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A S N IN F AS DO VALE

Este é um livro onde a poesia e a revolta an-


dam de mãos dadas.
Nos vales poéticos, em meio às belezas da
natureza, desenvolve-seo drama da opressão do
homem pelo homem, e da conseqüenterevolta do
homem conlra o homem.
Chegará um dia eÍn que a cordialidadee a
justiça substituirãoa crueldadee a tirania?
E que caminho levaria a tal Íim: a violência
revolucionáriaque derruba e destrói,ou a paciên-
cia evangélica que visa a mudar o agressor pelo
exemplo e a pregação?
Possa cada leitor encontrar a resposta no seu
coraçâo e nas páginas deste livro.
GIBRAN KHALIL GIBRAN

IIÍ|UALE
AS]II]IFAS
CHALUTA
TMDUçÃO DE MAÌ.ISOUR

AssociaçãoCult ur al
lnt er nacionalG ibr an
ÍN D IC E
Tttulo do originalárabe:
ARAESAL.MURUJ

Montagemda capa:
EOUIPEDA ACIGI

I lustrações:
GIBRANKHALILGIBRAN
Marta, de Ben I
l mpressão:
A Cinza dos Séculose o Fogo Eterno 23
José Fagundes do Amaral & Cia Ltda
Rua do Livrdmento, 196 -Tel.243-7046 João, o Louco 4T
Distribuição:
CATAVENTODistribuidorade LivrosS.A.
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O MA N S O U RC H A LLITA
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20000 - Rio de Janeiro,RJ

B R A S IL

1978
MARTA,DE BEN

A trás dest e Eu encar cer ado.


Tenho out no Eu. alado e í ivr e
C omp ar ados com seus sonhos,
ÍV l eus sonhos são com o ur na con- lda nas t r evês
F rneus desejos, com panados conl os seLis,
S ãu ccr - 'r our nr aaglt acão de esquelet os.
G ibr an

.
/^ 1'
DEU F AI m or r eúquando el a es tav aai n-
da no ber ç o, e s ua m ãe m or r eu antes que
ela atingi s s eos dez anos " Pequena ór fã,
Íoi abandonadana ç as a de um v i z i nho po-
br e que v ív i a,c om s ua m ul here fi l hos ,das
sementese fr utos da ter r a, naquel aal dei a
isoladaentr eos bel osv al esdo Líbanr ::Ben.
Toda s as m anhãs ,s aía des c al ç a,v es ti -
da de tr apos , atr ás de um a v âc a l ei tei r a,
que levavaa pastar nos prados onde o ca-
pÍm er a m ai s abundante.Enquantoa v ac a
pastava,a pequena orfã ora cantava ccinì
os pássaros,ora chorava com o córrego,
or a contem pl av aas fl or es e as bor bol etas .
lnvejav aa v ac a por ter Ìanto que c om er .
Ao cr epús c ul o,aç oi tadapel a fom e, v ol *

'11
tava para aquele casebree sentava-secom cheis d e v i r tude e i noc ênc i a.Som os m a"
a f i l h a d o se u p ro te to ra co me r um pão de terialmentemais ricos que os aldeões,mas
n n i l h oc o m a l g u ma s ve rd u ra s e fr utas se- são eles os m ai s nobr es .N os m ui to s em ea-
c a s , p a r a d e p o i s e ste n d e r-see dor m ir so- trnos,e pouco ceifamos. Eles ceifam o que
b r e a p a lh a n u a , d e se j a n d oq u e â vida fos- semeam.Somos escravosda ambição, en-
s e u m s o n o co n tín u o . quanto que o contentamentoos rnantém
Assim passaram-seos anos na vida da sempr e l i v r es .Bebem os a v i da num a taç a
p o b r e M a rta ,n o se i o d a s co l i n as e dos va- tur bada pel a am ar gur a. El es bebem ã
l e s d i s t an te s.E e l a cre sci a co m o cr escem vida em toda a s ua l i m pi dez .
as plantas, e os sentimentosse Íormavam Mar t a hav i a j á c om pl etado 16 anos , ê
n e l a s e m q u e o p e rce b e sse como , se for - estava sentada um dia junto a um corrego
m a o p e rÍu men a s fl o re s.E , p o uco a pouco, quandoouv i uo r uídode c as c oss obr e o pe*
a m e n i na to rn o u -se u ma mo ça, similar a dr egul ho do r i o. Vi r ou a c abeç a e v i u ur n
u m a t e r r a b o a e vi rg e m n a q u al o conhecí- cavaleiro aproximar-selentamente.Quan-
rnento não havia jogado suas sementes do chegou perto dela, desmontou do seu
n e m â e xp e ríê n ci ad e i xa d osu as m ar cas. cavalo e c um pr i m entou- ac om um a di s ti n-
N o s , q u e p a ssa mo s a ma i or Par te de
ção que el a nunc a hav i av i s to num hom em ,
n o s s â v i d a n a s ci d a d e s p o p u losas,quase e per E untou- l heque c am i nho dev i a tom ar
n a d a s a be mo sso b re a vi d a d o s habitantes para chegar à costa. A moça não sabia, e
d a s a l d e i a si so l a d a sd o L íb a n o.O tur bilhão quis ir indagar. Mas o cavaleiro a deteve.
d o m o d e rn i smon o s Íe z e sq u ecera filoso- Seu olh,ar acariciava*lhe com luxúria os
Í i a d a q ue l e mo d o d e vi d a b e lo e singelo' pés desnudos e a pele tostada pelo sol. E

