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Projeto de Pesquisa

Tema:

Ressentimento, origem e enfrentamento


Problema:

De que forma o ressentimento interfere na vida psicossocial do individuo? Quais são as


principais consequências desse ressentir no desenvolvimento das relações individuais ? E o que a
literatura cientifica sugere como intervenção preventiva e/ou terapêutica a essa interferência?

Objetivo geral: do ressentir através das principais teorias etiológicas do o ressentimento a partir
das obras de dois autores, confrontando suas teorias sobre o tema em questão, juntamente com
as suas respectivas propostas de enfrentamento.

Objetivos específicos:

Diferenciar as teorias sobre a origem do ressentimento através da analise dos trabalhos


utilizados
Identificar e compreender os principais argumentos divergentes entre as duas teorias
Analisar as propostas de enfrentamento ao ressentimento na visão de cada autor e sua
capacidade de oferecer condições psicossociais de superação e promoção da qualidade de vida
frente aos possíveis geradores do ressentimento.

Justificativa:

Se faz importante iniciar esse trabalho com as definições de ressentimento encontradas nas obras
aqui analisadas por se tratar de um tema que ainda não foi amplamente discutido sob o ponto de
vista axiológico, mas de inevitável presença no cotidiano da grande maioria das pessoas, um
comportamento que só se torna compreensível se analisado criteriosamente sob a perspectiva
histórico-cultural, seja de grupos ou indivíduos. Um outro aspecto do comportamento ressentido
que nos leva ás minucias de sua definição está no fato de que ele, o ressentimento, é composto
por um conjunto de outros comportamentos distintos que apesar de serem nocivos ás relações
psicossociais , estão dentro da curva de normalidade de diversas culturas, poderíamos citar como
exemplo a dificuldade experienciada por muitos indivíduos no desenlace e dissolução das relações
duradouras, o sofrimento ali observado apenas em parte, pois o mesmo compõe-se de um
conjunto de sentimentos privados e que podem perdurar por muito tempo interferindo
diretamente na vida social deste individuo, são sentimentos que quando possíveis de serem
observados exteriormente são compreendidos e interpretados separadamente pelo senso
comum, sem que se possa diagnosticar como um comportamento prejudicial e persistente que
opera a partir de um elemento indissociável entre eles, o ressentimento.
Para Friederich Nietzsche o ressentimento é resumidamente um fenômeno psicofisiólogico que
ele mesmo amplia á questões sociais ligadas ao direito e á moral.

Diante do exposto justifica-se a realização deste trabalho afim de obtermos melhores


esclarecimentos a respeito dessa categoria de comportamento extremamente prejudicial á
condição psicossocial de indivíduos e grupos.

Resumo:

Este trabalho tem por objetivo relacionar o ponto de vista teórico de Friedrich Nietzsche e Max
Scheler dois pensadores alemães que divergem sobre alguns conceito, enquanto convergem em
relação a outros quanto ao surgimento do ressentimento. Trata-se de uma revisão narrativa do
trabalho de Almiro Schulz - Universidade Federal de Goiás que utiliza das obras A Genealogia da
Moral de Nietzsche, e Da reviravolta dos valores de Scheler. Trabalho que trás como tema a
acusação de Scheler a Nietzsche quanto a seu equivoco de afirmar que o ressentimento tem
origem na moral cristã. Com o objetivo de esclarecer e ampliar a compreensão sobre o assunto,
analisando suas propostas de enfrentamento.
Introdução:

Este é um estudo de revisão narrativa da literatura. Revisões narrativas são publicações amplas
apropriadas para descrever e discutir o desenvolvimento ou o “estado da arte” de um
determinado assunto, sob o ponto de vista teórico ou contextual. Constituem, basicamente, de
análise da literatura publicada em livros, artigos de revistas impressas e ou eletrônicas, na
interpretação e análise critica pessoal do autor. Essa categoria de artigos tem papel fundamental
para a educação continuada, pois permitem ao leitor adquirir e atualizar o conhecimento sobre
uma temática especifica em curto espaço de tempo. Contendo uma síntese qualitativa dos
trabalhos analisados, sendo que, para a seleção dos artigos, não se utilizou descritores e período
da publicação específico e as fontes não foram pré-determinadas. Foram utilizados artigos
publicados no idioma português que abordam a temática sobre o ressentimento. A maioria dos
artigos selecionados estão indexados das bases de dados BVS psi e SciELO, e parte das referências
são de livros e dissertações.
Se faz importante iniciar esse trabalho com as definições de ressentimento encontradas nas obras
aqui analisadas por se tratar de um tema que ainda não foi amplamente discutido sob o ponto de
vista axiológico, mas de inevitável presença no cotidiano da grande maioria das pessoas, um
comportamento que só se torna compreensível se analisado criteriosamente sob a perspectiva
histórico-cultural, seja de grupos ou indivíduos. Um outro aspecto do comportamento ressentido
que nos leva ás minucias de sua definição está no fato de que ele, o ressentimento, é composto
por um conjunto de outros comportamentos distintos, porém, dentro da curva de normalidade
em diversas culturas, compreendidos e interpretados separadamente pelo senso comum, sem que
se possa diagnosticar como um comportamento prejudicial e persistente, e tão pouco mensurar
suas consequências para a vida psicossocial de indivíduo e grupos. Diante do exposto justifica-se a
realização deste trabalho afim de obtermos melhores esclarecimentos a respeito dessa categoria
de comportamento extremamente prejudicial á condição psicossocial do indivíduo. A condição do
homem moderno, seu estilo de vida, suas escolhas e sofrimentos, denunciam através da lente de
aumento da produção cientifica, principalmente no campo da psicologia, que nunca estivemos tão
confusos em relação aos valores que cultivamos, e perplexos com a rapidez das mudanças.
Podemos destacar a “modernidade liquida” de Zygmunt Bauman que caracteriza esse periodo com
a perda quase que total de referenciais que possam direcionar e proporcionar ao sujeito a
construção de uma identidade bem definida, esses referenciais agora “diluídos” conduzem o
indivíduo moderno, que para o mesmo autor nunca foi tão individualizado como agora, á uma
instabilidade e incerteza que parece não lhe deixar outra alternativa que não seja a de “ressentir”
a solidez das relações, que nem mesmo ele sabe onde se perdeu. Os que nascem sob atmosfera da
fluidez dos valores e da inconstância nas relações, por falta de referenciais estão fadados á
reproduzir culturalmente comportamentos prejudiciais, tal qual um estigma de tempos
desconhecidos. Os autores analisados aqui divergem quanto a origem do ressentimento mas
unanimemente concordam que ele possui uma força destruidora capaz de trazer á tona dores e
experienciais extremamente desagradáveis para quem os ressente, e como ressentir é reviver, o
sofrimento e a carga psíquica reabrem feridas antigas e recentes, causando uma série de
comprometimentos para á saúde física e mental do indivíduo. Alguns dos autores propõem
mudanças na atitude do indivíduo, acreditando na formação de um novo homem enquanto outros
apenas se preocupam em amenizar a situação inevitável de ressentir.

