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ÍÁÇÕES

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Um a vida pelo bom livro

E-mail: vendasí^voze* com.br

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Coordenadores:
Pedrinho Arcides Guareschi - Pontifícia Univ. Católica do Rio Grande do Sul
(PUCRS)
Sandra Jovchelovitch - London School of Econom ics and Political Science (LSE)
- Londres

Conselho Editorial:
Robert M. Farr - London School of Economics and Political Science (LSE)
- Londres
Denise Jodelet - L’École des Hautes Études en Sciences Sociales - Paris
Sílvia Lane - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP)
Regina Helena Freitas Campos - Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
Angela Arruda - Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Tânia Galli Fonseca - Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
Leôncio Camino - Universidade Federal da Paraíba (UFPA)

Obras da Coleção Psicologia Social:


1. Psicologia social contemporânea (Livro-texto) - Vários autores
2. As raízes da psicologia social moderna - Robert M. Farr
3. Representando a alteridade - Angela Arruda (Org.)
4. Novos paradigmas em psicologia social - Vários autores
5. Gênero, subjetividade e trabalho - Tânia Galli Fonseca
6. Psicologia social comunitária - Regina Helena Freitas e outros
7. Textos em representações sociais - Pedrinho Arcides Guareschi e Sandra
Jovchelovitch
8. Representação social do espaço público no Brasil - Sandra Jovchelovitch

Dados Internacionais de C atalogação na Publicação (CIP)


(Câm ara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Textos em representações sociais / Pedrinho A. Guareschi, Sandra


Jovchelovitch (orgs.) ; |prefácio Serge Moscovici |. - 2. ed. -
Petrópolis, RJ : Vozes, 1995.

Vários autores.
ISBN 85.326.1297-0

1. Psicologia social 2. Representação (Filosofia) I. Guareschi,


Pedrinho A. II. Jovchelovitch, Sandra. III. Moscovici, Serge.

95-0533 CDD-302

índices para catálogo sistemático:


1. Representações sociais : Sociologia 302
Pedrinho A. Guareschi
Sandra Jovchelovitch (Orgs.)
Gerard Duveen M ary Jane Spink
Hélène Joffe Robert Farr
M artin Bauer Serge Moscovici
Maria Cecília Minayo Wolfgang Wagner

TEXTOS EM
REPRESENTAÇÕES
SOCIAIS
5a edição

Aà EDITORA
Y VOZES
Petrópolis
1999
© 1994, Editora V ozes Ltda.
Rua Frei Luís, 100
25689-900 Petrópolis, R J
Brasil

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra


poderá ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma
e/ou quaisquer meios (eletrônico ou mecânico, incluindo
fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou
banco de dados sem permissão escrita da Editora.

FICHA TÉCNICA DA VOZES

COORDENAÇÃO EDITORIAL
Avelino Grassi

EDITOR
Lídio Peretti
Edgar Orth

COORDENAÇÃO INDUSTRIAL
José Luiz Castro

EDITOR D E ARTE
Ornar Santos

EDITORAÇÃO
Paginação: Rosangela Lourenço e Sheila Roque
Supervisão grálica: Valderes e Monique Rodrigues

ISBN 85.326.1297-0

Este livro foi composto e impresso pela Editora Vozes Ltda.


SUMÁRIO

Prefácio - (Serge Moscovici), 7

Introdução - (Pedrinho A. Guareschi e Sandra


Jovchelovitch), 17

PARTE I - DIMENSÕES TEÓRICAS DA TEORIA DAS


REPRESENTAÇÕES SOCIAIS, 27

1. Representações Sociais: a teoria e sua história -


(Robert M. Farr), 31
2. Vivendo a vida com os outros: intersubjetividade, espaço
público e Representações Sociais - (Sandra
Jovchelovitch), 63
3. O conceito de Representações Sociais dentro da socio­
logia clássica - (Maria Cecília de Souza Minayo), 89

PARTE II - DIMENSÕES METODOLÓGICAS DA


TEORIA DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS, 113

4. Desvendando as teorias implícitas: uma metodologia de


análise das Representações Sociais - (Mary Jane
Spink), 117
5. Descrição, explicação e método na pesquisa das Repre­
sentações Sociais - (Wolfgang Wagner), 149
PARTE III - DIMENSÕES PRÁTICAS DA TEORIA DAS
REPRESENTAÇÕES SOCIAIS, 187

6. "Sem dinheiro não há salvação": ancorando o bem e o


mal entre os neopentecostais - (Pedrinho A.
Guareschi), 191
7. A popularização da ciência como imunização cultural: a
função de resistência das Representações Sociais - (Martin
Bauer), 229
8. Crianças enquanto atores sociais: as Representações
Sociais em desenvolvimento - (Gerard Duveen), 261
9. "Eu não", “o meu grupo não” : Representações Sociais
transculturais da AIDS - (Hélène Joííe), 297
PREFÁCIO

Tenho inúmeras razões para agradecer aos organiza­


dores deste livro o convite para contribuir com esta obra
através de um prefácio. Mas eles próprios apresentaram,
de maneira tão excelente, os aspectos gerais da t e o r i a d a s
r e p r e s e n t a ç õ e s s o c i a i s , que não me resta nada mais do

que fazer alguns comentários pessoais.

Alguém afirmou, certa vez, que tudo o que existe na


natureza se produz a partir de uma de suas margens: a
superfície da terra, a membrana de uma célula, o momento
de uma catástrofe, o começo e o fim de uma vida. Poder -
se-ia dizer o mesmo do que se produz na sociedade. E
especialmente neste território onde se articulam os fenô­
menos individuais e os fenômenos coletivos. Sendo assim,
devemos estar atentos à maneira como colocamos o pro­
blema indivíduo-sociedade, pois, sem nos darmos conta,
corremos o risco de o transformarmos não apenas em um
problema difícil, mas principalmente em um problema que
se revele impossível de ser tratado no plano científico.
É preciso explicar primeiro o que entendo com isso.
Desde o início, nossas teorias consideraram que, na dis­
cussão desse problema, dever-se-ia conceber a p s ic o l o g i a
s o c i a l como uma disciplina mista. Uma disciplina que se

situasse no cruzamento das ciências psicológicas e das


ciências sociais. Acontece que, depois de meio século, nós
trabalhamos como se a p s ic o l o g ia s o c i a l tivesse como
missão acrescentar uma dimensão social aos fenômenos
psicológicos. Pois, por convenção, nós definimos estes
últimos apenas como fenômenos individuais. Mas esta
orientação pressupõe um enfoque unilateral, pois o primei­
ro enfoque é, se não mais, pelo menos tão significativo
como o segundo. Eu quero falar do enfoque que vê os
fenômenos psicológicos do ponto de vista da vida social e
cultural. Existe uma reciprocidade, uma relação dualista
entre as duas famílias de conhecimentos científicos. Deve­
mos tê-la sempre presente ao espírito, pois é ela que
determina o caráter específico de nossa disciplina. Se bem
que em nosso trabalho de pesquisa, como na formação dos
estudantes, é necessário dar uma atenção extrema à pro­
dução e ao pensamento dos sociólogos e dos antropólogos.

Ora, a lacuna essencial da maioria das outras teorias


em p s ic o l o g i a s o c i a l é que elas negligenciam esta produ­
ção e este pensamento. Daí decorre sua característica um
tanto ingênua, se não superficial, a esse respeito. Não seria
demais insistir sobre o fato de que a t e o r i a d a s r e p r e ­
s e n t a ç õ e s s o c ia is conduz um modo de olhar a p s ic o l o g i a

s o c i a l que exige a manutenção de um laço estreito entre

as ciências psicológicas e as ciências sociais. Falando


historicamente ela é, além disso, mais necessária às se­
gundas que às primeiras. Expliquei isso longamente no La
machine à faiie des dieux. Nós, psicólogos sociais, estamos
em permanente necessidade de combater a tendência de
separar os fenômenos psiquicos dos fenômenos sociais, de
erguer barreiras entre suas respectivas disciplinas. É uma
batalha em duas frentes, da qual vão depender o grau e a
fecundidade de nossa ciência.

Mas por que a t e o r i a d a s r e p r e s e n t a ç õ e s s o c ia is


desempenha um papel tão específico? Por que constitui
ela, de certo modo, o coração da p s i c o l o g i a s o c i a l ? A
resposta a esta questão, que exige menos espaço e tempo,
é de ordem histórica. O conceito de representação social
ou coletiva nasceu na sociologia e na antropologia. Foi obra
de Durkheim e de Lévi-Bruhl. Nessas duas ciências ele
serviu de elemento decisivo para a elaboração de uma
teoria da religião, da magia e do pensamento mítico.
Poderia acrescentar que ele desempenhou um papel aná­
logo na teoria da linguagem de Saussure, na teoria das
representações infantis de Piaget, ou ainda na do desen­
volvimento cultural de Vigotsky. E, de certo modo, este
conceito continua presente nesse tipo de teorias.

Desde o início, pois, tomou-se claro o sentimento,


expresso por Durkheim, Lévy-Bruhl e Mauss, entre outros,
de que faltava uma teoria desse conceito e dos fenômenos
que ele expressa. E, ainda mais, que a tarefa principal da
p s ic o l o g i a s o c i a l consistia em formular essa teoria. Mas

como cumprir essa tarefa? E qual o fenômeno social que


nos permite executá-la da maneira mais ampla? Para dizer
as coisas com brevidade, esforcei-me logo em propor tal
teoria, apelando, de maneira interessante, espero, ao que
nós sabemos sobre o pensamento social, sobre a comuni­
cação e a semiótica. Não é fácil mostrar a importância de
tal empreendimento mas, grosso modo, parece-me poder
formulá-lo da maneira que segue. O conceito de átomo,
durante dois mil anos, e o de genes, durante mais ou menos
um século, foram elementos explicativos e abstratos nas
teorias físicas e biológicas. O conceito de representação
social foi um conceito semelhante nas teorias sociológicas
e antropológicas. E, todos o sabemos, a teoria dos átomos
e a teoria dos genes - da hereditariedade - não são mais
que o produto recente de duas ciências "híbridas", a física
atômica e a biologia molecular. É assim também que a
t e o r i a d a s r e p r e s e n t a ç õ e s s o c ia is procura renovar e

confirmar a especificidade da p s ic o l o g i a s o c i a l . Uma


especificidade que é difícil de estabelecer, digo isso cor­
rendo o risco de ferir a modéstia, sem tal teoria.
Outro ponto sobre o qual seria necessário insistir é que
os fenômenos sociais que nos permitem identificar de
maneira concreta as representações e de trabalhar sobre
elas são, nós o sabemos, as conversações, dentro das quais
se elaboram os saberes populares e o senso comum. Para
ser bem mais preciso, pois sobre esse ponto houve mal­
entendidos, estes fenômenos nos dão um acesso privile­
giado aos processos dos quais se ocupa a teoria
psicanalítica, e por razões procedentes. Mas isso não
significa que as conversações, os saberes populares ou o
senso comum devam ser considerados à parte, ou que se
aceite que somente eles expressem as representações
sociais. Estas podem ser encontradas, sob outras formas,
nas ciências, nas religiões, nas ideologias e em outras
circunstâncias. É certo que teorias recentes consideram o
senso comum como um protótipo dos fenômenos sociais
em geral. Ora, isso possui implicações ideológicas e polí­
ticas que levariam muito tempo para serem discutidas aqui,
mas que seria necessário, de qualquer modo, discuti-las
algum dia.
Passemos agora ao principal. Se aquilo que dissemos
acima é verdadeiro, segue-se, então, que cada passo que
nós damos em direção ao aprofundamento da t e o r i a d a s
r e p r e s e n t a ç õ e s s o c ia is não diz respeito apenas a nossa

disciplina. Tem a ver também, em primeiro lugar, com a


sociologia e a antropologia. De modo especial àquelas suas
teorias que se relacionam com a religião, com os mitos,
com a ideologia, a linguagem, onde esse conceito e os
conceitos daí provenientes desempenham um papel signi­
ficativo. Chegou o tempo de saber o que fazer e de efetuar
uma série de avanços rápidos nessa direção. Pode ser que
esse empreendimento encontre dificuldades. Mas vale a
pena dedicar-se a ele.
As noções de representação social, de cognição e
outras, tiveram muita dificuldade em se fazer aceitar e
sofreram muita resistência. Como, pois, podemos nós
esperar justificar toda uma teoria, que seria o objeto da
p s ic o l o g i a s o c i a l e comum às ciências vizinhas, sem

provocar resistências ainda mais profundas? Após ter de­


dicado grande parte de minha existência em construir tal
teoria, é compreensível que isso muito me preocupe. E as
resistências se manifestam muitas vezes na crítica a ela
feita, de que ela não oferece definições claras, não estabe­
lece relações simples entre suas proposições, ou ainda que
ela não enuncia hipóteses que possam ser submetidas à
verificação. Ora, parece-me que todas essas dificuldades
desaparecem se levarmos em conta os quatro grandes
pontos seguintes, que são muitas vezes mal compreendi­
dos, e por isso combatidos.
1. O papel que a t e o r i a d a s r e p r e s e n t a ç õ e s s o c ia is
confere à racionalidade da crença coletiva e sua significa­
ção, portanto, às ideologias, aos saberes populares e ao
senso comum. Com efeito, nós os tomamos imediatamente
como sistemas coerentes de signos. Ou então, tratamo-los
como imagens, vizinhas de uma práxis e de um ritual, que
têm existência de modo independente, em virtude de um
princípio imanente. Aqui se encontra uma contradição com
a maioria das concepções, científicas ou não, que assu­
mem essa racionalidade do conteúdo da crença e das
concepções coletivas como enviesada, ou não racional,
quando comparado ao conteúdo da crença e das concep­
ções do indivíduo. Isso está ligado à famosa inacionality
assumption (pressuposto da irracionalidade), de que fala
Laudan. Esse pressuposto conduz à busca de uma expli­
cação social, e sociológica, somente para as formas de
pensamento não racional, e uma explicação individual e
lógica às formas de pensamento racional.
Mas isso não é tudo. Apoiando-nos nos argumentos
de Durkheim e de Wittgenstein, nossa teoria os leva a seu
termo. Isto quer dizer que as representações sociais são
racionais, não por serem sociais, mas porque elas são
coletivas. Para dizer as coisas brevemente, é somente
dessa maneira que os homens se tornam racionais, e um
indivíduo isolado e só não poderia sê-lo. Desse modo, toda
psicologia das formas de pensamento, ou de linguagem,
deve necessariamente ser social.
2. Do mesmo modo que muitos psicólogos e sociólo­
gos, eu sinto repulsa diante do dualismo do mundo indivi­
dual e do mundo social. Num desses mundos, o da
experiência individual, todos os comportamentos e todas
as percepções são compreendidos como resultantes de
processos íntimos, às vezes de natureza fisiológica. No
outro mundo, o dos grupos, o das relações entre pessoas
e grupos, tudo é explicado em função de interações, de
estruturas, de trocas, de poder, etc. Para facilitar as coisas:
somos tentados a incorporar o segundo no primeiro. Esse
é o caso, tanto quando afirmamos, com respeito às cogni-
ções sociais, por exemplo, que os processos que têm lugar
num e noutro são idênticos, como é o caso quando redu­
zimos o social às relações interpessoais ou intersubjetivas.
Outros se encaminham, enquanto isso, a uma redução
inversa, negando a especificidade do indivíduo e fazendo
do consenso o resultado de uma interação que faça desa­
parecer as distinções entre os indivíduos.
Esses dois pontos de vista são claramente errôneos
pelo simples motivo de que o conflito entre o individual e
o coletivo não é somente do domínio da experiência de
cada um, mas é igualmente realidade fundamental da vida
social. Além do mais, todas as culturas que conhecemos
possuem instituições e normas formais que conduzem, de
uma parte, à individualização, e de outra, à socialização.
As representações que elas elaboram carregam a marca
desta tensão, conferindo-lhe um sentido e procurando
mantê-la nos limites do suportável. Não existe sujeito sem
sistema nem sistema sem sujeito. O papel das repre­
sentações partilhadas é o de assegurar que sua coexistên­
cia é possível. Quero dizer que é justamente este estado
de coisas que torna a noção de conflito tão essencial em
nossa teoria, quer se trate de transformações cognitivas,
quer se trate de comunicações públicas. Sem esta noção
não se pode compreender nem o dinamismo da sociedade
nem a mudança de qualquer uma das partes que a com­
põem. Ora, por razões que não têm nada de misterioso, as
ciências sociais, e a p s ic o l o g i a s o c i a l em particular,
resistem em reconhecer esse papel do conflito, da dissen-
são, tanto na teoria como na prática. Isso tem como
conseqüência uma visão bastante estática, tanto dos indi­
víduos como da sociedade.

3. De alguma maneira mais ou menos implícita, alguns


lamentaram a complexidade e a elasticidade da t e o r i a d a s
r e p r e s e n t a ç õ e s s o c i a i s . Não é o fato que eu nego, antes

a idéia de que essas qualidades se constituam num fator


negativo, ou que seria necessário combatê-lo. Quanto a
isso, parte de minha resposta é a própria evidência. Seria
de estranhar, dentro de nosso entendimento da teoria, que
se pudesse isolar um princípio simples e único - dissonân­
cia, tratamento da informação, atribuição, construção, e
assim por diante - que desse conta de descrever e explicar
os fenômenos dos quais nos ocupamos. Com efeito, que
significaria isso? Pura e simplesmente que nós poderíamos
compreender, com a ajuda de teorias nitidamente mais
elementares, como as da biologia, da lingüística ou da
economia, fenômenos consideravelmente mais complexos,
ou mais instáveis, que os tratados por essas ciências.
Proceder assim é impossível, a não ser que se faça uma
mutilação drástica nos fenômenos psicossociais, ou então
que aceitemos uma redução, não menos drástica, do valor
de nossas descrições e de nossas experiências. Para nos
darmos conta de até onde pode chegar tal redução, basta
comparar a teoria da atribuição proposta por Heider com a
que está subjacente às pesquisas atuais.
E eis a outra parte da minha resposta. Para que uma
teoria possa perdurar é necessário que ela seja suficiente­
mente elástica e complexa. Estas qualidades lhe permitem
modificar-se em função da diversidade dos problemas que
ela deve resolver e dos fenômenos novos que ela deve
descrever ou explicar. Somente sob tal condição - e eu já
escrevi isso há muito tempo - pode-se assegurar a gene­
ralidade de uma teoria, não como um desejo piedoso, mas
como um vàlor prático. Agora é chegado o tempo de
renunciar a tais teorias elementares e pouco específicas,
com as quais nós nos tínhamos acostumado e erigido como
modelo. Elas trazem como conseqüência a fragmentação
do campo da p s ic o l o g i a s o c i a l , ao mesmo tempo que
reduzem a esperança de vida de cada paradigma. Impedem
assim, como assinalou Pepitone, que a p s ic o l o g i a s o c ia l
possa ter uma necessária coerência e uma direção clara.
4. Se eu rejeito diversas dicotomias existentes, como
a do indivíduo e do coletivo, que acabo de discutir, isso
não se deve ao fato de não perceber sua atração intuitiva
ou porque considere essa atração desprezível. Mas é por­
que essas dicotomias se tornaram lentes deformadoras que
nos impedem ver fenômenos reais, tais como os conflitos,
as dissonâncias, etc. em toda sua amplitude e significado.
Outra dicotomia é a que se faz entre "bons" e "maus”
métodos, qualificando uns como científicos e outros como
não científicos. Há tempo que uma das críticas dirigidas
contra a t e o r i a d a s r e p r e s e n t a ç õ e s s o c i a i s , e que contri­
buiu para que ela permanecesse desconhecida, é a de que
ela não era experimental e que não permitia fazer previsões
experimentais. Logo depois, psicossociólogos que eu con­
sidero próximos a nós, e com os quais partilho muitas
coisas, nos fazem a acusação contrária. Eles até me pedem
que tome uma posição clara diante do emprego de métodos
experimentais e quantitativos, no estudo das repre­
sentações sociais.

Já escrevi repetidas vezes: sou fundamentalmente


contra a tendência de fetichizar um método específico.
Fazer do método experimental, ou dos métodos não expe­
rimentais, uma garantia de via régia para se chegar ao
conhecimento, é tão pernicioso como qualquer outro feti-
chismo. A menos que isso seja somente poeira atirada aos
olhos. As profundas análises históricas de Robert Farr são,
sob este ponto de vista, as mais esclarecedoras que exis­
tem em nossos dias. A tarefa do pesquisador, como eu a
vejo, é de discernir qual de nossos métodos pode ser
mantido com plena responsabilidade. E, conseqüentemen­
te, qual deve ser abandonado, numa época de mudanças,
tanto intelectuais como sociais, sem precedentes. Em
síntese, minha posição pessoal é de que a t e o r i a d a s
r e p r e s e n t a ç õ e s s o c i a i s , mesmo que isso possa suscitar

resistências ou discordâncias entre nós, permanecerá cria­


tiva por tão longo tempo, o quanto ela souber aproveitar
as oportunidades que cada método disponível possa ofe­
recer. Se minha preferência se relaciona com os métodos
de observação e de análise qualitativa, como ilustrados
pelos trabalhos de Jodelet, Parker ou Palmonari, isso é
problema de escolha pessoal, e não problema epistemoló-
gico. Em suma, eu sou um metodólogo politeísta, e não
monoteísta.

O que me confere tal possibilidade é o conteúdo


intelectual da t e o r i a d a s r e p r e s e n t a ç õ e s s o c i a i s . E u vejo
aqui um sinal de qualidade, e não de obscurecimento ou
pobreza, como alguns imaginam. Devo esta segurança a
meus colegas e a meus velhos alunos latino-americanos,
aos quais me liga uma longa amizade, e com os quais eu
sempre me manifestei com plena confiança. Sem querer
contar minha vida, devo confessar que sob muitos aspectos
eu permaneci fiel a Alexandre Koyré, que foi meu mestre
nessas questões, e também a duas ou três idéias clássicas.
De modo que eu não hesito em afirmar, ainda hoje, que
considero sempre a verdade como o ethos do conhecimen­
to e de meu trabalho. Da mesma maneira acredito que o
valor intelectual de nosso conhecimento depende, numa
medida mínima apenas, do método, seja ele qual for. Lendo
recentemente as entrevistas de Chomsky com Ronat, en­
contrei ali expressa uma convicção que não tinha conse­
guido ainda formular de maneira tão clara e tão precisa.
Eis o que ele diz:
Não há "métodos" para um campo de conhecimento que
tenha um verdadeiro conteúdo intelectual. O objetivo é
encontrar a verdade. Como chegar até lá, ninguém o sabe.
Os métodos experimentais, os matemáticos, as diversas
técnicas, não são métodos de trabalho para descobrir a
verdade. Jamais alguém tornará criativo um físico ou um
biólogo, dizendo-lhe: eis aqui os métodos, experimente-os
num novo organismo. Fazem isso os que não sabem o que
dar para os estudantes fazerem. É uma confissão de fracasso.

Espera-se de um cientista que ele descubra novos princí­


pios, novas teorias, novos métodos de verificação... Isso não
se aprende com um método.
Não tenho nada a acrescentar a isso. A não ser convi­
dar os que encontram no método um motivo de continuar
à distância da t e o r i a d a s r e p r e s e n t a ç õ e s s o c i a i s , que
meditem cada afirmação da citação acima.
Experimento sempre uma grande apreensão ao fazer
uma conferência ou ao redigir um prefácio. Responderão
eles ao que se espera? Trarão alguma ajuda àqueles que
me escutam ou àqueles que vão ler o prefácio? Tais são
meus sentimentos ao preparar esse texto. Se me permiti
expressar as resistências que sofre nossa teoria, é porque
elas expressam, ao mesmo tempo, a especificidade e as
dificuldades que lhe são próprias. Ora, havia grande neces­
sidade de fazer, algum dia, o balanço dessas resistências,
e é isso que tentei fazer aqui, pela primeira vez. Espero que
isso esclarecerá, ao menos um pouco, o debate sobre as
representações sociais, tanto na América Latina como na
Europa. Seja como for, uma coisa é certa: já há muito tempo
havia necessidade de um livro como este à disposição dos
estudiosos e dos pesquisadores. A qualificação dos autores
é garantia da qualidade do livro. Ele não somente discute
certas idéias importantes, mas ainda faz refletir, coloca o
pão à disposição do intelecto. É por isso que eu o recomen­
do sem reservas, esperando que ele encontrará os leitores
que merece.

Serge Moscovici
École des Hautes Études en Sciences Sociales
Paris, maio de 1994.
INTRODUÇÃO

A TEORIA DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS foi O fio central


que deu forma ao tecido desse livro. Mais de três décadas
depois de seu aparecimento ela se constitui como uma
referência central para psicólogos sociais no mundo todo.
Entretanto, é preciso que se diga desde já: essa referência
não é apenas centrada em mais uma “boa” teoria que nos
fornece elementos para praticarmos a “boa” ciência que os
pressupostos tradicionais definiram como correta. Não.
Com a t e o r i a d a s r e p r e s e n t a ç õ e s s o c ia is temos uma
história diferente, que questiona ao invés de adaptar-se, e
que busca o novo, lá mesmo onde o peso hegemônico do
tradicional impõe as suas contradições. Mas a busca do
novo não se constitui sem que tenhamos a coragem de
enfrentar nossa própria história, e a t e o r i a d a s r e p r e ­
s e n t a ç õ e s s o c ia is vai buscar, tanto dentro da Psicologia

como fora dela, as possibilidades de reconstrução teórica,


epistemológica e metodológica a que se propõe. É o caráter
dessa busca que lhe faz ser tanto uma teoria específica da
p s ic o l o g ia s o c ia l como um empreendimento interdisciplinar.

No que diz respeito à p s ic o l o g ia s o c ia l , acreditamos


que a t e o r i a d a s r e p r e s e n t a ç õ e s s o c ia is oferece um
passo à frente daqueles conceitos que historicamente
constituíram a disciplina. Isso é assim, no nosso entender,
porque a teoria consegue tanto romper como re-introduzir
questões absolutamente centrais para a p s ic o l o g i a s o c i a l .
As rupturas são várias, mas talvez a mais importante seja
com o individualismo teórico que marcou a maioria das
conceptualizações presentes na disciplina. O indíviduo foi,
e em grande medida ainda é, a única possibilidade de
referência para noções como atitude, atribuição, esquemas
e assim por diante. Ora, o indivíduo existe e seria uma
bobagem tentar negar sua existência. Mais: seria um
equívoco crasso. Mas considerar o indivíduo como o único
centro possível na análise de processos psicossociais é um
outro equívoco crasso, cujas conseqüências teóricas têm
contrapartidas práticas das mais graves. Se fracassarmos
em perceber que o social, enquanto totalidade, produz
fenômenos psicossociais que possuem uma lógica diferen­
ciada da lógica individual, falhamos também em perceber
a relação fundamental entre o todo e suas partes, entre o
universal e o particular, entre a unidade e a totalidade. Daí,
para o obscurecimento das tensões existentes entre esses
pólos, o passo é direto. Foi exatamente porque negou a
tensão entre o indivíduo e a sociedade que a p s ic o l o g ia
s o c i a l em grande parte não conseguiu teorizar adequada­
mente essa relação.

Em se tratando dessa relação, acreditamos que tanto


as teorias hegemônicas da p s ic o l o g ia s o c i a l , como boa
parte da crítica que se ergueu para enfrentá-las, apresen­
tam problemas. Os desentendimentos são vários e pode­
mos citar os que nos parecem ser os principais. O primeiro
e mais comum, é o que afirma que estudos de vidas
individuais são necessariamente individualistas. O segun­
do sustenta a ilusão de que estar preocupado com a história
e a sociedade é uma garantia contra tendências individua-
lizantes. E finalmente o terceiro diz que pelo fato de o
indivíduo e a sociedade constituírem um ao outro, eles são
a mesma coisa: ou sinônimos, ou redutíveis um ao outro.
Ora, vidas individuais não são realidades abstraídas de um
mundo social; pelo contrário, elas só tomam forma e se
constroem em relação a uma realidade social. A história e
a sociedade também não podem ser simplesmente utiliza­
das como variáveis que influenciam a vida humana. Não
raro, é assim que as encontramos em muitos dos estudos
desenvolvidos pela p s ic o l o g ia s o c ia l , que falham em teori­
zar o aspecto constitutivo da história e da sociedade nos
fenômenos psicossociais. Outras vezes a história e a socie­
dade aparecem como explicando tudo, e esse também nos
parece ser um problema sério, pois ao negar um estatuto
de especificidade ao fato psíquico, psicólogos sociais ne­
gam também a contribuição que sua própria disciplina
pode trazer à compreensão da realidade humana. Por fim,
há a tentação de reduzir a sociedade e o sujeito individual,
um ao outro, e aqui temos mais um dos modos de negar
os fenômenos que advêm exatamente do fato de que o
indivíduo e a sociedade não se reduzem um ao outro. Na
base de todos esses desentendimentos encontramos um
mesmo elemento central: o fracasso em teorizar a dialética
entre o sujeito individual e a sua sociedade.
Pois é exatamente aí que a t e o r i a d a s r e p r e s e n t a ç õ e s
s o c ia is nos apresenta novas possibilidades. Em primeiro
lugar, porque contra uma epistemologia do sujeito "puro",
ou uma epistemologia do objeto “puro", a t e o r i a d a s
r e p r e s e n t a ç õ e s s o c ia is centra seu olhar sobre a relação

entre os dois. Ao fazer isso ela recupera um sujeito que,


através de sua atividade e relação com o objeto-mundo,
constrói tanto o mundo como a si próprio. Não é acidental,
portanto, que uma das bases mais fortes que a t e o r i a d a s
r e p r e s e n t a ç õ e s s o c ia is vai buscar na Psicologia está na

obra piagetiana. Mas, se a atividade do sujeito é central


para a teoria, não menos central é a realidade do mundo.
O fato de Moscovici permitir-se olhar para a Sociologia, lá
encontrar conceitos, e ousar trazê-los para o domínio da
p s ic o l o g ia s o c i a l é revelador do papel central que o

mundo social ocupa nas representações sociais. Porque foi


com Durkheim, talvez, que ele entendeu a força concreta
da realidade social, o fato de que ela se apresenta a sujeitos
sociais como um dado, como algo que tem quase a mesma
força das pedras que fazem o chão do mundo. Mas Mos­
covici pensou com Durkheim e contra ele, dando-se conta
de que na sociologia durkheiniana havia o perigo implícito
de esquecer que a força do que é coletivo (Durkheim
sugeriu o termo Representações Coletivas) encontra a sua
mobilidade na dinâmica do social, que é consensual, é
reificado, mas abre-se permanentemente para os esforços
de sujeitos sociais, que o desafiam e se necessário o
transformam.
Em segundo lugar, a t e o r i a d a s r e p r e s e n t a ç õ e s
estabelece uma síntese teórica entre fenômenos
s o c ia is

que, em nível da realidade, estão profundamente ligados.


A dimensão cognitiva, afetiva e social estão presentes na
própria noção de representações sociais. O fenômeno das
representações sociais, e a teoria que se ergue para expli­
cá-lo, diz respeito à construção de saberes sociais e, nessa
medida, ele envolve a cognição. O caráter simbólico e
imaginativo desses saberes traz à tona a dimensão dos
afetos, porque quando sujeitos sociais empenham-se em
entender e dar sentido ao mundo, eles também o fazem
com emoção, com sentimento e com paixão. A construção
da significação simbólica é, simultaneamente, um ato de
conhecimento e um ato afetivo. Tanto a cognição como os
afetos que estão presentes nas representações sociais
encontram a sua base na realidade social. O modo mesmo
da sua produção se encontra nas instituições, nas ruas, nos
meios de comunicação de massa, nos canais informais de
comunicação social, nos movimentos sociais, nos atos de
resistência e em uma série infindável de lugares sociais. É
quando as pessoas se encontram para falar, argumentar,
discutir o cotidiano, ou quando elas estão expostas às
instituições, aos meios de comunicação, aos mitos e à
herança histórico-cultural de suas sociedades, que as re­
presentações sociais são formadas. Os meios de comuni­
cação de massa, particularmente, têm sido um objeto de
investigação para a teoria. Em sociedades cada vez mais
complexas, onde a comunicação cotidiana é em grande
parte mediada pelos canais de comunicação de massa,
representações e símbolos tornam-se a própria substância
sobre a quais ações são definidas e o poder é - ou não -
exercido.

Estes, parece-nos, são alguns dos elementos que dão


à t e o r i a d a s r e p r e s e n t a ç õ e s s o c ia is seu caráter inovador.
A produção contemporânea ligada a este campo oferece
uma série de possibilidades para pensar a p s ic o l o g i a
s o c ia l , a prática que desenvolvemos em tomo dela e a realidade

social com a qual nos deparamos. Para nós, na América


Latina, isto ainda é especialmente necessário. Nossa rea­
lidade, mais do que nunca ou como sempre, apresenta
desafios quase da ordem do inimaginável. Pobreza, fome,
miséria, violência e exploração ainda são significantes
poderosos a construir nossas sociedades. Enquanto tais,
eles resistem e perpetuam uma ordem social que deve ser
radicalmente questionada. Questionada quanto a suas
condições históricas de produção e reprodução, quanto aos
efeitos catastróficos que produz na vida de centenas de
milhares de pessoas e também quanto aos seus efeitos
simbólicos. Matar e morrer - qualquer um: crianças, jo­
vens, velhos - é uma atividade quase banal no Brasil, e
essa banalidade e trivialização do trágico devem nos alertar
para a necessidade de não se deixar levar pelo que Hannah
Arendt uma vez chamou de "banalidade do mal". Para nós,
tais preocupações não são jargão. Pelo contrário, elas
evocam o nosso compromisso. Repensar a p s ic o l o g ia
s o c i a l é repensar a nossa prática, sem perder o rigor da

teoria, do método e a capacidade de inter-agir com a


realidade social: este livro é, ele também, uma expressão
de compromisso.
***

Os textos aqui reunidos estão organizados em três


partes. A primeira parte compreende dimensões teóricas
da t e o r i a d a s r e p r e s e n t a ç õ e s s o c i a i s . Farr nos apresenta
um panorama histórico que permite entender as circuns­
tâncias que levaram ao surgimento da teoria. Sua análise
situa o conceito na trajetória da disciplina, iluminando as
condições históricas da sua produção. Jovchelovitch dis­
cute as bases sociais e psicológicas das representações
sociais enquanto fenômeno, enraizando-as na vida coleti­
va. Sua análise procura dar conta das mediações existentes
entre a vida social e a vida individual, e ela propõe as
representações sociais como estruturas simbólicas que se
originam tanto na capacidade criativa do psiquismo huma­
no como nas fronteiras que a vida social impõe. O texto de
Minay analisa as bases filosóficas das representações so­
ciais, mostrando com clareza de que forma autores como
Weber, Marx, Lukács e Bakhtin, entre outros, já pensavam
o problema das construções simbólicas sobre o real. Ela
nos faz ver os elementos que, na história do pensamento
filosófico, abriram caminho para a t e o r i a d a s r e p r e ­
s e n t a ç õ e s s o c ia is .

A segunda parte examina os problemas da epistemo­


logia e do método no estudo das representações sociais.
Wagner nos apresenta uma discussão detalhada dos pro­
blemas relacionados às explicações científicas e seus limi­
tes e possibilidades para as representações sociais. Seu
trabalho analisa um problema central para a avaliação das
representações sociais: os níveis diferenciados, mas pro­
fundamente relacionados, de avaliação individual e social.
Como entender a relação entre esses níveis e como preser­
var a complexidade dessa relação na pesquisa em repre­
sentações sociais é, segundo ele, uma tarefa central para
a teoria. Spink discute questões epistemológicas que diri­
gem grande parte do debate contemporâneo nas ciências
sociais como um todo. Ela nos oferece uma análise ampla
e detalhada, marcada por argumentos precisos sobre a
complexidade da relação entre sujeito-realidade-intersub-
jetividade-objetividade. As representações sociais, ela nos
explica, rompem com a dualidade ciência-verdade e sen-
so-comum-ilusão. Ao propor o conhecimento científico
como um ato possível de sujeitos históricos em interação,
ela também propõe aos métodos o entendimento desses
limites. Rigor assim não é mais a asséptica objetividade de
uma ciência desprovida de sujeitos, mas a compreensão
dos fundamentos e dos limites do método.

A terceira e última parte está dedicada à pesquisa que


está sendo atualmente desenvolvida em representações
sociais. Como ficará claro ao leitor, nenhum dos capítulos
apresenta apenas dados, ainda que todos revelem em
dados a riqueza dos problemas sociais que seus autores
estão enfrentando. Todos eles, sem exceção, revelam os
modos de combinar a pesquisa empírica e a teorização,
trazendo assim elementos adicionais à teorização das
representações sociais. Ideologia, afetos inconscientes,
resistência, desenvolvimento e aquisição do conhecimento
infantil se entrelaçam à t e o r i a d a s r e p r e s e n t a ç õ e s s o ­
c i a i s , através do estudo das seitas religiosas, da populari­

zação da ciência, da criança e da AIDS. Guareschi relata


as formas como novas seitas religiosas se apóiam e explo­
ram com precisão as representações sociais de populações
oprimidas. Através da manipulação - que é profundamente
sábia dos saberes populares e por isso, exatamente, é
extremamente efetiva - de imagens, mitos, valores, signi­
ficados, em suma, representações sociais, essas seitas se
perpetuam e mantêm seus vínculos com populações geral­
mente oprimidas. Este é um exemplo crucial dos perigos
que advêm da manipulação de estruturas simbólicas, pe­
rigos que, por sinal, são nossos velhos conhecidos na
América Latina. Bauer nos oferece um interessante pano­
rama da pesquisa contemporânea sobre a popularização da
ciência e suas relações com a t e o r i a d a s r e p r e s e n t a ç õ e s
s o c i a i s . Ele introduz a noção de resistência como elemento

constitutivo das representações sociais e propõe que ela


seja considerada como um fator de diversidade e hetero-
geneidade cultural. As relações entre construção simbólica
e resistência são especialmente importantes, especialmen­
te se reconhecermos que a construção simbólica está
inserida em uma estrutura social em que alguns grupos, e
não outros, têm acesso privilegiado à imposição de suas
construções. Resistir e produzir contra-efeitos simbólicos
é, assim, uma forma de preservar possibilidades e hetero-
geneidade cultural, onde saberes não se definem apenas
em função de hierarquias, mas por aquilo que expressam
em relação à vida de uma comunidade. Esse é o caso da
popularização da ciência, onde o saber popular se mescla
e se funde com o saber científico, e onde, como Bauer nos
mostra, o caminho é de mão dupla. Duveen nos apresenta
uma apreciação da herença piagetiana e vigotskiana na
t e o r i a d a s r e p r e s e n t a ç õ e s s o c i a i s . Ele o faz discutindo

partes de suas pesquisas sobre o desenvolvimento de


representações sociais de gênero em crianças pequenas.
Seu trabalho é um elogio à autonomia e às possibilidades
criativas do sujeito humano e, talvez, como ele nos mostra,
seja na infância que essas possibilidades melhor se façam
perceber. Ele coloca ênfase naquilo que Piaget considerou
a necessidade de relações simétricas, ou situações de
igualdade, para que o conhecimento possa se construir
livre, autônomo, e com desejo de inventar. Lição, ainda
hoje, das mais atuais. O trabalho de Joffe é sobre a AIDS.
Se com Duveen podemos ter uma visão clara da dimensão
emancipatória das representações sociais, na discussão
que Joffe nos oferece, nos deparamos com a lógica da
exclusão e da discriminação instaladas no coração das
representações sociais da AIDS. Doença estranha, estran­
geira, fora do eu, fora do meu grupo, mas não para todos,
como ela nos mostra. Se para alguns é fácil construir
representações que projetam a AIDS no outro ameaçador,
para esses outros a doença emerge como uma identidade
carregada de culpa e de autodiscriminação. Aqui temos o
exemplo claro de como o social atravessa - corta ao meio
- a construção de representações sociais, fazendo com que
elas sejam, por vezes, mecanismos poderosos de ideologias
dominantes.

Ainda que essas três partes estejam separadas por


questões diferenciadas, o leitor cuidadoso vai perceber que
todos os capítulos de alguma forma se dirigem, ao mesmo
tempo, às questões da teoria, do método e da pesquisa
empírica. Existe, da mesma forma, ao longo de todo o livro,
uma unidade subjacente a muitas das preocupações que
os autores de cada capítulo discutem. Nos trabalhos de dar
forma a esse livro, essa unidade foi ficando clara, pois para
nossa surpresa as divergências que esperávamos encontrar
- elas existem, e consideramos fundamental que elas
tenham aqui um canal para se expressar - nunca surgiram,
pelo menos em relação ao essencial. Tal coincidência de
preocupações expressa muito sobre os encontros que estão
ocorrendo em torno da t e o r i a d a s r e p r e s e n t a ç õ e s s o ­
c i a i s . Este livro também é expressão destes vários encon­

tros. Alguns deles aconteceram além-mar, do outro lado


do Atlântico, e outros em casa, entre as longas distâncias
que nós brasileiros, por vezes, precisamos percorrer para
nos (re)conhecermos. Sergio Moscovici disse em 1992,
quando se dirigiu à I Conferência Internacional sobre
Representações Sociais em Ravello, Itália, que a t e o r i a d a s
r e p r e s e n t a ç õ e s s o c ia is tem sido um trabalho de ciência

e um trabalho de amizade. É verdade. Seja aqui ou do outro


lado do mar, nós nos encontramos, trabalhamos juntos,
discutimos, desenvolvemos projetos, até mesmo sonhos, e
o que temos o prazer de apresentar hoje ao leitor brasileiro
deve ser entendido a partir, e dentro, dessa pespectiva.

P.A.G.
S.J.
C zZ.
< C
Q _

DIMENSÕES TEÓRICAS DA
TEORIA DAS REPRESENTAÇÕES
SOCIAIS
1. REPRESENTAÇÕES SOCIAIS:
A TEORIA E SUA HISTÓRIA

Robert M. Farr
A TEORIA DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS é uma forma
sociológica de p s ic o l o g ia s o c i a l , originada na Europa com
a publicação, feita por Moscovici (1961) de seu estudo La
Psychanalyse: Son image et son public. Ela difere marca-
damente das formas psicológicas de p s ic o l o g ia s o c i a l que
são atualmente predominantes nos Estados Unidos da
América. Quais são essas diferenças e como elas surgiram,
é parte de minha história. O contraste se dá entre uma
tradição de pesquisa européia e uma americana na p s ic o ­
l o g i a s o c i a l moderna. A era moderna, na p s ic o l o g ia

s o c i a l , começou com o fim da II Guerra Mundial.

No início dessa era, G.W. Allport distinguiu entre "...as


raízes da p s ic o l o g i a s o c ia l [que] se encontram no solo
inteletual de toda tradição ocidental” e “seu florescimento
atual... [como um] fenômeno... caracteristicamente ameri­
cano" (Allport, 1954: 3-4). Embora a t e o r i a d a s r e p r e ­
s e n t a ç õ e s s o c ia is tenha visto a luz do dia primeiramente
durante a era moderna, ela pertence, em termos de ances-
tralidade, ao solo intelectual de toda tradição ocidental.
A metáfora de Allport sugere uma unidade orgânica entre
a flor e suas raízes. Essa é uma metáfora mais adequada
em relação ao estudo das representações sociais do que à
sua relação com a p s ic o l o g i a s o c ia l como tal. Isso porque,
no caso das representações sociais, tanto a flor como suas
raízes, são européias e existe uma similaridade na forma
entre a flor (uma forma sociológica de p s ic o l o g ia s o c i a l )
e a semente da qual ela nasceu (isto é, a sociologia). No
caso da p s ic o l o g i a s o c i a l , a semente e o solo em que ela
germinou provieram de continentes diferentes (Europa e
América do Norte) e de diferentes disciplinas acadêmicas
(sociologia e psicologia). Talvez a própria metáfora seja
enganadora.
A escolha de um ancestral para um campo particular
de pesquisa se constitui num compromisso de opção. Ela
quase nunca é uma ação neutra. Allport (1954) escolheu
Comte como o fundador da p s ic o l o g i a s o c i a l moderna.
Comte convinha a Allport, como um ancestral potencial
para a p s ic o l o g i a s o c i a l , porque ele foi o fundador do
positivismo. Samelson (1974) acusou Allport de criar uma
origem mítica falsa para a p s ic o l o g i a s o c i a l , com sua
escolha de Comte como seu fundador. Allport defendia, no
início do período moderno, que a p s ic o l o g i a s o c i a l era,
então, uma ciência. Na verdade, Allport estava contrastan­
do o "longo passado” da p s ic o l o g ia s o c i a l , como parte da
tradição de pensamento ocidental, principalmente euro­
péia, com a sua “curta história", do momento em que ela
se tornou uma ciência experimental, principalmente na
América do Norte (Farr, 1991c). Enquanto Allport, com sua
escolha de um ancestral, estava enfatizando a descontinui-
dade entre o passado e o presente, Moscovici, com sua
escolha de um ancestral, estava enfatizando a continuida­
de entre passado e presente. Existe uma clara continuidade
entre o estudo das representações coletivas de Durkheim
e o estudo mais moderno, de Moscovici sobre repre­
sentações sociais. Embora Deutscher (1984) expresse al­
gumas reservas com respeito à escolha, feita por Mosco­
vici, de um ancestral, suas críticas são brandas, se com­
paradas com as duras críticas feitas por Samelson sobre a
escolha de um ancestral feita por Allport. Embora Allport
e Moscovici se pareçam na escolha de franceses como seus
ancestrais para a p s ic o l o g i a s o c i a l , as diferenças entre os
dois ancestrais são muito mais fortes que suas semelhanças.

Durante a era moderna a p s ic o l o g ia s o c i a l se desen­


volveu, na América do Norte, como uma subdisciplina da
psicologia (Jones, 1985). A psicologia é uma disciplina que
se centraliza, quase que exclusivamente, no indivíduo. Isso
afeta a forma de p s i c o l o g i a s o c i a l que pode se desenvol­
ver em tal contexto. Na América do Norte a p s i c o l o g i a
s o c i a l começou como uma subdisciplina da sociologia.
Quando F.H. Allport (1924) escreveu seu texto clássico
p s ic o lo g ia s o c i a l , mais livros tinham sido escritos sobre
o assunto por sociólogos do que por psicólogos (Jones,
1985; Collier, Minton & Reynolds, 1991). Imediatamente
após a publicação do texto de Allport, contudo, o estado
da arte foi revertido e mais psicólogos que sociólogos
escreveram livros-texto de p s i c o l o g i a s o c i a l . Até hoje os
psicólogos na América do Norte continuam prevalecendo
sobre os sociólogos na publicação de tais textos, muitas
vezes na razão de três ou quatro por um.
Embora formas sociológicas de p s ic o l o g i a s o c i a l coe­
xistam hoje, na América do Norte, conjuntamente com
formas psicológicas mais numerosas e dominantes da
disciplina, há, contudo, um intercâmbio extremamente
reduzido entre ambas. Não foi sempre assim. No início do
período moderno havia muitos programas de graduação
conjuntos de p s ic o l o g i a s o c i a l em instituições de prestí­
gio, tais como Harvard, Yale, Michigan e, um pouco mais
tarde, na Universidade de Columbia (Lundstedt, 1968;
Jones, 1985). Hoje não existe mais nenhum desses progra­
mas conjuntos. Creio que isso se deve, em grande parte,
àquilo que posteriormente, nesse capítulo, eu denomino de
individualização da p s ic o l o g ia s o c i a l . Esse mesmo pro­
cesso responde pela difícil co-existência entre a t e o r i a d a s
r e p r e s e n t a ç õ e s s o c ia is de Moscovici, que é uma forma
sociológica de p s ic o l o g i a s o c i a l , e as formas psicológicas
de p s ic o l o g i a s o c i a l que são hoje dominantes nos Estados
Unidos da América. Existe ao menos um diálogo, embora
hesitante, entre essas duas formas rivais de p s ic o l o g ia
s o c i a l . O diálogo, necessariamente, é um diálogo transa­

tlântico.
Em seu artigo sobre os fundamentos históricos da
PSICOLOGIA SOCIAL moderna, G.W. Allport (1954) estabele­
ceu, com efeito, uma ruptura clara com o passado. É por
essa razão que sua metáfora da flor e das raízes é decisi-
vãmente enganadora. Ele conseguiu isso pelo fato de
adotar uma filosofia positivista da ciência, isto é, a filosofia
de Comte. Tal filosofia obriga o historiador da ciência a
acreditar que o futuro de uma disciplina, ao se tornar uma
ciência, será diferente de seu passado. O passado é meta­
física; o presente e o futuro são ciência. A p s ic o l o g i a
s o c i a l moderna foi um patamar para o qual Allport criou

um fundamento histórico adequado. Existe também a


expectativa, uma vez que a p s ic o l o g ia s o c i a l entrou para
o estágio positivo de seu desenvolvimento, de que o
progresso seja cumulativo. Esse conjunto específico de
pressupostos torna difícil, para quem quer que seja, fazer
avançar uma disciplina, sugerindo um retorno ao passado.
Tal proposta seria, literalmente, uma proposta profunda­
mente retrógrada. Pois foi isso que Moscovici fez, no início
da p s ic o l o g ia s o c i a l moderna, ao chamar a atenção ao
conceito esquecido de representação coletiva de Durk­
heim. Moscovici, diferentemente de Allport, não estava
comprometido com uma filosofia da ciência positivista.
Ambos iniciaram suas tarefas respectivas mais ou menos
ao mesmo tempo, isto é, no início da década de 50. Suas
orientações básicas com respeito ao tempo eram, contudo,
bastante diversas. Para Allport, sua perspectiva com res­
peito ao passado era um sinal de precaução; o futuro era
cheio de esperanças. Para Moscovici, o futuro era proble­
mático; o passado era, ao menos em parte, uma idade de
ouro. Devido à relação mais harmoniosa entre o passado e
o presente, no estudo das representações sociais, faz
sentido revisar a pré-história da teoria moderna. Não faria
sentido fazer isso se alguém aceitasse a tese comteana de
Allport, que supõe uma nítida ruptura entre o passado e o
presente.

A pré-História da t e o r ia d a s r e p r e s e n t a ç õ e s

s o c ia is

A maioria dos teóricos anteriores à Segunda Guerra


Mundial distinguiram entre dois níveis de fenômenos - em
termos gerais, o nível do individual e o nível do coletivo
(isto é, a cultura ou sociedade). Wundt, por exemplo,
distinguiu entre psicologia fisiológica e "Volkerpsycholo-
gie" (VPs, a seguir). A última, em termos amplos, eqüivalia
a cultura. Durkheim (1898) distinguiu entre o estudo das
representações individuais (o domínio da psicologia) e o
estudo das representações coletivas (o domínio da socio­
logia). Le Bon (1895) distinguiu entre o indivíduo e as
massas (ou a multidão). Freud tratou o indivíduo clinica­
mente e desenvolveu uma crítica psicanalítica da cultura
e da sociedade.
A razão principal de se distinguir entre os dois níveis
era uma crença, da parte do teórico, que as leis que
explicavam os fenômenos coletivos eram diferentes do tipo
de leis que explicavam os fenômenos em nível de indiví­
duo. Conforme Wundt, por exemplo, investigar o indivíduo
a partir do exterior era fisiologia. Investigar o indivíduo a
partir do interior (através de introspecção) era psicologia.
Conjuntamente elas compreendiam a psicologia fisiológi­
ca. A pele é um limite bastante convincente - principal­
mente quando se toma uma perspectiva visual (Farr,
1991a). Ela separa também, de maneira nítida, a fisiologia
da p s ic o l o g i a s o c i a l . A figura se recorta, de maneira clara,
num pano de fundo contrastante. Os outros são objetos
salientes do nosso ambiente imediato (Heider, 1958). Os
objetos do estudo da VPs de Wundt, contudo, eram fenô­
menos mentais coletivos, como linguagem, religião, cos­
tumes, mito, mágica e fenômenos correlatos. Eles são
manifestações externas da mente e sem possibilidade de
serem estudados através da introspecção. São os produtos
da interação de muitos. Wundt argumentou que esses
fenômenos coletivos não podem ser explicados em termos
de indivíduo. Um indivíduo, por exemplo, não pode inven­
tar uma língua ou uma religião. Esses fenômenos coletivos
foram, inicialmente, o produto de uma comunidade, ou de
um povo (volk). Eles emergiram de interações entre indiví­
duos. Ao distinguir entre indivíduo e a interação entre
indivíduos Wundt estava indo à essência da questão.
Durkheim (1898) argumentou, do mesmo modo, que
representações coletivas não poderiam ser reduzidas a
representações individuais. Ele se sentiu bastante à von­
tade em deixar as últimas para estudo dos psicólogos. Para
ele, representações coletivas eram semelhantes aos obje­
tos de estudo da VPs de Wundt. A diferença entre os dois
teóricos, no que se refere aos objetos de estudo na socio­
logia e p s ic o l o g i a s o c i a l respectivamente, era que Durk­
heim estava interessado, mais que Wundt, em estudar a
sociedade, e Wundt, mais que Durkheim, em estudar a
cultura. A diferença era mais de ênfase do que substancial.
Durkheim defendeu a independência da sociologia da
psicologia, mais ou menos como James, que ele cita;
defendia a independência da psicologia da fisiologia. Durk­
heim afirmou, especialmente em seu estudo clássico sobre
o suicídio, que aquilo que ele chamava de fatos sociais
somente poderia ser explicado em termos de outros fatos
sociais. Ele estava interessado em explicar variações, nos
índices de suicídio, entre pessoas pertencendo a categorias
sociais diferentes. índices de suicídio são fatos sociais que
não podem ser explicados em termos de decisões de
indivíduos de pôr fim às suas vidas. Dentre os mais
importantes sociólogos, Durkheim foi o que mais aberta­
mente se mostrou hostil à psicologia. A psicologia à qual
ele se opôs, contudo, foi a psicologia do indivíduo. A
distinção aguda de Durkheim entre sociologia (o estudo
das representações coletivas) e psicologia (o estudo das
representações individuais) fez com que se tornasse prati­
camente inevitável que, quando Moscovici propôs que se
estudassem as representações sociais, esse novo campo
fosse classificado como uma forma sociológica, e não
psicológica, de p s ic o l o g i a s o c l a l . Durkheim é o principal
responsável pela co-existência dessas duas formas alter­
nativas de p s ic o l o g ia s o c i a l na era modema. A diferença
principal entre Wundt e Durkheim é que, embora o primeiro
separasse a p s ic o l o g ia s o c i a l da fisiológica, ele acreditava
que as duas fossem relacionadas, ao passo que o segundo
julgou que a sociologia era independente da psicologia.
Le Bon (1895) contrastou a racionalidade do indivíduo
com a irracionalidade das massas. A diferença era entre o
indivíduo enquanto só, e enquanto participante de uma
multidão. A maneira como Le Bon formulou a questão teve
muitas conseqüências importantes, tanto durante o perío­
do que agora estamos analisando (isto é, anterior à Segun­
da Guerra Mundial), como depois. Ele foi o principal
responsável pelo que mais adiante eu chamo de individua­
lização da p s ic o l o g ia s o c i a l . Isso é importante em relação
ao tema desse capítulo, pois ajuda a explicar por que as
representações estudadas pelos psicólogos sociais na
América do Norte, durante a era moderna, são individuais,
e não sociais ou coletivas.

Le Bon preparou o campo para a individualização


concreta da p s ic o l o g ia s o c i a l . Isso foi uma conseqüência
direta da maneira como ele concebeu o coletivo. A massa,
ou a multidão, é uma massa ou multidão de indivíduos.
Torna-se fácil, portanto, individualizar o social, e foi isso
que F.H. Allport (1924) fez durante o período que agora
estudamos (veja-se Graumann, 1986, para uma exposição
mais completa desse ponto). Allport estendeu a maneira
como Le Bon tratou as massas e multidões para medir a
opinião pública (Allport, 1937) e estudar o comportamento
institucional (Allport, 1933).

A maneira como Le Bon formulou a questão estabele­


ceu a agenda para o primeiro grande programa de pesquisa
em p s ic o l o g i a s o c i a l experimental. Há diferença na ma­
neira como indivíduos se comportam quando estão sós ou
quando estão junto a outros (na presença tanto de outros
co-autores, ou de uma audiência)? A pergunta poderia ter
sido em francês; a resposta é ou em alemão ou em inglês
americano. Moede, na Alemanha, abordou esse problema
empiricamente. O problema se transferiu da Alemanha
para a América do Norte, com a migração de Munsterburg
de Freiburg para Harvard, onde ele orientou F.H. Allport
em seus estudos de doutorado. Os estudos experimentais
de Allport e outros sobre o assunto foram revisados por
DashieU (1935), no único capítulo do Handbook of Social
Psychology, de Murchison, dedicado aos estudos experi­
mentais de seres humanos, num contexto de laboratório.
Na verbalização da p s ic o l o g ia s o c l a l moderna isso seria
chamado de pesquisa sobre os efeitos da facilitação social.
Ele discute exatamente a questão colocada por Le Bon.
Ao confrontar a racionalidade do indivíduo com a
irracionalidade das massas, Le Bon ajudou a estabelecer
um elo entre a p s ic o l o g ia s o c i a l e a psicopatologia. Os
franceses foram os peritos pioneiros, em âmbito interna­
cional, no uso da hipnose dentro de um contexto médico.
Freud, por exemplo, visitou Charcot, em Paris, em 1885,
para observar o uso que ele fazia da hipnose no tratamento
da histeria. Le Bon estava convencido de que o poder dos
líderes em persuadir as massas era uma forma de influência
hipnótica. As demonstrações de hipnose, na França, eram
muitas vezes de natureza extremamente pública, mesmo
quando dentro de um contexto estritamente médico. Isso
era verdadeiro também no trabalho de Charcot e de Janet,
em Paris, e no de Bernheim, em Nancy. Decididamente a
hipnose era uma forma de influência social. Isso foi também
verdade quanto às demonstrações de Mesmer, em Paris,
sobre magnetismo animal, no final do século XVIII. O elo,
na França, entre psicopatologia e p s ic o l o g i a s o c l a l era
muito forte, e isso é evidente na obra tanto de Le Bon (Van
Gennet, 1992) como de Binet. Morton Prince, um psiquiatra
americano de Harvard, fundou o Journal of Abnormal
Psychology, em 1906. Ele foi bastante influenciado pela
tradição de pesquisa na França, que ligava a p s ic o l o g ia
s o c i a l com a psicopatologia. Em 1921, ele convidou F.H.

