interessava pelo debate
de ideias e protegeu pensadores e artistas. Amigo de Voltaire, de Diderot e de D’Alembert, filósofos
iluministas franceses, Frederico II decretou a abolição da servidão, mas não conseguiu forçar a nobreza
a aceitá-la. Permitiu alguma liberdade de imprensa e também a liberdade religiosa e procurou fazer
também reformas administrativas e judiciárias que permitiram a construção de um poderoso exército.

Os reis que se acreditavam déspotas esclarecidos adotaram alguns princípios da filosofia iluminista
para modernizar os Estados que governavam. Para isso, procuraram o apoio da burguesia para impor
limites na relação entre a Igreja e o Estado, mas também para limitar o poder da nobreza.

Isso foi aos poucos construindo a ideia de igualdade entre as pessoas. As instituições políticas
modernas seriam teoricamente capazes de construir o consenso democrático. Os pensadores modernos
acreditavam que os membros da sociedade, gozando de liberdade e confrontando-se em condições de
igualdade, podiam estabelecer as regras jurídicas da convivência pacífica e a autoridade soberana que
cuidaria da implementação delas. As regras para a autoridade soberana é que estabeleceram as bases
para as futuras democracias.

A igualdade da Idade Moderna não era exatamente a igualdade de todos, como verificamos em
muitos países hoje em dia, mas afirmava que a sociedade só funcionava quando os cidadãos alcançavam
o mesmo patamar de participação política. Isso significa que os cidadãos deveriam poder exprimir seu
pensamento e criar associações para defender os seus direitos e exercer pressão sobre as autoridades.
As primeiras liberdades podiam ser expressas dentro do Estado soberano, que simplesmente deveria
pressupor o exercício do poder dentro do seu território (AZAMBUJA, 2005, p. 61-2).

Tal poder deveria atuar dentro das fronteiras territoriais, formando uma nação composta por
cidadãos na qual as leis se impõem a todos sem distinção. O poder legitimado pela lei é característica do
poder soberano, e o poder de fato é exercido pelo poder de direito. Como vimos, isso é muito parecido
com as ideias de Cícero sobre a República Romana, mas desta vez incluindo todas as pessoas.

Assim, a ideia de soberania desmontou a relação entre poder, felicidade e bondade. Ela é necessária
para a construção da paz interna de uma nação e para fortalecer a sociedade contra seus inimigos
externos. A soberania tem a função de fazer que a sociedade conviva de forma estável e equilibrada.
A paz social passa a ser valorizada como condição fundamental para o progresso das instituições, o
amadurecimento dos indivíduos, a realização dos negócios e o desenvolvimento da humanidade em
diferentes aspectos, com destaque para a dimensão econômica (LEBRUN, 1984).

A concepção da soberania popular é importante, pois possibilitou, no desenvolvimento da democracia,


a defesa desse regime, mesmo em situações em que a sucessão de governantes corruptos tornou a vida
insuportável. Isso aconteceu porque um governante não traz consigo a essência da construção política
da democracia. Ele é visto apenas como o executor da vontade do povo; se não cumpre bem a sua tarefa,
aquela pessoa, e não o regime político, deverá ser substituída. Não há sentido em julgar o regime pelo
mau desempenho do seu executor.

141
Unidade IV

Na soberania popular, o povo não seria apenas o inspirador do direito ou o ponto de partida e de
chegada das leis, mas também o criador dos costumes nos quais as leis devem estar baseadas. Essa
reflexão torna lógica a ideia de que o poder deve estar no povo e indica que, mesmo nos regimes nos
quais o povo é colocado em segundo plano, a força da tradição e dos costumes obriga os governantes
a respeitarem, em algum grau, a vontade popular. A partir do reconhecimento de que as leis estão
assentadas na tradição popular e só serão respeitadas quando se remeterem a esses costumes, abre-se
caminho para a associação do poder ao povo.

Existe uma ligação entre democracia e contratualismo, pois em ambos o povo é a fonte do pacto ou
do poder democrático. Sem dúvida, o contratualismo influenciou o desenvolvimento do pensamento
democrático moderno. O maior exemplo nesse aspecto é Rousseau (1712-1778).

Para ilustrarmos essa ligação, voltemos ao diálogo entre Renato Janine Ribeiro e Mário Sérgio
Cortella:

Ribeiro – Para dar um exemplo histórico: a cultura política anglo-saxônica se


baseou num tipo de modelo que torna imprescindível a anuência dos vários
atores. Por exemplo, até o século XVII, os ingleses estavam convencidos de
que o rei podia sustentar-se e à sua administração sem cobrar impostos.
O imposto era excepcional e precisava ser autorizado em cada caso. Na
verdade, quase todo ano o rei pedia impostos. Mas essa ficção do imposto
como exceção foi muito útil, porque sem o acordo entre rei, lordes e comuns
(a Câmara dos Comuns, o órgão eleito pelo povo, o elemento democrático
num regime fortemente autoritário), negociado e obtido a cada vez, nada
funcionaria. O rei tinha de dar algo aos plebeus toda vez que cobrava o
imposto. Isso exigiu que se formasse uma cultura de negociação. Na França,
ao contrário, o impasse do Antigo Regime só pôde ser resolvido pela via
revolucionária, com a guilhotina e várias guerras. São duas culturas
diferentes. O que quero dizer é que, se a revolução foi necessária para romper
grilhões (e também houve duas revoluções na Inglaterra do século XVII),
numa sociedade de convívio democrático a negociação se torna prioritária.

Cortella – Eu estava pensando exatamente isso que você acaba de dizer:


o mais amplo. É muito interessante pensar que, no caso anglo-saxão, eles
adotem a common law, uma forma aproximada de direito consuetudinário
no cotidiano. A Magna Carta, que data do século XIII, é a base da nação
britânica, e eles não têm Constituição como um único documento até hoje.
Portanto, as normas de convivência vão sendo construídas pela legislação
da prática, do costume, do cotidiano. Ou ela se organiza a partir de um
consenso, ou não consegue, de fato, definir as regras que lhe permitam
avançar na história.

Isso significa que na política moderna não é aceitável que um homem,


ou um grupo de pessoas, exerça qualquer poder sobre os demais em
142
Fundamentos da Ciência Política

nome de alguma suposta diferença que o faria superior ao “outro”


construído, desse modo, como inferior; seja essa diferença de credo,
cor, origem social, renda, gênero, ou qualquer outra (CORTELLA;
RIBEIRO, 2010, p. 50-1).

É necessário perceber que diante da concepção de igualdade, há uma dificuldade em conseguir


permiti-la concretamente. Para que todos estejam realmente em condições de igualdade, é
necessário que todos os participantes do contrato social tenham o mesmo nível de informação,
assim como as mesmas possibilidades de reflexão sobre sua condição no mundo, sobre o
significado do jogo político e sobre a identificação dos grupos aos quais cada um pertence.
Em outras palavras, espera-se uma igualdade de educação entre todos os cidadãos para que
eles exibam uma capacidade semelhante de expressar seus interesses na sociedade e tentar
democraticamente realizá-los (SOUZA, 2010).

A política moderna deveria poder proporcionar as condições para uma sociedade de não
dominação, pois as regras estabelecidas seriam seguidas não como efeito de uma relação em que
alguns mandam e muitos obedecem, mas como o resultado de uma identidade entre as pessoas e as
leis criadas por elas. Nessas condições, não existiriam poderosos, mas autoridades limitadas pelas
leis e pelo conjunto dos cidadãos. Essa igualdade entre os legisladores e a população seria uma das
características da democracia.

Existem países onde senadores, deputados, juízes e presidentes são considerados pessoas como outras
quaisquer, sem nenhum privilégio especial. Isso não acontece em todas as democracias do mundo, pois
alguns países democráticos ainda são politicamente uma monarquia, como a Inglaterra e o Japão. Por
outro lado, o projeto de república democrática de seres humanos livres e em igualdade de condições
ainda está em construção. As leis são obedecidas pelo temor da coerção. Existe uma longa distância
entre o mundo ideal e o mundo real. A divergência das ideias sobre o melhor exercício de democracia
discute como combinar as ideias de razão, liberdade e igualdade. É importante, porém, lembrar que
Maquiavel, Rousseau e muitos outros que colaboraram para o avanço das concepções sobre o Estado
em direção à modernidade foram realistas ou até mesmo pessimistas sobre a natureza humana e sobre
o poder político.

Observação

Nas democracias mais consolidadas, não existem privilégios especiais


para quem representa as diversas instâncias do Estado. Todos são realmente
iguais perante a lei.

7.2 A política como forma de organizar a vida social

Desde tempos imemoriais existem justificativas para o comando dos reis. Quando pensamos na
estrutura da hierarquia da família patriarcal, entendemos que a autoridade do pai permitiu que os mais
fortes ou os mais espertos controlassem suas tribos. Com a hierarquia, todas as famílias de um grupo
143
Unidade IV

ou de uma tribo acabavam por negociar seu espaço de poder entre aquelas que se consideravam iguais.
A organização social em torno do controle do poder, neste sentido, pode também ser pensada como a
organização social em torno do controle da força. Todas as civilizações da Antiguidade que deixaram
resquícios na história da humanidade se organizaram a partir da força. Para termos certeza disso, basta
ler a Bíblia ou qualquer outro livro herdado daquele período. Nas sociedades antigas, tudo era resolvido
pela violência e pela morte.

Na Grécia, a novidade foi as famílias proprietárias de terras, que criavam riqueza através da
agricultura. O excesso da produção agrícola foi o que permitiu a criação das primeiras cidades e também
do desenvolvimento do comércio. Na Grécia, essas famílias perceberam que para elas seria mais vantajoso
fundar uma república do que permitir a existência de um rei que eventualmente viesse a roubar parte da
sua riqueza para alimentar seus exércitos.

Mas tal escolha também decorreu de várias situações socioeconômicas, das quais uma das mais
importantes era sempre a dificuldade de uma só família gerar descendência e riqueza capaz de controlar
uma cidade por décadas. Quando investigamos melhor o cotidiano grego, vemos que todos os homens
eram guerreiros antes de exercerem qualquer outro ofício – o próprio Sócrates participou de guerras. As
cidades foram organizadas para que todos os guerreiros defendessem os interesses de todas as famílias
da cidade, principalmente a paz necessária para garantir todo o ciclo da produção agrária e todo o
comércio.

