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QUEBRANTADO

CORAÇÃO

SABRINA LUCAS

1ª Edição - 2016
Copyright © 2015 Sabrina Lucas
Todos os direitos reservados.
Criado no Brasil.

Esta é uma obra de ficção. Seu intuito é entreter as pessoas. Nomes, personagens, lugares e
acontecimentos descritos são produtos da imaginação da autora. Qualquer semelhança com nomes,
datas e acontecimentos reais é mera coincidência.

Esta obra segue as regras da Nova Ortografia da Língua Portuguesa.

São proibidos o armazenamento e/ou a reprodução de qualquer parte dessa obra, através de
quaisquer meios — tangível ou intangível — sem o consentimento por escrito da autora.

A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na lei n°. 9.610/98 e punido pelo artigo 184
do Código Penal.
Ilustração e Capa: Selo Eu Independente
Edição e Copidesque: Selo Eu Independente
Revisão: Selo Eu Independente
Diagramação Digital: Selo Eu Independente
AGRADECIMENTOS
Serei eternamente grata a todas vocês que têm me acompanhado nesta caminhada.
Quero agradecer de coração às minhas amigas e conselheiras: Joana Massano Galli e
Andréa Di Palma. Obrigada por todas as dicas e todos os conselhos.
Sheila Pereira Ribeiro, a menina dos quotes. Você me fez derramar muitas lágrimas de
alegria. Obrigada por ser especial.
Patrícia Costa Aguiar, obrigada por me dar forças, muitas vezes, quando eu pensei em
desistir.
Costumo dizer que Deus coloca anjos para iluminar os nossos passos. Nessa jornada, eu não
conheci leitores, fui agraciada com grandes amizades, que guardarei para sempre.
Patrícia Silva, Suzete Frediani Ribeiro, Miriam Batista Ferreira, Renata Barbosa, Solange
Napolitano, Domenica de Campos, Dee Ross, Sônia Thedesco Melo, Andréa Cavalcante, Andréa
Ribeiro, Penha Rangel, Raquel Costa, Micaeli Pereira, Fran Nocelli, Valéria do Nascimento, Ana
Paula Grabowski, Jéssica Guidi Rosso, Dilma Bailer e Lisia Batista. Obrigada, amores, por todo
carinho e por estarem ao meu lado nos piores e nos melhores momentos desta trajetória.
Aos meus amados leitores, que me fizeram rir e chorar de emoção, com seus comentários
carinhosos: Claudia Cezariano, Jaque Cazonato, Soraia Honorato, Andreza Viude de Martin, Delba
Lima, Solange Ap. dos Santos, Maria Aparecida Aquino, Marcia Fraga, Andréia Machado, Sandra
Germines, Tatiana Maio, Neide Andrade, Damaris Dotta, Rosimar Hanke Boardmann, Edilma Targino
de Messias, Juliana Cardoso Fiori, Edicleia Kelly, Rafaella Fernanda, Ana C. Sici, Patrícia Morais e
Leticia Araújo.

Obrigada de coração, a todos vocês, pelo carinho, apoio e prestígio. Nada seria possível
sem vocês.
E que, em breve, possamos estar juntos novamente.
Beijos em cada coração, Sabrina Lucas.
“O amor deveria perdoar todos os pecados, menos um pecado contra o amor. O amor
verdadeiro deveria ter perdão para todas as vidas, menos para as vidas sem amor.”

Oscar Wilde.
CAPÍTULO UM
HEITOR
“Heitor, filho amado:
Nunca tive coragem de lhe contar toda a verdade, mas depois que ler essa
carta, saberá que Raul foi apenas uma vítima do meu amor e minha obsessão.
Eu o conheci na faculdade, ele era de família humilde e eu, uma Patricinha.
Raul era dedicado e esforçado em tudo o que fazia. Bolsista e estudante de Direito,
era reservado e de poucos amigos. Na faculdade, meus amigos e eu não
costumávamos levar nada a sério, nossos pais bancavam tudo: estudos e farras.
Raul era diferente, tinha foco, sabia aonde queria chegar e o que deveria fazer
para alcançar seus objetivos.
