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Regulamentação da profissão de psicanalista

Regulation of the psychoanalyst’s profession

Déborah Pimentel1
Palavras-chave
Regulamentação, profissão, psicanalista, ética, inconsciente.

Resumo
A autora apresenta a proposta de um projeto de lei que está tramitando no Senado Federal
e que tem o objetivo de regulamentar a profissão de psicanalista; argumenta que somente
diante da experiência do seu próprio inconsciente é que um candidato a analista se capacita
ao exercício de escuta em um registro que possa ser qualificado de psicanalítico. Não se
transmite o ato psicanalítico, ele é sempre uma criação singular vinculada mais à ética do que
à técnica. Sem a integração entre a análise pessoal, estudos teóricos e uma boa supervisão de
técnica, não existem processos de formação analítica.
Sempre foram uma preocupação do (ALBERTI et al. 2009).
Círculo Brasileiro de Psicanálise os inúme- As instituições da Articulação pensam de
ros projetos que surgem, tentando regula- forma semelhante: a psicanálise não é práxis
mentar a profissão de psicanalista que não específica de nenhum profissional, como o
é regulamentada na maioria dos países (PI- próprio Freud advogou no seu artigo A ques-
MENTEL, 1993). tão da Análise Leiga (1926), apontando que a
Diante da existência de instituições ines- habilitação legal por capacitação universitária
crupulosas e da nossa preocupação a respei- não autoriza nenhum médico ou psicólogo a
to daquilo que é oferecido como formação ser psicanalista, pois o seu saber está além do
psicanalítica, surgiu o que chamamos hoje saber universitário.
de Articulação das Entidades Psicanalíticas Ser psicólogo ou médico não oferece ga-
Brasileiras, um grupo que tem na sua forma- rantias para uma boa prática. Por outro lado,
ção um tripé comum: análise do candidato a psicanálise, por não ser uma prática profis-
a psicanalista, estudos teóricos e supervi- sional regulamentada nem regulamentável,
são dos casos clínicos. Este grupo se reúne pode ser exercida por “qualquer pessoa” que
há quase uma década no Rio de Janeiro e é queira percorrer as trilhas do seu próprio in-
formado por representantes de instituições consciente, se submeta a uma supervisão e
de psicanálise que se reconhecem entre si, a estude a teoria freudiana. Outrossim, não po-
exemplo do Círculo Brasileiro de Psicanáli- demos nos distanciar do fato de que a apre-
se (CBP), da Federação Brasileira de Psica- ensão teórica da psicanálise não é suficiente
nálise, da Escola Letra Freudiana, do Corpo para que se forme um analista.
Freudiano, da Sedes Sapientiae, da Escola Somente diante da experiência do seu
Brasileira de Psicanálise, da Escola de Psi- próprio inconsciente é que um candidato se
canálise dos Fóruns do Campo Lacaniano, capacita ao exercício de escuta em um regis-
entre muitas outras. Como resultado dessas tro que possa ser qualificado de psicanalítico.
discussões, editou-se e publicou-se um livro Não será um título de especialista devidamen-
com essa temática, organizado por Sônia Al- te registrado em um conselho que autorizará
berti, Wilson Amendoeira, Edson Lannes, um especialista ao seu ofício. Entretanto sa-
Anchyses Lopes (CBP)e Eduardo Rocha bemos o que significa um apelo de um curso
1 Presidente do Círculo Brasileiro de Psicanálise (2008-2010) e do Círculo Psicanalítico de Sergipe (2009-
2011). Editora da Revista Estudos de Psicanálise. Doutoranda em Ciências da Saúde, curso do Núcleo de
Pós-graduação em Medicina da Universidade Federal de Sergipe.