1' ì 13
do de farrapose carregandouma bandeja
sorriacom tantadoçuraquê a moçaquase sobre a qual haviauns ramalhetesde Ílo-
desatoua chorar e ficou muda por motí- nes.E com voz Íraca,tornadaquaseinaudí-
vos que não sabia explicar. vel pelahumildade herdadae a submissão,
No crepúsculodaqueledia, a vaca lei- disse:
teira voltou sozinhapara casa.O protetor * Não quer comprar LlmasÍlores, se-
de Marta procurou-amuito entre as coli- nhor?
nas,e sua mulherpassoua noitechorando Olhei para seu rosto pequeninoe páli-
quietamentee repetindo:"Vi-a certa vez do, para seus olhos veladospela necessi:
em sonho,sendoatacadapor umafera sel- dade,parasua bocaentreaberta comouma
vagem,e ela estavasorrindoe chorando ferida num peito dolorido,para seus bra-
ao mesmotempo""
ços desnudose magros,e paratodo o seu
TaisÍoramos únicosÍatosque me Íoram corpofrágilque pareciaumaÍlor emurche-
contadossobre Marta,naquelaaldeia bo- cida entreas floresfrescasde sua bande-
nita ondetinhaido passaras minhasÍérias ja - olfreiparatudo isto num relance,e ex-
de verão. presseimínhasimpatiacom rlmsorrisotris-
te. Comprei-lheumasflorespara ganhara
2.
sua conÍiança.Sentia que, atrás daquele
Quando chegou o outono,voltei a Bei-
rute paracontinuarmeusestudos.Enquan- olhar melancolico, havlauíïì pequenoco-
raçãoesmagadopor uma dessastragédias
to contemplava,certa tarde, a luta huma-
que tantas vezesvitimamos pobres sem
na na praçado mercado,aproximou-se de
que a genterica lhes prestea menoraten-
minrum meninode uns cinco anos.vesti-
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n[na que v i v i a no m ei o dos c am pos e dos
ç ã o . Q ua n d ç l h e d i ri g i a p a l a v r a,olhou- nr ne pr ados, pobr e m as i noc ente e fel i z , hav i a
com espãnto"Pois habituara-se,como seus sido ar r as tada pel o r i o da c i v i l i z aç ãov i ,
s e m e l h a n te sh u mi l d e s, â se r inter pelado clada e d epos i tadana c i dade,v íti m aoa s ua
c o m v o z á sp e ra p o r a q u e l e sque conside- cegueirae da c r uel dadedo hom er n.
r a m o s me n i n o sd a s ru a s co mo coisas su- - Conduz e- m eaté el a; quer o v ê- l a.
i a s e d e sp re zíve i s,e n ã o co mo pequenas Cam i nhouna m i nha fr ente,s i l enc i os oe
a l m a s fe ri d a s p e l a s fl e ch a s do destlno' atônito.D e v ez em quando,v ol tav a- s epar a
P e r gu n te i -l h e : ver ifica r s e r eal m enteo es tav a s egui ndo
Q ualéoteunorne? Naquel asr uas i m undas ,onde o v ento s e
Chamo-meFuad,senhor. mistur a c om o s opr o da m or te, o m eni no
De quem es filho e onde estãoteus entrou numa casa qLiase em ruínas. Se-
pais? gui- o at é um quar to r i m i do c uj os úni c ç s
- S o u Íi l h o d e Ma rta ,d e Ben. moveiser am um a v el ha l âm padae um a c â-
- On d e e stá te u P a i ? nnamÍser a,na qual dor m i a um a m ul her .C
Abanou a cabeça e não responder.Jl, Ço'
gar oto a ac or dou,e quandoel a m e v i u, di s *
mo se ignorasse o sentido da palavra"
se com voz entrecortadapela dor:
. * E o n d e e stá tu a mã e , Fuad?
- Que quer de ÍÌìi m , o hom em ? C om -
- Está doente em casa' pr ar um r es tantede v i da par a m anc há- l o
Estremeci ao ouvir cJsa ;'esposta,poús com suas pai x ões ?N ão tem v er gonhade
p e r c e bi i me d i a ta me n teq u e a m ãe doer r te pr ocur arum a m ul herdoenteque s o es per a
e r a a q u e l a me sma N 4 a rtad e quem ouvina
a m or te?
o corneço da historia ern Ben' Aquela rne'
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:ìas: "Marta morreu". e não acrescentg
Aproximei-me, e dissecom uma emoção
nada.
que desejavaÍosse maniÍestanas minhas
Tom ou as m ãoz i nhasdo fi l ho e as bei -
palavras:
- Não tenhas medo de mim, o Marta. iou com ar dor , e c onti nuouentr e s ol uç os :
- O r nundool har á par a m eu fi l ho c om
Nãovim aquicomoum animalÍaminto,mas
desdém e dirá: "É o Íruto do pecado, o fi-
como um homemcastigado.Sou um liba-
lho de Marta a prostituta,o filho da vergo-
nês da montanhaque vivi certotempo na'
nha." Por que os hom ens s ão c egos e i g-
quelesvales e povoadosvizinhosdos Ce-
nor ante s -N ão c om pr eendemque s ua m ãe
dros.
purificou sua infância com sofrimentos e
Comoveu-seao ouvir minhas palavras,
lágrimas, e resgatou sua vida pela priva-
e com umavoz ondese misturavam a ago'
nia,a súplicae a dor, disse: ção e a i nfel i c i dade.Vou m or r er , dei x an-
do-o sozinhoentre os meninosdas ruas. Se
- Veio com comPaixão.Possa o céu
por mim.E melhor,contudo,que ele sobreviver,talvez ajude o céu a casti-
pagar-lhe
gar aquel eque foi c r i m i nos opar a c om s ua
se vá antesque alguémo veia nestelugar
mãe e para com ele; e se morrer,encontrar-
de perdição.Sua piedadenão rnedevolve-
me-á esperandopor ele lá onde estão a luz
rá a'inocênoiae não lavarámeuspecados
e a paz.
e não afastaráa mão da morteprestesa se
me baniu, Retr u quei :
abatersobremìm.A Hunranidade
apê^
se o vir aqui.Peço-lhe, - Não, Marta, não és impura, embora a
e o condenará
vida te tivesse entregue às mãos dos im-
nâs, que não mencionemeu nome naque-
puros. As manchas do corpo não atíngem
les valessagrados.Ou,se o fizer,digaape-
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a a l ma i ma cu l a d a e, a n e ve am ontoadanão Er a a pr i m ei r a v ez que al guém bei j av a a
rnataas sementesvivas"Estavida é uma ei- pohr e o,* fãabandonadaque eu s em pr efo-
ra de provaçõesonde os feixes das almas r a. . L ev ou- m e par a um a c as a i s ol ada.
s ã o de b u l h a d o sa n te s q u e dêem sua Ço- Deu-rnevestidosbonitos e perÍumese pra-
l h e i ta :e i n fe l i ze sd a s e sp i gasabandonadas tos r efinados .. . F eztudo i s s o c om um s or -
f o r a d a e i ra ,'p o i s a s Ío rmigas da ter r a as r iso qu e es c ondl a s uas i ntenç õesm al do-
carregaráoe as aves do céu as apanharão, sâs. . D epoi s ,s ati s Íezs eus apeti tesc om
e e l a s n ã o e n tra rã on o ca mpo do Senhor ' r neLx cor po e s obr ec ar r egour ni nhaal m a dç
Foste ultrajada,e teul carrâsco é filho dos ver gon ha,e r ne abandonou,dei x ando nas
p a l á ci o s, d o n o d e u ma gr ande Íor tuna, minhas entr am hasum a c ham a v i v a que s e
m a s d e u ma a l ma p e q u e nina.Ës vítima de nutr iu de m i m n'ìes m ae s ai u par a es te m un-
u m a i n j u sti ça .Ma s é rn e l horser vítima do do entr e l am entose gem i dos .. " N aquel a
q u e a u to r d a i n j u stl ça .Ë s um a flor pisada casa isol ada,abandonou- m eo ç r i r ni nos o,
p e l o a n i ma l q u e so b re vi veno homem. . " com meu fi Ihc , s em r ec ur s ose s em apoi o.
C o n so l a -te .É me l h o r se r a Ílor pisada do Quando os seLrsan'ligossouberam da mi-
q u e o p é q u e p i sa a fl o r. nha infel i ç i dade,v i er am p!'oc ur ar - m e
- S i m, so u víti rn a d e um a gr ande in- simples m ente par a c om pr ar m eu c or po
j u s ti ça ." . E sta vase n ta d ajunto àquelaÍon- cor n se u di nhei r o." .
t e q u a n d oe l e p a sso u" . . Falou- mecom do- Depoísde um a paus a,ol hou par a as al -
ç u r a. . . D i sse -meq u e e u er a bonita,e que tur as e di s s e c om s eu úl ti m o s us pi r o:
e l e me a ma va e n ã o me abandonar iaia- - - ó j us ti ç a i nv i s ív el ,que m or as atr ás
m a i s. . . C u rvo u -seso b re m im e nr e beijou dessas aparências terríveis, ó Ìu qLle ou-

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ves as lamentações da minha alrna defi-
n h a nte ,a ti p e ço , u n i ca menteem ti cohfio"
T e m p e n a d e mi m. C o m tua m ão dir eita,
p r o t ej ee g u i a me u Íi l h o ,e c om tua mão es-
q u e r d a ,re ce b e mi n h a a l ma. . . Padr e nos-
s o q u e e stá s n o cé u . . . Santificadoseja
t e u n o me . . . Qu e ve n h a teu r eino' , Que
A CINZA
seja Íeita tua vontade na terra comCI " nc
c é u . . " P e rd o a -n o s n o ssos pecados. . -" DOS SECULOS
3. E O FOGO ETERNO
Q ua n d oro mp e ua a u ro ra,puser amo cor -
p o de Ma rta ,d e B e n , n u m caixão bar ato,e
dois mendigos carregaram-nae erìterra-
ram-na nurn campo abandonado,distante
Ó alma, quandoo ignorantediz:
da cidade, pois os padres recusaram-sea
"A alma desaparececom o corpo..
rezar sobre os seus restos e proibiram que E o que se vai não volta mais;"
seus ossos descansassemno cemitérioon- Dize-lheque as flores também passanl,
d e o cru ci fi xove l a so b re os tumulos'E so Mas as sementes Permanecem.
duas pessoasacompanharam-naaté a sua Assim é com a essênciada vida.
ú l t i m a mo ra d a : o se u fi l ho e um m oço a Gibran
quem a vida havia ensìnadoa connpaixão"

22
:

.tfl


"{16A.C.}
{No Outosnodo Anso

A Nol r E tr or - r r xae .qur etude,e a v i da


par ou na C fi dadedo Sc ì u, ( ,J r naa ur YÌa, as
tarnpadasfonann-se apagando nas residên-
cias es pal hadasao r edor dos tem pl os gi -
gantesc osqLi er epous ar ndes de há s ec ul os
o ol i v el r ase C os l our os .D epc i s ,
no n- neidas
levar-ltou-se a lua e rrerteuseus raios sobre
a hr anc ur a das c ol ur tas de m ár m or e, gi -
gantes quË l /el ar i 'ì,no s r l ênc i o da noi te.
snbr e os al tar esdos deus es "e c ontem pl am
corn oi'gull^noas tqlrres dc il.-íbano sobre as
colinas distan"ltes

* nflalbecl';, ;l r f,Ì{rrtÌ;lrl f.{y'd, ,;r. í? citl,ír.cle d'e Êaui, o deu::


río ,S'ol.