Apaixonei-me por ele no instante em que seu olhar encontrou o meu. Raul
era extremamente tímido e reservado, havia mistérios atrás daquele olhar e eu
queria desvendar. Perdido em seu primeiro dia de aula, me coloquei à disposição
para lhe mostrar o campus, era como se um imã me puxasse em sua direção, eu
queria sua atenção, desejava sua companhia.
Na época, eu era jovem e imatura, meus pais já não sabiam o que fazer
para que eu tomasse algum rumo na vida. Não levava nada a sério, minhas
prioridades eram as futilidades. Envergonhei muito a minha família. Meu pai, um
juiz conceituado na cidade, semanalmente era notícia nos jornais, com as seguintes
notas: “Filha de juiz é presa por dirigir embriagada” ou “filha de juiz é presa por
atentado ao pudor”.
De longe, Raul era o cara mais lindo da faculdade e o mais inteligente da
classe. Sempre com considerações nos momentos oportunos, sabia a hora de ouvir
e a hora de se calar. Muito sábio e gentil, não conquistou somente os professores,
a maioria das garotas ficaram caidinhas por ele. Não demorou muito para se
tornar “objeto” de desejo e alvo das apostas, ninguém conseguia desvirtuá-lo. Raul
era uma incógnita para muitos.
Foi através dele que minha vida mudou. Eu já não era mais aquela garota
irresponsável, queria estudar, aprender, fazia de tudo para ficar em seus grupos de
estudo. Com o passar do tempo, estudar começou a fazer parte dos meus dias,
comecei a construir sonhos. Sim, meu maior sonho era ter Raul para mim, me
entregar a ele, dia após dia, ano após ano. Alimentei um amor não correspondido.
Amor esse que não me dava esperanças. Mas jurei para mim que o teria, não me
importava as consequências. Eu estava decidida.
Deixei de ser a filha problemática do juiz da cidade e me tornei uma
estudante exemplar, do curso de Direito. Mas todo meu esforço foi em vão. Eu
fazia de tudo para chamar a atenção de Raul, mas ele parecia não me notar.
Sempre esteve voltado aos livros, ao desejo de tornar-se um advogado.
Cinco anos se passaram, finalmente chegou o dia da tão esperada
formatura. Concluí a faculdade e realizei o sonho do meu pai. Mas meu esforço
não valeu de nada, pois não conquistei o amor de Raul, nunca fui merecedora de
sua atenção, o diploma não me serviu absolutamente para nada.
O desespero tomou conta dos meus sentidos quando soube que Raul havia
recebido uma proposta de estágio, em outra cidade. Ele partiria e eu nunca mais o
veria.
Precisava ser rápida, tinha que agir depressa, não poderia permitir sua
partida. Eu faria o impossível para enlaçá-lo para toda a vida.
Não me orgulho do que fiz, mas quer saber? Eu faria tudo novamente.
Só eu sei o que foi passar cinco longos anos desejando algo que não pude
ter, como um fruto proibido. Ele nunca me olhou como mulher, nunca me desejou. Eu
era apenas Meiry, sua colega de curso. Mas eu o desejava, não suportaria vê-lo
partindo.
Fizemos uma festa de despedida para Raul, ocasião perfeita para colocar
meu plano em prática. Aproveitei um momento de distração para colocar uma
substância em sua bebida. Eu o droguei. Nunca o vi daquela maneira, lindo, leve,
livre e solto. Adormeci nua em seus braços, em sua cama. Ao acordar, Raul ficou
irreconhecível, jamais esquecerei o desprezo em seu olhar, como se sentisse repulsa
por mim. Naquele momento, decidi me vingar, não deixaria aquela humilhação
passar em branco, já havia sofrido demais por não ter a reciprocidade de meus
sentimentos. Jamais esqueci, aquela cena remoeu minha mente por muito tempo,
motivou-me a infernizar a vida dele e, infelizmente, destruir minha sanidade.
O que fiz a Raul foi imperdoável, ele me odiou quando a verdade veio à
tona. Esse foi o motivo de nosso divórcio. Não posso revelar o que fiz, prometi a
Raul que você nunca saberia, consegui cumprir minha promessa até hoje e ela
morrerá comigo.
Um mês depois apareci grávida no trabalho dele...
Acredite, meu filho, eu destruí a vida daquele homem. Um jovem recém-
formado em Direito engravidou a filha de um juiz. Ele não teve escolha, a não ser
se casar comigo.