Allport para se juntar a ele como co-editor, e mudou o título


para The Journal of Abnormal Psychology and Social Psy­
chology (em 1925, o título foi abreviado para The Journal
of Abnormal and Social Psychology). O elo entre as duas
áreas remonta ao menos até Le Bon. Psicólogos sociais da
era moderna, como Solomon Asch, criticaram fortemente
o elo entre o social e o anormal, mas isso já é outra história.
Le Bon exerceu grande influência no desenvolvimento
do pensamento de Freud, especialmente durante a década
de 20. A influência de Le Bon sobre Freud é mostrada por
Moscovici (1981) em seu estudo sobre Le Bon. Trataremos
disso mais detalhadamente numa secção posterior desse
capítulo. Em 1920 Freud mudou o enfoque de sua teoriza-
ção do estudo clínico dos indivíduos para a crítica psica-
nalítica da cultura e da sociedade. Do mesmo modo que
os outros pensadores, cujo trabalho é aqui discutido, ele
escreveu sobre esses fenômenos, tanto ao nível do indivi­
dual, como do coletivo.
Freud é importante, no contexto desse capítulo, por­
que, entre outras coisas, ele se situava entre a cultura da
Alemanha e a cultura da França (ele foi influenciado tanto
por Wundt, como por Le Bon), e foi o autor da teoria cuja
difusão, na França, foi o assunto de La Psychanalyse: Son
image et son public (Moscovici, 1961). Do mesmo modo
que Wundt, Freud estava interessado na cultura (civiliza­
ção, religião, etc.) e, como Le Bon, ele estava interessado
nas formas de influência social (hipnose, psicoterapia,
liderança, etc.). Diferentemente de ambos, contudo, ele foi
capaz de inter-relacionar os dois campos. Sua visita a
Charcot em 1885, em Paris, em um primeiro estágio de sua
carreira clínica, já foi assinalada acima. Ele fez experimen­
tos com o uso da hipnose no tratamento da histeria, mas
os abandonou rapidamente, por considerá-los terapeutica-
mente ineficientes. Em lugar disso, ele desenvolveu sua
própria técnica (isto é, a psicanálise) baseado na associação
livre, principalmente em conexão com sua análise dos
sonhos. Embora os sonhos sejam pessoais a quem os sonha,
eles não permanecem assim no contexto da psicoterapia.
O pessoal se torna interpessoal. O conteúdo dos sonhos é
influenciado pela cultura de quem os sonha. A forma (isto é, o
visual) e o conteúdo dos sonhos são reflexos, sobre o indivíduo,
daquelas representações coletivas que eram objetos de
interesse tanto para Wundt como para Durkheim.
Freud não aceitou a afirmativa de Le Bon de que a
relação entre o líder e as massas era um tipo de influência
hipnótica. Le Bon via a multidão como um agregado de
indivíduos. Para Freud, as massas tinham mais estrutura
que isso. Os indivíduos, na massa, estavam relacionados
uns com os outros através de sua identificação comum com
o líder. Durante esse período Freud revisou sua teoria da
mente numa direção explicitamente social, a fim de poder
explicar os tipos de fenômenos de massa para os quais Le
Bon e outros tinham chamado a atenção (Moscovici, 1981;
Rey, 1986). Ele agora distinguia entre ego, id e superego,
onde, anteriormente, ele apenas tinha distinguido entre o
consciente, o pré-consciente e o inconsciente. É interes­
sante que ao passar do nível do coletivo para o nível do
individual, ele tenha desenvolvido uma teoria social da
mente humana. Foi precisamente isso que Mead (1934) fez
(veja Farr, 1987). Mead começou seu curso de aulas anuais
em p s ic o l o g ia s o c i a l , em Chicago, com o conceito de
Wundt de gesto humano. Isso estava nos dois primeiros
volumes da VPs de Wundt (Mead, 1904). Mead então
concentrou-se no desenvolvimento de uma teoria do self
humano, que criticava a natureza puramente individual
(isto é, não-social) da mente subjacente à psicologia fisio­
lógica de Wundt. Tanto Freud, como Mead, foram influen­
ciados pela psicologia experimental de Wundt, e ambos a
rejeitaram. Freud a rejeitou porque ela estava estreitamen­
te orientada ao estudo da consciência, e Mead porque era
um modelo de mente essencialmente cartesiano. Seus
próprios modelos de mente, explicitamente sociais, eram
sínteses de fenômenos tanto a nível coletivo como a nível
individual.
Penso que disse o suficiente, no parágrafo anterior,
para que ficasse demonstrada a importância da psicologia
de G.H. Mead, no contexto desse capítulo. Há ainda ao
menos mais dois aspectos em que o trabalho de Mead é
relevante para t e o r i a d a s r e p r e s e n t a ç õ e s s o c i a i s . O
primeiro é sua ênfase na importância da linguagem, para
se compreender a natureza humana. Ele se fundamentou,
na discussão desse ponto, parte em Darwin e parte em
Wundt. Mead acreditava que a chave para se compreender
a natureza da linguagem devia ser buscada no livro The
Expiessions of Emotions in Man and Animais (Darwin,
1872). A linguagem é uma forma de expressão que é
especificamente humana. É uma caraterística distintiva do
ser humano em relação aos animais. A linguagem é tam­
bém social. Existe uma longa e importante tradição aca­
dêmica, na Alemanha, em relação à p s ic o l o g i a s o c i a l da
linguagem (Marková, 1983). Isso pode ser mostrado a partir
do estudo de Humboldt, Herder e Hegel, passando por
Wundt, até chegar a Mead, nos Estados Unidos, e a
Vigotsky, na Rússia. Nas sociedades modernas a lingua­
gem é, provavelmente, quase que a única importante fonte
de representações coletivas. Embora Mead tivesse morrido
umas três décadas antes da publicação da teoria de Mos­
covici, existe uma outra razão pela qual sua obra pode ser
relevante à t e o r i a d a s r e p r e s e n t a ç õ e s s o c i a i s . A posição
de Moscovici com respeito à distinção feita por Durkheim
entre representações individuais e coletivas é até certo
ponto semelhante à posição de Mead em relação à distin­
ção que Wundt fez entre psicologia fisiológica e social.
Onde Durkheim e Wundt colocam uma antítese entre o
individual e o coletivo, Moscovici e Mead solucionam essa
antítese e produzem uma síntese. Em ambos os casos, a
síntese é uma forma sociológica de p s ic o l o g i a s o c i a l .
McDougall publicou um texto de p s ic o l o g i a s o c i a l em
dois volumes. O primeiro volume era An Introduction to
Social Psychology (McDougall, 1908). Nesse volume ele
identificou determinado número de instintos humanos que
fazem com que a vida em sociedade seja possível. Isso
ajudou a criar uma base biológica para a vida do indivíduo
dentro de um contexto societário. O segundo volume não
foi publicado até algum tempo depois. A Primeira Guerra
Mundial, de 1914-18, interveio. O segundo volume estava
interessado no contexto societário (McDougall, 1920). T i­
nha como título The Group Mind. Seu subtítulo descreve,
de maneira mais ou menbs detalhada, seus conteúdos -
“um esboço sobre os princípios da psicologia coletiva, com
alguma tentativa de aplicá-los à interpretação da vida e do
caráter nacional". O primeiro volume foi apenas uma intro­
dução à psicologia social. Ele não era, como tal, psicolo­
gia social. Os dois volumes conjuntamente desempenha­
vam essa tarefa. Uma vez mais temos nós aqui uma
psicologia do indivíduo, juntamente com uma forma de
psicologia coletiva. O segundo volume foi publicado no ano
em que ele se aposentou de sua função em Oxford, a fim
de aceitar uma nomeação em Harvard. Ele tinha apenas
chegado à América do Norte quando foi atacado por F.H.
Allport, por parecer que ele conferisse capacidade de agir
a entidades outras que aos indivíduos no seu volume sobre
A Mente do Grupo. Na verdade, McDougall foi bastante
cuidadoso em evitar essa tal falácia. O ataque de Allport a
McDougall é parte do que Graumann (1986) chamou de
“individualização do social” .
Isso me traz, finalmente, à obra do próprio F.H. Allport.
Seu trabalho foi discutido em vários pontos desse capítulo.
A Tabela 1 sintetiza grande parte da discussão feita até aqui:

Tabela 1: Níveis de Teorização em PSICOLOGIA SOCIAL


Níveis de Fenômeno

Teórico (a) Individual ( b) Intermediário (c) Coletivo


WUNDT Psicologia Võlkerpsycho-
Fisiológica logie

DURKHEIM Representações Representações


Individuais Coletivas

LEBO N 0 Indivíduo A Multidão

FREUD Estudos Clínicos Ego, Id e Crítica


Superego Psicanalitica
da Cultura e da
Sociedade

SAUSSURE Parole Langue

MEAD Mente Self Sociedade

McDOUGALL Instintos Mente do Grupo

F.H. ALLPORT Comportamento Comportamento


de Indivíduos Institucional;
Opinião Pública
Allport difere de todos os outros teóricos listados na
Tabela 1, na crença de que não é necessário mudar-se o
modelo, quando se passa do nível individual ao coletivo.
Isso porque ele usa seu modelo do indivíduo para explicar
fenômenos em nível do coletivo. "Não há psicologia dos
grupos que não seja essencialmente e inteiramente uma
psicologia dos indivíduos. A p s ic o l o g ia s o c i a l não deve
ser colocada como se contrapondo à psicologia do indiví­
duo; ela é parte da psicologia do indivíduo, cujo compor­
tamento ela estuda, em relação àquele setor de seu
ambiente composto por seus companheiros” (Allport,
1924:4). Notamos acima como a conceitualização de mul­
tidão de Le Bon, como um agregado de indivíduos, ajudou
a preparar o caminho para tal tipo de análise. Le Bon pelo
menos acreditava que o comportamento das multidões era
de um tipo diferente do comportamento dos indivíduos.
F.H. Allport (1937) foi também um entusiástico defen­
sor das pesquisas de opinião pública quando esse tipo de
prática entrou em voga nos Estados Unidos em 1930. Isso
porque a tecnologia de pesquisa de opinião era inteiramen­
te consistente com seu tipo de individualismo metodológi­
co. Já assinalamos, quando discutimos seu ataque a
McDougall, que ele era um feroz opositor de todo aquele
que parecesse conferir capacidade de ação a entidades
outras que aos indivíduos, fosse ele cientista social ou
jornalista. “O público pensa". Não - os indivíduos expres­
sam suas opiniões. "A nação decide". Não - os eleitores
votam, etc. Wundt e Durkheim eram inflexíveis defensores
da teoria de que o coletivo não podia ser explicado em
termos do individual. Allport não partilhou seus escrúpulos
no que se refere aos perigos do reducionismo. F.H. Allport
teve uma influência muito maior do que todos os outros
teóricos listados na Tabela 1, com respeito ao desenvolvi­
mento da p s ic o l o g i a s o c i a l na América do Norte.

Há um autor, cujo nome aparece na Tabela 1, e sobre


o qual eu ainda não teci nenhum comentário. É Saussure.
A distinção de Saussure entre “parole” e "langue” é impor­
tante. Não é tecnicamente uma distinção entre o nível do
indivíduo e o nível do coletivo. Isso porque "parole" (isto
é, fala) é, ela mesma, interativa. A "langue” se coloca, com
certeza, num nível coletivo, e é assim que ela é tratada pelo
lingüista profissional. A tentativa mais séria de reduzir
"langue” a “parole" não aconteceu durante o período que
estamos aqui analisando. Ocorreu na era moderna, com a
publicação, em 1957, de Verbal Behaviour, de Skinner. No
mesmo ano Chomsky publicou seu livro Syntactic Gram-
mar. É amplamente aceito, entre os lingüistas, que a
revisão subseqüente, feita por Chomsky, do livro de Skinner
(Chomsky, 1959) desacreditou qualquer tentativa de redu­
zir “langue" a “parole” . Como um racionalista, dentro da
tradição cartesiana, Chomsky coloca a linguagem ao nível
do indivíduo. Suas estruturas sintáticas são semelhantes à
noção de idéias inatas de Descartes.

A Teoria e sua Difusão

Moscovici não desenvolveu sua teoria num vazio cul­


tural. Ele teve a capacidade de se apoiar nos fundadores
das ciências sociais na França, especialmente em Durk­
heim. Sendo que Durkheim foi um dos fundadores da
sociologia moderna, a teoria de Moscovici é freqüentemen­
te classificada, com muita propriedade, como uma forma
sociológica de p s ic o l o g ia s o c i a l .

Moscovici afirma que a noção de representação coletiva


de Durkheim descreve, ou identifica, uma categoria cole­
tiva que deve ser explicada a um nível inferior, isto é, em
nível da p s ic o l o g ia s o c i a l . É aqui que surge a noção de
representação social de Moscovici. Ele também julga mais
adequado, num contexto moderno, estudar representações
sociais do que estudar representações coletivas. O segun­
do conceito era um objeto de estudo mais apropriado num
contexto de sociedades menos complexas, que eram do
interesse de Durkheim. As sociedades modernas são ca­
racterizadas por seu pluralismo e pela rapidez com que as
mudanças econômicas, políticas e culturais ocorrem. Há,
nos dias de hoje, poucas representações que são verdadei­
ramente coletivas.
Alguns analistas poderiam afirmar que os argumentos
de Moscovici possuem uma força ainda maior num con­
texto pós-moderno. Há uma espécie de paradoxo aqui. Os
objetos de estudo da VPs de Wundt eram linguagem,
religião, costume, mito, mágica e fenômenos semelhantes.
Essas são, também (possivelmente, talvez, com exceção
da linguagem), as representações coletivas nas quais Durk­
heim estava interessado. Moscovici modernizou esse pan­
teão de objetos sagrados, substituindo a magia pela
ciência. A ciência é uma das forças que distinguem o
mundo moderno do mundo medieval. Ela é, como afirma
Moscovici, uma fonte fecunda de novas representações.
Moscovici estava modernizando a ciência social, ao subs­
tituir representações coletivas por representações sociais,
a fim de tornar a ciência social mais adequada ao mundo
moderno. Ele não estava indo além da modernidade para
a pós-modernidade. Ele pode parecer um profeta pós-mo-
derno, mas isso é apenas porque ele está estudando as
representações sociais da ciência, e não a ciência em si
mesma. Sua teoria é adequada à investigação empírica das
concepções leigas da ciência (Far, 1993). Ela não é apro­
priada, e nem Moscovici defende que o seja, para com­
preender o mundo do cientista pesquisador (Purkhardt,
1993). São as concepções leigas da ciência que são frag­
mentadas, não as concepções de mundo do cientista. Os
pós-modernistas defendem que a última é a afirmação
verdadeira.

O estudo de Moscovici sobre as representações da


psicanálise foi uma contribuição para a sociologia do
conhecimento. Ele estava interessado em observar o que
acontece quando um novo corpo de conhecimento, como
a psicanálise, se espalha dentro de uma população huma­
na. Ele colheu amostragens do conhecimento, das opiniões
e das atitudes das pessoas, com respeito à psicanálise e
aos psicanalistas. Os métodos empregados nessa parte de
seus estudos são bastante convencionais, isto é, questio­
nários semi-estruturados, pesquisa de opinião, etc. Ele,
contudo, foi além disso, e colheu amostragens sobre a
informação que circulava na sociedade, com respeito ao
objeto de seu estudo. Isso compreendia uma análise de
conteúdo dos meios de comunicação de massa. Ele colheu
amostragens dos conteúdos de alguns dos 241 jornais e
revistas publicados na França entre 1Qde janeiro de 1952
e l s de março de 1953, de todas as referências á psicanálise.
As representações estão presentes tanto "no mundo” ,
como “na mente” , e elas devem ser pesquisadas em ambos
os contextos. Os psicólogos sociais fora dessa tradição
francesa de pesquisa tendem sempre a pesquisar apenas
a última, e não o primeiro. Isso não foi sempre assim. Em
1920, em Chicago, por exemplo, Thurstone pesquisou
ambos os tipos de conteúdo, na construção de suas escalas
de atitude social, em tópicos como: a igreja; guerra e paz;
divórcio, etc. O fato de que assuntos tenham sido divulga­
dos através da mídia é uma ocasião propícia para que se
possa estudá-los empiricamente através de escalas de
atitude, pesquisas de opinião, questionários, etc. Somente
vale a pena estudar uma representação social se ela estiver
relativamente espalhada dentro da cultura em que o estudo
é feito. Isso era certamente verdadeiro quanto à psicanáli­
se, na França de 1950. Não seria verdadeiro, contudo, para
a psicanálise na Inglaterra, nesse mesmo período.
A teoria, isto é, a psicanálise difere nitidamente de sua
representação social. Moscovici estudou apenas a segun­
da. Lagache, que supervisionou o estudo, e fez o prefácio
do livro, sentiu a necessidade de explicar aos leitores por
que um livro escrito por um psicólogo social poderia
aparecer numa biblioteca devotada à psicanálise. A psica­
nálise se originou numa cultura diferente daquela em que
Moscovici estudou sua difusão. Esse é um exemplo, por­
tanto, da absorção de uma cultura por outra. Esse aspecto
do estudo pioneiro de uma representação social reflete uma
fonte da teoria não coberta na primeira secção, isto é, a
noção de convencionalização de Bartlett (Bartlett, 1932,
cap. XVI). Saito (1994) argumenta que Moscovici deve mais
a Bartlett do que até agora se reconheceu. Ele certamente
cita o trabalho de Bartlett, e Bartlett se inspirou em muitas
das mesmas fontes francesas usadas por Moscovici (por
exemplo, o estudo de Halbwachs), na construção de sua
teoria. Em um dos seus experimentos mais lembrados,
Bartlett estudou o que sucedeu quando estudantes de
Cambridge reproduziam teatralmente uma história inspira­
da na cultura indígena americana ("a guerra dos fantas­
mas”). Caraterísticas estranhas da história original eram
alteradas ao se recontar a história. A história se conven-
cionalizou nos termos da cultura na qual ela foi transmitida.
Moscovici mostrou um processo semelhante em ação com
respeito à psicanálise. Esse é um processo que Moscovici
chamou "ancoragem” . O não-familiar torna-se familiar,
tanto no trabalho de Bartlett como no de Moscovici.
O referencial apresentado por Bartlett é útil quando
alguém investiga a difusão dum produto cultural, dentro
de um contexto cultural diverso. Saito (1994) o usou com
sucesso ao estudar a construção social do Zen-Budismo na
Inglaterra. Os exemplos de transmissão cultural, estudados
por Bartlett, eram mais exóticos que os estudados por
Moscovici. No caso da psicanálise, como estudada por
Moscovici, a transmissão era de uma cultura européia para
outra. Moscovici estava interessado num limite cultural
que era de pouco interesse para Bartlett - o limite entre
ciência e pensamento leigo. Na verdade, ele está primaria­
mente interessado nas representações leigas da ciência. O
interesse, nesse caso, é mais sociológico que antropológi­
co. Ele tem mais a ver com modernidade (veja acima), do
que com cultura per se. Contudo, a mecânica de assimila­
ção e contraste, inicialmente identificada por Bartlett, e
posteriormente elaborada por Piaget em seus estudos sobre
o desenvolvimento cognitivo dos indivíduos, é também
evidente na obra de Moscovici. Na época de sua pesquisa,
o psicanalista era ainda uma figura recente no palco
cultural da França. Alguns informantes de M oscovici-
compararam o analista à figura mais familiar do sacerdote;
outros, à figura mais familiar do médico. As comparações
implicam tanto semelhanças como diferenças. Alguém
pode se confessar com um analista como se fosse um
sacerdote, mas o contexto é secular, em vez de religioso.
Muitos analistas possuem qualificações médicas. Alguém
pode se consultar com um analista, como o faria com um
médico, mas, diferentemente do médico, o analista não
prescreve remédios.

Seria um erro, contudo, pensar que os processos de


assimilação e contraste operam, na obra de Moscovici,
apenas a nível individual. Na sua análise dos meios de
comunicação de massa, ele contrastou a representação da
psicanálise na imprensa católica com sua representação na
imprensa marxista. A relação entre catolicismo e psicaná­
lise era uma relação de assimilação e simbiose; entre
marxismo e psicanálise, ao menos nos inícios dos anos 50,
a relação era de contraste e rejeição. Mostrar como o
mesmo objeto (isto é, a psicanálise) era diferentemente
representado em literaturas diferentes se constitui, talvez,
num exemplo inicial de intertextualidade. A análise é
certamente executada a um nível cultural, e não ao nível
do indivíduo.

Creio ter ficado suficientemente claro, através da mi­


nha exposição da teoria feita até aqui, que ela contribui
significativamente para nossa compreensão dos fenôme­
nos coletivos. Isso se reflete na escolha, feita por Mosco­
vici, de um ancestral para esta tradição de pesquisa (isto
é, Durkheim) que, por sua vez, ajuda a garantir que ela seja
uma forma sociológica, e não psicológica, de p s ic o l o g i a
s o c i a l . A o chamar a atenção para a importância da VPs

de Wundt, e ao mostrar os elos entre a obra de Wundt e a


de Durkheim (Farr, 1978; 1983a, b, c; 1985; 1991c), procurei
demonstrar que esse enfoque globalizante no estudo dos
fenômenos coletivos é uma tradição de pesquisa européia,
e não apenas francesa. Se nós acrescentarmos a obra de
McDougall, The Group Mind (veja Farr, 1986), isso o torna
ainda mais uma tradição européia. 0 ataque de F.H. Allport
a McDougall (veja acima) é uma prova evidente que a forma
psicológica de p s ic o l o g i a s o c i a l , que Allport tentava
desenvolver na América do Norte, era incompatível com
todo o enfoque europeu. Mais evidência dessa incompati­
bilidade encontramos ao analisar a situação existente den­
tro das tradições psicológicas da p s ic o l o g i a s o c i a l na
América do Norte, em 1935, quando da publicação do livro
de Murchison Handbook of Social Psychology. O Handbook
foi o sinal identificador, na América do Norte, da influência
de Wundt no desenvolvimento das ciências sociais. Sua
estrutura, e até mesmo os títulos de vários de seus capítu­
los, refletem a VPs de Wundt. A p s ic o l o g i a s o c i a l é aqui
um ramo da psicologia comparativa. O progresso, nos
termos das séries modernas de Handbooks editados por
Lindzey (1954), e por Lindzey e Aronson (1968/9; 1985), é
medido explicitamente em termos de distância desse mar­
co central de 1935 (para uma exposição mais completa
desse assunto veja-se Farr, 1991c).
Desde o início, a t e o r i a d a s r e p r e s e n t a ç õ e s s o c ia is
de Moscovici se constituiu numa importante crítica sobre
a natureza individualizante da maior parte da pesquisa em
p s ic o l o g i a s o c i a l na América do Norte. Isso está claro na

sua revisão da pesquisa sobre atitudes e opiniões (Moscovici,


1963). Ele ataca a esterilidade da maioria das enquêtes de
opinião pública. Considera toda essa área de pesquisa
como mera “coleta de informação". Do ponto de vista do
desenvolvimento da p s ic o l o g i a s o c i a l , ela é um beco sem
saída. Ela pode ser metodologicamente sofisticada e refi­
nada, mas ela é teoricamente estéril. Moscovici suspirou
pelo dia em que as representações sociais pudessem
substituir as opiniões e imagens, pois esses termos são
demasiadamente estáticos e descritivos. Temos aqui um
teórico europeu (isto é, Moscovici), em luta contra o
assassino americano (isto é, F.H. Allport) de outro teórico
europeu (isto é, McDougall). A p s ic o l o g i a s o c i a l , na
América do Norte, se tornou individualizada, por razões
que serão discutidas, com mais detalhes, na breve secção
final desse capítulo. Uma das maneiras de re-socializar a
p s ic o l o g ia s o c i a l na América do Norte seria a aceitação,

por parte dos psicólogos sociais americanos, da t e o r i a d a s


r e p r e s e n t a ç õ e s s o c ia is .

Vimos, na secção anterior desse capítulo, que Le Bon


preparou o caminho para aquilo que, mais tarde, se tornaria
a individualização da p s ic o l o g i a s o c l a l . A interpretação
de Le Bon, feita por Allport, contudo, não é a única
possível. A interpretação de Le Bon feita por Moscovici
(1981) é bastante diversa. Ele avalia a importância da
predição de Le Bon de que o século vinte seria a era das
massas. Ele vê Le Bon como alguém que atualiza Maquia-
vel, para poder compreender os meios de comunicação de
massa. Ele também considera Freud como o mais assíduo
discípulo de Le Bon. Demonstrou como Le Bon criou uma
representação social das massas que os líderes políticos,
em nosso século, consideraram útil e colocaram em práti­
ca. Várias passagens de Le Bon aparecem no Mein Kampf,
de Hitler (1925/6), e Mussolini tinha uma cópia da obra,
com anotações. Os líderes das massas necessitam uma
representação das massas que lideram. Moscovici mostrou
que isso se aplica também para os ditadores de esquerda,
como Lenin e Stalin. Ele também identificou a influência
de Le Bon sobre Roosevelt e De Gaulle.
Existe aqui uma forte evidência, a partir da história
política desse século, que não existe nada mais prático do
que uma boa teoria. Psicólogos sociais experimentais pre­
ferem tratar Le Bon como um popularizador da ciência, e
tratar suas idéias como desprovidas de valor científico ou,
como F.H. Allport, reinterpretar suas idéias de uma manei­
ra mais científica. Moscovici crê que essas atitudes são
perigosas. Se nós, como psicólogos sociais, não compreen­
demos a p s ic o l o g i a s o c i a l das massas, então nós pode­
mos nos tornar vulneráveis, mais uma vez, quando um líder
político traduz essa teoria política para a prática. O estudo
de Moscovici sobre Le Bon originou uma trilogia de volu­
mes sobre a mente e o comportamento das multidões,
liderança política e teoria da conspiração (Graumann &
Moscovici, 1986a, 1986b, 1987). A diferença essencial entre
Moscovici e F.H. Allport, em suas respectivas interpreta­
ções de Le Bon, é que Moscovici escreve como um cien­
tista social e político, ao passo que Allport escreve como
um cientista comportamentalista.
O resultado da segunda perspectiva, como demonstra
Graumann (1986a), é a individualização da p s ic o l o g ia s o c i a l .

A p s ic o l o g i a s o c i a l , especificamente como disciplina,


interessa-se com a relação entre indivíduo e sociedade.
Deve existir ali uma tensão criativa entre esses dois ele­
mentos, no coração de qualquer forma viável dessa disci­
plina. Na p s ic o l o g i a s o c i a l de G.H. Mead, por exemplo,
existe uma tensão criativa entre o Eu e o Mim ("I" e "M e”).
Essa é uma parte essencial de sua teoria sobre o self
humano. Na t e o r i a d a s r e p r e s e n t a ç õ e s s o c ia is , existe
uma justaposição entre a pesquisa sobre influência da
minoria (Moscovici, 1976, 1979) e pesquisa em repre­
sentações sociais. Não está claro se essas são duas teorias
separadas, ou parte-parcela de uma única e mesma teoria.
Eu, pessoalmente, me inclino para a segunda visão. O
indivíduo tanto é um agente de mudança na sociedade
como é um produto dessa sociedade. Saussure e Barthes
exemplificaram como o ser humano é tanto o senhor como
o escravo da linguagem.
Tendo Durkheim como um ancestral, a t e o r i a d a s
representaçõ es SOCIAIS, de maneira mais que adequada,
cobre o quanto um indivíduo é um produto da sociedade.
Há agora a necessidade de um ancestral de status compa­
rável a Durkheim, para cobrir o quanto o indivíduo muda
a sociedade. Weber é exatamente um ancestral de tal
status. Para que exista uma tensão criativa entre dois
teóricos rivais, eles devem ambos operar ao mesmo nível
(como se mostrou na Tabela 1 acima). Essa é a razão por
que eu considero o individualismo como uma repre­
sentação coletiva, no sentido pleno do conceito de Durk­
heim (Farr, 1991b). Ichheiser (1948), que desenvolveu isso
de maneira bastante completa, foi influenciado tanto por
Weber, como por Durkheim, embora mais pelo primeiro do
que pelo segundo. O individualismo se coloca na coluna
da direita da Tabela 1. Ele é bastante diferente das várias
versões de indivíduo que compõem a totalidade da coluna
da esquerda.

O individualismo é importante em países com forte


tradição protestante e de conflito. Ele é forte, por exemplo,
em países do Norte da Europa e da América do Norte.
Durante o tempo da guerra fria, ele se tornou a ideologia
do Ocidente, em contraste com o coletivismo do Oriente.
Essa foi uma antítese infeliz, pois ela distorceu a p s ic o l o ­
g i a s o c i a l em ambos os lados da antiga cortina de ferro.

Sendo que a p s ic o l o g i a s o c i a l está especificamente inte­


ressada na relação entre o indivíduo e a sociedade, ela
perde sua vitalidade se um dos dois pólos dominar o outro.
A polarização entre individualismo e coletivismo é menos
pronunciada em países com uma forte influência do cato­
licismo, como por exemplo os países do Sul da Europa e
da América do Sul. É nesses países que o estudo das
representações sociais é particularmente forte. Isso pode
refletir um interesse em valores coletivos. Esse é um
assunto que mereceria ser investigado no contexto da
sociologia do conhecimento.

A individualização da p s ic o l o g ia s o c ia l na
América do Norte

Ao desenvolver a t e o r i a d a s r e p r e s e n t a ç õ e s s o c ia is
da maneira como o fez, Moscovici ajudou a preservar uma
parte importante do conjunto da tradição intelectual oci­
dental, especificamente a noção de representações coleti­
vas de Durkheim. Isso se tornou uma tradição empírica de
pesquisa, inicialmente na França, e agora em âmbito
mundial. Representações coletivas são parte da vida atual
da p s ic o l o g i a s o c i a l moderna (ao menos na forma de
representações sociais), e não, como na América do Norte,
parte do longo passado da disciplina. Quando Moscovici
estava desenvolvendo sua teoria, existiam programas con­
juntos de pós-graduação em p s ic o l o g i a s o c i a l em várias
universidades americanas de prestígio (veja-se acima e
também Lundstedt, 1968; Jones, 1985; Jackson, 1988), e
todos eles, a partir de então, deixaram de existir. De
maneira mais geral, a era moderna, na América do Norte,
viu a separação das formas sociológica e psicológica de
p s ic o l o g i a s o c i a l , com poucos, ou nenhum elo entre

ambas. O desenvolvimento espetacular foi o da p s ic o l o g ia


s o c i a l como uma subdisciplina da psicologia (Jones, 1985).

Existiam, também, tradições de pesquisa na Europa que


seguiram essa linha, como, por exemplo, a teoria de
identidade social de Tajfel. Esses desenvolvimentos foram
o resultado, na era moderna, das forças sociais que esta-
vam atuantes no período entre as duas guerras mundiais,
e que foram discutidas numa secção anterior desse capí­
tulo. Isso faz parte do que Graumann (1986), referindo-se
especificamente à contribuição de F.H. Allport, chamou de
"individualização do social".
Dois fatores mais, além dos identificados por Grau­
mann, vieram à cena, nesses anos de grande desenvolvi­
mento, que se seguiram ao fim da Segunda Guerra
Mundial, e que aceleraram grandemente a individualização
da p s ic o l o g i a s o c i a l . O primeiro foi a generalização, para
as outras ciências sociais, do pressuposto positivista que
inspirava a p s ic o l o g i a s o c ia l de F.H. Allport (1924). Isso
ocorreu quando as ciências sociais na América do Norte,
de modo geral, passaram a ser chamadas de ciências
comportamentalistas. Em grande parte, esse foi um estra­
tagema para garantir que elas fossem convenientemente
fundamentadas. Os políticos que garantiam os fundos para
a pesquisa científica estavam acostumados a confundir
ciência social com socialismo. Essa foi também a era de
MacCarthy, e o início da guerra fria. Pessoalmente, penso
que os efeitos desastrosos de MacCarthy, no desenvolvi­
mento histórico das ciências sociais na América do Norte,
têm de ser ainda estudados de modo mais completo.
Embora a pesquisa nas ciências do comportamento possa
ter recebido mais verbas (e certamente a um nível mais
generoso que na Europa), havia um preço a pagar por esse
alto grau de ajuda, isto é, a individualização conseqüente
do social. Como conseqüência, as ciências sociais na
América do Norte se tornaram menos explicitamente so­
ciais que as da Europa. Se os psicólogos sociais, na
América do Norte, quiserem re-socializar sua disciplina, e
reverter assim a individualização do social, eles consegui­
rão fazer isso de maneira correta se se voltarem para os
modelos de ciência social da Europa, em vez dos da
América do Norte.
Dentro da p s ic o l o g i a s o c i a l , e do modo como ela se
expandiu historicamente na América do Norte durante o
período moderno, houve ainda uma onda posterior de
individualização do social, além da descrita por Graumann.
Essa foi uma conseqüência da migração dos psicólogos
gestaltistas da Áustria e Alemanha para a América do
Norte. Embora essa migração tivesse ocorrido antes do
início da guerra, seus efeitos globais somente foram detec­
tados após a guerra. Os emigrantes contribuíram de ma­
neira muito significativa para o florescimento da p s ic o ­
l o g i a s o c i a l como um fenômeno caracteristicamente nor-

te-americano, nos anos do pós-guerra. O referencial de


“visão de mundo", para o estudo das atitudes, que é
característico da teoria da gestalt, chegou a predominar
sobre o referencial de "consistência da resposta” dos
behavioristas (veja-se Campbell, 1963, para uma exposição
mais completa da distinção entre esses referenciais anta­
gônicos). O behaviorismo foi a causa principal da primeira
onda de individualização da p s ic o l o g i a s o c i a l . A psicolo­
gia da gestalt foi a causa principal da segunda onda de
individualização da p s ic o l o g ia s o c i a l . O behaviorismo
representa a perspectiva do observador dos outros; a
psicologia da gestalt representa a perspectiva do ator, nas
ciências sociais. Ambas as perspectivas são individualis­
tas, e são incompatíveis entre si. Jones e Nisbett (1972)
discutiram a divergência de perspectiva entre atores e
observadores. A coexistência de duas perspectivas incom­
patíveis e individualizantes impede que uma ciência social
se estruture.
Penso ter demonstrado, tanto em termos históricos
como teóricos, por que a t e o r i a d a s r e p r e s e n t a ç õ e s
s o c ia is de Moscovici é polêmica no contexto da p s ic o l o g ia

s o c i a l moderna da América do Norte. Parece muito mais

um retorno ao passado, e isso de modo algum pode ser


aceito, se alguém se orienta por uma filosofia positivista da
ciência. Se o ancestral preferido da p s ic o l o g i a s o c i a l for
Comte, em vez de Durkheim, aceitar uma teoria como a
das Representações Sociais dificilmente será um sinal de
progresso.

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SANDRA
JOVCHELOVITCH
2. VIVENDO A VIDA COM OS OUTROS:
INTERSUBJETIVIDADE, ESPAÇO
PÚBLICO E REPRESENTAÇÕES
SOCIAIS

Sandra Jovchelovitch
A t e o r i a d a s r e p r e s e n t a ç õ e s s o c ia is já não é novida­
de. Mais de 30 anos depois do aparecimento do conceito
na obra seminal de Serge Moscovici (1961) sobre psicaná­
lise na França, o debate, enriquecimento teórico e a pes­
quisa em torno das representações sociais tornaram-se fato
no âmbito da p s ic o l o g i a s o c i a l . Tal fato, entretanto, está
longe de ser o fato neutro e asséptico que faz o prazer e o
gosto dos cânones estabelecidos da disciplina. Pelo con­
trário, a teoria nasceu - e cresceu - sob a égide de in­
terrogações radicais, que repõe contradições e dilemas que
ainda hoje precisamos responder. Talvez a principal dessas
contradições seja a relação indivíduo-sociedade e como
esta relação se constrói. Se de um lado sofremos os
equívocos de uma compreensão demasiado individualizan-
te, psicologicista nos seus parâmetros de compreensão da
subjetividade, por outro, muitas vezes as tentativas de
introduzir conceitos sociológicos à p s ic o l o g i a s o c i a l su­
cumbiram à tentação maniqueísta do inverso. Assim, ou
ficávamos no indivíduo fechado no âmbito de um Eu
abstraído do mundo que o constitui, ou tratávamos a
sociedade e a história como abstração. Uma sociedade sem
sujeitos ou sujeitos sem uma história social são parte de
problemas que todos nós conhecemos muito bem - e
recuperar essa conexão é uma das tarefas cruciais que
temos pela frente.
Associada a esta primeira contradição, há uma outra,
que de certa forma é bastante similar. O domínio das
operações simbólicas, o espaço das construções humanas
sobre o real, onde a realidade enquanto campo contratual
pode ser expandida, redefinida, e eventualmente transfor­
mada, exige que repensemos o caráter atribuído à relação
entre mundo material e mundo simbólico. Porque se é bem
verdade que nós na América Latina (e diga-se, não de
passagem, não só na América Latina) estamos atravessa­
dos pela violência concreta de relações sociais desiguais,
não é menos verdadeira a consideração de que também
estamos atravessados pela força impressionante da Pala­
vra. A noção de que o símbolo se constrói apenas como
máscara de estruturas sociais desiguais deve, no meu
entendimento, ser colocada em questão.

No rastro dessas contradições poderíamos ainda iden­


tificar várias outras, todas ligadas a dissociações profun­
das, que separaram o subjetivo do objetivo, o qualitativo
do quantitativo, o coletivo do individual e assim por diante.
Estes - me parecem - são elementos suficientes para
exemplificar um dos mais caros pressupostos da Psicolo­
gia, que lhe forneceu um avatar central: a unidade do
sujeito. Por ser concebido como coeso, racional, idêntico a
si mesmo, qualquer tensão entre o ser humano e o mundo
devia ser excluída. Daí a origem de conceitualizações como
"coesão grupai", "consistência", “harmonia": se existe
uma essência humana sem tensões de qualquer ordem,
sem conflito e sem erro, a tarefa da p s ic o l o g i a s o c i a l
centrou-se historicamente na busca dessa harmonia.

As rupturas que a t e o r i a d a s r e p r e s e n t a ç õ e s s o c ia is
propõe recolocam nos espaços constitutivos da teoria e do
método em p s ic o l o g i a s o c ia l um lugar para o mundo
social e seus imperativos, sem perder de vista a capacidade
criativa e transformadora de sujeitos sociais. Nesse senti­
do, eu acredito que ela é um acerto de contas com a
p s ic o l o g i a s o c i a l . Minha contribuição aqui se situa dentro

desse acerto de contas. Neste capítulo, eu me proponho a


apresentar alguns dos modos como a t e o r i a d a s r e p r e ­
se articula tanto com a vida coletiva de
s e n t a ç õ e s s o c ia is

uma sociedade, como com os processos de constituição


simbólica, nos quais sujeitos sociais lutam para dar sentido
ao mundo, entendê-lo e nele encontrar o seu lugar, através
de uma identidade social. Isso significa deixar claro como
as representações sociais, enquanto fenômeno psicosso­
cial, estão necessariamente radicadas no espaço público e
nos processos através dos quais o ser humano desenvolve
uma identidade, cria símbolos e se abre para a diversidade
de um mundo de Outros.

A relação entre representações sociais e espaço públi­


co é complexa e deve ser discutida com cuidado. Esta é
uma das dimensões da teoria que está relacionada com a
lógica de produção das representações sociais enquanto
fenômeno. Meu argumento central é de que a esfera
pública, enquanto lugar da aIteridade, fornece às repre­
sentações sociais o terreno sobre o qual elas podem ser
cultivadas e se estabelecer. Mas a alteridade é também a
condição necessária para o desenvolvimento simbólico e
para o desenvolvimento do Eu. Como então se processa a
transição entre os trabalhos individuais de construção
simbólica - que como veremos também se fundam no
social - e a produção de representações sociais, que são
símbolos construídos coletivamente, de forma comparti­
lhada, por uma sociedade?

Para responder a essa questão, minha tentativa será a


de enunciar as condições que ligam a alteridade, a cons­
trução simbólica, o espaço público e as representações
sociais. Para discutir espaço público e alteridade, minha
proposta é pensar com Hannah Arendt e Jürgen Habermas,
e para relacionar símbolos e representações sociais, Win-
nicott e Piaget serão as fontes principais. As etapas da
discussão que proponho são três: (1) a esfera pública como
o espaço da alteridade, (2) o lugar da alteridade na cons­
trução da atividade simbólica e de que forma as repre­
sentações sociais se ligam à atividade representacional do
sujeito humano, e finalmente (3) em que medida as repre­
sentações sociais vão além, e portanto se diferenciam dos
trabalhos individuais de representação simbólica1.

Espaços do eu, espaços dos outros: esfera pública


e alteridade

O “social" tem sido uma categoria problemática em


p s ic o l o g i a s o c i a l . Seja porque
é apenas considerado como
uma variável influenciando fenômenos, ou porque aparece
“tapando os furos” de tradições individualizantes, pouco
se problematizou sobre a natureza mesma do social en­
quanto elemento constitutivo de fenômenos psicossociais.
Desde uma perspectiva histórico-crítica, o social geral­
mente tem sido as condições concretas da vida, que
envolvem desde relações sociais de produção até mecanis­
mos institucionais de várias ordens. Sem desconsiderar a
importância de tais aspectos, minha intenção aqui é explo­
rar os significados que a vida social assume na sua dimen­
são pública, no espaço em que uns se encontram com
outros, seja de forma direta, como nas ruas, nas praças,
nos rituais coletivos, etc., seja através de mediações insti­
tucionais.

Existem dois momentos históricos que podem ser


considerados paradigmáticos para a noção de esfera públi­
ca (Habermas, 1990). Um desses momentos corresponde à
cidade-estado grega e o outro refere-se às transformações
ocorridas na Europa do século XVII à primeira metade do
século XIX. Ainda que as noções de público que circulam
hoje tenham sido formadas no processo de ascensão e
transformação da assim chamada esfera pública burguesa,

1. Eu espero que fique claro desde o início que estas três etapas da minha
discussão são apenas uma ferramenta de análise e construção teórica. A
emergência do sujeito ontológico, com um sentido desenvolvido de Eu, está
amarrada à emergência da atividade simbólica, que por sua vez depende da
realidade social.
noções definindo o que é público e o que não é - quer dizer,
o que é privado - podem ser encontradas em um passado
mais remoto que vai até a Grécia Antiga. De fato, como
Habermas coloca “desde a Renascença o modelo da esfera
pública helênica, tal como foi transmitido pela autoconcep-
ção dos gregos, compartilhou com tudo que é considerado
“clássico" uma força normativa peculiar” (Habermas,
1990:4).
Eu acredito que essa força normativa peculiar a que
Habermas se refere tem origem na própria peculiaridade
da experiência grega. Foi talvez Hannah Arendt (1958)
quem delimitou de forma definitiva os significados e con­
figurações estruturais da esfera pública para os gregos
antigos, salientando a extensão em que o seu entendimen­
to original se perdeu em sociedades contemporâneas. De
certa forma, sua obra é uma crítica à filosofia ocidental
como um todo que preferiu falar do homem como categoria
universal ao invés da pluralidade humana (Schurmann,
1989). De acordo com Arendt, viver entre as pessoas de
modo humano pressupõe a capacidade de escapar do
domínio da pura necessidade para um espaço que é
qualitativamente diferente - o espaço da ação e do discur­
so, onde as pessoas realizam sua capacidade para falar e
agir. A condição sine qua non para a ação e o discurso é
a pluralidade humana, “o fato de que homens, e não o
Homem, vivem na terra e habitam o Mundo (1958:7).
Porque as pessoas são diferentes - e ao mesmo tempo as
mesmas - a ação e o discurso tornam-se necessários: se
nós fôssemos todos idênticos não haveria a necessidade
de comunicação ou da ação sobre o que nunca varia; se
nós não tivéssemos nada em comum a fala perderia seu
próprio fundamento e a ação não justificaria a si mesma. É
na experiência da pluralidade e da diversidade entre pers­
pectivas diferentes - que, porém, pode levar ao entendi­
mento e ao consenso - que o significado primeiro da esfera
pública pode ser encontrado. Arendt coloca que o termo
público indica dois fenômenos interligados, ainda que não
idênticos: primeiro, o que é público pode ser visto e
escutado por todos e possui a máxima publicidade; segun­
do, público refere-se ao Mundo mesmo, naquela medida
em que ele é comum a todas as pessoas e se diferencia do
espaço privado de cada um dentro dele. Assim, a esfera
pública estabelece as fronteiras que tanto ligam como
separam as pessoas, que tanto as une como as impede de
tropeçar umas nas outras (Arendt, 1958:50-52).

Ao mesmo tempo, a vida pública fornece as condições


necessárias para a permanência e a história, já que ela não
pertence apenas a uma geração e não se restringe aos que
vivem. Ainda que este é o espaço que todos entram ao
nascer e deixam para trás ao morrer, ele mesmo transcende
o ciclo de vida de uma geração. Sua imortalidade envolve
sua capacidade para produzir, manter e transformar uma
história que permanece nos artefatos e narrativas huma­
nas. Se as pessoas estivessem isoladas dentro de espaços
privados no mundo nem a história, nem a vida política
seriam possíveis. É a arena de encontros da vida pública
que garante as condições para descobrir as preocupações
comuns do presente, projetar o futuro e identificar aquilo
que o presente e o futuro devem ao passado. Mais ainda,
porque sua realidade é plural, a esfera pública tem sua base
no diálogo e na conversação: ainda que o Mundo seja o
solo comum a todos os seres humanos, as posições dentro
dele variam e nunca podem coincidir plenamente. A única
possibilidade para que ocorra uma coincidência de pers­
pectivas depende do esforço de uns em direção aos outros,
de um processo de ação e discurso que contenha tanto as
diferenças como as similaridades entre as pessoas - isto é,
diálogo.

O modelo liberal da esfera pública nas sociedades


burguesas está hoje no centro dos debates relacionados
aos problemas da cidadania, da democracia e participação
política. Tomando Habermas (1990; 1992) como ponto de
partida, cientistas sociais das mais variadas disciplinas têm
questionado a denotação e conotação do modelo liberal de
esfera pública. Até que ponto ela epitomiza os princípios
de liberdade, igualdade e fraternidade que desde o século
XVIII são as espinhas dorsais da racionalidade ocidental?
O trabalho de Habermas está centrado na emergência,
desenvolvimento e transformação da esfera pública bur­
guesa e permanece ainda hoje a mais completa análise
dessa nova categoria das sociedades burguesas. Nele,
Habermas define a esfera pública como um espaço em que
cidadãos se encontram e falam uns com os outros de forma
que garanta acesso a todos. É a esfera onde o princípio da
transparência e prestação de contas se desenvolve. Ao
mesmo tempo, implica um diálogo entre cidadãos que
incorpora uma série de características ideais, tais como: 1)
o debate no espaço público deve ser aberto e acessível a
todos; 2) as questões em discussão devem ser preocupa­
ções comuns - interesses puramente privados não são
admissíveis; 3) desigualdades de posição são desconside­
radas; e 4) os participantes devem decidir como iguais. O
resultado de tal espaço público então seria a opinião
pública, considerada como um consenso adquirido através
do livre debate sobre a vida em comum. O uso da razão
para guiar o debate foi outra das novidades históricas do
modelo liberal da esfera pública - através dele, a sociedade
como um todo cria um saber sobre si mesma. A preocupa­
ção de Habermas é mostrar e discutir como as funções
críticas da esfera pública foram enfraquecidas pelas trans­
formações que ela sofreu sob o capitalismo, e, ao fazer isso,
ele evoca um compromisso com os seus ideais - como um
espaço que deve ser recuperado, como um espaço que
racionaliza o exercício do poder através do debate público.
A este ponto meu leitor poderia perguntar, não sem
alguma razão, onde estão as representações sociais? Sem
dúvida é exatamente aqui que elas estão, mas vou me
permitir continuar pelos caminhos a que me propus no
início. O que aparece claro aqui, ainda que não a represen­
tação social explicitamente, é a alteridade. Esses aspectos
constitutivos da esfera pública deixam claro sua correspon­
dência com as discussões propostas por Mead (1934) sobre
o Outro generalizado. Como ele nos ensinou, o Outro
generalizado é que dá ao sujeito sua possível unidade
enquanto Eu, e não há possibilidade de um desenvolvimen­
to do Eu sem a intemalização de Outros. A importância de
uma comunidade segue daí: ela evidencia um "nós" ne­
cessário para a constituição de cada ser humano, que
atesta que vidas privadas não surgem a partir de dentro,
mas a partir de fora, isto é, em público.

A esfera pública portanto, como o espaço que existe


em função da pluralidade humana, como o espaço que se
sustenta em função de diversidade humana, como o espa­
ço que introduz a noção de transparência e "prestação de
contas” , como o espaço que encontra sua forma de expres­
são no diálogo e na ação comunicativa, traz para o centro
da nossa análise a dialética entre o Um e o Outro, e sublinha
a importância das relações entre sujeito-outros sujeitos-so-
ciedade para dar conta dos possíveis significados tanto da
vida individual como da vida pública. Porque quem sou Eu
se não o Eu que Outros apresentam a mim? O espelho
como objeto de autoconfrontação nos lembra os perigos do
destino de Narciso e permanece um sinal de quão perigosa
a justaposição de imagens controladas apenas pelos olhos
de Um pode ser. A possibilidade real de confrontação,
portanto, nos é dada por um outro espelho na vida cotidia­
na - a face de um Outro, os olhos de um Outro, o gesto de
um Outro. O fato de que os seres humanos podem interro­
gar a si mesmos e podem usar diferentes territórios para
refletir sobre suas identidades demonstra claramente que
para além de qualquer tipo de isolacionismo e individua­
lismo a verdadeira possibilidade de acesso à individualida­
de reside na presença de Outros.

Mas se a vida pública, enquanto alteridade, é um


elemento constitutivo na gênese e desenvolvimento de
vidas individuais, ela também pode iluminar alguns dos
parâmetros normativos que definem a vida em comum.
Porque idéias de que é necessário abstrair interesses pu­
ramente privados (ou individuais) para construir a noção
de "nós", de que argumentação e debate devem valer mais
do que posição e estatus, de que porque Outros existem é
necessário a cada um explicar-se, prestar contas, agir na
luz clara da visibilidade pública e não atrás dos panos
quentes de interesses ocultos, ainda definem em muito a
qualidade da vida - que se tem ou não se tem - em
sociedade. Mais ainda, é através da ação de sujeitos sociais
agindo no espaço que é comum a todos, que a esfera
pública aparece como o lugar em que uma comunidade
pode desenvolver e sustentar saberes sobre si própria - ou
seja, representações sociais.

Representações Sociais, representação e atividade


simbólica

A relação entre o conceito de representações sociais e


atividade representacional per se é repleta de ambigüida­
des. Boa parte dessas ambigüidades tem origem no fantas­
ma do cognitivismo e sua perspectiva individualizante no
estudo das representações individuais. De fato, o peso de
tais teorias - onde uma representação é mero reflexo do
mundo externo na mente, ou uma marca da mente que se
reproduz no mundo externo - não merece ser facilmente
esquecido. Existe entretanto um outro fantasma que as­
sombra o estudo das representações individuais: o fantas­
ma de Freud e toda a literatura produzida no domínio da
psicanálise relacionada aos símbolos. Não há dúvida que
a t e o r i a d a s r e p r e s e n t a ç õ e s s o c ia is se constrói sobre
uma teoria dos símbolos. Elas são consideradas, de acordo
com Moscovici, formas de conhecimento social que impli­
cam duas faces, tão inter-ligadas como os dois lados de
uma folha de papel: o figurativo, ou lado imageante, e o
lado simbólico (Moscovici, 1981). Precisamos, portanto,
elucidar esse último fantasma se a complexa relação que
existe entre representações e atividade simbólica quiser ser
reconhecida dentro da teoria das representações sociais.

A formação e desenvolvimento de representações e


símbolos, tal como foram descritos por Winnicott e Piaget,
revelam a natureza pública dos processos subjacentes à
formação das representações sociais. O modelo de desen­
volvimento do Eu de Winnicott, e as pesquisas piagetianas
sobre as estruturas que atravessam o desenvolvimento da
criança são exemplos das complexas relações entre o
infante e seu meio, bem como dos principais elementos
que fazem essas relações significativas. Ambos considera­
ram a atividade simbólica como um produto do Eu plena­
mente desenvolvido e ambos consideraram que é somente
quando o ser humano está preparado para integrar a si
mesmo em uma rede de perspectivas globais que vai além
de si mesmo para o conjunto da humanidade, é que ele
torna-se um Eu. Temos aqui o Símbolo, o Eu e a Alteridade
como elementos constitutivos um do outro.
Segundo Winnicott, a trajetória que vai de uma abso­
luta dependência e uma independência relativa é o que
caracteriza o desenvolvimento do ser humano. O fato de
que o ser humano é prematuro ao nascer e se encontra em
um estado de absoluta carência faz dos cuidados que ele
recebe de outros a primeira realidade psicológica a ser
enfrentada. A dramática do recém-nascido se expressa na
sua vulnerabilidade, que vem a ser mais tarde símbolo de
muitas outras vulnerabilidades. Mas essa dramática tam­
bém se expressa através do fato absolutamente acidental
de ser amado ou não, que dirige os cuidados externos que
ele recebe e portanto a sua sobrevivência. Paradoxalmente,
essa dependência extrema não o condena a uma situação
desprovida de poder; através de uma delicada dialética,
em que o bebê é vulnerável de modo absoluto, e, por isso,
o outro que o ama lhe presta cuidados também de forma
absoluta, encontra-se a chave de seu poder, e as bases da
onipotência. Ainda que por caminhos transversos, o re­
cém-nascido também controla seus Outros. Esta relação
entre a criança e o Outro que lhe presta cuidados se
desenvolve por um caminho tortuoso, repleto de contradi­
ções e fissuras, às vezes marcadas pelo amor, às vezes
marcadas pela privação. Porque quem cuida da criança é
um sujeito concreto, inserido em um mundo concreto, já
constituído e estruturado por relações sociais e repre­
sentações sociais. Em todo caso, ainda que marcado por
diferenças que têm origem em diferenças sociais, esse
primeiro encontro de cada ser humano com outros asse­
gura as bases para a confiança no meio e para as primeiras
experiências relacionais, onde a comunicação e mais tarde
a linguagem vão ocupar um lugar central. A visão winni-
cottiana da transição da dependência absoluta para a
relativa independência corresponde em muitos aspectos à
visão de Freud (1920) sobre a transição do princípio do
prazer para o princípio da realidade. Mas Winnicott desen­
volveu essa noção de modo diferente, já que, em alguma
medida, para ele o princípio da realidade era "um insulto".
Ele escreveu: “o princípio da realidade é o fato de que o
mundo existe, sem que o bebê o tenha criado, é um
arqui-inimigo da espontaneidade, da criatividade e sentido
do real” (Winnicott, 1961: 236). Mas se crescer, envolve
uma aceitação do mundo que é o “não-Eu" e uma relação
com este mundo, como o infante lida com esse “insulto”
da realidade? A resposta que Winnicott oferece é o con­
ceito de espaço potencial, que para ele é um estado
intermediário entre a incapacidade e a progressiva capaci­
dade da criança para reconhecer e elaborar a realidade. A
ilusão experienciada pela criança é a ilusão de onipotência,
que os cuidados primários permitem; onipotência que é
real para a criança e ilusória desde o ponto de vista do
observador. Nesse espaço a realidade e a fantasia se
encontram e tomam-se similares; nele a criança tem a
breve experiência de criar o que na verdade já está lá
esperando para ser encontrado.
Talvez seja a noção de espaço potencial que marca a
mais original contribuição da obra de Winnicott (Winnicott,
1951). Ele desenvolveu o conceito a partir de suas obser­
vações da relação que a criança estabelece com sua
primeira especial possessão. Este primeiro objeto - o objeto
transicional - é o primeiro a ter um caráter de “não-Eu”
para a criança e desempenha um papel crucial no desen­
volvimento teórico da concepção de ilusão dentro da
abordagem de Winnicott. Um outro passo para a elabora­
ção do espaço potencial entre o eu individual e a alteridade
é a atividade lúdica da criança pequena. O brincar é uma
derivação direta dos fenômenos transicionais e envolve
confiança no mundo externo e capacidade de estar "só" na
presença de outros. Ao mesmo tempo, o brincar diz res­
peito a um “brincar com a realidade"; em alguma medida
retém a experiência de onipotência e constrói uma reali­
dade única para a criança. Winnicott considerou que a
atividade lúdica está na base de toda a experiência cultural
e da criatividade, e para ele a comunicação sempre ocorre
na inter-secção de espaços potenciais que transcendem as
fronteiras fundamentais entre o Eu e o não-Eu. De fato, se
para Winnicott a própria essência do crescimento consiste
na criação de fronteiras onde o Eu e a realidade interna
aprendem a ser Um em relação e uma realidade comparti­
lhada de Outros, o espaçp potencial vai além dessas
fronteiras, porque nele as pessoas não estão nem no mundo
da fantasia, nem no mundo da realidade dos outros, mas
em um terceiro e paradoxal lugar que contém os dois
mundos ao mesmo tempo.
O espaço potencial é portanto o espaço dos símbolos.
Símbolos pressupõem a capacidade de evocar presença
apesar da ausência, já que sua característica fundamental
é que eles significam uma outra coisa. Nesse sentido, eles
criam o objeto representado, construindo uma nova reali­
dade para a realidade que já está lá. Eles provocam uma
fusão entre o sujeito e o objeto porque eles são expressão
da relação entre sujeito e objeto. Através de símbolos,
coisas diferentes podem significar umas as outras e podem
mergulhar umas nas outras; eles permitem uma variabili­
dade infinita, e, ainda assim, são referenciais. Assim, é da
essência da atividade simbólica - da atividade do espaço
potencial - o reconhecimento de uma realidade comparti­
lhada - a realidade de Outros. Mas, é um reconhecimento
criativo que leva a um envolvimento com outros e com o
objeto que é o mundo. É a referência do mundo que garante
a natureza criativa da atividade simbólica, de tal forma que
a experiência de um, ao se mesclar com a experiência de
outros, cria continuamente a experiência que constitui a
realidade de todos. Por isso Winnicott diz que é da diferen­
ça, no sentido pleno da palavra, que o Eu humano se
desenvolve, porque “quando se fala do homem, se fala dele
enquanto resultado de suas experiências culturais. O todo
forma a unidade" (Winnicott, 1967: 99).

Como Davis & Wallbridge (1981) assinalam, a análise


de Winnicott é bastante próxima das idéias de Piaget em
relação à formação de símbolos e a atividade lúdica da
criança. Ainda que o foco do trabalho de ambos fosse
diferente - Piaget dirigiu seu trabalho ao desenvolvimento
cognitivo e Winnicott ao desenvolvimento emocional - os
dois concordariam que tanto a dimensão intelectual quanto
a dimensão afetiva são inseparáveis no desenvolvimento
do sentido de realidade na criança.
O conjunto da obra piagetiana é extremamente impor­
tante para a p s ic o l o g i a s o c ia l e desempenha um papel
crucial na t e o r i a d a s r e p r e s e n t a ç õ e s s o c ia is (veja Du­
veen, neste volume). O aspecto que me parece o mais
importante para os objetivos de minha discussão aqui é
seu conceito de descentração. Esta é uma concepção que
atravessa toda sua obra e constitui, de acordo com o
próprio Piaget, uma das mais importantes facetas do de­
senvolvimento cognitivo da criança. Piaget compara o
processo de descentração com uma "Revolução Coperni-
cana em miniatura", e diz: “no início de seu desenvolvi­
mento o recém-nascido apreende tudo em relação a si
mesmo - ou mais precisamente ao seu próprio corpo -
enquanto que ao final desse período, isto é, quando a
linguagem e o pensamento iniciam, ele é para todos os
efeitos apenas um elemento ou entidade entre outros, em
um universo que ele próprio gradualmente construiu, mas
que daqui em diante ele vai experienciar como exterior a
si mesmo" (Piaget, 1964/1968: 9). A emergência do Eu em
oposição ao mundo externo ocorre em relação estreita (ou
mais ainda, como pré-condição) com as transformações
mentais que permitem a representação das coisas e, por­
tanto, o desenvolvimento do pensamento simbólico e da
linguagem.
Pesquisas em representações sociais consideram mui­
to dos processos descritos acima, ainda que em uma
dimensão diferente. Jodelet (1984; 1981) discute o conceito
da representação social e seu desenvolvimento em uma
teoria a partir do que uma representação é. Ela argumenta
que o ato da representação supera as divisões rígidas entre
o externo e o interno ao mesmo tempo que envolve um
elemento ativo de construção e re-construção; o sujeito é
autor da construção mental e ele a pode transformar na
medida em que se desenvolve. Sua análise do ato da
representação também delimita cinco características que
vêm a ser fundamentais na construção das representações
sociais. Essas características são o aspecto referencial da
representação, quer dizer, o fato de que elas sempre são a
referência de alguém para alguma coisa; seu caráter ima­
ginativo e construtivo, que a faz autônoma e criativa e
finalmente sua natureza social, o fato de que "os elementos
que estruturam a representação advêm de uma cultura
comum e estes elementos são aqueles da linguagem”
(Jodelet, 1984: 365). Parece claro aqui o quanto o ato da
representação é crucial para a própria construção das
representações sociais e como esta relação pode ser vista
no seu processo de desenvolvimento nas noções de espaço
potencial e atividade simbólica em Winnicott e Piaget.
Kaés (1984), ao elaborar sobre a representação desde
uma perspectiva psicanalítica, desenvolveu a hipótese de
que a representação é um trabalho, um trabalho de lem­
brança daquilo que está ausente e um trabalho de ligação.
Sua argumentação vai além, estabelecendo um paralelo
entre os processos que estão em jogo nos trabalhos da
representação e os processos em jogo na atividade onírica,
na vida psíquica e no inconsciente. Esses processos co­
muns para Kaés são o deslocamento e a condensação.
Ambos relacionam-se à capacidade de “brincar” com sig­
nificados. De fato, como Freud nos diz, o inconsciente e
seus processos "não é apenas mais descuidado, mais
irracional, mais esquecido e mais incompleto do que o
pensamento consciente; ele é completamente e qualitati-
vãmente diferente do pensamento consciente e por isso
mesmo não pode ser imediatamente comparado a ele. O
inconsciente não pensa, não calcula ou julga; ele restringe
a si mesmo a dar às coisas uma nova forma" (Freud, 1900:
507). Ora, é exatamente essa capacidade de dar às coisas
uma nova forma - através da atividade psíquica - que
constitui uma representação. Para Freud, o material primá­
rio da psique não tem como expressar-se de forma direta
e o modo de expressão possível é exatamente o da repre­
sentação, onde as pulsões encontram formas substitutivas
em diferentes objetos. A atividade psíquica, assim, envolve
uma mediação entre o sujeito e o objeto-mundo. Este
último reaparece sob a forma de representações, re-criado
pelo sujeito, que por sua vez é ele mesmo também re-criado
pela sua própria relação com o mundo. Poderíamos per-
guntar-nos, aqui, qual é a substância dessas re-presenta-
ções, além da carga afetiva que as pulsões depositam em
algo com forma diferente? A substância, ou o conteúdo do
qual as representações são feitas, são símbolos.