Uma moral escrava

Tendo sido o filósofo alemão Friederich Nietzsche o primeiro a abordar o tema do ressentimento
de forma clara e objetiva quanto á sua origem e antídoto, nada mais digno que iniciar essa nossa
peregrinação conceitual acerca do ressentimento por ele. Ele que dentre diversas obras todas
dignas de nota por sua profundidade e impacto, a golpes de martelo diga-se de passagem,
escreveu Genealogia da moral (Nietzsche - 1998), obra que, só pelo titulo leva qualquer leitor á
reflexão de sua própria essência. Nesta obra nos interessa especificamente a primeira das tês
dissertações que compõe o livro, intitulada “bom e mal, bom e ruim”. O filósofo utilizando o
método genealógico de pesquisa se propõe a responder á questões relacionadas com a gênese da
moral e assim nos revelar as etapas de construção do que ficou conhecido como a “psicologia do
ressentimento”. Nietzsche inicia a dissertação com críticas severas aos psicologos ingleses tendo
sido os primeiros a debruçar-se sobre questões historicas da moral, acreditavam que a origem da
mesma teria como base um caracter utilitarista, e por esse e outros motivos não conduziam a
lugar algum. Para Nietzche analisar historicamente o valor dos valores o levou a estabelecer dois
aspectos da moral historica: a moral dos senhores, do forte , uma moral da nobreza obtida na
autoafirmação através de um “sim” a si mesmo e a moral dos escravos, caracterizada pela
fraqueza do plebeu e da negação á si mesmo, entregando-se passivamente á subserviência do seu
oposto mais forte . Para Nietzsche é exatamente nesse momento da historia com os judeus que
inicia-se uma inversão de valores onde o “bom” passou a ser tudo aquilo q é inferior, pequeno,
fraco, o sofrimento e a humilhação tornaram-se percussores de recompensa e reconhecimento, da
mesma forma, tudo que é forte, nobre, independente, conquistador, confiante passou a ser
“mau”, isso inicia-se com os judeus e depois é levado adiante pelo Cristianismo. A moral escrava,
uma vez incutida na identidade do indivíduo se baseia na servidão e na obrigação por serem coisas
“boas” e úteis para si mesmo. Enquanto a moral dos senhores, dos nobres está constantemente
atribuindo a si características positivas de dignidade e satisfação pela posição de destaque em que
se colocam na vida, os homens de ressentimento adoecem pela condição de vida que levam,
atribuindo sempre a um ‘outro’ as suas mazélas, alimentando sempre sentimentos de ódio e
vingança visto que a servidão é acompanhada de castigos e punições a Em relação a esses castigos
e punições a que o homem do ressentimento se submete como cumprimento de sua moral de
escravo disse Nietzsche “O que podemos conseguir, de modo geral, por meio do castigo, no
homem e no animal, é o aumento do medo, o aguçamento da prudência, o domínio dos apetites:
fazendo isso, o castigo doma o homem, mas não o torna melhor”(NIETZSCHE, GM, II, 14). Dessa
insatisfação mantida pelos valores da moral escrava surge o ressentimento como um veneno
mortal de abrangência biopsicossocial. Ainda em sua primeira dissertação Nietzsche nos fala da
revolução da moral escrava, que se deu inicio com a vitoria da Judeia sobre Roma, Para Nietzsche
o trinfo da judeia sobre Roma foi o triunfo da moral escrava sobre a moral nobre e aristocrata, e a
partir desse momento historico a rebelião da moral escrava que nunca teve valores próprios
vivendo em função da servidão aos valores nobres, tornam-se criadores de valores morais, não
pela ação mas principalmente por sua reação, e esses valores criados a partir da reação trazem a
marca do ressentimento consigo, a negação da vida através de uma “não” a sim mesmo. Por tanto
para Nietzsche moral cristã é a causa principal dessa inversão de valores gerando o ressentimento
como uma reação do indivíduo na busca por justificar os eventos que se sucedem em sua vida a
partir de novas concepções de bem e mau bom e ruim. O indivíduo nessa condição sempre
responsabiliza um “outro” que não ele mesmo, por todas os sofrimentos que lhe acometem e
espera tambem de um “outro” no caso Deus, a recompensa por todo mau sofrido e o castigo para
todos os que a moral caracterizou como maus. Nietzsche nos trás como proposta de solução ao
sofrimento do homem moderno alguns conceitos afim de operar uma mudança de atitude diante
da crise e do caos que se apresenta, entre eles esta a Vontade de potencia que conduz a força da
vida em constante expanção e conquista de seu espaço caracterizada por um “sim” a si mesmo.
Podemos citar ainda, lembrando que o ressentimento é uma especie de “não querer esquecer”, o
carácter terapêutico do Esquecimento, não do esquecimento visto pelo senso comum, mas uma
atitude de seleção e descarte do que nos vem á memória.
Por não mais acreditar nos valores que sustentam nossa sociedade Nietzsche entende que todos
eles precisam ser revistos e transvalorados pois distintamente eles se moldam a esse antagonismo
entre a moral escrava e a moral dos senhores.