Eu fiz de nossos anos de convivência um verdadeiro caos. Sabia que ele não
me amava, que seu compromisso comigo não passava de obrigação. Eu o tinha
para mim, mas ele não me pertencia como eu desejava. Com o passar do tempo,
Raul mergulhou de cabeça no trabalho e nas viagens, para que não tivesse tempo
de ficar em casa com sua esposa doente e neurótica.
Eu não vivi a minha vida, meu filho...
Passei muitos anos tentando acabar com a paz de Raul. Tornei-me uma
pessoa doente e vazia, minha alegria era ver a fúria e a frustração nos olhos dele.
Mas minha consciência pesava cada dia mais, cheguei a um ponto em que eu
precisava me redimir, me sentir curada daquela obsessão. Dei a Raul sua carta de
alforria, contei toda verdade, o deixei livre para tentar reconstruir sua vida e
apagar seu passado.
Não o culpe, Heitor. Raul foi uma vítima, assim como você.
Quando você ler esta carta, eu não estarei mais aqui, então deixo essas
palavras como um pedido de perdão. Essa é a única verdade que precisa saber.
Meu lugar não é mais aqui, não consigo ficar perto das pessoas que amo sem
causar dano. A dor me dilacera e não tenho mais forças para lutar.
Não sofra, filho meu. Eu não mereço suas lágrimas, não mereço seu amor e
tampouco o seu perdão. Mas quero te fazer um pedido: o amor é para os fracos,
não se deixe dominar por esse sentimento. Viva sua vida e não permita que
ninguém seja dono de você, como Raul foi dono de mim.
Adeus!
Sua eterna mãe, Meiry.”
Ah, mãe! Por que teve que ser assim?
Há mais de vinte malditos anos tenho tentado entender suas palavras nas entrelinhas. Para
que não se apagassem com o tempo, fiz várias cópias da carta, assim ela sempre estará presente
em minha vida.
Minha vontade é confrontar meu pai e exigir a verdade, mas meu ódio supera tudo. Espero
nunca mais ter que colocar os olhos no homem que desgraçou nossas vidas.
Com apenas oito anos de idade, fiquei órfão de pai vivo. Raul morreu para mim no dia em
que saiu de casa. Eu já estava cansado de ouvir a discussão diária entre minha mãe e ele.
Brigavam por tudo, até que um dia ele nos deixou. Vi minha mãe se autodestruir depois do
abandono, sem conseguir suportar a dor, ela entregou-se a uma profunda depressão.
Minha mãe o amava muito. Por não suportar o peso do divórcio, meses depois, tirou sua
própria vida. Não foi capaz de viver sem o único homem que amou. E eu nunca serei capaz de
perdoar meu pai pela dor e a desgraça que atraiu para nossas vidas.
Com o toque do meu celular, sou transportado novamente ao mundo real. Não tem um dia
sequer que eu não leia essa carta, tentando entender os porquês.
— Espero que você tenha conseguido resolver todas as pendências e que a Terra esteja
girando normalmente em sua mais perfeita órbita — digo ao Caio, meu sócio, ao atender a
ligação.
— Corta essa, Heitor, missão dada é missão cumprida, logo os contratos poderão ser
finalizados.
— Já não era sem tempo, Caio, ainda não consigo entender como vocês demoraram tanto
para preencher essa maldita vaga.
— Entenderia, se você se envolvesse nos processos seletivos. A oferta está maior que a
procura, e para que não tenhamos um alto percentual em nosso turnover, foi necessário fazer uma
seleção criteriosa.
— Já entendi, só de ouvi-lo falar em rotatividade meu desespero aumenta, não podemos
perder mais ninguém do nosso time, pois estamos prestes a fechar um contrato milionário e eu
quero que cada um esteja em sua posição no meio de campo.
— E assim será, meu digníssimo amigo. Por falar em amizade, te espero hoje na República
Pub. Nós precisamos arrastar o Vitor, vai por mim, o cara está na pior.
— Acorda, Caio, hoje é apenas segunda-feira, amanhã nosso dia será cheio.
— Eu sei, porém confesso que estou prestes a ter um surto psicótico. A louca da Manu
resolveu infernizar a minha vida diariamente, preciso relaxar.