Para que essa paz existisse, eram necessárias leis e convenções contratadas entre os seres humanos. A
lei evitava a concentração de poderes e de autoridade nas mãos de uma só pessoa, mas, principalmente,
evitava que toda propriedade fosse tomada de alguém por um tirano autoritário na figura de um rei ou
mesmo de um alto sacerdote. Portanto, a partilha da propriedade das terras, sua manutenção e seu fluxo
econômico foram os resultados benéficos da lei. A lei também regulamentou o comércio, que tinha sido
o sucesso da civilização fenícia, e permitiu a riqueza dos gregos.

Os guerreiros gregos acreditavam que tivessem direitos iguais. Assim, era lógico que todos pudessem
dar opinião na feitura das leis, pois todos os guerreiros eram também cidadãos. Naquele tempo, mulheres,
crianças, servos e escravos não eram cidadãos, e a cidadania original não pode ser comparada às atuais
reivindicações de cidadania.

Percebemos assim como democracia naquele momento era uma forma de manter a cidade grega,
especialmente Atenas, com um equilíbrio que a protegesse dos inimigos e ao mesmo tempo produzisse
riqueza. É importante entendermos que a guerra, naqueles tempos, mais do que hoje em dia, visava à
apropriação direta dos bens e das pessoas, sendo portanto uma importante atividade econômica dos
primeiros povos. Era através das guerras que se podia equilibrar uma má colheita de alimentos, pois
os guerreiros iriam roubar de outra cidade, que tivesse sido mais bem-sucedida com a agricultura, o
alimento que faltava para eles.

Essa dimensão econômica da guerra, que é pouco mencionada quando pensamos a origem da
política e da Filosofia, foi crucial para o estabelecimento das primeiras democracias. Num reino,
depois de uma batalha vencida, tudo aquilo que um soldado não conseguia carregar tornava-se
144
Fundamentos da Ciência Política

propriedade do rei. As terras, as armas, os mantimentos, enfim, o botim de uma guerra pertencia ao
rei, que distribuía presentes aos que o auxiliavam na manutenção do poder. Na cidade democrática,
este botim era repartido por todos, pois havia um fundo da própria cidade que acumulava riquezas
em benefício comum de seus cidadãos. Daí a necessidade de regras que deixassem clara a partilha dos
bens conforme a partilha do poder.

Com o comércio entre as cidades gregas, as famílias proprietárias se reconheciam como iguais,
independentemente das cidades em que viviam, e a participação dos enriquecidos na vida pública era
esperada, pois ali estava o espaço para que seus interesses fossem defendidos, protegidos num ambiente
onde reinava a paz social. Nas cidades, os agricultores ou camponeses que tivessem empobrecido
podiam se estabelecer como artesãos e comerciantes, retornando eventualmente a uma situação de
poder e liberdade que seria impossível caso tivessem permanecido no campo e continuado a ser servos
de outra família proprietária de terras. As cidades de então, da mesma forma que as cidades modernas,
permitiam que certo excedente de alimento atraísse também aqueles que se sustentavam com o trabalho
assalariado, que eram genericamente chamados, naquele tempo, de pobres, ou seja, não proprietários.
Mas os pobres participavam também das guerras e, portanto, acreditavam que eram tão credores de
participação quanto os ricos (CHAUI, 2000).

A participação militar de todos os homens sugeria que, em caso de uma revolta na cidade, o resultado
seria uma carnificina. A solução para controlar os ânimos era a política. Em Atenas, os chefes políticos
atuaram como legisladores, criando uma divisão territorial das cidades para tentar diminuir o poder das
famílias proprietárias

A cidade de Atenas, a polis, foi dividida em unidades sociopolíticas chamadas de demos. Quem nascia
num demo, mesmo que fosse pobre, tinha assegurado o direito de participar das decisões da cidade. Em
Atenas, todos os naturais de um demo tinham o direito de participar diretamente das decisões gerais,
daí o regime ser uma democracia.

Na cidade de Esparta, o poder político estava diretamente apoiado pelo poder militar. Mas mesmo
uma ação militar tinha de ser aprovada pelas autoridades políticas, já que em todas as cidades
gregas os cargos militares eram votados pelas assembleias dos cidadãos e não eram hereditários. A
separação dos poderes foi a grande característica da cidade grega, sendo posteriormente adotada
pela República Romana.

A primeira separação que foi criada se deu entre o poder privado e pessoal do chefe de família,
que exercia total controle dentro da sua casa e das suas terras, e o poder público da cidade,
que era impessoal e coletivo. As funções no governo eram decididas pelo voto, sem direito à
hereditariedade. A autoridade civil era superior à autoridade militar, o que só foi possível porque
os guerreiros eram ao mesmo tempo cidadãos.

A autoridade religiosa – que no Egito, por exemplo, sustentou várias dinastias de faraós – era
respeitada, mas não tinha força de determinar a lei. A lei na cidade expressava a vontade coletiva
e pública. A vontade coletiva definia os direitos e os deveres para todos os cidadãos. Com a lei,
veio a discussão do direito e o impedimento de os indivíduos fazerem justiça por conta própria no
145
Unidade IV

espaço da cidade. Para isso, foram constituídos os tribunais e os magistrados (CHAUI, 2000, p. 485).
O monopólio da força e da violência se tornou coletivo, exercido em nome da cidade.

Ao mesmo tempo, os impostos foram coletados para serem investidos nas melhorias em favor do
bem comum. Todas essas ações em conjunto criaram a política, a discussão das condições de poder num
estado organizado pela impessoalidade.

A contribuição da República Romana à cidadania e à democracia aconteceu antes de Caio


Júlio César se tornar ditador e posteriormente imperador romano. Depois dele, Roma se tornou
um império, fornecendo o modelo do que seriam a Idade Média e o feudalismo. Mas antes disso
e por trezentos anos, a república romana foi um exemplo de democracia e de cidadania. Os
parâmetros políticos de organização da República Romana hoje em dia são importantes para
vários países da atualidade.

7.3 A contribuição romana

Dito de forma simplificada, a República Romana era uma organização política para o controle da
cidade muito parecida com aquilo que Atenas tinha estabelecido na Grécia. Mas a diferença de Roma
para as demais cidades gregas é que desde seu início os romanos entenderam que a sua cidade deveria
dominar as demais. No início, a guerra era de defesa contra os etruscos, uma civilização que habitava
a Península Itálica na mesma época em que os gregos dominavam o mundo mediterrâneo. Depois de
dominarem os etruscos e finalmente toda a península italiana, os romanos resolveram tornar a guerra
de dominação um grande negócio de Estado; assim, armaram exércitos e dominaram todas as demais
terras e os outros povos que eles puderam encontrar.

A organização política de Roma também era estruturada pelas grandes famílias. Seus chefes de
família eram os patrícios, grandes proprietários de terras que tinham poder de vida e morte sobre todos
os que lá habitavam. Esses homens controlavam também as tropas de defesa de suas terras, que eram
organizadas na forma de milícias.

Esses grandes senhores proprietários de terra foram de fato os primeiros que se acreditaram
como de família nobre. Eles formaram em Roma o Senado. No Senado, eles se consideravam iguais e
discutiam o governo da cidade de Roma, votavam leis e impostos e acordavam campanhas militares.
Os patrícios que constituíam o populus romanus e seu regime político eram uma oligarquia. Aqueles
que não eram proprietários e pobres formavam a plebe, que tinha o direito de eleger um representante,
chamado tribuno da plebe, para negociar os interesses plebeus junto aos interesses e privilégios dos que
controlavam o poder.

Tanto na Grécia Antiga como em Roma, o poder político buscava sempre apoio nas autoridades
religiosas. Os dirigentes políticos gostavam da aprovação e da proteção dos deuses, mas sem que isso
pudesse significar a submissão da política à autoridade sacerdotal.

Nas cidades governadas por reis, o poder era despótico, e todas as decisões ocorriam a portas fechadas,
entre amigos e conselheiros, seguindo sempre a vontade da pessoa do rei. Na política, a sociedade exigia
146
Fundamentos da Ciência Política

que todas as decisões fossem públicas e mediadas por uma lei que era aceita por todos. Isso significava
aceitar que a lei podia mudar para dar conta das novas situações que pudessem acontecer entre as
pessoas. Não havia o predomínio de leis religiosas, que não podiam ser mudadas nunca.

Para poder governar as cidades, os gregos e os romanos tornaram a política inseparável do tempo,
pois o governo devia aceitar as ideias que surgiam todo dia e conviver com elas, como resultado dos
problemas surgidos em decorrência das relações sociais. Em vez de reprimir os conflitos com o uso da
força e das armas, a política aparecia para resolver de forma legítima os conflitos. Mas a decadência e
a corrupção da política acabavam trazendo de volta o poder despótico, geralmente por força militar,
comandada por um general que desejava virar ditador ou rei.

Os gregos e os romanos viviam numa sociedade com valores e princípios muito diferentes dos
nossos. Sua economia era agrária e escravista (CHAUI, 2000), e os escravos não tinham nenhum
direito de participação política. Como a sociedade era patriarcal, as mulheres também não tinham
cidadania e não participavam da vida pública. Também eram excluídos os estrangeiros e os
miseráveis. A cidadania era exclusiva dos homens adultos livres nascidos no território da cidade,
em demos ou tribus.

A classe social era então, como hoje em dia, pré-requisito para muitos cargos. Os ricos também
contribuíam para a cidade pagando por festas públicas, jogos esportivos e pela construção de
templos e teatros, exercendo um poder desigual sobre a cidade – não era uma sociedade justa
como tentamos organizar hoje em dia, respeitando os direitos individuais. Mas eles foram os
primeiros que conseguiram organizar a coletividade sem precisar apelar para a violência o tempo
todo. Neste sentido, a política e suas negociações acabaram permitindo mais paz social do que
acontecia nos regimes tirânicos.

Na história cronológica do mundo ocidental, depois que Caio Júlio César se tornou imperador e
transformou Roma num império, toda forma de organização do Estado foi, de alguma forma, despótica.
Depois que o Império Romano adotou o cristianismo como religião universal do império, os sacerdotes
tentaram impor o poder religioso sobre o poder civil, sendo muitas vezes bem-sucedidos.

Como a Igreja pensava a hierarquia a partir das palavras de Jesus Cristo “Meu reino não é deste
mundo” (JOÃO, 18, 36), a forma sagrada de governo era a monarquia. Isso impediu que durante quinze
séculos pudesse ser exercido o poder civil através do voto e da organização democrática.

Quando aconteceu a Revolução Americana, inspirada pelos filósofos iluministas franceses, e logo
em seguida ocorreu a Revolução Francesa, as monarquias resistiram fortemente à mudança. Basta
pensarmos que até hoje vários dos principais países do mundo ainda são monarquias.

