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to mais divergentes, porém, se tornavam as opiniões e
, ", \: mais extremadas as manifestações musicais, mais se
reafirmava a tese sobre a rica sensibilidade auditiva
Balanço: critérios do nosso povo, que, ao mesmo tempo, assimilava am­
bas as experiências musicais. Se uma modalidade de
A BN, forma de expressão musical que se popu­ samba era extrovertida, adequada para uma prática mu­
larizou em meio a grandes polêmicas, adquiriu muito sicaI de massa e de rua, outra visava uma versão mu­
rapidamente sua estabilidade e maturidade de propó­ sical introvertida, apropriada para a intimidade de
sitos, com base numa militância anônima inicial, até a pequenos recintos, versão camerística, portanto, sem
grande produção e consumo da fase profissional pos­ que a presença de uma implicasse na negação da ou­
terior, quando se transformou num produto brasileiro tra. O caráter grandíloqüente da Quinta Sinfonia de
de exportação dos mais refinados e requisitados fiO Beethoven não invalida a elaboração hiperconcentra­
exterior. da de seus quartetos. A Sinfonia do Destino foi com­
Fazer um levantamento estatístico do movimento posta para grandes salas de concertos, para ser exe­
seria impossível, pois de sua formação faz parte toda cutada e ouvida por grande massa; por essa razão seus
uma coletividade constituída não só de músicos ou ar­ tema~ são curtos (lembre-se do tema inicial, feito ape­
tistas profissionais. Citar também grande quantidade nas de quatro notas, com as famosas "quatro panca­
de nomes seria desnecessário, pois, como ela se encon­ das do destino"), mais simples e facilmente assimilá­
tra vivamente integrada na realidade brasileira, todos veis; a instrumentação é duplicada e menos predosís­
aqueles que tiveram atuação destacada receberam o de tica, a fim de conseguir os efeitos adequados para o
vido reconhecimento popular. Comentaremos, portan· espetáculo do concerto. Os quartetos, compostos espe­
to, a atuação de elementos que ocupam os pontos-cha­ cialmente para recintos pequenos, condição que pres­
ve do movimento e cujo destaque se deve a uma con­ supõe maiores possibilidades de concentração e mais
tribuição mais definida. Será um trabalho crítico, mas direto contato com a audiência, são mais detalhistica­
não nos perderemos em detalhes, procurando abordar mente elaborados, possuem condensação e economia
() fenômeno sob um prisma genérico, em função de sua máxima de elementos. A relação é a mesma . .os sam­
importância real como arte autêntica: representativa bas de rua têm linhas melódicas mais simples, para
das exatas características espirituais do povo brasilei­ serem facilmente cantados e assimilados; harmonias
ro; criativa, pela introdução de novos padrões de in­ que contêm apenas os acordes básicos, para evitar a
terpretação e composição em nossa música; e de ex­ dispersão de qualquer espécie; ritmo simples, claro e
portação, pela importância que ela pode ter, no cam­ repetitivo, pois sua função é condl!tora e unificadora.
po da música popular, em nível internacional. Os textos revelam uma estrutura simples, facilmente
cantável e assimilável, permitindo e sugerindo, com
isso, a participação inclusive da assistência. Na maio­
Os extremos do samba ria das vezes, uma única frase é suficiente para dina­
mizar a coletividade. Veja-se o exemplo do último car­
As primeiras manifestações desse movimento re­ naval: "ui ui ui, robaro a mulhé do Rui, se pensa
novador receberam, por parte de observadores precipi­ que fui eu, cu juro que não fui". Mas, tomando-se o
ta~os, pouco informados ou sectários, as mais veemen­ Rio de Janeiro para exemplificar nossas considerações,
tes críticas no sentido de que a BN não seria samba pois lá os fenômenos estão geograficamente melhor
autêntico. O fato, reconhecido atualmente, de que ela delineados, se o morro e a Zona Norte comandam pra­
representa mais uma rica dimensão da música popular ticamente o carnaval carioca com seus blocos e esc 0­

