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ESCOLAS SUSTENTÁVEIS E COM-VIDA EM MATO GROSSO

Glauce Viana de Souza


Michèle Sato
Sonia Palma

Há vida na escola.
ESCOLAS SUSTENTÁVEIS
E para além dela...
E COM-VIDA
Michèle Sato
EM MATO GROSSO
Processo formativo em educação ambiental
- caderno de experiências -

Ed
UFMT
ISBN: 978-85-911436-2-7

UFMT

Ed
Glauce Viana de Souza
Michèle Sato
Sonia Palma

ESCOLAS SUSTENTÁVEIS E COM-VIDA EM MATO GROSSO

Processo formativo em educação ambiental

- caderno de experiências -

Cuiabá, Mato Grosso, Brasil


2011
SUMÁRIO
Ed
UFMT

Prefácio..............................................................................................................04
Michèle Sato
ESCOLAS SUSTENTÁVEIS E COM-VIDA EM MATO GROSSO
Processo formativo em educação ambiental Apresentação.....................................................................................................06
Glauce Viana de Souza e Sonia Palma
- caderno de experiências -
RELATOS DE EXPERIÊNCIAS
Escolas Sustentáveis e COM-VIDA: os saberes e as utopias de um sonho coletivo .................................................................................10
Maria Elizabete Nascimento de Oliveira e Roberto Ferreira de Oliveira
Equipe Escolas Sustentáveis - UFMT
A vivência do processo formativo em educação ambiental – Escolas Sustentáveis e COM-VIDA no município de Lucas do Rio Verde.....14
Organização Michelene Rufino Amalio Araújo de Britto e Ivanilde Alves Borba Rigo
Glauce Viana de Souza Educação Ambiental: uma experiência de escola sustentável e COM-VIDA ............................................................................................20
Michèle Sato Adilson Ribeiro de Araujo
Sonia Palma Na trilha da sustentabilidade: uma experiência vivenciada na Escola Estadual “Pio Machado” em Acorizal/MT ......................................26
Cíntia Cláudia Godoy Tomazini e Dirce Francisca S. Arruda
Conselho Editorial ESCV
A transformação do cotidiano escolar – Processo Formativo Escolas Sustentáveis e COM-VIDA ...............................................................30
Herman Hudson de Oliveira
Edicléia de Souza Rampazo
Jucineth Glória do Espírito Santo VItal de Carvalho
Michelle Jaber A vivência da Escola Municipal Guarujá no Processo Formativo Escolas Sustentáveis e COM-VIDA .........................................................36
Dirce Bitdinger

Projeto Gráfico e Arte Final Frutos do Cerrado: uma ferramenta pedagógica e complemento alimentar para a Escola Municipal do Campo Apóstolo Paulo ..............40
Regina Aparecida da Silva Eciele Aparecida da Silva e Patricia Bortulluzzo
Escola Sustentável e COM-VIDA: Projeto Horta Escolar ..........................................................................................................................45
Silvia de Almeida Silva e Ruth Pinto Camargo

ISBN: 978-85-911436-2-7 Ribeirão Bonito: local de memória. A construção de identidades socioambientais através do imaginário relacionado ao rio ...................48
Flávia Lorena Brito
Uma experiência na UFMT enquanto tutor da ES-COM VIDA .................................................................................................................54
Albérico Cony Cavalcanti.

ENSAIOS
Biografia Ecológica: quintais, identidade e educação ambiental .............................................................................................................60
Herman Hudson de Oliveira
A escola como lócus de transformação da prática social.........................................................................................................................66
Luís José Câmara Pedrosa
O caracol de esperança no Processo Formativo em Educação Ambiental: Escolas Sustentáveis e COM-VIDA ..........................................70
Jacilda Siqueira

Escolas Sustentáveis e Com-Vida: o ambiente virtual como meio para um Processo Formativo em Educação Ambiental...........................74
Glauce Viana de Souza e Sonia Palma
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Processo formativo em educação ambiental - caderno de experiências -

De construção em construção, finalmente o projeto saiu do papel e pouco a pouco foi se


materializando nas escolas em todo Brasil. A educação a distância (EaD) foi a modalidade que
A Glauce e a Sonia, duas amigas maravilhosas e muito queridas, me convidaram para um prefácio ao coroou estes sonhos, unindo jovens e não-jovens; pragmáticos e teóricos; sonhadores e realistas.
livro. Uma nota introdutória de uma obra é sempre emocionante, já que além de tentar sintetizar o que vem Acompanhei mais de pertinho os desdobramentos em Mato Grosso, o envolvimento das pessoas,
depois, oferecendo um convite à leitura, retrata também a apresentação de um trabalho que será o engajamento da Universidade Aberta (UAB), a ajuda do pessoal tecnológico, o compromisso dos
apreciado. tutores, formadores, conteudistas, secretárias e, com muita essência, o talento da Sonia e da
Glauce.
Nesta responsabilidade, minhas palavras iniciais são dirigidas aos esforços da Coordenação Geral de
Educação Ambiental (CGEA) do Ministério da Educação (MEC), e de duas universidades parcerias da O projeto poderia alçar voos, mas certamente ambas, Glauce e Soninha, deram a aplainada
Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT): as universidades federais de Ouro Preto (UFOP) e de Mato necessária para que o voo fosse elegante, macio e confortável, levando nossos sonhos desde o
Grosso do Sul (UFMS). Formamos assim uma estrela de 4 pontas, contudo, sem que as arestas nos plano do pensamento ao corajoso ato de concreção. De pouso em pouso, a agitação de algo que se
machucassem, mas que tornasse uma provocação para amalgamar nossos sonhos. Os desafios foram move contagiou as pessoas e transcendeu o estado de MT. Algumas palestras cá e acolá sobre
grandes, desde a ausência de orçamento que pudesse concretizar todos nossos sonhos, até o repto de “escolas sustentáveis” foram possíveis, no orgulho de ter feito parte da criação e da corajosa
planejar e tornar realidade uma escola diferente que saísse do tradicional e realmente inovasse em suas vocação de sonhar.
coragens socioambientais.
Em um dos textos que escrevi junto com a Rachel Trajber, sonhamos mais alto ainda.
Cunhadas como “Escolas Sustentáveis” (ES), buscamos conjugar 3 perspectivas intrinsecamente Porque para além de um currículo da escola, buscamos um currículo da vida, destes que só é
relacionadas que pudessem mudar o curso da vida na redação de uma outra história: (a) uma dimensão possível se o engajamento das pessoas enxergarem que para além do urbano, há o espaço rural;
CURRICULAR que conseguisse emergir do cotidiano fenomenológico escolar, carregado de expressões e para além da gestão ambiental, haverá a gestAção socioambiental; e para além de uma escola
realidades locais, com jeito e cheiro de terra e que sustenta o chão da escola; (b) uma proposição para que a sustentável, haverá escolas com-vida.
escola pudesse ser autônoma em construir certos projetos de cuidados socioambientais, também
chamados de GESTÃO escolar, nas mais diversas frentes e necessidades locais; (c) e finalmente uma Nas páginas desta obra algumas experiências revelam que o projeto foi um grande
transcendência espacial que projetasse a importância da escola como um ESPAÇO educador de diálogos, e motivador de criação, disparando possibilidades para que processo formativo seja assumido como
que fosse capaz de tornar a estrutura física uma meta da bioarquitetura, da consideração energética, do mola propulsora de mudanças de um mundo em pleno movimento.
cuidado no saneamento ou da totalidade física que pudesse gerar conforto ao mundo não-físico.
Assim agradeço aos envolvidos neste enredo, já que possibilitaram que parte de meus
A inspiração no austríaco Hundertwasser foi logo aprovada entre os membros da equipe, que para sonhos também alçassem voos em céu abertos. E neste horizonte de pessoas educadoras, oxalá a
além das boas ideias sobre arquitetura, tinha também uma filosofia que era agradável aos olhos e palatável sustentabilidade não seja um chavão de um modismo, nas disputas conceituais ou ideológicas de
às almas. De fato, além de artista, o arquiteto era também poeta e educador ambiental. Suas obras discursos políticos, mas que se consagre na ousadia mais bela de quem não teme o cansaço para ser
relacionam-se muito com os movimentos da proteção da água, floresta, ou energia, além das campanhas a feliz e cuidar da vida.
favor de transportes coletivos, proteção de animais ou vida na Terra.
Há vida na escola.
E para além dela... Michèle Sato
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Processo formativo em educação ambiental - caderno de experiências -

lma
iana de Souza e Sonia Pa que é substantivo. Isto é, não às características, nãoaos adjetivos (ser à distância, presencial,
Glauce V semipresencial, modular) que se deve centrar as ações, mas, sim, à compreensão de que estamos
fazendo educação (NEDER, 2001).
O Caderno de Experiência - Escolas Sustentáveis e Com-Vida em Mato Grosso apresenta interação e O curso, em sua modalidade ofertada pela UFMT finalizou em junho/2011 com 612
aprendizagem por meio de Ambientes Virtuais de Aprendizagem (AVA) vivenciadas por tutores, cursistas- cursistas/professores concluintes, mediados por 40 tutores, em cinco Estados do Brasil. Os polos de
professores-formadores, sujeitos do Processo Formativo em Educação Ambiental: Escolas Sustentáveis e EaD/UAB no estado de Mato Grosso, foram: Ribeirão Cascalheira, Primavera do Leste, Pontes Lacerda,
Com-Vida(curso de aperfeiçoamento) ofertado pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) em Diamantino e Lucas do Rido Verde. Além de Mato Grosso, a UFMT ficou responsável com a formação de
parceria com a Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e Universidade Federal de Mato Grosso do Sul professores de escolas dos seguintes estados: Goiás, Maranhão, Piauí, Amazonas. As inscrições foram
(UFMS). feitas pela Plataforma Freire, um sistema de acesso e cadastramento de cursos elaborados pelo MEC
Na especificidade de cada relato e ensaio, há reflexões que tratam da Educação Ambiental no com restrito acesso de professores da rede publica.
contexto de espaços educadores sustentáveis, aqueles que têm a intencionalidade pedagógica de se Fez parte do processo formativo professores renomados em cada eixo de formação, a
constituir referências concretas de sustentabilidade socioambiental,conforme definição construída no exemplo, a professora Dr.ª Michèle Sato, que também nos honrou com suas belas palavras no Prefácio
Colóquio de Educação Ambiental realizado em 2009, pelo CDES, MEC, MMA e MME. deste livro, assim como o professor Dr. José Afonso BoturaPortocarrero, arquiteto renomado na UFMT
Esperamos que você, leitor ou leitora, ao ler este caderno identifique vivências concretas de que trabalhou os espaços educadores sustentáveis na formação dos tutores.
sustentabilidade, com integridade de conceitos e práticas, mostrando queé possível transformar hábitos e No corpo do trabalho, os leitores e leitoras poderão apreciar um texto com maiores detalhes do
lógicas de funcionamento, reduzir impactos ambientais e se tornar referência de vida saudável para a projeto e sua dinâmica formativa, onde buscamos apresentar nossas percepções do processo
comunidade, ampliando o escopo de ação para além das salas de aula, apoiado em políticas públicas e formativo.
educação ambiental. O Caderno está divido em duas partes, sendo a primeira comRelatos de Experiência, e a
No percurso de construção deste caderno nós, organizadoras, refletimos com os sujeitos do segunda,comEnsaios e Artigos.Só nos resta, então, desejar que vocês possam se deliciar com esse
processo formativo, por meio de indagações sobre ser ou não as escolas lugares privilegiados para se nosso trabalho, dotado de enorme potencial educativo. Nele, há um diálogo incubador sobre espaços
constituir como espaços educadores sustentáveis; sobre quais ações poderiam ser fomentadas entre educadores sustentáveis frente à realidade das escolas públicas de Mato Grosso.
educador e educandos, na tessitura de compromissos planetários; sobre ser ou não possível reverter o
cenário escolar por meio dos sujeitos sociais que a compõe; e, sobre o processo formativo ESCV contribuir
ou não para fomentar açõesindividuais e coletivas nas escolas. Glauce Viana de Souza
2

A partir do que preconiza o Programa Mais Educação ( Decreto nº 7.083/10-art. 2º. Inciso V), sobre a Sonia Palma
3

criação de espaços educadores sustentáveis que abranjam a inserção da dimensão socioambiental nos (Coordenadoras do Projeto)
currículos, na formação de professores e na elaboração do material didáticos; a gestão sustentável; e a
1. Em 1999 o NEAD/UFMT ofertou o primeiro curso de graduação a distância no Brasil. Em duas décadas de formação, inúmeras publicações
readequação dos prédios escolares, incluindo a acessibilidade, o curso propôs uma ação articulada em três científicas foram realizadas. O Núcleo é uma referencia em educação distância, e atualmente, além dos cursos graduação e pós graduação,
eixos: currículo, gestão e espaço construído. Nesse sentido, os relatos aqui registrados, pautam suas ações coordena o Curso de Licenciatura em Pedagogia no Japão para 300 brasileiros, pela Universidade Aberta do Brasil (UAB) e UFMT.
realizadas ora em um, ora em outro eixo. É importante destacar que o processo formativo ESCV gestado na 2. Professora Mestre da Universidade Federal de Mato Grosso do Instituto de Educação. CoordenadoraGeral do Curso de Aperfeiçoamento Escola
Educação a Distância (EaD) é concebido pela UFMT numa experiência real de anos de trabalhos ofertados Sustentáveis Com Vida ofertado pelo MEC/UAB. Atua como professora formadora nos cursos de Educação a Distância (EaD) pelo Núcleo de
Educação Aberta e a Distância NEAD/UFMT e Universidade Aberta do Brasil (UAB). E-mail: glauce.ufmt@gmail.com
pelo Núcleo de Educação Aberta e a Distância (NEAD), hoje com trabalhos de referencia mundial, naquilo
3. Mestranda em Educação pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), sob orientação de Michèle Sato, na linha de pesquisa Linha de
Pesquisa Movimentos Sociais, Política e Educação Popular. Coordenadora de Tutoria do Curso de Aperfeiçoamento Escola Sustentáveis Com Vida
ofertado pelo MEC/UAB.

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Não há saber mais ou saber menos:


Há saberes diferentes.
Paulo Freire
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Escolas Sustentáveis e COM-VIDA:
os saberes e as utopias de um sonho coletivo e o fazer, pois durante o desenvolvimento das atividades compreendemos que entre o querer e a ação, muitas
vezes, há uma distância considerável, haja vista, a falta de envolvimento de alguns educadores com as
1
atividades propostas.
Maria Elizabete Nascimento de Oliveira Compreendemos que haja algumas necessidades específicas que comprometem o desenvolvimento
2
Roberto Ferreira de Oliveira dos trabalhos, porém, acreditamos que muitos empecilhos podem ser minimizados com a persistência e o
comprometimento ético dos seres humanos, em prol de um mundo melhor para todos. Porém, o que vale é
- E o que é um professor, na ordem das coisas? Talvez que um professor seja um
ressaltar o comprometimento da maioria dos educadores envolvidos neste processo, os quais acreditam no
funcionário das instituições que gerenciam lagoas e charcos, especialista em reprodução,
peça de um aparelho ideológico de Estado. Um educador, ao contrário, é um fundador de processo de emancipação humana e na perspectiva libertadora de aprendizagens. Compreendem ainda que, a
mundos, mediador de esperanças, pastor de projetos. Rubem Alves educação na vertente política, ideológica e histórica, é uma via onde o ser humano pode ampliar seus
conhecimentos, tanto para se opor como para coadunar com as percepções expostas, a solidariedade nesta
perspectiva é condição de sobrevivência.
Os estudos realizados durante o curso fomentaram a percepção de que os princípios da Educação
A abordagem em foco busca apresentar algumas percepções acerca do Projeto “Escolas Sustentáveis e Ambiental poderão contribuir com práticas e com concepções mais éticas para a educação, nos fazendo
Com-Vida”, que visou construir um diálogo à distância com educadores de diversas regiões do país, na busca por compreender a luta por sociedades sustentáveis. Além disso, nos possibilitou compreender a capacidade de
trazer à tona discussões referentes à Educação Ambiental no cerne das unidades de ensino. Disponibilizado pela mudança por meio da educação, onde a curiosidade, o diálogo e o entrelaçamento de saberes podem criar uma
plataforma moodle, foi um projeto que incitou reflexões sobre os anseios da Educação Ambiental, no que condiz sinergia do bem, em prol das outras coisas que também partilham do cosmo. Importante alertar, no entanto,
às questões relacionadas aos territórios e as identidades que perfazem o ambiente/espaço escolar. Neste que sem a rede de diálogos, de amor e de solidariedade não há energia capaz de gerar a mudança que
sentido e, na tentativa de adentrar neste espaço de conflitos e idiossincrasias, vislumbrou agregar saberes entre almejamos no contexto educativo (FREIRE, 1996).
protagonistas da Educação formal e projetar as esperanças sobre as utopias da Educação Ambiental de cunho É nesta via de solidariedade que o curso “Escolas Sustentáveis e Com-Vida” buscou produzir saberes
fenomenológico. imbricados à prática educativa. Processo que nos mostrou que, mesmo o conhecimento sendo o propulsor das
O estudo, portanto, foi disponibilizado em três módulos, pautado na tríade merleaupontyana (1999), eu- possíveis alterações sociais. Quanto mais aprendemos, maior torna-se o nosso campo da ignorância, ou seja,
outro-mundo. O primeiro buscou efetivar uma reflexão sobre o nosso estar no mundo, percorrendo pela mais e mais temos o que aprender. Portanto, a compreensão de nós mesmos, enquanto humanos, com relação
biografia que construímos intricada aos territórios que percorremos durante o percurso de vida/delírios. O aos outros e/ou as outras coisas presentes no cosmo, deve permear por princípios éticos, na luta por um
segundo traçou uma possibilidade de compreendermos as relações que construímos no diálogo e na parceria mundo menos desigual, nos permitindo pensar que:
com o outro e/ou com as outras coisas presentes no cosmo, tendo como referencial o ambiente escolar e suas A autobiografia, existencial, filosófica, poética, que leva em conta as fendas e o
diversidades. Para tal, abordou algumas atividades práticas sobre o currículo e a gestão escolar, mostrando que inacabado, [...] que permite se pensar em relação. Ser não de uma forma intangível,
todas as construções dentro desse ambiente devem ser uma construção coletiva dos autores que protagonizam seguro de si mesmo, mas como um simples elemento de um arquipélago mais amplo
estas histórias, que sempre é possível o aprender com o outro. Já o terceiro e último módulo propôs um diálogo (MAFFESOLI, 2007, p. 161).
sobre as relações entre o mundo e a comunidade, fortalecendo-se com possibilidades de práticas que
possibilitam a educação à sustentabilidade. O curso nos possibilitou compreender que é urgente considerar as subjetividades como um espaço
Nesta perspectiva, o estudo instigou-nos à importância da reflexão constante acerca da intrínseca amplo e promissor de compreensão da coletividade. A não adesão aos saberes múltiplos que contemplam as
relação teoria/prática no ambiente escolar e mostrou a necessidade de buscarmos a convergência entre o sentir realidades humanas dificulta a compreensão ética acerca de valores e princípios baseados nos direitos
inalienáveis do ser humano, direito à vida intricado ao direito ao sonho, a perspectiva de juntos construirmos
1. Professora formadora/CEFAPRO-Cáceres - Área de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias – Graduada em Letras, Especialista em Língua Portuguesa e um futuro melhor para todos.
Literatura, Mestre em Educação pela UFMT – Universidade Federal de Mato Grosso. Para fortalecer tais proposições, além de Paulo Freire (1996), que acredita não ser possível viver sem
2. Professor da E. E. “Natalino Ferreira Mendes” – Pedagogo, Especialista em Língua Portuguesa e Literatura – UNEMAT – Universidade do Estado de Mato
Grosso. penetrar profundamente no mundo das diversas linguagens, no universo pluridimensional dos sonhos, dos

