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Professor: Rodrigo Sales de Alvarenga

ESCOLA MINEIRA

O desenvolvimento da vida musical na Capitania
da Minas Gerais durante o século XVIII é o ponto
alto da história da música no Brasil Colonial;

Distante do litoral e longe dos centros culturais da


Europa, surgiu aí uma atividade musical intensa,
de alto nível de execução e de criação;
 A arte colonial mineira, como um todo, é
predominantemente sacra;


 A música nesse período tinha cunho religioso, a Arte era
usada para desempenhar um contexto dirigido à Igreja
Católica;

 A profunda religiosidade da época fazia com que os


compositores escrevessem músicas para tal fim, garantindo
com isso seu sustento;

 A atividade mineradora distribuiu-se por três zonas: a do


Rio das Mortes, com centro em São João d’El Rei; a de Vila
Rica e Mariana e, finalmente, a do Rio das Velhas, com
centros em Sabará e Caeté.
Fator econômico (resultante da exploração de ouro
e diamantes) contribuiu para que fosse possível

reunir músicos, arquitetos e escritores na região
das Minas Gerais;

A grande diferença entre a música e as artes


plásticas no período colonial é a estética. Enquanto
a arquitetura, a escultura e a pintura seguem os
cânones do barroco e o rococó, na música os
padrões são pré-clássicos, mais ligados ao que
simultaneamente se produzia no norte da Itália, na
Baviera e na Áustria;
Os mulatos livres teriam procurado a sua elevação
social dedicando-se aos ofícios, às artes e,
principalmente, à música;

“...os mulatos de Pernambuco e da Bahia seriam
os primeiros povoadores e a base profissional
séria sobre a qual teve o seu fantástico
desenvolvimento a actividade musical das Minas
Gerais.” (LANGE, 1966, p. 20)
 “Esta emancipação não foi possível para o negro, porque,
quando ele era treinado para o exercício musical, com a
finalidade de integrar o coro e a orquestra dos senhores de
engenho, não saía da sua condição de escravo. Mas o mulato

livre teve a aspiração de estender a sua independência
também ao exercício da música, oferecendo os seus serviços
sem interferência de terceiros.” (LANGE, 1966, p. 20)

 Durante o apogeu do Ciclo do Ouro, entre meados do


século XVIII e princípios do século XIX não somente a
música teve grande importância no cenário artístico
brasileiro, mas a arquitetura, a escultura e a pintura também
se destacaram. De outras artes se destacam, por exemplo:
Aleijadinho (escultura), Mestre Ataíde (pintura), Padre
Antônio Vieira (orador sacro), Gregório de Matos (poeta).
Período mais importante da
história da música colonial
brasileira

Atingiu níveis estéticos, de

 criação e execução, e de
volume de produção,
inacreditáveis para a época

MINAS GERAIS
Francisco Curt Lange foi o
SÉC. XVIII
responsável pela
descoberta e diversas
pesquisas acerca da música
colonial no Brasil

Fatores econômicos
decorrente da riqueza das
minas de ouro e diamantes
foi um dos determinantes
desse desenvolvimento
musical
A virgem entrega o Menino Jesus
a Santo Antônio de Pádua
MestreAtaíde
A última Ceia
Mestre Ataíde

O Carregamento da Cruz
Aleijadinho

A última ceia
Aleijadinho

 Em Minas Gerais ocorre o ponto alto da produção musical. O
fator econômico foi preponderante para que isso acontecesse;

 Com o enriquecimento consolidado os ricos e seus filhos



letrados passaram a ter uma vida mais sofisticada;

 Nesse período, alguns dos diretores dos conjuntos musicais


ou compositores tinham escola em suas próprias casas;

 Em Arraial do Tejuco (hoje Diamantina) conta-se que havia


em torno de 10 regentes e 120 músicos em atividade;

 Os músicos passaram a ser pagos para compor em ocasiões


solenes, como grandes missas ou estreias teatrais;
O estilo predominante da música religiosa mineira
entre cerca de 1760 e cerca de 1820 não tem recebido

nenhuma denominação unânime até o momento,
devido a várias controvérsias estilísticas, mas
principalmente a uma falta do conhecimento desse
repertório, ligado à falta de edições ou gravações e à
dificuldade de acesso a determinados acervos de
manuscritos musicais. Uma das denominações
correntes, no momento, é pré-clássico, mas jamais se
poderá definir esse estilo enquanto “barroco” ou, o
que é pior, “colonial”. Suas principais características
são as seguintes:
 1. Formações predominantes: 1) coro; 2) coro +
contínuo; 3) coro + orquestra + contínuo;


 2. Utilização do sistema tonal;

 3. Música normalmente composta por músicos


mulatos semiprofissionais;

