Você está na página 1de 3

ERIC VOEGELIN - IDEOLOGIAS)

Eric Voegelin odeia com ódio mortal qualquer tipo de ideologia, seja à direita à esquerda ou ao centro, seja
marxismo, nacional-socialismo ou positivismo. Eis uma síntese de seus motivos:

1) Desonestidade intelectual: a ideologia é uma forma de desonestidade intelectual, pois o sujeito não busca examinar a estrutura
da realidade; logo um ideólogo não pode jamais ser um cientista;

2) Busca da razão: ideólogos disputam rixas internas que demonstram que ambos os lados estão errados; basta, portanto,
manter-se contra todos para ao menos ter alguma razão (Voegelin cita como exemplo de sua afirmação a reforma protestante
no século XVI);

*em razão dessa sua posição Voegelin fora chamado de comunista, fascista, nazista, liberal, judeu, católico, protestante,
platônico, neo-agostiniano, tomista e hegeliano.

3) Ódio primitivo: as ideologias foram criadas para justificar o morticínio de seres humanos por diversão; mais profundamente,
tal comportamente decorre de uma necessidade de conquista de uma pseudo-identidade para substituir a perda do ego humano,
o que se faz preferencialmente matando alguém; isto é feito através da criação de Segundas Realidades, que substituem as
tensões reais como vida/morte, luz/trevas, fé/desespero, as quais são inerentes à Primeira Realidade (ver The Eclipse of Reality).

Em razão deste eclipse, perde-se a dignidade inerente a todo ser humano, transformando este numa mera máquina a ser
exterminada em razão de uma "causa". No meio intelectual, a ideologia cria a indiferença ante a dor alheia. Os intelectuais
perdem o próprio ego e se transformam em proxenetas a serviço do Estado totalitário.

4) Destruição da linguagem: seja no nível do jargão intelectual de alta complexidade seja no nível vulgar, a ideologia busca
ocultar suas premissas erradas se valendo de outra estrutura de linguagem, para que tais premissas equivocadas não sejam
descobertas e discutidas. Cita como exemplo ideólogos que preferem Hegel a Marx apenas porque aquele usa linguagem mais
complicada. Marx era um charlatão intelectual deliberado, que criou uma ideologia para apoiar a violência contra seres
humanos. O problema da filosofia de Marx era sua fuga constante e consciente de dialogar com o argumento etiológico de
Aristóteles (problema segundo o qual o homem não provém dele mesmo, mas do plano divino da realidade).

5) Vulgarização do debate: as ideologias vulgarizam as discussões intelectuais, fazendo do debate público uma oclocracia
(governo de vulgares). Considera-se fascista/autoritária simples referência a fatos da história cujo conhecimento é necessário
para discussão de problemas políticos. Condena-se assim o conhecimento histórico e filosófico. Os intelectuais limitam seus
horizontes de consciência, razão pela qual os debatedores são analfabetos funcionais com forte ânsia de autopromoção.

Todo este contexto de perversão dos símbolos necessários à compreensão da realidade favoreceu a ascenção de Hitler na
Alemanha, provando Voegelin que o nacional-socialismo alemão não foi um fato aleatório ou a que estava a Alemanha
predestinada a sofrer, mas resultado da decadência moral, espiritual e intelectual de uma nação que trocou Cristo por Thor e
Odin.

Voegelin alerta que não se pode admitir um vulgar como interlocutor de um debate, pois se trata de um problema sério, já que
foram os vulgares que construíram a atmosfera intelectual propícia à figura de Hitler. No caso alemão, os destruidores da língua
nacional pela literatura e pela imprensa (fato relatado por Karl Kraus em Die Fackel) foram os verdadeiros culpados pelas
atrocidades do nacional-socialismo, que só foi possível em razão do ambiente social tão destruído permitir a ascensão de um
representante deste nível vulgar.