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delírios, da política, do devaneio; recorremos também aos princípios teóricos de outros autores que percebem [...] há uma grande ponte a ser construída não apenas pelo conhecimento, mas pelo
no âmbito da coletividade, alternativas de aprendizados ímpares, como, por exemplo: Sato & Passos (2006) os re-conhecimento. Re-conhecer implica conhecer o que há no outro de mim e o que há
quais acreditam que muito mais que uma mudança de forma, é preciso uma transcendência de valores; Miguel G. de mim no outro. É, portanto, saber que, para além da diferença, há entre nós também
Arroyo (2009) para o qual o tempo cronológico, linear, respeitado pelas instituições de ensino, muitas vezes, continuidades, campos de referência mútua, de alianças e de similitudes que nos
mutila a imagem do educando, sacrificando o que ele tem de mais significativo, sua história, sua cultura e seus circunscrevem como semelhantes. Conhecer e re-conhecer é campo da ética (SATO &
sonhos. PASSOS, 2006, p. 26).
Importante salientar que a fundamentação teórica deste processo educativo foi fortalecida no diálogo
com os educadores, haja vista, que a proposta do curso permeia por entre aprendizagens coletivas, em diálogo Acreditamos que o olhar da Educação Ambiental de cunho fenomenológico pode trazer o
com educadores que atuam na educação formal, que juntos podem pensar em projetos educativos em busca de reencantamento que existe no interior das escolas, as possibilidades de estabelecer pontos de convergência
sustentabilidade planetária. entre o sentir e o fazer. Com a contribuição teórica, mas especialmente com a compreensão das vivências que
Acreditamos que a relação pedagógica generosa surge quando o educador se vê como orientador e permeiam o ambiente escolar, o curso nos alertou a necessidade de uma sensibilidade pedagógica que se abre
aprendente do processo de aprendizagens. Coadunando com Freire trata-se de “deixar-se encharcar de ao apreender, onde as identidades, os sonhos, as lutas e as pedagogias possam articular movimentos que
sentidos”, onde o processo educativo se alicerça nas diferenças, na conjectura dos conflitos e das assimetrias provoquem à mudança educacional, com vista à sustentabilidade, onde possamos compreender que este deve
que veiculam nas salas de aulas e que se processam no diálogo com os aprendentes. ser um processo de luta coletiva, na qual tanto @s educadores(as) como educandos devem assumir o desafio
Acreditamos que, por meio das propostas do curso, os educadores compreenderam algumas de não só aceitar, como também de viver/sentir suas diversidades em diálogo com seus territórios.
possibilidades libertadoras de ensino e aprendizagens que contribuem para incitar sentidos que permanecem O Curso “Escolas Sustentáveis e Com-Vida” nos possibilitou reflexões sobre nós mesmos, fazendo-nos
latentes e intactos no ínfimo dos seres humanos e, que se movimentados, podem fazer girar a espiral de um repensar a nossa relação com o outro, já que, enquanto Educadores, estamos sempre em contato com seres
mundo mais ético e justo. Neste foco, vale coadunar com a abordagem de Rubem Alves (2005, p. 15), quando humanos. Portanto, para que este com-tato seja profícuo, produtivo, é necessário ir além, gostar de gente e,
discorre que: gostar de gente implica no respeito e no cuidado com o outro que, por sua vez, é o diferente.
Enfim, acreditamos que as reflexões provenientes do curso propiciaram alguns saberes sobre: a
A vida é muito mais que a ciência. Ciência é uma coisa entre outras, que empregamos na
identidade que consiste na felicidade do eu; a alteridade que traz a necessidade do cuidado com o outro e a
aventura de viver, que é a única coisa que importa. É por isso que, além da ciência, é
complexidade que busca compreender a cidadania do mundo. Fazendo assim, girar a espiral mágica do planeta
preciso a sapiência, ciência saborosa, sabedoria, que tem a ver com a arte de viver.
terra, que nos coloca de frente com algumas complexidades, mas, sobretudo, nos possibilitam aprendizagens
Porque toda a ciência seria inútil se, por detrás de tudo aquilo que faz os homens
ímpares.
conhecer, eles não se tornassem mais sábios, mais tolerantes, mais mansos, mais
felizes, mais bonitos...Ciência: brincadeira que pode dar prazer, que pode dar saber,
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICAS
que pode dar poder.
ALVES, Rubem. Pedagogia dos caracóis. São Paulo: Verus Editora, 2010.
ARROYO, Miguel. Imagens quebradas: Trajetórias e tempos de alunos e mestres. Petrópolis: Vozes, 2009.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa, São Paulo: Paz e Terra, 1996.
MAFFESOLI, Michel. O ritmo da vida: variações sobre o imaginário pós-moderno. São Paulo: Record, 2007.
Vale assim, pedir licença a Sato & Passos (2006) para transcrever as suas palavras, acerca da busca por
MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
identidade e alteridade à relação supracitada, dizendo que no campo educacional/ poético, proposto pelas
SATO, Michele, PASSOS, Augusto Luiz. Pelo prazer fenomenológico de um não-texto. In: GUIMARÃES, Mauro
atividades do curso “Escolas Sustentáveis e Com-Vida”, também:
(orgs.). Caminhos da Educação Ambiental – da forma à ação. São Paulo: Papirus 2006, p.17-30.

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A vivência do processo formativo em educação ambiental
- Escolas Sustentáveis e COM-VIDA no município de Lucas do Rio Verde Em todas as escolas participantes do processo, foi possível observar o bom aproveitamento
das atividades do curso e o envolvimento dos cursistas , pois as referidas escolas já tinham uma
1 caminhada bastante participativa e engajada no que se refere às questões ambientais dentro do
Michelene Rufino Amalio Araújo de Britto
2 Programa de Educação Ambiental já existente na Secretaria Municipal de Educação. Porém, nesse
Ivanilde Alves Borba Rigo
momento queremos dar evidência a três casos, em que as escolas passaram por mudanças
Introdução significativas após o envolvimento e desenvolvimento do curso, que são: Centro Integrado de
Educação Infantil Anjo Gabriel, Escola Municipal de Ensino Fundamental Caminho para o Futuro e
O presente relato de experiência tem por objetivo narrar a vivência no Processo Formativo em
Creche Municipal Anjo da Guarda.
Educação Ambiental: Escolas Sustentáveis e Com Vida ocorrida no município de Lucas do Rio Verde –
MT. A referida experiência nos deu a oportunidade de tornar as instituições de ensino que participaram
Caso 01 - O Centro Integrado de Educação Infantil Anjo Gabriel atende hoje 905 alunos do
do curso, verdadeiras incubadoras de mudanças concretas da realidade social de cada professor e
terceiro ao quinto ano da educação infantil, tendo um quadro funcional composto por trinta e sete
aluno envolvido no processo. Dessa forma, a articulação dos três eixos de nosso curso: espaço,
professoras, seis monitores de sala, três coordenadoras pedagógicas e uma gestora. Nessa escola,
currículo e gestão, foram de suma importância para o alcance dos objetivos propostos em nossa
participaram do processo formativo nove professoras, dentre elas duas coordenadoras pedagógicas,
cidade, conforme relatamos abaixo.
que se apaixonaram pelas questões abordadas no curso e promoveram a implantação de algumas
Desenvolvimento ecotécnicas, tais como: arborização no pátio da escola, reativação da horta, projeto sobre a redução
do consumo de energia elétrica, além do desenvolvimento do projeto “Seja um cidadão consciente:
Neste processo formativo tivemos o privilégio de contar com a participação de quarenta respeite o meio ambiente”.
professores de Lucas do Rio Verde, que atuam nas seguintes escolas: Escola Municipal de Ensino O que mais nos chamou a atenção nessa unidade de ensino, foi a maneira como as
Fundamental Menino Deus, Escola Municipal de Ensino Fundamental Eça de Queirós, Centro Integrado professoras/alunas realizaram as atividades do curso. As professoras dessa escola cumprem suas
de Educação Infantil Anjo Gabriel, Escola Municipal de Ensino Fundamental Caminho para o Futuro, horas atividades juntas, no período oposto de sua docência. Sendo assim, as professoras/alunas, em
Creche Municipal Anjo da Guarda, Escola Municipal de Ensino Fundamental Cecília Meireles, Colégio suas horas atividades fizeram um repasse do conteúdo que estava sendo abordado em nosso curso
Estadual Ângelo Nadin, Colégio Estadual Dom Bosco e Faculdade Lasalle. para as demais professoras que não estavam inscritas nesse processo formativo. Desta maneira,
Cada unidade escolar contou com a representação de um a nove professores participando, o todas as professoras dessa unidade escolar estiveram o tempo todo realizando as atividades
que facilitou a formação de grupo de estudo durante o desenvolvimento do curso. Outro aspecto propostas pelo curso, já que, por sua vez, estas foram trabalhadas com os alunos. Houve uma
importante a ser destacado foi a forma de atendimento ao aluno, que aconteceu em dois momentos mobilização geral da escola para o preenchimento da planilha marco zero e agora, com a reativação
distintos: aulas presenciais no pólo educacional (que contou com participação pouco expressiva dos da horta, todas as professoras trabalharão com os alunos na construção e manutenção da mesma.
alunos) e momentos de atendimento nas unidades de ensino (que atingiu todos os alunos A partir desse trabalho, está sendo desenvolvido o projeto “Seja um cidadão consciente:
matriculados no curso). respeite o meio ambiente”, que tem por objetivo: Estimular a mudança prática de atitudes e a
formação de novos hábitos favorecendo a reflexão sobre a preservação do planeta como um todo,
1. Graduada em Ciências Biológicas pela Universidade Paranaense – UNIPAR, Especialista em Psicopedagogia pelo Instituto Cuiabano de Educação. Bióloga
do Programa de Educação Ambiental Semeando a Educação da Secretaria Municipal de Educação de Lucas do Rio Verde-MT e tutora presencial do Processo
auxiliando para que a sociedade possua um ambiente sustentável e empreendedor, garantindo assim
Formativo em Educação Ambiental: Escolas Sustentáveis e Com-Vida.
2. Graduada em Filosofia pela Universidade de Passo Fundo – UPF, Especialista em Psicopedagogia pela Universidade de Várzea Grande – UNIVAG,
uma melhor qualidade de vida e está sendo trabalhado de forma interdisciplinar por todas as
coordenadora da pasta de Programas e Projetos da Secretaria Municipal de Educação de Lucas do Rio Verde – MT e tutora presencial do Processo Formativo professoras de todas as séries.
em Educação Ambiental: Escolas Sustentáveis e Com-Vida.

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permanecem ainda impossíveis de se realizar. Mas vimos também que o inesperado


Caso 02 - A escola Municipal de Ensino Fundamental Caminho para o Futuro, atende 590 alunos
torna-se possível e se realiza; vimos com freqüência que o improvável se realiza mais
do Ensino Fundamental do primeiro ao quinto ano e possui em seu quadro funcional vinte e sete
do que o provável; saibamos, então, esperar o inesperado e trabalhar pelo
professores, duas coordenadoras pedagógicas e uma gestora. Nessa escola as questões relacionadas improvável.
ao meio ambiente sempre foram trabalhadas como tema transversal, conforme indicação dos
Parâmetros Curriculares Nacionais: Caso 03 - A Creche Municipal Anjo da Guarda atende atualmente 185 alunos de 0 a 3 anos, e tem
seu quadro funcional composto por dez professoras, dezessete monitoras de sala, uma
O compromisso com a construção da cidadania pede necessariamente uma prática coordenadora pedagógica e uma gestora. Nessa instituição de ensino a gestora soube do curso,
educacional voltada para a compreensão da realidade social e dos direitos e convocou suas professoras, falou da importância da temática abordada e as convidou a participarem
responsabilidades em relação à vida pessoal, coletiva e ambiental. Nessa perspectiva é do processo formativo. Dessa maneira, formou-se um grupo de oito professoras participantes do
que foram incorporadas como Temas Transversais as questões da Ética, da Pluralidade processo, que também se reuniam durante suas horas atividade para realizarem seus estudos e,
Cultural, do Meio Ambiente, da Saúde e da Orientação Sexual. (BRASIL - PCN, 2007 consequentemente, planejarem as ações a serem desenvolvidas.
Pág.12)
Diante da proposta do curso, a creche viu a necessidade de rever seu Projeto Político
Pedagógico, trabalhou com os pais a importância da redução do consumo de água e energia, colocou
O diferencial nessa instituição de ensino foi o fato de termos a participação da gestora como em prática a construção da horta, a qual será cuidada pelas professoras, alunos, funcionários e pais.
aluna do processo formativo; além dela, tivemos a participação de apenas uma professora no curso. Além disso, estão trabalhando com as merendeiras e com os pais uma campanha para transformar o
Foram duas pessoas, entre trinta, mas elas fizeram toda a diferença. Mobilizaram a escola toda para o óleo de cozinha usado em sabão, evitando assim, que esse óleo seja despejado no meio ambiente e
preenchimento da planilha marco zero, organizaram as lixeiras seletivas para a separação do lixo, ainda proporcionando uma boa economia para a creche.
reativaram o trabalho com a horta e acrescentaram no Projeto Político Pedagógico da escola a Com o desenvolvimento dessas ações, as professoras estão conseguindo despertar na
responsabilidade de se trabalhar a educação ambiental de modo interdisciplinar. comunidade o sentido do cuidado a partir de projetos simples, porém, eficazes, que é um dos
O trabalho de sensibilização dessas duas professoras com os demais professores e funcionários objetivos propostos pelo processo formativo e que a tem deixado cada vez mais envolvida com os 5Rs
da escola iniciou com a apresentação da proposta do curso para os mesmos, destacando a importância destacado em nosso curso: Repensar, Respeitar, Recusar, Reutilizar e Reciclar. Além disso, essa
da redução do consumo de água e energia, redução do desperdício de alimentos e da importância da instituição de ensino está plantando a sementinha da sensibilização nas crianças desde muito cedo,
separação do lixo. Nossas alunas confeccionaram uma caixa, a partir de material reutilizado para cada despertando nelas o prazer do contato com o meio ambiente, praticando aquilo que Leonardo Boff,
professor, para que os mesmos pudessem trabalhar com os alunos sobre a reciclagem do papel. Sendo em seu livro Saber Cuidar: Ética do Humano - Compaixão pela Terra, afirma:
assim, hoje todas as salas tem um local específico para colocar o papel que antes era amassado e
jogado no lixo, e as lixeiras ficaram para depósito das pontas de lápis; os demais resíduos sólidos tud começa com o sentimento. É o sentimento que nos faz sensíveis ao que está à
nossa volta, que nos faz gostar ou desgostar. É o sentimento que nos une às coisas e
produzidos vão para as lixeiras seletivas espalhadas por toda a escola. Nessa escola a educação
nos envolve com as pessoas. É o sentimento que produz encantamento face à
ambiental passou a fazer parte do planejamento semanal de todos os professores.
grandeza dos céus, suscita veneração diante da complexidade da Mãe-Terra e
Nessa perspectiva a mudança está sendo significativa e é preciso confiarmos nela e esperarmos alimenta enternecimento face à fragilidade de um recém-nascido. Esse sentimento
que o inesperado se concretize, pois como nos diz Edgar Morin (2001, p. 92): profundo se chama cuidado. Somente aquilo que passou por uma emoção, que
Na história, temos visto com freqüência, infelizmente, que o possível se torna evocou um sentimento e provocou cuidado em nós, deixa marcas indeléveis e
impossível e podemos pressentir que as mais ricas possibilidades humanas permanece definitivamente. (BOFF, 1999).

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ESCOLAS SUSTENTÁVEIS E COM-VIDA EM MATO GROSSO
Processo formativo em educação ambiental - caderno de experiências -

Considerações Finais Referência Bibliográfica

Ao avaliarmos nossa trajetória dentro do Processo Formativo em Educação Ambiental: Escolas BOFF, Leonardo. Saber Cuidar: Ética do Humano-Compaixão pela Terra. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.
Sustentáveis e Com Vida, percebemos que atingimos grande parte dos objetivos propostos pelo curso, BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais - Apresentação dos Temas Transversais e Ética, 2007. Disponível
pois todas as Instituições de Ensino envolvidas no processo apresentaram mudanças significativas no em: http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/livro081.pdf
comportamento de seus membros. Coisas simples, mas que fazem toda diferença. As questões FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 3. ed., São Paulo, Cortez, 2001.
abordadas e discutidas durante todo o curso, aliando a compreensão da identidade (EU), a nossa
MOURA. J. A importância da Educação Ambiental. Disponível em:
responsabilidade na escola (OUTRO) e a comunidade e ecotécnicas para sustentabilidade (MUNDO),
http://www.webartigos.com/articles/2717/1/Desafios-da-Educacao-Ambiental-Para-Educacao-
estão evidentes nas ações, reflexões e práxis educativas de todos os envolvidos no processo.
Infantil/pagina1.html#ixzz1JWLEq8ix
Percebemos que todas as Instituições de Ensino estão trabalhando para reduzir o consumo de Processo Formativo em Educação Ambiental: Escolas Sustentáveis e Com Vida: Tecnologias Ambientais –
energia, as crianças estão cuidando das torneiras para evitar o desperdício de água, as merendeiras Universidade Federal de Ouro Preto, 2010.
passaram a colocar uma quantidade menor de comida no prato das crianças, o trabalho com as hortas Ruiz, M. J, F. O papel social do professor: uma contribuição da filosofia da educação e do pensamento
foram reiniciados ou iniciados (no caso da Creche Municipal Anjo da Guarda e na Escola Municipal freireano à formação do professor. Disponível em: http://www.rieoei.org/rie33a03.htm.
Cecília Meireles) e o PPP foi revisto por todos os professores. http://www.webartigos.com/articles/2717/1/Desafios-da-Educacao-Ambiental-Para-Educacao-
No primeiro módulo os cursistas se surpreenderam com sua pegada ecológica, e mais ainda no Infantil/pagina1.html#ixzz1JWLEq8ix
segundo módulo, ao preencher a planilha marco zero e ao verem o quanto se é desperdiçado no http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/livro081.pdf
espaço escolar. Ao término do terceiro módulo, nos surpreendemos com a quantidade de ecotécinas
que foram exploradas do cardápio sugerido.
Compreendemos que muitos professores ainda apresentam pouco interesse em relação às
questões ambientais, e está claro que essa mudança não acontecerá do dia para a noite, mas nas
escolas onde a equipe gestora se fez presente no curso (enquanto alunas) as mudanças foram muito
significativas. Nesse sentido, consideramos que ter um gestor envolvido no processo foi de suma
importância.
Almejamos que a formação ocorrida nas escolas de Lucas do Rio Verde possa criar um
movimento no cotidiano escolar de inserção crítica dos educandos, assim como dos educadores,
confirmando as palavras do mestre Paulo Freire (1987, p.70):
Quanto mais problematizam os educandos, como seres no mundo e com o mundo,
tanto mais se sentirão desafiados. Tão mais desafiados, quanto mais obrigados a Mudar é difícil mas é possível.
responder ao desafio. Desafiados, compreendem o desafio na própria ação de captá-lo. Paulo Freire
Mas, precisamente porque captam o desafio como um problema em suas conexões
com os outros, num plano de totalidade e não como algo petrificado, a compreensão
resultante tende a tornar-se crescentemente crítica, por isto, cada vez mais
desalienada.

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ESCOLAS SUSTENTÁVEIS E COM-VIDA EM MATO GROSSO
Processo formativo em educação ambiental - caderno de experiências -
EDUCAÇÃO AMBIENTAL:
uma experiência de escola sustentável e COM-VIDA O curso foi realizado na modalidade a distância na plataforma Moodle, contou também com
alguns encontros presenciais. O cursista recebeu seu material didático online, estudou e realizou as
1 atividades propostas no curso com a avaliação do tutor, na modalidade à distância.
Adilson Ribeiro de Araujo
Neste trabalho iremos expor algumas atividades de cursistas que foram desenvolvidas na
escola da qual esse fazem parte e, a partir daí, mostraremos o trajeto percorrido para que os trabalhos
Introdução caminhassem da teoria para a prática nestas instituições de ensino.
A proposta lançada foi a de contribuir para a construção de escolas sustentáveis com
O curso de Formação denominado “Educação Ambiental: escolas sustentáveis e Com-Vida”, 2
adaptação de ecotécnicas que, na verdade, consistiu no reaproveitamento de vários recursos,
desenvolvido através do Sistema Universidade Aberta do Brasil - UAB - juntamente com Ministério da
dentre os quais podemos citar: a reutilização da água da chuva, bebedouros, criação de
Educação, criado em 2005, no âmbito do Fórum das Estatais pela Educação tem como prioridade a
compostagem de folhas, restos de alimentos, reutilização de folhas frente e verso e reciclagem do
capacitação de professores da educação básica.
papel dentro da escola. Para isto, foi condição indispensável a criação de uma mini-fábrica de
O programa teve como objetivo estimular a articulação e integração de um sistema nacional de
reciclagem de papel.
educação superior. Com esse propósito, foram firmadas parcerias com várias instituições públicas de
Para efetivar essa tarefa, partimos dos princípios e do levantamento dos conceitos de
ensino superior do Brasil.
educação ambiental, sustentabilidade, escolas sustentáveis, projeto político pedagógico e também
A posição geográfica em que nos encontramos, ou seja, na região Centro-Oeste, que é
de um estudo sobre como as técnicas são usadas no processo da implantação das ecotécnicas no
caracterizada por abrigar muitas matas e densa bacia hidrográfica, contribuiu para que a Fundação
Brasil.
Universidade Federal de Mato Grosso - FUFMT e a Universidade Aberta do Brasil - UAB, ao longo de um
Posteriormente relataremos projetos de cursistas do curso de formação em Educação
processo histórico, implementasse a educação à distância.
Ambiental: Escola Com-Vida, partindo do pressuposto da sociedade sustentável que tanto se discute
O objetivo do curso Escolas Sustentáveis e Com-vida no formato à distância, foi o de aprimorar,
neste século XXI, o que consiste em uma forma de usar os recursos naturais sem degradar de forma
expandir e interiorizar a oferta de cursos e programas de Educação Superior para todo o Brasil.
intensa o ambiente, propiciando as futuras gerações, o benefício da utilização de recursos naturais
As Instituições envolvidas neste processo formativo foram: a Universidade Federal de Mato
numa relação que possa se considerar equilibrada entre os indivíduos, as sociedades e os recursos
Grosso, a Universidade Federal de Ouro Preto-MG e a Universidade Federal do Mato Grosso do Sul. Para
naturais disponíveis.
tanto, o programa estabeleceu ainda, fortes parcerias entre as esferas, estaduais como, por exemplo,
com a Secretaria de Estado de Educação SEDUC-MT, representada pela sua gerência de Educação Educação Ambiental uma breve análise histórica
Ambiental. O surgimento da expressão “Educação Ambiental” (EA) não é recente e tem sua origem nos
O presente relato tem o propósito de discorrer sobre a experiência desenvolvida pelos cursistas anos 70, no entanto a humanidade já fazia educação ambiental desde o seu surgimento no planeta
através de curso “Educação ambiental: escolas sustentáveis Com-Vida”. Para esta ação, tomei também Terra.
como ponto de partida, a experiência construída no referido curso, onde atuei como tutor do Pólo da No início, a relação do homem com o ambiente visava somente à sobrevivência da raça
UAB de Pontes e Lacerda-MT. humana que dependia totalmente da natureza (caça, pesca e coleta de frutos silvestres). Esse ser
humano, ao relacionar-se com o mundo do qual fazia parte, ensinava seus filhos a fazer o mesmo. O
homem pré-histórico realizava a Educação Ambiental no seu senso comum, por causa da
1. Licenciatura Plena em Geografia com Especialização em Gestão e Manejo Ambiental em Sistemas Agrícolas pela Universidade Federal de Lavras - MG. 2. São tecnologias ambientais sustentáveis que visam à economia e ao reaproveitamento dos recursos naturais, incorporando saberes históricos dos grupos
Tutor à distância no curso do Processo Formativo em Educação Ambiental: Escolas Sustentáveis e Com-Vida. humanos, tanto o conhecimento universal como principalmente, as sabedorias da população local.