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Naquelahora cheia de magia' quando dios dos médicos e vãs as implorações
as almas dos que dormemse unem aos dos sacerdotes. Não resta senão apelar
sonhosdo infinito,Nassan,filho do Sacer- par a teu nom e s agr ado.Ouv e m i nhas s ú-
dote Ahiram, chegou ao temPlo de As- plicas, olha para o esmagamentodo rneu
tarté*, carregandouma tocha' Com mãos coração, e deixa ao meu lado a metade da
trêmulas,acendeuas lâmpadase pôs Íogo r ninha a l m a, par a que c om par ti l hem osos
aos incensórios.E os perÍumesda mirra prazeresdo amor e a beleza da juventude,
e do,incensosubirame estenderamsobre pois ambos são reflexos de ti mesma e
a estátuada deusaum véu imaterial'simi- cantam a tua gl or i a.
lar ao véu que envolveo coraçãohuma- "Destas profundezas, apelo para ti, ó
no. Aioelhou-se,depois,peranteo altar cie Astarté venerada, apelo para tua ternura.
os
ébano incrustadode ouro e levantou Ouve-me, â mim, teu escravo Nassan, Íi-
o
braçose os olhos para as alturas'Com lho do s ac er dote Ahi r am que c ons agr ou
rostocobertode lágrimas,e com uma voz sua vida ao serviço de teu altar. Amei uma
"Pie-
entrecortadapelossuspiros,bradou: jovem entre as jovens e escolhi-apor com-
dade, ó Poderosa Astarté, ó deusa do panheira. Mas os gênios nos invejaram e
amor e da beleza!Tem Pena de mim e insuflar amno s eu c or po del i c ado os ger -
aÍastaa morte da bem-amadaque escolhi mes de uma doença estranha,e enviaram
por tua vontade' - . Vãostêm sido os remé- o mensageiroda morte para arrebatá-la.E
ele está, agora mesmo,ao lado da sua ca-
n Era 7tÍr'a ilos ileusas pteìIitetos dos--Ienicios que i'''s
Dízif,ït i(la ma, rugindo como um tigre faminto, esten*
adorat)aÌn enl Tfio, iiit'on, BiOtos e Boatbeck' Q*
que ocenile a chamo-d'a iiao u oelo sobre Q' iurellttld?' dendo sobre ela suas asas negras, amea-
o n'mne ite AÍrotlite'-íIeusa daotelrza
àrãgo, o aìIotaram sob
ihe Vênus
e çIo dmor, e os romalìQÍ sob o nottlc
27
26
servos e aproximou-sedele respeitosa-
garras" 'rnente,e murnìuroL!ao seu ouvidg:'oMeu
çando-a corn suas
"P o r i sto , vi m a ti , h umilde' solícito' " Senhor,vossaamadaabriu os olhose vos
flor que chamoucom urgência.Vim avisar-vos."
Ap i e d a -ted e mi m e p ro te g e- a'ur na
verão da vi- Levantou-seNassane saiu depressa,se-
não experimentoua beleza do
d a , u rn p á ssa roq u e a i n d a n ão
ter m inousuâ guido pelo servo.Quandochegoujunto à
Salva- apar a doente,inclinou-sesobre ela e tomou-lhe
c a n ç ã oà a u ro rad a j u ve n tude'
e a a mão frágil, e beijou-a repetidasvezes
que voltemos a entoar tuas cançÕes
sacr lfícios cornose quisesseinsuÍlarnelavida da sua
g l o r ifi ca rte u n o me ,e ã o fer ecer
azeite per- própriavida. E ela virou para ele a cabe-
em teu altar, com vinho velho e
templos ça afundadaentre os travesseiros, e seus
f u m a d o ,e a co b ri r o ch ã o de teus
o deusa tábiosesboçaramum sorrisoque era o úl-
com rosas e iasmins' Salva-nos'
vençâ de seu corpomeigo,a úl-
d o s m i l a g re s,e fa ze co m q ue o amor timo movimento
am or ' "
â mo rte , o d e u sa d a mo r te e do tima luz de sua almano crepúsculo, o últi-
ern sl- mo adeusde"seu coraçãoprestesa pãrar
Permaneceuo lovern um minuto
e sus- para sempre.
lêncio,vertendost'rador em lágrimas
m im!
p i r os. D e p o i s, a cre sce n tou:"A' i de Depois, disse numa voz entrecortada:
vener ada "Os deusesestão-rnechamândo,o noivo
M e u s so n h o s e stã o p e rd idos' ó
minhas da minhaalma.E a morteestá chegando
Astarté, Íneu ÇCIraçãoestá morto'
l á g ri ma sq u e i rn a mr-me o s olhos' Ressusçl- para me separarde ti. Não te desesperes,
r nr - pois a vontadedos deusesé sagradae os
t a - m e p e l a tu a b o n d a d e ,e Euar da- m e
n h a a ma d a ." decretos da morte são iustos. Vou-me,
se'"ls
Entrou, então, no templo um dos

28
ouandoas taças do amor e da juventude çar entreos abismosda vida e da morte.
estãoainda cheiasem nossasmãos,e os Na quietudedaquelanoite,tremeramas
caminhosda vida se estendemdiante de pálpebrasdos que dormiam,e gemeua al-
nós.Vou-me,ó bem-amado, para o mundo ma das mulheres,e as criançassentiram
dos espíritos,mas voltarei a este mundo pavor;pois ressoavamnas trevasos gritos
porquea poderosaAstartédevolvea alma desesperados vindosdo paláciodo sacer-
dos enamoradosque partemantes de ter dote de Astarté.
gozadodos prazeresdo amor e da gloria . Quandorompeuo dia, acorreramos vi-
da juventude.Haveráoutro encontroentre zinhospara consolarNassane ampará-lo,
nós.ó Nassan,e beberemosjuntoso orva- mas não o encontraram.
lho da auroraem coposde narcisoe rego- Dias depois, uma caravanavinda do
zijar-nos-emoscCImos pássarosdos cam- * Oriente contou haver visto NassaneÉran-
pos,à luz do sol. Até à vista,meu amor!" do nos desertosdistantes,movendo-sesem
Sua voz sumiu,mas seus lábios conti- objetivocom as gazelas.
nuarama estremecercomo uma Ílor mur-
cha ao sopro dos zéfirosdo amanhecer' Passaram-se os séculos.As pegadasde
Quando,porém,Nassanlhe tocou a boca cada geração destruiamas pegadas das
com seus lábios,achou-ageladacomo a gerações anteriores,Os deuses antiEos
neve,e sentiú-thea alma doloridaesvoa- abandonaramo país. Outros deuseslhes
-- sucederam.Os majestosostemplosda Ci-
r ,-* "Estot)e's mortos, e Ele aos ressuscatou;
rnorrer d'e nooo, e oos tessüscítorá' outra
, tor-ooi'a -a'oÍLé'.
oez * dadedo Sol foramdemolidos.Os belospa-
o Buda: "Estooatnos otuteim nes"
e'a Ete üalta,reis.'' É dis.se
olrtrd's oezes até fácios converteram-seem po. Os jardins
te ,nund,o e hoie uottarnos, e tsoltoremos
qr,,e seiamos pe-rleitos coÍlo os ileuses'"