A ideologia é chamada de religião política, apesar do termo religião ser vago e deformar o problema real da experiência,
segundo relata o próprio Voegelin. A autoridade da Igreja é substituída pela do Estado, o que demonstra a íntima ligação entre
a vida do espírito e a vida política (relação que o prof. faz entre Leviatã de Hobbes, o Hino do Rei Sol de Akhenaton e o
Apocalipse). Esta alteração da autoridade enseja a criação de realidades alternativas, fundadas somente em bases ideológicas.
A luta do prof. Voegelin é restaurar a ordem do espírito na vida em sociedade.

Fonte: Reflexões Autobiográficas e Hitler e os Alemães, ambos de Eric Voegelin.

Texto de Dk Bertelli

EXAME DA PALAVRA "IGUALDADE"


Aparentemente, nada menos difícil do que definir uma palavra, pois que é natural que quem
fala saiba o que diz; todavia, prova a experiência que nem sempre é assim. Raros sãos os
homens capazes de apreciar o sentido das palavras que empregam. A confusão dos termos
nasce da confusão das idéias, e aumenta esta confusão. Uma questão animadíssima se
debate em nossa presença, de ambas as partes sustentada com talento pouco comum.
Verdade é que a cada instante a questão se desloca e muda de objeto; mas nem por isso a
luta é menos encarniçada e ardente: dir-se-iam dois inimigos mortais em campo de batalha.
Quereis apagar este ardor? notai a palavra sobre que versa a discussão e perguntai aos
campeões em que sentido a empregam. Vereis como eles tergiversam, atacados por lado que
não esperavam; talvez deste modo os esforçareis a dar conta, pela primeira vez, do verdadeiro
sentido de uma expressão de que se têm feito inúmeras aplicações. Se por ventura acontece
que cada qual dê facilmente e de pronto a definição do outro, e que a discordância que antes
versava ou parecia versar sobre o fundo da questão, se transladará de repente a novo terreno
entabulando-se disputa sobre o sentido da palavra. Disse parecia versar, porque quem
houvesse observado o giro da questão, bem acharia que debaixo do nome da coisa se
ocultava frequentemente a significação da palavra.
Em todas as línguas há expressões vagas, muito gerais, mal definidas. Cada uma as traduz
segundo o seu modo de ver; múltiplas como o sentimento ou a paixão que as interpreta, f
azem o desespero da lógica e parecem inventadas para confundir tudo.
Demos um exemplo:
"A igualdade - dirá um declamador - é obra do mesmo Deus, lei por Êle estabelecida. Todos
nascemos chorando e todos morremos suspirando: a natureza não faz diferença entre pobres
e ricos, nobres e plebeus; também a religião nos ensina que todos temos a mesma origem e
o mesmo destino. A igualdade é a obra de Deus; a desigualdade é a obra do homem; só a
maldade pôde introduzir no mundo essas horríveis desigualdades de que o gênero humano é
vítima; só a ignorância e ausência do sentimento da própria dignidade as tem podido tolerar".
Esta definição declamatória não deixa de soar bem ao ouvido de certos amores-próprios; não
se pode negar que alguma coisa apresenta de precioso, e também estranha mistura de erros
e verdades, sem relação e sem ligação; ridícula confusão de palavras para o pensador. É que
na mesma frase se dão à palavra igualdade diferentes significações; é que ela se aplica em
um mesmo sentido a assuntos tão afastados como o céu e a terra; é que, passando-se
resolutamente de um conjunto de contradições a conclusões gerais, se eleva um sofisma a
axioma, e se impõe aos espíritos fracos e entenebrecidos.
- Defini - diria eu - a palavra igualdade.
- Esta palavra define-se a si mesma.
- Em todo o caso ...
- A igualdade é o princípio em virtude do qual um homem não é mais nem menos que outro
homem.
- Definição mui vaga, na verdade. Dois homens não são iguais na estatura; segue-se daqui
que o devem ser em tudo mais? Um, por exemplo, é obeso como o ilustre governador da ilha
de Barataria, o outro magro como o cavaleiro da Triste Figura: ademais os homens são iguais
ou desiguais em saber em virtude, em nobreza da alma e em mil outros acidentes; convém,