Depois da Primeira Guerra Mundial, quando as principais monarquias acabaram perdendo o poder,
como na Rússia, na Alemanha e por todo o leste da Europa, a forma de participação democrática acabou
se impondo.

147
Unidade IV

7.4 Democracia e cidadania

Mas a própria democracia ganhou no século XX várias formas diferentes de exercício. Monarquias
e repúblicas hoje em dia são, nos países ocidentais, democracias. As ideologias que nasceram no
século XIX, principalmente o liberalismo e o socialismo, evoluíram para se adaptarem a algum tipo de
proposta democrática.

Mesmo que essas duas correntes ideológicas tenham diferenças profundas de visão, a ideia do voto
para decidir a política através de assembleias permaneceu. O que se discute, hoje como em Roma, é
quem tem o direito de participar da vida política.

Isto porque numa democracia todos concordam que a forma de tomada de decisão é mais
importante do que as próprias decisões, que podem ser reformuladas (BOBBIO, 1993). A negociação dos
costumes como forma de regular a moral do comportamento humano acontece numa democracia por
consequência das novas formas de relacionamento humano, ditadas pelas inovações tecnológicas. Não
seria possível fazer leis sobre o comportamento na internet quando não existia a internet.

No século XX, a história mostrou que todas as tentativas de impor qualquer moral ou valores numa
sociedade acabaram resultando em revoltas e guerras – e, pior, em regimes autoritários. No século
XXI, percebe-se que a manutenção da paz no espaço público é estabelecida a partir da negociação
política. É do povo, rico ou pobre, homem ou mulher, que surge a vontade para a manutenção ou as
transformações dos valores e das leis.

Assim, na democracia moderna há uma valorização das regras coletivas que determinam que
os governantes precisam justificar logicamente seus projetos e atos de vontade aos eleitores para
continuarem no poder. O grupo derrotado numa disputa eleitoral poderá ser eleito para exercer o poder
num outro momento. A democracia moderna é o espaço de tolerância às ideias políticas e religiosas.
Toda opinião deve ser respeitada, menos aquelas que desejam acabar com a própria democracia e fazer
acontecer de novo o poder despótico, como uma tirania, ou uma ditadura.

As leis são decididas nas assembleias locais, regionais, nacionais e até mesmo internacionais.
A forma de eleição ainda é fruto de muita discussão, pois na maioria das democracias as eleições
são diretas, mas a representação é indireta. O povo vota em seus representantes, que em nome
do povo votam as leis. Acontece que muitas vezes o representante acaba assumindo posições
que o próprio eleitor não escolheria. Mas outro avanço da democracia moderna é que os critérios
para ser votado são públicos e permitem que a maioria da população tenha esse direito. Hoje em
dia não existem mais barreiras econômicas, étnicas, religiosas ou de gênero para que um cidadão
se candidate.

Se os cidadãos não podem participar sempre diretamente das decisões políticas, têm condição de
influenciar o comportamento dos seus representantes através do voto e das manifestações públicas
das suas preferências. O espaço público hoje conta com essa nova forma de comunicação, que é a
internet, e produz um espaço chamado de virtual, que na prática está acessível para todos os cidadãos
manifestarem as suas opiniões. Se antes as manifestações das opiniões eram controladas e filtradas por
148
Fundamentos da Ciência Política

empresas que veiculavam notícias, a conhecida imprensa, hoje em dia as redes sociais funcionam para
que as pessoas famosas e as comuns digam abertamente sua opinião sem medo de serem mortas por
causa disso.

Certamente as leis que regulam o espaço virtual estão sendo desenvolvidas dentro das democracias,
e cada nação acaba adotando os costumes que acredita ser mais adequados para sua cultura.

A divergência de opiniões faz nascer por todo o mundo democrático pequenos partidos interessados
em defender ideias e estilos de moral que muitas vezes são diretamente antagônicos. A democracia
se faz ao longo do tempo, e muitas vezes aquilo que era permitido numa época – por exemplo, fumar
cigarros em restaurantes – noutro momento passa a ser combatido.

Essas múltiplas realidades políticas possíveis na democracia são o elemento de estudo principal da
Ciência Política moderna. Quando a democracia funciona, muitas são as ações que vemos acontecendo
nos países, inclusive a corrupção inerente à democracia, que é a demagogia. Na demagogia, os interesses
de alguns são disfarçados em interesses de todos. Isto era algo que Aristóteles já tinha pensado: que
o povo, quando é composto apenas pelos pobres, poderia buscar seu interesse comum, constituindo
um bom governo, ou simplesmente promovendo uma revolta contra os ricos, criando outra forma
degenerada de governo.

7.5 Os ideais socialistas

Tentar encontrar formas ainda mais democráticas de funcionamento da sociedade foi o


que aconteceu de certa forma quando os ideais socialistas, especialmente os ideais comunistas
defendidos por Karl Marx, ajudaram a depor o imperador da Rússia durante a Primeira Guerra
Mundial, em 1917.

De início tudo era permitido, e a favor das pessoas. Mas logo essa liberdade adotou uma ideia
de Marx que é muito difícil de ser posta em prática: a ditadura do proletariado. Essa ideia precisa
ser explicada, pois é uma das mais belas ideias da democracia. Segundo Marx, a melhor forma de
organizar um estado seria a partir da vontade dos cidadãos, organizados por bairros ou distritos.
Todas as pessoas poderiam votar e ser eleitas para representar os moradores de uma região.

Cada região teria então um representante legítimo, que seria substituído caso não espelhasse de
verdade a vontade de seus eleitores. Os representantes do povo formariam assembleias regionais e
por sua vez escolheriam seus representantes. Por fim, esses representantes formariam uma assembleia
nacional que comandaria o país de forma republicana. Há uma proposta de construção de uma hierarquia
de poderes que, em tese, poderia ser abalada caso os eleitores da base resolvessem mudar de ideia a
respeito da atuação de seus representantes.

Marx deu a essa ideia democrática o nome de “ditadura do proletariado”. Proletário foi a forma
que ele chamou os operários, os trabalhadores sem propriedades. A ideia de ditadura se justificava,
pois na democracia da República Romana o ditador era um chefe militar que recebia plenos poderes
para acabar com uma crise por um tempo determinado. A ideia de ditadura do proletariado seria uma
149
Unidade IV

democracia de pobres que assumiriam o poder para acabar com as diferenças sociais geradas pela
acumulação de riqueza.

Infelizmente, na maioria dos países em que isso foi tentado, o que se viu na prática foi a instituição
de ditaduras militares, apoiadas por eleições falseadas por um grande partido político. Essa forma de
dominação degenerada foi tão bem-sucedida que mesmo países comandados por ricos proprietários,
como a Alemanha nazista, a Espanha, Portugal, a Tailândia, o Egito, o México e a Argentina, assim como
o Brasil, adotaram as eleições falsas e o controle de um partido poderoso para permitir que os militares
governassem em nome dos ricos proprietários de terra, industriais e banqueiros. Marx descobriu sem
querer uma fórmula para se instituir uma ditadura com aparência de democracia participativa.

7.6 Liberalismo e socialismo

Como vimos, desde a Grécia a maioria das pessoas é pobre e não possui propriedades, sempre sendo
controlada, mesmo nos momentos em que se tentou organizar as repúblicas democráticas modernas. No
início das repúblicas modernas, nos séculos XVIII e XIX, o povo não tinha direito de votar. Era necessário
ser proprietário para poder votar. Mulheres também não podiam votar. No Brasil, até a Constituição
de 1988, os índios que quisessem continuar sendo índios, isto é, vivendo em sua cultura, também não
podiam votar.

A ideia de povo pode ser entendida como a maioria das pessoas pela ideologia liberal, ou como as
pessoas que organicamente formam o Estado, que é a preferida dos socialistas. Esta é a maior diferença
hoje em dia entre as ideias das pessoas de direita e as de esquerda. As de direita acreditam que os
valores individuais devam ser mais importantes do que os valores coletivos. As de esquerda entendem
que os valores coletivos sejam mais importantes do que qualquer valor individual. O motivo maior dessa
discussão é moral. Marx entendia que o princípio de justiça num Estado deveria receber de cada um
conforme sua capacidade e dar a cada um conforme sua necessidade (MARX, 2014).

Os liberais acreditam que isso seja uma forma de estimular a preguiça e a falta de vontade de trabalhar
– portanto, de não cooperar para a construção da vida coletiva. Por outro lado, a ideologia de esquerda
acredita que colocar um valor individual acima de tudo signifique apoiar o egoísmo sobre todos os outros
valores que formam a coletividade. Interessante é que ninguém discorda que o ideal do Estado Moderno
é a construção do bem-estar comum. A discussão está na forma moral de se alcançar esse bem comum.

Os liberais discutem se uma democracia deve ser regida pelo princípio da maioria absoluta ou pelo
princípio da maioria limitada. A maioria absoluta seria aquela que pode exercer os direitos absolutos
sobre a minoria, e a maioria limitada seria aquela que mesmo tendo vencido as eleições pela maioria dos
votos é limitada no exercício do seu poder, pela necessidade de respeitar os direitos da minoria. Os liberais
preferem o princípio da maioria limitada, pois acreditam que isso represente melhor a democracia.

A esquerda não concorda com essa ideia de maioria e minoria, pois acredita que a maioria sempre
deva expressar a maioria das pessoas, e certamente os ricos são sempre minoria. Portanto, respeitar o
direito da minoria neste sentido é permitir que exista espaço, numa democracia, para a exploração dos
pobres pelos ricos.
150
Fundamentos da Ciência Política

Temos de entender que existe uma questão cronológica entre as bases dos pensamentos de
esquerda e de direita. Há trezentos anos, o mundo era governado por reis e imperadores, que
consideravam que tudo pertencia basicamente a eles e que a pessoa do rei exemplificava a existência
do Estado. Isso pode parecer um delírio hoje em dia, mas os reis acreditavam nisso, pois também
acreditavam que eles governassem seus reinos em nome de Deus e que seriam protegidos por Ele
se assim o fizessem.

Hoje, na política, ninguém mais acredita que Deus determine o destino dos homens. Sabemos que
cada ser humano desenha seus destinos a partir das escolhas que faz, dentro das possibilidades que tem. O
pensamento liberal nasceu com comerciantes que se tornaram ricos porque trabalharam duro no comércio
e ficaram mais ricos que os nobres que não trabalhavam e viviam de uma comissão que eles ganhavam do
rei para cobrar os impostos tanto das pessoas ricas quanto das pobres.

