Jean-Luc Maxence JUNG é a Aurora da Maçonaria O Pensamento Junguiano na Ordem Maçônica
Tradução: Idalina Lopes MADRAS 2004

Índice
Prefácio à Introdução Brasileira.....................7 Prefácio..........................................................9 Algumas palavras.........................................13 Capítulo I Jung, filho natural de Goethe?.......................19 Capítulo II Símbolos, chaves do sentido.........................27 Capítulo III Da realização de si-mesmo...........................31

Capítulo IV Individuação e iniciação................................37 Capítulo V O segredo do "grande segredo" ...................45 Capítulo VI Como desmascarar a persona?.....................51 Capítulo VII Nem pastor, nem teólogo, nem guru............57 Capítulo VIII Santo Agostinho, Goethe e Jung...................63 Capítulo IX Jung, maçom sem avental............................69 Capítulo X Jung, Hiram e nós.........................................75 Capítulo XI Uma fênix perpétua......................................83 Capítulo XII Transferência e libido...................................91 Capítulo XIII O retorno do recalque maçônico...................97 Capítulo XIV Animus e anima, Sol e Lua..........................109 Capítulo XV A Sombra, face oculta do mundo.................117 Capítulo XVI Do conflito entre Freud e Jung.....................123 Capítulo XVII Alquimia e Hermetismo...............................133

.165 Prefácio à Introdução Brasileira Quando fui convidado para revisar o texto do livro Jung é a Aurora da Maçonaria.....Capítulo XVIII Relação entre o espírito e a matéria.......... Seus fins supremos são: .... por meio do cumprimento inflexível do dever.141 Capítulo XIX Da sincronicidade acausal.. Bem. intelectual e social da humanidade........ Proclama a prevalência do espírito sobre a matéria.. A tarefa de criticar um livro desta natureza parecia um fardo muito além da minha capacidade de realização......... progressista e evolucionista.....161 Capítulo XXI Tornar-se para ser... meu primeiro impulso foi recusar........ filosófica.... filantrópica............. aos não maçons também. mas depois compreendi que a missão era apenas de ajustar os termos para uma linguagem mais adequada aos leitores maçons brasileiros.......... o que se faz na Maçonaria? O que os maçons realizam? Por definição "A Maçonaria é uma instituição essencialmente iniciática.......... da prática desinteressada da beneficência e da investigação constante da verdade........... Afinal.151 Capítulo XX Freud e Jung. Pugna pelo aperfeiçoamento moral.. Boaz e Jaquim?......

Muitos Irmãos maçons deram suas vidas pelos seus ideais. e o caráter progressista. cairão numa armadilha e transformarão a Maçonaria numa piada de mau gosto. pretende ser dinâmica. idem. mas à medida que se consolidam estes ideais. IGUALDADE e FRATERNIDADE. na evolução da . em que a tradição e a modernidade se fundem sem nenhum paradoxo nem conflito. bis idem. Como já disse. As tradições. O livro de Jean-Luc Maxence observa a obra de Jung sob um prisma tão peculiar quanto verdadeiro e demonstra cabalmente que a Maçonaria é progressista. O maçom é um trabalhador incansável para o progresso da sociedade e empenha seus melhores esforços para a construção do edifício social ideal. dando as costas ao futuro. Os ideais da sua fundação têm e merecem ser preservados. Não é por acaso que o lema contido no logotipo do Grande Oriente do Brasil declara: Novae Sed Antique. que Jung é um maçom não Iniciado por declarar os princípios maçônicos na evolução da nossa espécie. se a Maçonaria é por definição "progressista e evolucionista" dentre outras coisas. os ideais precisam ser preservados. Ora. Os princípios democráticos e libertários da Maçonaria na história do Brasil estão consolidados.LIBERDADE." Artigo 1º. da Constituição do Grande Oriente do Brasil. e se atualmente os maçons se debruçarem para o passado. há a necessidade de procurar novos temas para melhor servir à humanidade.

"MAÇONARIA" em vez de "FRANCO-MAÇONARIA". o "maçom".humanidade. para diferenciar a palavra que designa o artífice. Começarei pela substituição mais simples. o profissional que mistura cimento e areia para construir obras físicas do outro. Maçom e Maçonaria são termos que não têm correlação direta com nenhuma palavra em português que não designe a Instituição "Maçonaria" e seu associado. que designa a arte de entalhar pedras.literalmente "FUTURO" .para "AURORA". Nesta revisão. do maçom dito especulativo. Esses pontos de vista estão solidamente enraizados no legado junguiano. foi alterar o termo AVENIR . Na língua francesa. livre. Para entender o porquê desta opção é necessário entrar nas páginas deste livro. Desta forma. E este o termo que diferencia o pedreiro. o operário maçon . permiti-me algumas liberdades gramaticais para ajustar o texto original ao leitor brasileiro e iniciei nada menos com a tradução do título desta obra em dois pontos. ou seja. de franco. maçonnerie e maçon são termos que apontam para uma profissão existente. empolgante desde a primeira . e certamente de maior ousadia.inclui-se o termo franc. Então por que alterar o título para Jung é a Aurora da Maçonaria! Creio que já dei uma pista pela exposição no parágrafo anterior. diferentemente do francês. Obviamente a tradução mais fiel para o título original em francês: Jung Est L'avenir de la Franc-Maçonnerie é Jung é o Futuro da Franco-Maçonaria. A outra alteração no título.

não atende ao espírito que Jean-Luc Maxence pretendeu incutir na obra de Jung. pois o rito declara que ordo ab chaos . embora tenha a correção da ortodoxia na tradução. já é hora de trabalhar. a aurora da Maçonaria se faz presente. Se assim não fosse. é a eclosão da semente lançada na Inglaterra em 1717. quando esta Instituição despertar para o novo estágio que se encontra a humanidade.até a última. O maçon que abre o Painel da Loja antes da abertura dos trabalhos ao Meio-Dia deveria saber que desenha uma mandala. a ótica cristalina e inequívoca deste autor. a associação criada no século XVIII seria estática. Alguns maçons já despertaram. O sol nasceu. fadada à obsolescência. e nesta obra se encontra de uma maneira inequívoca e cristalina o porvir da organização mais fraterna de que se têm notícias. O pensamento junguiano é o cerne da Maçonaria. demonstram que o pensamento de Carl Gustav Jung é a aurora da Maçonaria. Cezar A. O termo "futuro". outros estão deitados eternamente em berço esplêndido. As conclusões de Jean-Luc Maxence. Mas .a ordem vem do caos. Mingardi Past Master da Loja de Mestres Maçons da Marca Madras n° 3 Prefácio A menina que brinca de amarelinha no pátio da escola pública não sabe que desenha uma mandala com seu corpo. a Maçonaria.

Por outro lado. meu sistema referencial é idêntico àquele que o autor propõe (de Gilbert Durand e Henry Corbin a C. várias Oficinas que não utilizam mais nem o Painel da Loja nem os três candelabros (que remetem à sabedoria. à força. à beleza. Jean-Luc Maxence evoca aquele sonho de descida aos arcanos de sua casa que Jung contou várias vezes. do que a Maçonaria como via ocidental de realização de si-mesmo pelo domínio do ego quando se talha a pedra bruta e se visita o interior das entranhas da terra. à ética e à estética). como dizem os árabes. para mim. confrarias ou mesmo seitas. Jung é a aurora da Maçonaria".existem. em nosso nomadismo. G. para o equivalente da Câmara de Reflexão. Jung. Então é preciso sê-lo (audacioso) para escrever que "C. de nosso khalwa. era evidente seguir com muita atenção sua tese. É essa aposta que Jean-Luc Maxence venceu. infelizmente. isto é. Não há melhor companhia. passando por Mircea Eliade e outros). Tanto no que me diz respeito quanto para o meu ensino de Antropologia e para os meus trabalhos sobre iniciação. mas a sorte favorece os audaciosos! Não tenho certeza da pertinência do propósito nesse sentido. que não me parece absolutamente audacioso imaginar quantos de nossos Irmãos estão afastados da Maçonaria. Maçonaria. dele estou persuadido ao invertê-lo: a Maçonaria torna-se muito certamente inteligível aos seus adeptos por meio de uma leitura atenta de Jung. Essa psicologia das profundezas é o caminho da individuação sobre o . G.

com o Outro? A Maçonaria tem realmente muito trabalho pela frente a traçar.qual Jung oferece . graças a Lévistrauss.. vincula-se à humanidade inteira de que falava Montaigne? Não por suas tomadas de posições sociais. uma vez que o processo de desenvolvimento é implacável em uma lógica que evoca a hermenêutica do sentido proposta por Paul Ricoeur. Por essa razão. Claro.. que pratica ritos ou rituais e que é fundada em mitos ou narrativas fundadores. como Jung nos permite compreendê-lo.uma definição mais sutil e fecunda do que a prática do individualismo atual cuja devastadora forma é o que está mais em voga. G. não dizemos mais "primitivo" no sentido de "arcaico". Jean-Luc Maxence expôs de maneira límpida toda a articulação . C. ou seja.. políticas e contingentes.graças a Deus . Mito. ao arquétipo no sentido dado por Jung. Toda a obra de Jean-Luc Maxence é uma ilustração da possibilidade desse sentido. "Eu não estou nem aí!".. mas porque é uma sociedade tradicional iniciática que utiliza símbolos.. É difícil extrair exemplos exemplares. isto é: "É minha escolha". E aí está a grande lição que podemos tirar de Jung: em que a Maçonaria é universal. rito e símbolo remetem.. isto é. assim. hoje. tomarei apenas o caso mais controverso a partir dos falsos debates sobre a iniciação feminina. essas representações coletivas que emanam da imaginação criativa dos primitivos. Jung escruta os símbolos. mas podemos tomá-lo aqui no sentido de "primeiro".

junguiana sobre anima/animus.. esse desejo profundo de busca do sagrado. para compreender o pensamento mitológico como modo de expressão comum a toda a humanidade. sou fascinado pelas passagens sobre a Sombra. mas também sobre o Tao ou o I Ching e tantas outras comparações culturais. para além da diferença cultural. Marie-Louise von Franz.. Como estou profissionalmente vinculado ao Comparatismo. a Alquimia e o Hermetismo. . os trabalhos de minha colega Françoise Héritier. e aqueles que são partidários (a favor ou contra!) fariam bem em ler com atenção essas páginas luminosas. sobre a noção de feminino/masculino. sobre a noção animus/anima. Trilha realmente muito útil nestes tempos conturbados em que os franceses acreditam ser os mestres de valores universais inabaláveis em sua atemporalidade e em que uma revista "maçônica" propõe textos intitulados "Para acabar com os símbolos"! Somente o raciocínio pela analogia nos abre ao Outro com quem temos em comum. de mulheres ou de minorias originárias da imigração! Aliás.. evidentemente. podem ser lidos com proveito. como também. Como tornar consciente o inconsciente pessoal sem "animosidade"? Eis um bom programa de reflexão "maçônica" que me parece mais eficaz do que discutir sobre as cotas. em referência a Charles Kerényi.. A secularização de nosso país conduziu muitos de nossos compatriotas a esse impasse que Jung denomina "uma humanidade espiritualmente subalimentada". tanto os escritos da aluna preferida de Jung.

cada um sofre. e às vezes é necessário para o peregrino encontrar . o que evidentemente não tem nada a ver com uma confissão ou pertencimento a uma Igreja". ao final das contas. e Jean-Luc Maxence deve estar agradecido por tê-lo compreendido e por explicá-lo a nós..na falta de um mestre em sua Loja . e ninguém está verdadeiramente curado enquanto não tiver encontrado uma atitude religiosa. Jean-Luc Maxence coloca o dedo sobre um último problema levantado por Jung . G. por ter perdido o que as religiões vivas deram. IEP.. C.um sólido bastão para continuar sua estrada. Jung é também isso. A iniciação maçônica não poderia ser separada do longo trabalho que conduz à salvação pessoal pela procura ininterrupta do sentido e da busca da verdade. Esse caminho é perigoso. Université de Aix-Marseille III e do DESS "Management Interculturel et Médiation Réligieuse".e que me valeu muitos sarcasmos quando sustentava (e continuo sustentando!) que a Maçonaria se encontrava pelo menos no campo religioso e que talvez ela fosse até mesmo a religião "abraâmica" por definição!: "Sim.Com efeito. Bruno Etienne Membro do Institut Universitaire de France Diretor do Observatoire du Religieux. aos seus crentes. Algumas Palavras . continuadamente.

O imaginário jamais deu sua última palavra. do sentido. a ameaça da morte. Sempre uma obra a emergir da pedra bruta do vago e do indefinível. às vezes.Cada um. Exigem compreender o porquê da infância. em suma. para cada indivíduo. seu sexo também. exploradas. e não aderir inteiramente às pretensas virtudes do discurso da razão. pelas surpresas de seu inconsciente. Sonham com um sentido para seus amores. entregou sua última fantasia. nenhum filósofo pode reduzir uma personalidade a uma teoria ou encerrá-la sob qualquer tipo de nosologia. tudo se decide do centro da mamãe às vísceras da Terramãe. o envelhecimento. buscam um significado para sua via singular. Aliás. Por sorte. até o fim da aventura. da adolescência. Adivinham surdamente que. Arlequim e Colombina. De um aquário ao outro. é mendigo. Sempre é uma história de identidade a ser esculpida pouco a pouco. As doutrinas. o palhaço que todos nós somos permanecerá criativo e inesperado enquanto se deixar levar. é claro. Questionam a meia-idade. apaixonantes de ser estudadas. desabam como um castelo de cartas quando aqueles que as expõem (ou querem impô- . Cada um? Cada Um estende sua palma da mão e oferece seu rosto para ser acariciado. As etiquetas sempre são mentirosas quando visam ao definitivo. da idade adulta. as zombarias são vãs. Querem penetrar o segredo de seu nascimento. Desde que se trate de visitar o vasto desconhecido do interior.

e tudo parecerá transcorrer tranquilamente. histórias fabulosas serão escritas. No entanto. Serei uma torrente. Gilbert Durand. entre cão e também lobo. Mitos serão criados. optarei por uma tradição que carrega em seu tabernáculo os meios de encontrar os arquétipos primitivos. recusando a dessacralização do homem contemporâneo. sobre as marcas que escavo. dai-me Deus. abertura frontal . Mircea Eliade. universos de símbolos a ser meditados constantemente. Josef Breuer. quando observados de perto. de dia. delta radiante suscetível de reconciliar Oriente e Ocidente. com paixão. sob o Sol ou sob a Lua. sem muito medo. e. De noite. esconder uma significação simbólica. Vou me aventurar sem proteção como um soldado do Absoluto que foge de sua Sombra e procura em si-mesmo.las) esquecem no decorrer da explicação que tudo sempre se transforma. diante dos deuses imensos do Egito. o terceiro olho. que intelectualismos e especulações seduzem o ouvido por um instante. caminharei então. Cacemos os falsos fugitivos. Gaston Bachelard e muitos outros ainda estarão sempre aqui para me relembrar que muitos dos comportamentos ditos anormais revelam. mas desaparecem rápido diante do profundo ceticismo dos estudantes da vida. Carl Gustav Jung.. Todo fio condutor é precário e pode rapidamente ser rompido. e escolherei esta ou aquela religião suscetível de ser uma via de acesso específica a uma compreensão global do mundo. Henry Corbin. Sigmund Freud.. Desafiando a vertigem.

em última análise. Estes são inacessíveis à percepção física e só provam sua existência pelas profissões de fé que suscitam na alma". três. transcendentes. dois. cada irmão humano é aprendiz.. Quem ainda sonha com um quatro perfeito e sólido sobre seus quatro pilares. poderosos como o templo de Delfos? Quem ainda ousa exibir sobre sua fronte (talvez pouco acima de seu olho central?) "Conhece-te a ti mesmo"? Tudo é peregrinação.. minhas fantasias são urbanas. Ele cria deuses e grimórios . Tentarei contar e reconhecer bem meus passos sobre o asfalto das cidades. assim como um estranho cosmonauta que procura tragicamente seu vilarejo natal na ausência da gravidade infinita. Jung o afirma: "A alma é um fator autônomo e as expressões religiosas são profissões de fé psíquicas que. E um. "conjunção dos opostos do consciente e do inconsciente.capaz de captar toda luz da eternidade e de abolir a dualidade. de Compostela ou de outro lugar. Cada um experimenta a solidez um tanto relativa do fio de suas peregrinações que lhe permitirá se reencontrar pelo labirinto de sua própria epopéia. Lenta busca de seu próprio cordão umbilical. do centro ao Centro. Do sentido. poder de mediação do sensível ao inteligível”. sabe bem que não se pode reduzi-la nem a uma física qualquer nem àquilo que é conveniente chamar o aparelho psíquico. repousam nos processos inconscientes. E minha alma. Ele questiona à sua maneira a aparência do mundo e seu coração escondido. Com efeito.

Eis. evidentemente. de uma certa libertação do indivíduo a um bem-estar das massas. uma chave mestra. Duas vias para o século XXI. sob o olhar aterrorizado de não sei qual falcão negro. do Templo ao divã? Caminho iniciático e psicologia das profundezas. Não esquecendo jamais.. meu amor. fará dele um mestre a mais. além disso! E de passar.. Ele sabe que sua errância. Uma iluminando a outra. em torno da impossível távola redonda do Graal reencontrado. para poder transformar os metais imperfeitos em ouro" O objetivo é realmente o de libertar o homem de seus próprios demônios interiores. um dia ou outro.. uma fórmula perdida a ser encontrada com muita paciência. sabendo que buscar incessantemente no patrimônio sagrado da humanidade as ferramentas simbólicas que às vezes libertam os . René Guénon e Carl Gustav Jung. A menos que ambas. oh. se encontrem? E o mesmo que querer reconciliar.. deve existir uma senha. talvez. Do divã ao Templo? Ou. comungando. com certeza. entre outros exploradores. em uma mesma preocupação de se aproximar do atanor original. de prova em prova. Os mitos fundadores da Maçonaria e o processo de individuação. nada. alfabeto a ser decifrado de A a Z. O meu.de sombras e de luz a fim de continuar sua estrada. o assunto deste livro que acabo de abrir. que é preciso "ter realizado a pedra filosofal para poder multiplicá-la. certamente.graças às tramas da Egrégora. ao pedir ajuda ao alquimista e à pedra filosofal. por etapas graduais. E então me digo: "Do divã ao Templo.".

no entanto. estradas duplas do Numinoso. O século XXI. Mesma busca da unicidade por meio do múltiplo. Todas as nações querem o paraíso e abrem sem pudor as portas do inferno. com o desabamento de suas torres gêmeas. às vezes. Dupla proposição a fim de liberar uma situação mundial aparentemente bloqueada. Com ou sem compasso. Um Medo Santo se apodera das nações. cada século começa mal.. do manifesto para o profundo. é tragicamente fiel à suas tristes violências terroristas. da aparência para o essencial. em nome de Alá. O conhecimento consciente não . Mesma busca do Ouro do interior do Homem. com inter-relações a localizar. divergências e convergências. Caminho da iniciação e da Psicanálise. de toda maneira. Mesma idéia de uma incessante e estreita passagem do interior para o exterior. Busca permanente do poeta tornado filósofo por usurpação. tantas vezes camuflada.pacientes analisados de seus bloqueios e sofrimentos psicológicos sempre significa vasculhar os porões do inconsciente pessoal sem deixar de levar em conta com lucidez o cadinho comum e original do inconsciente coletivo. mesmo o destino das populações. não hesitando diante dos antigos sacrifícios humanos. Dupla via saída da sabedoria comum dos séculos passados. Mesma exigência de não perdição quando tudo.. sem esquecer o Iraque. e há motivo para isso. parece girar em falso sem sequer saber onde está ainda o centro da circunferência. raramente sábios. ou de Deus. com a luta fratricida entre Israel e a Palestina.

cronologicamente mais próximo de nós. deste último. a princípio. A parte obscura do humano sai bruscamente de sua caixa de Pandora. está ainda mais quente.. gravando . Para além de um certo desconforto geral. aceder à universalidade de uma causa qualquer ou a uma explicação do tipo mal-estar das civilizações ou neurose coletiva das multidões. sem dúvida porque o Cristianismo. também "realizado". o justo ritual a fim de escapar à cadeia de reencarnações. minha amada e eu. admitindo-se que acredite nisso.. para melhor acompanhar sem perseguir a transmigração das almas. E fomos até Nova York. longe disso. Ele pode ser comparado ao "trabalho" ritual que fará do Aprendiz um Companheiro e. também nos vestimos como Jesus Cristo. encontrar a coisa certa para conseguir vencer.morte ressurreição" é aquele da individuação realizada. Cada homem deseja loucamente renascer pronto e partir para um outro mundo. em um dia de setembro. Um dia todos nós pegaremos o vírus de Osíris! Todos acreditamos que somos capazes de reunir nossos pobres membros esparsos e de anular o assassinato de Seth. evidentemente bem melhor.impede as guerras e não permite. Os habitantes da velha maçã se prostram no ponto zero do horror. Pensamo-nos suscetíveis de ressuscitar após o suplício da cruz e o silêncio do túmulo. cada homem deseja aceder à imortalidade. Às vezes. um Mestre. E ainda ouço a música de John Adams invadir o Metropolitan New York Phillarmonic. um ano após o dia 11. O ciclo "Calvário . Mas as surpresas do real são duras.

Sempre nosso assunto. como diz Shakespeare). o real sempre supera a ficção. garante nosso guia de plantão. Mesmo o ancestral Sigmund Freud apenas colocou em palavras uma doutrina. ousaria arriscar a "busca e a aventura". Toda parede se abre e se . Em escala mundial. talvez pudéssemos descobrir uma bússola em algum lugar e atravessar o oceano de nossas vidas sem muito medo e sem muitas dores de barriga? De todo modo.sobre as partituras do Invisível a lembrança do "Ground Zero". não esquecendo de que se trata de navegar às escuras. Em relação ao diabólico. Todo o nosso assunto. nosso século XXI não causa inveja a ninguém. Somente um cavaleiro. entre Charybde e Scylla. o que nunca saberemos? Do verbo saber ("scio") e não de crer ("credo"). Das razões da História.. se esconde e se prepara no inconsciente do homem e das multidões. Tudo está aí. ou um poeta.. somos sempre o terrorista inconsciente (e. No final do conto da existência (ou do sonho. não nos enganemos: "aquilo que denominamos exploração do inconsciente revela de fato e na realidade a antiga e a atemporal via iniciática". arrogante) a serviço de uma causa vizinha. Se pudéssemos adivinhar o que fervilha. durante sua vida. no entanto. tentativa de embalsamamento para se proteger dos perigos da longa estrada. como deixa claro o sábio. Sob esse ponto de vista. ridicularizada por tantas explosões assassinas. com efeito. eis que eleja está bem servido.

torna portal a partir de então. E estreita é a porta e apertado o caminho que conduz à vida. As multidões se interrogam até o esgotamento e escavam a lama do enigma assim como os ratos de Jean-Paul Sartre. Levantar-se-á então a ponte levadiça do Sagrado para que os terráqueos se engajem finalmente em uma direção dada.6 Marie- . Mesmo se o alvo é pequeno. boas fechaduras e chaves corretas. realmente pequeno.. individual e. Apocalipse ou não? O que será o futuro? Eu procuro a resposta. meu Deus! "Conhecer a face obscura de sua própria alma é a melhor preparação que possa existir para saber como se comportar diante das partes obscuras das outras almas". A chanfradura do sentido será grande se o arquétipo lhe dá vida. existem muitos que por ali passam. "Penetrar pessoalmente no segredo das almas humanas". a serviço de um início de século que busca boas razões para saudar a luz. até mesmo minúsculo. como a imagem do Evangelho (Mateus 7. Tanto o melhor quanto o "menos pior". isto é. de forma alguma. Que programa ambicioso. Tudo é possível. para o Sol. são poucos aqueles que a encontram!". nesse ensino coletivo que originou os falsos profetas da felicidade do Estado segundo Marx. Você procura a solução. a terra. 13-15): "pois larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição. esperando um pouco melhor! Mas eu também só acredito em uma exploração pessoal.. Permaneço assim fiel à Psicologia analítica forjada por Carl Gustav Jung. Procuramos juntos a saída para todos.

reunir o que está esparso não é misturar tudo para propor a uma pseudoelite uma sopa disforme e indigesta. qualquer comparatismo tranquilo e fecundo. as justas marcas escondidas do caminho que nos é dado neste local desde nosso primeiro salto no ar. Ou Deus me criou? Ou sou eu o criador. sem fazê-lo de propósito como dizem as crianças. inquiridora. Claro. exibicionista? Deus é o Si-mesmo escondido? Nem mais nem menos. um percurso. às vezes. Na última colherada. para expulsar qualquer forma de síntese verdadeira. do infinito derrisório ao infinito essencial. do meu Verbo particular a partir do Verbo dos outros? Capítulo I . correr-se-ia então o risco de ter engolido um veneno mortal feito de tudo e de nada. ou se nós mesmos inventamos do começo ao fim um itinerário pessoal. declarado. caminhante!": o sincretismo rejeitado pela Igreja Católica Apostólica Romana soa como uma palavra grosseira. para justificar a cada etapa nosso avanço antes desesperado no vazio do nonsense e do absurdo? Quem traça o caminho? Quem é seu Deus escondido. um destino. O objetivo é antes o de saber se um certo itinerário a nós destinado preexiste à nossa própria vinda a este mundo e se nossa pulsão de vida é uma energia que vai nos permitir encontrar a trilha correta.Madeleine Davy dizia-me com frequência. quando ela ainda não tinha feito gravar em seu túmulo "Seja feliz.

em Kesswil. G. o fundador da psicologia das profundezas. esteve cercado por maçons especulativos. le Christ aryen. nada deixa transparecer sobre a influência eventual dos meios iniciáticos helvéticos sobre suas primeiras descobertas identitárias. somente Richard Noli. Jung descende de uma longa linhagem de pastores e faz alusão à filiação hipotética em relação a Goethe. que nasceu em 26 de julho de 1875. Vincent Brome evoca simplesmente que C. Colin Wilson. Carl Gustav Jung. filho natural de Goethe? Desde sua mais tenra infância. Jung leu e apreciou ainda com 16 anos! Por seu lado.Jung. desde o primeiro capítulo de seu livro. em um vilarejo situado no Cantão Suíço alemão de Turgóvia. o poeta maçom. Quanto a Barbara Hannah. mas menciona a lenda familiar segundo a qual esse avô "muito ativo e brilhante" era filho natural de Wolfgang Goethe. 1794-1864) sem registrar seu pertencimento à Maçonaria. autor principalmente daquele Fausto que C. ela evoca a influência do avô de Jung (Carl Gustav Jung Sênior. insiste. les secrets d'une vie. De fato. seus mais marcantes biógrafos o esclarecem até certo ponto. G. mesmo ao evidenciar a paixão do jovem C. em sua muito controversa biografia Jung. a respeito da real influência das Lojas sobre os estudos universitários do avô de Jung. Curiosamente. Assim. Ele ressalta que . às margens do lago de Constance. G. Jung pelos livros consagrados aos fenômenos religiosos em geral e ao oculto em particular.

De facto. que era pastor. C.. como seu pai. teria sido iniciado e. e não hesita em lembrar que Carl Gustav Jung. de alguma forma. Jung. A época era dos aventais fraternos e das trocas de pontos de vista filosóficos diante das três grandes luzes (o . representar um certo número de ferramentas e de símbolos maçônicos e alquímicos no teto de sua famosa torre de Bollingen! Assim. o reverendo Samuel Preiswerk. no século seguinte. "chefe do clérigo protestante de Bale". mas um teólogo meio medíocre. Johann Paul Achille Jung. G. pelos mistérios cósmicos. adquiridos desde seus primeiros anos de infância. uma certa atmosfera religiosa e esotérica é a marca principal da família Jung ao longo de gerações. banhava-se no universo de uma Maçonaria impregnada da mitologia da RosaCruz e da Arca da Aliança perdida. entretinha-se com os "espíritos dos mortos"! Quanto a seu neto. ele fez em 1900 sua tese de doutorado sobre os "fenômenos ditos ocultos". seu neto. Jung nasceu em um meio de tradição maçônica. que seus pendores futuros pela linguagem das catedrais. porém. sob a pluma de Richard Noli. como se sabe. não foram inatos. pela Alquimia. mas foi Grão-Mestre. pelos míticos talhadores de pedra construindo o templo sagrado de Salomão em Jerusalém. vê-se bem que C. pela busca do Santo Graal e pelo culto do Secreto. Aliás.. G. o que não tem nada de surpreendente. G. Mesmo o avô materno de Jung. iria.este último usou não somente o avental. pelos símbolos solares e lunares. provavelmente. o genitor de C. Jung.

na história de sua vida. entre os quais a estrela brilhante. registra mesmo que seu pai era um orador medíocre. como era de praxe entre os burgueses nesse fim de século XIX sem dúvida. basta observar algumas fotografias do álbum da família ou o . o pequeno C. o mesmo que uma lenda fazia descender da mão esquerda de Goethe.. como era chamado. puritana e ritualizada. Aliás. Claro. cumprindo.compasso. Carl Gustav não hesita em nos confiar que considerava seu genitor como um notável pouco consistente. um clérigo protestante que de forma alguma acreditava nos dogmas que ensinava. Uma coisa é certa: o jovem Jung cresceu em uma atmosfera religiosa. mas não sabia como fazê-lo". tão bem quanto mal seus deveres religiosos.. uma vez que Carl Gustav Jung Senior. Não devemos nos esquecer de que a Maçonaria representava um papel capital na família Jung. ditada por ele mesmo quando já tinha 80 anos. Ele até mesmo acrescenta. sem dúvida. desabusado e quase debochado: "Eu gostaria de ter vindo em seu auxílio. Jung já evoluía em pleno atanor invisível. escrevendo até que suas homilias ditas no púlpito soavam "como uma história contada por alguém que não pode verdadeiramente nela acreditar ou que a conhece por ouvir dizer". no entanto. "certinho demais". G. o esquadro e o Livro da Lei sagrada). Em resumo. tinha feito completar os brasões familiares com vários símbolos dos "filhos da Viúva". O futuro mestre de Küsnacht.

G. como observa o psicanalista Christian Gaillard. era subterrânea. que escreve igualmente muito a propósito: "O jovem Carl Gustav se mostra primeiramente muito absorvido por suas descobertas interiores. membro didata da Societé Française de Psychologie Analytique. simbolizada por uma cruz e uma rosa-sangue. G. bem protestante. mas. uma vez que aquilo que pode lhe trazer seu pai. pode ser significativo saber que C. Evidentemente. Jung de Paris. universalismo. mesmo assim. professor do Institut C. não se deve esquecer que. Jung lia desde a infância obras sobre os vestígios artísticos do passado (adulto. fraternidade. Assim. igualdade. como se diria hoje. tolerância religiosa. ele se tornará uma espécie de arqueólogo das variedades infinitas da alma). mas bem real. guiadas pelos imortais ideais das Luzes (liberdade. elogio da razão e do pragmatismo). Para além dessa austeridade reinante. recusa dos despotismos. a influência de sociedades secretas como a Ordem Santa da Rosa-Cruz. praticava ritos iniciáticos apoiando-se no estudo . ao longo de todos os primeiros anos de sua vida na Suíça (final do século XIX). seu entorno imediato e seus camaradas de escola se revela aos seus olhos decididamente cada vez menos convincente e sério". Jung descendia "de uma prestigiosa linhagem de médicos e de eruditos". G. é inegável que o pai de C.busto austero de Carl Gustav Jung Sênior para se convencer disso. uma miríade de Lojas.

o de se aproximar da chave explicativa do Cosmos. muito mais. porém. cada um reconhece hoje que a própria essência do "trabalho" na Loja maçônica se assemelha às fases experimentais da Grande Obra e favorece a passagem gradual do Aprendiz ao Companheiro e.e na interpretação de ferramentas que ajudam em uma transformação gradual. à maestria. grosseiramente.. G. no qual resplandece a luz. "podem ser interpretados não apenas como momentos de decomposição e de recomposição da matéria. em nossa opinião. forno (do hebreu thannour) destinado à Grande Obra. Na Alquimia. de transformar o recipiendário. mas também como as . do enxofre e do mercúrio. então. graças às séries de provas vividas e superadas. como na Maçonaria . símbolos significantes saídos principalmente do Hermetismo. da Alquimia. Ora. regenerar a pessoa. Jung se tornaria (até mesmo Hermann Hesse via nele "uma montanha imensa. quando se realiza a união do sal. vaso enigmático e mítico no qual acontece a metamorfose no segredo do laboratório. um extraordinário gênio") sai principalmente do inesgotável atanor do universo alquímico dos iniciados. o objetivo.e a mais antiga das duas Artes Reais parece a mais indicada-. como escreve o filósofo Vladimir Biaggi. Não é exagerado adiantar. das filosofias ocultas. É por isso que todos os estágios da opus alchymicum. que o ensino desse grande mestre da alma humana que C. então.. de purificar e. não é o de transformar os metais vis em ouro vivo e sonante e que traga mais ouro.

com seus passos rituais e seus signos apropriados. a partir da entrada no Templo em cuja porta o profano bateu. vai ao encontro de todas as iniciações tradicionais observáveis em todos os lugares. o trajeto junguiano. em sua obra Le symbolisme hermétique dans ses rapports avec l'alchimie et la Franc-maçonnerie (1910). De todo modo. De todo modo. inspiradas para alguns pelo luxuriante imaginário alquímico que ainda não foi suficientemente explorado metodologicamente. No mesmo espírito. se pode reconhecer na Maçonaria uma sequência progressiva e lógica. não pode ser assimilado a ura "credo". mas uma via. principalmente com seu conceito primordial de processo de individuação. que participou da própria criação da Grande Loja da França. desde que ela existe. e Etienne Perrot tem razão ao afirmar que aquilo que Jung nos trouxe não é uma doutrina. é evidente que. de transformações espirituais e simbólicas. vai em direção ao renascimento ou à ressurreição que acompanha a transmutação". pelo sofrimento e pela morte. a aventura iniciática na Loja! No entanto. original e cognitivo. suas senhas e seus silêncios voluntários. graus e qualidades. Essa via também pode e deve ser comparada à experiência alquímica e à sua parente próxima.etapas de uma experiência íntima própria ao iniciado que. por degraus. não é o único a ter estudado esse tipo de confrontação. E Oswald Wirth (1860-1943). não pensamos que seja necessário visualizar esses . a longa empreitada maçônica.

que finalmente atingiu sua verdade mais profunda (e talvez sua parte de divino?). trilhas de luz para que o século que se inicia possa. muito mais como um terapeuta no sentido original do termo (do grego therapeuein.. em nenhum momento. na saída do atanor. toda a nossa postura pessoal de psicanalista. de ensaísta e de poeta procura sugerir. alcançada no final do percurso iniciático. É preciso que o homem contemporâneo se torne novamente um ser de harmonia fisica e psíquica. porém. única. Jung fala frequentemente em símbolos. por definição. sagrada. ousar levantar pontes audaciosas entre a Alquimia. O caminho interior que ele nos convida a empreender. não com argumentos de guru. Pelo contrário. ou. como o Venerável e os dois Vigilantes que dirigem uma Loja. tomando emprestado a linguagem da psicologia das profundezas. como os antigos alquimistas. as linhas paralelas.três caminhos de lenta purificação espiritual como três paralelas que nunca se encontrarão. C. uma personalidade que não se compara a nenhuma outra. caso não deva ser traçado.. a Maçonaria e o processo de individuação para que essas três vias de abertura interior se enriqueçam umas com as outras. um indivíduo singular que trouxe seu Centro o mais próximo de Si. enfim. cuidar). um vivente "plenamente realizado". conduz a um novo questionamento de . uma vez que. G.

no entanto. seus costumes. ao longo de toda a sua obra. Criado no seio de um entorno de velha tradição iniciática. a não se curvar diante de pretensos segredos. podem transformar inteiramente a abordagem analítica de qualquer pessoa que sofre e abrir perspectivas insuspeitas no campo da pesquisa e da exploração do psíquico e do Sagrado. Jung não é. Mas C.nosso ser em sua globalidade e nos conduz à libertação de nossos próprios demônios. seus mitos e suas crenças religiosas. Ele nos impele. ele nos instiga a escancarar as portas do Templo sobre a diversidade do mundo. do formalismo redutor. um fundador de Igreja ou de ideologia inédita. . G. no mais alto grau. muitas vezes de polichinelo. Em resumo. a não ser servil a qualquer dogmatismo que seja. a vencer as covardes homeostasias. é que sejamos bem compreendidos quando afirmamos que as intuições de Jung sobre a individuação a ser empreendida como caminho de cura da alma e suas descobertas sobre o homem e o inconsciente coletivo adicionadas às contribuições da Maçonaria Especulativa contemporânea quando ela é vivida como experiência espiritual de aprofundamento. desde sua mais tenra idade . a ir além dos rituais demasiado rígidos. pelos menos aos nossos olhos.pelo menos é o que leva a pensar as personalidades de seus ascendentes de pertencimento maçônico -. O que nos importa aqui. com suas raças. É muito mais o primeiro desbravador daquilo que Perrot chama de "a via ocidental de realização". Jung nos convida.

Jung recusa mesmo qualquer idéia de ortodoxia junguiana! O labirinto complexo que ele seguiu em sua busca de realização é demasiado particular para que ele queira transformá-lo em um Catecismo. em um programa ou em um ensino cifrado ou sistematizado. ao correr todos os riscos da ruptura. ao lançar os fundamentos de sua psicologia das profundezas. de um Jean de la Croix recomendando: "Se você quer chegar aonde você não sabe. Com efeito. espécie de guru invisível que criou para si mesmo para as necessidades de seu próprio guiamento por meio de uma floresta de arquétipos inquietantes e de demônios particulares. é necessário passar por onde você não conhece". de alguma forma. seu bom e velho conselheiro.E. E nisso Jung é um descobridor. . cada humano carrega em seu coração sua própria mitologia individual. muitas vezes tenebroso. um desbravador. que Jung menciona em sua autobiografia. ele toma o mesmo itinerário místico. à imagem de Filemon. Claro. uma via com saída (é justamente o caminho da individuação). mas ele sabe que esse percurso interior não é uniforme para todos e para cada um. interlocutor destruidor de solidão e confidente generoso. um explorador do interior que deu o primeiro passo . Jung avança sem proteção. da patologia. velho sábio gnóstico emerso de seus sonhos.. em suma. Pois.no novo continente do inconsciente coletivo.. ele indica uma hermenêutica de transformação. um inventor.talvez o mais perigoso? . da esquizofrenia. G. C.

Ele derrubou com um empurrão as duas grandes colunas de Jaquim e Boaz de seu avô. pedra filosofal do Si-mesmo. Mas expôs todo o resto aos quatro ventos do desconhecido. C. Ela representa um colossal trabalho clínico sobre a psique humana e sobre as mitologias do mundo. o Venerável de sua cadeira e o Primeiro ou o Segundo Vigilante! C. Ele guardou a intuição de seus números. e não apenas do número de ouro. para não dizer destronou. Jung ousou de alguma forma quebrar a porta simbólica do Templo de Salomão. o Delta luminoso. a pedra bruta a ser trabalhada. G. Ele adivinhou que a simbologia maçônica do terceiro milênio talvez devesse abandonar de vez em quando suas velhas luvas brancas. esse olho do Tudo que tudo vê. No fundo. a postura holística de interioridade de Jung se prolonga por toda uma vida. além dos muros da Loja. a maior parte de suas ferramentas simbólicas. uma outra dinâmica multidimensional: aquele do processo de individuação que busca incessantemente a síntese consciente dos contrários. Jung que muito cedo foi embalado pelas preocupações de Sabedoria. de Força e de Beleza de seu entorno familiar. Ela nos faz pensar em suas relações . G. mas empurrou. a necessária visita à Câmara de Reflexão. mas guardou apenas o Sol e a Lua. para buscar outras referências. muito cedo em sua vida. guardou o essencial de sua mensagem: a ética. Ele não jogou o bebê maçom com a água do banho. para fora.Na realidade. que sempre têm medo de se sujar. até a morte.

detectáveis com a Maçonaria Especulativa de hoje. podemos afirmar que Jung poderia ter reagido como Manjusri. nos abre à exploração do inconsciente individual e do inconsciente coletivo. ela abre ao homem a descoberta de sua alma e . tinha respondido: "Por que entrar? Não tenho a impressão de estar do lado de fora". como o escreve Jung. "quando o espírito empreende a exploração de um símbolo. G. ele é conduzido às ideias que se situam além daquilo que nossa razão pode apreender". esse bodisatva da sabedoria que. Antes de engajar uma análise comparativa e uma iluminação mútua da iniciação e da individuação. nos seguintes termos: "Por que tu não entras?". chaves do sentido A obra polifônica de C. que estava no interior. estando do lado de fora de um templo e ao ser chamado por Buda. em uma meticulosa e profunda decifração dos símbolos. Para retomar um célebre título de Jung. A contribuição do simbolismo maçônico é da mesma ordem. na medida em que. Jung está evidentemente destinada a representar um papel primordial de instigação à transformação do ser humano durante o século XXI. A psicologia das profundezas. Capítulo II Símbolos. como método de introspecção que permite a passagem de um modo de ser a um outro.

cada um . enquanto o símbolo sempre remete a um conteúdo mais vasto do que seu sentido imediato e evidente". "são manifestações involuntárias. Jung gosta de nos lembrar que o "inconsciente. de criar entre o divino e o humano uma comunicação de forma que se tornem inseparáveis um do outro". Toda a sua obra interroga os arquétipos em sua autonomia e a função do símbolo. Jung questiona incessantemente não apenas os símbolos no interior de uma análise individual. que possui suas próprias leis e mecanismos autônomos. Ora. espontâneas. como tais. O inconsciente tem o poder de nos transportar ou de nos ferir da mesma maneira que uma catástrofe cósmica ou meteorológica". Além do mais. essas representações coletivas que "emanam dos sonhos e da imaginação criadora dos primitivos" e que. Jung escruta os símbolos coletivos como as imagens religiosas. esta última sendo sempre. a "de unir o alto e o baixo. exerce sobre nós uma influência importante que poderia ser comparada a uma perturbação cósmica. Sabendo que o "signo é sempre menos do que o conceito que ele representa. mas também o simbolismo dos mitos e os símbolos coletivos e principalmente os grandes mitos fundadores de nossa humanidade. que não devem nada à invenção deliberada". na abertura de um terceiro milênio desencantado e ameaçado por toda espécie de terrorismos stricto sensu e intelectuais.demonstra que a psicologia não é unicamente um fato pessoal. como escreve Marie-Madeleine Davy.

esforçando-se para que este não seja demasiado infiel. e o processo de individuação. resume em algum lugar Mircea Eliade. como vindos muitas vezes do fundo do inconsciente das idades. De todo modo. para compreender melhor os pontos de convergência entre individuação e iniciação. de atitudes corporais. seus graus. com seus ritos e o caráter sagrado de seus símbolos. com suas etapas. . de deambulações. a propedêutica de Jung e a da Maçonaria em geral. pela transferência. dos mitos. convida-o a uma melhor aproximação do Si-mesmo. que formam seu contexto. sua escada de Jacó. todo um conjunto de ensinamentos orais. uma cosmologia. Certamente. mesmo em uma obra de 400 páginas ou mais. ninguém poderia resumir sem deformar. e mesmo de gestos. suas qualidades. para esclarecer melhor as contribuições tanto de uma quanto de outra no campo de uma melhor compreensão do humano. não se pode hesitar em jogar o jogo do espelho. Por seu lado. a Maçonaria Especulativa. reencontrar ou inventar suas referências e às vezes também seu ou seus deuses. propõe aos exploradores espirituais a iniciação e o caminho que a amplia como percurso de progressiva transformação de si mesmo e de sua relação com os outros. A aventura iniciática "equivale a uma mutação ontológica do regime existencial".procura encontrar. E os ritos de passagem propostos na Maçonaria sugerem uma concepção do mundo. A longa viagem iniciática é também um processo preciso.

da gruta primordial ao esquife de Hiram. não pode realmente jamais adquirir. nos relembra com conhecimento de causa Bruno Etienne. à abóbada estrelada atesta que a viúva.os ensinamentos de uma e de outra. Claro. que C. Jung. evidentemente um pouco iconoclasta. Passar da Câmara de Reflexão. "a hermenêutica faz passar da palavra (a Maçonaria é originariamente oralidade) ou do símbolo à sua compreensão ao longo de todos os graus do ser e dos níveis da escritura. ao se servir de seus rituais de origem e de suas ferramentas. que todos nós permanecemos até o último suspiro. a filosofia que o conduziu a criar e a aprimorar sua técnica. pode-se afirmar também que a Alquimia precede a Maçonaria e que Jung extraiu da tradição alquímica a intuição de "sua" . que é a partir da Maçonaria. abordagem progressiva de um Centro que o homem não pode realmente jamais alcançar. o tempo e o mundo não bastam mais à identidade: aquele que nasceu deve morrer para renascer". G. sua psicologia das profundezas. Talvez não tivesse existido a via junguiana sem o mito de Hiram? Com efeito. as duas vias originais e completas! Por outro lado. E pode-se ousar então a hipótese. extraiu suas ideias. de certa forma. seus conceitos. e a iniciação. como um bom "lobinho" (é assim que se nomeia o neto de um maçom). parece possível esperar uma apreensão justa das duas posturas propostas: a individuação. abordagem progressiva de uma sabedoria que o eterno aprendiz.

recusa em se submeter a Marx que parecia reduzir a origem de toda atividade humana e mesmo espiritual a um dado estritamente econômico. tratado alquímico chinês que alguns remontam à origem do I Ching. Ambas almejam uma leitura real do comportamento humano. de Nietzsche e de seu anúncio imperativo da morte de Deus. de seu caminho de precursor. recusa. seu comentário sobre o tratado taoísta Mystère de la Fleur d'Or. De qualquer forma. pode-se ver ali a tríplice recusa daquilo que Mircea Eliade chamava de "mestres do reducionismo": recusa em seguir Freud. fazem emergir de uma deambulação a outra. que acreditava poder reduzir as raízes múltiplas do ser humano à única realidade sexual da criança. . elas se prevalecem de uma antropologia. o numinoso. ali Jung inaugura sua pesquisa fascinante sobre as civilizações orientais. Com efeito.individuação. talvez crucial. é uma etapa capital. Trata-se de reconhecer que os dois laboratórios reabilitam o Sagrado. Uma constatação se impõe: a psicologia das profundezas e a Maçonaria não deixam de questionar o sentido da vida. enfim. Ali ele desenha a maior parte de seus grandes conceitos (como a alma ou a consciência total) a partir dos quais vai se estruturar seu processo analítico. muitas vezes. são um labirinto facilitador da emergência do Sagrado. De qualquer forma. Aquele de Jung e aquele da Loja são vizinhos e se prestam às análises comparativas. a interrogação sobre o enigma da morte e a descoberta dos arcanos da sexualidade.

um dia. que se torna Aprendiz e vai aprender pouco a pouco o manejo das ferramentas simbólicas suscetíveis de trabalhar sua pedra bruta para dela fazer. essas duas vias formam uma dupla "postura": aquela do analisado. que. engajado tanto em uma introspecção quanto na outra. de atravessar as provas de morte e de ressurreição simbólica. . talvez.Se individuação e iniciação propõem ao paciente em análise ou ao profano que bate à porta do Templo uma via de progressiva transformação de si-mesmo e de sua relação com o outro. Em suma. tendo em vista um suplemento de compreensão de si-mesmo. aquela do profano. uma espécie de pedra filosofal pessoal. mergulha no inconsciente. trata-se sempre. guiado pelo analisando.

portanto. G. Este é. G. em seu livro sobre a reconciliação da Psicologia com a religião. encontramo-nos confrontados a um conjunto de mais de uma dezena de milhares de páginas! Eis. evoca muito oportunamente que as próprias edições sucessivas de C. aquele do inconsciente coletivo e das realidades arcaicas universais. Jung é luxuriante e enigmática como os fundos marinhos de um imenso oceano. Jung conheceram vários remanejamentos. não deveríamos nos surpreender com a observação feita pelo filósofo Michel Cazenave (responsável pela tradução para o francês das obras de Jung para a editora Albin Michel) sobre esse assunto: "Jung escreveu tanto que temos a impressão de que nunca chegaremos ao fim de sua obra". muitas vezes. posteriormente. sobre a qual o mestre escrevia: "Depois de um certo tempo. constituído de textos de conferências destinados a públicos diversificados.Capítulo III Da realização de si-mesmo A obra escrita de C. Aliás. No plano quantitativo. muitas vezes com o objetivo de transformá-los em uma obra. um pouco à maneira de sua torre de Bollingen. eu . caso se queira considerar além das "obras completas" tradicionais a volumosa correspondência. o resultado de um trabalho de pelo menos meio século de pesquisas. artigos remanejados. Quanto ao pastor Bernard Kaempf.

sob o nome Les sept sermons aux morts. essencial. aos nossos olhos. a construção me pareceu demasiado primitiva". à custa do autor e com tiragem confidencial.. De qualquer modo. sem seu nome de autor. os mitos e os ritos arcaicos de iniciação do Homo religiosus. ou então essa meditação inspirada e tão bela que ele publicou primeiramente de forma discreta. à Alexandrie. já que ele escreve em sua autobiografia: "Tenho a forte impressão de estar sob a influência (o itálico é nosso) de coisas e de problemas que foram deixados incompletos e sem respostas pelos meus pais. basta reler seu Commentaire sur le mystère de lafleu d'or. Jung não esconde de forma alguma essa tutela da qual foi necessário se libertar. para ser persuadido de que a abordagem maçónica de seus ascendentes muito o influenciaram em sua experiência tão pessoal do inconsciente. Dessa forma. Jung tanto ouviu falar durante sua infância e sua juventude. G. Mesmo sob essa forma. .novamente experimentava um sentimento de incompletude. toda abordagem sumária da obra junguiana corre o risco de ser deformante. Aliás. la ville où l’Orient touche l’Occident. e não poderia traduzir essa ideia. G. meus avós e meus outros ancestrais". écrits par Basilide.. C. os quais têm laços prováveis com a iniciação maçônica e/ou gnóstica sobre a qual C. de processo de individuação que permite uma aproximação lógica com os mistérios.

