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O representacionalismo *

A noção de modelo, tão central para a maior parte dos


autores que estudamos neste capítulo, está naturalmente ligada a
de representação: supõe-se que os cientistas constroem modelos
que representam mais ou menos bem partes da realidade. Mas a
noção mesma de representação está longe de ser clara a priori,
em particular, em um contexto científico.

Que tipo de relação se designa com este termo?

Na esteia de trabalhos de Suppes e sua escola, esta questão


adquire máxima importância. O principal objetivo da ciência será
o de fornecer representações mais ou menos adequadas da
experiência; a tarefa do filósofo da ciência é justamente
determinar a natureza dessa relação de representação.

A representação de que aqui se trata não se parece com a


ação de um espelho que reflete um objeto tal como é. Os objetos
que deverão ser apresentados por modelos de teorias científicas
são sempre, de certo modo, objetos estruturados
conceptualmente. Por exemplo, o objeto chamado de "família
Silva", que deve ser representado por um modelo de "mini-teoria"
das relações de parentesco descritas anteriormente, não é um
objeto de "experiência pura" do sociólogo ou do psicólogo, mas
um objeto concebido estruturalmente, de certa maneira, em que
certas propriedades e relações são essenciais e outras, que
poderá levar em conta (como, por exemplo, a cor do cabelo dos
membros da família), não o são. Em suma, os objetos estudados

*
Parte do livro El desarrollo moderno de la filosofía de la ciencia (1890–2000), Cap. 6 -
Concepciones modelísticas y emparentadas (1970-2000), item 3, de C. Ulises Moulines,
traduzida por Nelson H. F. .

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pelas teorias científicas são domínios simplificados e estruturados
de certa maneira.

Na representação científica, trata-se de proceder de tal


modo que os modelos da teoria, que são eles mesmos estruturas,
representem o melhor possível estes domínios estruturados que
são dadas empiricamente. No entanto, não se pode pressupor
que, na representação, haja um acordo estrutural entre o total
domínio representado e o modelo. Nesse caso, se trataria de uma
relação de isomorfia; enquanto que — para usar um termo
técnico das matemáticas — na representação científica trata-se,
no melhor dos casos, de estabelecer um homomorfismo — uma
forma de relação mais "fraca" que a isomorfia, que produz uma
espécie de assimetria entre o representado e o representante
(este último é mais rico em conteúdo "supérfluo") —.

Mais ainda, os casos mais interessantes de representações


científicas, o projeto mesmo de estabelecer uma verdadeira
homomorfia entre representado e representante se torna
irrealizável. Podemos pesquisar entre as duas partes relações
funcionais que sejam ainda mais fracas, pelo menos, têm que ser
informativas; este tipo de relação tem sido descrito
frequentemente como a “subsunção" (embedding *) de um

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Para uma definição desta noção de subsunção, ver, por exemplo, o artigo de
Suppes "Representation Theory and the Analysis of Science" [Teoria da
representação e a análise da ciência], que contém, além de uma breve exposição
dos objetivos gerais do representacionalismo.
Na matemática, uma incorporação (embedding) é uma instância de alguma
estrutura matemática contida em outra instância, como um grupo que é um
subgrupo. Quando se diz que algum objeto X está embutido em outro objeto Y, a
incorporação é dada por algum mapa injetivo e que preserva a estrutura f: X → Y.
O significado preciso de 'preservação de estrutura' depende do tipo de estrutura
matemática da qual X e Y são instâncias. Na terminologia da teoria de categorias,
um mapa de preservação de estrutura é chamado de morfismo. Cf. Wikipedia.

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modelo empírico de um modelo matemático, passando a ser o
primeiro um "submodelo" do segundo.

Não entraremos aqui em detalhes muito técnicos das


relações funcionais entre estruturas que podem ser vistos como
representações adequadas em um contexto científico.
Assinalemos somente que a ideia essencial do
representacionalismo consiste em conceber o conhecimento
científico como a investigação das relações funcionais
(reconstruíveis, utilizando-se toda a precisão necessária) entre as
diferentes estruturas — relações que permitam fazer inferências
sobre a natureza do objeto estudado (concebido já de certa
forma) partindo de propriedades estruturais dos modelos
utilizados para representá-lo—.

Um tema essencial na análise dos fundamentos da ciência


moderna — a questão da natureza da medida, constitui uma linha
de investigação particularmente frutífera no âmbito do programa
representacionalista. Medir objetos empíricos (tarefa que, como
se sabe, teve um papel crucial no desenvolvimento da ciência
moderna e não apenas nas ciências físicas) é um processo de
representação no sentido preciso que acabamos de sugerir. Que
fazemos quando medimos os objetos em um determinado
domínio? A resposta do representacionalismo é que seja
estabelecida uma relação de representação entre um domínio
qualitativo dado e uma estrutura matemática (normalmente
numérica).