Piaget (1962) examinou o problema do símbolo incons­


ciente nos seus estudos sobre o desenvolvimento do sím­
bolo e da imagem mental na criança. As relações que ele
estabelece entre o jogo simbólico e os sonhos da criança
pequena demonstram a sua similaridade em termos tanto
de estrutura simbólica como de conteúdo. Não é acidental
descobrir que os processos subjacentes a ambos são des­
locamento e condensação porque ambos se caracterizam
pelo uso da representação simbólica. Mesmo os mais
básicos símbolos são o resultado de uma mistura de
imagens, de contrastes, de identificações, que condensam
por assim dizer a variedade de objetos, afetos e outros
significativos ao redor da criança. Daí que deve haver um
deslocamento de significados entre esses vários objetos
(objeto aqui refere-se a coisas e pessoas), dando a um a
referência do outro, evocando em um a presença do outro,
misturando em um a imagem e o som do outro. Torna-se
claro então que condensação e deslocamento são parte
inseparável da atividade simbólica.

Revisando, então: a atividade representacional é um


trabalho da psique. Tal trabalho ocorre através dos proces­
sos inconscientes que Freud descreveu como condensação
e deslocamento. Se considerarmos a atividade simbólica
de acordo com a noção de espaço potencial proposta por
Winnicott, nós poderemos concluir que símbolos se desen­
volvem sobre e com a atividade representacional. O sujeito
constrói, na sua relação com o mundo, um novo mundo de
significados. De um lado, é através de sua atividade e
relação com outros que as representações têm origem,
permitindo uma mediação entre o sujeito e o mundo que
ele ao mesmo tempo descobre e constrói. De outro lado,
as representações permitem a existência de símbolos -
pedaços de realidade social mobilizados pela atividade
criadora de sujeitos sociais para dar sentido e forma às
circunstâncias nas quais eles se encontram. É desneces­
sário dizer que, tanto de uma perspectiva conceituai como
de uma perspectiva genética, não há possibilidade para a
construção simbólica fora de uma rede de significados já
constituídos. É sobre e dentro dessa rede que se dão os
trabalhos do sujeito de re-criar o que já está lá. O sujeito
psíquico, portanto, não está nem abstraído da realidade
social, nem meramente condenado a reproduzi-la. Sua
tarefa é elaborar a permanente tensão entre um mundo que
já se encontra constituído e seus próprios esforços para ser
um sujeito.

Os processos discutidos acima são, no meu entender,


necessários para elucidar as implicações mais gerais das
representações sociais enquanto fenômeno mediador entre
o indivíduo e a sociedade. Eles iluminam as fundações
psicológicas das representações sociais e os intercâmbios
que dão forma à relação entre investimentos psíquicos e
realidade social. A análise do campo conceituai das repre­
sentações sociais nos confronta, no nível do social, com
duas dimensões fundamentais da atividade psicossocial: a
relação com o ausente e a evocação do possível.
Representações Sociais: a intersubjetividade e a
construção simbólica da realidade social

Até aqui eu procurei mostrar que as representações


sociais, porque simbólicas, se constroem sobre a capaci­
dade representacional de um sujeito psicológico. Essa
capacidade representacional por sua vez não pode ser
entendida fora de uma dimensão de alteridade. Entretanto,
ainda que seja tentador, as representações sociais não
podem ser diretamente equacionadas à atividade repre­
sentacional per se. Aqui, eu quero propor que os processos
que engendram representações sociais estão embebidos
na comunicação e nas práticas sociais: diálogo, discurso,
rituais, padrões de trabalho e produção, arte, em suma,
cultura. Tal afirmação pretende demarcar um campo de
distinção para as representações sociais. Ao longo de
minha discussão, eu procurei mostrar como a realidade
social - representada por outros - desempenha um papel
constitutivo na gênese das representações, da atividade
simbólica e do próprio sujeito individual. Agora, meu
desejo é discutir de que forma as representações sociais
vão além do trabalho individual do psiquismo e emergem
como um fenômeno necessariamente colado ao tecido
social. Essa discussão envolve uma distinção sútil. Quando
nós falamos em representações sociais, a análise desloca-
se para um outro nível; ela já não se centra no sujeito
individual, mas nos fenômenos produzidos pelas constru­
ções particulares da realidade social. Assim, o problema
não está em abandonar o indivíduo porque ele implica
necessariamente uma perspectiva individualista. Ao con­
trário, o problema central é reconhecer que, ao analisar
fenômenos psicossociais - e representações sociais - é
necessário analisar o social enquanto totalidade. Isso quer
dizer que o social envolve uma dinâmica que é diferente
de um agregado de indivíduos.
Essa não é uma questão nova para a p s ic o l o g i a
Dos gestaltistas até Allport2, sempre existiu um
s o c ia l .

vivo debate sobre a relação entre o todo e a unidade. Aqui,


mais uma vez eu acredito que podemos lucrar com a visão
de Piaget e sua discussão sobre estruturalismo (Piaget,
1968/1971). Contra tendências atomísticas, ele argumenta
que a noção de estrutura envolve as idéias chave de
totalidade, transformação e auto-regulação. As duas pri­
meiras são essenciais para entender a distinção entre
estruturas e agregados já que as leis que englobam a
constituição de uma estrutura não podem ser reduzidas à
soma de seus elementos separados. A o contrário, elas dão
à totalidade propriedades distintas das propriedades de
seus elementos. Essa posição naturalmente leva ao proble­
ma de como a totalidade se forma, ou como ela se origina.
Já que não estamos falando de meros agregados, como a
gênese da totalidade pode ser explicada? A resposta é
clara: é a noção de transformação que dá conta tanto da
estrutura como da gênese do seu caráter de totalidade. "O
problema da formação da totalidade", diz Piaget, “pode ser
simplificado se nós considerarmos a segunda característica
das estruturas - ou seja, elas serem sistemas de transfor­
mações e não formas estáticas - seriamente" (Piaget,
1964/1968: 9-10).
É à luz da perspectiva piagetiana que eu proponho a
análise das representações sociais. Sua estrutura pode ser
entendida somente em relação a seu processo de formação
e transformação; as representações sociais não são um
agregado de representações individuais da mesma forma

.
2 Veja Allport, G.W. (1985) The historical background of modern psychology. In
G. Lindzey & E. Aronson (eds.) A Handbook of social psychology (vol. 1, 2a
ed., p. 1-46), Cambridge, MA: Addison-Wesley. Allport defende a não
existência de fenômenos psicossociais que possam ir além do sujeito indivi­
dual como centro de análise. Veja também Brock, A. (1992) Was Wundt a
“Nazi"?: Volkerpsychologye, Racism and Anti-Semitism. Theory and Psycho­
logy. Vol. 2 (2), p. 205-223, para uma excelente discussão sobre o ensaio de
Allport e sua extrema animosidade em relação a todas as formas de psicologia
coletiva, incluindo a teoria de Durkheim sobre representações coletivas.
que o social é mais que um agregado de indivíduos. Assim,
a análise das representações sociais deve concentrar-se
naqueles processos de comunicação e vida que não so­
mente as engendram, mas que também lhe conferem uma
estrutura peculiar. Esses processos, eu acredito, são pro­
cessos de mediação social. Comunicação é mediação entre
um mundo de perspectivas diferentes, trabalho é mediação
entre necessidades humanas e o material bruto da nature­
za, ritos, mitos e símbolos são mediações entre a alteridade
de um mundo freqüentemente misterioso e o mundo da
intersubjetividade humana: todos revelam numa ou noutra
medida a procura de sentido e significado que marca a
existência humana no mundo.

Assim, são as mediações sociais, em suas mais varia­


das formas, que geram as representações sociais. Por isso
elas são sociais - tanto na sua gênese como na sua forma
de ser. Elas não teriam qualquer utilidade em um mundo
de indivíduos isolados, ou melhor, elas não existiriam. As
representações sociais são uma estratégia desenvolvida
por atores sociais para enfrentar a diversidade e a mobili­
dade de um mundo que, embora pertença a todos, trans­
cende a cada um individualmente. Nesse sentido, elas são
um espaço potencial de fabricação comum, onde cada
sujeito vai além de sua própria individualidade para entrar
em domínio diferente, ainda que fundamentalmente rela­
cionado: o domínio da vida em comum, o espaço público.
Dessa forma, elas não apenas surgem através de media­
ções sociais, mas tomam-se, elas próprias, mediações so­
ciais. E enquanto mediação social, elas expressam por
excelência o espaço do sujeito na sua relação com a
alteridade, lutando para interpretar, entender e construir o
mundo.
A objetificação e a ancoragem são as formas específi­
cas em que as representações sociais estabelecem media­
ções, trazendo para um nível quase material a produção
simbólica de uma comunidade e dando conta da concreti-
cidade das representações sociais na vida social. De certa
forma, eles podem ser enriquecidos se comparados aos
processos de condensação e deslocamento que discutimos
antes. Objetificar é também condensar significados dife­
rentes - significados que freqüentemente ameaçam, signi­
ficados indizíveis, inescutáveis - em uma realidade
familiar. Ao assim o fazer, sujeitos sociais ancoram o
desconhecido em uma realidade conhecida e instituciona­
lizada e, paradoxalmente, deslocam aquela geografia de
significados já estabelecida, que as sociedades, na maior
parte das vezes, lutam para manter. As representações
sociais emergem desse modo como processo que ao mes­
mo tempo desafia e reproduz, repete e supera, que é
formado, mas que também forma a vida social de uma
comunidade.
Em tempos que nos confrontam continuamente com
críticas pós-modernas que elogiam a multiplicação de
significados, a diferença e a supremacia da intimidade
apenas e unicamente em relação a si mesmos, onde as
noções de referência e limite se apresentam freqüentemen­
te como autoritárias ou como ilusões perdidas da moder­
nidade, eu acredito ser necessário reafirmar que a produção
da significação e da diferença só é possível em relação às
fronteiras de um mundo de outros. O mundo do “tudo é
possível" é um mundo que descarta a intersubjetividade
como critério fundamental da vida humana e propõe a
solidão disfarçada do “cada um diz e faz o que quer" como
alternativa aos ecos do autoritarismo, que por sinal tam­
bém desconhece fronteiras. Os limites que a intersubjeti­
vidade impõe, infelizmente representados assim como
ameaça, não têm nada a ver com autoritarismo. A o con­
trário, é porque essas fronteiras existem, que muitas vezes
nós ousamos desafiá-las e, se necessário, transcendê-las,
como é o caso no espaço potencial das representações
sociais e - em larga medida - em todas as formas de vida
em comum que se erguem como efeitos contraditórios aos
imperativos das sociedades de massa. É com esta p s ic o ­
l o g i a s o c i a l , eu acredito, que precisamos trabalhar. A

necessidade de defender a vida em comum, ameaçada hoje


pela miséria, pela violência e pela desigualdade, é também
a necessidade de recuperar o pensamento, a palavra e a
plena possibilidade de construir saberes sociais. Esta é
uma necessidade crucial não somente porque sustenta a
possibilidade da democracia e da cidadania - onde sujeitos
políticos se encontram na ação e no discurso para partici­
par daquela esfera da vida que é comum a todos nós, mas
também porque ela aponta para a constituição de vidas
individuais que sustentem em si mesmas as conseqüências
plenas do fato de que as pessoas vivem umas com as outras
e não existe vida humana sem a presença de outros seres
humanos.

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MARIA CECÍLIA DE
SOUZA MINAYO
3. O CONCEITO DE REPRESENTAÇÕES
SOCIAIS DENTRO DA SOCIOLOGIA
CLÁSSICA

Maria Cecília de Souza Minayo

Introdução

Representações Sociais é um termo filosófico que sig­


nifica a reprodução de uma percepção retida na lembrança
ou do conteúdo do pensamento. Nas Ciências Sociais são
definidas como categorias de pensamento que expressam
a realidade, explicam-na, justificando-a ou questionando-a.
Enquanto material de estudo, essas percepções são consi­
deradas consensualmente importantes, atravessando a
história e as mais diferentes correntes de pensamento
sobre o social. Neste texto, abordamos o viés através do
qual os autores, como Durkheim e seus seguidores, Weber
e a escola fenomenológica representada por Schutz, Marx
e os marxistas, trabalham o mundo das idéias e seu
significado no conjunto das relações sociais, e, por fim,
Bourdieu e Bakthin, que trazem ambos uma bela contribui­
ção sobre o estatuto da palavra.

No entanto, a atenção maior recairá sobre os três


autores clássicos, Durkheim, Marx e Weber, que serão
comparados e diferenciados em suas abordagens.
O conceito de Representações Sociais para os
diferentes autores

Do ponto de vista sociológico, Durkheim é o autor que


primeiro trabalha explicitamente o conceito de Repre­
sentações Sociais. Usado no mesmo sentido que Repre­
sentações Coletivas, o termo se refere a categorias de
pensamento através das quais determinada sociedade ela­
bora e expressa sua realidade. Durkheim afirma que essas
categorias não são dadas a priori e não são universais na
consciência, mas surgem ligadas aos fatos sociais, trans­
formando-se, elas próprias, em fatos sociais passíveis de
observação e de interpretação. Isto é, a observação revela,
segundo ele, que as representações sociais são um grupo
de fenômenos reais, dotados de propriedades específicas
e que se comportam também de forma específica. Na
concepção de Durkheim, é a sociedade que pensa. Portan­
to, as representações não são necessariamente conscien­
tes do ponto de vista individual. Assim, de um lado, elas
conservam sempre a marca da realidade social onde nas­
cem, mas também possuem vida independente, reprodu-
zem-se e se misturam, tendo como causas outras repre­
sentações e não apenas a estrutura social.

Embora reconheça como base das representações “o


substrato social", Durkheim advoga sua autonomia relati­
va. Segundo ele, algumas, mais que outras, exercem sobre
nós uma espécie de coerção para atuar em determinado
sentido. Dentre estas se destacam a religião e a moral,
assim como as categorias de espaço, tempo e de persona­
lidade, consideradas por ele como representações sociais
históricas.
Ouçamos o próprio autor:
“As Representações Coletivas traduzem a maneira como o
grupo se pensa nas suas relações com os objetos que o
afetam. Para compreender como a sociedade se representa
a si própria e ao mundo que a rodeia, precisamos considerar
a natureza da sociedade e não a dos indivíduos. Os símbolos
com que ela se pensa mudam de acordo com a sua natureza
(...). Se ela aceita ou condena certos modos de conduta, é
porque entram em choque ou não com alguns dos seus
sentimentos fundamentais, sentimentos estes que perten­
cem à sua constituição" (1978, 79).

Portanto, para Durkheim não existem "representações


falsas". Todas respondem de diferentes formas a condições
dadas da existência humana. São símbolos através dos
quais
"é preciso saber atingir a realidade que eles figuram e que
lhes dá sua verdadeira significação. Constituem objeto de
estudo tanto quanto as estruturas e as instituições: são
todas elas maneiras de agir, pensar e sentir, exteriores ao
indivíduo e dotadas de um poder coercitivo em virtude do
qual se lhes impõe" (1978, 88).

Contêm, como as instituições e estruturas, as duas


características do fato social: (a) exterioridade em relação
às consciências individuais; (b) exercem ação coercitiva
sobre as consciências individuais, ou são suscetíveis de
exercer essa coerção.
No seu afã de considerar a objetividade da sociologia,
Durkheim tenta eximir a análise de qualquer fato social e,
portanto, das representações sociais, do envolvimento do
pesquisador e dissecar esse “fato” de qualquer comprome­
timento ideológico. Diz que o método sociológico (a) deve
ser isento de qualquer filosofia; (b) deve ser objetivo, isto
é, os fatos são coisas e como tal devem ser tratados; (c) os
fatos sociais são exclusivamente sociológicos: a noção de
especificidade da realidade social é de tal modo necessária
ao sociólogo que só uma cultura especificamente socioló­
gica pode compreender os fatos sociais (1978, 159-161).

As idéias de Durkheim sobre Representações Sociais


são compartilhadas por uma série de estudiosos. Bohan-
nam, em breve ensaio sobre a consciência coletiva e a
cultura, nota que os termos "consciência" e “repre­
sentações coletivas", usados por Durkheim, recobrem o
mesmo campo que a idéia de cultura para os antropólogos
culturais, tais como Sapir, Malinowski e Kroeber. Para
Bohannam,
“a consciência coletiva é o idioma cultural da ação social.
(...) é a totalidade das representações coletivas de acordo
com suas manifestações nas relações sociais" (1964,77-96).

Também Mareei Mauss, abordando o mesmo tema,


mostra que a sociedade se exprime simbolicamente em
seus costumes e instituições através da linguagem, da arte,
da ciência, da religião, assim como através das regras
familiares, das relações econômicas e políticas. Portanto,
para ele, é objeto das ciências sociais tanto a coisa, o fato,
como a sua representação. O autor, no entanto, chama
atenção para esses dois níveis considerando o risco de se
reduzir a realidade à concepção que os homens fazem dela
(1979, 8-53).
Essa visão de objetividade extrema e positivista das
representações sociais, por parte de Durkheim e de muitos
seguidores de seu pensamento, tem sido duramente criti­
cada por várias correntes no interior das ciências sociais.
Para os adeptos da Sociologia Compreensiva e da Aborda­
gem Fenomenológica, o aspecto mais criticado da teoria
se refere ao poder de coerção atribuído à sociedade sobre
os indivíduos, de maneira quase absoluta. Para os marxis­
tas, a visão durkheimiana elimina o pluralismo fundamental
da realidade social, em particular as lutas e antagonismos
de classe.
A Sociologia Compreensiva, representada por Max
Weber, e a Fenomenologia, traduzida por Schutz para o
campo das Ciências Sociais, têm uma forma muito parti­
cular de abordar o tema das Representações.

Max Weber elabora suas concepções do campo das


Representações Sociais através de termos como “idéias",
“espírito” , “concepções", “mentalidade", usados muitas
vezes como sinônimos, e trabalha de forma particular a
noção de "visão de mundo” . Para ele, a vida social - que
consiste na conduta cotidiana dos indivíduos - é carregada
de significação cultural. Essa significação é dada tanto pela
base material como pelas idéias, dentro de uma relação
adequada, em que ambas se condicionam mutuamente.

Segundo Weber, as idéias (ou representações sociais)


são juízos de valor que os indivíduos dotados de vontade
possuem. Portanto, as concepções sobre o real têm uma
dinâmica própria e podem apresentar tanta importância
quanto a base material. Com estes termos, base material e
eficácia das idéias em relação de afinidade eletiva (Weber,
1974, 81), ele analisa a história do avanço do capitalismo
no mundo ocidental. De um lado, afirma que o capitalismo
“educa” e "cria” seus sujeitos pela seleção econômica. De
outro, demonstra que as idéias de trabalho como virtude
máxima e vocação do homem, prosperidade como bênção
divina, lucro como fator legítimo das relações econômicas,
contribuíram para fazer avançar o capitalismo, tanto quan­
to ou mais do que a "acumulação primitiva":
“Com referência à doutrina do mais ingênuo materialismo
histórico, de que as idéias se originam como "um reflexo"
ou como "superestruturas" de situações econômicas, so­
mente podemos opinar mais detalhadamente, neste caso (da
ética protestante em relação ao avanço do capitalismo), que
a relação causai é a inversa da sugerida pelo ponto de vista
materialista" (Weber: 1985, 35).

A partir da tese da recíproca influência entre os funda­


mentos materiais, as formas de organização político-social
e o conteúdo das idéias, Weber teoriza sobre certa autono­
mia do mundo das representações e a possibilidade con­
creta de se estudar a eficácia histórica das idéias. No
entanto, ao afirmar essa “certa autonomia", ele não des­
carta a possibilidade empírica de que em determinados
momentos o econômico seja o fator dominante e que outros
fatores influam inclusive na formação das idéias. Assim,
durante a Primeira Grande Guerra, Weber fez a seguinte
declaração:
"Não são as idéias, mas os interesses materiais e ideais que
governam diretamente a conduta do homem. Muito freqüen­
temente, porém, as "imagens mundiais" que foram criadas
pelas “idéias" determinaram como manobreiros, as linhas
ao longo das quais a ação foi impulsionada pela dinâmica
dos interesses" (1974, 83).

Seu pensamento, na verdade, tenta complexificar a


teoria que considera "mecânica” da determinação da base
material sobre as representações sociais. Alerta para a
necessidade de se conhecer, em cada caso, quais os fatores
que contribuem para configurar determinado fato ou ação
social, como vem resumido na conclusão de A Ética
Protestante e o Espírito do Capitalismo:
“Aqui se tratou do fato e da direção em apenas um, se bem
que importante ponto de seus motivos. Seria importante
investigar mais adiante a maneira pela qual a ascese protes­
tante foi por sua vez influenciada em seu desenvolvimento
e caráter pela totalidade das condições sociais, especial­
mente pelas econômicas. Isto porque, se bem que o homem
moderno seja incapaz de avaliar o significado de quanto as
idéias religiosas influenciaram a cultura e os caracteres
nacionais, não se pode pensar em substituir uma interpre­
tação materialística unilateral por uma igualmente bitolada
interpretação causai da cultura e da história" (Weber: 1985,
132).

Assim Weber chama atenção, de um lado, para a


importância de se pesquisar as idéias como parte da
realidade social e, de outro, para a necessidade de se
compreender a que instâncias do social determinado fato
deve sua maior dependência. Porém, a base de seu racio­
cínio é de que, em qualquer caso, a ação humana é
significativa, e assim deve ser investigada.

Usando o conceito de “Visão de Mundo” , ele desen­


volve o raciocínio de que cada sociedade para se manter
necessita ter “concepções de mundo” abrangentes e uni­
tárias e que, em geral, são elaboradas pelos grupos domi­
nantes. Por exemplo, cita ele que
“o enriquecimento como fim obrigatório do homem para a
glória de Deus contradiz ao sentido ético de épocas históri­
cas inteiras e anteriores à atual" (1985: 72).

Essas concepções abrangentes (o modo de encarar o


tempo, o espaço, o trabalho, a divisão do trabalho, a
riqueza, o sexo, os papéis sociais etc.) perpassam todos os
grupos de determinada sociedade.
Em síntese, Weber, junto com Durkheim, nos remete
à importância de compreensão das idéias e de sua eficácia
na configuração da sociedade apelando ao estudo empírico
do desenvolvimento histórico. Por outro lado, não contradiz
a possibilidade também histórica de conjunturas sócio-
econômicas forçarem concepções e atitudes específicas.
Por isso, a forma com a qual pensa as idéias é de relação
de adequação com a estrutura sócio-econômica e política.

Sem querer reduzir a sociologia compreensiva à feno­


menológica, e vice-versa, podemos considerar que essas
duas correntes têm muita semelhança quando trabalham
a questão das Representações Sociais. Enquanto da pri­
meira o autor clássico seria Max Weber, as idéias da
fenomenologia aplicadas às Ciências Sociais são elabora­
das teoricamente, em particular, por Alfred Schutz. Sua
contribuição é bastante significativa, especialmente para
a operacionalização da pesquisa social qualitativa e é deste
ponto de vista que o abordamos (Schutz: 1982).

Schutz usa o termo “senso comum" para falar das


representações sociais do cotidiano. Para este autor, da
mesma forma que o conhecimento científico, o senso
comum envolve conjuntos de abstrações, formalizações e
generalizações. Esses conjuntos são construídos, são fatos
interpretados, a partir do mundo do dia-a-dia. Portanto, a
existência cotidiana, segundo Schutz, é dotada de signifi­
cados e portadora de estruturas de relevância para os
grupos sociais que vivem, pensam e agem em determinado
contexto social. Esses significados, que podem ser objeto
de estudo dos cientistas sociais -, são selecionados através
de construções mentais, de "representações” do "senso
comum” (Schutz, 1973). A própria ciência, para Schutz, é
uma representação da realidade, denominada por ele
“constructo” de segunda ordem.

Schutz tem como preocupação teórica o mundo do


dia-a-dia. Isto é, ele busca compreender os pressupostos
das estruturas significativas da cotidianeidade. Para ele, a
compreensão do mundo se dá a partir de um estoque de
experiências pessoais e de outros, isto é, de companheiros,
predecessores, contemporâneos, consorciados e sucesso­
res. O autor separa os termos experiência e conhecimento.
A primeira pode ser comum a um grande número de
pessoas ao mesmo tempo. O segundo é individual: consiste
na elaboração interior, subjetiva e intersubjetiva da expe­
riência vivida e funciona como esquema de referência para
o sujeito. Assim, o mundo do dia-a-dia é entendido como
um tecido de significados, instituído pelas ações humanas
e passível de ser captado e interpretado. O teorema clás­
sico de W.J. Thomas, segundo o qual “se os homens
definem situações como reais, elas são reais em suas
conseqüências" (1970, 196), resume o pensamento feno-
menológico, explicado pelo próprio autor:
“Os homens respondem não apenas aos aspectos físicos de
uma situação, mas também e por vezes primariamente, ao
sentido qoe esta situação tem para eles. Uma vez que eles
atribuem algum sentido à situação, o seu comportamento
subseqüente e algumas das conseqüências deste compor­
tamento são determinadas por este sentido anteriormente
atribuído" (Thomas: 1970, 197).

Na verdade, a reflexão de Thomas confere ao sentido


atribuído à ação pelo sujeito o mesmo nível de coerção que
Durkheim confere às representações sociais que emanam
do coletivo.
O número e a natureza das experiências de qualquer
ator social, para Schutz, dependem de sua história de vida,
ou melhor, de sua “situação biográfica". Portanto, cada ator
social tem um conhecimento de sua experiência e atribui
relevância a determinados temas, aspectos ou situações,
de acordo com sua própria história anterior. Daí que, para
Schutz, o senso comum é de fundamental importância,
porque, através dele, o ator social faz sua própria definição
de situação. Isto é, não só age como atribui significados
portadores de relevâncias à sua ação, de acordo com sua
história de vida, seu estoque de conhecimentos dado pela
experiência de interação com os que o cercam. O estoque
de conhecimentos se forma através de tipificações do
mundo do senso comum. Isso permite a identificação de
grupos, a estruturação comum de relevâncias e possibili­
dade de compreensão de um modo de vida específico de
determinado grupo social.

Sem entrar no mérito das bases filosóficas da análise


fenomenológica, é importante destacar a contribuição de
Schutz para a abordagem do social. Os conceitos que o
autor trabalha são acima de tudo operacionais e propiciam
uma aproximação com os atores sociais no trabalho de
campo, portadores de uma história pessoal e com signifi­
cado também grupai.

Uma terceira corrente na interpretação do papel das


representações sociais surge da dialética marxista. Se na
totalidade de seus escritos Marx fala da relação entre as
idéias e a base material, podemos considerar "A IDEOLO­
GIA ALÉM" como uma explanação clássica do tema das
REPRESENTAÇÕES SOCIAIS. Neste texto o autor discute,
de acordo com seu ponto de vista, o que chama a "ideologia
alemã” . Mostra que os filósofos de seu tempo considera­
vam “as quimeras, as idéias, os dogmas, as ilusões" como
produzidos e reproduzidos pela própria cabeça, isto é, pela
consciência. Para esses filósofos, as mudanças da socieda­
de adviriam da substituição das "falsas representações"
por pensamentos correspondentes à essência do homem.

Insurge-se contra o que ele denomina "fantasias ino­


centes e pueris da filosofia alemã Neo-Hegeliana" e, a partir
da crítica, elabora e discute sua teoria sobre as Repre­
sentações Sociais. Coloca como princípio básico do "pen.-
sarnento” e da "consciência" determinado modo de vida
dos indivíduos, condicionado pelo modo de produção de
sua vida material:
“Indivíduos determinados que, como produtores,
atuam também de forma determinada, estabelecem entre
si relações sociais e políticas determinadas". Portanto, "a f
produção das idéias, das representações, da consciência
está, de início, diretamente entrelaçada com a atividade
material e com o intercâmbio material entre os homens,
como a linguagem da vida real. O representar, o pensar, o
intercâmbio espiritual dos homens aparece aqui como a
emanação direta de seu comportamento material"."(...) Os
homens são produtores de suas representações, de suas
idéias etc., mas os homens reais, ativos, tal como se acham
condicionados por um determinado desenvolvimento de
suas forças produtivas e pelo intercâmbio que a ele corres­
ponde" (1984, 35-44).

A categoria chave, em Marx, para tratar do campo das


idéias, é a CONSCIÊNCIA. Para ele, as representações, as
idéias e os pensamentos são o conteúdo da consciência
que, por sua vez, é determinada pela base material:
"Não é a consciência que determina a vida, mas é a vida
que determina a consciência. (...) A consciência é desde o
início um produto social: ela é mera consciência do meio
sensível mais próximo, é a conexão limitada com outras
pessoas e coisas fora do indivíduo. (...) A consciência jamais
pode ser outra coisa que o homem consciente e o ser dos
homens é o seu processo de vida real" (1984, 43-45).

No entanto, apesar de defender, em todos os seus


escritos, a anterioridade da vida material sobre as idéias,
ele vê esses dois elementos numa relação dialética: “as
circunstâncias fazem os homens, mas os homens fazem as
circunstâncias" (1984, 45). Neste sentido, ele relativiza o
determinismo mecânico da base material sobre a consciên­
cia e chama atenção para as contradições existentes entre
as forças de produção, o estado social e as idéias
(1984, 73).
Para Marx, a manifestação da consciência se faz atra­
vés da linguagem:
"Ela nasce da carência, da necessidade de intercâmbio com
os outros homens: a linguagem é a consciência real, prática,
que existe para os outros homens e existe também para mim
mesmo" (1984, 43).

Faz um paralelo entre consciência e linguagem, entre


as representações e o real invertido, e mostra como as
idéias estão comprometidas com as condições de classe:
“As idéias de classe dominante são, em cada época, as
idéias dominantes; isto é, a classe que é a força material
dominante da nossa sociedade, é ao mesmo tempo sua força
espiritual dominante. Daí que “as idéias daqueles aos quais
faltam os meios de produção material estão submetidas às
classes dominantes. As idéias dominantes nada mais são do
que a expressão ideal das relações materiais dominantes,
colocadas como idéias gerais, comuns e universais de todos
os membros da sociedade" (1984, 47).

A partir de Marx, dois outros autores marxistas,


Gramsci e Lukács, têm trabalhado mais detidamente o
campo das representações sociais. Gramsci aborda o tema
de forma muito específica quando trata do SENSO COMUM
e do BOM SENSO. Em seus escritos, o autor está mais
preocupado com a questão pedagógica da construção da
hegemonia do que com a pesquisa social, mas assim
mesmo sua formulação é esclarecedora no campo que nos
concerne, porque avança a teoria marxista sobre o mundo
das idéias.

O autor comenta que nos seus “Escritos" Marx se


preocupou com o senso comum e com a solidez das
crenças das massas, mas não para se referir ao seu valor
potencial de mudança. Pelo contrário, queria chamar a
atenção para a solidez dessas crenças, particularmente da
religião, capazes de produzir normas de conduta e de
conformismo (1981: 63 e 148). A partir dos "Escritos” de
Marx sobre as crenças das massas, Gramsci defende-o de
afirmar o “determinismo econômico da base material sobre
as idéias” e desenvolve o conceito de bloco histórico no
qual emite sua própria teoria sobre as relações entre ambas
(base material e idéias):
"As forças materiais são o conteúdo e as ideologias são a
forma sendo que esta distinção entre conteúdo e forma é f
puramente didática, já que as forças materiais não seriam
historicamente concebíveis sem forma e as ideologias
seriam fantasias individuais sem as forças materiais"
(1981, 63).

Para o autor, o senso comum enquanto matéria-prima


ou como “representação social" tem um potencial trans­
formador. Mesmo como pensamento fragmentário e con­
traditório, o senso comum deve ser recuperado critica­
mente, uma vez que ele corresponde espontaneamente às
condições reais de vida da população. Por isso, combate o
preconceito racionalista contra o senso comum em várias
partes de sua obra. Primeiramente, afirma que todos nós
somos presa de algum:
“Pela própria concepção de mundo, pertencemos sempre a
um determinado grupo, precisamente ao de todos os ele­
mentos sociais que partilham de um mesmo modo de pensar
e agir. Somos conformistas de algum conformismo, somos
sempre homens-massa ou homens coletivos" (1981, 12).

Dentro de uma preocupação mais voltada para o cam­


po político, a descrição que Gramsci faz da consciência
desse “homem-massa” , que todos somos de algum modo,
põe a nu, de um lado, os elementos de incoerência e
conservadorismo que a povoam, mas, de outro lado, as
possibilidades e sinais de mudanças:
"Nossa própria personalidade é composta de uma maneira
bizarra: nela se encontram elementos dos homens da caver­
na e princípios da ciência mais moderna e progressista;
preconceitos de todas as fases históricas passadas, grossei­
ramente localistas e instituições de uma futura filosofia que
será própria do gênero humano mundialmente unificado”
(1981, 12).
Portanto, ao mesmo tempo em que o autor aponta os
elementos ilusórios, valoriza e busca compreender qual a
importância do senso comum no trabalho pedagógico de
construção da contra-hegemonia:
"O subalterno é apenas simples “paciente", simples coisa,
simples irresponsabilidade? Não, por certo. Em que reside
exatamente o valor do que se costuma chamar senso comum
ou bom senso? Não apenas no fato de que, mesmo implici­
tamente, o senso comum empregue o princípio da causali­
dade, mas no fato muito mais limitado de que, em uma série
de juízos, o senso comum identifique a causa exata, simples,
imediata, não se deixando desviar por fantasmagorias e
obscuridades metafísicas, pseudometafísicas e pseudo-pro-
fundas" (1981, 35).

Podemos resumir a contribuição de Gramsci sobre as


Representações Sociais em três aspectos importantes: (a)
primeiramente, chama atenção para os aspectos de con­
formismo de que elas são reveladoras e para o caráter de
abrangência desse conformismo de acordo com os diferen­
tes grupos sociais. Isto é, retira a idéia de que o “senso
comum” seja inerente à ignorância das massas, mostrando
como cada grupo social tem seu próprio conformismo e
ilusão: (b) em segundo lugar, alerta para os aspectos
dinâmicos geradores de mudança que coexistem com o
conservadorismo no senso comum; (c) em terceiro lugar,
analisa a composição mais abrangente das diferentes con­
cepções de mundo - das representações sociais - de
qualquer grupo social e de determinada época histórica:
“A concepção de mundo de uma época não é a filosofia
deste ou daquele filósofo, deste ou daquele grupo de inte­
lectuais, desta ou daquela grande parcela das massas po­
pulares: é uma combinação de todos estes elementos,
culminando em uma determinada direção, na qual sua
culminação torna-se norma de ação coletiva, isto é, torna-se
história completa e concreta’’ (1981, 32).

Essa última afirmação de Gramsci nos remete à com­


preensão das Representações Sociais, para efeito de análi­
se, como uma combinação específica de idéias que po­
voam o universo de determinada época e que contêm
elementos de tradição e de mudança.
Lukács aprofunda o tema das Representações, em
Marx, através da noção de "visão de mundo” . Segundo ele,
a visão de mundo não é um dado empírico, mas de um
instrumento conceituai de trabalho, indispensável para se
compreender as expressões imediatas do pensamento dos
indivíduos. Sua importância e realidade também se mani­
festam no plano empírico. Ela é o principal aspecto con­
creto do fenômeno da “consciência coletiva” . Segundo
Lukács, a “visão de mundo" é precisamente esse conjunto
de aspirações, de sentimentos e de idéias que reúne os
membros de um grupo (mais freqüentemente, de uma
classe social) e as opõem aos outros grupos (1974, 60s).
Referendando o princípio da determinação da base
material sobre as idéias, Lukács nos diz que as classes
sociais são ligadas por um fundamento econômico que tem
importância primordial para a vida ideológica dos homens,
simplesmente porque os homens são obrigados a dedicar
a maior parte de suas preocupações e de suas atividades
a garantir sua existência, e quando se trata das classes
dominantes, à conservação de seus privilégios e à gerência
e aumento de sua fortuna.
Como os diferentes autores já referidos, Lukács con­
corda que nas consciências individuais se expressa a
consciência coletiva (de classe). E chama atenção para o
fato de que o fundamento científico do conceito de “visão
de mundo” , apreendido através do indivíduo, é a integra­
ção desse pensamento individual no conjunto da vida
social, notadamente, pela análise da função histórica das
classes sociais (1974, 66-85).
Comparação e contrastes entre os autores
clássicos

Bourdieu e Bakhtin referem-se ao campo das repre­


sentações sociais através da valorização da fala como
expressão das condições da existência. Para o primeiro
autor, a palavra é o símbolo de comunicação por excelência
porque ela representa o pensamento. A fala, por isso
mesmo, revela condições estruturais, sistemas de valores,
normas e símbolos e tem a magia de transmitir, através de
um porta-voz, as representações de grupos determinados,
em condições históricas, sócio-econômicas e culturais
específicas (Bourdieu, 1973).

Nisso Bourdieu concorda com Bakhtin, que considera


a palavra como o fenômeno ideológico por excelência: "A
palavra é o modo mais puro e sensível de relação social".
E continua:
“Existe uma parte muito importante da comunicação ideo­
lógica que não pode ser vinculada a uma esfera ideológica
particular: trata-se da comunicação da vida cotidiana. O
material privilegiado de comunicação na vida cotidiana é a
palavra" (1986: 36s).

Esse mesmo autor define o caráter histórico e social


da fala como um campo de expressão das relações e das
lutas sociais que, ao mesmo tempo, sofre os efeitos da luta
e serve de instrumento e de material para a sua comuni­
cação. Cada época e cada grupo social têm seu repertório
de formas de discurso na comunicação, que é inteiramente
determinada pelas relações de produção e pela estrutura
sócio-política (1986, 64). “A palavra é a arena” , diz ele,
"onde se confrontam os valores sociais contraditórios”
(1986, 14). Através da comunicação verbal - que é insepa­
rável de outras formas de comunicação - as pessoas
"refletem e refratam” conflitos e contradições próprios do
sistema de dominação, onde a resistência está dialetica-
mente relacionada com a submissão.
Segundo Bourdieu, a identidade de condições de exis­
tência tende a reproduzir sistemas de disposições seme­
lhantes, através de uma harmonização objetiva de práticas
e obras:
"Todos os membros do mesmo grupo ou da mesma classe
são produtos de condições objetivas idênticas. Daí a possi­
bilidade de se exercer, na análise da prática social, o efeito
de universalização e de particularízação, na medida em que
eles se homogeneizam, distinguindo-se dos outros" (1973,
180).

Teorizando sobre a prática da pesquisa de campo,


afirma que as condutas ordinárias da vida se prestam a
uma decifração, ainda que pareçam automáticas e impes­
soais. Elas são significantes, mesmo sem intenção de
significar, e exprimem uma realidade objetiva que “exige
apenas a reativação da intenção vivida daqueles que as
cumprem” (1973, 181). Insiste Bourdieu sobre a objetivida­
de das representações:
“Cada agente, ainda que não saiba ou que não queira, é
produtor e reprodutor do sentido objetivo, porque suas ações
são o produto de um modo de agir do qual ele não é o
produtor imediato, nem tem o domínio completo” (1973,
182).

As idéias de Bourdieu fundamentam o esquema teórico


do que denomina “habitus” , isto é:
"Um sistema de disposições duráveis e transferíveis que
integram todas as experiências passadas e funciona a todo
momento como matriz de preocupações, apreciações e
ações. O "habitus" torna possível o cumprimento de tarefas
infinitamente diferenciais, graças às transferências analógi­
cas de esquemas que permitem resolver os problemas, da
mesma forma, graças às correções incessantes dos resulta­
dos obtidos e dialeticamente produzidos por estes resulta­
dos" (Bourdieu: 1973, 178s).

O autor compara o “habitus” com o inconsciente,


tentando ressaltar o caráter social das representações:
"O inconsciente da história, que a história produz, incorpora
as estruturas objetivas nesta quase natureza que é o 'habi-
tus’" (1973, 179).

Interpretando o autor, dir-se-ia que o “habitus” é como


uma lei “imanente” depositada em cada ator social, desde
a primeira infância, a partir de seu lugar na estrutura social.
São marcas das posições e situações de classe. Segundo
Bourdieu, o ‘‘habitus” é a mediação universalizante que
proporciona às práticas sem razões explícitas e sem inten­
ção significante, de um agente singular, seu sentido, sua
razão e sua organicidade. Portanto:
“As relações interpessoais numa pesquisa nunca são apenas
relações de indivíduos e a verdade da interação não reside
inteiramente na interação (...) É a posição presente e passa­
da na estrutura social que os indivíduos trazem consigo em
forma de ‘habitus’ em todo tempo e lugar, que marca a
relação” (1973, 184).

Essa possibilidade existe na medida em que o compor­


tamento social e o individual obedecem a modelos culturais
interiorizados, ainda que de forma conflitante. Goldmamn
nos lembra que a consciência coletiva (de classe) só existe
nas consciências individuais, embora não seja a soma delas
(1967, 18), e Lukács concorda que nas consciências indi­
viduais se expressa a consciência coletiva, pois o pensa­
mento individual se integra no conjunto da vida social pela
análise da função histórica das classes sociais (1974, 66).

Em resumo, a Escola Marxista coloca como denomi­


nador comum da ideologia, das idéias, dos pensamentos,
da consciência, portanto, das representações sociais, a
base material. Mas introduz na sua análise outro elemento
importante que é a condição da classe: enquanto a classe
dominante tem suas idéias elaboradas em sistemas -
ideologia, moral, filosofia, metafísica e religião - as classes
dominadas também possuem idéias e representações que
refletem seus interesses, mas numa condição de subordi­
nação. São idéias marcadas pelas contradições entre seu
lugar na produção e sua condição social. Isto é, enquanto
lhe cabe o trabalho, não lhe sobra muito a fruição dele;
enquanto lhe é atribuída a tarefa da produção, lhe é
proporcionado um consumo escasso e precário.
Para Marx, as representações estão vinculadas à prá­
tica social. Junto com Durkheim, ele mostra a anterioridade
da vida social em relação às representações. Mas, enquan­
to para Durkheim a sociedade é a “síntese das consciên­
cias", para Marx a consciência emana das relações sociais
contraditórias entre as classes e pode ser captada empiri-
camente como produto da base material, nos “indivíduos
determinados, sob condições determinadas". O próprio
Durkheim faz questão de marcar essa diferença quando diz
a respeito da religião:
"Preciso guardar-me de ver na Teoria das Representações
um simples rejuvenescimento do materialismo histórico.
Não pretendemos dizer, mostrando na religião uma coisa
essencialmente social, que ela se limita a traduzir, em outra
linguagem, as formas materiais da sociedade e suas neces­
sidades imediatas e vitais. A consciência coletiva é outra
coisa que um simples epifenômeno da sua base morfológica.
Ela é uma síntese sui generis das consciências particulares.
Esta síntese tem por efeito produzir todo um mundo de
sentimentos, de idéias, de imagens, que uma vez nascidos
obedecem às leis que lhes são próprias. Atraem-se e se
repelem, segmentam-se sem que todas estas combinações
sejam diretamente comandadas pelo estado da realidade
subjacente" (1983, 27).

Em relação a Weber, Marx se aproxima quando diz que


“a nova classe dominante é obrigada para alcançar os fins
a que se propõe, a apresentar seus interesses como sendo
interesses comuns de todos os membros da sociedade. É
obrigada a emprestar a suas idéias a forma de universalidade
e apresentá-las como sendo as únicas racionais, as únicas
universalmente válidas" (1984, 74).

Weber, como já se viu, fala da necessidade de concep­


ções de mundo abrangentes para que determinada socie­
dade se mantenha. Embora seus pensamentos coincidam
em termos gerais, eles se separam pelo recorte de classe
que Marx lhe dá, em contraposição ao termo geral e
inespecífico de "sociedade" usado por Weber.
Com relação aos status das Representações Sociais no
conjunto das relações, Durkheim estabelece que a vida
social causa as idéias; para Weber existe uma relação de
adequação entre idéias e base material; e Marx coloca a
base material em relação de determinação.
Pensando em termos de construção do conhecimento,
todos os três clássicos concordam com a importância de
se compreender as representações sociais. Para Marx, se
estas representações estão coladas ao real, o estudo e a
análise das representações são um dado sobre o real, isto
é, também informam sobre a base material na qual se move
determinado grupo social. Durkheim, reafirmando a impor­
tância das representações, diz que o pensamento coletivo
deve ser estudado tanto na sua forma como no seu con­
teúdo, por si e em si mesmo, na sua especificidade, pois
uma representação social, por ser coletiva, já apresenta
garantias de objetividade. Portanto, por mais estranhas que
possam parecer, elas contêm verdades que é preciso
descobrir. Para Weber, as representações e idéias têm uma
dinâmica própria e podem ter tanta importância quanto a
base material.
Para o conjunto dos autores é no plano individual que
as representações sociais se expressam. Marx fala na
Ideologia Alemã de sujeitos históricos, ou de "indivíduos
determinados", como portadores de uma forma determina­
da de relações sociais, políticas e econômicas. Durkheim
chama atenção para o fato de que as idéias coletivas
tendem a se individualizar nos sujeitos, tornando-se para
eles uma fonte autônoma de ação. E Weber nos diz que o
indivíduo, enquanto portador de cultura e de valores so­
cialmente dados, é a “constelação singular" que informa
sobre a ação social de seu grupo, tendo-se em conta que
o limite de suas informações são seus valores, da mesma
forma que os limites do conhecimento científico do pes­
quisador são seus próprios valores.
Ao terminar essa reflexão é preciso notar que em
muitos pontos esses autores coincidem, mas a sua diver­
gência é fundamental. Enquanto para Durkheim as repre­
sentações sociais exercem coerção sobre os indivíduos e a
sociedade, para Weber os indivíduos é que são portadores
de valores e de cultura que informam a ação social dos
grupos. Marx admite com Durkheim que os valores e
crenças exerçam um papel coercitivo sobre "as massas",
mas insiste no caráter de classe das representações e no
papel da luta de classe que se dá no modo de produção e
determina o campo ideológico no qual se embatem domi­
nadores e dominados. Se para Durkheim a coerção das
representações é de tal monta que a sociedade é a "síntese
das consciências", Marx admite o papel liberador da cons­
ciência de classe como motor da mudança no interior das
contradições que atravessam a sociedade capitalista.

Conclusões

A partir dos vários autores colocados acima, podemos


dizer que as Representações Sociais, enquanto imagens
construídas sobre o real, são um material importante para
a pesquisa no interior das Ciências Sociais.

As Representações Sociais se manifestam em palavras,


sentimentos e condutas e se institucionalizam, portanto,
podem e devem ser analisadas a partir da compreensão das
estruturas e dos comportamentos sociais. Sua mediação
privilegiada, porém, é a linguagem, tomada como forma de
conhecimento e de interação social. Mesmo sabendo que
ela traduz um pensamento fragmentário e se limita a certos
aspectos da experiência existencial, freqüentemente con­
traditória, possui graus diversos de claridade e de nitidez
em relação à realidade. Fruto da vivência das contradições
que permeiam o dia-a-dia dos grupos sociais e sua expres­
são marca o entendimento deles com seus pares, seus
contrários e com as instituições. Na verdade, a realidade
vivida é também representada e através dela os atores
sociais se movem, constroem sua vida e explicam-na
mediante seu estoque de conhecimentos. Mas, além disso,
as Representações Sociais possuem núcleos positivos de
transformação e de resistência na forma de conceber a
realidade. Portanto, devem ser analisadas criticamente,
uma vez que correspondem às situações reais de vida.
Neste sentido, a visão de mundo dos diferentes grupos
expressa as contradições e conflitos presentes nas condi­
ções em que foram engendradas. Portanto, tanto o "senso
comum" como o “bom senso” , para usar as expressões
gramscianas, são sistemas de representações sociais em­
píricos e observáveis, capazes de revelar a natureza con­
traditória da organização em que os atores sociais estão
inseridos.

Algumas Representações Sociais são mais abrangen­


tes em termos da sociedade como um todo e revelam a
visão de mundo de determinada época. São as concepções
das classes dominantes dentro da história de uma socie­
dade. Mas essas mesmas idéias abrangentes possuem
elementos de passado na sua conformação e projetam o
futuro em termos de reprodução da dominação.

As Representações Sociais não são necessariamente


conscientes. Podem até ser elaboradas por ideólogos e
filósofos de uma época, mas perpassam o conjunto da
sociedade ou de determinado grupo social, como algo
anterior e habitual, que se reproduz a partir das estruturas
e das próprias categorias de pensamento do coletivo ou
dos grupos. Por isso, embora essas categorias apareçam
como elaboradas teoricamente por algum filósofo, elas são
uma mistura das idéias das elites, das grandes massas e
também das filosofias correntes, e expressão das contradi­
ções vividas no plano das relações sociais de produção. Por
isso mesmo, nelas estão presentes elementos tanto da
dominação como da resistência, tanto das cpntradições e
conflitos como do conformismo.

Ainda que algumas formas de pensar a sociedade


sejam abrangentes como um cimento que mantém as suas
estruturas de dominação, cada grupo social faz da visão
abrangente uma representação particular, de acordo com
a sua posição no conjunto da sociedade. Essa repre­
sentação é portadora também dos interesses específicos
desses grupos e classes sociais.

Por serem ao mesmo tempo ilusórias, contraditórias e


“verdadeiras", as representações podem ser consideradas
matéria-prima para a análise do social e também para a
ação pedagógico-política de transformação, pois retratam
e refratam a realidade segundo determinado segmento da
sociedade. Porém, é importante observar que as Repre­
sentações Sociais não conformam a realidade e seria outra
ilusão tomá-las como verdades científicas, reduzindo a
realidade à concepção que os homens fazem dela. Para
terminar, vale reforçar que a mediação privilegiada para a
compreensão das representações sociais é a linguagem.
Segundo Bakhtin, “a palavra é o fenômeno ideológico por
excelência. A palavra é o modo mais puro e sensível de
relação social” (1986, 36). Particularmente quando se trata
da comunicação da vida cotidiana, a palavra é fundamen­
tal. Elas (as palavras) são tecidas a partir de uma multidão
de fios ideológicos e servem de trama para as relações
sociais em todos os domínios. Bakhtin chama a nossa
atenção para o fato de que cada época e cada grupo social
têm seu repertório de formas de discurso, determinadas
pelas relações de produção e pela estrutura sócio-política.

Portanto, a palavra é a arena onde se confrontam


interesses contraditórios, veiculando e sofrendo os efeitos
das lutas das classes, servindo ao mesmo tempo como
instrumento e como material (Bakhtin, 1986, 37). Pela sua
vinculação dialética com a realidade, a compreensão da
fala exige ao mesmo tempo a compreensão das relações
sociais que ela expressa. Porque as palavras não são a
realidade, mas uma fresta iluminada: representam!
Bibliografia

BAKHTIN, M. Marxismo e Filosofia da Linguagem. São Paulo:


Hucitec, 1986.
BOHANNAN, P.J. “Conscience Collective et Culture" in Essays
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GOLDMANN, L. Ciências Humanas e Filosofia. São Paulo: Difel,
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MAUSS, M. Sociologia e Antropologia. São Paulo: EPU/EDUSP,
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SCHUTZ, A. Collected Papers I “Commonsense and Scientific
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WEBER, Max. A Objetividade do Conhecimento nas Ciências e
na Política Social. Lisboa: Lisboa Ltda., 1974.
— . A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo:
Pioneira, 1985.
Cl

DIMENSÕES METODOLÓGICAS DA
TEORIA DAS REPRESENTAÇÕES
SOCIAIS
MARY JANE SPINK
4. DESVENDANDO AS TEORIAS
IMPLÍCITAS: UMA METODOLOGIA
DE ANÁLISE DAS REPRESENTAÇÕES
SOCIAIS

Mary Jane Spink


O objetivo deste capítulo é introduzir o leitor a um
método de análise das representações sociais que vem
sendo utilizado por nós (Spink, 1993a; 1993b, 1993c, Spink
et al. 1993), discutindo seu embasamento epistemológico
e teórico assim como os aspectos técnicos do procedimen­
to de análise dos dados. Esta forma de análise insere-se na
tradição hermenêutica de pesquisa e foi desenvolvida em
íntima associação com os objetivos teóricos dos estudos
em pauta sendo norteada por pressupostos epistemológi-
cos construtivistas. Dito de outra forma, teoria, epistemo­
logia e metodologia formam aqui um círculo contínuo e
influenciam-se mutuamente, gerando um processo perma­
nente de reflexão.
Na impossibilidade de reproduzir em forma de texto a
processualidade implícita nesta metáfora do círculo, e
considerando que o motor que impulsionou a elaboração
deste método foram as reflexões geradas na interface entre
teoria e observação empírica do cotidiano, optamos por
iniciar esta apresentação marcando a nossa postura quanto
à natureza das representações sociais e suas implicações
para a pesquisa.
Segundo Jodelet (1989a), o campo de estudo das
representações sociais, ilustrado de maneira simplificada
na fig. 1, reúne dois debates importantes. No primeiro
debate, as representações emergem como uma modalida­
de de conhecimento prático orientado para a compreensão
do mundo e para a comunicação; no segundo debate,
emergem como construções com caráter expressivo, ela­
borações de sujeitos sociais sobre objetos socialmente
valorizados. As representações sociais, enquanto formas
de conhecimento, são estruturas cognitivo-afetivas e, des­
ta monta, não podem ser reduzidas apenas ao seu conteú­
do cognitivo. Precisam ser entendidas, assim, a partir do
contexto que as engendram e a partir de sua funcionalidade
nas interações sociais do cotidiano. Tal posicionamento
implica na elucidação de dois aspectos que lhe são cen­
trais: a teoria de conhecimento que lhe é subjacente e os
determinantes de sua elaboração.
FIGURA 1: O CAMPO DE ESTUDOS DA
REPRESENTAÇÃO SOCIAL

;U ín n a _ d cjM n h e cim £ n ^

construção interpretação^

A _________ X * _____
|__represõn^ç^T^] ,

expressão \ simbolização x

i p ra tic o

Adaptado de Jodelet, 1989

As representações sociais enquanto formas de


conhecimento
As representações sociais, sendo formas de conheci­
mento prático, inserem-se mais especificamente entre as
correntes que estudam o conhecimento do senso comum.
Tal privilegiamento pressupõe uma ruptura com as verten­
tes clássicas das teorias do conhecimento anunciando
importantes mudanças no posicionamento quanto ao es­
tatuto da objetividade e da busca da verdade. Trata-se, ao
nosso ver, de inserir o estudo das representações sociais
entre os esforços de deconstrução da retórica da verdade
(Ibanez, 1991), componente intrínseco da Revolução Cien­
tífica que inaugura a modernidade nas sociedades oci­
dentais.
Esta contestação pode ser vista, numa perspectiva
histórica, como um movimento em três tempos. Num
primeiro momento, é hegemônica a epistemologia clássica,
pautada pelos estudos sobre a ideologia e marcada pela
preocupação com a possibilidade mesma do conhecimento
e da apreensão da realidade. Num segundo momento,
datado pelo surgimento da sociologia do conhecimento -
inaugurada por Scheler, nos anos vinte, e elevada ao
estatuto de disciplina por Mannheim, nos anos trinta - o
conhecimento passa a ser relativizado pelas vias da história
e do culturalismo. A ideologia, neste contexto, não pode
mais ser vista como ilusão, mistificação ou falsa consciên­
cia; precisa ser vista como instrumento de dominação.
Mas, a despeito do questionamento da neutralidade do
conhecimento, permanece ainda, neste momento, a cliva-
gem entre ciência-verdade e senso comum-ilusão; intro-
duz-se sem dúvida a questão dos interesses e do poder;
mas poder e interesses são abordados a partir da perspec­
tiva do conhecimento formalizado em disciplinas científicas.

O terceiro movimento introduz uma nova perspectiva


ampliando o conhecimento-objeto-de-estudo para além
das fronteiras da ciência e passando a abarcar, também, o
conhecimento do homem comum. Trata-se, portanto, de
uma ampliação do olhar de modo a ver o senso comum
como conhecimento legítimo e motor das transformações
sociais.

Esta mudança de perspectiva quanto ao papel disci-


plinador das teorias do conhecimento - legitimando, de um
lado, o saber do senso comum e, de outro, questionando o
selo de garantia epistemológica (Fuller, 1988) - teve um
papel fundamental na elaboração do conceito de repre­
sentação social na p s ic o l o g i a s o c i a l . Teve, sobretudo, o
efeito de liberar o poder de criação dos conhecimentos
práticos, ou das teorias do senso comum, tão freqüente­
mente aprisionadas nos chavões de reprodução ou de
re-apresentações. Não se trata apenas, neste terceiro mo­
vimento das teorias do conhecimento, de reabilitar o senso
comum como forma válida de conhecimento. Trata-se,
sobretudo, de situá-lo enquanto teia de significados (Geerz,
1983) capaz de criar efetivamente a realidade social.

Moscovici (1988) reconhece amplamente que ao enfa­


tizar o poder de criação das representações sociais, aca­
tando sua dupla face de estruturas estruturadas e estru­
turas estruturantes, inscreve sua abordagem entre as pers­
pectivas construtivistas. Inscreve-a, a bem dizer, no movi­
mento maior aqui denominado de deconstrução da Retó­
rica da Verdade. Aponta, inclusive, para a simultaneidade,
ou até mesmo anterioridade, de sua obra "Representação
Social da Psicanálise" (1961) e da obra de Berger e Luck-
mann (1966) que cunhou a perspectiva denominada de
"construção social da realidade".

O processo de elaboração de representações


sociais

O segundo eixo da fig. 1 remete necessariamente à


atividade do sujeito na elaboração das representações
sociais. Entretanto, este sujeito é um sujeito social, o que,
segundo Jodelet (1984: 36), "significa dizer, fora o caso em
que tratamos da gênese das representações, um indivíduo
adulto, inscrito numa situação social e cultural definida,
tendo uma história pessoal e social. Não é um indivíduo
isolado que é tomado em consideração mas sim as respos­
tas individuais enquanto manifestações de tendências do
grupo de pertença ou de afiliação na qual os indivíduos
participam” . É neste sentido que afirmamos que as repre­
sentações são estruturas estruturadas ou campos social­
mente estruturados.

Entretanto, as representações são também uma ex­


pressão da realidade intra-individual; uma exteriorização
do afeto. São, neste sentido, estruturas estruturantes que
revelam o poder de criação e de transformação da realidade
social. Ainda nos apoiando em Jodelet (1989b: 41), as
representações sociais devem ser estudadas “articulando
elementos afetivos, mentais, sociais, integrando a cogni­
ção, a linguagem e a comunicação às relações sociais que
afetam as representações sociais e à realidade material,
social e ideativa sobre a qual elas intervém” .