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las de samba que injetam na Cidade Maravilhosa alta dessa espécie de mUSlca e a simplicidade, a esponta­
dose de uma energia que a transforma, por um perío­ neidade num mínimo de elementos e a extroversão,
do, no caos mais bem organizado do mundo, a Zona os característicos da outra, isso não implica em maior
Sul, mesmo não ficando indiferente ao reinado de ou menor grau de qualidade ou autenticidade de ne­
Momo, oferece também um outro tipo de contribuição nhuma delas. O fato de o Maracanã inteiro poder can­
musical que deita raízes igualmente na sua maneira de tar em uníssono "ui ui ui, robaro a mulhé do Rui" e
reinar. Por ser Copacabana, por exemplo, a maior não poder cantar o DesafilUldo não significa - e es­
concentração demográfica do País, e os seus aparta­ clareça-se muito bem este aspecto! - que esta música
mentos, os seus pequenos bares e boites, os locais não seja ou não possa ser popular, ou possua algo
onde circula diariamente toda uma faixa da popula­ menos que a outra (os detalhes de execução de um
ção, é natural que a manifestação musical oriunda quarteto de Beethoven jamais poderiam ser evidencia­
dessa região tenha características próprias. Não só a dos por uma orquestra sinfônica). O importante, digno
expressão "cabrocha" é substituída por "garota", "re­ de nota e da mais profunda admiração, pois isso é
quebrado" por "balanço", e, às vezes, "mulata" abran­ raro no mundo, é o fato de, em nosso país, ser pos­
dado para "morena", como também uma forma de ex­ sível a coexistência - criação e consumo popular ­
pressão musical mais sutil e mais elaborada se criaria de dois tipos de música radicalmente opostos em suas
ali, sugerida pela intimidade dos pequenos ambientes, estruturas. Mas, para completar, já que tomamos o
di~ersa de uma manifestação musical oriunda de um Rio como exemplo, podemos afirmar que nem a BN
terreiro de Vila Isabel. Surgiria uma música mais vol­ é objeto estranho ou incompatível com a Zona Norte
tada para o detalhe, baseada quase sempre no canto, e nem a Zona Sul permanece indiferente ao "sambão"
violão e pequenos conjuntos; desenvolver-se-ia a prá­ ou às manifestações de massa, sobretudo a do carnaval.
tica do "canto-falado" ou do "cantar baixinho" ­ O que pode acontecer - e acontece - é que os ex­
uma vez que a audiência está próxima - , do texto tremos do samba se toquem e se auto-influenciem, o
bem pronunciado, do tom coloquial da narrativa musi­ que não representa nada de negativo para nenhuma
cal, do acompanhamento e canto integrando-se mu­ das partes muito ao contrário.
tuamente, em lugar da valorização da "grande voz" ou
do "solista"..Essas condições de concentração permi­
tem também o uso de textos mais elaborados, mais Divisão das águas
refinados e, não raro, com artifícios poéticos de alto
nível literário. A estrutura musical é mais rebuscada; O movimento da BN irrompeu popularmente
as melodias são, em geral, mais longas e mais dificil­ através de um acontecimento de rotina, mas de reper­
mente cantáveis, as harmonias mais complicadas, ple­ cussões imprevisíveis, talvez até mesmo para os seus
nas de acordes alterados e pequenas dissonâncias, os próprios responsáveis materiais: o lançamento de um
efeitos de interpretação são mais sutis e mais pessoais, disco. Em março de 1959, a Odeon lançava na praça
permitindo pequenos artifícios, como silêncios ou pau­ o LP de um estranho cantor que cantava baixinho,
sas expressivas, assim como detalhes de execução ins­ discreta e quase inexpressivamente, interpretava melo­
trumental mais sofisticada etc. Por ser também essa dias difíceis de ser entoadas, dizia "bim bom bim bom,
faixa da população mais rica, possui condições ade­ é só isso o meu baião e não tem mais nada não",
quadas para se informar através de gravações e da im­ advertindo, ele mesmo, que, "se você insiste em elas-­
prensa, recebendo assim dados sobre o que acontece sificar meu comportamento de antimusical, eu, mesmo
em outras regiões do mundo e com outras músicas, mentindo, devo argumentar que isto é bossa-nova, que
sofrendo influências e aperfeiçoando as suas próprias isto é muito natural ... " A orquestra executava uma
criações artísticas. Se a sutileza, o detalhe, a elabo­ ou outra frase e silenciava, o acompanhamento do vio­
ração e a introversão são as características originais lão possuía uma "batida" e uma harmonia completa­
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mente diferentes do que se estava acostumado a ou­ Bíblia da bossa-nova "
vir, e assim por diante. Apesar de todos esses aspectos
estranhos, a sensibilidade musical popular brasileira, o impacto, a polêmica e ao mesmo tempo o in­
mais uma vez, dera prova de sua aguda perspicácia, teresse suscitados com o lançamento do LP "Chega
identificando, nesse estranho intérprete, algo de muito de Saudade" não foram meramente acidentais. Nele se
especial, consumindo esse LP em grande escala. João concentravam, da maneira mais rigorosa e dentro do
Gilberto era o intérprete, violonista, compositor, co­ mais refinado bom gosto, os elementos renovadores
-arranjador, principal responsável por esse feito, que essenciais que a música popular brasileira urbana exi­
viria modificar o curso da música popular brasileira. gia naquele exato momento, em sua vontade de as­
Esse "baiano bossa-nova", na expressão de Jobim, pes­ similação de novos valores. E hoje, podemos observar
soa de pouca prosa, provocaria, com sua manifestação claramente, que, dentro da faixa BN, aqueles que se
musical sutil, diferente, introvertida, as mais espetacu­ distanciaram consideravelmente das idéias sugeridas
lares polêmicas que já se realizaram em torno de pro­ pelo LP voltaram ao "samba rasgado" ou enveredaram
blemas de música popular em nosso País. "B música? para os caminhos de uma sofisticação de base jaz­
Não é música?"; "B cantor? Não é cantor?"; "B sam­ zística, de mil maneirismos vocais, que o próprio jau
ba? Não é samba?"; "Ê autêntico? Não é autêntico?" americano já superou há anos, como veremos em se­
Ele próprio jamais se preocupara com essas pergun­ guida. Seria, portanto, impossível iniciar qualquer aná­
tas e muito menos com as respostas. Nunca compa­ lise da BN, sem antes considerar com mais detalhes o
recera a uma discussão pública: apresentava-se na TV, conteúdo desse LP.
rádio e boítcs, guardava a guitarra e se retirava. Sua Se o sucesso do disco despertou a atenção popu­
autoconfiança se baseava na seriedade e no intenso lar para a "figura" do cantor, ao ouvirmos a pr6pria
trabalho de pesquisa que realizava chegou, uma gravação não encontramos uma interpretação que se
vez, a ter uma distensão muscular por excesso de tenha afirmado com base na demagogia pessoal, em
exercício! - , adotando sempre uma atitude definida virtuosismos vocais Oll recursos extramusicais. Ao con­
e radical, sem nunca ter feito qualquer espécie de con­ trário, a discrição, a sutileza e o rigor seriam os ca­
cessão comercial. Sua mensagem musical, porém, fora, racterístiCos básicos de sua arte.
em muito pouco tempo, compreendida e assimilada e
o conteúdo dessa mensagem seria também o marco di­ O aspecto que de início chamou a atenção do ou­
vism das águas. De um lado permaneceriam aqueles vinte foi o caráter coloquial da narrativa musical. Uma
que possuíam uma visão ampla, viva, progressiva e interpretação despojada e sem a menor afetação ou
aberta às novas formas de expressão musical popular peripécia "solística" era parte essencial da revolução
e, no outro lado, refugiar-se-iam todos os saudosistas proposta pelo disco. Em outros termos, era a negação
que tentavam apoiar-se em argumentos anacrônicos do "cantor", do "solista" e do "estrelismo" vocal e de
para justificar sua incapacidade de perceber coisas todas as variantes interpretativas 6pero-tango-bolerís­
novas. A juventude, porém, identificou-se imediata­ ticas que sufocavam a música brasileira de então. Era
mente com o fenômeno, passando logo em seguida a a vez do cantochão, da melódica mais simples e fluen­
organizar audições dessa música em universidades e te, da empostação mais natural e relaxada, não raro
em pequenos teatros, ao mesmo tempo que iniciou a com trechos em "lá-lá-lá" ou assobiados, onde se per­
prática musical amadorístic"a do novo estilo. O violão cebem, com toda a clareza, as mínimas articulações mu­
passou a ser o instrumento predileto da juventude. O sicais e literárias. O acompanhamento, em vez de ser­
sucesso, o consumo e a militância cada vez maiores vir . de background para o "solista", com grandes in­
delinearam com clareza as pi'etensões artísticas do mo­ troduções e finais sinfônicos, era, ao contrário, came­
vimento, dando-lhe presença estável no cenário bra­ rístico, econômico e muito transparente. Os instrumen­
sileiro. tos acompanhantes se integravam discretamente ao