Caio e eu nos falamos por mais alguns minutos e combinamos de fazer um happy hour, ele
está passando por um momento difícil em sua vida, após o rompimento de seu noivado com a
cadela da Manu. Vitor, nosso amigo, passou por uma terrível tragédia e não consegue juntar os
cacos para seguir em frente. Sempre que estamos na fossa, um ajuda o outro, é assim desde a
faculdade.
Conhecemo-nos quando éramos calouros, nos tornamos os melhores amigos e, há oito anos,
conquistamos o mundo no ramo de arquitetura. Caio cuida da parte de gestão de pessoas e toda
a administração. Ele trabalha em um dos escritórios filiais enquanto eu permaneço na matriz, que
apelidamos de “centro de comando”. Costumávamos dizer que éramos artistas com nossos lápis, eu
com desenhos e Caio com os cálculos. Mesmo que tenha se formado em arquitetura, seu MBA foi
voltado à gestão e às finanças. Vitor optou pelo curso de Direito e tornou-se um advogado de
sucesso, é quem cuida de toda a parte jurídica da nossa empresa.
Problema um resolvido. Agora só preciso que a Morgana não surte e consiga fazer com que
a nova arquiteta cumpra com todas as suas atribuições. Precisamos fechar esse contrato e todos os
meus arquitetos precisam estar completamente capacitados.
Meu dia passa voando, mais alguns minutos e estaria disposto a retirar o telefone fixo do
gancho e desligar meu celular. O convite do Caio veio em boa hora, também preciso relaxar.
MELISSA
Droga! Mil vezes droga! Olhe para você, Melissa Muller, hoje é um dos dias mais importantes
de sua vida e está quase atrasada.
Confesso que a imagem refletida no espelho não me transmite segurança. Olho assustada
para o efeito furacão que se encontra meu quarto. Literalmente, joguei todas as minhas roupas do
armário em cima da cama e, ainda assim, não estou certa sobre a minha escolha.
Dentro de poucas horas darei início a um novo ciclo em minha vida, a realização de um
grande sonho. Estudei muito para obter meu diploma e trabalhar em um dos maiores escritórios de
arquitetura é a minha maior realização.
Sem mais delongas, decido que para alguém com 1,60 m de altura, uma saia lápis preta
pouco acima do joelho, deverá servir, e para combinar, uma camisa branca de seda. Cabelos
soltos, lápis preto nos olhos — para evidenciar minha íris azul—, blush e rímel. Isso, acho que estou
pronta.
Quase pronta, ainda faltam meus saltos!
Saio apressada do meu apartamento e entro no elevador contando os minutos até a
garagem. Não posso me dar ao luxo de chegar atrasada em meu primeiro dia de trabalho.
No caminho até o escritório, faço uma oração silenciosa para que consiga chegar a tempo.
Preciso muito deste emprego, trata-se de uma realização pessoal, uma meta atingida. Depois de
tudo o que minha mãe passou para me proporcionar uma boa educação, não quero decepcioná-la.
Em sua juventude, ainda na faculdade, minha mãe acreditou ter conhecido o homem de sua
vida. Meses depois, fui concebida sem planejamento.
Quando meu avô soube que a única filha estava esperando um filho, a pôs para fora de
casa. Militar e ditador, não admitiu sua filha grávida sendo mãe solteira. Depois que seu namorado
soube da gravidez, a abandonou. Ela não tinha ninguém, o apoio do homem que amava era sua
única esperança. Esperança que se transformou em lágrimas de dor e desespero.
Minha avó não pôde fazer nada para impedir a fúria de seu marido, com o passar dos
anos, acabou morrendo de desgosto, pois ele não permitiu que ela me conhecesse. Não permitiu
que ela se aproximasse de sua única filha. Meu avô foi um homem amargo, incapaz de perdoar e
entender, se deixou cegar pelo orgulho e pela amargura, perdeu sua família e morreu na solidão,
por escolha própria.
Minha mãe alugou um quarto em uma pensão, conseguiu um estágio em um escritório de
advocacia. Foi lá que conheceu Raul, meu padrasto. Foram muitas caminhadas para eles chegarem
aonde estão, Raul e minha mãe, antes de tudo, tornaram-se grandes amigos. Ele era seu porto
seguro, alguém com quem ela podia contar nos momentos mais difíceis. Mesmo não sendo meu pai
biológico, para mim não existe no mundo outra pessoa melhor para representar esse papel em
minha vida. Sempre esteve ali por nós. Mamãe nunca me contou toda a história, a única coisa que
me permitiram saber foi que Raul havia sido vítima de uma armação cruel e, em virtude disso, abriu
mão de sua felicidade. Viveu muitos anos como refém de sua própria vida, mas depois que
conheceu minha mãe, mesmo grávida de outro homem, ele decidiu lutar para colocar um fim
definitivo na farsa que vivia.