Por uma moral objetivista

Assim como Nietzsche, Scheler é um pensador alemão que fez criticas severas ao seu tempo e
influenciaram muito a forma de pensar através de suas contribuições . Diferente de Nietsche,
para Scheler o ressentimento não tem origem na moral cristã, mas sim na inversão dos valores
principalmente pela burguesia, Scheler (2012). vejamos o que ele diz a respeito:
Nós acreditamos que, em verdade, os valores cristãos são extremamente fáceis, no que concerne
ao receber uma nova significação em valores ressentidos e foram também assim, de modo
extraordinariamente intenso, apreendidos; mas que, porém, o cerne da ética cristã não cresceu
sobre o solo do ressentimento. Contudo, nós acreditamos, por outro lado, que o cerne da moral
burguesa, o qual os cristãos começaram a remir sempre mais intensamente desde o século XIII,
até executarem na Revolução Francesa sua efetivação mais elevada, tem sua raiz no
ressentimento (Scheler, 2012, p. 88-89). Scheler acredita que assumindo os valores invertidos da
burguesia, o cristianismo torna-se mais uma forma de contribuição para o surgimento do homem
ressentido influenciando o comportamento de seus seguidores e todos os que participam de sua
moral nesta direção.
Ao descordar de Nietzsche Scheler o acusa de estar equivocado em relação ao significado de amor
utilizado para definir a origem do ressentimento, não um equivoco religioso ou histórico o que
demonstra que a divergência dos autores esta no campo axiológico e filosófico . Em relação ao
equivoco de Nietzsche Scheler diz em outro texto: Nietzsche enxerga de início no cristianismo
apenas uma moral com justificação religiosa, e não uma religião em primeiro lugar, ele mede
concomitantemente os valores cristãos desde o critério do máximo propiciamento da vida; sendo
que este critério ele nega aos mesmos conscientemente [...]. Este procedimento, porém, é
arbitrário, bem como falso em sua fundamentação, além de ser digno de uma refutação severa
[...]; [...] O erro, a confusão de Nietzsche se manifesta ainda de outras formas. Scheler (2012, p.
114)
Os dois autores divergem quanto a origem do ressentimento, mas concordam quanto aos
aspectos centrais na definição do mesmo como sendo movimentos internos e afeições como:
vingança, ódio, maldade, inveja, cobiça e malícia; sendo que o sentimento e o impulso à vingança
são vistos como base primeira para o ressentimento (Scheler, 2012, p. 48).
Scheler nos traz como proposta de solução para essa problemática do ressentimento, além de seu
projeto “A reviravolta dos valores”, uma abordagem humanitarista dos valores, a superação da
ética utilitarista por valores éticos de ordem superior, tomando como referencia modelos
representantes dessa nova ética.

Referencias:

Da reviravolta dos valores. Petrópolis: Vozes, 1994.


Nietzsche, F. (2010). Genealogia da moral. São Paulo: Companhia de Bolso.
NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral: uma polêmica. Tradução Paulo César de Souza. São
Paulo: Companhia das Letras, 1998.
NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra. Tradução Paulo César de Souza. São Paulo:
Companhia das Letras, 2011. (2011a)
NIETZSCHE, Friedrich. Além do bem e do mal. Tradução Antônio Carlos Braga. São Paulo: Editora
Escala, 2011. (2011b)
QUEIROZ, Carlos. Ser é o bastante: felicidade à luz do sermão do monte. Curitiba; Viçosa: Ultimato;
Encontro, 2006.
SCHELER, Max. Da viravolta dos valores. Tradução Marco Antônio dos Santos Casanova. Petrópois:
Vozes, 2012.