C.. o filósofo invisível. ao longo de sua vida de pesquisa. C. Além do mais. G.Evidentemente. a esperança de uma libertação metafísica do . Jung está bem próximo. é justamente pela linguagem ancestral e simbólica da Alquimia que ele "ilustrará" seus diferentes conceitos de investigação das profundezas da alma. É uma busca de sínteses entre todos os símbolos significantes. Inegavelmente. Dessa forma. Para Jung. pedra após pedra.. Muitas vezes. a postura iniciática autêntica visa a um melhor conhecimento de simesmo. G. por causa de seus parentes. poderíamos dizer. a uma paciente introspecção. o psiquiatra de Zurique jamais ignorou os rituais maçônicos. de seus ciclos. ele sabe o que a Maçonaria deve à Alquimia. Ora. ele buscou essa união sagrada com o Cosmos.". o Primeiro Vigilante de uma Loja Simbólica diga: "Assim como o Sol nasce no Oriente para iniciar sua carreira e romper o dia. por exemplo. para Guénon. dos filhos da Luz. de seus Catecismos contendo um ensinamento simbólico inegável. incluindo processos de individuação. Com efeito. toda postura iniciática é gnóstica. uma revelação do sentido oculto do mundo. É um avanço em direção ao conhecimento. que faz com que. Jung não está tão distante quanto se pensa das concepções de um homem como René Guénon. sua psicologia das profundezas. para edificar. que abrem o recipiendário a um longo processo de transformação individual. de suas circunvoluções. mesmo que ele faça poucas alusões a essas fontes.

G. ao sintetizar seu pensamento: . ela permite o acesso a um verdadeiro conhecimento transmissível. ao espírito do caminho iniciático dos Templos maçônicos corresponde o processo de individuação de Jung. uma totalidade". E cabe a Jung acrescentar. uma unidade autônoma e indivisível. isto é. oferece a direção da busca das profundezas? C. sob o olho único de Shiva. E sua maneira de deixar a Luz descer sobre ele. ainda que tenha sido muitas vezes deformada e aviltada. o primeiro trabalho que o conduz a uma trilha balizada de símbolos. o Aprendiz se engaja a começar a trabalhar a pedra bruta.homem. na medida em que compreendemos por individualidade a forma de nossa unicidade mais íntima. Ele também esclarece: "a via da individuação significa: tender a se tornar um ser realmente individual e. o Delta luminoso que o fixa com o olhar. entre o Sol e a Lua. Nesse sentido. ponto focal do viajante da alma que atravessa o deserto de simesmo para talvez encontrar ali as fontes invisíveis ainda vivas. Mas o que é então esse processo de individuação já tantas vezes citado e que. uma vez retirada a venda em plena luz ofuscante. trata-se da realização de seu Simesmo naquilo que há de mais pessoal e de mais rebelde a qualquer comparação". nossa unicidade última e irrevogável. A via maçônica é originária da alta tradição iniciática. e. Jung escreve: "Emprego a expressão de individuação para designar o processo pelo qual um ser torna-se um 'indivíduo' psicológico. de alguma forma.

amante. para C. de certa forma. a analogia entre individuação e iniciação é evidente. o imaginário e o simbólico. a individuação é evidentemente uma noção de evolução endógena. Jung. Assim. a abertura "grande angular" de seu potencial evolutivo. têm como alvo a realização de si-mesmo. traduzir a expressão de individuação por realização de si-mesmo. desencadeando em seu paciente um processo de . sofredor e agente. isto é. G. Significa também dar sentido ao aparente "nonsense" que entrelaça o real. uma escada de espeleólogo para visitar as grutas da alma. O analista. de sua metanóia possível. ajudar um sujeito pensante. sempre significa. A partir de então. o indivíduo tem dois elos com o mundo. facilitar-lhe. realização de seu Si-mesmo". com efeito. as duas posturas. quem poderia pretender o contrário? Se. que tem sua origem no interior. a percepção e a projeção. portanto. de exposição dos complexos que impedem às vezes o paciente de ampliar suas possibilidades de analisar suas reações. a empreender resolutamente seu próprio processo de individuação. em seu consultório. de apreender até mesmo o numinoso que carrega dentro de si. ao ajudá-lo a discernir o fio condutor mais ou menos oculto que une suas percepções e suas projeções passadas e presentes. A individuação é também uma estrada simbólica para uma melhor elucidação de si-mesmo. para um analista de inspiração junguiana. É igualmente um método de desdobramento."Poder-se-ia.

em 1961: "O Si-mesmo é um termo que designa essencialmente a personalidade completa. O inconsciente do . "de onde resulta uma desesperante confusão de conceitos. a individuação não seria senão egocentrismo ou autoerotismo. é realmente inconsciente. Jung dirá a Richard Evans. um professor de psicologia da universidade de Houston que o entrevistava para um curtametragem. o Si-mesmo é um conceito. Mas atenção: como o próprio Jung exprime em uma advertência. eu o repito. o processo de individuação é muito frequentemente confundido com a tomada de consciência do Eu. o Si-mesmo compreende infinitamente mais do que um simples Eu. pela associação de idéias e a imaginação ativa ou não. pelo respeito aos silêncios que falam.individuação. Jung fala. porque o inconsciente. a partir de então. Pois. um arquétipo central que deve ser bem apreendido para melhor compreender o que significa uma individuação em processo. ela o inclui." Assim. ajuda-o a se aproximar do Si-mesmo de que C. A totalidade da personalidade humana escapa à descrição completa.. Ora. Aliás. pela confrontação dos suspiros ou às vezes dos olhares. ele é o objetivo do processo de individuação. Na tipologia junguiana. O Eu é então "identificado ao Si-mesmo". é sempre inconsciente. A individuação não exclui o universo.. O Simesmo é uma figura da totalidade psíquica. O que está consciente pode ser descrito. (Ninguém conhece o secreto do homem. é isso que é interessante. G. pelo diálogo. mas não o inconsciente.

no início dos trabalhos? E poderíamos adiantar então que o conceito do Simesmo não está muito distante daquele de Grande Arquiteto do Universo. resultado de uma . Temos ainda muito para descobrir!)". é o ponto central de todo indivíduo. com efeito. Jung ousa chamar o Si-mesmo de "Deus em nós". seja para ordenar os diversos aspectos da psique". Eis então. chegando até a evocar um "fogo central" de nossa participação no divino. o Si-mesmo. portanto. Deus. É preciso antes se imaginar um centro "ativo". uma linguagem bem maçónica! Com efeito. o Simesmo é 'arquétipo da ordem interna' e 'sempre empregado nesse sentido. Aliás. do poeta Friedrich Schiller. aproximando essa expressão daquela de centelha de Deus. uma certa evolução progressiva que chegou ao seu termo. não se trata de uma simples referência como o centro de um círculo.homem guarda sabe-se lá o quê. segundo a crença de Jung. Ele diz que há uma "relação psicológica entre o Si-mesmo e Deus. que "abarca todo o sistema psíquico na força de sua irradiação".isto é. que inspirou Beethoven em sua Nona Sinfonia. encontrada na Ode à alegria. na realidade. o "Selbst". O "Selbst" seria. que pode ser traduzido por "Si-mesmo". no entanto. Para o psiquiatra Miguel Rojo Sierra. seja para significar o ordenamento dos diversos aspectos do Universo . não é. Todavia. que outra coisa procura um Aprendiz na Loja. Arquétipo e símbolo da totalidade. um esquema cósmico -.

Jung. admitindo-se que um dia eles consigam! Ocorre que tanto a individuação quanto a iniciação maçónica devem ser vividas segundo um programa.27 que acrescenta: "A energia do centro se manifesta na necessidade opressiva. ferramentas. aqueles que o conseguiram. um método global. Este. do começo ao fim. explica C. passo a passo. de tornar-se o que se é. G. quase irresistível. mas antes um yantra. tão questionada. Os mais visitados conceitos junguianos. exercícios. pelo qual tudo é ordenado. Os eleitos. de sombra. de anima. ao qual tudo se relaciona. à maneira . Mas os convocados a uma tal reconversão do interior são inúmeros. não é mais somente uma palavra sânscrita que significa "círculo". podem então encontrar (ou reencontrar?) analogias no universo sagrado da Maçonaria universal. guarda um "motivo de base" que é "a intuição de um centro da personalidade. de um ponto central no interior da alma. renovação da personalidade. rituais. em cada um de nós. isto é. principalmente.lenta e longa elaboração. Ela representa ao mesmo tempo uma "fonte de energia". Da mesma forma. seguindo conceitos precisos a elucidar. além das inúmeras variantes observáveis. a mandala. com etapas. de animus. os de persona. são raros. acesso a uma "consciência nova" de sua singularidade e de sua liberdade profundas. viagem interior que desemboca em uma transformação absoluta. um instrumento de contemplação. ou um termo indiano que designa desenhos rituais de forma circular.

em parte. que buscam e encontram um terceiro para reconciliá-los. se resumir a algumas definições de conceitos. ainda que alguns. O Painel de uma Loja torna-se uma mandala. com efeito. não pode. mas. inexplorado. caso se possa dizer. com seus símbolos vivos e seus pares de elementos contrários. e toda a Loja iniciática. ninguém ousa . Inúmeros curiosos o percorreram transversalmente de certa forma. tenham entrado na linguagem comum. que possui um inegável poder de atração. O mundo da psicologia das profundezas é. como sendo o Simesmo". por medo de ali se perder e de dispersar sua personalidade pelo caminho. não vamos queimar as etapas do processo de individuação. pelo menos aproximativamente. Contudo. Esse centro não é nem sentido nem pensado como sendo o eu. um continente ainda. a forma que corresponde ao seu ser. no entanto.pela qual todo organismo deve a todo preço alcançar. Capítulo IV Individuação e iniciação A obra luxuriante de Jung. como introvertido e extrovertido. Não nos apressemos por medo de perder um ou dois degraus da escada que conduz à pedra filosofal tão esperada.

seita secreta. se assim se pode dizer. remonta. ativa ou especulativa. aos mistérios de Elêusis. Mas não se pode apreender seu sentido sem evocar. pela epopeia trágica da Ordem dos Templários. muitas vezes. De todo modo. A aventura espiritual maçônica. pelo culto de Mitra. e principalmente a corrente da gnose. Também não se pode esperar conhecer tudo sobre a história com filiações simbólicas. intimamente ligada aos mitos e símbolos. como veremos. às vezes paradoxais à força de ser enigmáticas. Jung. alguns não hesitam mesmo em evocar Adão e Eva! . G. entre outras raízes. caro a Christian Jacq. Do Egito antigo. também entusiasmou C. o historiador não pode esperar avaliar.pretender estabelecer sua "cartografia" exaustiva. buscando decifrar sua significação esotérica. a comunidade judaica dos essênios. utilizados como ferramentas de reflexão e de união entre a Terra e o Céu. da Maçonaria antiga ou moderna. ao que parece. como mais tarde a Alquimia. Essa corrente gnóstica. os rituais da Maçonaria sem dúvida se confundem com os das iniciações em geral. aliás. ao nascimento das confrarias de construtores de catedrais e às sociedades iniciáticas da Idade Média. que situava a si mesma acima das diferentes religiões. a contribuição da Maçonaria sem questionar suas inúmeras origens místicas. de maneira pouco holística. passando pela Ordem de Pitágoras.

É oportuno elucidar muito mais suas relações com a "ideia maçónica". que podem suscitar o desejo de analisar muito mais o universo de Jung à luz inesperada do Templo maçónico e de seus símbolos eternos. deve toda sua riqueza e seu vigor à epopeia espiritual e histórica dos maçons e aos seus ensinamentos. ao longo destas páginas. claro. Não afirmamos que o conjunto da obra junguiana. para além de suas interpretações diversas. reciprocamente. E. audácias comparativas. um processo de individuação. explicações novas. induzida ou revelada. antigo Grão-Mestre da Grande Loja da França. aliás. Em contrapartida.Evidentemente. pode ser capital aprofundar a via de Jung (a psicologia das profundezas. não se deve hesitar em repetir que o simbolismo está presente em todos os lugares nesse labirinto e que a ideia de uma transmissão de segredos ocultos e essenciais ao longo das eras é sempre sugerida. mas também a abordagem antropológica). Neste começo do século XXI marcado por um inegável retorno do Sagrado caracterizado por aquilo que Michel Maffesoli denomina "a deidade pós-moderna". para retomar uma expressão que serve de título a uma obra de Henri TortNouguès. e a iniciação. desejamos apenas fazer emergir. Para além da questão de saber se a individuação é uma iniciação. trata-se aos nossos olhos de reconhecer que as duas posturas evocam um método de regeneração do indivíduo a partir de . aberturas de compreensão.

em tal lugar. que se informa sobre o que é a Maçonaria e como nela se poderia entrar. Não me encontro nunca e muitas vezes experimento uma nostalgia dessa incompreensão de mim mesmo que atrapalha minhas potencialidades de ação e acaba com minhas pulsões de vida. Existe sempre. não estou certo de meu próprio "eu" na sociedade em que evoluo e me debato. de acordo com a ideia de Jung. mas no sentido mais amplo de élan vital. com necessidade de sagrado e de transcendência.uma certa tomada de consciência. neste ou naquele entorno de parentesco. ao que nos parece. esta última palavra sendo escolhida aqui não somente em um sentido "freudiano" e. minha libido. que. um mal-estar pelo menos. de um renascimento. corpo e alma. um sofrimento psíquico. no entanto. justamente. portanto. de uma renovatio mundi (uma recriação). para uma renovação progressiva da personalidade. de reconhecimento de uma situação nova. saído do ventre de minha mãe e. ou físico. ou ambos. de inacabado doloroso. de um engajamento. no esconderijo do estar no mundo. de recolocar em jogo seus comportamentos pulsionais e sociais. para o profano. sexual do termo. que carregam em si mesmos. O profano que pede para entrar no Templo maçónico e o paciente que pede para entrar em uma análise junguiana o fazem tanto um quanto outro em nome de um certo sentimento de incompletude. Eu nasci em tal data. sofrimento que deve ser . incomodou Freud.

não quis escancarar. de tudo simplificar. a individuação. ou seja. sob o vago pretexto de vulgarizar. de resolver melhor seus bloqueios relacionais. é um Venerável Mestre em função. caminho no qual reconhecemos. ainda que ambos proponham uma via espiritual que convida os participantes a operar um movimento de conversão do ser. qualquer que seja a religião (deísta ou teísta) ou o agnosticismo. entregar a todos o próprio coração do método maçônico. Temse mesmo o direito de se perguntar se Jung. Não se trata de tudo misturar. aquilo que se vive por meio daquilo que se entrega". ou a não crença que ele . as portas do Templo para todo mundo. de tudo confundir. nos parece útil apreender bem que um dos conceitos de base das descobertas de Jung. em seu consultório. não dizemos que o Venerável na Loja é um terapeuta. e. Claro. de passagem. a possibilidade que cada um tem de se engajar em uma postura pessoal de superação de si-mesmo. Todavia. que o analista. não pode paradoxalmente se definir sem vinculá-lo a um entorno maçónico. ou seja. "caminho solitário como deve ser. de fato.completamente colocado em paralelo com o do analisado que se entrega ao analista a fim de melhor compreender o funcionamento de suas próprias pulsões conscientes e inconscientes. religioso e humanista que foi aquele do jovem psiquiatra elaborando pouco a pouco "sua" psicologia das profundezas. no entanto. seus bloqueios internos. ao tecer ao acaso de sua vida esse fio da individuação. sempre ligado ao outro.

confessa. Sabendo desde seus primeiros anos que um valor superior, mais ou menos velado, deve ser descoberto no homem, C. G. Jung substituiu de certa forma a busca espiritual do maçom na Loja por sua individuação sempre em andamento e nunca finalizada até o minuto de seu último suspiro de vida. Assim como disse muito bem Roland Cahen, em uma conferência, a individuação não deve ser, principalmente, confundida ou associada sabe-se Deus com qual conceito intelectual que dá lugar às competições dialéticas; "a individuação é de ordem mais íntima, da ordem do desencadeamento mais espontâneo, senão ela seria logo viciada, ou até mesmo viciosa e perversa", ou melhor: "a individuação depende do discreto do ser e não do parecer, e, consequentemente, do secreto e do sagrado, pois, sem dúvida, é ela que é convocada a nos reunir ao sagrado". Em outros termos, tornamo-nos um indivíduo, o indivíduo que somos profunda e realmente ao aceitar "despertar quem se é". Da mesma forma, tornamo-nos maçons, o maçom que somos profunda e realmente, ao aceitar despertar quem se é, de se aproximar cada vez mais de seu Centro, de sua parte divina, talvez, desse Simesmo que C. G. Jung não deixa de falar, explicando que a via da individuação significa: "tender a se tornar um ser realmente individual e, na medida em que compreendemos por individualidade a forma de nossa unicidade mais

íntima, nossa unicidade última e irrevogável, trata-se da realização de seu Si-mesmo, no que ele tem de mais pessoal e de mais rebelde a qualquer comparação". Jung observa que se pode, então, traduzir a palavra "individuação" por "realização de simesmo", igualmente por "realização de seu Simesmo". Embarcado em um mundo de rivalidades incessantes, em uma sociedade canibal de indivíduos, em nome, demasiado frequente, do hipotético interesse das massas, toda pessoa que se engaja em um tal processo de individuação espera se conhecer melhor e chegar a uma certa unicidade ("conjunção dos opostos", dirá CG. Jung). Ele visa à harmonia interior. Uma melhor aceitação do que ele é. Eis o que nos coloca no oposto da despersonalização de si-mesmo, deixa ainda mais claro o Mestre, ao ressaltar que tomar a individuação como egoísmo "é um malentendido perfeitamente comum, pois os espíritos fazem em geral pouca diferença entre o individualismo e a individuação". Com efeito, acrescenta Jung: "a individuação é sinônimo de uma melhor e mais completa realização das tarefas coletivas de um ser, uma suficiente tomada em consideração de suas particularidades que permitem que se espere dele que seja no edifício social uma pedra (o itálico é nosso) mais bem apropriada e mais bem inserida caso essas mesmas particularidades permanecessem negligenciadas ou oprimidas".

A palavra "pedra" está, portanto, lançada. E apenas se pode aludir, de maneira natural e lógica, à resposta ritual que se ensina a todo jovem iniciado, quando lhe é perguntado: "em que trabalham os Aprendizes?", e que ele responde: "Na lapidação da pedra bruta, a fim de despojá-la de suas asperezas e de aproximá-la de uma forma relacionada à sua destinação". Não seria essa, precisamente, uma definição figurada, simbólica, muito clara, de um processo de individuação? Aliás, a historiadora das religiões Ysé Tardan Masquelier nos relembra que o verbo latino que originou "processo" é procederé, "que indica primeiramente um passo adiante". Com efeito, desde o primeiro passo do Aprendiz na Loja, para ele, trata-se claramente de começar um trajeto pleno de obstáculos, de fases, de provas de passagem que devem conduzir o eterno caminhante em direção à individuação, tal qual C. G. Jung a define como sendo "o processo que cria um indivíduo psicológico, isto é, uma unidade autônoma e indivisível, uma totalidade". Ao longo da escada iniciática, cuja lenta ascensão conduzirá ao trabalho da pedra bruta, o caminho tomado relembrará simbolicamente a via da individuação e do aperfeiçoamento. Como escreve Irene Mainguy, "ser iniciado" significa renascer de uma forma diferente de si-mesmo". Significa aceitar empreender um "trabalho ativo sobre si, que permite pouco a pouco ao iniciado retificar, como na imagem da talha de sua pedra

que representa a sucessão de seus esforços até a perfeição esperada". Ora, na última fase de sua longa vida (ele morreu com 84 anos), C. G. Jung gostava de talhar e de esculpir a pedra, em Bollingen, como se assim se reconciliasse, ao final de seu trabalho imenso de pesquisa sobre a psique humana, com os símbolos maçônicos de seus ascendentes. Em 1950, quando já tinha mais de 70 anos, C. G. Jung esculpiu até mesmo uma pedra cúbica com todos os seus lados, e ali gravou as seguintes linhas: "Eis a pedra, de humilde aparência / No que diz respeito ao seu valor / ela é bem barata / Os imbecis a desprezam / Mas aqueles que sabem gostam ainda mais dela". Claro, poder-seia dissertar muito tempo sobre as diferentes pedras evocadas pela simbólica maçônica: pedra bruta, pedra oculta, pedra cúbica, pedra cúbica com ponta... sem esquecer a pedra filosofal dos alquimistas! A pedra bruta é aquela sobre a qual o Aprendiz dá os três primeiros golpes para indicar que inicia seu trabalho: trabalhar sua própria pedra. Essa pedra é símbolo do Sagrado, e se pode pensar, por exemplo, na famosa frase de Jesus quando se dirige ao apóstolo Pedro: "Tu és pedra e sobre essa pedra construirei minha Igreja", ou ainda na pedra contra a qual Jacó repousou sua cabeça... Quanto à pedra dita "oculta", ela dorme em cada um de nós. René Guénon indica que é esta última que quer nos fazer compreender que a matéria está aí para ser explorada e que é ao retificar que o sábio encontrará o coração do

coração da Verdade, o ouro do coração, em suma, a pedra filosofal. A pedra cúbica induz à ideia de medida e de exigência indispensáveis para fazer surgir seis faces de dimensão idêntica graças à ajuda preciosa do compasso, da régua, do esquadro, do nível, da alavanca; Guénon, sempre ele, definia o cubo "como a forma mais acabada, mais especificada. Se é a forma última da manifestação, a esfera é sua forma primordial. A esfera e o cubo correspondem respectivamente aos dois pontos de vista, dinâmico e estático?"' O filósofo Heráclito ensinava, aliás, que o cubo correspondia, no plano geométrico, ao logos encarnado. Apedra cúbica com ponta representa, enfim, a obraprima do companheiro que conquistou um savoir-faire que vai lhe permitir aceder enfim à maestria. De um modo geral, a pedra é realmente um símbolo primordial. Para os antigos egípcios, por exemplo, o próprio símbolo solar, frequentemente representado diretamente na pedra sob a forma de uma pirâmide perfeita, pode ser observado no alto de alguns obeliscos. Para os indianos, o Manitou supremo, inefável, acima dos pensamentos humanos comuns, é representado por uma pedra. Em resumo, sob muitas latitudes e em muitas tradições, a pedra significa, de certa forma, o infinito, o Deus sem forma. Não é absolutamente a matéria que tem o significado maior, é o espírito que ela induz. Prostrar-se diante de uma pedra enquanto pedra é uma idolatria, prostrar-se diante de uma pedra

Ele se posiciona. que C. como um Mestre Maçom. G. ao "inventar" e depois desenvolver. sem dúvida. um perseguidor de espírito excepcional. principalmente. Poder-se-ia dizer. mais do que qualquer outro. Nesse sentido. por meio "do confronto com o inconsciente" e. se situa a frente da simples pesquisa sobre a psique humana. de certo modo. para além das rivalidades das diferentes obediências . C. Ele visa à plena realização de si-mesmo. da ideia maçônica em geral. "sem avental"? Com ou sem avental? A esse respeito. isso não tem mais uma verdadeira importância. um sábio maior. Aos nossos olhos. sem exagerar o elogio. o processo de individuação. e a comparação das importantes contribuições de sua obra com aquelas da Maçonaria. com a ajuda das ferramentas específicas. Jung é uma pedra do pensamento. pode-se tranquilamente afirmar. Melhor. G. do pragmatismo.como signo da divindade faz parte de uma postura mística. Ele prega um "parto de si-mesmo". Ao ensinar um certo modo de ser no seio do mundo. com o inconsciente coletivo.. escreve Ysé Tardan-Masquelier. no coração da terapia iniciática. Jung merece sem contestação e. No fundo. ao simples enunciado desses últimos símbolos. ser reconhecido. então. da Metafísica e do encaminhamento espiritual.. de certa forma. ele se faz antropólogo em ação. Jung. chegado a esse grau de conhecimento. nem todos os pesquisadores de arquivos maçônicos estão de acordo. Jung não para de nos surpreender. no final das contas.

Jung. unificada por uma obra e centrada em um objetivo. Jung teve. ao longo de nossa empreitada. sintetiza sua longa vida: "Minha vida é impregnada. sem iluminar também o sentido profundo desses textos alquímicos redigidos para que fossem compreensíveis somente pelos iniciados.. poéticos e "cifrados". de esperar uma quinzena de anos .existentes. Tudo se explica a partir desse ponto central e todas as minhas obras se relacionam a esse tema. o de penetrar o segredo da personalidade. talvez seja necessário citar Ísis. nos permitirá iluminar. de certa forma. Então. que." Capítulo V O segredo do "grande segredo Não se pode apreender a obra de Jung e compreender as comparações possíveis entre "seu" processo de individuação que ajuda o sujeito a penetrar o segredo de sua personalidade em uma constante confrontação com o inconsciente e a via maçônica herdeira de um método iniciático vindo do passado mais longínquo. textos estranhos. No imediato.. G. certamente. que o colecionador Jung tanto amava. algumas correspondências esclarecedoras. Eleusis e Pitágoras? Como ressalta Etienne Perrot. tecida. não nos esqueçamos jamais da afirmação de C.

.antes de decidir falar sobre a individuação. esta última sendo sinônimo da própria Alquimia. uma série de experiências específicas que têm como objetivo a transformação radical" da pessoa e de sua condição humana. o terceiro ponto do triângulo de abordagem filosófica da empreitada. Grande Obra dos alquimistas. o indivíduo entra por graus de descoberta nos círculos que o atraem para a Câmara do Meio de seu ser interior. sobretudo. em seu sentido pleno e integral. tendo como realização final o desabrochamento de uma imortalidade. a partir de sua exploração entusiasmada da Alquimia ocidental que Jung se aventurou em comparações. Graças à individuação.. relata-nos Mircea Eliade. que evoca uma "revolução da luz". e também à iniciação. Mas acrescenta Eliade. A busca alquímica torna-se. portanto. Mas é. Eis. via iniciática na Loja. então. mas a pedra filosofal. as etapas da opus (obra) alquímica constituem uma iniciação. "o . com suas fases experimentais e sua alta simbólica do Universo. Da mesma maneira. Ele desejava "poder reunir um processo tão desconcertante aos antecedentes do ego sem as limitações e as projeções do pensamento teísta". "isto é. ressaltou as conveniências entre a via da individuação e as fases da obra. a primeira chave lhe foi fornecida pela obra Le mystère de la fleur d'or. as bases de nossa abordagem de explorador espiritual que busca tateando não o ouro sonante e líquido e objeto de tanta cobiça profana. Em 1928. Processo de individuação.

seus enigmas. a morte tem seu lugar capital e os questionamentos que ela suscita quanto a uma eventual sobrevivência do espírito e da alma não deixam de obsedar os . Da mesma maneira.iniciado que conseguiu não pode exprimir convenientemente sua nova maneira de ser em língua profana. ele se vê obrigado a utilizar uma linguagem secreta". ele não consagrava seu tempo às práticas de devoção. o caminho iniciático também. de despojamento dos dados da exterioridade imediata que permitem adquirir uma certa autonomia. segundo ritos e esquemas precisos. Ao estabelecer uma relação de identidade com a matéria no concreto. seus tratados. a individuação pode somente se explicitar em termos específicos. "o alquimista não procurava a fé. seus conceitos. dela ele estava impregnado. sua vocação era de espiritualizá-la". Para além do objetivo da transmutação dos metais vis em ouro. Trata-se. de integração dos conteúdos arquetípicos do inconsciente coletivo. pelo menos de melhor definir sua própria individualidade verdadeira. de fato. sua linguagem. seu emblema (a serpente ouroboros que morde seu próprio rabo). a Alquimia tem seu saber tradicional. de projeções a localizar. ao trabalhá-la. Mas adorava o divino ao adorar a matéria criada. Assim. seus temas mitológicos e primitivos. a Grande Obra era uma filosofia experimental. sua fantasmagoria figurativa. Como escreveu o historiador Andrea Aromático. Claro. Tanto no campo da psicologia das profundezas quanto no da aventura maçônica.

Nascemos igualmente. Dar a todos. Como se vê. para dar a . Que ela seja analisada segundo os conceitos da visão junguiana ou pelo intermédio das ferramentas simbólicas da Maçonaria Especulativa moderna. constitui sempre um périplo (ou peregrinação) longo e perigoso em busca da arca perdida de uma individuação salvadora. imperfeita). talvez. mesmo fora do Templo que delimita o Sagrado. de todo modo. a aventura interior de um indivíduo em movimento. portanto.eternos aprendizes da aurora que todos nós somos. ou mesmo pedindo ajuda à teoria alquímica que visava à reconciliação de toda dualidade. em "obra do Diabo"!). mas que encerrava em si a imortalidade. como por efração. Permanecemos herdeiros. Toda vida é individuação (bem-sucedida ou abortada. dessa violação no coração da matéria que a Física nuclear realizou quando realizou a transmutação da massa em energia atômica devastadora. de 15 séculos de praxis alquímica em busca dessa pedra filosofal que não era de modo algum o ouro vulgar (aurum non vulgi). (O próprio Robert Oppenheimer falava. o "grande segredo" da obra é. claro. então. que não existe segredo (no sentido maçónico da palavra) e que é aí mesmo que reside o segredo em questão. tão recentemente (no século passado). somos todos Fulcanelli contemporâneos. as chaves dessa empreitada talvez signifique abrir as portas e as janelas do Templo. Além do mais. com ganhos e perdas contínuos.

de certa forma. parece-nos pertinente definir as notas junguianas. a edificação de uma passarela entre esoterismo e exoterismo e. É. Sem estabelecer paralelos entre conceitos junguianos e símbolos esotéricos como se poderia fazer com os Evangelhos para declará-los sinóticos . de um lado. de ouvir a grande sinfonia da salvação do homem. seria ainda necessário analisar sobremaneira seus dados e consequências. sem dúvida. é um barqueiro genial. e seus correspondentes maçônicos por outro lado. Quanto a C.luz tão desejada a todos e a cada um ao superar qualquer resistência elitista. no entanto. se nossa intuição estiver correta. . perdão condenado. Trata-se. G. anunciada por Orígenes e por outros padres exegetas do deserto. ele jamais se coloca como teólogo e não responde a essa questão da libertação possível de Satã no fim dos tempos. em suma. então.a postura seria demasiado racional para chegar a um esclarecimento! -. Correríamos o risco de queimar as asas. como herético pela Igreja Católica oficial. Jung facilita. e mesmo sua superação. ao fazê-los tocar com o mesmo pentagrama uma mesma música de reconciliação composta por notas brancas e negras. Esse concerto celebra uma restauração da harmonia original. uma espécie de ópera que proclama a absolvição suprema de Satã. um paraíso perdido e então reencontrado. Jung. Se a individuação é o futuro da iniciação (essa é pelo menos nossa tese). Mas não vamos queimar as etapas da abordagem gradual de sua visão.

Aliás. o inventor da psicologia das profundezas não se cansa de estudar. ao longo de seus livros e de suas conferências. a morte. o processo de recepção histórica. mas que apresento reflexões sobre a maneira como algumas realidades podem ser captadas pela consciência moderna. rosa mística. os símbolos da totalidade (árvore. a morte. realidades cuja inteligência constituiria um remédio poderoso para a desorientação de nossa visão do mundo.. ainda que ele não decida em termos de crença religiosa pela sobrevivência do homem. por exemplo). pedra cúbica. ele adverte: "o leitor jamais deveria perder de vista que não redijo profissões de fé ou escritos partidários.Ele escreve "como médico sob a impulsão da responsabilidade médica. de certa forma. termo da existência e de sua individuação. O que não impede que Jung sempre apostrofe. no decorrer de sua longa vida. No entanto. Aos seus olhos. pela luz que elas projetam sobre nossos planos de fundo e nossas bases psíquicas". ele quer antes continuar. perguntando-lhe onde está sua vitória. enfim. realidades que julgo dignas de ser apreendidas e que correm manifestadamente o perigo de ser engolidas pelo abismo da incompreensão e do esquecimento. e não como defensor de uma doutrina". não é de forma alguma necessariamente considerada como uma saída trágica e negativa. Também não fala como erudito. círculo. e não somente ao meditar sobre as mandalas de onde quer que elas venham (o centro da mandala cristã sendo bem entendido como o ..

um Adam Secundus). o historiador das religiões Antoine Faivre e o romancista Frédéric Tristan deixam isso muito claro: é "menos nas Teologias oficiais do que na Teosofia cristã. prejuízos no estado mental individual e coletivo". ou no mestre Eckart. não apenas sobre o processo de individuação. e naturalmente o Si-mesmo. Na introdução da edição em língua francesa da Aïon. centro da consciência. A idéia central é. que a exclusão da força ruim para fora do Si-mesmo empírico causou. Mas. sem que por essa razão essas especulações possam ser consideradas como maniqueístas no sentido de ontologicamente dualistas. ainda que se apoiem no estudo de símbolos emprestados aos gnósticos e à Alquimia. e ainda causa. a conjunção e/ou oposição Animus-Anima. de certo modo. No fundo. um homem glorificado. mas também sobre o Eu. a Sombra. afinal. portanto. um imaginário mais rico de sentido e mais próximo da realidade psíquica. evocar o essencial dos conceitos de Jung. na Alquimia e na Aritmosofia.Cristo que representa uma totalidade de natureza divina ou celeste. para compreender em que os novos avanços de Jung encontram ressonância e correspondência com as contribuições da Maçonaria. o caminho de individuação? Em que ele é uma superação do . no fundo. que Jung encontra as especulações mais completas. é preciso. o que é esse Si-mesmo para o qual conduz. sem dúvida. um Filho de Deus.

com outros conceitos. Jung. C.Eu? Em que. seu sentido. pela própria história de sua vida. para retomar os próprios termos de Etienne Perrot. pelo exercício de sua profissão de psiquiatra. aquela das profundezas. mas os traduz em uma outra língua. uma via espiritual autêntica de desenvolvimento. C. parece-nos completar. ele ousa fazer sair do Templo seu segredo. cujos frutos são Seu método psicológico e sua obra"? Melhor: como sua aventura "traz para o campo científico a antiga busca do Graal e a audaciosa descida aos infernos de Fausto"? Como Goethe. e. para colocar em plena luz seu alcance universal. Assim como a Maçonaria Especulativa moderna. por sua preocupação constante em colocar ao alcance de todos os frutos de suas próprias investigações para ajudar no desabrochar do indivíduo e na hipotética felicidade dos povos. G. das tradições da Maçonaria. a postura maçônica. no sentido de um suplemento da alma. principalmente. Ele abre justamente uma via para se tornar e viver o mais próximo possível de sua verdade profunda. por suas violentas confrontações com a Sombra. por sua vontade paciente de pesquisador de decifrar os arquétipos do mundo. Parece-nos que ele não anula o sentido espiritual dos ritos. Jung é "antes de tudo o testemunho de uma realização interior. ele propõe uma ética e uma sabedoria e induz uma propedêutica do ser. G. Jung não para de nos dizer: "torna-te o que tu és!". com seus encontros e suas fases de realização. . dos símbolos. A partir de então.

G. Capítulo VI Como desmascarar a persona? Na realidade. sob qualquer tipo de obediência. na Europa e no resto do mundo. um artesão de paz e de reconciliação do homem consigo mesmo. de acordo com esse ou aquele ritual tradicional. Felizmente. De fato. na Grande Loja Nacional da França. mesmo guardando desesperadamente o gosto pelo segredo. C. inclusive e principalmente por jornalistas ávidos de sensacionalismo e de enigmas esotéricos. no Rito Escocês Antigo e Aceito. um construtor. para não dizer vulgarizado. como escreve Hubert Greven. ele é inteiramente fraterno. Soberano Grande Comandante do Supremo Conselho da França. nisso. O próprio glossário da Maçonaria tornou-se conhecido de todos. só gosta deste último quando ele é revelado ou vulgarizado diante de e para um grande número. Jung permanece um modelo. livros foram editados... sobre as regras maçónicas que pontilham uma realização espiritual. e como René Guénon nos lembra . nosso século. de modo paradoxal. não há qualquer necessidade de ter sido iniciado no Grande Oriente. Com efeito. na Maçonaria Mista ou em outro lugar. E.Se "o desenvolvimento espiritual é o despertar íntimo de uma independência de espírito". para saber como se desenrola o cenário in praxis. na Grande Loja da França.

com os olhos vendados. Então. e muitas vezes estendendo a suspeita aos recantos às vezes obscuros de algumas Oficinas maçônicas. ele se apresenta a um encontro preciso. de entrada. ser expressa ou sintetizada por palavras precisas! Em uma sociedade. de boa vontade. em geral por três pessoas já Mestres. Mas nosso início de século ainda gosta de condenar a Maçonaria Especulativa. o interessado expressa sua candidatura por escrito. para além do conceito. muitas vezes. como aquela do jornalista escroque Léo Taxil. não se está mais na época das imposturas organizada. Primeiro. quando um postulante profano faz. uma "pesquisa" é conduzida junto a ele. o "caminho a seguir" é bastante simples e não tem nada de hermético. Claro. Depois. a partir de 1892.com satisfação em sua obra. no Templo no qual será oficialmente . acreditassem que o Demônio aparecia nas Lojas e dirigia as reuniões. que fez com que muitos eclesiásticos católicos. oculto por pudor ou por vontade deliberada. portanto. vendo ali apenas pretextos para falcatruas políticas ou financeiras. um pedido de iniciação. com frequência. Na realidade. a iniciação não pode jamais. na via espiritual da Maçonaria. mais vinculada à superfície das aparências imediatas e imediatamente perceptíveis do que à profundeza do pensamento. tornou-se evidente que todo segredo apenas pode dissimular o diabólico e que todo juramento discreto pronunciado por vários pode ser apenas a antecâmara dos complôs mais horríveis.

(Rito Escocês Antigo e Aceito).. Enquanto a ilusão e os preconceitos nos cegam.. vosso guia caminha na luz e não pode vos desviar".E. no R.. (Rito Escocês Retificado). a luz entregue ao novo iniciado é o levantar da cortina.. Dito de uma outra forma.R.. Essa luz lhe parecerá tão mais intensa porque dela esteve privado por muito tempo. é explicado que a luz "elementar" da qual o recipiendario está privado é o "símbolo demasiado evidente dos falsos brilhos que dividem o homem abandonado à sua própria direção". expresso de uma forma mais abrangente. a obscuridade reina em nós e nos torna insensíveis ao esplendor da verdade". a iniciação parece um processo destinado a ..E....A. Diz-se até mesmo: "Vós estai nas Trevas. Portanto. a instrução esclarece: "A luz só ilumina o espírito humano quando nada se opõe à sua irradiação..A. ele receberá então a luz. No R.ouvido e interrogado.. de um longo e complexo processo de lenta transformação individual que às vezes conduz a uma espécie de deslumbramento interior.. Tratase de uma luz com significações simbólicas polimorfas. durante a iniciação propriamente dita. Assim.. ou até bem antes. mas não temais. Quando o recipiendário poderá retirar sua venda que o torna provisoriamente cego. E a célebre "passagem sob a venda" que ainda hoje provoca fantasias entre tantos profanos e provavelmente encontra suas origens ancestrais em uma rica simbólica que talvez remonte aos mistérios de Elêusis. segundo os Catecismos dos primeiros rituais.. ou a aurora.

isso não corresponderia ao que o psicanalista de inspiração junguiana pede ao seu "paciente-impaciente" analisado. que deixe fora do espaço sagrado. chegaria até mesmo a sustentar que a iniciação revelava-se como uma verdadeira "metafísica vivida". esclarece um texto de 1801).realizar "psicologicamente" (propõe Serge Hutin). a passagem de um estado profano a um estado sagrado. nem brincos. dito de uma outra forma. então. de uma quase cegueira a uma clarividência verdadeira. ou seja. uma vez que a palavra em questão designava a máscara da tragédia. de acordo com Jung. ele nomeia e define então a persona. no decorrer da iniciação maçônica. para Jung. que era ao mesmo tempo "porta-voz" ("per-sonare") . de sua máscara sociocultural. nem relógio. seus objetos pessoais de valor ("nem ouro. não seria também uma "metafísica vivida"? Da mesma maneira. Ele evoca suas origens latinas. é capital e só pode ser compreendido se colocado em relação àquele do Si-mesmo já evocado. antes da reunião solene. nem prata. nem metais". Ao longo de seus trabalhos sobre a identidade. O processo de individuação. sua famosa "persona"! O conceito de persona. Ou. o inventor da psicologia das profundezas recomenda ao Eu de "se descolar" de sua própria persona. isto é. ou melhor dizendo. nem qualquer outra jóia. E Jean Mourges. quando é solicitado ao neófito que deposite seus "metais" na entrada do Templo. que deixe de lado sua máscara social. até mesmo "psicanaliticamente" (acrescenta Bruno Etienne).

caso se vá até o fundo das coisas. muitas vezes também em nosso meio familiar. Isso induziria. como sinónimo usual da palavra francesa personne (pessoa). A persona é contingente das influências exteriores. de se comunicar com o outro tendo como base os diferente papéis que lhe são atribuídos". Jung nunca deixou de "levantar a máscara". e. pelo menos. o próprio Jung afirma: "é necessário se dar conta de que. evidentemente. a persona não tem nada de real: ela não se beneficia de qualquer realidade própria. Ela é aquilo que constitui nossa . essa fantasia nem sempre consciente de ser uma imagem superficial de nossa "personagem mundana". ela é somente a formação de compromisso entre o indivíduo e a sociedade". o lobo que apresentamos ao olhar do outro. a persona é o papel social. compreender o conceito de persona. em nosso meio profissional. essa "máscara".e identificação do personagem representado no palco pelo ator. sob o pretexto de uma semelhança sonora. evidentemente. Aliás. no decorrer de sua vida. dos cenários. Por isso. transitória. ou. das conveniências. Não se trata de. essa construção de superfície que tem o mérito de permitir ao ser profundo de se expressar de uma forma precisa. flutuante. portanto. Ysé TardanMasquelier pode logicamente escrever: "A persona tem muito a ver com o que Ma vie chama de 'a personalidade número um'. a um inoportuno contrassenso. Ora. Em outros termos.

um simples artifício. nossa casca superficial. Claro. G. isso corresponde a alguma coisa. Ela é. um compromisso em cuja constituição outros participam muitas vezes bem mais do que o próprio interessado. um é isto. em um certo sentido. sua persona não é senão uma realidade secundária. e poderíamos dizer por meio de uma tirada espirituosa. uma realidade com duas dimensões". adquire um título. o paciente que vem ver C. em realidade. comparada à individualidade do sujeito. destruir sua persona. necessariamente. Jung a escrever: "Por estar sujeito a um nome. naturalmente. nossa carapaça que deve ser rompida custe o que custar caso se queira apreender nosso núcleo autêntico de integração psíquica. para então "jogar a máscara e só iniciar uma psicoterapia ou uma análise estando de alguma forma "desmascarado". Ela é aquilo que parece nossa globalidade. disposto a . todavia. Sob esse ponto de vista. A persona é nosso escudo social que deve ser quebrado.aparente identidade. de sua importância por vezes perversa. quando se vê sob o véu de ísis. mas não é de forma alguma nossa personalidade verdadeira. G. Jung ou seus sucessores contemporâneos em seu consultório não tem de. assume uma carga que ele representa e encarna. somente nosso falso reflexo. deslocá-la ou negála. Sua persona é apenas uma aparência. ter bastante consciência de suas influências. o outro é aquilo. É exatamente isso que leva C. mas ter bastante consciência de sua presença.

em todo caso. sabedoria e beleza. o iniciado que vem à porta do Templo pedir a Luz. que aceita sofrer a cegueira da venda e a iluminação repentina. O analisado. como já foi visto. de humildade no início. deposita seus "metais" no limiar do Templo antes de ali entrar em busca. de modo voluntário. principalmente. Ele empreende um trabalho de clarificação de si-mesmo. do Templo ideal que cada um abriga em si. Ele reencontra sensações vindas de longe. mais nu. assemelha-se inegavelmente ao sujeito que engaja. paralelas. de sustentação. E disso que se trata estar em uma "viagem" em psicologia das profundezas. Ele deixa fluir a palavra libertadora.renascer mais verdadeiro. um processo psicanalítico. com muita frequência. Ele se aproxima de seu próprio centro (com ou sem maiúscula real!). suas falsas vergonhas e suas manobras de fuga. também de alguma forma esvazia seus bolsos psíquicos. Ele abandona suas reações de respeito humano. muitas vezes ofuscante. Nada menos. aquela do inconsciente que fala. aceitando de antemão uma espécie de segundo nascimento de si-mesmo. de seu desarraigamento. Ele . Isso lhe permite "mergulhar" no oceano das lembranças e das imagens passadas. então. O iniciado. O analisado que se deita no divã ou se acomoda em sua poltrona. diante de seu analista. em busca tenaz de toda força. Da mesma maneira. como o iniciado. seus pudores. As duas posturas parecem. aceita morrer para renascer melhor.

