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Introdução ao Estudo do Direito

Interpretação das Leis


Novembro de 2016

Caso prático de Introdução ao Estudo do Direito


Caso da 2.ª frequência de 19 de Maio de 2011

“Leia atentamente a seguinte hipótese e resolva, fundamentando, as questões colocadas:


No dia 5 de Dezembro de 2010, realizou-se em Macau a 29.º Maratona Internacional da
RAEM. Quando os atletas passavam na Ponte Sai Van, Abel, que liderava a corrida, após
beber uma garrafa de água cuspiu para o chão. Ao cortar a meta em primeiro lugar, Abel
recebeu não só os parabéns pela sua vitória mas também uma multa (no valor de MOP$
600,00), autuada pelo agente Ernesto da Polícia de Segurança Pública da RAEM, que
estava a policiar o evento. Ernesto explicou a Abel que este tinha violado a norma do art.
52.º do Regulamento Administrativo n.º 11/2009: “Constituem infracções comuns,
sancionadas com multa de $ 600,00 (seiscentas patacas), os seguintes factos: Cuspir ou
lançar muco nasal para qualquer superfície do espaço público, de instalações públicas ou
de equipamento público.”
Inconformado com a decisão do agente Ernesto, Abel procurou aconselhamento jurídico
junto de três importantes juristas da RAEM.

O Dr. Bártolo apresentou os seguintes argumentos:


A1) É preciso tomar em consideração que estamos perante um evento desportivo
autorizado. E que as regras gerais de conduta nem sempre se aplicam a eventos
desportivos. Num combate de boxe, por exemplo, são permitidas pelo ordenamento
jurídico vigente, certas condutas lesivas para a integridade física dos atletas que não
seriam permitidas fora do ringue.
A2) A razão-de-ser da proibição é a de salvaguardar a saúde pública dos cidadãos em
situações normais da sua vida quotidiana, contra actos lesivos e desnecessários de
cidadãos pouco preocupados com o respeito pela saúde pública. É preciso tomar em
consideração que os atletas que participam na maratona têm de se submeter a exames
médicos sendo razoável supor que se tratam de pessoas saudáveis. Além disso a retenção,
por parte dos atletas, de determinados líquidos é prejudicial à sua boa prestação
desportiva. Finalmente, é preciso considerar o facto ocorreu no local da corrida e não
num espaço de trânsito de peões. Assim, o risco que se pretende acautelar com a regra
proibitiva não se encontrava presente no caso concreto.
E concluiu:
B1) Temos de concluir que há uma excepção implícita na norma invocada. Ela não se
aplica a competições desportivas.

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Interpretação das Leis
Novembro de 2016

O Dr. Caio chegou à seguinte conclusão:


C1) Na resolução de problemas jurídicos o intérprete deve obedecer à lei. O diploma
invocado, apesar de conter normas jurídicas, não é uma lei, é um regulamento
administrativo, não hevendo nenhuma lei que proiba cuspir em público, cuspir é
permitido.

O Dr. Danilo conclui:


D1) O evento foi autorizado pelas autoridades da RAEM. Essa autorização, entre outras
coisas, permitia aos atletas circular a pé na Ponte Sai Van, situação que, na falta de
autorização, é também considerada uma infracção. Ora, a norma que permite circular a
pé na ponte, também permite, por maioria de razão, cuspir nesse espaço.

Em resposta às interpretações apresentadas pelos referidos juristas, o agente Ernesto


limitou-se a dizer: “Não percebo por que razão perderam tanto tempo a intepretar a lei.
O meu trabalho não é interpretar a lei, limitei-me a aplicá-la!”

Responda às seguintes questões:

1. Identifique o(s) elemento(s) da interpretação preponderante(s) na argumentação de


Bártolo (A1 e A2).
2. Qualifique, quanto ao seu resultado, as interpretações apresentadas por Bártolo (B1),
Caio (C1) e Danilo (D1).
3. Comente a afirmação final de Ernesto e diga, justificando, se concorda com a sua
decisão de autuar Abel”.

Teresa Lancry A. S. Robalo