Você está na página 1de 2

1

De Garanhuns para o mundo ( II )


Se o Brasil é tão injusto, como foi que ele está chegando lá?

por Paulo Peixinho Lima ♥

Meu caro Lula, nunca tivemos a oportunidade de conversar pessoalmente, mas quero lhe
dizer que acompanho sua vida e carreira com imenso interesse. Admiro sua tenacidade,
seu talento, sua capacidade. Em um País onde todos almejam ser "doutor", você já é
"Vossa Excelência". Na terra dos bacharéis, o candidato mais votado no primeiro turno é
um operário. Você não cursou a Universidade, ao contrário, formou-se na Adversidade.
Não fez mestrado, mas lidera toda uma escola de pensamento: não defendeu teses, mas
fundou um grande partido e tem PhD em vida. Muitos lhe torcem o nariz, alegando a sua
falta de cultura. Nessa lacuna, talvez, resida a prova maior de seu valor.

Só uma coisa, em você, eu não entendo; suas teses se chocavam com a sua biografia.
Agora, mudou Lula, ou foi a maquiagem feita pelos marqueteiros?

Você combatia a livre iniciativa (?), rechaçava o capital estrangeiro (?). E, ainda afirma
que o Brasil, do jeito que é, não tem a menor viabilidade. Lançando os olhos nos seu
passado, paradoxalmente, a leitura é exatamente o contrário.

Quando você nasceu, Lula, em 1945, todas as mazelas que hoje atribui ao Brasil não
existiam. Não se discutiam classes, porque em Garanhuns, na sua exuberante miséria,
era um cenário autenticamente nacional. Naquela época, todos eram igualmente pobres,
identicamente desnutridos, homogeneamente desesperançados. Foi ali, meu caro Lula,
que você venceu o primeiro vestibular de sua vida. De cada 100 crianças que nasciam, 30
morriam antes de completar o primeiro ano de idade. Você escapou de tudo isso, ainda
jovem, trocou o horizonte perdido de Garanhuns pela selva de pedra de São Paulo.

Corriam, então, os anos 50. Aquela década maldita em que Juscelino Kubitschek, "lacaio
do capital estrangeiro", trouxe para o ABC as inescrupulosas empresas estrangeiras que
você tanto combatia. Muitos nordestinos, como você, foram alistados nas fileiras de
"escravos" daquelas empresas. Como não tinham o menor nível de instrução, foram elas
que, através do Senai e de cursos internos, trataram de treiná-los, prepará-los para o
"desumano" trabalho nas fábricas. Entre tantos outros conterrâneos, foi ali que o Luiz
Inácio, forasteiro, ignorante, depauperado, começou a virar gente. Formou-se torneiro
mecânico, passou a receber salários de cinco a dez vezes maiores que o mínimo vigente,
pôde adquirir sua casa própria, colocar seus filhos em boas escolas, vestir-se
decentemente e até mesmo comprar um carro.

Luis Inácio virou Lula, agora Mr. Da Silva. Assumiu a presidência do mais poderoso
sindicato do Brasil, encontrou disponíveis os instrumentos para que, com o seu inegável
talento, pudesse mobilizar a opinião pública, fundar um partido político e, aos 57 anos de
idade, disputar pela quarta vez a Presidência da República.

Você, Lula, atacava o capitalismo e a democracia burguesa. Curiosamente, a sua


vertiginosa carreira, saindo de onde saiu, só é possível em países onde existem o
capitalismo e a "democracia burguesa". Se ao invés de Garanhuns, no Brasil, você
tivesse nascido no Cazaquistão, você jamais teria bons empregos; sem padrinhos, jamais
ingressaria na política, fundaria um partido e se candidataria à Presidência da República.
2

Lembre-se sempre, meu caro Lula, de que foi graças ao capital estrangeiro, que você
tanto condenava (ou condena?), que hoje existem o ABC, as indústrias e o poderoso
Sindicato dos Metalúrgicos. Não era assim quando você nasceu. Em 45, éramos a
sexagésima economia do planeta, não tínhamos indústrias, nem empregos, nem Lulas.

Você cresceu porque o Brasil cresceu. É o que é porque esse "perverso sistema" lhe deu
chance.

O que você diz importa menos do que o que você é. E quando eu vejo o menino iletrado
de Garanhuns quase chegando a Presidência do Brasil, eu percebo que nem tudo, neste
país, está perdido. O simples fato de você existir, Lula, é um sinal eloqüente de que este
país tem jeito. E, ainda é, o país das oportunidades.

Hoje, meu caro Lula, no século XXI, na era do conhecimento, que este país tem jeito, eu
sei. O que não sei, é, se o Lula realmente mudou ou aprendeu a seguir a cartilha do
marketing político. Promessas de campanha: prometer o que impossível de se fazer.
Como dizia Charles de Gaulle: Em política, ou se trai o país ou o eleitorado. Prefiro trair o
eleitorado.

Não esqueça, meu caro Lula, você tem a chance de mostrar definitivamente para o
mundo que Garanhuns existe, mas o povo vai cobrar suas promessas e você terá que
negociar com o Congresso. Lembre-se de Jânio, do Collor... Mas não esqueça, se lá
chegar, você será presidente de um continente não de uma Ilha. Você será Presidente do
Brasil e não do PT.

Antecipadamente, congratulações pela Presidência.

PT. Saudações.

PS: Este artigo foi originalmente escrito por João Mellão Neto, no Jornal O Estado de São
Paulo em 05.05.1989. E adaptado com a permissão do autor.


Paulo Peixinho Lima, mestrando e bacharel em Administração de Empresas, é cacauicultor.

Você também pode gostar