A inovação tecnológica fez surgir a Revolução Industrial. Primeiro, o matemático inglês Isaac
Newton entendeu como funcionava e podia ser calculada a força da gravidade. Depois, ele percebeu
como as forças se compunham na natureza e cunhou a expressão: para cada ação existe uma reação
de igual força.

Com base nessas ideias foram desenvolvidos os primeiros motores a vapor, que permitiram o aumento
da produção industrial – primeiro, na indústria de tecidos, e logo no desenvolvimento da mecânica e das
técnicas de fundição, que permitiram a fabricação de máquinas de ferro em substituição às máquinas
de madeira. Em pouco tempo, os industriais estavam produzindo uma quantidade de produtos nunca
antes vista na história da humanidade. Se a mulher da nobreza tinha um vestido novo por estação –
primavera, verão, outono e inverno –, a mulher burguesa tinha uma coleção de vestidos e de sapatos
para cada estação.

Esses homens burgueses foram quem fizeram a consolidação das democracias e das repúblicas,
obrigando os nobres e os reis a viverem cada vez mais limitados dentro das suas propriedades e sendo
obrigados a trabalhar. O homem liberal nunca teve como ideal não trabalhar; ele sempre acreditou
que o trabalho dignificasse. Mas, para os liberais, a liberdade e a justiça sempre foram princípios mais
importantes do que a igualdade. Para eles a ideia de igualdade é uma perda de tempo. Se os nobres e os
religiosos queriam perder seu tempo se considerando melhores que os outros por causa de seus títulos e
sua pretensa hereditariedade, os liberais acreditavam que qualquer um pudesse nascer pobre e se tornar
rico, pois todos os homens nasciam iguais.

Por causa dos avanços tecnológicos do século XVIII, em um século as cidades da Europa e dos Estados
Unidos receberam milhões de novos habitantes. Eram os camponeses pobres indo buscar trabalho nas
cidades, fugindo principalmente da fome, mas também da exploração dos proprietários de terra, que
ainda no século XIX eram nobres em sua maioria. O primeiro êxodo rural começou na Inglaterra, mas
logo se espalhou por outros países de forma semelhante.

Por um decreto do rei inglês, as pequenas vilas do interior da Inglaterra perderam o direito de
cultivarem a terra comum da aldeia. Há séculos que o alimento era plantado por eles mesmos, e a fome
era saciada a partir do esforço das pessoas, incluindo aí mulheres e crianças. Mas, com as fábricas,
151
Unidade IV

os nobres, num último esforço de viverem à custa da exploração do povo, confiscaram essas terras
comuns e esses direitos dos aldeãos, cercando as terras e criando ovelhas de forma extensiva. Assim,
com pouco esforço, produziam a lã necessária para que as fábricas fizessem roupas e cobertores. Este foi
o processo das enclosures, que de certa forma foi imitado por todos os países que estavam se tornando
industrializados.

Entre os séculos XVIII e XIX, na Inglaterra, as pessoas do campo foram para as cidades porque
perderam seu direito de produzir o próprio alimento. Nas cidades, passaram a trabalhar por um salário.
Como existiam mais pessoas pobres do que postos de trabalho, o valor do trabalho era depreciado pelos
industriais. No início do século XIX, as cidades industriais tinham grandes populações faveladas, vivendo
precariamente e se alimentando como podiam.

É nesse momento que surgem as ideias socialistas, também na Inglaterra. Os socialistas, entendendo
que todos os homens não apenas nascem iguais, mas são iguais, consideravam esse estado de exploração
dos ricos pelos pobres uma situação odiosa e inaceitável. Propuseram uma série de regras e limitações
que foram lentamente permitindo a regulação da vida nas cidades. O trabalho diário de 8 horas, a folga
no fim de semana, a liberdade de associação dos trabalhadores para definirem num sindicato o valor da
sua hora de trabalho, a proibição do trabalho infantil, a educação pública e gratuita, todas essas ideias
nasceram ou foram postas em prática pelos movimentos socialistas. Para os socialistas, não há justiça
onde não há igualdade. A liberdade é a garantia de ser tratado como um igual perante a lei.

Vemos então que o pensamento liberal antecede o pensamento socialista. Isso não significa que
o pensamento liberal não tenha desenvolvido lutas importantes nas conquistas da humanidade. Os
liberais lutaram pela garantia de proteção contra o poder do Estado, bem como pelo habeas corpus, que
é uma garantia constitucional a favor de quem sofre alguma violência, geralmente a prisão de forma
ilegal proporcionada por uma autoridade. Também os direitos civis, como a liberdade de pensamento,
de religião, de informação, de livre reunião política do direito de votar e ser eleito foram propostas do
pensamento liberal.

A vida contemporânea no início do século XXI nos países ocidentais é, portanto, o resultado da
negociação política de todas essas ideias liberais e socialistas convivendo dentro do Estado de Direito,
ou seja, dentro do Estado que se regula através das leis. No século XX, surgiram outras ideias que não
tinham sido pensadas anteriormente, como o respeito à natureza (a ecologia) e a liberdade de escolha de
casamento entre as pessoas de etnias ou religiões diferentes, ou mesmo de pessoas do mesmo gênero.
Há cinquenta anos, as mulheres deviam, por lei, obediência a seus maridos, e crianças e adolescentes
podiam ser espancados por seus pais.

Outra questão importante foi a descoberta, por Marx, da existência do capital. Antes de Marx,
as pessoas falavam em dinheiro ou em riquezas. Ele percebeu que uma grande massa de dinheiro é
diferente do tesouro do rei ou de uma grande fortuna de um industrial. Percebeu também que, quando
os operários trabalham, sua hora de trabalho não é uma porcentagem do valor da mercadoria que eles
fabricam. O lucro da venda da mercadoria, sim, é uma porcentagem do valor de venda da mercadoria.
Desta forma, o lucro nada mais é do que um dinheiro que poderia ser dividido com o operário que
fabricou a mercadoria, mas é guardado pelo dono da fábrica.
152
Fundamentos da Ciência Política

Isto Marx chamou de mais-valia. O capital é a formação de uma riqueza derivada da mais-valia. Em
outras palavras, a quantidade de horas de trabalho que poderia ser mais bem-remunerada, mas cuja
diferença é embolsada apenas pelo industrial, de forma egoísta.

O capital se transforma então numa quantidade de dinheiro muito grande, para a qual se passa a
buscar novas maneiras de investir em atividades e trabalhos que tragam mais lucros. Neste sentido,
a agiotagem, que se constitui na atividade de emprestar dinheiro a juros muito altos, e cobrar com
violência o valor devido de quem não consegue mais pagar, é a atividade que mais gera dinheiro.

Na década de 1990, os liberais perceberam que era um bom negócio emprestar dinheiro de um país
para outro e também de pessoas de um país para pessoas de outro, cobrando juros altos. Esta atividade
descontrolada só terminou quando, em 2008, os bancos que mais promoviam a agiotagem faliram por
falta de pagamento das pessoas que não conseguiam mais pagar juros tão altos.

7.7 As ideias filosóficas que dão suporte ao liberalismo e ao socialismo


modernos

O liberalismo moderno nasceu de uma ideia de Charles Sanders Peirce que foi utilizada para justificar
o avanço do progresso alcançado pelas ideias liberais. Num ensaio de 1878, intitulado Como Tornar
Claras as Nossas Ideias, Peirce percebeu que havia pragmatismo quando uma concepção, ou seja, o
significado racional de uma palavra ou de outra expressão, consistia exclusivamente em seu alcance
concebível sobre a conduta da vida (PEIRCE, [s.d.]).

Ser pragmático significa que a pessoa deve considerar os efeitos que poderão ter alcance prático
sobre aquilo que nós pensamos sobre ela (ABBAGNANO, 2007). A função do pensamento é produzir
hábitos de ação. Então, por exemplo, se pensamos que nosso filho deveria ser médico, podemos fazê-lo
brincar de médico, sugerimos que ser médico é a melhor profissão entre todas, elogiamos publicamente
os médicos e a Medicina e facilitamos tudo para que ele possa estudar para ser médico.

A moral dessa forma de pensar é: quando pensamos em alguma coisa que poderia ser um desejo,
nossas ações na direção para que aquilo se realize devem ser organizadas de tal forma que a sua
realização esteja assegurada. Segundo Peirce [s.d.], os hábitos surgem da exigência de encontrar um
procedimento experimental ou científico para fixar as crenças. Isso demonstra como o pragmatismo se
tornou também uma ideologia, além de uma filosofia. O conjunto de regras que organiza o pragmatismo
sugere que a vontade determinada por uma ideia nasce de um indivíduo exercendo sua liberdade.
Desse ponto de vista, as ações e os desejos humanos condicionam qualquer tipo de verdade, inclusive a
verdade científica. Daí o pragmatismo ser uma ideologia a serviço das ideias liberais.

O contrário desse pensamento, adotado hoje em dia pelas diversas escolas de socialismo, é a dialética.
A dialética não é também uma escola de pensamento, mas é uma prática do pensar. A dialética está
presente em Filosofia desde os diálogos de Sócrates escritos por Platão. Mas a dialética moderna surge
do pensamento de Hegel examinando a forma de dialética proposta por Proclo, que foi um filósofo
grego neoplatônico que viveu entre 412 e 485 no Império Bizantino (Império Romano do Oriente) na
atual Turquia (ABBAGNANO, 2007).
153
Unidade IV

Evoluindo o pensamento de Hegel, para quem a dialética só servia para a discussão de ideias em si,
não possuindo valor prático eficaz, Engels concebeu a dialética como a síntese das oposições:

O reconhecimento de que essas oposições e diferenças estão realmente


presentes na natureza, mas com validade relativa, e de que a rigidez e a
validade absoluta com que são apresentadas são introduzidas na natureza
só pela nossa reflexão constitui o ponto central da concepção dialética da
natureza (ENGELS, 1877).

Engels (2015), a respeito das regras dialéticas, afirma que elas nada mais são do que as leis mais
gerais de ambas as fases da evolução e do próprio pensamento.

A dialética de marxista funciona a partir de uma investigação lógica em três passos: o primeiro é
a proposição de uma ideia; o segundo é o questionamento desta ideia; e o último passo é uma nova
ideia que sintetiza as duas ideias anteriores. Esse mesmo movimento dialético tinha sido percebido
pelos alunos de Hegel dentre as suas propostas. Marx, que também tinha sido aluno de Hegel, fixou-a
dessa maneira.