No consultório do clínico (ele é o ouvido benévolo. Claro. ou seja..aceita a regra principal de um falso jogo. o analisado "vasculha" a pré-história de sua psique.. a seguir. ele analisa seu próprio passado. tomando a "ponte" do Companheiro. uma vez que engaja o conjunto de sua personalidade. quando deixar fluir sua palavra presente para se armar melhor com as ferramentas eficazes que lhe permitirão. do obscuro. um mesmo combate. de sua profundeza. do renascimento. em pleno mito universal e fundador. da Sombra capital para a aurora magnífica e pura da lucidez e da harmonia. então. sendo este individual ou coletivo. De acordo com esses pontos de vista. trata-se de morrer a si-mesmo para melhor renascer a si-mesmo. . de sua própria pedra filosofal. no melhor dos casos de uma cura possível. do Aprendiz ao Mestre. Estamos. De certo modo. Trata-se de meditar na famosa "Câmara de Reflexão". a fim de se preparar. Eles correm o risco insensato da ressurreição. Eles desejam ganhar o lugar de sua própria verdade. a regra de ouro que consiste em se entregar mesmo com a emergência muitas vezes misteriosa e assustadora do vasto e indefinido continente do inconsciente. de passar de um estado ontológico aparentemente inferior (cegueira espiritual) a um conhecimento (gnose?). do profano ao Aprendiz. É a eterna travessia da morte. dos infernos. iniciado e analisado adotam uma mesma postura. para a passagem da obscuridade para a luz.

a significativas mudanças de consciência que nos permitem . Da iniciação maçônica. poderíamos fazer a mesma observação. O "conhece-te a ti mesmo" não envelheceu em nada e talvez por isso os deuses continuem desaparecendo da memória dos homens. A última etapa do "processo de individuação". a semelhança essencial entre o ensinamento das organizações tradicionais iniciáticas (métodos específicos de realização espiritual) e a psicologia das profundezas e suas psicoterapias reside em um objetivo comum: chegar gradualmente. Como escrevia há muito tempo (em 1960) Alan W. Watts. tantas vezes já evocado. Na realidade. o que está em jogo é realmente da ordem da integração psíquica como objetivo das duas posturas propostas àqueles que buscam sua própria verdade. Nos dois casos. muitas vezes com dor. aos nossos olhos. à custa de um melhor conhecimento de si-mesmo. E isso só é possível quando se arranca.apreender melhor o futuro e seus obstáculos. é a saúde psíquica e social e também física. a máscara de sua persona. seria uma loucura jogá-la na lixeira: "Quando examinamos de perto as regras de vida do Budismo e do Taoísmo. Elas seriam muito mais comparáveis à nossa psicoterapia". trata-se realmente de uma "libertação". do Vedanta e do Yoga somos realmente obrigados a constatar que não se trata de forma alguma de filosofias ou de religiões. pelo menos não no sentido como as entendemos no Ocidente. Tanto na iniciação quanto na cura analítica do tipo junguiano.

O próprio teatro onde acontece misteriosamente a lenta empreitada dual (e que sonha com uma reconciliação dos contrários) é. sabemos que é muitas vezes entre uma palavra e outra. desejos. na respiração entre duas frases. na pausa que incita à reflexão e à explosão da emoção e do ressentido. viver "viagens". E o Aprendiz. obrigatoriamente durante os primeiros tempos de sua presença "em reunião". não indo. Em análise. a Loja. . porém. Ele rapidamente aprende. Por experiência. uma espécie de superação da miséria interior. Jung ou Lacan. seja na linha de Freud. O iniciado aceita passar por uma série de provas. ao experimentá-lo. Iniciação maçônica e psicanálise de inspiração junguiana pertencem a uma verdadeira teoria da libertação pessoal que visa a um complemento de realização da pessoa. sem dúvida. mantém o silêncio e o respeito. para que tudo "isso" revele mais do que as simples palavras da tribo que precisam ser ditas. Sim. superar obstáculos.sentir diferentemente nossa própria aventura existencial. a cura analítica tem realmente como objetivo "no fim da corrida" (ou da individuação?) superar o Ego por meio de uma transformação da consciência. que o silêncio "fala" e que a atenção e a vigilância são mais fáceis. o silêncio também tem sua importância capital. medos e bloqueios encontra seu lugar. que essa indispensável "abertura" do paciente em relação aos seus conflitos. apreender sob um novo ponto de vista nossos laços relacionais com a sociedade e com o meio natural.

G. Capítulo VII Nem pastor. Jung. O paciente de Jung e de seus herdeiros (admitindo que eles existam!) também deve se tornar o ator de sua própria metanoia. castigá-lo. o que seria o mesmo que dizer. com grande paciência e . C. o mais próximos de sua própria verdade. Nem sempre ele está distante de uma certa tradição tibetana que diz que toda estrada de realização sempre terá de enfrentar o Ego. como a do Senhor Buda...ao encontro das grandes tradições do Oriente. o sucesso holístico do conjunto de um destino humano). o artesão maçom se abre inteiramente à intuição de uma realidade maior do que ele próprio. como Krishnamurti: "a personalidade me desgosta!". o agnóstico Luc Ferry. dominá-lo. e até mesmo aniquilá-lo. de certa forma. Que ele o nomeie "Grande Arquiteto do Universo" ou não. que de forma alguma se fechassem em si mesmos. Jung instigou seus pacientes para que fossem além da aparência imediata. C. que se estabelecessem. no entanto. diz realmente que a persona deve ser superada. G. a uma vastidão. superá-lo. nem guru. que se conscientizassem. diria. para alcançar o Si (isto é.45 que ultrapassa o indivíduo. que ensina que o Ego é detestável. e não destruída. Durante toda a sua carreira de psiquiatra. nem teólogo. como psiquiatra.

no início de seu crescimento. a relação com o pai ("um pastor muito mais triste. o primeiro que interpela o mesquinho do homem. o professor com seu manual. obscuramente decepcionado consigo mesmo". imagem ligada à sua capacidade de impor sua marca voluntária sobre o real em. ao que parece. é evidente que. decepcionante e sem perspectiva porque.e se pode pensar aqui no pai de Jung e no próprio Jung -. No destino de Jung. O desencantamento com a imagem do pai acontecerá muitas vezes no momento da adolescência. Quando ele revelou seu conceito de persona. ele até afirma que a persona é aquilo que alguém não é na realidade. E esse desencantamento às vezes se tornará lenta desintegração. o Mestre de Zurique nunca perdeu de vista que todo pai representa para o seu filho um modelo da dita persona. o tenor com sua voz". o filho está muito mais impressionado pelo reflexo exterior que seu pai revela no espelho das situações humanas do que pela realidade que ele mais ou menos mascara. ou mesmo antes. "o perigo é de se identificar com sua persona. se a persona é realmente o sistema de adaptação para se comunicar com o mundo. escreve Christian . Jung ressalta que. o qual significa se questionar sobre o reflexo que se quer dar de si aos outros. por exemplo. Em sua autobiografia. mas aquilo que ele próprio e os outros pensam que ele é! No caso do pai diante de seu filho . Sob esse ponto de vista.perseverança. um processo profissional.

real ou simbólico ou. G. aos olhos de Jung. "adotivo". a separação de C. Dessa forma.Gaillard) rapidamente se degradou. e consequentemente "perito" em fé religiosa. estava atormentado pela dúvida materialista. A seguir. dramática separação. dolorosa. voluntariamente. . Como todos sabem. seu "príncipe herdeiro". É preciso. assim como o pálido Johann Paul Achille Jung esteve muito mais ao alcance de uma psique filial sempre naturalmente destinada ao assassinato simbólico do modelo paterno. Sem extrapolar as etapas de sua vida. uma vez que tinha apenas 21 anos quando da morte prematura de seu genitor (início de 1896). muito cedo o filho se deu conta de que seu pai pastor. Além do mais. Separação talvez ainda inacabada diante da História. Freud colocou Jung durante um tempo. Com efeito. Ele quis fazer dele seu "filho". Aliás. O teólogo que perde suas crenças só pode ser infeliz. seu "herdeiro". no coração do movimento psicanalítico emergente. às vezes. ele conta que sua mãe. Jung de Sigmund Freud também foi mais problemática. alguns dias depois da agonia de seu esposo. não se deve esquecer de que Carl Gustav ficou órfão relativamente cedo. houve uma longa. disse a seu filho: "Ele desapareceu em um momento favorável para você". por um certo agnosticismo de base. o pai. Ocorre que. Jung teve de "matar o pai" muito cedo. culpado ao extremo. segundo a célebre e um pouco vulgarizada fórmula. pode-se apenas constatar que. permanece para seu filho um modelo dapersona.

como o trabalho do Aprendiz para obter uma pedra polida. consciente ou inconscientemente. pode-se comparar esse movimento de lenta libertação àquilo que. um dos mais incontestáveis gênios de seu século. para todos e para cada um. com muita evidência. pelo menos. independência a ser constantemente ganha ou novamente ganha sobre as influências exteriores. Em outros termos. enquanto fazia seus estudos de medicina na . efetua-se sempre "em movimento". esse pálido clérigo protestante e seu mentor psíquico. arrancá-lo de si. durante sua juventude. Foi certamente a partir da morte de seu pai. na Maçonaria. saída da "pedra bruta" das primeiras horas do dia da iniciação. o incontornável Freud) para se tornar o que se tornou.custe o que custar. contradizê-lo. Sem dúvida porque. ou. Seu desafio sempre foca a liberdade individual do sujeito. superar seu ícone. e às vezes durante toda a sua vida. e exige uma série de integrações. perigosa e infinitamente complexa. a fim de ir mais longe em seu próprio processo de individuação. voluntariamente. ou mesmo cúbica. A identificação com o pai permanece. superá-lo. de informações disponíveis do lado de fora. matá-lo. Jung foi o que melhor compreendeu toda a dor inegável que representa esse extirpar da persona necessário para forjar um homem livre. O crescimento humano. isto é. ele teve de assassinar simbolicamente dois pais (seu genitor físico. seria batizado. questioná-lo novamente.

De fato. com um certo lirismo. o orador se abria a uma dupla preocupação que deveria acompanhá-lo até sua morte. G. com pertinência que uma historiadora da psicanálise como Linda Donn. Por isso mesmo. observa que a primeira conferência deste último diante do círculo estudantil. Ele fez opções bem definidas sobre todas as questões da sociedade. ano da morte de seu pai. C. ele confessou ter sido primeiramente atraído pela Anatomia Comparada. muito menos teólogo. tratava dos "limites das ciências exatas" e conclamava ao estudo dos fenômenos hipnóticos e espiritualistas. G. Uma intensa emoção tinha se apoderado . colocando-se a questão metafísica capital do porquê da existência do mal e desse Jeová "que ri do desespero dos inocentes" (Jó 9: 22-23). Jung atingiu sua importância como homem. lendo notadamente Schopenhauer e Kant. E. em seu livro sobre Freud e Jung. em novembro de 1896. em sua autobiografia composta mais tarde: "Meu coração começou a bater com violência. o jovem Jung. Assim. ainda estudante. aliás. Ele precisou. Jung nunca desejou ser pastor como seu pai. ao ler um manual de Psiquiatria de um certo Krafft-Ebing.Universidade de Bale. depois. que qualificava as psicoses como "doenças da personalidade". decidiu repentinamente se orientar para a Psiquiatria. já expressava em público sua exigência de disciplina científica e sua profunda necessidade de examinar o inefável. precisei me levantar para retomar o fôlego. Ele foi seduzido pela Medicina e pela pesquisa pragmática. que C.

o lugar onde o encontro da natureza e do espírito tornava-se realidade". C. pelo menos em sua metade. enfim. muito rapidamente. composta. Era. Jung escrevia em La guérison psychologique: "A experiência que fazemos do objeto poderia nos colocar ao abrigo dos preconceitos subjetivos?". se isso às vezes não está em oposição. como confessará mais tarde. Jung nunca deixou de ser duplo em seu temperamento inaugural de pesquisador: ele sempre fez um paralelo. para retomar uma expressão meio bárbara que deveria aparecer bem depois de sua . como por uma iluminação. desde sua juventude. Ali estava o campo comum da experiência dos dados biológicos e dos dados espirituais que até então eu tinha buscado de maneira vã. Observa-se. preocupado em ser racional. entre a constante preocupação de uma necessidade de apoio no material e a de uma intuição das profundezas que levam o homem a explorar o inconsciente e seus continentes psíquicos e espirituais. E somente nela poderiam confluir os dois rios de meu interesse e escavar seu leito em um percurso comum. havia compreendido que não poderia haver para mim outro objetivo senão a Psiquiatria. por uma interpretação. constituíam para ele "as primeiras relações sobre os fenômenos psíquicos objetivos". Na realidade. rigoroso em suas pesquisas e igualmente decidido a explorar e a analisar as "observações dos espíritas". Estas últimas. Desde 1929. G. científico. Jung. Toda experiência não é.de mim. mesmo no melhor dos casos.

veículos universais dos ensinamentos de Sabedoria. que Jung. é um adepto da não dualidade. C. aprendeu ainda jovem em um círculo de iniciados. G. se recusa a encontrar. em personagens bíblicos como Jó. que seria reivindicada por mestres espirituais indianos como Ramana Maharshi. buscando as raízes da consciência nas religiões comparadas.C). essa corrente essencial de pensamento do Hinduísmo clássico (século VI a.morte. E mais particularmente em suas intuições que advinham a reconciliação dos contrários que ele alcança a plena medida de seu talento. com o compasso de sua inteligência excepcional. que diz: "Com seu raio. Ele sabe: o inconsciente é sempre rico de revelações. sem dúvida. C. 25-18). G. Ele é fiel ao segredo do Rig-vêda. Jung tornar-se-á um admirador do I Ching. no entanto. É isto: C. G Jung é fiel àquilo que. ao sondar ainda mais as significações dos ritos e dos símbolos religiosos do planeta. na Alquimia. um amigo do Vedanta. Baseando suas pesquisas na psique e na alma moderna. ou Aurobindo. ele vai ao encontro de uma atitude de espírito tipicamente maçônica no sentido mais nobre e universal da palavra. O mínimo que se pode dizer a seu respeito é que. Jung. Jamais esquecerá essa famosa lógica do Yin e do Yang originária da filosofia chinesa. notadamente da pena dos admiradores do filósofo Stéphane Lupasco. ao incentivar todas as . ele mediu os limites do céu e da terra" (VIII. Jung é ao mesmo tempo um sonhador sem complexo e um pragmático rigoroso.

um "superior desconhecido" que não pode ser comparado a nenhum outro! Ele acrescenta sua contribuição ao pensamento de Goethe quando este último escrevia em um poema de 1814. De fato. em sua autobiografia tardia. Jung. Nostalgia bem-aventurada: "E enquanto tu não compreenderes / Esse morrer e se tornar / Tu és apenas um obscuro passageiro / Sobre a terra tenebrosa". ele se torna. ao buscar uma ordem cósmica. ao preconizar a unidade primordial do ser contra seu esfacelamento. da obscuridade à luz. segundo a tradição de sua própria família. com admiração. parece não levar muito à sério a hipótese de seu eventual parentesco com Goethe. que. pelo itinerário e pela obra do poeta. G. tinha um avô que teria sido um filho natural de Goethe (repetimos isso voluntariamente). ao definir seu processo de individuação já evocado como um labirinto que nos conduz. encontramos . Certo. de purificação em purificação. ou melhor. C. Jung. De qualquer maneira. mas também o que é oposto. pôde ser influenciado. desde que a psicologia das profundezas inventa um conceito. Jung torna-se uma "pedra filosofal viva". descobriu. mais ou menos conscientemente. mas é certo que. no sentido alquímico do termo. Fausto.transformações interiores. conscientemente ou não. da morte à vida. que às vezes vai ao encontro das mediações tântricas sobre arte e a maneira de reunir não apenas o que está disperso. certamente. Mas ele é. na adolescência (tinha 16 anos).

Jung se encontra. É o caso da persona. G. diretamente saída da filosofia dita "das Luzes". Capítulo VIII Santo Agostinho. com o apoio de provas e de arquivos. G. ele explica em termos diretos e simples. C. pode-se apenas evocar. nós funcionamos como o homem funcionou sempre e em todos os lugares. Então. pôde ter sobre C. então.suas marcas no cadinho da Sabedoria universal. Aos seus olhos. G. defendida por uma ética de liberdade. de igualdade e de fraternidade universal. ninguém pode ignorar a influência que a Maçonaria alemã. Pode-se reconhecer essencialmente esse papel nas fontes de seu próprio processo de individuação. Jung durante sua adolescência. Goethe e Jung Quer se queira ou não dar uma grande importância ao atavismo em geral (real ou suposto). de acordo com aquilo que nomeia no Aïon "o habitus de nossa vida psíquica ancestral". Goethe já tinha escrito seu romance Werther e sua tragédia Götz von Berlichingen quando bateu na porta do Templo e foi de fato iniciado em 1780 na Loja Amália de Weimar e elevado à . Ele consequentemente se referia a uma análise esotérica da religião. que o avô de C. de maneira direta ou indireta. Jung era maçom na mesma época que Johann Wolf gang von Goethe (1749-1832). por exemplo.

maestria em 1782, começando o ano seguinte no cenáculo muito elitista dos "Iluminados". Goethe, que deveria pertencer à Maçonaria durante 52 anos, não somente estudou, como se intui, de maneira gradual e exaustiva, símbolos e ritos tradicionais, inclusive a lenda de Hiram e da Arca da Aliança, como, e isso está claro, introduziu em sua obra-prima, Fausto, vários dados indispensáveis ao trabalho contínuo na Loja. Realmente, de modo global, a ideia mãe de uma busca iniciática jamais o abandonou. Muito menos a busca de uma "palavra perdida" em vista de uma vida nova. Justamente, quando o adolescente C. G. Jung, com cerca de 15 anos apenas, é bom lembrar, leu pela primeira vez o Fausto, de Goethe, ele se reconheceu muito impressionado, no sentido pleno do adjetivo. Ainda mais que, desde a infância, como dirá mais tarde, ele estará a par do "segredo de família" um pouco mítico (muitas vezes evocado) que pretendia que a mãe de seu avô tinha mantido uma ligação amorosa extraconjugal com o autor do próprio Fausto e o que avô era, portanto, nada menos do que um bastardo do grande Goethe! No entanto, para além dessa filiação mais do que hipotética que fazia do jovem Carl Gustav o bisneto de Goethe, ilegítimo, como se diz, é preciso acreditar em C. G. Jung quando ele não hesita em afirmar que a leitura de Fausto agiu sobre ele "como um bálsamo miraculoso" correndo sobre sua alma... Em 28 de fevereiro de 1932, em uma carta dirigida ao escritor helvético Max Rychner (1897-

1895), Jung não esclarece que: "Fausto é o pilar mais recente dessa ponte do espírito lançada por cima do pântano da História, que começa com a epopeia de Gilgamesh, o I Ching, os Upanishads o Tao te king, os fragmentos de Heráclito e continua no Evangelho segundo São João, nas epístolas de São Paulo, em Mestre Eckhart e em Dante [.../...] Fausto é supraterrestre, e é por isso que nos arranca da terra, ele é o futuro assim como o passado e, por essa razão, é o presente mais vivo. É por isso que tudo o que é essencial para mim em Goethe está contido em Fausto". Ora, reler as diferentes versões de Fausto é esclarecedor sob essa ótica. Compreendem-se melhor as afinidades que Jung sentia em relação a Goethe. E o que representou para o futuro mestre de Zurique o próprio mito de Fausto. Graças à tragédia de Goethe, principalmente, o próprio personagem de Fausto tornou-se um herói popular, de uma irradiação excepcional, para o Ocidente moderno. Os dois Fausto, de Goethe, como escreverá C. G. Jung, constituem "um drama alquímico do começo ao fim". Ele até acrescentará (em Ma vie) que Goethe foi levado inconscientemente pelo "lento movimento de elaboração e de metamorfoses arquetípicas que se estende ao longo dos séculos". O que realmente nos ensina uma certa releitura de Goethe? O primeiro Fausto, iniciado em 1773 e finalizado em 1776, aparece sob a máscara de um velho habitado pelo desencantamento panteísta e profundamente revoltado por não ter podido, ou sabido, extrair do rico espetáculo da

natureza um "abre-te, sésamo" universal qualquer. Lembrando que Mefistófeles (no qual mais tarde C. G. Jung reconhecerá seu futuro conceito de Sombra) consegue de Fausto que ele lhe venda sua alma, assinando um pacto com seu sangue. Mefisto lhe devolve sua juventude e o leva ao sabá de Walpurgis. A seguir, Fausto bebe uma poção mágica. Então, ele admira em um espelho o rosto de Marguerite, com quem viverá o episódio de uma paixão infeliz. Esta morre depois de ter afogado seu filho em um momento de loucura. Mas Marguerite abandona seu destino à transcendência de Deus, e este lhe concede sua misericórdia. De certa forma, a morte de Marguerite salva Fausto da danação eterna... O mito, lendário, está, dessa forma, criado. Ele faz parte do patrimônio da humanidade, e ainda hoje encanta a imaginação popular. Quanto à segunda versão de Fausto, redigida, ao que parece, entre 1827 e 1832, tem a ambição de ser um resumo exaustivo do processo de toda a aventura humana. Fausto é introduzido ao reino das "Mães", em luta com as forças elementares das quais emana todo o seu élan vital... Ele toma como esposa a maravilhosa Helena. Desse casal nascerá Euforion, em quem vários comentadores reconhecem o símbolo máximo de reconciliação entre a poesia moderna e a antiga poesia clássica. Acreditando-se de alguma maneira onipotente, Fausto quer reinar sobre o mundo luxuriante da Natureza e conquistar da areia do mar uma área que ele quer

fecunda. No momento de morrer, Fausto, repleto de remorso, se arrepende. Deus, tocado por sua incansável busca da inacessível Verdade e do Belo e se deixando influenciar pelas súplicas de Helena, perdoa-lhe os comportamentos de todopoderoso. O grande Arquiteto evita sua danação. De fato, tanto a primeira versão do Fausto quanto a segunda nos evocam o mesmo símbolo eterno e universal: o do indivíduo capaz de tudo vender e sacrificar, inclusive sua alma, à conquista da Gnose (Conhecimento) absoluta. Para Mestre Goethe, Fausto representa certamente nossa natureza humana comum, com sua grandeza e suas mesquinharias. A partir de então, a figura lendária de Fausto pôde inspirar notadamente compositores como Berlioz, Schumann, Gounod, Stravinsky, sem deixar de lado Wagner, Liszt ou Mahler, ou até mesmo o pintor Delacroix... Quem, com efeito, não venderia sua alma ao Diabo ou não empreenderia uma vertiginosa descida aos infernos em troca de poderes verdadeiramente mágicos? Não é esse o destino de cada um de nós, o de ser tentado por aquilo que C. G. Jung denominará "a Sombra"? O Diabo, tão próximo do ventre, é também o diabolus, aquele que separa, como nos lembra Michel Cautaerts, da Société Belge de Psychologie Analytique, ao analisar a pintura a óleo de Jean van Eyck intitulada "O casamento dos Arnolfini" à luz de alguns textos alquímicos comentados por C. G. Jung em seu Mysterium Conjunctionis. Com efeito, se C. G. Jung nunca deixou de ser

inspirado e até mesmo entusiasmado por Goethe, é porque sabia que "seu" Fausto - e ele o escreve com todas as letras em 18 de junho de 1958 em uma carta a um confrade da Universidade do Oregon - "quase atingiu o objetivo da Alquimia clássica, mas, infelizmente sem chegar à última conjunctio, uma vez que Fausto e Mefistófeles não realizaram sua unidade". Colocado de outra forma, C. G. Jung pensava que a experiência do Si-mesmo (louca tentativa de reconciliar os contrários!) abrangia e implicava inteiramente a experiência humana de Goethe e as concepções expostas em suas obras essenciais. Por isso mesmo, a maneira de se expressar de C. G. Jung é realmente "goetheana", se não for alquímica e de inspiração maçônica. Aliás, o psiquiatra de Zurique deixa claro quando escreve, em 30 de janeiro de 1934, ao doutor em Filosofia Bernhard Baur-Celio: "Fiz experiências que são, por assim dizer, inexpressáveis, secretas, porque não se pode jamais dizê-las exatamente e porque ninguém pode compreendê-las (não sei se eu mesmo posso compreendê-las ainda que aproximadamente), perigosas na medida em que 99% das pessoas me julgariam louco se fosse contar semelhantes coisas, catastróficas na medida em que a ideia a priori provocada pela confidência proibiria aos outros o acesso a um segredo ao mesmo tempo vivo e maravilhoso, tabus, porque se trata de um campo numinoso protegido pelo temor a Deus que o cerca, bem descrito por Goethe". Além do mais, na mesma carta de 30 de janeiro de 1934,

O encontro capital de Fausto e de Mefisto (talvez fosse melhor escrever "confrontação"?) está representado em cada um de nós. à imagem do símbolo alquímico conhecido do Yin-Yang. aos olhos de C. O passo simbólico que conduz precisamente à postura espiritual propriamente iniciática é esboçado. E. negligenciar a individualidade.há ainda uma coisa que gostaria de dizer: o que se chama exploração do inconsciente revela de fato e na realidade a antiga e atemporal via iniciática". na tragédia do Fausto.um pouco mais adiante. G. aos nossos olhos. no entanto. Como Fausto. Jung. ou o branco e o preto. é realmente a Sombra que envenena o homem em sua evolução para a completude do Si-mesmo. a confissão ergue o véu de Ísis.. Dessa vez.. ainda que o ideal do "Selbsthilfer" ("o homem que ajuda a si mesmo") jamais esteja ausente de sua hermenêutica. essencial: ". G. Tanto Goethe . Mas cuidado com o contrassenso! Tanto para Goethe quanto para Jung. C. como Goethe com quem por vezes gosta de se identificar no plano conceituai. Por extensão. sua preocupação holística se faz cósmica. do começo ao fim de nossa travessia terrestre. pode-se afirmar que todo candidato profano que vem bater à porta do Templo pedindo a Luz interior tem sua parte de Fausto e sua parte de Mefisto. questiona o destino de toda a humanidade sem. Fausto e Mefisto se mesclam em uma sutil e esotérica sobreposição. Jung. Jung se deixa levar por essa confissão abrupta e. um pouco como a sombra e a luz. Mefisto.

Fausto representa realmente "uma abreviação da evolução da própria humanidade sem por isso suprimir a individualidade. G. e Georges Lukács tem razão quando ressalta em seus estudos sobre Fausto que Goethe ali narra certamente "o destino de um homem". Goethe "sempre se recusou a admitir que tenha desejado encarnar em Fausto uma 'idéia' .como Jung se interessaram pelas "secretas peripécias do desenvolvimento espiritual do homem ocidental" para retomar uma fórmula do segundo nomeado que não pode renegar tudo o que ele deve ao primeiro. do esfacelamento à unicidade. mas que o "conteúdo verdadeiro do poema é o destino de toda a humanidade". e isso não somente no plano conceituai. do Eu ao Simesmo de C. sem transformar as diferentes etapas de seu caminho em generalidades abstratas e conceituais". o caráter histórica e humanamente concreto do herói. "os mais importantes problemas filosóficos de uma importante época de transição ali estão colocados diante de nós. mas em ligação indissolúvel com uma descrição intuitivamente impressionante (ou pelo menos luminosa e decorativa) das relações humanas últimas". continua ele. É verdade: Fausto é um "poema cósmico sem igual". Com efeito. Jung. O poeta russo Pouchkine qualificava Fausto como a Ilíada da vida moderna. da periferia ao centro. E a Ilíada e a Odisseia de um homem que vai do desespero à salvação.

qualquer". Fausto indica muito mais a direção de um caminho, uma postura para ir além da dialética, um élan, uma tensão, uma postura de cura interior, uma via e uma recusa, ao se fazer o caminho, de perder a base interior inabalável de uma fé no futuro da humanidade. Goethe não deixa de buscar, durante toda a sua vida e ao longo das diversas correções que fez ao seu Fausto, de trabalhar as três qualidades iniciáticas que todo eterno Aprendiz deve gradualmente desenvolver nele: a Sabedoria, a Força e a Beleza. Trabalhar a pedra exige toda a uma existência. E aprovamos Georges Lukács quando ele afirma que "a oposição entre Fausto e Mefisto não é de forma alguma a oposição entre a ascese e a sensualidade, mas a dialética concreta e real do humano e do diabólico no interior da satisfação sensual da vida", (sic.) Encontramos tudo isso na obra de C. G. Jung em sua busca da realidade da alma. O paciente de Jung, como se poderia escrever, é ajudado por seu psicanalista "a integrar" em seu segredo mais íntimo Fausto e Mefisto, em suma. O objetivo filosófico - ou a louca esperança, de Goethe e de Jung, se parece: trata-se de abrir em si espaços interiores para que o indivíduo desabrochado possa viver ativo e livre em harmonia com os outros indivíduos, seus irmãos, que formam a sociedade. Sob esse ponto de vista, o ideal maçónico mais alto vai ao encontro do famoso monólogo do Fausto: "Aos milhares de homens, abro espaços

Onde eles viverão não em segurança, mas ativos e livres. Que fora a onda cause destruições, levante-se até o rebordo Assim que ela pulverizar o dique, pronto a irromper com violência A comunidade, de um, único élan, acorre para reformar a brecha Sim! A esse pensamento, eu me entreguei por inteiro, Ali está a última lição da sabedoria: Somente aquele merece a liberdade e a vida Que cada dia deve conquistá-los E assim, envoltos pelo perigo, A infância, a idade madura, a velhice desenvolvem seu círculo fecundo. O formigamento, eu gostaria de vê-lo, Viver no solo livre com um povo livre." Este último verso de Goethe ("viver no solo livre com um povo livre") faz estranhamente pensar na conhecida fórmula: o maçom deve ser livre em sua Loja livre. Com efeito, como o explicava muito bem Jean Mourgues, se o autêntico iniciado é aquele que chegou ao conhecimento e à maestria, "ele não busca nem o poder sobre os homens, nem o lucro que resulta da utilização e do assujeitamento das coisas e dos homens, nem as honras que vêm do orgulho de parecer ou à vaidade de ser reconhecido". E Oswald Wirth confirma essa ideia, afirmando que o Mestre Maçom goza "de uma completa liberdade porque ele é plenamente razoável e que,

consequentemente, só pode fazer um bom uso de sua liberdade". Em outros termos: o adágio de Santo Agostinho "Ama e faze o que queres" não está distante nem da filosofia de Goethe nem da de Jung. Evidentemente, a Lei maçônica não é estranha nem a um nem ao outro.

Capítulo IX Jung, maçom sem avental
Fazer do "lobinho" Carl Gustav Jung um maçom, com ou sem avental, pode parecer meio arriscado, pelo menos em uma primeira abordagem. No entanto, não nos esqueçamos de que o próprio interessado, no livro de suas memórias, sonhos e reflexões (Ma vie), no final do capítulo intitulado A torre, nos informa que seu avô era maçom entusiasta e Grão-Mestre da Loja suíça". E, ao lamentar que seu avô tenha provavelmente trazido uma modificação particular aos elementos do brasão de sua família, que "tinha uma fênix como animal heráldico", ele insiste no histórico dos rosacruzes e, principalmente, na rosa e na cruz, que "representam a problemática dos contrastes rosacrucianistas (per crucem ad rosam), o cristão e o dionisiano, cruz e cacho de uvas, sendo "os símbolos do espírito celeste e do espírito ctoniano". Jung medita a seguir sobre o símbolo de união representado pela estrela de ouro, o aurum philosophorum, que simboliza o ouro dos

filósofos, isto é, o ouro espiritual dos alquimistas. Enfim, depois de uma alusão a um dos fundadores da Rosa-Cruz, Michael Majer (15681662), ele ressalta como provável o fato de que seu avô conhecia a tradição dos alquimistas, na linhagem de Paracelso, esclarecendo alguns dados de sua árvore genealógica. Mais ainda, Jung observa com todas as letras: "Compreendi a estranha comunhão de destino que me liga aos meus ancestrais. Tenho um sentimento muito forte de estar sob a influência de coisas e de problemas que foram deixados incompletos e sem respostas por meus pais, meus avós e meus outros ancestrais". Não se poderia expressar melhor e confessar de qual "carma impessoal" fala Jung, de qual Maçonaria geracional! O que parece inegável, historicamente falando, é o entorno do jovem Jung, nascido e educado em um meio deveras "propício". Certamente, havia o peso de seu avô, Karl Gustav Jung (1794-1864), que acabamos de evocar, esse brilhante médico (primeiramente católico e depois convertido ao Protestantismo) contemporâneo de Goethe, talvez seu filho natural, que entrou na Maçonaria durante seus estudos universitários, professor em Berlim e depois em Bale. Mas, de modo evidente, é igualmente necessário levar em consideração seu pai, Johann Paul Achille Jung (1842-1896), pastor em Kesswil (Cantão da Turgóvia). Este último foi certamente uma personalidade bem menos ativa e marcante, um pai "honorável, mas decepcionante e

decepcionado", como observa Christian Gaillard,1 mas ele representou o papel capital do "pai ponto de referência" a ser questionado e superado. Em relação ao próprio Jung, o fundador da psicologia das profundezas, nenhum documento, apesar de nossas várias pesquisas, foi encontrado sobre sua eventual iniciação maçónica. Mas, no fundo, o que isso importa? O que é essencial é muito mais aquilo que permaneceu para sempre gravado no espírito criador de Jung do cadinho simbólico - do atanor, como diriam os alquimistas - do qual ele era o herdeiro direto. Nascido cercado por símbolos, ele se tornou, após a longa viagem de uma longa vida, um especialista mundial. Em sua autobiografia, Jung observa, e isso é, sem dúvida, capital: "Toda a minha juventude pode ser considerada sob o signo do secreto". Ele ressalta, aliás, que muito cedo provou uma estranha sensação "de ser dois", um, o filho de seus pais, "aquele ia ao colégio, era menos inteligente, menos atento, menos aplicado, menos conveniente e menos limpo do que muitos outros"; o outro, pelo contrário, "era um adulto; ele era velho, cético, desconfiado e distante do mundo dos humanos". Assim, muito cedo, Jung esteve às voltas com aquilo que ele próprio chama sua personalidade no 1 e sua
1 Gaillard, Christian. Le musée imaginaire de Carl Gustav Jung. Éditions Stock,
1998. N.E.: Sugerimos a leitura de A Espada e o Graal, de Andrew Sinclair, Madras Editora.

um belo dia. Jung buscou na Bíblia e na tradição cristã. Mas o orante Jung decepcionou-se terrivelmente com sua primeira comunhão ("nada aconteceu!". "nada de uma reunião ou de uma unificação". aquela para quem as religiões se dirigem desde sempre. "o arquivelho". E foi necessário que. Jung sob o olhar de um Templo protestante que bem cedo se torna para ele uma fonte de tormento. para que Jung compreendesse que o obstáculo capital talvez fosse. "eram apenas palavras!". ninguém se surpreenderá em ver o adolescente C. De uma maneira geral. mas também no Oriente. chegará a escrever. as respostas para suas inquietações existenciais. sobre a vontade de Deus e sobre sua natureza.. Essas preocupações metafísicas precoces. levando-se em consideração o que precede. aquela do homem interior. G. sua mãe lhe dissesse: "Você tem de ler o Fausto. Jung as guardou para si. aos seus olhos. podese dizer que o jovem rapaz bem cedo se questionou sobre a graça divina e a injustiça. diz ele em sua autobiografia.. ainda em . "Deus tinha permanecido ausente"). No entanto. porque acreditava saber de antemão o que um pastor deveria lhe responder por razões honestas ligadas ao seu ministério. sendo a segunda. de Goethe". o velho sábio Jung. Mefisto! Aliás. evidentemente. isto é. A seguir. Ele se recusou a colocá-las explicitamente a seu pai. Logicamente. como ele se nomeará em suas memórias. foi realmente seu pai quem lhe deu pessoalmente cursos de instrução religiosa.personalidade n0 2. explica ele.

"bem como a pretensão sem escrúpulo de Fausto e. do qual ele se acreditou culpado. o assassinato de Filemon e de Baucis". no entanto. no passado. Compreende-se então: se mais tarde Jung escolheu o nome de Filemon para nomear esse curioso personagem surgido de seu . Se Goethe foi. pobre. um pouco como se.. segundo o poeta latino Ovídio. um velho homem. e a lenda conta que foram metamorfoseados em árvores cujos galhos se mesclavam. um padrinho. Até mesmo o desejo de ambos de morrer simultaneamente foi atendido. acolheram de maneira hospitaleira Zeus e Hermes disfarçados. portanto.. Filemon. para Jung um profeta. Baucis. um fiador permanente (outra confissão com todas as letras). tivesse participado do assassinato dos dois velhos! Lembremo-nos de que. Todavia. eles foram salvos do dilúvio que inundou a terra onde viviam e viram sua casa transformada em Templo do qual se tornaram os primeiros sacerdotes. Mefisto e a grande iniciação final permaneceram para mim um acontecimento maravilhoso e misterioso nos confins do mundo de minha consciência"..sua autobiografia: "Em todo caso. foram-lhe necessários alguns poucos anos para pensar que Deus talvez fosse uma hipótese "que poderia ser discutida" e se distanciar a partir de então da Igreja Protestante oficial. sobretudo. e sua esposa.. apesar de sua "admiração" por Goethe. Como recompensa por isso. o adolescente Jung criticava a solução final de Fausto! A "subestimação indiferente de Mefisto" o chocava pessoalmente.

pela admiração que o avô e o neto confessavam por meio de um poema de Goethe. Die geheimnisse (Os mistérios). como veremos mais adiante. Este último texto. professor de História das . as aproximações são lógicas. entre os quais a estrela de ouro alquímica que também pode levar a pensar na estrela radiante dos Companheiros.inconsciente e capaz de representar uma força que ele não tinha. uma espécie de guru interior com quem se pôs a dialogar na imaginação "a tal ponto que às vezes tinha a impressão de que ele era fisicamente real". alguns chamam C. segundo Richard Noli. herança confirmada. é evidente que o Venerável avô de Jung (que. isso não era de forma alguma por acaso! Se a Maçonaria dos Jung (avô. existe aí como uma espécie de filiação maçónica inegável a ser reconhecida. Jung Senior) conhecia incontestavelmente as tradições iniciáticas em geral e era versado em filosofia oculta. para ficar mais claro. sua "Oficina". no século seguinte. ela também é bem próxima daquela de Goethe. pai e eventualmente filho) pertence ao movimento tradicional da Rosa-Cruz. G. A partir de então. Ela subentende notadamente o símbolo maior da busca do Santo Graal. aliás. seu neto iria pintar esses emblemas no teto de sua misteriosa torre de Bollingen. Assim. Além do mais. sua Loja pessoal. Lembremos-nos ainda de que foi de forma deliberada que ele acrescentou às armas familiais diversos símbolos maçónicos. e é preciso observar que.

Enquanto o crepúsculo avança e parece anunciar a morte do Sol. aprende a seguir a biografia de Humanus. com surpresa. o fundador do convento. Em suma. ele pode admirar a sala dos ritos. que anuncia aos seus irmãos que partirá em breve.. Todos esses nobres senhores chegam ao final de uma longa vida plena de experiências. Ele começa justamente pela narrativa de uma estranha viagem.Ciências de Harvard. que. O viajante se sente encorajado a avançar até a porta em que observa. trata-se da caminhada de um certo Irmão Marcus. Depois. serviu de inspiração às organizações ocultas e às sociedades secretas völkisch alemãs. Um velho sábio. Então Marcus descobre que o monastério é habitado por um cenáculo de orgulhosos cavaleiros com mechas brancas. a história não tem qualquer . que parece vir de longe. ao atravessar uma região escarpada durante a Semana Santa. dispostas contra as paredes. Irmão Marcus. cheio de admiração. Marcos se surpreenderá com uma cerimônia solene durante a qual três jovens homens. infelizmente. sendo uma para o Mestre da Ordem. os sinos do monastério começam a tocar.. pede abrigo em um monastério. seguram tochas diante deles. espécie de longa busca ou até mesmo de conto iniciático. As 13 cadeiras estão de fato dispostas em torno de uma cruz entrelaçada de rosas. Durante a noite. vestidos de branco. abre-lhe e o convida a cruzar a porta. Mas. com 13 poltronas ornadas de brasões com símbolos misteriosos. um crucifixo "trançado de rosas".

bem entendido. Goethe publicou um resumo do final dos "Mistérios". eles estão encarregados de contar. círculo cosmopolita "patrocinado" pela filha de John D. de modo inconsciente ou não. A partir de então. de uma geração a outra. Cada um dos 12 nobres e enigmáticos cavaleiros. umsentido e uma unidade espirituais graças à Ordem da Rosa-Cruz. sob o pedido de leitores intrigados. uma vez que os versos de Goethe terminam ali e que o poeta os publicou dessa forma.sequência. um período da vida notável de Humanus. G. gostavam particularmente desse poema de superação lírica e de significação nitidamente iniciática mostra que não se pode abordar a obra complexa do explorador do inconsciente coletivo sem levar em conta constantemente essa fonte maçónica sempre presente. Jung. encontram. por Goethe. o superior do monastério. extraídos da aventura de vida de Humanus. C. . Jung ou por seus convidados. simboliza uma religião e uma nacionalidade. um por vez. e é previsto que Humanus morra na Páscoa e que Marcus retome o testemunho como chefe da Ordem! E compreensível: ressaltar aqui que os Jung. ao criar de certa forma "seu" primeiro grupo de pesquisa (O "Clube Psicológico de Zurique". explica Goethe. G. e pode-se notar que um século após a edição de Die gehemnisse. cruzamento de confrontações vivas. talvez o acaso não faça de forma alguma parte desse mundo. No entanto. É de se adivinhar que esses episódios esparsos. de seminários dados por C.