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ESCOLAS SUSTENTÁVEIS E COM-VIDA EM MATO GROSSO
Processo formativo em educação ambiental - caderno de experiências -

necessidade, pois era inevitável sobreviver num mundo cuja natureza era mais poderosa do que os Na sexta do dia 15 de abril do ano de 2011, o Centro de Educação de Jovens e Adultos 6 de
homens. Agosto – CEJA – executa o início do projeto, com uma ação ecotécnica. Trata-se de uma fábrica de
Para isso, todos precisavam saber quais as espécies vegetais comestíveis, como achar água sabão com utilização de resto de óleo de cozinha. Essa é a primeira iniciativa da escola em desenvolver
durante períodos secos, como se cuidar dos animais ferozes, quais os materiais que melhor se as ecotécnicas na comunidade escolar e assim fazendo ressurgir uma escola sustentável e com
adaptavam à construção das suas casas, como fazer uma fogueira ou até mesmo como criar e usar qualidade de vida para a comunidade em seu entorno.
remédios para suas doenças. As ecotécnicas são formas de construir uma sociedade sustentável e, o melhor lugar para dar
Com o passar dos tempos, mudaram as razões e constatou-se as necessidades de educar para início a essas técnicas é junto à comunidade escolar. Tais atividades estão baseadas no uso do 5Rs e
esse ambiente, bem como refletir sobre a forma de fazer Educação Ambiental. visam proporcionar menor pegada ecológica3 das diversas atividades da humanidade. Isso possibilita
Segundo ARAUJO (2010), não é possível falar do ambientalismo no mundo e no Brasil, sem uma menor redução de materiais, resultado menor do custo econômico e ambiental com a promoção
mencionar a primeira e grande Conferência de Estocolmo na Suécia em 1972 que foi um marco de vários elementos para a sustentabilidade tais como: ar puro, água potável, solos férteis,
importantíssimo para o meio ambiente. O evento contou com representantes de 113 países e foi biodiversidade, energias limpas, cidadania e justiça social, saúde, reutilização, reaproveitamento e
promovido pela ONU (Organização das Nações Unidas). reciclagem, ou seja, uso dessas ecotécnicas.
4
Neste evento foi concebido o Plano de Ação Mundial, e, em particular, foram dadas normas para O CEJA “6 de Agosto” é uma das instituições onde os cursistas do curso do Processo em
um Programa Internacional de Educação Ambiental. Apesar da sua importância, este momento Educação Ambiental: escolas sustentáveis com-vida, já ocorrem algumas dessas ecotécnicas, o
configurou-se mais como um ponto centralizado para identificar os problemas ambientais, do que aproveitamento do óleo de cozinha na fabricação de sabão e bem como a elaboração de peças
como um começo de ação para solucioná-los. decorativa de papelão, para decoração de casas, escritório e etc., visando o início de uma comunidade
Mais tarde, em 1975, a UNESCO, em colaboração com o Programa das Nações Unidas para o escolar sustentável.
Meio Ambiente (PNUMA), bem como obedecendo às recomendações da Conferência de Estocolmo,
Uma vivência dessa proposta - momentos de ações e intervenções
cria o Programa Internacional de Educação Ambiental (PIEA).
O projeto visa mudanças de vivência principalmente no interior da escola, contando com
Em outubro de 1977, aconteceu a Conferência de Tbilisi para a Educação Ambiental, constitui-se
a participação de professores, alunos, direção, coordenação, ou seja, toda a comunidade escolar, com
então, um elemento essencial para uma educação formal e não formal.
o propósito de transformar a instituição em uma escola sustentável. A finalidade do projeto é
Concluiu-se no referido Encontro que a educação deveria, simultaneamente, preocupar-se com
proporcionar essas mudanças beneficiando assim toda a sociedade como mostra a imagem 1 que
a conscientização, a transmissão de informação, o desenvolvimento de hábitos e a promoção de
consiste numa planta com imagem do Centro Educacional de Jovens e Adultos – CEJA 6 de Agosto no
valores, bem como estabelecer critérios e orientações para a solução dos problemas. A partir daí o
município de Pontes e Lacerda-MT.
propósito era o de organizar estratégias internacionais para ações no campo da educação e formação
ambiental (ARAUJO, 2010).

Relato de cursistas na definição e construção da proposta da escola sustentável


O objetivo do curso é contribuir para promover mudanças de atitude e hábitos na comunidade
escolar. Um dos caminhos para isso é a implantação da Com-Vida, sendo uma Comissão de Meio
Ambiente com Qualidade vida, principalmente nas escolas de todo o país. 3. Segundo a WWF a Pegada Ecológica de um país, de uma cidade ou de uma pessoa, corresponde ao tamanho das áreas produtivas de terra e de mar,
necessárias para gerar produtos, bens e serviços que sustentam seus estilos de vida. Em outras palavras, trata-se de traduzir, em hectares (ha), a extensão de
território que uma pessoa ou toda uma sociedade “utiliza”, em média, para se sustentar.

4. Centro Educacional de Jovens e Adultos

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Processo formativo em educação ambiental - caderno de experiências -

Acreditamos que com essa experiência da formação em Educação Ambiental, uma oferta MEC
através da parceria com a UFMT e UAB será possivel dar continuidade nesta luta por uma sociedade
mais sustentável.
Enfim, a formação em educação ambiental e escolas com-vida consistirá numa renovação para
a educação ambiental em nosso país. A partir desse curso, com a formação de vários professores em
todo o Brasil será possível criar uma comunidade escolar mais sustentável e assim contribuindo para
que o mundo possa aderir à ideia de um planeta sustentável.

Referência bibliográfica

ARAÚJO, Adilson Ribeiro de. Educação Ambiental e Sustentabilidade: desafios para a sua
aplicabilidade. 2010. 77p. Monografia (Especialização em Gestão e Manejo Ambiental em Sistemas
Agrícolas). Universidade Federal de Lavras, Minas Gerais.
DIAS, Genebaldo Freire. Educação ambiental: princípios e práticas –9. ed. – São Paulo: Gaia, 2004.
TRAJBER, R., MOREIRA, T. (coord.). Escolas Sustentáveis e Com-Vida: Processos Formativos em
Educação Ambiental
Imagem 3 GUIMARÃES, Mauro (org.). Caminhos da educação ambiental: da forma à ação. Campinas, SP: Papirus,
Fonte: LUCATO, 2011.
2006. (Coleção Papirus Educação).
PEREIRA, Maria Dulce. Processo Formativo em Educação Ambiental: Escolas Sustentáveis e COM VIDA:
Considerações finais
tecnologias ambientais. Universidade Federal de Ouro Preto, 2010. 112p.il.
Sabemos que as mudanças não serão rápidas, entretanto isso não é motivo para desistirmos de SATO, Michèle Educação Ambiental. Ed. Santos, J.E. São Carlos Rima, 2004. 66p.
lutar pela conservação da natureza e combater as injustiças sociais do país. Para muitos defender a Site: http://www.wwf.org.br/wwf_brasil/pegada_ecologica/. Acesso dia 17 de abril de 2011, às
natureza é uma perda de tempo ou que é final dos tempos. Que tempo? O tempo das mudanças 14h15min.
ideológicas da humanidade ou somente o final dessa humanidade?
Apesar das dificuldades é necessário confiar. Conforme nos diz Guimarães (2006), nessa árdua
tarefa:
Não é preciso abandonar a esperança nem a poesia para combater o apartheid étnico, o
fanatismo religioso, a dominação da indústria madereira ou a elite da agricultura da Se a educação sozinha não transforma a sociedade,
soja, mesmo que certas ideologias do Capital mostrem que esteja perdida antes sem ela tampouco a sociedade muda.
mesmo de se começar a proteger a Terra.
Paulo Freire

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Processo formativo em educação ambiental - caderno de experiências -
Na Trilha da Sustentabilidade:
uma experiência vivenciada na Escola Estadual “Pio Machado” em Acorizal/MT
A instituição em que esta ação se realiza é a Escola Estadual “Pio Machado” localizada no
município de Acorizal em Mato Grosso à Avenida Honorato Pedroso de Barros – Bairro Centro - Nº.
Cíntia Cláudia Godoy Tomazini 704, mantida pelo governo estadual, através da Secretaria de Estado de Educação, atende alunos do
Dirce Francisca S. Arruda Ensino Fundamental e Médio, com uma clientela de 500 alunos (aproximadamente), possui 17
turmas, do 3º ciclo 1ª, 2ª, e 3ª Fases ao 3º ano, além da EJA II segmento e funciona nos três períodos
O presente artigo apresenta um relato de experiência vivenciada na Escola Estadual “Pio por disciplina. A Escola possui 01 diretor, 01 coordenador e 40 (quarenta) profissionais, entre
Machado” em Acorizal/MT por uma aluna do curso de extensão, na modalidade à distância: Processo professores e funcionários administrativos.
Formativo em Educação Ambiental – Escolas Sustentáveis e Com-Vida, ofertado às escolas de Ensino A escola citada desenvolveu um projeto denominado “o lixo” vira “luxo” e a partir dos
Médio pela Rede de Educação pela Diversidade/Sistema Universidade Aberta do Brasil, do Ministério estudos realizados no curso, a professora/cursista propôs uma revisão do Projeto Político
da Educação, do Pólo de Diamantino/MT. Pedagógico da escola de forma coletiva para que se repensasse a adequação do espaço onde está
Este curso que tem como um dos objetivos tornar as instituições de ensino 'incubadoras' de localizada a oficina.
mudanças concretas na realidade social, articulando três eixos: espaço, currículo e gestão o que vem Este projeto se desenvolveu a partir da confecção de vários materiais com garrafas pet
ao encontro das Diretrizes Nacionais Gerais para a Educação Básica, do Conselho Nacional de como puff (foto 1 em anexo), bijuterias, brinquedos que teve como objetivo diminuir a quantidade
Educação, que prevê como um de seus compromissos “o equilíbrio do meio ambiente, bem de uso de lixo nos quintais de suas próprias casas, nas ruas e na escola. Levou as mães e alunos aprender e
comum do povo e essencial à qualidade de vida”. Nesse sentido, entende-se que visa oferecer, instigar possibilitar o planejamento coletivo através da coleta seletiva do lixo, desenvolvendo assim, nas
os educadores, que fazem parte deste projeto, a desenvolverem em seu ambiente de trabalho, pessoas uma consciência critica, consciente em relação ao meio em que vivem. Desenvolveu-se na
propostas que mudem a forma de utilização do Espaço escolar. comunidade um trabalho que objetivou criar oportunidades de serviços de pequenos e pequenos
Esta mudança iniciou-se com o conhecimento do Eu, engajamento que propôs analisarmos a artesãos para o mercado de trabalho.
relação estabelecida com o ambiente e se essa “vivencia” tem influências negativas, especificamente, Neste projeto foi utilizado também materiais como: garrafas “VIDRO”, Folhas (caderno
no que diz respeito aos recursos utilizados por nós no planeta. No segundo momento, tivemos a velho), Papelão, Cartela de ovo, Jornais, Revistas, Latas (milho, ervilha, sardinha) entre outros.
oportunidade de “ver” o Outro, discutir a nossa responsabilidade na escola:verificando se a mesma A responsável pelo Projeto é a professora/cursista Maria Sueli dos Santos Barros, que teve o
ocupa um “território sustentável; se o Projeto Político Pedagógico (PPP) corrobora um espaço apoio do diretor da escola e do coordenador. O mais importante é o grupo interessado neste
dedicado a Escola Sustentável e se a Implantação da Com-Vida promoveu um intercâmbio com a trabalho que abrangeu: Professores, Alunos e a Comunidade de modo geral.
comunidade. O projeto realizado pela escola segue as seguintes etapas: Apresentação aos participantes a
A terceira etapa nos incitou a ver o Mundo, a comunidade e as ecotécnicas para a meta do projeto; Organização de grupos de trabalho; Coleta seletiva do lixo; Sistematização das
sustentabilidade. Teve início com o reconhecimento e a interpretação do espaço físico da escola; tarefas; Criação de um cronograma das tarefas; Apresentação das peças em eventos da cidade de
ofereceu-nos um cardápio com várias ecotécnicas “sustentáveis” e por fim, nos convocou a acontece em datas comemorativas; Vendas dos artesanatos e a Divulgação do trabalho.
elaboração de um Projeto em nossa Escola Sustentável. Porém, a escola não possui um local apropriado para a realização das oficinas, as mesmas
A experiência aqui relatada deu-se nesse momento, ou seja, na terceira etapa, em que o coletivo acontecem nas salas que estão vagas em determinados períodos.
escolar se organizou, planejou, com o intuito de mostrar que é possível a realização de uma ação Assim, o local onde se localiza a oficina já não é suficiente para atender os trabalhos ali
transformadora que possa modificar a escola e seu entorno. realizados e sua estrutura, apesar de já ter sido reformada não atende os critérios de

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Processo formativo em educação ambiental - caderno de experiências -

sustentabilidade ambiental. Após as várias reuniões para discutir o assunto foram feitas as
adequações no PPP, tendo sido deliberado um novo local (foto 2 em anexo) para abrigar a oficina a A cursista que fez parte deste projeto sabe que ainda há muito por ser feito, mesmo assim está
partir da elaboração de um novo projeto. Percebeu-se que durante as reuniões para a deliberação das empenhada nestas mudanças e acredita também que o curso foi o principio das possíveis Escolas
adequações foi possível compartilhar com os participantes dos debates, os conhecimentos Sustentáveis.
construídos no curso demonstrando a real necessidade nas mudanças propostas. É importante ressaltar que, sem o conhecimento adquirido no decorrer do curso, essas
O projeto elaborado para concretização das mudanças ainda dependerá de verbas para a adaptações não estariam acontecendo, ou seja, as transformações começaram a ocorrer e com
construção, mas a equipe tem se empenhado na realização da mesma e a confecção dos “objetos” certeza, muitas ainda irão acontecer pois é através de conhecimentos teórico/prático que se pode
estão acontecendo de maneira intensa. promover as mudanças necessárias para a transformação de nosso espaço escolar em uma
Maria Sueli (professora da Escola e cursista) enfatiza que: verdadeira “Escola Sustentável e Com-Vida”

Referência Bibliográfica
“[...] apesar de ter sido reformada há três anos, ainda há muito o que mudar em sua Escolas Sustentáveis e Com-Vida: Processos Formativos em Educação Ambiental/Rachel Trajber e
estrutura. Seu espaço físico é pouco para atender suas necessidades e os critérios de Tereza Moreira (Coord.). –Ouro Preto (MG): UFOP, 2010.
sustentabilidade ambiental. As salas são muito quentes,( principalmente as 01,02 e 07,
MACHADO, Antônio Berto. Reflexões sobre a organização do processo de trabalho na escola. In:
em sua construção não foi considerada o caminho do sol e dos ventos). Mesmo assim,
em meio às dificuldades trabalhamos em harmonia e coletivamente [...]”
Educação em Revista. n. 9. Belo Horizonte, jul. 1989, pp. 27-31.

Ela ainda reforçou que o conhecimento construído ao longo do curso proporcionou um novo
olhar para o local da oficina, pois de acordo com as sugestões das ecotécnicas do Módulo III, os
espaços teriam sido melhores utilizados se tivessem como base as orientações e leituras oferecidas
pelo curso.
Assim, podemos afirmar que ”Esta escola é exemplo de Escola Sustentável”, uma vez que a
participação da Equipe Escolar e a comunidades faz a diferença em “ser sustentável”.
Segundo Trajber e Moreira:
A transição para que a escola se torne referência para o conjunto social, como um
espaço educador sustentável, articula-se na gestão, consolida-se no currículo e Ninguém educa ninguém,
materializa-se no espaço construído. É uma escola que evita desperdícios, ao mesmo ninguém educa a si mesmo,
tempo em que desonera o ambiente. Além disso, existem outros componentes para
os homens se educam entre si,
que uma escola se torne um espaço educador sustentável: ecoeficiência,
acessibilidade, conforto e uma estética que reflita os saberes e as riquezas culturais mediatizados pelo mundo.
locais, com a construção e seu entorno compondo uma paisagem harmônica. Dessa Paulo Freire
forma, é necessário que se possa desenhar e implantar sistemas sustentáveis tanto na
reforma quanto na construção de novos espaços (2010, p.47).

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Processo formativo em educação ambiental - caderno de experiências -
A transformação do cotidiano escolar:
processo formativo Escolas Sustentáveis e COM-VIDA escola está no centro do debate sobre a busca da sustentabilidade.
A referida escola é denominada Vila União, nome bastante sugestivo, pois percebe-se uma
forte ligação entre a comunidade local e comunidade escolar. A escola está localizada a 45 km da sede
Edicléia de Souza Rampazo
do Município de Primavera do Leste, na comunidade rural Vila União, um vilarejo cercado por
fazendas de grande extensão, que praticam a agricultura, com predominância da monocultura de
IEsse relato foi oportunizado a partir do trabalho de orientação proposto pelo Processo Formativo soja e de algodão.
Escolas Sustentáveis e Com-Vida, que pretende contemplar minha experiência como tutora presencial O espaço escolar conta com uma pequena área construída, distribuído da seguinte forma: são
no Pólo de Primavera do Leste, orientando 29 cursistas. doze turmas atendidas no período matutino (nove de Ensino Fundamental e três de Ensino Médio)
O papel do tutor neste processo formativo foi de acompanhar o envolvimento e o onze turmas estão em espaços adaptados, devido a insuficiência de salas. Desde sua construção
desenvolvimento dos cursistas em todas as etapas do curso, servindo como suporte pedagógico, bem inicial até os dias de hoje, foram construídas apenas (quatro) salas de aula. Além disso, a escola não
como, direcionando e acompanhando as atividades propostas pelo currículo do curso. Além disso, o possui sala para que seja instalada uma Biblioteca, nem sala adequada para a secretaria e a
desafio completava no auxílio em momentos de dificuldades, propondo encaminhamentos, discutindo administração escolar, hoje a Secretaria Escolar encontra-se em funcionamento dentro do
com os cursistas até encontrarmos juntos as soluções. Coube também ao tutor presencial elaborar Laboratório de Informática e a Sala dos Professores e de Coordenação Escolar estão montadas
relatórios e o registro do processo avaliativo de cada cursista sob sua responsabilidade. De acordo com dentro do Laboratório de Ciências, fato este que impede seu uso para a finalidade a qual foi
Pretti (2003) o papel do tutor no processo de acompanhamento é de estimular, motivar e, sobretudo, construído. Vale ressaltar que as escolas rurais do município só funcionam um período (turno) devido
contribuir para o desenvolvimento da capacidade de organização e de auto-aprendizagem do cursista. à abrangência da escola e a distância das fazendas até a mesma. Essa escola parece reviver o mestre
Seguindo esses preceitos pude observar que alguns cursistas apresentaram maior Paulo Freire quando dizia que muitas vezes no processo educativo o chão é o quadro negro e o
envolvimento com a proposta do curso, com mais autonomia e cumprimento dos prazos do que outros graveto o pedaço de giz (FREIRE, 1981).
que por motivos diversos não conseguiram alcançar todas as etapas proposta no curso. Evidenciando Em relação aos recursos humanos o quadro de funcionários que passam semanalmente nesta
assim, que o papel do tutor é fundamental, mas, sobretudo, o papel do cursista é que garante a unidade de ensino é composto por: um coordenador escolar, um secretário, catorze professores,
qualidade e bom desenvolvimento do curso. uma cozinheira, duas funcionárias para serviços gerais, um motorista efetivo, quatro motoristas do
Dentre muitos dos trabalhos apresentados contemplo neste relato as experiências transporte terceirizado.
desenvolvidas por uma escola localizada na área rural do município de Primavera do Leste, onde quatro
cursistas demonstraram bastante comprometimento com a proposta do curso. Engajadas na ação de Vivência da Proposta
fazer do ambiente escolar um local de mudanças no contexto da sustentabilidade. Em forma de
reconhecimento a este importante comprometimento, cito a seguir os nomes das cursitas: Ana Pereira Durante minha orientação mantive um contato muito próximo com as cursistas desta escola,
dos Santos Carvalho, Bernadete Assis da Rosa, Janice Soares Godói e Liliane Maria Scheid Leonarczyk. pois, além de tutora desempenho atividades como professora nesta Instituição. Isso fez com que
Durante o processo formativo, as cursistas citadas, posicionaram-se dispostas a levar para sua pudesse acompanhar e colaborar para que todas as atividades fossem efetivamente realizadas,
escola todas as reflexões, ações e práxis abordadas neste processo. Apresentaram por meio de suas reforçando assim a proposta do ambiente escolar que realmente venha contribuir com o objetivo da
atividades, suas leituras, suas participações nos espaços de diálogos que o curso em questão veio educação ambiental apontado por Sato & Herman (2010), quando expõe a idéia de que para que a
realmente como um propulsor de transformação de uma pequena comunidade escolar em uma educação ambiental aconteça de fato, cada medida adotada em relação ao espaço escolar, ao
grande aliada nas questões ambientais, consubstanciada por Sato & Herman (2010), onde diz que a currículo e à gestão da escola precisa considerar critérios da sustentabilidade, que devem funcionar
como balizadores de todas as ações. Consideramos fundamental transformar a escola em um espaço