Então, se dizemos que João é pobre, podemos refutar esta ideia dizendo que João é pobre porque
não trabalha. Na lógica formal, chegaríamos à conclusão de que João é pobre porque não trabalha, mas
na dialética podemos afirmar que João é pobre porque não trabalha porque não encontra trabalho. A
conclusão dialética marxista permite que se busque o entendimento das duas proposições anteriores com
uma terceira proposição, e não apenas com uma conclusão. Isso faz que o pensamento dialético nunca
tenha fim, questionando a realidade sempre a partir da verdade expressa nas proposições anteriores. A
primeira ideia é chamada de tese; a segunda é chamada de antítese; e a terceira é a síntese.

Assim, o pensamento de esquerda está baseado não no desejo nem na vontade de uma pessoa, mas
no diálogo investigativo sobre a realidade das coisas. Neste sentido, a discussão pode até durar muito
tempo e não ser objetiva, mas só termina quando as pessoas acabam aceitando a conclusão de um
grande debate sobre a realidade, que é uma forma de se encontrar o consenso.

Tal debate entre ideias liberais e socialistas vem acontecendo desde o século XIX e perdurou por
todo o século XX. Isto porque Marx afirmou que um Estado pode ser entendido como o conjunto de dois
mecanismos sociais atuando para sua manutenção: a infraestrutura e a superestrutura.

A infraestrutura são todas as relações econômicas que organizam a produção das coisas materiais.
A superestrutura é composta da organização política, jurídica e cultural da sociedade. Então, tudo o
que acontece na superestrutura, na política, no sistema jurídico e na cultura de uma sociedade deriva
da sua organização econômica, ou seja, da organização da produção das coisas materiais. Daí o nome
materialismo para sua doutrina. A discussão que perdura é se a infraestrutura deve atender a todos os
cidadãos de forma igual ou se os ricos têm o direito de construir com liberdade a sua infraestrutura.
Percebe-se que essa decisão depende diretamente da permissão da superestrutura do Estado; portanto,
os ricos se esforçam para influenciar de todas as formas a sua composição.

154
Fundamentos da Ciência Política

O mais interessante é que tanto as ideias liberais quanto as socialistas se baseiam nos conceitos
de democracia e cidadania, mas com pesos diferentes. Na concepção liberal, é necessário primeiro
ter democracia para que exista cidadania, enquanto a concepção socialista defende o contrário; que
primeiro é necessária a cidadania para depois alcançarmos a democracia.

Quanto mais se discutem essas duas ideias, mais é previsível que em determinado momento se
alcance um consenso através de sua síntese. Na verdade, alguns Estados e partidos políticos já tentaram
essa unificação. Do lado do liberalismo, Keynes, um economista inglês, sugeriu que o Estado deve atuar
para resolver os problemas econômicos da sociedade. Assim, o Estado deve proporcionar a infraestrutura
necessária para o bem público, o chamado welfare state. Uma vez resolvidos os problemas econômicos
com a intervenção do Estado, os cidadãos poderiam prosperar, mesmo permitindo ações capitalistas de
alguns dos seus membros.

Os partidos social-democratas surgidos principalmente na Europa depois da Segunda Guerra Mundial


pensaram o mesmo na ordem inversa: para que a democracia permita a ação capitalista de alguns de
seus indivíduos, é necessário que essas ações estejam reguladas antes pela política, pela justiça e pela
cultura, para que depois possam existir no plano econômico. Isso porque a forma de permitir as ações
individualistas precisa antes estar regulada pela garantia da cidadania de todos os participantes da
sociedade.

A maior novidade neste sentido veio da China. Depois de um período de aproximadamente trinta
anos tentando resolver as questões da infraestrutura através da concepção marxista de controle
total da economia, os chineses resolveram dividir o país em dois tipos de zonas econômicas. Nas
áreas pobres e nas rurais, continuam valendo as regras da esquerda, onde primeiro se organiza
a infraestrutura para todos os cidadãos. Por outro lado, em algumas grandes áreas urbanas
nas quais os índices de analfabetismo foram reduzidos e todos os habitantes já têm noção da
importância das regras de igualdade da cidadania, existe liberdade para que o indivíduo promova
ações capitalistas em benefício próprio, pois as questões de infraestrutura já foram resolvidas a
partir do consenso sobre a superestrutura.

Tudo isso nasce a partir da vontade de eliminação da pobreza com uma distribuição igualitária da
produção econômica. Como estabeleceu Deng Xiaoping, líder chinês nas décadas de 1980 e 1990, “Não
importa se um gato é preto ou branco, se ele caça os ratos, então ele é um bom gato”. Isso quer dizer
que se o sistema precisa ser adaptado para eliminar a pobreza, o sistema é bom. Foi a primeira vez que
o pensamento pragmático foi posto em prática sob um conjunto de regras estabelecido pelo socialismo.

Sobre essas ideias, vamos acompanhar um pouco o diálogo entre Renato Janine Ribeiro e Mário
Sérgio Cortella:

Ribeiro – Há algo curioso na dimensão política mais ampla: por um lado, as pessoas
não sabem exatamente o que esperar da política – talvez devesse ser uma vida boa no
quadro de instituições justas, mas nem mesmo essa noção se faz muito presente. Por outro
lado, sentem que os resultados obtidos são limitados – talvez nós, brasileiros, esperemos
os resultados num certo estilo que ainda lembra Getúlio Vargas: benefícios sociais que
155
Unidade IV

melhoram a vida do indivíduo, mas sem empoderá-lo. Ele ganha benefícios, mas não se
torna sujeito de suas escolhas.

Penso que, desde a democratização, em 1985, tivemos uma sequência de avanços sociais.
Entretanto, não notei propriamente crescer a sensação de que as pessoas sejam senhoras da
própria vida, coletivamente. E isso é muito negativo.

Cortella – A sensação de que elas são beneficiárias.

Janine – Exato.

Cortella – Nesse sentido, uma grande diferença entre nós e os norte-americanos é


que eles construíram uma sociedade – independentemente de qualquer sentimento de
admiração pelo conjunto da obra – fundamentada em alguns elementos centrais da
democracia e da liberdade, e estas são marcadas pela ideia do cidadão público, e não
do cidadão privado.

Parece contraditório falar em cidadão privado, mas estou me referindo ao cidadão como
indivíduo, e não usando o termo na acepção francesa. O enfoque norte-americano, por
exemplo, é diferente do nosso inclusive pelo modo como dialogamos. Se um brasileiro e um
americano estiverem num confronto, o diálogo que travam te[rá] um quê de insano, porque
enquanto o brasileiro diz “Você sabe com quem está falando?”, o americano pergunta “Who
do you think you are?” [“Quem você pensa que você é?”].

Esse tipo de relação é um confronto político em relação a formações nacionais, de


história. O brasileiro se coloca na condição de beneficiário do Estado, e não como agente do
Estado. Já o norte-americano, quando confrontado com um agente do Estado (alguém do
governo, por exemplo), declara: “Eu sou cidadão. Eu pago imposto”.

Nós começamos a utilizar essa frase nos últimos anos, mas até pouco tempo atrás essa
ideia não nos era familiar no Brasil. A diferença cultural de visão fica evidente, para mim,
quando tento explicar, em debates com americanos ou pessoas de outras nacionalidades, o
que entendemos por cidadania no Brasil.

Percebo que o conceito não fica muito claro. Já me perguntaram: “Mas por que vocês
estão lutando por cidadania plena? Vocês não têm democracia?”. Acontece que nosso
conceito de cidadania não se esgota na democracia como ato de votar e ser votado. A gente
não se contenta em ser, usando um termo do Gilberto Dimenstein, um cidadão de papel.

Como se poderia traduzir a palavra cidadania para outros idiomas? A ideia contida
na palavra citizenship não cobre todo o significado de cidadania, não é tão abrangente.
Para um norte-americano, cidadão é aquele que pode votar e ser votado, que tem
seus direitos. Para nós, quando falamos, na política, em cidadania plena, estamos
nos referindo à escola de qualidade para todos, atendimento de saúde adequado,
156
Fundamentos da Ciência Política

possibilidade de trabalho digno etc. Em resumo, nós mesclamos a noção de cidadania


com direitos humanos e direitos sociais.

Janine – Exatamente, Mario, direitos sociais. Não sei se você se lembra da época em que
houve a democratização... Se não me engano, quando Mário Covas foi prefeito da cidade
de São Paulo, foi estampado nos ônibus o seguinte slogan: “Transporte público: direito do
cidadão, dever do Estado”.

Cortella – Foi isso mesmo. Ele foi prefeito de 1983 a 1985.

Janine – Isso me chocava porque, na democracia, o Estado não pode ser algo externo
aos cidadãos; na verdade, é como se fosse produto deles. Do meu ponto de vista, esse slogan
serve de exemplo para a tese que você acaba de apresentar, Mario.

A intenção podia ser ótima, mas indicava que o Estado deve dar aos cidadãos
determinadas coisas, e não que o cidadão deve construir o Estado que forneça tais coisas.
A ideia do povo norte-americano é outra. Para eles, a noção de contribuinte, de quem é
cidadão porque paga impostos, é fundamental, ao passo que, para nós, falar nisso nos causa
certa vergonha. No Brasil, temos dificuldade em construir uma ideia de cidadania que tenha
uma de suas bases no pagamento de impostos.

Ribeiro – Tentamos o tempo todo encontrar outro fundamento para a cidadania que não
o pagamento de impostos. Por exemplo, o indivíduo seria cidadão naturalmente, apenas por
nascer ou viver no território do Estado. Tal condição não estaria ligada a uma contrapartida,
na forma de pagamento ao tesouro público.

O problema desta nossa concepção, aparentemente mais generosa, é que ela não pensa
que aos direitos correspondem obrigações, e que o sustento do Estado depende de nós,
cidadãos. Talvez por isso, muitos pensam que o dinheiro público pode ser gasto a rodo,
como se não tivesse dono, como se não tivesse custo.

Cortella – Há até um dado curioso nisso: nos últimos vinte anos, todas as vezes em que
se falou em reforma tributária, no Brasil, a intenção foi a de diminuir a tributação, e não de
ordená-la para que se alcance maior justiça social.

Algumas entidades, até de natureza empresarial, ligadas às elites, chegam a argumentar


que o caixa dois é obrigatório; que, se o imposto for pago em dia, não se consegue
obter lucratividade justa. Portanto, no conjunto, a ideia da presença do Estado como um
arrecadador de tributos é ofensiva. Ou seja, seria uma espoliação. E isso ainda se soma à
questão do pouco retorno pelos impostos pagos, um retorno abaixo das expectativas.

Janine – Pode ser por isso que muitos cidadãos, talvez a maioria, confundam ineficiência
da máquina estatal com delinquência estatal.