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verdejantessecaram.Os campos férteis se À mei a- noi te,quando o c éu j á hav i a l an-
t r a n s fo rma râ m e m d e se rto. Subsistir am çado as sementesdo amanhã nas trevas,
apenas as ruÍnas gigantescas,como som- as pálpebras de Bala se cansaram dos
b r a s d o g l o ri o so p a ssa d o . fantasm asque v i am ac or dadas .l nc l i nou-
M a s o s sé cu l o s q u e a n i quilamas r eali- se sobre seu braço, e o sono aproximou-se
zaçõesdo homem nada podem contra setis e tocou-lhe os sentidos corn as pontas de
sonhos e seus sentimentos.Estes sbbre- seus dedos. Libertando-seentão de seu Eu
vivem com o espírito poderoso e eterno, adquiri do,r eenc Ç ntr ou- s ceom s eu Eu i n-
embora desapareçam aparentemente,co- terior, sensívela sonhos superioresàs leis
mo o sol desaparecede noite e a lua, de do homem e ao seu ensino. E essa v[são
dia. ampliou os campos em volta dele, e reve-
lou- lheos es c onder i j osdos s egr edos e ; s ua
2. alma se isolou da procissão do ternpo e
(Na primavera de 1890 D.C.) ergueu-se,sozinha,ccrrÌ pensamentoshar-
monios ose i déi asantec i padasE, . pel a pr í-
A lu z j á se Ío i . O so l a caba de r ecolher meir av ez na s ua ex i s tênc i a.v i s l um br ouas
s e u m a n to d a s p l a n íci e sde Baalbeck.O causas da fom e es pi r i tual que per s egui a
pastor ruma para as ruínas do templo, se- sua juv entude:um a fom e Íei ta da doç ur a
.da vida e da s ua am ar gur a,dos gem i dos
g u i d o p o r se u re b a n h o ,e l á Se senta entr e
as colunas desnudas.As oveliìas se reco- do desejoe da paz da satisfação,e que não
l h e m à su a vo l ta ,p ro o u ra ndosegur ançanâ encontr aal i m entoadequadonem nas gl o-
m e l od i ad e su a fl a u ta . r ias do m undo nem nas r eal i z aç õesdos
século s .
33
32
O pastor sentiu uma emoção diÍerente dessascolunaseretas,e de lâmpadase in-
subir das ruínasdo templo.Era uma emo- censóriosde prata em volta da estátuade
ção delicadae misteriosa, que libertaa al- uma deusavenerada,e de sacerdotesres-
ma comoa brasalibertao incenso,ou co- peitososfazendooferendasnum altar de
mo os dedos,tocando as cordas,libertam ébano incrustadode ouro. Lembrou-sede
a rnelodia.E era uma emoção nova, nas- iovénstocandonastrombetase nos cÍmba.
cida de nada e de tudo, mas que cresceu los e de jovenscantandopara a deusado
e evoluiuaté abranger-lhe todo o Eu ima- amor e da beleza,Viu tudo,istoem ima-
terial. E toda essa emoção renovadorase gens nítidase sentiuvibraçõesincompre-
formou num minuto de sono, como de ensíveisagitaremas profundezassilencio-
um só minutopodemsurgiras imagensde sas. Mas a lembrançanão nos devolvese-
mil gerações,e como naçõesinteirasdes- não os reÍlexosde seres que vimos em
cendemde urnasó semente. algumade nossasvidaspassadase senão
E contemplando as ruínasdo templo,seu o eco de vozesquejá ouvimos.Querelação
sono Íoi substituídopor um despertares- pode existir enti"eessas recordaçõesmis-
piritual. Lá estavamos vestígiosmaltrata- teriosase o passadode um moçoque nas-
dos do altar e as colunasderrubadase as ceu entre horizontesestreitose passousua
paredesdesmoronantes. Mas Balaviu mui- juventudea zelar por um rebanhode ove-
to alémdo presente.
Seu coraçãobatiacom lhas nos prados?
violência.Como um cego que recuperaa Levãntou-see caminhoupor entre'as
vista,Íoi levadopor ondasde pensamentos pedras desmoronadas, enquantosuas re-
para um passado distante, e lembrou-se cordaçõeslongínquasretiravamos veu

34
Sentiu um amor poderosoenvolver-lhe
o e s q u e ci me n tod a su a i ma gínaçãocom o o coração e dominar-lhea alma, e sepa-
a s m ã o s re ti ra ma te i a d e a ranhade um es- rá-lo do mundodas medidase das quan-
p e l h o . Qu a n d o a ti n g i u o co ração do tem - tidades- aqueleamorque falaquando:s
plo, deteve-se,como se houvesseno solo línguasda vida se calam,e que se ergue
u m í m ã q u e l h e i mo b i l i za sseos pés. Olhou como uma colunade luz quandoas trevas
e v i u u ma e stá tu aj o g a d an o chão.Ajoelhou- escondemtudo.E esseamorencheua al-
se ao seu lado sem saber o que fazia' As ma de Bala com sentimentossuaves e
emoções jorravam de seu ser como CIsan- amargos,como o sol faz cresceras flores
gue jorra das feridas graves' e as batftlas e os espinhosao.ladouns dos outros.
de seu coração se aceleravam e se atra- Masque era esseamor?De ondevinha?
s a v a m co mo o n d a s d o ma r que sobem e Quequeriade um jovemrecolhidocom seu
d e s c e m. B a i xo u o o l h a r, e gemeu, e cho- rebanhoentreaquelascolunasem ruínas?
r o u , po rq u e se n ti a u m i so l am entopenoso Que era esse vinho vertido num coração
q u e se p a ra vasu a a l ma d e um a alma for - que nunca havia sido embriagadopelo
mosa que estava ao seu lado desde antes olhar das moças? Que eram essas can-
mesm(ìque ele viesse a esta vida.
ções celestiaisacariciandoo ouvidode um
Tinha a sensação de ser apenas uma pastorque nuncahaviasido embaladopor
c e n t e l h a q u e se ti n h a se p ar ado de Deus melodiasÍemininas?E que queriam de
a n t e s d o co me ço d o s te mPos. Bala,desviadodo mundopor suasovelhas
' Sentiu o bater de asas suaves a esvoa-
e sua flauta?
çarem entre seu peito em fogo e seu cére- O pastorfechouos olhosem lágrlmase
b r o e m e b u l i çã o "
37
JO
estendeuas rnãoscomo um mendigo,e que vê e ouveos segredosdo invisível? Ou
seus gemidos entrecortadose humildes, fui embriagadopor um vinho e LrmÍiltro,
expressando a queixae o desejo,se trans- que me impedemde distinguiras verdades
formaramem palavrasquaseinaudíveis: racionais?
'''Quemés tu, que estástão pertode meu Calou-seum minuto.Seus sentimentos
coração,tão longedos meusolhos?.Sepa- se avolumavam, e sua almase agitava.Dis-
ras meu Eu do meu próprioEu, e atas meu se: "ó tu, que aluz revelae aproxima,
presentea temposremotose esquecidos. mas
que a noiteescondee aÍasta,o espíritofor-
Seráso fantasmade uma fada que veio do moso que pairasno espaçodos meusso_
mundoda eternidademostrar-mequão vã nhos, despertaste- em mim sentimentos
é a vida e quão Íracosos homens?Ou se- adormecidoscomo sementesde floresen_
rás a alma da rainhadas fadas que saiu terradassob as camadasda neve,e pas_
das fendas da terra para me enÍeitiçara saste como o zétiro carregadodo perfu_
mente e ridicularizar-me perante minha me dos campose tocastemeus sentidos,
tribo?Quemés tu? E que é essaÍascina- e eles vibrarame estremeceramcomo as
ção que me matae me ressuscitaao mes- Íolh,asdas árvores!Mostra-tea mim,se es_
mo tempo?E que são essasemoçõesque tiveresvestidade matéria,ou mandao so-
enchem meu coração de luz e Íogo? E no fechar rninhaspálpebraspara que te
quemsou eu? E que é esseEu novoque vejano meusonho,se estiveresliberadada
chamoEu, mas que me é estranho?Terei terra. Deixa-metocar-te. Deixa-me ouvir
absorvidoa água da vida com as vibra- tua voz. Rasgaesse véu que nos separa,
ções do éter e me tornadoassimum anjò e destróiesse corpo que escondeminha
38
3g
divindade,e dá-me asas para que voe atrás cCImos or r i o i nfel i zquando depar a no s o-
d e t i a o s p a l co s d o é te r su p e r ior ,se Íor lá nho com sua bem-amada.Os pássarosdei-
q u e h a bi ta s,e me a ch a re sd i g no de segulr - xaram seus esconderijos nas fendas da*q
muralhas em ruínas, e começaram a can-
Bala sussurravaao ouvido da noite es- tar , anu nc i andoa c hegadado di a.
sas palavras,como o eco de uma melodia Bala, com a fronte em chamas, desper-
q u e s e mo vi a n o Íu n d o d e seu peito' Ao tou e ol hou pes adam enteem v ol ta de s i .
seu redor, as sombras da noite pareciam Com o Adão, quando D eus l he abr i r a os
evaporaçõessaídas de suas lágrimas' So- olhos, es tr anhav atudo o que v i a. D epoi s ,
bre as paredes dos templos, dançavam chamous uas ov el has ,e el as s e l ev antar am
imagensfeéricas da cor do arco-íris. e segui r am - noaos pr ados v er des .
Assim mesmo, sentia-se feliz nas $uas Bala fi tav a o es paç o l ím pi do.Seus s en-
lágrimas. Procuravaenxergar o que havia timentos se debatiam ante os enigmas da
atrás das Íormas visíveis, através de urn existência,e evocavamas geraçõespassa-
sonho belo e terrível,como um proÍetacon- das e futuras num relance, para, logo em
templa as estrelas do céu na esperança seçjuida,devolver-lhea saudade e o dese-
de ver descer a Profecia' ' , jo. Ach av a- s es epar adoda al m a de s ua al -
m a como o ol ho que não v ê a l uz . E, a c ada
Ap r oxi mo u -sea a u ro ra ,e a quietudees- gemido, destacava-seuma chama de seu
tremeceu à chegada da brisa matinal, e a coração ennfogo.
luz cor de violeta começoua infiltrar-seen- Atíngi u o ar r oi o, c uj o m ur m úr i o r ev el a-
tre as vibrações d-! éter. Sorriu o espaço va os segredos dos campos. Sentou-se à