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canto, com intervenções esparsas; às vezes uma única Se o sucesso do novo estilo musical traria à cena
frase nos violinos durante toda uma música, ou um toda uma nova geração de compositores que a partir
contraponto ao canto executado pela flauta; num mo­ de então tiveram chance de colocar na prática uma
mento melódico-rítmico especial, ouve-se um acorde grande quantidade de novas idéias musicais, vamos
dado pelo piano, que não comparece mais na peça; a observar, prosseguindo na análise do LP "Chega de
entrada de uma segunda voz ou de um coro pianíssimo Saudade", que o próprio João se faria presente no disco
que canta uma única frase ou um· contraponto em como autor de duas composições onde ele deixaria
terças com o canto e silêncio; às vezes, apenas canto claras também suas pretensões artísticas, no sentido da
e percussão ou canto puro e assim por diante. Foram criação - texto e música. Numa época em que faziam
evitadas as introduções e finais sinfônicos .- às vt:zes sucesso músicas como Ouça ou Risque, cujo conteúdo
não há introdução nem final, começando ou terminan­ musical e literário mais se aproxima dos longos dra­
do secamente ou deixando uma frase se repetir inde­ mas bolero-musicais centro-americanos, chegava o
finidamente cada vez mais piano até desaparecer, evi­ baiano BN com seu baiãozinho simples, concreto e
tando sempre perorações demagógicas. Outro aspeeto musical, que em tom de blague dizia: "Bim bom, é
inovador de grande importância e que se tornou popu­ só esse o meu baião e não tem mais nada não. O meu
lar após o sucesso do disco c do movimento BN, foi coração pediu assim", ou então: "Oba-lá-lá, é uma
o desenvolvimento da linguagem violonística de acom­ canção. Quem ouvir o Oba-lá-lá terá feliz o coração".
panhamento. Até então se conheciam popularmente os
acordes básicos da harmonia tradicional, sobre os Essa seria, na realidade, a revolução proposta
se faziam as composições. Os acordes que tinham o pelo disco e pela BN em seu aspecto mais original.
nome popular de "primeira", "segunda", "preparação" Reduzir e concentrar ao máximo os elementos poéticos
e "terceira" posição, que na realidade eram tônica, do­ e musicais, abandonar todas as práticas musicais de­
minante, tônica com sétima e subdominante, passaram magógicas e metafóricas do tipo "toda quimera se eS­
a ser insuficientes para o acompanhamento dessas fuma na brancura da espuma". Evoluir no sentido de
composições. Estes eram baseados, em geral, no acor­ uma música de câmara adequada à intimidade dos pe­
de de ;ríades perfeitas (dó, mi, sol, por exemplo), e exe­ quenos ambientes, característicos das zonas urbanas
cutado."; quase sempre em posição fundamental, isto é, de maior densidade demográfica. Uma música voltada
com a nota principal do acorde (dó) no baixo. A par­ para o detalhe, e para uma elaboração mais refinada
tir da BN, passou-se a fazer uso de acordes alterados com base numa temática extraída do próprio cotidiano:
em grande quantidade, ou acordes com notas es­ do humor, das aspirações espirituais e dos problemas
tranhas à harmonia clássica, popularmente conhecidos da faixa social onde ela tem origem. E a música que
como "dissonantcs". ,~ todos podem cantar, pois nega a participação do "can­
tor-solista-virtuose"; após o sucesso do movimento,
artistas não-cantores, com suas vozes imperfeitas mas
naturais, fizeram suas gravações - como o próprio
Jobim e ViniCius. Artistas sem grandes recursos vocais,
como Nara Leão, Geraldo Vandré, Carlos Lyra e As­
trud, também fizeram sucesso como "cantores". Por
outro lado, cantores com recursos, como Agostinho
dos Santos, ou Maysa, depois do advento da BN, pas­
saram a adotar uma interpretação muito mais despo­
jada e menos "estrelista".
Outro aspecto decisivo proposto pela BN foi a
superação do amadorismo musical, não no sentido
temática brasileira resultava uma música "arrojada"
profissional, mas artístico do termo. A idéia da música para a época. A empostação jazzística de suas músi­
popular como hobby de hora vaga, semelhante ao jogo cas, porém, sempre foi claramente perceptível, sobre­
de cartas, que consome a atenção apenas no momento tudo quando ele pr6prio as cantava. Sua interpretação
de sua prática, deixou de existir. Aqueles que integram é cheia de maneirismos, muito ao sabor do be-bop e
o movimento de maneira mais ativa têm, perante a de virtuosismos e afetações vocais típicas do jazz ame­
realização musical, um tipo de preocupação constante ricano da década de 40. Outro exemplo, semelhante
que abrange não só a pesquisa musical em si e a as­ e digno de nota, é o de Dick Farney.Sendo também
similação de novos recursos técnicos, como um inte­ um dos bons executantes de jazz no Brasil, estabeleceu
resse cultural geral que inclui outras modalidades ar­ essa relação, ou emprego de recursos da música ame­
tísticas. O exercício, o estudo instrumental e vocal e ricana à brasileira, deixando também sempre clara a
a pesquisa sonora através da prática do próprio ins­ influência sinatriana em suas interpretações. Além des­
trumento ou da audição de discos, ou seja, a busca de ses compositores que nos ofereceram músicas que se­
informação, passou a ser uma preocupação constante riam aproveitadas pela BN, pelo seu sentido harmô­
desses músicos. nico e melódico, havia também uma série de cantores,
que, por suas interpretações mais discretas e mais pró­
Verdadeiras origens ximas do que chamamos de "canto-falado", poderiam
também ser apontados como "precursores". f: o caso,
por exemplo, de Doris Monteiro, Nora Ney, Lúcio
Se na época da eclosão do movimento renovador, Alves, Tito Madi e o próprio Ivon Cury. Suas inter­
o acontecimento divisor das águas foi o LP "Chega pretações eram bastante despojadas e evitavam solu­
de Saudade", fato que parece indiscutível, um outro ções vocais e virtuosísticas, optando mais pela simpli­
aspecto da BN, aquele que se refere às suas origens, cidade expressiva e sentido do canto quase recitado.
continua sugerindo polêmicas. As tentativas até agora
Outro fenômeno significativo da fase imediata­
feitas no sentido de buscar as verdadeiras raízes do mentc antcrior à BN foi o LP "Canção do Amor De­
movimento têm atribuído, na maioria das vezes, a ar­ mais", com Elisete Cardoso, onde Jobim e Vinicius,
tistas cuja atuação musical antecedia de alguns anos que se tornariam dois dos mais destacados elementos
ao advento do novo estilo, a função de "precursores". da nova música, estavam reunidos em todas as faixas.
Sendo a BN uma música de origem popular, não há LP que deu à intérprcte, inclusive, a possibilidade de
dúvida de que toda uma plêiade de artistas tomou par­ atingir um dos pontos altos de sua carreira. Se a mú­
te ativa nessa fase de cristalização de idéias. Assim, sica popular brasileira, porém, permanecesse nesse es­
alguns deles poderiam ser citados como antecessores, tágio, não se teria tido uma idéia do que seria a BN.
considerando-se diversos aspectos de suas contribui­ As músicas eram em geral baseadas na forma da mo­
ções. f: o caso, por exemplo, de" Johnny Alf. No início dinha e do recitativo dos mais tradicionais, acrescidas
da década de 50, ele já nos apresentava composições apenas pelos recursos musicais de Jobim, sobretudo
bastante rebuscadas, tanto melódica como harmônica­ por sua imaginação melódica, sem dúvida a mais rica
mente, parte das quais foi utilizada após o advento com que a nossa música popular conta em seus últi­
da' BN. mos anos. Também o acompanhamento e a orquestração
Isto se dava pelo fato de Johnny Alf ser um as­ eram tradicionais; em geral sinfônicos e com instru­
síduo praticante do jazz e possuir, em conseqüência mentação carregada. Note-se que o próprio Jobim, que
disso, um sentido harmônico e melódico muito desen­ orquestraria o disco do João alguns meses mais tarde,
volvido. Sendo o jazz, sobretudo o cool-jazz, também teria uma atitude completamente diferente ao trabalhar
ao lado do "baianó bossa-nova", evitando as soluções
uma espécie camerística de música, tecllicamente mui­
to desenvolvida, da aplicação de seus recursos a uma "melacrinianas" de "mil violinos" e "glissandos" de