157
Unidade IV

Cortella – E são duas coisas diferentes. A delinquência estatal não está necessariamente
ligada à capacidade de ação pública – na verdade, ela geralmente é consequência de
incompetência ou de má-fé. Vale lembrar que o Brasil não é um dos países de maior nível
de tributação, ele está no pelotão intermediário.

Mesmo que fosse, ainda assim há outras nações em que os cidadãos não têm um retorno
correspondente ao que pagaram. A Itália, por exemplo, tem uma tributação alta, e o cidadão
italiano não tem necessariamente um retorno na mesma proporção. Entretanto, no meu
entender, a questão é que a não participação política pública do cidadão no cotidiano
facilita a delinquência estatal, e esse mesmo cidadão supõe que pode cobrar uma eficácia
que não sustenta como, digamos, proprietário do Estado.

É como você disse, Renato: é como se o Estado fosse uma coisa e eu fosse outra. Parece
que ressuscitaram o Gramsci agora para separar de uma vez por todas sociedade política
de sociedade civil. Outro dia estive em um debate com empresários sobre a temática da
corrupção. E um deles me perguntou: “Você não acha que a eliminação da corrupção
no Brasil é uma questão de educação? Isto é, não caberia à escola formar os jovens para
não serem corruptos?”. Respondi: “Pode até ser, mas há um jeito mais fácil de extinguir a
corrupção. Como, para existir corrupção, tem de haver um corrupto e um corruptor, e como
o corruptor, de maneira geral, é aquele que tem dinheiro para corromper, basta então que
este indivíduo não corrompa a outros”. Do ponto de vista operacional, não é difícil. Se o
empresário é aquele que possui dinheiro e a corrupção é feita com esse capital, não o utilize
para fazer isso e a corrupção acaba. Pode parecer óbvio, mas o espanto é grande, porque
sempre se supõe que o processo de higiene política tem de ser feito num outro lugar que
não aquele em que estou.

Janine – Talvez fosse melhor explicar mais detidamente a injustiça.


Fonte: Cortella; Ribeiro (2010, p. 25-6).

8 As Questões da Participação Política

Neste último tópico vamos tentar fazer um resumo para relembrar como a Filosofia sugeriu ideias
que acabaram postas em prática na vida política.

O cientista político até hoje trabalha com ideias que derivam da Filosofia grega, mas desenvolve suas
teses influenciado diretamente pela Filosofia dos iluministas e dos pensadores do século XIX. De alguma
forma, enquanto novas ideias filosóficas não forem assumidas para comandar as ações práticas da vida,
trabalhamos com modelos que foram pensados num outro contexto histórico e social.

Muitas vezes, verificamos que a Ciência Política ainda está afirmando ou refutando modelos de
pensar que tentavam descrever uma realidade que não existe mais. Por outro lado, os cientistas políticos
verificam que as realidades do passado ainda existem no presente, disfarçadas com outros nomes, mas
com os mesmos efeitos para o ser humano.

158
Fundamentos da Ciência Política

No presente, temos variações entre o liberalismo e o socialismo comandando a realidade política dos
Estados. Mas não podemos esquecer que apesar de a democracia e da república serem formas majoritárias
de governos em todo o mundo, ainda existem monarquias e tiranias. A maioria das monarquias aceita
a democracia como regime político de fato, e muitas repúblicas democráticas são tiranias disfarçadas.
Dentro das democracias, temos situações regionais em que o regime de fato é uma oligarquia ou uma
aristocracia, e em poucos locais funciona a democracia direta, com o voto dos cidadãos decidindo
diretamente as ações legislativas.

É importante lembrarmos que estamos vivendo um momento de transformações importantes


na comunicação entre as pessoas. A internet aliada ao telefone celular modificou profundamente o
registro e o comentário dos acontecimentos ao redor do planeta. Para cada ação, temos hoje em dia
como identificar quem a promove e quais as suas consequências imediatas. As pessoas se interligam
a partir de interesses pessoais comuns que ultrapassam até mesmo as fronteiras da língua, e sabemos
que as redes sociais tornaram evidente a proposta do sociólogo Manuel Castells, que sugeriu que
devemos pensar a realidade social como redes de interesse que se entrelaçam de forma complexa
(CASTELLS, 2007).

A participação política neste sentido ultrapassa as questões exclusivas do poder do Estado, pois
vemos o tempo todo como grupos de indivíduos se organizam contra ou favor de questões ecológicas
e humanitárias e ecoam pedidos de ajuda dos mais diversos locais do mundo. As opiniões ultrapassam
as fronteiras nacionais, muitas vezes expressando as opiniões individuais que também não estão mais
limitadas às questões de classe.

Por exemplo, o Japão acredita que sua política de Estado em relação à permissão da pesca da baleia
não deva sofrer nenhuma limitação por outros Estados. No entanto, como as baleias são pescadas nas
chamadas águas internacionais, onde nenhum país tem poder de Estado, há milhares de seres humanos
que se sentem no direito de reclamar contra a política do Japão, pois sentem que isso afeta a vida no
planeta de modo geral – e, portanto, a sua vida em particular.

A tentação seria descrever estas ações a partir das ideias liberais. Mas percebemos que estas atuações
supranacionais também não estão de acordo com nenhuma vantagem pessoal, e muito menos concordam
com a ideia liberal máxima de que cada um tem a liberdade de agir como quiser. Os militantes das redes
sociais que são contra a pesca da baleia não estão reivindicando o direito de proibir os pescadores, eles
estão reclamando dos pescadores e de sua pretensa liberdade de atuarem de forma egoísta sobre aquilo
que elas entendem como um bem comum: as espécies em perigo de extinção.

Assim, a realidade permitida pelas redes sociais de comunicação não extingue determinadas realidades
que apareceram e foram comentadas no passado, mas abrem a perspectiva de uma complexidade nas
relações sociais que nunca tinha sido verificada anteriormente.

Entretanto, algumas observações de pensadores do século XIX, como Comte, Peirce, Weber e Marx,
ainda têm validade e até mesmo se beneficiam das redes sociais para darem forma a conceitos teóricos.
O capital, por exemplo, utiliza as redes para circular mais livremente entre os países, ocasionando crises
financeiras e empobrecimento de países, como vimos na crise financeira de 2008. Por causa dessa
159
Unidade IV

crise de 2008, os Estados Unidos, que são os maiores defensores do liberalismo, tiveram de utilizar o
dinheiro do Estado para salvar da falência fábricas, seguradoras e bancos, rompendo uma política de
não intervenção do Estado no setor privado – algo que não ocorria há mais de 150 anos, desde a Guerra
Civil Americana.

Muitos dos grupos que se comunicam nas redes sociais espelham ideologias positivas como a
proposta por Comte. Outros têm comportamento de estamentos sociais, como foi percebido por Weber
na sociedade norte-americana do fim do século XIX. Isso sem contar que o próprio avanço da informática
e das comunicações segue o pragmatismo sugerido por Peirce, independentemente de ocorrer em países
democráticos ou não.

Observação

Augusto Comte foi o sociólogo que propôs a ideia do positivismo. Na


origem, o positivismo era a possibilidade de organizarmos a vida política a
partir da lógica e da razão.

Neste sentido, e por conta das descobertas da Biologia nos últimos trinta anos, a Sociologia sofre
com acusações de que o seu objeto de estudo não é concreto, mas principalmente de que as suas
formas de investigação são pouco precisas e nada científicas. Isso fez que a estatística ganhasse uma
importância nos estudos sociais não conhecida anteriormente, pois não basta observar, é necessário
comprovar as observações com dados que possam ser processados e quantificados antes que a análise
qualitativa aconteça. Lembremos que isso começou quando Pareto, que era um matemático, descobriu
sua fórmula estatística, percebendo que 20% das pessoas controlavam 80% dos recursos de uma nação.

As eleições no mundo democrático passaram a ser acompanhadas por amostragens estatísticas


para indicarem suas intenções de voto. Os sociólogos estudam como os discursos políticos de diferentes
tendências filosóficas atuam de forma transversal para influenciar eleitores em todas as camadas da
população, independentemente da classe social. Surgem grandes demonstrações públicas de demagogia
que prometem à esquerda e à direita soluções futuras que a própria realidade social local impede que
sejam cumpridas. Como lidar com essas atuações políticas?

Verificamos que o espaço de atuação do cientista político cresceu em importância. Mesmo que alguns
pretendam transformar a ciência política numa espécie de astrologia da política, fazendo previsões sobre
realidades improváveis como num horóscopo, outros percebem que a dificuldade em poder entender
determinadas realidades sociais, como as guerras de religião, não podem ser descritas apenas com ideias
desta ou daquela corrente filosófica. Também há uma pressão muito forte das ciências exatas para que
a Ciência Política lide com a realidade como eles fazem: a partir de números e notações universais, que
sugerem teorias unificadas para todo o universo.

Porém, uma das diferenças que encontramos entre as ciências exatas e as ciências humanas é que
tudo aquilo que se organiza em dimensões – e, portanto, é fenômeno que se manifesta no tempo e no
160
Fundamentos da Ciência Política

espaço – não pode ser previsto com precisão antes de acontecer. Os melhores e maiores computadores
do mundo são utilizados para prever o tempo, mas qualquer fenômeno meteorológico só é percebido
depois de formado. Por isso, os serviços de previsão sempre dizem que deve chover ou deve fazer sol, ou
seja, não afirmam com certeza absoluta que aquilo irá acontecer.

A natureza humana é uma extensão da natureza. Se tudo no planeta, desde a temperatura das águas
do mar até a força e velocidade das correntes aéreas, é variável, também o comportamento de todos
os organismos é variável. Assim, sabemos hoje que cada ser humano exibe comportamentos diferentes,
e cada comportamento individual é importante para o comportamento do grupo. Isso não era nem
uma hipótese plausível há cinquenta anos, quando as ideologias combatiam por explicações gerais do
comportamento humano.

Nesse novo cenário, muitos sugerem a ampliação do conceito da política para dar conta das inúmeras
manifestações que sugerem mudanças sociais, sem desejarem participar nem de fato, nem de direito da
vida dentro dos Estados nacionais. Conceitos como o de alienação política, proposto por Lucáks (1971),
com base no pensamento de Gramsci, de que as pessoas não têm consciência de que abrem mão de
decidirem sobre suas vidas em detrimento de uma classe oligárquica que as conduz, perdem sentido
quando a comunicação informa que as escolhas pessoais dependem muito mais de situações individuais
que determinam suas escolhas do que de um contexto político maior.