40 4't
sua margem,sob os salgueiros.Suasove- estranhasque devolviamàs duas almas
lhas se espalharampara pastara erva.Go- lembrançasvagas de uma fonte e árvores
tas do orvalhobrilhavamna brancurade Íguaisàquelafonte e àquelasárvores.Ca_
sua lã. da um olhavao outro com ternurae Íala_
Minutosdepois,sentiuas batidasde seu va-lhesem palavras.
coraçãose precipitareme as vibraçõesde Quando'secompletouo entendimento e
sua alma se tornaremmaisvelozes.Olhou, o conhecimento entresuasalmas,atraves_
inquieto,em volta de si e viu uma jovem sou Balao arroio,atraídopor umaforçase_
sair de entre as árvores ôarregandoum creta,e Aproximou-se da moçae beijou-lhe
os lábios e os olhos sem que ela se mo_
cântarosobre o ombro e aproximar-sede-
vesse,como o perfumedo jasmimse entre_
vagar da Íonte, seus pés desnudoscober-
ga sem resistênciaà brisa que passa.A
tos de rocio.
jovem apenasinclinoua cabeçasobre o
Quandochegouà fontee se inclinoupa-
peitocomoalguémcansadoque encontrou
ra encher o cântaro,olhou para o outro
o repouso,mas seu coraçãoproclamavaa
lado, e seus olhos encontraramos olhos
alegría do despertar.Depois,olhou para
de Bala,o pastor.Com um suspiro,deixou
os olhosem Bala, seucompanheiro com a expressão de quem
cair o cântaroe recuo-u,
perdidq que encontrade re- acha vãs todas as palavras,comparadas
como um ser
pentealguémque lhe é conhecido,Passou- com o s-iìêncio,
a linguagemdas afmas.
se um minutocujos qegundoseram como Caminharamos dois entreos salguei-
luzesque guiavamessesdois coraçõesum ros,.,
dgss entidadesunidasnuma só, dois
parao outro.F, no silõncio,haviamelodias ouvidosatentosà inspiraçãodo amor,duas

42 43
aln'ìasinundadasda gloria da Íelicidade. uma alcova estranha, onde iazia o corpÕ
Atrásdeles,seguiamas ovelhas,apanhan* inanimadode um a for m os a j ov em . Gr i tou,
do ocasionalmente as pontasdé uma hor- aterrorizado. Depois, reabrindo os olhos,
taliçaou de uma flor. Os pássarosvinham viu aquela mesma moça sentadaao seu la-
ao seu encontrode todos os lados' do, os l ábi os s or r i dentesde am or , o ol har
Quandoatingirarna orla do vale, o sol r adiantede v i da. Seu r os to i l um i nou- s e,e
estendiapor cima das colinasseu manto sua al m a v i br ou. Ex pel i u as i m agens da
de ouro.Sentaram-se sobreuma pedra,em aparição e esqueceuo passado e libertou-
volta da qual cresciamas violetas.A jo- se dos prantos . .
vem olhou nos olhos negrosde Bala"O Os dois enamoradosabraçaram-see he-
vento brincavacom seu cabelo,como se ber amo v i nho dos bei j osaté a em br i aguez ,
quisesse beijá-la. Forças desconhecidas e dormirarnenvoltosnos braços um do ou-
puserampalavrasem seus lábios, e ela tro, até que a escuridãose foi e o calor do
disse com doçura: sol os acordou.
- Astartédevolveunossasalmasa esta
vida para que não continuemos privados
dos prazeresdo amore da glÓriada juven-
tude,ó meuamado!
Bala fechouos olhos.A músicadas pa-
lavrasda moçaressuscitou as cenasde urn
sonhoque o haviavisitadomuitasvezes,e
sentiu asas invisíveiso carregarempara

4A 45
JOAO,O LOUCO

"As perseguições não .atingem a alma quando


são ínjustas. Sócrates bebeu venêno com o
sorriso, e Paulo recebeu o apedrejamento
na alegria. É somente a nossa consciência.
que caüsa
quandoculpada,
""ttã,ilfrlicidade."
1"
No vERÃo,
João ia todas as Ína_
nhãs ao c am po, c onduz i ndos eus
boi s e
bezerros,o arado no ombro, atento
ao can_
to do r oux i nol e ao r nur m úr i odas
fol has
nas árvores.
Ao meio dia, sentava_seà margem
do
ar r oio par a c om er s eu far nel , deíx ando
as
sobras sobre a refva para os pássaros
do
cér-r.
A ta r de, quando o poente r ec ol hi a
os
naiosda luz, voltava para Sua modesta
ca_
sa, sobr e um m or r o que dom i na pov oados
e tr igai s ,e c onv er s av a,
tr anqüi l o,c om s eLj s
velhos pai s . Ouv i a- fhesa pal av r âc hei a
da
experiênciados dias,até a chegadado so- te de espíritoe de luz. Era por naturezaca-
no e do descanso. lado e meditativo.Ouviamais do que Íala-
No inverno,reclinava-separa se aque- va. Seusolhoscontemplavam sempreo ho-
cer junto à lareira. Observavaa natureza rizontedistanteonde a aurorase mistura-
atravésda pequenaianela,e meditava'O va ao azul do firmamento.
bramido dos ventos nos vales, as colinas Quandoia à igreja,voltavaentristecido,
recobertasde neve e as árvoresdesfolha- pois as preleçõesque lá ouviaeram diÍe-
das como indigentesdeixados lá Íora à rentesdos ensinamentos que lia no Evan-
mercêdo Írio,Íaziam-norefletirsobrea mu- gelho,e as relaçõesdos crentescom seus
dançadas estações. superioreseram diferentesda vida radian-
Nas noites longas, esperavaque seus te descritapelo Nazareno.
pais fossemdormirpara abrir o armáriode
madeirae dele retirar o Novo Testamento' 2.
Lia à luz de uma pequenalâmpada,obser- Chegoua primavera,e a neve fibertou
vandocautelobamente seupai,que lhe proi- os campose as colinas.O que dela resta-
bira a leitura daquelelivro, pois os sacer- va nas altasmontanhas derretia-se
e corria
dotes proibemaos simplesde coraçãoco- em arroiosnos vafessinuosos,parajuntar-
nheceremdiretamente os ensinamentos de se depois e Íormar rios caudalososque
Jesus,ameaçando-os de excomunhão' proclamavamcom seu Íragor o despertar
Assim passouJoão sua juventudeentre da natureza.As amendoeirase as macieí-
os campos, tranôbordantesde belezase ras cobriram-sede flores. E brotaramas
milagres,e o Livro de Jesus,transbordan- tolhasnos álamose nos salgueiros.
E a rel-

