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027.4.009.7 Uma biblioteca verdadeiramente publica A truly public library VICTOR FLUSSER * Discute as duas dimensdes fundamentals da biblioteca verdadelramente publica — ou biblior teca-acho cultural. Dentro desta contexto preco- niza a procura do contate com 0 nio-piblico © a ‘sintese dialética entre eriago © mediagso cultural. Apresenta os pontos em comum e a6 diferencas ‘entre a biblioteca piblica tradicional @ a biblior ‘teca-agdo cultural. 0 desenvolvimento do espirito individualista burgués modificou de maneira significativa, por um lado, a relacko do homem com a cultura (entendida aqui como 0 conjunto de objetes artisticos) e do outro a relacdo do criador com © seu piblico. Se na Idade Média a criagSo artistica tinha uma utilidade social globalmente aceita, era um bem sim- bélico, pertencia ao dominio puiblico, com a Renascenga, ela tende a ser uma fruigdo individual e um bem econd- mico, Se na Idade Média a criagdo artistica era orientada para o povo, na Renascenca ela comeca a se voltar para um publica.’ Esta modificagdo de povo em publico € o + Animader Cultura 1. A moglo de pobllco & ambigua ne medica que ele sianifies por lum indo eparticiparte ativa. dx reepibticns, © por outte, um da cul- tura, e por outro, ele nao tem possibilidades de formular @ sua JOSY EISENGERG tn: ela ible Ouverte 2» 6, Rapazes da escole de Garbiane eCartas a ums professoray. Lisbon, editorial Prasenca, 1977. p. 112 lmeragao» Lisbon, Morais Eatores, 1977. R. Ese. Biblioteron. UFMG, Belo Horizonte, 9(2):131-8, set. 1980 133 134 guagem comum entre eles? Uma resposta nos é dada pelo método de alfabetizagao de Paulo Freyre. Através de dis- cussées com 0 ndo-publico, palavras geradoras sao esta. belecidas (temas e conceitos de base da realidade do néo- pdblico, que fazem sentido para ele por serem elementos vivos de sua vis8o do mundo) que apés servirem de assun- to de discusséo e andlise, séo escritas e divididas em sila- bas. Ao nivel de uma politica cultural libertadora (que fibera o nao-pblico de seu siléncio) da qual a biblioteca publica é parte ativa — um trabalho andiogo ¢ necessarlo. Através co conhecimento da realidade do nao-publico — no caso da biblioteca a realidade literdria com todas as suas implicagdes — um contato Intimo deverd ser esta: belecido entre estes parceiros da agao cultural. F. Jeanson diz a este respeito: «Deve-se encontrar as pessoas Id onde elas esto e trabalhar com elas: a a¢do cultural 6 antes de mais nada uma pesquisa ativa junto a populacoes enfocadas. Pois dever ser experimentados os métodes a fim de ctiar, passo a passo, uma linguagem comum; de- ve-se encontrar cada vez mais realmente aqueles aos quais 'se pretende enderecar.» 7 Vimos até agora que uma biblioteca verdadeiramente pilblica deve entrar em contato com 0 néo-piblico, para que este, na relacao que se estabelecerd, tenha a pos: lidade de formutar a sua palavra. Isto porém ndo significa que a biblioteca tenha somente uma funcdo criativa, de suscitar a palavra. Todo 0 processo de aco cultural en- globa também a dimensao de mediacdo e neste sentido bibliotecs reencontra sua pratica primeira a de ser um «depésito da heranga cultural. Devemos porém estar atentos 2o carater de mediacdo da heranga cultural. Dis: tingamos rapidamente duas maneiras de assimilar a he- 7. im alntervenire Revista de Melson le ta Culture dn halon sur one, 1968. R, Esc. Bibliotecon. UFMG, Belo Horizonte, 9(2):131-8, set, 1980 ranca cultural: ativamente ou de modo passive, F. Jean- son diz que «existem de modo geral duas maneiras de receber. © buraco recebe a bola de golfe quando o joga dor consegue envid-la: 6 um objeto que se encontra em contato com um outro objeto. Pode-se porém também re- tomar por conta prépria aquilo que se herdow e dar-ihe um sentido novo, a partir de preocupacées diferentes, € em um contexto diferente. Conforme esse segundo sen- tido, receber pode consistir em tirar partido daquilo que se revebe para exercer uma aco prética sobre a realidade presente do mundo humano.»