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Processo formativo em educação ambiental - caderno de experiências -

vivo, integrado à natureza, de forma a criarmos um ambiente acolhedor, aconchegante e motivador, Visando a melhoria ou a minimização deste problema a escola está buscando adotar junto à
que estimule a inovação, a aprendizagem e reflita o cuidado com o ambiente e com as pessoas. Dessa comunidade, o desenvolvimento de planos de ações. No último módulo ofertado pelo curso, a escola
forma posso considerar que a escola Vila União, realmente está imbuída na proposta da Educação é apresentada como o espaço educador transformador que interage com seu mundo e busca dar os
Ambiental a qual o processo formativo preconiza. primeiros passos para o planejamento de transformações graduais, permanentes e motivadoras
Com empenho e dedicação as cursistas envolvidas nesse processo formativo realizaram todas rumo à sustentabilidade. Nesse sentido, a escola Vila União mostrou que muitas ações já são
as fases do curso, no módulo I: Eu engajamento, as cursistas resgataram o papel do eu em relação ao realizadas no ambiente escolar, ações essas que não tinham conhecimento que eram chamadas de
meio ambiente, contemplando o estilo de vida pessoal, contrapondo a sustentabilidade. Nesse ecotécnicas, onde Pereira (2010) conceitua como tecnologias ambientalmente sustentáveis, que
momento, realizou uma reflexão do seu estilo de vida em vistas a sustentabilidade, onde foi possível reduzem o uso e estimulam o reaproveitamento dos recursos naturais incorporando saberes
observar que muito ainda precisa ser feito para contemplar a proposta de uma vida realmente históricos dos grupos humanos.
sustentável, mudança começa no próprio estilo de vida, para posteriormente as transformações Mesmo sem este aporte tecnológico e científico a escola já desenvolvia algumas ecotécnicas
refletirem e outros ambientes, entre eles o escolar. em seu cotidiano, como a fabricação do sabão reaproveitando o óleo de cozinha, preservação da área
No módulo II, foi o momento em que o curso propôs transformar a escola em um ambiente verde nos momentos de reforma e construção, ilustrado na foto 1.
sustentável, articulando a educação ambiental com o Projeto Político Pedagógico da escola. Essa fase
dos trabalhos foi realizada com muita determinação, envolvendo toda a comunidade escolar.
Participaram desta ciranda de aprendizagem e mudanças não somente as cursistas, mas também os
alunos, os técnicos de serviços gerais.
Esse momento oportunizou as cursistas uma reflexão muito importante sobre o papel dos
educadores diante das dificuldades que as escolas enfrentam frente à problemática ambiental. Muitas
questões foram levantadas, mas juntamente com os problemas, já apontaram as possíveis soluções,
por exemplo: quanto ao uso de agrotóxicos propuseram convidar a comunidade escolar e local para
expor o problema e reunir os fazendeiros da região para juntos encontrarem medidas e soluções
Outra problemática destacada pelas cursistas envolvidas nessas ações, foi a questão do lixo
doméstico e escolar, que no caso da escola é queimado e os moradores por não terem o que fazer com
seus resíduos acabam jogando a céu aberto, deixando nos quintais ou imediações da Vila.
A escola por ser o único órgão que representa a presença do poder público na localidade vem
adotando há um ano a tática de recorrer e cobrar o Poder Público, para resolver esta problemática com
a adoção de um contêiner para a remoção do lixo coletivamente. Contudo, o início deste ano a
prefeitura retirou o contêiner e não recolocou, deste modo, a coordenação vem buscando a renovação Foto 1- Planta frutífera da
espécie da Theobroma
desta oferta que servia para atender a demanda da escola e da comunidade. Frente a esta questão uma
cacao, popular cacaueiro,
das ações realizadas pelas cursistas foi mobilizar a comunidade através de um abaixo assinado preservado durante a
envolvendo alunos e comunidade, solicitando novamente o serviço de coleta, que até o momento não pavimentação da escola.
teve retorno do órgão responsável.

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Processo formativo em educação ambiental - caderno de experiências -

Outras ecotécnicas que merecem destaque na escola é a horta escolar, e também a adoção da Considerações Finais
caneca e garrafinhas ecológica assim batizada pelos alunos, conforme a foto 2, que são utilizada para Resgatando o objetivo do Processo Formativo em Educação Ambiental: Escolas
professores e alunos. Sustentáveis e Com Vida de tornar a escola um local em que a discussão e a tomada de decisões
acerca das questões ambientais estejam aliadas ao Projeto Político da Escola, proporcionando um
espaço escolar sustentável. Percebe-se que a comunidade escolar Vila União, tem a Educação
Ambiental presente em suas práxis pedagógicas, até então apresentadas como ações isoladas,
porém, no momento, vai além contemplando no fazer da escola um espaço compartilhado de
discussões e ações voltadas ao contexto ambiental.
Durante a participação no curso, a questão da sustentabilidade no ambiente escolar,
oportunizou uma reestruturação do Projeto Político Pedagógico, onde a gestão, as cursistas e eu
enquanto professora da instituição, colocamos a Educação Ambiental não apenas como mais um
projeto da escola desenvolvido em datas comemorativas, mas, sobretudo, como uma discussão que
permeará todo o processo de ensino-aprendizagem no cotidiano escolar na Escola Vila União.
Todas as atividades propostas em cada eixo foram desenvolvidas satisfatoriamente,
permitindo assim, um momento de reflexão e tomadas de decisões que oportunizasse abranger as
famílias que compõem esta comunidade escolar através da sensibilização e valorização do bem estar
socioambiental e o saber contextualizado e sistematizado.
Através da tutoria nesse processo formativo percebi um anseio muito forte por parte das
cursistas dessa escola pautado no desejo de proporcionar a sensibilização dos educandos e da
comunidade sobre o fato de que é possível trabalhar e realizar atividades que enriqueçam o processo
Foto 2- Momento de de ensino aprendizagem, pautados no respeito e a valorização do meio ambiente.
confraternização da
escola, mostrando o uso
das canecas.
Referência Bibliográfica
LEGAN, Lúcia. Escola Sustentável. Editora Imprensa Oficial, 2007.
FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. 12 ed. São Paulo: Paz e Terra, 1981.
Desta forma, a escola está buscando cumprir o papel de transformar a realidade local. PEREIRA, Dulce Maria. Escolas Sustentáveis e Com Vida: Processos Formativos em Educação
Mostrando-se como uma instituição que visa em sua intencionalidade pedagógica comprometer-se Ambiental. Módulo II: Mundo,comunidade e ecotécnicas para a sustentabilidade. Ouro Preto:
com a sustentabilidade do ambiente. Nesse sentido Legan (2008), afirma que temos consciência de EdUFOP.2010.
que as iniciativas da escola são fundamentais para promover a sensibilização dos alunos, os futuros PRETTI, Orestes. Estudar a distância: uma aventura acadêmica. Cuiabá: EdUFMT,2008.
adultos que tomarão conta do planeta. SATO, Michéle; OLIVEIRA, Herman. Escolas Sustentáveis e Com Vida: Processos Formativos em
Educação Ambiental. Módulo I: Eu, engajamento. Cuiabá: EdUFMT.2010.

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Processo formativo em educação ambiental - caderno de experiências -
A vivência da Escola Municipal Guarujá no
processo formativo Escolas Sustentáveis e COM-VIDA Compõe nossos objetivos específicos:

Desenvolver as ecotécnicas;
Dirce Bitdinger
Cooperar em projetos coletivos;
Compreender a interação existente entre solo, água e nutrientes;
Introdução Valorizar a importância do trabalho e cultura do ser humano do campo;
Identificar técnicas de manuseio do solo e manuseio sadio dos vegetais;
Neste relato de experiência temos como objetivo descrever a vivência da Escola Municipal Guarujá no Conhecer técnicas de cultura orgânica;
processo formativo do curso: Escolas Sustentáveis e Com Vida. Buscando aliar os conhecimentos Identificar processos de semeadura, adubação e colheita;
teóricos adquiridos à prática cotidiana escolar, iniciamos nossas ações desenvolvendo alguns projetos, Conhecer pela degustação os diferentes alimentos cultivados bem como nomeá-los
dentre eles o projeto “Horta escolar”, posteriormente, avançando nessa aliança (teoria-prática) corretamente;
começamos a ecotécnica de compostagem. Além disso, uma das ações que também merece destaque Buscar informações em diferentes fontes de dados para propor avanços a desenvolvimento
é o reaproveitamento do óleo de cozinha que anteriormente não tinha destino adequado na escola. de técnicas;
Com as leituras sugeridas e as atividades desenvolvidas nossos olhares referentes a todo o meio em Analisar e refletir sobre prejuízos dos desperdícios alimentares;
que estamos inseridos começou a ficar mais crítico, e essa transformação é possível também de ser Compreender a importância de uma alimentação equilibrada para a saúde;
percebida em nossos alunos, pois sempre é frizado a necessidade de discutir essas ações também em Sensibilizar os alunos e a comunidade escolar sobre a importância da educação ambiental.
suas casas. Ancorados nestes objetivos a experiência, neste ano, será desenvolvida com envolvimento de 265
Desde o primeiro módulo começamos a desenvolver as ações na escola, e essas foram se estendendo e alunos do Ensino Fundamental 1º e 2º Ciclo com de 9 Anos de idade, distribuídos nos turnos matutino e
aprimorando no decorrer de todo o processo de formação. Conseguimos eleger dois representantes vespertino. Para que as ações deste prjeto não sejam “retalhos da realidade desconectados da
por turma para compor a COM-VIDA, criada com objetivo principal de proporcionar a comunidade totalidade em que se engendram” (FREIRE, 1987, p. 57) contamos também com a participação de 23
escolar, por meio da produção de hortaliças, uma alimentação saudável e colorida, focando a funcionários da escola, destes 11 são professores, 1 Coordenadora e 1 Gestor escolar em todas as
relevância do trabalho cooperativo no manejo da horta. A escolha por essa ação está embasada no etapas, interligando os saberes e aliando a teoria e a prática. Com um grande espaço físico de 5000m²
intuito de mudar a estética do ambiente escolar, assim como, no processo de sensibilizar os envolvidos temos o privilégio de possuir bastante áreas para desenvolver nosso projeto.
para importância de inserção da educação ambiental em nosso cotidiano, proporcionando assim uma
melhoria do ambiente escolar. Desenvolvimento
O projeto foi apresentado para o grupo de professores que demonstrou grande aceitação, e
que em seguida passou para os alunos à importância de se trabalhar a melhoria do ambiente
produzindo a Horta Escolar, os professores cursistas ficaram como líder de cada etapa: limpeza do
local, preparação dos canteiros, semeadura e colheita.
Os canteiros foram divididos por turmas, sendo dez canteiros e dez turmas envolvidas no
Ai de nós, educadores e educadoras, processo. Nas aulas de Ciências, Matemática, Língua Portuguesa também trabalhamos a horta
escolar, a iniciativa da horta escolar em nossa escola surgiu da vontade de todos de melhorar um
se deixarmos de sonhar sonhos possíveis.
Paulo Freire
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Processo formativo em educação ambiental - caderno de experiências -

ambiente que antes só tinha mata e mandioca plantado, acreditamos que poderia tornar o local mais
atrativo, e foi o que aconteceu. O projeto está inserido no PPP da escola, e todos da escola têm
envolvimento diretamente no projeto.
Quando tem necessidade de intervenção nos reunimos e damos sugestão ao grupo de alunos e
professores para podermos aperfeiçoar cada vez mais a nossa prática a qual estamos nos Mudar um pedaço do mundo
aperfeiçoando cada vez mais buscando alternativas para melhorar nossa horta e nosso ambiente é também mudar o mundo.
escolar.
Paulo Freire
Considerações Finais

Com certeza estamos apenas começando o curso Processo Formativo Escolas Sustentáveis e
Com Vida, mas que este nos abriu novos horizontes isso não podemos negar, mas ainda temos muito
que estudar para podermos repassar para nossos alunos esse projeto sobre a Horta Escolar.
Nossa pegada ecológica tem muito ainda o que melhorar desenvolver as ecotécnicas em nossa
vida também é bem interessante e tem melhorado nosso dia a dia. Com este projeto horta nossos
alunos vão poder saborear hortaliças mais saudáveis sem agrotóxicos e que eles mesmos ajudaram a
produzir.
Cada turma cuida de um canteiro onde os alunos também fazem pesquisa e observações do
tempo que leva para nascer, produzir as vitaminas que possui como podemos preparar este alimento e
os mesmos trazem sugestões de receitas.

Referência Bibliográfica

Disponível em: http://www.educandocomahorta.org.br/site/. Acesso em 23/04/2010.


Disponível em: http://www.agrofloresta.net/. Acesso em 20/03/2011.

Não se pode falar de educação sem amor.


Paulo Freire

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Processo formativo em educação ambiental - caderno de experiências -
Frutos do Cerrado: uma ferramenta pedagógica e complemento alimentar para
a Escola Municipal do campo Apóstolo Paulo saúde, as iguarias do cerrado podem ser adquiridas em comunidades extrativistas, indígenas e de
pequenos agricultores apoiados por organizações ambientalistas. Muitos estudos mostram que os
1
Eciele Aparecida da Silva frutos do cerrado são fontes de vitamina e minerais de alto valor nutricional.
2
Patricia Bortulluzzo As fruteiras nativas ocupam lugar de destaque no ecossistema do cerrado e seus frutos já são
comercializados em feiras e com grande aceitação popular. Esses frutos apresentam sabores sui
INTRODUÇÃO generis e elevados teores de açúcares, proteínas, vitaminas e sais minerais e podem ser consumidos in
natura ou na forma de sucos, licores, sorvetes, geléias entre outras formas de comercialização e
O estudo da educação ambiental abrange várias áreas do conhecimento e nos faz pensar sobre conservação. Hoje, existem mais de 58 espécies de frutas nativas dos cerrados conhecidas e utilizadas
as relações do ser humano com o ambiente, visto que deve preparar os indivíduos observando os pela população (Ávidos e Ferreira, 2003).
problemas do mundo contemporâneo, possibilitando-lhes conhecimento necessário para melhorar a A escola é um meio propício para que o indivíduo tenha percepção critica de si e da
vida e proteger o meio ambiente. Requer que questões ambientais sejam praticadas tanto dentro comunidade, podendo assim entender a sua posição e sua inserção social. Como agente educativo na
quanto fora da escola, para que o ser humano tenha o melhor entendimento sobre questões sociais formação de cidadãos responsáveis e ativos, podendo através da educação ambiental atuar como
que envolvam o meio ambiente, com a participação não só dos alunos, mas também da família e da mediador no processo de desenvolvimento de praticas de sustentabilidade dos recursos naturais.
comunidade em geral; onde todos em conjunto sensibilizem-se e comecem a tomar atitudes que A Escola Apóstolo Paulo está localizada no campo, Distrito Serrinha, município de Água Boa -
diminuam os impactos ambientais muitas vezes causados pelo próprio homem. MT onde predomina o bioma Cerrado. Esse projeto de assentamento (Serrinha) possui
Esta educação pautada na sustentabilidade tem como objetivo refletir e discutir sobre os aproximadamente 110 famílias distribuídas na área urbana e área rural do município, está localizado na
comportamentos e as atitudes ambientalmente adequadas possibilitando o desenvolvimento de bacia do Xingu, a qual possui 51,1 milhões de hectares e se encontra com um alto índice de degradação
estratégias ou táticas voltadas à construção de sociedades sustentáveis, ou seja, assegura uma gestão do ambiente natural. (YKATU, 2006).
responsável e inteligente - evidentemente produtiva dos recursos naturais do planeta de forma a É neste contexto inquietante que elaboramos um projeto que viabilizasse a utilização das
preservar a possibilidade de vida também as gerações futuras, é claro, de garantir o atendimento das espécies frutíferas do Cerrado, tendo assim como título Frutos do Cerrado: uma ferramenta
necessidades das gerações atuais, proporcionando a compatibilização entre as práticas econômicas e pedagógica e complemento Alimentar da Escola Municipal do Campo Apóstolo Paulo. Com os
as conservacionistas, trazendo reflexos positivos evidentes destinados á qualidade de vida de todos. objetivos de construir um campo experimental para reconhecimento das formas de uso e de
O bioma cerrado é o segundo maior bioma brasileiro, estendendo-se por uma área de iniciativas de aproveitamento sustentável de espécies frutíferas do Cerrado além de canteiros com
2.036.448km, equivalente a 23,9% do território brasileiro. A maior parte do estado de mato grosso é hortaliças.
coberta pela vegetação de cerrado. O estado de Mato Grosso possui a maior parte desse bioma com Esse trabalho discute a preservação e conservação do Meio Ambiente, na mesma
422,1mil km, apresenta 509 espécies de planta medicinais identificadas, além de abrigar fauna preocupação sobre consumismo, desperdício, violência, egoísmo, desrespeito, preconceito,
exuberante. O bioma cerrado ocupa aproximadamente 45% do território do estado de Mato Grosso, irresponsabilidade e tantas outras atitudes questionáveis dentro de uma perspectiva de melhoria de
segundo dados da (Embrapa, 2003). qualidade de vida.
A Gastronomia está se tornando a mais nova fronteira de conservação do cerrado brasileiro. De As estratégias utilizadas para atingir os objetivos do projeto maior são muito variadas,
boca em boca, a notícia de que o bioma é um manancial de frutos, castanhas e polpas deliciosas já cabendo a cada educador, dentro da sua realidade, a escolha daquela mais indicada. Acredita-se que
chega a mercados importantes do Brasil e do exterior. Além de comprovadamente eficientes para a quanto mais a estratégia estiver envolvida com questões práticas e lúdicas, maior será o resultado
proposto. Por isso envolver o lúdico como: jogos de simulação, brincadeira, passeios, maior será o
1. Eciele Aparecida da Silva ecieleap@hotmail.com
2. Patricia Bortullozzo patricia_bort12@hotmail.com
êxito em nossas atividades.