Jung "homenageia seus ancestrais. Éditions Plopi. seu reconhecimento em relação aos seus avós e "aos ancestrais da pátria como espíritos que seguiram o mesmo caminho na mesma busca do Graal". A evidência se impõe: ao evocar dessa forma o espírito de Goethe. De fato. como o faz sem pudor Richard Noli. o poema Die gehemnisse. pseudobastardo de Goethe. além da superação e do domínio de seu reino interior. portanto. Jung. G. e os cavaleiros do Graal do Parsifal. de Wagner. . mas que bem 2 Noli. G. Richard. Melhor ainda. no processo de individuação completa de C. a simbólica maçônica. ele marca. Jung. Jung acreditava ser literalmente a reencarnação de Johann Wolfgang von Goethe e considerava como verdade que seu avô era um bastardo deste último. G. que o fazia fantasiar. que C. C. com efeito. glorificando a confraria rosacrucianista de um lado. sua alma ancestral".2 Sem chegar a pensar. pronuncia uma solene conferência ao longo da qual evoca. mais ou menos oculta ou transformada ao longo de suas definições de conceitos e de suas experiências de vida. "matar simbolicamente" como proporiam os freudianos) e por um pai pastor. 1999. mas que ele não conheceu em vida (e não poderia. dividido entre sua admiração por um avô Mestre Maçom. pode-se apenas ressaltar o papel em nossa opinião essencial que representou. le Christ Aryen. de outro lado.Rockeffer). Jung. ele também um Venerável e usando um avental.

a simbólica maçônica para a psicologia que inventou. estava encarregado de propagar. com efeito. compreender melhor algumas noções de base como anima e animas. Dito de uma outra maneira. Assim. Todavia. de maneira nova e inédita. ao longo de suas pesquisas entusiasmadas e das obras escritas que lhe correspondiam.. que Jung não apenas jamais renegou a Luz ancestral que lhe foi dada. Descobriremos. e. pouco a pouco. o processo de individuação. Jung transpôs. inconsciente ou conscientemente (quem pode dizê-lo).cedo considerou como um medíocre que sofria por não mais acreditar nos dogmas protestantes que. direta ou indiretamente. apresentar isso pode chocar alguns especialistas. pode-se dizer. nos encontramos no início de nossas surpresas. então. pudemos ver como conceitos criados aparentemente de uma só vez pelo mestre de Zurique como. A partir dos capítulos seguintes. criar "sua" psicologia das profundezas ao retomar um grande número de ferramentas maçônicas que sua familia lhe havia deixado como legado. no entanto. Certo. devem tanto à simbólica maçónica tradicional. antes .. provando que esta não é de forma alguma gratuita ou partidária. por exemplo. na realidade. as profundezas da psique. iria. mas que dela se serviu com gênio para explorar. mas ilumina sob um novo ponto de vista toda a problemática de Jung. ele o fez "sob proteção". E. tentaremos. como herança real. que fortalecerão nossa hipótese inicial.

há vários séculos. Para se convencer disso. Hiram e nós Nascida no atanor dos símbolos. estranhamente. este último revelando-se cada vez mais fácil de ser corroído. evidentemente. os "iniciados" de todos os gêneros. a fim de disfarçar melhor a simbólica maçônica que ele não queria nem aprovar nem revelar. Não se pode esquecer. sem nomeá-las. Capítulo X Jung. muito se serviu. para explicitar suas fontes propriamente maçónicas. parece-nos sem dúvida necessário retornar ao aliado que Jung encontrou na Alquimia. da alquimia espiritual e operativa. codificaram. entre o pilar de seu avô e o de seu pai. de que os seres inspirados. de sua linguagem. Enfim. é preciso realizar um rápido desvio sobre a atração espírita à qual o jovem Jung em formação quase cedeu. sem dúvida nenhuma de inspiração rosacrucianista. suas visões dos mistérios espirituais sob forma de símbolos e transmitiram seus ensinamentos aos seus alunos. mas não podia negar. basta citar os xamanismos. o . de sua tradição. de seus grimórios secretos. a via de Jung. de suas imagens.de continuar a explorar sua excepcional aventura de procurador de ouro. Isso ocasionou a emergência das diferentes grandes tradições iniciáticas do Ocidente. do Oriente e das Américas.

Idem. ambos da Madras Editora Jung. o movimento Rosa-Cruz e. e de Mitos Gregos. 1970. Éditions Buchet/Chastel. de Jean-Louis de Biasi. Jung não poderia expor sem complexo. Mircea. Eliade. Idem. de Jean-Louis de Biasi.E. capîtulo "Jung et Valchimie". Françoise. Le mythe de l'alchimie. Bonardel. o Tantrismo. e de Mitos Gregos. os mistérios gregos4 e romanos da Antiguidade. . Psychologie et alchimie. G. tudo o que sua psicologia das profundezas devia a essa forma de iniciação tradicional. Eliade. Cahiers de l'Herne. Mircea.: Sugerimos a leitura de Cabala Teúrgica.E. capîtulo "Jung et Valchimie". a Maçonaria. a Confraria.Taoísmo filosófico. Jung. Psychologie et alchimie. C. a Cabala. Ora. de Robert Graves. Ele não podia ignorar sobremaneira aquilo que se entende por iniciação. "um conjunto de ritos e de ensinamentos orais que acompanham a modificação radical de todo estatuto social e religioso do homem a ser iniciado". 1970. a Alquimia. 1984. sem se sentir "preso" pelas personalidades de seus ancestrais. Jung tinha tido uma demasiada admiração por seu avô Carl Gustav Jung Senior para negligenciar a evidência de que a iniciação maçônica. ambos da Madras Editora Jung. Éditions de L'Herne. Éditions Buchet/Chastel. que é justamente a Maçonaria como via iniciática. 4. Bonardel. que visa à transformação do indivíduo e sua passagem do "velho homem" ao "homem novo". isto é. G. conduz também o recipiendário em 3.3 o Sufismo. Éditions de L'Herne. Françoise. para retomar uma definição de Mircea Eliade. enfim. Cahiers de l'Herne. 1984.: Sugerimos a leitura de Cabala Teúrgica. nascida na Escócia por volta de 1637 e representada no mundo todo. C. de Robert Graves. Le mythe de l'alchimie. 1978. Jung. 1978.

nisso.direção a um renascimento. de um percurso. enfim. o que subentende sempre provas iniciáticas que implicam uma morte ritual seguida de um novo nascimento. devolver sua relevância ao mito da Alquimia. símbolo da vida espiritual. de uma propedêutica de conversão espiritual. sua súmula Psychologie et alchimie será abertamente criticada por um especialista como Eugène Canseliet. muito evidentemente. Jung vai. Jung sabia que isso induziria a uma oscilação da Sombra para a Luz. No entanto. G. Curiosamente. Como a da terra. nas duas tradições. C. comparável ao processo de individuação. privilegiando às vezes um estado de espírito e entrando em contato com os próprios alquimistas ou com aqueles que reivindicam sua antiga Arte Real por meio de uma certa confusão nas fontes das quais se serve em suas análises. Ele sabia que tanto a Alquimia quanto a Maçonaria são primas-irmãs). que tratará . signo de purificação e de regeneração. G. certamente. A da água. A do fogo. Jung estava a par de suas "viagens" simbólicas. durante a qual o postulante ao Conhecimento é trancado na Câmara de Reflexão para ali iniciar uma espécie de exame de consciência sobre seu passado. no entanto. passagem obrigatória para aceder à Luz quando a venda da cegueira é arrancada de uma só vez. C. seu presente e seu futuro. caso se ouse dizer. Ele não ignorava as provas. A do ar. e que sempre se trata.

no divã de nossas fantasias. conservados na universidade de Cambridge. qual a palavra perdida! De todo modo. em seu comentário sobre Le mystère de la fleur d'or. Alberto. Como ele o ressalta. quando se imagina uma diante da outra. mais próximo de nossa época. linguagem que encontra suas correspondências na gnose e na Maçonaria. dessa forma. e Jung nisso nos ajuda. é necessário se livrar rapidamente da velha e clássica imagem que mostra o criador de ouro iluminado por uma antiga vela e concebendo misteriosamente alguma transmutação de metais em seus fornos enegrecidos. Newton. São Tomás de Aquino. as grandes linhas . Jung está em boa companhia! E reencontrando. entre o Oriente e o Ocidente". De uma certa maneira. quando ele recorre à Alquimia. Arnaud de Villeneuve. Apesar disso. que C. ao longo das decifrações de velhos tratados. principalmente pelo intermédio de sua linguagem simbólica. Maçonaria e Alquimia. sem omitir. Poderíamos dizer. espiritual. G. pode-se perguntar qual dessas duas vias de transformação nos evoca a palavra velada. o Grande. reapareceram somente em 1936.Jung como "escritor especulativo" e seu estudo como "acrobacia psicológica". Jung estima que a alquimia pode ajudar a "lançar uma ponte de compreensão interior. no que diz respeito à Alquimia de onde quer que ela provenha. no passado. ele nos lembra que. ela fascinou autores prestigiosos como Roger Bacon. cujos cadernos alquímicos. claro.

a sabedoria. da linguagem oculta. O que se passa em Alquimia? O que nos diz? Ou melhor. escreveu livros secretos aos quais somente os rosa-cruzes têm acesso) ou ainda o . oculta desde os tempos imemoriais. A relação é triangular e não deve nada ao acaso. isso demonstra a existência dos arquétipos e do inconsciente coletivo. o que nos sugere? Advertem-nos sem parar sobre a importância do segredo. Que se evoque o mito de Nicolas Flamel e de sua mulher Pernelle. Como observa com pertinência Françoise Bonardel. C. Trata-se. G. Jung compreende que. Christian Rosencreutz. muito evidentemente. Certo. A preocupação recorrente é com certeza o tema mitológico da revelação primitiva. o da Rosa-Cruz no século XVII (não nos esqueçamos de que o fundador mítico da Ordem. a própria salvação. de não se fixar somente na ideia bem material (e comercial!) de transformar os metais vis em ouro sonante e líquido. "se existe concordância entre as imagens da Alquimia e aquelas do inconsciente do homem moderno. mas não afirma em nada que os alquimistas um dia fizeram ouro ou regeneraram o mundo!".paralelas discerníveis entre Alquimia e psicologia das profundezas. mas de descobrir os meios de alcançar a perfeição interior. mas a Maçonaria também caminha sobre o mesmo terreno de estudo. ele analisa as projeções. do código. a Alquimia e a terra incógnita da psique (consciente e inconsciente) têm um campo em comum a ser explorado: o dos mitos e dos símbolos.

personagem do conde de Saint Germain. bem como a exploração da psique. segundo Jung. de longevidade a ser ganha. então. No final das fusões realizadas no laboratório de um Fulcanelli ou de um outro. fala-nos de saúde a ser encontrada. de fonte(s) de juventude. para C. sempre é o caso de encontrar. Georges Dumézil é recomendável. como resume essencialmente Mircea Eliade. e. Foi em 1928. a receita da imortalidade. o elixir primordial. de ambrosia grega e às vezes até mesmo de caldeirão céltico! E sempre é o caso. que Richard Wilhelm enviou a C. sempre se trata de compreender que as fases da Opus (a obra) alquímica constituem uma paciente iniciação que tem como objetivo mal dissimulado nada menos do que uma transformação radical da condição humana! Reler Mircea Eliade. G. é a história épica de uma série de projeções inconscientes na matéria. G. por ocasião de uma entrevista entre ele e Mircea Eliade. da realização de um retorno simbólico à matriz seguida de um renascimento. Henry Corbin. Jung. quando estava pintando uma imagem "que mostra o castelo de ouro bem guardado" (sic). Jung declara: "A Alquimia representa a projeção de um drama ao mesmo tempo cósmico e psicológico em termos de laboratório". Jung a tradução de um tratado taoísta que se tornou célebre. a Alquimia. enfim. A busca alquímica. o Secret de la fleur d'or e lhe . O ouro. seria a imortalidade? Ao final das contas. de árvores e de plantas da eternidade. publicada em 1978.

G. para que o organismo humano pudesse assimilá-las". desde então. mas o ouro de uma quantidade transcendental que pode promover a espiritualização do corpo". C. ele vai explorar os tratados e as figuras alquímicas de maneira quase sistemática e jamais deixará de reconhecer ali os reflexos de seus questionamentos de psicólogo e de pesquisador. Com seu Commentaire sur le mystère de la fleur d'or. A partir dessa leitura que representa uma transição entre duas épocas em sua obra. Ele pressente aquilo que pode extrair do mito da Alquimia em geral e da Alquimia asiática em particular. é o de obter. o elixir que dará a imortalidade. Eliade nos diz bem: "Os chineses pensavam que as substâncias eram impuras quando eram encontradas na terra e que era necessário cozinhá-las. G. C. O texto em questão é chinês e milenar. como os alimentos. um certo número de seus grandes temas de predileção. "trata do castelo amarelo. Jung toma conhecimento dele com entusiasmo. O sinólogo Berthold Laufer esclarece: "Os chineses acreditavam que o ouro produzido pelos processos da sublimação e da transmutação alquímicas era dotado de uma vitalidade e de uma eficácia superiores na luta para alcançar a redenção e a imortalidade. Jung abre sua pesquisa sobre as civilizações orientais e esboça. custe o que custar. taoísta especialmente. Aliás. não era o ouro como metal que desejavam.pediu um "comentário europeu" (sic). . germe do corpo imortal"! Como se pode adivinhar. o desejo do alquimista chinês.

O que é certo é o suporte inesperado que vai constituir. trata-se. quando desejará explicitar seus próprios conceitos em Psicologia. G. do Egito e do mundo árabe. formando uma das vias do esoterismo.Então. 1975. na China. darão o anima e o animus. se espalhou pelo Ocidente. mas se pode. de regenerar a matéria pelo fogo. reler Julius Evola5 é esclarecedor caso se deseje ter uma visão de conjunto exaustiva da Alquimia tradicional. transpostos. a Alquimia em geral. remontariam aproximadamente ao ano 165 antes de Jesus Cristo!) ou do Ocidente. e do yang (masculino). Julius. La tradition hermétique. quer esta seja originária do Oriente (os textos alquímicos fundadores. evidentemente. mas não vamos nos antecipar. Jung saberá fazer jorrar dessas concepções chinesas de base sobre o mundo e a alma e singularmente da crença tradicional de uma presença cósmica e onipresente do yin (feminino). que. A esse respeito. sob o atanor. de purificar os metais vis segundo um processo preciso e muitas vezes mantido secreto por trás das palavras neste momento. até obter 5 Evola. pressente-se o que um C. Éditions Traditionnelles. . Nosso objeto aqui não é o de levantar em algumas palavras um panorama da Alquimia no Ocidente . contudo. em Alquimia. Resumindo o assunto.o projeto pareceria uma má vulgarização ou uma impostura -. através da Babilônia. lembrar que a Alquimia é realmente a expressão de uma tradição que remonta a Hermes Trismegisto e que.

Aos seus olhos. fogo e terra) e nos três princípios (mercúrio. de maneira surpreendente. Trata-se de conseguir a transmutação primordial. recorre à energia cósmica global. ou pelo casal real irmão-irmã ou mãe-filho. por ocasião da confrontação com o inconsciente.a pedra filosofal. na Psychologie du transferi. em correspondência microcosmo e macrocosmo. ao encontro da significação contida nessas imagens" (sic). trabalha em sua própria transformação. colocase a serviço do Mistério da criação e de uma visão do mundo da qual ele se acredita o orante e o depositário sagrado.. Psychologie du transfert. "é. e. para tornar tudo espiritual. representa na Alquimia um papel tão importante que pode acontecer que o processo inteiro seja representado. coloca.E. Eis realmente o sentido oculto de sua busca.6 aconselha utilizar a Alquimia como "fio de Ariadne". Ele explica até mesmo que . toda dissolução.: Solve. a reação catalisada (acelerada) pelo sulphur. ele continua. ilustrada ou pelo Sol e a Lua. pelo Vitriol. apoia sua experiência de laboratório nos quatro grandes elementos (água. a representação mais completa e ao mesmo tempo a mais simples. uma vez que "o que o médico observa e vive com o paciente. G. a série de gravuras do Rosarium philosophorum de 1550". N. 1980.". para isso. E é com grande pertinência que C. ar. enxofre e sal). não importa de onde ele vem. C. O alquimista. Essa "relação 6 Jung. Jung. sem dúvida. e vai. . Éditions Albin Michel. por meio de repetidos cozimentos. então. de superar toda putrefação.. G.eu cito: "A união dos contrários.

não nos esqueçamos jamais .se pode reencontrar as grandes fases do longo caminho experimental da Grande Obra. sem escrevê-lo explicitamente. com que pareça lógica a C. principalmente à Maestria. . Jung "estudar uma série de gravuras medievais à luz de nossos conhecimentos modernos. a régua. uma vez que . Mas. da Maçonaria de seus ancestrais. o esquadro e o malho. por três companheiros traidores que utilizam as três ferramentas. baseando-se na fusão) no ritual maçônico que diz respeito aos graus superiores. a Alquimia e suas representações contêm em germe um grande número de elementos da psicologia das profundezas. o regicídio. então. pode-se identificar o episódio do assassinato de Mestre Hiram. Assim. C. G. e que querem roubar assim a palavra do Mestre que resistiu.estreita" entre esse tipo de imagens alquímicas e sua significação psicológica faz. a putrefação e a ressurreição (inclusive com suas duas vias distintas da elaboração filosofal que são a via úmida que consistia em deixar amadurecer "o ovo filosófico" em uma espécie de bola de vidro cristalino fechada no instante propício. de fato. Esta não deixará de impulsioná-lo em sua exploração do inconsciente.. e a via seca. Em suma. G. isto é. até mesmo dela se servir como de um fio condutor para a exposição desses mesmos conhecimentos".. Eis a ideia mestra de Jung a partir de 1928. Jung também se servirá. que exigia a utilização do cadinho e se inspirava na arte metalúrgica. o mítico arquiteto do Templo de Salomão.

consequentemente.". o Primeiro vigia. Hiram foi enterrado sob um monte de terra sobre o qual os assassinos plantaram um ramo de acácia em signo de reconhecimento. Teria sido necessário. mas ela corresponde à fase da putrefação. tem várias maneiras de ser interpretada.Sabe-se que. A expressão de substituição obrigatória. de acordo com as Obediências e os Rituais. para não mais interromper a cadeia da união. que representa o Companheiro. efetuará o toque de seu grau e acabará dizendo ao reconhecer seu fracasso: "Tudo se desuniu. "Mack Benak". é o solve alquímico. que simboliza o Aprendiz. A ressurreição de Mestre Hiram acontecerá.. os mestres presentes tentarão fazê-lo renascer e nesse objetivo o Segundo vigia. e se recorreu à palavra substituída de "Mack Benak". no renascimento ou na ressurreição. de qualquer forma. . A partir de então. O lugar onde foi enterrado Mestre Hiram tendo sido descoberto. a palavra primordial do Mestre estava tragicamente perdida. graças à prática dos gestos correspondentes aos cinco pontos perfeitos da maestria de um terceiro maçom. Quanto ao terceiro episódio da lenda de Hiram.. exclamação espontânea de um daqueles que reencontraram o cadáver de Hiram. depois do assassinato. ela corresponde muito evidentemente à última etapa do Grande no triunfo hermético. após alguns signos infrutíferos acabará por dizer "a carne se solta dos ossos". com efeito. três irmãos para assassinar Hiram e três outros para.

Jung.E.8 como modo de expressão comum a toda a humanidade. Para Jung. C. a noção de arquétipo deriva da observação. Ao estudar. A putrefação ("mach") talvez seja apenas "Benach". está inscrita do começo ao fim. De toda maneira. G.restaurá-lo. na obra opulenta de C. às vezes como em filigrana. Jung não deixou de constatar. Introduction à l'essence de la mythologie. do além-túmulo. muitas vezes repetida. ele não esquece o símbolo tão forte da união de cada novo mestre com o grande Mestre Hiram. La Symbolique maçonnique du troisième millénaire. o pensamento mitológico. graça aos seus trabalhos. de que os 7 Mainguy. 2001. Sobre o assunto. de Eliphas Levi. tanto no plano da Alquimia tradicional quanto no da Maçonaria. De certo modo. por sua significação geral. G. *N. Éditions Dervy. 8 Jung. observa Irene 7 Mainguy. sozinho ou com outros como Charles Kerényi. Madras Editora. claro. Jung conhece o espírito de tudo isso. isto é. Éditions Payot e Rivages.. 2001. o sentido oculto e profundo desse ritual impressionante de exaltação ao grau de Mestre vai realmente ao encontro. G.: Coagula: Prmcipio alqufmico.. ressuscitá-lo. da ideia da necessária união daquilo que está disperso e leva logicamente a pensar na fase do coagula alquímico que anuncia a ressurreição. C. Charles. C. Kerényi. . G. aparente! A grande questão metafísica do alémmorte. Irène. que um grande número de imagens primordiais ou arquetípicas se correspondem e se respondem. sugerimos a leitura de Dogma e Ritual de Alta Magia.

o Jung que fala "da vida após a morte" (é o título do capítulo) em Ma vie é um velho .. sem que eu queira e sem que faça algo para isso. idéias desse gênero se agitam em mim. entram em cena. e este não era o caso". mas. ele acrescenta em sua autobiografia reunida e publicada por sua colaboradora Aniela Jaffé que ele apenas pode "mitologizar". Todavia.. no entanto: "Eu nunca escrevi nada. E é assim que a Alquimia e seus textos tradicionais. expressis verbis. fazem-nos entrar nas reflexões sem fim a propósito do além e da vida após a morte."). bem como a iniciação maçónica e seus símbolos de morte de si-mesmo e de renascimento. ele adota uma atitude neutra ("Nem desejo nem não desejo que tenhamos uma vida após a morte e não costumo de forma alguma cultivar pensamentos dessa espécie. encontra-se. Entre esses temas recorrentes. Na realidade.). Seriam verdadeiras ou falsas? Eu ignoro (. pois precisaria ter justificado minhas ideias.. talvez. "a proximidade da própria morte seja necessária para chegar à liberdade indispensável para dela se falar". o do nascimento e da morte. para que a realidade tenha sua parte. Jung relata uma série de acontecimentos vividos por ele e ao longo dos quais o inconsciente lhe assinala. Jung não é categórico./. e sonhos premonitórios. Jung diz bem. justamente. ainda que. às vezes. No entanto. A seguir. preciso constatar que.. sobre uma vida após a morte.mitos e os contos da literatura universal encerram os temas bem definidos que reaparecem em toda parte e sempre.

não se pode também esquecer. que "o homem não sabe mais criar contos". (sic. quase tristemente. ou qual realidade ali se dissimula. que o espiritismo de sua juventude o influenciou verdadeiramente. que perde muito com isso. ele parece concluir pela suspensão do julgamento quando confessa: "Nos é necessário consentir plenamente que não existe qualquer possibilidade de obter uma certeza sobre as coisas que ultrapassam nosso entendimento". que se escuta na frente de uma lareira. Jung. Como um antigo explorador da psique humana.) Assim. Pior. fumando seu cachimbo". E da mesma maneira que é impossível ocultar o papel que uma certa filosofia da Maçonaria desempenhou em suas pesquisas. à beira da morte. ele várias vezes pôde constatar que "o lado mítico do homem se encontra hoje na maior parte das vezes frustrado". para compreender o conjunto de sua atitude de explorador do inconsciente coletivo. sem dúvida. tal como uma boa história de fantasmas. um velho sábio. não sabemos.homem quase nonagenário. Não podemos estabelecer se eles têm uma justificação qualquer além de seu indubitável valor de projeção antropomorfa". para . a primeira parte de sua biografia o prova. "pois é importante e saudável falar também daquilo que o espírito não pode apreender. Mas Jung nem sempre pensou dessa forma. escreve: "O que significam em realidade os mitos ou as histórias de uma vida depois da morte. como grande tradição espiritual e humanista. Sem dúvida.

com ou sem mesa giratória! .isso seria necessário um capítulo inteiro.

"GoetheFausto". ele iria definir nos 30 anos seguintes. vamos continuar do lado da tradição mítica da Rosa-Cruz da qual Goethe foi uma das grandes luzes. Por enquanto. Mas é também graças . a admiração em relação à natureza (microcosmo e macrocosmo). G. não nos esqueçamos de relembrar que foi na obra de Goethe (que C. a crença em um ritmo polar que determina toda metamorfose. pouco a pouco. tipicamente rosacrucianista: uma fé na permanente transformação do Todo em Um e do Um em Todo. primeiramente. abordaremos a influência real que o espiritismo teve sobre a mentalidade e as pesquisas futuras do inventor da psicologia das profundezas. Goethe é. a fénix perpétua. com certeza. lírica e rítmica.Capítulo XI Uma fênix perpétua Para apreender o meio sociológico e cultural de Jung durante os primeiros 20 anos de sua longa vida (de 1875 a 1895. reflexo da vida universal em evolução progressiva. data de sua inscrição na Universidade de Bale como estudante de Medicina) e perceber melhor quais foram as raízes profundas dessa "psicologia das profundezas" que. A seguir. Jung tanto admirou até o fim de sua individuação pessoal) e principalmente nos anos de aprendizado de Wilhelm Meister que se pôde observar os três eixos de uma reflexão cósmica.

quer ser depositário de uma Tradição ontológica. Não deixando jamais de aperfeiçoar sua própria imagem. ambos da Madras Editora. E ele estima. um Zacharias Werner (1768-1823) porque deseja conciliar Cristianismo e mistérios maçónicos em uma forma superior de religião universal. este é ele. de fato. Minha obra seria aquela de um ser coletivo que carrega esse nome Goethe"? Se existe um iniciado que tentou loucamente juntar o que está disperso. e A História da RosaCruz .Uma História Ilustrada dos Cavaleiros Templários. Ele não diz. já citado. alguns dias antes de sua morte. Jung . Aliás. como rosacrucianista prestigioso. tudo acolhi. Evidentemente.: Sugerimos a leitura de Nascidos em Berço Nobre . Goethe. Assim. seu próprio mito. sua ambição. o Rosa-Cruz (em Os anos de aprendizado de Wilhem Meister). o Sábio. de Stephen Dafoe.. a lei moral em mim". que Goethe definiu a si mesmo. Goethe evoca uma ordemmonástica que parece ser uma espécie de síntese dos Templários. seu personagem. ao seu confidente: "Quem sou eu? O que criei? Tudo recebi. Macário exalta "o céu estrelado acima de mim.e não somente ao ler Fausto . .. mestre em esoterismo.ao personagem de Macário. de Tobias Churton. e essa maneira surpreendente de 9N. da Maçonaria e da confraria do Santo Graal. Ele guardará por toda a sua vida essa preocupação de compreensão holística do Universal.segue os movimentos do pensamento de Goethe. em seu poema Geheimnisse.Os Invisíveis.9 da Rosa-Cruz. por exemplo.E. assimilei tudo o que acontecia ao meu alcance.

o "velho" Jung chegará a confessar: "Por mais estranhas e suspeitas que me pareceram as observações dos espíritas. ano. mas ainda os mais elementares conhecimentos em matéria de . Jung fez. Jung. O universo de C. em sua autobiografia. G. No entanto. durante sua juventude estudantil. Aliás. Além do mais.forjar ainda vivo sua própria figura. do Espiritismo e do carnaval pseudoiniciático dos mistagogos 'fim de século'". é evidente que o psiquiatra nunca se deixou enganar pelas manigâncias das mesas giratórias. A essas pessoas não falta apenas espírito crítico. lutou contra "a gnose dos compartimentos infectos do Ocultismo. Jung se deixou cativar pelo aspecto prometeico do Ocultismo por volta de seu 20o. ele terá esse orgulho bem alemão que o subjuga em Goethe. leva a crer que C. em Bale. sua prática do Espiritismo. Para retomar uma expressão do escritor esquecido cedo demais. Henry Montaigu. as primeiras relações sobre fenômenos psíquicos objetivos". G. inegável ainda que tenha sido só por uns tempos. espécie de balanço de sua vida e de suas pesquisas. quando se relê o seminário que C. Todavia. no entanto. Jung nasceu do castelo mais ou menos assombrado por um esoterismo às vezes imaginário. da Teosofia. Com efeito. em 5 de fevereiro de 1905. G. elas constituíam para mim. o conferencista não hesita em concluir: "O barulho que fazem inúmeros adeptos do Espiritismo em torno de sua 'ciência' e de seus 'conhecimentos' é evidentemente apenas um tecido de insanidades.

Então. é necessário. começou a pesquisar de uma maneira sistemática sobre a história do Espiritismo? Pior: por que começou. Com efeito. E não é um exagero afirmar que uma certa forma de histeria se impunha com um misticismo galopante. não se poderia ser mais claro. é preciso se perguntar o quê. caso se considere a imperfeição humana. sem dúvida. dos sentimentos oceânicos. não nos esqueçamos). o jovem Jung . "gostávamos do frisson. mas preferem crer. A psicologia dos êxtases arrebatava principalmente a de Anne-Catherine Emmerich. eles não querem que se lhes ensine o que quer que seja. trazer o problema para a sua época. De todo modo. passou na cabeça de Jung após a morte de seu pai. no sentido literal do termo. em Bale (fim do século XIX. aos 22 anos. não há sombra de dúvida que. do extraordinário e do anormal". o início do século XIX já havia trazido às Letras europeias o vasto movimento romântico. Assim como observa Jung. na época de seus estudos de Medicina. Com toda a razão. Além do mais. profundamente ancorada no povo e amplamente propagada. bem no início do ano de 1896. e este correspondia "à manifestação de uma nostalgia." Na realidade. é apenas uma ingênua falta de humildade. a "praticar"? Sem dúvida. o que.Psicologia. uma vez mais. do que se trataria exatamente? Por que Jung. a freira de Dülmen conhecida por seus estigmas. dávamos preferência aos romances cuja ação se desenrolava em velhos castelos e monasterios em ruínas".

Mestre Eckhart.. cujos sonhos o próprio filósofo Emmanuel Kant quis analisar. Jung lia muito. Ele vai se tornar o chefe de sua família. ao seu último suspiro. psicologicamente. Jung se livrou da imagem pesada de seu pai. que queria reencontrar o "Jesus histórico" por trás do Filho de Deus. Simbolicamente ele fez tábua rasa de uma certa religião protestante demasiado dogmática e fria. que já falava em arquétipos. Além de seus estudos de Medicina propriamente ditos. Todavia. E para ele uma prova iniciática.. De fato. que queria compreender "a união do fora com o dentro". Ele parecia aderir ao que os "Catecismos" espíritas chamavam "a ingerência efetiva e concreta de um mundo dos espíritos no nosso".). J. ele fará rapidamente o luto de seu procriador. chegando a se instalar no .. o autor dos Arcanos celestes. Pode-se mesmo falar de um certo "alívio". reforçado por sua mãe: "Ele morreu em um bom momento (... ele deixou suas inibições. seu primeiro contato com o enigma capital do cadáver. mas também o misterioso Emmanuel Swedenborg (1688-1772). o extraordinário visionário sueco. Jung assiste à agonia de seu pai. C. principalmente Ernest Renan.. Ele poderia ter sido um obstáculo para você. um dos grandes mestres do esoterismo ocidental.parecia verdadeiramente acreditar na possibilidade para os vivos de se comunicar com entidades desencarnadas ou exteriores ao mundo físico. o pastor protestante que não acreditava em mais nada. ao que parece. Vocês não se entendiam./.". Em 28 de janeiro de 1896... Jacob Boehme.

La revue spirite. a partir de uma curiosa história fundadora que ele realmente adquiriu mais amplitude. no entanto. em sua publicação.. para consegui-lo. Entre cada encarnação. Assim.. Foi. Do que se trata? O Espiritismo. o Livro dos espíritos. Algumas testemunhas deste período de sua vida relatam que ele até começou a beber mais álcool do que deveria. A alma. ainda mais que a época vê a propagação das teses espíritas e dos diversos fenômenos estranhos que os acompanham. na França. teorizado por Allan Kardec em 1857 em sua obra de base. ela vaga nos . não nasceu. A partir de então. ela passa por encarnações sucessivas.. ainda que Kardec tenha sido seu propagador mais eficaz. Os pais Fox e suas duas filhas. criada em 1858. chegaram a fazer perguntas a essa força misteriosa que produzia de acordo com uma certa junção entre os dois princípios opostos. após a morte de seu pai. em uma pequena cidade do Estado de Nova York. a alma humana busca incessantemente um aperfeiçoamento infinito. Para o Espiritismo. o interesse de Jung por aquilo que se chama hoje de "paranormal" não cessará. que terá um imenso sucesso e. acompanhada de seu perispírito. a família Fox ouviu golpes inexplicáveis dados em toda a casa. Em 31 de março de 1848. reencarna quantas vezes forem necessárias ao seu progresso. enquanto alguns colegas estudantes lhe dão até mesmo o apelido bem pouco amável de: "o Tonel".. em Hydesville. respectivamente de 11 e de 14 anos. com efeito.quarto de seu pai desaparecido. corpo material e espírito.

levou as experiências espíritas a sério o suficiente para defender um estudo pragmático. "a alma prova um grande tormento. Ela é prisioneira de um terceiro princípio. reedição regular. C. . as teorias nascentes do Espiritismo davam relevo ao mundo invisível que nos cerca e pretendia depender ao mesmo tempo da revelação divina e da revelação científica. Na prática. pálida adolescente de 15 anos que se pretendia médium e sem pudor fazia com que um grande número de "espíritos" falasse por sua boca. C. organizadas em torno de uma de suas primas. Um pouco à maneira de um Victor Hugo. G.10 Como se vê. Jung seguiu as sessões de mesas giratórias e de espíritos batedores. Jung. no momento da morte. como escreve o próprio Allan Kardec. racional. Jung se deixou levar pelo jogo que 10Allan Kardec. principalmente após a morte de seu pai. Hélène (denominada Helly) Preiswerk. Ela se separa do corpo apenas de forma gradual. Editions Dervy. intitulada "Da psicologia e da patologia dos fenômenos ocultos". o perispírito".espaços interplanetários e pode entrar em contato com aqueles que a chamam. Le Livre des esprits. Enfim. G. em 1902. E não se pode jamais esquecer de constatar que suas próprias explorações no local das manifestações espíritas (ele participou pessoalmente de várias sessões e tomou notas) lhe serviram para a elaboração de sua tese de doutorado. Mas a alma ainda não está totalmente livre da matéria só porque está desencarnada. Essa separação pode ser rápida ou exigir anos.

segundo a maior parte de seus biógrafos. Mas os transes de Helly se revelaram cada vez mais duvidosos. Jung escolheu explorar particularmente a psicologia e os fenômenos psíquicos principalmente a partir do desejo que experimentou de compreender as raízes psicológicas dos "delírios" histéricos e/ou espíritas de Helly. naquele fim de século tomado por experiências de Parapsicologia. sem dúvida.. Na realidade. tanto quanto o Ocultismo em seu conjunto. G. o que não o impediu de utilizar as anotações detalhadas feitas a seu respeito em sua tese de 1902. Mais insólito ainda: Helly evocou extraterrestres habitantes de estrelas distantes e se pôs até mesmo a descrever os hipotéticos canais de Marte que tanto faziam sonhar então. o Espiritismo foi.estava na moda. Ele observou que a jovem médium se punha a falar em nome de personalidades diversas (parentes mortos. Assim. que C. C. condessa de Saxe e qualquer outra mártir cristã!). E doravante é certo. Jung pensava que Helly apresentava os sintomas de uma "personalidade múltipla". G. é verdade. "vidente de Prévorst".. principalmente a astrônoma Camille Flammarion. Helly até mesmo confessou a Jung ter fabulado. Durante um . assim como seus poderes. uma personalidade dissociada em busca de uma unicidade perdida. este último se desinteressou por ela bruscamente em 1900. do inconsciente coletivo e dos arquétipos e para suas questões sobre o futuro após a morte. um dos "detonadores" paradoxais que impulsionou Jung para suas explorações da psique humana. Conseqüentemente.

que combateu com vigor o espiritismo ao publicar L'erreur spirite em 1923. Para Guénon. Nesse sentido é a observação feita pela . A propósito dos fenômenos espíritas. Sem ser tolo. a maneira pela qual os discípulos de Kardec pretendiam entrar em contato com os defuntos. sempre desconfiou profundamente dos conceitos da mística de Jung.tempo. Talvez seja essa a razão pela qual um filósofo maçom e depois orientalista como René Guénon (1901-1951). mas nunca cegamente. mesmo depois de ter sabido das trapaças manifestas de Helly. Ninguém podia "provar" a comunicação com os mortos. insistiu Guénon em várias ocasiões. além do que. de certa maneira. pelo intermédio de suportes materiais. adotou uma atitude tipicamente maçônica. "deslocou" seu polo de interesse para o estudo aprofundado das "doenças da personalidade e para a psicologia dos seres humanos em geral. o Espiritismo. C. ele. (sic). G. ao que parece. enquanto a simples análise comparativa das duas obras (de Guénon e de Jung) deveria tê-los aproximado mais do que tê-los posicionado como adversários. Ele não extraiu qualquer julgamento definitivo sobre o universo dos espíritos. ele levou a sério. o Espiritismo em seu conjunto era um movimento "neoespiritualista" grosseiro. Jung. jamais cedeu à brincadeira demasiado fácil. como observador. é simplesmente "uma impossibilidade pura e simples". diante da moda dos círculos espíritas e das mesas giratórias.

Aliás. 12Jung. muito pelo contrário. . Un mythe moderne. C. gosta de sonhar com a lenda do grande Goethe. e essas manias de forma alguma o impedem. o rosacrucianista. não fazia alusão a essas trocas com sua primeira mulher falecida?). G. Danielle. O início deste trabalho me convenceu de que uma rica colheita amadurecia nesse campo para a Psicologia experimental". até mesmo as mais 11Kaswin-Bonnefond. de persistir em analisar bem mais o comportamento psíquico do indivíduo. 2003. G. 1961. ele escreverá em sua tese oficial: "Meu esforço foi principalmente dirigido contra a opinião pública que apenas sorri com desprezo dos fenômenos ditos ocultos. apresentando os inúmeros elos destes últimos com as preocupações do médico e da Psicologia. Nesse sentido.12 Influenciado por seus antecedentes familiares. Un mythe moderne. Éditions PUF. em suas pesquisas e seus estudos. G. C. Também procurei ressaltar as inúmeras questões importantes que esse território inexplorado ainda nos reserva. Éditions Gallimard. Jung. Jung se questiona sobre a veracidade de uma ponte entre vivos e mortos (seu avô materno. Ele permanece atraído pela dimensão oculta e pelo paranormal (inclusive os fenômenos de visões e de levitação das pessoas). um desejo de conquistar o campo do Ocultismo". C.psicanalista Danielle Kaswin-Bonnefond:11 "Jung buscou durante toda a sua vida. o reverendo Samuel Preiswerk. Assim como ele mais tarde não "tomará uma posição definitiva" sobre a existência ou a não existência de discos voadores em sua obra inesperada.

e vice-versa. Capítulo XII Transferência e libido Depois da defesa de sua tese de doutorado. não hesitei em mergulhar em um estudo minucioso de fantasias e de acontecimentos infantis. G. uma vez que cada doente que se apresenta para a análise é um indivíduo em um estado que lhe é particular". C. G. Para C. Nisso. Ele sempre privilegia as relações de confiança e se recusa a "demonstrar uma teoria clínica" à custa do indivíduo. faz uma estadia linguística na 13Jung. . 1965. Jung segue em Paris os cursos de Pierre Janet no Collège de France.13 apenas alguns meses antes de morrer: "não existe técnica nem doutrina terapêutica que se possa aplicar de uma maneira geral. Ele chegará até mesmo a escrever em seu último ensaio. Jung. E mais ainda: "Às vezes. o percurso introspectivo de Jung é realmente aquele de um experimentador de terreno e não apenas o de um genial teórico. comecei no topo. Aliás. Éditions Robert Laffont.Essai d'exploration de l'inconscient. C. cada caso é um caso novo.obscuras interpretações esotéricas servem de trampolim ao futuro psiquiatra para abrir o diálogo essencial entre matéria e espírito. G. Para cada caso. O essencial é aprender a linguagem própria do indivíduo e seguir as hesitações de seu inconsciente em direção à luz. mesmo que isso me obrigasse a me alçar até as especulações metafísicas mais abstratas. seu método".

cerca-se de pesquisadores ingleses e americanos. Certo. Ele é chefe de clínica de 1905 a 1909. filha de um industrial em boa situação financeira e com quem terá cinco filhos. em uma pitoresca casa construída sob encomenda. que. ele encontrou sua vocação profunda (a Psiquiatria) e deixará bem claro que "compreender é minha única paixão. consolida. trabalha nas experiências de associações de palavras sob a impulsão do professor Bleuler. sua situação social. se estende da época que vem imediatamente após a puberdade até o meio da vida. Depois. Dessa vez. Ele realmente aborda seu trabalho de individuação pessoal. ele ainda está no que mais tarde chamará a idade jovem. O psiquiatra vive primeiramente em Burghõlzli com sua mulher. Cria então um laboratório de Psicofísica. Jung não é mais "uma folha oscilante ao sabor dos ventos do espírito" (sic). coloca uma . segundo ele. por volta dos 35 ou 40 anos. ele aborda com muita energia uma outra fase de sua vida. Indubitavelmente. assim. faz uma vasta clientela particular e centra sua vida em um objetivo: "o de penetrar o segredo da personalidade". às margens do lago de Zurique. enraíza-se no mundo externo. ano em que se casa com Emma Rauschenbach. Mas também tenho o instinto do médico: gostaria de ajudar os homens". pouco a pouco.Inglaterra e volta para a Suíça em 1903. Ali. ele se estabelece em 1909 em Küsnacht. Acima da porta de entrada de sua casa. a via da individuação fica um pouco mais clara.

Ele experimenta e elabora "seu" método com o estudo das questões relativas à civilização. A seguir. no início. Sigmund Freud. G. em Massachusetts. tanto Freud como Jung se entregam aos mistérios veiculados pelo religioso em geral. como uma prova gravada de suas constantes preocupações em relação ao arquétipo do divino e aos problemas religiosos. em 1909. não somente aconteceu o Primeiro Congresso internacional de Psicanálise em Salzburgo. Deus estará presente". com Totem e Tabu (a partir de 1912). pensa que a religião constitui um terreno passível de aplicação da Psicanálise. . em Viena. E. de 4 anos. com Freud e Ferenczi. entre outras. para o 20º. que explicita o caso clínico de um menino de 8 anos que sofre de incontinência urinária. 17 anos mais velho do que ele. em relação ao nascimento de um irmão (Conflits de l’âme enfantine). Ele apresenta esse estudo. Jung encontrou pela primeira vez. quando efetua sua primeira viagem aos Estados Unidos.inscrição significativa: "Chamado ou não chamado. Sigmund Freud. Ele revela uma resposta mítica. G. aniversário da Clark University. desde 1910. anota os comportamentos de sua própria filha mais velha. Foi em fevereiro de 1907 que C. De fato. que percebe algumas analogias durante uma cura analítica entre esse ritual de ordem obsessional e aquele comportamento religioso. bem como C. Jung terminou De l’impórtame du père pour la destinée de l’individu. no ano seguinte.

de fato. verão 2000. vem da neurose!".. e não apenas meu pai era um deles. a questão religiosa. jamais deixarão seu espírito. Jung. com efeito. anima.)". ao extrair das observações de seus pacientes os conceitos fundamentais de "sua" futura clínica: individuação. un déni de filiation.98. pode-se ler: "Na família de minha mãe. mas também dois de seus irmãos (. G. e cuja crença. chegará mesmo a afirmar que a resposta religiosa não vale muito mais do que as defesas neuróticas. Jung não deixou de aperfeiçoar suas pesquisas clínicas. do complexo de Édipo.14 Em relação a C. Si-mesmo. a seguir.. en deçà du grand schisme. De fato. E S. como se sabe. n . Sombra. imaginação ativa. que religião e ilusão são análogas ao obsessional. E Freud não estava completamente errado. inconsciente coletivo. ao longo de seu itinerario atípico. Jung-Freud. animus. Freud. Susanne. complexo. persona. toda fé simples e ingênua vinda do círculo familiar. como sugere de forma humorada Michel Cazenave quando escreve: "Existem muitas pessoas. Em Ma vie. havia seis pastores. e mais particularmente o problema da existência de Deus e a experiência em si de uma força transcendente. . Mas bem cedo o jovem homem teve o desejo de largar todo dogmatismo redutor. em busca de métodos de 14 Kacirek. no final das contas. que acreditam em Deus como um substituto de pai... Cahiers jungiens de psychanalyse. ele que havia sido criado em uma meio familiar protestante bem rigoroso e onipresente.

muitas vezes de maneira espontânea e audaciosa. primeiramente idílicas (em uma missiva que se tornou célebre. depois tempestivas até a decepção afetiva e à ruptura. não pararam de surpreender. para além dessa relação conflitante entre Freud e Jung que se tornou mítica para as escolas de Psicanálise. Com efeito. as relações entre C. como Josué. aos olhos do "místico" Jung. de 17 de janeiro de 1909. uma energia psíquica capital e não limitada. por mais brilhante que ela seja. ele ainda hoje é objeto de comentários e de estudos apaixonados. a libido é uma força vital. pode-se perceber a diferença fundamental que opôs profundamente os dois exploradores do inconsciente. Quanto ao labirinto de sua relação tipicamente transferencial e contratransferencial com Freud. Freud até mesmo declarou a Jung: "Você será aquele que. É daí que nascerá a disputa profunda. Aí está o nó da discórdia entre Freud e Jung. se sou Moisés. infantis ou não. obra que queria destacar os materiais fornecidos por uma jovem . Mas. tomará posse da Terra prometida da Psiquiatria. G. Esta não diz respeito somente às pulsões sexuais. em 1912. de Jung. que posso apenas perceber de longe"). Com efeito. uma vez que uma volumosa correspondência que continuará até 1914 oferece seu testemunho. para satisfazer uma teoria qualquer. E é principalmente após a publicação de Métamorphoses et symboles de la libido.reorganização das dissociações frequentes da psique. Jung e Sigmund Freud.