Dito de outra forma, é consenso entre os pesquisadores


da área que as representações sociais, enquanto produtos
sociais, têm sempre que ser remetidas às condições sociais
que as engendraram, ou seja, o contexto de produção. Vale
lembrar, entretanto, que, enquanto psicólogos sociais, o
contexto só nos interessa porque sem ele não poderíamos
compreender as construções que dele emanam e nesse
processo o transformam. É a atividade de reinterpretação
contínua que emerge do processo de elaboração das repre­
sentações no espaço da interação que é, ao nosso ver, o
real objeto do estudo das representações sociais na pers­
pectiva psicossocial.
Mas, a própria noção de contexto vem sendo proble-
matizada (Spink 1993a, 1993b). Na vertente que vimos
desenvolvendo a leitura do contexto social tem sido mar­
cada não apenas pelos fatores situacionais usualmente
associados com o metassistema social - incluindo aí as
determinações estruturais e as relações sociais - como
também pelos diferentes tempos históricos que permeiam
a construção dos significados sociais. Dito de outra forma,
nesta vertente a elaboração das representações sociais,
enquanto formas de conhecimento prático que orientam as
ações no cotidiano, se dá na interface de duas forças
monumentais. De um lado temos os conteúdos que circu­
lam em nossa sociedade e, de outro, temos as forças
decorrentes do próprio processo de interação social e as
pressões para definir uma dada situação de forma a con­
firmar e manter identidades coletivas. O contexto, neste
sentido, é essencialmente "intertextuar. Ou seja, é a
justaposição de dois textos: o texto sócio-histórico que
remete às construções sociais que alimentam nossa sub­
jetividade; e o texto - discurso, versões funcionais consti­
tuintes de nossas relações sociais.

Considerando, ainda, que estes conteúdos que circu­


lam na sociedade podem ter sua origem tanto em produ­
ções culturais mais remotas, constituintes do imaginário
social, quanto em produções locais e atuais, deduzimos
que o contexto pode ser definido não apenas pelo espaço
social em que a ação se desenrola como também a partir
de uma perspectiva temporal. Três tempos marcam esta
perspectiva temporal: o tempo curto da interação que tem
por foco a funcionalidade das representações; o tempo
vivido que abarca o processo de socialização - o território
do habitus (Bourdieu, 1983), das disposições adquiridas em
função da pertença a determinados grupos sociais; e o
tempo longo, domínio das memórias coletivas onde estão
depositados os conteúdos culturais cumulativos de nossa
sociedade, ou seja, o imaginário social.

Se tornamos mais complexo o enquadre das determi­


nações possíveis da elaboração das representações é por­
que só assim sentimos poder dar conta do paradoxo
aparente na conceituação de representação social como
estruturas estruturadas e estruturas estruturantes. Assim,
quanto mais englobarmos em nossa análise o tempo longo
- e, portanto, os conteúdos do imaginário social - mais nos
aproximaremos das permanências que formam os núcleos
mais estáveis das representações. No sentido oposto,
quanto mais nos ativermos ao aqui-e-agora da interação,
mais nos defrontaremos com a diversidade e a criação.

O estudo das representações sociais enquanto


processo

A coexistência de permanência e diversidade no cam­


po de estudo das representações sociais permite entender
melhor o papel da contradição na elaboração das repre­
sentações. Como aponta Geerz (1983), ao trabalharmos
com o senso comum não cabe catalogar os conteúdos em
busca do estável e consensual porque eles são essencial­
mente heterogêneos. Não cabe, também, buscar as estru­
turas lógicas subjacentes porque elas não existem. Ao
aprofundarmos a análise do senso comum, deparamo-nos
não apenas com a lógica e com a coerência, mas também
com a contradição.
Embora paradoxal, aceitar a diversidade implícita do
senso comum não significa necessariamente abrir mão do
consenso, pois algo comum sempre sustenta uma deter­
minada ordem social: pressupostos de natureza ideológica,
epistémes historicamente localizadas ou até mesmo resso­
nâncias do imaginário social. Afinal, as representações
sociais são elaboradas a partir de um campo socialmente
estruturado e são frutos de um imprinting social. Mas,
como aponta Morin (1983), há zonas fracas neste imprinting
que permitem com que haja movimento, mudança, aber­
tura à novidade.
A diversidade e contradição remetem ao estudo das
representações sociais como processo, entendido aqui não
como processamento de informação mas como práxis\ ou
seja, tomando como ponto de partida a funcionalidade das
representações sociais na orientação da ação e da comu­
nicação.
Quando a diversidade e o processo de elaboração são
privilegiados, abre-se, então, a possibilidade de trabalhar
com estudos de caso. O indivíduo, nesta perspectiva,
seguindo a tradição Vigotskiana (Vigotsky, 1978) é sempre
uma entidade social e, conseqüentemente, um símbolo
vivo do grupo que ele representa. Desta forma, o indivíduo
no grupo - sujeito da abordagem epidemiológica do estudo
das representações (Sperber, 1989) que busca a distribui­
ção de conteúdos numa dada população, passa a ser
abordado enquanto sujeito genérico - como o grupo no
indivíduo - contanto que tenhamos uma compreensão
adequada do contexto social por ele habitado: seu habitus
e a teia mais ampla de significados no qual o objeto de
representação está localizado.

Abrem-se, portanto duas perspectivas ricas para o


estudo das representações sociais enquanto processo: de
um lado a perspectiva mais tradicional de estudar muitos
para entender a diversidade; de outro, o estudo de casos
únicos para buscar na relação representação-ação os me­
canismos cognitivos e afetivos da elaboração das repre­
sentações.

Desvendando as teorias implícitas: questões


metodológicas

Sendo as representações sociais teorias do senso co­


mum, segue que as técnicas de análise empregadas em
seu estudo procuram, de alguma forma, desvendar a asso­
ciação de idéias aí subjacentes. É neste enquadre geral que
se localizam as diferentes vertentes analíticas sendo que o
que as dintingue são as exigências formais quanto à
linguagem utilizada - números ou palavras - e quanto ao
número de sujeitos necessários para efetuar as operações
estatísticas. Em suma, busca-se a associação através de
programas de análise multifatorial próprios ao computador
ou faz-se à mão. No primeiro caso o jogo de transformação
oblitera, freqüentemente, a lógica da construção. Ganha-
se, entretanto, na visibilidade do consenso e das perma­
nências e diversidades graças à agregação de casos. No
segundo caso, preserva-se a lógica intrínseca da constru­
ção mas perde-se a visão de conjunto.
Sendo assim, numa análise superficial, pareceria que
a opção se deve apenas aos objetivos da pesquisa: enten­
der a lógica da construção versus entender a distribuição
dos conteúdos numa dada população. É óbvio, entretanto,
que a questão não é assim tão simples e que a opção é
pautada, também, por pressupostos epistemológicos. No
debate corrente é freqüente referir-se a estas diferenças
contrapondo dicotomicamente as metodologias quantita­
tiva e qualitativa. Partindo do truísmo de que qualidade e
quantidade são qualificações desprovidas de sentido de
valor, vale uma pequena digressão buscando situar histo­
ricamente a conotação valorativa desta falsa dicotomia na
noção de objetividade e no seu corolário, a noção de rigor
científico.

O rigor na falsa dicotomia entre métodos


qualitativos e quantitativos

Este embate de metodologias só pode ser entendido


no cruzamento entre pressupostos sobre rigor na ciência e
o debate paralelo que contrapõe as ciências naturais e
sociais.
FIGURA 2: PRESSUPOSTOS SOBRE A NATUREZA DO
CONHECIMENTO

subjetivismo _______________________________________________________objetivismo

|nomimihsiT>o^^^J^ ^ ------pressupostos ontológicos ----------------► jrealismo

] — pressupostos episternológicos ------- ^ I p o s jt iv is m o ^

^ ------sobre a natureza humana----------------- ^ 3 eterminismo

^ ------ pressupostos metodológicos ---------- ^

Adaptado de Burrell e Morgan, 1982

O rigor, no paradigma científico dominante, oblitera


freqüentemente a visão de continuum que desde sempre
marcou a reflexão sobre as possibilidades do conhecimento
e cujos polos extremos, segundo Burrell e Morgan (1982)
seriam o subjetivismo e o objetivismo (fig. 2). Estes polos
são constituídos a partir de pressupostos em quatro arenas
distintas:
- a arena ontológica que concerne o estatuto do real,
contrapondo duas posturas opostas: o pressuposto de uma
realidade externa objetiva e acessível aos sentidos e o
pressuposto da realidade como produto último de nossa
consciência;

- a arena epistemológica que concerne as bases do


conhecimento e contrapõe o positivismo, enquanto ênfase
na busca de regularidades e na explicitação de explicações
causais, com as perspectivas centradas na compreensão
dos significados socialmente construídos;

- os pressupostos sobre a natureza humana, que opõem


o determinismo absoluto (o homem como produto das
determinações estruturais) com o voluntarismo absoluto (o
homem como criador absoluto da realidade social);
- a arena metodológica, que postula as regras de
condução de investigação onde emergem, como pólos
opostos, a postura nomotética - a busca de leis gerais que
permitam fazer previsões - e a ideográfica - o estudo
descritivo das singularidades.
A era moderna entroniza o objetivismo - a chamada
retórica da verdade na terminologia empregada por Ibanez
(1991). A busca de leis gerais passa a ser o alvo prioritário
das ciências e a demonstração experimental de teses
através do teste de hipóteses passa a ser o paradigma do
método científico. Sendo a matemática e a física as expres­
sões máximas desta forma de proceder, a mensuração
passou a ser automaticamente o caminho exclusivo do
rigor.

É aqui que se situa, então, a contraposição entre


ciências sociais e naturais. Não chega a ser um debate pois,
desde que as disciplinas do social emergiram no cenário
das ciências no final do século XIX, o consenso sempre foi
de que elas eram ciências menores: ciências soft, em
contraposição às ciências hard.

Uma primeira tentativa de mudança de estatuto passa


pela criação de uma epistemologia da diferença: se não dá
para ser igual, pontuemos a diferença. Emerge então uma
importante distinção, sistematizada por Dilthey (Von
Wright, 1979), entre explicação e compreensão. Caberia às
ciências sociais compreender os fenômenos, o que exigiria
um outro tipo de metodologia recuperando a tradição
hermenêutica. Uma metodologia que abrisse espaço à
interpretação, possibilitando a emergência dos significa­
dos, da esfera simbólica, do desvelamento das intenciona-
lidades.
Com este aval os métodos qualitativos emergentes nas
novas disciplinas recebem o seu primeiro impulso e vão
buscar seus modelos nas duas tradições empíricas então
existentes: a antropologia e a psicologia clínica. Da antro­
pologia e sua prima próxima, a sociologia urbana, entram
para o arsenal de métodos a observação participante e seus
derivados modernos mais voltados à transformação social:
a pesquisa ação e a pesquisa participante. Deriva daí,
também, uma nova postura face ao fenômeno observado:
a imersão no fenômeno para compreensão da diferença;
postura esta que abre os flancos da subjetividade e, con­
seqüentemente, possibilita o questionamento do pressu­
posto da neutralidade científica.
Da psicologia clínica emerge toda uma tecnologia
voltada ao uso da entrevista, assim como o trabalho com
grupos, primo distante dos grupos focais atuais, e a meto­
dologia de estudo de caso.
Mas a diferença e a inovação metodológica é ainda
regida pelo debate sobre a objetividade; debate este que
será por muito tempo ainda pautado pela aplicabilidade,
ou não, dos conceitos de validade e fidedignidade. Ou seja,
o que está em discussão é ainda o questionamento da
possibilidade de apreensão do real, apreensão esta ainda
subsumida pela mensuração.
Mas, sutilmente, o debate sobre o rigor nas ciências
sociais é desviado deste seu eixo central para uma esfera
menos compromissada com a questão epistemológica: a
validade, o grau em que um fenômeno é interpretado
corretamente. É neste sentido que muitos, entre eles
Denzing (1978), passam a advocar o uso da triangulação
metodológica como estratégia de validação. Ou seja, com­
binar técnicas múltiplas, ou múltiplos pesquisadores, de
forma a fortalecer a confiança nas interpretações.
Neste ínterim, acontecimentos em arenas diversas
vieram contribuir para o questionamento do paradigma de
objetividade, dentre eles: a constatação, na física quântica,
de que a consciência do observador está implicada na
observação; o fortalecimento da visão sistêmica na área da
cibernética; na história das mentalidades, a constatação
de que muitas das nossas verdades sobre o mundo social
são historicamente datadas; o relativismo decorrente das
reinterpretações geradas pelas reflexões a partir de movi­
mentos políticos de minorias (negros, mulheres, gays etc.)
que passam a reescrever a história a partir de sua própria
ótica; os movimentos artísticos que destacam o fantástico,
o efêmero, a construção; e a moderna filosofia da lingua­
gem que, como em Wittgenstein, destacam o papel da
linguagem na construção da realidade social.

Em suma, toda uma série de movimentos que conver­


gem para uma epistemologia construtivista que, sem du­
vidar da objetividade do mundo, coloca-a no rol das
probabilidades uma vez que os instrumentos que dispomos
para acessá-la são, estes sim, socialmente construídos.
Desta forma, não é a verdade intrínseca de nossos instru­
mentos que define o rigor e sim a compreensão dos limites
de suas possibilidades: em suma, cada método constitui o
objeto de estudo de uma maneira particular. A triangulação
metodológica, neste sentido, deixa de ser uma estratégia
de validação para ser um fator de enriquecimento: um
reconhecimento de que a realidade é caleidoscópica e que
a multiplicidade de métodos pode enriquecer a compreen­
são do fenômeno (Flick, 1992).

A objetividade num mundo socialmente construído


passa a ter uma conotação muito diferente. Como aponta
Morin (1983), na epistemologia da complexidade, que
sucede a epistemologia do realismo ingênuo, a objetivida­
de é produto do consenso sócio-cultural e histórico da
comunidade científica, regida portanto pelo signo da inter-
subjetividade.

Desvendando as teorias implícitas: técnicas


qualitativas para o estudo da associação de idéias
nas representações sociais

São estes os pressupostos téoricos e metodológicos


que vêm norteando as pesquisas que vimos realizando e
que, conseqüentemente, embasam a técnica de associação
de idéias que vem sendo por nós utilizada, com pequenas
modificações, em estudos centrados no processo de elabo­
ração das representações sociais assim como em estudos
visando entender as representações socialmente compar­
tilhadas.
Os estudos centrados no processo de elaboração das
representações tiveram por objetivo entender a construção
de teorias na interface entre explicações cognitivas, inves­
timentos afetivos e demandas concretas derivadas das
ações no cotidiano. Tendo em vista também a necessidade
de compreensão, nesses estudos, dos conteúdos que cir­
culam nos diferentes tempos anteriormente definidos - o
tempo da interação, o habitus e o imaginário social - a
coleta de dados exige longas entrevistas semi-estruturadas
aclopadas a levantamentos paralelos sobre o contexto
social e sobre os conteúdos históricos que informam os
indivíduos enquanto sujeitos sociais. A análise, centrada
na totalidade do discurso, é demorada e conseqüentemen­
te estes estudos têm utilizado poucos sujeitos. Trata-se,
assim, de um exemplo do que chamamos acima de "sujei­
tos genéricos” que, se devidamente contextualizados, tem
o poder de representar o grupo no indivíduo.
Trata-se, neste caso, de efetuar uma análise do discur­
so onde o trabalho de interpretação segue os seguintes
passos:

1. transcrição da entrevista.

2. leitura flutuante do material, intercalando a escuta


do material gravado com a leitura do material transcrito de
modo a afinar a escuta deixando aflorar os temas, atentan­
do para a construção, para a retórica, permitindo que os
investimentos afetivos emerjam.

Nesta leitura/escuta é preciso ficar atento às caracte­


rísticas do discurso que podem dar pistas valiosas quanto
à natureza da construção ou à sua funcionalidade. Potter
e Whetherell (1987) sugerem incluir entre estas caracterís­
ticas:

- a variação, ou seja, as versões contraditórias que


emergem no discurso e que são indicadores valiosos sobre
a forma como o discurso se orienta para a ação;

- os detalhes sutis - como silêncios, hesitações, lapsos


- pistas importantes quanto ao investimento afetivo pre­
sente;

- a retórica, ou a organização do discurso de modo a


argumentar contra ou a favor de uma versão dos fatos.
Ao mapear os temas emergentes é preciso, também,
ficar atento para a relação artificial criada pelo roteiro ou,
na ausência de um roteiro explícito, pelas perguntas do
entrevistador. Ou seja, são seus os temas ou são eles
elementos intrínsecos de uma representação que aflora no
discurso?

3. Tendo apreendido os aspectos mais gerais da cons­


trução do discurso, é preciso, num terceiro momento,
retornar aos objetivos da pesquisa e, especialmente, definir
claramente o objeto da representação. Os discursos são
complexos, mesmo quando pensamos estar entrevistando
sobre um tema único, e muitas vezes estão presentes
teorias sobre múltiplos aspectos relacionados. Isto fica
claro nos estudos que vimos realizando sobre a AIDS, onde
representações da AIDS, de doença/saúde e de sexualida­
de estão entrelaçadas. Definir o que é figura e o que é fundo
é essencial, mesmo que o fundo esteja presente nas cons­
truções em pauta. É neste afã que emergirão as dimensões
principais do discurso e, neste momento, dois caminhos
têm se revelado possíveis nas experiências analíticas de­
senvolvidas no Núcleo de Estudos sobre Representação de
Saúde e Doença por nós coordenado na PUC de São Paulo.

O primeiro caminho, factível quando se trata de uma


entrevista centrada num tema mais circunscrito - por
exemplo hipertensão - é de mapear o discurso a partir das
dimensões internas da representação: seus elementos cog­
nitivos, a prática do cotidiano e o investimento afetivo. No
estudo sobre as representações de um clínico geral sobre
a hipertensão (Spink, 1993c), utilizamos como dimensões
analíticas: as teorias sobre hipertensão e sobre o hipertenso
(dimensão cognitiva); a prática da Medicina no que diz
respeito ao tratamento da hipertensão assim como os
encaminhamentos específicos no cotidiano do consultório;
e os investimentos afetivos.

O segundo caminho, mais apropriado no caso de


representações complexas, é mapear o discurso a partir dos
temas emergentes definidos a partir da leitura flutuante e
guiados pelos objetivos do pesquisador. Como exemplo,
num estudo sobre a violência agrária no Pará, Pimentel
(pesquisa ainda em andamento) utilizou três temas - a
função da terra, a posse da terra e a violência - de modo
a entender a construção que representantes de diferentes
grupos (posseiros, fazendeiros, sindicatos rurais, judiciário
etc.) fazem do conflito agrário.
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4. definidas as dimensões, são então construídos ma­
pas que transcrevem toda a entrevista, respeitando a
ordem do discurso, para estas dimensões (fig. 3). Estes
mapas possibilitam ver - literalmente ver, pois fica explícita
a relação - a associação de idéias entre as dimensões.
Permitem também analisar a variedade de idéias e imagens
presentes em uma única dimensão.
5. a etapa final consiste em transportar estas associa­
ções para um gráfico, pontuando as relações entre elemen­
tos cognitivos, as práticas e os investimentos afetivos.

Do estudo sobre representações de hipertensão resul­


taram três gráficos. O primeiro (fig. 4) sintetiza as constru­
ções sobre hipertensão e hipertensos do médico que serviu
como informante nesta pesquisa. Embora sendo porta-voz
de um campo científico, as construções resultantes emer­
gem como reconstruções funcionais de conteúdos cientí­
ficos, filtrados e transformados a partir da vivência
cotidiana de consultório. A representação está centrada na
idéia de doença; mas uma doença sui generís, que não tem
causas bem delineadas, nem sempre produz sintomas
reconhecíveis e depende da boa vontade do paciente para
que possa ser adequadamente controlada. Para este médi­
co, a hipertensão é um problema sério de saúde pública
seja por sua incidência na população ou pelos padrões de
mortalidade e morbidade a ela associados. Os aspectos
psicossomáticos também se fazem presentes em suas duas
vertentes: a personalidade e as causas associadas ao meio
ambiente, especialmente o stress da vida urbana. Vale
apontar, ainda, para a associação entre os fatores indivi­
duais e a predisposição familiar, evidenciada no discurso
deste médico pela menção à hipertensão entre os negros.
FIGURA 4: REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DE HIPERTENSÃO

/
quem é o hipertenso
o que é hipertensão
Esta figura, centrada na representação da hipertensão
e do hipertenso, tem evidentemente um viés cognitivista.
Mas, tendo sido complementada por uma pesquisa histó­
rica sobre as teorias médicas a respeito da hipertensão -
pesquisa esta realizada através do levantamento de edito­
riais das duas principais revistas médicas internacionais
desde o início do século - ilustra muito bem a maneira
como as teorias médicas datadas alimentam as repre­
sentações atuais numa combinação sui generís de conteú­
dos que irão embasar a forma específica com que um
médico em particular lida com o cotidiano da clínica.

8.
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D
A fig. 5, por sua vez, é uma síntese do discurso relativo
à prática da Medicina no campo da hipertensão. Há dois
eixos principais no discurso deste médico: de um lado
abundam medicamentos para reduzir a pressão; de outro,
a Medicina não sabe dar atenção ao paciente. Assim, no
afã de resolver o problema, muitos médicos centram a
atenção na "conduta" - nos procedimentos clínicos pro­
priamente ditos - e esquecem o paciente. O que mais
chama a atenção neste gráfico é a contraposição entre a
Medicina no caso geral e as soluções particulares encon­
tradas a partir da experiência clínica, marcada no discurso
pelo refrão: “eu não” . É nesta tarefa, de resolver no coti­
diano os impasses históricos do tratamento da hipertensão,
que o discurso passa a ser marcado pela diferença: “eu
não, eu faço de forma diversa” . Mas, igualmente, é neste
afã de construir a diferença que o investimento afetivo
emerge com mais força.
FIGURA 6: A PRÁTICA COTIDIANA

M necessário, encaminha

*\ é preciso atemorizar

fc f
oesaoaia .

V paciência ) ' •
depende da empatia * um paciente ansioso

/Interessante^ ^
\mas difícil J ' '/
\ -------------criar vínculo
Cri*r vft^ ° conscientizar — ► explicar - W conseguir colaboracio
colaboração - ► í t e r a í l __
modo de vida re m é ^ s

0* caro
sem vínculo, abandonam
T\ ^--- __________
eu n to C «í v*™ a dificuldade J °
procuro trabalhar a partp psi

fiz o curso de psicossomática


T
eu nào, eu adoto a conduta correta

I procuro remédios baratos


procuro seguir a rotina
A fig. 6, dando continuidade à anterior, está organizada
nos dois eixos relativos às dimensões das práticas corren­
tes no tratamento da hipertensão: "eu” adoto a conduta
certa na prescrição dos medicamentos e “eu” procuro
trabalhar a dimensão psicossocial. Adotar a conduta certa
implica, segundo as associações presentes no discurso, em
controlar os efeitos colaterais assim como em adequar a
prescrição às necessidades econômicas dos pacientes,
fatores estes percebidos como sendo dificultadores da
aderência ao tratamento.

Mas é a dimensão psicossocial que emerge mais


fortemente no discurso deste médico: a retórica dos efeitos
terapêuticos da relação médico-paciente. Esta relação, de
acordo com a trama de idéias presentes no discurso, se dá
numa dupla perspectiva: criar um vínculo que possibilite
ao médico a busca das informações necessárias e cons­
cientizar o paciente de modo a assegurar sua cooperação.
Criar um vínculo implica em estabelecer uma relação de
empatia para que o paciente possa desabafar, conversar de
coisas íntimas e assim, supostamente, revelar a trama
causai de sua hipertensão. Deixar, enfim, emergirem as
causas últimas da ansiedade e do stress - que, conforme
visto na fig. 4, são elementos intrínsecos da teoria com a
qual este médico funciona. Embora considerado ingredien­
te fundamental no tratamento da hipertensão, o vínculo é
tarefa difícil, pois se gera interesse, gera também o desafio.

Já a conscientização implica em explicar muito bem o


que é a doença e os riscos a ela associados. Implica, em
última análise, atemorizar os pacientes, de forma dosada,
para que colaborem com o tratamento. A colaboração é o
elemento crucial, pois o paciente tem que submeter-se a
uma dieta insossa; precisa tomar remédios cujos efeitos
colaterais são muitas vezes piores que os sintomas - às
vezes inexistentes - da pressão elevada; precisa, enfim,
modificar seu estilo de vida. Então, diz este médico, "aí é
que vem a dificuldade” , e com ela a frustração.
Esta forma de análise permite entender os ajustes
feitos nos elementos cognitivos destas teorias do senso
comum sob a pressão das ações do cotidiano; permite
entender, ainda, o papel dos investimentos afetivos, fre­
qüentemente acessados a partir das contradições presen­
tes no discurso, como motores da transformação ou,
inversamente, como mecanismos de defesa de identidades
ameaçadas.

Em nítido contraste, os estudos que buscam entender


as representações na perspectiva dos grupos, buscando aí
tanto a diversidade quanto o que há de comum e compar­
tilhado, têm utilizado formas de coleta de dados mais
estruturadas, especialmente os questionários (auto-aplica-
dos ou utilizados como roteiro de entrevista) com pergun­
tas abertas. A estrutura da representação social é, neste
caso, fruto da somatória da análise de associação de idéias
de várias perguntas.

Esta forma de trabalhar, menos onerosa que a análise


de discurso, aproxima-se das vertentes que usam o com­
putador para desvendar as estruturas subjacentes das
representações de muitos sujeitos. Entretanto, permite
preservar a lógica intrínseca da construção de cada sujeito,
aspecto este que serve, também, como elemento de vali­
dação da abstração resultante da junção do conjunto de
respostas.

Esta forma de análise foi empregada em um estudo


sobre a representação social de vacina (Spink et al., 1993d)
realizado com o intuito de entender as implicações destas
representações para a prevenção da AIDS e, mais especi­
ficamente, para a disposição de participar em testes de
vacinas anti-HIV. Para esta pesquisa foram entrevistados
61 sujeitos pertencentes a três grupos distintos:

- mães de crianças em idade de vacinação, escolhidas


por sua familiaridade com vacinas em geral;

- jovens entre 18 e 25 anos, por serem eles um dos


alvos prioritários de campanhas de prevenção à AIDS
- portadores de HIV, por sua familiaridade com a
questão de vacinas anti-HIV
Analisando as associações de idéias presentes nas
respostas ao conjunto de perguntas sobre o que são vaci­
nas, o que fazem, como funcionam e sobre a disposição
para tomar a vacina de AIDS e a proteção esperada através
da vacina, foi possível desvendar um esboço de teoria sobre
o funcionamento de vacinas. Esboço este construído a
partir de fragmentos, pois a compreensão do modo de
funcionamento das vacinas é de modo geral bastante
precária.
Esquematicamente esta teoria tem os seguintes ele­
mentos:
proteger

Introdução de algo no organismo para a doença.

atacar

Vale apontar, a título de curiosidade, que 10% dos


entrevistados nem se aventuraram a tentar explicar este
mecanismo respondendo apenas que não sabiam como as
vacinas funcionavam. Metade da amostra, 51%, mencio­
nou á função: proteger, prevenir, atacar, imunizar, “dar
mais fraco". Apenas cerca de um terço da amostra (39%)
tentou algum tipo de aproximação com a forma de funcio­
namento.

Importante notar que nem todos os sujeitos menciona­


ram todos os elementos desta teoria esquemática. Ou seja,
raramente esta "teoria” estava plenamente mapeada. Foi
a somatória de respostas que possibilitou esta aproxima­
ção. Entretanto, embora presentes à consciência de forma
fragmentária, as implicações desta teoria para o cotidiano
- subsumido, aqui, pelas práticas de prevenção à AIDS -
são claras.

De um lado evidencia que a informação veiculada


sobre testes de vacinas, já por si só complexa face à
variedade de vacinas atualmente em teste, é dificilmente
ancorada em representações já existentes, visto que estas
são bastante fragmentárias. A análise do discurso, através
da associação de idéias, evidencia que, na ausência de
elementos mais fundamentados na ciência, as repre­
sentações de vacinas são freqüentemente ancoradas em
representações mais arcaicas sobre a força dos elementos
- associadas, neste caso, aos medicamentos. Destaca-se,
aqui, a dicotomização entre remédios "fortes" e "fracos" -
e a injeção é sempre "forte" sendo que o eixo "forte”
pode estar associado tanto com o “bom" (porque protege
o organismo) quanto com o "perigoso" (porque se é capaz
de atacar pode também voltar sua força contra o orga­
nismo).

De outro lado, permite trazer à luz o poder dos proces­


sos de significação e suas implicações para o posiciona­
mento individual face à prevenção. Retornando à teoria
esquemática sobre o funcionamento das vacinas - intro­
dução de algo no organismo para proteger ou atacar a
doença - as associações de idéias permitem entender a
natureza deste algo (as teorias implícitas sobre substâncias
fortes e fracas) e o papel possível do organismo vacinado:
trata-se de uma proteção cujos efeitos eximem o indivíduo
da necessidade de tomar outras medidas preventivas; ou
é um instrumento de ataque que, na metáfora militar,
exigiria a presença de um general.

Conclusão

Os debates referidos neste texto e a perspectiva teórica


e metodológica delineada de modo a poder situar a pro­
posta da técnica de associação de idéias por nós utilizada
têm como substrato a inversão da posição do sujeito na
questão do conhecimento: de observador neutro e passivo,
este passa a ter um papel central, enquanto formulador de
teorias - científicas ou de senso comum - na criação de
uma realidade consensual. E, como aponta Birman (1991:
15), "reconhecer no registro epistemológico a posição do
sujeito na produção do objeto teórico é afirmar, ao mesmo
tempo, que este sujeito empreende um trabalho de inter­
pretação do real e que a interpretação é constitutiva da
objetividade científica". Desta forma, trabalhar os dados de
forma qualitativa implica em re-discutir o estatuto da
interpretação na atividade científica.

A interpretação é essencial, na perspectiva construti­


vista, em três sentidos complementares. Em um primeiro
sentido, como aponta Birman (1991:15), o próprio “fato” -
o dado objetivo que é nossa matéria-prima - "já é um
recorte realizado no real mediante uma operação interpre-
tativa" uma vez que só podemos conhecer os fenômenos
através das teorias e estas são construções humanas his­
toricamente datadas. A interpretação, neste sentido, define
o "olhar possível" que incide sobre o dado, olhar este que
tem seus limites na episteme, entendida na vertente fou-
caultiana como “algo como uma visão do mundo, uma fatia
de história comum a todos os conhecimentos e que imporia
a cada um as mesmas normas e os mesmos postulados,
um estágio geral da razão, uma certa estrutura do pensa­
mento a que não saberiam escapar os homens de uma
época - grande legislação escrita, definitivamente, por mão
anônima" (Foucault, 1987: 217). Lembrando, entretanto,
que, para Foucault, a episteme “não é uma forma de
conhecimento, ou um tipo de racionalidade que, atraves­
sando as ciências mais diversas, manifestaria a unidade
soberana do sujeito, de um espírito ou de uma época; é o
conjunto das relações que podem ser descobertas, para
uma época dada, entre as ciências, quando estas são
analisadas ao nível das regularidades discursivas" (op. cit.,
p. 217).
Mas, se a interpretação, neste primeiro sentido, remete
à visibilidade possível do objeto na intertextualidade dos
discursos sociais, num segundo sentido remete à empatia:
à possibilidade de compreender e discutir as intenções
subjacentes de um outro que é definido como diferente,
por sua extemalidade, ao selí. Interpretar - de acordo com
Sperber (1989) - é atribuir aos atores individuais e coletivos
crenças e intenções que fazem com que seus discursos se
apresentem como racionais. Neste sentido, na perspectiva
de uma teoria do conhecimento, “uma interpretação é a
representação de uma representação por uma outra em
virtude da similaridade de conteúdos" (Sperber, 1989:118).

Emergem, nesta esfera, questões complexas referentes


às bases de sustentação da ação comunicativa entre dife­
rentes, destacando-se entre elas a problemática dos valo­
res - das ordens morais locais - que freqüentemente
impossibilitam uma abertura plena à alteridade: vemos o
mundo e o interpretamos a partir das viseiras de nossos
preconceitos.

Finalmente, num terceiro sentido, a interpretação sus­


cita o debate, já nosso velho conhecido, sobre a objetivi­
dade da atividade científica centrada na hermenêutica.
Antes de mais nada coloca a questão da relatividade das
versões ou interpretações, uma vez que não existe uma
única interpretação ou, dentre as alternativas, nenhuma
garantia de que a interpretação escolhida é mais verdadeira
que as demais. A escolha é regida, sem dúvida, por opções
teóricas que antecedem e mesmo determinam as interpre­
tações. Já a validade pertence à esfera da intersubjetivida-
de; não na busca do consenso acalentador mas na busca
constante da contradição criativa. Como diz Morin (1983:
16/17):
“E aqui aparece-nos um elo indestrutível entre intersubjeti-
vidade e objetividade, no qual a objetividade é ao mesmo
tempo fundamento primeiro e conseqüência última. Neste
dinamismo em anel a objetividade ultrapassa e transcende
a intersubjetividade de que depende, sem nunca poder
escapar-lhe. Ela não pode ser concebida nem como a priorí
nem como ponto de partida absoluto. A objetividade apare­
ce como incessantemente autoproduzida e reconstruída por
um dinamismo específico da comunidade científica. Dito de
outra forma, a objetividade é produto de um processo em
anel que só pode ser produzido se a objetividade nele
intervier de uma forma produtora. Isto quer dizer que a
objetividade não exclui o espírito humano, o sujeito indivi­
dual, a cultura, a sociedade. Mobiliza-os. Mobiliza os prin­
cípios e as potencialidades construtoras do espírito humano
e da cultura e exige o seu controle mútuo permanente.
Necessita tanto do consenso como do antagonismo e da
conflitualidade entre concepções e teorias".

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WOLFGANG WAGNER
5.
DESCRIÇÃO, EXPLICAÇÃO
E MÉTODO NA PESQUISA
DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS

Wolfgang Wagner
Universidade de Linz, Áustria

O conceito de representação social é multifacetado. De


um lado, a representação social é concebida como um
processo social que envolve comunicação e discurso, ao
longo do qual significados e objetos sociais são construídos
e elaborados. Por outro lado, e principlamente no que se
relaciona ao conteúdo de pesquisas orientadas empirica-
mente, as representações sociais são operacionalizadas
como atributos individuais - como estruturas individuais
de conhecimento, símbolos e afetos destribuídos entre as
pessoas em grupos ou sociedades. Esta dupla visão do
conceito o faz versátil, e dá origem a várias interpretações
e usos que nem sempre são compatíveis uns com os outros.
Essa versatilidade surge de uma abertura particular da
teoria, que torna possível a ela ser apropriada, quer dizer,
“usada, combinada e incorporada por outros referenciais
em p s ic o l o g i a s o c i a l " (Allansdottir, Jovchelovitch & Sta-
thopoulou, 1993). Tal abertura pode contituir-se tanto em
um problema sério (Jahoda, 1988) ou pode ser uma pré-
condição para o seu desenvolvimento futuro (Moscovici,
1988; Farr, 1992, 1993).

Parte deste problema é produto de uma discussão


inacabada sobre os aspectos episternológicos da t e o r i a
d a s r e p r e s e n t a ç õ e s s o c i a i s . Neste capítulo, eu me propo­

nho a discutir algumas questões epistemológicas ligadas


às re p re s e n ta ç õ e s so cia is, c o n s id e ra n d o su a fu n ç ã o e p o ­
s iç ã o e m estruturas e x p lic a tiv a s q u e e n v o lv e m n ív e is d ife ­
r e n c ia d o s d e a v a lia ç ã o e m p s ic o l o g ia s o c i a l .

Qualquer teoria científica procura descrever e explicar


fenômenos. Ao fazer isso, a teoria submete o fenômeno
capturado por conceitos a uma ordem processual e causai.
Na t e o r i a d a s r e p r e s e n t a ç õ e s s o c i a i s , o fenômeno em
questão é da ordem dos diferentes tipos de teorias popu­
lares, senso comum, e saberes cotidianos que chamamos
representações sociais. Entretanto, ao mesmo tempo que
estamos suficientemente seguros sobre a descrição do
fenômeno, ou seja, o que podemos considerar ou não como
uma representação social (de Sá, 1993; Doise, 1990; Mos­
covici, 1988; Wagner, 1994a; Wagner & Elejabarrieta, no
prelo), o mesmo já não pode ser dito sobre aquilo que a
teoria das representações sociais realmente explica.
Duvidar sobre o que uma representação de fato explica
pode parecer estranho. Não seria simplesmente o caso, de
que uma representação explica o comportamento daqueles
indivíduos que detêm uma representação específica, em
uma situação dada? Consideremos a investigação sobre
representações sociais da loucura conduzida por Jodelet
(1989). Lá, a autora mostrou que os sujeitos investigados
compartilhavam uma grande quantidade de crenças sobre
o que é a loucura, como ela se origina, e como as pessoas
deveriam se comportar quando confrontadas com o louco.
Uma dessas crenças, ainda que implicitamente, conside­
rava a loucura como contagiosa. Em conseqüência, as
pessoas que alojavam pacientes em suas casas tendiam a
lavar roupas e pratos, pertencentes aos seus “hóspedes",
em separado das de suas próprias famílias. Neste exemplo,
a representação da loucura e a crença no contágio apare­
cem como explições para os comportamentos de lavar
roupas e pratos. O que há obviamente aqui é primeiro a
representação, i. é, o saber cotidiano da loucura e do
contágio, e depois o comportamento específico de lavar
roupas e pratos. Até aqui tudo bem. Propor uma explicação
para o comportamento como sendo causado pela repre­
sentação parece ser uma questão direta. Mas será que esta
relação causai explicativa - presente em modelos empíri­
cos de pesquisa - entre a representação como variável
independente e o comportamento subseqüente como va­
riável dependente se justifica?

O segundo problema que caracteriza o uso das repre­


sentações sociais como explicações científicas se relaciona
a seu papel enquanto variáveis dependentes. Seria quase
óbvio dizer que diferentes condições sociais, existentes em
diferentes grupos e sociedades, trariam como conseqüên­
cia diferentes representações sociais, que são, por sua vez,
o resultado de necessidades de grupos ou sociedades ao
lidar com novos fenômenos e novos problemas. A questão
é, então, de que forma as condições sócio-genéticas das
representações sociais penetram a teoria. E é este o aspec­
to subjacente da teoria que necessitamos analisar, se
quisermos falar sobre modalidades explicativas na pesqui­
sa em representações sociais.

Modelos explicativos e níveis de avaliação

Um modelo explicativo

Antes de analisarmos os problemas específicos asso­


ciados às representações sociais é necessário discutir qual
o modelo de explicação científica mais adequado aos
objetivos do presente trabalho. Em várias ciências, o m o­
delo dedutivo-nomológico de explicação é o considerado
apropriado. Segundo esse modelo, uma explicação dedu-
tiva-nomológica válida necessita um conjunto de leis
abrangentes e um conjunto de condições antecedentes.
Essas condições antecedentes são, elas próprias, instân­
cias dos termos relevantes das leis abrangentes e especi­
ficam as características do evento a ser explicado. As leis
abrangentes e as condições antecedentes são o que nos
possibilita concluir que o evento a ser explicado é conse­
qüência de uma situação dada. Se uma lei geral, por
exemplo, afirma que em uma situação posterior à tomada
de decisão as pessoas provavelmente expressam arrepen­
dimento por terem escolhido uma dada alternativa, e de
fato há um sujeito concreto em uma situação pós-tomada-
de-decisão, poderemos concluir que o evento "só se arre-
pende depois de ter tomado uma decisão" pode ser
explicado pela lei do "arrependimento pós-tomada-de-de-
cisão" da teoria da dissonância cognitiva (Festinger, 1957)
dado o evento (ou condição) antecedente “só toma uma
decisão".

O modelo dedutivo-nomológico pressupõe: a) que a


conclusão lógica tenha sido extraída corretamente; b) que
a explicação contenha pelo menos uma lei geral; c) que
esta lei tenha conteúdo empírico, de tal forma que não haja
uma implicação lógica (analítica), mas sim uma implicação
empírica (sintética); e d) que as proposições da explicação
sejam verdadeiras. Existem, entretanto, dúvidas conside­
ráveis se as teorias e pesquisas psicológicas e sociais são
capazes de atender a esses requisitos. Primeiro, porque há
evidência de que a maioria das teorias psicológicas não
contém leis gerais; é muito mais provável que elas variem
histórica (Foon, 1986; Gergen, 1973; Gergen & Gergen,
1984) e culturalmente (p. ex., Miller, 1984; Shweder &
Bourne, 1984). Segundo, porque também existem dúvidas
consideráveis se a maioria das teorias e leis psicológicas
podem ser consideradas sintéticas. Análises exaustivas de
teorias psicológicas demonstraram que várias delas podem
ser reformuladas como teoremas do senso comum, e várias
outras envolvem pressupostos racionais implícitos (Eleja-
barrieta & Wagner, 1992; Holzkamp, 1986; Smedslund,
1978,1988). Em ambos os casos, tanto no conformar-se ao
senso comum, como na implícita racionalidade cotidiana
que manifestam, há a implicação de um caráter analítico
e não sintético para as teorias psicológicas, o que proíbe a
sua interpretação como explicações causais dedutivo-no-
mológicas. Isso é ainda mais verdadeiro no caso da t e o r i a
(Wagner, 1993). Portanto, o
d a s r e p r e s e n t a ç õ e s s o c ia is

modelo dedutivo-nomológico não é uma referência útil


para o presente objetivo1.
Nas teorias da p s ic o l o g ia s o c i a l necessitamos de um
modelo de explicação mais simples, que não requer a
validade generalizante de leis abrangentes (D’Andrade,
1986; Jahoda, 1989:77). Assim, utilizaremos aqui a “expli­
cação modal", tal como foi sugerida por Von Kutschera
(1982). O modelo de explicação modal requer o estabeleci­
mento de uma relação sintética do tipo se-então entre uma
condição ou evento explicativo, o explanans, e um evento
a ser explicado, o explanandum. Uma proposição é, então,
uma explicação modal se: a) existe o fenômeno g; b) se
existe uma relação de implicação entre o fenômeno q e
outro fenômeno p, de tal forma que q implica em p. Essa
proposição explica o fenômeno p pela condição anteceden­
te g, se, e somente se, a implicação não se mantiver para
o contrário de q, Não-q. Assim, se qualquer outro evento
N ão-q não produz um evento p, se q é um evento que
antecede p e se a implicação é uma relação sintética,
podemos chamar essa proposição uma explicação modal
d ep por q. Esse modelo “soft” de explicação faz muito mais
justiça à maioria das modalidades explicativas da p s ic o l o ­
g i a s o c i a l do que o modelo "hard” de explicação deduti­

vo-nomológico.

Níveis de avaliação

Qualquer proposição explicativa contém sempre pelo


menos dois conceitos, que se referem a fenômenos, isto é,
coisas, eventos, situações, estruturas organizacionais, con­

1. Se o modelo de explicação dedutivo-nomológica se adapta ou não aos


requisitos da Psicologia Social e outras Ciências Sociais, é um problema sem
dúvida alguma muito mais complexo. Mas aqui não é o lugar para uma
discussão mais extensa. Veja, por exemplo, Cummins (1983), Harré (1990),
Wagner (1994a).
dições institucionais ou crenças e comportamentos de
atores sociais. Esses fenômenos podem ser tanto avaliados
como medidos, em níveis diferentes de complexidade.
Desde uma perspectiva teórica, esses níveis foram descri­
tos na pesquisa em p s ic o l o g i a s o c i a l por Doise (1986) sob
o título "níveis de análise". Apesar de serem úteis em
perspectivas mais globalizantes, a abordagem dos "níveis
de análise" não se presta aos objetivos da presente discus­
são (Wagner, 1994a). Aqui, o objetivo é discutir perspecti­
vas metodológicas e não teóricas. Portanto, vamos usar o
termo "níveis de avaliação” para discriminar fenômenos em
termos dos procedimentos pelos quais eles são avaliados.

O termo nível de avaliação é entendido aqui como um


construto metodológico2. Ao definir um procedimento para
medir qualquer processo em ciências sociais, o pesquisa­
dor também define em que nível o fenômeno em questão
será mapeado. De certa forma, a medição implica em uma
determinação ontológica do processo que se está tentando
apreender. Quer dizer, a decisão sobre método, em uma
investigação empírica, determina que aspecto do fenôme­
no pode aparecer como real, ou aparece como real. A
decisão metodológica é, portanto, e necessariamente, tam­
bém uma decisão ontológica porque as coisas se mostram
como realidade somente quando interagimos com elas. E,
em ciências sociais, a medição constitui uma parte do
processo de interação com o objeto do qual tentamos nos
aproximar. É claro, portanto, que estamos assumindo uma
posição construtivista em relação a procedimentos meto­
dológicos.

2. 0 sentido do termo “nível de avaliação" se aproxima da noção mais comum


de "nível de agregação". Mas enquanto "agregação", estritamente falando,
pressupõe que o pesquisador conheça o que ele ou ela está agregando - isto
é, por exemplo, um conjunto de indivíduos concretos que, uma vez agregados,
formam um grupo específico - o termo "avaliação" não supõe tal coisa. Se
nós avaliamos um fenômeno a um determinado nível, não necessitamos
conhecer as partes que o constituem.
Vamos sugerir aqui dois níveis de avaliação que de­
sempenham um papel crucial na pesquisa em repre­
sentações sociais: o nível do individual e o nível do
social/cultural.
a) O nível de avaliação individual envolve todos aqueles
conceitos da p s ic o l o g i a s o c ia l que se referem a fenôme­
nos de domínio subjetivo, tais como compreensão, senti­
mentos e a volição do sujeito individual. Tais fenômenos
são bem conhecidos em Psicologia como percepções,
memórias, atitudes, intenção, pensamento, emoção, afeto
e comportamento. Esses conceitos são avaliados, medidos,
e teorizados a partir ou em relação ao sujeito individual. A
grande maioria dos construtos usados em p s ic o l o g i a s o ­
c i a l pertencem a essa classe de fenômenos.

Mas o nível individual de avaliação, ao ser definido em


termos de métodos de pesquisa, compreende não apenas
percepções, lembranças, atitudes, intenções, pensamento,
emoções, afetos e comportamentos, mas também crenças,
que são compartilhadas entre atores sociais e comuns a
grupos sociais. Ainda que essas crenças possam pertencer
a um nível de análise social ou ideológico, em termos
teóricos (Doise, 1986), essas opiniões, representações e
ideologias socialmente compartilhadas, são parte do nível
de avaliaçãojndividual, na medida em que elas são avalia­
das e medidas no sujeito individual ou podem ser atribuídas
a um sujeito específico.
b) As variáveis e conceitos no nível de avaliação social,
cultural ou do grupo, compreendem fatos que aparecem
para o indivíduo como um tipo de material a-priori. Aqui
falamos do social, cultural ou da ecologia sócio-mental que
escapa ao controle de indivíduos isolados. Se variáveis e
conceitos são avaliados a este nível, é porque eles refletem,
como um todo, qualidades de sociedades, culturas, grupos,
subculturas, classes sociais e subgrupos. Instituições so­
ciais, fenômenos econômicos e sistemas coletivos simbó­
licos, por exemplo, pertencem a este nível. Conceitos a este
nível não expressam propriedades que possam ser atribuí­
das a um indivíduo específico, mas somente a um agregado
de indivíduos com propriedades emergentes próprias. Por
propriedades emergentes não se quer significar qualquer
coisa como uma metafísica social, mas tão-somente se
delimitar tais propriedades, que são simplesmente defini­
das pelos procedimentos que as medem ao nível supra-in-
dividual. Suas características são com pletam ente
derivadas do tipo específico de avaliação metodológica e
tratamento teórico que recebem. É claro que, na maioria
dos casos, tais propriedades não estão ao alcance de
métodos psicológicos individuais, mas dependem dos mé­
todos da p s i c o l o g i a s o c i a l , Sociologia, Economia, Antro­
pologia Social e Cultural3.

.
3 Pode ser útil postular um nível de avaliação situacional como nível interme­
diário. Se, de acordo com Tajfel (1981), o fenômeno intergrupal pode ser
localizado teoricamente em um pólo ou dimensão, onde o outro pólo é
caracterizado por eventos interpessoais, essa última classe de eventos
pertenceria ao nível de avaliação situacional. Este nível compreenderia
variáveis e conceitos que descrevem fatos passageiros na esfera diretamente
perceptível da interação individual. Tais fatos são subjacentes à influência
pessoal direta. Estes podem ser tanto os pequenos grupos, que ainda são
compreensíveis para os indivíduos envolvidos, como também aquelas condi­
ções físicas onde os indivíduos temporariamente se localizam, como, por
exemplo, a situação experimental, onde os participantes em um experimento
se separam no final. É importante salientar o caráter efêmero de tais situações
dentro da prática cotidiana dos sujeitos, a fim de distingui-las daquelas
estruturas de longo prazo, estáveis, que constituem os dados macro-sociais.
Um construto a esse nível descreve um atributo da situação como um todo.
Experimentos e teorias na tradição da teoria dos jogos e análises de redes de
comunicação são exemplos típicos deste nível. Eles lidam com mudanças nos
parâmetros da situação, que são determinados pelo resultado do jogo e pela
estrutura do jogo, que é por sua vez definida pelas matrizes de ganho.
Caracterizar um jogo como soma-zero ou não-soma-zero, por exemplo,
constituiria tal parâmetro. Na sua monografia sobre grupos e indivíduos, Doise
(1978) introduz tais parâmetros situacionais quando os jogos são definidos ou
como maximização de ganhos individuais, ou como coletivos. Exemplos
vindos da psicologia dos grupos seriam conceitos tais como “similaridade",
“homogeneidade grupai", “coesão grupai" etc., que descrevem uma relação
estrutural entre indivíduos em interação. Tais variáveis não podem ser
avaliadas ao nível do indivíduo isolado, mas somente como um atributo de
uma rede total de interação.
Espaços de explicação

Devido ao seu caráter complexo enquanto entidades


sociais, que constituem parte do conhecimento de indiví­
duos, modalidades explicativas na pesquisa em repre­
sentação social podem envolver níveis diferentes de
avaliação. Se, por exemplo, descobrirmos que uma parte
dos indivíduos que entrevistamos possui uma repre­
sentação social R, e essa representação surgiu porque o
grupo social, do qual esses sujeitos fazem parte, elaborou
coletivamente esse conhecimento (tal como nós o sabemos
através de análises de documentos e de meios de comuni­
cação), o que estamos fazendo é articular um nível social
de avaliação com um nível individual de avaliação. Este é
o caso, porque afirmamos, no início, que a representação
coletivamente elaborada pelo grupo como um todo explica
o fato de que os indivíduos que escolhemos e entrevista­
mos exibem a representação específica R. Ou, colocado de
forma mais direta, é o fato da elaboração coletiva que
determina que os indivíduos possuam a mesma repre­
sentação, dadas certas condições propícias. Uma repre­
sentação coletivamente elaborada, avaliada através dos
meios de comunicação ou análise de documentos, consti­
tui um fato social que se refere ao grupo como um todo. O
fato de que indivíduos específicos possuem uma repre­
sentação R é avaliado individualmente por entrevistas e
questionários. Através de questionários e entrevistas nós
sabemos que João, Sandra e Roberto, por exemplo, pensam
tal e tal, enquanto que através da análise de conteúdo de
documentos e de meios de comunicação de massa nós não
sabemos se Daniela, Inês ou Maria realmente pensam tal
e tal, ainda que eles pertençam àquele grupo. Portanto,
dois níveis diferentes de avaliação são articulados neste
tipo de explicação, definindo um "espaço explicativo".

Um espaço explicativo é definido aqui como um con­


junto de conceitos que podem ser ligados por relações
implicativas que sustentam explicações lógicas válidas.
Vamos considerar o seguinte exemplo (Putnam, 1974):
Imaginem um quadro com dois furos. Um dos furos é
quadrado e o outro é circular, ambos com diâmetros
aproximadamente iguais. Uma cunha quadrada com diâ­
metro um pouco menor cabe no furo quadrado, mas não
no circular. Para explicar esse fato C podemos desenvolver
duas explicações. A primeira (micro-)explicação [A) pode­
ria ser medir a localização e o vetor de impulso de todas
as partículas elementares do quadro e da cunha, e então
derivar dessas micro-estruturas a lei de que a nuvem de
partículas que constitui a cunha caberá apenas no lugar da
nuvem de partículas do quadro, onde as partículas do
quadro são substituídas pelas partículas penetráveis de ar,
que é o furo quadrado. Já que nuvens de partículas de
objetos rígidos são geralmente impenetráveis, a nuvem de
partículas da cunha não pode atravessar o furo redondo
com uma nuvem de partículas que é diferentemente cons­
tituída.

De modo alternativo, uma (macro-)explicação B tam­


bém seria viável. Poderíamos estabelecer as partículas
geométricas do quadro e da cunha e, comparando medi­
das, concluir que a forma geométrica da cunha é tal que
caberia através da geometria quadrada de um furo, mas
não através da geometria redonda do outro furo no quadro.

Ambas as explicações são em alguma medida equiva­


lentes, e, ao mesmo tempo, estranhamente diferentes. O
macro-fato C que é a tacha cabendo no quadro no lugar
do furo quadrado pode certamente ser explicada de ma­
neira padrão, afirmando B os fatos geométricos da situação.
Portanto B explica C. Da mesma forma, poder-se-ia esta­
belecer, sem problemas, que os fatos geométricos B são
explicados pela micro-estrutura da situação A: A explica
B. Ao concatenar A com B e B com C, uma nova explicacão
pode ser sugerida que explica C através de A: A explica B
explica C. Sintetizando essa última explicação, teremos
como resultado A explica C.
Entretanto, ainda que a concatenação A explicaB e B
explica C seja tanto possível como razoável em algumas
circunstâncias, o “curto-circuito" transitivo A explica C é
inválido: a explicação originante A de uma explicação B
do fato C em si mesma não é uma explicação de C.
Explicações envolvendo níveis diferentes de complexidade
são, devido a pressupostos aceitáveis, intransitivas. Isso é
assim porque “as características relevantes de uma situa­
ção devem ser trazidas à luz por uma explicação e não
enterradas em uma massa de informação irrelevante" (Put-
nam, 1974, p. 132). Nas explicações primeiras, o relevante
e o irrelevante geralmente não podem ser diferenciados.

Essa intransitividade das proposições explicativas está


relacionada com o nosso problema de articular conceitos
e teorias que têm origem em níveis diferentes de avaliação.
Ainda que o funcionamento psicológico de indivíduos seja
o pré-requisito material para a existência de grupos e
sociedades, o funcionamento psicológico individual não
“explica” os níveis mais “superiores" de fenômenos de
maneira direta. Fenômenos em níveis “superiores" se rea­
lizam através de condições fronteiriças que aparecem
como acidentais, desde o ponto de vista de disciplinas que
aproximam níveis "inferiores". "As leis das disciplinas de
níveis superiores são dedutíveis das leis das disciplinas de
níveis inferiores junto com ‘hipóteses auxiliares’ que são
acidentais desde o ponto de vista da disciplina de nível
inferior. E a maior parte da estrutura, a nível da física, é
irrelevante desde o ponto de vista de disciplinas de níveis
superiores; somente certas características daquela estru­
tura (...), e estas são especificadas pela disciplina de nível
superior, não a de nível inferior (..). As leis da Psicologia e
Sociologia humanas (..) têm sua base na organização
material de pessoas e coisas, mas elas também têm uma
autonomia, recém-descrita, diante das leis da Física e
Química" (Putnam, 1974, p. 134).
A autonomia relativa de espaços de explicação das
diferentes ciências a níveis diferentes de agregação e
avaliação implica que a explicação do ato agressivo de
alguma pessoa P deve ajustar-se ao interesse do respectivo
espaço de explicação. O espaço explicativo é exigido, de
um lado, pelo tipo de questão, e de outro, pelo sujeito a
quem a explicação se dirige. No caso do comportamento
agressivo, os processos neurofisiológicos do cérebro (um
fato de nível inferior) normalmente não serão uma explica­
ção válida, enquanto que a referência à personalidade,
afetos, emoções, intenções e objetivos da pessoa agressiva
será uma explicação perfeitamente válida. Igualmente, o
fato de que P nominalmente pertence a, digamos, um
grupo social de jovens de classes desfavorecidas (um fato
de nível "superior"), não constitui uma explicação válida
para a agressão de P, se não se explicar o porquê e
especificamente como P chegou a um nível de agressivi­
dade maior que o normal. Isso pode ser alcançado, se
estabelecermos que P é consciente de sua privação social
e que a experiência de P de tal privação é tal, que privação
pode ou deve "legitimamente" ser expressa por vandalismo.

No contexto da articulação de níveis de avaliação em


proposições explanatórias, é necessário considerar repec-
tivãmente os níveis dos explanans bem como dos expla-
nandum. O esquema a seguir descreve as relações
possíveis em modalidades explicativas (Tabela 1).
Tabela 1
Relação entre explanans e explanandum em explicações

Níveis de avaliação do explanandum

Individual Social

Níveis de avaliação do
explanans

Individual A* c**
Social D*** B*

*) Explicações com espaço explicativo homogêneo


**) Explicações micro-redutivas
***) Explicações macro-redutivas

A principal diagonal nesse esquema compreende pro­


posições explicativas conceitualmente homogêneas. Na­
quelas células, explanans e explanandum estão localizados
no mesmo nível. Ao contrário das células não-diagonais,
eles não trazem nenhum problema com relação à articula­
ção de níveis. A célula A contém teorias psicológicas e
psicossociais sobre relações entre variáveis intrapessoais.
A célula B contém teorias ao nível macro, como (macro-)
teorias sociológicas, econômicas, e antropológicas.
A célula C caracteriza as teorias que articulam um
explanans de nível "inferior” com um explanandum de
nível "superior". Tais teorias podem ser chamadas micro-
redutíveis e geralmente são consideradas problemáticas
porque os dois argumentos de tal proposição explicativa
pertencem a dois espaços diferentes de explicação. Mas
este já é um campo de discussão sobre a viabilidade das
explicações redutíveis e não é o que estamos discutindo
aqui (cf. Alexander, 1981; Friedman, 1981; Munro, 1992)4.

.
4 Teorias evolucionárias também pertencem a essa categoria, mas elas assumem
uma posição própria (Wagner, 1994a, p. 260s). Teorias do tipo evolucionário
“explicam" o processo de emergência de estruturas de nível “superior" mais
complexas a partir de interações anteriores de elementos de nível “inferior"
mais simples. Isso em nítido contraste com a micro-redução, onde estes
passos intermediários estão excluídos da explicação.
A célula D na Tabela 1 representa uma proposição
explicativa onde o fenômeno no nível “inferior" de avalia­
ção é explicado por um fato de nível “superior” . Algumas
vezes tais proposições são chamadas “holísticas" (Alexan-
der, 1981). Aqui elas serão chamadas “macro-redutivas"
(Friedman, 1981).