portanto, que acordemos no sentido exato, positivo que convém dar à palavra igualdade.
- Falo da igualdade da natureza, desta igualdade que o próprio Criador estabeleceu e contra
cujas leis nada podem os homens.
- O que certamente quer dizer é que por natureza todos somos iguais . . . Porém a natureza
nos faz nascer feios ou bonitos, fracos ou robustos, ágeis ou pesados; somos naturalmente
violentos ou pacíficos, inteligentes ou faltos de inteligência, e assim indefinidamente. Contai
as ondas do mar e sabereis então o número das desigualdades naturais.
- Mas estas desigualdades não tiram a igualdade de direitos.
- A questão muda de face. Abandonamos a igualdade natural, ou a restringimos
consideravelmente. Talvez não tardemos também a conhecer que a igualdade de direitos
também tem seu lado defeituoso. Haverá quem conceda ao menino, por exemplo, o direito de
repreender e castigar o próprio pai?
- Para que supõe absurdos?
- Não há tal; apenas exponho uma conseqüência forçada da igualdade absoluta dos direitos;
se não é assim, assinalai-me então aqueles de que falais; quais são os direitos para os quais
deve ser ou não ser admitida?
- É evidente que quero falar dos direitos civis, da igualdade social.
- Breve tomaremos esta palavra em sentido geral e mais absoluto; mas o facto é que você,
expulso de uma trincheira, pretende refugiar-se noutra. Não importa. Igualdade social quer
dizer, certamente, que na sociedade todos os homens são ou devem ser iguais. Iguais em
que? Em autoridade, não haveria governo possível. Em fortuna? Deixemos de lado a justiça
e procedamos à partilha; no fim de uma hora, de um dia, com fortuna igual, um achar-se-ia
arruinado, outro com dobrado capital; reaparece a desigualdade. Faça-se mil vezes a partilha,
acontecerá sempre o mesmo. Iguais em consideração? É impossível consagrar igual estima
a um infame e a um homem de bem. Tendes a mesma confiança em cada um deles?
Encarregareis indiferentemente de negócios públicos a um homem sem capacidade alguma
e a um Richelieu? Além disso, todo o homem será apto para tudo?
- Não, reconheço que não, mas o que nele não podereis negar pelo menos é a igualdade
perante a lei.
- Nova questão; todavia sigamo-la. A lei diz: o transgressor será submetido à multa; e, no caso
de ser insolvente, à prisão. O rico paga e ri-se da lei; o pobre expia de ferros a dentro tanto o
seu crime como a sua pobreza. Onde está aqui a igualdade perante a lei?
- Mas estas desigualdades é preciso acabar com elas. O castigo deve chegar a todos os
culpados, pesar igualmente sobre todos.
- Aboli então as multas, única maneira de castigar certos culpados e algumas vezes também
preciosa fonte de receita para o tesouro; e, com tudo, a desigualdade no castigo ficará sempre
uma impossibilidade. Admitamos que para um certo e determinado delito, a multa seja fixa;
multam-se dois culpados; um deles paga e continua opulento, o outro fica arruinado...
- E será impossível remediar estas imperfeições da lei?
- Pode ser; mas eu só quero provar que a desigualdade no mundo é irremediável.
No caso de os castigos serem corporais, temos a mesma desigualdade. O homem despido
de dignidade pessoal sofre indiferentemente a ignonímia, a exposição pública, etc., ao passo
que, para certos culpados, tais castigos seriam mais cruéis que a morte. A pena deve ser
apreciada não em si, mas em relação a quem a sofre; sem isso, não se tocariam os dois fins
que ela se propõe, a expiação e o exemplo. Em um mesmo castigo aplicado a criminosos de
classe diferente não há de igual senão o nome. Reconheçamos estas imperfeições das coisas
humanas e deixemo-nos de sonhar loucamente sobre a igualdade absoluta, porque tal
igualdade é absolutamente impossível. A definição de uma palavra e o exame das aplicações
diversas que dela se podem fazer, nos fornecerão ocasião de sondar um especioso sofisma
e de provar, até à evidência, que este texto de declamações, tantas vezes empregado, não é,
no fundo, senão uma verdade trivial, um pretensioso absurdo: que todos nascemos e
morremos da mesma maneira?

Você também pode gostar