Ele pensa ter encontrado seu filho espiritual. ambas geniais. no início de sua transferência. Freud quer tudo abarcar. Todos os especialistas nesses dois mestres da Psicanálise são forçados a reconhecê-lo com todo rigor para além das querelas de escola. Certo. as personalidades em presença. ainda criança.paciente americana a fim de compará-los aos mitos fundadores e coletivos da humanidade. De toda maneira. Jung. em poucos meses. é. elucidar. manifesta em relação a Freud uma espécie de paixão amorosa sobre a qual ele destaca até mesmo a origem mal recalcada quando escreve em uma de suas missivas: "minha veneração por você tem o caráter de um interesse apaixonado 'religioso' que. são bastante diferentes. como se pode duvidar. que a ruptura entre Carl Gustav e Sigmund se mostrou inexorável. embora não me cause nenhum outro dissabor. certamente. Foram necessários sete anos. Mas tudo isso. ainda que bem rápido reconheça que Jung deseja dar ao termo "libido" um sentido mais amplo do que aquele que ele lhe dá. Esse sentimento abominável vem do fato de que. seu sucessor potencial. prever em sua teoria psicanalítica construída sobre a base do . sucumbi ao atentado homossexual de um homem que antes havia venerado" (sic). ao que parece. de Jung para promover a psicanálise nascente. Mas Freud se rende ao charme e tem necessidade. não se desenvolveu. repugnante e ridículo para mim por causa de sua irrefutável consonância erótica. todavia.

a propósito do "grande cisma Freud-Jung". como se sabe. analisar o como e o porquê das importantes divergências. a religião ou os mitos em geral. ele não quer de forma alguma privilegiar tão cedo qualquer lugar teórico que seja. Muito maior é a nossa preocupação em saber . . "uma negação da transmissão paterna". E é justamente essa palavra ordem que apenas pode nos reconduzir logicamente.15 evocarão. as defesas paranóicas de Freud. um novo esquema ordenador. como diria Michel Cazenave. a Psicologia analítica que lhe é própria. "um pouco como um filho 'psicótico' o faria contra um pai demasiado rígido" (sic). o objetivo deste presente livro. Cahiers jungiens de psychanalyse. Jung-Freud. ao fato de que frequentemente 15 Kacirek. entre as intuições freudianas e as junguianas sobre a sexualidade. uma "nova ordem" como chegará a escrever Etienne Perrot.ou pressentir . como Susanne Kacirek... não é de forma alguma. en deçà du grand schisme. de certa forma. un déni de filiation. Quanto a Jung. veräo de 2000. pela simples associação de ideias. Outros autores. Alguns observadores chegarão até mesmo a afirmar que ele acabará por tomar de assalto. uma maneira inédita de apreender a psique do homem em profundidade.como e de onde Jung foi extrair sua confrontação com o inconsciente. Susanne. ne98.recalque. isto é. com ares às vezes dualistas. Seja como for. Ele se esforçará quase que obstinadamente para escapar das pressões do dogmatismo freudiano que vivenciará como um jugo digno de uma Igreja institucional.

. G. ambíguo de seu círculo imediato. evidentemente. vai nos relembrar o processo de individuação. após um movimento que conduz até o início da idade adulta. Jung nos confirmaram tudo o que ele devia ao Protestantismo rigoroso e. a anedota do jovem Jung folheando o Catecismo "para ali encontrar algo além das bobagens habituais" é significativa. Sabe-se. Companheiro.definimos a Maçonaria como uma Ordem. Nem que fosse apenas pela filiação. com. com efeito. já evocado. vamos deixar isso de lado. não entendo nada sobre isso. cada grau tendo sua especificidade e respondendo a uma fase da consciência humana em seu desenvolvimento temporal.. Mestre. que. pois. ao chegar no parágrafo sobre a Trindade.". o jovem Jung pediu ao seu pai pastor alguns esclarecimentos sobre esse ponto e obteve a resposta derrotista: ". também pudemos pressentir aquilo que C. G. Jung devia à ordem e à tradição maçónicas que seus pares (pais) respeitavam. intelectual e espiritual. A esse respeito. uma virada que se produz na "metade da vida". Estes sem dúvida lhe tinham .. Os primeiros anos da biografia de C.a maneira quase esquemática pela qual Jung falará dos diferentes períodos de transformação da existência da pessoa que ele nomeava as idades da vida. Essa definição.por que não . caso seja aprofundada.. verdadeiramente. no entanto. Ordem iniciática e tradicional fundada na fraternidade e que comporta três graus: Aprendiz. mas também .

que se revela com uma real coerência e instiga o indivíduo a dar sentido à ferramenta simbólica para além da ilusão das aparências oferecidas por sua forma imediata. sempre parece irmã gêmea ou prima dos conceitos junguianos mais conhecidos? Como esquecer também que nem a Maçonaria nem C. Como então se surpreender com o fato de a linguagem simbólica da Maçonaria. de conhecer as interpretações tipicamente esotéricas dos símbolos que também são encontrados quando se estuda a Alquimia. consciente ou inconsciente. G. Jung. símbolos amplamente utilizados por ocasião das "reuniões" na Loja. Jung terá sido uma espécie de incitação ao movimento de uma dinâmica transcendente de progressiva transformação que se tornou possível pelo estudo dos símbolos psíquicos do homem contemporâneo. G. é necessário. por exemplo. mas que tanto a Ordem maçónica quanto a nova ordem da Psicologia analítica herdaram o código das tradições antigas como linguagem universal que une a imediatez ao passado e ao futuro? Paradoxalmente. em nossa opinião. Toda a obra polifônica de C. G. toda postura iniciática da Maçonaria Especulativa só pode ser compreendida.dado o desejo. vincular a última obra de C. pelo mesmo conhecimento dos símbolos em questão. sem dúvida. Em comparação. Essa interpretação representa a chave de tudo. Essai d'exploration de l’inconscient. que é um dos componentes de um conjunto chamado L'homme . Jung não inventaram o simbolismo.

com as palavras de passe e as mandalas! Trata-se de abrir aos quatro ventos as portas do Templo. pode escrever. os processos simbólicos sem qualquer forma de julgamento. trabalho coletivo supervisionado por Jung. que. para melhor perceber as ricas perspectivas que a psicologia das profundezas abre ao nosso próximo século. de uma vez por todas. e.et ses symboles. de seu mais secreto segredo. chegou a hora de não mais manter em segredo os grimórios e os mitos ocultos. Jung retira igualmente. o maçom de sua Loja devidamente coberta. para todos. a empreitada iniciática. ao redigir a introdução para a edição de 1964 de Essai d'exploration de l’inconscient. À maneira de Raymond de Becker. ao empreender uma tentativa de relação consciente com o inconsciente e ao visar à emergência do Si-mesmo. Em outros termos. de expor em pleno novo século as imagens que os humanos se fazem de Deus. em essência. Adiantaremos aqui a hipótese de que C. . faz de nosso título não somente provocador: Jung é a Aurora da Maçonaria. principalmente. G. que. o processo de individuação de Jung "retira de maneira definitiva a Psicologia do consultório médico" (sic). aliás. e explica e recomenda além do mais. É por isso mesmo que ousamos escrever esta frase que. para compreender melhor os elos que unem talvez em um mesmo destino Maçonaria de amanhã e Psicanálise do futuro.

. não somos sóis levantes. atenção. Luz e calor declinam. e falar da manhã e da primavera da vida.. Mas há em nós alguma coisa que se assemelha ao Sol. ele entra. do berço ao cemitério. Esta se articula . nos quais reconhece seu verdadeiro objetivo". sintetizar a representação junguiana do continuum da existência. de seu declínio e de seu outono não depende de um simples jargão sentimental". o Sol vai descobrir sua própria significação. continua com realismo o psiquiatra: "Na 12ª. de certa forma. Pode-se assim. em contradição consigo mesmo. então. Mas. Na extensão de seu campo de ação que seu próprio levantar traz.Capítulo XIII O retorno do recalque maçônico Para simbolizar o lento e progressivo desenvolvimento de uma vida. badalada da meia-noite. poderia ser dito que absorve seus raios em vez de emiti-los. o Sol emerge do oceano noturno do inconsciente e contempla a vasta extensão cintilante que a ele se oferece em um movimento de expansão que se amplia à medida que monta no firmamento. Ele escreve. Felizmente. acabando por se apagar. vai se ver atingir seu zênite e a mais ampla disseminação de seus benefícios. Jung utiliza a metáfora bastante "maçônica" do percurso diurno do astro solar. o Sol vai começar sua descida. por exemplo: "De manhã.

Ora. aliás. mas real. o despertar da maturidade. Depois. Jung. G. o título de seu livro mais célebre que foi publicado em 1909. é claro. o tempo do meio da vida. Mas ressaltava igualmente que a passagem de cada uma dessas fases tão delicadas correspondia a uma eventual crise. sua visão de conjunto vai ao encontro. a maturidade. Este. com efeito. é significativo a esse respeito!). C. simbólico. Jung estimava principalmente que os problemas do primeiro e do segundo quarto da vida eram principalmente fisiológicos e sociais. a morte. a infância. mortalmente atingido. ele evoca a alta importância dos ritos de passagem. sua relação com Freud transformou-se a seguir em uma heresia. a velhice. evoca em suas obras três fases-chave: separação. integração. após a ruptura. Ele correu o risco de ficar louco no sentido literal do adjetivo. Ela terminou por um parricidio. desenvolver uma . os do terceiro e do quarto.globalmente de acordo com nove etapas: o nascimento. a passagem para o fim da vida. da teoria geral do etnólogo francês Arnold van Gennep (18731957). é claro (e o sonho em que Jung se encontra ao lado de um estranho adolescente bronzeado e atirando em Siegfried. E. uma vez que Jung ousou. passagem. Por essa concepção cíclica. oscila perigosamente na fossa tenebrosa e dissociada de seu próprio inconsciente. a passagem à adolescência. ao contrário. muito mais culturais e espirituais. Como se viu. após sua dolorosa e brutal separação de Freud.

Nosso homem confessa sem pudor: "Depois da separação de Freud começou para mim um período de incerteza interior. a prova do meio da vida. totalmente em suspenso. de desorientação. em suma. como diria Jacques Lacan. Jung tinha perdido o norte de sua bússola pessoal. de Freud. Vamos acompanhá-lo. e sua esposa "oficial" Emma Jung foi enganada muito mais do que qualquer outra. Jung teve. aliás. G. Ele conta. a vida privada do "sedutor" Jung não foi uma tranquilidade. Sentia-me flutuando. não vamos omiti-lo. Aliás. a audácia de renunciar a qualquer identificação com a imagem paterna do herói. pois ainda não tinha encontrado minha própria posição". compositor e cantor belga francófono. acrescentadas às tensões conjugais extremas. Nasceu em 1929 e faleceu em 1978 (N. a despeito de um sentimento de culpa lógico. foi uma fase de grandes tempestades interiores.). Ele ousou a transgressão suprema. esses momentos violentos e loucos no longo capítulo intitulado Confrontation avec l’inconscient de sua biografia de final de vida. como teria cantado Jacques Brel. O "primeiro" C. com o risco de penetrar para sempre no inferno das imagens mal situadas entre real e imaginário. Realmente.concepção da libido muito divergente daquela. Ou seja. mais do que isso. ainda mais com o apoio de cenas alucinatórias. G Jung. dogmática. para C.T. .16 Mas o fato é que Jung viveu uma verdadeira descompensação a partir de 1913. Não sabia mais onde se encontravam o Oriente e 16 Jacques Romain Georges Brel foi um autor de canções.

Existe aqui. devemos transformá-la em um dogma. a teoria sexual também era oculta. com o aprendizado de sua pré-história familiar. Ele se encontrava só diante de simesmo. claro. como tantas outras concepções especulativas. não demonstrada. como se fosse um pai dizendo "Prometa-me uma coisa. um bastião indestrutível". C. de sua infância e de sua adolescência.bem como a Parapsicologia que nascia naquela época -poderiam dizer da alma. E o criador da Psicanálise lhe respondeu: "Contra a maré negra.Prometa-me que nunca abandonará a teoria sexual.. rêves et pensées. Ma vie. então. Para mim.17 17 Jung. Uma verdade científica era para mim uma hipótese momentaneamente satisfatória. E o mais essencial! Veja.. Esse mesmo Freud lhe disse um dia. G. Éditions Gallimard. Jung. o choque que "atingiu no coração" a amizade entre os dois homens.o Ocidente. .. 1973. souvenirs. isto é. do Ocultismo!".. masainda marcado pelas cicatrizes de suas recusas de obediência em relação a Freud.. meu querido filho. vá todos os domingos à Igreja!": ". Folio. Freud parecia entender por Ocultismo praticamente quase tudo que a Filosofia e a religião .. em resumo. simples hipótese possível. mas não um artigo de fé eternamente válido". E o mais jovem a analisa pertinentemente no declínio de sua existência: "Eu sabia que jamais poderia fazer minha essa posição. coletados e publicados por Aniéla Jaffé. "Um bastião contra o quê?" Perguntou-lhe.

Esse era o Deus oculto de Freud. ele não teria permanecido prisioneiro de uma noçãobiológica . Freud. ou melhor. à posição de dogma aere perennius. mais durável que o bronze". de dogma eterno. "que mostrava sem cessar e com insistência sua irreligiosidade. Para Jung.: "Sem bem compreendê-lo naquela época. "que procura elevá-lo. muito evidentemente. O que se pode dizer? Aonde Jung quer chegar então quando escreve . Jung começa a pressentir que Freud está inteiramente sob o domínio de Eros. Freud queria "recrutá-lo para uma defesa comum contra conteúdos inconscientes ameaçadores"? A continuação é clara. ao elaborar o raciocínio: "Se Freud tivesse apreciado melhor a verdade psicológica que deseja que a sexualidade seja numinosa ela é um Deus e um diabo -. o Deus ciumento que ele havia perdido fora substituído por uma outra imagem que se impunha a ele: a da sexualidade". O fundador da Psicologia analítica sabe doravante que Zaratustra é "o anunciador de uma boa nova" e que Freud "entra até mesmo em competição com a Igreja por causa de sua intenção de canonizar doutrina e preceitos".que paradoxo! . havia observado em Freud uma irrupção de fatores religiosos inconscientes". Jung escreve. tinha se construído um dogma.Jung escreve a seguir . como um numen religioso.e a observação parece capital aos nossos olhos . Quando ele deixa definitivamente o autor de A Interpretação dos sonhos.que.

complicada. em 1913-14. avalia o papel essencial. ele provavelmente se lembra dos valores maçónicos de seu avô. E não pode voltar atrás sem recair em um outro dogmatismo. em Fausto.18 do enigmático Théodore Flournoy. caso se ouse escrever. G.pode ele se agarrar? Ao Protestantismo de seu pai pastor? Ele o rejeitou.ou a quem. antes de se tornar sua colaboradora e de manter uma ligação de 40 anos com ela!). Jung. Carl Gustav Jung. sua esposa. Então. C. ele se aproxima.e não deixará de pensar nisso durante toda a sua vida . Jung. tão redutor quanto o dogma "sexual" de Freud! Ao Ocultismo? Ao próprio Espiritismo? Certo. mas igualmente Tony Wolf que foi primeiramente uma paciente. Ouve mais do que 1818 Kaswin-Bonnefond. com certeza. defende-as com uma espécie de desespero teimoso e inflexível. . sem Freud. Além do mais. Ele encontra apoio junto às belas mulheres que o cercam (Emma Jung. Danielle. E Nietzsche. Tais convicções. com sua exuberância. Talvez com violência.em Goethe. Mas. ressalta Danielle Kaswin-Bonnefond. justamente. Éditions PUÉ 2003. já que experimentou os limites dos espíritos que batem e das mesas giratórias. vital de sua família. Refugia-se em seu gosto pronunciado pelo trabalho. mas não é nem um pouco tolo. evidentemente. onde e a que . Ele pensa novamente . nos mitos rosacrucianistas. Carl Gustav Jung Sênior. talvez não tivesse se exilado do mundo se tivesse se mantido mais nas próprias bases da existência humana". .

antes de elaborar pouco a pouco seu princípio de individuação e sua própria clínica em que o mito. em que Câmara de Reflexão talvez. a quais deuses ele pode doravante se dedicar? Onde encontrar a energia de viver? Como não ser desqualificado em todos os lugares? Como superar e não se perder nos fios das transmissões transgeracionais patogênicas? Como não cair em um marasmo geral e destruidor? É evidentemente uma questão de vida e de morte. não deixa de ter pesadelos. G Jung aceita. como se diria hoje. de continuação ou de impasse. Ocorre que ele permanece com um sentimento constante de desorientação que o habita. como se sabe. Todavia. é a invenção indispensável de uma outra relação com o mundo para definir um novo eixo de crescimento.nunca os pacientes que confiam nele e cujas imagens anota ao longo de suas confissões. tem uma . em que reino. Jung privado de Freud pode se abrigar? A qual guia. Elas permanecem "infrutíferas". Ele até escreve que continua a viver "como sob o domínio de uma pressão interna" e confessa: "Por momentos. A questão primordial permanece colocada: onde. Sonha muito. E. esses mergulhos voluntários em suas lembranças de infância não resolvem nada. sob qual abóbada estrelada. para Jung. esta era tão forte que cheguei a supor que havia em mim algumas perturbações psíquicas". regressar. Então C. O que se apresenta então. mais exatamente.

por volta do seu décimo ano. raciocinando sobre essas lembranças que de forma natural. Era mais do que uma diversão. Entrega-se conscientemente. Jung. em parte perdida. de certa forma. uma verdadeira fascinação. "às impulsões do inconsciente".. Além do mais. e já que acabara de romper com Freud. diz a si mesmo que havia dentro do menino pedreiro uma espécie de "vida criadora" que faltava ao adulto que ele se tornara! Designa até mesmo essa tomada de consciência como algo que constitui uma mudança em seu destino. Visita suas fantasias. esclarece. Ele edificava casinhas e castelos. ao aceitar voltar ao estágio de seus 10 anos e ao reconhecer a parte de criança. uma cidade inteira! Ele foi . Jung. pressentindo que talvez ali se encontrem as causas ocultas de suas perturbações interiores. Assim.. ele sonha muito.importância capital. que estava nele (essa maneira de proceder será uma das bases. C.. posteriormente. diz ele em essência. Ele utilizava pedras naturais e argila como se fossem cimento. da famosa "análise transacional"). G. G. ele se lembra de que. gostava de brincar de arquiteto com jogos de construção. Recorda-se das lembranças da infância. começou a colecionar as pedras necessárias ao seu objetivo de construir. "com portões e abóbadas cujos montantes eram constituídos por garrafas". já adulto. Ele aceitou se humilhar. C. faz pensar no símbolo fundador da construção do Templo de Salomão..

e soube que finalmente tinha encontrado "seu" altar! Ou seja. ele fez o projeto de edificálo. O adulto C. que se parece mais com uma perspectiva inédita de encarar a psique e não é de forma alguma uma nova religião.procurar essas pedras na beira do lago e na água. enquanto a colocava. com seu lado de criança invasora. O garotinho Jung. o do "falo subterrâneo". jogou o que encontrara sobre uma pedra vermelha. espécie de pirâmide com quatro lados de cerca de 4 centímetros.. Ele recolheu esse pedaço com formas tão especiais. C. Jung.. uma resistência muito forte. "puro produto do acaso". talvez? O símbolo de mármore desta. em seu sonho. e. Então. Vamos resumi-lo antes remeter à leitura exata da relação escrita pelo interessado. Ele então colocou a pedra vermelha sob a cúpula. "Mas faltava uma igreja". Do que se tratava? De um sonho que Jung teve com 3 ou 4 anos e que. mas alguma coisa o impedia de agir. G. Em suma. Construiu sua cidade com casas e castelos. de sua própria confissão. Jung começou uma construção quadrada. escreve com malícia. deveria preocupá-lo durante toda a sua vida. sua teoria psicanalítica. G. "encimada de um tambor hexagonal que cobria uma cúpula de base quadrada". encontra-se em uma pradaria situada atrás do presbitério no qual . Constatando logicamente que não havia igreja sem altar no interior. veio ao seu espírito um de seus sonhos de infância mais impressionantes. passeando ao longo do lago e recolhendo espécimes entre os gravetos da margem.

estende-se um tapete vermelho. olhe-o bem. Intrigado. o menino que se imagina mal caminhar experimenta a impressão de "que. olha para cima". E é nesse instante que o garoto ouve a voz de sua mamãe "vindo de fora e de cima". evidentemente. cit. feito de terra". rêves et pensées. C. o objeto pode. No meio. O teto da abóbada é de pedra e o chão. Sobre esse trono. Na parte de cima desse "objeto". Um momento "insuportável". e. descobriu um buraco escuro. Então. o devorador de homens!". ele vê uma escada de pedra que afunda e. de repente. suntuosa. "verdadeiro trono real". que grita: "Sim. "como um verme. ele se encontra diante de uma porta em arco. . trabalhada. souvenirs. Uma cadeira de ouro se ergue sobre o estrado. "quadrado. Ali. É a angústia paralisante. op. foi no momento em que essa frase precisa foi 19Jung. descer de seu trono e vir em sua direção". imóvel.viviam então seus pais. Embaixo. "em sua parte superior uma espécie de cabeça com forma cônica. sem rosto. a cada instante". no entanto. fechada por uma grande e pesada cortina de cor verde.19 Então. "feito de pele e de carne viva". com medo. "esplêndido. um "objeto". desce por ela. Ma vie. da entrada até um estrado baixo. como nos contos!". "um olho único. G. Ele abre a cortina (como não pensar no véu de Ísis?) e vê "um espaço quadrado de cerca de 10 metros de comprimento" que é banhado por uma luz crepuscular. recoberto por pedras. sem cabelos". é o ogro.

E só se pode estar de acordo com o principal interessado quando este explica principalmente que o buraco representa sem dúvida um túmulo e que este é um Templo subterrâneo. uma vez que parece pouco provável a C. G. que esse sonho de préhistória infantil. 21Idem. apenas se pode crer 20Idem. que a abóbada não pode emergir de uma lembrança da mais tenra infância. Jung feita pelo célebre velhote C. Jung que uma criança de 3 ou 4 anos tenha sido levada para ver. a torre de Schaffhouse.pronunciada que o pequeno C. e as imagens que oferece. compreendi que esse falo era um falo ritual". Jung ao ditar a Aniela Jaffé sua autobiografia21 também acaba deixando curiosa a maior parte de seus leitores! Sem qualquer dúvida. é esclarecedor lêla in extenso. revirados em todos os sentidos do sentido. elucidados. interrogados no fundo dos olhos. que o verde da cortina evoca a pradaria e "simboliza o mistério da terra recoberta de vegetação verdejante". por exemplo. que o vermelho fala de sangue. sabe-se. E tão perigoso compreender a vida onírica. analisados. E o próprio Jung logo comenta:20 "Foi somente muito mais tarde que descobri que o objeto estranho era um falo e.. dezenas de anos depois. A interpretação desse sonho primitivo do garoto C. Adivinha-se. . G. G. G. não acabaram de ser dissecados. Jung acordou "suando de angústia". Em resumo. contados..

rever suas teorias. à noite. diriam talvez os historiadores das psicanálises comparadas. edifica o altar da igreja. Quando constrói "sua" cidade e. eu brincava até a chegada dos doentes. encontra aqui uma significação evidente. sua psique. eu voltava às . se meu trabalho tivesse terminado suficientemente cedo. do esperma e o imaginário sem fim do Sagrado sempre interrogado.na palavra do velhote C. seus conceitos. "com o falo subterrâneo" de seu sonho de infância. eu me entregava às construções. Jung deve reconstruir seu reino interior. aquele do coito. ele faz uma abordagem lógica. uma espécie de associação de ideias bem anterior. E com certeza não é por acaso que CG. G. Assim que engolia o último bocado. O símbolo do falo se ergue aqui. quando o tempo o permitia. após sua ruptura com Freud. como um mediador misterioso entre o real do sexo ereto do homem sexuado. após ter abordado seu ato de construir com pedrinhas uma cidade como quando era garoto e seu sonho de infância de falo subterrâneo. poderse-ia dizer. depois do almoço. De fato. principalmente.eu cito -"cada vez que se falava com demasiada ênfase do Senhor Jesus Cristo". A tríade de Jacques Lacan (Real-SimbólicoImaginário). e. Jung. escreve: "Todo dia. Jung e acompanhá-lo em seus esclarecimentos sobre as significações rituais do itifálico (membro ereto) e sobre sua observação de que o falo vindo de sua préhistória infantil o habitou durante toda a sua juventude e ressoou nele .

Dessa maneira. entre real e imaginário. C. em seu papel essencial. Sem exigir demais dos textos de referência. quase se perde em seu confronto com o inconsciente. não está de fato aceitando tardiamente sua dívida de reconhecimento em relação ao retorno do recalcado maçônico. apreender de maneira mais precisa as imaginações sobre as quais até então tinha apenas um pressentimento vago demais". Jung age "como se tratasse de um rito!". aquele que ele representa. G. Ele se engaja simbolicamente na via que irá conduzi-lo até seu mito. ao jogar o jogo. meus pensamentos se clarificavam e podia perceber. pode-se perguntar se o sábio e velho C. O símbolo não é então o real simples. e sua necessidade de "ritualizar" servindo-se de pedras como ferramentas simbólicas quando tudoparece se desestabilizar em si mesmo. o símbolo. Jung. tanto na Alquimia. em suma. Ele é passarela entre um e outro. Ele entra em plena . ao organizar sua cidade como fazia quando era criança. e muito menos o imaginário. quando nos entrega seus mitos pessoais e sua maneira de traduzir em imagens as emoções que o agitam. O símbolo está então em sua função primeira. Ao aceitar conduzir a termo sua experiência de regressão. aliás. o incita ao ato real de criar. Ali. O homem. Jung torna-se verdadeiramente Jung! A individuação-iniciação está em andamento. Uma coisa é certa: depois de abandonar Freud.construções. certamente. G. na Maçonaria quanto na psicologia das profundezas.

22 Intuitivamente e então tendo empiricamente estudado-a. por exemplo. Todas as vezes esse trabalho se tornará algo como "um rito de entrada" em direção às novas descobertas. à descoberta do inconsciente coletivo. a base do santuário. Ao longo de seu itinerário de individuação que coloca em prova seu potencial energético. simbólicas. No Antigo Testamento. justamente.. mas se agarra ao real imediato pelo recurso salvador do símbolo. em direção aos novos avanços. Seus jogos o levam aos arquétipos. e se torna um com a pedra. Jung permanecerá uma espécie de obcecado pela pedra multiforme. E. qualquer tipo de pedra. sempre aplicará a mesma estratégia toda vez que se sentir bloqueado. uma pedra não pedra".possessão dos imensos materiais que formam o contexto do sonho. G. a "pedra" de Bollingen será Jung sem sê-lo. 1997. "da mesma maneira que o homem se define para o alquimista como lithos ou lithos. doravante. começará a pintar ou a esculpir a pedra. No final de sua vida.. Jung sabe que toda pedra aparece como símbolo privilegiado do sagrado e representa tradicionalmente o próprio lugar de localização da presença divina. Jung. ao seu destino de alquimista da alma. C. 2222 Cazenave Michel. quando Jacó coloca sua cabeça sobre uma pedra como se fosse uma almofada. imaginárias. reais. l'expérience intérieure. artista! Então. criança criadora sem complexo. como resume Michel Cazenave. . Éditions du Rocher. ele se tornará pedreiro e construtor.

às vezes.. Jung realmente não fala de modo explícito em suas obras. não pensar na rica simbólica maçônica em geral. que. sempre o ajuda a se reencontrar. acolhe e transforma. Todas essas pedras que C. ele evoca no capítulo "A torre" o rude inverno 1955-56. recorrem às funções do símbolo e.. Assim. Jung acaricia e pelas quais se interessa. E Jung se parece com ele. fazem irresistivelmente pensar no patrimônio da Maçonaria sobre o qual C. Metaforicamente. quando o trabalho da pedra. bem entendido. Como. todo contato com o sílex cria a centelha que o salva. com certeza. E a analogia com duplo rosto. a recusar o fracionado. esse neófito encurvado que dá ritualmente os três primeiros golpes para começar a trabalhar a pedra bruta. a se unificar novamente. mesmo de humilde aparência. uma simbólica coerente e muitas vezes eficaz. G. chegado a esse preciso estágio de nossas analogias propostas.comunica-se misteriosamente com sua sacralidade. a se equilibrar. aparentemente negligenciadas. ou o faz por alusão. ele é sem ser ele. sem dúvida. representa grosseiramente a si mesmo. encontra seu lugar. Ali também. G. ou celebradas como "pedra viva" ou "pedra filosofal". Jung. durante o qual faz esculpir em . sejam pedras de ângulo. G. por isso mesmo. no primeiro trabalho do Aprendiz na Loja? Com efeito. em particular. como é fácil imaginá-lo sob os traços de C. em suas memórias ditadas. ela não tem nada. como o deus Janus se impõe com evidência. de gratuita.

Heródoto e Plutarco contam que a fénix. portanto. deveria ter uma relação semântica com o próprio nome de Jung (jovem). Jugend (juventude). estava associada ao ciclo cotidiano do Sol e às enchentes do Nilo. veio até Heliópolis. depois de ter vivido meio milénio. essa ideia subjacente de "rejuvenescimento" de certa forma permanente parece lógica analogicamente. deixando em seu lugar uma espécie de ovo do qual renasceria.Bollingen os nomes de seus ancestrais paternos sobre três mesas de pedra que fixa em uma galeria. ali construiu um ninho de galhos e se deixou consumir. ... o que. Depois explica que. na origem da família. No teto desta última. a fênix também era a garça púrpura) no símbolo de regeneração da vida constituído pela obra em vermelho dos alquimistas. Pode-se pensar então (tanto mais que. para viver por mais 500 anos. Com efeito. depois de se consumir em uma fogueira. ainda no Egito. Jung havia uma fénix como animal heráldico. no Egito antigo. de renascer de suas próprias cinzas. a fênix é um pássaro absolutamente mítico. E se pode acrescentar que a fênix. dotado de uma longevidade legendária. e que tem o poder.. em Maçonaria. permanece um símbolo bem vivo que realmente não deve ser confundido. ele pinta os motivos de seus próprios brasões. os de sua esposa e de seus genros. segundo ele. com a águia.. De toda maneira. com cores resplandecentes. um novo pássaro! A fénix. por exemplo. a uma ideia de regeneração.

pode-se situar a fénix no cruzamento das crenças solares. devemos nos lembrar de que do ovo. ele ainda evoca a frágil beleza. quanto à imortalidade pessoal. a alma libertada! E o Mestre Maçom Jean Mourgues também se pergunta a esse respeito: "Quando o maçom descobre. voa a fénix. recusa-se a se deixar seduzir por uma poesia fora de moda?". ou. "Ele tem no canto direito uma cruz azul. a castidade. G. ocorre que a antiga fénix dos Jung apagou-se do brasão familiar quando C. que "essa lamentável simbólica é franco-maçônica ou . representando o caos. no quadro da Loja onde entra depois de suas provas. um cacho de uva azul sobre um campo de ouro. o "maçom entusiasta" (sic.) e Grão-Mestre da Loja Suíça. quaisquer que sejam as significações simbólicas da fénix e os questionamentos que elas suscitam. E Jung acrescenta. modificou os elementos do brasão familiar. na ponta esquerda. Jung por ele se interessa e quer gravá-lo sobre a pedra.Na história das religiões. Em Alquimia. "provavelmente por espírito de oposição a seu pai". a despeito de seu sentimento natural que o leva em direção dos ritmos cósmicos. Em suma. simbolizado pelo vaso de cozimento. e a purificação pela chama. comenta sempre Jung. uma estrela de ouro". à reencarnação sob uma forma corporal? Ele saberia que o Sol imortal que ressuscita cada manhã é sempre nosso deus. como um perito. entre os dois. Jung sabe que seu avô. em uma faixa azul. a fênix púrpura. Como se vê. ou ao contrário. rejeita de seu espírito toda crença.

Algumas cartas ambivalentes de sua volumosa correspondência caminham . por isso mesmo. o ouro dos filósofos. assim como sugere Jean Mourgues. ninguém poderá avançar que fazemos com que os textos digam mais do que revelam. ele o afirma a seguir. o cristão e o dionisiano. tratado que abordava de facto o que Jung chama "processo de individuação". estamos em plena exploração dos símbolos das sociedades secretas! E se Jung crê realmente. pela cruz com a rosa). dos alquimistas". Jung gosta dos "filhos da luz" tanto quanto os detesta. a Maçonaria.rosacrucianista" e ainda: "Da mesma forma que rosa e cruz representam a problemática dos contrastes rosacrucianistas (per crucem ad rosam. poder-se-ia dizer. são os símbolos do espírito celeste e do espírito ctoniano. que a razão de ser das sociedades secretas é de salvaguardar um mistério que perdeu sua vitalidade e que.. De qualquer forma. isto é.. compreende-se melhor então sua discrição assim que ele evoca com palavras veladas da Alquimia. O símbolo de união é representado pela estrela de ouro. Existe ali uma espécie de prova de que Jung está perfeitamente a par de que os rosa-cruzes são originários da filosofia hermética ou alquímica. cruz e cacho de uva. E Jung conhece também a influência que Paracelso representou graças ao seu tratado De vita Longa (Da longevidade). aliás. o aurum philosophorum. comentado pelo alquimista do século XVI Gerard Dorn. Dessa vez. apenas pode ser guardado em vida de maneira formal.

de tanto estar no esquadro. leva a entender que Jung deve à Maçonaria em geral muito mais do que provavelmente não pode ou quer dizê-lo. Seus périplos pela África do Norte. qualquer círculo a ser traçado com o compasso se revela impossível de se obter corretamente. ele procura em outro lugar. não bate na porta do Templo. Jung tenta a exploração do inconsciente e de suas vastidões. Mergulha no estudo das religiões comparadas. Além do mais. dos mitos eternos. ou de venda!). todavia. Jung teria podido carregar o avental ornado como seu pai e seu avô. Por que ele não pode dizê-lo com toda clareza? Por que ele não quer! Por que não é iniciado? E. Busca sem parar correspondências entre os símbolos ontológicos e o mundo interior da psique como qualquer maçom da Terra digna desse nome. aos nossos olhos. são significativos a esse respeito. a tudo o que atrofia ou . aos Catecismos redutores. como ressalta Danielle KaswinBonnefond com fineza. Ele não entra no Templo maçónico. uma má explicação. Essa discrição. Então. Mas ele vai flexibilizar os rigorismos de escola dos rituais. C. é evidente! Mas Jung é a priori contra todas as ortodoxias. Jung sempre teme que. G. Ele não dá importância às obediências. pela Índia. ou talvez essa simulação voluntária (e seus estudos da História da Alquimia e da Gnose lhe servirão às vezes de máscara.nesse sentido. levando-se em conta seu entorno familiar em particular e o de sua época em geral. Se ele tivesse desejado. mas viaja e pede a luz na imensa Loja da vida diversa e variada.

talvez sem sabê-lo. como disse Mircea Eliade ou Gilbert Durand. E rapidamente vai se aperceber . e dizer animus e anima e imaginar o olhar aguçado de Jung como um herói. ele jamais esquece o que principalmente e nomeadamente Goethe lhe ofereceu.limita a alma. e J. reflexos menores da vida e de seus mistérios ontológicos. certamente. B. Nossa tese está no centro de seu alvo. os conceitos de sua nova clínica (uma clínica que sempre se recusará a ser uma religião inédita ou mesmo uma ortodoxia psicanalítica como o freudismo) vão poder ser utilmente "revisitados" à luz dos "filhos da luz". ou um deus no meio dos dois. Quando Jung. de um lado a outro do olho escrutador do Delta luminoso.o fenômeno às vezes se revela fascinante . o próximo capítulo vai se impor. Bastanos observar o Sol e a Lua. A partir de então. No entanto. ele supera a simbólica maçónica e seu segredo oculto.. Ele vai derrubar com um empurrão imaginário as duas colunas guardiãs.que muitas das ferramentas da psicologia das profundezas correspondem perfeitamente aos símbolos presentes na Loja. ao final do fio invisível de sua longa vida. E vai de certa forma transpor as contribuições da simbólica maçónica para o campo da análise da alma humana. e os cenários. A partir de então. Intuitivamente. assim como "a irrupção do Sagrado no mundo". confessa ter tido muito fortemente "o sentimento de estar sob a influência de coisas e de problemas que foram deixados incompletos e .

sem resposta" por seu pais. deixa entrever que toda a sua obra de explorador do inconsciente coletivo constitui uma espécie de levantar de segredo maçônico para todos. também por Goethe. E por essa via que C. o animus não poderia se pensar sem a anima e reciprocamente. Jung traz o próprio futuro da Maçonaria como pedagogia de individuação. Sol e Lua Na Maçonaria Tradicional. e. que Jung a aurora da Maçonaria. . é sem dúvida oportuno repeti-lo aqui: foi ao corresponder os símbolos maçônicos com aqueles de sua psicologia das profundezas. Então. bem entendido. É por isso mesmo "que ele responde às questões que o destino já tinha colocado aos seus ancestrais". G. foi ao abri-los ainda mais às analogias do mundo e em particular àquilo que remonta do inconsciente coletivo e ao propor os frutos de sua busca à parte sagrada de todo profano. Capítulo XIV Animus e anima. maneira nova de completar tudo o que ainda existe de enigmas e de incompleto na iniciação maçónica vivida por seu pai e seu avô. Ora. seus avós e seus outros ancestrais. o Sol traz um simbolismo solar muitas vezes em ligação estreita e interativa com o simbolismo lunar. entre os conceitos maiores da psicologia das profundezas.

à imaginação também. a rainha Lua.. Quanto ao Sol. à prata. os dois simbolismos estão em ligação permanente.. conforme a hipótese astrológica relativa à importância da posição do Sol para o homem e da Lua para a mulher. todo o seu brilho quando os trabalhos dos homens terminam. que por várias vezes é questão nos rituais. G. o que indica a natureza solar do rei e a natureza lunar da rainha. analogia obrigatória. . oferece. segundo o esoterismo mais afastado. E. Certamente.. sua parte de Sol. tão bela. C. ao mercúrio. Isso 2323 Jung.No jogo real da relação com o outro. Se a Lua é um reflexo do Sol e simboliza assim a passividade. figurada no alto e à esquerda do quadro do Aprendiz. ele é o "primeiro luminar". a apatia. A Lua corresponde então. à fantasia suave. 1980. sua parte de Lua. Éditions Albin Michel. ao elemento "água". "Com efeito. seu animus e sua anima! Mas atenção à união suprema dos contrários inimigos. ele está ligado à coluna J e se encontra em oposição e/ou em sonho de complementaridade com a Lua. para cada um de nós. impõe-se no apogeu de sua potência radiante e viril ao meio-dia quando se abrem. representado no alto e à direita do mesmo quadro. Uma não vai sem o outro. a coluna B.. Psychologie du transfert. à meia-noite."23 Na Loja também. é preciso se lembrar de que a Lua é o "segundo luminar". isto é. O rei Sol. solenemente. os trabalhos. cada membro do casal se mantém respectivamente sobre o Sol e a Lua.

assim como uma noção empírica. provavelmente com a ajuda de Aniela Jaffé. mas aquela de um tipo determinado de mulher. no fundo. a capacidade de amor pessoal. lembremos que C. é realmente ao observar a persistência evidente das representações da feminilidade nas contribuições imaginativas de seus pacientes de sexo masculino que o clínico C. "cada homem traz em si a imagem da mulher. "personificação da natureza feminina do inconsciente do homem e da natureza masculina do inconsciente da mulher". os sentimentos e os humores vagos. em Problèmes de 1'âme moderne. o sentimento de natureza. Jung definiu. Jung. G. C. Para deixar ainda mais clara essa idéia de anima e de animus. por fim e não menos inferior. Jung retoma. como. Essa imagem é.acrescenta ao Mistério da Conjunção e àquele da projeção para oferecer uma dimensão cósmica à Maçonaria Universal. G. os termos de anima e de animus. sustenta que. G. as relações com o inconsciente". a ideia de anima. resume a esse respeito: "a anima é a personificação de todas as tendências psicológicas femininas da psique do homem. por exemplo. as intuições proféticas. Na prática. Marie-Louise von Franz. a sensibilidade ao irracional. um conglomerado hereditário . desde sempre. No glossário das definições de conceito que figuram no final de seu livro autobiográfico. não a imagem de uma determinada mulher. Ele fez a observação inversa em relação aos seus pacientes. Sua discípula mais célebre.

inconsciente de origem muito distante. Ele os estende até aos mitos arcaicos e eternos. sem nomeá-los. lugar de todas as impressões fornecidas pela mulher. ou rebatizando-os e integrando-os à sua maneira. evidentemente. sistema de adaptação psíquica recebido como herança". Como sempre. E a Maçonaria Tradicional sugere. tudo isso. E C. ao afirmar que ocorre o mesmo com a mulher. tipo de todas as experiências da linhagem ancestral em relação ao ser feminino. escreve ele. que ela carrega igualmente uma imagem do homem. o animus e a anima deveriam funcionar assim como uma ponte ou um portal que conduz ou abre em direção às imagens do inconsciente coletivo. Jung aprofundasse e transpusesse essas bases constitutivas da bissexualidade psíquica ao definir seu casal contraditório e complementar de anima e de animus. imagem inconsciente "sempre projetada inconscientemente sobre o ser amado". à fenomenologia complexa que não nos cabe desenvolver aqui. Como ele o explica em essência em um seminário de 1925. Jung continua. é assim. G. . o que elucida. "uma das razões essenciais da atração passional e de seu contrário"! Desde que o mundo é mundo. por meio de seus símbolos marcantes de Lua e de Sol. incrustado no sistema vivo. Jung retoma os símbolos maçónicos. G. antes que C.

desamparado. o animus da mulher busca diferenciar e reconhecer. Como se vê." Enfim. etc. Existem ali posições estritamente contrárias. admite que tudo isso "é um pouco complicado" (sic). Ela é algumas vezes mais ou menos concreta e outras vezes in- . tudo isso não é fácil de ser decifrado. professor de Psicologia na Universidade de Houston. acrescenta o autor de Psychologie du transfer. "a anima do homem busca unir e juntar.)". os "artistas". respondendo às questões de Richard Evans. E a imagem masculina no psiquismo feminino. mesmo quando a relação consciente dos dois parceiros é harmoniosa". o animus é uma instância que engendra opiniões espontâneas. obscuro e equívoco. ela toma posse voluntariamente daquilo que na mulher é inconsciente. os humanistas descobriram que o homem tem uma anima e que cada homem carrega uma mulher em si. ao realizar um curta-metragem. não premeditadas. vazio. O animus "se projeta de preferência nas personalidades notórias "intelectuais e espirituais" e em toda espécie de heróis (inclusive os tenores. no plano da realidade consciente. Ele observa que "muito cedo. incapaz de relação. "Quanto à anima. E o próprio Jung. frígido. enquanto que a anima faz emergir sentimentos. as celebridades esportivas. que constituem. em sua primeira forma inconsciente..E preciso se lembrar de que. Eles o disseram.. não é uma invenção moderna. no século XVI. uma situação conflitante. O mesmo vale para o animus.

Entre o homem e o masculino da mulher se vive uma confrontação que cruza aquela da mulher com a parte feminina do homem".. (. Éditions Albin Michel./. principalmente. situado sob o Delta luminoso. entre outras. trata-se aqui de uma relação quaternária. a Luae o Mestre Maçom. Todo Sol oferece a imagem do calor e da luz e do conhecimento também. a mulher se faz em relação com o homem e com o masculino que ela encontra em si mesma.consciente. pela consideração das relações nas quais o tornar-se mulher acaba de se diferenciar. 1994.24 "a Psicanálise não conhece feminino como tal. Para Jung.. a Lua é a senhora da noite. 24 Humbert. L'Homme aux prises avec l'inconscient. e.. Em outros termos. sem o calor do Sol. Mas Sol em demasia provoca a seca que pode ser mortal. as três luzes da Loja que representam o Sol. . governa e vela sobre a Loja inteira. por meio de uma concepção diferente do incesto. Assim. O Sol governa o dia. Humbert. e. E o que acontece na Maçonaria? Parece que a tríade seja preponderante.. todo país está condenado a morrer de frio. e dessa vez referindo-se àqueles de Elie G. Há. Todo Sol tem a intuição espontânea e oferece aos homens a própria fonte da luz.. mas intervém no momento em que a mulher encontra um homem que diz aquilo que deve ser dito". Elie G..) A Psicologia analítica completa essa análise pela atenção que concede às relações da mulher e da Grande Mãe. e o Venerável.

La Symbolique maçonique du troisième millénaire. que é yang. A Lua é. 25 Mainguy. Jung devem ser considerados em correlação com os mais arcaicos símbolos do Sol e da Lua. bem entendido. segundo as tradições maçónicas. yin (ela é corpo celeste que acolhe de maneira passiva a luz do Sol enquanto o mês lunar corresponde. em hebreu. não dispondo de qualquer luz própria. ao período menstrual feminino) em relação ao Sol.. bem como nas línguas latinas.25 Mas. Ela permanece símbolo da alma do mundo. do dia e da noite. reflete a luz do Sol. na realidade. na língua alemã (a língua de Jung!) é o inverso: o Sol é feminino e a Lua é masculino! Para complicar um pouco mais. . certamente. A Lua é positiva na Maçonaria? E o Sol? Gilbert Durand observa que "a maior parte dos autores que se interessou pelas teofanias lunares foi atingida pela polivalência das representações da Lua. cit. mas está ligada à água como o Sol. como em Astronomia. op. Irene Mainguy observa mais uma vez. respectivamente masculino e feminino em francês. do calor e da umidade. Irene. segundo um certo folclore universal. ao fogo. as línguas reservam às vezes surpresas e as traduções surpreendem: se o Sol e a Lua são.O que é evidente é que "o Sol" é indissociável da Lua e com ela apresenta uma alternância complementar da vida e da morte. G. Parece evidente que o animus e a anima de C. Sol e Lua são. Ocorre que a Lua.. masculinos.