Eles já passaram por tanta coisa, eu quero ser motivo de orgulho para meus pais. Portanto,
nada de perder o emprego logo no primeiro dia. Faço o trajeto com rapidez, mas dentro dos
limites permitidos. Finalmente eu chego ao local indicado pelo GPS. Sinto um frio na barriga, a
minha alegria é tamanha, nem consigo acreditar que cheguei até aqui por mérito próprio.
Minha mãe e Raul ainda estão inconformados com a minha decisão de morar sozinha em uma
cidade grande. Não acham seguro uma garota de 23 anos deixar a calmaria de uma cidade
menor para desbravar uma metrópole. O que eles não entendem é que eu não sou mais aquela
garotinha frágil que sempre dependeu de seus pais para tudo, eu cresci, nem mesmo me reconheço
falando essas palavras em voz alta. A superproteção da minha mãe me tornou uma garota frágil e
indefesa, mas quero esquecer que um dia fui assim, eles precisam perceber que me tornei uma
mulher e que almejo independência.
O caminho é longo até o vigésimo andar, enquanto isso, ansiedade é a palavra que me
define. Quando enviei meu currículo, jamais imaginei que, dentre outras jovens arquitetas, eu seria
selecionada. Mesmo não tendo experiência, eles me deram a oportunidade pela minha
determinação. Disseram que trabalham com plano de carreira e que me ensinariam os primeiros
passos, mas que a velocidade da caminhada dependeria única e exclusivamente de mim. Chego à
recepção e sou recebida por um sorriso doce e simpático de Joana. No dia da minha entrevista,
acabamos nos esbarrando na cafeteria e, por obra do destino, nos tornamos amigas.
— Seja bem-vinda, Mel.
— Obriga, Jô, te confesso que estou nervosíssima, não sei o que fazer nem como fazer. O
primeiro dia é sempre frustrante.
— Calma, Mel, isso se chama fase de adaptação, você irá superar e acho melhor se
apressar, pois a bruxa má, sua chefe, está te aguardando.
— Esse é o incentivo que você me dá, Joana? Do jeito que fala da Morgana, parece que a
mulher é um monstro.
— Vai por mim, Mel, ela é. A única recompensa de trabalhar nesse lugar é poder ter sonhos
eróticos com nosso poderoso chefão, pena que o cara é uma parede de gelo.
Impossível não rir do comentário da Joana, ela sempre fala nesse deus da belezura, espero
que em breve possa conhecer o poderoso chefão.
Chego à frente da sala da Morgana, antes de bater, faço uma oração mental pedindo força
e sabedoria para enfrentar o que está por vir. Ela é a arquiteta responsável pelo meu treinamento.
— Bom dia, Morgana. — Sorrio com simpatia assim que minha entrada é autorizada,
caminho até sua mesa, permanecendo de pé. Demora alguns segundos até que eu tenha a sua total
atenção. — Meu nome é Melissa, a Kátia, do recursos humanos, disse que eu deveria me
apresentar a você nesse horário.
— Bom dia, minha querida, só se for para você — diz Morgana, com um tom arrogante, me
analisando dos pés à cabeça. — Pois bem, Melissa, a partir de amanhã você deverá chegar meia
hora antes para fazer meu café. Espero que a sonsa da Joana tenha explicado como as coisas
funcionam aqui. Para compensar seus dois minutos de atraso, hoje você deverá ficar além do
horário para organizar a minha agenda. Nós estamos entendidas?
Definitivamente, ela não usa pausa para falar. Precisei me esforçar para processar e
entender suas ordens. Até onde eu sabia, iria ocupar uma vaga de arquiteta, pois foi para isso
que estudei. Quem ela pensa que é, a rainha da Inglaterra?
Resolvo entrar no jogo para ver qual será o resultado no placar, faço cara de paisagem e
concordo com a bruxa má.