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Processo formativo em educação ambiental - caderno de experiências -

A grande tarefa da escola hoje é proporcionar um ambiente escolar saudável e coerente com realidade do aluno de forma interdisciplinar.
aquilo que ela pretende que seus alunos pratiquem, para que possa, de fato, contribuir para a formação Os alunos aprenderam a consumir verduras e legumes na escola e a desenvolver atividades
da identidade como cidadãos conscientes de suas responsabilidades com o meio ambiente e capazes pedagógicas através do plantio nos canteiros de Agrofloresta na horta escolar,confeccionaram novas
de atitudes de proteção e melhoria em relação a ele por meio do exercício da participação em receitas, foram incentivados a consumirem alimentos saudáveis e observarem a importância de
diferentes instâncias como atividades dentro da própria escola e nos movimentos da comunidade. zelarem pelo ambiente cultivando nos viveiros as sementes dos frutos que foram colhidos nas aulas
A partir da problemática observada que é a Agrofloresta longe do perímetro escolar de campo e possibilitou a utilização dos frutos do cerrado como produção sustentável.
dificultando o trabalho do professor em levar esses alunos até o local, procurou-se incentivar os alunos Salienta-se que as oficinas envolvendo os frutos do cerrado foram realizados somente a partir
a fazer um Campo Experimental para Valorização dos Frutos do Cerrado e sua inserção no cardápio da do momento em que as frutas se frutificam, alguns frutos por causa da falta de chuva demoram mais
escola. A escola atualmente funciona em período integral e atende da Educação Infantil ao Ensino para frutificar fazendo com o projeto se estenda mais. Desse modo trabalharemos toda parte que
Médio, sendo este ultimo extensão de uma escola da estadual, EE Antonio Grohs. Na Matriz curricular fala da importância dos frutos e os seus nutrientes para então a seguir trabalhar na pratica junto com
da escola foram incluídas temáticas vinculadas ao meio ambiente, facilitando o trabalho em sala de aula os alunos receitas assim como foi feito nas oficinas envolvendo as verduras e hortaliças
de acordo com a realidade do aluno. proporcionando aos educandos a observação através das atividades de observar acontecimentos,
A escola tem em sua proposta curricular o trabalho com projetos, considerando que a pesquisa experimentos, gravuras, desenhos, desenvolvendo atividades que fazem parte de sua realidade.
é um instrumento que possibilita a mediação, a conexão entre os conhecimentos teóricos e o meio A partir do projeto, os alunos começaram a defender a idéia da conservação do meio
socioambiental, cultural e econômico do aluno. Através da pesquisa os professores e alunos estudam ambiente e o desenvolvimento sustentável. É gratificante ver o resultado do nosso trabalho dando
no laboratório vivo que dispõe o aluno do campo: a natureza, as florestas, o campo experimental, a resultado através dos relatos dos alunos na sua desenvoltura em falar tudo o que conseguiram
cultura e os saberes dos povos do campo. Por meio da pesquisa alunos e professores diagnosticam aprender e estão aprendendo através dos projetos onde os maiores autores são eles próprios.
problemas em sua comunidade e fazem intervenção na mesma. Observou-se que através de pequenas ações realizadas, voltadas para nossa realidade, a criança
Esse é o papel do educador, mostrar caminhos para que os alunos aprendam a partir da sua aprende a falar no seu ambiente natural, as mais diversas aprendizagens ocorrendo naturalmente,
realidade no local que está inserido. Levando os educandos a serem ativos e participativos onde o pois ela está inserida na verdadeira e pedagógica escola de sua realidade, onde se atende desde os
professor tem um papel de orientador não de transmissor de conhecimento, pois o conhecimento é que têm mais facilidade no processo do ensino aprendizagem aos que levam um pouco mais de tempo
construído no dia a dia de cada um e de modo geral, todas as ações desenvolvidas estão contribuindo para desenvolver o seu aprendizado formal.
para o despertar da sensibilidade ambiental dos alunos, pais, professores e para o exercício do Na realização desse projeto aprendeu-se muito através do planejamento coletivo e da partilha
cooperativismo e solidariedade . de saberes entre educando e educadores, mas também deparamos com dificuldades relacionadas a
uma sala multisseriada com alunos em diferentes níveis de aprendizagem e idade e o controle da
Considerações Finais disciplina e a rejeição de algumas famílias em termos de aula de campo (no plantio e cultivo das mudas
e sementes ) que é vista como desperdício de tempo, mas graças a muita conversa e sensibilização dos
Para a realização da pesquisa utilizaram-se várias leituras bibliográficas, aulas recreativas, pais sobre a importância do trabalho de pesquisa, utilizando a realidade do aluno esse obstáculo já
oficinas, gincanas e pesquisa de campo fazendo um elo entre as disciplinas e valorizando o está preste a ser vencido.
conhecimento do educando. Pode-se dizer que os objetivos estão sendo alcançados, porque ao Conhecendo o local onde vive e os cuidados com a natureza ajuda a melhorar a vida. O Projeto
incentivar os alunos na prática da Educação Ambiental focando a Escola Sustentável através dos oportunizou a aplicação e continuidade dessas práticas, permitindo a mudança de hábitos, por meio
Campos Experimentais no Perímetro Escolar para a valorização dos frutos do cerrado e a sua inserção de um processo de interação entre escola e comunidade, promovendo melhorias na qualidade de
no cardápio escolar e do trabalho coletivo conseguiu inovar nossa metodologia, trabalhando a vida. Em uma nova etapa do trabalho, o projeto propiciará ao aluno a exposição do aprendizado e a

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Processo formativo em educação ambiental - caderno de experiências -

possibilidade de trabalharem como atores sociais, através de feira de ciências. Com isso, pode-se Escola Sustentável e COM-VIDA: Projeto Horta Escolar
afirmar que os resultados com a aplicação do projeto já são visíveis porque os alunos envolvidos estão
desenvolvendo a capacidade de saber, saber fazer e saber ser na realização de suas atividades
cotidianas.
Silvia de Almeida Silva
Referência Bibliográfica Ruth Pinto Camargo

ÁVIDOS, M. F. D.; FERREIRA, L. T. Frutos dos Cerrados – Preservação gera muitos frutos. Disponível em: Introdução
<http://www.biotecnologia.com.br/bio15/frutos.pdf> Acesso em: 22 dez. 2010.
BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Frutas do Brasil. EMBRAPA.Brasília, 2003. Neste relatório vamos descrever como foi desenvolvida nossa experiência de Escolas
106p. Disponível em: <http://www.yikatuxingu.org.br/wp-ontent/uploads/2010/05/cartilha-aguas-matas- Sustentáveis e Com-vida na Escola Municipal Guarujá. Começamos desenvolvendo o Projeto Horta
final.pdf> Acesso em: 14 dez. 2010. Escolar e ao começar o curso passamos então a aproveitar as teorias e por em prática, foi o caso da
compostagem, e também nossos olhares referentes a todo o meio começou a ficar mais crítico. Em
nossa escola também aproveitamos o óleo de cozinha usado que iria para o ralo ou diretamente ao
solo para fazer sabão tanto líquido como em barra, além das ações que temos na escola repassamos
Não posso continuar sendo humano se em sala de aula para nossos alunos que as mesmas ações que eles têm na escola devem ter em casa
faço desaparecer em mim a esperança. também.
Paulo Freire A experiência começou logo no módulo I e foi se estendendo ao longo do curso com ações
como eleição por turma de dois representantes para a Com-vida que foi criada em nossa escola, e o
nosso objetivo principal é proporcionar a comunidade escolar uma alimentação saudável e colorida,
tornando um trabalho prazeroso e de cooperação no manejo da horta, com a intenção de mudar o
ambiente tanto na visualização quanto na conscientização da educação ambiental a melhoria do
ambiente escolar.

Nossos objetivos específicos:


Identificar técnicas de manuseio do solo e manuseio sadio dos vegetais;
Conhecer técnicas de cultura orgânica;
Desenvolver as ecotécnicas;
Compreender a relação entre solo, água e nutrientes;
Identificar processos de semeadura, adubação e colheita;
Conhecer pela degustação os diferentes alimentos cultivados bem como nomeá-los
corretamente;
Cooperar em projetos coletivos;

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Processo formativo em educação ambiental - caderno de experiências -

Buscar informações em diferentes fontes de dados para propor avanços a desenvolvimento de Considerações Finais
técnicas; Com certeza estamos apenas começando com o curso Processo Formativo Escolas
Análise e reflexão sobre prejuízos dos desperdícios alimentares; Sustentáveis e Com Vida, mas que este nos abriu novos horizontes isso não podemos negar, mas
Compreender a importância de uma alimentação equilibrada para a saúde; ainda temos muito o que estudar para podermos ensinarmos para nossos alunos esse projeto sobre a
Trabalhar com os alunos e a comunidade escolar sobre a importância da educação ambiental. Horta Escolar, além de outros conceitos como identidade e território que podem nos fazer refletir
sobre nossa condição na escola.
Esse ano a experiência será desenvolvida com a participação de 265 alunos do Ensino Nossa pegada ecológica tem muito ainda o que melhorar desenvolver as ecotécnicas em nossa
Fundamental de 9 Anos 1º e 2º Ciclo, distribuídos nos turnos matutino e vespertino. Também com a vida também é bem interessante e tem melhorado nosso dia a dia.
participação de 23 funcionários da escola destes 11 são professores, 1 Coordenadora e 1 Gestor escolar. Com este projeto nossos alunos vão poder saborear hortaliças mais saudáveis sem
Nossa escola é construída em uma área de 5000m² temos bastante espaço para desenvolver agrotóxicos e que eles mesmos ajudaram a produzir.
nosso projeto. Cada turma cuida de um canteiro onde os alunos também fazem pesquisa e observações do
tempo que leva para nascer, produzir as vitaminas que possui como podemos preparar este alimento
Desenvolvimento e os mesmos trazem sugestões de receitas.

Referência Bibliográfica
O projeto foi apresentado para o grupo de professores que demonstrou grande aceitação, e
que em seguida passou para os alunos à importância de se trabalhar a melhoria do ambiente
Disponível em: http://www.educandocomahorta.org.br/site/ acesso em 23/04/2010.
produzindo a Horta Escolar, os professores cursistas ficaram como líder de cada etapa: limpeza do
Disponível em: http://www.agrofloresta.net/ acesso em 20/03/2011.
local, preparação dos canteiros, semeadura e colheita. Nesse sentido percebemos o quanto é
Processo Formativo em Educação Ambiental. Escolas Sustentáveis e COM VIDA: Tecnologias
importante a identificação por parte dos envolvidos em relação ao projeto pelo fato de estarmos
Ambientais Universidade Federal de Ouro Preto, 2010.
semeando ações num espaço coletivo.
Os canteiros foram divididos por turmas como são dez canteiros e temos dez turmas ficou tudo
certo. Nas aulas de Ciências, Matemática, Língua Portuguesa também trabalhamos a horta escolar, a
iniciativa da horta escolar em nossa escola surgiu da vontade de todos de melhorar um ambiente que
antes só tinha mata e mandioca plantado, acreditamos que poderia tornar o local mais atrativo, e foi o
que aconteceu. O projeto está inserido no PPP da escola, e todos da escola têm envolvimento
diretamente no projeto.
Quando tem necessidade de intervenção nos reunimos e damos sugestão ao grupo de alunos e
professores para podermos aperfeiçoar cada vez mais a nossa prática a qual estamos nos
aperfeiçoando cada vez mais buscando alternativas para melhorar nossa horta e nosso ambiente Educação não transforma o mundo.
escolar. Educação muda pessoas.
Pessoas transformam o mundo.
Paulo Freire

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Processo formativo em educação ambiental - caderno de experiências -
Ribeirão Bonito: local de memória, a construção de identidades
socioambientais através do imaginário relacionado ao rio O projeto, de desenvolvimento aparentemente simples, visava levar os alunos e todo o grupo
escolar a visitas constantes ao córrego Ribeirão Bonito e ao núcleo populacional Ribeirão Bonito, e fez
1
Flávia Lorena Brito parte dele desde visitas e entrevistas com antigos e novos moradores do local, até banhos e passeios,
fotos e brincadeiras no rio, que acreditamos, seja o principal local de memória da cidade, esta
O Tejo tem grandes navios aproximação entre os estudantes e o local do ponto de vista socioambiental não deixa de ter muita
E navega nele ainda, proximidade com a proposta da biografia ecológica como atividade do Módulo I, ainda que não
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está, tenhamos realizado as visitas com o intuito de fazer um levantamento biográfico e da memória
A memória das naus. mesma.
O Tejo desce de Espanha A cidade de Ribeirão Cascalheira, assim como tantos outros processos de ocupação em nosso
E o Tejo entra no mar em Portugal. estado: expulsão camponesa de suas terras e concomitante expansão da fronteira agrícola no Brasil,
Toda a gente sabe isso. iniciada a partir da década de 1960 e princípios de 1970.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia Por razões de ordem econômica e política grandes grupos econômicos passaram a realizar
E para onde ele vai
espoliação da terra antes pertencente a famílias e pequenos grupos que praticavam a agricultura e
E donde ele vem.
pecuária de subsistência. A população, então expulsa do campo, fixou-se às margens do que seria,
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia. mais tarde, conhecido como Ribeirão Bonito e daria nome à cidade.
(O rio da minha aldeia – Alberto Caeiro) Em função de sua luta comum contra o invasor, os laços de união dessa população vieram para
a cidade junto com eles. Formou-se assim, um núcleo populacional urbano bastante peculiar, com
hábitos rurais. Uma comunidade tradicional, que vivia em torno do rio, numa relação recíproca com o
Introdução meio em que habitavam e com particularidades de uma comunidade que tinha por objetivo o
desenvolvimento do núcleo populacional urbano diretamente ligado àquela porção menor de terra
No ano de 2009 foi iniciado o projeto Ribeirão Bonito: local de memória, junto aos alunos da 3ª como meio de sobrevivência.
Fase do 3º Ciclo da Escola Estadual de Educação Básica Cel. Ondino R. Lima, na cidade de Ribeirão Acreditamos que a relação histórica que liga o Ribeirão à população camponesa impede seu
Cascalheira, tendo sido concluído no ano de 2010. desenvolvimento urbano. Além disso, visões estereotipadas sobre o camponês, leva o restante da
A escola é a única atualmente na cidade a oferecer o Ensino Médio e a modalidade EJA, população a se fixar “depois da ponte”, junto ao chamado “progresso”. O próprio córrego recebe
funcionando nos três turnos nas demais modalidades e níveis de ensino. É de extrema importância para nomes pejorativos, e já foi chamado “Ribeirão dos porcos”. Mas, o que liga essa população ao local? O
a população local, por ser a única da rede pública estadual no município. O grupo de alunos é bastante que faz com que esse povo sinta-se, ainda, ligado ao Ribeirão Bonito? O que faz com que este local seja
heterogêneo, sendo composto por crianças e adolescentes das zonas rural e urbana e do núcleo esquecido pelo poder público, encontrando-se na mesmo condição há décadas? Enfim, se a
Ribeirão Bonito, o que a torna bastante peculiar e foi justamente essa peculiaridade que nos levou a população do local, em sua maioria, é composta por pioneiros da cidade, porque a estagnação do
refletir sobre a relação específica entre sua população e o rio que banha a cidade, em torno do qual se bairro?
iniciou a formação urbana do município, mas que também é, atualmente, local de preconceitos e Pode um rio ser local de memória, guardião de histórias, hábitos e costumes?
estereótipos relacionados à sua população. Acreditamos que sim.
Buscamos demonstrar uma interação recíproca, onde a população identifica o córrego como
1. Graduada em História pela Universidade Estadual de Goiás no ano de 2006. Professora de Educação Básica da rede pública estadual de Mato Grosso.
Tutora presencial do Processo Formativo em Educação Ambiental Escolas Sustentáveis e COM-VIDA.
parte de si e componente cultural de sua história em contraste com a população do centro urbano,

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Processo formativo em educação ambiental - caderno de experiências -

que vê essa relação de maneira negativa. A população do Ribeirão vive às margens do rio, mas não deve Na realização deste projeto, o viés suleador foi a diversidade humana, social e cultural,
mais ser considerada população tradicional: está entre o rural e o urbano. Vive em função do rio apenas entendendo esta como uma manifestação da diversidade socioambiental que nos constitui como
na medida em que este representa a constituição identitária de seu grupo. Portanto, observamos maneira própria de interiorizar a diversidade ambiental e criarmos nossa identidade a partir do meio
como aspectos culturais e naturais se entrelaçam abrigando aqui outro ponto de intersecção com o externo ao qual estamos ligados. Nesse sentido faz-se necessária uma analise antropológica desta
Processo Formativo: Identidade ligada ao local. relação entre a população local e o rio. Como se desenrolou esta relação no inicio e atualmente? O que
condicionou a mudança de uma população tradicional para uma população entre o camponês e o
Objetivos urbano? E que implicações esta mudança gerou ao rio e ao Ribeirão Bonito? Fazer esta análise é
perceber como a memória está presente em um local, e relacionar esta “memória socioambiental” ao
desenvolvimento de uma sociedade, é garantir a ela seu papel enquanto meio para perpetuar toda
Apesar de ser um projeto de pesquisa de caráter historiográfico, trouxemos aqui um recorte para diversidade existente em torno dela.
atender a finalidade desta publicação, por isso, entre outras coisas destacamos os seguintes Entendemos que o desenvolvimento da relação do homem com a natureza pode e deve
objetivos: condicioná-lo a uma experiência que vislumbre a sua condição de existência como ser que faz parte de
Ÿ Discutir identidade num âmbito histórico cultural;
uma diversidade ambiental e cultural. Mas se por algum motivo – alheio ou ignóbil – sua condição
sócio-histórica não permitir este vislumbre, deve-se de alguma forma, tentar recobrar deste a
Ÿ Refletir sobre educação ambiental através da problematização da relação entre a sociedade e o rio. capacidade de perceber o processo histórico antropológico que foi capaz de trazê-lo à situação em
que se encontra , seja ela qual for. Esta é a função social da história. E a antropologia mesclada a esta
Desenvolvimento do projeto pode satisfazer as condições necessárias para a realização deste trabalho.
O Córrego Suiazinho, ou Ribeirão Bonito e o núcleo populacional que se formou em seu redor,
Visitamos os arquivos da igreja local, buscando ali vestígios da história do Ribeirão Bonito. Esta são locais de memória. São compostos de lembranças bucólicas e ardilosas de um período de luta pela
foi encontrada em fotos e, especialmente, no jornal “Alvorada”, um informativo da região produzido sobrevivência contra as condições políticas, econômicas e sócio-culturais. Um local que “de braços
pela comunidade e pela Prelazia; e em narrativas dos próprios envolvidos na história. Com isso, abertos” acolheu o camponês. Este camponês espoliado também foi – em sua maioria – o resistente a
conseguimos produzir um texto suleador. Em seguida, realizamos visitas ao local. Fomos às casas dos esta espoliação gerada pelos anseios de um sistema político e econômico voltado para as grandes
moradores mais antigos, olhamos seus álbuns de fotos, conversamos, entrevistamos. Algumas fotos corporações. Este local que hoje se encontra quase da mesma forma em 40 anos de existência é um
nos foram cedidas, para que fossem digitalizadas e postas à disposição daqueles que quisessem local de memória, que por sua representatividade é olhado de forma pejorativa por grupos políticos e
conhecer um pouco da história local. Foi realizada uma exposição na escola com as fotos e um pouco de por uma parcela de sua antiga população. Destes últimos, estes olhares são pela dor da lembrança de
suas histórias. tempos e fatos imemoráveis e de outros embevecidos com “o brilho do nosso tão paradoxo
Ao final de cada dia de trabalho, íamos ao rio, tirávamos fotos, observávamos, e eram progresso”.
produzidos textos sobre as impressões das visitas. Além disso, recebemos visitas das lideranças que Os atores principais deste trabalho não são exteriores a ele. Portanto, o que o constitui é a voz
participaram da construção da história local, como a Dona Eva, Dona Luzia, entre outras. Assim, nos daqueles que, devido às peculiaridades percebidas, chamaram-nos a atenção e convidaram-nos à
contaram histórias de como fugiam da repressão dos grandes fazendeiros, como agia a polícia da pesquisa. Este convite, às vezes até imperceptível, é causa e motor deste trabalho. Acreditamos que
época, como eram vistos pelos militares – que na época estavam no poder. Os alunos produziram ouvir as vozes dos que viveram a história torna-se um exercício perigoso, principalmente quando
relatórios sobre tudo o que ouviam dessas pessoas. Tudo isso hoje compõe meu acervo, junto com as praticado por historiadores. A pouca intimidade com fontes reais e vivas põe o historiador às voltas
fotos e os textos produzidos por mim durante o desenvolvimento do projeto.

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com o problema da objetividade. Mas a história oral nos convida a passear por caminhos novos, onde a Referência Bibliográfica
história deixa de ser exterior aos seres humanos, deixando, principalmente, de buscar a outrora tão
importante objetividade. Aceitar a subjetividade da história e dos sujeitos nela envolvidos nos traz o BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: Lembranças de Velhos. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
compromisso não com uma verdade positivista, estagnada, que há tantos anos vem dando audiência CARDOSO, Ciro Flamarion S. e BRIGNOLI, Héctor Pérez. Os métodos da História. Rio de Janeiro:
somente àqueles que deixaram registros escritos. Talvez isto responda à pergunta que inicia a obra de Edições Graal, 1979.
March Bloch: mas, afinal pra que serve a história? Aqui, neste caso, serviu como instrumento que dá CHIAPPINI, Ligia e BRESCIANI, Maria Stella (orgs.) Literatura e Cultura no Brasil: identidades e
audiência aos dela excluídos, àqueles a quem nada se perguntou. Esta é, também, a base metodológica fronteiras. São Paulo: Cortez, 2002.
deste trabalho. ESTERCI, Neide. Populações Tradicionais. In.: Almanaque Brasil Socioambiental. São Paulo: Instituto
Socioambiental, 2007. p 223.
GASKELL, Ivan. História das Imagens. In.: BURKE, Peter (org.). A escrita da História: novas
Considerações finais perspectivas. São Paulo: Ed.UNESP, 1992.
JOANONI NETO, Vitale. Fronteiras da Crença: Ocupação do Norte de Mato Grosso após 1970. Cuiabá:
No ano de 2009, o projeto foi escolhido para fazer parte do “Educadores Socioambientais”, Ed.UFMT, 2007.
projeto desenvolvido pelo ISA e Y-ikatu-Xingu para fomentar ações educativas sobre a temática Le GOFF, Jacques e NORA, Pierre. História: novos problemas. Rio de Janeiro: F. Alves, 1988.
ambiental. Com a verba, foram compradas mudas de árvores nativas da região, que foram plantadas PRINS, Gwyn. História Oral. In.: BURKE, Peter (org.). A escrita da História: novas perspectivas. São
por alunos, professores, pais e gestores da escola, às margens do Ribeirão Bonito. Atualmente, venho Paulo: Ed.UNESP, 1992.
escrevendo projeto de pesquisa sobre o tema, onde pretendo aprofundar o trabalho realizado pelo VIANA, Nildo. Estado, Democracia e Cidadania: a dinâmica da política institucional no capitalismo. Rio
grupo. de Janeiro: Achiamé, 2003.
Acreditamos que com este projeto comprovamos nossa hipótese inicial de que, ao constituir a
identidade da população que se formou e vive às suas margens, o Ribeirão Bonito torna-se um local de
memória. Sendo assim a sobrevivência cultural deste povo torna-se fundamentalmente ligada à
sobrevivência do rio. Após a realização da pesquisa oral encontramos nos discursos vestígios de tal
relação. Além disso, a pesquisa fotográfica serviu de base para auxiliar na reconstrução de tal história,
evidenciando que, ao evocar o rio o morador evoca nele a própria construção de sua identidade.

A leitura do mundo precede a leitura da palavra.


