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Hacking, Ian - Concevoir et expérimenter [Representing and intervening]. Trad. fr.

Bernard
Ducrest. Paris: Christian Bourgois Éd., 1989.

Introdução: a racionalidade
Racionalidade e realismo são hoje os dois temas que mais preocupam os filósofos das
ciências. Quer dizer que esses filósofos se interrogam, por um lado, sobre a razão, a prova
e o método e, por outro lado, sobre a natureza do mundo, sobre o que ele contém e sobre o
que é verdadeiro a seu propósito. Este livro tem por objeto a realidade e não a razão. A
introdução fala portanto do que não constitui o sujeito deste livro. A título de referência,
estudados certos problemas que a razão deve afrontar desde a publicação do já clássico
livro de Kuhn, A estrutura das revoluções científicas. (p. 13).

Parte A: Representar

1) Representar:
O realismo a propósito das teorias pretende que essas últimas busquem atingir a verdade e
que às vezes delas se aproximem. O realismo a propósito das entidades diz que os objetos
mencionados pelas teorias podem existir verdadeiramente. O anti-realismo a propósito das
teorias diz que nossas teorias não devem ser literalmente compreendidas e que elas são,
no máximo, úteis, aplicáveis ou aptas à predição. O anti-realismo a propósito das entidades
diz que as entidades postuladas por certas teorias são, no máximo, úteis ficções
intelectuais. (p. 13-14).

2) Construção e causalidade:
J. J. C. Smart e outros materialistas sustentam que as entidades teóricas existem sob a
condição de que façam parte dos materiais de base do universo. N. Cartwright afirma que
essas entidades cujo poder causal nos é bem conhecido existem. Nem um nem outro
desses realistas sente a necessidade, a propósito das entidades, de ser realista a propósito
das teorias. (p. 14).

3) O positivismo:
Os positivistas, A. Comte, E. Mach ou B. van Fraassen, são anti-realistas tanto a propósito
das teorias quanto a propósito das entidades. Apenas as proposições cuja verdade pode
ser estabelecida pela observação merecem ser críveis. Os positivistas duvidam das noções
de causalidade e de explicação. Sustentam que as teorias são instrumentos destinados à
predição dos fenômenos e à organização de nossos pensamentos. É desenvolvida, em
seguida, uma crítica da “inferência em favor da melhor explicação”. (p. 14)

4) O pragmatismo:
C. S. Peirce dizia que uma coisa é real quando uma comunidade de pesquisadores está de
acordo sobre sua existência. Pensava que a verdade é aquilo no que culmina o método
científico pelo pouco do estudo que se desenvolve por tempo suficiente. W. James e J.
Dewey atribuem menos importância ao que parece confortável a acreditar e a evocar agora.
No que concerne aos filósofos contemporâneos, H. Putnam se situa [se range] do lado de
Peirce enquanto R. Rosty está mais próximo de James e Dewey. São duas espécies de
anti-realismo. (p. 14-15).
5) A incomensurabilidade
T. S. Kuhn e P. Feyerabend afirmaram que seria difícil comparar teorias para saber qual se
adaptaria melhor aos fatos. Essa ideia reforça consideravelmente uma espécie de anti-
realismo. Ela compreende três noções distintas. A incomensurabilidade do tema [sujet]:
teorias rivais só se superpõe [se recoupent] parcialmente, tanto quanto é difícil comparar
seus sucessos respectivos. A dissociação: o tempo e as teorias passam, certas concepções
podem assim se tornar progressivamente indecifráveis. Incomensurabilidade do sentido:
certas teses sobre a linguagem dão a entender que teorias sobre a linguagem dão a
entender que teorias rivais nunca serão incapazes de se compreender, assim uma
comparação razoável dessas teorias é por princípio impossível. (p. 15)
6) A referência
H. Putnam tem uma concepção do sentido da palavra “sentido” que lhe permite evitar a
incomensurabilidade de sentido. Os sucessos e os fracassos dessa concepção são
ilustrados por curtas histórias concernentes à referência de termos tais como: gliptodonte,
elétron, ácido, calórico, muao, méson. (p. 15).

7) O realismo interno
Putnam fez evoluir sua concepção do sentido de uma certa forma de realismo ao
pragmatismo e ao anti-realismo. Essa evolução é examinada em termos kantianos. Putnam
e Kuhn estão próximos do que se poderia chamar de nominalismo transcendental. (p. 15)

8) Um sucedâneo de verdade
Como antídoto a Kuhn, Lakatos teria concebido uma metodologia dos programas de
pesquisa científica. Poderíamos crer que essa metodologia tem por objetivo descrever a
racionalidade, mas de fato o que ela descreve é antes a maneira cuja objetividade científica
não depende necessariamente de uma teoria da verdade como correspondência. (p. 15-16).
(p. 15-16).