Por exemplo, suponhamos que queremos medir a estatura


dos alunos de uma escola; este conjunto de indivíduos é, em
primeiro lugar, um objeto para representar que tem entre seus
membros relações "qualitativas", ou "diretamente observáveis"
que descreve constatando que um aluno qualquer é "mais alto"

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ou "tão alto" como outro. Ora, quando medimos a altura dos
alunos, o que fazemos, em última instância, só é conferir a esse
objeto "qualitativo" (o conjunto de alunos articulado em torno da
relação observável da altura) uma estrutura matemática que
compreende números e a relação aritmética entre esses
números .

Certamente, este exemplo que acabamos de dar um


exemplo é muito banal; no entanto, a tese do
representacionalismo é que todas as formas de medida, mesmo
as mais complexas conhecidas no domínio das ciências, consistem,
essencialmente, no mesmo procedimento. O que às vezes se
chama o processo de matematização de uma disciplina não é
senão a investigação das condições adequadas que permitem
estabelecer este tipo de relação funcional (chamada justamente
de representação) entre estruturas empíricas dadas e estruturas
matemáticas adequadas que as representam e que nos permitem
obter informações sobre as primeiras — informações que, sem as
estruturas matemáticas correspondentes, poderiam ser obtidas
muito dificilmente ou não de maneira absoluta, já que o material
qualitativo é geralmente muito menos preciso e muito mais difícil
de manipular conceitualmente —.

Para compreender melhor a importância deste programa de


reconstrução do conceito de medida para a epistemologia e a
metodologia geral da ciência, ilustraremos através de um
exemplo, ainda muito simples, mas mais interessante do que o
anterior.

Suponhamos que para, objetos físicos de tamanho médio,


queremos atribuir-lhes números que expressem o seu peso (ou,
mais exatamente, a sua massa) — que é justamente o que se
entende pela expressão "medir o peso dos objetos"—. Não temos

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um acesso observacional direto a estes números; tudo o que
podemos constatar diretamente é que há objetos mais pesados
(no sentido qualitativo) ou tão pesados como os outros; além
disso, também podemos constatar diretamente que dispomos de
um aparelho (uma balança, por exemplo), o que nos permite
reunir ("combinar" ou "concatenar" são as expressões técnicas
usuais) dois objetos diferentes sobre um mesmo prato da balança
constituindo assim um terceiro objeto que é, por assim dizer, da
combinação ou concatenação dos outros dois. Trata-se de
constatações puramente empíricas ou diretamente observáveis.
Não se trata ainda de números nem de quantidades. No entanto,
se a estrutura constituída pelo conjunto de objetos físicos, a
relação entre eles (que descrevemos como "ser tão ou mais
pesado que") e, finalmente, a operação de combinação que
consiste em colocá-los juntos no mesmo prato da balança —.

Se esta estrutura satisfaz algumas condições axiomáticas de


natureza empírica, pode-se provar formalmente que existe uma
função numérica (uma "magnitude"), que simbolizaremos por " "
(a "massa"), que tem a propriedade de atribuir a cada objeto
físico um número, de tal modo que, se um objeto é tanto ou
mais pesado (no sentido intuitivo, qualitativo) que outro , então
e se um objeto é resultado da combinação
(empírica) de , então .

É possível também provar que esta função é unívoca, salvo


por transformações de escala que são fáceis de formular. Pode-se
dizer, então, que representamos a estrutura empírica, constituída
por objetos físicos mais ou menos pesados em relação de uns com
os outros e combináveis, através de uma estrutura matemática de
números provida de relações " " e " ".

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Resumidamente, representamos os dados da experiência
através de uma estrutura matemática. Eis aqui um ponto crucial
para compreender em que consiste a relação entre a experiência
e a matemática — o que, como se sabe, é um tema central da
filosofia da ciência —. Certamente, a prova de que é possível
representar uma determinada estrutura empírica através de uma
estrutura matemática convincente depende essencialmente das
condições axiomáticas que a estrutura empírica deve satisfazer; e
estas não são, em geral, condições fáceis de estabelecer.

A proposição que exprime uma estrutura empírica dada


satisfaça algumas condições que permitem provar a existência e
unicidade de uma representação numérica apropriada para essa
estrutura é o que se chama de teorema de representação. Uma
parte muito importante do programa representacionalista
consiste justamente em estabelecer teoremas de representação
para um grande número de número de conceitos científicos em
todas as disciplinas (comprimento, tempo, massa, energia,
entropia, carga elétrica, etc., em física; e também, útil em
economia ou outras medidas em psicologia da percepção ou
teoria da aprendizagem).