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lato ou stricto sensu e o valor das publicações curricular aprovadas pela FENATE. Imagi-
em periódicos indexados. nem, instituições tradicionais na formação
Constroem-se hipóteses acerca dos ver- de psicanalistas, como as que fazem parte da
dadeiros objetivos de uma regulamentação e Articulação, a partir da promulgação dessa
de uma sistematização de ensino universitá- lei, não teriam mais autonomia para funcio-
rio para a psicanálise. Apesar de muitos psi- nar, salvo com autorização da FENATE.
canalistas estarem inseridos no mundo aca- Com a regularização proposta mais uma
dêmico e de gostarem muito do que fazem, vez, afinal este não é o primeiro e nem tam-
eles também percebem o distanciamento pouco será o ultimo projto de lei que aborda
das propostas e a inviabilidade de ensinar a o tema, a psicanálise seria considerada um
clínica psicanalítica dentro de uma univer- saber completo, uma obra fechada.
sidade. É, sem dúvida, uma ilusão imaginar que
Freud, no texto de 1919, Sobre o ensino alguém detém o saber psicanalítico que não
da psicanálise nas universidades, advertiu se submete a nenhum saber completo.
sobre a impossibilidade da formação de psi- Lacan disse que o saber é fruto positivo
canalistas no espaço acadêmico e revelou da revelação da ignorância, que é o não sa-
seu desejo de que a psicanálise fosse objeto ber , que por sua vez, não é uma negação do
de estudo na grade curricular da formação saber, mas a sua forma mais elaborada.
médica. Ou seja, o fundador da psicanálise Manter a psicanálise entre as paredes de
deixou claro que ensino e formação são coi- uma instituição de nível médio, como deseja
sas diferentes. o autor desse projeto, ou mesmo universitá-
Há um projeto de lei (PLS 64/09) trami- ria, é querer reduzir o saber psicanalítico. É
tando no Congresso e que está na Comissão tomar o desejo do saber como uma demanda
de Assuntos Sociais do Senado Federal, que de simples orientação. Freud foi quem afir-
muito nos assusta. O projeto dispõe sobre a mou que o saber como tal é uma das formas
regulamentação do exercício das atividades mais requintadas da resistência à psicaná-
de terapias, a criação do Conselho Federal lise, e essa pretensão, portanto, não se sus-
de Terapeutas (FENATE) e dos Conselhos tentará, uma vez que o saber universitário é
Regionais de Terapeutas, suas atribuições incompativel com a psicanálise, comprome-
e responsabilidades. De acordo com a pro- tida com a verdade do inconsciente. A re-
posta, o exercício das atividades de acupun- gulamentação da profissão, por conseguin-
tura, homeopatia, terapia floral, fitoterapia, te, sob essa ótica, não seria uma forma de
psicanálise, psicoterapia, tai-chi-chuan, do- monopolizar o saber e reter o poder, numa
in, auriculoterapia, entre outras, será regu- ostensiva distorção da transmissão em psi-
lado pelo Conselho Federal de Terapeutas canálise? Aqui devemos fazer uma correção,
(LIMA, 2009). pois no novo modelo seria transmissão da
As atividades, estabelece a proposta do psicanálise. Pois uma faculdade ou escola
autor do projeto, serão exercidas por profis- de psicanálise seria capaz de, no máximo,
sionais qualificados em cursos reconhecidos transmitir informações acerca de um saber
pelo FENATE, com carga horária mínima de que seria dito completo. Ou ainda, uma es-
180 horas, acrescidas de estágio. Para ofere- cola ou faculdade de psicanálise poderia dar
cer formação adequada aos profissionais em instrução, ou seja, seria, sem dúvida, capaz
terapia, foi sugerida a criação de uma Facul- de transmitir certos conceitos metapsicoló-
dade de Terapias Profissionais, reconhecida gicos, mas nunca formar um psicanalísta,
pelo Ministério da Educação. E, enquanto tal pois a informação não é, por si só, suficiente
faculdade não for oficializada, o autor propõe para tal.
a criação de curso de capacitação profissio- Quem formaria, portanto, os analistas?
nal técnica de nível médio. Tais cursos, pela Quem ensina a psicanálise e não vive a in-
proposta, deverão ter supervisão e matriz quietude da análise e as suas vicissitudes li-

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gadas à criatividade como consequência de Numa escola de nível médio ou mesmo


uma demanda da própria teoria analítica e em uma universidade, essas coisas não fa-
do desejo do saber não pode por conseguin- zem sentido. A transmissão não está subme-
te formar psicanalistas. Até mesmo porque a tida a estudos ou regras; nesse campo há que
formação de um analista só pode ser resul- se criar, mas sempre via escuta do incons-
tante da análise de um sujeito, processo esse ciente. Aquele que assim o fizer sabe, ou seja,
impossível de ser regulamentado, enquadra- sabe que não sabe. O trabalho de formação
do e ter efeitos previsíveis e, portanto, sem diz respeito a cada um. A função de analista
garantias. não é transmitir, mas permitir que um pro-
Fala-se em garantias porque talvez seja cesso de psicanálise ocorra. A psicanálise só
essa uma das alegações dos defensores da re- pode ser vivida na própria pele via ato analí-
gulamentação da profissão, talvez eles quei- tico, que permite um encontro com o saber
ram, com razão, dar um basta aos excessos que escapa sempre na procura permanente
antiéticos dos jogos perversos que se estabe- do objeto causa do desejo. Será através da
lecem em algumas relações ditas terapêu- báscula do não-saber (que não é paixão pela
ticas. Imagino também que esses excessos ignorância) que advirá a associação livre, a
continuariam a acontecer e dessa feita sob a regra fundamental da psicanálise.
tutela do tal Conselho, a FENATE, uma vez Mas não criemos ilusões, pensando que
que profissionais que tenham certos títulos apenas o famoso Conselho (FENATE) que
se sentiriam autorizados a uma prática sem seria criado por lei e o ensino na universi-
nenhuma habilitação para tal. Portanto, ao dade poderiam ser ameaças ou traição ao
invés de garantias, teremos oficialização de espírito da psicanálise. É para as próprias
práticas muitas vezes perversas. instituições formadoras que devemos tam-
Diz o autor justificando o seu projeto de bém estar atentos já que, sob o risco de se
lei que “a corrida desenfreada por esse mer- instituírem como autoridade que é lei, e não
cado, bastante atraente e vulnerável à entrada como portadoras dela, podem determinar o
de aproveitadores, coloca, muitas vezes, em percurso, exigir uma análise por encomenda
risco a saúde e até a vida do usuário, sendo e apontar os possíveis analistas e determinar
necessária a criação de instrumentos para im- os requisitos que devem ser burocratica-
pedir que pessoas despreparadas nele atuem”. mente preenchidos para outorgar uma auto-
Portanto, outro argumento, suponho, seria o rização para se dizer analista.
de encerrar as disputas acerca de quem são os Com isso reafirmamos que o objeto de
verdadeiros psicanalistas. Mas esse desejo não transmissão é o inconsciente e que o ensi-
denunciaria também um interesse de manter no da psicanálise não pode ser regulado e
o controle simbólico sobre a legitimidade no massificado por leis ordinárias, pelo fato de
campo psicanalitico? ser um ofício que usa o inconsciente como
De que transmissão afinal estaríamos instrumental do trabalho e que, por suas pe-
falando? Seria uma simples passagem de culiaridades, é intransmissível.
um conhecimento entre dois sujeitos? A É isso que uma verdadeira psicanáli-
transmissão em psicanálise é única e é ex- se produz: o abandono da presunção de se
clusivamente a transmissão de uma expe- apropriar da técnica sem passar pela ex-
riência analítíca e, portanto, pertence ao periência. Um analista estará para sempre
campo do testemunho. Não se transmite marcado pelas vicissitudes da sua relação
o ato psicanalítico, ele é sempre uma cria- transferencial com o inconsciente. Diferen-
ção singular vinculado mais à ética do que temente do médico ou do psicólogo que co-
à técnica. Sem a integração entre a análise loca o sintoma apenas do lado do paciente,
pessoal, estudos teóricos e uma boa super- um analista se interroga como sintoma em
visão de técnica não existem processos de sua própria experiência: ponto tensional, vi-
formação analítica. rulento, que não deixará de marcar toda a