Paulo Freire

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Uma experiência na UFMT enquanto tutor da es-com vida

Este é um momento ímpar em que possivelmente a Antropologia, a Sociologia, a Psicologia, a


Albérico Cony Cavalcanti Filosofia, o Direito, a Economia, as Ciências Políticas cantem um hino de louvor ao Tratado de
Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global pela incorporação e
tradução para a linguagem da Educação Ambiental de seus arcabouços teóricos. Caminhando com
Eu te “pertenço” e você me “pertence”; nós dois “pertencemos” a esta árvore e ela nos vinte cursistas, a grande maioria da cidade de São Luiz, no Maranhão, a princípio, não foi uma tarefa
“pertence”; nós três “pertencemos” a este cão e ele nos “pertence” nós quatro “pertencemos” ao tranqüila reunir todos “numa só onda” para trabalharmos “à distância”... Inicialmente eles relataram
Cosmos e ele nos “pertence”. as dificuldades em mais de duas dúzias de e-mail. Fiquei também angustiado, pois desejava, como de
A Ecologia Profunda faz vibrar em nós as fibras mais íntimas de um sentimento oceânico: o costume, vê-los, falar olho no olho. Mas a educação à distância tem seus limites, suas dificuldades,
amor; amor no sentido de ágape, ou seja, incondicional. como também suas vantagens, suas possibilidades.
Um sonho? Uma utopia? Não! Realidade. Começo, caminhada... Ora, diante da permanente expansão da Educação a Distância, essa oportunidade - para todos
Quantos depoimentos extraordinários nessa caminhada de mudanças concretas na realidade nós que nos vinculamos para utilizar as tecnologias da informação e comunicação como recurso
social, iniciada pelo trabalho conjunto do MEC, da UFMT, da UFMS e da UFOP, neste processo didático-pedagógico num viés de mudança comportamental, tornando realizável o desejo cada vez
extraordinário, vivencial, pois devidamente engajado e engajador para essa rapaziada que mais presente de transformar nosso meio ambiente - é imperdível! Insisti nos e-mails. Alguns alunos
preliminarmente se espanta ao ler o resultado de sua “pegada ecológica”, mas que depois se extasia ao me responderam dizendo que eu “os ganhei” pela insistência. Que bom, a adesão dos alunos
compreender que através do processo educativo pode mudar e contagiar o seu entorno a mudar empresta dignidade num momento em que o MEC e mais três instituições de educação superior, se
também. associam numa extraordinária empreitada. Face à conquista dos corações, pelo afeto, pelas palavras
trocadas, pelo empenho, aos poucos recebemos os e-mails aderindo à feliz “maratona”...
Eu acredito é na rapaziada que segue em frente e segura o rojão. Eu ponho fé é na fé da
Sugerindo livros do Capra como “O Tao da Física”, “O Ponto de Mutação”, “A Teia da Vida” e
moçada que não foge da fera e enfrenta o leão. Eu vou à luta é com essa juventude que
“Pertencendo ao Universo”, assim como o livro do Roberto Crema: “Saúde e Plenitude”, convidamos,
não corre da raia a troco de nada. Eu vou no bloco dessa mocidade que não tá na
saudade e constrói a manhã desejada... Gonzaguinha. incentivamos a leitura e a mimetização de todos aqueles que participavam e participam da Escola
Estadual no Maranhão.
O objetivo das leituras foi aprofundar as reflexões acerca da formação profissional no âmbito
Espaço Construir a manhã desejada? Sim! Construir
Escola Sustentável da Educação para Sustentabilidade, investigando como os vários conceitos permeiam as diferentes
espaços escolares que traduzam educação integral?
formações. Para tanto, vários documentos inseridos na plataforma moodle foram analisados e
Sim! Que façam o pensar, o falar e o agir integrados
amplamente discutidos por todos nós da turma visando sempre um novo modelo civilizatório para
na ação continuada de realizar o melhor para si, para
gerir e planejar uma vida com mais qualidade, com efetiva cidadania, com sustentabilidade.
sua família, para o outro, para o meio ambiente. É ser
Currículo Gestão Compreendemos a dificuldade ainda existente em relação ao Projeto Político Pedagógico,
e não somente aparentar ser.
pois em muitas escolas de nosso País, sabemos que a construção se deu pró-forma, visando apenas
atender a burocracia da Secretaria de Educação.
Construir um currículo vinculado ao espaço e à gestão, dentro da visão holística. Então, o curso Quanto mais distante do chamado eixo de desenvolvimento Sul-Sudeste-Brasília, mais
acontece no momento exato, no presente em que Barack Obama vem ao Brasil, em que o Japão vive dificuldades encontramos na formalização de uma política educacional estribada na democracia, na
um dos maiores dramas da sua história, com o tsunami, com a usina nuclear de Fukushima. participação consciente, responsável, crítica, portanto, cidadã. Contudo, o amor contagia. A sugestão

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do filme Patch Adams: o amor é contagiante “fez-nos movimentar montanhas”. Foi necessário compreender que esse nosso projeto de sustentabilidade, que ainda está em
Os alunos estão instigando as instituições escolares a se “moverem” para implantação do PPP. construção, se apóia na estratégia participativa e democrática de ampla discussão com toda
É necessário, em nosso entendimento, um pouco mais de tempo para a conclusão ou outra forma de sociedade. Sentimos que é preciso construir um saber “técnico”. Contudo, mais que um saber técnico,
readequação entre a proposta total do curso (três módulos interdepentes com três eixos cada) e o uma vivência amorosa, afetiva, empática, mesmo que nos achem românticos, como sói acontecer nas
dimensionamento das atividades, além de outra forma de disponibilização da biblioteca virtual academias.
Na educação anuncia-se necessidade de melhor formação para a Sustentabilidade, para Precisamos de uma decisão na verdade política, que na acepção grega original, voltava-se para
melhoria do meio ambiente, desde a Educação Infantil até a Pós-Graduação. Assim, concluímos que há “as normas, as regras do bem viver da comunidade”. O universo da locução técnica não repelirá as
necessidade de se formar profissionais de todas as áreas de conhecimento em sustentabilidade. Hoje nobres alternativas que a humanização, no sentido do amor propõe.
são vários setores da sociedade que já incorporam a dimensão ambiental em seus discursos. Mas Instigados por estas e outras questões, assumimos – eu e os cursistas – lembrando Ivani
observamos e sentimos que está ficando somente no discurso. Fazenda, nossa atitude interdisciplinar, resgatando esperanças, pois, certos de fazermos a nossa parte
Transcorrido muito tempo, quais revoluções efetivas aconteceram na prática, no cotidiano de na construção de um novo momento, de novas idéias, de um projeto para o Agora e para o Futuro, com
nossas sociedades? Qual tem sido o papel das Universidades e das Escolas de um modo geral no que diz SUSTENTABILIDADE maiúscula, mesmo sabendo dos avisos de muitos que conviveram e convivem
respeito à formação profissional para a sustentabilidade? Está-se formando pessoas para o mundo do conosco da nossa pouca habilidade na construção dos próprios pensamentos, quiçá das próprias
trabalho ou apenas profissionais para o mercado de trabalho? Busca-se a responsabilidade ações. Estes nos cognominaram de utópicos, de poetas, de sonhadores. Intimoratos, afirmaram que o
socioambiental ou um ambientalismo dourado, disfarçado de cidadania, mas a serviço da racionalidade nosso pensamento estava mais para o senso comum, errante, com um colorido evasivo, do que para
instrumental? uma ação acadêmica, consubstanciada no pensamento criterioso, recorrente, coeso, pertinente.
Sentimos que mesmo à distância, nossos desejos estavam convergindo para nos tornarmos Talvez tenham alguma razão!
mais críticos e capazes para propor mudanças efetivas, sobretudo, nas Escolas que atuamos. Uma coisa ficou patente: somos persistentes, comprometidos, não obstantes os desestímulos
Percebemos que houve, no passado, e ainda há no presente, muitos adestramentos sem que nos chegam.
clareza para a sustentabilidade planejada para o agora e para o futuro. Necessário que o MEC, a UFMT, a UFMS e a UFOP, continuem neste brilhante projeto,
À medida que construímos uma base mais sólida de integração, fomentamos, incentivamos os estendendo-o as UNIVERSIDADES, aos CENTROS UNIVERSITÁRIOS, as FACULDADES INTEGRADAS e
registros fotográficos, bem como quaisquer outros recursos que possam ilustrar a mobilização em as FACULDADES. Necessários construir uma “onda envolvente” acionando todos os poderes públicos
andamento. e privados na consecução dessa meta, desse objetivo.
Os objetivos vêm sendo alcançados. Esta extraordinária “incubação” de mudanças concretas Não tenho a menor dúvida: continuar é a solução nota 10, tanto política, quanto pedagógica.
na realidade social, articulando espaço, currículo, gestão, vem ampliando a conscientização de que Parabéns a todos e muitas felicidades com sustentabilidade.
precisamos “salvar” o meio ambiente, de “salvar” o Planeta Terra. nos integrar ao meio ambiente e nos
entregar ao Planeta Terra. OBRAS CONSULTADAS
O engajamento, a construção da identidade ecológica, a construção da qualidade de vida, do CREMA, Roberto. Saúde e Plenitude. 2ª ed. São Paulo: Summus Editorial. 1995.
bem-estar, da educação para paz, da não-violência, da participação do outro no processo dessa CAPRA, Fritjof. O Tao da Física. 27ª. Cultrix. São Paulo, 1995.
construção feliz, da escola como um lugar agradável, onde aprendemos a cuidar de nós, do outro, do ______. O Ponto de Mutação. 28ª. Cultrix. São Paulo, 1997.
Planeta, a entender a finalidade do Projeto Político-Pedagógico vem revolucionando efetivamente um ______. A Teia da Vida. 14ª. Cultrix. São Paulo, 1996.
novo pensar, um novo falar e um novo agir. FAZENDA, Ivani C. A. Interdisciplinaridade: História, Teoria e Pesquisa. 8ª ed. Editora Papirus. São
Paulo, 2001.

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A alegria não chega apenas no encontro do achado,


mas faz parte do processo da busca.
E ensinar e aprender não pode dar-se fora da procura,
fora da boniteza e da alegria. Paulo Freire
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Biografia Ecológica:
quintais, identidade e educação ambiental da escola.
Este artigo trata de uma das atividades do curso, presente no Módulo I, denominada Biografia
1
Herman Hudson de Oliveira Ecológica e que convidou à reflexão sobre aspectos da cultura e da natureza na vida do cursista, mas
também chamando a atenção para detalhes sobre as modificações socioambientais e sobre sua
Pegada Ecológica.
Algumas palavras Foram lidas por mim, enquanto tutor à distância, em torno de dezesseis relatos biográficos e
na quase totalidade deles uma espécie de nostalgia permeou esses relatos, porém o que mais chamou
a atenção foi a recorrente menção à vida que se desenrolava nos quintais das casas e, neles, a relação
Antes de dar início ao objeto de discussão do texto, cujo título já se denuncia, penso que dessas pessoas com os brinquedos sem qualquer separação com os demais seres dos quintais. Num
algumas palavras poderiam ser ditas a guisa de contextualização da idéia deste pequeno e deles, inclusive, a autora menciona que era nesse mesmo quintal que se dava a realização das festas
despretensioso artigo, na medida em que todo este processo formativo possui um fio lógico ou, talvez, de santos como ainda ocorre em algumas comunidades.
vários fios que se interpenetram de maneira interdependente. Todavia, de que maneira foram se movendo esses sujeitos através das mudanças desses
Durante o processo de construção dos módulos que constituíram o material do Processo ambientes num período entre vinte e quarenta anos atrás? Como novas identidades e
Formativo em Educação Ambiental: Escolas Sustentáveis e Com-Vida, me parece que havia um comportamentos foram se reconstituindo em novas relações com outros sujeitos?
consenso no tocante à importância de de uma proposta e de discussão em relação aos processos de Não caberiam aqui considerações morais, talvez éticas, mas considerei que duas obras de
construção identitária (Módulo I), principalmente em relação à escola (Módulo II), mas também e de Zygmunt Bauman, Identidade e Comunidade, além, é claro de outros autores, poderiam dar pistas
maneira mais abrangente e envolvente, a forma como esta identidade se constitui como identificação. para uma discussão interessante sobre a natureza dessas modificações sem, contudo esgotar o tema.
A necessidade de envolvimento dos cursistas num curso que se pretendia algo além de um Pelo contrário, considero este texto como uma singela contribuição para a discussão socioambiental,
curso, transcendente à natureza de sua proposta de formação, desafiaria as condições de pessoas em principalmente para a severidade com que criticamos a cisão cultura-natureza (GRÜN, 1996;
busca de formação continuada em Educação à Distância (EaD). GUIMARÃES, 2003; SATO, 2005) no interior da modernidade e, principalmente, com a crescente
Esse desafio se constituiu e se fortaleceu quando de uma proposta aos cursistas para que se pressão do capitalismo sobre modos de vida que, via de regra, não se adéquam.
tornassem sujeitos desse processo e realizassem intervenções de caráter ambiental, numa perspectiva
estrutural, em diferentes níveis visando, num primeiro movimento, a aplicação de ecotécnicas
(Módulo III), mas que, a meu ver, teriam a intenção de discutir aspectos estruturantes com vistas à
sustentabilidade, daí a nomenclatura Escolas Sustentáveis que trouxe fortemente a noção de espaço
educador sustentável.
Portanto é preciso considerar também outro desafio, neste ou em qualquer outro curso, no
tocante à descentralização de ações educativas de caráter ambiental que queiram ampliar ou estender
esta noção ao conjunto de atores que convivem no espaço escolar. Isso significa retirar a primazia do ...aprender não é um ato findo.
Aprender é um exercício constante de renovação...
professor em relação às ações educativas e convidar à ciranda outras pessoas pertencentes à
Paulo Freire
comunidade escolar: gestores, estudantes, servidores e, também, pessoas da comunidade do entorno
1. Mestrando em Educação pelo PPGE/UFMT, licenciado em Música pela UFMT, pesquisador em Educação Ambiental do Grupo Pesquisador em Educação
Ambiental, Comunicação e Arte (GPEA)

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Tempos e espaços Talvez não, já que esta seria uma hipótese pessimista e, até certo ponto, linear, implicando
numa espécie de mito de origem em que os lugares retratados e representados pelos quintais seriam
No Tempo Dos Quintais um tipo de paraíso perdido. Todavia isso pode nos levar a outras idéias sobre identidade...
Se nossa humanidade não é dada, mas construída, nossa identidade enquanto uma partição
Era uma vez um tempo de pardais Mandou buscar cem dúzias de avenidas pra dela também o será e, mais do que isso, se ela é construída ao longo do tempo pode também ser
De verde nos quintais, faz muito tempo atrás expulsar de vez as margaridas
Quando ainda havia fadas
desconstruída. Se me lanço em meu mundo ou no mundo que a mim surge como um acontecimento,
Por não ter filhos, talvez por nem gostar ou talvez
Num bonde havia um anjo pra guiar, outro mania de mandar posso também buscar mais uma série de acontecimentos e surgimentos que incitem, invitem e
pra dar lugar excitem meu desejo de conhecer e experimentar. Afinal, o que é a invenção e reinvenção do
Pra quem chegar sentar, de duvidar, de admirar Só sei que enquanto houver os corações nem brinquedo?
Havia frutos num pomar qualquer de se tirar do pé mesmo mil ladrões É na perspectiva da modernidade líquida (BAUMAN, 2005) que as identidades se movimentam,
No tempo em que os casais podiam mais e namorar Podem roubar canções e deixa estar, que há de voltar
Nos lampiões de gás sem os ladrões atrás O tempo dos pardais, do verde dos quintais
portanto, sujeitos dentro de um processo ligeiro e avassalador em sua complexidade, redefinindo
Tempo em que o medo se chamou jamais Tempo em que o medo se chamou jamais temporalidades e territorialidades sem compromisso algum (LEFEBVRE, 1969; BAUMAN, 2003;
Veio um marquês de uma terra já perdida e (Sivuca e Paulinho Tapajós) MENESES, 2004), digo, há sim um compromisso com o eixo e um sentido norteador: o capitalismo.
mais uma vez se fez dono da vida Então, se o único compromisso, ou antes, se todas as ações estão vinculadas, melhor dizendo,
girando em torno do eixo capitalista, qual a possibilidade de que não haver modificações no espaço-
tempo por todo o globo? Há de fato alguma possibilidade de que isso não ocorra? Sim, nas
comunidades, porém cada vez menos, na medida em que a urbanidade avança e com ela os serviços
Quando propusemos a biografia ecológica tínhamos em mente que esse resgate levaria a uma cuja base é a mesma (LEFEBVRE, 1969), na medida em que suas temporalidades e territorialidades,
reflexão sem que, com isso, necessitássemos adentrar em questões pontuais e a respeito da condição possuidoras de outras racionalidades (MENESES, 2004), não encontram lugar na racionalidade
e dos conceitos dos cursistas frente à problemática ambiental fosse do ponto de vista da moderna a não ser como produto.
temporalidade, fosse sobre espaços, territórios e identidades. Existe uma lógica de circularidade e circulação que envolve o tema, pois a questão é que o que
A série de relatos e exposições, não nos iludamos, que vieram em forma de pequenas biografias, separa a comunidade espacial e temporalmente são os processos de comunicação em seu interior
significaram também um tipo de resgate de um tempo passado e um confronto daquela pessoa e (BAUMAN, 2003). Embora esta comunicação não se desenvolva como uma proposta entre os
pessoas vivendo em lugares e um lugar com o tempo e o espaço atuais ilustrando mais do que um habitantes, como uma espécie de acordo, mas em termos comunicacionais nas relações entre eles.
saudosismo ou nostalgia em sentimentos e recordações de coisas que se perderam e não voltam mais. Bauman (2003) também defende que, enquanto a comunicação acontece dentro dos limites da
É mais do que um olhar para trás, mas o retratado evidencia formas de ocupação e uso comunidade, mas também enquanto não há penetração de outros enunciados e lógicas outras que
(LEFEBVRE, 1969; HAESBAERT, 2009), comportamentos, relações parentais e interpessoais, cenários e não aquelas construídas cultural e socialmente não haveria modificações abruptas ou como “ruídos”
paisagens onde natureza e cultura caminham frente aos olhos dos biógrafos. Então, o que ocorreu nesse sistema comunicativo que, então, seguiria fluindo. Esses ruídos se dariam como processos de
nesse trajeto entre aquele tempo e o tempo presente? Voltar e visitar e atualizar esses lugares em um degradação justamente e porque seria o início de um rompimento desta comunicação que se
curso de Educação Ambiental à distância significa ou equivale a despertar para uma realidade traduziria espaço temporalmente.
degradada e problemática? O que as pessoas percebem como modificações no momento em que realizam o exercício da
Todos nos perdemos pelo caminho? biografia ecológica e vão transitando na memória, elencando aspectos importantes de suas vidas,

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como um retorno a um tempo e a um espaço e, então, atualizam seus sentidos em relação ao momento ambientalista. Por outro lado, a forma como os indivíduos, no contexto da modernidade líquida
presente, percebem o quanto tudo se modificou, o quanto os quintais diminuíram, o quanto as (BAUMAN, 2005), se identificam não tem o mesmo significado num contexto de relação menos
comunidades se esfacelaram e, com elas, a vida em comunidade. instável da comunidade, mas os pressiona em direção a diferentes identidades.
Finalmente, ainda que não conclusivamente, penso que o exercício de realizar um texto e, na
Considerações finais esteira dele o surgimento destas reflexões trazidas aqui, poderiam suscitar uma busca ou o resgate
de uma relação harmoniosa entre o humano e a natureza ou entre esta e a cultura, mas uma
Nesse trajeto rumo à sociedade moderna, ao estado de bem-estar social, ao consumo de bens e afirmação desse tipo contrariaria a natureza fenomenológica da questão por nos levar a crer que
serviços vamos nos apropriando de outra liberdade que difere da liberdade dos quintais, esta, aliada a nascemos ecologistas e depois nos aburguesamos ou, como diria Bauman (2005), cedemos à
uma sensação de segurança e, provavelmente lá, naqueles quintais, tivéssemos a sensação de que pressão e ao discurso econômico, naturalizando a cisão cultura-natureza ou culturalizando o
proteção do perigo, melhor dizendo, sem nem saber que havia perigos. humano como projeto que se distancia de si, do outro e do mundo.
As biografias ecológicas apresentadas nesse curso vieram carregadas de um sentimento de
perda muito semelhante à algumas idéias que Bauman (2003) apresenta numa visão muito próxima de
paraíso perdido, questionando valores e o violento processo de individualização, fruto do REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
aburguesamento da sociedade, mesmo nas classes onde o poder aquisitivo é menor.
Podemos apor a essa ideia o fato de que o mercado regula com força cada vez maior as BAUMAN, Zygmunt. Comunidade: a busca por segurança no mundo atual. Rio de Janeiro: Jorge
estruturas que estariam, em tese, nas mãos do estado, porém este mesmo mercado não possui Zahar Ed., 2003.
regulação e é assim que economia, ecologia e sociedade se orientam pelo poder econômico que se ______. Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.
impõe como o aspecto da cultura mais violento, mas a aquisição de poder econômico é perseguida por GRÜN, Mauro. Ética e educação ambiental: a conexão necessária. Campinas: Papirus, 1996.
grupos e indivíduos com vistas à defesa em relação à natureza e ao outro (MARCUSE, 1973). GUIMARÃES, Mauro. Educação Ambiental. 2ª edição. Duque de Caxias: UNIGRANRIO Editora, 2003.
Por outro lado, a segurança dela proveniente que os quintais podiam oferecer, onde as HAESBAERT, Rogério. Dilema de conceitos: espaço-território e contenção territorial. In: Territórios e
dimensões ambiental e social se mesclavam, estava inserida numa temporalidade e territorialidade em territorialidades: teorias, processos e conflitos. SAQUET, Marcos Aurélio; SPOSITO, Eliseu Savério
que a pressão da urbanidade e a pressão do capital ainda não se faziam sentir (pelo menos não aos (org). 1.ed. São Paulo: Expressão Popular: UNESP. Programa de Pós-Graduação em Geografia, 2009.
habitantes dos quintais). Então, nesse contexto, a eco nomia, etimologicamente regras da casa, se SAQUET, Marcos Aurélio; SPOSITO, Eliseu Savério (org). 1.ed. São Paulo: Expressão Popular: UNESP.
encontraria subjacente à dimensão socioambiental. Programa de Pós-Graduação em Geografia, 2009.
A forma como foi desenhada a biografia ecológica, ou antes, o desenho maior do Módulo I que LEFEBVRE, Henri. O direito à cidade. São Paulo: Editora Documentos, 1969.
trouxe como atividade de aprendizagem um exercício biográfico de caráter socioambiental, buscou MARCUSE, Herbert. A ideologia da sociedade industrial: o homem unidimensional. 4ª edição. Rio de
evidenciar uma faceta da identidade (ou de identidades) em consonância com a temática ambiental e Janeiro: Zahar editores, 1973.
que potencialmente estivesse envolvida e engajada com a educação ambiental, com a ecologia, o SATO, Michèle. Biorregionalismo. In FERRARO, L. (Org.) Encontros e caminhos - Formação de
ambientalismo e, até mesmo, em movimentos sociais. educadores(as) ambientais e coletivos educadores. Brasília: Diretoria de Educação Ambiental, MMA,
Também trouxe como discussão a criação ou constituição e fortalecimento desta identidade 2005.
não como um dom ou talento inato, predestinação sem nenhuma relação com o sujeito. Pelo contrário,
pois, ao apresentar uma noção de identidade, buscamos evidenciar aspectos constitutivos da luta

