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Um dos muitos temas da geografia política é a relação do Estado, e sua prerrogativa da

violência legítima, com a sociedade e o território. O Leviatã de Hobbes promete a troca da


liberdade por um bem maior, a garantia da vida contra a morte violenta. No entanto, a
sociedade brasileira ama um Estado que não é capaz de cumprir este princípio básico e aceita
sem muita discussão essa máquina tão cara que cria leis e regulamentos para tudo, mas não é
capaz de evitar o risco do assalto, da execução, da bala perdida, do acidente na estrada e no
trânsito urbano, do deslizamento de encostas com a casa junto.

Mas as funções do Estado não param por aí. Desde o início do século XX, na esteira do
keynesianismo, sua legitimidade depende também de outras funções voltadas para atender
aqueles direitos básicos dos habitantes do território sob sua jurisdição como: educação, saúde,
acesso à moradia digna, saneamento, proteção do emprego e outros mais que configuram uma
cidadania inclusiva e moderna. Continuamos a amar o Estado brasileiro, mas ele também não
garante esses outros direitos.

Essas funções esperadas do aparato estatal remetem diretamente à intervenção federal na


segurança pública no Rio de Janeiro e à ausência do debate sobre o nosso Leviatã. Sua
relação com os mais diferentes segmentos da sociedade, suas instituições, as corporações, as
oligarquias e o patrimonialismo que têm dominado boa parte da história da formação estatal
no país são temas necessários e urgentes para compreender minimamente porque chegamos
onde estamos.

Afinal, temos uma máquina burocrática cara que custeia os três poderes da República que se
desdobra na estrutura federativa de três níveis. Ao mesmo tempo estamos em 11° lugar no
ranking mundial de violência e em 10° no ranking de desigualdade social. Por mais que
estatísticas globais amplas sejam imprecisas, quem vive no país e conhece um pouco outras
realidades aceita esses dados como bastante aproximados.

Mas, a sociedade continua a amar o Estado e quaisquer discussões ou debates sobre o porquê
da sua dificuldade em atender às demandas legítimas da sociedade, que afinal de contas é
quem banca seus custos, esbarram em questões diversionistas ou ideológicas. Quem se
beneficia das benesses desse Leviatã injusto e ineficiente não quer mudar nada; quem acredita
que é preciso substituí-lo por outro modelo, sem dizer qual, também não se interessa em
entender suas engrenagens perversas e transformá-las. Sobram aqueles que sofrem o peso da
violência e da desigualdade e aqueles que tentam dar um pouco mais de racionalidade ao
debate sobre os processos sociais e territoriais históricos de reprodução da desigualdade e da
violência no país, inclusive política, porém ainda sem muito sucesso.

Prof. Dr.ª Iná Elias de Castro


Professora Titular da UFRJ
Coordenadora do grupo GEOPPOL