26 que ressalta como. Dictionnaire de la Francmaçonnerie. Gaston Bachelard. cujo arquétipo é a combinação triádica de Artemísia. ele.. Hivert Yves. grau do Rito Escocês Antigo e Aceito. aliás.. Jung. de conhecimento intuitivo e de inteligência cósmica". de ressurreição. de imortalidade. Grau do Rito Escocês Antigo e Aceito). 2626Messeca. Quanto ao Sol no imaginário maçónico. aquele de Noaquita ou Cavaleiro Prussiano. sem dúvida. sob esse ponto de vista. seu isomorfismo quase universal. corresponde à anima de C. atualizado em 1998. nos lembra que o nascer do Sol é a hipóstase por excelência das potências uranianas". Jung que realmente mereceria ser batizado "Cavaleiro do Sol" (28º. de Selene e de Hécate". assim como escreve o historiador Yves Hivert Messeca. favorecido o Sol como "fonte de luz física e espiritual. Entre os franco-maçons. Éditions PUF. No 21º.astro ao mesmo tempo propício e nefasto. de calor vivificante. em Daniel Ligou. A Lua maçónica. ou no espírito criativo de C. .. Gilbert Durand.. e os rituais têm. ele é um dos símbolos principais e sua radiância é muito antiga! Ele é multiforme. ao que parece. De todo modo. G. pode-se observar a existência de um grau de "cavaleiro da lua". G. por exemplo. a Lua é onipresente. a glosa relativa ao Sol e à Lua é tão abundante quanto aquela relativa aos conceitos de animus e de anima na Psicologia analítica! Que eles estejam desenhados nos quadros da Loja desde a década de 1740.

Jung (primeira edição de 1951) intitulado Aíôn (em grego. o capítulo La syzygie: anima e animus. para melhor compreender. alusão evidente. dia-noite. sem dúvida. retirado do livro de C. o dualismo em geral. como em um erotismo sem fim. direita-esquerda. à simbólica maçônica da Lua e do Sol. esquematizar demasiado o positivo e o negativo. com o lápis na mão... e não se pode jamais esquecer de se lembrar de que a fenomenologia das projeções ilumina o debate e que o animus da mulher e a anima do homem são dois arquétipos que se respondem um ao outro. significa muitas vezes trair as figuras da anima e do animus. do grego suzzugia. em Astronomia. meio-dia-meia-noite. esse termo quer dizer ao mesmo tempo longo espaço de tempo e eternidade). O Mestre nos oferece aqui o essencial de suas concepções. Osíris-Ísis. cuja autonomia e natureza inconsciente explicam a obstinação de suas projeções. Se a própria palavra de "syzygie". e assim por diante até que toda dialética esgote. talvez ao mesmo tempo construtor e destruidor? . Em outros termos. quer dizer. reler. o branco e o preto.os Sóis e as Luas correspondem sempre ao dualismo ativo-passivo. elas se entrelaçam e parecem turbilhonar diante do mundo. G. a conjunção ou a oposição da Lua ao Sol (nova ou Lua cheia). o yin e o yang não estão em duas prisões que de forma alguma se comunicam entre si. Mas atenção. É necessário. união. por correspondência lógica. pai-mãe.

Qual é. E Jung continua: "Seu Eros é passivo como o de uma criança. como a imago desta nele e com a mulher que se tornará sua mãe". para permanecer custe o que custar ligado à sua mãe. ele espera ser captado. proibindo-o sem dizê-lo de chegar a adulto. que o impedem de antemão. absorvido. assim como faz com mais frequência o inconsciente. Isso pode também elucidar algumas homossexualidades. envolvido e engolido". esse caráter de projeção. quando. a dançarina geradora de ilusão. Se já não o soubéssemos há muito tempo a partir do simbolismo dos sonhos.. e fugindo do mundo mau e frio que absolutamente não o quer compreender". "em sua . "vê-se sobre a cena psicológica um homem vivo de trás para a frente. essas mães chocadeiras ou canibais de amor protetor que impedem o filho de engajar um autêntico processo de individuação em direção à idade do homem. que responde com todas as letras: "O Oriente o nomeia a 'tecedora' ou Maya. anima e animus têm um caráter projetivo. e afortiori de se casar. segundo Jung. Ao dramatizar esse estado. esclarece o Mestre da psicologia das profundezas.Sim. o filhinho da mamãe. então. essa interpretação oriental nos conduziria à boa pista: o que envolve. o que enlaça e engole faz sem dúvida alguma referência à mãe. procurando sua infância e sua mãe. com efeito. questiona-se Jung. Por isso.. isto é. à relação do filho com a mãe real. por exemplo.

Como se pode adivinhar. a frigia. a patrona da agricultura em seu conjunto e a deusa dos Mistérios iniciáticos de Elêusis. Quanto a Perséfone. foi raptada por HadesPlutão. com Cibele. e o filho é. Demetér é uma deusa do trigo e da fertilidade.. ao mesmo tempo. a "moça". E. como se sabe. .e talvez principalmente? . por uma pessoa do mesmo sexo que ele. Demetér também se identifica com Ceres (deusa itálica do trigo!). recusará inconscientemente a sedução psíquica da mulher em geral e será então atraído sexualmente apenas por seu próprio duplo. Demetér e Perséfone.. por exemplo..honra".". portanto. também nos evoca. com Ísis. "Nesse grau do mito que restitui da melhor maneira possível a essência do inconsciente coletivo. o esposo e o bebê adormecido..a mãe de Perséfone. Eis o grau de Companheiro que. Demetér é também para Zeus . eis novamente o segundo grau das Lojas azuis que retêm nossa atenção. a mãe é ao mesmo tempo velha e jovem. para ser a rainha dos infernos. enquanto colhia flores nas pradarias de Enna. a anima no homem e o animus na mulher permanecem parceiros ambivalentes. na Sicília. irmã de Zeus. explica sobremaneira o autor de Aiôn. Assim. para além das mitologias.. o trigo por meio de sua "palavra de passe". incontestavelmente rebeldes ao nosso exame. a egípcia. isto é.. com efeito. seria necessário então evocar quem eram Demetér e Perséfone na mitologia grega? Filha de Cronos e de Reia. Sem dúvida.

A expressão exprime bem tudo isso. Jung evoca também a imagem de "Nossa Senhora da Alma" para traduzir o termo de anima. a anima. ela se apresenta como personificada nos sonhos. Aqui também. aliás. não poderia descrever com precisão a "natureza viva" dessa "Nossa Senhora da Alma".. nunca será demasiado repetir. que deixa ainda mais claro: "Ali onde aparece. isto é. epistemológico. ele fala em Fausto. de uma "descida ao reino das mães". "pois o que deve ser designado nesse caso é uma realidade específica para a qual a expressão alma é demasiado geral e demasiado vaga. "o fator que cria a projeção é a anima. ali onde se encontra o vasto reino do inconsciente. são como partes inconfessadas e inconfessáveis de nós mesmos.. Em suma. imersas sob o iceberg das aparências. nas visões e nas fantasias e atesta dessa forma que o fator que é seu fundamento possui todas as propriedades eminentes de um ser feminino". Somente "a visão e o modo de expressão mitológicos" darão um apanhado mais dinâmico e exato. O elemento empírico compreendido sob o conceito de anima é (nós ressaltamos voluntariamente) um conteúdo extremamente dramático do inconsciente". E Jung o sabe pertinentemente: o código racional. o inconsciente representado pela anima". não poderia ser justo. Retomando a expressão poética e significante do romancista Carl Spitteler (1845-1924). escreve Jung. Quanto a Goethe.Muitas vezes. "Uma vez que a anima é . acompanhemos ao pé da letra Jung e seu raciocínio.

Ele afirma: "Do mesmo modo que a anima se toma um eros do consciente pela integração. do mesmo modo o animus toma-se um logos. função de relação.. assim como o homem é compensado pelo feminino. traços masculinos. é por isso que seu inconsciente tem.) que é uma das características da relação emocional e coletiva anima-animus enfraquece o nível da relação e a aproxima do fundamento instintivo universal. assim o animus é análogo ao logos paterno". o primeiro portador do fator de projeção parece ser a mãe.. há espaço para se supor que existe um equivalente na mulher. "a mulher é compensada por um elemento masculino. Aqui. esse papel é representado. na filha. Jung distingue então uma variante negativa e uma outra positiva na tradução da anima e do animus. G. pioneiro e explorador da psique. C. completa o empírico Jung. pois.. e assim como a . "Assim como. sempre em Aiôn. a marca de "animosidade" (sic. o mestre de Zurique. a mulher o é igualmente pelo masculino"./. para o filho. é em geral menos desenvolvido no homem do que o logos". A partir de então.) Assim como a anima corresponde ao eros materno.e o diz eros e logos como simples ferramentas conceituais para descrever o fato de "que o consciente da mulher é muito mais caracterizado pela natureza amável do eros do que pela natureza discriminatória e cognitiva do logos.um arquétipo que aparece no homem. pelo pai". Jung utiliza . Em outros termos. O eros. nos sugere. (. por assim dizer..

é ainda necessário que a aceitação da existência da Sombra e sua integração ("tornar consciente o inconsciente pessoal") tenham podido constituir a primeira fase do processo analítico e que esse . e particularmente quando estas últimas são suscitadas pela anima e pelo o animus. Para Jung. projetados. As duas figuras representam verdadeiramente funções que transmitem ao consciente alguns conteúdos do inconsciente coletivo. torna-se uma absoluta necessidade. quando a força do amor absoluto (philia) e o ódio (neikos) entram em guerra aberta.C. e um número bem maior ainda pode se tornar consciente pela imaginação ativa". o raciocínio e o conhecimento". nos sonhos.).primeira confere ao consciente masculino o vínculo e a relação. por exemplo. ressalta o clínico. ao afirmar que. o segundo dá ao consciente da mulher a reflexão. nem de longe. Claro. Felizmente. as idas e vindas das projeções entre casal reservam ainda muitas surpresas! Decididamente. adiantou uma ideia filosófica eterna. Empédocles (por volta de 492-432 a. seu próprio enfrentamento revela as coisas concretas. Apontar o defeito de alguns comportamentos não é sobremaneira uma sinecura. a autonomia do inconsciente coletivo se exprime nas figuras da anima e do animus. Desfazer as projeções. Como se pode adivinhar. "todos os conteúdos da anima e do animus não são. sempre próximo de seus pacientes. Muitos dentre eles surgem espontaneamente.

Ela coloca em jogo a globalidade da personalidade do Eu. A Sombra é o inconsciente que trabalha em cada um de nós. G. a Sombra é um "problema moral". certo. sido bem Capítulo XV A Sombra. C.. E é realmente isso. Esse conceito que designa a face sombria e oculta da personalidade. Jung escreve nitidamente: "Os conteúdos do inconsciente pessoal são aquisições da vida individual. Com ou sem egrégora. "Ninguém pode realizar a Sombra sem um emprego considerável de firmeza moral".. acrescenta o Mestre. mas também o inconsciente coletivo. a qual envolve. a parte inferior.conceito de Sombra tenha compreendido internamente. está presente. enquanto aqueles do inconsciente coletivo são arquétipos que têm uma existência permanente e a priori". Assim. face oculta do mundo A Sombra. em seu manto inquietante e obscuro a totalidade de todos os materiais psíquicos do reino do inconsciente. de certa forma. em toda a obra de Jung. esse mundo quase ignorado que pode emergir de maneira inesperada e às vezes inquietante em uma reunião maçônica na Loja. de maneira aberta ou em filigrana. Eis realmente o ato "que consiste em reconhecer a existência real dos aspectos obscuros da perso- . o inconsciente pessoal.

27 Com efeito. que retoma. Esse conviva vem 27Baudouin.nalidade". conseqüentemente. longos anos. via de regra. La nuit de décembre. o símbolo desse "estranho vestido de negro / Que se assemelha a mim como um irmão". a saber. a uma resistência considerável". . Charles. Um dos exemplos mais marcantes é provavelmente esse magnífico poema de Alfred Musset.. Éditions Payot e Rivages. "conhecete a ti mesmo". L'ombre de Jung. o alter ego ou o duplo muitas vezes encontra seu estranho lugar na Literatura. 2002. não é somente uma espécie de linguagem figurada. tem razão ao ressaltar que a expressão "sombra". Esse "trabalho" pode levar. isto é. porém. trata-se realmente de concretizar uma das mais célebres máximas inscritas no frontão do Templo de Delfos. com a ajuda de Sócrates ou não. Charles Baudouin (18931963). quando os "Irmãos" "trabalham" aceitando a dialética do Eu e do inconsciente. gnôthi sauton. com ou sem maiúscula.. confronta-se. exigentes e apaixonantes como toda exploração de si-mesmo e de suas relações com o outro e o Outro. o ato que permanece "o fundamento indispensável de todo modo de conhecimento de si. como uma espécie de leitmotiv obsedante. antigo diretor do Instituto de Psicoterapia de Gênova. e. Tanto na Psicoterapia como na Loja Maçônica. Consequentemente. muito mais do que isso: ela designa "uma dessas personificações espontâneas cujo segredo o mundo onírico tem".

é um difícil e às vezes trágico duelo entre o analisado e o lado sombrio de si-mesmo. depois.misteriosamente se colocar ao lado do homem ao longo de seu processo de crescimento. quem é no fundo "essa sombra amiga"? Não é ela realmente "a face humana e suas mentiras?". espectro de minha juventude / Peregrino que nada cansou?". mais visionário do que parece. E a confrontação com a sombra. da cor do cinza. por exemplo.. A Sombra é mais do que um visitante solitário... É uma onipresença plena de ambiguidade e nem sempre reconhecida. ele se torna "um jovem rapaz" quando o poeta completa seus 15 anos. "Anjo ou demônio". em Psicanálise. portanto. Mas. seu duplo é uma pobre criança "vestida de negro". depois. Musset. pergunta o poeta. obscuro. em Charles Baudouin. quando se acredita. "órfão" à noite. De fato. essa sombra do romântico Musset que lhe sorri sem compartilhar sua alegria e o lamenta sem consolá-lo? "Seria um sonho vão? Seria minha própria imagem / que percebo nesse espelho?" e um pouco mais adiante: "Quem é. "estranho" "na idade em que se crê no amor". . Mas a sombra não é realmente o mal.. na realidade. "conviva" "na idade em que se é libertino". portanto. do vago. tu. evoca a Sombra de Jung antes do nascimento deste último! E a Sombra muitas vezes toma o aspecto de um personagem velado. depois. raramente é tão simples. Pode ser stricto sensu a sombra que a silhueta do homem forma sob o Sol. Quem é. ou declarada. Quando Musset é aluno. do indistinto.

Ela contém mesmo algumas qualidades infantis ou primitivas que poderiam em certa medida reavivar e embelezar a existência humana". irreais e em permanente transformação. Éditions Buchet-Chastel. primitiva. Ora. o leão simboliza ao mesmo tempo a força. .grande admirador. 1958. justamente. positiva em si. e com um apetite voraz que pode ser destruidor e devastador. a Sombra é naturalmente o que se opõe à luz. formando um todo sob pena de se desagregar até a loucura. em muitas das culturas antigas. C. Jung a estigmatiza quando escreve: "Se as tendências recalcadas da sombra só fossem más. Assim. Seriam necessárias também páginas e páginas para apreender o "duplo jogo" das representações da serpente. inadaptada e infeliz. a sombra é. real. Psychologie et religion. é muito mais o recalcado. Sim. mas ela deve ser também compreendida como o reflexo. Podemos pensar então na 28m Jung. do urso. G. está presente em inúmeras representações de animais e todos têm. do dragão. indissociáveis. benéfica e maléfica. uma dupla polaridade simbólica. leitor e comentarista de Jung. o jogo de sombras fugidio das coisas humanas efêmeras.28 Com efeito. Assim. em regra geral. não existiria nenhum problema. entre outros! O mito é bem universal e designa sob todas as latitudes dois irmãos gêmeos interiores. somente alguma coisa inferior. mas não absolutamente má. a sombra pode apresentar uma variante positiva e uma outra negativa. a Sombra é o duplo e este. Aliás.

o homem que vendeu sua alma ao Diabo ("àquele que separa") perde sua sombra. Além do mais. Gheerbrant. em geral. imagem. isto é. a mesma palavra significa sombra. bem como aquele que passa por cima! Em outros termos. 1982. Mais amplamente. mas também na imagem do salmo 17 ("à sombra das asas de Deus") que será a divisa do pai espiritual dos rosa-cruzes. ele confunde a presa com a sombra e não sabe mais em qual sombra 29 Chevalier. Johann Valentin Andrea (15861654). como se evoluíssem em uma caverna de penumbra e de silhuetas projetadas nas paredes. por ocasião da passagem da morte. Podemos também evocar. se se é católico. na África. alma. Éditions Robert Laffonti Bouquins.alegoria da caverna evocada. sub umbra alarum tuarum Jehova. 1:35). distintas uma da outra. Em um grande número de línguas indígenas da América do Sul. separam-se do cadáver". Alain. na simbólica tradicional. entre os inúmeros povos. por Platão. quando os seres humanos são concebidos de modo filosófico. . aquele que não sabe mais ver sua sombra está destinado à destruição. a sombra é frequentemente compreendida como a segunda natureza dos seres e das coisas e se encontra. ligada à morte. Dictionnaire des symboles. Jean-Chevalier e Alain Gheerbrant29 nos relembram que. Jean. a Anunciação feita a Maria quando o anjo responde à Santa Virgem: "A potência do Altíssimo te cobrirá com sua sombra" (São Lucas. "a sombra e a alma. evidentemente. entre os índios do norte do Canadá.

quando o Aprendiz quer talhar sua própria pedra bruta para talvez torná-la. O símbolo. a partir disso. para alguns gnósticos. e. que a alma humana não tem mais a sombra de uma sombra quando se realizou totalmente sob o poder da luz sobrenatural! Em resumo. evidentemente. Mas tudo é sempre ambivalente. se distanciar de sua sombra significa que. e. Todo símbolo é dinâmico e permite passar de um sentido a um outro sentido. devolver a Sombra à nossa consciência torna-se o objetivo tanto da análise quanto do trabalho maçônico. "revela". de maneira pedagógica. para dali extrair uma certa compreensão esclarecedora. didática.. um dia. se está transparente a toda luz (o que é um mérito supremo). sempre se trata de analisar a sombra. portanto. G. na China. Por meio principalmente de sua anamnese familiar. A postura iniciática maçônica e a psicologia das profundezas travam um mesmo combate e ambas raciocinam por analogia. melhor do que qualquer outra representação passível de sugerir e de mostrar. sob o impulso de uma espécie de ricochete do raciocínio e da imaginação. e a observação supera em muito um simples desejo comparativo. passível de melhor se ajustar. Pode-se então adivinhar. Jung . de se apoiar.confiar.. tanto na psicologia das profundezas quanto na Loja. cúbica. no Templo da humanidade inteira. mesmo a sombra de acordo com inúmeras tradições. C. E parece que. A relação entre a dimensão simbólica e a análise especulativa é decididamente sempre viva e primordial. sem ocultá-la.

Fazer "como se" a sombra não existisse.. o nível e às vezes até mesmo o machado que fende e a maça que estimula ou esmaga. sem esquecer a régua. Em cada um de nós. Trata-se de se revelar para melhor se identificar com medida e discernimento. reunir-se. o prumo. Para o maçom. ou acreditar que sua própria identidade e a sombra são um só. "como a sombra está próxima do mundo dos instintos. Toda a sua obra consiste em sua ampla expressão. sempre existe um reino melancólico e neurótico.. sem dúvida. levá-la em consideração contínua é indispensável" (sic). Consequentemente. ao passar progressivamente do esquadro ao compasso. na poltrona. o que significa tentar suprimi-la. ou deitado em um divã. evoluir ao trabalhar com as ferramentas simbólicas. significa sempre arriscar "perigosas dissociações".sabe disso melhor do que ninguém. em conversa. Se a cura da alma . como na análise. mas também uma outra fortaleza bem protegida atrás dos muros de onde a esquizofrenia nos observa. Alguns textos falam até mesmo de "trabalhar sobre si-mesmo para estar na medida para se incorporar ao edifício comum". face a face. a superação da sombra às vezes complacente da Maçonaria. Não se pode temporizar ou tergiversar. sempre significa conciliar-se consigo mesmo. decantar sua pessoa verdadeira para melhor engajar sua eclosão. de acordo com um método de progressão particular. ou ainda desprezar o fenômeno. recalcá-la. Em suma.

G. Aliás. mais ou menos. Os arqueólogos da alma estariam todos. com um humor que revela e faz sentido. direta ou indiretamente como. Jung evoca "a cauda do sáurio" da qual o homem não consegue se livrar para se tornar um ser realmente civilizado! Em Aion. ele exprime sem ambiguidade: "A sombra é essa personalidade. se impõe sempre a ele. no entanto. E. a confrontação com a Sombra. Ela permanece o ponto comum forte. denso. Assim. com muita frequência inferior e carregada de culpa. é muitas vezes gradual e digna de uma peregrinação iniciática sem fim. por exemplo. cujas ramificações mais extremas remontam até o reino de nossos ancestrais animais e engloba assim todo o aspecto histórico do inconsciente. C.existe. o Centro essencial do círculo de busca comum em que gira o compasso simbólico do analisado segundo Jung e do maçom especulativo. pode-se encontrar também. aliás. o alquimista em busca de quintessência ou o gnóstico reencontrado que sonha com o conhecimento absoluto. é frequentemente pela aceitação e pela apreensão inteligentes da Sombra que a libertação se dá. às vezes frontal. os traços do caráter inferiores ou outras tendências incompatíveis". oculta. em La guérison psychologique que Jung explica: a "Sombra personifica tudo aquilo que o sujeito se recusa a reconhecer ou admitir e que. em diálogo imaginário constante com a sombra? .. incontornável. sem dúvida. Nesse território pouco conhecido.".. recalcada.

poder-seia pensar que. Assim. o "cadáver" se mexe mais do que nunca! -. Certo. ele conversou de maneira contínua por quase 13 horas.Temos o direito de pensá-lo. que pesada essa perda da presença ao seu lado de um autêntico gênio. E o caminho de Jung e suas marcas sobre essa terra de inocência e de culpabilidade nos instigam. o inventor da Psicanálise. antes de entregar sua alma à Sombra. Jung pensou nesse enigmático "ponto ômega" de Teilhard para o qual converge a humanidade em movimento e em busca de Verdade? Capítulo XVI Do conflito entre Freud e Jung Após sua dolorosa separação de Sigmund Freud. suas origens . aos 86 anos!) tinha sobre sua mesa de leitura as obras do filósofo e poeta Teilhard de Chardin e parecia entusiasmado pelas idéias mãe do autor do Phénomène humain (1955). Carl Gustav Jung se vê só e vive mal a perda. beirando até mesmo um certo desequilíbrio sem volta.no plano espiritual. o demasiado velho e Venerável "Sábio" Jung (ele morreu em 6 de junho de 1961. por ocasião de seu primeiro encontro. Com efeito. Alguns dias antes de sua morte terrestre . em 1907. o Freud com o qual. nosso objetivo aqui não é absolutamente de auscultar a causa dessa ruptura.

a Psicologia individual de Adler. para melhor compreender em quê. "têm em comum descartar o primado do sexual e manter a ideia de um inconsciente que faz parte da consciência.. Elisabeth. uma mudança profunda. argumenta Roudinesco. Éditions Le Seuil.. ele cai no senso comum de que esse "divórcio" de Freud iria provocar em seu filho espiritual. de Elisabeth 30 Roudinesco. Jung foi obrigado a atravessar custe o que custar . um terremoto em seu planeta interior. t. 1986. apesar de suas consideráveis diferenças. Seja como for. do ponto de vista dos primeiros tempos da Psicanálise na França.e lhe custou muito . G. Em ambos os casos. Mas não deixa de ser menos esclarecedor ler ou reler Histoire de psychanalyse en France. a divergência "gira em torno da definição do estatuto da Psicanálise em sua relação com a Psiquiatria e da manutenção ou da rejeição da teoria da sexualidade". que se tornou uma espécie de exilado e excomungado da Terra prometida freudiana. I. o conflito entre Jung e Freud representa um momento decisivo. Essas três doutrinas.e o real porquê de tal impasse.um risco de esfacelamento e de perdição psíquica. C. Histoire de la psychanalyse en France.". com efeito. uma crise de identidade que o leva a assumir plenamente sua própria 30 Roudinesco. O demasiado "ortodoxo" Roudinesco chega até mesmo a pretender que. . a Psicologia analítica de Jung e a analise psicológica de Janet se encontram mais próximas umas das outras do que a Psicanálise de Freud. por exemplo.

e com Métamorphoses et symboles de la libido. Éditions Albin Michel. Ele dá início a L'Homme à la découverte de son âme31 para retomar um de seus títulos mais célebres. Com efeito. Jung abre sua via. Les Sept sermons aux morts. que ele lhe dedicou em 1912.). Pode-se observar que. extraindo-o na fonte de seu passado anterior a Freud. estamos em presença de textos metodológicos nos quais também se esboçam desenvolvimentos teóricos que o mestre aprofundará em seus estudos posteriores. mas reconhecido" (sic. em 1916. C. G. C. G. aprofundados e ampliados como pesquisador com seu Etudes sur les associations. sem Freud. três textos nitidamente diferentes uns dos outros.liberdade de criador. que infelizmente não iria protegê-lo de um certo isolamento na Suíça. mas é possível considerá-los como fundadores. Jung não pode de forma alguma pressentir seu futuro e deve esculpir pouco a pouco seu destino. 1996. pouco antes do começo do primeiro conflito mundial de 1914-1918. C. Jung. Ou seja: influenciado por suas reminiscência familiares e maçônicas e pelos conhecimentos adquiridos como estudante de Medicina. 31Jung. 1987. G. . alguns meses antes da ruptura. Éditions L'Herne. A partir de então. depois. Jung produzirá. que tinha dirigido a Freud já em 1905. seu próprio mito. o. L'Homme à la découverte de son ame. com essa menção "colocado aos pés de seu mestre e professor por um aluno desobediente.

a despeito da escolha por seu autor de editá-lo quase confidencialmente sob o pseudônimo de "Basilide d'Alexandrie" (nome de um heresiarca gnóstico do século II). do fracasso patente de toda busca iniciática de tipo maçônico no espírito de C. Jung. apelaram para a minha palavra". Com efeito. mais ou menos disfarçada. suplicantes.O primeiro desses títulos: Septem sermones ad mortuos. a intuição de que toda a tradição maçónica de seus pais (e pares) não pôde reencontrar a palavra perdida desde o assassinato legendário do Mestre Hiram para reconstruir o Templo de Salomão. Eles me pediram para deixá-los entrare. para impedir o fracasso da Ordem em geral? Certo. esse brilhante texto cifrado constitui a confissão desencantada. sob a pluma de Jung. Segundo nossa ótica. desde as primeiras linhas do primeiro sermão. Mas vemos ali muito mais.. encontra-se uma longa divagação-explicação sobre o . foi muitas vezes e justamente apresentado como uma espécie de poema inspirado pela literatura gnóstica. Atrás dessa constatação de uma certa busca majestosamente abortada. ali não encontraram o que procuravam. símbolo do templo interior de cada um? Não haveria ali a expressão de um pedido de socorro dos distantes ancestrais de Carl Gustav que recorriam à palavra nova do descendente C. G. é dito: "Os mortos voltaram de Jerusalém. Jung. com um sopro estranho e secreto. G. no fundo. não haveria de certa forma.. com efeito. criador da futura psicologia das profundezas. Os Sete sermões aos mortos.

isto é. Jung. no "Sermão II". já como ex-Basilide. que. Réponse à Job."pleroma". portador do avental e de luvas brancas. o aparecimento do principium individuationis. G. . C. a garganta eternamente sugadora e aspirante do vazio que o Diabo representa. C. Jung afirma que a deidade em questão "é o Sol" e. e uma resposta enigmática que nomeia a deidade de Abraxas e que a qualifica de "conhecimento difícil". muito rápido. a aparição primeira. encontra sua raiz e seu sentido em todo caminho iniciático. C. "a cavidade profunda. G. Onde está Deus? Deus está morto?"). do processo de individuação. G. mas há ali também. ao mesmo tempo. Mais tarde. esse Diabo destruidor que desmembra tudo" (sic). e é aos nossos olhos capital. interrogando-se sobre o Grande Arquiteto do Universo. Éditions Buchet/Chastel. Jung faz com que os mortos se coloquem a questão de Deus ("Gostaríamos de possuir o conhecimento de Deus. como já assinalamos. 1994.32 Então. Nos últimos cinco "sermões". esse aspecto duplo da potência divina será quase uma obsessão sob a pluma do autor inspirado de Réponse à Job. 32Jung. ele continua: "Tudo o que vós implorais do Deus Sol contém também um ato do Diabo". além de uma evocação do "deus supremo" após um pedido explícito dos mortos. G. conceito diretamente saído das crenças dos gnósticos. na obra de C. um pouco à maneira de um orador. inclusive naquele da Maçonaria! Aliás.

existe ali um eco. .. para além do desmembramento e da dissolução. estrela como objetivo e direção do homem. La Franco-maçonnerie rendue intelligible à ses adeptes.Quando se observa de perto. "quando o Universo imenso se transforma em gelo. E. encontram-se nos Sete sermões aos mortos muitas das preocupações. ou um prolongamento poético da mensagem espiritual da Gnose que um Oswald Wirth procura nos fazer compreender em seu Le Livre du compagnon.33 Com efeito. signo luminoso que sugere "o deus de um homem e somente daquele". Éditions Dervy. Jung! Verdadeiramente. encontra-se o símbolo maior da Estrela Flamejante. a de uma conjunção dos contrários. de alguma forma disfarçada.. a estrela continua a brilhar" acrescenta C. sabendo que toda comunhão é profundeza e que "a singularidade é grandeza". Le livre du compagnon. G. Enfim .e sobretudo? -. Essa estrela é realmente uma ponte lançada por cima da morte. brilho primeiramente íntimo diante da 33 Wirth. da Maçonaria tradicional: a significação dos números. enquanto a prece torna mais brilhante sua luz. a questão da matéria e da psique (são elas clivadas ou não?). guia dos Companheiros do segundograu das Lojas ditas azuis. a estrela que "se revela ao Companheiro definitivamente vencedor das atrações elementares é aquela do gênio humano". Oswald. a presença sagrada da espiritualidade e da sexualidade. principalmente do espírito solar e do espírito lunar. e principalmente do três e do quatro. 1989.

L'âme et le soi. o conhecimento característico de todo espírito que soube penetrar os mistérios da iniciação. C. como exprime Wirth. ele orientou sua pesquisa para a realização das potencialidades "esquecidas" da pessoa que não limita sua busca simplesmente à satisfação do desejo. Enfim.34 mas que também data de 1916. que por muito tempo permaneceu na sombra. para resplandecer. isto é. depois desse "divertimento" gnóstico de 1916. "só se adquire à força de meditação pessoal. Jung sobremaneira explorou. texto que se encontra no L'âme et le soi. ampliou e estruturou seu pensamento holístico. seguindo o fio condutor de sua vida e de suas obras após sua separação de Freud e da redação dos Sete sermões. o que fez Jung senão. Estes apresentam essa particularidade de ser estritamente incomunicáveis: é preciso descobrilos por si-mesmo para possuí-los". G. sobre os símbolos múltiplos que pedem ao espírito que adivinhem seu sentido oculto"? Com certeza. "todo iniciado verdadeiro se beneficia assim de uma iluminação que lhe permite conquistar a Gnose. 1990.profundeza de um negro absoluto. em um brilho tal que a obscuridade é dissipada". enfim. G. Jung consagrou-se particularmente à análise da estrutura do 34 Jung. . E depois. "é logo uma estrela que cresce rapidamente. Em La fonction transcendante. cavar sua marca espiritual sabendo que a Gnose. sempre no mesmo ano. Éditions Albin Michel. C. No fundo.

: Sugerimos a leitura de Aforismos de Confúcio. G. G. criado somente em 1947). Dele Jung extrai os símbolos que fazem sentido. "tratado"). como se poderia dizer. Jung de Zurique. o ressentido. que considera suas ligações com nossa vida consciente. no final da Primeira Guerra Mundial. C. determina sua natureza. ele se serve das observações feitas em alguns doentes esquizofrênicos. Jung torna-se Jung. Seu livro Types psychologiques aparece em 1921.E. e ouvindo.inconsciente em todas as suas dimensões. Jung inicia o longo discernimento dos dados jorrados de seu inconsciente dinâmico. para comparar por analogia produções míticas do inconsciente e estruturas arquetípicas da História religiosa plural. por exemplo. como a célebre Miss Muller. Jung se abre aos processos simbólicos mais diversos. com sua abundância de pensamentos. Esse livro de adivinhação marcado pelo pensamento de Confúcio35 não deixará de fasciná-lo. Assim. De fato. Além do mais. E então ele viajará muito. do sagra35. vai se entusiasmar pelo I Ching (do chinês I. . Madras Editora. graças às ricas trocas que se operam no âmbito do "Clube Psicológico de Zurique" (nascido em 1916 ainda e "ancestral" do futuro Instituto C. bem entendido. e não exclusivamente captados nos sonhos. mas também os coletivos. "camaleão" e ching. De fato. de impressões. abrindo-se ao cosmopolitismo e a seus universos religiosos. as características. e não somente os símbolos individuais. Jung. conferencista ouvido. de imagens e.

seu retiro. Saara). Sousse. seu refúgio (sua Loja pessoal?). Mas Jung. após um périplo pela África do Norte (Argel. imaginar ao seu modo um Jung que metaforicamente passou do grau de Aprendiz ao de Companheiro e deste ao de Mestre. ao descer o Nilo. ao Novo México (entre os índios Pueblos). sobre a qual voltaremos a falar e que começou com uma torre de pedra que ele transformou ao longo de seu lento envelhecimento pessoal. volta ao continente europeu dois anos mais tarde e compra um pedaço de terra em Bollingen. em 1920. ao Monte Elgon. Tunis. é um pombo-correio. ao Sudão. como ele próprio a chamava. à África negra. observador curioso e maravilhado pelo mundo e pelo sagrado. Nosso objeto não é o de retraçar em detalhes esse percurso da maturidade de cada uma das etapas identificáveis. por volta de seus 50 anos. Do final da Primeira Guerra Mundial até o começo da Segunda. como se diria hoje. nas margens luminosas do lago de Zurique. Cada vez mais "reconhecido" por seus pares. Jung. mas se pode. em peregrinação. o itinerário de Jung toma uma via real de desabrochamento. Sua curiosidade o conduzirá principalmente a Chicago. Ali edificará pouco a pouco sua Torre de Bollingen. sem extrapolar os períodos vividos e avançados de exploração da psique.do em geral. mas também não estamos distantes dele. Ainda não estamos no "Grande Tempo" mítico do maçom Georges Dumézil. ao Egito. visita . ao longo desse lapso de tempo trágico que é o entre duas guerras.

daquele texto taoísta da Alquimia chinesa já citado. que. Le secret de lafleur d'or. segundo ele: "em um mundo de tirania e de crueldade. o Ouro espiritual que repousa no coração do homem. Foi a partir do envio feito por Richard Wilhelm. interroga a Arte e a Arqueologia. o que há de mais importante. é preciso ler o parágrafo que celebra o Taj Mahal. interroga as tradições orientais.Assuan e Luxor. chega a designar o que há de mais precioso em uma coisa. isto é. medita. para melhor compreender seu espírito universal escancarado aos quatro pontos cardeais do Espírito. tocar a quintessência. Ele olha. Aliás. Torna vivos os museus pelo impulso de sua imaginação erudita. Jung declarou ter podido "aproximar a essência da Alquimia". G. um sonho celeste" que se "cristalizou na pedra". em 1928. o ponto mais fino do . do peso da matéria inerte. anota. ajoelharse perto do altar onde talvez a "pedra filosofal" esteja exposta. Constata que os deuses criadores do mundo são muitas vezes bissexuais. Simplesmente isto: aproximar a essência! E o mesmo que dizer erguer uma parte do véu que oculta o próprio princípio da operação da Grande Obra. o coração do coração do tabernáculo. esse "quinto princípio" dos herméticos. da transformação de imagens em analogia. fascina-se pela Beleza. o Graal tanto esperado. uma de suas paixões de juventude. essa substância etérea que se extrai da densidade dos quatros elementos. que C. pela Força e pela Sabedoria.

dos termos desconcertantes como chaves que não funcionam ali onde se esperava... "que a Psicologia analítica se converge singularmente para a Alquimia".. Não se poderia ser mais . como diria Marie-Madeleine Davy. prima matéria (matéria-prima) ou Mercurius (Mercúrio). estilos insólitos. de uma espécie de código que persegue esses velhos livros e outros pergaminhos enigmáticos. de decodificação.. enfim. E até acrescenta: "As experiências dos alquimistas eram minhas experiências. Então. meu mundo". de purificação manteve-o atarefado durante dez anos. por meio de um método puramente filosófico. ele explica como se revelou. lápis (pedra). solve et coagula (isto é. unum vas (um é o vaso). Assim. Ora. Ele trabalha como se a Alquimia constituísse uma língua desconhecida. Esse paciente trabalho de decifração. dissolve e coagula). ele compreende. pouco a pouco.. Então. Audaciosamente. Confrontado a todos esses tratados que tentam elucidar segredos e fases experimentais da Grande Obra. e ainda muitos outros. nenhuma Ariadne está lá para colocá-lo na palma de sua mão. em um certo sentido. a fina ponta do dentro de si. Jung se constitui um "dicionário de palavras de referência com remissões"..círculo cósmico. Em suas memórias. Jung se põe a procurar o fio indispensável no labirinto sem fim das provas iniciáticas e das posturas do pensamento alquímico. ele se dá conta das anamneses estranhas e obscuras. e seu mundo era. o próprio sentido das chaves alquímicas de base.

explícito. ele paga sua dívida original. a fim de ressuscitar na pura luz". morto para suas paixões. que se chamem René Guénon. à qual deve muito. a Maçonaria tradicional. rei místico. De todo modo. Gilbert Durand. quando se sabe quantas impressões. por exemplo. E. ou que os rosacruzes dos séculos XVI e XVII assimilam ao Cristo. Tornou-se efetivamente inegável hoje. tanto na busca alquímica quanto na empreitada iniciática. que as experiências dos alquimistas em seus laboratórios com as substâncias minerais e vegetais tinham um . sua irmã gêmea. C. efetivamente. não poderia ser para ele um reino estranho! Não é necessário ser Oswald Wirth para saber que. "sob simbolismos diferentes. G. bem mais do que se diz habitualmente. Antoine Faivre. Ele. para a maior parte dos filósofos das religiões comparadas. o programa permanece. pode-se também afirmar que. se Jung reconhece na Alquimia "o par histórico da psicologia do inconsciente". quantas marcas a Alquimia deixou nos rituais maçónicos. Mircea Eliade. o mesmo da época em que os herméticos ensinam alegóricamente a transmutar o chumbo em ouro. faz justiça e homenageia a simbólica maçônica em geral. isto é. Georges Dumézil. sem revelá-la. Henry Corbin. o homem regenerado. ou ainda Raymond Abellio. sua base histórica. tudo significa se engajar em um sinuoso caminho alegórico de provas. se a Alquimia é seu mundo. Jung reconhece no mito da Alquimia seu próprio mito. E.

Tratava-se de modificar o "gesto de ser". C. uma ética e uma certa visão do mundo.objetivo mais ambicioso. aliás. emblema intrínseco da Alquimia. que Jung encontra. unir) e o Tantrismo (que insiste na realização pessoal) na índia. resume a teoria das Sephiroth. ela se encontra intimamente ligada a uma tradição esotérica ou mística. "tradição").. que encontra suas bases nas especulações numerais e que. E C. bem entendido. apaixona-se por seu universo tão particular em que o segredo parece às vezes despótico. São o yoga (cujo nome vem de uma raiz sânscrita YUJ. São também a gnose no Egito helênico e algumas escolas místicas nos países islâmicos. a Cabala (da palavra hebraica Qabbalah. cuja função é unir o Relativo ao Absoluto. E igualmente. enquanto que.. manifesta-se o que Mircea Eliade chama o misticismo cristão da Idade Média e do Renascimento. ostesouros da Maçonaria da árvore familiar. poder-se-ia dizer. não nos esqueçamos. é quando encontra a Alquimia. E o Taoísmo na China que ensina um modo de comportamento diante da vida. Jung também sabe: em todas as culturas em que a Alquimia é observável. que quer dizer atar. assim como relembra esquematicamente Oswald Wirth no Livre du maître?5 Efetivamente. no Ocidente. o Finito ao Infinito ou a Terra ao céu. de fato. o Particular ao Universal. e ele volta a galope. quando olha a grande roda do tempo se curvar sobre si mesma à imagem da serpente Ouroboros. G. Escorraçai o ritual de vossos pais. .

Jung faz seus os preceitos da Tábua de Esmeralda e principalmente o célebre: "O que está embaixo é como o que está em cima. que as oposições sempre se organizam em função da dialética original macho-fêmea. pode explorar ao seu modo a Arte Real. esse Teofrasto Paracelso (1493-1541). o que está em cima é como o que está embaixo. que representa o papel de "detonador". C. Muito evidentemente. para retomar um de seus conceitos já . No vasto domínio da psique humana. médico e alquimista suíço cuja teoria de cuidados repousava na concepção das correspondências entre as partes do corpo humano que constituem o microcosmo e as do Universo que são o macrocosmo. Ele vai explicar aos seus pacientes reais e/ou imaginários que nós somos todos. Jung. escruta a sabedoria de Paracelso. se fazem os milagres de uma só coisa". Jung sempre procura. Sua persona. a lógica das correspondências do dentro e do fora. da Terra e do Céu. por essas coisas. após sua descoberta do Secret de la fleur d'or. G. durante toda a sua vida. É provável que Jung não deixe de adotar lobos diferentes no grande baile a fantasia da vida. Ele pode ao mesmo tempo mascarar completamente a herança maçónica de seus ancestrais sem trair seus símbolos maiores muitas vezes comuns ao processo alquímico. Além do mais. com efeito. Jung. e não somente no período entre as duas guerras.G. justamente considerados à luz das preocupações metafísicas.

é acompanhada de um texto da própria mão de seu autor que diz. Richard Wilhelm me enviou de Frankfurt o texto chinês velho de um milênio que trata do castelo amarelo. Christian. ele analisa por escrito Ulisses.36 Lembremo-nos de que essa mandala. para reunir 36Gaillard. quando não parece se perder em alguns tratados alquímicos ilustrados ou no traçado colorido de uma mandala como aquela que se pode observar na obra Le musée imaginaire de Carl Gustav Jung. em 1933. conduzemno a dedicar seu pensamento à Arte de seu tempo. recolocado no contexto da época. datada de 1928. germe do corpo imortal". às mutações sociais. no plano manifesto. Le Musée imaginaire de Cari Gustav Jung. . a aparência que ele apresenta. é realmente um curioso psiquiatra esse viajante que não para de explorar as culturas e seus símbolos fundadores. Comenta uma exposição de Pablo Picasso. Nesse espírito. à ascensão dos fascismos. em sua vida pública. É um erudito entusiasmado e. o romance de James Joyce. Enquanto estava pintando essa imagem que mostra o castelo de ouro bem guardado. Sua curiosidade de espírito é polifônica e afinada. sobretudo. 1998.evocados. à literatura em geral. em língua alemã: "1928. de Christian Gaillard. Quando o ritual do terceiro grau simbólico escocês responde à questão de saber com qual objetivo o Mestre viaja por todos os lugares ("para buscar aquilo que foi perdido. e particularmente à do Nazismo. aos temperamentos dos povos.

de desejar um tal objetivo ético apto a balançar o planeta.)! Seu comentário é significativo. ele descobria uma parte de sua casa cuja existência ele nem conhecia naquela época. descobri uma velha biblioteca cujos livros me eram . teve um sonho insistente.. ele vai ao encontro das preocupações constantes de Jung que não deixou. Ele visitava estranhamente os apartamentos de seus procriadores. durante vários anos. Ali se encontravam interessantes móveis antigos. e constatava. essa ala desconhecida de minha casa era um antigo edifício histórico. sem dúvida profético. com uma profunda surpresa. e. no entanto.o que está disperso e espalhar a Luz"). há muito esquecido. "Normalmente. Sob o jugo dessa cena onírica repetitiva. há muito tempo. lá para o final dessa série de sonhos. "um hotel para visitantes fantasmas" (sic. que seu pai tinha "um laboratório no qual estudava a anatomia comparada dos peixes" e sua mãe. de seus símbolos. de sua Arte Real. mortos. sem dizê-lo explicitamente. de sua linguagem.. que muito revela sobre o que representou para ele a descoberta da Alquimia. do qual eu era proprietário por herança. Capítulo XVII Alquimia e Hermetismo Jung conta que.

A ala desconhecida representava uma antecipação de um novo campo de interesse e de pesquisa que ainda escapava à minha . evidentemente. Com efeito. Finalmente. a analogia se impunha como uma evidência. quando finalmente recebeu o pacote do livreiro. várias semanas depois de ter visto em sonho esse livro desconhecido e precioso. o motivo de meu sonho recorrente é fácil de compreender. Ora. no último sonho. E Jung tem perfeita consciência disso quando escreve: "Pouco tempo antes de ter este último sonho. A casa... constatou que o volume recebido. Claro. eu havia encomendado a um livreiro uma das coletâneas clássicas de alquimista da Idade Média". era o símbolo de minha personalidade e de seu campo consciente de interesses. em pergaminho datando do século XVI. ele conclui logicamente seu raciocínio: "Como a redescoberta dos princípios da Alquimia tinha se tornado uma parte importante de meu trabalho como pioneiro da Psicologia.desconhecidos. meu coração batia de emoção". ele havia encontrado uma citação que estimava que talvez tivesse uma relação com a Alquimia bizantina. era ilustrado com "fascinantes" imagens simbólicas que no mesmo momento lhe lembraram aquelas de seu sonho. Quando acordei. e ali encontrei uma profusão de maravilhosas imagens simbólicas. A partir de então. abri um desses livros. Ele desejava verificar essa correspondência.