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7.9
harpa, recursos tão comumente empregados pelos or­ integraram na música popular atual sem o menor atri­
questradores de rotina. Tradicionais no disco eram to. Morena boca de ouro, Aos pé da santa cruz, A pri­
meira vez, Brigas nunca mais, BolinlUl de papel, fo­
também os textos de Vinicius, cuja empostação p~tica
mais se aproximava de baladas medievais do que do ram algumas entre elas.
linguajar simples e espontâneo que veio a caracterizar
as letras da BN e as suas próprias contribuições para Músicas & letras
esse estilo. O mesmo Vinicius que dizia nesse LP:
"oh! mulher, estrela a refulgir", diria, após o advento
da BN: "ela é carioca, ela é carioca, olha o jeitioo As inovações propostas pela BN não abrangeriam
dela ... " Um detalhe no disco, porém, chamou a aten­ apenas o campo da interpretação, acompanhamento,
ção dos observadores mais cuidadosos. Era o acompa­ linguagem instrumental, hannonização e ritmo. Elas
nhamento de um violão que possuía uma "batida" e forjaram a fonnação de um novo estilo com posicional
uma sonoridade ",ui generis. Era o violão de João Gil­ que incorporou todos os recursos musicais conquista­
berto que já se fazia notar, poucos meses antes de ele dos, baseando-se numa temática literária atual e ligada
fazer sua incursão musical inovadora. ao meio que lhe deu origem.
Se se quisesse, porém, estabelecer uma relação Sabendo-se que essas composições seriam executa­
histórica para apurar as verdadeiras raízes da BN, iría­ das por pequenos conjuntos e ainda mais comumente
mos encontrar numa outra música, também urbana, p0­ cantadas por uma única pessoa com acompanhamento
pular e cem por cento brasileira, os seus pontos de de violão ou pequeno grupo instrumental, desenvolveu­
contato mais evidentes. :e. a música de Noel. :e. o sam­ -se uma técnica composicional orientada para arti­
ba "flauta-cavaquinho-violão". :e. a música da Lapa, culações mais sutis e de detalhe, assim como um vo­
capital do samba (de "câmara") tradicional, como C0­ cabulário expressivo que prevê um contato direto e
pacabana - Ipanema - Leblon são os redutos da BN. íntimo com o ouvinte. Citemos como exemplo o De­
E. a linguagem sem metáfora, espontânea, direta e po­ safinado, música que nasceu e se confunde com o
pular do "seu garçon faça o favor de me trazer de­ próprio movimento dentro e fora do Brasil. Esta com­
pressa" que foi retomada por Newton Mendonça, Vi­ posição possui uma linha melódica longa, muito elabo­
nicius, Ronaldv Bôscoli e Carlos Lyra. "Eis aqui este rada, cheia de saltos dificilmente entoáveis, movimen­
sambinha, feito numa nota só", "ah, se ela soubesse tá-se dentro de uma tessitura vocal bastante grande,
que quando ela passa ... ", "se eu não sou João de indo de regiões graves ao agudo numa mesma frase.
Nada, Maria que é minha é Maria Ninguém", são ex­ Possui uma ,movimentação rítmica toda sincopada,
pressões que poderiam ser ditas e cantadas por Noel nunca coincidindo os inícios de frase com o tempo forte
Rosa ou João Gilberto em 1940 ou em 60. Se durante do compasso e nunCa repetindo frases rítmicas; conta
a guerra Noel cantava "com que roupa eu vou?" e com uma estrutura harmônica bastante evoluída que
"traga uma boa média", hoje se fala em "fotografci prevê o emprego de acordes alterados, ou "dissonan­
você na minha Rolleyf1ex", em boite, uísque e auto­ tes", como se diz popularmente; harmonia modulante,
móvel, isto é, nada mais que versões atualizadas de passando por várias tonalidades e voltando no fim à
um mesmo humor, uma mesma gente, uma mesma tonalidade original. Essas características musicais, tí­
bossa. E mesmo na época da eclosão do movimento picas da BN, a tornam, como é natural, e como já co­
BN já havia a afirmação de que João Gilberto era o mentamos, inadequada para ser cantada por grandes
novo Mário Reis, constatação absolutamente certa, massas, prestando-se mais à interpretação de um cantor
pois é à tradição musical que Noel e Mário Reis repre­ que, sozinho, está em condições de evidenciar todos os
sentavam que João Gilberto pretende dar seqüência. seus detalhes composicionais. Não só a música, mas
Por essa razão foi buscar nesse repertório canções que, também o texto. Quando se diz: "robaro a mulhé do
atualizadas e revalorizadas por sua interpretação, se Rui", imagina-se uma frase corriqueira sendo dita a

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toda hora e por todo mundo em tom de "mexerico". Citando mais uma vez a música clássica, é curioso
Quando se diz "esse é o amor maior que você pode notar que, em 1700 aproximadamente, se passou a
encontrar, viu?", imagina-se que o poeta e o interlo­ adotar uma prática musical conhecida como a "Teoria
cutor (a bem-amada) estejam juntos e ela seja a única dos afetos". Ela objetivava uma interligação mais Ín­
pessoa a ouvir essa frase-declaração. Essas seriam, ge­ tima entre texto e música; não só no sentido de o com­
nericamente, as bases que orientaram a composição positor usar os efeitos sonoros do texto como recursos
musical BN. As variantes surgidas serão comentadas musicais, como no de propor também uma correlação
adiante através de uma análise mais detalhada. semântica mais direta entre texto-música. Quando Bach
musicava um texto que dizia, por exemplo: "subiu às
alturas do céu", concentrava em os efeitos vocais
Letras: Variantes e orquestrais em regiões agudas; ao contrário, quando
musicava uma frase como "desceu às profundezas do
Existem inúmeras manifestações musicais para inferno", jogava todos os recursos musicais para os
canto e acompanhamento onde a importância do texto registros mais graves da massa coral e sinfônica.
é secundária. Nas óperas italianas do século A relação texto-música no Samba de uma nota só
exemplo, grande parte dos libretistas e dos é semelhante c ainda mais trabalhada. O intérprete diz:
nem sequer é citada. "Eis aqui este sambinha feito numa nota só", entoando
Em obras camerísticas, porém, dá-se o contrário. a frase sobre uma única nota: segue, cantando a mesma
Schubert, por exemplo, compositor cuja obra mais im­ nota, mas advertindo: "Outras notas vão entrar, mas
portante são os Ueda para canto e piano, usou textos a base é uma só". Entoando de repente uma segunda
de Goethe e Schiller ao invés de subliteratura. A mesma nota, ele comenta: "Esta outra é conseqüência do que
coisa ocorre com Bach, que em suas cantatas de cfuna­ acabo de dizer", e, voltando à primeira nota, abre um
ra recorreu a textos bíblicos, com Hugo Wol( (textos parêntese estabelecendo uma relação COm seu caso
de Michelangelo, Moerike) e com Ravel (textos de de amor ("como eu sou a conseqüência inevitável de
Ronsard e Villon). As condições de contato humano você"). Seguindo para a segunda parte da música e
oferecidas pelas manifestações musicais de câmara exi­ entoando muitas notas em forma de escalas ascenden­
gem do compositor não só um tratamento musical mais tes e descendentes, observa: "Quanta gente existe por
apurado e detalhístico, mas também um maior cuidado aí que fala tanto e não diz nada, o~ quase nada!
na escolha dos textos, pois o seu conteúdo, dada essa Já me utilizei de toda a escala e no final não sobrou
estreitá relação intérprete-público, se evidencia muito nada, não deu em nada ... "; e, como que decepcionado
mais. dos resultados do excesso de notas (c de amures,
Por essa razão a importância do texto na BN, ma­ conclui-se), volta a cantar a nota inicial, comentando:
musical originalmente camerística, é idên­ "E voltei pra minha nota como eu volto pra você. Vou
tica à da música e seria incompleto um estudo desse contar com a minha nota como eu gosto de você". E,
novo estilo musical se não nos concentrássemos mais como que para encerrar sua "incursão" musical e afe­
demoradamente em sua análise. tiva, coloca uma frase-fecho, entoando a mesma nota,
Tomemos logo de início o Samba de uma nota só que soa como um refrão popular ou como "moral da
de Jobim e Newton Mendonça, sem dúvida um dos tex­ história", na base do "quem tudo quer nada tem":
tos mais inteligentes que conhecemos em música popu­ "Quem quiser todas as notas (ré, mi, fá, sol, lá, si, dó),
lar e cuja origem coincide i!:,'Ualmente com a da própria sempre fica sem nenhuma. Fique numa nota s6".
BN. Aqui, a relação texto-música é perfeita. O sentido Termina secamente sem finais, nem maiores "explica­
de um completa o do outro. Texto e música se autojus­ ções" sinfônicas. Pertence também a Newton Men­
tificam e autocomentam. donça o texto de Desafinado, onde o mesmo fenômeno