— Sim, Morgana, estamos entendidas. Além de ser a sua mais nova assistente pessoal,
gostaria de saber quais minhas atribuições como arquiteta, afinal, é por isso que estou aqui.
Ela me fita com reprovação, na certa, se pudesse, me demitiria agora mesmo. Mas, para
minha sorte, Morgana não tem essa autonomia. Caio é o único a quem devo me reportar.
— Vejam só a tamanha petulância da garota! Escute aqui, Melissa, quem dita as regras aqui
sou eu. Vou logo avisando, não facilitarei as coisas para você. Então sugiro que comece a
trabalhar. — Ela destila seu veneno com um ar de superioridade.
Descartando minha presença, ela volta sua atenção para o computador. Saio pisando firme
da sala da “bruxela”— bruxa + magrela = bruxela —, mais um pouco e eu pularia no pescoço
daquela víbora.
Assim que organizo as coisas em minha mesa, verifico a agenda pessoal de Morgana,
conforme mencionado, e me atualizo da sua rotina.
Essa mulher só pode estar de brincadeira! A futilidade mora ao lado!
Segunda, às nove: manicure;
Terça, às nove: massagem;
Quarta, às nove: limpeza de pele.
Começo a ter um ataque de risos, ainda não acredito que isso seja possível.
Em meio a tantas atribulações, ordens e pendências, eu nem vi o dia passar. Encerro meu
expediente e paro na recepção, para me despedir da Joana, e pelo sorriso estampado em seu
rosto, sei que ela está tramando algo.
— Mocinha! Nem pense em tentar cruzar aquela porta sem mim, hoje vamos ao República
Pub comemorar seu primeiro dia de trabalho, ou melhor, sua sobrevivência na selva.
Não tive como dizer não, afinal, estou precisando conhecer pessoas e fazer novas amizades.
Vamos ver o que a noite nos reserva.
CAPÍTULO DOIS
MELISSA
O República fica a poucas quadras do escritório, optamos por ir andando. Como estamos no
horário de verão, o sol ainda se fazia presente. Joana é meiga e engraçada ao mesmo tempo, eu
poderia andar quilômetros em sua companhia e, ainda assim, não me sentiria cansada. Chegamos
ao movimentadíssimo República Pub, o local está lotado e se minha amiga não tivesse feito reservas,
com certeza não conseguiríamos mesas disponíveis. Nossa mesa fica no deck lateral, que dá acesso
a um lindo jardim. Estou encantada com a vista desse lugar. No centro do jardim está montado um
grande palco. E ao contemplar as belíssimas flores, minhas lembranças remetem à minha mãe. Faço
um tremendo esforço e tento segurar uma lágrima que teima em cair. Nunca ficamos longe uma da
outra e eu confesso que não está sendo fácil essa distância.
O local está agitado, pessoas rindo descontraídas e conversando como se não tivessem
problemas, tudo nesse lugar parece estar na mais perfeita sintonia. Joana é toda sorrisos, olho na
sua direção e vejo o garçom se aproximar. Diz ela que não teria a menor graça se não pudesse
flertar com o garçom. Pedimos nossas bebidas e explico a Jô que tenho baixa resistência a álcool.
De tanto que ela insiste para que eu beba apenas um copo, escolho um coquetel feito com vodca,
gelo, suco de morango e muitas frutas cítricas, para uma perfeita combinação. Joana diz ter ficado
curiosíssima com a mistura e pede o mesmo que eu.
— Então, Mel, você ainda não me relatou como foi seu dia. Como a bruxa má se comportou
com você?
— Sabe, Jô, eu estou disposta a entrar no jogo e arriscar o resultado no placar. Em alguns
momentos, a vontade de socá-la é maior que a minha paciência, mas como você mesma disse, é
fase de adaptação.
Joana não teve como deixar de rir do meu comentário, se a “bruxela” pensa que vai me
vencer pelo cansaço está redondamente enganada. Essa é a minha chance e não será ela que me
fará desistir.
— Oh, meu Deus! Melissa, amiga, meus olhos não conseguem acreditar no que estão vendo,
olha ali e veja nossos poderosos chefões vindo em nossa direção. Ai, meu deus!
Ela aperta minha mão e começa a bater os pés euforicamente. É notável sua dificuldade até
para respirar.
— Calma, Joana, ou dentro de alguns instantes você sofrerá um infarto.