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Processo formativo em educação ambiental - caderno de experiências -
A escola como lócus de transformação da prática social
algumas propostas pedagógicas que vigoraram durante todo o século XX tenham apontado para a
importância do espaço ou da ambientação para a efetivação dos processos de aprendizagem.
Luís José Câmara Pedrosa Porém, estamos diante de um novo momento no sentido de efetivar a integração entre a
ecologia e a educação escolar. Para a transformação do espaço escolar, surgem projetos promissores
Introdução como o processo Formativo em Educação Ambiental – Escolas Sustentáveis e Com-Vida, cujo objetivo
é aproximar a ecologia e a pedagogia.
Torna-se importante que as instituições de ensino no Brasil se tornem lócus de mudanças Com este marco, pode-se cogitar a possibilidade de uma profunda da transformação da escola
sociais. A nossa Constituição é democrática e prevê a participação da família e dos movimentos sociais que até então ficou restrita a algumas inovações, porém, apenas na Educação Infantil ou quando
durante a formação escolar das crianças e jovens. Porém, para que a escola venha realmente a muito nas séries iniciais do Ensino Fundamental.
participar da mudança na sociedade, ela precisa também mudar sua própria “cultura.” Desse modo, persiste o desafio: a escola precisa se tornar um lócus de transformação social.
Desde o momento em que a escola se voltou para atender a necessidade de formação da mão- Não basta que a escola apenas transmita as informações contidas numa “grade escolar”, ela precisa
de-obra especializada para o mercado de trabalho da emergente sociedade industrial do final do século passar a ser um espaço educador sustentável. E isso não ocorre sem uma mudança efetiva da cultura
XIX que a programação dos conhecimentos escolares foram tomando a forma de um currículo pré- escolar, ou seja, da gestão, currículo e do espaço físico.
estabelecido. Neste contexto, torna-se necessário considerar que a dimensão do espaço e a dimensão da
Devido ao tratamento excessivamente técnico que substanciaram as atividades curriculares gestão como componentes da cultura escolar. E ainda mais que, o espaço e a gestão desempenham
estes ficaram conhecidos por “grades curriculares” pautadas nas disciplinas acadêmicas. Esta um papel importante para a efetiva participação dos alunos nos processos de aprendizagem voltados
orientação tem como finalidade formar o jovem para o mercado de trabalho, não importa que a para a sustentabilidade, tanto no que se refere ao aspecto social como o aspecto ambiental, na
formação tenha como objetivo o ensino de nível médio ou superior. medida em que estes são inseparáveis, embora possuam suas especificidades.
Entretanto, a partir da homologação da Lei de diretrizes e bases da Educação (LDB) 9394/96 Sendo assim, se por um lado, a proposta do curso Escolas Sustentáveis e Com-Vida não nega os
surgiram novas possibilidades de organização e de estruturação dos currículos no Brasil. Tanto a nova princípios da tradição ativista da educação que predominou no século XX por meio da pedagogia
legislação como os documentos de referências determinam que os currículos oficiais das escolas ativa, por outro lado, a proposta do Curso inova introduzindo a questão da sustentabilidade
devem considerar nas suas programações, os temas sociais ou contemporâneos, possibilitando assim, ambiental na escola, tão necessária e almejada em todos os âmbitos da sociedade.
que as instituições de ensino tenham diferentes rearranjos curriculares, desde que atendam as Neste sentido, vários projetos que vêm sendo desenvolvidos no contexto das escolas
demandas locais. brasileiras, ainda que incipientes, porém, evidenciam que estamos superando alguns limites entre a
Neste sentido a programação das instituições de ensino, antes centradas na “grade curricular” ecologia e a pedagogia, apontado por Cambi (2009).
se abre para novos conhecimentos, incluindo, por exemplo, a dimensão da gestão. Porém, é verdade que, os frutos mais interessantes do encontro entre a ecologia e a
Contudo, apesar dessa orientação estar presente nos documentos oficiais, um dos maiores pedagogia ainda não foram colhidos. Entretanto, sabe-se que esta aproximação tem criado um
desafios para os educadores é trazer para os currículos os saberes que não se encontram terreno novo de trabalho que possibilita modificar completamente a cultura escolar.
contemplados nas disciplinas acadêmicas. Não foi por falta de tentativas que essa dificuldade não foi Por isso, o Curso Escolas Sustentáveis e Com-vidas nos módulos II e III quando ressaltam a
superada, pois durante o século passado as propostas de reforma da educação brasileira evidenciavam importância do Projeto Político Pedagógico (PPP) cria a possibilidade de práticas inovadoras, sem
a necessidade de uma articulação entre o eixo do currículo e o eixo da gestão escolar. reducionismos e envolvendo as três dimensões da cultura escolar: da gestão, do currículo e o espaço.
Até então, não se dava a devida importância à questão da dimensão do espaço físico da escola, Para Trajber (2009) trabalhar com um currículo na perspectiva de uma escola sustentável é
como um dos locus fundamentais para a transformação da escola e do seu meio social. Ainda que, necessário:

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Processo formativo em educação ambiental - caderno de experiências -

Estímulo à visão complexa da questão ambiental, a partir das interações dinâmicas aderindo a proposta de envolver espaço físico na construção dos conhecimentos escolares, cuja
entre ambientes, cultura e sociedade; abordagem sistêmica que enfatize a natureza referência é o horto medicinal. Além, dessas disciplinas, também fazem parte das atividades outros
como fonte de vida; incentivo à cidadania ambiental, com responsabilidade individual e profissionais da escola e a comunidade do entorno social.
coletiva, local e global; valorização da diversidade, com múltiplos saberes: científicos,
A própria prática de aprendizagem pautada em projetos precisa ser objeto de reflexão
de povos originários e tradicionais; inserção de abordagem multi, inter, pluri e
permanente dos professores. Há uma tendência em transformar o projeto em um componente
transdisciplinar, dependendo da realidade em que se insere a escola e das suas
condições internas; trabalho dos conteúdos de forma contextualizada na comunidade; curricular nos moldes do que ocorre com as disciplinas acadêmicas, consolidando a “grade curricular,”
formação de Com-Vida, como espaço estruturante de educação ambiental que articula quando na verdade a proposta de uma escola sustentável situa-se para além da tradicional
escolas e comunidades; construção do conhecimento na escola em ciências, arte, fragmentação entre espaço, currículo e gestão.
educomunicação; educação com reconhecimento das diferenças, cooperação, Desse modo, o trabalho com a proposta de uma escola sustentável passa a ser uma referência
democracia, justiça social, liberdade e sustentabilidade; postura crítica, ética e para o conjunto da sociedade. Este aspecto é favorecido pelos estudos sobre o PPP, a Com-Vida e as
transformadora de valores que reorientem atitudes para a construção de sociedades Ecotécnicas, na medida em que estes potencializam as atividades dos professores, integrando os
sustentáveis. profissionais da Escola em trono de uma proposta avançada para a gestão, o currículo e o espaço físico
da educação. Além de possibilitar que outros profissionais desenvolvam atividades junto a outros
profissionais de fora dela, transformando assim, os próprios processos de aprendizagem no território
de uma nova cultura escolar participativa.
Algumas Considerações sobre a Escola, lócus de transformação social
Neste sentido, o Liceu Maranhense traz no seu PPP um componente curricular, o Projeto Horto Referência Bibliográfica
Medicinal que sinaliza para o trabalho com a proposta de uma escola sustentável, introduzindo assim,
novos valores e práticas educativas na Escola. Entre outras contribuições o Projeto traz uma série de BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade.
inovações no sentido de proporcionar que a Escola seja uma instância participativa que ao interagir Formando Com-Vida, Comissão de Meio Ambiente e Qualidade de Vida na Escola; Construindo Agenda
com o mundo a sua volta, busca caminhar rumo à sustentabilidade. 21 na Escola. 2. ed. Ministério da Educação / Ministério do Meio Ambiente. Brasília, MEC: Coordenação
Contudo, encontrar o caminho não significa que se tenha alcançado o objetivo de tornar a Geral de Educação Ambiental, 2007.
escola um lócus de transformação social. Muito ainda se tem de avançar no sentido do planejamento, CAMBI, Franco. História da Pedagogia. Trad. Álvaro Orencini. São Paulo. Editora UNESP, 1999.
de modo que as habilidades essenciais para o curso da Educação Básica e a sustentabilidade ambiental (Enciclopaidéia).
sejam contempladas com os trabalhos a respeito da Fitoterapia. Reconhecemos que, foram dado os CARNEIRO, Moaci Alves. LDB fácil: leitura crítico-compreensiva, artigo a artigo. 17ªed. Atualizada e
primeiros passos de uma longa caminhada. ampliada. Petrópolis, RJ: Vozes, 2010.
Evidentemente que, em se tratando de cultura escolar quando se tem a proposta inserida no MOREIRA, Antônio Flávio Barbosa; CANDAU, V.M. Indagações sobre currículo: currículo,
PPP da Escola, sem dúvidas que, representa um grande avanço. Porém, os professores são desafiados conhecimento e cultura. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, 2007. 48 p.
no seu cotidiano a refletir e inovar em suas práticas, relacionando teoria e prática, sabedoria popular e a TRAJBER, Rachel. Processo formador em educação ambiental a distância: módulo 1 e 2: educação a
pesquisa científica, tudo no mesmo território da Escola. Os professores das disciplinas de Biologia, distância, educação ambiental. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada,
Química, Física, Matemática, História e Filosofia apresentam alternativas metodológicas inovadoras Alfabetização e Diversidade, 2009.
para o trabalho com a proposta. Eles são os primeiros profissionais que trabalham com o currículo, CZAPSKI, Silvia; TRAJBER, Rachel. A Educação Ambiental em Escolas Sustentáveis: macrocampo meio
ambiente – Mais Educação. Ministério da Educação 2010.

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Processo formativo em educação ambiental - caderno de experiências -
O caracol de esperança no processo formativo em
Educação Ambiental: escolas sustentáveis e COM-VIDA história ambiental do individuo juntamente com a historia da família desse sujeito, momento este que
se efetivou com os exercícios da pegada ecológica, Identidade e Bem- estar. Módulo 2: O Outro, nossa
Jacilda Siqueira responsabilidade na escola, somos levados a pensar e refletir sobre a nossa responsabilidade em
relação ao espaço escolar por meio do mapeamento ambiental da instituição, momento efetivado
com as atividades: a escola como lugar no mundo; o projeto político pedagógico e a Com-vida. Módulo
A grande verdade é que só vence aquele que 3: Mundo, comunidade e ecotécnicas para sustentabilidade, neste módulo refletimos como é o
continua, aquele que persiste, aquele que
ambiente escolar em que estamos inseridos, fazendo a leitura da planta baixa da escola e já
tem esperança e sabe passar a bandeira as
novas gerações. Eu continuo cada vez mais visualizando um redesenho desta escola na visão da redução da pegada ecológica da Instituição
com esperança. Essa é a minha vitória. amparados no cardápio das ecotécnicas.
Isso nos leva a reflexão de nosso papel frente ao meio a qual estamos inseridos. A partir do
Dom Pedro Casaldáliga
momento em que cada ser humano assumir que suas atitudes são incoerentes frente ao cuidado e a
As notícias de que durante muitos anos somos abarrotados de informações que retratam necessária sustentabilidade do planeta e consequentemente da vida a transformação ocorrerá. Na
catástrofes ambientais no mundo desencadeado por ações humanas e degradantes paulatinamente o maioria das vezes, apontamos muitas as ações predatórias e poluidoras de terceiros, esquecendo de
meio em que vivemos, estão cada vez mais presente no cotidiano. Podemos vivenciar situações que promover uma reflexão sobre nossa atuação enquanto cidadãos. Parafraseando Séneca, a educação
expressam a falta da Ética do Cuidado preconizado por Boff (1999) que diz “a ética do cuidado, exige os maiores cuidados, porque influi sobre toda a vida.
protege, potencializa, preserva, cura e previne” princípio fundamental para a sobrevivência em nossa Assim, acredito que atitudes pequenas colaboram com a sustentabilidade, dentre elas:
casa, a Terra. desligar a torneira quando não estiver usando-a, reutilizar a água, utilizar transportes públicos, entre
Um agravante no processo de transformação da realidade degradante é crença em que “a outras, são ações pontuais, porém, importantes e necessárias e que fazem a diferença. Sobretudo, o
escola é tida como a redentora da sociedade, como se todos os problemas da sociedade fosse ela capaz engajamento coletivo em outras esferas se faz imprescindível, participando de formulações de
de solucioná-los” Guimarães (2007). Acreditamos que o processo escolar seja um importante espaço políticas públicas que visam a construção e a implementação de projetos e programas capazes de
para transformação social, mas essa transformação precisa ocorrer em todas as esferas da sociedade. fortalecer a educação ambiental como um todo, por exemplo. Sairmos do ponto neutro e do
Sabemos que há potencialidades, mas reconhecemos também os limites e desafios a serem vencidos anonimato é uma atitude salutar.
neste espaço concordamos com o pensamento de Freire (2000) que se a “educação sozinha não Vejo que a sociedade é motivada pelo senso comum e pelo comodismo de que não adianta
transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.” mudar posturas enraizadas para se ter um mundo melhor, tenhamos atitudes ecológicas como a do
Sabemos que muitas Instituições defendem que trabalham o tema Educação Ambiental, beija-flor que sozinho ele tenta apagar o fogo da floresta, façamos a nossa parte. Mas, tenhamos
porém, quando averiguamos o Projeto Político Pedagógico este tema não está contemplado, logo, também uma ação coletiva crítica que busque a transformação social. Morin (1997) diz que “esses
este instrumento que defendo ser o coração, o que motiva e o que define e conceitua a Escola como um paradigmas são estruturas de pensamento que de modo inconsciente comandam nosso discurso”.
todo, como Veiga (1995) muito bem o define como o que “organiza as funções educativas para que a O modelo dialógico no qual o Projeto Processo Formativo Escolas Sustentáveis Com-vida está
escola atinja de forma efetiva a sua finalidade de que tenha interações políticas as questões de ensino- respaldado num caminhar educativo que vai além dos muros escolares que estimula uma reflexão
aprendizagem.” crítica da sociedade ecologicamente sustentável amparada no triple: espaço, currículo e gestão.
Nesse sentido o Curso de Aperfeiçoamento Processo Formativo em Educação Ambiental, O espaço refere-se a qualidade de vida na escola em harmonia com um lugar devidamente
pioneiro no Brasil, contemplou um número elevado de profissionais da educação, com uma proposta sustentável, onde se prime pelo uso de equipamentos energéticos e tecnológicos, construção e
pedagógica amparada em três momentos: Módulo 1- Eu, Engajamento, o qual nos leva a refletir sobre a manutenção de hortas e canteiros para o sustento das instituições.

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Processo formativo em educação ambiental - caderno de experiências -

A gestão deve incentivar e alicerçar o coletivo jovem e educadores na construção de espaços O exercício da Pegada Ecológica destaca atividades relativas ao consumo de energia, água e
dialógicos com a finalidade de promover a implantação de ações para um presente e futuro alimentos, levando o individuo a refletir sobre o nível de sua caminhada, marcas e pegadas no
sustentável, assim minimizar o desperdício de alimentos, conscientização em comprar menos planeta, fazendo revelar sua contribuição no cuidado com a Casa (Terra) e na busca da melhoria da
produtos descartáveis e prejudiciais ao meio e demais atitudes que visam o bem-estar da comunidade qualidade de vida.
local e global. Portanto, sejamos caracóis em nossa tarefa de educador num ambiente onde estimule o
O currículo é dirigido pelo Projeto Político Pedagógico instrumento que segundo Alves (1992) diálogo com nossos alunos sem deixar levar pela pressa do mundo moderno. Rubem Alves escreveu
são “ações pedagógicas que organizam as funções educativas para que a escola atinja de forma que a lentidão é uma virtude a ser aprendida num mundo em que a vida corre ao ritmo das máquinas.
eficiente e eficaz as suas finalidades”. E que sejamos “caracol de esperança e no sorriso cintila ao renascimento do amanhã”
Estas ações estão intimamente ligadas ao saber científico e o chão da escola, se efetiva também (BARROS, 2004).
na formação continuada dos educadores tendo como parâmetro a educação ambiental. Nesse sentido sejamos a possibilidade de sermos multiplicadores deste projeto junto às
Nesses cinco meses de tutoria pude perceber que para que se construa no dia-a-dia a noção de escolas e a esperança para a construção de um planeta sustentável.
sustentabilidade é salutar que nós educadores tenhamos a disponibilidade e a vontade de mudar ações
irresponsáveis frente ao meio ambiente. Disponibilidade no sentido de querer assumir a
responsabilidade de cuidar do local onde vivemos e expandir de forma mais abrangente cuidando do
planeta também. Lutarmos para dar um basta nessa cultura consumista e explorada que tende a seguir

Foto 01 e Foto 02.


para as futuras gerações.
É importante que todo esse processo formativo não estagne, é preciso ampliar o leque e buscar
a reoferta deste curso, que deverá primar em atender a um percentual maior de escolas, não tão
somente o ensino médio, que seja estendido ao ensino fundamental. O ideal que fosse pensado para
atender a todos os níveis de ensino, parafraseando é importante deixar um planeta melhor para nossos
filhos, mas mais interessante e deixar filhos melhores para o planeta.
A proposta pedagógica do curso evidenciou como é possível trabalhar com áreas do
conhecimento diferenciadas, tais como: literatura, arquitetura, matemática, entre outras. Isto foi Referência bibliográfica
sentido durante a realização das atividades, alertando que em sala de aula isso é possível. Um
momento marcante foi o depoimento de uma cursista sobre a atividade de análise da pegada ALVES. José Matias. Organização, gestão e projecto educativo das escolas. Porto Edições ASA, 1992;
ecológica: BARROS, Manoel. O Livro das Ignorãnças. São Paulo: Civilização Brasileira, 2000;
“O equilíbrio entre o uso daquilo que o meio nos ofereceu, nos oferece e o que ele FREIRE, P. Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. São Paulo: Unesp, 2000.
poderá nos ofertar futuramente está longe de ser controlada. Isso por ter sido o ser VEIGA, I.P.A. Projeto político-pedagógico da escola: uma construção coletiva. In:VEIGA, I.P.A.(Org.)
racional que nesse planeta habita nada ponderável. E pensar que sou um deles. Projeto político-pedagógico da escola: uma construção possível. Campinas: Papirus, 1995;
Mexeram comigo o questionário sobre as pegadas e as leituras. Fiquei indignada por BRASIL. Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade.
me encontrar nada ponderável”. Processo formador em educação ambiental a distância: módulo 4 - Projeto ambiental escolar
comunitário.Brasília, 2009.