 4. Escrita em partes vocais e instrumentais;

 5. Partes do coro e da orquestra normalmente


destinadas a um único cantor ou instrumentista;
6. Coro era normalmente constituído por quatro
pessoas: três homens para as vozes de “baixa”,
tenor e contralto (este último falsetista) e uma

criança para o “tiple” (soprano);

7. Cordas normalmente constituídas de dois


violinos e um baixo e, portanto, sem violas;

8. Presença frequente de um par de trompas e


pares de flautas e/ou oboés;

9. Música predominantemente homofônica, com


raras passagens polifônicas ou fugadas;
 10. Obras divididas em seções curtas;

 11. Simplicidade nas partes vocais. Passagens mais


elaboradas são destinadas aos instrumentos;

 12. Coexistência dos estilos silábico e melismático;

 13. Alternância de passagens a quatro vozes (coro), a


duas (duo vocal) e a uma (solo vocal), com o
acompanhamento da orquestra ou do contínuo;

 14. Passagens corais normalmente homofônicas; as três


vozes superiores normalmente são comprimidas e o
baixo possui desenho melódico mais livre;
 15. Duos vocais normalmente homorrítmicos, em terças ou
sextas paralelas;


 16. Solos vocais não virtuosísticos;

 17. Raras passagens orquestrais (sem o coro), normalmente


destinadas a reforçar o caráter do texto;

 18. Base estética filiada ao estilo pré-clássico italiano do


centro do século XVIII, com a manutenção de técnicas
melódicas e harmônicas tipicamente barrocas;

 19. Manutenção dos “afetos barrocos”, “clichês” melódicos


e harmônicos destinados a explorar os apelos sentimentais
do texto;
 20. Utilização esporádica da técnica do recitativo e ária
“da capo”, mas de estilo pós-barroco;


 21. Exploração da música enquanto espetáculo, com
utilização de elementos extraídos da ópera;

 22. Utilização esporádica do canto gregoriano composto


com valores rítmicos definidos;

 23. Resultado da utilização do estilo pré-clássico italiano,


tal como assimilado pela música religiosa portuguesa,
porém com o emprego de reminiscências barrocas e
mesmo pré-barrocas.
PRINCIPAIS COMPOSITORES
José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita

Nasceu na Vila do Príncipe (atual Serro Frio), em
12/10/1746, e morreu no Rio de Janeiro
em ?/04/1805. Filho de uma escrava alforriada e de
um português, foi organista emérito. Foi o maior
compositor do tempo da Colônia. Viveu em Arraial do
Tejuco (Diamantina), até mudar-se para Vila Rica
(Ouro Preto). Em 1800 já estava no Rio de Janeiro onde
foi organista da Igreja do Carmo. Autor de mais de
300 obras, grande parte de suas partituras
desapareceram. O que restou são partes avulsas para
cada obra, como:
 -Antífona de Nossa Senhora (Salve Regina)

 -Missa em SiB (Kyrie e Glória)


 - Missa em Mi bemol (ou Grande Missa)

 -Ofertório de Nossa Senhora

 - Quatro Tractus para Sábado Santo (1783)

 -Gradual-Christus Factus Est

 -Ladainha in honorem Beatae Mariae Virginis

 -Responsório de Santo Antônio


 Seu estilo, de um modo geral, é sóbrio e utiliza com
frequência acordes simples com funções frequentes de
tônica, subdominante e dominante. O Salve Regina e a Missa
em Mi bemol constituem bons exemplos de música
concertante homofônica.

 Marcos Coelho Neto
Nascido em Vila Rica em 1740, morreu na mesma vila em
21/08/1806. Membro da Irmandade de S. José dos Homens Pardos e
da de N. Sra. das Mercês de Cima, foi trompetista dos conjuntos
musicais que serviam às duas confrarias. Foi também timbaleiro na
Cavalaria Auxiliar de Vila Rica. Em 1785, foi designado regente da
música para as “Festas do Desposório do Infante”. De 1779 a 1789, foi
regente do conjunto da Irmandade do Santíssimo Sacramento. Em
1799, ingressou na Venerável Ordem Terceira dos Mínimos de S.
Francisco de Paula, de mulatos, e na Irmandade de Santo Antônio,
constituída por brancos, sendo uma exceção honrosa ao preconceito
racial da época.
 Francisco Gomes da Rocha foi membro da Irmandade de
São José dos Homens Pardos em 1768 e teria sido amigo
de Lobo de Mesquita, a quem sucedeu como regente na
Ordem Terceira do Carmo, em 1800. Teria escrito mais de

200 obras, segundo o musicólogo Curt Lange. De sua obra
podemos citar: Novena de Nossa Senhora do Pilar, a
quatro vozes (1789); Spiritus Domini para dois coros
mistos e orquestra (1785); Popule Meus a quatro vozes e
Cum Descendentibus in Lacun para Sexta-feira da Paixão.
Segundo Gérard Béhague, foi o compositor que assimilou
com mais pureza o estilo clássico, tanto no tratamento
coral como no acompanhamento instrumental. Morreu em
1808 em Vila Rica.