Intermédio: reais e representações:


Sob a forma de fábula antropológica, esse capítulo trata da evolução das noções de
realidade e de representação das noções de realidade e de representação, dos homens
pré-históricos a H. Hertz. Vê-se porque os debates realismo/anti-realismo sobre a
representação são sempre tão pouco conclusivos. Passamos assim das questões de
verdade e de representação às de experimentação e manipulação. (p. 16).

Parte B: intervir

9) A experimentação
As relações entre teoria e experiência variam de uma ciência à outra, em função de seu
nível de desenvolvimento. À questão de saber o que vem em primeiro - se é a teoria, a
experiência, a invenção ou a tecnologia - não podemos dar uma resposta absoluta. A ótica,
a termodinâmica, a física dos sólidos e a radioastronomia nos fornecem alguns exemplos.
(p. 16)

10) A observação
N. R. Hanson sugeriu que todo enunciado sobre a observação incide traz uma carga
teórica. De fato, a observação é mais questão de talento que de linguagem. Certas
observações são inteiramente pré-teóricas. Os trabalhos de C. Herschel para a astronomia
e de W. Herschel para o calor radiante são postos à contribuição para ilustrar certas
evidências sobre a observação. Longe de concernir apenas a visão direta, a noção de
observação é também com frequência utilizada nessas ocasiões onde não podemos
diretamente “ver”, mas nos servimos das informações transmitidas pelos objetos que
postula a teoria. (p. 16-17).

11) Os microscópios
Vemos no microscópio? Existem numerosos tipos de microscópios óticos, cada um
repousando sobre uma característica particular da luz. Cremos naquilo que vemos em
grande parte porque diversos sistemas físicos fornecem a mesma imagem. Vemos mesmo
um microscópio ótico no qual o som substitui a luz. (p. 17)

12) Especulação, cálculo, modelos, aproximações


Teorizar não é uma atividade una e indivisível. Existem numerosas espécies e numerosos
níveis de teoria, cada um mantendo uma relação particular com a experiência. A história do
efeito magneto-ótico fornece-lhe a prova. As ideias de N. Cartwright sobre os modelos e as
aproximações permitem ilustrar mais ainda a que ponto as teorias são variadas. (p. 17)

13) A criação dos fenômenos


Numerosas experiências criam fenômenos que não existem de anteriormente em estado
puro no universo. Dizer que se “repete” uma experiência é enganoso. As experiências não
são repetidas mas melhoradas até que os fenômenos sejam regularmente obtidos. Certos
efeitos eletromagnéticos vêm ilustrar essa criação de fenômenos. (p. 17)

14) A medida
A medida exerce numerosos papéis na ciência. Em certos casos, ela serve para verificar
teorias, mas há também determinações puras de certas constantes físicas. T. S. Kuhn fala
igualmente de um efeito importante e inesperado da medida sobre o crescimento do saber.
(p. 17-18).

15) Temas [sujets] baconianos


F. Bacon é o autor da primeira taxinomia dos diversos tipos de experiência. Tinha previsto
que a ciência resultaria da colaboração de dois talentos diferentes, o racional e o
experimental. Ultrapassando a questão de P. Feyerabend: “O que há de tão extraordinário
na ciência?”, Bacon nos dá um bom resumo das experiências cruciais, donde ele conclui
claramente que elas não são decisivas. Um exemplo vindo da química mostra que, nos
fatos, continuar a introduzir hipóteses auxiliares para salvar as teorias refutadas pelas
experiências cruciais não servem para nada. A relação errônea que faz I. Lakatos da
experiência de Michelson e Morley serve para ilustrar a maneira com a qual a teoria pode
falsear a filosofia da experiência. (p. 18).

16) Experimentação e realismo científico


A experimentação conduz sua vida própria e mantém diversas relações com a especulação,
o cálculo, a construção de modelos, a invenção e a tecnologia. Mas enquanto o calculador,
o especulador e o construtor de modelos podem ser anti-realistas, o experimentador deve
ser realista. Essa tese é ilustrada pelo estudo detalhado de um dispositivo produzindo feixes
densos de elétrons polarizados a fim de provar a não-conservação da paridade nas inter-
reações neutras da força baixa. Os elétrons se tornam ferramentas cuja realidade é
considerada como adquirida. No fim das contas, convertemo-nos ao realismo científico
não porque pensamos o mundo, mas porque nós o transformamos. (p. 18).