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Processo formativo em educação ambiental - caderno de experiências -
Escolas Sustentáveis e Com-Vida:
o ambiente virtual como meio para um sustentabilidade com os sujeitos que implantam e redimensionam acordos de convivência,
Processo Formativo em Educação Ambiental. reduzindo impactos ambientais e se tornando referência de vida saudável para toda a comunidade,
na medida em que propõem ampliar seu escopo de ação para além das salas de aula, apoiada em
políticas públicas de Educação Ambiental.
Glauce Viana de Souza1 Frente aos objetivos do processo formativo, algumas indagações nortearam nossa pesquisa,
Sonia Palma2 tais como: As escolas são lugares privilegiados para constituir em espaços educadores sustentáveis?
Quais ações podem ser fomentadas entre educador e educandos que tecem compromissos planetários?
As reflexões a seguir revelam algumas percepções identificadas nas 90 horas/aula oferecidas no É possível reverter o cenário escolar por meio dos sujeitos sociais que a compõe? O processo formativo
Processo Formativo em Educação Ambiental: Escolas Sustentáveis e Com-Vida (ESCV) que ocorreu na ESCV contribui para fomentar ações individuais e coletivas nas escolas?
modalidade a distância, por meio de Ambientes Virtuais de Aprendizagem (AVA). São respostas dos
sujeitos da interação no processo formativo em Educação Ambiental: tutores, cursistas, professores
formadores, coordenadores.
Ofertado via edital da Secretaria de Educação Continuada Alfabetização e Diversidade
SECAD/MEC e a Coordenadoria Geral de Educação Ambiental CGEA/MEC em parceria com a
Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), um dos objetivos do curso foi o de disseminar a
concepção teórica e prática da Educação Ambiental, na perspectiva de espaços educadores
sustentáveis, aqueles que têm a intencionalidade pedagógica de se constituir referências concretas de
sustentabilidade socioambiental, conforme definição construída no Colóquio de Educação Ambiental
realizado em 2009, pelo CDES, MEC, MMA e MME.
Considerando que as mudanças devem ocorrer primeiramente no sentido de pertencimento à
natureza, o processo formativo promoveu reflexões acerca do “eu, engajamento”, diálogos abertos
sobre o papel de cada um/uma de nós em relação ao ambiente. Tratou-se de perceber como somos no
mundo e a de admitirmos que nossa vida pessoal se insere em várias dimensões. Posteriormente, como O Programa Mais Educação (Decreto nº 7.083/10-art. 2º. Inciso V), estabelece a criação de
membro do coletivo escolar os cursistas foram convidados a aproximar da escola e auxiliar na espaços educadores sustentáveis abrangendo a inserção da dimensão socioambiental nos
transformação desse ambiente em um território sustentável, projetando ações concretas de currículos, na formação de professores e na elaboração do material didáticos; a gestão sustentável;
e a readequação dos prédios escolares, incluindo a acessibilidade.
Ofertado na modalidade a distância, o curso de aperfeiçoamento propôs uma ação no
espaço escolar articulada em três eixos: currículo, gestão e espaço construído. É importante
1. Professora Mestre da Universidade Federal de Mato Grosso do Instituto de Educação. Coordenadora Geral do Curso de Aperfeiçoamento Escola destacar que o processo formativo ESCV gestado na Educação a Distância (EaD) foi concebido pelas
Sustentáveis Com Vida ofertado pelo MEC/UAB. Atua como professora formadora nos cursos de Educação a Distância (EaD) pelo Núcleo de Educação Aberta
e a Distância NEAD/UFMT e Universidade Aberta do Brasil (UAB). E-mail: glauce.ufmt@gmail.com Instituições de Ensino Superior UFMT, UFOP, UFMS naquilo que se faz substantivo na concepção de
2. Mestranda em Educação pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), sob orientação de Michèle Sato, na linha de pesquisa Linha de Pesquisa
Movimentos Sociais, Política e Educação Popular. Coordenadora de Tutoria do Curso de Aperfeiçoamento Escola Sustentáveis Com Vida ofertado pelo
ensino, ou seja, não às características, aos adjetivos (ser à distância, presencial, semipresencial,
MEC/UAB. E-mail: sonia_palmasp@hotmail.com modular) que se deve centrar nossas ações, mas, sim a compreensão de que estamos fazendo

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Processo formativo em educação ambiental - caderno de experiências -

educação (NEDER, 2001). E ainda, devemos pensar em terminologia/adjetivação desde que, antes que Os polos da Universidade Aberta do Brasil (UAB) possibilitaram a oferta por seu espaço e
dar prioridade a qualquer um desses termos para a educação, possamos pensá-la como o substantivo logística de gestão. A plataforma Moodle foi o Ambiente Virtual de Aprendizagem que favoreceu os
urgente e necessário à sociedade. Assim, educação, aprendizagem e escola se interconectam pelo estudos realizados. As três instituições envolvidas contaram com mais de oitenta , mediadores da
proposito socioambiental em que as bases da cultura da sustentabilidade podem ser delineadas. aprendizagem dos cursistas. Momentos presenciais com os cursistas ocorreram nas aulas inaugurais
Configurando um novo contexto educacional, as Tecnologias da Informação e da Comunicação nos polos UAB, e no mês de novembro de 2011 será realizado o Fórum Estadual das Escolas de
(TIC´s) mediam atualmente os processos de ensino aprendizagem, e não restritamente a modalidade Sustentáveis com objetivo de socializar as experiências sustentáveis implementadas nas escolas
a distância, já que os cursos presencias também passaram a se beneficiar dessas experiências de pelos professores que realizaram o processo formativo. O material impresso e em CD room
adoção das novas práticas. Tori (2010) contribui no entendimento das TIC´s quando descreve o elaborado foram significativos para estudos no curso, considerando que os novos viés das mídias e
surgimento de um fenômeno de convergência entre o virtual e o presencial na educação, também das tecnologias, que ganham força na sociedade contemporânea, não garantem novos tempos,
conhecido como Blended Learning, este apresenta possibilidades de gerenciamento de conteúdos e novos nichos de leitores, embora há ocorrência dos grupos sociais que se especializam em linguagem
processos de ensino aprendizagem em educação a distância, que por sua vez recebem diferentes mediática, nas narrativas do contemporâneo, porém há que considerar que o engajamento politico e
denominações, tais como : AVA´s - Ambiente Virtual de Aprendizagem ou LMS -Learning Management cultural do material impresso é preponderante. Nielsen (1995) contribui na discussão ao apresentar
System. que a velocidade de leitura a partir da tela de um computador é 30% mais lenta que a partir de textos
Contribuindo no entendimento das TCI´s na educação, Anjos (2010) apresenta as faculdades impressos.
permitidas pelas tecnologias em três dimensões distintas: o tipo de interação que permitem; o tempo O curso foi planejado para três meses de aprendizagem, mas em sua modalidade ofertada
em que acontece a comunicação e a direção e a forma de comunicação. pela UFMT ele teve seu tempo de realização estendido para quatro meses, considerando a inclusão
de cursistas em outros ritmos de aprendizagem, peculiaridade da educação à distância. Para cada
O tipo de interação que permitem: esse processo é viável quando observamos semana de curso foram organizados textos obrigatórios e textos complementares, acerca do
que algumas tecnologias permitem processos de interação “um a um”, “um a assunto espaço educador sustentável, frente aos eixos: Currículo, Gestão e Espaço. As atividades de
muitos” e “muitos a muitos” aprendizagem foram organizadas em diferentes formatos, oportunizadas pelas ferramentas da
O tempo em que acontece a comunicação: podemos considerar como Plataforma Moodle.
síncrono, quer dizer, em tempo real, ou então, assíncrono em um momento ŸConsubstanciados nos estudos realizados por Anjos(2010), observamos que o curso ESCV
posterior ao presente. realizou em seu processo formativo a interação assíncrona e síncrona conforme resultados
A direção e forma da comunicação: nesta situação, encontramo-nos com a apresentados a seguir:
comunicação unidirecional, como é caso da televisão analógica tradicional e ŸAssíncrona um a um: correio eletrônico (envio de mensagens individuais); envio de arquivo e
com a comunicação bidirecional, por exemplo a comunicação, com a utilização envio para a base de dados.
de vídeo conferencia (ANJOS, 2000, p.18). ŸAssíncrona um a muitos: Vídeo; lista de interesse; grupos de discussão;
ŸAssíncrona muitos a muitos: grupo de discussão; blog´s;
O curso, ofertado pelas três Instituições de Ensino Superior, teve sua conclusão a partir de
ŸSíncrona um a um (em tempo real): telefone; skype;
Maio/2011, com a capacitação de mais de mil professores em Educação Ambiental – espaços
ŸSínrona um a muitos: Chat (sala de bate –papo);
educadores sustentáveis, por meio de polos de EaD/UAB no Brasil. As inscrições foram feitas pela 3
ŸSíncrona muitos a muitos: Vídeoconferência ; Chat
Plataforma Freire, sistema de acesso e cadastramento de cursos elaborado pelo MEC para professores
da rede publica de ensino.
3. Realizamos três vídeos conferência entre quatro estados, contemplando as IES envolvidas: UFOP; UFMS e UFOP e a CGEA/MEC.

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Processo formativo em educação ambiental - caderno de experiências -

Mensalmente as IES promoveram encontros presenciais, garantindo o mínimo de exigência de professores tutores no processo de mediação da aprendizagem. A avaliação das atividades
presencialidade do curso, quando os tutores se reuniam para estudos e debates acerca do assunto propostas e os critérios estabelecidos no curso ESCV foram pautados na capacidade do cursista de
para atuarem na mediação pedagógica dos cursistas. Na modalidade ofertada pela UFMT, os cursos de produzir e reconstruir conhecimentos, de analisar e posicionar-se criticamente diante das situações
formação para os Módulos I, II e III, aconteceram nos meses de outubro de 2010, fevereiro e março de concretas que lhes foram apresentadas. Um segundo critério foi a capacidade de estabelecer
2011, respectivamente, recheados por uma dinâmica de formação que se deu desde reuniões interação com os colegas do curso e com o tutor. Os critérios de coesão e coerência textual foram
pedagógicas com tira-dúvidas e bate-papos, passando para formação técnica a partir do conteúdo do também contemplados no percurso de aprimoramento textual de suas análises críticas, bem como
módulo e formação no Ambiente Virtual de Aprendizagem, até palestras realizadas por Professores normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). O processo avaliativo foi muito rico
Doutores de renome nacional e internacional. A dinâmica formativa do curso aliada à criticidade dos uma vez que identificamos na reflexão crítica postada a relação da teoria diante de suas próprias
tutores pertencentes aos grupos de pesquisa em educação ambiental de cada IES, no caso da UFMT experiências, dentro de seus limites, em que rege a educação ambiental, sobretudo a
tutores em sua maioria pertencentes ao Grupo Pesquisador em Educação Ambiental, Comunicação e implementação de políticas publicas e tomadas de decisões individuais e coletivas.
Arte (GPEA), garantiu subsídios teóricos e práticos aos tutores na mediação da aprendizagem Enfim, para que a escola seja um espaço educador, ela deve reafirmar constantemente seu
proposto no curso ESCV. compromisso com a educação equitativa, diversa, plural e sustentável e, sobretudo, concebermos
Um elemento dinamizador no curso e que merece destaque foi a investigação in loco proposto que “ a educação é um processo social, é desenvolvimento. Não é a preparação para vida, é a própria
no ambiente escolar dos professores/cursistas, objetivando correlacionar teoria e prática, a exemplo vida” (Dewey, 1980).
um levantamento do consumo e produção de resíduos sólidos na escola, destino dos resíduos secos e
molhados, consumo de energia, ecotécnicas possíveis de serem implementadas, revisão do PPP na
escola, e por último o desafio curricular de exercitar o pensar e agir a partir das interações dinâmicas REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
entre ambientes, cultura e sociedade. Nesse sentido, a inserção curricular da educação ambiental no
PPP da escola promoveu discussões riquíssimas em âmbito escolar, reorientando valores e atitudes
sobre “que aluno desejo formar para contribuir na construção de sociedades sustentáveis?”. ANJOS, Alexandre Martins dos. Orientações e dicas para melhorar seu processo de estudos. Módulo I -
Os resultados das pesquisas “in locus” foram apresentadas por meio da ferramenta fórum, blog Relações Raciais e Educação na Sociedade. Cuiabá: EdUFMT , 2010.
da escola, chat que muito contribuiu na interatividade da aprendizagem. Interatividade aqui TORI, R. Educação sem distância: as tecnologias interativas na redução de distâncias sem ensino
entendida, conforme propõem Neder (2009) e Possari (2001), como um processo que permite a
aprendizagem. São Paulo: SENAC. 2010.
coautoria entre emissor e receptor, sendo este último entendido como transformar-se, a partir de suas
ações, em coprodutor de sentidos. As autoras afirmam seguir os preceitos bakhtinianos, interatividade NEDER, M.L.C. A formação do professor a distância: desafios e inovações na direção de um prática
é diálogo, interação, troca entre interlocutores humanos, equivale dizer que o leitor pode e deve transformadora. Cuiabá: EdUFMT. 2009.
interferir no texto do produtor. POSSARI, Lúcia H.V. e NEDER, Maria Lucia C. Linguagem - o entorno, o percurso. Vol.1.Cuiabá:
No percurso da organização pedagógica, vale apresentar o processo avaliativo construído pela EDUFMT/NEAD, 2001.
equipe de coordenação no curso, considerando as variáveis de interferência em um curso na
DEWEY, John. Vida e Educação. In: Os pensamentos. São Paulo: Abril Cultural, 1980.(p 106-179)
modalidade a distância, em nível de aperfeiçoamento profissional. Os exercícios propostos não
tiveram intencionalidade de reprovação. O cursista foi imbuído num processo de ir-e-vir, um retomar, TRAJBER, R. & MOREIRA, T. (org). Escolas Sustentáveis e Com Vida: Processos Formativos em Educação
um rever suas produções elaboradas a partir do aporte teórico oferecido pelo curso, sempre com os Ambiental. Ouro Preto: UFOP, 2010.

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ESCOLAS SUSTENTÁVEIS E COM-VIDA EM MATO GROSSO
Processo formativo em educação ambiental - caderno de experiências -
ESCOLAS SUSTENTÁVEIS NO CONTEXTO DA EDUCAÇÃO
AMBIENTAL DO MATO GROSSO parece estar longe se ser construída, no entanto se tentarmos responder a esta pergunta no
coletivo da comunidade escolar vivenciando a gestão democrática na escola certamente
encontraremos uma grande variedade de táticas.
Débora Erileia Pedrotti-Mansilla1
2 O coletivo escolar tem estas respostas, pois a práxis lhes garante isso, no entanto o que falta
Giselly Rodrigues das Neves Silva Gomes
Regina Silvana Silva Costa3 ao contexto escolar é a organização de processos fecundos de dialogo. O projeto Escola Sustentável
Valdiney Vieira da Silva
4 chegou às escolas do Mato Grosso de forma a contribuir para que este desafio seja vencido, já que
considera na sua estrutura o Currículo, a Gestão e Espaço.
Mato Grosso tem hoje por meio da SEDUC MT uma política clara de educação ambiental no
âmbito escolarizado que Oe o Projeto de Educação Ambiental (PrEA), que busca a construção dos
O papel da Educação ambiental não é apenas proporcionar alicerce político Projetos ambientais escolares comunitários, que se constituem de uma tática de construção
pedagógico, mas ressignificar o existir. (Michèle Sato, 2009). coletiva da comunidade escolar juntamente com a comunidade circundante. A tática clara então do
PrEA se constitui na participação democrática, e na significação do trabalho curricular por meio da
proposição de discussões pertinentes a comunidade a qual a escola está inserida e não o contrário,
Como pensar a Escola como espaço de criação da mudança de atitude para a vida no ambiente,
mas juntar-se a novos sonhos e experimentar novos caminhos é importante considerando que
se ela é depositária da sociedade e nela encontramos uma rica diversidade? Baseados na epígrafe acima
coadunamos com a autora de que precisamos ressiginificar o existir e a sugestão é para que se busque
o direcionamento pautado na esperança freiriana que nos traz que a escola não muda a sociedade, mas
As conquistas no campo das Políticas Públicas em Educação Ambiental foram
ela muda as pessoas. construídas ao longo dos anos pelos sujeitos habitantes desta terra, que se
O espaço da escola é campo de atuação da Secretaria de Estado de Educação do MT (SEDUC movimentam na busca pela sustentabilidade ambiental, e a convergência dessas
MT), onde ousamos sonhar juntos com o coletivo a construção de sociedades sustentáveis, e o Curso Políticas e Planos construídos de forma democrática fortalecem as ações de
de Formação escolas sustentáveis, foi no contexto mato-grossense mais uma fortaleza para a educação ambiental no Estado, que contribuirá de forma decisiva para a sua
possibilidade desta construção. Neste sentido este texto busca refletir sobre a experiência deste curso implementação no sistema formal e não formal de ensino. (PEDROTTI-MANSILLA,
de formação continuada no contexto da comunidade escolar da EE José Leite de Moraes e da SEDUC 2010, 134 p.)
MT.
Um dos desafios da educação ambiental nos sistemas educativos é descobrirmos táticas que Foi neste contexto da educação ambiental mato-grossense que professores de 06 escolas
sustentem a construção de uma escola sustentável, que abarque o coletivo da Escola. Se analisarmos a participaram do curso de formação de professores Escolas Sustentáveis, na busca de significarmos
questão anterior do ponto de vista da fragmentação do currículo (contexto individual) esta tática ainda mais a nossa atuação como educadores deste ambiente o qual é de nossa responsabilidade.
Sendo elas Cuiabá: EE Zélia Costa de Almeida, EE Historiador Rubens de Mendonça; Várzea Grande:
EE José Leite de Moraes, EE Fernando Leite de Campos; Diamantino: EE Plácido de Castro.
No entanto o contexto da escola é complexo e têm inúmeras nuances que deve ser
1. Profa. Doutora da Secretaria de Estado de Educação do Mato Grosso. E-mail: debypedrotti@gmail.com.
2. Profa. Mestre da Secretaria de Estado de Educação do Mato Grosso. considerada ao fazermos qualquer proposição da o trabalho da educação ambiental, desta forma a
3. Profa. Mestre da Secretaria de Estado de Educação do Mato Grosso. tríade formada pelo Currículo, a Gestão e Espaço aparecem como componentes aparentemente
4. Prof. Especialista da Secretaria de Estado de Educação do Mato Grosso.
simples na Escola, mas ao se interrelacionarem criam situações adversas inclusive para o trabalho
dos professores.
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Processo formativo em educação ambiental - caderno de experiências -

Desta forma o Projeto Escolas Sustentáveis traz em seu bojo a necessidade da Escola inscrever A Coordenadora salienta que a vivencia do curso trouxe a reflexão do individual e do coletivo,
os princípios da Educação ambiental no seu Projeto Político Pedagógico o que faz com que as unidades conceitos experimentados pela escola na execução das ações do Projeto. O foco no individual veio
escolares considerem em seus planos e na sua missão pautados neste documento que podemos desde se perceber como uma espécie que faz parte do ambiente até chegar ao coletivo nas ações
chamar como a alma da Escola. que foram desenvolvidas: formação de professores, caminhadas ecológicas, cuidado com o espaço
Segundo relatório apresentado pela Coordenadora da EE José Leite de Moraes Profa. Maria escolar (Figura 2), criação de hortas e sensibilização de toda a comunidade escolar.
Sebastiana os caminhos traçados pelo Curso de Formação Escolas Sustentáveis que se sustenta no EU- A escola conseguiu realmente vivenciar as dimensões do Projeto Escolas Sustentáveis:
OUTRO-MUNDO, foi fundamental para que a Escola percebe-se a importância da identidade das espaço, currículo e gestão.
pessoas junto ao Ambiente. Assim o foco dado ao espaço foi catalisador de ações de toda a comunidade escolar
O Projeto Sustentabilidade: Conhecer, Refletir e Agir construído pela referida Escola, objetivou sensibilizando todos e todas sobre a importância da conservação também do espaço escolar.
sensibilizar a comunidade escolar para a construção de uma comunidade justa e solidaria em um
ambiente sustentável do ponto de vista social, cultural e econômico, a partir de ações de natureza
efetiva que conduzam os envolvidos a uma postura reflexiva diante das interações do individuo com o
meio e as possíveis consequências de tais interações
Teve inicio com a promoção de momentos de reflexão coletiva dentro do ambiente escolar
(Figura 1), que envolveram a equipe escolar alunos e comunidade em torno do Projeto construído no
processo de formação.

Figura 1 – Apresentação e Figura 2 – Limpeza de


sensibilização da carteiras e do
Comunidade sobre o ambiente pela
Projeto das Escolas. comunidade escolar.

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Processo formativo em educação ambiental - caderno de experiências -

No currículo o enfoque da educação ambiental foi nas três áreas do conhecimento: O comprometimento e a aceitação do Projeto Escolas Sustentáveis e do Projeto da
Linguagens Códigos e suas Tecnologias, Ciências da Natureza e Matemática e Ciências Escola por meio da equipe gestora da unidade escolar foi fundamental para a realização do
Humanas e suas Tecnologias sempre motivando as ações e reflexões por meio da mesmo e o tornou exequível, fortalecendo assim a importância de se ter nas unidades
interdisciplinaridade. escolares equipes gestoras comprometidas com o Projeto da Escola, o que contribui de forma
A formação dos professores (Figura 3) foi vivenciada para além das atividades significativa para a construção de um currículo pautado na dialogicidade.
desenvolvidas no curso e se completou em viagens a campo, novas leituras da realidade e na Após as reflexões contidas neste texto a nossa esperança se sustenta por meio do
discussão de subsídios teóricos. A formação é fundamental para a formação humana Projeto de Educação Ambiental da SEDUC MT e nas possibilidades da inserção de novos
projetos como o Projeto Escolas Sustentáveis no sentido de cotidianamente recriarmos novas
táticas de luta por meio dos processos pedagógicos ricamente construídos pelos profissionais
da educação do Estado de Mato Grosso.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MATO GROSSO, Secretaria de Estado de Educação. Projeto de Educação Ambiental - Caderno 1: Em


Constante Construção. Cuiabá: Tanta Tinta, 2004.
PEDROTTI_MANSILLA, Débora E. Avaliando a Política de Educação Ambiental nas escolas do Mato
Grosso: desafios entre os domínios da governança e da governabilidade. São Carlos: UFSCAR. 2010.
Tese de Doutorado.
EE JOSÉ LEITE DE MORAES. Relatório do Projeto Escolas Sustentáveis. Várzea Grande. 2011.

Figura 3 – Momentos de
Formação Continuada no
Pantanal Mato-grossense.

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Processo formativo em educação ambiental - caderno de experiências -

A gente tem que lutar para tornar


possível o que ainda não é possível.
Isso faz parte da tarefa histórica de
redesenhar e reconstruir o mundo.
Paulo Freire

foto: Regina Silva


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