Macro-redução e Representações Sociais

Prioridade taxonômica

Em termos episternológicos, explicações macro-redu­


tivas não representam simplesmente o reverso das micro-
reduções. Uma explicação de "baixo para cima" não é
simétrica a uma explicação de "cima para baixo” . Vamos
considerar uma simples ilustração dessa relação. Imagine
uma panela de cozinhar onde se aquece água. Nós pode­
mos medir a temperatura da água usando um termômetro.
A temperatura é o parâmetro relevante para descrever a
condição dos conteúdos da panela em larga escala. Se
observarmos as moléculas de H2O, podemos vê-las em
movimento, tornam-se cada vez mais rápidas quanto mais
alta for a macro-temperatura. Existe uma correlação entre
a temperatura e a velocidade das moléculas. Nós não
podemos, entretanto, usar 0 conceito de temperatura para
descrever 0 comportamento de qualquer molécula isolada­
mente. Elas não possuem um atributo chamado tempera­
tura, mas um impulso que é medido com métodos
completamente diferentes de um termômetro. Para sua
descrição os macroconceitos tornam-se obsoletos e outras
conceitualizações devem ser utilizadas. Não faria sentido
dizer que as moléculas se movem e têm tal e tal velocidade
por causa de sua temperatura, ou porque elas possuem
uma disposição para se comportar de acordo com a ma­
cro-temperatura. Articular "micro" e "macro” , nesse exem­
plo, é um problema de medição e ao mesmo tempo um
problema de teoria.
Faria mais sentido falar de uma representação intra-in-
dividual da condição da temperatura, se as moléculas
fossem sujeitos humanos. Membros de um grupo social
dispõem de saberes implícitos e explícitos das condições
de sua "panela de cozinhar" social. Esses saberes implíci­
tos e explícitos, ao racionalizar e justificar suas ações,
representam uma explicação sobre os seus modos de
comportamento que pode ser objetivista (habitus) (Bour-
dieu, 1980) ou subjetivista (conhecimento representacional)
(Wagner, 1989).

A relação entre a macrocondição e um microfenômeno


é sintetizada pela tese da prioridade taxonômica (Harré,
1979; 1980). Tal tese afirma que condições, processos,
produtos e estruturas que pertencem a um nível inferior de
avaliação, ou agregação, podem apenas ser classificadas
corretamente se partirmos de um nível supra-ordenado.
Cada condição, ao nível supra-ordenado, corresponde a
uma condição específica ao nível subordinado - análogo a
uma correspondência homomórfica de baixo para cima -
enquanto que a afirmação contrária não é verdadeira; uma
condição específica ao nível inferior é compatível com
várias condições ao nível superior. De um lado, a tese da
prioridade taxonômica nega explicações micro-redutivas
e, por outro, exige um enfoque macro-redutivo para a
descrição e explicação de fenômenos individuais. O com­
portamento e o pensamento de sujeitos individuais só faz
sentido se vistos no contexto dos limites impostos por suas
condições sociais; mas o padrão modal de comportamento
individual não determina uma condição social específica
(Putnam, 1974, mas veja também Moscovici, 1993, para
uma visão modificada). A relação entre o de baixo e o de
cima não é simétrica.
Fatos sociais necessitam ser traduzidos em entidades
mentais intra-individuais, antes que eles possam ser usa­
dos para explicar ou para serem articulados com compor­
tamentos individuais (Devereux, 1961). Não é a pertença
de um sujeito a um determinado grupo que faz com que
ele se comporte socialmente da maneira como o faz, mas
a sua representação mental dos fatos sociais. Considere­
mos um comportamento individual que seja explicado por
um fato social. De acordo com Devereux, a proposição o
fato social explica o comportamento individual seria incom­
pleta porque lhe falta a "tradução" do fato social em um
fato mental que seja acessível ao indivíduo. Somente a
proposição em três etapas o fato social explica o seu ser
mentalmente representado e a representação mental expli­
ca o comportamento individual seria completa. Essa "tra­
dução” (macro-redutiva) é necessária como pré-requisito
para a explicação social do fenômeno mental e comporta-
mental de indivíduos. Como será demonstrado a seguir,
este é um pressuposto implícito na t e o r i a d a s r e p r e ­
s e n t a ç õ e s s o c ia is .

Níveis de avaliação nas Representações Sociais

Dentro do campo de pesquisa em representações so­


ciais podemos observar dois usos distintos do conceito de
representação, que dependem do interesse explicativo e
do procedimento de avaliação do pesquisador. Um uso se
refere a) ao sistema de conhecimento de indivíduos en­
quanto representativos de grupos específicos] o outro refe-
re-se b) aos atributos das unidades sociais per se. O
primeiro está interessado nas características das repre­
sentações sociais destribuídas entre os sujeitos; o outro
está interessado no processo coletivo e no produto social
do discurso e da comunicação (Harré, 1984).

a) Se estiver interessado nas características distribuí­


das das representações sociais o pesquisador se remete ao
nível de avaliação individual. Esse é também o caso se a
avaliação do procedimento da representação - como ocorre
na maioria dos casos - envolve uma amostra de vários
indivíduos. O ponto de interesse, em tais estudos, é o
conjunto de elementos constantes em uma representação,
que pode apenas ser identificado através da amostragem
de vários indivíduos. Aqui, portanto, os dados serão cole­
tados de uma amostra, na maioria das vezes homogênea.
A representação, tal como é avaliada por este tipo de
pesquisa, constitui-se dos elementos comuns do conheci­
mento que é produzido pelas pessoas na amostra5. A
representação resultante será então a representação proto-
típica individualmente distribuída de elementos comuns
(Figura 1). Esses elementos prototípicos de uma repre­
sentação são freqüentemente chamados núcleo central
(e.g. Abric, 1987; Moliner, 1992). A maioria das pesquisas
que são desenvolvidas atualmente se localiza dentro dessa
perspectiva de entendimento das representações sociais.

CONHECIMENTO DAS PESSOAS FORMAM O NÚCLEO


CENTRAL DA REPRESENTAÇÃO
A pesquisa seminal realizada por Jodelet (1989) sobre
representações da loucura nos habitantes de uma comuni­
dade rural francesa é um exemplo vivo dessa perspectiva.
A comunidade representa um subgrupo significativo das
comunidades rurais francesas, em função da tradição das
famílias locais de adotar em suas casas e prestar cuidados
a doentes mentais. Esse contato próximo com o doente
mental deu origem a uma representação local da doença

.
5 Posto de modo formal se leria: R = {Rpl,Rp2,...Rpn}, onde R é a respectiva
representação e Rpi são representações distribuídas entre indivíduos de um
(sub)grupo mais ou menos homogêneo.
mental altamente elaborada, que não pode ser encontrada
em muitos outros subgrupos da sociedade francesa. As
oposições centrais entre cérebro e nervos, bem como as
condições do ataque inicial da doença - nascimento ou
acidente que estão subjacentes a todas as opiniões,
atitudes e comportamentos relacionados, formam um sis­
tema de conhecimento modal e prototípico, que é compar­
tilhado pelos residentes da comunidade. Portanto, pode­
mos dizer que cada habitante da comunidade é idealmente
um portador exemplar dessa representação social especí­
fica da doença mental.
b) Se, em contraste, o pesquisador está interessado nas
características coletivas de uma representação social, ele
ou ela, avaliará a representação pertencente aos grupos
através de documentos, análises de mídia, ou sondagens.
Isso garante que a visão coletiva da representação social
resultante contenha não somente opiniões de subgrupos
mais ou menos importantes, mas também que tome em
consideração as diferentes versões, pontos de vista e
profundidade de elaboração de um único e mesmo objeto
social em um grupo social, mais abrangente.
As representações sociais em grupos revelam uma
divisão do trabalho que pode ser chamada lingüística
(Putnam, 1988), cognitiva (Moscovici, 1991) ou repre-
sentacional. Em conseqüência, as representações de um
único e mesmo objeto social estão presentes em vários
estados de elaboração em diferentes subgrupos e incluem
aspectos diferenciados do objeto que variam na relevância
que tem para cada subgrupo. Entretanto, somente a tota­
lidade desses aspectos pode ser considerada como a re­
presentação social do respectivo objeto para um grupo
social como um todo. Nesse caso, o pesquisador procura
avaliar a totalidade das versões existentes de uma repre­
sentação, em uma unidade social mais ampla6.

6. Posto formalmente se leria: R = U {RG1, RG2,...RGn), onde R é a respectiva


representação e RGi são as representações avaliadas nos subgrupos com
pontos de vista relevantes, socialmente diferenciados, dentro da divisão do
trabalho representacional.
A representação global resultante é a representação
coletiva completa, com elementos que não são comuns a
todos os grupos, mas que são típicos ou relevantes para
um ou outro grupo social7. Esta representação social não
é parte do nível de avaliação individual, mas do nível de
avaliação do grupo, ou social. Ela contém elementos e uma
estrutura que, em sua totalidade, não pode ser encontrada
em pessoas individuais, mas somente no grupo como um
todo. Nem pode-se dizer que ela se reduz a um "resultado"
modal das representações individuais dos membros de um
grupo, mas sim que ela representa uma macro-estrutura
própria (Figura 2).

FIGURA 2: OS ELEMENTOS COMBINADOS DAS


SUB-REPRESENTAÇÕES DOS SUBGRUPOS FORMAM A
REPRESENTAÇÃO GLOBAL

.
7 É necessário deixar claro que eu não me refiro ao termo representação
"hegemônica" tal como foi discutido por Moscovici (1988). O seu termo
enfatiza um alto grau de similaridade de representações em unidades socias
bastante amplas.
Moscovici (1976), em seu estudo da representação da
psicanálise, se centrou também nesta última perspectiva
de entendimento das representações sociais. Ele mostrou
como diferentes grupos da sociedade francesa desenvolve­
ram um entendimento típico dos processos psicanalíticos,
que dependia de padrões ideológicos e de interesses pre­
existentes. A divisão do trabalho representacional se refle­
tia, por exemplo, nos diferentes enfoques que os meios de
comunicação davam à nova teoria. A mídia liberal e não
comprometida ideologicamente enfocava a psicanálise de
forma bastante diferente da mídia explicitamente católica
ou das revistas e jornais da extrema esquerda. Assim, cada
subgrupo da sociedade francesa elaborou um conhecimen­
to típico da psicanálise, que era diferente nos seus deta­
lhes. Mas somente a união de cada "sub-representação"
específica relativa aos diferentes grupos pode ser chamada
a representação social da psicanálise na sociedade france­
sa; e é a totalidade das "sub-representações" desses gru­
pos, incluindo aí os próprios psicanalistas, que garante a
complexa interação social, que somente in toto vai consti­
tuir a psicanálise como objeto no discurso social francês.

Os sujeitos em estudo na investigação de Jodelet


(1989) sobre a doença mental eram residentes natos da
comunidade. Entretanto, havia outros subgrupos vivendo
no lugar: os médicos, as enfermeiras, o pessoal adminis­
trativo. Em relação a esses grupos adicionais, a repre­
sentação social da doença mental dos moradores natos da
comunidade é somente uma sub-representação. Se nós
considerarmos a organização global dessas comunidades
- como hospitais psiquiátricos abertos - essa instituição
funciona somente como um produto da coordenação inte­
grada entre os diferentes subgrupos de famílias hospedei­
ras, enfermeiras, médicos, pessoal administrativo (e
pacientes). Portanto, para que possamos descrever e expli­
car os trabalhos da organização mais claramente, seria
necessário avaliar mais do que a simples representação do
subgrupo que hospeda os doentes mentais8. A instituição
trabalha enquanto tal em função da presença comum das
representações - que são certamente divergentes - de
todos os subgrupos relevantes, que formam a completa
representação coletiva da doença mental na comunidade,
e que integram seus aspectos práticos, médicos e admi­
nistrativos do dia-a-dia.

Vergès (1987, 1989) estudou representações da econo­


mia em diferentes subgrupos sociais. Ele descobriu dife­
rentes representações sobre economia em grupos de
gerentes, trabalhadores manuais e, por exemplo, assisten­
tes sociais. Essa divergência, naturalmente, não constitui
surpresa se tomarmos em consideração as diferentes posi­
ções funcionais desses grupos na sociedade. De acordo
com sua posição social, os membros de cada subgrupo
compartilhavam uma imagem bastante homogênea do
processo econômico. Essas imagens se constituem em
representações modais típicas dos membros de qualquer
grupo específico. Porém, somente a união de todas as
representações relevantes dos subgrupos particulares
constitui a representação social da economia em uma
sociedade no sentido coletivo, e é essa totalidade que
governa a vida social e econômica da sociedade.

A relação entre a representação avaliada a nível indi­


vidual a) e a representação avaliada a nível social b) é
macro-redutiva. A existência do processo social explica o
sistema de conhecimento individual. O sistema coletivo de
entendimento, justificação e racionalização que o grupo
desenvolve sobre suas práticas define a perspectiva dentro
da qual os membros do grupo podem alcançar um enten­
dimento de sua situação social e de sua identidade. Isso é
equivalente à etapa de "tradução" que Devereux (1961)
exigia para que fatos sociais se tornem explanantia válidos
para os fatos individuais; essa é a transformação do fato

8. Jodelet também menciona o papel do conhecimento médico da equipe, que


é parcialmente transformado e integrado à representação social popular.
social em um fenômeno mental individual, representação
ou comportamento.

Essa etapa de "tradução" macro-redutiva foi discutida


e utilizada pela pesquisa em representação social em três
contextos. O primeiro deles foi a discussão extensiva que
Moscovici (1976) realizou dos meios de comunicação de
massa, especialmente de jornais e revistas contemporâ­
neos a sua investigação. O segundo contexto é dado pela
pesquisa em desenvolvimento, considerando a ontogênese
das representações sociais ao nível de avaliação individual
(p. ex. o volume editado por Duveen e Lloyd, 1990). O
acesso da criança ao conhecimento social espelha, de
maneira exata, a transformação das representações sociais
em um atributo individual. O terceiro contexto é fornecido
por Sperber (1990), que salientou o problema da “tradu­
ção", ao exigir que prestássemos atenção aos processos
epidemiológicos que estavam na base da articulação de
imagens potencialmente coletivas, das metáforas e sua
forma diferenciada de aceitação cognitiva por indivíduos.
E finalmente Wagner (no prelo, a,b) discute a sócio-gênese
e suas conseqüências na estrutura das representações
sociais ditsstribuídas.

Se certas imagens, ou metáforas, vão atrair ou não os


membros concretos de um subgrupo específico e, portanto,
vão ser integradas em uma representação distribuída den­
tro do grupo, dependerá de vários aspectos. Há que se
considerar a orientação política e cultural preexistente, p.
ex. de gerentes, trabalhadores ou assistentes sociais na
investigação de Vergès, que impõe limites à possível
aceitabilidade de certos elementos do conhecimento eco­
nômico; existe o papel funcional do grupo no sistema
social, como, por exemplo, as famílias hospedeiras na
investigação de Jodelet, que comanda a aceitabilidade das
explicações médicas para a doença mental, fornecida por
médicos e enfermeiras; existe o pano de fundo cultural e o
acesso aos meios de comunicação, como é o caso na
investigação de Moscovici, que limita o acesso potencial
do homem da rua aos detalhes da teoria psicanalítica. As
condições concretas em que sujeitos sociais se encontram
constituem o espaço para as experiências dentro das quais
novos saberes podem ser objetificados e integrados a um
estoque prévio de senso comum (Wagner, Lahnsteiner &
Elejabarrieta, 1993).
Em qualquer dos casos, entretanto, o que ocorre é um
processo de transformação dos atributos de uma coletivi­
dade, em atributos compartilhados por indivíduos sociais.
Esse processo de transformação explica o surgimento do
conhecimento e das representações dos indivíduos sociais,
porque fornece os detalhes de sua ecologia coletiva. Já que
os estados mentais e comportamentais dos indivíduos
representam um nível diferente de avaliação, em relação
às condições de uma coletividade, essa explicação pode
ser chamada macro-redutiva, fazendo a ponte entre dois
níveis de avaliação diferenciados.

As Representações Sociais em explicações

As representações sociais entram em modalidades de


explicação tanto como (a) explanandum ou como (b) ex-
planans:
(a) Uma representação avaliada ao nível social pode
integrar uma explicação como explanandum - ou seja,
como variável dependente9. Nesse caso a proposição ex­
plicativa é considerada como fornecendo a causa da re­
presentação.
(b) A representação avaliada ao nível individual pode
integrar a proposição explicativa como explanans, causan­
do um fenômeno subseqüente.

9 . Mesmo que os termos variável independente e dependente pertençam


originalmente a condições experimentais, e apesar do fato de que repre­
sentações sociais são fenômenos que podem ser experimentados apenas em
certas condições, eu considero o uso de tais termos legitimo para os objetivos
a que me proponho aqui.
A figura 3 mostra o contexto conceituai dessas explicações.

Condições sociais, so Objetos e fatos


conflito -♦ sociais

Explanans Explanandum
causa

Explanandum Explanans
Repre: entayâo social
Discurso coletivo M entalidade social do
indivíd uo, ação e
interação
di ongem _____________ 4

(v ia e lidem io ogia)

acessível à acessívelà

avaliação e avaliação e
explicação ao explicação ao
n ível social nível individual

FIGURA 3: A RELAÇÃO ESQUEMÁTICA ENTRE NÍVEIS


DE AVALIAÇÃO EM REPRESENTAÇÕES SOCIAIS

Explicando Representações Sociais

As condições sociais em que um grupo vive delimitam


o espaço de experiência de seus membros. A estrutura
social - via a sócio-gênese das representações sociais
(Wagner, no prelo, b) - determina, em grande parte, o que
e como os membros de um grupo pensam; i. é, a condição
mental dos membros de um grupo reflete uma estrutura
social. Essa relação foi batizada como "homologia estrutu­
ral" pela sociologia de Bourdieu (1980). Homologia estru­
tural quer dizer uma relação homológica entre as diferentes
estruturas do campo social, isto é, uma relação que é
caracterizada por uma causalidade, função e história co­
mum aos dois campos. Isso significa que “(...) as relações
dentro de um campo específico são da mesma natureza
que as relações dentro de outros campos” Doise, 1976,
p. 930).

Bourdieu e Saint-Martin (citados em Doise, 1976) dão


um exemplo das homologias estruturais em uma investi­
gação das instituições educacionais. Eles analisaram es­
truturas institucionais, a hierarquia entre os sujeitos, os
departamentos organizacionais, as estruturas cognitivas e
taxonomias dos professores trabalhando naquela institui­
ção. “Taxonomias educacionais - estruturas objetivas que
se tornaram estruturas mentais, no curso de um processo
de aprendizagem realizado em um universo organizado de
acordo com essas estruturas, e sujeito a sanções expressas
em uma linguagem igualmente estruturada de acordo com
as mesmas oposições - se classificam de acordo com a
lógica das estruturas cujo produto elas são” (Bourdieu &
Saint-Martin, in Doise, 1976:932). Mesmo que indivíduos
pertencentes ao mesmo grupo social possam ser bastante
diferentes em termos de suas personalidades, eles se
aproximam uns dos outros no que diz respeito à estrutura
básica de sua experiência social comum, de seu pensa­
mento e de sua ação. Eles são similares com respeito ao
habitus que incorporaram, bem como com respeito aos
padrões de linguagem e racionalização que compartilham,
isto é, com respeito às suas representações sociais. Ainda
que provavelmente diferentes em certos aspectos, essas
disposições mentais são variações de um padrão comum
subjacente, possível dentro de dadas condições sócio-cul-
turais de vida. A relação estrutural entre condições mentais
coletivamente compartilhadas e condições sociais é homo-
lógica por causa de sua história comum e sua função social.

Explicar uma representação social ao nível de avalia­


ção social significa, portanto, determinar a condição social
que a originou e caracterizar e justificar a relação estrutural
entre ambas. Um exemplo particularmente claro de tal
forma de pesquisa - ainda que não realizado sob o título
da t e o r i a d a s r e p r e s e n t a ç õ e s s o c ia is - é a investigação
que Bloor e Bloor (1982) realizaram sobre a relação entre as
crenças de cientistas industriais e a estrutura social das
instituições nas quais eles trabalham. Os autores mostram
como as “cosmologias" profissionais e cotidianas, isto é,
as crenças sobre o que a ciência é ou deveria ser, como o
trabalho técnico deve ser organizado, as pressuposições
morais etc. de seus sujeitos se relacionam com as condi­
ções organizacionais de seus locais de trabalho.
De acordo com a teoria antropológica da organização
social de Douglas (1982), Bloor e Bloor (1982) discriminam
quatro tipos de estrutura social nas organizações: há as
organizações com membros altamente individualizados e
independentes, há instituições com uma hierarquia forte­
mente determinada e outras com estruturas de tipo fracio-
nal, e ainda há organizações onde os membros apresentam
um baixo nível de afiliação grupai, mas um alto nível de
subordinação. Cada uma dessas condições sociais se rela­
ciona com a estrutura específica das crenças cotidianas
que os membros da organização apresentam. Cientistas
industriais em organizações individualizantes, por exem­
plo, acreditam que a natureza é estruturada de forma
similar à instituição em que trabalham: fenômenos naturais
não são considerados como estruturados de forma rígida,
eles são irregulares, e a natureza revela seus segredos
somente para indivíduos com um conhecimento específico
que utilizam metodologias corretas. Homologias similares
entre estruturas organizacionais e mentais foram encontra­
das para outras condições. Os autores concluem: “(...) os
estilos preferidos de trabalho, o sentido da melhor orienta­
ção com respeito à natureza, as convicções sobre o que é
moralmente permitido no campo das ciências, não se
originam dos limites técnicos impostos ao trabalho ou de
experiências anteriores na universidade mas das condições
atuais de trabalho na organização” (p. 97).
Na pesquisa em representação social existem poucos
exemplos de investigações desse tipo. A maioria das
pesquisas que investigam as relações entre condições
sociais e representações sociais partem do conflito social
introduzido por mudanças nas condições de vida. Flament
(1987), por exemplo, demonstrou como mudanças nas
práticas cotidianas, trazidas pela introdução de novos
métodos de produção agrícola do arroz em uma sociedade
que tradicionalmente cultivava feno, conduziu a uma nova
representação social na população rural em Madagáscar.
Apesar da pouca atenção que o problema de explicar
representações sociais através de condições sociais rece­
beu até agora, constitui-se em uma tarefa legítima e
importante demonstrar como as representações sociais,
enquanto "variáveis" dependentes, podem ser explicadas
a este nível social de avaliação. Certamente não constitui
uma explicação suficiente apenas afirmar que o grupo A
possui tal e tal representação, e que o grupo B possui a
outra que é diferente, se o pesquisador não justificar em
detalhes a relação homológica entre estrutura social e
mentalidade individual.

O que as Representações Sociais podem explicar

Existe certamente muito mais interesse na pesquisa


em representações sociais que usa as representações como
uma "variável” independente para explicar fenômenos sub­
seqüentes, isto é, para usar representações como expla-
nantia de, por exemplo, comportamento. Nesse sentido,
Moscovici (1984, p. 60s) afirma que representações são,
elas próprias, estímulos e que, portanto, são variáveis
independentes em investigações empíricas.
Um exemplo de pesquisa utilizando representações
como variáveis independentes para explicar comporta­
mento/ação é a investigação realizada por Thommen,
Ammann e Von Cranach (1988) sobre crenças profissionais
e comportamento de psicoterapeutas. Os autores mostra­
ram como a representação social da prática profissional
correta dirige a ação do terapeuta profissional vis-à-vis
seus pacientes e colegas. Os autores estudaram as premis­
sas teóricas de duas escolas de psicoterapia - terapia
comportamental e terapia centrada no cliente de orienta­
ção rogeriana - através da análise de documentos, entre­
vistando terapeutas sobre seu conhecimento teórico e
metodológico anterior e sobre suas crenças. Em um passo
seguinte, o comportamento dos terapeutas foi observado e
analisado. Os autores mostram como, por exemplo, tera­
peutas não-diretivos relacionam suas atribuições clínicas
e intervenções a expectativas e desejos, enquanto terapeu­
tas comportamentais relacionam-nas ao processamento
cognitivo da informação, objetivos e disposições de seus
clientes. No que diz respeito a seu comportamento profis­
sional, a maioria dos terapeutas comporta-se de acordo
com suas representações profissionais.

Echebarría e González (no prelo) estudaram se repre­


sentações sociais em contextos políticos aparecem como
racionalizações secundárias de comportamentos anterio­
res, ou como determinantes primários de comportamentos
reais. Em seu estudo, eles aplicaram um complexo ques­
tionário elaborado para avaliar representações, atitudes e
intenções, um mês antes das eleições ocorrerem. Depois
das eleições eles perguntaram uma vez mais aos mesmos
sujeitos se eles haviam votado ou não. A partir dos dados,
eles concluíram que representações sociais podem ser, de
algum modo, justificações e racionalizações de práticas
sociais anteriores - aqui entendidas como a prática de votar
em uma eleição política - e, ao mesmo tempo, que as
representações sociais aparecem como dirigindo intenções
de comportamento.

Tal pesquisa ajusta-se ao pressuposto "clássico" que


crenças e intenções de sujeitos sociais podem ser usadas
como explicações causais para o comportamento e para a
ação, muito ao modo da pesquisa tradicional em atitude-
comportamento. Análises epistemológicas e teóricas, en­
tretanto, colocam em dúvida se representações, entendi­
das como conteúdos mentais racionais, são legítimos ex-
planantia do comportamento e ação a eles relacionados.
Em bases epistemológicas, de um lado, pode-se supor que
representações - sendo disposições racionais para compor­
tamento social - implicam comportamentos e ações espe­
cíficas como uma conseqüência lógica necessária (isto é,
analítica) e não como uma conseqüência contingente em­
pírica (isto é, sintética). Se aceitarmos este argumento
como correto, as representações e os comportamentos a
elas relacionados, são entidades altamente integradas e
mutuamente dependentes, que não podem ser justapostas
a explicações causais (Wagner, 1993).
Em bases teóricas, por outro lado, pode-se argumentar
que dados verbais usados para avaliar o conteúdo de uma
representação como variável independente são equivalen­
tes lógicos aos dados obtidos através do comportamento
explícito "dependente". Portanto, esses dois tipos de dados
devem ser vistos como ilustrações do mesmo tipo de
conteúdo representacional. A preferência do pesquisador
ao usar dados verbais para avaliar a variável independente,
e observação para avaliar comportamento explícito, intro­
duz uma separação artificial entre comportamento e repre­
sentação. Uma vez separadas, representação e compor­
tamento são novamente ligados por uma relação causai/in­
tencional, onde a representação supostamente explica o
comportamento. Mas essa relação causai/intencional pode
ser demonstrada como o resultado de um deslocamento de
crenças populares sobre intenções comportamentais e
comportamento. Na vida cotidiana, as pessoas acreditam
e dizem que agem assim e assim porque elas pensam que
aquele é o comportamento apropriado e correto para uma
dada situação. Portanto, elas explicam suas ações através
de crenças e intenções anteriores. Tal afirmação popular
reflete, entretanto, uma crença dos sujeitos e não uma
afirmação teórica ligando condições mentais e comporta­
mento. É uma crença que está profundamente sedimenta­
da na psicologia popular, mas ainda assim uma crença e,
portanto, parte da visão de mundo dos sujeitos. Conse­
qüentemente, elas são parte de uma representação popular
e devem ser avaliadas como parte da representação social.
Compartilhando a mesma psicologia popular na vida coti­
diana, os pesquisadores, obviamente, também subscrevem
tais crenças intencionais, mas não é legítimo, estritamente
falando, fazer dessa crença uma explicação a nível teórico.
As convicções dos sujeitos de que suas ações são causadas
por suas representações justificam a visão que eles têm de
si mesmos como seres racionais. Se um sujeito não acre­
ditasse agir de acordo com o conhecimento de que dispõe,
ele ou ela se estariam aceitando como estúpidos e
irracionais (Wagner, 1994b).

Fundamentado nesses argumentos, parece-me que a


pesquisa que explica o comportamento com base em
representações desloca aquilo que é uma crença dos su­
jeitos para o nível de uma afirmação teórica. Tais pesquisas
consideram aquilo que é o conteúdo mental dos sujeitos
como passível de ser integrado em uma teoria sobie o
conteúdo mental dos sujeitos. E tal prática não é legítima,
do mesmo modo que seria ilegítimo considerar crenças
sobre a loucura como parte de uma teoria científica da
loucura.

Se aceitarmos esses argumentos, o que pode, então,


ser explicado por uma representação? A resposta é sim­
ples: enquanto relacionado a crenças, o comportamento
manifesto é parte e conteúdo da própria representação
social, é a conseqüência do comportamento no mundo
social que se necessita explicar pelo complexo repre­
sentação/ação. O comportamento e a ação estão lógica e
necessariamente conectados a crenças representacionais,
mas suas conseqüências não estão. A ação e as conse­
qüências da ação são duas coisas diferentes.

Permitam-me dar um exemplo: Di Giacomo (1980)


demonstrou o modo como representações se originaram
em grupos sociais ao longo de um movimento de protesto
estudantil em uma universidade belga. Militantes e parti­
cipantes "normais" do movimento formaram representa­
ções tão discrepantes, que estas conduziram a severas
incompreensões e problemas de comunicação entre os
grupos, levando o movimento finalmente a fracassar e não
atingir objetivo algum. Nessa pesquisa, torna-se particu­
larmente claro que não é o comportamento dos indivíduos
e grupos que pode ser razoavelmente explicado por uma
representação social. O comportamento explícito é sim­
plesmente uma expressão possível da representação men­
tal que também pode ser expressada verbalmente em
entrevistas ou de forma escrita em panfletos. O fracasso do
protesto para atingir o resultado desejado - que constitui
um fato social passível de ser explicado causalmente - é
uma conseqüência do complexo representação e ação, da
representação coletiva e da ação. O resultado do complexo
representação e ação e sua conseqüência contingencial é,
portanto, passível de uma verdadeira explicação causai.
A pesquisa de Di Giacomo (1980) pode também ser
usada para ilustrar, de maneira clara, o que acontece
quando olhamos o movimento de protesto de um nível de
avaliação social. Para isso, ampliemos, ficticiamente, o
exemplo. Imaginemos que avaliamos a estrutura e o con­
teúdo coletivo da representação do protesto, dentro dos
diferentes envolvidos. Qual é, pois, o "objeto” dessa repre­
sentação, a esse nível? É o "protesto”? Ou é o aconteci­
mento que leva ao protesto? Mais provavelmente nós
diríamos: "Claro, o objeto que está sendo representado é
o protesto, suas razões etc." Mas qual é esse objeto
chamado "protesto"? Podemos pensar em protesto sem
levar em consideração os acontecimentos que tiveram
lugar na e ao redor da universidade? Conseqüentemente,
não é o protesto exatamente o padrão de comportamento
coletivo dos grupos envolvidos? Isto é, não são os grupos,
criando exatamente esse objeto, e não outro, através de
uma interação massiva organizada e consciente? Portanto,
o objeto que está sendo representado não existiu antes que
a representação fosse formada e antes que ela fosse posta
em execução a um nível coletivo. Na verdade, quando vista
a partir de um nível coletivo, torna-se claro que a repre­
sentação e o comportamento coletivo são um só, e não dois
lados da moeda. Eles não podem nem ser separados - tanto
conceptualmente como empiricamente - nem ligados atra­
vés de relações causais explicativas. Deixar de lado uma
ou outra das partes, seja o sistema simbólico, ou o com­
portamento coletivo, negaria imediatamente todo o fenô­
meno: se olharmos para a representação a nível coletivo,
sem pressupor o comportamento ligado, o objeto da repre­
sentação, isto é, o protesto, não existiria e, conseqüente­
mente, também não existiria a representação. Se olharmos
apenas para o comportamento coletivo, poderíamos inter­
pretar os acontecimentos como significando algo parecido
com um movimento de protesto, mas: "por que, afinal” ,
estão esses estudantes agindo de tal maneira organizada,
sem partilhar uma representação simbólica comum do que
se deve fazer? Portanto, esse exemplo fictício nos mostra
a indivisibilidade do complexo chamado "representação
social” , unindo elementos simbólicos, mentais e compor-
tamentais, que somente adquirem sentido como um todo,
e simultaneamente originam seu próprio objeto.

Conclusão

Este capítulo apresentou alguns aspectos metateóricos


da t e o r i a d a s r e p r e s e n t a ç õ e s s o c i a i s . Seu argumento foi
de que métodos de avaliação têm implicações cruciais para
o tipo de conclusões teóricas que se pode extrair de uma
investigação e para os tipos de explicação que podem ser
oferecidos. As representações podem pertencer tanto a
níveis individuais como sociais de avaliação, dependendo
dos métodos que o pesquisador utiliza na pesquisa empí­
rica. Esses dois níveis de avaliação das representações
sociais implicam dois enfoques diferentes com objetivos
também diferenciados.
As representações sociais geralmente podem ser ex­
plicadas através das condições sócio-estruturais e sócio-
dinâmicas de um grupo. Isso implica uma visão mais
profunda dos processos sócio-genéticos que dão origem à
formação de representações sociais e a sistemas de cren­
ças. Enquanto elemento que explica em uma proposição
explicativa, procurou-se argumentar que as representa­
ções e os comportamentos a elas associados permitem
analisar por que eventos sociais ocorrem e como objetos
sociais são construídos. São, entretanto, os resultados da
ação e do comportamento que são explicados causalmente
pela representação e não o comportamento em si mesmo.

Se este capítulo, erroneamente, deu a entender a


separação entre os aspectos sociais e individuais das
representações sociais, tal erro deve ser corrigido de ime­
diato. Eu não acredito que estes dois aspectos possam ou
devam ser separados em um nível teórico, mas sim e
somente a nível metateórico. Observar alguns dos aspectos
metateóricos em investigações empíricas deve ser para nós
uma medida preventiva contra a perda daquela dimensão
cada vez mais complexa, que é a estrutura conceituai da
t e o r i a d a s r e p r e s e n t a ç õ e s s o c i a i s contemporânea.

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PARTE 3
DIMENSÕES PRÁTICAS DA
TEORIA DAS REPRESENTAÇÕES
SOCIAIS
°<s> °o O .

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<>x O °0

k \ \ % '
^v . 51 o 4^-

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PEDRINHO A.
GUARESCHI
6. “SEM DINHEIRO NÃO HÁ
SALVAÇÃO”: ANCORANDO
O BEM E O MAL ENTRE
NEOPENTECOSTAIS1

Pedrinho A. Guareschi

Introdução

Este trabalho tem sua origem em observações de


inúmeras situações muito concretas e aparentemente inex­
plicáveis: ao assistirmos às sessões de culto, orações,
pregações, exorcismos, etc. de grupos neopentecostais,
ficávamos estupefactos, quando não revoltados, ao vermos
como aquelas multidões de pobres e doentes, necessitados
de quase tudo, ao apelo do pregador tomavam seu dinhei­
ro, buscavam no fundo de seus bolsos e bolsas os últimos
centavos, e os levavam, respeitosamente, ao altar, ou os
colocavam nas bolsas das coletas. Numa ocasião tive
dificuldade de impedir que a pesquisadora-bolsista, que
comigo fazia a observação, se contivesse e não começasse
a gritar, denunciando as práticas de exploração que pre­
senciávamos. E a pergunta que nós nos fazíamos era:

- Como é possível tal exploração? Será que as pessoas


não se dão conta de tamanha manipulação?

1. Sou grato aos bolsistas Graziela Werba, Paulo Hammes e Fabrício Peruzzo, do
CNPq, e Fátima de Oliveira, da Fapergs, pela colaboração na coleta e discussão
dos dados. A pesquisa contou com a ajuda do CNPq.
Esse trabalho quer ser uma tentativa de compreensão
desse fenômeno. Tentaremos mostrar que é possível com­
preender tais ações, na medida em que, com humildade e
persistência, se procura penetrar no mundo simbólico das
representações e na ação da ideologia na manipulação
dessas representações. É a mesma pergunta de Reich
(1972:18-19): "por que a multidão dos famintos não rouba,
e a multidão dos explorados não se revolta", mas vivem
felizes, beijando os grilhões que os aprisionam?
Na primeira parte do trabalho comparamos o conceito
de Representações Sociais (RS a seguir) com outros con­
ceitos correlatos, principalmente com o de ideologia. Na
segunda parte, apresentamos os dados e fazemos sua
análise.

O conceito de RS e seus “parentes”

O desejo de se criar um conceito que conseguisse


superar as dificuldades de conceitos existentes já está
presente num trabalho de Moscovici de 1963. Moscovici
fazia, ali, uma revisão das pesquisas realizadas sobre
atitudes e opiniões, manifestando seu desconforto com
esses conceitos, praticamente onipresentes e dominantes
no campo da p s ic o l o g i a s o c i a l da época. As críticas por
ele formuladas aos conceitos eram de que eles “eram
relativamente estáticos e descritivos" (1963:252).

Na realidade, a crítica feita por Moscovici tinha um


horizonte mais amplo: ele tentava mostrar que a visão de
realidade, como pressuposta pela teoria positivista e fun-
cionalista, era parcial e não dava conta de explicar outras
dimensões da realidade, principalmente sua dimensão his-
tórico-crítica. É o que ele próprio deixa entrever, nesse
mesmo artigo, onde ele lamenta “a ... falta de uma tendên­
cia teórica maior em direção a um novo enfoque de
compreensão da realidade" (1963:231). Eram as primeiras
discussões para a superação da visão positivista nas ciên­
cias sociais. Moscovici deixava entrever ali seu desejo de
criar uma teoria (que posteriormente chamou de Repre­
sentações Sociais) que fosse dinâmica e explicativa ao
mesmo tempo.
A realidade entrevista por Moscovici, e da qual o
conceito de RS deveria dar conta, era uma realidade que
compreendesse as dimensões físicas, sociais e culturais.\E
o conceito deveria abranger a dimensão cultural e cogniti­
va; a dimensão dos meios de comunicação e das mentes
das pessoas; a dimensão objetiva e subjetiva.

Era esse o desafio que o conceito de RS pretendia


enfrentar. Daria ele conta de ser o portador dessas novas
dimensões, superando as limitações de conceitos anterio­
res como opinião pública, atitude, representação coletiva,
mito, estereótipo, cognição social, teoria dos esquemas,
teoria da atribuição e mesmo de ideologia? É o que
desejamos discutir brevemente nos pontos a seguir2.

RS e opinião pública

O conceito de RS distingue-se do conceito de opinião


pública. Isso fica claro ao analisarmos a definição que F.H.
Allport (1937:22) dá de opinião pública:
"o termo opinião pública recebe seu significado a partir de
uma situação multiindividual, em que os indivíduos se
expressam, ou são chamados a se expressar, a favor ou
contra (apoiando ou opondo-se) alguma condição específi­
ca, alguma pessoa ou proposta de importância geral, em tal
proporção de número, intensidade e constância, que isso dê
origem à probabilidade de afetar, direta ou indiretamente, a
ação em direção ao objeto referido.”

É interessante notar aqui o cuidado de Allport em


evitar a palavra social. Blumer (1948), já em 1948, ao

2 . Uma discussão mais aprofundada de alguns desses conceitos pode ser


encontrada em Farr (1990).
discutir com Allport a natureza da opinião pública, critica­
va esse enfoque positivista de análise e atribuía isso à
ênfase exagerada e central que os teóricos davam aos
métodos, esquecendo-se da dimensão histórica e da for­
mação das opiniões. Para Blumer, a deficiência inerente às
pesquisas de opinião pública reside no fato de que os
procedimentos dessas pesquisas pressupõem um tipo de
sociedade que não passa de um agregado de indivíduos
dispersos. Aém disso, se esquece de ver como se forma a
opinião pública. As RS, ao contrário da opinião pública,
têm a ver com as dimensões de construção e de mudança,
ausentes do conceito de opinião pública. Enquanto Allport
está interessado em saber qual é a opinião das pessoas,
Blumer está interessado em saber como ela se constrói.

Representações Sociais e atitude

Jaspars e Fraser (1984) fazem um estudo detalhado e


crítico da história do conceito de atitude e de como ele
deve ser diferenciado do conceito de RS. Mostram eles que
se formos retornar, na História da p s ic o l o g i a s o c i a l , à
década de 20, analisando, por exemplo, o trabalho de
Thomas e Znaniecki (1918-20), iremos constatar que as
atitudes, da maneira como eles as definiram e empregaram,
eram "representações coletivas", tanto na teoria, como na
pesquisa. Seu grande trabalho de investigação foi a com­
paração entre os valores e “atitudes sociais" dos poloneses
americanos.
Até mesmo as técnicas de análise de atitude implicam
uma representação cognitiva comum do objeto de estudo,
e essa representação é certamente social, tanto em sua
natureza, como em suas origens. Isso é evidente na escala
de Guttman, mas também na de Thurstone, pois o emprego
de um painel de juizes é uma tácita aceitação de que as
atitudes são uma forma de representação social.
Por que, então, a diferenciação tão nítida entre atitude
e RS que temos hoje? Onde buscá-la?
O responsável por essa metamorfose foi Gordon All-
port, no seu clássico artigo sobre atitudes no livro-texto de
Murchison (1935). Jaspars e Fraser mostram como Allport
foi retirando, progressivamente, os componentes sociais e
coletivos de mais de cinqüenta definições de atitude, até
chegar á sua clássica definição de atitude como sendo
“uma disposição mental e nervosa, organizada pela expe­
riência, que exerce uma influência diretiva e dinâmica sobre
o comportamento do indivíduo, em relação a todos os
objetos e a todas as situações com as quais ele entra em
contato" (Allport, G. 1935, verbete “atitude’’).

Foi desse modo, e nessa ocasião, que esse conceito-


chave em p s ic o l o g i a s o c i a l começou a deixar de ser
“social" para se tomar "individual". Graumann (1986) fez
um estudo semelhante sobre a contribuição para o desen­
volvimento da p s ic o l o g i a s o c i a l de Floyd Allport, irmão
de Gordon. Em sua análise do clássico livro-texto de F.
Allport (1924), Graumann argumenta que a individualiza -
ção do social caminha de mãos dadas com a dissocializa-
ção do indivíduo.

Representações sociais e representações coletivas

O próprio Moscovici confessa que ele se inspirou, na


criação do conceito de RS, no conceito de Representações
Coletivas (RC) de Durkheim. Mas onde estaria a diferença?

Ela parece ser um pouco sutil. Talvez seja Sperber


(1985) quem melhor identifique as possíveis diferenças
através de uma analogia que ele faz com a medicina. Para
ele os psicólogos e antropólogos deveriam trabalhar em
conjunto para estudar o que ele chamou de “epidemia das
representações". Diz ele que a mente humana é suceptível
de representações culturais, do mesmo modo que o orga­
nismo humano é suceptível de doenças. Mostra que repre­
sentações duradouras, amplamente distribuídas, são
aquilo a que nós primeiramente nos referimos quando
falamos em cultura. E ele se pergunta: Por que algumas
representações têm, em certas populações, mais sucesso
que em outras, são mais contagiosas, mais pervasivas? A
resposta de Sperber (1985) é que isso depende da distribui­
ção das representações. Algumas delas “se transmitem
vagarosamente por gerações; são o que chamamos de
tradições e são comparáveis à endemia; outras repre­
sentações, típicas das culturas modernas, se espalham
rapidamente por toda a população, mas possuem um curto
período de vida; são o que chamamos de modas e são
comparáveis à epidemia” .

O primeiro tipo de representação corresponderia ao


conceito de “representações coletivas" de Durkheim; o
segundo, ao conceito de RS de Moscovici. O primeiro tipo
está mais ligado à cultura que, para Sperber (1990:42), é
como “o precipitado da cognição e comunicação num
grupo humano".

Moscovici tinha consciência que o modelo de socieda­


de de Durkheim era estático e tradicional, pensado para
tempos em que a mudança se processava lentamente. As
sociedades modernas, porém, são dinâmicas e fluidas. Por
isso o conceito de “coletivo" apropriava-se melhor àquele
tipo de sociedade, de dimensões mais cristalizadas e
estruturadas. Moscovici preferiu preservar o conceito de
representação e substituir o conceito “coletivo", de cono­
tação mais cultural, estática e positivista, com o de "so­
cial": daí o conceito de Representações Sociais.

A discussão feita por Jahoda (1982) vem corroborar


essa diferenciação, ao tratar o mito como sinônimo de
representação coletiva. Na realidade, o mito é um fenôme­
no cultural estratificado, cristalizado, não possui a dinami-
cidade e a historicidade que se quer dar ao conceito de RS.
Sperber (1985) distingue ainda entre RS e estereótipo.
Para ele, estereótipo seria uma representação coletiva, da
qual existem muitas cópias, cópias idênticas da repre­
sentação.
RS e teoria da atribuição

Alguns teóricos das RS (Farr e Moscovici, 1984; Farr,


1990) fazem questão de distinguir, com ênfase até, entre a
Teoria das RS e a Teoria da Atribuição. Afirmam eles que
as RS são mais básicas, operando a um nível mais profundo,
que as meras atribuições.
Para Moscovici, o pressuposto de que um indivíduo
atribui certos comportamentos a outra pessoa baseia-se no
princípio de que o ser humano é um estatístico, e seu
cérebro funciona como um computador infalível. Mas a
realidade mostra que toda explicação depende primaria­
mente da idéia que nós temos de realidade. É essa idéia
que governa nossas percepções e inferências construídas
a partir delas, junto com nossas relações sociais. E quando
nós respondemos à pergunta "por quê?” , começamos de
uma representação social, ou de um contexto geral para o
qual fomos levados, a fim de dar essa resposta explicativa.

No exemplo das causas do desemprego, Moscovici


mostra como um grupo atribui esse fenômeno a fatores
individuais, e outro a fatores sociais. Mas nos esquecemos
de que as duas explicações, totalmente opostas, provêm
de representações sociais distintas. A primeira acentua a
responsabilidade individual e a energia pessoal, ao passo
que a segunda acentua a responsabilidade social. Para ela,
a primazia, na causalidade, está nas representações, e são
elas, em cada caso, as que ditam a atribuição, tanto para
o indivíduo, como para a sociedade. O que deve ser tomado
em consideração, é que tanto as experiências que temos,
como as causas que selecionamos, são ditadas, em cada
caso, por um sistema de representações sociais.

Farr também analisa com argúcia essa problemática,


buscando como exemplo um trabalho de Ichheiser, onde
ele discute a ideologia do sucesso e do fracasso. Diz
Ichheiser (1943:152):
Os equívocos que consistem em subestimar a importância
dos fatores situacionais e em sobrestimar a importância dos
fatores pessoais não se deram por acaso. Esses equívocos
não são erros pessoais, cometidos por pessoas ignorantes,
Eles são, ao contrário, uma conseqüência consistente e
inevitável do sistema social e da ideologia do século XIX,
que nos levaram a acreditar que nosso destino, no espaço
social, dependia exclusivamente, ou ao menos predominan­
temente, de nossas qualidades pessoais - e que nós, como
indivíduos, e não as condições sociais predominantes, cons­
truímos nossas vidas.

Essa representação coletiva (mas não social) de indi­


víduos como sendo responsáveis por suas ações na vida é
retomada, de forma um pouco modificada, por Heider
(1958), ao discutir as atribuições referentes ao sucesso e ao
fracasso. Ele acentua a dimensão da "intencionalidade"
como sendo uma característica especificamente humana,
sempre, contudo, individual.

Para Farr (1990:62) “o antídoto para o empobrecimento


social de grande parte do estudo contemporâneo sobre a
teoria da atribuição é discutir o trabalho de Ichheiser, e
estudar RS como presentes e operando no mundo social,
fora do laboratório", como muito bem escreveu Ichheiser
(1949:62):
Com milhões de pessoas sofrendo os choques do desempre­
go continuado, com falências comerciais sucessivas, bancos
quebrando, etc. ficava extremamente evidente ao homem
da rua que ele não era, como tinha sido levado a crer, o
senhor de seu destino, pois esse destino dependia nitida­
mente de forças sobre as quais ele não tinha nenhum
controle.

RS e cognição social

De maneira geral, poder-se-ia dizer que a diferença


principal entre os dois conceitos está no fato de que os
estudiosos da cognição social a consideram como uma
atividade individual e o principal paradigma de pesquisa
ainda depende de processadores isolados da informação
(Forgas, 1981). Por essa razão Codol (1988) chega mesmo
a duvidar se certos trabalhos que são ditos pertencendo à
p s ic o l o g i a s o c i a l , o sejam de fato, tais como: dissonância

cognitiva, formação de impressões, esquemas e vieses


cognitivos, teoria dos scripts, etc.

RS e ideologia

Devemos confessar que se fica um pouco perplexo e


confuso quando se procura descobrir a razão por que
Moscovici se tenha afastado (se é que se afastou) do uso
do conceito de ideologia. Talvez isso merecesse uma
explicação de sua parte. Em seu trabalho publicado em
1972, no livro de Israel e Tajfel (1972), ele chega a afirmar
que a tarefa mais importante da p s ic o l o g i a s o c i a l seria o
estudo da ideologia e da comunicação. No compêndio de
p s ic o l o g i a s o c i a l (1985:19) ele ainda diz que "a p s ic o l o ­

g i a s o c i a l é a ciência dos fenômenos da ideologia (cogni-

ções e representações sociais) e dos fenômenos da


comunicação". Alguns autores que discutiram sua obra,
como Doise (1985) e Jahoda (1988), afirmam que ele teria
abandonado o conceito, ou que, se não o abandonou,
existe uma sobreposição entre ideologia e RS.
A explicação mais plausível dessa tergiversação, senão
mudança, é a apresentada por Sawaia (1993:77-78), num
excelente trabalho, onde ela descreve a trajetória seguida
por Moscovici, mostrando que ele procurou ser coerente
com sua teoria, mas com isso empobreceu o conceito de
RS, fazendo com que ele perdesse sua força desmistifica-
dora. Segundo Sawaia, no estudo das RS da psicanálise
Moscovici (1978) descreve três fases da evolução desse
conhecimento: a fase científica (criação da teoria); a fase
representacional (sua difusão e a criação de RS); a fase
ideológica (a apropriação e uso dessa realidade por um
grupo ou instituição). Ao ser apropriado, ele se reifica, se
torna discurso estruturado e estruturante, impondo uma
ordem estabelecida como natural. Moscovici vê, pois, a
ideologia na terceira fase, mas não deixa claro que ela
esteja também na segunda, ou mesmo na primeira, como
com Sawaia (1993:78).

Na verdade, o conceito crítico de ideologia desmistifica


a possível neutralidade do processo cognitivo, mostrando-o
como mediação nas relações de dominação e exploração
sócio-econômica. Nossas representações não são inde-'
pendentes: têm a ver com nossa concepção de ser humano
e de sociedade.
Nosso entendimento é de que, apesar de todas as
críticas que se possa fazer ao conceito de ideologia, como
seu privilegiamento das funções políticas dos sistemas
simbólicos, em detrimento de sua estrutura lógica e das
mediações psicológicas, ele ainda desempenha um papel
definitivo e indispensável, principalmente para se poder
compreender as dimensões éticas, valorativas e críticas, na
esperança da emancipação dos seres humanos de condi­
ções de vida humilhantes. É nossa percepção que a dimen­
são valorativa, ética, jamais pode ser separada das ações,
e por isso, de uma maneira ou outra, ela está presente tanto
no processo de construção das RS, como em sua estrutura.
Perder a dimensão de não-neutralidade dos processos e
representações é empobrecer e mistificar tanto a uns, como
a outras.
É curioso notar que muitos autores que discutem RS,
talvez a maioria deles, acabam mencionando o conceito e
tornando-o praticamente central em diversas de suas aná­
lises. Veja-se o caso de Farr (1990; 1991), por exemplo. O
que é o "individualismo como uma representação coletiva”
senão uma ideologia? Ele é certamente uma RS, mas
carrega também consigo uma dimensão ética que, na
verdade, é denunciada pelo autor. Não mereceria essa
dimensão ideológica uma parcela no estatuto das RS? Do
mesmo modo o trabalho de Hélène Joffe (nesta coleção).
A autora mostra como as RS da AIDS se fundamentam em
ideologias dominantes, como o individualismo, o colonia­
lismo e o heterossexismo. Se as RS se fundamentam sobre
essas ideologias, irão, necessariamente, conservar também
essa dimensão mistificadora.
Mais interessante é a concepção de Mary Jane Spink
(1992:6-7). Ao discutir a questão, conclui que o estudo das
RS abarca dois aspectos centrais: a construção de conhe­
cimentos, que inclui as condições sócio-históricas que os
engendram e a sua elaboração sócio-cognitiva; e a funcio­
nalidade destes conhecimentos na instauração, ou manu­
tenção, das práticas sociais. O problema da relação da
Ideologia com as RS sociais é resolvido da seguinte maneira:

Cada uma destas perspectivas empíricas demanda


uma concepção de ideologia: a primeira, quando as RS são
focalizadas como campos socialmente estruturados, leva à
conceituação de ideologia como visão de mundo; a segun­
da, privilegiando as práticas sociais, possibilita a emergên­
cia da ideologia como "representações hegemônicas a
serviço das relações de poder.” As RS são, por isso, sempre
ideológicas.

Indo a fundo no pensamento de Moscovici, e analisan­


do seus dois processos, de ancoragem e objetivação,
pode-se chegar à mesma conclusão. Para ele, ancorar é
trazer para categorias e imagens conhecidas o que ainda
não está classificado e rotulado. "Tudo o que permanece
inclassificável e não rotulável parece não existente, estra­
nho e, assim, ameaçador...[Nesse processo] a neutralidade
é proibida pela própria lógica do sistema em que cada
objeto e ser deve ter um valor positivo ou negativo...” (em
Farr, 1984:30). De maneira semelhante com o processo de
objetivação. “A representação é basicamente um processo
de classificação e nomeação, um método de estabelecer
relações entre categorias e rótulos" (1981:193). Um dos
elementos principais da categoria é o protótipo; nós esco­
lhemos qual o protótipo. Então: o veredicto tem precedên­
cia sobre o julgamento. Ao classificar, decidimos se há
semelhança entre o que queremos classificar e o protótipo,
e depois generalizamos. E tal decisão nunca é neutra.
Essas constatações nos levam a assumir uma definição
de RS que inclua a dimensão ideológica. Apesar de não
restringir a definição de ideologia a seu aspecto negativo,
como o faz Thompson (1990:52-67), julgamos sua opera-
cionalização muito útil, e é assim que o utilizamos em
nosso trabalho Rara ele, ideologia é o emprego de modos
e estratégias de criação e manutenção da dominação3,
através do uso de formas simbólicas. E dominação é uma
relação assimétrica e desigual de apropriação das capaci­
dades (poderes) de outros. Nosso interesse é a descoberta
e a demonstração dessas relações assimétricas e desiguais.

Como entendemos, então, as RS?


É de Jodelet (1989:36) a definição de RS que detém um
amplo consenso entre os que discutem esse conceito: RS são
"uma forma de conhecimento, socialmente elaborada e
partilhada, tendo uma visão prática e concorrendo para a
construção de uma realidade comum a um conjunto social."

São diversos os elementos que costumam estar ligados


ao conceito de RS: ele é um conceito dinâmico e explica­
tivo, tanto da realidade social, como física e cultural. Possui
uma dimensão histórica e transformadora. Junta aspectos
culturais, cognitivos e valorativos, isto é, ideológicos. Está
presente nos meios e nas mentes, isto é, ele se constitui
numa realidade presente nos objetos e nos sujeitos. É um
conceito sempre relacionai, e por isso mesmo social.

O ato de representar não é um processo simples. Além


da figura, ele carrega sempre um sentido simbólico (Mos­
covici, 1978:65). Jodelet (1985) identifica nesse ato de

3 . Thompson distingue entre dominação e poder. Para ele ''poder'' é uma


capacidade de uma pessoa ou grupo: todos os que ''podem" fazer algo, têm
poder. Já dominação é uma relação entre pessoas ou grupos, e acontece
quando uma pessoa, ou grupo, se apropria, expropria, poder (capacidade) de
outros, de maneira assimétrica, desigual. Essa noção de poder difere da de
Foucauld (1977,198); concorda em parte com a de Lukes (1974) e de Alford e
Friedland (1985); e é igual à de Wright (1990). Para mais detalhes, veja-se
Guareschi (1992:125-29).
representar cinco características fundamentais: representa
sempre um objeto; é imagem e com isso pode alterar a
sensação e a idéia, a percepção e o conceito; tem um
caráter simbólico e significante; tem poder ativo e cons­
trutivo; finalmente, possui um caráter autônomo e gene­
rativo.

Allansdottir, Jovchelovitch e Stathoupoulou (1993), em


sua análise crítica do conceito de RS, discutem três postu­
lados que revelam a relevância do conceito e podem
propiciar combinações interessantes em seu emprego:

a) é um conceito abrangente, que compreende outros


conceitos tais como atitudes, opiniões, imagens, ramos de
conhecimento;
b) possui poder explanatório: não substitui, mas incor­
pora os outros conceitos, indo mais a fundo na explicação
causai dos fenômenos;
c) o elemento social, na t e o r i a d a s r e p r e s e n t a ç õ e s
é algo constitutivo delas, e não uma entidade
s o c ia is ,

separada. O social não determina a pessoa, mas é parte


substantiva dela. O ser humano é tomado como essencial­
mente social.
O conceito de RS tem a ver com essas várias dimen­
sões: o que forma as representações sociais, como elas se
constituem e quais os efeitos dessas representações. É, por
isso, um conceito: dinâmico, gerador (generativo), relacio­
nai, amplo, político-ideológico (valorativo) e, por isso tudo,
social.

A Representação Social do dinheiro

Uma nota sobre os neopentecostais

Assistimos, nos últimos anos, ao surgimento de inú­


meros estudos sobre Pentecostalismo na América Latina,
realizados tanto na Europa (Martin, 1990), América do
Norte (Stoll, 1990), como também da América Latina (As-
smann, 1986; Oro, 1990, 1991, 1992; Hugarte, 1992). A
maioria desses estudos são feitos por antropólogos, princi­
palmente na América Latina, e outros por sociólogos, mas
quase nenhum dentro de um enfoque psicossocial.

Após termos investigado outros grupos religiosos


(Guareschi 1985, 1990), interessamo-nos agora pelos neo-
pentecostais.

É importante distinguir, no Pentecostalismo latino-


americano, dois tipos distintos:

a) Os que podemos chamar de “pentecostais antigos",


como a Assembléia de Deus, que chegou ao Brasil em
1911; Congregação Cristã do Brasil, que começou aqui em
1910; Igreja do Evangelho Quadrangular, iniciada depois
dos anos 40; Brasil para Cristo, fundada em 1956; e
inúmeras outras igrejas pequenas e independentes, provin-
das das acima mencionadas.
b) Os "pentecostais novos", ou “neopentecostais”4,
que são grupos religiosos surgidos nas últimas duas ou três
décadas, originando-se de todos os tipos de igrejas tradi­
cionais (não apenas das Protestantes5), como a Igreja
Evangélica Pentecostal Cristã (chamada também Igreja
Bom Jesus dos Milagres) e Igreja Rosa Mística originadas
da Igreja Católica Romana, e a Igreja Universal do Reino

.
4 Oro (1992) chama a esse tipo de Pentecostalismo de “Neopentecostalismo” ,
ou “Pentecostalismo Autônomo", e inclui sob esse nome todas as igrejas que
começaram depois de 1950. De nossa parte, preferimos incluir entre os
Neopentecostais apenas as igrejas iniciadas depois dos anos 70 devido,
principalmente, ao fato de elas se terem originado não apenas das Igrejas
Protestantes, mas também da Igreja Católica Romana.

5. A distinção original e tradicional era a que se fazia entre "Igrejas Protestantes


Históricas", como a Luterana, Metodista, Anglicana, Presbiteriana, etc. e as
"Igrejas Protestantes Novas", como os Mórmons, Adventistas do Sétimo Dia,
as primeiras Assembléias de Deus. Introduz-se agora uma nova distinção
entre os Pentecostais: os antigos, como as Assembléias de Deus, e os
Neopentecostais, com início após 1970.
de Deus (fundada em 1977), Igreja Internacional da Graça
de Deus (fundada em 1974), Igreja Casa da Bênção (funda­
da também em 1974), de origem protestante. Todas se
dizem igrejas pentecostais, e fazem parte do grande nú­
mero de grupos religiosos que se espalham por toda a
América Latina6. Essas cinco igrejas neopentecostais estão
entre as mais importantes e compreendem ao redor de 80%
das igrejas neopentecostais. Quando revistas e jornais
falam de "crescimento das ‘seitas’ ” , é a elas que se referem.
É delas que trata nossa pesquisa.

A seguir, após uma breve nota metodológica, discuti­


remos três pontos principais:
A) A questão do dinheiro nas práticas cotidianas das
igrejas: Serão aqui apresentados os dados que servirão
como base de análise no ponto seguinte;

B) Uma teorização sobre esses dados, a partir da


Será dada ênfase aos
t e o r ia d a s r e p r e s e n t a ç õ e s s o c ia is .

conceitos de familiarização, ancoragem e objetivação;

C) Como uma espécie de conclusão, discutimos a


dimensão ideológica dessas representações.