A província da Crimeia, por exemplo, que foi anexada ao Império Russo no século XVIII, transformou-
se em república depois da Revolução Soviética e em seguida tornou-se província da Ucrânia. Com
o fim da União Soviética, foi formalmente ligada ao novo Estado da Ucrânia, mas manteve uma
administração separada, ligada à Rússia. No ano de 2014 um plebiscito transformou a Crimeia
novamente em província da Rússia. A votação oficial sugeriu que 95% da população preferiram isso.
Mas nem os Estados Unidos, nem a União Europeia concordaram com a legitimidade da votação. Uma
explicação marxista é que esses Estados têm interesse no porto da cidade de Sebastopol, que serve
para exportar o petróleo da Rússia, e também nos recursos naturais, principalmente o gás. Será que
uma população com um índice muito baixo de analfabetismo (0,3%) e idade média da população de
40 anos é completamente alienada e não sabe votar direito para determinar seu futuro?

As dificuldades crescem quando confrontamos as ideias com a realidade. Um exemplo muito


utilizado é a ideia liberal de liberdade de ir e vir. Para os liberais, basta que tal direito esteja contratado
socialmente através da lei. Mas como permitir a todos a locomoção livre numa cidade? É melhor a
solução individualista de cada um se locomover de acordo com as suas posses, ou eles devem ser
beneficiados com o transporte público e gratuito, uma ideia socialista?

A ideia liberal mais criticada é a de livre-mercado, ou seja, de livre-comércio dentro dos países
e através das fronteiras. Entretanto, na prática, nenhum país adota integralmente essa regra devido
aos problemas óbvios para a sua soberania. Os socialistas sugerem que o livre-mercado só beneficie a
especulação de pessoas egoístas que não visam ao bem comum. A solução da maioria dos governos é
um meio-termo entre as duas ideias: regulam o mercado para beneficiar suas atividades agrícolas e
industriais e permitem a entrada de produtos que estão em falta.

161
Unidade IV

O limite do liberalismo, manifestado na sua resistência diante das ações do Estado em favor da
igualdade, está associado à sua concepção de que as diferenças entre os indivíduos já existiam no
“estado de natureza”; seriam, portanto, componentes normais do processo social e teriam pouco ou
nada a ver com relações de poder.

De qualquer forma, seja através da ideia liberal de livre-associação ou da ideia socialista de


representação de classe, no mundo moderno todos concordam que as reivindicações devem expressar
os desejos de um grupo. Assim, a atividade política é necessária, seja em defesa de impostos mais
baixos ou dos direitos dos animais. Dentro das repúblicas democráticas, um grupo de ativistas sempre
pode influenciar a eleição de um representante, ou mesmo o avanço de um partido dentro das regras
democráticas. Portanto, as pessoas acabam formando grupos para conseguirem alcançar as instâncias
do poder que permitem a mudança da política.

No Brasil, o maior exemplo contemporâneo foi a criação da Lei da Ficha Limpa. Proposta por um
juiz de direito, a proposta de lei recolheu 1,6 milhões de assinaturas de pessoas a seu favor. Depois de
uma disputa jurídica entre os partidos políticos e o sistema judiciário, a lei foi aprovada por votação no
Congresso Nacional por unanimidade, pois nenhum deputado ou senador correu o risco de ser chamado
de corrupto por ficar contra a lei.

Mas são justamente os políticos que estão no poder em todos os países que lutam contra
compartilharem o poder com o povo. Nos Estados Unidos, existe liberdade para as pessoas comprarem
com cartão de crédito pela internet, mas na hora do voto precisam ficar numa fila para preencher as
cédulas eleitorais manualmente, dificultando a participação no processo eleitoral.

Em todas as democracias ainda não foram implementadas formas de se permitir ao cidadão uma
votação mais direta nas decisões importantes. A única exceção é a Suíça, que prevê o plebiscito para
toda situação local e nacional quando envolve a mudança da Constituição ou para casos de propostas
públicas com 50 mil assinaturas.

Mas pelo menos 14 países têm experimentado esse tipo de participação direta popular, sendo
a Estônia atualmente o grande laboratório social dessa forma de eleição. Uma vez resolvidos
os problemas técnicos de segurança, a próxima grande discussão social será a legitimidade da
representatividade numa democracia. Em outras palavras, por que escolher alguém para decidir
por mim sobre uma lei que afeta meu cotidiano diretamente? Isto resgataria a ideia de democracia
direta, como na Grécia antiga, mas desta vez permitindo que uma parcela cada vez maior da
população determinasse seus caminhos.

Novas questões vão surgir, tais como a distribuição etária da população e a determinação das
maiorias urbanas versus a minoria que habita as zonas rurais. Certamente, os partidos políticos teriam
de se organizar melhor para fazer valer seus interesses ideológicos. Mas, por outro lado, minorias com
problemas específicos poderiam apresentar seu ponto de vista político sobre suas questões específicas,
em vez de elegerem poucos representantes que acabam não conseguindo fazer valer suas propostas
diante da maioria das assembleias.

162
Fundamentos da Ciência Política

Isso traria, em todos os níveis de governo, uma legitimidade maior das decisões políticas,
confirmando a soberania popular, o que nos leva de volta ao pensamento de Jean-Jacques
Rousseau. Ele foi o primeiro filósofo a se preocupar com um compromisso coletivo que pudesse
valorizar a igualdade e restaurar um espírito social. Quando ele pensou a desigualdade (ROUSSEAU,
1978, p. 259), sugeriu que foi a ideia de propriedade que gerou os primeiros conflitos humanos. É
interessante que Rousseau chegou a essa conclusão a partir de premissas racionais, e hoje em dia
sabemos que elas não são válidas.

Os animais no estado de natureza demarcam seus territórios de domínio e lutam com seus iguais
para a predominância ou a exclusividade de caça dentro deles. A propriedade certamente começou entre
os primeiros grupamentos humanos com um hábito que é natural principalmente entre os mamíferos,
mas também presente entre outras espécies.

Mas Rousseau não sabia disso e sugeriu que no estado de natureza o homem fosse bom. Essa
bondade deve ser entendida como falta de ganância – portanto, nenhum desejo de acumulação.
A antropologia moderna verificou que esse estado de natureza previsto por Rousseau nunca deve
ter acontecido. Mas Rousseau estava certo quando previu que o fim do estado de natureza gerou
uma sociedade civil cheia de conflitos. O conflito nasceu da propriedade e acabou sugerindo as
leis, que, de alguma forma, pretendem sempre manter a desigualdade entre os proprietários e os
não proprietários.

Rousseau pensava que o consentimento era a chave para legitimar o poder. Neste sentido, criticou a
ideia de Estado autoritário e manteve a proposta de igualdade. Ele sugeriu que a paz seria alcançada por
um contrato social, que foi a primeira ideia no sentido de uma Constituição nacional, o que permitiria
o funcionamento de uma república com princípios democráticos. A soberania seria expressa pelo povo,
que elegeria seus representantes para formarem um corpo político para a condução do Estado. O corpo
político seria guiado pela vontade geral; isso possibilitaria impedir a tirania e também de regular as
questões dos interesses particulares e mesmo da propriedade.

Na formulação de Rousseau, que foi aquela na qual se basearam as Revoluções Americana e Francesa,
o interesse social se sobrepõe ao individual. A consequência seria que o Estado estaria sempre do lado
do interesse social e da maioria, garantindo a paz social.

Ainda segundo seu pensamento original, a vontade política não deveria ser transferida para um
representante, pois logo esse grupo de representantes estaria decidindo apenas em seu próprio nome,
algo conhecido na maioria das democracias modernas. Para administrar o Estado, o Poder Executivo não
deveria gozar de nenhuma autonomia, sendo um executor das leis decididas pela maioria.

Há até pouco tempo, esse projeto seria impensável para países ou mesmo cidades de grande
população. Como teria sido possível propor, informar, discutir e votar qualquer assunto que pudesse
ser importante para a vida de todos os cidadãos? Assim, as repúblicas e as monarquias democráticas
modernas foram construídas a partir deste impedimento prático e decidiram que a representação seria
a melhor forma de garantir a democracia.

163
Unidade IV

Mas são as ideias de Rousseau que vemos reaparecer em países tão distintos como o Egito,
a Arábia Saudita, a China e o Brasil. Nesses países, ainda sob um controle forte da participação
política das populações, foram a internet e os telefones celulares, através das redes sociais,
que permitiram os protestos de 2013 e 2014. Os protestos agora não são entendidos, como no
passado recente, como manifestações de classes econômicas por mais direitos políticos. Cada
protesto regional tem as suas especificidades, e a única ideia comum é a vontade geral soberana
do povo.

8.1 A questão dos partidos políticos

Os partidos políticos surgiram no século XIX como agremiações civis de burgueses que buscavam
autonomia política em relação à religião e aos desmandos dos reis. A legitimidade da representação foi
pensada pelos norte-americanos antes de todos, pois foram eles que estabeleceram a primeira república
de fato no mundo moderno. O partido surge como uma associação de iguais, que em seu conjunto se
propõe a representar algumas ideias comuns legitimadas pela vontade do povo. A legitimação seria
obtida cada vez que houvesse eleições para representantes e cada um explicasse ao povo a ideia que
iria defender.

No entanto, desde a primeira república moderna, o direito de voto do povo sempre buscou restringir
os direitos da maioria da população. A participação inclusiva foi conquistada em todos os países através
de manifestações da população contra o poder constituído. Mulheres e pobres levaram muito tempo
para serem admitidos como cidadãos com direito a voto. Max Weber acreditava que o partido político
fosse uma associação que buscava influenciar ou conquistar o poder, pelas vias políticas, com o objetivo
de obter benefícios coletivos para o grupo de associados ou mesmo vantagens pessoais para seus líderes
(WEBER, 1991).

Na democracia representativa, há sempre uma diferenciação entre os governantes e os governados.


Nesse contexto, os governantes se arrogam a ideia de elite da sociedade, na medida em que conquistam
a confiança dos eleitores para suas pessoas.

Com isso, cresceu a ideia de que os eleitos devem prestar contas ao eleitorado através de
mandatos cada vez mais curtos, quando precisam tentar a reeleição. Mas, ainda assim, os partidos
sempre escolhem formas de impedir que novos partidos surjam no horizonte político e tentam
constituir uma nova forma de oligarquia, desta vez como aristocracia, para tentar limitar as
escolhas dos cidadãos.

De fato, os partidos acabam sofrendo por esse tipo de atitude e, assim como qualquer organismo,
morrem. Suas propostas deixam de representar a vontade geral do povo, que através do voto permite
que novos partidos, defendendo um novo conjunto de ideias, alcancem o poder.