Disfarçadamente, ela faz um gesto com a cabeça, me indicando a direção, e nesse momento
o meu mundo congela. Caio é um homem bonito e atraente. Conhecemo-nos na minha entrevista
para o cargo de arquiteta. Ainda não fui devidamente apresentada ao poderoso chefão, como a
Jô costuma chamar, pois não trabalhamos no mesmo escritório. E, nesse instante, me dou conta que
eu nunca havia conhecido um homem com uma beleza tão sobrenatural.
Moreno, alto e da cor do pecado. Corpo atlético e músculos definidos. Ele acaba de
despertar em mim um misto de reações que até então eram desconhecidas. Além de eu estar
segurando minha respiração, percebo que minhas mãos estão suando frio.
Em passos firmes, eles caminham ao nosso encontro, e é nesse instante que nossos olhares se
conectam. Ele me encara fixamente e começo a ofegar e ficar trêmula. Estou prestes a pagar o
mico do ano, não tenho a menor ideia de como me portar diante de um homem tão lindo.
— Meninas, viemos relaxar um pouco, porém a casa está lotada. Nós podemos nos sentar
com vocês? —Caio, além de bonito, é simpático, com esse sorriso poderia conquistar o mundo, faz
esse pedido com tanta educação que seria impossível negar algo.
— Deixem-me ver, eu acho que como pedágio vocês poderiam pagar as bebidas, o que
você acha, Melissa? — Jô olha para mim com as sobrancelhas arqueadas.
Nesse momento, eu percebo que estava segurando a respiração para não ofegar, esse
moreno lindo ferrou com toda a minha linha de raciocínio.
— O pedágio deverá servir — digo, com certa dificuldade em controlar meus batimentos
cardíacos, e tento passar segurança através das minhas palavras, em hipótese alguma ele pode
perceber que minha voz está trêmula.
— Heitor, conheça nossa mais nova arquiteta, Melissa. Melissa, esse é meu sócio, Heitor.
Mesmo vocês não trabalhando no mesmo escritório, o problema de um será o problema de muitos,
nós somos uma equipe, e bem-vinda ao time!
Heitor pega em minha mão, seu olhar cravado no meu. Sinto uma descarga elétrica
atravessar o meu corpo. Disfarçadamente, retiro minha mão para ele não notar como estou suando
frio e começo a ficar assustada com esse misto de sensações. Joana parece perceber meu
constrangimento e ajuda-me a sair pela tangente:
— Caio, por favor, não estamos no escritório, e a última coisa da qual eu preciso é me
lembrar de assuntos ligado ao trabalho.
— Concordo, Joana, nós estamos aqui por pura descontração, não está mais aqui quem
falou — Caio fala enquanto Heitor e eu nos fitamos em silêncio.
No momento em que o garçom chega para anotar o pedido da bebida dos nossos
acompanhantes, eu aproveito a oportunidade para ir ao banheiro. Preciso me recompor, sinto a
minha face queimando e não estou me reconhecendo. Era só o que faltava, me sentir atraída pelo
chefe.
Melissa Muller, trate logo de expulsar esses pensamentos, ele é seu chefe, ouviu bem? Seu chefe!
Quando retorno à nossa mesa, percebo que Caio e Joana estão perdidos em uma conversa
sobre lançamentos de filmes. Parecem ter a mesma paixão por cinema. Heitor está ao telefone, seu
semblante é sério e gélido, me lembrando do Zangado, dos Smurfs, então me dou conta de que em
nenhum momento ele interagiu na conversa, não foi simpático e receptivo quando Caio fez as
apresentações.
Esse cara não deve passar de um riquinho esnobe...
Resolvo ignorar sua presença da mesma forma que ele tem ignorado a minha, porém minha
vontade de cobiçá-lo com os olhos é maior que a minha decepção. Toda vez que meu olhar vai em
sua direção, percebo que ele tenta disfarçar que seu olhar também estava sobre mim.
Melissa, não seja ingênua, você é empregada e ele o patrão, simples assim!
Caio tenta monopolizar a atenção, para disfarçar a indelicadeza de seu amigo e sócio. O
cara literalmente não faz questão nenhuma de ser agradável.
Depois do segundo coquetel eu começo a relaxar, esse cara acabou com meu bom humor.