50 51
va e as Ílorestransformaram os pradosem alimentaçãohabitualera o pão amassado
tapetesmulticolcridos. com suor. As inclemências da Quaresma
Cansou-seJoão da lareira e, sabendo não estavâmno seu corpo,mas na sua al-
queseus.bois ansiavam tambémpetaliber- ma, que reviviao dramado Filhodo Ho-
dadedos pastosverdejantes, desatou-ose mem e o Íim da sua vida nestaterra.
conduziu-osaos prados'Levava,escondi- Os pássarosesvoaçavame namoravam
do por baixo de sua roupa,o NovoTesta- em voltade João.As pombas'chegavam em
rnento.Pertodos camposdo Conventodo bandosrápidos.As floresse inclinavamà
Profetalsaías,que se eievacomo uma Íor- passagemcra brisa.João inter.rompia sua
talezapoderosaentreaquelascolinas,dei- leiturapara contemplaras torresdas igre-
xou seus bois espalharem-se para pastar jas espalhadas dos dois ladosdo vale.O
e encostou-se numa rocha,dividindosua badalardos sinos transportava sua alma
menteentre a belezados vales e as pági" atéa Jerusalém antiga,ondeseguiaos pas-
nas do livro que fala do reinodo céu. sos do Mestre,fazendoperguntasaos tran-
Era o dia um dos últimosda Quaresma seuntessobreEle.Respondiam: "Aqui,Ele
e os habitantesdaquelespovoados,que curou o paralítico.
Aqui, devolveua vista
obedeciam à proibiçãode comercarne,es- a um cego.Aqui,colocaramuma coroade
peravam impacientementepela Páscoa' espinhossobre sua cabeça.Nesta praça,
Quantoa João, não fazia diferença,como deteve-separa Íalar em parábolasàs mul-
todosos pobres,entreos dias de abstinên- tidões,e naquelepalácioataram-no contra
eia e os outros,pois a sua vida toda era uma colunae cuspiramna sua face e fla-
umasucessãode cias-deabstinência' Sua gelaram-no. Nestarua, perdoouà prostitu-

52 53
ta; e naquela,caiu ao chão sob o pesoda
sua cruz." QuandoJoão se adiantoupara aproxi-
Durantehoras,João continuoua sofrer mar-sedos bois,o mongeo seguroue gri-
corno Deus-homem, pelo corpo,e a sentir* tou em direçãoao convento:,,Eisaqui o
se gloriÍicadocom ele pelo espírito.Ao pastorcriminoso.Já o prendi."
rneiodia,levantou-se pala reunirseusbois, Mongese noviçosacorreramde todosos
rnasnão os encontrou,e começoua pro- lados,lideradospelo Superior,quç se dís-
curá-los.Quandoatingiuo caminhoque tinguiados demaispela finurade sua rou-
serpenteiaentrêos camposcomoas linhas pa e a gravidadede seu semblante.Cerca-
da mão,viu de longeum homemvestidode ram todos João cornosoldadosimpacien-
preto,em pé no meiodos pomares.Correu tes por acabarcom sua presa.João olhou
até ele e o reconheceupor um dos monges parao PadreSuperiore perguntoucalma-
do cohvento.Cumprimentou-o respeitosa- mente:"Que fiz eu para ser tratadocomo
mentee perguntou-lhe:"Viu por acasobois criminoso, e por que me prenderam?"Res-
caminhando nestesjardins, bom Padre?" $i pondeu o Superiorcom uma Íace dura,
Olhou-oo monge,procurandoesconder cheia de cofera,e com uma voz cortante
sua ira, e respondeuhipocritamente: como uma serra: "Teus bois pastaramo
.* Sim, vi-os.Estãoali. Venhavê-los. trigo do conventoe comeramas ramasno-
João seguiuo mongeaté o conventoe vas de seu vinhedo.prendemos-te porque
viu os bois enclausurados numa cerca, e o pastor é responsávelpelos estragosde
guardadospor outro mongeque, com uma seu rebanho."
vareta,batia nelestodas as vezesque se Disse João em tom conciliador:,,São
mexiam. animaisirracionais,meu padre. E eu sou

54
apenasum pobreque só possuios proprios nialPermitique me vá cornmeusbois.Não
braços e estes bois. Deixai-melevá-lose sejaisduroparacomigo.Sou um pobrecoi-
prometo-vosnunca maià trazê-losa estes tado,e o conventoé rico e poderoso.Per-
prados." doai minha distnaçãoe tende compaixão
Adiantou-seo Superiore, levantandoo da velhicede meu Pai,"
dedo ao céu, disse:"Deusnos encarregoLl Olhou-oo Padree dissecom ironia:"O
de cuidar das terras do seu bem-amado Conventonão te perdoaráo peso de um
lsaías,o Poderoso.Nos as protegemosdia fio de cabelo,ó ignorante,sejaspobre ou
e noitecom todo o nossoempenhoporque rico. E não apelesparaas coisassagradas,
sãosagradas. Comoo fogo,queimamquem pois conheço-lhesos segredose mìsté-
delasse aproximar.Se te recusaresa com- rios melhordo que tu. Se quisereslevar
pensaro conventopelo prejuízo,o pasto teus bois,devesresgatá-lospor três dina-
se converteráem venenono estômagode res, pelo que eles pastaramno campo de
teus bois. Em todo caso, não poderásre- trigo."
cusar,pois manteremos teus bois em nos- DisseJoão com voz sufocante;"Padre,
sa cercaaté que pagueso últimodinarque não possuoum cêntimosequerdostrês di-
deves." nares.Apiedai-vos de mim e da minhapo-
Quandoo Superiorquis retirar-se,.ioão breza." Retrucouo padre, apÓspenteara
o detevee disse com uma voz suplicante barba cerradacom os dedos:"Vai e ven-
e humilde: "Rogo-vos,meu Senhor, Por de partede tua lerra e traze os três dina-
essesdiassagradosquetestemunharam os res. É melhor para ti entrar no céu sem
sofrimentos de Jesuse as lágrimasde Ma- terra, do que provocara ira de lsaÍas,o

56 57
Poderoso,e passar a eternidadeno Íogo se a terra se tivesseelevadosob seuspés,
do inferno." Sacou do Evangelhoque estava no seu
Calou-seJoão um minuto.Mas, de re- bolso,como o soldadosaca de sua arma
pente,seusolhosbrilharam.Seu rostodes- pa!'ase defender,e gritou,dizendo:,,Assim
contraiu-se.A expressãode súplicafoi su- brincaiscom os ensinamentos deste tivro,
'o
plantadapor uma expressãode Íorça e de- hipocritas!Assim utilizaiso que há de
terminação.Disse numa voz em que se ,maissagradona vida paraestenderos ma-
misturavamo timbre do conhecimento les da vida.Ai de vós quandoo Filhodo
eo
vigor da juventude:"Venderáo pobresua Homemvoltara esta terra.
terra,que lhe dá o pão e a vida,paraacres- "Destruirávossos conventose lançará
centar seu preço aos cofres do convento suas pedras neste vale, e porá fogo nos
repletosde ouro e prata?E justo que o po- vossosaltarese estátuas!Ai de vós quan-
bre se torne mais pobre e que o desnudo do o sanguede Jesuse as lágrimasde sua
morrade Íome para que lsaías,o podero- santa mãe se transÍormaremem torrente
so, perdoe o delito de animaisesfomea- que vos arrasteao abismo!Ai de vós que
dos?" Respondeuo Superiorcom sereno vos curvaisdiantedos ídolosde vossaco-
orgulho:"Assimfalou JesusCristo:euern biça;que escondeissob roupanegraa ne-
tem recebemais e quem não tem perdeo grurade vossasalmas;que oraiscom vos-
que tiver." sos lábios,enquantoque vossoscorações
Ao ouviressaspalavras,João sentiuseu são mais duros gue as rochas;que vos
coraçãorebelar-seno seu peito e sua alma ajoelhaiscom humildadeao pé dos altares,
crescer,e sua estaturase agigantar,como enquantoque vossas almas se rebelam