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acontece. A música, que é de Jobim, possui intervalos
melódicos complicados, cheios de saltos (em 59 soava
essa melodia mais estranha e difícil do que hoje, pois
já foi plenamente assimilada). Na realidade, a música
sugeria a idéia de um cantor que aparentava certa
insegurança vocal, dada a complexidade harmônica e
melódica, e que, como comentava, não se fazia enten­
der nem mesmo pela amada. Mas o próprio texto era
claro, descrevendo a figura de um tipo muito lírico,
preocupado apenas com novas maneiras de cantar, jus­
tificando aquele mal-entendido da seguinte maneira: "se
voeê insiste em classificar meu comportamento de anti­
musical, eu, mesmo mentindo, devo argumentar que isto
é bossa-nova, que isto é muito natural ... ". Daí surgiria
e se popularizaria o binômio "bossa-nova" como expres­
são-título da nova tendência. Newton Mendonça, ele­
fnento básico na estruturação do movimento, morrcu (, .. )
prematuramente, antes mesmo de ouvir suas canções
cantadas em algumas dezenas de diferentes idiomas. Ex­
Discografia e Novas Gráficas
celente músico, pianista de formação clássica, inclusive,
foi, não apenas Iclrista, mas co-autor musical de Desa­
finado, Samba de uma nota só, Discussão e Meditação, Tendo a BN se caracterizado como um movimen­
sambas dignos de constar na mais sucinta antologia da to musical voltado contra o "estrelismo" e contra o
música popular de nossa época. culto do "solista", desenvolveria, por outro lado, o
sentido do trabalho de equipe. Se anteriormente, numa
A esse tipo de letras de elaboração mais conscien­ gravação, o importante era o "cantor" sua foto,
te e intencional, pertence grande parte dos textos dc seu nome e seus gemidos. . . sendo todos os tra­
Ronaldo Bôscoli. Por ser talvez jornalista, e não balhos restantes entregues à rotina mais impessoal, após
poeta, suas letras são, em geral, claras e sintéticas, () advento da BN, estilo musical originalmente voltado
nunca demagógicas. Faz uso, não raro, de efeitos e para o detalhe, todos os participantes de umà realiza­
artifícios extraídos da I itera tura de vanguarda par­ ção musical gravada passaram a ter suas funções valo­
ticularmente da Poesia Concreta fundindo palavras rizadas e a serem nominalmente citados. Daí surgiu
ou evidenciando e valorizando a sonoridade das sílabas o que se passou a chamar de "Picha técnica". Dela
como elemento musical. É assim que, ao cantar o Rio, começaram a constar não apenas os músicos partici­
ele resume o tema em poucos dados e na repetição de pantes (solistas, orquestrador, regente, atuações espe­
três fonemas semelhantes: "é sol, é sal, é sul". Mais ciais em determinadas faixas etc.), mas também os
adiante, usa de um artifício semântico: partindo da re­ responsáveis técnicos pela feitura do disco: produtor,
petição de "Rio, só Rio", chega a "Rio, só Rio, sorrio". técnico de gravação, engenheiro de som, fotógrafo,
Mas, falando em textos revolucionários, não é de­ layoulnum etc. Isso não se prende, porém, a razões
mais lembrar mais uma vez os textos do próprio João de justiça profissional ou coleguismo, e sim ao fato
Gilberto, como Bim Bom e Oba-lá-lá, um misto de de que, a partir da BN, todos esses aspectos, anterior­
humor, nonsense e economia verbal, aspectos impor­ mente seeundários, foram muito mais valorizados. O
tantes e inovadores da BN., ) nível técnico das gravações elevou-se consideravelmen­
l"

~-..,."."""","",' ~'" , '''.'jjíliI4i'''' "'""li W,>i!4!)ii\ Jiii4iPiiiMii4 tSL t4:a:saU!AJ!dhU:aCitZ iPCUi2iiiJdi! J U.U1m ,1$5l1L UliU4iki idiU$dUi$! til! .' j L&UdI LLU
-

te. Não só se passou a captar mais e melhor pequenos o sorriso e a flor", "Sem carinho, não .. " "Oh! ... ",
detalhes e articulações soIísticas e de acompanhamen­ "Afinal", "Chega de saudade", "Wanda vagamente",
to, como se deu tratamento mais aprimorado ao tape "Baden à vontade", "Tudo azul", "O fino ... " e assim
e melhor uso ao play-back. Se, anteriormente, a ordem por diante. A exploração mais consciente das possibi­
era "abaixar" o play-back e "soltar" o cantor, para lidades e recursos da gravação, suas novas bases de tra­
evidenciar Sdas peripécias rouxinolescas, hoje procura-se tamento como coisa em si e não como registro passivo
um equilíbrio muito maior entre ambo!:. da execução musical, sugeriu a criação de novns firmas
especializadas, que, voltadas inteiramente para os prin­
Outra das revoluções propostas pela BN foi a cipais eventos da BN, conquistaram o mercado com base
apresentação gráfica dos discos. Aquelas tão famosas no comércio da qualidade musical. A primeira dcIas, e
foto? pousadas e tremendamente retocadas, de pessoas, sem dúvid;:t a mais importante, é a gravadora "Elenco".
de flores, ou de pôr de sol, e mil outras ilustrações sim­ Fundada em 1963, arregimcntou em seu cast parte dos
bólicas, relacionadas com motivos ou temas de melo­ mais importantes músicos atuais como Tom Jobim, As­
dias constantes da gravação, foram substituídas pela trud, Badc;n Powcl1, Vinicius de Morais, Quarteto em
mais discreta motivação ilustrativa. Não raro apresen­ Cy, Roberto Menesca1, Sílvia Telles, Súgio Ricardo,
ta-se um LP apenas com uma forma geométrica ou Edu Lobo, Nara Leão, Norma Bengucl, Rosinlm dc Va­
abstrata. Abandonando-se o excesso de cores, passou-se lença, Díck Farney e outros, além do Caymmi dc scm­
ao liSO comum do branco e prcto; às vezes, apenas um pre. Aloysio de Oliveira, músico ativo düs tempos de
perfilou o negativo de uma foto num fundo branco Carmen Miranda e hoje um dos maiores empresários de
ou cm "alto-contraste" - um dos primeiros e expres­ música brasileira no exterior, é o ide<llizador e diretor
sivos cxemplos dessa linha foi a capa do LP de João da Elenco. Além dcstes, caoc-lhe mais um grande mé­
Gilberto, "O amor, o sorriso e a flor", ide<llizada por rito: foi como diretor da Odeon que Aloysio de Oli­
César Gomes Vilela. Fez-se inúmeras vezes o uso de veira produziu e lançou cm í 959 o LP "Chega de
colagens, assim como o de montagens gráficas e foto­ saudade", que, pela sua importância histórica, jrl foi
gráficas. aqui tantas vezcs citado e analisado.
Não apenas a parte grMica das gravações sofreu
Outro acontecimento importante no campo da dis­
radical modificação. Desenvolvendo-si;; maIs conscien­
cografia popular contemporânca foi o surgimento da
temente o tratamentú técnico da realização musIcal, a
~'Forma". Dirigida por Rohuto Ouartin c Wadi Ge­
vontade de racionalização los 'blemas e o espírito bara, esta etiqueta caracterizou-se pelo alto teor artís­
de pesquisa, a própria nomenclatura modificou-se em tico-'experimental de suas produções e pelo cuidado dis­
função dessas características. Vejam-se os nomes dos
pensado a todos os detalhes técnicos de seus discos. Em
LPs: "Samba nova concepção", "Novas estruturas",
São Paulo, surgiu tamb~m a "Som Maior", hoje uma
"Nova dimensão do samba", "Samba esquema novo",
das etiquetas da gravadora RGE d:::-;gidas por Júlio
"Evolução", "Movimento 65", "Esquema 64", "Idéias".
Nagib, dedicando igualmente a maior parte de suas
Mas além desses LPs que receberam nomes técnicos
produções ao repcrtório BN e tendo em seu elenco vá­
e paracientíficos, existem aqueles que demonstram o
rios dos mais importantes músicos desse gênero, como
espírito consciente de renovação e vanguarda, como:
Alaíde Costa, Geraldo Vandré, César Camargo Maria­
"Avanço", "Revolução", "Impacto", "Vanguarda",
no e scu conjunto Som 3 e outros. Destaquemos, nos
"Opinião", "B hora de lutar" etc. Mesmo aqueles que
possuem nomenclatura mais lírica, relatando um estado discos da Som Maior, a participação de Hector Sapia,
de espírito ou uma situação afetiva, revelam uma ter­ autor das mais arrojadas e inteligentes capas de dis­
cografia atual.
minologia bastante simples e discreta, feita, às vezes,
de uma única palavra, uma frase solta. Assim, são Mais um fenômeno curioso vem a calhar em nossas
os seguintes exemplos: "Inútil paisagem", "O amor, observações com relação à apresentação gráfica dos