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sua prática. Nesse sentido, há, na metapsico- technique. Without the integration of personal
logia freudiana, o rastro de um pensamento analysis, theoretical studies and a good super-
ético que, de certa maneira, alinhava os des- vision of the technique, there are no processes
dobramentos da transferência. of analytic formation.
Acreditamos que ainda é a instituição
psicanalítica, apesar das dificuldades de se
conviver com o narcisismo e as diferenças Referências
de seus pares, o lugar simbólico que melho-
res condições tem de abrigar a produção e
reprodução da psicanálise, dando susten- ALBERTI, S.; AMENDOEIRA, W.; LANNES, E.;
tação para uma prática clínica reconheci- LOPES, A; ROCHA, E. (orgs). Oficio do psicanalista:
da, regida, sem dúvida, por uma ética que formação versus regulamentação. São Paulo: Casa do
se refere a uma instância ideal de regulação Psicólogo, 2009.
da experiência psicanalítica, a que todos os
seus membros estão submetidos na condi- FREUD, S. [1919]. Sobre o ensino da psicanálise nas
ção de agentes dessas experiências. universidades. In: _____. Edição standard brasileira
Em consequência da articulação que se das obras psicológicas completas. Trad. Jayme Salo-
faz entre ética da psicanálise - ou seja, éti- mão. Rio de Janeiro: Imago, 1988. v.XVII. p. 185-
ca do desejo ou ainda reconhecimento do 189.
sujeito da diferença - e ética da instituição
psicanalítica, é que se conclui que a psica- FREUD. S. [1926]. A questão da análise leiga. . In:
nálise não se ensina, mas se transmite. Por _____. Edição standard brasileira das obras psicológi-
não se poder falar em ensino da psicanáli- cas completas. Trad. Jayme Salomão. Rio de Janeiro:
se, conclui-se novamente que a formação de Imago, 1976. v.XX. p.205-293.
um analista se dá pela experiência psicana-
lítica fundada na transferência e nunca pelo LIMA,A.Projeto de lei 64/2009. Disponivel em: www.
caminho do saber universitário, uma vez senado.gov.br/atividade/materia/detalhes.asp?p_
que o ensino teórico da psicanálise deve se cod_mate=89701. Acessado em 23 de fevereiro de
submeter sempre às exigências éticas da in- 2010.
dividualidade ao acesso ético do desejo do PIMENTEL, D. Psicanálise: formação ou ensino?
analista: únicos valores éticos que de fato Belo Horizonte, n.16, p.43-45, outubro 1993.
regulam a experiência psicanalítica e a for-
mação de psicanalista.
Tramitação:
Keywords Recebido: 20.09.2010
Regulation, profession, psychoanalyst, ethics, Aprovado: 01.11.2010
unconscious. Nome da autora: Déborah Pimentel
Endereço: Praça Tobias Barreto 510-1212
Abstract Bairro São José
The author presents the proposal of a draft CEP: 49015-130. Aracaju-SE
statute that is currently being discussed in the E-mail:deborah@infonet.com.br
Federal Senate and aims to regulate the psy-
choanalyst’s profession and argues that it is
only by facing the experience of his/her own
unconscious that a candidate to psychoana-
lyst becomes capable of a listening that can be
qualified as psychoanalytic. The psychoanalytic
act can not be transmitted; it is always a singu-
lar creation that is linked more to ethics than

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