58
T
I

aontraDeus.Trouxestes-me por uma cila- plantastes.Nuncavisitaisum doente,nun"


da a estelugarrepletode vossospecados, ca vos preocupaiscom um prisioneiro,
e prendestes-me como um criminosopor nunca alimentaisum Íaminto,nunca aco-
um pouco de caplm que o sol faz crescêr lheis um errante,nuncaconsolaisum Íla-
paramim comoparavós. E quandovos rÕ- gelado.Ao contrário,estendeisa mão para
guei em nome de Jesus,ristes de mim o que a viúvaeconomizou, e parao gue o
como se fosse um demente.Tomaie exa- lavradorpoupou para sua velhice."
rninaieste livro e mostrai-meonde Jesus Calou-seJoão um momento,e depois
não foi compassivo. Lede este dramadivi- disse com altiveze calma:"Vós sois mui-
no,e dizei-mequandoJesusdeixoude agir tos, e eu sou sozinho.Fazeide mim o que
com clemência: no SeuSermãoda Monta- quiserdes.Os lobos devorama ovelhana
nha,ou na Praçado Mercado,quandode- escuridãoda noite, mas os vestígiosdo
fendeua prostitutainfelizcontraseusper- seu sanguepermanecem até que cheguea
seguidores, ou no Golgota,quandoabriu aurorae se levanteo sol."
seus braçosna cruz para abraçartoda a ir .Joãofalavacom uma Íorça
I
sobrenatural
raça humana?Olhai,ó impiedosos, parã que paralisavaos monges,emboraprovo-
I
estas cidadese aldeiaspobres,onde os j
casseneleso ódio e o deseiode vingança"
enfermose os pecadorese os mendigose ri,
E, quaisüorvosfamintos,tremiamde raiva
os orfãose as viúvase os sem-largemem { e rangiamos dentesna expectativade um
e sofrem,sem encontraramparo,enquanto
r sinal do seu Superiorpara dilaceraro re*
I

que vos gozaisaqui o repousoda pregui- ú


4
beldee esmagá-lo sob os pés.QuandoJoão
I
ça,e consumisos frutosde jardinsque não se calou,como amainaa tempestadeapós

60 61
abateros ramossoberbose as plantasse- tos estavamaconchegados, felizes,junto
cas, gritou o Superior,dizendo:"Prendei ao Nazareno.Poís as perseguiçõesnão
este criminosodesequilibrado, tirai-lheo atingema alma quando são injustas.Só-
l-ivro das mãos e levai-oa uma das cetas crates bebeu o veneno com o sorriso,e
escurasdo convento.Pois quem blasfema Paulorecebeuo apedrejamento na alegria.
contraos escofhidosde Deusnão seráper- É somentea nossa,consciência,quando,
doado nem nestavida nem na outra." culpada,que causa nossa inÍelícidade.
Os mongessaltaramsobre João como
ferassobreuma presa,e levaram-noà mas- 3.
morra, agredindo-ono caminho, até â Quandoa mãe de João soube o que
exaustão,com murrose pontapés. aconteceraa seu filho único, acorreuao
Na sua cela escura,contudo,João não convento,apoiada na sua bengala,e se
se sentiaum vencido,masum vitoriosoque jogouaos pés do Superior,chorandoe ro-
o inimigo conseguiraapenas aprisionar" gando-lheque perdoassea insensatezdo
Olhou atravésda frestapara o vale cheio Íilho.Respondeuo Superior,com os olhos
de sol, e sua face se iluminou.Sentiuum no céu e o tom de quem está acima das
júbilo na alma e uma segurançadeliciosa, fraquezashumanas:"Nós perdoamosa
em todo o ser.A cela não encarcerava se* insensatezde seufilhoe esquecemos a sua
não o seu corpo.Sua alma pairava,livre, demência;mas o conventotem direitossa-
por cÍma das.colinase dos prados.E os gradosque não nos é dado perdoar.Nós
maus tratos dos mongeshaviamatingido aceitamoscom humildadeos errosdos ho-
somenteos seusmúsculos.Seussentimen* mens,mas lsaías,o Poderoso,não perdoa

62 OJ
aos que danificanrseusvinhedose trigais. vou os bois as suasmanjedouras e sentou-
Olhou-oa mãe atravésdas lágrimasqLle se com serenidadeà janelaa contemplar
caíam sobre suas faces enrugadaspela o desaparecimento da luz. E ouviuseu pai
velhice.Depois,retirouum colar de prata sussurrarà sua mãe: "Quantasvezes,ó
que lhe envolviao pescoçoe depositou-o Sara,tu me contradisseste quandote aÍir-
nas mãosdo Superior,dizendo:"Não pos- mava que nosso filho estaüatocado pela
suo senãoeste colar,ó Padre.Foi um pre- loucura.Agoravejo*te,enfim,convencida,
sentede minhamãequandome casei.Que depoisque seu comportamento provoumi-
CIconventoo aceiteem compensação pe- nhas palavras,e o reverendoPadreSupe-
los delitosdo meu filho." rior te dissehoje o que venhodizendohá
O Superiorapanhouo colare colocou-c anos."
no bolso,dizendoa pobremulherque lhe Joãocontinuou a olharparao poente,on-
beijavaas mãosde gratidão:"Ai destage- de as nuvensespessaseramcoloridaspelo
ração!Refletem-se nelaas advertências do sol.
Livro, mas invertidas:agora são os filhos Chegoua Páscoa.E a abstinência cedeu
que comema uva verdee os pais que têm lugarà gula.
os dentesembotados. Vai, ó mulhervirtuo- Na cidadede Becharre,haviamterrnina-
sa, e reza por teu filho demente,a fim de do de construira nova igreja,que se er-
q u e o céuoc ure." guia entreas casascomo o paláciode um
Saiu João de seu cárcere e caminhoi.r emir entre os casebresde seus súditos.
com vagar ao lado da mãe, que os anos O povo esperavaa chegadade um bis-
curvavamsobresua bengala.Em casa,le- po para consagrá-la.rAo vê-lochegar,toda

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a populaçãosaiu às ruas em sua homena- vestimentasde seda bordadae utensílios


geÍn. As aclamaçõesdos jovens,as invo- de ouro e incensóriosde prata e pedras
caçõesdos padres,os sons dos címbalos, preciosas- o, de outro lado, massasde
o repicar dos sinos misturavam-se numa pobresmaltrapilhos, que tinhamvindodas
sinfoniaalegre.Quandodesceudo seu ca- aldeiaspróximasparaassistirao esplendôr
valo ajaezadocom sela de seda e estribos da Páscoae à consagração da novaigreja.
de prata, os chefes das famíliaso sauda- De um lAdo,uma opulênciavestidade
ram com discursose poemas elogiosos" seda e pedras preciosas;de outro lado,
Na novaigreja,paramentou-se com as ves- uma pobrezaenvoltaem Íarrapos.
tes episcopaisdouradas,colocou a tiara Lá, uma minoria poderosae rica para
incrustadade pedraspreciosas,e segurou quem a religiãosão salmodiase canìares.
o cetro gravado com artísticosdesenhos Aqui,massashumanashumildese despre-
de ouro e prata.Conduziuentão a procis- zadasque se regozijamem silênciocom a
são ao redôrda igreja,cantandoe salmo- ressurreição de Cristoe oramna aÍliçãode
diandocom os sacerdotes,envoltono per- seuscoraçõesoprimidos
fume do incenso,iluminadopelasvelas e Lá, uma tiraniaimpiedosa. E aqui,uma
as lâmpadasconduzidaspelos Íiéis. submissãocega. Qual delas deu origem
Naquelahora, João estavade pé entre à outra?Seráa tiraniauma árvorepossan-
um grupode pastorese agricultoresnuma te que não crescesenãonasterrasbaixas,i
elevaçãopróxima à igreja, a contemplar Ou seráa submissãoum campoabandona-
com olhostristesessascenase a lamentar do, onde só crescemespinheiros?
amargamente esteespetáculo:de um lado, Tais eram as meditaçõese interroga-