Estes resultados foram expostos por Suppes e seus


colaboradores (D. Krantz, R. J. Luce e A. Tversky) em uma obra
monumental, Foundations of Measurement [Fundamentos da
medição]; o primeiro volume (o mais interessante do ponto de
vista epistemológico), apareceu em 1971; os outros dois (muito
técnico) em 1987 e 1989.

Em certo sentido, pode-se estabelecer uma relação de


filiação entre este programa representacionalista, que se apoia na
ideia de que os verdadeiros fundamentos do conhecimento
científico são constituídos por entidades e operações diretamente

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observáveis (sendo "derivados", os conceitos teórico-matemáticos
mais abstratos a partir de teoremas de representação) e o
operacionalismo clássico de Bridgman na fase de eclosão da
filosofia da ciência. No entanto, enquanto Bridgman e seus
discípulos queriam definir rigorosamente os conceitos teóricos
matematizados da ciência por meio de operações de laboratório,
os representacionalistas atuais sabem que tais "definições" não
são, em geral, possíveis (ou prejudicaria o desenvolvimento das
ciências se fossem postuladas); por conseguinte, limitam-se a
estudar as condições empíricas que permitem representar (o que
não equivale a definir) os dados da experiência em uma estrutura
teórico-matemática, que é, em si, lógica e metodologicamente
independente dos dados empíricos. Pode-se qualificar o programa
de teoremas de representação de operacionalismo refinado...

A partir dos anos setenta, aparece outra corrente da


filosofia da ciência que também pode ser chamado de
"representacionalista", mesmo que fosse concebida de forma
independente. Trata-se dos trabalhos do físico Gunther Ludwig
(Alemanha, 1918-2007) e de seus discípulos (todos eles físicos
teóricos). A partir de um ponto de vista histórico, o único ponto
em comum de Ludwig com Suppes e seus sucessores é o uso do
linguajem da teoria de conjuntos para construir as teorias
científicas e para esclarecer suas relações com a experiência
preteórica. De fato, Ludwig aplica os instrumentos da teoria de
conjuntos de uma forma muito mais sistemática do que Suppes e
seus colaboradores, utilizando o instrumento fundamental do
programa Bourbaki. No caso de Ludwig, o programa reconstrutivo
proposto para as teorias físicas consiste em estabelecer os
princípios de correspondência unívocos entre os conceitos
teóricos e a base experimental específica de uma teoria
determinada, abandonando a ideia de que possa haver uma base

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universal comum para todo o conhecimento científico: cada teoria
tem sua própria base experimental já "pronta" (o Grundtext, na
terminologia, bastante peculiar, de Ludwig), a partir da qual certas
correlações (Abbildungsprinzipien) são estabelecidas com a ajuda
do aparelho matemático próprio da teoria em questão.

Da mesma maneira, como nas outras formas de


representacionalismo, estes princípios de correlação são, em
geral, menos exigentes do que os do homomorfismos, mas devem
ser formulados em linguagem da teoria de conjuntos. Além disso,
estes princípios estão sempre associados a uma estrutura
topológica que representa o aparelho aproximativo que permite
colocar em relação o sistema matemático e o Grundtext. A ideia
de aproximação é, para Ludwig, uma parte essencial e irredutível
de toda teoria física verdadeira: defende uma visão
aproximativista do conhecimento científico, que será retomada
em concepções modelísticas posteriores. Ludwig aplicou
sistematicamente suas ideias para a reconstrução da mecânica
quântica e, de forma menos sistemática, a outras teorias físicas
mais clássicas, como a mecânica newtoniana ou a eletrodinâmica.
Apresentou sua metateoria geral em sua principal obra, Die
Grundstrukturen einer physikalischen Theorie (1978) [As
estruturas fundamentais de uma teoria física]. Mesmo quando
seus trabalhos comportam elementos originais e estimulantes
para a reflexão epistemológica, tiveram pouca repercussão fora
do muito restrito círculo de físicos alemães com interesses
metodológicos. Três fatores podem explicar essa carência de
divulgação: o estilo e a terminologia de Ludwig são extremamente
particulares, às vezes, quase ininteligíveis para o comum dos
filósofos; não tendo colocado em relação a sua metateoria com
outras concepções contemporâneas da filosofia da ciência, parece
ignorar quase tudo; e (last but not least – em último lugar, mas

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não menos importante) nenhum de seus livros foi publicado em
inglês...