Prefácio
Este livro é dividido em duas partes. Pode-se começar pela segunda, “Intervir”. Ela trata da
experimentação, por muito tempo negligenciada pelos filósofos da ciência, ao ponto que
apenas o fato de falar dela já seja fazer uma ato de novidade. Em geral, os filósofos se
interessam mais pelas teorias. A primeira parte, “Representar”, trata essas teorias, trata-se
portanto, em parte, de um resumo dos trabalhos já efetuados nesse domínio. Os últimos
capítulos da parte A atrairão provavelmente mais a atenção dos filósofos, enquanto certos
capítulos da parte B serão mais apreciados pelos cientistas. Faça a sua escolha: a tábua
analítica permite tomar conhecimento rapidamente dos assuntos debatidos em cada
capítulo. Certamente a ordem de sucessão dos capítulos é deliberada, mas não é
necessário segui-la.
Se falo no título “temas introdutórios” é porque se trata exatamente disso. Com efeito, os
diversos capítulos que compõem esse livro encontram todos sua origem no curso de
introdução à filosofia das ciências que dirijo todos os anos em Stanford. “Introdutório” não
quer dizer simplificado. Um tema introdutório deve ser suficientemente claro e sério para
engajar o espírito que o descobre e suficientemente abrasivo para produzir fagulhas nele
que, desde há muito tempo, não havia refletido sobre essas questões. (p. 19-20).

Introdução: a racionalidade
Nietzsche, em epígrafe, na “Razão na filosofia”, cap. I do Crepúsculo dos ídolos, acusa o
egiptismo dos filósofos, que mumificam suas verdades.

“Sou realista, mas pelas razões mais pragmáticas” (p. 23).


Kuhn instaurou uma crise da racionalidade no saber científico.

Consequências do argumento do debate envolvendo Carnap e Popper:


“Os popperianos zombavam dos carnapianos sob o pretexto de que eles haviam produzido
uma teoria da confirmação que não era verificável. Os carnapianos retorquiam que os
propósitos de Popper sobre a corroboração são vazios de sentido ou que são apenas uma
maneira desviada de falar da confirmação” (p. 27).
Carnap insiste sobre a necessidade de uma linguagem teórica para a ciência, e propõe a
verificação como atribuidora de sentido à ciência. Popper crê que a necessidade de uma
linguagem é a sobrevivência da escolástica, e propõe, em vez de uma verificação, a
falsificação (uma teoria só é científica, para ele, se for passível de ser falseada).
“Carnap crê na indução, Popper sustenta que apenas a dedução é lógica” (p. 27).
Mas para estarem em desacordo com relação a alguns pontos decisivos, é preciso que
Carnap e Popper estejam de acordo quanto ao essencial, quanto a uma ideia de ciência
que foi rejeitada por Kuhn. Ambos creem que a ciência é o melhor exemplo de pensamento
racional; admitem que existe uma diferença importante entre observação e teoria; creem
que o pensamento racional procede por acumulação; consideram que a ciência é dotada de
uma estrutura dedutiva rigorosa; acreditam na unidade da ciência (a psicologia pode ser
reduzida à biologia, que pode por sua vez ser reduzida à química, que por sua vez se reduz
à física, por sua vez, enquanto sistema lógico-dedutivo, à matemática); o contexto da
descoberta deve ser separado do contexto da justificação; a ciência é essencialmente a-
histórica.
Kuhn, por sua vez, opõe à imagem da ciência admitida por Carnap e Popper a seguinte:
Observação e teoria não podem ser distinguidas; a ciência não é acumulativa; a estrutura
dedutiva de uma ciência não é estritamente rigorosa; os conceitos científicos não são
particularmente precisos; a unidade metodológica da ciência é um engodo (há diversas
ferramentas disparatadas que servem a diversos tipos de pesquisa); as próprias ciências
são desunidas; o contexto da justificação e o da descoberta não podem ser separados; a
ciência é essencialmente histórica, situada no tempo.
“Cada ciência normal traz consigo o germe de sua própria destruição. É a ideia, em suma,
de uma revolução permanente” (p. 34).
Mas Kuhn nunca teve a intenção de destruir a ciência; ao contrário, quer mostrar que é
impossível pensar cientificamente sem se utilizar, ou sem estar dentro já de um
determinado paradigma. Mas na passagem entre dois paradigmas, é a própria razão
científica quem sai fortalecida (terminologia médica, vitalista), adquirindo uma nova
normatividade vital.
O caso é totalmente diverso com relação a P. Feyerabend. Diz-se anarquista, a princípio; a
seguir, passa a preferir o título de dadaísta. Critica o próprio sentido da racionalidade, o que
Kuhn nunca fez, ao menos explicitamente.
Já Lakatos, em sua reação a Kuhn, inicia por um retorno a Popper. Postula uma
“metodologia dos programas da pesquisa científica”, buscando abrir outra alternativa à
racionalidade da ciência.
Coloco-me próximo do ponto de vista de Feyerabend sobre a racionalidade.
Segue um resumo do que diz Larry Laudan a propósito do estado da racionalidade: (L.
Laudan. “A problem solving approach to scientific progress”, in I. Hacking (dir.) Scientific
Revolutions, 1981, p. 144 s.)
1) A passagem de uma teoria a outra se efetua de maneira não cumulativa. Nem o
aspecto formal nem o conteúdo empírico (nem mesmo as consequências mais
seguras) de uma teoria são poupadas quando ela é suplantada por uma outra.
2) Em geral, uma teoria não é simplesmente rejeitada porque apresenta anomalias ou
aceita porque se encontra empiricamente confirmada.
3) Tanto as mudanças quanto os debates provocados pelas teorias científicas colocam
mais em causa os dados conceituais dessas teorias que suas bases experimentais.
4) Os princípios “locais”, específicos, da racionalidade científica aos quais os cientistas
recorreram para avaliar uma teoria não são imutáveis, sofreram sensíveis
modificações no curso da história.
5) Com respeito à teoria, os cientistas adotam as posições mais diversas, ou a aceitam
ou a rejeitam, ou a buscam ou dela se aproximam, entre outros casos de figuras
possíveis. Uma teoria da racionalidade que só se interesse pelos mecanismos de
aceitação e de rejeição se encontraria rapidamente desprovida face à ampla gama
de situações que se oferecem aos cientistas;
6) Estando dadas as dificuldades notórias que sentimos com as diversas noções de
“verdade aproximativa”, tanto no nível semântico como no nível epistemológico, é
improvável que aquelas que realizam a evolução no sentido de uma maior aparência
de verdade objetiva última da ciência permitam que se represente a ciência como
uma atividade racional.
7) A coexistência de teorias rivais é a regra, mais do que a exceção, por isso avaliar
uma teoria é antes de tudo um trabalho de comparação. Para Laudman, a
racionalidade científica é sobretudo o poder que tem a ciência de resolver
problemas. A teoria T deve ter preferência sobre a teoria T’ se a teoria T resolve
mais problemas que a teoria T’. Não nos preocupemos em saber se T está mais
próximo da verdade que T’ (ponto 6). Só podemos avaliar uma teoria comparando
sua capacidade de resolução dos problemas com a de outras teorias (ponto 7). Não
basta entrar em contato com os fatos da experiência, é preciso também ater-se à
resolução de problemas de ordem conceitual (ponto 3). Pode ser razoável seguir
pesquisas fundadas sobre ideias que não se ajustam com a informação disponível,
pois o valor da pesquisa provém do processo contínuo de resolução dos problemas
no qual ela está engajada (ponto 2).
Concordo sobretudo com o ponto 5 de Laudan, segundo o qual aceitar ou rejeitar uma
teoria é apenas uma parte ínfima do trabalho científico. Mas tiro disso uma conclusão
oposta à de Laudan:
[p. 42-43]
“a questão da racionalidade tem pouca importância para a ciência. O filósofo da linguagem
Gilbert Ryle fez notar, já há algum tempo, que não é a palavra “racional” que é operatória,
mas sim a palavra “irracional”. Nunca digo, a respeito de minha boa tia Patricia, que ela é
racional (ela é, antes, sensível, sábia, plena de imaginação, perspicaz). Digo sim, ao
contrário, de meu tio louco Patrick, que é às vezes irracional (sendo ao mesmo tempo
preguiçoso, imprudente, confuso e imprevisível). Aristóteles ensinava que os humanos são
animais racionais pelo fato de serem capazes de raciocinar. Podemos concordar com isso
sem ter de dar à palavra “racional” um valor valorativo [valeur évaluative]. Apenas a palavra
“irracional”, no estado atual da linguagem, é valorativa e pode significar: lunático, demente,
evasivo, pouco claro, faltoso de conhecimento de si e muitas outras coisas. Sinto pela
“racionalidade” dos filósofos da ciência tão pouca atração que Feyerabend. A realidade é
mais agradável, mesmo se a palavra “realidade” também não tenha tido muito sucesso. A
realidade… que conceito! [alusão à frase em epígrafe, atribuída às iniciais de S.V.).
Assim, tornamo-nos realmente historicistas. Laudan tira suas conclusões das “provas
históricas disponíveis”. Desde Kuhn, o discurso da filosofia das ciências mudou muito. Não
nos caberá mais deshistoricizar a ciência para provar nosso respeito por ela, como nos
reprovaria Nietzsche.
Lakatos é importante pois fornece uma teoria da racionalidade que prescinde da teoria da
verdade como correspondência.
“A distinção que estabeleço entre a razão e a realidade é mais profunda que a de Laudan e
de Putnam, pois considero que a realidade depende mais do que se fazemos que do que
pensamos” (p. 45).
[Assim, para Hacking, há uma reserva para a racionalidade enquanto algo próximo da
história, portanto resguardada ao domínio da theoria. Quanto à realidade, esta fica
resguardada ao domínio da praxis, e é disso que se trata o livro: por um novo realismo
enquanto praxis científica].