Metodologia

Nossos dados foram coletados em situações bastante


diversas. A maior parte deles foram tomados de observa­
ções participantes (ao redor de 50) de cultos e práticas das
várias igrejas. Além disso, foram gravados programas de
TV (10) e rádio (5) das igrejas que os transmitem. Esses
programas são extremamente repetitivos. Finalmente, fo­

6. Esse fato mostra a (alta de uma investigação mais acurada sobre o que está
de fato acontecendo na América Latina, e a ambigüidade do argumento de
Martin (1990) de que o Pentecostalismo Latino-Americano fundamenta-se na
“ética protestante" e poderá produzir frutos semelhantes aos produzidos pelos
protestantes que migraram aos Estados Unidos. Como assim, se grande parte
dos pentecostais de hoje são de origem católico-romana?
ram feitas entrevistas com pastores (5) e com os fiéis (25),
procurando saber, da parte deles, o que achavam das
práticas econômicas das igrejas. Os pastores mostravam-
se extremamente arredios, dizendo que nada se exige dos
fiéis, que tudo é espontâneo. A prova central disso (muitas
vezes repetida durante as pregações) é de que nunca se
cobrou entrada. O que verdadeiramente nos interessava,
era compreender como os membros se colocavam diante
da questão econômica. É de suas falas que se pode'
perceber como funcionam as estratégias empregadas pelos
pregadores para, a partir de uma necessidade que é fun­
damentalmente econômica, ancorar a extorsão do dinheiro
a representações já existentes na mente dos fiéis para, a
partir daí, tirar deles mesmos o de que eles mais necessitam.

A ) A dimensão econômica nas práticas neopentecostais:


dados

Diversos trabalhos já foram realizados nesse campo,


inclusive sobre esse tema específico das "representações
do dinheiro" (Oro, 1992; Hugarte, 1992)7, mas sob enfoques
especificamente antropológicos. Passamos a analisá-los à
luz da t e o r i a d a s r e p r e s e n t a ç õ e s s o c ia is e da ideologia.
A forte ênfase dada ao econômico, nas igrejas neopen­
tecostais, salta imediatamente à vista. Não há reunião,
oração, serviço ou concentração, em que a necessidade de
contribuir não seja constantemente lembrada. Hugarte
(1990) sintetiza as práticas cerimoniais dessas igrejas como
sendo uma série de discursos ininterruptos, nos quais os
pastores insistem fundamentalmente sobre as necessida­
des materiais da igreja, a virtude do desprendimento, os
benefícios do jejum e das esmolas ( “dar para receber") e a
importância de se escutar os programas de rádio ou tele­
visão dessas próprias igrejas. Lembra-se continuamente

.
7 Muitos dos dados utilizados em nosso trabalho são tomados dessas pesquisas,
principalmente da realizada pelo antopólogo Ari Pedro Oro, a quem somos
especialmente reconhecidos.
que é graças às contribuições dos fiéis, que a igreja pode
continuar a crescer, ampliando-se geograficamente e no
número de seguidores de sua mensagem; com isso aumen­
ta o número de milagres e curas. É admirável a capacidade
dos pregadores em convencer os fiéis da obrigação e
necessidade de contribuir, até mesmo para eles se salva­
rem, e de o que se pede é insignificante se comparado, por
exemplo, ao preço de uma cerveja, a uma passagem de
ônibus, ou mesmo a um refrigerante.
Alguns exemplos desses raciocínios e motivações:
- "Você não pode ganhar nada de graça, nem mesmo Deus;
para se conseguir uma graça, você tem de pagar".

- “É dando (dinheiro) que você vai receber (a graça)".

A atividade milagrosa da igreja é apresentada como se


fosse um serviço, e com isso tem-se como normal e
justificado o fato de que se cobre. Algumas falas que
mostram isso:
- "Se pagamos a um médico, se pagamos o aluguel, por que
não pagar a quem cura nossos males?”
- “É necessário aumentar, ou reconstruir a igreja, desse
modo Deus poderá continuar a operar o 'festival de milagres”’ ;
- "Precisamos continuar com nossos programas de rádio e
televisão para podermos vencer o demônio";
- “Você tem de se livrar de seu dinheiro, desse modo você
poderá se purificar";
- "Se você doar seu dinheiro para a igreja, você poderá, até
certo ponto, purificar o mundo” ;
Se você doar dinheiro para a Igreja, você não estará dando
dinheiro ao pastor, mas a Deus"8.

8. Esse testemunho, de um dos fiéis, explica o tipo de representação que eles


têm sobre o dinheiro oferecido nas ofertas: "Quando as pessoas doam algum
dinheiro, elas não estão dando dinheiro para a igreja, mas a Deus. Esse
dinheiro é, pois, consagrado a Deus, e se alguém pegar esse dinheiro, ele não
estará roubando esse dinheiro de mim, ou do pastor, ou da Igreja, mas estará
roubando de Deus. E Deus cortará sua mão, e não apenas sua mão, mas todo
seu corpo".
Os fiéis estão convencidos de que eles não estão sendo
explorados economicamente por seus pastores. Nem che­
gam a pensar nessa possibilidade. Eis a reação de uma
mulher à tentativa de questionamento sobre a possibilida­
de de exploração eonômica:
- "Exploração? Nunca! A pessoa dá o que ela quiser. Não
há obrigação de dar. Você não paga por tudo o que compra?
Do mesmo modo, por que não pagar a Deus?”

Até mesmo a Bíblia é usada para legitimar essas


práticas. Alguns textos muito comuns, empregados duran­
te a coleta de dinheiro, são: "Dai, e vos será dado" (Lc 6,38);
“Deus ama quem dá com alegria" (2Cor 9,7); “Por que
desprezais o meu sacrifício e a minha oferta que mandei
oferecer na minha morada?” (1Sm 2,29); “Há mais felicida­
de em dar, do que em receber" (At 20,35)9.

Essa leitura da Bíblia serve a vários propósitos: o mais


evidente é angariar dinheiro dos crentes; indiretamente,
insiste-se na idéia de que as pessoas devem desapegar-se

.
9 Na instalação de um novo local de oração da Igreja Universal do Reino de
Deus, quando um antigo barracão foi transformado em igreja, montou-se uma
ampla e intensa campanha econômica, baseada no Livro de Ageu (1,6), onde
se lê:
“Semeastes muito e colhestes pouco,
comestes, mas não vos saciastes,
bebestes, mas não até à embriaguez,
vestistes-vos, mas não vos aquecestes,
e o assalariado coloca o salário em uma bolsa furada".
Com base neste texto, os pregadores argumentaram que as pessoas devem
contribuir com doações para a igreja, mas não em "bolsas furadas". A razão
pela qual as pessoas estavam trabalhando duramente, e ganhando quase
nada (o salário mínimo na ocasião era 50 dólares ao mês), era que eles estavam
colocando o dinheiro em "bolsas furadas". Para solucionar esse problema,
foram distribuídos milhares de pequenos saquinhos, de pano de lona, e se
pediu a todos os fiéis que colocassem neles a coleta, o mais que pudessem,
para o dia da inauguração. A campanha foi realizada na televisão e no rádio,
além das pregações nas igrejas. Nosso cálculo é que ao menos três mil
pessoas contribuíram para a campanha. Os pastores preenchiam uma ficha
com o endereço de cada contribuinte, antes de lhe dar o saquinho, pressio-
nando-os, assim, a trazê-lo de volta, e sugerindo que quanto mais eles
doassem, maior seria sua retribuição econômica no emprego e em bens
materiais.
dos bens e interesses terrestres, se desejam conseguir
algum tipo de recompensa ou ajuda.
Muitos “hinos” legitimam a necessidade e importância
do dízimo, como este, que ensina como fazer as contas:
-“Se ganho mil, ponho cem; se ganho dois mil, ponho
duzentos..."

As estratégias empregadas pelos pastores para arreca­


dar dinheiro são muitas e variadas. Algumas delas:

a) O dízimo. É o tema que maior ênfase recebe da parte


dos pregadores e é a prova mais evidente e concreta de
que se pertence à igreja. Os fiéis, ecoando as instruções
dos pastores, afirmam que é importante garantir o mais
cedo possível o pagamento do dízimo, pois de outro modo
as pessoas podem gastar o dinheiro em coisas "pecamino­
sas", como afirma um entrevistado:
- “É muito importante pagar o dízimo. Essa é a primeira
coisa que alguém deve fazer quando recebe o dinheiro. Está
escrito, pois o dízimo pertence a Deus. Até mesmo Adão,
no Paraíso, teve de separar o dízimo, pois ele podia comer
de todas as árvores e frutos, exceto um. Esse era reservado
para Deus."

Algumas pessoas chegam mesmo a escolher as notas


mais novas para levar para a igreja. Acreditam que a parte
de dinheiro separada para o pagamento do dízimo não pode
mais circular, a fim de não se "contaminar" pela miséria,
doenças e perigos do mundo.

b) Os camês: A prática do dízimo é institucionalizada


através da confecção de um "camê de dizimista” , que
garante a condição de integrante da igreja. Uma das cenas
comuns durante as orações é pedir que os fiéis levantem
esses camês, o que é feito com grande orgulho pelos que
os possuem.

c) Distribuição de envelopes: Uma prática corrente é a


distribuição de envelopes que são recolhidos após uma
semana, para que as pessoas coloquem neles a doação que
querem efetuar. Isso é realizado em ocasiões e festas
especiais. Sobre os envelopes escreve-se a quantia neles
ofertada, juntamente com o pedido que deseja ver realizado
através dessa doação.

d) Os leilões de ofertas: Essa estratégia segue a prática


dos leilões comerciais, de bens ou animais. A diferença é
que o prêmio é algo imaterial: a satisfação de ajudar a igreja
e o prestígio entre os demais membros. O pregador começa'
com um pedido de doação relativamente alto: "Quem irá
ofertar dois mil cruzeiros?" (30 dólares). Se ninguém res­
ponde, ele insiste, e diz que quem fizer a oferenda, receberá
uma bênção especial. Se alguém responde, ele pede que
suba ao altar e lhe dá a bênção prometida (imposição das
mãos, unção da mão que oferece com azeite). A seguir, ele
diminui a quantia para mil cruzeiros (15 dólares). Se nin­
guém reage, ele mostra sinais de desapontamento. Insiste
com a audiência, dizendo que qualquer um gasta isso com
uma boa refeição, com bebidas ou mesmo com perfumes.
Continua baixando. Agora para 500 cruzeiros (8 dólares),
depois a metade da anterior, e assim por diante. Algumas
senhoras de idade que puderam poupar algum dinheiro (1
dólar), especialmente para esta ocasião, encaminham-se
para a frente. São abençoadas efusivamente. Finalmente o
pregador pede que todos os presentes segurem na mão
qualquer nota de dinheiro10. Ele abençoa as ofertas e pede
que as levem ao altar. Há ocasiões em que as mãos dos
doadores são ungidas, após depositarem a oferenda sobre
o altar.

e) As coletas: além das práticas acima, em todas as


reuniões fazem-se coletas, após fervente motivação dos
pregadores e sempre após os exorcismos, quando são

.
10 Na ocasião da pesquisa, a menor nota existente no Brasil era de 1 cruzeiro
(menos de um centésimo de dólar). A maioria das pessoas oferecia 10 ou 20
cruzeiros. Uns poucos 50 cruzeiros, menos gente ainda oferecia 100 cruzeiros,
ao redor de 1 dólar.
feitos. A estas alturas as pessoas estão psicologicamente
mais predispostas a "retribuir" por tantos milagres e por
tanto esforço realizado pelo pregador-exorcista. Mas há
também coletas especiais, em geral às sextas-feiras. Após
muito investigar, descobriu-se que o fato de a "grande
coleta" ser às sextas-feiras não é casual. Na verdade, a
sexta-feira é o dia de pagamento para grande número de
pessoas, que compõem o assim chamado "mercado infor­
mal de trabalho", quase 50% da economia nacional. Muitos
trabalham sem carteira assinada, e são pagos na sexta-feira.
A importância e a urgência da coleta é explicada em
detalhes: sempre existe o aluguel do salão que não foi
pago; as despesas com o som, com as cadeiras, com a
divulgação no rádio e na televisão, etc. Pessoas que assis-
tem a tais reuniões pela primeira vez chegam a chocar-se,
se não até mesmo a ofender-se, com essa insistência em
contribuir. Mesmo para nós, inicialmente, isso se asseme­
lhava a uma extorsão, praticada com pessoas simples,
analfabetas e doentes. Mas eles não se espantam. Por quê?
Voltamos a isso ao discutir o processo de “ancoragem".

B) Teorizando as práticas econômicas: Ancorando o bem


e o mal

Cientes dos dados acima, podemos já entrever algu­


mas respostas, mesmo que superficiais, à pergunta feita no
início de nosso trabalho. O que pretendemos agora é
trabalhar mais pormenorizadamente esses dados, situan­
do-os dentro da Teoria das RS, e analisando os mecanismos
que são empregados nesse processo.

Examinaremos aqui dois pontos: a situação de não-fa-


miliaridade (a) e o processo de ancoragem (b).

a) O tornar o não-familiar familiar.

A grande angústia da população que freqüenta essas


igrejas não é tanto se eles vão se salvar ou não, mas é ter
comida, encontrar um emprego, poder pagar o aluguel,
sarar das doenças, poder educar os filhos. Esse é o seu
grande temor, o seu "não-familiar” , muito mais desgastan­
te e desesperador, certamente, com aquilo que poderá
acontecer ao morrerem. Eles precisam de uma solução para
os problemas prementes e imediatos, do aqui e agora.
Moscovici (1984:20-27), ao analisar o processo forma­
dor das representações, afirma que o móvel desencadeante
desse processo, "o propósito de todas as representações é
o de transformar algo não familiar, ou a própria não fami­
liaridade, em familiar" (1984:23-4). Essa seria a razão de
por que as pessoas formam e constroem representações
sociais.

Para se compreender melhor essa situação de não-fa-


miliaridade, é importante mostrar que para Moscovici
(1981, 1984, 1988) a sociedade, além de ser um sistema
econômico e político, é também um sistema de pensamen­
to (o pensamento como ‘‘ambiente”). Mas existem, nessa
sociedade, dois tipos diferentes de universos de pensamen­
to: os universos consensuais e os universos reificados. Nos
universos reificados, que são mundos restritos, circulam as
ciências, que procuram trabalhar com o mais possível de
objetividade, dentro de teorizações abstratas, chegando a
criar até mesmo certa hierarquia. Nos universos consen­
suais estão as práticas interativas do dia-a-dia, que produ­
zem as RS, que são teorias do senso comum, isto é,
conhecimentos produzidos espontaneamente dentro de
um grupo, fundados na tradição e no consenso, dentro de
uma lógica, metodologia e comprovação diferentes.

Ora, o “não familiar” é produzido, e se situa, na maioria


das vezes, dentro do “universo reificado” das ciências, e
deve ser transposto ao “universo consensual" do dia-a-dia.
Essa tarefa de transposição é, em geral, realizada pelos
divulgadores científicos de todos os tipos, como jornalistas,
comentaristas econômicos e políticos, professores, propa-
gandistas, que têm nos meios de comunicação de massa
um recurso extraordinário.
Aplicando ao nosso caso, o “universo reificado", o
mistério, é a angústia e a impotência de não se poder
dominar, solucionar os problemas reais da doença, da falta
de dinheiro, da falta de paz. Entram, então, em jogo os
"divulgadores" e os “interpretadores” do mistério. Eles se
municiam com um instrumento absolutamente legitimado:
a Bíblia. Ela se toma a grande "pedra filosofal", que
soluciona todos os problemas. O importante é obedecer
cegamente, crer sem restrições, atirar-se confiantemente
em seus braços.

Essas multidões estão agora motivadas. Mas como


fazer? O que fazer? Qual apóstolo Paulo, caído do cavalo e
cego, elas esperam os guias que as conduzirão pela noite
de sua cegueira.
b) A ancoragem
O barco está à deriva, pronto a deslizar, impulsionado
por essa correnteza “motivadora e mobilizadora" da não-
familiaridade. É preciso encontrar agora faróis que o orien­
tem e margens seguras que o ancorem, nos “jordões” da
existência.
É aqui, cremos, que a Teoria das RS é útil para ajudar
a compreender como se processa o mecanismo de legiti­
mação da “extorsão" econômica. Há dois tipos de ancora­
gem que precisam ser examinados: a ancoragem do bem
(no dinheiro) e a ancoragem do mal (no demônio).

Ancorando o “bem ”

Já assinalamos acima o espanto, e a quase indignação,


que é, para os leigos, a insistência na doação de dinheiro.
Mas não é essa a percepção dos freqüentadores desses
templos. Qual a razão?
Acreditamos ser possível compreender, até certo pon­
to, esse fato, ao analisar o universo simbólico dessas
pessoas, isto é, as representações sociais já existentes e
legitimadas, e como as práticas empregadas pelos prega­
dores nada mais fazem que ligar, "ancorar” essas novas
práticas a situações mais antigas.

São várias as “representações” tradicionais que encon­


tramos, principalmente na religiosidade popular de nosso
povo. Entre elas podemos citar:

a) A representação da "reciprocidade":

Os raciocínios, ou motivações, empregados pelos pas­


tores se baseiam num discurso que concorda e que legitima
o universo simbólico dos contribuintes. Como Mauss (1974)
mostra, o princípio de reciprocidade e troca está baseado
nas obrigações de dar, receber e retribuir. Esse princípio é
um componente forte do universo simbólico das pessoas
mais empobrecidas da sociedade brasileira. No fundo, a
reciprocidade se liga à própria dimensão da solidariedade,
da entreajuda. Se eu recebo um favor de alguém, eu tenho
de restituir, de uma maneira ou outra.

A pregação dos pastores apela a esse universo e liga


a "doação" à obrigação de restituir, mesmo que essa
doação seja antecipada. O que faz com que eles antecipem
sua doação, é o testemunho de outros que já receberam
(lembrados, com forte freqüência pelos pastores), e a cer­
teza de que se eles vão contribuir, Deus certamente terá
de nos atender, pois, afinal, Ele também tem de ser fiel...
"Dai, e vos será dado!"
"Você não pode ganhar nada de graça, nem mesmo Deus;
para se conseguir uma graça, você tem de pagar.”
“É dando (dinheiro) que você vai receber (a graça)."
A apropriação e manipulação estratégica dessa dimen­
são de reciprocidade do universo simbólico dos fiéis é,
certamente, uma das razões da exploração das ingentes
multidões de empobrecidos e necessitados que lotam as
amplas igrejas.
b) A representação da reciprocidade "equilibrada"

Os pregadores vão ainda mais além, acentuando a


idéia de que deve existir uma relação eqüitativa entre a
quantia doada e o tamanho, ou importância, do milagre ou
da graça, esperados: "quanto mais você der, mais você vai
receber", é o refrão constantemente repetido. É a isso que
M. Sahlins (in Oro, 1992:33) chama de "reciprocidade
equilibrada” , isto é, uma troca direta que satisfaz as exi­
gências de ambas as partes.
Essa “reciprocidade equilibrada" nas relações para
com Deus aplica-se a diferentes tipos de problemas que
afligem os fiéis, tais como: doenças, problemas no amor e
casamento, crises financeiras, etc. A própria melhoria da
situação econômica caminha através desse pressuposto,
conforme podemos ouvir dos pastores: "Se você quer ter
sucesso econômico, coloque ali seu dinheiro" (ali se refere
à coleta durante as orações); ou: “Dê o bastante para
receber o suficiente". Alguns pastores chegam a sugerir
que se faça um tipo de aposta com Deus, oferecendo a Ele
dinheiro além das possibilidades de alguém, para ver o que
vai suceder. Contam-se histórias fantásticas de pessoas
que ofereceram grandes somas e receberam muito mais
em troca. Oro (1992) conta, por exemplo, a história de uma
mulher que recebia ao redor de um salário mínimo, e
ofereceu dois terços do salário. Após alguns meses ela
começou a receber tanto dinheiro que ela podia doar mais
de dois salários mínimos, devido a seu sucesso e c o ­
nôm ico11.

11. Um dos fiéis contou a seguinte história: "Eu testei Deus, a fim de que ele me
abençoasse. Pois Deus é o senhor de todo o ouro, de toda a prata. Ele é o
senhor dos ventos, ele comanda os mares. Deus é o único que pode me
proteger. E Ele nunca falha. Se, pois, eu tenho de contribuir, então vou
contribuir. O quanto eu puder. Se eu tenho, eu dou. Sei que sempre vou
receber tudo o que eu precisar".
Quem não se convence diante de frases como estas:
“Com a mesma medida com que medirdes, vos será medi­
do. "
"Se pagamos a um médico, se pagamos o aluguel, por que
não pagar a quem cura nossos males?"

c) A representação social da "promessa":

A prática da "promessa" é certamente a mais freqüente


e generalizada entre as práticas religiosas do brasileiro. Ela
consiste em prometer algo importante e relativamente
difícil de ser executado, caso se consiga a realização do
pedido feito. A promessa é uma dívida sagrada que se
contrai com Deus ou com os santos. Essa obrigação é
transposta, na fala dos pregadores, para a necessidade de
se pagar pelo milagre, ou cura (muitas vezes aparente ou
passageiro) acontecido a alguém. Há uma diferença, con­
tudo, entre as “promessas” feitas e pagas no contexto da
religiosidade popular, tanto católica como afro-brasileira,
e a dos neopentecostais: para os primeiros, paga-se uma
promessa com orações, romarias, penitências, oferenda de
alguns bens em espécie, como frutos da terra, despachos,
etc., ao passo que, para os últimos, é necessário que se
pague em espécie: só se aceita moeda corrente.

d) A representação do mercado (capitalista):

Essa é mais uma surpresa dos que assistem aos cultos


neopentecostais pela primeira vez: não há muita diferença
entre a igreja e o supermercado. Talvez seja por isso que
muitos analistas chamem a essas igrejas de "supermerca­
dos da fé". As leis que determinam o mercado vão deter­
minar também as relações com Deus. Mas o negócio tem
de ser justo. Não apenas eu te dou e você me dá, mas se
eu te der tanto, você tem de me restituir o mesmo tanto.
Inseridos numa sociedade capitalista, os fiéis passam
a assimilar o discurso capitalista, até mesmo com relação
ao sagrado. Os pregadores apresentam os assuntos religio­
sos dentro do referencial simbólico do mercado, levando
as pessoas à conclusão de que o dinheiro é um meio eficaz
para se conseguir bens espirituais como a paz, felicidade,
conforto espiritual, alegria, etc., numa espécie de transa­
ção simbólica estabelecida com Deus, através da igreja.
Por esses meios, os pastores conseguem convencer os
ouvintes de que eles devem acreditar no dinheiro, algo
indispensável se alguém quer alcançar favores espirituais.

e) A representação da predestinação (teologia calvinista):

As pesquisas realizadas não apenas entre pentecos­


tais, mas também entre romeiros que se dirigem a santuá­
rios católicos, mostra uma conclusão unânime: o fato de
alguém ter recebido uma graça significa que Deus está de
bem com ele: "Se Ele me ajudou, é sinal de que me quer
bem. Agora eu vou restituir o duplo” .
Essa prática não difere, significantemente, do dogma
calvinista sobre a predestinação dos escolhidos. Para eles
o sucesso econômico era sinal de predestinação. Para os
neopentecostais, contudo, o caminho é também inverso:
alguém pode chegar a se enriquecer e ter sucesso econô­
mico, se primeiro ele investir dinheiro na igreja, através de
doações. É o testemunho que vimos acima, da mulher que
apostou com Deus (nota 11).

f) A representação (ameaça) da culpa e do castigo:

O sentimento de culpa e a ameaça do castigo são


também empregados para incentivar as contribuições.
Quem não dá dinheiro, quem não contribui monetariamen-
te, não só deixará de receber o milagre, mas ele estará
conspirando contra o desenvolvimento da igreja, e com isso
estará impedindo a outros de serem ajudados através das
obras prodigiosas e milagrosas operadas através dos pas­
tores e da igreja; numa palavra, estará se opondo ao próprio
Deus. Para isso se emprega até a Bíblia: as pessoas que
não contribuem são como "as árvores que não dão fruto” .

O mecanismo de ancoragem, a nosso ver, é decisivo


na legitimação da extorsão. O “dar dinheiro" é firmemente
ancorado e legitimado no universo simbólico cultural-reli-
gioso dos brasileiros, que vai desde a prática sagrada da
“promessa" até as regras de funcionamento do mercado
capitalista.

As RS são uma constante construção: elas são realida­


des dinâmicas, e não estáticas. Vão sendo reelaboradas e
modificadas dia a dia. Vão sendo ampliadas, enriquecidas
com novos elementos e relações. É o que se constata da
análise do que passa a significar (representar), para os fiéis
das igrejas neopentecostais, a “oferta" que eles doam nas
igrejas. Podia haver estranheza no início. Mas aos poucos
a prática foi “ancorada” e legitimada. Essa representação
não nasceu do nada: ela bebeu no universo significativo
da população. A angústia e o desespero foram ancorados
no “porto seguro” da garantia de salvação, garantia de
felicidade, de sucesso, de realização pessoal, numa pala­
vra, de predestinação eterna. Assim como você chega a
um armazém, compra e paga um produto, assim você
também chega agora à igreja, compra seu milagre, sua
graça, sua cura, sua salvação, e volta tranqüilo para casa,
feliz e convencido de que fez um bom negócio.

A atividade religiosa dessas igrejas apresenta-se como


uma simples continuação da vida cotidiana, apresentando
as mesmas regras de funcionamento. Oferece um serviço
de intermediação ("comercial”) com Deus, que se faz aqui
e agora, para solucionar problemas imediatos. As anotações
e os carimbos colocados nos carnês dos dizimistas e nos
envelopes das contribuições oferecem, na dimensão do
sagrado, a segurança oferecida pelos recibos e os compro­
vantes de compra, empregados ao se fazer uma transação
comercial. É essa, em síntese, a conclusão a que chega
Hugarte (1992:91), dessa espécie de metamorfose operada
na mente dos fiéis das igrejas neopentecostais.
É explicada, assim, a surpresa, e quase indignação,
dos neófitos diante da despudorada insistência em se pedir
dinheiro, e a tranqüila aceitação dos fiéis: é uma prática
normal, como qualquer outra. Até mesmo o ambiente
totalmente “leigo" das igrejas, sem imagens, sem símbo­
los, com apenas uma mesa e um forte conjunto eletrônico,
parece ser uma indicação a mais dessa "secularização”
dessas práticas e ambientes.

Ancorando o "m al”

O mal, por sua vez, também necessita ser ancorado. E


o processo não difere do visto acima. De onde vêm todos
esses males e doenças? De onde vem o desemprego? E os
problemas familiares, como o abandono do marido, as
filhas que engravidam sem casar, a falta de aluguel, a falta
de escolas? A resposta é imediata: são os exus e as
pombajiras. São encostos que esses maus espíritos colo­
cam sobre as pessoas. Essas entidades malignas recebem
até nomes. Ao realizar os exorcismos, uma das primeiras
perguntas feitas ao “doente-pecador" é: Qual o teu nome?
Satã? Pombajira? Legião? Exu do cemitério? Exu macum-
beiro? Exu preto? Exu das quebradas? Exu da encruzi­
lhada?
Num programa radiofônico de uma das igrejas, após a
leitura da carta onde o(a) ouvinte expõe seu problema, a
resposta quase infalível do "padre vidente" é: “um exu se
atravessou em seu caminho. Seu nome é...” e os nomes
variam numa gama exótica.

Pode-se encontrar aqui uma das mais inteligentes


estratégias de penetração e propagação das igrejas neo­
pentecostais: o recurso ao universo simbólico religioso do
brasileiro comum, para afirmá-lo, negando-o. Explicamos:
a maioria das pessoas que compõem as multidões que
acorrem a essas igrejas são pessoas simples, que sempre
professaram profunda religiosidade popular. São os des­
cendentes de negros, índios, mulatos, etc. Ora, o universo
religioso, tanto do índio como do negro, mulato, etc. é
povoado de entidades religiosas animistas, os deuses das
florestas, dos rios, das montanhas, do mar. Na umbanda,
por exemplo, cada um desses deuses têm seu nome. Ora,
que fazem os pregadores? Afirmam a existência dessas
entidades, pelo fato de as colocarem como responsáveis,
pelos males todos, e ao mesmo tempo as negam, dizendo
que são demônios, que devem ser exorcizados e renega­
dos. Nada poderia atrair mais a essas pessoas, pois todas
elas, de uma maneira ou outra, acreditam nesses deuses.
E por isso mesmo acham que o pregador está certo, pois
ele lida com esses espíritos. Ele realiza o milagre, pois
conhece os espíritos, sabe até seu nome e o mal que
causam, e assim liberta as pessoas desses demônios,
causadores dos males.
Essa estratégia de ancoragem é extraordinariamente
bem sucedida, e enquanto houver pessoas que acreditem
nos exus e pombajiras, vão existir milagreiros e exorcistas.
E, do mesmo modo, sempre existirão os exus e as pomba­
jiras, pois eles são propositada e interesseiramente criados
e re-criados pelos próprios pregadores... Necessitam deles,
para negá-los!

C) A IDEOLOGIA

Que dizer diante de tal situação?


Discutimos acima a impossibilidade de separar a di­
mensão valorativa dos processos de formação e da própria
estrutura das RS. Gostaríamos de sublinhar aqui alguns
elementos que ajudam a perceber essa dimensão de não
neutralidade no processo de ancoragem das RS do bem e
do mal.

Com suas pregações fortemente ligadas à importância


de dar ofertas e esmolas, e pela legitimação dessa prática
buscada numa interpretação fundamentalista da Bíblia e
nas representações tradicionais da religiosidade popular
brasileira, os líderes manipulam os fiéis, acumulando gran­
des somas. Em suas alocuções, eles não estão interessados
em enfatizar e denunciar os fatores sociais que criam e que
mantêm as pessoas pobres e oprimidas. Todas as causas
da miséria humana estão localizadas no “demônio". A
solução para todos os problemas, individuais ou sociais, é
"entregar-se a Jesus” . Não se discute, nem se procura
saber se há outras possíveis causas da miséria humana. Os
neopentecostais, desse modo, ocultam consciente e inten­
cionalmente as relações sociais existentes na sociedade,
que criam e que perpetuam as pessoas na pobreza (Gua-
reschi, 1992:56-59). A discussão dessas relações de domi­
nação e exploração está totalmente ausente de seus
discursos. Sua pregação obscurece, assim, a verdade sobre
sua realidade. Essa é a legítima prática ideológica, que
consiste no emprego de formas simbólicas para criar e
manter relações de dominação.

Essa manipulação ideológica é ainda complementada


com práticas que apelam ao afetivo e ao emocional. Que
acontece quando uma pessoa é submetida a um processo
poderoso e quase magnético, dirigido a seu psiquismo?
Através de nossas observações, pareceu claro que a mani­
pulação dos sentimentos e emoções, através de ações de
catarse coletiva, de exorcismos, de curas, que presencia­
mos nessas igrejas, constitui-se numa forma eficaz de
dominar as pessoas. Essas práticas as tornam psicologica­
mente enfraquecidas, e elas não mais conseguem manter
pleno controle de si mesmas. As estratégias de envolvi­
mento, música, dança, gestos, etc. privam as pessoas de
uma dimensão essencial do ser humano: pensar, refletir,
considerar, criticar e escolher livremente.
Os freqüentadores são tratados como multidão, como
uma massa anônima, não como pessoas. Numa multidão,
ou em situações massivas, as pessoas não se perguntam
sobre fatores que as possam tornar mais conscientes do
mundo e da realidade que as cerca. O que se vê é um
constante apelo ao afetivo, multidões batendo palmas,
levantando-se, sentando, exclamando, gritando.
É após estes momentos poderosos de catarse e alívio
espiritual que se chega ao elemento material. Deus fez sua
parte, operando milagres e curas. Os fiéis devem fazer a
deles: pagar a conta.

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MARTIN BAUER
7. A POPULARIZAÇÃO DA CIÊNCIA
COMO “IMUNIZAÇÃO CULTURAL”:
A FUNÇÃO DE RESISTÊNCIA DAS
REPRESENTAÇÕES SOCIAIS

Martin Bauer
Neste trabalho eu me proponho discutir uma das
questões que deu origem à noção de Representações
Sociais: as RS são a produção cultural de uma comunidade,
que tem como um de seus objetivos resistir a conceitos,
conhecimentos e atividades que ameaçam destruir sua
identidade. A resistência é uma parte essencial da prag­
mática das Representações Socias. Sob esta luz, a resis­
tência é um fator criativo, que introduz e mantém hetero-
geneidade no mundo simbólico de contextos inter-grupais.
A função de resistência pressupõe uma segmentação so­
cial em diferentes subculturas, que mantêm sua autonomia
resistindo às inovações simbólicas que elas não produzi­
ram. Esta defesa toma a forma de re-(a)presentações. Essas
representações podem ser consideradas como a ação de
um "sistema imunológico" cultural: novas idéias são assi­
miladas às já existentes, que neutralizam a ameaça que
elas apresentam e tanto a nova idéia, como o sistema que
a hospeda, sofrem modificações nesse processo.

Uma breve revisão da resistência, enquanto elemento


constitutivo das RS, permite-me (a) situar parte de nosso
trabalho sobre a popularização da ciência no Museu de
Ciências de Londres, e (b) ir além disso, em uma tentativa
ambiciosa de orientar pesquisas futuras. A análise das
representações pertence a uma tradição que pesquisa a
popularização da ciência desde os anos 60. Sua fronteira
inovadora é o reconhecimento claro de que o conhecimen­
to se transforma quando circula para além de seu próprio
contexto de produção. Nesse processo de circulação, o
fator de resistência merece atenção renovada tanto teórica,
como empiricamente. A recente retomada de interesse em
noções populares de ciência e tecnologia nos países euro­
peus apresenta-nos a oportunidade de estudar os efeitos
da resistência cultural na análise dos meios de comunica­
ção, na pesquisa sobre opinião pública ou nos estudos de
caso. Uma questão ainda em aberto refere-se às dimensões
relevantes da segmentação cultural.

1. Recuperando a função de resistência: ponto de


referência

Barber (1961) e Kuhn (1962) discutiram o problema de


como novos conhecimentos sofrem resistência dentro de
um círculo fechado de especialistas. Geralmente o conhe­
cimento científico se organiza em torno de paradigmas,
que constituem o foco teórico e metodológico para a
maioria das pessoas envolvidas. Periodicamente, esses
paradigmas são questionados, tanto pelo acúmulo crescen­
te de evidência contrária, como por teorias que resistem
em ajustar-se a eles. Em conseqüência disso, o progresso
do conhecimento científico não é cumulativo; ele se mo­
vimenta através de erupções periódicas. A normalidade
temporária é quebrada por transformações nos pressupos­
tos e métodos básicos. Na ciência normal, a instituciona­
lização de paradigmas conduz ao mesmo tempo à crista­
lização de idéias e ao refinamento e precisão, de tal forma
que estes se tornam mais vulneráveis à anomalias; a rigidez
e a vulnerabilidade estão correlacionados. A resistência da
ciência normal se presta a duas funções aparentemente
paradoxais: (a) ela restringe internamente a atenção dos
cientistas para que estes não se desviem de seu trabalho,
e (b) ela presta atenção à crítica externa sobre os pontos
centrais do paradigma, apenas para questioná-lo de ma­
neira melhor e mais fundamental (Kuhn, 1962: 64).

Quando definimos as representações sociais, nós mui­


tas vezes nos referimos às suas conseqüências quanto à
cognição e à ação; isto é, referimo-nos às suas funções
simbólicas e pragmáticas (Cranach, 1992). A função sim­
bólica se refere ao fato de que em RS lidamos com imagens
variáveis da realidade, através das quais as pessoas esta­
belecem um sentido de ordem, transformam o não-familiar
em familiar através da ancoragem de novos conhecimentos
em antigos esquemas, criam uma estabilidade temporária
através da objetificação, e localizam a si próprios entre os
demais através de um senso de identidade social. Esta
conquista de ordem é problemática e periodicamente sofre
ameaças. A função pragmática das RS refere-se ao fato de
que nossas ações são motivadas, guiadas, planejadas e
justificadas em prejuízo de nossas estruturas simbólicas.
Nesse sentido, as RS se constituem tanto em percepção,
como em ação ou, para usar termos mais antigos, tanto em
estímulo como em resposta (Wagner, neste volume).
Para fins de investigação, nós procuramos enfocar o
elemento pragmático das representações sociais, e toma­
mos a capacidade de resistência como ponto de referência
para nossa análise. É minha opinião que esse modelo de
análise contém potencial suficiente para a análise dos
problemas atuais que envolvem a compreensão popular de
noções científicas. Estudos anteriores realizados na França
investigaram a compreensão popular do raio laser, a diver­
sidade das imagens corporais, as noções de saúde e
doença, a doença mental, a compreensão da inflação,
noções de peso e levitação fora do espaço, etc. (Barbichon
& Moscovici, 1965; Ackermann & Dulong, 1971; Barbi­
chon, 1973; Schiele & Jacobi, 1989).
Uma inovação evidente dessa tradição é que ela nos
leva a perceber que o objeto de difusão se transforma nesse
processo. A re-(a)presentação é tanto uma atividade, como
um resultado, que conduz a múltiplas identidades de um
mesmo objeto em contextos de pluralidade cultural. Se
quisermos reconhecer tal fato, é necessário que nos dis­
tanciemos temporariamente para observar os observadores
e suas ações. Isso contradiz uma noção de difusão que vê
o objeto de difusão como constante e impõe homogenei­
dade à tarefa de incentivar tal difusão. A transição do
conhecimento proveniente de um círculo científico restrito
de especialistas para territórios públicos mais amplos é,
muitas vezes, a mesma transição entre o pensar com
conceitos para o pensar com imagens e mitos (Moscovici,
1992).

O estudo original de Moscovici sobre psicanálise na


França, realizado durante a década de 50, oferece-nos uma
compreensão exata da resistência e de seus efeitos nesse
processo. O grau de resistência às idéias da psicanálise em
uma comunidade cultural é o fator distintivo que produz
uma heterogeneidade de imagens. As representações so­
ciais da psicanálise são instrumentos para defender a
integridade da comunidade contra idéias ameaçadoras.
Lemos ali que
“...as RS emergem onde existe perigo para a identidade
coletiva; quando a comunicação subestima as regras que
um grupo social se colocou" (Moscovici, 1976: 171).

O estudo desenvolve-se distinguindo três segmentos


culturais da sociedade francesa dos anos 50, os processos
de comunicação que lhes eram característicos e seu con­
teúdo estrutural. A Tabela 1 compara a difusão, a propa­
gação e a propaganda, e processos característicos, de
acordo com diversos critérios para a cultura urbano-liberal,
a cultura do meio católico e a cultura ligada aos comunis­
tas: como é apresentada a ordem entre conceitos e idéias;
como são apresentados os vários temas da psicanálise;
qual a suposta relação entre a fonte e a audiência da
comunicação; quais as intenções e os componentes de
ação da comunicação; a estrutura da mensagem; os graus
de resistência; o grupo social; e o grau de identidade desse
grupo social. É uma característica desse enfoque associar
os processos de comunicação com a estrutura do conteú­
do. Sensales (1990) usa essas distinções a fim de estudar a
cobertura sobre computadores na imprensa italiana de
1976 a 1984.
Tabela 1: A Comunicação da psicanálise em função da resistência

Difusão Propagação Propaganda

ordem não-sistemática sistemática sistemática


multifacetada dicotômica

temas aleatório, definido definido e sempre


móvel, explícito reafirmado
implícito

relações entre distância instrutiva instrutiva


os participantes não-engajamento independente da independente da
transmissão audiência audiência
dirigida concessão à
pela audiência facção

intenção oportunidade mudança na intervenção


ação não significação imperativo à ação
necessária construção de incompatibilidade
norma conflitual
integrativa

estrutura da opinião atitude estereótipo


mensagem
(resultado)

resistência baixa média alta

grupo social urbano-liberal católico partido comunista

identidade difusa definida definida

Fonte: adaptado de Moscovici, 1976, 474 f.; e Sensales, 1990, 25 f.

O processo de difusão envolve um grupo social com


uma identidade difusa, que oferece fraca, ou nenhuma,
resistência à psicanálise. Os processos de comunicação
são controlados pela audiência, orientados para informar
sobre novas oportunidades; os temas são ordenados sem
sistematização, apresentados aleatoriamente e móveis. A
mensagem se apresenta em forma de opinião, sem nenhu­
ma implicação para ações específicas. Isso não surpreende,
pois as atividades psicanalíticas estão sociologicamente
inseridas nesse meio.

A propagação é a forma de comunicação do meio


católico, um grupo social bem definido, com um nível
médio de resistência à psicanálise. O processo de comuni­
cação é relativamente independente de sua audiência e se
pressupõe que seja educativo. Os temas são sistematica­
mente ordenados e bem definidos. A intenção é fazer
concessões e acomodar uma facção interna de pessoas que
têm afinidades com a psicanálise mas, ao mesmo tempo,
colocar limites que têm sua referência na tradição. O
processo mantém controle sobre o significado das novas
práticas e suas experiências correlatas através da formação
de atitudes. A propagação tenta uma assimilação parcial
e uma acomodação à psicanálise, ancorando-a em concei­
tos e práticas tradicionais.

A propaganda é o processo de comunicação do meio


comunista. Os temas são ordenados sistematicamente,
bem definidos em dicotomias de amigo/inimigo, a fim de
enfatizar incompatibilidade e conflito. A intenção é estri­
tamente educativa no que se refere à ação necessária
dentro do conflito social. A estrutura da mensagem é
estereotipada. Esse é o meio mais resistente à psicanálise.
A propaganda manifesta rejeição clara, ancorando a psica­
nálise a imagens do inimigo.

Essas associações entre a estrutura da mensagem,


processo de comunicação e a comunidade social indicam
diferentes efeitos de resistência. O objeto de difusão, a
psicanálise, adquire uma identidade múltipla: a do meio
urbano-liberal, a do meio católico e a do meio comunista.
O objeto de difusão se transforma durante o processo e se
multiplica. A resistência cultural das três comunidades
francesas para a aceitação da psicanálise como tal resulta
na proliferação de três imagens que, espera-se, retro-ali-
mentam o próprio movimento psicanalítico. O efeito da
resistência é a diversidade no domínio público, à medida
em que novas idéias são acomodadas de forma específica.
Em relação ao processo histórico, os efeitos da resistência
constituem-se em um processo de re-alimentação para o
contexto da produção de conhecimento.

2. As condições sociais das Representações Sociais

As RS são representações de alguma coisa sustentadas


por alguém. É essencial identificar o grupo que as veicula,
situar seu conteúdo simbólico no espaço e no tempo, e
relacioná-lo funcionalmente a um contexto intergrupal
específico. Uma representação particular pode, contudo,
mudar de grupo hospedeiro e vagar por entre grupos
sociais, assumindo vida própria.

Uma sociedade se estrutura de acordo com diferentes


clivagens. O estudo das representações da psicanálise
apóia-se no que os cientistas políticos chamam de segmen­
tação cultural. Aqui, a unidade de análise diferencia-se de
acordo com alguns critérios culturais "objetivos", tais como
religião, língua ou grupo étnico, como é de fato o caso em
certo número de países europeus. Na Holanda, essa seg­
mentação cultural é chamada de “Zuilen" (colunas); na
Bélgica e França "famille spirítuelle" (famílias espirituais);
na Áustria “Lagers" (territórios); na Alemanha "Weltans-
chauungen" (concepções de mundo); na Suíça, "ghettos"
(Lorwin, 1971; Altermatt, 1978).

A segmentação cultural tem as características de uma


estrutura social que se justapõe às divisões sócio-econô-
micas; os limites culturais podem se correlacionar, mas não
correspondem exatamente à estratificação sócio-econômi-
ca. Em uma hierarquia social esquematizada, a divisão
sócio-econômica seria indicada por uma linha horizontal,
enquanto que a distinção cultural é feita por linhas mais
ou menos verticais. Imagens como as de colunas, territó­
rios ou guetos referem-se a tais diferenciações verticais,
que se justapõem à divisão sócio-econômica; cada subcul-
tura pode recrutar sua própria elite dentro dela mesma, em
outras subculturas e nas suas bases; o processo total
resulta em um sistema em que elites representativas e suas
respectivas bases competem umas com as outras. As
disparidades econômicas não são irrelevantes, mas seu
poder é limitado na explicação da experiência e dos com­
portamentos das pessoas. Uma conseqüência dessas es-
tratificações sociais multidimensionais tem sido, tradicio­
nalmente, uma pluralidade de organizações sindicais ba­
seadas em diferenças culturais, nos países capitalistas
(Beyme, 1977). O pluralismo sindical é um indicador para
localizar os países que são adequados a estudos históricos
sobre RS.

Para a França dos anos 50, Moscovici estabeleceu o


meio liberal urbano, o meio católico e a subcultura do
partido comunista como relevantes em relação à psicaná­
lise. Na Suíça, poder-se-iam distinguir três meios culturais
com importância constante para as culturas políticas até o
século 20: o liberal-protestante, o católico e o socialista
(Altermatt, 1978). Igualmente na Holanda, a segmentação
de diferenciações religiosas como a liberal-reformada, a
calvinista-ortodoxa, a católica e a socialista, mostrou-se
relevante no que se relaciona a reações simbólicas a novas
tecnologias (Van Lente, 1992). Na Bélgica a divisão lingüís­
tica entre comunidades de fala flamenga e francesa atra­
vessa dimensões político-partidárias.

Uma representação simbólica de um tema científico


expressa a relação entre esses meios e as relações desse
meio com respeito à fonte de onde provém esse conheci­
mento. O conhecimento que provém de um desses meios
será aceito com mais ou menos reservas pelos outros
meios. Poder-se-ia dizer que o estudo de Moscovici revela
a importância da disparidade cultural na França dos anos
50, mas que ele não situa a fonte, isto é, a psicanálise,
dentro dessa estrutura. A fonte do novo conhecimento se
situa, supostamente, fora. É mais provável que ela se situe
dentro do meio urbano-liberal, onde a distância social entre
a fonte e a audiência é pequena, e a comunicação toma a
forma de humor e informação sobre novas oportunidades;
para os outros meios, esse conhecimento implica uma
ameaça potencial, e por isso uma variedade de repre­
sentações emergem.

Essa visão dá origem a três questões para a pesquisa


sobre a popularização da ciência. Em primeiro lugar, estu­
dos comparativos sobre a maneira como a psicanálise foi
divulgada em países marcados por segmentação cultural
tais como a Holanda, Bélgica e Suíça, e países com
segmentação predominantemente econômica, tais como a
Inglaterra ou os Países Escandinavos, podem ser surpreen­
dentes. Em segundo lugar, temos um problema empírico
que é demonstrar se os meios culturais tradicionais ainda
são relevantes para as representações de temas científicos
e tecnológicos nos dias atuais - ou não. Em terceiro lugar,
velhas imposições culturais ainda podem produzir impor­
tantes efeitos em sociedades modernas. Estudos sobre
movimentos sociais e comportamento eleitoral indicam
que fatores econômicos, tais como a flutuação comercial e
a classe social, se tornam menos importantes na explicação
da mobilização na Europa do após-guerra, enquanto que
as diferenças culturais e de valor assumem mais importân­
cia (Inglehart, 1990; Touraine, 1995). No que se refere ao
estudo das representações sociais, tal fato nos deixa a
tarefa de identificar quais são as distinções significativas
para comparar representações de problemas científicos e
tecnológicos no espaço e no tempo. Sondagens podem
ajudar-nos a identificar aquelas variáveis culturais que
melhor explicam a variância social.

3. Implicações para o estudo da popularização da


ciência

3.1. O modelo dominante, mas irreal, de popularização

A pesquisa sobre a difusão do conhecimento técnico-


científico em ambientes especializados e em um público
mais amplo coloca-se na origem dos interesses pela “re­
presentação social" (Barbichon e Moscovici, 1965). A difu­
são interna discute a dinâmica de um novo conhecimento
dentro de círculos de especialistas de vários graus. A
difusão externa discute a circulação do conhecimento
especializado em um domínio público mais amplo. A fim
de incrementar a eficiência desses processos, os pesquisa­
dores identificam e tentam controlar os obstáculos que
encontram no caminho. Tais tentativas, muitas vezes,
deixam transparecer uma noção de despreparo atribuída
ao público, aos comunicadores, ou à comunidade científi­
ca. A resistência por parte do público é associada a hábitos,
rigidez, condicionamentos, falta de motivação para apren­
der, e limitações institucionais no trabalho ou na escola
(Barbichon, 1973).

Hilgartner (1990) denominou tais noções como a "visão


dominante da popularização” , que serve, com certa flexi­
bilidade, para avançar os interesses das comunidades
científicas. A idéia de popularização pressupõe uma dis­
tinção entre "conhecimento científico genuíno" e sua “cir­
culação popular” ; a última varia em graus de distorção,
degradação e poluição conforme os padrões do "conheci­
mento científico” . O conhecimento científico genuíno, des­
de este ponto de vista, é santuário exclusivo de cientistas,
definido para e pela autoridade científica. Tal procedimen­
to constitui um discurso político flexível. Ele fornece um
vocabulário para demarcar o que é ciência e o que não é,
e orienta a distribuição de prestígio, verbas e status numa
única direção (distribuição de recursos). A noção de co­
nhecimento poluído implica a idéia de contaminação por
fontes externas, tais como “ideologia” , "religião” ou in­
fluências semelhantes (demarcação); a idéia de contami­
nação implica “pureza" e estabelece uma hierarquia entre
as atividades do próprio grupo e as de grupos externos.
Esses mecanismos asseguram à autoridade científica o
direito de decidir sobre simplificações adequadas ou im­
próprias a fim de controlar sua própria imagem (controle
da imagem). Tem-se a impressão que se um traço particu­
lar da popularização favorece a causa do(a) cientista, ele é
"adequado"; se não favorecer o ponto de vista dele, ou
dela, ele é inadequado. As duas distinções, popularização
genuína ou vulgarizada e adequada ou distorcida, são
instrumentos discursivos para preservar autonomias e pri­
vilégios, quando em concorrência com outros grupos pro­
fissionais e sistemas de comunicação.
Esse modelo dominante de popularização está ligado
a um interesse dominante de comunicação, que foi muito
bem sintetizado por Doman:
“ o projeto de com unicação da ciência, ao menos nos Estados
Unidos, esteve indissoluvelmente aliado aos esforços das
organizações científicas para fabricar uma cobertura dócil e
para criar um público que irá aceitar a proposta científica de
uma autoridade racional” (Doman, 1990:64)

O interesse dominante segue o modelo de alta fideli­


dade (hi-fi model): a transmissão de uma mensagem é
controlada através da supressão do nível de ruído no canal,
e preserva com o máximo de qualidade o sinal original da
autoridade científica. A pesquisa, dentro desse enfoque,
mede o volume de cobertura científica através de análises
de conteúdo, investiga as características dos produtores
(organizações da mídia, jornalistas, e cientistas “visíveis")
e de audiências através de sondagens sociais, e avalia a
exatidão da cobertura com análises de conteúdo normati­
vas. Tudo isso é feito para reiterar periodicamente as
queixas estereotipadas sobre coberturas deficientes e in­
terpretações distorcidas da ciência por parte dos meios de
comunicação, especialmente no que se refere ao sensacio-
nalismo e à falta de exatidão (Cronholm e Sandell, 1981).
O esforço é crítico num sentido pragmático; ele se refere,
porém, à autoridade científica e o esforço de comunicação
é subserviente àqueles interesses científicos que compe­
tem com outros interesses sociais. Os pressupostos sobre
a audiência, na maior parte das vezes, seguem o modelo
de "despreparo": a comunidade científica se defronta com
um público ignorante, que é alheio à ciência no que
concerne a decisões políticas sobre seu próprio futuro.
Para um observador, contudo, não fica claro onde
traçar a linha divisória entre idéias e conhecimento "popu­
lar'' e idéias e conhecimento “genuíno” . A análise das
práticas comunicativas demonstra que todas as formas de
escrita e comunicação são gêneros estilizados, adequadas
a certas audiências e propósitos, em contextos que vão de
relatórios de experiências feitas em laboratório, revistas,
conferências, livros-texto, artigos de jornal, até livros po­
pulares, etc. (Whitley, 1985). Seria uma atitude mais realista
pressupor um continuum de contextos comunicativos den­
tro dos pólos ciência pura e circulação popular. Hilgartner
(1990: 528) chamou esses pólos de contextos de comuni­
cação que tem “fluxo ascendente", quando crescem em
cientificidade, e "fluxo descendente” , quando crescem em
popularização. Este continuum permite tanto a transforma­
ção de tópicos que pertencem ao senso comum em tópicos
científicos (fluxo ascendente), como a transformação do
conhecimento científico em senso comum (fluxo descen­
dente). A difusão de idéias na direção descendente cons­
titui uma forma de "popularização"; a difusão em direção
ascendente constitui uma forma de “cientificização” . Para
fins de pesquisa, as idéias ou tópicos podem ser observa­
dos através de vários canais. Uma idéia específica pode ser
primeiramente formulada como um projeto de financia­
mento para um comitê misto (ponto de entrada); uma vez
obtido o financiamento, a pesquisa prossegue na linha de
se produzir resultados escritos, de uma forma especializada
e formalizada (fluxo ascendente). A partir daí, as idéias
circulam em várias apresentações em conferências, publi­
cação em jornais, livros-texto para os jornais ou televisão
(fluxo descendente). Canais ascendentes parecem instigar
o pensamento teórico; os canais descendentes parecem
estimular o pensamento mitológico e a formação de ima­
gens. No que se refere à pesquisa, este continuum apre­
senta uma classificação ordinal de contextos de comuni­
cação por graus de popularização. Permanece a idéia de
uma demarcação entre conhecimento genuíno e popular,
porém mais como um continuum, do que como uma
dicotomia.
3.2. Resistência e canais de comunicação

Que importância tem a idéia de "representação social"


em tudo isso? A relação é dupla. Em primeiro lugar, na
origem mesma da idéia de representações sociais está a
difusão do conhecimento e um projeto de comunicação da
ciência, ainda que apenas no contexto francófono dos anos
60 (Barbichon & Moscovici, 1965; Ackermann & Dulong,
1971; Schiele 8c Jacobi, 1989). Podemos assim reconhecer
uma afinidade que tem sua base em uma origem comum.
Em segundo lugar, a idéia de RS desenvolve uma noção da
ciência popularizada para além da simples concepção de
"despreparo". Quatro pontos merecem ser destacados:
(a) As representações sociais têm um caráter de signo
referencial duplo: elas re-presentam algo diferente e são
usadas por alguma comunidade. Uma representação tem
um conteúdo estrutural. Nós aqui estamos interessados
nas associações distintivas entre usuários particulares e
conteúdos estruturais específicos.
(b) A análise é funcional: com a ajuda das RS nós nos
orientamos no mundo e sabemos o que fazer; elas são
recursos de que dispomos. Entretanto, ao influenciar o
modo como pensamos e aquilo que fazemos, elas tornam-
se também nossos limites. Como recursos e como limita­
ções, elas estruturam a cognição e o comportamento
(Thommen et al.,1992). Essa função tem, como ponto de
referência, o sistema que representa. Sob este enfoque,
parece inadequado ver a representação como deficiente;
ela age do jeito que age.
(c) Para fins de pesquisa, nós dirigimos nossa atenção
para duas formas básicas de codificação: a ancoragem,
com a ajuda de metáforas, e a objetificação, com imagens
e ícones. Em nossa pesquisa, portanto, identificamos ân­
coras e imagens, e as classificamos em relação a grupos
sociais.
(d) Para isso, não nos confinamos a um cânone meto­
dológico: análise de conteúdo, sondagens, observação,
sejam eles de tipo qualitativo ou quantitativo, são igual­
mente úteis para identificar âncoras e imagens, sua preva­
lência, e sua associação com grupos sociais (Farr, 1993).

Operacionalmente falando, a pesquisa da repre­


sentação social é uma relação entre quatro conjuntos de
variáveis. A o caracterizar um "objeto" como a psicanálise,
o raio laser, o peso, o dinheiro, a inflação, a AIDS, o corpo
ou o genoma humano nós analisamos a estrutura do
conteúdo, associamos esses tópicos aos seus usuários,
construímos hipóteses sobre suas funções, e para fazer
tudo isso nós empregamos certos métodos de investigação:
RS (método [conteúdo, usuário, função])
O pressuposto da funcionalidade nos força a observar
com mais cuidado como diferentes representações do
“mesmo” objeto se relacionam com as atividades do grupo
e com sua segmentação cultural. Possibilitar a um grupo
social resistir a investidas hegemônicas é uma função
interna das representações sociais e sinalizar a necessida­
de de mudanças para o grupo inovador é uma função
externa. Pode até acontecer que a persistência do modelo
dominante de popularização - apesar de sua evidente
irrealidade e crítica que se seguiu nos últimos 30 anos -
seja ela própria uma visão mítica da comunicação, que tem
necessidade de ser entendida em termos de resistência e
autonomia, numa relação ciência-ciência.
Ao enfatizar que a resistência tem um papel a desem­
penhar no desenvolvimento das representações sociais,
outra distinção toma-se importante. No modelo de “alta
fidelidade", a resistência é um ruído no processo comuni­
cativo; ela distorce e impede que a mensagem seja comu­
nicada adequadamente. O desvio entre a intenção da fonte
e o efeito sobre a audiência é pensado como sendo ou
resistência da audiência, ou incompetência do emissor. A
resistência da audiência é algo que deve ser superado
eficientemente, através do manejo competente de mensa­
gens e contextos; ela implica uma noção de despreparo,
tanto da parte do emissor, como do receptor.
Esta noção de resistência como despreparo difere da
que discutimos aqui. Para nós a resistência se constitui em
uma qualidade do canal de comunicação, isto é, um
atributo da relação entre fonte e audiência; mas ela é,
também, uma forma de criatividade que introduz e garante
a diversidade do sistema a médio e longo prazo. Para fins
de descrição, nós atribuímos resistência à audiência, mas
bloqueamos a implicação pragmática; em vez de tomar
uma posição partidária e procurar reduzir a resistência, nós
nos limitamos, ao menos temporariamente, a observar os
observadores em uma atitude mais descompromissada,
que nos permite prazer e estimula a diversidade.

Isso acarreta implicações evidentes para o estudo da


popularização da ciência. A teoria de Hilgartner implica
uma classificação dos canais dos meios de comunicação
por graus de popularização. Eu sugiro que acrescentemos
uma segunda dimensão, também ordinal: resistência a um
tipo específico de conhecimento. Folhetos especiais, jor­
nais, estações de rádio, canais de televisão, revistas, con­
textos de entrevistas, locais de observação, são assim
também classificados de acordo com o grau de resistência
a um conhecimento novo. Para isso, é necessário distinguir
padrões de consumo dos meios de comunicação de massa
e associá-los a grupos sociais de modo a formar conjuntos
culturais. Contudo, não seria realista satisfazermo-nos com
esse esquema de pesquisa bidimensional. Os sistemas de
comunicação são sistemas de ação no tempo. De maneira
ideal, portanto, nós representamos esses sistemas simul­
taneamente, pelas suas ações mais ou menos populares, e
mais ou menos resistentes à fonte de conhecimento. Esta
atividade é descrita tanto por um indicador quantitativo da
cobertura total, como por uma análise qualitativa desta
cobertura. Com isso nós atingimos um quinto procedimen­
to operacional no estudo da representação social.

(e) Para propósitos de pesquisa, nós classificamos


vários canais de comunicação de acordo com as duas
dimensões de popularização e resistência do ponto de vista
da fonte, e analisamos o conteúdo (ancoragem e figuração)
nesses diversos canais, ao longo do tempo.