® (Encontramos a mesma andlise da assimilaedo passiva da heranga cultural em Paulo Freyre, quando ele fala da «educacéo bancérian como uma educagio de domesticagdo). Uma biblioteca verdadeiramente publica deve desenvolver atividades que possibilitem um acesso critico @ heranga cuftural Por razies metodolégicas apresentamos as dimen- des criativas e mediativas da biblioteca publica como send atividedes distintas cu paralelas. Isto porém nao 0 caso, Participando de um projeto de ago cultural libertadora, a biblioteca publica funde dialeticamente estas duas dimensses. «A acao cultural, diz Camille Roy, se serve dos meios de difusdo (indispensdveis, sem os quais ela se asfixia) mas ela deve ser considerada como uma criagio, ela € 0 fato de um criador, ou melhor, de um pequeno grupo de criadores agindo em uma regio geo- grdtica voluntariamente restrita, mas agindo de maneira duravel. . .»® (Talvez possa parecer bizarro falarmos de criadores ao referirmo-nos aos bibliotecarios; acreditamos porém que ¢ bibliotecdrio de uma biblioteca verdadeira- mente piblica seré um criador de uma nova biblioteco- nomia). In op. cit. p. 3 9. 9 econsia sur le problame culture mustesten p. 3 R. Esc. Biblictecon, UFMG, Belo Horizonte, 9(2):131-8, set. 1980 135 136 Propusemos até agora neste artigo as duas dimen- sbes fundamentais da biblioteca verdadeiramente piblica (que podemos chamar também de biblioteca-acdo cultu- ral), a saber, a procura do contato com o ndo-pliblico @ a sintese dialética entre criagdo e mediagao cultural Vejamos agora de forma esquemética os pontos em comum e as diferencas entre a biblioteca piiblica tradi- cional (a) e a biblicteca-agdo cultural (b): 1 a — Tradicionalmente a biblioteca ¢ lugar de livros Isto 6, lugar de informacGes; arquivo de cultura; museu. Sua funcdo 6 a de oferecer informacées, um acervo cultural, para um grupo de pesscas. A biblioteca & fonte de literatura na qual uma populagto sedenta de cultura (piiblico efetivo e potencial) vert se desalterar. 1b —A biblioteca-agao cultural também tem tivros, também & lugar de informagées. Porém a nova biblioteca nao oferece esta «cultura do pasado» Para uma populacdo, mas em uma agéo com esta populago analisa criticamente esta heranca cultural. Parafraseando Goethe, diriamos que ela conquista o passado cultural, para poder pos- sui-lo, conquista que se realiza através da rela- 80 dialégica entre 0 «aqui-agora» da populacdo em questo e a obra do passado Ila — Na biblioteca tradicional todos livros «ja estdo escritos». Il b — Na biblioteca-agao cultural a dimensao criativa 6 presente da maneira primordial, «grande parte dos livros ainda nao esto escritos» mas o seréo pelo ndo-piblico que entao teré a sua palavra Ill a — A biblioteca tradicional 6 implantada em uma rea- lidade determinada. Ela ¢ algo de fora colocado R, Esc, Bibliotecon. UFMG, Belo Horizonte, 9(2):131-8, set. 1980 dentro de um organismo. £, como tudo que & implantado, a biblioteca esta sujeita & rejeigao {uma bibfioteca vazia e sem leitores) Mlb — A biblioteca-agao cultural n&o é implantada, mas ‘surge de um processo de emergéncia cultural .19 Vindo «de dentro», ela nao corre o risco de ser rejeitada pois ela responderd as reais aspiragoes de sua comunidade. Nao seré mais uma biblio- teca para uma comunidade, mas uma biblioteca da comunidade WV a — 0 agente da biblioteca tradicional, 0 bibliotecd- rio, esté & disposicéio de um grupo de pessoas para ajudé-las e orienté-las no manuseio de livros @ outras formas de cultura literéria. Embora esta fune8o soja da maior importancia, ela nao 6 su- ficiente em uma biblioteca-acz0 cultural IV b — 0 agente desta nova biblioteca, 0 animador-bi- bliotecdrio, ndo esté & disposic&o da camunidade mas faz parte dela. Crescendo juntos, bibliote- cérfo (enquanto profissional) © populacgo, eles criarfo a estrutura e as caracteristicas da nova biblioteca. Ser bibliotecdrio em uma biblioteca verdadeiramente publica 6 desenvolver de uma maneira politica a sua profissto Concluinde diriamos ainda que uma biblioteca verda- deiramente piiblica que desenvolve com um ni&o-pitblico as dimensdes de criago @ mediagdo de forma integrada, nao deverd se restringir somente & cultura literéria. Sua vocacao ¢ a de vir a ser o centro cultural de sua comu- nidade @ um instrumento de Tibertacdo. surat que & um movimento ‘que & um movimento descem 10. Gpomos 8 kéla de. amorgtn: fants, a Kida de manipulacso cut R. Esc, Bibllotecon. UFMG, Belo Horizonte, 9(2):131-8, set. 1980 137 Discusses the two main dimensions of a truly public library — or library with @ «cultural action» funetion. Recommends a search for contact with the nonusers and the dialectic synthesis. between creation and cultural mediation, Presents the ‘common points and the differences between the traditional public library and the library with a «cultural actions funetion 138 —-R. Esc, Biblictecon, UFMG, Belo Horizonte, 9(2):231-8, set. 1980