. em La Psychologie du transferi. G. essai d'exploration de l'inconscient. G. há 30 anos. Há casos que não apenas exigem um engajamento real. mas que o impõem caso não se prefira colocar em risco toda a emprei37 Jung. 38 Jung. L'homme et ses symboles. C. em toda a sua extensão. depois da Segunda Guerra Mundial. editado somente em 1944. Foi no banho de Atanor que ele mergulhou. ao trabalho psicoterapêutico. Alquimia e Hermetismo jamais deixariam. portanto.consciência. Aliás. sem dúvida. Psychologie du transfert. Evidentemente.\ que significa "a arte requer o homem por inteiro". a partir dos anos 1930 principalmente. op. Desde então. nosso explorador de símbolos maiores começou bem antes seus estudos da Arte Real. C. E afirma a seguir sem hesitar: "Isso se aplica igualmente. de entusiasmar Jung e de incitálo a exprimir por meio de palavras cuidadosamente escolhidas as analogias sutis entre um certo universo maçónico tradicional e "sua" psicologia das profundezas. cit. o autor cita o adágio de um tratado alquímico "Ars requirit totum hominem. 1964. Todavia.38 um de seus livros mais difíceis de ser decifrado. tornando-se um verdadeiro colecionador ávido de velhos grimórios codificados. Éditions Robert Laffont. um de seus mais importantes para compreender sua mentalidade de pesquisador. eu nunca mais tive esse sonho". para além da rotina profissional. mas. sabe-se que ele sintetizou tudo isso em Psychologie et alchimie.37 Com efeito.

ainda que esclarecido! O que acontece então é da ordem da iniciação sagrada. não se trata de ser diletante. é uma rede transparente que cobre o mundo e cujos fios soltos se comunicam de par em par com os planetas e com as estrelas.. assim como na análise da psique humana. Em outros termos. fora daquilo que se realiza dentro. Assim como o poeta romântico Gerard de Nerval escreve em Aurélia. pois tinha percorrido sua doutrina das correspondências. como C.. na iniciação. Para provar por exemplos extraídos da sabedoria antiga que tudo o que existe no macrocosmo se reflete no microcosmo. nada conta. .tada para afastar seu próprio problema que se vê surgir de todos os lados com uma nitidez crescente". nunca se deve perder de vista que "tudo vive. ele chegava mesmo a afirmar que "toda coisa natural é a representação de uma coisa espiritual.. e esta é. ou muito pouco. tudo se corresponde". A vida de um Emmanuel Swedenborg (nascido em 1688) é exemplar a esse respeito e. na prática.. Não se explora o sentido dos símbolos e a riqueza infinita do inconsciente como amador. os raios magnéticos emanados de mim mesmo ou dos outros atravessam sem obstáculo a cadeia infinita das coisas criadas. por sua vez. a representação de uma coisa divina". Trata-se de deixar para trás as aparências sensíveis e de buscar sem descanso o avesso de uma trama. tudo age. G. ao implicar a interioridade inteira. Jung a conhecia.

o objetivo é realmente a materialização do espírito ("a pedra filosofal") e. depois de ter lutado contra os deuses Baal da tempestade introduzidos em Israel pela rainha Jezabel. assim como o ferreiro. O alquimista. não tem nada a ver com uma simples sequência de operações mágicas de cozimento mais ou menos misteriosa.. com certeza. como exprime Bernard de Trévisan: ". onde encontra Deus antes de ser "arrebatado ao céu" com seu corpo e acompanhado por uma carruagem e por cavalos de fogo. a revelação da Grande Obra. a seca ou a úmida. a Virgem Maria. um pouco à maneira de Enoch no Gênesis ou da ascensão de Jesus. Assim é . o arquiteto mítico do Templo de Salomão. ele não se torna Hiram sob o toque de uma varinha mágica qualquer de feiticeiro branco ou negro. Permanece-se incessantemente no campo da purificação espiritual pelo fogo. o símbolo é o vetor capital da transmutação e da transmissão. Como se pressente. essa grande figura da fé judaica e cuja história é relatada sob forma lendária na Bíblia (primeiro e segundo Livros dos Reis). Mas ele se identifica. qualquer que seja a via escolhida. Com efeito.Assim. Elias foge do reino e vai até o Monte Sinai. ou mesmo da Assunção de sua mãe.. esposa do rei Acab. Em Alquimia também. após muitas noites de meditação e de preces (o laboratório muitas vezes tem como complemento um oratório). por e graças ao símbolo e ao processo de transmissão. quando o Mestre Maçom se identifica com Hiram. Sim. são discípulos de Elias.

historicamente.. inventor mítico dos hieróglifos. desse velho conceito 39. em pleno acordo!). Em psicologia das profundezas. E a plenitude do ser (a aquisição utópica do Si-mesmo) passa sempre pela aceitação dos contrários. parece que o Hermetismo nasceu de um corpus da época romana. pois.39 deus egípcio do saber e do pleno conhecimento. desde o início. de certa forma.O Arquiteto do Universo.E. "três vezes o maior". resulta que é necessário aceitar a aparente dissociação e a morte ritual para melhor aderir ao renascimento. Dessa maneira de considerar o segredo do Universo. umdeus muitas vezes identificado com Thoth. astros e deuses exercem uma real influência sobre os homens e. Madras Editora. no final das provas. mas formado desde a época grega. pela conjunção e pela reconciliação dos opostos.: Sugeríamos a leitura de Thoth . ali também estão enxofre. se é que existe uma (e aqui Sigmund Freud e Carl Gustav Jung estão.". mercúrio e sal.. pelo triunfo. pois ali onde estão Espírito.. de Ralph Ellis. tudo repousa na teoria das correspondências entre microcosmo e macrocosmo e na atração entre seus diversos elementos. o processo é comparável em muitos pontos à Ciência de Hermes. por e graças à transferência. noção capital. Segundo Hermes. principalmente. pela Unidade reconhecida. Alma e Corpo.. tudo se revela em germe no Todo.Trindade em Unidade e Unidade em Trindade. . De fato. Lembremos-nos de que o Hermetismo encontra suas fundações lendárias na revelação de Hermes Trismegisto.

observar que os três princípios alquímicos de base se encontram na Câmara de Reflexão em que medita o futuro Aprendiz maçom quando ele percebe o Enxofre. 41. para ser ainda mais explícito. ao retificá-la. mensageiro do Sol. Significa o Sulphur.E. com Jean-Pierre Bayard. visitar sua própria Terra incógnita. símbolo do espírito. Invenies Occultam Lapidem). Invenies Occultam Lapidem.. junguiano. claro. o Sal. isto é.: Ver também: A Espiritualidade da Maçonaria. Rectificando que. Poder-se-ia também pensar eternamente sobre a fórmula enigmática e corrosiva VITRIOL. entrar no consultório do psicanalista e se deitar no divã. atributo de Hermes. 1971.E. o catalisador. aliás. símbolo da Sabedoria e da Ciência. tu encontrarás a Pedra (lápis) Oculta. . No final. lacaniano ou marciano.40 por exemplo. freudiano. o agente que sem ele a iniciação não ocorre. a própria terra desconhecida de seu inconsciente? Não significaria retificar incessantemente a auscultação de seus próprios traumatismos de separação e de perda para melhor encontrar a pedra da unificação 40.de universal na Maçonaria de Tradição: o Um ontológico. Visite o Interior da Terra e. E. Madras Editora. Les Racines de la conscience. C. poderse-ia dissertar aqui sobre o modo como a Maçonaria utiliza permanentemente os símbolos al-químicos e herméticos. Rectificando que. de Jean-Pierre Bayard. G.. Então. Éditions Buchet/Chastel. Jung.: Vitriol é uma palavra que gera este conhecido acróstico {Visata Interioria Terrae.41 do latim Visata Interioria Terrae. o Mercúrio sob a forma do galo maravilhoso. não significaria.

cada metal representando. Si-mesmo do homem transposto ao plano cósmico. isto é.reconciliadora do sujeito com o grande Simesmo? De modo de fundamental. de um lado. claro. o samsara. Assim. mas também o mito do eterno retorno e. pela putrefação que tudo tem a aparência de acabar e que tudo começa do recomeço sempre em andamento. pelas virtudes da transferência do paciente para o analista. a pedra bruta. não talhada nem polida. Tudo isso evoca. aos olhos de Jung o. da desordem do incompreensível à ordem da fina análise de simesmo. o primeiro nomeado vai trabalhar suas faculdades de conhecer a si mesmo até conseguir a transmutação inesperada do chumbo em ouro. o chumbo leva a pensar na expressão familiar "cabeça de chumbo" e simboliza o bloco grosseiro. de outro lado. imagem alquímica na medida do possível. uma etapa a mais. por que não. Do lado dos metais. em suma. . Em um certo sentido. e mesmo as rosáceas das catedrais que representam. as analogias entre a Alquimia e suas correspondências maçônicas. até o "homem-espírito". por exemplo. a roda das existências. tornam-se rapidamente inegáveis quando são enumeradas. e a Psicologia analítica. é realmente pelo deslocamento primeiro na Terra. o ouroboros. um estado da transformação da psique. que deverá ser transmutada até o ouro. a serpente que morde o rabo e engendra a si mesma.

do Ar e do Fogo que evocam o processo alquímico) completará o quadro clássico. uma ordem secreta". G. aborda-se a extinção dos desejos. Jung sabe disso sem dúvida melhor do que ninguém e escreve: "Em todo caos. esse também seja o segredo inexpressável de toda a metamorfose por graus? Mas cuidado: C. por fim. E então. à sua maneira. no mesmo sentido. está um Cosmos e. após a iniciação e a aquisição da primeira luz. evocar o simbolismo das cores na Alquimia (leões verdes rugem. "contém em seu seio obscuro o germede uma luz .99 e ainda: toda putrefação. corvos negros que voam. a coexistência dos contrários com a cor vermelha. em toda desordem. Talvez. e faisões vermelhos orgulhosos em nossa pobre e pequena cabeça de analisado. a reintegração do homem em sua dignidade primordial com o ouro". Mas é preciso encontrar a plenitude do ser. pombas brancas apaziguadoras.Poder-se-ia. Para resumir. uma alusão não velada ao paralelismo entre o percurso do postulante à iniciação (com as quatro provas da Terra. águias vermelhas combativas. E o maçom sempre se torna. Jean-Pierre Bayard escreve: "Com a destruição da cor. uma espécie de psicanalista. depois da putrefação a cor branca faz aparecer a purificação para atingir a união dos opostos. espelho refletor para seus Irmãos. não é?). da Água. torna-se alquimista. Então o psicanalista. primeiramente repulsiva. baliza e receptáculo de transferências.

mas uma abertura. Jung et 1'alchimie. Éditions Albin Michel. já existe na pedra bruta a pirâmide a desabrochar. G.. Sem dúvida. sempre. surpreendente.. G. fazer o mesmo trabalho comparativo com o processo da iniciação maçônica e com a evolução.42 Assim. a flor que esse esterco ajudará a nascer e a florir. Uhomme à la découverte de son âme. surpreendente. sem forçar os textos e os rituais. da conexão entre analista e analisado. C. . que. 42 Jung. C. repetir voluntariamente. 1987. Consequentemente. Jung inventa o futuro da Maçonaria.. Bonardel. atrevida. a partir de então não inteiramente "coberta". uma abertura audaciosa. da relação transferencial. Uma maneira iconoclasta de realmente abrir para o ar livre do exterior uma janela da Loja. não constitui mais um paradoxo. Cahiers de 1'Herne.nova". para o futuro. A intervenção do acaso não existe. é preciso reler La psychologie du transferi para apreender aqui e acolá a comparação que é possível desenvolver entre as diversas fases do processo alquímico centrada em torno do casamento real (hieros gamos) da conjunção e a progressão do elo entre analista e analisado. e pela terceira vez (!). no esterco. às vezes..43 Poder-se-ia. 43"" Françoise. 1984. justamente. um trabalho de pioneiro. quando ele inventa ao longo de sua obra e da prática terapêutica que lhe corresponde um percurso baseado no fenômeno das transferências entre rei e rainha e a busca teimosa do Um conciliador e reconciliador.

e mostra que sua teoria "é em essência apenas uma projeção de conteúdos inconscientes. neste momento preciso de nossa obra. de um lado. apoiando-se no simbolismo da obra alquímica. Jung nos lembra que a problemática da transferência "é tão complicada e tão complexa" que o lógico "desejo de simplificação" pode ser perigoso. um suporte alquímico em perfeita concordância de espírito e de sentido com a iniciação maçónica de seu Venerável avô? Ele aborda assim a transferência. que Jung "confessou" com todas as letras que "tomar como base e como fio condutor" de sua exposição sobre a transferência um documento histórico "cujo conteúdo é o resultado de uma busca espiritual secular" deveria "ser considerado como uma simples tentativa " (o itálico é nosso) à qual ele não queria de forma alguma "atribuir a importância de um quadro definitivo". pois. dessas formas arquetípicas próprias a todas as criações imaginárias em estado puro. e principalmente para o nosso século XXI. tais como as encontramos. e de outro lado. não escolhe com toda vontade e consciência. ele escreve. nas visões e nas fantasias dos indivíduos".Quando Jung escolhe a série de gravuras do "Rosarium philosophorum" ( O Rosário dos filósofos) para elucidar. "é . Para o futuro. isto é. ou tentar apresentar as etapas sempre trágicas dos fenômenos da transferência que finalizam nas "bodas reais". É bom ressaltar aqui. nos sonhos. nos mitos e nos contos.

ao evocar também esse vaso como um útero no qual amadurece o feto. que também é a serpente mercurial (serpens mercurialisi). podemos ressaltar então que. evidentemente. ainda um pouco mais adiante. "a estrela da quintessência. como forma imperfeita. Loja dos alquimistas. ao ressaltar por oposição ao quadrado o redondo. como gostamos de acrescentar. na Loja mais do que em qualquer outro lugar. brilha em nós. ali onde o círculo também é símbolo de realização e do ser completo que se tornou Senhor dos Mestres! Ao plagiar o autor do capítulo Lafontaine mercurielle na obra La psychologie du transferi. Ao buscar a quintessência (quinta essentia) dos alquimistas. o Sol e a Lua são "os inevitáveis acólitos e pais da transformação mística" sempre buscada e nunca alcançada. Também na Loja. a . deve ser transformado".simplesmente fácil demais violentar assim os fatos. quando se tenta reduzir a um denominador comum coisas inconciliáveis". Jung nos leva irresistivelmente ao universo maçónico. como o Diabo separa. ao se questionar sobre os fundamentos misteriosos da obra (opus) e também sobre o vaso hermético (vas hermeticum). "pois ele é a matriz da forma perfeita na qual o quadrado. como a serpente bicéfala. do único". lugar de transformação. símbolo da unidade dos quatro elementos inimigos". nós nos movemos "no campo do incomparável. e que. do individual. O Mestre não deixa de nos relembrar. a despeito do funesto número dois (binarius) que.

pode nos instigar a um novo esforço de aprofundamento vivido no interior do Templo. a tricefalidade cabe ao Diabo. sem vulgarização excessiva. evidentemente. enfim. Capítulo XVIII . "ele é o par ctoniano. "ou seja. Jung é um Mestre que não coloca em questão a Maçonaria Tradicional. inferior. Assim. C. mas.natureza dupla do Mercúrio. com sua longa análise da fonte mercurial e aquela do segredo da arte (arcanum artis). da mesma forma que. relida. Compreende-se melhor então como sua obra. explica Jung. Sem entrar nos labirintos de uma simbólica compartimentada. meditada e integrada. mas em um movimento de abertura infinitamente desejável a fim de tornar inteligível a esfera do Sagrado. Esse Mercúrio que é o pai dos metais (pater metallorum) também remete ao Mercúrio como trindade. mas maçônicas por ricochetes analógicos. a conjunção do Sol e da Lua como união suprema dos contrários inimigos". aqui e agora. simbolizada pelo casal arquetípico do rei e da rainha. Jung "ilustra" no fundo nada mais do que o método e a filosofia alquímicas. na aurora de um novo século. da Trindade celeste. mas amplia seu horizonte sem empobrecer suas terras encantadas. até mesmo diabólico. em Dante. G. É por isso que Mercúrio é muitas vezes representado sob o aspecto de uma serpente tricéfala". explicado para o exterior.

. a obra alquímica. Psychologie de F alchimie. Éditions Buchet/Chastel. com seus atores tão insólitos quanto um Picco delia Mirándola. ou ainda imbuídos de matemática. claro.Relação entre o espírito e a matéria A Alquimia tradicional entusiasma C. mais tarde. 1970. suas lendas. com sua busca espiritual subjacente. a Alquimia ocidental fortemente marcada de Cristianismo. de pedra filosofal e de quintessência. G. Aos olhos de Jung. ou então humanistas como François Rabelais. a influência. C. Jung. Jung um colecionador às vezes quase maníaco sempre é de dimensão espiritual e muitas vezes equivale ao que o filósofo autodidata Gaston Bachelard lindamente dizia ser "um trabalho poético da 44Jung. que não quer entregar tudo o que deve à prática maçónica de seu entorno familiar. serve de tapasexo para Jung. da obra de Zósimo de Panópolis e da Tabula smaragdina (a famosa Tábua de Esmeralda já evocada). a Alquimia que faz de C. de geometria e de número de ouro. que ele o confesse ou não". torna-se uma espécie de corrente subterrânea esotérica do Cristianismo exotérico.44 De fato. Melhor: "a Alquimia se esforçou em revelar um pouco da tensão dos contrários que estão presentes no Cristianismo. com seus textos codificados. sem esquecer. dos manuscritos gregos. como Paracelso. G. Esta encontra suas raízes na China antiga ou no Egito. Com efeito. G. seu sonhos de ouro.

fundador. ou ainda se o espírito pode mudar a matéria. a questão primordial que sempre se coloca é realmente saber se. existe espírito na matéria. ao contrário. o próprio Isaac Newton45 (1642-1727). com Galileu e Descartes. G. de Alain Bauer.Isaac Newton e os Newtonianos.. sobre igualmente o consultório de psicanalista. uma vez que ele sabe que todo estudo do homem e de seus símbolos equivale a uma análise das relações do indivíduo com seu inconsciente e também da Ciência e da Consciência. de certa forma. Jung não está em contradição com uma postura de tipo alquímica ou maçônica. Madras Editora. Seja qual for sua atração oculta pela Alquimia. dedicou-se à Alquimia durante três décadas de sua vida sem jamais lamentá-lo.. mas.imaginação material". Além do mais. ele é sempre. assim como Penélope retoma seu bordado. . não estaria continuando uma busca sempre recomeçada do Graal da Verdade? Não estaria sonhando com a edificação perfeita do Templo exterior e do Templo interior? Não estaria nos falando da revelação progressiva e 45. Com efeito. O grande debate sobre as relações entre a matéria e o espírito paira incessantemente sobre os laboratórios e os oratórios alquímicos.E. da Física moderna (teoria da gravidade universal).: Sugeríamos a Leitura de O Nascimento da Maçonaria .. seu primo. se não seu irmão. C.. de primeiro grau! Quando o mestre do inconsciente coletivo retoma e aprofunda os textos fundadores de sua psicologia das profundezas. ou se a matéria já tem espírito.

ininterruptamente questionada de uma verdade oculta, dissimulada, a despeito da luz ontológica, de certa forma, intrínseca à alma humana? Certamente, C. G. Jung permanece toda a sua vida um médico, um clínico, um analista, em suma, um cuidador operativo. No entanto, é surpreendente observar, após muitos outros comentadores de sua obra, que, caso se deixe de lado seus escritos propriamente psiquiátricos e experimentais dos primeiros anos, ele parece ter se dedicado muito mais às correspondências entre Psicologia e Religião, entre Psicologia e Alquimia, vasculhando assuntos de ordem espiritual ou cultural, tornando-se um antropólogo pioneiro das tradições cristãs e orientais, um explorador especulativo, pode-se dizer. Talvez seja necessário então procurar uma das causas dessa surpreendente evolução em uma peremptória declaração que ele fez em Estrasburgo, em 1932, quando afirmou: "Entre todos os meus pacientes que ultrapassaram o meio de sua vida, isto é, que têm mais de 35 anos, não existe um só cujo problema definitivo não seja o da atitude religiosa. Sim, cada um sofre, ao final das contas, de ter perdido o que as religiões vivas sempre deram aos seus crentes, e ninguém está verdadeiramente curado enquanto não encontrar uma atitude religiosa, o

queevidentemente não tem nada a ver com uma confissão ou pertencimento a uma Igreja". Em outros termos, Jung nos sugere que o psicanalista jamais deve esquecer que o pedido inicial do paciente de ser desobrigado ou libertado de um sofrimento reconhecido, mas não elucidado no início, não poderia ser, de forma alguma, separado de forma artificial, ao longo do trabalho analítico, de um desejo fundamental de salvação pessoal, de uma busca ininterrupta do sentido da existência e da nostalgia de uma Verdade Una. Eis realmente uma postura maçónica, se é que existe uma: trata-se de reunir e não de ceder à dissociação sem qualquer significação. O que é focado permanece uma certa totalidade psíquica coerente. C. G. Jung nunca é um novo fundador de religião, um guru, um papa, ainda que escreva em 1943 a um correspondente: "Claro, sou um médico, mas muito mais do que isso: trata-se para mim da salvação do homem, pois sou médico da alma". Aliás, ele confessará a um outro interlocutor, clínico como ele: "Você realmente tem razão: o interesse principal de meu trabalho não reside no tratamento das neuroses, mas em uma abordagem do numinoso. E, no entanto, é o acesso ao numinoso que é a verdadeira terapia e é à medida que se chega às experiências numinosas que se é libertado da

maldição da doença. A doença endossa o caráter numinoso". Como se vê, para Jung, a aspiração a uma abordagem do numinoso faz parte dos instintos inatos do homem, de seus elas profundos fundamentais. A atitude do explorador do inconsciente diante da questão da existência de Deus inscreve-se a partir de então na mesma lógica de abordagem. Como resume com justeza o antropólogo Ysé Tardan-Masquelier:46 "Toda religião, ao dizer alguma coisa de Deus, diz também alguma coisa da natureza oculta do homem e tende a revelar seu fundo último". A partir de então, evidentemente, a ideia maçónica de Grande Arquiteto do Universo, que deixa cada um livre para optar pela imanência ou transcendência ou Deus como simples símbolo do Si-mesmo, é bem próxima das maneiras de pensar de Jung. De todo modo, a experiência do Sagrado permanece uma necessidade do homem. Melhor: é uma atração vital, e o Sagrado revela-se inseparável da mitologia religiosa em geral, e os rituais lhe dão acesso. No entanto, C. G Jung não deseja que se interpretem suas observações diversas sobre as religiões do mundo e sobre os mitos reveladores, "como uma espécie de prova da existência de Deus". Para ele, ela apenasprova "a presença arquetípica da divindade". É sem dúvida falso concluir a partir disso que Jung é "descrente", ou
46 T-Masquelier, Ysé. C. G Jung, la sacralité de l'expérience intérieure. Éditions
Droguet et Ardant, 1992.

"pagão", ou ainda "agnóstico". Não nos esqueçamos de que C. G. Jung, com mais de 80 anos, ainda não oferece uma resolução a essa interrogação maior da metafísica elementar. Ele "conclui" até mesmo suas memórias, muitas vezes citadas, da seguinte maneira: "Este mundo é repleto de barulho, de furor e ao mesmo tempo de uma beleza divina. Crer que tanto um quanto outro faça mais sentido ou nonsense é problema de cada um. O mais provável é que, como sempre, em metafísica, um e outro são verdadeiros. A vida é ao mesmo tempo sentido e nonsense, ou melhor, ela tem sentido e tem nonsense. Nessa angústia, eu guardo a esperança; ao final das contas, é o sentido que vencerá"! No fundo, que se adote um certo otimismo final ou não, é tradicional distinguir duas tentativas de explicação de nosso planeta: uma primeira proposta pelas espiritualidades, as religiões, o Sagrado, os mitos fundadores, o inconsciente coletivo e uma segunda proposta pela Ciência em geral, a epistemologia. Esta última, desde a noite dos tempos, talvez, confronta-se com a metafísica em uma relação que se pode qualificar de dialética. É a velha questão da Ciência e da Consciência continuamente reformulada... Quem é Deus? Quem é o Diabo? Quem une? Quem separa? Onde se situa Jung nessa dualidade demasiado usada? Ciência e consciência frequentemente se apresentam como inimigos hereditários. A Ciência muito brilhante e poderosa, orgulhosa

como um Sol triunfante, demonstra sua confiança na razão humana. Ela esposa o progresso e louva, por exemplo, o Século das Luzes com consequências que, às vezes, desencantam. A consciência parece o lugar do pensamento humano onde reinam o irracional, a escravidão os dogmas ultrapassados, a sujeição aos artigos de Catecismo. Quem quer fazer Deus faz o Diabo e inversamente. Caso se acredite na Igreja Católica Romana, para considerar uma religião que Jung gosta de tomar como sujeito de observação, a Santa Igreja dogmática de São Dominique e da Santa Inquisição, eterna gestadora de São Bartolomeu47 e de excomunhões de todos os gêneros, o Diabo é a Ciência, e seu servidor é muito evidentemente Galileu, com suas idéias subversivas de uma Terra que gira em torno do Sol que pode virar sua cabeça! Durante muito tempo, o Diabo, para o Vaticano e seu papa, por exemplo, foi o século das Luzes, a Enciclopédia de Diderot e de seus agentes, sem falar do sorriso horroroso desse velho irmão de Voltaire48 que queria "esmagar o infame", como todos sabem. Quando Jung evoca "a via em direção a Deus", "a salvação da alma", "o acordo do favor dos deuses", até ousa escrever que "as religiões são sistemas psicoterapêuticos, no sentido mais
47 Referência ao massacre da noite de São Bartolomeu ocorrido na França, em
1572, em que milhares de protestantes foram mortos (N.T.). 48 Símbolo das Luzes, seu nome permaneceu ligado ao seu combate contra "o infame", nome que dá ao fanatismo religioso (N.T.).

prova. porém. C. E a discussão estará terminada. Ele estima que ter perdido a intuição da complexidade universal é "o mal neurótico fundamental". 1963. é no sentido próprio indiscutível. se ainda houvesse necessidade. assim como com as afeições. de proporções 49 monumentais".". a noção da divindade é uma grandeza imutável com a qual é preciso contar. muito mais salvador do que a experiência religiosa. que a Psicologia não deve de forma alguma negligenciá-las. Quanto à própria noção de Deus.estrito da palavra. etc. anacrônico em relação aos modos de vida cotidiana do século XX. de natureza irracional". G. . com o conceito de mãe. que o método de pensar analogicamente desemboca em um constante questionamento do homem sobre as coisas últimas. explica o mestre de Zurique. Pode-se dizer apenas que não se fez tal experiência e o interlocutor responderá: "Lamento. Como se vê. ao contrário. ele insiste. Éditions Buchet/Clmstel. mas eu a fiz". com os instintos. "Pouco importa o que o mundo pensa da experiência religiosa. esse respeito demonstrado pelo Sagrado. essa consideração. Jung estima que as religiões são tão inerentes à alma humana. L'ame et la vie. ela responde "a uma função psicológica absolutamente necessária. em Psicologia. Em resumo. podemos dispensar um conceito de Deus. "Em Física. aquele que a fez possui 49Jung.

sob esse ponto de vista.o imenso tesouro de uma coisa. e parece fortemente imbuído dessa Philosophia perennis (Filosofia eterna) nomeada primeiramente por Leibniz. O labirinto do sentido deve ser visitado de qualquer forma. ou mesmo de idêntico. e. todas as afiliações protestantes. Jung não hesita em evocar "uma humanidade espiritualmente subalimentada". a ética que coloca o fim último do homem no . de parecer se perder. compreender. ao que nos parece. ao materialismo ou ao misticismo! Na verdade. O autor de Réponse à Job nunca deixou de explorar isso. Jung é maçom sem avental. católicas ou outras. ao ateísmo. se tornou uma fonte de vida. mas inteiramente maçom. para ele. que. essa "metafísica que reconhece uma realidade divina substancial ao mundo das coisas. sem dúvida. das vidas e dos espíritos. a Psicologia que encontra na alma algo de análogo. criticaram-no alternativamente por ceder ao gnosticismo. "o próprio Deus não pode prosperar" e o homem quer. Ele é ao mesmo tempo tolerante em relação a todas as manifestações do Sagrado em geral. no entanto. de significação e de beleza e que deu um novo esplendor ao mundo e à humanidade". à realidade divina. como ele isso observa em uma carta de 11 de junho de 1960. Para além de todas as especificações confessionais. às vezes. De fato. é por isso que.

ele abre a via real ao século XXI. Éditions Buchet/Chastel. antigo dominicano. Esquisse d'um évangile éternel. 1983. G. 1994. avança a idéia intuitiva de que o Cristianismo inteiro é originário de uma necessidade imperiosa do inconsciente coletivo e subentende uma humanidade que chegou a uma certa 50Besret. G. tanto em Aiôn quanto em Réponse à Job.conhecimento do Fundamento imanente e transcendente de tudo o que é". Jung anuncia profeticamente o retorno do religioso. C. 2003.. o porquê da existência do mal em Deus ou. ao tentar cercar. Jung. a alta e universal significação simbólica do Cristo e. 51Wehr. Por isso mesmo. De toda maneira.51 "a psicologia das profundezas está em harmonia com as idéias das místicas de todos os tempos que tomaram consciência da inadequação da fraseologia humana diante do vivido espiritual". Gerhard.50 De um certo modo. Éditions Albin Michel. Jung. de um lado. . Éditions Le Seuil. de outro lado. G. Jung.. respectivamente publicados em 1951 e 1952. ou melhor. no Ocidente como no Oriente. 1995. Réponse à Job. C. Bernard. É então que intervém o conceito de "arquétipo da imagem divina". G. Bernard Besret ao homenagear uma antologia comentada de textos místicos do Oriente e do Ocidente de Aldous Huxley. como resume maçom. Éditions Slatkine. Jung. Assim como escreve Gerhard Wehr. a despeito de Deus. Aïôn. do recalcado religioso em nosso mundo.

Jung. esotérico e individual de Schleiermacher fazia parte da atmosfera intelectual de minha família paterna. C. em 4 de maio de 1953. Eu jamais o estudei. (. tinha recebido o batismo protestante desse mesmo Schleiermacher. não vamos omiti-lo. Aliás. se evitar o erro. teólogo luterano bastante distante do pensamento cartesiano. Devemos cometer erros. mas. Devemos fazer nossa própria experiência. De certo modo..maturidade. Ele chegou a escreveu a Henry Corbin. Ele se encontra quase ao lado de Friedrich Schleiermacher (1768-1834). considerando que todo conhecimento é incessante diálogo entre o homem e o objeto e que cada consciência intuitiva do Todo é apenas uma pequena parte do Todo. filósofo da História.. Haverá erros.) O espírito vasto. pode-se mesmo dizer que cada vida . católico praticante. pregava o primado do sentimento e da intuição religiosa do Universo. que. Devemos exprimir e conduzir a termo nossa visão da vida. e reconhecia sua influência. C.. você não viverá. Ao colocar essa hipótese audaciosa. Jung confessa por ocasião de um seminário em 1937 em Nova York: "Somos filósofos no sentido antigo da palavra. G.. sabia que seu avô paterno. em seus raciocínios. No mesmo espírito. de certa forma./.. mas ele era o spiritus rector inconscientemente". gostamos da sabedoria. Jung torna-se. na aurora do século XIX. G.. e isso nos evita a companhia algumas vezes duvidosa daqueles que oferecem uma religião. "Schleiermacher é realmente um dos meus ancestrais espirituais. isto é.

de uma certa forma. no começo do século XIX. seguir Jung. o que importa! Uma coisa parece se impor: Jung explora o imenso quadro da vida religiosa e nos engaja em um essencial périplo ao centro mais íntimo do real. ele explicará. esse "Velho Sábio". da fonte mesma do conhecimento? Desse ponto de vista. pelos caminhos de travessia do poeta ou do artista desenhando sua mandala. mais tarde. . conduzirá ao enigma: "Por que existem leis em vez de não leis”? E essa interpelação não significaria. muitas vezes baseado em um pragmatismo teimoso. tanto pela montanha do místico quanto pela via do pensador. pois ninguém encontrou a verdade"! Além do mais. Hubert Reeves. uma síntese que consiga um certo equilíbrio que permita à humanidade não perder seu processo de individuação de conjunto. por e graças à Psicologia analítica! Chamariz demasiado orgulhoso ou não. na era de Peixes com a vinda de Cristo derrubando a religião romana. o astrofísico e filósofo. poderíamos dizer. o que teria acontecido. quanto pelos raciocínios epistemológicos do cientista. colocarse a célebre questão metafísica desse erudito universal que foi Gottfried Wilhelm Leibniz (16461716): "Por que existe algo em vez de nada”? Essa interrogação maior. buscar a equação de uma ordem. de uma aparente harmonia preestabelecida do Universo. na aurora da nova era de Aquário.é um mal-entendido. no fundo. e espera. segundo ele. em seu percurso de vida e perceber o conteúdo de suas reflexões ainda significa. A partir de então.

/. Jung. quanto a Jung.. E..) como monarca do reino divino dos espíritos"? Evidentemente. mas. Leibniz e os metafísicos pesquisadores da Maçonaria (como. neste século Bernard Besret) não têm em comum o mesmo tesouro de um manejo da analogia e uma mesma crença que levava Leibniz a escrever: "Deus como arquiteto da máquina do Universo e (. Jung. por medo de não ser .Jung. aos nossos olhos. suas reflexões a propósito do além e da existência após a morte. para que a realidade tenha sua parte. traduzidas em imagens e em pensamentos. flertará várias vezes com sua foice. o próprio dos questionamentos metafísicos é de não encontrar repostas que não levem a novas questões! O segredo absoluto apenas será levantado no Oriente eterno. no fundo. sem que o deseje e sem que faça algo para isso. ele não deixará. dirá o Mestre Maçom. "apenas tentativas sempre renovadas para dar uma resposta à questão das interferências entre o aquém e o além".. De fato. é necessário que eu constate que.. eram. de escrutar a morte nos olhos. por exemplo. é claro. durante sua longa vida. como ele escreve com todas as letras no começo do capítulo 11 de sua biografia coletada por Aniéla Jaffé. nesse texto em que observa: "Nem desejo nem não desejo quetenhamos uma vida após a morte e de forma alguma quero cultivar pensamentos dessa espécie. Ele não esquecerá que. não deixou de ser. as ideias desse tipo se agitam em mim". estranhamente. Cardíaco... sob um certo ponto de vista.

um Mestre Maçom escondido. Ele se livrou.considerado como um psiquiatra clínico indiscutível por seus pares. como poderia ter dito Jacques Lacan. durante uma de suas viagens). durante os últimos anos de sua vida. Ramana Maharshi. um metafísico "bloqueado". ele parece ser o mistério central. E um pouco como se. Ora. à dureza do coração. E muito mais um encorajamento a uma certa plenitude unificadora. um místico contrariado (ele até mesmo teria se proibido de encontrar um dos maiores "santos" da índia. isso não é para ele. a um sábio desligamento. um elogio à indiferença. não nos enganemos. Jung aparece como tendo atingido uma "individuação realizada". quando dita suas memórias. ou melhor. ao que parece. é comentado em uma nota. ao não amor ou à inafetividade. recusado e recusando-se a confessar ao exterior o que devia à iniciação de seus ancestrais. com efeito. No entanto. isto é. . das projeções que as relações afetivas sempre encerram. não nos esqueçamos. Portanto. um artista contido e complexado. Somente ele torna possível a verdadeira conjunctid'”. no final de sua vida. aliás. o que. o autor propõe essa afirmação. E até mesmo escreve: "O conhecimento objetivo se situa para além das complexidades afetivas. Ele parece ter se desligado dos julgamentos de valor do outro. a uma serenidade. seus sonhos e reflexões.

é sinal de uma falta.ainda que o desejo de encontrar uma substituição ao vazio seja bem evidente .ou uma incapacidade em aceitá-lo. esse buraco provocante não é. Com efeito. Esse vazio. tendo preenchido seus bons ofícios de inserção no mundo" e "tendo cumprido seu tempo". essa mutilação. graças à qual se inventa a força necessária para dirigir. para ornar. . O 4 de Jung pode ser colocado então em relação analógica com o tetragrama sagrado hebraico. evidentemente. Podemos pensar então em todas as representações do exercício da Sabedoria. prefdcio de Jean Kerbet. ou a planta do Templo maçónico que no Rito Escocês simbolizam a Sabedoria. em torno do "Quadrilongo". "implicado pelos três outros". por várias vezes em sua obra. L'enseignement de Ramana Maharshi. de que a ausência observada e observável de um quarto pilar sugere que este último existe virtualmente e que está. inclusive no ensinamento de Ramana Maharshi. Ramana. as quatro letras 52 Maharshi. e a Beleza. estivessem superados ou defasados. essa perda. 1972. estranho aos questionamentos de Jung sobre o quaternário. aliás."os laços afetivos.52 E até podemos nos deixar levar e visualizar os três pequenos pilares do Templo. ele ressalta que o 4 em questão é o número que representa a totalidade organizada e que todo simbolismo ternário surgido entre nossos contemporâneos exprime uma deficiência. E não nos esqueçamos. indica repentinamente uma recusa de completude . esse espaço sem nada. Editions Albin Michel. essa ausência. sem dúvida.

como bem explicou Elie G. a essência absoluta. o arquiteto traído e assassinado ao qual se identificam os futuros novos Mestres. Éditions Albin Michel. L'homme aux prises avec l'inconscient. Mas a Alquimia e o Hermetismo também ensinam há muito tempo: o 4 que designa os quatro elementos (Terra. É. Fogo. Jung. a "estrutura absoluta". aliás. esse nome divino que se procura e se busca durante toda a vida. explica Oswald Wirth. grau do Rito Escocês Antigo e Aceito. deveria conhecer a simbólica rosacrucianista que atravessava a Europa protestante. um Mestre Maçom. aquele do Soberano Príncipe Rosa-Cruz. Além do mais. conforme a doutrina dos Mistérios da Antiguidade. stricto sensu.. como se viu. Humbert.53 que a 53Humbert. a quintessência é realmente o "quinto princípio". essa quintessência mítica e enigmática que é representada simbolicamente pela "rosa mística" formada por cinco pétalas colocadas sobre os quatro braços da cruz. C. 1994. "segundo a qual o Myste representava o papel do deus ao qual estava consagrado". Elle G. mesmo que não ignorasse a lenda de Hiram. nem que fosse por seu conhecimento da obra de Goethe. Ar. como diria Raymond Abellio.inefáveis que indicam o nome divino. . e ele pensava. Água) não basta de forma alguma para designar a ponta mais fina que permite o estar no mundo. que constitui o aparelho simbólico do 18º. Mas Jung não era de forma alguma.. G.

historicamente. mystèria. iniciar. atraíam para as proximidades de Atenas visitantes de toda a Grécia desde a época micênica e que se pode datar do século VI a. uma vez que pareciam ser exclusivamente acessíveis às pessoas especialmente iniciadas (como sugere a etimologia grega: myein. a religião tinha. enquanto. retomado o que antes propunham.C.. a globalidade do processo). Parece que. esses "Mistérios" eram formas de culto com um caráter secreto. tradicionalmente. de uma certa maneira. entre as quais o grande Propileu ("pórtico") terminado por Marco Aurélio. sua "sala de iniciação" (telestêrion). por exemplo. na época romana. Aliás. portanto. um iniciado. tornados míticos. Eles contrastavam com a natureza em geral pública da maior parte das práticas religiosas gregas e romanas. mystès. os mistérios de Elêusis. Seja qual for o tipo de questionamento religioso de Jung. uma forma antiga da Psicoterapia. o local era constituído de várias construções. este sempre considera que todo "encontro" com Deus e com o "numinoso" em geral é da ordem do fenômeno analisável e muitas vezes equivale questionar a parte divina no homem. ele escreve: "O fato de que haja um movimento religioso do qual participaram durante séculos espíritos brilhantes basta para que se esteja tentado a conduzir seriamente esse processo para o campo da .. as cerimônias de iniciação e os grandes cultos antigos. Assim.religião é. Aos olhos de Jung.

(carta de Jung ao professor Robert C. o dono da casa faz gravar na pedra. o Cristo. isto é: "Que seja chamado ou não. O que se poderia dizer se esta é apenas a imago de Deus que sempre retorna à superfície ao lado do Simesmo como arquétipo da ordem e da totalidade humana? Que o Eu de cada um lhe é subordinado e parece envolver não somente a psique consciente. C. mas igualmente a psique inconsciente? Que. Todavia.. G. Deus é um complexo autônomo. (.. Ela não pode nem provar nem invalidar a existência de Deus.compreensão científica". isso é tudo o que a Psicologia pode estabelecer. De acordo com seu ponto de vista empírico. Smith de 29 de junho de 1960). uma imagem dinâmica. modelos e hipóteses para uma melhor compreensão dos fatos observados". no frontão de sua porta: "Vocatus atque non Vocatus Deus aderit". "no interior do âmbito da Psicologia.. de toda maneira.) Todas as minhas idéias são palavras./. Ela não pode saber mais a propósito de Deus. o Cristianismo. em Küsnacht. Como ele confessa .. mas se revelam projeções da psique objetiva. Jung insiste sobre o fato de que Deus. as imagens divinas não são apenas uma realização imaginária do desejo além do arquétipo do homem-Deus ou dos produtos apenas da subjetividade. notadamente. Deus se apresentará". mas ela mostra quanto são enganosas as imagens que se formam no espírito humano. a vida espiritual e sua deserção das Igrejas "é uma perda inquietante"? Em sua correspondência.

deforma alguma erigido como um objeto de crença. o conceito maçônico polivalente de "Grande Arquiteto do Universo". mas signo de uma dimensão que ultrapassa o homem.a uma jovem correspondente. sempre compreendo com isso a imagem que os humanos fazem d'Ele. nada como dogma redutor. quando falo de Deus. não somente em seu círculo profissional. De agora em diante. Jung é incontestavelmente uma personalidade reconhecida e influente. e. e tudo o que dizemos a esse respeito é um dizer humano e uma crença humana. em 17 de agosto de 1957: "E sempre necessário ter consciência do fato de que Deus é um mistério. e ninguém o sabe a menos que ele mesmo seja um deus. de aproximadamente 20 anos. Como Ele é outro assunto. constatamos que Jung não está distante de adotar. mas também no plano . Que de uma forma ou de outra nós participamos também da divindade. Nós nos fazemos imagens e idéias. sem revelá-lo de maneira explícita. é isso que o próprio Cristo nos faz observar quando diz: Vós sois deuses (João 10: 34)". Capítulo XIX Da sincronicidade acausal Às vésperas da Segunda Guerra Mundial. mas antes como símbolo forte do Templo. símbolo essencial dos mistérios da Maçonaria propriamente iniciática.

Carisma e Comunidade.E.Carisma e Comunidade. de Abir Taha. . por outro lado. como neutro e suíço.. por um lado. o Profeta do Nazismo. forma e constitui grupos nacionais independentes prevendo. e O Terceiro Reich . de Martin Kitchen. por isso mesmo e logicamente. e sob a pressão de seus colegas. de Jesus Hernandez. em pleno período de ascensão do Nazismo54 na Alemanha. como demonstram suas inúmeras viagens. o Profeta do Nazismo. Uma polêmica cruel fará muito estardalhaço a esse respeito. de Abir Taha.: Sugerimos a leitura de Nietzsche.: Sugerimos a leitura de Nietzsche. já evocadas. isto é. todos da Madras Editora.55 De fato. é claro). Ora. da "Sociedade Médica Geral de Psicoterapia". Breve História da Segunda Guerra Mundial.. Jung transfere sua sede para Zurique. Ainda hoje ela perdura e alguns taxam Jung de colaboração larvada com a ideologia do Terceiro Reich. a possibilidade para todo psicoterapeuta de aderir diretamente à Nova Sociedade Internacional. que traz consigo um antissemitismo marcado que não cessará de se desenvolver. ele aceita se tornar presidente.E. assim que se torna presidente titular da Allgemeine Arzliche Gesellschaft für Psychothperapie.internacional. de Martin Kitchen. isso lhe será muito reprovado a seguir. Breve História da Segunda Guerra Mundial. de Jesus Hernandez. todos da Madras Editora. 55. Ele ocupará. o cargo de alta responsabilidade de diretor editorial da publicação da dita sociedade. e. em 1933. Com essas medidas. uma proibição estatutária que explica que nenhum grupo nacional pode tomar seu controle (principalmente a equipe alemã. ele 54. e O Terceiro Reich . Como se sabe.