Dessa forma, nasceram os partidos de massa, seguindo as ideias socialistas, que formaram seus
militantes para que alcancem e mantenham o poder em nome das aspirações populares. A construção
desse tipo de partido surge da aliança entre sindicatos operários, organizações sociais e meios de
comunicação que o apoiam. Com o objetivo de controlar o Estado, a estrutura partidária prevê disputas
164
Fundamentos da Ciência Política

internas para que se decidam quais são os seus candidatos, e suas assembleias são instâncias de consulta
às pessoas que os apoiam, chamadas de base partidária.

Mas a atividade política não se restringe ao governo da sociedade. Toda ação pública que objetiva
interferir na organização ou na distribuição do poder do Estado é uma ação política. Neste sentido,
o sociólogo alemão Jürgen Habermas sugeriu que a democracia não pode ser reduzida a um sistema
técnico de consulta eleitoral que viabiliza o funcionamento de um Estado de direito (HABERMAS,
1983). A democracia seria um constante aprendizado e aprimoramento da soberania popular, com um
compromisso de autodeterminação do povo.

Segundo Habermas (1983), a única avaliação legítima da participação política é a contribuição do


engajamento para o fortalecimento do processo democrático. Assim, toda forma de participação política
é válida e deve ser incentivada.

Os atenienses participavam das decisões políticas na ágora, aproximadamente três vezes ao mês. O
comparecimento não era obrigatório, mas o indivíduo entendia que o futuro de sua vida estava sendo
discutido. Pode-se argumentar que a democracia de Atenas não incluía todas as pessoas lá residentes, e
hoje os cidadãos possuem mais direitos do que então. A política, hoje como naquela época, é o resultado
das ações do povo. Mas o século XX deixou a marca de que o Estado e seu governo são externos aos
cidadãos. O Estado do século XX foi providente ou punitivo. Em grande parte, esta ainda é a realidade na
maioria dos países, mas, numa democracia, são as escolhas dos indivíduos que acabam determinando a
vida social.

Neste sentido, tal importância foi percebida no Brasil em 1989, quando pela primeira vez todos os
cidadãos, inclusive os analfabetos e os índios, puderam votar livremente. A grande novidade da cena
brasileira, mas também do cenário internacional, é a transparência, ou melhor, a grande liberdade de
opinião e expressão que permite a discussão sobre os processos políticos e as pessoas que desejam ter
atividade pública. A democracia ganha com isso. A participação política se torna constante, mesmo
quando não estamos percebendo que uma discussão entre amigos do Facebook é uma discussão
política. Tais discussões acabam criando um determinado consenso entre os hábitos e costumes locais
e nacionais. O consenso tem como vantagem permitir a tolerância para as ações de grupos que antes
eram considerados fora da lei, como os homossexuais.

Até o início do século XXI, os cientistas políticos tomavam partido da ideologia liberal ou da socialista e
pesquisavam a sociedade com noções preconcebidas sobre seu funcionamento ideal. O cientista político
do século XXI vai notar que todas as ideias propostas no passado, e as que virão no futuro, explicam
o funcionamento das sociedades dentro de limites que podem ser rompidos a qualquer momento,
dependendo das variáveis em jogo.

Tal como a previsão da meteorologia, a Ciência Política vai atentar cada vez mais para as diferenças
sociais que causam a motivação para ações individuais ou coletivas que influenciam o comportamento
do todo – até que eventualmente alguém perceba qual regra geral pode unificar o entendimento dos
motivos das ações individuais no conjunto das sociedades.

165
Unidade IV

Para encerrar, leia o texto a seguir, de Otávio Ianni, sobre a sociedade patriarcal:

Outra corrente de pensamento debruça-se concentradamente na formação, tessitura


e mudança da sociedade. Prioriza a família, o parentesco, a casa-grande, a fazenda, a
plantação, a criação, o clã, o patriarcalismo, a oligarquia; e enfatiza aspectos psicossociais
e socioculturais, praticamente esquecendo, ou deixando implícitas, a economia e a política.
Há também ênfase nas heranças da colonização portuguesa, do lusitanismo, sem esquecer
a “informalidade” com a qual os colonizadores portugueses e os seus descendentes
relacionaram-se social e afetivamente com os nativos, isto é, indígenas, e com os escravos
trazidos da África, compreendendo inclusive os descendentes de uns e outros. Aí nascem as
teses do caráter “benigno” do regime de trabalho escravo no Brasil e da “democracia racial”
brasileira. Assim, estamos a um passo da tese de que a história do Brasil é uma história de
“revoluções brancas”, uma história de “conciliação e reforma”. Esse é o clima intelectual
em que se forma e se difunde a tese do “luso-tropicalismo”, como uma forma civilizatória
original, diferente da hispano-americana, da anglo-americana e outras; original, diferente e
implicitamente caracterizada como “melhor”.

Nessa orientação situam-se Gilberto Freyre, Renê Ribeiro, Thales de Azevedo, José
Lins do Rego, Jorge Amado, Darcy Ribeiro, Roberto da Matta e outros. É claro que não
são unânimes. Em seus escritos, revelam variações quanto a um ou outro aspecto da
história sociocultural e psicossocial do país. Mas convergem no que se refere a uma visão
a-histórica da história da formação e transformação do Brasil. Alguns lembram Afonso
Celso e Oliveira Lima.

Neste ponto cabe esclarecer que a interpretação formulada por Gilberto Freyre, o principal
autor dessa linhagem, está fortemente enraizada na história social do Nordeste, enquanto
uma poderosa “matriz” da sociedade brasileira. É importante lembrar que o Brasil-Colônia e
o Brasil Monárquico estão decisivamente apoiados na economia açucareira, compreendendo
o mercantilismo e o colonialismo. Grande parte do que se produzia e reproduzia no Nordeste,
em termos de economia e sociedade, política e cultura, era importante para o conjunto da
sociedade; uma nação que se encontrava no limbo, enquanto colônia, e que começou a
estruturar-se e institucionalizar-se durante a Monarquia. Essas são algumas raízes remotas
e próximas da Escola de Recife, na qual a obra de Gilberto Freyre aparece como coroamento
e réquiem.

Vale a pena observar que a tese de que “o Estado é demiurgo da sociedade” e a tese
de que “a sociedade civil é patriarcal” complementam-se e servem-se reciprocamente.
Se a sociedade é inocente, logo se depreende que o Estado se defronta com uma missão
excepcional: constituir, orientar, administrar ou tutelar a sociedade, isto é, o povo, os setores
sociais subalternos. Justifica-se que o Estado seja patriarcal, oligárquico, benfeitor, punitivo,
deliberante, onisciente, ubíquo.

O patriarcalismo pode ser anacrônico mas continua vigente, dado que a sociedade
nacional é uma coleção de épocas, regiões, oligarquias e elites, de par em par com
166
Fundamentos da Ciência Política

setores sociais subalternos, remanescentes socioculturais de séculos de escravismo e


reivindicações brutalmente combatidas e esmagadas. Aí situam-se os quilombos, as
inconfidências, as revoltas, compreendendo Palmares, as Inconfidências Baiana e Mineira,
Praieira, Confederação do Equador, Cabanagem, Farroupilha, Canudos, Contestado,
Araguaia e outros movimentos de setores sociais subalternos no largo da cartografia
e da história. Esse tem sido o ambiente e o fermento do coronelismo, caciquismo e
patriarcalismo com os quais se argamassam as oligarquias. Sim, o patriarcalismo pode
ser visto como um signo, símbolo e emblema de um estilo de mando e desmando,
no qual se distinguem e confundem o público e o privado, o burocrático-legal e o
tradicional, o carisma secularizado e a prepotência.

No fim do século XX, quando está em curso um novo ciclo de globalização do capitalismo,
os remanescentes das oligarquias patriarcais readquirem papéis políticos importantes na
intermediação entre as diretrizes neoliberais predominantes no âmbito do aparelho estatal
e as raízes socioculturais e clientelísticas remanescentes em distintas regiões do país. As
oligarquias garantem bases sociopolíticas, e obviamente econômicas, para o bloco de poder
comprometido com a globalização neoliberal da economia brasileira. Mesmo porque as
oligarquias “modernizaram-se”, associando-se em empresas, corporações e conglomerados,
dando particular atenção aos meios de comunicação, à mídia em geral; transformando-se
em “oligarquias eletrônicas”.
Fonte: Ianni (2000, p. 55-74).

Resumo

A política nasceu quando os guerreiros gregos formaram a cidade e não


se consideravam soldados, mas cidadãos. As leis na cidade visavam o bem
de todos, sendo reguladas pelas leis. Esta foi a primeira forma de república
e também a primeira forma de democracia.

A República Romana existiu antes de Caio Julio César se tornar um


imperador. Como Roma era uma cidade muito maior do que as cidades
gregas, desenvolveu uma forma de organizar uma democracia representativa
e inventou o Senado e a representação popular. Mas depois do império, a
forma de governo mais adotada no ocidente foi a monarquia.

Apenas no século XVIII a Revolução Americana criou a primeira república


do mundo moderno, mas foram necessários mais dois séculos para que a
maioria dos países adotasse critérios da representação democrática.

A democracia moderna permite que todas as pessoas tenham direito


à cidadania. No mundo moderno, até mesmo as monarquias procuram
formas democráticas de funcionamento.

167
Unidade IV

A representação indireta acaba sendo um impedimento para a real


democracia. Os militares podem sempre utilizar essa forma de governo
para instituir ditaduras, o que pode acontecer em regimes políticos que se
denominam de direita ou de esquerda.

O liberalismo acredita que as liberdades individuais sejam mais


importantes do que o direito coletivo. Isso criou no século XX uma divisão
ideológica entre os países. As duas formas de pensamento buscaram
estabelecer uma forma de criar a riqueza e acabar com a pobreza. Mas
no liberalismo há um limite para o número de pessoas que conseguem se
tornar ricas. No socialismo, a ideia é de que apenas o Estado seja rico, e
todos os cidadãos vivam dentro de uma mesma classe social.

Pesquisar como as ideias acabam influenciando a vida política das


pessoas é tarefa do cientista político. Existem, além da pesquisa histórica,
a estatística e a investigação de elementos ideológicos que influenciam o
comportamento das pessoas.

A maior novidade do século XXI é a utilização do telefone celular e da


internet pelas pessoas. Isso facilita a troca de ideias, que acontece hoje em
dia numa velocidade nunca antes experimentada e permite que todos os
grupos, independentemente de partidos políticos, sejam ativos nas defesas
de suas convicções. Isso aumenta a pressão para a democratização do
Estado e a inclusão cidadã de todas as pessoas.

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