1- O que é realismo científico?


“Para o realismo científico, as entidades, estados e processos descritos pelas teorias
existem realmente, pelo pouco que essas teorias sejam exatas” (p. 49).
“O realismo sustenta que as ciências sejam com frequência próximas da verdade, mesmo
se suas pesquisas ainda não a tenham atingido. Nosso objetivo é o de descobrir a
constituição intrínseca das coisas e de conhecer o que povoa os espaços mais distantes do
universo. Certamente que ainda nos resta muito a fazer, mas não sejamos tão modestos,
nossos conhecimentos já estão longe de ser negligenciáveis” (p. 49).
“O anti-realismo é a teoria inversa” (p. 49). “Uma teoria é adequada, útil, justificada ou
aplicável, mas qualquer seja a admiração que se sente com relação aos triunfos
especulativos e tecnológicos da ciência, não devemos ceder à tentação de considerar como
verdadeiras as teorias que ela emite, mesmo as mais provadas” (p 50).
“No que me concerne, se podemos projetá-los, então são reais” (p. 53).
Hacking adota uma postura realista não especulativa, mas a do que poderíamos chamar de
realismo pragmático: se posso intervir, então existe.
“Não são os quarks que me converteram ao realismo, mas antes a existência, hoje, de
emissores que, concebidos para projetar pósitrons e elétrons fazem exatamente o que lhes
é pedido” (p. 53).

“Toda definição de “realismo científico” só pode ser uma sumária indicação. Pois se trata
mais de uma atitude que de uma doutrina claramente estabelecida. É um modo de evocar o
conteúdo das ciências da natureza. Encontramos também interessantes paralelos na arte e
na literatura, pois a palavra “realismo” não contentou-se em acumular conotações no campo
filosófico: ela serve também para designar muitos movimentos artísticos” (p. 56).
[talvez aqui haja uma ponte para falar da relação apontada por Lukács entre realismo e
naturalismo, dizendo que o segundo é um realismo ingênuo que se contenta em meramente
descrever a realidade, enquanto o primeiro, porque ele narra, também intervém nela].

“Mais do que as doutrinas, são os movimentos que nos interessam, o trabalho criativo que
surge de um conjunto de motivações comuns e se define, em parte, por sua oposição a
outros modos de pensamento. Realismo e anti-realismo científicos também são
movimentos” (p. 57).

Duas espécies de realismo: uma concernente às teorias, outra às entidades. “No que
concerne às teorias, perguntamo-nos se eles são verdadeiras ou falsas, candidatas à
verdade ou visando a atingi-la. No que concerne às entidades, perguntamo-nos se elas
existem” (p. 58).
Um exemplo de realismo quanto à teoria e, ao mesmo tempo, de anti-realismo quanto às
entidades é o de B. Russell. Como, para ele, as teorias poderiam ser tidas como
verdadeiras segundo a lógica, e a lógica não poderia aceder ao mundo senão de um modo
superposto, já que a linguagem lógica seria uma simplificação da realidade hiper-complexa
do mundo real, então ele acaba por admitir que as entidades podem carecer de existir,
enquanto a linguagem lógica deve ser necessariamente verdadeira.
Também é possível ser realista quanto à existência (como fazem os crentes em Deus, por
exemplo), ao mesmo tempo que se recusa a veracidade de qualquer teoria. Disso deriva
uma teologia negativa a qual dirá tudo o que Deus não é, mas jamais poderá dizer o que ele
é (há correlatos na física, quando se tenta definir o elétron, por exemplo, por aquilo que ele
não é).

[Parei em “Dois realismos”]