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ções que ocupavam a mente de João. Ti- olhos dos homens,Teu hálitofoi dissipa-
nha os braços apertados contra seu peito do pelosventosdo deserto.E este campo
c o m o p a ra i mp e d i -l od e se a br ir , tr ansfor - que santificastecom Tuas pegadastrans-
m a n d o - sen u ma b o ca e n u m c lam or . formou-seem campo de batalhaonde o
MaÍ a cerimônia havia acabado, porérn, tacão dos fortesesmagaos decaídose as
e o povo começado a dispersar-se,João 'mãosdos opressoresestrangulama alma
sentiu â presença de um espíritogue o en- dos fracos.. . Os gritosdos oprimidosse
carregavade falar por ele. Era um impulso efevam das extremidadesdestas trevas"
misterioso gue o obrigava a agir âpesâr mas não chegamaos que ocupamos tro-
d e s i me smo . A d i a n to u -se ,levantou os nos em Teu nome.E os lamentosdos de-
o l h o s a o cé u , e d i sse n u ma voz poder osa sesperadosnão penetramo ouvido dos
q u e d o mi n a vao s p re se n te se os com pelia que em Teu nome pregamdos púlpitos.
a ouvir: Poisas.ovelhas que enviasteparasuavizar
"Ó Jesus, que estás sentado em meio à a vidaviraramferas.E a palavrade luz que
luz celestial, olha para esta terra que CIn- trouxestedo coraçãode Deusdesapareceu
tem visitaste. Olha! Os espinheiros suÍo- no meiode tantoslivros;e levantou-se, no
cam os ramalhetesde Ílores que ontem re- seu lugar,um alaridoque abalaas almas.
gaste com o suor de Tua fronte. Olha, o "Edificaramigrejaspara gloriÍicarseus
bom pastor. As garras dos lobos rasgaram própriosnomese cobriramas paredesde
o corpo do cordeiro Írágil que carregaste seda e ouro, enquanto"deixavam nus os
no colo. Teu ,sangue generoso se evapo- corposde Teus eleitos,os pobres.Enche-
rou da terra, Tuas lágrimas secaram nos ram o espaçocom o perfumedo incenso

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e a luz das lâmpadas,mas abandonaram aos .homensde boa vontade'.Mas gloriÍi-


os que crêem em Ti. Sobrecarregaram o ca-seTeu pai corn palavraspronunciadas
ventocom cânticose salmos,mas perma- por lábioscriminosos e línguasinsinceras?
necemsurdosao apelodos orfãose ao ge- E haverápaz na terra enquantoos oprirni-
mido das viúvas.Volta,ó Jesus imortal,e dos se esgotarnpara alimentaros opres-
expulsados Teus templosos vendedores sores? E haveráalegria enquantoos de-
de religião;pois transformaram-nos em serdadosconsiderama morte conro uma
antrosondeimperamos répteisda hipocri- salvação?
sia e da astúcia.Vem pedir contasa esses "Onde está a paz,ó Nazarenocheio de
novoscésares,que extorquiramdo povo o ternura?Estaráno olhar de criançaspro-
que lhespertencee o quepertencea Deus, curandoem vão o leite nos seiosde mães
Vem examinara vinhaque plantastecom esfomeadas, em casebresescurose frios?
ïua propriamão; suas raízesforam roídas Ou estaráno corpo dos necessitados que
pelosvermes,e seusÍrutosforamesmaga- almejamem vão o alimentoque os mon-
dos sob os pés dos aventureiros. Os que ges do Conventojogam aos seus gordos
encarregaste de implantara paz dividiram- porcos?Ondeestáa alegria,ó Jesuscheio
se entresi e brigaram;e as vítimassão nos- de luz? Estarána capacidadedo emir de
sas almas desamparadas e nossoscorã* comprara forçados homense a honradas
çõ e s e smagados ... mulheres,enquantopermanecemoscala-
"Nassuasfestase celebrações têm a au- dos, escravosna alma e no corpo?Ou es-
dáciade levantara voz e dizer:'Gloriaa tará em nossos gritos de rebelião,logo
Deusnas alturas,e paz e alegriana terra abafadospelas armas dos mercenários?

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À
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Estendea mão,o Jesuspoderoso,e ajuda- r avam: " Senti m os 'um aÍor ç a m ági c a per -
nos contrao punhoÍérreodo opressor;ou eor r e r nos s o c or po quando o ouv i m os :el e
fala com um a for ç a es tr anha,C ontudo,os
mandaa mortenos levaraos cemitérioson-
à sombrada Tua cruz, superiores sabem das nossas necessida-
de descansaremos
na esperança da Tua volta. Nossavida as- des mai s do que nós . E um er r o duv i dar
deles .'l
sim não é vida.É uma escuridãopovoada
por fantasmastemíveisque se sucedem Em m ei o a es s as v oz es , apr ox i m ou- s e
um do s s ac er dotese pr endeuJ oão e o en-
uns aos outros;é um vale onde pulularn
Ó Jesus,dessas tr ego u à pol íc i a,e a pol íc i a o entr egouao
as Íeras.Compadece-Te,
gover nadorM . as el e r ec us ou- s ea dar qual -
multidõesreunidasem Teu nome no dia
quer res pos taa s eus i nqui s i dor esl ,em br an-
da Tua ressurreição e salva-asde sua pro-
do:se de que a ati tude de J es us er a de s i -
pria humilhação e fraqueza'"
lêncio à fac e de s eus per s egui dor esF. oi
EnquantoJoão invocavao céu,'o povo
então r ec ol hi doa um a c el a da pr i s ão,on-
em volta dele estavadivididoentrea apro-
de dor m i u s er enam entes obr e a pedr a nua.
vaçãoe a censura.Uns gritavam:"Só dis-
Na m anhã s egui nte,c om par ec euo pai
se a verdade;e ele se dirigeao cÓupor
de João per anteos tr i bunai se tes tem unhou
todos nós, porquesomos realmenteopri-
pela d em ênc i ade s eu fi l ho úni c o,di z endo:
midos."Outrosdiziam:"É um possesso,
"Quantas vezes ouvi-o divagar na sua so-
quesó repete.oqueo demôniolhe inspira'"
lidão, m eus Senhor es ,e fal ar de c oi s as
Outrosse queixavam: "Nuncaouvimostais
estranhas que não correspondem à ver-
divagaçõesde nossospais e avós,e não
dade!
as queremosouvir agora'" Outrossussur*
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â demência em vista da sua ternura para
"Per.guntaiaos garotos da nossa zona, com seus pai s .'l
Senhores.Freqüentaram-noe conhecem a João foi l i ber tado,m as s ua dem ênc i afoi
s u a f a s ci n a çã op o r u m mu n do longínquo. aceita como um fato. Os jovens falavam
P r o c u r ava md i a l o g a rco m e l e , m as ele nem dele com s ar c as m o.As m oç as l he di r i gi am
l h e s r e sp o n d i a ;e q u a n d o re spondia,suas olhar es pes ar os os ,di z endo: ,,O c éu é às
respostaseram ambíguas e sem conexão. v€zesbem estranhono que Íaz: reuniu nes-
P e r g u nta ià su a mã e . E l a sa be melhor do te moço a formosura do rosto e a pertur,
q u e q u al q u e ru m o a fa sta mentode seu Íi- bação da mente, e contrastou a doce luz
lho das realidades palpáveis. Muitas ve- dos seus ol hos c om a es c ur i dãode s ua al -
z e s v i u -o fi xa n d o o h o ri zo n te com olhos ma."
d e v i d r o, e o u vi u -o fa l a r co m am or às ár - Ent r e aquel asc ol i nas e pr ados em bel e-
v o r e s e có rre g o se fl o re s e e str elas,como zados pelas flores,voltou João a sentar-se
a s c r i a n ça s fa l a m à s co i sa s inanim adas. perto dos seus bois. E, contemplandocom
P e r g u nta ia o s mo n g e s d o C onvento.Br i- olhos c hei os de l ágr i m asas c i dadese po-
g o u c o m e l e s h á p o u co , d e spr ezando- lhes voados espalhadosentre as colinas, repe-
o ascetismoe a devoção,e negandoâ san- tia, triste, com suspiros proÍundos: ,,Vós
tidade das suas vidas. É demente, Senho- sois mui tos , e eu s ou s oz i nho. D i z ei de
res, mas é muito compassivopara comigo mim o que qui s er dese, faz ei de m i m o que
e para com sua mãe. Ampara-nosem nos- quise r des .'Osl obos dev or am a ov el ha na
s a v e l hi cee n ã o me d e sa cri fíciospar a sa- escuridão da noite. Mas os vestígios do
tisfazer às nossas necessidades, Tende seu s anEue per m anec ematé que c hegue
p e n a d el e , p o r n o ssa ca u sa , e per doai- lhe a aur or a e s e l ev anteo s ol .',

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