Jung. desde 1916.3 Pauli W. presidente do Grupo alemão. de "escudo" erguido diante dos perigos que ameaçavam os clínicos judeus de sua época.manifesta sua vontade de "contornar" habilmente as passagens demasiado arianas impostas aos clínicos alemães declaradamente "alinhados". Tais movimentos. de Pablo Jiménez Corez. estavam levando a um triunfo irresistível. aliás. as tempestades que os grandes movimentos de massa fazem pesar sobre o indivíduo como tal. G. Claro que C. de alguma forma. seu "irmão inimigo" Sigmund Freud? Seja como for.. já em 1934. e C. com efeito. faz publicar na revista dirigida por C. G. em seus textos. 2000. . 1. Madras Editora. o objeto deste presente livro não é evidentemente saber se a atitude geral de Jung antes da guerra foi a mais pertinente. a mais diplomática ou a mais corajosa. Para ser justo e não se deixar invadir pelos antagonismos partidários. entre os quais. um artigo explícito que exige com todas as letras a submissão à ideologia nazista. que 56.. Todavia. G. Jung não deixa de ressaltar. Éditions Albin Michel. familiar de Hitler56 que se consagraria à criação da Lufwaffe. Jung. é preciso se lembrar de que. o Fascismo.E.: Sugerimos a leitura de A Estratégia de Hitler . presidente do Reichtag. o próprio Hermann Göring. Ele ameaça se demitir.As Raízes Ocultas do Nacional-Socialismo. Correspondance (1932-1958). mas não se demite! Deveria fazê-lo? Ele poderia e deveria se manter em sua função para servir. Jung protesta.

Jung. De forma alguma. O filósofo alerta contra o despertar desse deus errante. De fato.) Além do mais. e.. Jung se revela no mínimo lúcido. Ele ressalta que os alemães de sua época estão "tomados... esse Wotan há muito tempo aposentado. em todo caso.acabaria arrastando atrás de si multidões fascinadas que o próprio C. então já com 69 . uma vez o inferno hitlerista esmagado na Europa e no mundo. quando Jung. pelo menos no espírito. não é nosso assunto! Seria necessário um outro livro. possuídos. nas ondas da Rádio Berlim. a emergência na Europa de "um antigo deus da tempestade e da exaltação". parece "livrar". mais uma vez. em 1936. como "hordas de partidários hipnotizados". não nazista. qualifica. ao estigmatizar um "recuo e uma regressão". ao avaliar o retorno de Wotan como sendo "um dado germânico original". Porém. em 1944. É melhor nos lembrarmos de que. sempre cuidadosamente mantida por seus adversários. afetados" por Wotan. e explica que "a coincidência do antissemitismo e do despertar de Wotan constitui uma sutileza psicológica que merece sem dúvida ser assinalada. (sic. ele hesita em comparar Wotan ao Führer Adolf Hitler.".. G. ao compará-lo a um "ciclone que destrói e varre para longe a zona calma onde reina a cultura". incontestavelmente. a publicação de seu famoso ensaio Wotan. essa polêmica. em 1933. O psiquiatra ali denuncia. um pouco profético. Jung de qualquer suspeita colaboracionista. fomentador de problemas.

talvez para a explicação global do mundo. alguns dias mais tarde. rêves et pensées.. De acordo com seus próximos. ele abre uma via de futuro. claro. nos conduz na realidade a regiões obscuras e problemáticas da experiência humana. a título provisório. menos impetuoso e mais sábio no sentido antigo do termo. quebra o perónio e é acometido. em 1951. o que nos importa muito mais aqui é sem dúvida essa teoria da sincronicidade.derrapa na neve. não . simplesmente. a respeito do I Ching. uma das chaves teóricas de seu pensamento.. Réponse à Job. Isso. Aiôn. Com efeito. Talvez pudéssemos dizer que ele atravessou o fogo. o nome de princípio de sincronicidade. em 1952. Quando ele observa. revolucionária para a sua época. no ano seguinte! No final das contas. fascinante. ele aparece então como verdadeiramente transformado. em um princípio não denominado até então" ao qual dá. mas. que C. ele deve permanecer cinco meses no hospital e dali sai um pouco "desencantado" com tudo. de uma grave embolia pulmonar. G.. princípio de relações sem causa. souvenirs. Claro. Mysterium Conjunctionis em 1956. o muito especial Ma vie. este último conceito.anos.. sem omitir. Jung estuda desde os anos 1930. felizmente. não irá impedi-lo de produzir a seguir livros de uma importância capital no conjunto de sua obra. em 1946. como Psychologie du transferi. estranha. que este se "baseia não no princípio de causalidade.

da numerologia. Em relação ao I Ching. os criadores desse jogo de adivinhação partiram da hipótese de que a unicidade do ser se exprimia ao mesmo tempo no estado psíquico e no estado físico. entre outros exemplos. mas que a tradição acredita que os trigramas foram criados pelo imperador Fu Hsi. A fim de que o processo físico tome uma forma precisa. eles inventaram uma metodologia "que obrigava" a natureza a responder por meio dos números pares e impares às questões solicitadas.: Sugerimos a leitura de Numerologia.C. Editions Albin Michel.há nada de novo sob o Sol e é necessário se lembrar de que a epopeia da sincronicidade remonta a épocas muito recuadas. E a razão pela qual o I Ching é constituído de um conjunto de 64 interpretações que permitem fazer emergir a significação das 64 combinações possíveis do Yin e do Yang. interrogar o I Ching é. Madras Editora. por volta de 3 mil anos a. . G. mas também aos dos xamãs. Synchronicité et paracelsia. "5 Um peixe de abril é uma brincadeira ou uma mentira que se faz no dia 13 de abril aos seus conhecidos ou amigos. é deixar seu papel a este último para que ele 57. C.E. Também existe o costume de publicar mentiras na imprensa escrita ou falada. principalmente aos tempos das "maneias". Para Jung. lembremo-nos de que suas origens se perdem na noite dos séculos. alguns desses números representam o Yin e os outros o Yang.! Justamente. de Anny Luz. colocar sempre em ação uma estratégia de exploração do inconsciente. 1988. tão difícil para nossos espíritos ocidentais. Carma e Transformação. portanto.57 do I Ching. Jung.

C. como em um bulevar simbólico. No fundo. deixou para . com certeza. capaz de modificar de modo essencial nossa imagem do mundo"! Que se acredite ou não nas linguagens do I Ching. para as desordens e as concepções ontológicas mais avançadas que surgem neste início de século XXI. notemos que um sábio como Paul Kammerer. para as descobertas mais recentes da Física quântica.. não é por acaso que C. principalmente. uma vez que redigiu até mesmo um diário de "coincidências" dos 25 aos 45 anos! Kammerer falava de "serialidade" repleta de sentido ou "lei das séries".. no estudo sistemático do fenômeno da sincronicidade. do que se trata? Qual é esse novo sujeito de estudo de Jung? Para onde ele nos conduz? Sem dúvida. E. G.possa nos traduzir seu saber. ao qual Arthur Koestler consagrou um livro inteiro intitulado Les racines du hasard. é até mesmo aceitar o surgimento dos aspectos eventualmente sombrios de sua personalidade. Para ele. desde 1919. em suas adivinhações. foi um dos pioneiros. diretamente. sempre tão intuitivo. Jung chega até a escrever: "O I Ching contém um germe vivo do espírito chinês. Jung. é deixar agir os versos irracionais e as funções de intuição da natureza humana. G. isso significava a repetição surpreendente no tempo de fatos idênticos e podendo se observar quando a boa e a má sorte parecem se manifestar seguindo uma frequência relativamente próxima (séries negras de acidentes de avião ou de incêndios).

nessas séries de coincidências que têm um jeito de estar desprovidas de sentido. mas como sendo igualmente "a ocorrência simultânea de dois acontecimentos ligados pelo sentido e não pela causa". (sic. com a ciência da psique em suas profundezas mais obscuras" . tentando penetrar ainda mais seus estudos e seus ensaios de síntese a fim de melhor compreender a sincronicidade como "um fenômeno que parece principalmente ligado às condições psíquicas. Ele o fez em colaboração com o prestigiado físico Wolfgang Pauli. de depender sem exceção do campo da probabilidade. G. tanto C. Jung quanto seu amigo Wolfgang Pauli buscam com tenacidade "as condições de unificação da Física mais moderna. aos processos do inconsciente".) Não hesitemos. nesses acasos demasiado acumulados para ser simples acasos. Prêmio Nobel de Física em 1946.. com o qual trocou uma extraordinária correspondência de 1932 a 1958. assim como resume Michel Cazenave em sua introdução à volumosa correspondência entre Pauli e Jung. Vamos nos deter nessa "intuição obscura. Com efeito. mas fascinante de uma ordenação acausal na sucessão dos acontecimentos". O que Jung quer dizer quando se serve de um barbarismo como "sincronístico"? De fato. na elaboração da qual ele participa. além do mais. o criador da psicologia das profundezas emprega . isto é.o final de sua vida observações quase estatísticas sobre a sincronicidade e a serialidade. e..

Assim. peixe no menu. C.. Naquela mesma manhã. G. para completar a série dos peixes como "coincidência significante". ou ainda. oferecem-lhe para admirar uma obra de bordado representando mais uma vez.. ele pôde observar. estranhos fenômenos de repetições. Ia de abril de 1949. coincidência significativa entre um acontecimento psíquico e um físico que não estão de forma alguma "causalmente ligados um ao outro". significante. Jung cita ao longo de suas pesquisas vários exemplos significantes de sincronicidade. ele previu. Aliás. idéias análogas ou idênticas que emergem simultaneamente em diferentes lugares de maneira totalmente fortuita em aparência. ele recopiou a frase latina "Est homo totus medius piseis ab imo". G. em uma sextafeira.. no dia em que colocou tudo isso por escrito.esse termo a fim de expressar uma correspondência particular. Jung se lembra também de que. . C. ao meiodia. A noite. um de seus convivas lhe relembra o costume do "peixe de abril". no entanto. e. inesperada. espetacular e. uma outra de sua antigas pacientes lhe conta um sonho no qual ela se encontra à beira de um lago em que vê um grande peixe nadando direto em sua direção e vindo acabar aos seus pés. ele se encontrava à beira de um lago. "monstros marinhos pisciformes". em sua casa.. Em 2 de abril. Naquele dia. entre sonhos. uma de suas antigas pacientes lhe mostra algumas reproduções de peixes que ela coloriu entretempo. Durante o dia. Além do mais.

célebre. um outro exemplo citado por Jung. permaneceu . adquirem corpo. G. esposam o real. um escaravelho dourado dá realmente sinal de vida e faz barulho nos vidros da janela do consultório do analista! O real vem após o imaginário e o onírico. "com cerca de 30 centímetros de comprimento". tendo sonhado que uma pessoa lhe oferecia um escaravelho dourado. Pode representar um papel fundamental.. "desbloquear" a senhora em questão que . Os "acasos acumulados" se acumulam e falam. ele explica. o que tem como efeito.principalmente.e permanecerá . C. que. Jung captura então o inseto visitante e. não se está sonhando de forma alguma. mas sem ferimento aparente"! Como diz o adágio popular "a gente pensa que está sonhando" e. o "do escaravelho de ouro". no entanto. adquirindo sentido. fez alguns passos em direção a um muro limítrofe às margens e ali encontrou um peixe morto. as observações que provam a sincronicidade são enormes. ou. depois de sua última frase terminada. Essa permanência do peixe não é de forma alguma um peixe de abril fácil! Ela reveste naturalmente uma significação. conta-lhe o sonho durante uma sessão. Todos podemos notá-lo no dia a dia. cinco minutos depois da confissão. Refere-se a um processo. o imaginário e o simbólico se encarnam. talvez. o dá à sua paciente.. Ora. ao que parece. Trata-se de uma das pacientes do mestre que. Assim. "morto.

ela se assustou. tinha visto. Wilhelm.. adotou um comportamento ocidental (no Ocidente. André Breton em primeiro lugar. desconcertada. por duas vezes. Logo. ele conhecia muito bem o pensamento do Tao. Além do mais. considera-se habitualmente os fenômenos sincrônicos como efeito do puro e mero acaso!). o Tao se apoia. para de certa forma adotar uma mentalidade oriental. sob a influência do sinólogo R. Jung. ao tentar defini-la da melhor maneira possível. evocaram o "acaso objetivo". pode-se dizer. mas antes deu as costas a esse tipo de atitude que ele próprio qualificou de "atitude mental de ocidentais racionalistas". Os poetas surrealistas.fixava em demasia sua introspecção em dados unicamente racionais. que foi até sua casa por sugestão do analista. Jung também cita outras histórias significativas desse tipo. desde 1923. uma vez que seu esposo acabara de ser naquele momento vítima de um ataque cardíaco fatal. Como a história dessa mulher que. uma certeza se impõe: ao estudar a sincronicidade. Sendo assim. a pessoa em questão viu novamente um grupo de pássaros descer em seu jardim. pelo Le mystère de la fleur d'or.. Aliás. na unicidade da consciência do presente com o . Enquanto este último estava em consulta com o cardiologista. não podemos nos esquecer de que Jung apaixonouse. no caso. Ora. infelizmente com razão. um monte de pássaros cair em seu jardim no momento da morte de duas pessoas próximas e cujo marido estava em tratamento com Jung. de forma alguma.

com toda razão.passado imemorial da vida.e isso é fundamental . é incontestável que. definitivamente. o que subentende . a realidade é percebida como UMA. Assim. pela lógica analógica. G. tentativa de tornar conscientes os opostos. é verdade. evoca então à nossa boa lembrança a visão alquímica do mundo que sempre se baseia na teoria das . que é a via consciente para a união do que está separado. ela se torna inevitável". sobre esse "Todo é Um". Jung. quando Jung nomeia o "Unus Mundus" dos pesquisadores alquimistas e do teólogo Scot Erigène ("o mundo unitário no qual matéria e psique ainda não são diferenciadas"). esse próprio conceito vai ao encontro do Tao. principalmente em Synchronicité et Paracelsica. Eis talvez a razão pela qual C. Jung anota com exaltação a máxima que lê em um templo indiano: "caso se volte à origem da coincidência. e Jung jamais dissimulou um parentesco reconhecível entre os resultados de suas próprias explorações do inconsciente e a filosofia chinesa. quando se debruça sobre o personagem mítico de Paracelso. e o Tao defende de toda maneira um saber holístico que vincula.que o espírito não está deforma alguma separado da matéria. regeria macrocosmo e microcosmo. certo. Sem exagerar qualquer comparação entre Tao e individuação. No pensamento chinês. É também a hipótese de uma sincronicidade que. o Universo exterior ao homem. Toda a filosofia chinesa insiste.

. o grande filósofo tentou ilustrar essa simultaneidade por meio de círculos paralelos que estabelecem um elo transversal entre os meridianos que deveriam representar as cadeias causais. tão subjetiva quanto seus próprios sonhos. quando busca a chave enigmática dos fenômenos de sincronicidade. analisou a questão da "simultaneidade SEM elo causal.correspondências. essas duas espécies de conexões citadas anteriormente "existem simultaneamente". a triangulação é significante.. Jung. e aparentemente para Jung. quando interroga a ideia mesma de uma significação do acaso.. Evidentemente. Schopenhauer." Melhor. A . 1988). Manifestamente..". que se nomeia acaso. causal do curso natural das coisas. a conexão objetiva. Jung não esconde a influência preponderante de Schopenhauer sobre seu pensamento. Pauli. E o professor Pauli também sabe que Schopenhauer pensa "que existiriam entre todos os acontecimentos da vida de um ser humano duas espécies de relações. com efeito. e principalmente em seu ensaio Speculation transcendante sur l'intentionnalité apparente dans le destin de l'individu. publicado em língua francesa com um outro texto sob o título Le sens du destin (Vrin. Jung. Schopenhauer. aliás. Para Schopenhauer. radicalmente diferentes: primeiro. relembra-nos. tudo está estreitamente ligado. a seguir uma conexão subjetiva que apenas existe em relação ao indivíduo que vive seus acontecimentos.

de um ponto de vista energético e. Nenhum pesquisador científico sério pretenderá que a natureza profunda daquilo cuja existência nos é revelada pela observação. "a sincronicidade é a consequência lógica do conceito de relatividade do tempo: o conceito moderno de 'complementaridade da energia e do tempo' traduz um condicionamento recíproco. Fatum e providência podem ser então concebíveis se isso não for concebido. por outro lado.partir de então Schopenhauer apela para a harmonia praestabilita. mas um conceito empírico que postula um princípio necessário ao conhecimento. Se as últimas conclusões às quais chegou a ciência . E depois. adverte Jung. "não é uma visão filosófica. não rejeita a priori e por essa mesma razão o pressuposto transcendental. e ainda que C. ele. como escreve Jung em uma nota manuscrita não publicada. Em outros termos. de maneira análoga à 'complementaridade entre o inconsciente e a consciência': isso significa de maneira geral que um coloca (ou substitui) o outro. nos seria conhecida. A sincronicidade. Isso não é nem materialismo nem metafísica. ele ainda ressalta: "Todo acontecimento físico pode ser encarado. ou aquela da instância observante . por um lado. G. como se adivinha. ou que a teríamos descoberto.a psique -. Jung observe que os exemplos citados por este último "não são nem mais nem menos convincentes do que todos os outros". o que implica que um e outro têm uma existência transcendental". de um ponto de vista temporal".

Eis realmente uma intuição de uma extrema sutileza que pode evocar as reflexões repetitivas. G. aqueles de causalidade e de sincronicidade. o psiquiatra de Küsnacht agradece seu prestigioso correspondente de lhe ter comunicado um artigo mostrando "como a Física é levada a mudar brutalmente de perspectiva para entrar no campo da Psicologia". G. os aspectos de espaço e de tempo e. para C. de outro lado. de um lado. durante suas conversas públicas. Ocorre que. por meio da deformação causada pela observação. em uma missiva de 29 de outubro de 1934 de C. Jung. e isso conduz à ideia de que. E ressalta nessa ocasião: "O estudo sistemático das estruturas desconhecidas situadas no interior do átomo chegou à conclusão que o que é observado é igualmente uma deformação causada pelo próprio fato da observação. Jung a Wolfgang Pauli. quando confrontam seus dois pontos . toda sincronicidade não é mais enigmática ou mais surpreendente do que as descontinuidades da Física quântica! De todo modo. por mais que tenhamos dela verdadeiramente consciência! Alias.caminham no sentido de uma concepção unitária do ser incluindo. do grande sábio Krishnamurti a respeito do papel do observador e do observado que cada um de nós representa simultaneamente. Parece muito mais que se descobre aqui a possibilidade de eliminar a heterogeneidade radical do observador e da coisa observada". a essência do processo de observação torna-se perceptível". isso não tem nada a ver com o materialismo.

Mas. tantas vezes observáveis em seus pacientes. Jung em uma carta de 14 de outubro de 1935 chega mesmo a escrever a Pauli que o núcleo radioativo é um perfeito símbolo da fonte de energia contida no inconsciente coletivo e que este último "utiliza esse símbolo para se representar a fim de mostrar que a consciência não nasce de uma atividade que lhe é própria. no sentido de uma creatio continua". mas é produzida pela energia que vem do fundo do inconsciente (representada por essa razão há muito tempo porraios). Isso explica que o centro seja chamado pelos gnósticos gregos spinthêr (a centelha de luz) ou ainda Phôs archetypon (a luz arquetipal)". ao "auscultar" os fenômenos de sincronicidade. Seja como for. tanto Orígenes quanto Santo Agostinho não defendiam uma tal idéia de "criação contínua" assim como uma perpétua "atualidade eterna do ato de criação"? Podemos conceber perfeitamente o próprio fato de que Jung. o que provoca dificuldades de compreensão e faz parecer impensável que se possam produzir acontecimentos sem causa é somente a crença inveterada na todo-poderosa causalidade. prossegue Jung.de vista de físico e de psicólogo. possa sugerir que o fator . Assim. Pauli e Jung não deixam de buscar a definição de novos parâmetros de explicação da natureza distanciando-se do princípio de causalidade. é nos necessário considerá-los como atos de criação. Efetivamente. "se tais acontecimentos existem.

diante dos desafios e das persistentes desordens do mundo contemporâneo. No espírito maçónico também.emocional representa um papel capital."58 antigo Grão-Mestre da Grande Loja da França. é necessário considerar as manifestações de uma ordem. e essas "manifestações de uma ordem" provavelmente superior que Jung quer reconhecer quando abandona a habitual explicação causal dos fatos. caso se acredite. entram em ressonância com o universo e a filosofia maçónica em geral. Mais uma vez isso nos aproxima da Ordem maçônica que os membros "de avental" da família Jung reivindicavam. dos princípios e dos valores da Maçonaria simbólica. Ele pode concluir então "que. . por exemplo. na ausência de toda possibilidade de explicação causal". com insistência. L'ordre maçonnique. Mais uma vez. Capítulo XX 58Tort-Nouguès. esse sentido unitário e pleno que. artesã do Cosmos. é expresso pelas coincidências mais imediatamente surpreendentes. que estes sejam deístas ou não. "a sabedoria é concebida como arquiteta. em Henri Tort-Nouguès. Jung aparece aqui bem próximo das reflexões. Henri. Éditions Guy Trédaniel. por exemplo. foi ela quem concebeu e organizou o mundo à maneira de um demiurgo". 1993. muitas vezes. essa direção (talvez sincera?). sempre absorvida por uma interrogação sobre o conceito de Arquiteto do Universo. Essa ordem.

Freud e Jung. ela decuplica nossas forças no trabalho comum. as lutas.. parece oportuno estabelecer um balanço sobre as correntes de pensamento que adquiriram força desde a morte do criador da psicologia das profundezas. A cabalista. a compósita é o entusiasmo coletivo. sob três vocábulos cuidadosamente por ele imaginados: a compósita. Pode-se avançar que existem assim três maneiras de reler e de amar Jung. "engendra as rivalidades.. rege a alma das multidões. com a idade canônica de 86 anos. a herança plural. a papillonne. explica um comentarista inspirado como Rémy de Gourmont. com efeito. . por seu lado. espontânea. cabalista. Várias abordagens a fim de discernir seus frutos. uma terceira papillonne! Fourier o expressa bem. é um efeito da compósita". Fourier. longe de bani-la. Boaz e Jaquim? Antes de tentar se projetar no futuro. Na realidade. existem muitas maneiras de ler e de reler o trabalho de Jung. isto é: as heranças. em sua casa de Küsnacht. ou melhor. em sua imensidão desconhecida. uma maneira compósita. tira proveito. em 6 de junho de 1961. a cabalista. uma segunda. toda reunião livre. ainda hoje. Lembremo-nos do que já dizia o sociólogo e filantropo Charles Fourier (1772-1837) sobre o exame das paixões humanas que ele colocava. e pressentir aquilo que a obra de Jung trará ao nosso século XXI ainda na infância. as intrigas.

que não se vincula definitivamente a nenhum grupo. de todos esses movimentos de uma "Nova Era" já passavelmente fora de moda desde o início do século XXI. a obra de transdisciplinaridades de Jung.". Jung realmente se tornou o pai ou o avô simbólico. Enfim.Ele a utiliza como o princípio mesmo da concorrência.. Pode-se apenas ficar entusiasmado. ou quase. uma oposição ativa e inteligente. Gosta-se de imaginá-lo então como um "velho sábio". em um estado real. somos forçados a reconhecer que o Transpessoal (que mais ou menos foi reivindicado por . visão global ilustrada pelos conceitos que acrescentam energia à atividade humana em todas as direções do saber.. com o nome de Filemon ou não. Os fatos falam com eloquência. ela representa em seu estado ideal o papel que pode representar. Sem ceder à sedução fácil da maneira papillonne de considerar uma herança. ao recapitular os diferentes ângulos de sua visão do mundo. e compartilhar com outro essa admiração. "quer experimentar tudo. mas também real. desfrutar tudo. a partir dos três critérios diferentes. com esse olhar "pós-moderno" e "pós-sessenta e oito" de uma "contracultura" que justamente reivindica a globalidade de uma certa observação panorâmica que coloca em ação intuição e desejo de interioridade. como um guru ou um velho alquimista esclarecido. com efeito. ela é ao mesmo tempo irônica e conciliadora". todas as idéias e prazeres. Nos últimos 30 anos do século XX. a papillonne. Assim pode-se revisitar.

explora-se logicamente a Bíblia sem se exasperar com as rigidezes teológicas.personalidades excepcionais como Michel Random. de maneira declarada ou dissimulada. Stéphane Lupasco. budistas. a antiga sabedoria do Tibete com as preocupações contemporâneas sobre a morte. Arnaud Desjardins. ingênuo. o acompanhamento . Seguindo o exemplo de Jung. Pode-se mesmo dizer que é sob a influência direta ou indireta do pensamento junguiano que nos comunicamos (a partir dos anos de 1970) com todas essas correntes de pensamento. que reivindicam a busca da totalidade. sufis ou outras). sem ignorar a filosofia vedantina e a "não dualidade". sob a luz de C. Analisam-se também os Upanishad. Marie-Madeleine Davy. Procura-se conciliar. Jacqueline Kelen. Basarab Nicolescu. sempre se colocando. refere-se muitas vezes a ele. orientais. ou reconciliar. das grandes místicas do passado (que sejam cristãs. e não esquece do retorno salvador de uma nova tomada de consciência em escala planetária. muitas vezes. entusiasmado. protestantes ou não. Jung! Da mesma maneira. Rele-se o Bardo Thodo! (Livro tibetano dos mortos). Ele defende uma holística ampla e conquistadora. ou ainda os poetas Roberto Juarroz e Michel Carnus) busca a reconciliação dos dois contrários aparentes que são Ciência e Consciência. essa moda de fim de século que impulsiona o Ocidente a reencontrar as sabedorias e o conhecimento do Oriente por meio do estudo. muitas vezes. às vezes. G.

na esperança louca de impedir que suas próprias células se destruam (!). a "Mãe divina" de Rama Krishna. Decreta-se crucial a passagem da era de Peixes à era de Aquário. evocando-se. reedita-se 59 Fulcanelli à sombra do mistério das catedrais esperando compreender a interpretação esotérica dos símbolos herméticos da Grande Obra. como faz Jung em várias ocasiões. E então. quando se deseja encarnar uma corrente 59"s Fulcanelli. Vai-se às vezes a Auroville. Liga-se o infinitamente pequeno e o infinitamente grande ao ponto ômega de Teilhard de Chardin. sem dúvida. G. Encontram-se os ensinamentos do Tao e mesmo as adivinhações do I Ching. Pelo contrário. Jung lia o autor de La messe sur le monde algumas horas antes de falecer. esses estados de consciência após o último suspiro que fascinamartistas. justamente.dos moribundos. Le mystère des cathédrales. a natureza do espírito e do Universo. Não mais se desdenham a Alquimia e seus símbolos significantes. inclusive na Europa. . Mãe e Satprem. Éditions Pauvert. na casa de Sri Aurobindo. Fala-se apenas de experiências da proximidade da morte (NDE .Near Death Expérience). 1964. psicólogos e cientistas. que C. O Ocidente se inclina sobre os "bardos". Pratica-se Yoga e Zen. Recordam-se do famoso "sentimento oceânico" de Romain Rolland que vai ao encontro da presença de Kali. e ninguém se esquece de que o próprio Jung descreve tal aventura nos confins do inacessível em sua biografia.

caso se "borboleteie" acima do atanor imprevisto formado pela obra de Jung. provém de improviso. 1999.61 uma "mística selvagem".espiritual sem guru nem Catecismo para seguir. G. Nouvelles spiritualités et nouvelles sagesses. Éditions PUF. explora-se mais do que nunca os grandes mitos e os símbolos da humanidade em advir. Assim. por exemplo. de paradigmas inéditos. que é incessantemente republicado. Nesse espírito.9 Vernette. suas correspondências. sem Deus vivo para venerar. tornam-se sucessos de livraria à maneira do complexo Réponse à job. e. sem falar daquela de sua "prosseguidora". evoca. 61 Hulin. La mystique sauvage. . Tornam-se de boa vontade adeptos do "deixa para lá" em busca de convergências invisíveis. Quer se escutar o dito silêncio.60 sobre a busca das futuras religiões e espiritualidades mundiais. como Michel Hulin. a minuciosa Marie-Louise von Franz. Éditions Bayard. Michel. a natureza. deixar para trás de si o medo para emergir o amor. Jung quanto René Guénon. Jean. e das patologias mentais criadoras de seitas duvidosas. de Edgar Morin. de alguma forma. de Jung. caso se vire e se revire em torno desse estranho reservatório de 601. 1993. De fato. além do êxtase religioso. algumas obras cultas de Mircea Eliade. Ele ressalta os papéis representados por Thomas Merton e pelo DalaiLama. homenageia tanto C. o teólogo católico Jean Vernette. Enfim. de Gilbert Durand. selvagem porque o "numinoso" de Jung. segue-se a revolução do silêncio de Krishnamurti.

mas também em campos mais específicos e. da Filosofia. da criação em geral. Uma coisa é inegável. da adivinhação. pode-se acreditar que ali se encontra tudo e seu contrário! Mas cuidado com as decepções: isso significa com demasiada frequência. muitas vezes. 1996.verdadeiramente abandonar. que enfrenta com suas asas maravilhosas o vento de interrogação sem fim. o que parece responder às nossas inspirações pessoais.: Compósita . Random. ele é muito mais o lugar possível ("psicofísica" talvez? ou "simbólicoreal"?) da compósita 62 que regerá no futuro. "a alma das multidões". do estar no mundo confrontado aos outros. .. La pensée transdisciplinaire et le réel. mas também da psique. para retornar ao universo poético de Charles Fourier.coluna composta que funde numa só as características Jônica e Coríntia no seu capitel. Éditions Dervy.E. Mas não nos enganemos: Jung não é um moinho com ares de albergue e de Dom Quixote.arquétipos originários do inconsciente coletivo colhendo ali ao acaso. sem rigor nem método. nem tudo compreender (com ou sem maiúscula).ou soube . atingidos por anátemas. no que diz respeito à história comparativa das religiões. 62N.. Jung abriu várias trilhas de pesquisa nas fontes não apenas da psique e da identidade (com seu conceito de Si-mesmo). até mesmo dessa parapsicologia que ele jamais desejou . Não apenas ele foi o batedor. Michel. da astrologia.

ele nos traz de repente ao espírito uma imagem absolutamente maçónica. para empregar um símbolo iniciático. traduzível em "ele estabelecerá"? Uma observação permanece evidente e depende da constatação pragmática: de 1961 até hoje. e não exclusivamente apenas no campo psíquico. curiosamente. quanto a Jung. C. Por quê? Talvez porque o país de Lacan seja também o de Descartes e toda a obra de Jung constitua . para não dizer um desconhecido ou uma má companhia. Jung é um gênio da mesma forma que Sigmund Freud. ele seria simbolicamente a coluna Jaquim. designará a energia instintiva em seu conjunto. se é verdade que se reconhece a riqueza de uma árvore pelos seus frutos. E. G. para as Universidades. para ele. na França. isso parece surpreendente. Jung não deixou de estender sua influência ao mundo todo. quando Charles Baudouin sugere em essência que Jung foi conduzido "a ampliar o conceito de libido que. designa a energia específica do instinto sexual e que. Claro..Em suma.. que Jung assemelha-se um pouco a uma das duas colunas situadas na porta do Templo da Psicanálise e que a sustenta? Freud seria então metaforicamente a coluna Boaz. quando ele aproxima esse conceito de élan vital de Bérgson. que se pode traduzir em língua maçônica por "nele a força"? E. em cada caso". Ousaríamos então dizer. No país de Lacan. quase um extravagante. Jung ainda permanece. sem conjeturar sobre o instinto ou os instintos que estão em causa. em Freud. por exemplo.

um formidável racional? hino a uma superação do .

E então não é necessário ser um autêntico ecologista para aprovar essa visão dos grandes perigos de nossas civilizações frágeis e ávidas de lucro e de ter. a vida espiritual". que acrescenta "vivemos uma verdadeira degradação da interioridade e do que se pode chamar a vida psíquica. jamais verdadeiramente reunir. mas igualmente em todos os lugares do mundo. versão moderna do "Morre e torna-te". se faz sentir uma imperiosa necessidade de mudança. a união da separação e da não separação" e que deplora em todos os lugares essa nefasta tendência em separar. para além mesmo do que pode comportar esse adjetivo já demasiado utilizado. Quando um sociólogo como Edgar Morin afirma que "os progressos só poderão acontecer no sentido complexo de uma epistemologia que opera a união da ordem e da desordem. de alguma forma lógica. de . mais do que de fraternidade e de ser. de ser transdisciplinar. O sábio de Küsnacht não oferece evidentemente todas as respostas a esse tipo de angústia coletiva. caracterizada pela obrigação. ele vai diretamente ao encontro das perspectivas de Jung e daqueles que se inspiram nele sobre nossa sociedade e seu futuro. na aurora de um novo século. e não somente na França ou na Europa. mas privilegia o "torna-te aquilo que tu és".Capítulo XXI Tornar-se para ser Insistentemente.

essas forças eram chamadas mana. como que desviado de seu Centro. porta aberta ao poder dominante dos tecnocratas endinheirados e limitados. em nosso Ocidente racionalista. ou que algumas pessoas nos são hostis. Tudo o que precede o prova. Definitivamente. e a honra de tê-lo escrito pertence a Jung. que foi dramaticamente substituído. Ora. Se essas forças nos são desfavoráveis. Se elas são conformes os nossos desejos. A única coisa que não poderíamos admitir é que dependemos de potências que escapam à nossa vontade". demônios ou deuses. o homem contemporâneo não vê que. declaramos que é uma falta de sorte. o processo de individuação). a Grande Ilusão. espíritos. Elas ainda hoje continuam ativas. Jung nos previne contra as armadilhas mortais de Maya. durante a última fase de sua vida. acrescenta Jung. nos Essai d'exploration de l'inconscient. por um "torna-te aquilo que tu sabes e possui". apesar de seu raciocínio e de sua . em relação às "forças interiores". ou que a causa de nossas infelicidades deve ser patológica. encontra-se perdido nas multidões. distanciando-se de qualquer trilha de introspecção que o reconduza ao essencial de si-mesmo. falamos de inspiração ou de impulsão felizes e nos felicitamos de ser 'caras inteligentes'. o primeiro capítulo da obra coletiva L'homme et ses symboles? "Na mitologia antiga. que traduz em painéis publicitários o brilho e prega a superficialidade das aparências imediatas de forma que o indivíduo.Goethe (isto é.

. (um ou múltiplo) e de um além desse mundo" e: "É apenas hoje que eles acreditam poder se passar dessas ideias". pelas apreensões vagas. Todavia.. de uma forma ou de outra: "Desde os tempos imemoriais. Jung abre as estradas para uma certa libertação de nossa psique futura. "Nosso mundo está. Ele deplora que a espécie humana "se satisfaça em trancar alguns de seus problemas em gavetas separadas" (o itálico é nosso). de alimento e principalmente por um desenvolvimento de neuroses". pelas complicações psicológicas. ele continua com uma lucidez a longo prazo: "O homem tem uma necessidade real de ideias gerais e de convicções que dão um sentido à sua vida e lhe permitem encontrar um lugar no Universo. C. por assim dizer. Aos seus olhos. (sic).preocupação de eficiência e de rentabilidade. Ele pode suportar asprovas apenas críveis caso pense que elas têm um sentido". ele ainda permanece possuído por essas "potências".. os homens especularam a respeito de um Ser Supremo. de tabaco. Eles prendem sua atenção pela inquietação. dissociado à maneira dos neuróticos". Eles simplesmente mudaram de nome. antes de concluir em um tom quase profético: "Seus deuses e seus demônios não desapareceram absolutamente. G. Ele não deixa de repetir. É preciso se deleitar. e não ignora que "o papel dos símbolos religiosos é dar um sentido à vida do homem". por uma necessidade insaciável de pílulas. Ele sabe precisamente que o conflito maior permanece "no interior do homem". de álcool.

a partir de agora. O rio não abriga mais espíritos. as plantas. Com efeito. cuja vida não tem sentido espiritual". Jung? O que ele parece.. O trovão não é mais a voz irritada de um deus. sem esgotar a significação profunda de seus próprios textos. ele nos relembra logo a seguir: "É esse sentimento de que a vida tem um sentido mais vasto do que a simples existência individual que permite ao homem se elevar acima do mecanismo que o reduz a ganhar e a gastar"! Em suma.". pois não está mais engajado na natureza e perdeu sua participação afetiva inconsciente com esses fenômenos. nem o raio seu projétil vingador. um dos fundadores da ecologia moderna. Ele se faz o apólogo designado da intervenção do inconsciente para chegar a uma certa harmonia interior. As pedras. quando o autor de Aspects du drame contemporain declara prontamente que o homem de nossa própria civilização "sabe que é (e permanecerá) menos do que nada. e as cavernas não são mais habitadas por demônios. à crítica amarga de nossas sociedades obcecadas pelo Bezerro de ouro e àquela da "desespiritualização" do ser humano. Enfim. os animais não falam mais ao homem e o . nada menos. Ele não escreve: "O homem se sente isolado no Cosmos. Jung abre a via. esperar? O amadurecimento dos séculos a florescer. G. ele é realmente. Ele não deixa de gritar ao ouvido de nossa alma: "Os mitos remontam ao narrador primitivo.. no sentido amplo e nobre do termo. a árvore não é mais o princípio de vida de um homem. custe o que custar. in praxis.O que é apreendido aqui por C.

Essa relação entre psique e matéria (e vice-versa) é. "não sabemos o que é a matéria nem o espírito. e. tudo o que ela traz em dons e em benefícios ao homem. fundada e definida por Jung. Não resta qualquer dúvida. Éditions Albin Michel. desapareceu a energia afetiva profunda que engendraria suas relações simbólicas". com ele. espírito e matéria. evidentemente. às vezes. muito provavelmente. Esta engloba. Jung para o futuro. De acordo com Jung. nem a psique como tal. o objeto de uma obra de Marie-Louise von Franz de primeira importância. a ser encontrada em sua plenitude. . Além desse pedido urgente para retornar a uma ética (uma ecologia?) em relação à natureza a ser respeitada e não espoliada. propõe ao nosso jovem século um começo de contribuição que diz respeito a uma abordagem inovadora e universal do real. são apenas as duas facetas desse mesmo mistério vivo que ele chamava o unus 63Franz. em agradecer. Matière et Psyché. 2002. o psiquismo e seu vínculo com a matéria. o "eu" e sua relação com o mundo. G.homem. diz ela. a psicologia das profundezas (ou analítica). em ouvir. aliás. em honrar como os antigos festejavam os deuses que ela abriga. Marie-Louise von. Seu contato com a natureza foi rompido.63 Ela nos faz realmente compreender que a alavanca de reflexão que nos permiteultrapassar a percepção consciente de que existe uma certa dicotomia entre o espírito e a matéria é uma das ferramentas cruciais de C. não se dirige mais a eles acreditando que possam ouvi-lo.

para retomar os termos de MarieLouise von Franz. Esta última. com efeito. eles se lembrarão de que a "Grande Obra" foi a busca do Si-mesmo e que "o tempo que aparece como uma imagem de Deus ou do Simesmo parece ser apenas uma coincidentia oppositurum".e o sentido . Certamente. todas as buscas do criador da Psicologia analítica caminham no mesmo sentido. o sábio de Küsnacht. Figures mythiques et visages de l'oeuvre. A síntese é clara. como justamente observa o antropólogo Gilbert Durand. Isso não significa que "o Si-mesmo seja a totalização. No ponto de partida. Mas o que dirão os cientistas e os eruditos do século XXI sobre essa hipótese? De todo modo. o oco". é lógico que essa esperança junguiana de um aspecto unitário 64 Durand. Gilbert. por meio da espiral de individuação que conduz o perseguidor de Absoluto de acordos sincrónicos em tensões dialéticas até a individuação realizada. o mundo uno. aquele de uma perigosa abordagem do Si-mesmo. ele não é Deus. a harmonia suprema . . Éditions Berg International. a nomeia justamente o "Si-mesmo" (Atman).64 A partir de então. A hipótese segundo a qual a psique e a matéria são apenas duas formas de uma mesma manifestação de energia (uma nas frequências baixas e que possui uma extensão no tempo e no espaço. outra que é uma pura intensidade) tende a demonstrar a unidade do mundo da psique e da matéria".dos contrários percorridos ao longo do processo psíquico. mas é sua 'sombra'. 1979. ao se lembrar da terminologia sagrada da índia.mundus. como se sabe.

Nesse sentido.. Jung traz assim à Metafísica e à Física mais do que um promissor contrato de casamento. . mas um vasto campo de pesquisas não caminhado.65 "chega à conclusão que o universo explorado pela psique não é o Todo. Jung reconhece um debate entre as potências da terra e aquelas do céu e do espírito. Olivier Costa. G. Então. O que quer que seja do Si-mesmo. nos ensina também a obra de C. Jung para amanhã. "se tu queres te tornar o que tu deves ser. é preciso deixar de ser o que tu és". virgem.. mas que deixa pressentir um universo psíquico muito mais original cujo universo material representa somente um duplo de natureza passiva". 1981. resume Marie-Louise von Franz.do ser termine na perspectiva de um saber absoluto que vai ao encontro da ideia de um erudito epistemológico como Olivier Costa Beauregard. para além de sua contribuição capital ao plano de uma dimensão de "reespiritualização" do mundo. La psychique moderne et les pouvoirs de l'esprit. G. claro que. ao estudar a entropia. diálogo essencial evocado pelo 65 Beauregard. um pouco como Mestre Eckhart preconizava em um de seus Sermões. Este. Éditions Le Hameau. que outros serão forçados a abrir e a explorar. ele influencia nossas civilizações (Gilbert Durand fala até mesmo de uma "sociologia das profundezas" que também lhe sugere o fundador da psicologia das profundezas) para que se engajem incessantemente em um processo de individuação gradual e jamais excluído. Como se pressente aqui sem muita dificuldade: C.

intitulado Carl Gustav Jung prophète du "Nouvel âge"? Illusion ou émergence d'une nouvelle conscience?".romancista Hermann Hesse em Narcisse et Golmund. claro. não pode ficar sem a outra para sustentar o edifício. ouçam. eu fazia alusão à Freud. no início. livro citado a esse respeito por Michel Cazenave durante uma contribuição em um colóquio em 1992 na Sorbonne. bem. evoca nessa ocasião que a frase realmente pronunciada por André Malraux a respeito do século XXI não foi: "O século XXI será religioso ou não será". Michel Cazenave. eu não duvido. Vamos insistir nós também. (o itálico é nosso).. vocês o conhecem. como filósofo. podemos ousar escrever: o século XXI será o século da plena compreensão da obra de Jung na diversidade de suas riquezas como complementaridade não partidária com aquela de Freud. É preciso aceitar "a dinâmica no trabalho interior que se deve fazer sobre si para pressagiar justamente esse novo nascimento de si-mesmo. vocês só precisam ler Jung". . este último comentou sua frase exata dizendo: "Eh. Uma das duas colunas do Templo psicanalítico. mas "O que realmente a Psicanálise no século XX nos trouxe foi nos fazer redescobrir que o Diabo existia. Desde então.. vocês compreenderam que. evidentemente. o que nos resta a descobrir para o próximo século é que os deuses também existem". Na segunda parte. E o conferencista evoca que em um de seus encontros com o autor de A condição humana.

por meio do "Mestre" de Zurique e graças a ele. o Templo no primeiro plano de nossas reflexões e imaginário. Eis novamente. dandolhe uma certa inspiração analítica e quebrando . talvez. Saldemos o retorno do recalque familiar de C. G. de uma vez por todas. Não se trata então de "vulgarizar" a postura das crianças da viúva. nos diz tão poeticamente Michel Cazenave. mas. toda uma proposição de propedêutica. O psiquiatra não precisa de avental ornado para nos levar a um caminho de individuação. eis. a chave oculta e depois reencontrada desta presente obra. que recoloca no primeiro plano a função religiosa. não sejamos sectários. misteriosamente retornado. radiante. e eu diria no mais íntimo de nós mesmos". este ou aquele dogma. se resguarda de nos converter a uma religião bem definida. Jung. Não se trata de forma alguma.essa maneira que se tem de se reprocriar no interior. ao contrário. de Psychologie et religion. de nos conduzir em um trabalho introspectivo em continuum. Mas a proposta é de transformar a Maçonaria universal "pela parte de cima". de nos ensinar este ou aquele Catecismo. É bom repetir que a visão de mundo de Jung (Weltanschauung). Vulgarizá-la seria desnaturá-la até a morte. a fim de oferecer. Ele nos oferece períodos de iniciação que devem ser passados "para chegar a se encontrar em sua verdadeira dimensão e na verdadeira cor de sua alma". Mas cuidado. Assim. para o autor. a todos e para todos. Ousemos recolocá-lo à luz do Sol para melhor quebrar seu segredo.

para não dizer desprezivelmente homeostáticas. e de uma vez por todas. sem o intermédio de uma religião bem definida. em seus graus e qualidades. e pregando de repente uma via "direta". ensinar Jung fora do Templo? Um pouco à maneira do jovem Krishnamurti que se recusa a se tornar um "deus vivo" designado.dessa forma. explicitar. Mas como agir e reformar de forma justa e de acordo com a equidade? Como privilegiar a philosophia perennis sem cair em um arcaísmo limitado? Como praticar uma abertura para o futuro que não seja de forma alguma uma ferida. propomos à Maçonaria atual. suas pretensões elitistas. e até mesmo de intensificar essa . o estudo da ciência psicanalítica e de suas concepções do Cosmos? Seria necessário audaciosamente mostrar. Pedimos aos responsáveis pelas obediências. Recomendamos uma espécie de ecumenismo maçônico a ser forjado no novo século. muito doente. Trata-se de manter intacta. sem guru nem clérigo. mas uma janela? Não nos arriscaríamos destruir do interior a Maçonaria tradicional de maneira radical ao querer completar o que lhe resta de ritos iniciáticos "a descoberto" por um "ensino" "a descoberto" das concepções maiores do método analítico? Seria oportuno acrescentar às ferramentas de base da simbólica maçônica e à análise sistemática de suas significações diversas. que se reúnam e se juntem ao ensino da psicologia das profundezas. que se livre dos pesos que ainda freiam seu desenvolvimento e intensificam sua dispersão.

.potência de transformação tanto individual quanto coletiva que nos faz acreditar que toda luz ainda pode ser salva.

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