,(18 .r!fJ

-~~~---"·'''''.''-'''''"''l'\iN'\,",",81""",;aIl4i!iiit4i;U4i4a.''U;#A4ut44liaa2.LiiUS:iac. t L .iiWUUU: b Qi$!U' SJ 21 2 SUl 3iStS21ã2 :sua ld :s 31.


discos BN: cada uma das três firmas gravadoras acima Mas o mais importante. acentue-se, é o falo de
citadas possuem, como símbolo comerc;al, uma simples não termos apenas penetrado, como também modificado
figura geométrica. a música popular daquele país, como veremos em
seguida.
Bossa-nova nos Estados Unidos A aceitação da música brasileira nos E.U.A. deu­
-se por etapas, Na fase anterior ao sucesso defillitivo, já
excursionava por todo o país o Trio Tamba. Tendo
Como se sabe, a divulgação internacional de mú­
viajado pai a lá em caráter de intercâmbio cultural, o
sica popular liga-se diretamente a grandes máquinas
conjullto fez um sucesso tão grande que se multiplica·,
promocionais; a tmsts, monopólios, empresas de di­
ram os convites para apresentações em lugares de
vulgação, gravação, radiodifusão, filmes etc. Em qual­
importância, as quais foram terminantemente
quer parte do mundo, por exemplo, ouve-se a pior e
por entidades sindicais de defesa do artista norte-ame­
a melhor música norte-americana, simplesmente pelo
ricano. Laurindo de Almeida, violonista brasileiro de
fato de se tratar de um país rico e contar com as me­
há muito radicado nos EU.A. e que tem seu nome
lhores condições e recurSos promocionais. Se
numa tr.attoria de Palermo, na Sicília, ou na mais na história do jazz americano, também fazia,
com artistas apresentações esporúdic:1s com
bofte de Paris, num clube de intelectuais de Praga ou
grande sucesso. Um interesse maior despcrtou-se defi­
num music-box de Tóquio, ouvem-se dezenas de vezes
nitivamente quando vieram ao Brasil rllúsicos como
por dia Desafinado, Samba de uma nota só, ou The
Herbie Man, Charlie Byrd, Stan Getz, Zoot Sims e
from lpanema, não significa que o mundo, de uma hora
outros, levando na algibeira as chaves principais da BN.
para outra, por perspicácia ou interesse pcl" Brasl:
apercebido da qualidade da nossa nnlsica po Dessas primeiras audições e gravações, de muita
pular. O que houve foi o simples fato de que, [\,;l!c!o repercussão nos E.U.A. c na Europa, surgiu a
a música brasileira penetrado no mercado n(lfte-allleri­ da formação de uma embaixada mllsical brasileira que
cano, foi imediatamente exportada para toda parte em mostraria in loco, os norte-americanos, o que era
meio a twists, hully gully, e outras bossas. Basta BN. Para tratar Dossibilidaúe, veio ao Brasíl
dizer que as traduções realizadas em outros países das o sr. Sidncy Frey, diretor
músicas nN são feitas a partir do texto inglês e não do empresou um concerto de BN no
português inclusive as de língua espanhola ou ita­ Nova Iorque, realizado no dia 2l de novembro de
1962. A essa apresentação seguiu-se uma segunda, em
liana. ê preciso que se diga que é a segunda vez que
Greenwich VilIage, principal ponto de encontro, em
isso acontece. Quando, durante a última guerra, os
Nova Iorque, dos melhores músicos americanos, e uma
estavam, por motivos óbvios, illteressados em terceira no Lisner Auditorium, de Washington, com
manter boas relações com o Brasil, Bing Crosby can­ grande público e a presença da esposa do então pre­
tava Brazíl, Ethel Smith executava os chorinhos de Ze­ sidente Kennedy.
de Abreu, e Walt Disney desenhava Você já
Essas três apresentações marcaram mais uma das
à Bahia? Esse fato trouxe a essas músicas tamanha
decisivas etapas: da penetração da BN nos E.u.A.
popularidade que ainda hoje fazem parte do repertório
Ainda que a primeira delas, a do Carnegie BaIl, tenha
internacional.
sido superada em meio a incidentes dos ;nais variados
Em todo caso, exportar nossa "bossa" para um e não ligados a de qualidade musical, a BN
país que possui mercado musical auto-suficiente e dos continuou sua de conquista daquele mercado e
Illais ricos, senão o mais rico do mundo c vê-la reex­ do internacional. Mas convém dedi­
portada, significa uma das melhores credenciais para a car algumas linhas de esclarecimento àqueles inciden­
nossa música. tes, pois isso tem dado, aqui no Brasil, aos chamados