“Novena de nossa senhora do pilar”


 Ignácio Parreiras Neves (Vila Rica, 1736-1794).
Era compositor e cantor, havendo atuado nas Irmandades de
Nossa Senhora da Mercê e dos Homens Pardos. Somente duas
obras suas chegaram a nossas mãos: um Credo para coro misto

e orquestra (1780-85) e um importante Oratório ao Menino
Deus para a Noite de Natal (1789).

 Manuel Dias D’Oliveira


Nasceu em Tiradentes. Organista e regente, esse compositor
jamais atuou fora de sua região, onde foi organista na Matriz
de Santo Antônio de São José del-Rei (atual Tiradentes). Maior
parte das obras atribuídas a este compositor apresenta, às
vezes, estilos muito diferentes entre si, fazendo com que
coloquemos em dúvida boa parte do conjunto de obras que
hoje conhecemos. Manuel Dias de Oliveira escrevia
habitualmente peças para dois coros.
 Jerônimo de Souza Lobo (? – 1810)
Nascido (?) em Vila Rica, morreu em 1810 na mesma vila.
Provável filho e testamenteiro do “Patriarca Musical de Vila
Rica”, Antônio de Souza Lobo, foi pai do compositor Antônio

de Souza Queiroz (m. 1829). Foi membro da Irmandade de S.
José dos Homens Pardos e, a partir de 1780, organista da
Matriz de N. Sra. do Pilar.
 João de Deus Castro Lobo (Vila Rica,16 de março de 1794 –
Mariana,1832) foi um compositor brasileiro ativo no início
do século XIX. Era filho de Gabriel de Castro Lobo, também
músico, e Quitéria da Costa e Silva. Estudou música no

Seminário de Mariana, e ali ordenou-se padre. Foi organista
da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência e mestre-
de-capela da catedral. Em Vila Rica foi organista junto à
Ordem Terceira do Carmo, e atuou ainda como regente de
coro e orquestra do Teatro de Ópera. Seu catálogo de obras
compreende 23 peças, aproximadamente, entre Matinas,
Responsórios Fúnebres e Novenas, e das quais se destacam a
Missa a 8 vozes, a Missa em Ré Maior, as Matinas de Natal,
todas para solistas, coro e orquestra, além de uma Abertura
em Ré Maior para orquestra.
 Joaquim de Paula Souza (1760-1820)
Nascido no arraial de Prados, ca. 1760, morreu na mesma
localidade por volta de 1820. Exerceu sua profissão no final
do século XVIII e início do século XIX. Pouco se sabe sobre

sua vida, mas possuía o apelido de “Bonsucesso”, e em
algumas obras suas aparece o título de padre, não
confirmado. Notável calígrafo, impressionava pela beleza e
pelo capricho de suas cópias. Foi vereador em São José del
Rey (Tiradentes), quando Prados era um distrito da vila.
Possuía fortuna, pois há registro de que financiou a
atividade musical em Prados, quando esta entrou em
declínio com o esgotamento de suas minas. Suas obras
estão preservadas na Orquestra Ribeiro Bastos, de S. João
del Rey.
 Tractus (trato) - Cântico litúrgico da missa romana que ocorre
antes do evangelho nos dias da Penitência, datando do Século
IX. Seu texto é retirado dos Salmos.

 Gradual - Cântico litúrgico da missa romana que se segue à
leitura da Epístola. Desenvolveu-se no Século V. Em forma de
responsório na qual os solistas se alternam com um coro. Os
textos também são extraídos dos Salmos. As melodias
melismáticas são dispostas em grupos de acordo com o modo.

 Ladainha - Cantiga que é uma prece musicada demonstrando


devoção a um santo ou invocando sua proteção.
 Responsório - forma de canto litúrgico onde um solista
entoa versos que são respondidos (daí o nome) por um
coro ou pela congregação. A maioria dos responsórios tem

um verso único que serve de refrão entre as intervenções
do coro, mas em alguns casos o verso do solista pode
variar.

 Antífona - é uma resposta, em geral cantada em canto


gregoriano a um Salmo ou a outra parte da liturgia, como
as Vésperas ou uma missa. Esta função deu origem ao
estilo do Canto antifonal.
Marcos Coelho Neto (1787) – Himno a 4 ”Maria Mater Gratie”


J.J. Emerico Lobo de Mesquita :

Antíphona de Nossa Senhora (Salve Regina)

Para a benção da Cinza da Missa de 4ª feira de Cinzas


Ignácio Parreira Neves - Credo


Manuel Dias de Oliveira Offertorium
”Justus ut Palma”
 João de Deus de Castro Lobo :
Missa e Credo para Oito Vozes

 1. Kyrie

 2. Christe

 3. Kyrie
 4. Gloria

 5. Laudamus

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