3.3. A diferenciação da comunicação através da resistência

Através do agrupamento de conteúdos, de leitores e


canais de popularização e resistência nós chegamos a um
modelo tridimensional de comunicação da ciência, que
tanto possui um nível de complexidade que nos parece
mais realista, como possibilita uma abertura para a diver­
sidade. Em se tratando dos dados, poderíamos descrever
tal sistema através de diversos grupos de diagramas que
mostram a intensidade da cobertura de certo tópico em
cada canal ao longo do tempo. Cada grupo de diagramas
é complementado com uma descrição dos elementos sim­
bólicos usados, que vão mudando no processo. As carac­
terísticas de uma representação podem passar de um canal
a outro. Os canais são autônomos na maneira como pro­
cessam a informação, mas criam uma dependência mútua
como resultado de seus atritos. Talvez tome-se óbvio aqui
que essa perspectiva é mais um projeto ambicioso, do que
algo que possa ser realizado através de um único estudo.
Na ciência da comunicação, a atividade de múltiplos
canais tem sido foco de vários estudos. O tempo relativo
da atividade pode ser um indicador da função dos canais.
O modelo dominante de comunicação da ciência nutre
expectativas que a função de definir a pauta de prioridades
provenha do canal especialista: quando se trata de deter­
minados assuntos, a comunicação aparece primeiro no
canal especializado, e somente num estágio posterior ela
será tomada em consideração por canais populares, tais
como jornais ou-televisão. Strodthoff, Hawkins & Schoen-
feld (1985) mostraram que foi isso que aconteceu com a
informação ambiental nos Estados Unidos entre 1959 e
1979: a grande mídia reage à agenda da mídia especializada.

Em outros casos a história é diferente. Lewenstein


(1995) mostra como a "saga da fusão a frio” começou com
uma conferência à imprensa na Universidade de Utah, dali
passou para a televisão e jornais, para tornar-se um tópico
na comunicação científica especializada apenas em um
estágio posterior. Esse padrão de comunicação é chamado
de "ciência por conferências à imprensa", e viola uma
norma implícita da atividade científica: as teorias científi­
cas devem ser validadas dentro dos círculos especializa­
dos, antes de chegarem até ao público.

Eu mesmo discuti um caso similar de definição de


agenda por parte do público (Bauer, 1994) relacionado à
“ciberfobia” . Construída como uma ansiedade patológica
a computadores, tanto no trabalho, como na escola e em
casa, a ciberfobia foi assunto da mídia popular no início da
década de 80, antes de tornar-se um fenômeno clínico de
pesquisa depois de 1985, e isso principalmente nos Estados
Unidos. Em uma veia semelhante, Gregory (1994), ao
discutir cientistas britânicos não ortodoxos, mostra como
uma idéia transmitida primeiramente através de ficção
científica pode tornar-se uma preocupação para especia­
listas muitos anos depois.

Gamson & Modigliani (1989) definiram uma amostra


da cobertura dada por notícias de televisão, revistas, edi­
toriais e charges a acontecimentos relacionados ao poder
nuclear, entre 1945 e 1980 nos Estados Unidos. Para cada
canal eles delimitaram a freqüência relativa de um número
restrito de controvérsias e metáforas centrais que eles
chamaram de "pacotes significativos", tais como "o pro­
gresso", "solução amigável” ou "negociação com o diabo".
O debate público dos Estados Unidos sobre energia nuclear
é caracterizado pela relativa preponderância desses “paco­
tes” num determinado período.

Em um estudo histórico Weart (1988) analisa a mudan­


ça das imagens relacionadas ao "átomo" em jornais norte-
americanos de 1905 até os dias de hoje. Em termos
quantitativos, ele demonstra que a intensidade dos tópicos
referentes ao átomo chega ao cume em 1945/46,1955,1963
e 1979, e a conotação geral se toma crescentemente
negativa depois de 1975. Qualitativamente falando, ele
mostra uma sucessão de imagens do “átomo" e seus
poderes: de “elixir" e "veneno” nos anos 20, passando pela
“autonomia nacional” , pela "paz e sobrevivência” nos anos
40 e 50, até “poluição” , "escolha" e "guerra” nos anos 70.
O estudo mostra a ida e vinda de imagens e os agentes
sociais a elas relacionados, dentro do sistema de comuni­
cação de uma única nação.

Em um outro projeto que desenvolvemos atualmente


no Museu de Ciência em Londres, nós estamos analisando
uma larga amostra de jornais britânicos entre 1946 e 1985,
para caracterizar a forma como se deu a cobertura científica
e tecnológica na Inglaterra do período do após-guerra
(Bauer, 1994). Alguns milhares de artigos de jornal foram
codificados em 59 variáveis que cobrem aspectos formais,
como tipo de jornal, secção do jornal onde está a notícia,
tamanho, o tom geral do artigo, citações, ilustrações, e
elementos narrativos, tais como autor, acontecimento,
localidade, horizonte de tempo, efeitos, moral da história.
Os resultados indicam as flutuações da cultura científica e
tecnológica na Inglaterra e nos permitem agrupar assuntos,
autores e jornais para caracterizar a atividade e o conteúdo
dos vários canais no espaço de 40 anos. Eles também nos
possibilitam avaliar transformações nas imagens mobiliza­
das por assuntos científicos e tecnológicos, em diferentes
canais, nesse período.

Jacobi & Schiele (1993) enfatizam a simultaneidade de


vários níveis de compreensão em um único artigo de
revista; existem várias leituras e várias audiências possí­
veis implicadas em um só artigo. Sua análise revela a
complexidade das mensagens de popularização. A multi­
plicação de significados ocorre em vários canais paralelos,
através da organização das imagens e metáforas. Todos
esses exemplos podem demonstrar como o padrão de
atividade em um sistema de canais paralelos é uma ques­
tão empírica quantitativa - quanto à cobertura ao longo do
tempo - e qualitativa - pelas características mutáveis de
seu conteúdo.
3.4. A diversidade simbólica do conteúdo

Caracterizar a atividade ao longo do tempo é apenas


parte da história. Em última instância, o que nós preten­
demos é caracterizar variedade cultural em um sistema de
comunicação. Com a classificação bidimensional dos
meios de comunicação por graus de popularização e resis­
tência à fonte, nós temos uma heurística à mão. Um
simples exemplo pode mostrar como isso funciona. Na
Figura 1, nós assumimos um padrão de 12 canais; distin-
guimos dois níveis especializados (a e b) e dois níveis
populares (c e d); distinguimos, em seguida, três “culturas"
(I,II,III), das quais “I” é a menos resistente e "111” é a mais
resistente a uma idéia específica. Uma análise de conteúdo
dessas 12 atividades irá revelar padrões de ancoragem e
metáforas ligados às três culturas, que diferem de acordo
com seu grau de resistência.
FIGURA 1: MÍDIA CIENTÍFICA CLASSIFICADA POR
RESISTÊNCIA E POPULARIZAÇÃO

Níveis de Resistência

Grau de I (baixo) n ffl (alto)


Popularização

Científico Médio 1 2 3
(baixo)

Elite Médio 4 5 6

Popular Médio 7 8 9
(alto)

Uma estrutura hipotética de um sistema de comunicação com duas


dimensões: resistência e popularização. Horizontalmente os canais de
comunicação são classificados de acordo com o seu grau de resistência
para com a fonte da informação, e verticalmente os canais são classifi­
cados de acordo com o grau de popularização, segundo o conceito de
Hilgartner de continuum de popularização. Os números 1 a 9 repre­
sentam canais específicos de comunicação (revistas científicas, jornais,
revistas, programas de televisão). As colunas verticais são diferentes
representações sociais variando em forma e conteúdo.
Em 1950, era possível distinguir três meios culturais
com diferentes representações da psicanálise na França.
Hoje, precisamos identificar novamente quais as divisões
culturais relevantes. O meio católico se desintegrou, na
maioria dos países europeus, depois do processo de aber­
tura da Igreja e o mesmo aconteceu com o meio ligado ao
partido comunista, muito antes da queda do muro que
separava a Europa Oriental da Ocidental. A crise e declínio
dos movimentos políticos ligados a esses movimentos na
França, Itália, Espanha e outros países europeus mostra
essas mudanças subjacentes. Dada essa situação, os estu­
dos sobre a popularização da ciência necessitam questio­
nar o que se constitui como diferencial nas representações
de um tópico científico particular. Novos movimentos
sociais, tais como o movimento antinuclear, pela paz, de
libertação das mulheres e outros, podem ser candidatos
para caracterizar uma segmentação cultural. Parece, con­
tudo, que esses movimentos sociais têm um período de
vida muito curto, para sedimentar uma cultura coerente.
Devemos, por isso, recorrer a dados estatísticos para iden­
tificar alguma associação estável entre as representações
de um tópico e um grupo social definido (Doise et al., 1992).
Ainda estamos longe de ter claro que tipo de clivagens
culturais estão emergindo. O critério último seria encontrar
alguma característica "objetiva", como língua, religião,
região geográfica, renda, ou educação, que seja significan-
te para as representações. Cientistas sociais depositam
suas esperanças na identificação de padrões de valor ou
padrões de consumo como formas emergentes de segmentação.
Em um de nossos estudos sobre representações da
hereditariedade humana, nós analisamos a cobertura de
jornais sobre o Projeto Genoma, entre 1988 e 1992, e
conduzimos 12 grupos focais - a maior parte na Grande
Londres - sobre assuntos relacionados à genética (Durant
et al., no prelo). O Projeto Genoma é um enorme projeto
científico, cujo objetivo é mapear completamente a base
genética da espécie humana. Naturalmente, isso dá origem
a questões morais, legais e comerciais.
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Nós classificamos, então, a ancoragem e as metáforas
utilizadas na cobertura dada pela imprensa e nas conver­
sações dos grupos. A representação social das atividades
de pesquisa genética na Inglaterra podem ser caracteriza­
das em três dimensões: o Projeto Genoma, ainda que
bastante desconhecido, eventualmente emerge na rede de
associações. Os tópicos mencionados se agrupam ao longo
de problemas como manipulação e identificação, promessa
e preocupações, e controle social/falta de controle. A
Figura 2 mostra as duas primeiras dimensões e a terceira
deve ser imaginada ortogonalmente às outras duas. Esta
estrutura fornece uma base para se localizar grupos sociais
e meios de comunicação particulares, bem como para que
possamos mapear situações mutáveis ao longo do tempo.
A terceira dimensão, ‘controle/falta de controle', necessita
ser pensada como se estivesse atravessando uma estrutura
tri-dimensional. Até agora, não identificamos um padrão
claro de segmentação que seja significativo para as repre­
sentações, mas nossa análise ainda não está completa.

Em outro estudo, nos propusemos a analisar o conceito


popular de atividade científica em 11 países europeus e nos
Estados Unidos. A unidade de segmentação foram os
diferentes países. Codificamos no total 13.000 respostas
que representavam respostas das diferentes populações à
pergunta aberta: "Por favor, diga-me, com suas próprias
palavras, o que significa estudar algo cientificamente?"
(Bauer et al., 1992; Bauer e Schoon, 1993). As respostas
incluíram referências a processos científicos (experimen­
tos, estudo em profundidade, testagem de teorias), referên­
cias a instituições (pelo nome, em termos de papéis, ou
como empreendimento societário e normativo), referências
a conseqüências (pessoais, locais ou de âmbito universal)
e exemplos (ciências da vida, ciências físicas, ciências
sociais, etc.).
Tabela 2: Classificando os países pela resposta mais freqüente em
cada dimensão

País Processo Instituição Efeito Exemplo

França Teoria/ Societária Humanidade Vida


Profundidade

Portugal Profundidade Geral Humanidade Técnica/outro

Holanda Profundidade Societária Pessoal Vida

Luxemburgo Profundidade Geral Pessoal Vida

Grécia Profundidade Geral Pessoal Física/outro

Itália Experimento/ Nome Humanidade Física/outro


Profundidade

Estados Teoria/Expe­ Geral Humanidade Social


Unidos rimento

Alemanha Experimento Nome Local Social

Manda Experimento Nome Local Vida

Grã-Bretanha Experimento Nome Local Física

Irlanda do Experimento Nome Humanidade/ Técnica/outro


Norte Local

Espanha Experimento Geral Humanidade Física/outro

Esta tabela mostra a classificação em quatro dimensões de análise. A


classificação está baseada na resposta mais freqüente por pais e por
dimensão. O realce de uma classificação indica posições extremas na
análise de correspondência. Tais países são identificados como protóti­
pos para uma classificação. A análise está baseada em 12 conjuntos de
dados, excluindo-se os dados dos Estados Unidos, 1990.

A Tabela 2 mostra os resultados principais, tomando-


se as respostas mais freqüentes para cada país. Não há
uma única linha a separar os 12 países na nossa compara­
ção. Em cada dimensão os países se agrupam de modo
diferente. Podemos perceber que os países latinos (França,
Itália, Espanha e Portugal) partilham uma noção de ciência
como contribuindo para o progresso da humanidade como
um todo. Tal fato pode ser expressão de um sentimento
positivista que persiste nesses países. O elo céltico-anglo-
saxão entre Inglaterra, Estados Unidos, Irlanda e Irlanda do
Norte se faz quando os respondentes identificam "ser
científico" com o método experimental, ou com uma ins­
tituição particular que eles referem estar estudando algo
cientificamente. Essas associações, contudo, são frágeis;
até o presente ainda não conseguimos encontrar um pa­
drão claro de segmentação entre países europeus e os
Estados Unidos, muito embora nosso esforço continue.

4. Algumas conclusões

Neste ensaio eu procurei re-enfatizar as funções prag­


máticas das representações sociais, que possibilitam a uma
comunidade social resistir à influência hegemônica de
outra. As representações sociais funcionam como um
"sistema cultural imunizante” em um contexto intergrupal:
inovações simbólicas são ativamente neutralizadas através
de sua ancoragem em formações tradicionais. Do lugar de
observação dos observadores, a resistência é um fator de
criatividade e diversidade, que multiplica as imagens de
um objeto à medida em que ele se difunde em vários
contextos. O estudo original da psicanálise mostra clara­
mente como subculturas francesas de meio urbano-liberal,
de meio católico e de meio ligado ao partido comunista,
acomodaram a psicanálise através de diferentes estratégias
e obtiveram resultados diferentes em função do seu grau
de resistência. A pouca resistência apresentada pelo meio
urbano-liberal expressa o fato de que a psicanálise se
localiza sociologicamente nesse meio.

Os estudos das representações sociais contrapõem-se


ao modelo de comunicação da ciência de "alta fidelidade” ,
porque reconhecem que o objeto em difusão muda ao longo
do processo. Por isso as diferenças entre as intenções da
fonte e os efeitos da audiência em processos comunicativos
são culturalmente significativas e não simplesmente indi­
cadoras de um manejo deficiente da comunicação. A
resistência da audiência não é algo que deva ser superado,
mas um fator de criatividade e diversidade a ser consi­
derado.
A partir daí podemos extrair algumas conclusões para
o estudo de noções populares de ciência e tecnologia. Os
estudos das representações sociais se fundamentam em
segmentações culturais dentro de uma unidade de análise,
seja ela uma instituição, uma sociedade, ou qualquer uni­
dade mais ampla. Combinando a idéia de popularização de
Hilgartner e o pressuposto de resistência cultural, o que eu
apresentei aqui foi uma proposta a estudar a popularização
da ciência através de uma classificação bidimensional de
atividades comunicativas: pelo grau de popularização e
pelo grau de resistência. Tais atividades são conjuntos de
discussões públicas e atividades de meios de comunicação
em uma dimensão temporal. Em momento algum tais
conjuntos são associados a um grupo social. O conteúdo
simbólico é analisado quantitativamente quanto à intensi­
dade flutuante da cobertura, e qualitativamente, quanto
aos padrões de mudança do seu conteúdo. Uma dificulda­
de, ainda presente em vários estudos empíricos, é definir
qual a clivagem cultural relevante que seja significativa
para distinguir representações sobre uma questão científi­
ca ou técnica. Sondagens podem nos oferecer uma heurís­
tica importante nesses casos.
É pouco provável que as segmentações culturais pre­
sentes no estudo sobre a psicanálise ainda hoje se mante­
nham relevantes; cientistas sociais, entretanto, prevêem
um crescente significado para as estratificações culturais,
em contraste com estratificações econômicas, nas socie­
dades ocidentais. Aqui se abre um caminho considerável
para estudos das representações simbólicas de inovações
científicas e tecnológicas, tais como tecnologias da infor­
mação, novas biotecnologias e genética.
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GERARD DUVEEN émi


8. CRIANÇAS ENQUANTO ATORES
SOCIAIS: AS REPRESENTAÇÕES
SOCIAIS EM DESENVOLVIMENTO

Gerard Duveen

1. Dois Caminhos na Construção do


Conhecimento Social

Enquanto empreendimento teórico, as representações


sociais têm sido situadas dentro do âmbito da p s ic o l o g ia
s o c i a l e, de fato, fica claro, nos próprios escritos de Mos-

covici, que ele elabora sua contribuição como uma tenta­


tiva de recuperar e enriquecer aquelas tradições em p s ic o ­
l o g i a s o c ia l que foram eclipsadas pelas conseqüências

nefastas (especialmente nos Estados Unidos) do individua­


lismo teórico, associado ao behaviorismo. Não é de se
estranhar, portanto, que a maioria das discussões em torno
das representações sociais têm considerado a teoria como
uma contribuição à p s ic o l o g ia s o c ia l e, mais particular­
mente, à p s ic o l o g i a s o c ia l do mundo adulto, onde a
preocupação com o desenvolvimento da criança, enquanto
ator social, mereceu um interesse apenas marginal. Entre­
tanto, existem razões suficientes para insistir em que essas
preocupações tenham um papel mais central. Se exami­
narmos os processos através dos quais a criança incorpora
as estruturas do pensamento de sua comunidade e adquire
assim um lugar como participante competente e funcional
nessa comunidade, eles nos apresentam um campo de
investigação que pode ser fonte de questões produtivas e
contribuições construtivas para a própria t e o r i a d a s r e ­
presentaçõ es s o c i a i s . Da mesma forma, interesse na
influência da "sociedade pensante” , na qual a criança se
desenvolve, pode ser fonte de uma série de desafios que
teorias do desenvolvimento precisam enfrentar. Se vale a
pena insistir em uma colaboração mais próxima entre essas
duas tradições, é porque elas estão dirigidas, fundamen­
talmente, às mesmas questões. Como o próprio Moscovici
destacou, elas têm “um ponto de partida comum e são
animadas por pressupostos subjacentes próximos. Suas
tradições e métodos diferenciados permitem a manifesta­
ção de similaridade profunda e seu entrelaçamento. É
como se a p s ic o l o g ia s o c i a l e a Psicologia do Desenvol­
vimento estivessem preocupadas com a mesma coisa, a
primeira no espaço e a última no tempo, a primeira na
dimensão externa, a segunda na dimensão interna" (1990,
p. 169). Se o problema para os desenvolvimentistas é,
então, compreender como a criança se desenvolve enquan­
to ator social, os psicólogos sociais muitas vezes também
esquecem, e em detrimento próprio, que todo ator social
tem uma história de desenvolvimento, cuja influência não
pode ser ignorada.
Na verdade, se as designações “social" e "desenvolvi­
mento" passaram a significar categorias distintas em Psi­
cologia, para a epistemologia construtivista essa é uma
distinção que necessariamente sucumbe. Tanto Moscovici
como Piaget compartilham uma mesma postura epistemo-
lógica. O mundo, tal como nós o conhecemos, é o mundo
que nós construímos através de nossas operações psicoló­
gicas. Piaget, como se sabe, elaborou e defendeu sua
posição construtivista - ou genética - tanto contra posições
de a príorísmo como de empiricismo. O conhecimento não
é nem um produto de características inerentes à mente
humana, nem simplesmente um reflexo de influências do
meio ambiente. Ao contrário, para Piaget, o conhecimento
se desenvolve através das interações da criança com o
meio ambiente, ao longo das quais ela chega a coordenar
suas próprias ações e, a partir daí, a abstrair operações mais
gerais. De modo similar, Moscovici (1972) elaborou e de­
fendeu o que ele considera uma p s ic o l o g i a s o c i a l siste­
mática contra aquelas posições, nas teorias da p s ic o l o g ia
s o c i a l , baseadas em epistemologias do tipo a príorí ou

empiricistas. Mais tarde, Moscovici (1976a) chegou a ca­


racterizar sua posição como exemplo de uma p s ic o l o g ia
s o c i a l genética, e o uso mesmo da palavra genética, tão

impregnada de sobre-tons piagetianos, deve servir como


um alerta para a harmonia existente entre esses dois
autores. E é exatamente nessa perspectiva genética co­
mum que a harmonia se faz ouvir mais claramente.
Um dos pressupostos centrais das teorias genéticas em
Psicologia é que, para que possamos compreender qual­
quer coisa, é necessário que possamos compreender os
processos através dos quais ela foi produzida, quer dizer,
é necessário apreender o desenvolvimento de sua constru­
ção. Esse pressuposto foi mais claramente elaborado nos
textos clássicos de Piaget e Vigotsky, mas também tem-se
feito evidente na t e o r i a d a s r e p r e s e n t a ç õ e s s o c i a i s . Se
nós quisermos entender as representações sociais, preci­
samos entender os processos através dos quais elas são
produzidas e transformadas. Para Moscovici isso significa
não somente os processos de ancoragem e objetivação,
mas também, como Doise (1993) recentemente nos lem­
brou, os processos de propagação, propaganda e difusão.
Nos seus comentários sobre uma série de estudos desen-
volvimentistas em representações sociais, Moscovici
(1990) sugeriu que existem duas abordagens para analisar
os processos através dos quais as representações sociais
são construídas. O primeiro, que ele sugere ser o mais
típico em p s ic o l o g i a s o c i a l , é descrito como o modo de
Bartlett, já que propõe a análise da construção e recons­
trução das representações sociais enquanto elas passam
de um grupo social a outro. A segunda abordagem, ele
caracteriza como o modo de Vigotsky (e ele observa que
este é também o modo de Piaget, mas, como veremos mais
adiante, ainda que eles compartilhem algumas caracterís­
ticas comuns, o modo de Piaget nem sempre é o mesmo
que o modo de Vigotsky), e nela se busca entender as
representações analisando suas transformações sucessivas
através de diferentes estágios na infância e na adolescência.
Ainda que Moscovici sugira que estes são dois modos
de atingir os mesmos fins, existem diferenças entre o modo
de Bartlett e o modo de Vigotsky. O modo de Bartlett
conduziu a investigações dos processos através dos quais
as representações são organizadas e os meios através dos
quais elas são comunicadas em sociedade (Moscovici,
1976b) e, dentro deste parâmetro geral, reflexões posterio­
res sobre as próprias representações conduziram aos estu­
dos das estruturas psicossociais dos grupos que produzem
as representações (por exemplo, Jodelet, 1991). Algumas
preocupações similares podem ser observadas nos estudos
que seguiram o modo de Vigotsky (ainda que nada possa
ser comparado, neste segundo caso, à riqueza da análise
que Jodelet realizou da p s ic o l o g i a s o c i a l subjacente aos
seus “vileiros franceses", lutando para elaborar a presença
do louco na sua vida cotidiana), embora o foco central,
nesses estudos, tenha sido a emergência da criança como
ator social. Na maior parte dos casos o modo de Vigotsky
tem sido aproximar um problema específico - se a criança
nasce em um mundo que já é estruturado em termos de
representações sociais, como ela se toma um membro
participativo de sua comunidade? A ênfase, então, nos
estudos sobre representações sociais ao modo de Vigotsky,
é bastante diferente daquelas que se evidenciaram no
modo de Bartlett. Nós poderíamos dizer que o modo de
Vigotsky tem sido apropriado para questões da ontogênese
das representações sociais, enquanto o modo de Bartlett
tem sido mais geralmente adotado para o estudo de sua
sociogênese (cf. Duveen and Lloyd, 1990).

O foco em questões ontogenéticas, portanto, tem


gerado um conjunto de preocupações diferentes, ainda que
complementares, com relação àquelas que são evidentes
em estudos sociogenéticos. Em primeiro lugar, natural­
mente, porque foi necessário aos estudos ontogenéticos
negociar um caminho em torno dos edifícios clássicos da
Psicologia do Desenvolvimento e seu pressuposto central,
de que as capacidades mentais da criança mudam, elas
mesmas, ao longo do desenvolvimento da criança. Que
contribuição, se alguma, o desenvolvimento da organiza­
ção mental da criança exerce na sua aquisição de repre­
sentações sociais? É tentador ver as várias respostas para
esta questão ilustrando duas abordagens fundamentais
que, ou vão seguir Piaget e sua ênfase no papel constitutivo
das próprias estruturas mentais emergentes da criança, ou
vão compartilhar a ênfase de Vigotsky na internalização de
sistemas de signos coletivos.

Antes de considerar a contribuição que esses autores


podem trazer para a compreensão do desenvolvimento das
representações sociais, eu gostaria de delinear a aborda­
gem que emergiu do trabalho que Bárbara Lloyd e eu
desenvolvemos nos últimos cinco anos sobre o desenvol­
vimento de representações sociais de gênero em crianças
pequenas (Duveen & Lloyd, 1986, 1990, 1993; Lloyd &
Duveen, 1989,1990,1992). Questões de gênero constituem
um campo particularmente fértil para realizar essa discus­
são, porque elas são um fenômeno universal, que levam,
como nós sugerimos em trabalhos anteriores, à construção
de identidades sociais de caráter imperativo e não contra­
tual.

2. O desenvolvimento das Representações Sociais

A criança nasce em um mundo que já está estruturado


pelas representações sociais de sua comunidade, o que lhe
garante a tomada de um lugar em um conjunto sistemático
de relações e práticas sociais. Perspectivas contemporâ­
neas em Psicologia do Desenvolvimento demonstram uma
consciência crescente dessa situação, e em lugar algum
essas perspectivas têm sido mais importantes do que em
relação ao desenvolvimento dos gêneros, precisamente
porque esta é uma das dimensões mais poderosas e oni­
presentes do mundo social em que a criança nasce. De
fato, parece inapropriado falar aqui de “a criança" como se
um conjunto de características compartilhadas pudesse
servir para identificar o objeto de estudo. Enquanto Piaget
podia falar com autoridade de "a criança” como sujeito
epistêmico, e usar tal conceptualização como noção estra­
tégica central para buscar uma análise do desenvolvimento
da inteligência, tal generalização não pode ser sustentada
em relação aos gêneros, onde o problema mais relevante é
o da diferença. A força da categorização nas repre­
sentações de gênero que circulam em volta da criança é
tão forte que ela sempre vai aparecer como uma menina
ou como um menino desenvolvendo identidades sociais
específicas. Desde os seus dias mais remotos (que graças
à tecnologia moderna hoje significa freqüentemente en­
quanto ainda no útero), a criança é construída como um
ser com gênero por aqueles à sua volta, que conseqüente­
mente vão agir em relação a ela à luz dessa construção.
Mas, se é verdade que a criança nasce em um mundo
que é estruturado por representações sociais de gênero, e
através dessas representações ela é construída, isso não
significa que ela nasce com competência para ser um ator
social independente no mundo. Inicialmente a criança
figura como objeto para representações de gênero que
outros sustentam, e é apenas gradualmente que ela come­
ça a internalizar essas representações. Ao assim o fazer, a
criança também chega a identificar sua posição própria
dentro de um mundo estruturado por essas representações.
Representações de gênero fornecem uma referência impor­
tante através da qual a criança adquire uma identidade que
lhe permite situar-se no mundo social. Essa relação entre
representações e identidade não é específica ao campo de
gênero. Sejam quais forem as representações internaliza­
das, elas estão entrelaçadas aos processos de construção
de identidade, ainda que as conseqüências da identidade
nem sempre sejam as mesmas. Por exemplo, muito fre­
qüentemente nós não consideramos que a internalização
de representações sobre matemática, pela criança, esteja
ligada a uma identidade social específica. Entretanto esse
pode ser, de fato, o caso. Quando a forma de matemática
que a criança internaliza está ligada a sua identidade como
membro de um grupo social marginalizado, isso pode levar
a uma relação conflitiva na escola, e é somente quando nós
apreciamos as conseqüências de dificuldades e fracasso na
escola, que o sentido, no qual as representações sobre
matemática também expressam uma identidade social, se
torna aparente (de Abreu, 1993). Mas, se a relação entre
representação e identidade é freqüentemente opaca no
campo da matemática, ela pode tornar-se clara em alguns
outros contextos. A pervasividade das variações e diferen­
ças associadas aos gêneros vai permitir que a relação entre
representações e identidades se torne clara através de uma
longa variedade de contextos. Que este seja o caso, pode
ser explicado pelo significado que gênero assume enquan­
to dimensão de poder no mundo social.
Representações são sempre construtivas; elas consti­
tuem o mundo tal como ele é conhecido e as identidades
que elas sustentam garantem ao sujeito um lugar nesse
mundo. Assim, ao serem internalizadas, as representações
passam a expressar a relação do sujeito com o mundo que
ele conhece e, ao mesmo tempo, elas o situam nesse
mundo. É essa dupla operação de definir o mundo e
localizar um lugar nele que fornece às representações o seu
valor simbólico. Moscovici refere-se a isso quando fala de
representações sociais estabelecendo "uma ordem que
permite aos sujeitos orientar-se no seu mundo material e
social, e comandá-lo" (1973, p. xiii). Sendo assim estabe­
lecida, a ordem que é fornecida pelas representações
assume um caráter fixo e objetivo. Elas assumem a esta­
bilidade que garante segurança para os sujeitos encontra­
rem um lugar próprio no mundo. Esse aspecto da atividade
cognitiva tem raramente sido um foco explícito de discus­
são, ainda que Shweder (1990) desenvolva um argumento
similar ao apresentar suas idéias sobre Psicologia Cultural.
Ele propõe a cognição como atividade que funciona para
reduzir a incerteza existencial humana. Um outro exemplo
pode ser extraído do estudo que Mugny e Carugati (1989)
realizaram sobre representações sociais da inteligência. O
que eles encontraram mostrou que aqueles estudantes que
estavam mais distantes do mundo da criança possuíam
representações sobre inteligência menos claramente estru­
turadas e organizadas que grupos como pais e professores,
que enfrentam uma realidade cotidiana onde diferenças
entre crianças estão a exigir algum tipo de padrão explica­
tivo. Esses autores descrevem estes grupos sociais como
possuindo uma participação social diferenciada nessas
representações, uma idéia próxima ao que eu tenho em
mente quando falo do aspecto simbólico das repre­
sentações. Talvez não tenha sido acidental que, ao refletir
sobre representações sociais de gênero, eu começasse a
dar ênfase à sua função simbólica. Ora, representações de
gênero, exatamente porque se referem a uma dimensão
central de organização e poder social, carregam conse­
qüências também centrais para nossas definições de Eu.
Nós não podemos pensar em nós mesmos como neutros
em relação ao campo dos gêneros: de uma forma ou outra,
nós sempre pensamos em nós mesmos como homens ou
mulheres, e essas identidades sociais emergem exatamen­
te à medida que internalizamos representações de gênero.
Outros campos representacionais podem carregar menos
conseqüências existenciais, e nesse caso seu valor simbó­
lico também se reduziria, como no caso dos estudantes de
Mugny e Carugati.
Enquanto processo psicossocial, a construção de uma
identidade é um modo de organizar significados que pos­
sibilitam à pessoa se posicionar como ator social. Uma
identidade fornece os meios de organizar a experiência, o
que contribui para a definição do Eu, mas o faz dando ao
Eu um lugar no Mundo. Para a criança recém-nascida,
identidades de gênero são, no início, externas. Elas se
apresentam à criança através de práticas de outros. O que
nós vemos no desenvolvimento das representações sociais
de gênero é um tomar consciência, em que a criança
desenvolve uma consciência reflexiva dos significados do
ato social de assinalamento a um grupo de gênero.
3. O modo de Piaget

Não há espaço nesse ensaio para desenvolver uma


apreciação sistemática da relevância do trabalho de Piaget
para uma Psicologia do Desenvolvimento das repre­
sentações sociais. Eu já me referi ao significado da episte-
mologia construtivista, e existem referências múltiplas que
eu poderia oferecer a esse respeito. Jovchelovitch (1994),
por exemplo, enfatizou a importância da análise piagetiana
em relação ao desenvolvimento da representação e da
descentração como contribuições para a t e o r i a d a s r e ­
p r e s e n t a ç õ e s s o c i a i s . A isso poderíamos adicionar a im­

portância que a análise de Piaget sobre o pensamento


infantil tem para a análise que Moscovici (1976b) desen­
volveu das características das representações sociais (e
essa referência ao trabalho de Piaget traz consigo a influên­
cia de Lévy-Bruhl, que foi uma referência importante tanto
para Bartlett como para Luria; de fato, talvez seja em
Lévy-Bruhl que possamos ver claramente uma origem
comum para os dois modos a que se refere Moscovici).
Sem dúvida, uma análise sistemática traria à tona
muitos outros pontos de convergência entre Piaget e Mos­
covici. E ainda assim, para alguns autores, Piaget tornou-se
uma figura extremamente polêmica no que diz respeito às
representações sociais. Emler (1986; Emler, Ohana & Dic-
kinson, 1990) em particular atacou a obra piagetiana a
partir de dois pontos centrais. Primeiro, que Piaget concebe
a criança como um indivíduo autônomo, envolvido na
construção do conhecimento através de processos que
apenas marginalmente são afetados por influências sociais.
Segundo, que teorias piagetianas apresentam uma imagem
restrita da criança, como alguém que antes de tudo é um
solucionador de problemas lógicos. Naturalmente, Emler
encontra evidência nos escritos de Piaget para condená-lo
por tamanhos pecados, mas isso se funda em uma leitura
demasiado simplista de Piaget. Ou talvez nós pudéssemos
dizer que, apesar da extraordinária integridade teórica que
sustentou o trabalho de Piaget no curso de sua vida longa
e produtiva, ainda existam lacunas na sua obra, que se
abrem precisamente em torno da forma como ele concebe
o caráter social do conhecimento. Mais do que em qualquer
outro lugar, é nessa arena que vamos encontrar, não uma
única teoria piagetiana, mas uma multiplicidade de textos
piagetianos. Existe, de um lado, o Piaget que escreveu O
Juízo Moral na Críança (1932) e Estudos Sociológicos (1977)
(e talvez devêssemos adicionar Jogo, Sonhos e Imitação,
1951, a essa lista), onde o caráter social do conhecimento
e os processos sociais que o constituem são uma preocu­
pação central. De outro lado, existem vários outros textos
onde, ao enfatizar as fontes biológicas das estruturas
cognitivas, Piaget aparece como excluindo qualquer dis­
tinção entre forças biológicas e sociais. Em suma, o social
é um elemento instável na análise piagetiana do desenvol­
vimento do conhecimento. E, de fato, poderíamos ir mais
longe, e sugerir que é precisamente essa instabilidade que
contribuiu para a construção de uma imagem da obra de
Piaget como "a-social", uma imagem que está de modo
peculiar profundamente impregnada no mundo anglo-sa­
xão (poderíamos quase imaginar um estudo das repre­
sentações sociais da obra de Piaget que ilustraria os modos
como suas teorias, à medida em que são ancoradas em
outros modelos psicológicos, vão sendo transformadas). A
leitura que Emler faz de Piaget é, na minha opinião,
demasiado ligada a essa imagem de Piaget. É uma leitura
que falha na apreciação dos elementos radicais da obra
piagetiana, que resistem justamente à interpretação que
Emler procura sustentar.

Em primeiro lugar, o foco de Piaget não é o indivíduo,


mas o que ele chama de sujeito do conhecimento, ou
sujeito epistêmico, que ele distingue do sujeito psicológico.
"Existe” , ele escreve, "o 'sujeito psicológico' centrado em
um ego consciente cujo caráter funcional é incontestável,
mas que não é a origem das estruturas do conhecimento
geral; mas existe também o ‘sujeito epistêmico’ ou aquilo
que é comum a todos os sujeitos no mesmo nível de
desenvolvimento, cujas estruturas cognitivas são deriva­
das de mecanismos mais gerais de co-ordenação das
ações” (Piaget, 1966, p. 308). Poder-se-ia acusar Piaget, e
com legitimidade, de um transcendentalismo que obscu-
rece uma visão das estruturas cognitivas como formações
sócio-culturais (p. ex. Buck-Morss, 1975), mas não existe
um traço sequer de individualismo teórico no seu trabalho.
A questão do foco é absolutamente fundamental na apre­
ciação do trabalho de Piaget. Sua questão central sempre
foi “Como o conhecimento é possível?", e, desde esse
ponto de vista, co-ordenações sensório-motoras e opera­
ções mentais não são em si mesmas o conhecimento, mas
o solo do conhecimento, os processos através dos quais o
conhecimento do mundo é construído. Assim, para a
perspectiva piagetiana, as variações no conteúdo do co­
nhecimento são menos importantes que a uniformidade
que se sustenta através de contextos sociais e culturais.
Podemos, então, entender qual o aspecto que uma leitura
crítica de Piaget necessita reconhecer, qual seja, que
Piaget constrói, como universal, formas de organização
cognitiva que são, em si mesmas, representações sociais
particulares. Nesse sentido, à questão que Piaget coloca
“Como o conhecimento é possível?” precisamos adicionar
uma outra questão, "Para quem o conhecimento é possí­
vel?", de forma a podermos introduzir um terceiro termo à
distição binária de Piaget. É preciso reconhecer o sujeito
psicológico e o sujeito epistêmico, mas também é preciso
reconhecer o sujeito psicossocial (cf. Duveen and Lloyd,
1986) para quem o conhecimento não é produto de um
universal em abstrato, mas é expressão de uma identidade
social. Dizer isso não significa negar o caráter lógico do
conhecimento, mas ao contrário reafirmar que o uso da
lógica na construção do conhecimento fornece ao sujeito
um lugar, em um mundo em que essa mesma lógica precisa
ser considerada como legítima.

A segunda objeção de Emler é que Piaget caracteriza


a criança primeiramente como um solucionador de proble­
mas. Ele cita seu próprio trabalho sobre desigualdade na
renda como evidência de que tal visão é um erro. Longe
de resolver problemas, as crianças por ele entrevistadas
responderam como se elas tivessem acesso a soluções
prontas, que requeriam pouca ou nenhuma elaboração
cognitiva, mas que refletiam primeiramente a posição
social da criança. Por isso ele encontrou pouca variação
quanto à idade, quanto aos juízos das crianças sobre renda
relativa, mas encontrou variações significativas com res­
peito à classe social.1 Emler estabelece tais resultados
como evidência contra a visão piagetiana do desenvolvi­
mento do conhecimento social, já que existem poucos
indícios de qualquer atividade reconstrutiva por parte da
criança, que aparece como simplesmente repetindo o co­
nhecimento comum a sua classe social. Mas de novo esses
argumentos refletem apenas uma leitura bastante parcial
de Piaget, e uma leitura que ainda ignora uma das contri­
buições mais importantes que Piaget tem a oferecer a uma
psicologia do desenvolvimento das representações sociais.

Em O Juízo Moral na Criança (1932) Piaget estabelece


uma distinção fundamental entre duas formas de adquirir
o conhecimento social. Por um lado, há o conhecimento
que ele descreve como produto da transmissão social, onde
a fonte do conhecimento é a autoridade de uma figura
dominante ou privilegiada. E contra isso, Piaget também
argumenta que existe o conhecimento que é adquirido
através de elaboração cognitiva, em um processo de re­
construção. A primeira, diz ele, ocorre nas relações hete-
rônomas, onde a assimetria de poder exerce sua força sobre
o menos poderoso. O último, em contraste, pode apenas
ocorrer em relações autônomas, entre companheiros em
situação de igualdade, onde cada um tem a liberdade de
se engajar na discussão e no debate. Emler, parece-me,
não consegue perceber essa distinção. Os resultados que
ele nos apresenta podem ser considerados como um bom

1. Esses resultados foram questionados por Burgard, Cheyne e Jahoda (1989)


com base na sua tentativa de replicar o estudo. Meu objetivo aqui, entretanto,
não é o de resolver essa disputa, mas concentrar meu argumento nos modos
como o uso que Emler faz da evidência que ele dispõe reflete a leitura que
ele faz de Piaget.
exemplo de aquisição de conhecimento através de trans­
missão social. Mas também encontramos outras fontes de
evidência, que mostram a criança engajada em uma ela­
boração cognitiva mais produtiva do conhecimento social.
Nesse sentido, podemos citar as pesquisas desenvolvidas
em Genebra sobre interação social e desenvolvimento
cognitivo (Doise e Mugny, 1984), como uma instância
exemplar. Lá, eles descobriram que o engajamento coletivo
em um problema conduz a soluções mais complexas do
que aquelas que cada participante encontrava quando
trabalhando de forma independente de outros. Mas talvez
esse exemplo fosse descartado por Emler como sendo de
orientação demasiado explícita em direção à lógica e
resolução de problemas. Uma fonte diferente de evidência
para a reconstrução do conhecimento social em relações
simétricas se encontra em investigações de jogos de "faz-
de conta” em crianças pequenas, nos quais o mundo social
é literalmente reconstruído na medida em que a criança o
entendeu (cf. Duveen e Lloyd, 1988; Furth, 1992). Evidência
adicional nos é oferecida por Corsaro (1990) em seu estudo
sobre a elaboração construtiva de regras sociais entre
colegas de jardim de infância.
Para ilustrar essa questão, consideremos esses dois
fragmentos de gravações em vídeo de crianças brincando
durante o seu primeiro ano na escola (Lloyd e Duveen,
1992). O primeiro extrato contém uma longa cena domés­
tica, onde aparecem mamãe, papai, a cama deles, os bebês
e o casamento. Oscar reafirma seu papel e responsabilida­
des como papai nas falas 1, 4 e 5. Sally inicia a mudança
na cena, indo da domesticidade ao flerte com a princesa
na fala 17. Adultos são encenados como ativamente pro­
curando um parceiro que provavelmemte, com o casamen­
to, se tornam mamães e papais. Contato físico entre um
menino e uma menina inevitavelmente resulta em casa­
mento, como Sally proclama na fala 27. Os comentários de
Betty, um tanto ambíguos na fala 28, deixam pouca dúvida
que o casamento do príncipe envolve procriação. Esses
episódios nos oferecem uma visão geral sobre o entendi­
mento que crianças desenvolvem da vida familiar. É uma
visão baseada na pertença de adultos a um grupo sexual,
que possibilita pouca escolha de papéis, ou pouca variabi­
lidade dentro dos grupos sexuais. A sexualidade é heteros­
sexual e para fins de procriação.

Extrato 1

Oscar é Papai, Rachel é Mamãe e Betty, o Bebê. Já


houve falas anteriores sobre comer e consertar coisas.

1. Oscar: (No colchão) Eu sou o Papai.

2. Sally: (Para Rachel) A janta não está pronta, tem que


esperar.

3. Betty: (Para Oscar) E você escuta meu choro a-ha-


aah-aah.

4. Oscar: (Vai até Betty que ainda chora) Fica quieti-


nha, neném, quietinha.

5. Oscar: Eu vou deixar isso na sua cama, caso você


quiser jantar. (Ele volta para a cama)

6. Rachel: (Junta-se a Oscar) Não-aah!

7. Oscar: Essa é minha cama. É minha cama. (Os dois


estão deitados nela)

8. (Interrupção, seguida de)

9. Sally: Essa é a cama do pai e da mãe. (Deitados na


cama, Oscar se coloca sobre Sally)

10. (Mudança de personagem e Sally se torna Mamãe)

11. Rachel: (Rolando na cama) Oi, mãe.

12. Sally: Não! Sai da cama do pai e da mãe. Você está


sendo muito travessa hoje.

13. Betty: (Se arrastando sobre eles) Gugu, gugu, dada.


14. Sally: Pega aquele cobertor, bebê?
15. Betty: (Alcança o cobertor para Sally)

16. (Indo para a cama, Bebê chorando, torneira pingando)


17. Sally: Eu sou a princesa. (Senta na cama)

18. Betty: Faz de conta, faz de conta, eu quero, faz de


conta que você era um pouquinho bonita e eu era...

19. Oscar: Eu sou o príncipe.

20. Betty: ...lindo. Nós dois somos lindos. Decide com


quem você quer casar.

21. Oscar: Eu sou o príncipe.

22. Betty: Você procura por uma mulher bonita.


23. (Oscar faz de conta que vai se atirar entre Sally e
Betty. Enquanto isso, Rachel puxa a perna das calças
de Oscar)

24. Rachel: Eu peguei ele! Peguei ele! Peguei ele!


Peguei ele! Peguei ele! Peguei ele!
25. (Sally ganha o jogo e Oscar põe seus braços em
volta dela, senta ao lado dela na cama, e põe sua
cabeça no ombro dela)

26. Betty: [...]


27. Sally: Ele casa comigo.
28. Betty: [..?] Sim, sim, e eu tenho que ser a...?
princesa, mas com você menininha. Faz de conta que
vocês casaram e vocês, vocês tiveram a..?..crescido.
E eu tinha que ir pra escola.

O segundo extrato ilumina novamente a crença da


criança que o contato sexual/físico entre membros de
grupos sexuais necessita ser validado através do casamen­
to. Oscar é disputado por algum tempo pelas meninas,
mas, uma vez tendo sido beijado por Christine, talvez para
sua própria surpresa, ele proclama, na fala 16, que vai casar
com ela. A criança constrói um mundo simples, onde o
contato físico entre membros de grupos sexuais é construí­
do como sexual e conduz ao casamento. Nesse mundo,
ações possuem conseqüências diretas e predizíveis.

Extrato 2

1. Edith: ...e Lulu beija, uhm, Oscar. Continua.

2. Christine: Eu não tô brincando agora.


3. Edith: Vai embora, então.
4. Lulu: Não, você beija o Oscar e eu beijo o Darren.

5. Edith: Eu sei. Olha. Você (Joan) beija ele, Darren.


6. Lulu: E eu vou beijar o Oscar.
7. Edith: Joan beija o Oscar.

8. Edith: Joan beija o Darren, e Oscar beija...você!

9. Joan: (Começa com o Darren, que foge) Hei!

10. Edith: Vem aqui. (Agarra Lulu e a move em direção


a Oscar, sem muita vontade) Não, beija! Beija ela
na boca. Beija ela na boca. Anda!
11. Lulu: Eu não!

12. Edith: Vamos, beija ela. Beija ela.

13. Christine: (Aponta para Oscar) Eu beijei ele.


14. Oscar: Eu beijei ELA!

15. Edith: Oh!

16. Oscar: (Aponta para Christine) Eu vou casar com


ela.

17. Edith: (Com Lulu, já sem brigar, bem perto) Beija


ela.
18. Oscar: Eu vou casar com ela.

19. Sally: (Também se aproximando de Oscar)

20. Oscar: Tá bem. (Mas qual das duas ele deve beijar?)

21. Sally: Beija eu. (Eles se beijam)

22. (Todos riem. Oscar se atira no sofá.)

Esses exemplos ilustram o processo reconstrutivo na


aquisição pelas crianças do conhecimento social, que pode
ser contrastado com aqueles aspectos do conhecimento
social que aparecem como resultado da transmissão social.
Ao argumentar que, da perspectiva das representações
sociais, o conhecimento somente se adquire através de
transmissão social, Emler não somente nos oferece uma
visão parcial do argumento de Piaget, mas ele também
restringe o âmbito das representações sociais. Se nós
considerarmos por um momento outros estudos sobre o
conhecimento econômico, encontraremos evidência sufi­
ciente de aspectos construtivos na elaboração, pela crian­
ça, de conceitos tais como salários, preços e lucro (p. ex.
Berti e Bombi, 1988). É claro que essas noções não se
adquirem simplesmente por um processo de transmissão
social, mas isso significa dizer que a idéia de lucro, por
exemplo, não é uma representação social? Certamente que
não.
Com Piaget, então, nós podemos pensar os diferentes
processos que estão em jogo na aquisição do conhecimen­
to social. Ele mesmo associa a transmissão social com a
aquisição, pela criança, das representações coletivas de
sua sociedade (e ao usar o termo ele faz uma referência
explícita a Durkheim), enquanto que a reconstrução é para
ele uma função do engajamento na atividade cognitiva.
Mas, se lermos o argumento de Piaget à luz da perspectiva
crítica que procuramos delinear acima, o que ele constrói
como atividade cognitiva também precisa ser construído
como representação social. E no que concerne a esse ponto
de vista, é interessante voltar a Moscovici e ao contraste
que ele estabelece entre representações sociais e a análise
que Durkheim faz de representações coletivas. Para Mos­
covici, a análise de Durkheim é demasiado estática, e sua
principal razão para preferir o adjetivo "social" foi enfatizar
a dinâmica das representações sociais. Ele pretende se
concentrar no conhecimento social em processo de forma­
ção e transformação, ao invés do conhecimento social
como sabedoria recebida (ou o que Sartre chamou de
practico-inert). Existe, naturalmente, uma relação entre
representações sociais e representações coletivas, já que
mesmo as representações coletivas devem ter, em algum
momento, emergido de um processo mais dinâmico de
elaboração (do mesmo modo como o practico-inert nada
mais é que o produto acumulado da práxis humana passa­
da). Na infância, muito do que aparece como o estático
senso comum do mundo adulto está sujeito a uma forma
mais dinâmica de elaboração. E é quando a criança está
envolvida em tal elaboração que nós melhor podemos
aprender com Piaget, pois ali elas vão articular repre­
sentações que refletem a sua estrutura cognitiva, que não
são, de forma alguma, um reflexo imediato do pensamento
adulto. Piaget também nos oferece uma outra lição: elabo­
rações cognitivas ocorrem em um contexto de relações
simétricas, onde o pensamento não está limitado pelo
poder hegemônico. Na vida da criança, é exatamente na
sua relação com outras crianças que esta condição é mais
freqüentemente encontrada, de forma que elaborações
cognitivas construtivas no desenvolvimento das repre­
sentações sociais vão ocorrer mais claramente na análise
da interação da criança com os seus iguais, em situações
em que elas estão livres para inventar.

Se tomarmos o argumento de Emler na sua mais


extrema conclusão, ele implica não apenas que nós deve­
mos abandonar Piaget, mas também que nós deveríamos
abandonar o compromisso com a idéia de que o desenvol­
vimento cognitivo implica um projeto de autonomia. Minha
tentativa aqui foi mostrar que essas posições não se
sustentam, e que existe muito a ganhar se continuarmos
um diálogo construtivo com a teoria piagetiana. 0 momen­
to construtivo da elaboração cognitiva é um dos mais
importantes elementos na psicologia genética de Piaget, e
adotar a perspectiva das representações sociais não signi­
fica abandonar a noção de desenvolvimento cognitivo,
mas, ao contrário, perceber que as estruturas que emergem
são elas próprias produtos sociais e culturais. Isso talvez
nos leve a ver o desenvolvimento cognitivo como um
momento de relativa autonomia (para adotar uma frase de
Althusser), mas também serve para nos lembrar que entre
a "sociedade pensante" dos adultos e a emergência da
criança enquanto ator social existe um processo de cons­
trução que merece ser entendido.

4. O modo de Vigotsky

À primeira vista, Vigotsky parece apresentar uma


teoria do desenvolvimento mais afinada com preocupações
psicossociais. Harré (1989) certamente falou em uma "vi­
rada vigotskyana” na p s ic o l o g ia s o c i a l , e alguns autores
adotaram temas vigotskyanos para o estudo das represen­
tações sociais (Semin e Papadopoulou, 1990). Dois temas
em especial atraíram atenção. O primeiro é sua insistência
sobre o fato de que os processos psicológicos encontram
sua origem em relações sociais. Na sua “lei genética geral
de desenvolvimento cultural" ele propõe que o que emerge
como interno, como processos intra-individuais, são as
internalizações que foram estabelecidas externamente, em
processos interindividuais. “O que a criança faz em coope­
ração hoje, ela fará sozinha amanhã". No segundo, Vigots­
ky constrói processos psicológicos como formas de
mediação semiótica, e os signos que são usados dessa
maneira, como qualquer signo, pressupõem uma comuni­
dade de usuários para que eles possam funcionar. Em
conjunto, esses temas apresentam um quadro em que a
criança em desenvolvimento vai progressivamente inter-
nalizando as práticas coletivas de sua comunidade, através
de interações com adultos competentes e crianças que já
conhecem mais. Dessa maneira, ele oferece uma perspec­
tiva em que não somente os processos psicológicos são
socialmente construídos, mas em que esses processos
mesmos, em sua própria estrutura, são produtos histórico-
culturais. Existe aqui algo que é extremamente sedutor
para a p s ic o l o g i a s o c i a l , e especialmente para a t e o r i a
d a s r e p r e s e n t a ç õ e s s o c i a i s . Mas talvez essa atratividade

mesma da teoria sociocultural de Vigotsky deveria ser um


sinal de alerta. Será que nós realmente podemos resolver
nossas questões tão imediatamente? Moscovici tem lá
suas suspeitas, ao descrer a teoria de Vigotsky como "boa
demais para ser verdade" (1990, p. 179).
A arena na qual as teorias vigotskyanas tiveram sua
maior influência foi a Psicologia do Desenvolvimento e não
a p s ic o l o g i a s o c i a l . Para os desenvolvimentistas, Vigots­
ky é considerado como alguém que forneceu uma teoria
social da cognição, que pode superar as presumíveis defi­
ciências sociais de outras formas de teorização sobre a
cognição. Já que nós vivemos em uma época em que o
Marxismo, que Vigotsky considerava ser a influência pri­
meira em sua obra, está sendo substituído pelo dogma da
livre iniciativa, uma metáfora que vem do marketing me
parece apropriada aqui. O indicador-chave para desempe­
nho no mundo acadêmico é o índice de citações, onde as
referências a Vigotsky já ultrapassam em muito as referên­
cias feitas a Piaget nas revistas científicas sobre desenvol­
vimento. Uma parte da campanha publicitária que ajudou
a tendência vigotskyana a melhorar de tal modo sua cota
no mercado tem sido a proposição de que a perspectiva de
Vigostky alimenta aqueles aspectos socioculturais da cog­
nição humana que a teoria piagetiana deixa sem tocar.
Como qualquer slogan publicitário, esse nos engana, e
obscurece mais do que ilumina. Porque o que esses copy-
wríters do modelo de Vigotsky não conseguem explicar,
não é somente que existe, na teoria piagetiana, uma
compreensão muito mais forte de realidades socioculturais
do que a que o slogan gostaria de admitir, mas, mais
importante ainda, para as minhas preocupações aqui, que
a maneira pela qual a perspectiva vigotskyana se dirige a
aspectos socioculturais da cognição é, ela mesma, limitada
em um número de importantes aspectos.
O principais copywríters de Vigotsky em Psicologia do
Desenvolvimento são aqueles que defenderam um modelo
de aprendizagem para o desenvolvimento da cognição (p.
ex. Rogoff e Lave, 1984; Rogoff, 1990). Nesse modelo, a
criança adquire as ferramentas cognitivas da sua cultura
ao ser introduzida por peritos nas práticas sociais de sua
comunidade. Na melhor das situações, esse modelo con­
seguiu demonstrar o poder que tal perícia - como um
andaime - pode exercer, através de uma participação
guiada no desenvolvimento das habilidades. Este é o caso,
por exemplo, nas descrições de Greenfield (1984) da apren­
dizagem do tecer em Zinacantan no México, ou nas des­
crições de Lave (1990) de aprendizes de alfaiataria entre os
Vai na Libéria. Mas essas descrições se referem a contextos
culturais específicos, cujas características limitam a gene­
ralidade do modelo. Nestas situações, crianças e adoles­
centes estão adquirindo as habilidades tradicionais de uma
comunidade particular, onde a aprendizagem ocorre sob
uma série de condições bastante restritas. O que está
sendo adquirido são habilidades embebidas em práticas
sociais muito bem estruturadas. Estas práticas são, elas
próprias, altamente valorizadas pela comunidade, de tal
forma que elas são vistas como expressão legítima da
cultura da comunidade. Além do mais, o modelo de apren­
dizagem assume que existem interesses comuns entre o
aprendiz e o perito, de modo que qualquer conflito entre
eles, sobre o valor daquilo que está sendo aprendido,
desaparece. Assim, o que este modelo fornece é uma
receita para a reprodução de relações sociais existentes em
situações caracterizadas pela assimetria de poder entre o
aprendiz e o perito. Em circunstâncias restritas como estas
podemos, de fato, ver a fórmula vigotskiana em funciona­
mento, já que relações interpessoais são internalizadas e
reproduzidas ao nível intrapessoal.
0 que preocupa Moscovici é que a fórmula de Vigotsky
sugere uma relação direta entre práticas sociais e funcio­
namento individual. O que levanta suas suspeitas é essa
falta de atenção às estruturas intermediárias entre esses
dois planos de desenvolvimento. Nós já vimos, discutindo
a contribuição de Piaget, que lá onde a aquisição do
conhecimento prossegue através de um processo de re-
constução cognitiva, as elaborações da criança vão expres­
sar a mediação de suas próprias estruturas cognitivas em
desenvolvimento. Mas existe uma ausência ainda mais
surpreendente na obra de Vigotsky, que é sua falta de
atenção ao papel mediador das identidades sociais no
desenvolvimento do conhecimento. Para ilustrar esse ar­
gumento eu vou considerar em mais detalhes alguns dos
resultados de nossos estudos sobre o desenvolvimento de
identidades de gênero em crianças do primeiro ano escolar
(Lloyd e Duveen, 1992).
Observações sistemáticas nos permitiram determinar
os modos como determinados brinquedos eram diferencia­
dos, quanto ao gênero, nas práticas sociais das salas de
aula que estudamos. Nós também apresentamos às crian­
ças, através de entrevistas, uma variedade de tarefas que
exploravam seu conhecimento quanto à identificação, a
partir do gênero, desses brinquedos. Uma dessas tarefas
pedia a eles para primeiro organizar um conjunto de
brinquedos, que servissem tanto para meninos como para
meninas brincarem, e então selecionar os que cada um
deles preferia, dentro daquela coleção de brinquedos. As
respostas mostraram que, ainda que as crianças, de fato,
usem a categoria gênero para organizar sua escolha de
brinquedos, eles consideravam o que na verdade eram as
suas crenças idiossincráticas sobre os modos como deter­
minados itens estavam identificados quanto ao gênero
como se elas fossem crenças consensuais. Esse resultado
não cabe em uma noção de desenvolvimento como sendo
a simples passagem do interindividual para o intra-indivi-
dual. Se este fosse o caso, poderíamos esperar que as
crianças tivessem selecionado como sua preferência os
brinquedos que estivessem claramente identificados nas
práticas coletivas da sala de aula.
Uma dificuldade posterior, com a fórmula vigotskiana,
é que o mesmo conjunto de práticas coletivas dá origem a
identidades de gênero diferenciadas. De nossas observa­
ções sistemáticas nós extraímos uma matriz de freqüências
com as quais cada criança, na sala de aula, era observada
interagindo com outra criança. A análise da correspondên­
cia dessas matrizes produziu agrupamentos gráficos que
demonstraram uma tendência para meninos brincarem
com meninos e meninas com meninas. Os padrões de
associação nestes agrupamentos gráficos também indica­
ram diversidade entre as crianças na forma como elas
expressam suas identidades sociais de gênero. Observou-
se que algumas crianças brincavam mais freqüentemente
com o grupo do sexo oposto, enquanto que, dentro dos
grupos sexuais, agrupamentos menores de crianças po­
diam ser observados tendo padrões distintos de associa­
ção. Por exemplo, nós observamos grupos de meninas que
interagiam quase que exclusivamente umas com as outras
e eram raramente vistas brincando com outras crianças,
fossem estas meninos ou meninas, enquanto que outros
agrupamentos de meninas não somente brincavam fre­
qüentemente umas com as outras, mas também com um
dos meninos. Esses padrões diferenciados de associação
ilustram o desenvolvimento de identidades femininas múl­
tiplas entre as meninas.