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"pichadores" da BN, oportunidade para depreciá-la. várias de suas manifestações, na seara da melhor mú­
Sendo essa música, em sua manifestação mais pura, um sica erudita norte-americana.
gênero estritamente camerístico, fazer um recital num O cool-jazz, que pretendia ser a corrente musical
auditório para 3000 pessoas já cOrlstituÍa um empreen­ da vanguarda, do rigor, do avanço controlado, evoluiu,
dimento arriscado. Era preciso, portanto, que os pro­ porém, no sentido de uma improvisação exacerbada,
tratassem de criar artificialmente condições de auto-suficiente, às vezes contraída e quase alienada, na
concentração e contato entre artistas e público. seme­ não raro, o ouvinte permanecia incapacitado de
lhantes às propiciadas pelos pequenos ambientes. O acompanhar o desenrolar musical. Foi nessas circuns­
cuidado deveria ser ainda maior, pois se tratava de uma tâncias que a presença de João, Astrud e Jobim se
mlÍsica praticamente desconhec.ida naquele país, de pú­ fez notar claramente no cenário musical norte-ameri­
blico tão exigente em termos de música popular. Sidney cano. Eles demonstraram, da maneira mais natural e
mais preocupado com a gravação do aconteci­ descolltraÍda, o verdadeiro sentido do c(}o! musical. Se
mento, descuidou-se da própria retransmissão local e Astrud não possui recursos vocais, se qualquer garota
de ontros recursos cênicos. resultando uma certa difi­ carioca poderia cantar como ela, isso não importa: o
culdade de contato entre os jovens cantores e a importante é que mostrou à música norte-americana as
téia. Esse fato, pOfl'm, não criou grandes problemas versões mais simples, espontâneas, menos artificiosas e
~l BN no sentido da sua compreensão. O povo nor­ .nais refaxed de canções, em torno das quais os grandes
te-americano, que possui sensibilidade auditiva extre­ músicos do Íazz construíam verdadeiros cavalos-de-ba­
mamente desenvolvida - lembre-se que o jazz é o talha. De todas as versões de Garota de /panema, Que
nero de música popular mais refinado do mundo! ultrapassam a uma centena, não resta a menor dúvida de
soube identificar na BN uma série de elementos positi­ que a versão de Astrud, João e Jobim, presente no disco
vos, que assimilaria imediatamente. Soube, apesar da "Getz-Gilberto", é a mais despojada, a mais "enxuta".
desorganização do festival, identificar na pessoa de João Outro aspecto intere,$sante dessa gravação é a partici­
Gilberto o intérprete mais rigoroso e pação de' Stan Getz. Após ouvi-la atentamente, rx;ree­
já ficando com ele por lá - , assim como as músicas de bc-se que a atuação do maior scu-tenor americano é o
maior conteúdo inventivo: Desafinado e Samba de lima único toque, digamos, "demagógico": as suas improvi­
nota só, que se tornaram sucesso imediato, sendo ambas sações abandonam, por vezes, aquele tom coloquial da
de autorü.l. do principal compositor de BN no Brasil: narrativa musical, apelando, em certos impulsos, para
Antoni.o Carlos Jobim. o virtuosismo instrumental. Como se vê, ainda que
Mas é preciso que se compreendam as razões que Stan Getz seja o músico norte-americano mais interes­
levaram os músicos e o povo norte-americano a se sado e mais esforçado no sentido de atingir o verdadeiro
interessarem por essa música, uma vez que tal interesse sentido da autêntica BN, torna-se para êle difícil per­
não prov{>m da interferência de nossas "máquinas pro­ manecer naquela atmosfera de "comentário" ou "ba­
mocionais", que, tocadas a Cruzeiro, têm poucas possi­ te-papo" musical descontraído que são as interpreta­
bilidades de influir num mercado cuja ções de Astrud, João e Jobim nesse disco. Esse seu es­
US Dal/ar... Por outro lado, ela não forço nota-se ainda mais claramente pelo fato de ele
"encomendada", como no exemplo qlle citamos há não intervir com seu sax enquanto João canta e toca,
pouco, por táticas oficiai~ de: "boa vizinhança" ou ou de colocar, muito discretamente em pianíssimo, uma
quer outro tipo de "aliança", exercendo sua penetração ou outra nota de contraponto ao canto de Astrud.
por vias inteiramente privadas. Como se conclui, é difícil rx;rmanecer coai. Parece
A verdade é que o jaz"" em sua evolução, abando­ que o afã virtuosístico do jazz atual lhe tirou essa ca­
nou o sentido de música de dança ou entertainment, pacidade. Mas, qual é, na realidade, o primeiro e
caminhando cada vez mais no sentido da "música pura", maior exemplo de música popular brasileira moderna
muito evoluída, acabando por penetrar, em despojada, ou coof, se não o disco "Chega de saudade",?

la:? ui.'i

.• , ",,,,,,,,.,,!?t?ú'*"A"'''''. ""'''lA'?fiiiMilk,;;;;à;W;'!iO%)k4QIiJa.ti2a: 3li LiiáUJi U2!ibti22J&tidU.iii iJjJ Mil SlI dUS!! ilZ22!2L J Ui$! asc t. .
Ou ainda, voltando ao disco "Getz-Gilberto", qual das não de todo, f: claro a prática das antigas jam
versões de Garota de lpanema é mais econômica e con­ sessíons, e das preocupaçôes dos jovens in:;trumentis­
centrada (mais cool) que o piano de Jobim nessa gra­ tas pelo moderno, pelas reuniões informais pri­
vação? Foi por tocar essa sua composição com um único vadas e em pequenos teatros, cuja preoeupaçáo e tema
dedo ou, nos acordes mais simples, com uma única são: música brasileira moderna. A inexistência de uma
mão, que os melhores músicos lhe tiraram o chapéu, música brasileira "progressiva" levava os jovens mú­
chamando-o de "maestro de um dedo só", prendendo-o sicos, sedentos de novas experiências, à prática do jazz,
nos E.U.A. por dois anos e levando-ü de volta mais uma vez que esta era a única músiea popular que dava
uma vez. Como se vê, o jazz sofisticado moderno não ao músico a mais plena liberdade de invenção, de im­
é a base da autêntica BN - e é preciso que isto fique provisação, de busca de sonoridade, harmonia e ritmos
bem claro. Quem quiser compreender o seu sentido raros. Não há dúvida também que os jazzistas de antes
exato, não deverá consultar nem Getz, nem GilIespies, é que se transformaram em alguns dos principais "bos­
nem Bruhccks, e sim comprar o disco editado pelo sa-noVlstas". Isso, porém, não se deu acidentalmente e
Museu da Imagcm e do Som do Rio de Janeiro, de sim pelo fato de ambas as músicas possuírem inúmeros
nome "Noel canta Noel", onde encontrará na própria pontos em comum, uma vez que as origens das músi­
música brasileira e da mais autêntica - há quem o cas brasileiras e americanas se encontram no mesmo
negue? - os mais expressivos exemplos básicos. Era lugar: na Africa. Assim, a influência mútua entre
aquele canto de Noel, que dizia, quase falando, da ambas as músicas é tão admissível como é inconce­
maneira mais simples, as coisas mais profundas, que bível a influência do jazz ou da BN sobre outras mani­
João, Astrud e Jobim foram mostrar à música mais rica festações musicais latino-americanas, como o tango, o
do mundo (simplicidade quer dizer despojamento de bolero, ou a guarânia paraguaia excctmmdo·se natu­
linguagem e não pobreza técnica ou musical) - fazen­ ralmente o mambo, que influenciou e recebeu influên­
do-a parar, ouvir e aprender. cia do jazZf e que é também de origem africana
Essa foi, na realidade, a verdadeira revolução pro­ ou sobre manifestações musicais européias, como a
posta pela autêntica BN à música americana. E se canção francesa, o operismo quase histérico dos Pe­
hoje a BN made in USA ainda é retórica ou demagógica pinos de Capri e de toda a Itália, ou sobre a melanco­
como dissemos, não nos podemos queixar, pois eles a lia estática das manifestações musicais populares dos
importaram há pouco (o jazz feito por brasileiros é países escandinavos. Além do mais, como já dissemos,
bom porque já o importamos há 40 anos, no míni­ se a música folclórica se caracteriza por permanecer
mo ... ). O importante é que eles já entenderam o se­ estática e não ser influenciável, a música urbana de
guinte (lembrando mais uma vcz Newton Mendonça, qualidade afirma-se por seu aspecto evolutivo, com­
"já me utilizei de toda a escala e no final não deu em preendendo a assimilação de elementos exteriores.
nada"): a ordem é diminuir as notas e aumentar a Incorporar, portanto, experiências positivas de
tensão! outras músicas à nossa prática composicional, não re­
() presenta, em si, nada de negativo. Saber digeri-Ias aqui
e aplicá-las criativamente - lembre-se da "antropo­
Bossas, Jazz etc. fagia" sugerida por Oswald de Andrade! - isto sim é
que constitui o principal problema da invenção artís­
Ainda que muitos afirmem o contrário, a BN fo tica. Acreditamos que, nos dias atuais, a nacionalidade
um movimento que provocou a nacionalização dos in· de uma nova realidade espiritual é um aspecto que vem
teresses musicais no Brasil. Como se sabe, a BN rea­ a posteriori e não a priori em relação à sua manifes­
vivou e reformulou um sem~número de antigas formas
musicais brasileiras; trouxe para a prática musical ur­
tação e afirmação. ("'l
(, ..
bana uma série de motivos do nosso folclore; refreou,
após o seu sucesso popular, a importação de artistas
do exterior, e assim por diante. Mas, a nosso ver, a
SUa principal contribuição foi o fato de ter substituído

~",.~,c~'W~'~r~~~~",,,,,,,",,,," 'fI*iGi4P\G::;;i.iliZ;U S""Uli. aa: JJ! i ii2:llLd! Jib S1A"$.ii2SLtUÜiI "ilUii2 LE.: i!ii ,iZiJi i2 "iJE: atE: ;i! i2
Algumas das principais músicas que fizeram e ainda fa7...em sucesso no
movimento Bossa Nova
Garota de lpaflt!lIfQ Chel:" tk SI:tIldot:W
(Vinicius de Moraes e Tocn Jobim) (Tom Jobitn e ViníciU$ de M<nes)

Olha que coisa mais linda mais cheia de graça Vai minha tri.sWza Se voei! tIú.ser que eJI desafino. amor
É eln a menina que ""m e que pas:<a E diz a ela que sem ela MO p<J<k $1fT Saiba que isso em mim pro;;õca imensa dor
;'/0 doce balanço caminho do mar Diz-lhe numa prece SJ pm"ikgi.:Jdos rim c-.tVÍdo Igual ~
Moça do corpo dourado do sol de lpanema Q-elaregruse E eu pos;nto apenas o que Deus me tkv
O seu baJançado é mais que ..m poema Porque eu nfio pos.so mais sofrer Se voei! iN:i.tte em c1as.sijicar -­
É a coisa mais lindo que eu já ví passár Chega de saudade Meu ~nto de antirm.rsica1
Ah! Como estou tão sozinho A realidade é que sem eln EII me.moo mentindo devo argumentar
Ah./ Por que tudo é rão tri.sW Não JuJ paz não há beleza Que i.<W li Bossa NCfYQ
A h! A beleza que existe É só lris1eza e a melancolia Q><e ista li -mo natlIral
A beleza que não é só minho Q!oe não sai de mim O qlIi! voei! não sabe ""'" ""quer pre.sun1e
E também passa sozinha Não sai de mim É que os dérq/inados também tém 11m coração
Ah! Se eln soubesse que quando eln passa Não sai Fotngrafoi voei! na minha ~ E
O numdo sorrindo se enche de graça J.fps SI! ela vol/Qr Rew1o<t_ Q sua ~ i~ .
E fica moís lindo por = do amor Se ela vol/Qr que coisa linda Só não poderáfalor as.sim do meu amor
Olha que coisa mais linda mais cheia de graça.. Q- coisa louca &ti!. li o ..mo.- que voei! pode encontrar. vilt
Pois JuJ menos peixinhos a l'Jador no mar ~ ~ a sua milsica ~ o principal
Do que OS beijinhos Q><e no pri10 dos désajinados também
Q!oe eu darei na SIIa boca Bate ..'" coração
Dor1ro dos lIIt!IIS braços. as abrt:lÇO<f
Hão de ser milhões de abrt:lÇO<f
Apertado assim. colado assim, calada assim
Am-aças e beijinhos e carinhos '""" lerfim
Que é pra acabar com eU<! negócio
De viwr /.onge de mim
Não quero mais esse negócio
De voei! viwr assim
V _ dei::wr esse negócio
De voei! viwr:um mim._
Samba de .. ma nota SÓ O Barquinho
(Tom Jobim e Newton Mendonça) (Roberto MenescaI e R<:mIdo Bôsroli)

r Eis aqui este sambinha


~, Feito nJl ma nota só
Dia de sol fosta de Juz Era ~ 1o'C"'" lobo -'"
Q><e ~jantar
E "'" barqIlinha a desIiur Es:tam _ w..tém aJgJúm
1\ Outras notas vão entrar :No lI'IDCio and do mar
, Mas a base é .. ma SÓ TruIo é verão e o amor :sejá:: "Uas arrlsooft e logo R esIrepOII
flista outra é conseqiiência lv..m barqIlinho ]NIlo mar U",~deMaiõ
LDo que acabo de dizer Q!oe desliza sem parar_ o.."VÍ1I bv:Wta e não pan1<'
j ·Como eu sou a conseq'Uência Sem intenção. 11OSSL1 C<11!f'ÕO },{rulobo ..". insisU
lJnevítáwl de voei Vai sainda des.u mar Efa:: cara tk lris1e
. Quanta gente existe por aí
Eosol Mas ~ho """"
Q><e faln faln e não diz nada
Beija O balTXl e wz Os~doVO>'Ó
Ou quase nada
Dias tão a::Ilis! Dizer qw.e ..ao pro lobo
Já me utilizei de roda a escaJa
l1>lla do mar iksmaia O sol Que COI« lobo não =i SÓ
: E no final r.ão sobrr:xt nada

\. Não deu em nada

E O barquinho a desJizar
E a vontade de cantar/
ú:Jbo =
TlLdo ati a-x
pede J>lV"""tL

rEvoltei pra minha nota


Céu tão a::ul ilhas do Sul E diz q-.u fraco de lobo

:I' Como eu volto pra voei

VOU contar com a minha nota


! Como eu gasto de voei

E o barquinM. coração
Deslizando na canção
TlLdo isso é paz. tlldo isso tTa:
E.-.er ."" cJ..:zpe.dnJoo de maiô
Y.as cr.aper:inho percebeII.
Q><e o lobo "" ~
E quem quer rodas as not.ls
Uma calma de verão e erafio Pra """ voei! que lobo

M Ré mifá sol lá si dó

Fica sempre sem nenhuma

'i!'ique mima nota só


O barquinho vai
A tardinha cai..
(11.·0 final: O barquinho vai.'_)
Também já:: papel de bobo
Só l""= IN dizer. ci>apeuzínho agora traz
O lobo na cOleira que não janta
~',;",nca ~ lobo bcõo, uM

Bimbom
(João Gilbeno)
Coisa m.tJ:islinda
(Carlos Lyra co Vinicius de ~ioraes)
Samba do minJoo lerra
(D:rival Cay=i)

~=~~:::ndabolel
Bim. bom. bim, bim, bom
Coisa mais bonita é voei!

"""nda bo~

Bim, bom, bim, bim, bom


.A.s:>im. jllstinho voei!

Bimbom <::l;;
EMjllTO

Sim. bom, bim, bim, bom


EM não ui porque
Q>wn.ào .... <=rUI todo
Sim. bom, bim, bim, bom
~ Q-,.lE7l'I não gosta dE =miba
Bimbim
~ é maLs bonita que afo;r Bom~..aoé
É só isso meu baião
QIoemdera É nnm da cabtrça
E não lem mais nada nfio
A primavera da flor o,,~dopé
O m"" coração pediu assim
TNeS.te todo es.s/! aroma de be1ez.a E;; na,s.ei a:::... o sa.m:ba

g.,eéoamor So samba _ criei
(nofinal) - . .
Petfomando a natureza E do dan.Jdo da :Jam!::..l
Bim, bom, bim, Ii!m. bom
Suma forma de rm.rlher
Ta ca tIIm ta ca tum ta Cá t1mr
Porque tão linda assim não existe
Bim, bom, bím, bim. bom
AfJ.Or
Ton bon ton bon ton bon
Nem mesmo a cor nfio e:rlsté
Só bim bom bim bom bimbim
EOQl'?J.Or
~-";em meS1t'lO o amor existe