A diversidade nos padrões de associação dentro dos


grupos sexuais nos fornece evidência para propor uma
distinção entre a pertença das crianças a um grupo sexual
e a sua forma de expressar identidades sociais de gênero.
Teoricamente, essa diversidade reflete o fato de que as
representações sociais de gênero, elaboradas nas salas de
aula do nível primário, podem oferecer os recursos para
uma multiplicidade de identidades masculinas e femininas.
Analiticamente, nós investigamos essa diversidade toman­
do como indicador das identidades de gênero das crianças
a proporção de tempo que elas passavam em grupos do
mesmo sexo. Ainda que esse índice seja, na melhor das
hipóteses, uma medida pouco sofisticada, já que nos dá
apenas um indicador simples daquilo que é um fenômeno
muito mais complexo, ele mostrou alguma utilidade. Nos­
sas observações sugeriram que há pouca correspondência
entre nossa medida de identidade de gênero no período
escolar do outono e no período escolar de verão. Ao longo
do primeiro ano de escola existe apenas uma consistência
limitada nas práticas sociais das crianças. Não é possível
predizer a freqüência com que as crianças brincam em
grupos do mesmo sexo, no fim do ano escolar, com base
no conhecimento de como eles se comportaram no outono.
Ainda assim, mesmo no período escolar do outono, as
crianças responderam à diferenciação de gênero de vários
aspectos da cultura material e do espaço. Em outras
palavras, as práticas sociais em cada sala de aula haviam
estabelecido claramente sistemas de diferenciação de g ê ­
nero, mesmo no começo do ano escolar. O que mudou, ao
longo do ano, foi o modo como cada criança individual­
mente se posicionou em relação a esse sistema coletivo de
significados. Esse processo foi mais claro entre as meninas
do que entre os meninos, mas o que permanece pouco claro
é como esses processos de posicionamento podem ser
explicados pela fórmula vigotskiana.
O que está faltando, no enfoque de Vigotsky, é uma
apreciação do significado das identidades sociais como
estruturas que fazem a mediação do interpsicolológico e
do intrapsicológico. Sua fórmula descreve um mundo em
que todos os indivíduos adquirem um mesmo entendimen­
to de um único conjunto de práticas sociais. Mas, quando
diferenças emergem entre indivíduos em relação ao um
mesmo sistema de significação coletiva, sua fórmula é
inadequada. Cabe salientar que as próprias pesquisas de
Vigotsky não se estenderam a áreas da vida social onde
diferenças entre indivíduos tomam-se significativas. Para
um psicólogo marxista, Vigotsky demonstra uma curiosa
indiferença em relação à importância dos grupos sociais.
Qualquer que seja o grau de sugestividade de sua insistên­
cia no significado do desenvolvimento das práticas sociais,
sua obra não ofereceu uma p s ic o l o g ia s o c ia l "pronta".
Poder-se-ia adicionar que até mesmo um vigotskyano
convicto como Wertsch (1991) defendeu recentemente a
incorporação da noção de “voz” , desenvolvida por Bahktin,
como forma de superar a ausência de mediações sociais
na psicologia de Vigotsky.

5. A função simbólica das Representações Sociais

Essas reflexões sobre as contribuições de Piaget e


Vigotsky para uma Psicologia do Desenvolvimento das
representações sociais nos remete a uma comparação
interessante entre os dois. De Piaget podemos extrair uma
lição importante relacionada com sua distinção entre dois
modos de aquisição do conhecimento social. De um lado,
existe a aquisição através de transmissão social, caracte­
rizada pela assimetria de poder, onde o conhecimento é
reproduzido em função da influência e do prestígio de sua
fonte. Mas, de outro lado, existe também a aquisição
através da reconstrução, em relações sociais de simetria
entre companheiros. Como sempre em Piaget é o conflito
que está no coração deste processo, mas para o conflito
ser produtivo ele deve ser situado em um contexto onde o
pensamento não é limitado por influências hegemônicas,
de tal forma que ele possa ter liberdade para inventar e
construir. A obra de Vigotsky se dirige, na verdade, apenas
ao primeiro desses modos. Ela descreve a aquisição do
conhecimento social através de transmissão social em
relações sociais assimétricas. Aqui o conhecimento é, de
fato, poder, porque é a posse da perícia e do prestígio que
a perícia traz que faz a diferença entre o perito e o aprendiz.

Essa conclusão pode parecer algo paradoxal, já que as


imagens de Piaget e Vigotsky, que circulam atualmente no
mundo da Psicologia, geralmente associaram mais a ima­
gem de Vigotsky como um teórico da cognição enquanto
processo social, e a de Piaget como um teórico da cognição
individual. Mas, como eu tentei demonstrar, esse paradoxo
é mais aparente do que real. Porque a teoria de Vigotsky
oferece apenas um sentido restrito do que uma teoria social
da cognição deve ser, enquanto que Piaget tem uma
compreensão muito mais profunda da influência das rela­
ções sociais no desenvolvimento do conhecimento social
do que é comumente assumido. Se meus comentários
sobre Vigotsky foram mais críticos do que os dirigidos a
Piaget, é porque eu procurei enfatizar esse contraste. E
ainda assim nenhum desses autores nos fornece um mo­
delo "pronto", no qual possamos fundar uma análise da
criança como um ator social em desenvolvimento. A aná­
lise de Piaget sempre retoma para o enfoque do "sujeito
epistêmico", e dá apenas um limitado reconhecimento ao
significado das representações sociais que estruturam o
mundo coletivo no qual a criança se desenvolve. Se a teoria
de Vigostky pode ser dita como centrando-se na criança
como "sujeito cultural", ela assim o faz reduzindo cultura
a um conjunto de signos que funcionam como instrumento
cognitivo, e excluindo aquele sentido em que signos tam­
bém expressam os valores de grupos sociais particulares.
Pode ser útil, como conclusão a esse capítulo, retornar aos
nossos estudos do desenvolvimento das representações
sociais de gênero, para tentar ilustrar o modo através do
qual uma perspectiva desenvolvimentista em repre­
sentações sociais pode centrar nossa atenção na criança
enquanto ator social.

A questão central, nas representações sociais de g ê ­


nero, é uma metáfora reprodutiva que oferece uma imagem
de gênero em termos de uma oposição bipolar entre o
masculino e o feminino. Essa é uma imagem que a criança
parece haver adquirido muito cedo em sua vida e que
persiste na vida adulta (de Rosa, 1987, também observa
que os aspectos icônicos das representações sociais da
loucura são adquiridos no começo da vida). Ao discutir o
processo de objetivação, Moscovici se refere ao núcleo
figurativo das representações sociais, “uma estrutura em
imagem que reproduz uma estrutura conceituai de maneira
visível" (Moscovici, 1981). O maior exemplo gráfico dos
aspectos icônicos das representações sociais de gênero em
nosso trabalho se refere à evocação que a criança faz da
sexualidade na hora do jogo, onde, como nós vimos nos
extratos de nossas gravações, esta última é evocada pre­
cisamente como a união de opostos bipolares, e, uma vez
estabelecida, é celebrada através de rituais como o casa­
mento e a vida doméstica. Na verdade, para essas crianças
há uma fusão sincrética das relações sexuais, da instituição
casamento e a da complementaridade dos papéis de gêne­
ro na vida doméstica. A estrutura da oposição bipolar é o
fio condutor entre esses diferentes elementos; cada um
desses elementos implica o outro, de tal modo que, quando
um elemento é evocado no jogo, pode remeter à evocação
de todos os outros.
O núcleo figurativo dos opostos bipolares também
apóia a conceptualização da vida social em termos de duas
categorias complementares, mas exclusivas. Essa estrutu­
ra conceituai influencia o modo como a criança interpreta
o mundo à sua volta, enquanto que sua participação na
vida coletiva fornece os andaimes que vão conferir legiti­
midade adicional a essa estrutura conceituai. Na sexuali­
dade, ou, mais precisamente, na heterossexualidade, a
diferença se afirma tanto porque depende da presença dos
opostos bipolares, como porque é, ao mesmo tempo,
superada através da união desses opostos. A sexualidade
assume assim um status privilegiado para a criança peque­
na porque oferece a resolução mais clara possível para o
problema da diferença. Como nós argumentamos antes, a
imagem da oposição bipolar liga a sexualidade ao casa­
mento e à vida doméstica, e, quando brinca, o envolvimen­
to da criança com esse tema expressa e celebra um certo
entendimento do mundo. Nesse entendimento sexo e
gênero são reduzidos a uma única dimensão, e é a diferen­
ça entre as categorias do masculino e do feminino que são
enfatizadas, enquanto diferenças dentro de cada uma
dessas categorias são obscurecidas.
Nossas observações sugeriram que a criança é geral­
mente o elemento mais conservador na cultura de gênero
da sala de aula. A imagem de oposição bipolar como o
núcleo figurativo de suas representações sociais de gênero
nos deixa ver por que esse é, de fato, o caso. Como uma
imagem, ela oferece um grau de claridade e simplicidade
que também é consistente com a ainda limitada capacida­
de da criança para qualquer elaboração cognitiva que
possa exigir mais sofisticação. A resistência da criança a
qualquer influência de uma voz igualitária nas repre­
sentações de gênero é também uma resistência à perda de
uma imagem clara e aguda do mundo. Assim, a imagem
da oposição bipolar cristaliza, para a criança, um estado de
entendimento que também funde a forma do conhecimento
(sua estrutura categorial) com o conteúdo do conhecimento
(a separação entre coisas masculinas e femininas). Todas
as coisas masculinas tendem a se agrupar e a se separar
das coisas femininas. Como nós notamos na nossa etno-
grafia, a separação ao longo dessas linhas pode vir a
caracterizar o padrão de interação na sala de aula, e uma
vez estabelecido dessa forma, o jogo dinâmico entre ativi­
dade e entendimento é capaz de sustentar tais momentos
sobre extensos períodos de tempo.
Ainda assim, da mesma forma como representa dife­
rença, a imagem dos gêneros como oposições bipolares
também representa hierarquia, já que a relação entre os
gêneros é também uma relação de poder. Mas, mesmo que
essa imagem esteja saturada com noções de hierarquia e
poder, enquanto a diferença entre os opostos bipolares
puder ser resolvida, a hierarquia pode ser obscurecida. A
união dos opostos bipolares na sexualidade, ou a comple­
mentaridade do casamento e dos papéis domésticos, apre­
senta uma imagem em que o aspecto da hierarquia é
mascarado. E, ainda assim, o masculino e o feminino não
são iguais, e a sombra que essa desigualdade produz pode
ser observada nas disputas que irrompem sobre o acesso
a recursos e, nos padrões psicológicos, de superestimar o
mesmo grupo sexual e desvalorizar o gênero oposto. Para
as meninas, é claro, a reprodução da hierarquia de gênero
também traz consigo a desvalorização de seu próprio
gênero. Talvez não seja surpresa que é entre as meninas
que nós encontramos evidência de uma quebra na hege­
monia da oposição bipolar rígida. Deste ponto de vista, a
recusa das meninas, em um de nossos instrumentos, para
atribuir a qualquer comportamento socialmente indesejá­
vel a condição feminina, pode ser entendida como indica­
tiva de tal processo. Na nossa etnografia, nós também
registramos um número de episódios em que meninas
desafiavam essa imagem, geralmente competindo com os
meninos por recursos identificados como masculinos.
Comparados à dominação das imagens de gênero como
oposição bipolar, tais exemplos são marginais no curso
geral da vida na sala de aula. Ainda assim, eles ilustram o
fato de que, mesmo entre crianças, os gêneros não são um
terreno livre de disputas, e mesmo aqui relações de poder
podem gerar resistência.

Cada criança cresce para tornar-se um ator social hábil


no campo dos gêneros. As características sociais e psico­
lógicas, que estão presentes no nascimento, fornecem a
base para o assinalamento da criança a um dos dois grupos
sexuais. Ainda assim, a variação das condições congênitas
- que permitem indeterminação no que diz respeito à
pertença a grupos sexuais - sugere que a natureza não é
assim tão rígida, como o é a categorização bipolar aplicada
à criança recém-nascida. Uma vez assinaladas a um grupo
sexual, a criança é traduzida e construída em termos de
características associadas a cada grupo sexual. Daquilo
que a faz ser um objeto das práticas de outros, a criança
gradualmente cresce para ser um ator social independente
no campo dos gêneros, através da internalização das
representações sociais da sua comunidade. Essas repre­
sentações não somente sustentam determinados valores,
idéias e práticas, mas também desempenham funções mais
simbólicas. À medida em que ela entende o significado do
ato social que lhe assinalou um lugar em um grupo sexual,
a criança está adquirindo um sentido estável do Eu, loca­
lizado em um mundo de significados coletivos estáveis. É
através de uma preocupação com a função simbólica das
representações, ao mesmo tempo cognitiva e social, que a
criança pode emergir como um ator social nas nossas
formas de teorizar sobre ela.

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HELÈNE JOFFE
9. “EU NÃO", “O MEU GRUPO NÃO":
REPRESENTAÇÕES SOCIAIS
TRANSCULTURAIS DA AIDS

Hélène Jofíe

A Aids como condição estrangeira

Quando confrontadas com doenças epidêmicas incu­


ráveis - tanto histórica como transculturalmente - as
pessoas responderam: "Eu não", “o meu grupo não” .
Quando a sífilis começou a varrer a Europa, no século 15,
as respostas foram semelhantes, e nos oferecem um exem­
plo clássico:
“Era a mancha francesa para os ingleses, a morbus Germa-
nicus para os parisienses, a doença de Nápoles para os
florentinos, e a enfermidade chinesa para os japoneses"
(Sontag, 1989:47).

Desde a década passada, a Aids - nova doença epidê­


mica - também tem sido ligada a nações estrangeiras e a
grupos marginais. No Ocidente, sua origem é geralmente
localizada na África. Os africanos, por sua vez, tendem a
situar a origem da Aids no Ocidente - relacionando-a com
colonialismo e imperialismo. Além de ligar a Aids a nações
estrangeiras, cada cultura específica a associa com certos
grupos marginais: homossexuais e drogados no Ocidente,
e mulheres, incluindo prostitutas, no mundo subdesenvol­
vido. Doenças epidêmicas incuráveis também têm sido
associadas a práticas que a ideologia hegemônica constrói
como “estrangeiras", tais como bestialidade, alcoolismo e
promiscuidade. Se nos ativermos a essas tendências his­
tóricas e transculturais, poderemos observar que as repre­
sentações sociais da Aids muito provavelmente se
estruturam em torno de um “núcleo central" (Abric, 1984,
1993) que tem a "condição estrangeira" e o "outro" como
conteúdo principal.

Por que estrangeira?

O medo do desconhecido motiva as pessoas a criar


representações sociais de novos fenômenos (Moscovici,
1984; Kaès, 1984). Objetos sociais estranhos evocam medo,
porque eles ameaçam o sentido de ordem das pessoas e
sua sensação de controle sobre o mundo. Uma vez repre­
sentado sob uma feição mais familiar, o objeto social se
torna menos ameaçador e tal processo nos ajuda a entender
por que a Aids foi inicialmente ancorada a representações
mais familiares, como a de praga. Temos um exemplo claro
de tal situação nos meios de comunicação ocidentais, que
proclamaram a Aids como "praga homossexual” , extraindo
tal representação do mundo médico. Em 1981, médicos
norte-americanos isolaram um conjunto de sintomas do
que, posteriormente, veio a ser chamado Aids, em cinco
homossexuais americanos. Eles a chamaram de Síndrome
de Deficiência Imunológica Ligada aos Homossexuais
("Gay Related Immune Deficiency”). Nos esforços da mídia
para transformar o achado médico em material interessante
e atraente para a comunicação de massa foram invocadas
representações sociais de praga. O novo fenômeno, ao
circular por entre os meios médicos, entre leigos e na mídia
ocidental, veio a ser objetificado não apenas na imagem de
praga, mas em uma praga que se abatia apenas sobre
identidades marginais: homossexuais, africanos, haitianos,
drogados, prostitutas. A noção de "praga homossexual"
ancora a Aids a uma ameaça prévia - a praga bubônica, e
a torna mais familiar. Mais ainda, ela objetifica a ameaça
da Aids nos homossexuais, um grupo externo, fazendo-a
menos ameaçadora para o grupo interno.

Embora a permanência histórica do elo entre epide­


mias incuráveis e condição estrangeira seja evidente em
uma variedade de análises (por exemplo, Markova & Wil-
kie, 1987; Herzlich 8c Pierret, 1989; Sontag, 1989), poucos
são os que elucidam o porquê do elo ter sido originalmente
estabelecido. Minha proposta, neste trabalho, é de que a
Aids é ligada ã condição estrangeira como parte de uma
estratégia projetiva, em face da ameaça. Sentimentos re­
manescentes de impotência, não de todo erradicados,
podem ser evocados em um período de crise massiva
potencial, e antigos padrões de defesa são convocados
como meio de proteção. Tal defensividade é a força motora
subjacente à formação das representações sociais da Aids,
que desvia a atenção da ameaça colocada pela Aids ao Eu
(e ao grupo interno), e centra seu olhar sobre o “outro” ,
ameaçado e ameaçador. Eu acredito que uma das formas
primeiras, pela qual as pessoas se defendem de medos
associados à Aids, é através da projeção da responsabili­
dade por sua origem e seu desenvolvimento em outros,
distanciando-se, desse modo, da situação ameaçadora.
Embora isso resulte em uma variedade de diferentes re­
presentações sociais da Aids, que dependem do grupo que
está sendo protegido, as representações sociais defensivas
de grupos hegemônicos são as que atravessam o mundo
médico e o mundo dos meios de comunicação de massa.
Ao agirem assim, elas minimizam as tentativas daqueles
grupos sociais, ligados à Aids por representações hegemô­
nicas de afirmarem: "eu não", "o meu grupo não” .

Metodologia

Antes de esboçar uma teoria dos trabalhos das repre­


sentações sociais da Aids, eu vou discutir os dados que
iluminam tais processos. Entrevistas em profundidade,
semi-estruturadas, com sessenta jovens sul-africanos e
britânicos, homens e mulheres, escolarizados, não espe­
cialistas, foram realizadas no início de 1990. Em cada uma
das duas culturas a amostra se compôs dos seguintes
grupos: 10 heterossexuais brancos (metade homens, me­
tade mulheres); 10 heterossexuais negros (metade homens,
metade mulheres); 10 homossexuais homens (6 brancos e
4 negros; 4 com soro-positivo para o vírus).

A idade média dos sujeitos foi de 23 anos (os sul-afri-


canos numa faixa de 17 a 37 anos e os britânicos numa
faixa de 18 a 39 anos). A grande maioria dos respondentes
possuía ao menos o segundo grau de escolarização, sendo
que aproximadamente dois terços, em ambos os países,
eram estudantes universitários. Os tópicos levantados nas
entrevistas incluíam: onde o HIV/Aids se originou, como o
HIV/AIDS se dissemina, quais os grupos mais afetados pela
Aids no país do respondente. Além da análise de conteúdo
qualitativa dessas entrevistas, também foi realizada a aná­
lise de conteúdo das campanhas oficiais contra a Aids e
do discurso de políticas públicas sobre a Aids dos governos
da África do Sul e da Grã-Bretanha. A escolha de um
método multifacetado se liga ao pressuposto de que as
representações sociais são plasmadas na interação entre o
pensamento popular e o contexto social em que esse
pensamento acontece. Este capítulo discute os resultados
das entrevistas com não-especialistas, mas também se
utiliza de aspectos de uma análise mais ampla.

Resultados: “Eu não”, “Não o Meu grupo”

Os dados se caracterizaram pela negação de que a


Aids se tenha originado no continente com o qual o
respondente se identificava, e a negação de que o HIV
estivesse, no momento, se disseminando no interior do seu
grupo. Continentes e grupos diversos daqueles com os
quais os respondentes se identificavam eram receptáculos
de projeções relacionadas à Aids. Desse modo, em primeiro
lugar e fundamentalmente, as pessoas dizem “eu não",
"não o meu grupo", quando falam sobre a origem e a
disseminação da Aids. A grande maioria dos sujeitos
brancos, na amostra total, acredita na origem africana da
Aids (14 em 16 sujeitos brancos sul-africanos e 11 em 16
sujeitos brancos britânicos); a maioria dos sujeitos negros,
na amostra total, acredita na origem ocidental da Aids (10
em 14 sujeitos negros sul-africanos e 11 em 14 sujeitos
negros britânicos).

Ao falar sobre os grupos mais atingidos pela Aids em


seu próprio país, dois terços dos sul-africanos (19 em 30),
tanto negros como brancos, acreditam que as pessoas
negras são mais afetadas pela Aids na África do Sul; dois
terços dos respondentes britânicos (20 em 30), tanto ho­
mossexuais como heterossexuais, acreditam que os ho­
mossexuais são mais afetados pela Aids na Grã-Bretanha.
Dois pontos precisam ser realçados, com relação a esse
achado. Em primeiro lugar, é importante notar que, quando
falam sobre a Aids, os sul-africanos dividem espontanea­
mente sua sociedade em grupos raciais, ao passo que os
britânicos a dividem em relação a grupos sexualmente
orientados. Em segundo lugar, a divisão da projeção rela­
cionada à Aids não é simétrica. Sul-africanos negros e
britânicos homossexuais vêem a si próprios, e não outros
grupos, como mais afetados pela Aids. Esses fatores indi­
cam a maneira como mecanismos psíquicos internos inte­
ragem com forças sociais para forjar as representações
sociais da Aids: ainda que exista uma tendência para
imaginar que acontecimentos ruins têm sua origem em
outros, se alguém é constantemente bombardeado com
representações que ligam seu próprio grupo a esses acon­
tecimentos, ele pode internalizar tais representações (Joffe,
1994). Da mesma forma, também é importante notar que,
quando essas entrevistas foram realizadas, as estatísticas
oficiais do governo da África do Sul não apresentavam a
população negra como a mais atingida pela Aids. Ao
contrário, homens brancos e homossexuais estavam afeta­
dos muito mais seriamente. Mas, ao mesmo tempo, os
meios de comunicação de massa de todo o mundo apre­
sentavam uma disseminação exponencial da doença do
centro da África para as periferias.
Antes de nos voltarmos para a explicação teórica do
processo "eu não"/“meu grupo não", vejamos o intricado
conjunto de representações, referentes à ameaça que gru­
pos externos trazem ao grupo próprio. Minha sugestão é
de que a tendência dominante na representação da Aids
se relaciona com a responsabilidade, e especialmente com
a responsabilidade e a culpabilidade do “outro” . Todas as
três representações que serão ilustradas relacionam-se a
esse núcleo central. Certos grupos, entretanto, tais como
homens homossexuais, absorvem a responsabilidade que
foi projetada neles pelas representações dominantes que
circulam na sociedade. Tais grupos vêem os outros como
responsáveis pela Aids em parte, mas consideram-se tam­
bém como os agentes causadores dela.

1. A Representação Social da responsabilidade

Dois terços da amostra total (19/30 sul-africanos e


20/30 britânicos) empregam um discurso que implica res­
ponsabilidade, quando falam de pessoas que contraíram o
HIV/AIDS. Quando falam sobre pessoas com Aids, uma
resposta comum é:
"Muitos deles são irresponsáveis no que se refere a sua vida
sexuai; não se protegem e acredito que sejam promíscuos"
(Homem, branco, britânico, heterossexual).

É comum, entre os respondentes, que eles discutam


consigo mesmos a respeito do grau de culpabilidade de
várias pessoas com Aids:
"Veja, as pessoas que pegam, em primeiro lugar, do jeito
como eu vejo, eles na verdade não estão se importando, não
são pessoas estáveis. Assim eles não serão tão responsáveis
em primeiro lugar... Mas eu penso que isso não é justo,
porque há muitas pessoas inocentes que M o pegá-la, não
As conseqüências que recaem sobre as pessoas ten­
dem a ser vistas como controláveis. Contrair Aids está
relacionado com escolha. As pessoas com Aids são julga­
das como estando "em falta” , ou dignas de acusação,
porque contraíram um vírus. Indivíduos são considerados
diretamente responsáveis pela Aids. Entretanto, como ve­
remos a seguir, a Aids também faz "vítimas inocentes".

2. A Representação Social do "vazamento":


cruzando limites raciais e sexuais

De que forma, então, a Aids alcança suas vítimas


"inocentes"? Como é possível que a praga do grupo exter­
no se transforme em um problema para o próprio grupo?
De que forma grupos distintos, cada um com fronteiras
sociais bem delineadas ao seu redor, podem se contami­
nar? Existem representações poderosas de “vazamento"
que vêm de um grupo externo, infectado, para o próprio
grupo,"inocente” .
Quase um terço (8 de 30) da amostra sul-africana cita
a sexualidade entre raças em conexão com a disseminação
da Aids.
"Eu penso que durante a relação sexual de pessoas de
nações diferentes. Por exemplo, eu sou da nação Zulu, ou
melhor, de uma nação negra. Alguém é da índia e eu sou
um cara negro e durmo com uma menina de uma nação
indígena... isso é o que eu penso que causa Aids, como a
relação sexual de um "de cor" [pessoa miscigenada] e um
homem negro, em vez de dormir com um "de cor" (Homem,
negro, sul-africano, heterossexual).

"Os negros - eu garanto que foi de pessoas que vieram lá


de cima da África e espalharam. Eu não sei sobre os brancos.
Eu garanto que deve ter havido uma cruza entre negros e
"Se você dorme com sua namorada e você não está seguro
quanto a ela ou mesmo se ela viveu com alguém de outra
nação, então ela vem com você e isso é a causa de você
pegar Aids... Não se preocupe com Aids, elas dizem em
geral, Aids é coisa de brancos. Assim, se você quiser pegar
Aids, é só ir para Eldorado, lugar de gente "de cor" [pessoas
miscigenadas], e você vai pegar Aids. Mas aqui em Soweto
não há Aids" (Homem, negro, sul-africano, heterosse­
xual).

Como o terceiro exemplo mostra, muitas vezes são


lugares que fornecem às pessoas objetificações da asso­
ciação entre sexualidade inter-racial e Aids.

Tanto na África do Sul, como na Grã-Bretanha, o


conceito de "vazamento” da Aids entre o grupo próprio e
o grupo externo também inclui orientação sexual. A bisse-
xualidade representa a contravenção da fronteira entre a
heterossexualidade e homossexualidade. Ela é vista como
o ponto em que a Aids faz sua transição entre grupos
homossexuais e heterossexuais por um terço dos sul-afri-
canos (10 em 30), e para mais de um terço dos britânicos
(12 em 30). O trecho seguinte é típico:
"Eu penso assim, as pessoas mais perigosas nesses tempos
são as pessoas bissexuais que são casadas e eles trouxeram
a Aids pra casa para suas esposas, e então suas esposas,
quando ficam grávidas, para os filhos..." (Homem, negro,
inglês, homossexual).

Rock Hudson e Freddy Mercury são muitas vezes


mencionados quando um respondente procura expressar
que cruzar fronteiras entre diferentes orientações sexuais
ocorre com mais freqüência do que nós pensamos.

Uma fonte a mais de vazamento da Aids se dá através


da sexualidade entre animais e humanos. Um quarto dos
sul-africanos (8 em 30) e um quinto dos britânicos (6 em
30) trazem à tona a bestialidade quando falam de Aids:
"Como eu ouvi falar, ela começou na Inglaterra... Ela come­
çou entre um macaco e uma pessoa depois que uma pessoa
teve relações sexuais com um macaco... depois que apessoa
teve relações com o macaco ele nunca se lavou e ele
procurou sua companheira. Então eles tiveram relações"
(Homem, negro, sul-africano, heterossexual).

“Os macacos na África. Eu penso que foi isso que ouvi falar
e isso foi passando Deus sabe de que jeito. Eu ouvi algumas
histórias horríveis sobre como ela chegou até nós [muita
risada], Que eu prefiro não dizer.
Entrevistador: Eu, na verdade, estou muito interessada
em ouvir... Tu poderias me contar, mesmo que seja difícil.
Respondente: Era exatamente o que se chama de bestia­
lidade, eu penso" (Homem, branco, britânico, heteros­
sexual).

Os grupos a que as pessoas não pertencem são facil­


mente associados com uma sexualidade aberrante. Mas
que outras práticas são associadas com o continente ou
grupo infestado pela Aids, o continente ou grupo que são
vistos como contaminando o próprio grupo? Acima de dois
terços da amostragem total (21 em 30 britânicos; 23 em 30

Tabela 1: Práticas Associadas ao Continente


ou Grupo Infectados pela Aids
sul-africanos) mencionaram pelo menos um dos cinco
fatores seguintes em associação com contrair HIV:
Um terço da amostra (11 em 30 sul-africanos; 11 em
30 britânicos) combinam pelo menos dois dos cinco fatores,
chegando a uma surpreendente mistura, que eu chamo de
"cocktail de pecados” . O cocktail de pecados envolve a
combinação de duas ou mais práticas "aberrantes” , uma
supergeneralização da medida em que elas são praticadas
e a sua ligação a determinados grupos. Os seguintes
extratos das entrevistas expressam o processo de combinar
um número de práticas pecaminosas do “outro", com o
objetivo de distanciar da Aids a identidade e as práticas
do respondente. Respostas à pergunta "Onde se originou
o HIV/Aids?” seguido da pergunta "Como se dissemina o
HIV/AIDS" aparecem abaixo. As alusões previamente
mencionadas sobre bestialidade persistem como parte de
um cocktail de pecados mais amplo. As respostas da
população branca, para cada uma das duas culturas, são
apresentadas primeiro.
"Os macacos na África. Eu penso que foi isso que eu escutei
que ela se espalhou Deus sabe de que jeito. Eu ouvi falar de
algumas histórias horríveis sobre como ela chegou até nós
[ri muito). Que eu prefiro não dizer... Era exatamente o que
se chama de bestialidade, eu penso... Eu poderia imaginar
que seria algo como... as tribos na África seriam provavel­
mente mais inclinadas a esse tipo de coisas... Se um homem
pegou e ele fez sexo com sua mulher e alguém aparece, eu
não sei como essas tribos vivem, assim eu não sei o julga­
mento moral que se deve fazer sobre eles. Alguém poderia
chegar e pagar algum dinheiro e fazer sexo com a mulher
dele e então ele poderia levar isso para seu país e passá-lo
a sua mulher... Eu imagino que isso é horrível na África. Se
começou lá, não há jeito de controlar. Não há remédio. Eu
imagino que realmente isso seria terrível. Eu espero que
muitos desses países [Terceiro Mundo] serão varridos. Eles
simplesmente não entendem esse tipo de coisa" (Homem,
branco, britânico, heterossexual).
"Essas pessoas não se lavam. Quero dizer, eu não quero ser
preconceituoso [em voz baixa, devido à empregada na casa]
mas você não sabe por onde eies andam, quero dizer, as
mulheres são muito sujas, realmente elas são sujas, incrivel­
mente sujas. Eu quero dizer que não existem, eu penso que
não existem banheiros, eles sentam e urinam onde eles
dormem, eles defecam onde dormem. Quer dizer, isso só tem
de causar certa reação... o sexo é tão mal usado que ele se
toma nojento. Eu não sei, com galinhas, eu não sei o que
eles usam, eu penso que eles praticam besüalidade, não sei.
Mas de minha parte eu penso que é devido a isso [que a
Aids aparece]... poderia ser devido ao incesto, que o cérebro
desapareceu dessas pessoas, por que essa gente [em voz
baixa] não sabe. Eles casariam com a irmã deles amanhã"
(Homem, branco, sul-africano, homossexual).
Todos os sujeitos brancos relacionam a Aids com os
ritos sexuais aberrantes do "outro" africano. Para os britâ­
nicos, o "Terceiro Mundo” é visto como impotente, porque
não possui uma medicina ocidental, enquanto que o sul-
africano (branco) expressa a noção de aberração em termos
de rituais ligados à sujeira e sua narrativa culmina numa
idéia de degenerescência. Chama a atenção que esse
mesmo sujeito (homem, sul-africano, branco) seja homos­
sexual e relate que ele mesmo pratica uma ampla gama de
atividades sexuais com grande número de parceiros. Mas
o que dizem os respondentes negros sobre a origem e a
disseminação da Aids?
"O Ocidente, eles praticam toda sorte de atividades sexuais
- falando da América, Europa, Rússia, etc. Eles têm homos­
sexuais, eles têm bissexuais, heterossexuais, e eles têm
gente que é tão doente que chega a ter relações com
animais, etc. Assim que eu penso, porque eles estão sempre
experimentando, eles estão sempre tentando descobrir. Isso
e aquilo, isso e aquilo, eles sempre querendo descobir o que
lhes convém. Assim eles estão sempre experimentando um
com o outro, com outras coisas, outras criaturas, outros
objetos quaisquer. Assim se você faz isso sempre, é certo
que você vai ter alguma coisa errada nessa linha... É certo
pois eles estão sempre experimentando. Esse filme que eu
vi, 'First B o m e eles tentaram cruzar um gorila com um ser
humano e eles estão sempre fazendo esse tipo de coisa e
para mim isso é doença, assim desse jeito, deve ter aconte­
cido algo errado e essa doença apareceu, porque ninguém
sabia dela antes disso... Se você lê a história da África, a
história da escravidão, e como os europeus costumavam
colonizar todos os africanos e todos os outros países, os
países mais pobres daqueles tempos, toda vez que eles vão
para um país eles levam uma doença com eles. Como, por
exemplo, os índios americanos, eles morreram por causa do
homem branco, porque o homem branco levou doenças, ele
matou os índios americanos, ele lhes roubou as terras, ele
lhes roubou todos os seus pertences, etc., e ao mesmo tempo
ele lhes passou doenças, todo tipo diferente de doenças que
eles nunca tiveram, que eles nunca tinham tido. Assim para
mim, olhando para isso desse jeito, o principal problema, não
há maneta de você contrair a Aids na África porque a África,
para mim, é o único país, no momento, que não está
suficientemente ocidentalizado para criar novos problemas"
(Homem, negro, britânico, heterossexual).

"Como eu ouvi dizer ela começou na Inglaterra... Ela come­


çou entre um macaco e uma pessoa depois de uma relação
sexual com um macaco... depois que a pessoa teve relações
com o macaco ele nunca se lavou e procurou sua parceira.
Então eles mantiveram relações. Então a parceira não se
segurou, foi e teve relações com outro, e assim foi que ela
se espalhou. Ele nunca se lavou antes de ii jogar futebol e
assim a Aids foi transmitida às pessoas... porque no futebol
eles suam. Então depois de suarem, ele se encosta em mim
suado e então eu pego Aids" (Homem, negro, sul-africa­
no, heterossexual).

Para os respondentes negros o "outro" do Ocidente


também está relacionado com uma sexualidade aberrante.
O sujeito negro britânico traz a relação entre experimenta­
ção com sexo e rituais experimentais de laboratório. O
próprio ato de interferir no que é "natural" é visto como
uma maneira de ser não-africana. Os sul-africanos tendem
a se mostrar mais preocupados com promiscuidade e com
falta de higiene, como causadores de Aids.
As quatro narrativas apresentadas são típicas do gran­
de número de questões que surgem do conjunto geral dos
dados. Elas mostram uma simetria notável: tanto os sujei­
tos negros, como os sujeitos brancos, imaginam que o
outro seja aberrante em termos de rituais sexuais, e isso é
visto como a causa da Aids.

3. A Representação Social da conspiração

Certos aspectos da representação social da Aids são


menos simétricos que o cocktail de pecados. A maioria dos
sujeitos negros britânicos (8 em 10) e a metade dos respon­
dentes também britânicos, mas homossexuais (negros e
brancos), acreditam que a Aids é uma conspiração. Embora
alguns heterossexuais brancos reconheçam a existência
dessa conspiração, eles o fazem apenas para descartá-la.
A conspiração sugerida pelos britânicos marginalizados
dirige-se, em geral, contra seu próprio grupo. A conspira­
ção é muitas vezes objetivada no desejo da CIA (Agência
Central de Inteligência dos EE.UU.) de varrer do mundo
grupos marginais:
"Eu penso que ela [Aids] poderia possivelmente ser uma
guerra química... Eu li pedaços de publicações em que a CIA
estava ligada, e sejamos realistas aqui. Você sabe, podia
muito bem ser, você sabe, se você quer erradicar uma
espécie do mundo, ou uma minoria, ou uma categoria, do
mundo, sejam insetos ou outra qualquer, você vai ao seu
sistema reprodutivo, não é, algo onde haveria contato, ou
contato íntimo... certamente poderia ser a comunidade ho­
mossexual" (Homem britânico, branco, homossexual,
HIV positivo).
"Há grande possibilidade de ela [Aids] ser um experimento...
Ela poderia ser usada como uma arma, eu penso, ela poderia
ser usada como uma arma, não sei. Os americanos inventam
uma porção de coisas, não é? As pessoas pensam que eles
são as pessoas mais inocentes, mas eles não são, há uma
porção de coisas que acontece por detrás das portas fecha­
das... talvez um animal teve essa doença desconhecida, ou
qualquer outra coisa, e eles provavelmente colheram amos­
tras de seu sangue ou seja o que for, poderia ser um macaco,
um chimpanzé, qualquer coisa, não? - e poderia ter vazado,
é uma dessas possibilidades, você sabe, um pouco como o
caso de Chemobyl" (Homem, negro, britânico, heteros­
sexual).
Surpreendentemente, apenas 1, em trinta sul-africa-
nos, culpa a Aids por ser uma conspiração humana. São os
grupos marginalizados, na amostra britânica, que freqüen­
temente representam a Aids em termos de conspiração.

Teorizando as Representações Sociais da Aids

Os dados apresentam um quadro em que (i) "o outro"


é responsável pela Aids, (ii) em que o "vazamento" ocorre
entre "o outro” e o Eu, ou o próprio grupo, devido a práticas
aberrantes, e em que (iii) no caso de certos grupos margi­
nalizados, uma conspiração traz a Aids para seus próprios
grupos. Eu mencionei que o núcleo central do “outro” , nas
representações sociais da Aids, se relaciona com o proces­
so de ancoragem, em que a Aids é ancorada a epidemias
incuráveis prévias. Eu também propus que o núcleo central
do "outro" é um instrumento projetivo de defesa. Aqui, eu
me proponho a elaborar essas suposições à luz dos dados
apresentados acima.

Antes de delinear as representações sobre epidemias


incuráveis que fornecem as âncoras para as representações
sociais da Aids, é preciso que tenhamos claro de que
maneira grupos marginalizados têm sido vistos, através da
história, em períodos de ameaça. Cohn (1976) demonstra
que desde o século II dC grupos marginais foram o depo­
sitário para fantasias de perversão erótica, canibalismo e
infanticídio. Tais representações foram formuladas pelos
romanos, dentro do Império Romano, quando estes se
encontraram ameaçados pela ascensão do poder cristão,
um grupo marginal naquele período. A cristandade medie-
vai reativou as fábulas romanas de eroticismo, canibalismo
e infanticídio, e as aplicou a grupos religiosos externos:
“Sempre de novo, em um período de séculos, seitas heréti­
cas foram acusadas de praticar orgias promíscuas no escu­
ro... ou adorar o demônio" (Cohn, 1976:54).
“Quando se tratou de desacreditar alguns grupos religiosos
externos, os monges se socorriam desse conjunto de rótulos
difamatórios" (Cohn, 1976:56).

Cohn (1976) afirma que fantasias referentes a rituais de


grupos estranhos propiciam uma arma para que o próprio
grupo desacredite o grupo estranho, construindo suas
práticas como ameaçadoras para a sociedade. Embora essa
teoria esteja, em grande parte, confinada a representações
que emergem em períodos de dissensão religiosa, ela
também encontra ressonância no que diz respeito ao
tratamento de grupos estranhos, em períodos de outras
crises. Epidemias incuráveis - que representam uma crise
potencial para um grande número de pessoas - têm sido
ligadas, historicamente, a grupos estranhos, cuja sexuali­
dade é aberrante e cujos rituais são misteriosos. Eu vou
centrar minha discussão no laço histórico que se estabele­
ceu entre a sífilis e a aberração, ainda que outras "pragas"
potenciais, tais como a cólera, tenham evocado repre­
sentações semelhantes.
Na cultura ocidental do século XIX, a sífilis caracteri­
zava depravação moral (Gilman, 1985). As mulheres negras
e as prostitutas eram tidas como as principais transmisso­
ras da doença. Ambos os grupos eram associados a uma
sexualidade desenfreada. As mulheres negras, em particu­
lar, representavam tanto a hipersexualidade, como o exó­
tico. Elas eram geralmente consideradas como possuindo
tanto um apetite sexual "primitivo" como os sinais externos
de tal condição: uma genitália "primitiva". Imaginava-se
que as mulheres negras copulavam com macacos (Gilman,
1992). Os museus europeus do século XIX exibiam diagra­
mas e partes da genitália das mulheres Hottentot. As
diferenças entre suas partes sexuais e as das mulheres
ocidentais eram usadas para provar que elas pertenciam a
uma espécie inferior. Ao mesmo tempo, as mulheres Hot-
tentot eram figuradas em obras de arte da época como
objetos extremamente sexualizados. A forma como os
europeus degradavam os povos negros, ligada ao seu
voyeurismo, era evidente na fascinação que ocorria com
relação aos genitais das mulheres negras, bem como em
certas práticas institucionais: os zoológicos da Alemanha,
Áustria e Budapeste, possuíam pessoas africanas antes da
I Guerra Mundial (Gilman, 1985). Tais grupos externos
eram representados tanto de uma maneira degradante -
pela sua associação a espécies inferiores -, como de modo
erótico.

O laço entre grupos estranhos, aberração e doença


voltou à cena principal nas representações sociais da Aids.
Isso fica indubitavelmente claro nos cocktails de pecados
que se depreendem dos trechos das entrevistas apresen­
tadas acima. Mas, é importante salientar que tais idéias
não se originaram no psiquismo de indivíduos privados: as
representações médicas e as representações dos meios de
comunicação sobre a Aids forneceram as sementes para
essas noções.

A literatura médica ocidental tem sido pródiga na


elaboração da associação entre a Aids e os rituais que são
vistos como aberrantes no Ocidente. Farmer (1992) inves­
tigou uma corrente da literatura médica que ligou a Aids
com as práticas do vudu:
“Os cientistas norte-americanos especularam repetidamen­
te que a Aids pode ser transmitida entre os haitianos através
dos ritos do vudu, a ingestão de sangue de animais sacrifi­
cados, o alimentar-se de gatos, a homossexualidade rituali-
zada, etc. - uma rica parafernália de coisas exóticas”
(P. 224).
Do “vudu", por exemplo, se disse que:
"traz à mente visões de mortes misteriosas, ritos secretos -
ou bacanais escuros celebradas por negros 'sanguinolentos,
tarados, enlouquecidos”’ (Métraux, 1972: 15).

O laço entre a Aids, o vudu e o grupo externo haitiano


penetrou revistas médicas americanas de prestígio, e dali
deslocou-se para os meios de comunicação de massa e
para a população leiga. Os meios de comunicação ociden­
tais, cuja penetração vai muito além do Ocidente, conti­
nuaram considerando o mundo subdesenvolvido, e a África
em particular, como o lugar onde a Aids se originou. O elo
entre África, macacos e Aids, conquistou a atenção popu­
lar, porque ele se ajusta a pré-concepções relacionadas à
natureza causadora de doenças da floresta africana. Fan­
tasias relacionadas à sujeira, doenças e promiscuidade
sexual vêm rapidamente à mente ocidental quando se
pensa na África (Dada, 1990). A validade dos relatórios
médicos, que sustentam um elo entre a África, os Macacos
Verdes e a Aids, somente foi questionada posteriormente,
devido à pressão que os próprios grupos estigmatizados
exerceram sobre os médicos.

As nossas entrevistas mostram que, enquanto os oci­


dentais consideram as práticas de grupos que lhes são
estranhos - africanos e homossexuais - como perversas,
da mesma forma, também os sujeitos negros viam as
práticas ocidentais com suspeita. Esses dados corroboram
a afirmativa de Farmer (1992) de que grupos acusados em
função da Aids são sugestionáveis a teorias conspiratórias
sobre a origem da doença. A Aids é considerada como
tendo sido fabricada em laboratórios de pesquisa - muitas
vezes pela CIA ou pelo FBI - para fins de engenharia
genética ou de guerra biológica (Aggleton et al.,1989). Mais
uma vez, os meios de comunicação desempenharam um
importante papel na circulação dessa representação. As
teorias conspiratórias em relação à Aids foram inicialmente
defendidas no Haiti, onde um folheto denunciou a Aids
como "uma conspiração imperialista para destruir o Ter­
ceiro Mundo" (Farmer, 1992). Depois disso, teorias conspi-
ratórias receberam uma atenção regular na imprensa ho­
mossexual da América do Norte e da Europa, e no mundo
subdesenvolvido. Exatamente aqueles que haviam sido
acusados de ter introduzido o HIV/AIDS no mundo ociden­
tal foram os principais defensores das teorias conspirató-
rias. Teorias conspiratórias parecem, assim, ser uma defesa
retórica de grupos destituídos de poder. Elas são uma
forma de resistência às representações sociais mais hege­
mônicas, que proliferaram nos meios de comunicação de
massa de todo o mundo. Uma das representações sociais
dominantes afirma que a Aids se originou e se disseminou
a partir dos Macacos Verdes na África. Embora os médicos
não tenham sugerido a bestialidade, na África, como uma
forma de contato entre os Macacos Verdes e seres huma­
nos, existe um discurso recorrente, nos meios de comuni­
cação, sobre um tipo de vírus HIV-símio, que se aproxima
do vírus humano. Ora, a população leiga necessita enten­
der, a seu modo, como esse vírus passou do macaco para
seres humanos. Quando ligada a transformações incons­
cientes, relacionadas a práticas aberrantes praticadas por
grupos estranhos na África, uma representação que impli­
que bestialidade passa a ter sentido.
Ainda dentro da teoria de Cohn (1976), o caráter
estranho dos rituais pertencentes a grupos externos é
usado tanto para denunciar o grupo externo, como para
distanciar o próprio grupo desse tipo de ritual. Da mesma
forma que o canibalismo desempenhou um papel crucial
de denunciar a civilização indígena do "Novo Mundo” ,
também a bestialidade e outros rituais são utilizados para
denunciar os africanos. Os cronistas de Colombo superge-
neralizaram a escala em que o canibalismo, a bestialidade
e o infanticídio eram praticados, e imaginaram que as
pessoas combinavam essas três práticas (Thomsen, 1987).
As concepções européias sobre o "Novo Mundo" conti­
nham uma estranha mistura de mitos, fábulas e fantasias
coletivas. É essa estranha mistura de mitos com respeito
à África que fornece hoje aos ocidentais um caminho para
ver os africanos de um modo degradante e alheio, permi­
tindo, ao mesmo tempo, que os ocidentais se distanciem
dos africanos e da doença que hoje é associada a eles.

Projeção sobre o estrangeiro

O processo histórico, através do qual um poderoso


conjunto de fantasias ligadas à bestialidade, à sujeira, à
promiscuidade e à homossexualidade emergiu como res­
posta à Aids, não pode ser meramente explicado olhando-
se para representações anteriores de epidemias incuráveis.
É necessário ir mais a fundo para explicar o laço histórico
entre doença e condição estrangeira. Mudanças no am­
biente social produzem insegurança, que por sua vez
exacerba conflitos de identidade não resolvidos. Quando
as pessoas ligam práticas aberrantes a um “outro", já não
lhes é mais necessário se deparar com os conflitos que
também lhes pertencem (Gilman, 1985). Por isso, a maneira
como os europeus representam doenças epidêmicas incu­
ráveis, reflete muito de suas tensões e problemas não
resolvidos (Gilman, 1988).

Cada grupo social tem vários "depositários" (Sher-


wood), ou "grupos indefesos” (Gilman, 1988; Andreski,
1989) como alvos potenciais para projeção desses proble­
mas não resolvidos e tensões. Para a teoria das repre­
sentações sociais, o conhecimento que as pessoas têm
sobre grupos que podem ser alvo de projeção é construído
tanto por memórias coletivas, como pelas teorias que
circulam na comunidade científica, nos meios de comuni­
cação de massa e nas conversações do dia-a-dia. As
diferenças nas representações sociais que diferentes indi­
víduos sustentam podem ser atribuídas às diferentes posi­
ções sociais de cada indivíduo. Ainda que diferentes
grupos, em uma sociedade, tenham diferentes “depositá­
rios” para acusar, a ideologia dominante da sociedade
tende a propagar imagens de alguns grupos específicos
como o seu “outro" total. Os homossexuais tendem a ser
um dos grupos que ocupa essa posição nas sociedades
ocidentais. Além do mais, experiências subjetivas e inter­
nas são parte e parcela desses posicionamentos sociais. É
dentro de um referencial sócio-histórico e psicodinâmico,
que uma teoria que explique o processo do “eu não / o meu
grupo não” deve ser desenvolvida.

A projeção de ações socialmente inaceitáveis sobre


outros está relacionada a sistemas de defesa primários,
cujos traços permanecem ao longo de toda a vida. A
defesa, ainda que tenha sua origem no sujeito individual,
pode ser tanto exacerbada como diminuída, dependendo
das práticas discursivas que estão em torno do sujeito em
desenvolvimento. Desse modo, a interação contínua entre
meios de comunicação e o imaginário popular é central
para o processo de formação de fantasia. De acordo com
Klein (1952), desde os primeiros meses de vida a criança
usa artifícios de autopreservação para se defender contra
a ansiedade que é sentida quando seu objeto primário - na
maior parte das vezes, a mãe - não consegue satisfazer
suas necessidades. Sentimentos de ódio em relação à
experiência de perseguição por parte do objeto primário
são superados quando a criança os separa dos sentimentos
de amor que ela quer conservar. A dissociação, como
mecanismo inconsciente de defesa, consiste na introjeção
de experiências e sentimentos prazerosos, e na projeção
de experiências e sentimentos ruins. A dissociação, a
introjeção e a projeção estão entre os primeiros processos
mentais ativos da criança. Resíduos de sentimentos e
defesas primárias permanecem com o sujeito durante toda
a vida. Bion (1961), e mais recentemente Young (1991),
afirmaram que sentimentos e defesas primários se tornam
parte das vicissitudes da interação cotidiana, que são
reativados quando a pessoa experimenta impotência em
relação a objetos do mundo externo. A ameaça de epide­
mias incuráveis é uma dessas experiências. O mecanismo
de dissociação, que opera entre a criança e seu objeto
primário, possui uma contrapartida social. No processo de

L
formação da identidade, as pessoas dissociam os “objetos"
(ou pessoas) do mundo ao seu redor, em grupos bons e
grupos maus. Essas dissociações naturalmente também
são geradas por divisões ocorridas na história de suas
respectivas sociedades. Quando ocorrem mudanças amea­
çadoras no ambiente social, as representações da mudança
servem para dar às pessoas um sentimento de controle da
situação potencialmente incontrolável. Surgem então rep­
resentações defensivas da mudança como as repre­
sentações que garantem a idéia do "eu não” , "o meu grupo
não". O que se busca aqui é controle e sentido de comu­
nidade, através da projeção do medo na realidade externa.
As representações sociais da Aids são formadas atra­
vés da ancoragem da Aids a ideologias que já circulam em
determinada sociedade, e através da objetificação da Aids
em certos lugares, práticas ou grupos. Aquelas repre­
sentações sociais da Aids que eu procurei mapear refletem
ideologias centrais que circulam na África do Sul e na
Grã-Bretanha. Individualismo, colonialismo e heterossexis-
mo são comuns a ambas as sociedades, enquanto que
ideologias ligadas ao apartheid são específicas à África do
Sul, e teorias conspiratórias são específicas à Grã-Breta­
nha. A predisposição das pessoas para endossar certas
representações sociais de um acontecimento, e não outras,
emerge das experiências da infância ligadas às experiên­
cias da vida adulta em constante desenvolvimento, que
interagem com imagens mediatizadas pelos meios de
comunicação, lendas e brincadeiras populares.
Gilman (1988) mostra que representações ocidentais
da doença contêm o medo do colapso. De acordo com o
processo de projeção, porém, esse medo do colapso não
permanece internalizado. Ele é projetado no mundo exter­
no, justamente para ser facilmente localizado. Uma vez
localizado, o medo da desintegração é removido. Esse
processo é graficamente descrito por Williamson (1989). Ela
afirma que o pensamento dominante em relação ao
HIV/AIDS:
"unifica um pântano de realidades impensáveis, em que a
homossexualidade (para muitas pessoas) já está submergi­
da, um território gótico onde os temores são jogados numa
espécie de terra mental abandonada, para além das mura­
lhas do castelo do ego" (p. 70).

A construção de um "território gótico" é funcional: ela


permite a manutenção do controle do próprio território.
Aqueles que operam dentro do “território gótico" são
considerados alienígenas. Os alienígenas deixam claro que
comportamentos os membros da sociedade devem evitar
e desempenham um papel importante na coesão e identi­
dade do grupo dominante. Junto a esses grupos encontra-
se um conjunto de práticas que, por serem elas mesmas
“desvio", constroem os parâmetros que definem as normas
da sociedade. O “outro" é necessário ao Eu. A o definir o
que é um "comportamento antinatural” , os membros de
um grupo também estabelecem as denotações do que é
"natural” . De acordo com Gilman (1992), fantasias relacio­
nadas a grupos estranhos permitem às pessoas projetar nos
outros aquelas facetas de si mesmas que elas, e suas
respectivas sociedades, consideram inaceitáveis. A “não
aceitabilidade" é, em grande parte, ditada por aquelas
práticas que diferem do status quo e por isso o subvertem.
E aqui é importante que se diga: as representações sociais
que constroem o “outro" como aberração têm conseqüên­
cias para a prática. Elas permitem que esse “outro" seja
maltratado e discriminado: a subordinação daquelas pes­
soas, cujos sistemas de valores, práticas e identidades são
diferentes, passa a ser apenas um desdobramento justo de
uma lei considerada “natural".

Conclusão

A disseminação da Aids, seja ela representada em


termos de sexualidade inter-racial, seja em termos de
conspiração, aparece sempre como responsabilidade de
grupos que são externos ao próprio grupo. A projeção da
responsabilidade sobre grupos estranhos é um mecanismo
de defesa que afasta tanto o próprio grupo como o Eu da
Aids, deixando intacta a sensação de controle. A projeção
intergrupal ocorre como forma de controlar o que ameaça
nossos sentimentos de onipotência. A partir da perspectiva
kleiniana dos processos projetivos (1952), Douglas (1966)
afirma que as pessoas constroem sistemas simbólicos
ligados à pureza, a fim de ordenar o conjunto caótico de
estímulos que existem ao seu redor. Aqueles elementos
que não podem ser classificados dentro do sistema amea­
çam sua ordem e se tornam, por isso, tanto perigosos, como
poderosos. A emocionalidade, a espiritualidade e o lado
instintivo (animal), historicamente associados aos grupos
estranhos (Cohn, 1976), ameaçam o sentimento de onipo­
tência.

Espero ter enfatizado, suficientemente, o papel do


afeto - incluindo aqui sentimentos de medo, ansiedade e
impotência - na formação das representações sociais. A
teoria das representações socias nos alerta para o fato de
que essas respostas emocionais não se originam em indi­
víduos isoladamente. Elas são o produto de representações
emocionais da doença, que surgiram historicamente, mas
que ainda hoje circulam no meio científico, nos meios de
comunicação de massa e do pensamento popular. O ato
mesmo de construção da representação social, como um
todo, relaciona-se com o medo de impotência diante de
um objeto social desconhecido. O elemento defensivo,
contudo, pode ser aumentado na representação social de
crises.
Nas representações sociais sul-africanas e britânicas
sobre a origem e a disseminação da Aids, nós podemos
observar uma cacofonia de pecados postos juntos. O bes­
tial, o bissexual e o conspiracional são "liquidificados" ao
mesmo tempo, produzindo uma mistura forte de imagens
e fantasias relacionadas às práticas de grupos estranhos.
Ao construir cocktails de pecado que geram doenças, as
pessoas fazem de suas próprias práticas um conjunto de
práticas “puras". Isso vem reforçar um sentimento de
imunidade diante do HIV/AIDS e sustentar valores hege­
mônicos. Não é, pois, coincidência que a grande maioria
de minha amostra total sinta que suas chances de contrair
o HIV são mínimas. Sejam quais forem as práticas pessoais
de alguém, as práticas do “outro” podem ser construídas,
ao nível das representações sociais, como mais perversas,
antinaturais e geradoras de doença. Mas, ao mesmo tempo
em que se distanciavam das ações do "outro” , os sujeitos
de meu estudo se mostraram excepcionalmente dispostos
a teorizar e descrever essas práticas. A qualidade de tal
teorização, embora freqüentemente expressa em termos de
repulsa, é uma demonstração de desejo. O desejo co-existe
com a desumanização das práticas do “outro” . A fascina­
ção do mundo médico, de não-especialistas e dos meios
de comunicação pela homossexualidade e pela sexualida­
de africana, nesses tempos de Aids, é uma expressão de
desejo. O gozo é obtido, aqui, através de um olhar voye-
rístico aos cocktails de pecado que grupos estranhos,
“exóticos", representam. Como conseqüência, grupos es­
tranhos se deparam com representações que os degradam
e os sexualizam, ao mesmo tempo. Os dados discutidos
aqui indicam que os membros de grupos marginalizados
freqüentemente internalizam tais representações, o que os
faz surgir com identidades deterioradas. A internalização
de uma representação degradante e sexualizada se revela
na fala de muitos membros de grupos marginalizados:
"Eu mesmo sou homossexual, mas os homossexuais são
repugnantes. Hum, você teve, quero dizer, não vamos ficar
aqui fazendo rodeios... a coisa é tão violenta que com isso
agora nós estamos vivendo num tempo em que um homem
se achega a outro homem em plena luz do dia. Eu fui
abordado em plena luz do dia, sabe, e em locais públicos e
coisas assim. E existem, hum, é verdade há uma porção de
parques, e há multa atividade sexual clandestina acontecen­
do por aí, clubes, camionetas, ônibus; eu foi molestado nos
piores lugares, sabe. Eu, pessoalmente, passei pelas situa­
ções mais incríveis, há uma porção de desvios de compor­
tamento acontecendo e isso eu não estou dizendo que é
errado, mas é certamente um desvio, sabe" (Homem, ne­
gro, britânico, homossexual).

Referências bibliográficas

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Polytechnic of East London, 1-2 November.
SOBRE OS AUTORES

Martin Bauer é professor de p s ic o l o g i a s o c i a l e


Métodos da Pesquisa Social na London School of Econo-
mics and Political Science e Research Fellow no Museu de
Ciências de Londres, Reino Unido.

Gerard Duveen é professor da Faculdade de Ciências


Políticas e Sociais da Universidade de Cambridge, na
Inglaterra, e Fellow do Corpus Christi College. Em 1990
organizou, com Barbara Lloyd, o livro Representações
Sociais e o Desenvolvimento do Conhecimento.

Rob M. Farr é Professor de p s ic o l o g i a s o c i a l na


London School of Economics and Political Science. Em
1984 editou, com Serge Moscovici, o livro Representações
Sociais.

Pedrinho A. Guareschi é Professor de p s ic o l o g ia

SOCIAL nos Mestrados de Psicologia e Comunicação da


Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul,
Brasil, e Professor na Accademia Alfonsiana (Universidade
Lateranense), Roma.

Hélène Joffe é PhD pela London School of Economics


and Political Science e atualmente trabalha como pesqui­
sadora na mesma instituição.

Sandra Jovchelovitch é psicóloga, professora na


Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul,
Brasil, e está completando seu PhD na London School of
Economics and Political Science.

Maria Cecília Minayo é Professora e pesquisadora


da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo
Cruz, no Rio de Janeiro, Brasil. Publicou, entre outros: O
Desafio do conhecimento - pesquisa qualitativa em saúde.

Serge Moscovici é Professor na École des Hautes


Études en Sciences Sociales, de Paris. É um dos fundadores
da Associação Européia de Psicologia Experimental e é
c o n s id e r a d o o in ic ia d o r d a t e o r ia d a s r e p r e s e n t a ç õ e s
s o c ia is .

Mary Jane Spink é Professora e coordenadora do


Programa de Estudos Pós-graduados em p s ic o l o g i a s o c i a l
da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Editou,
em 1993, o livro O Conhecimento no Cotidiano - As
representações sociais na perspectiva da psicologia social.

W olfgang Wagner é Professor da Universidade de


Linz, na Áustria, e co-editor da revista Papers on Social
Representations.
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