Fico pensando em como será a nossa interação dentro da empresa, mesmo não trabalhando no
mesmo escritório. O que para mim é um alivio, eu não sei como seria ficar muito tempo na sua
presença. Ele me dá medo.
Vejo o garçom se aproximar, sua atenção está voltada para mim.
— Senhorita. Peço desculpas pela intromissão, um cavalheiro pediu para que eu entregasse
isso.
Olho petrificada para o garçom e estendo a mão para pegar o que ele me oferece, uma
rosa com um bilhete.
“Every rose has its thorn.”
(Toda rosa tem seus espinhos.)
Como isso é possível? Essa é uma das minhas músicas preferidas...
Quando vou agradecer ao garçom e perguntar sobre o suposto cavalheiro, Heitor toma a
frente da conversa:
— E o que te faz pensar que a senhorita está sozinha? — Ele descansa seus braços sobre a
mesa e move seu corpo para frente, encarando com fúria o pobre garçom, que parece assustado
com sua reação nada educada.
—Estou apenas fazendo o meu trabalho, acatando o pedido de um cliente, senhor — o
garçom diz, aparentemente nervoso.
— Nesse caso, diga ao cavalheiro que a senhorita aqui dispensa todo e qualquer mimo,
bilhete ou presente, seja lá como se chama isso.
Ele não me deixa falar, pega a rosa das minhas mãos e despedaça. O bilhete, guarda em
seu bolso. O garçom sorri envergonhado e se afasta. Estou chocada com sua atitude arrogante.
Faz horas que estamos aqui e ele não trocou sequer uma palavra comigo. Quem esse cretino pensa
que é? Mas ele não perde por esperar!
— Posso saber o significado de tudo isso? Você não acha que sou eu quem deve decidir o
que aceitar ou deixar de aceitar? — digo, fitando-o com um olhar furioso.
Riquinho babaca! Não sou nada sua, cretino. Não sou sua propriedade!
Minha vontade é gritar essas palavras, mas não vou descer ao nível desse ordinário.
— Apenas me divertindo. Nunca pensei que ser empata foda pudesse ser tão divertido,
Melissa — o todo poderoso fala com ar de deboche, enquanto toma um gole de sua bebida.
— Escute aqui, Heitor, o que te faz pensar que eu seja vista, por sei lá quem, como uma
foda? — Corrijo minha postura na cadeira e falo com minha voz carregada de raiva.
Heitor não tem tempo para formular uma resposta, Caio interrompe nosso diálogo forçado e
tenta dissipar a tensão.
— Melissa, você gosta de música? — Caio pergunta.
Minha segunda paixão na vida é a música, eu fazia dupla com um grande amigo da
faculdade, Diogo. Cantávamos em bares e formávamos um bom time, porém chegou um momento
em que tive que escolher. Então, abri mão da música e me dediquei inteiramente à arquitetura.
Diogo abriu mão da faculdade para ir atrás do seu sonho, depois disso, nunca mais tivemos
contato. Ele se afastou de mim por sentir um amor platônico, pois nunca alimentei esperanças. Para
mim, éramos amigos e essa condição não iria mudar.
— Se eu gosto de música, Caio? Não, eu amo música! — Bato as mãos em vibração e sorrio
para dissipar a minha tensão. Caio e Jô não contiveram o riso pela minha empolgação, exceto o
Zangado.
— Devo dizer que é seu dia de sorte, você já ouviu falar da banda My Angel? — Caio
pergunta, sorrindo.
— Sim, eu ouvi dizer que ela está fazendo muito sucesso fora do Brasil.
Joana e Caio me explicam sobre a tal banda. E nesse momento, minhas lembranças divagam
e chegam até Diogo. Onde ele estaria? A música ainda seria a sua vida?
— Mel, o vocalista é brasileiro. Ele é do interior de São Paulo, está de passagem ao Brasil e
hoje fará um pequeno Show aqui no Pub — acrescenta Jô.
Heitor resolve abrir a sua boca e faz um comentário desnecessário.
— Não sei por que a empolgação, é apenas uma banda e o cara nem deve dominar o
inglês fluentemente. Esses músicos que saem do Brasil para tentar sucesso lá fora estão fadados ao
fracasso.
Quando penso em responder à altura, Joana não perde a oportunidade e coloca o
Zangado em seu devido lugar.
— Olha, Heitor, não sou grande conhecedora de música. Mas assisti a algumas entrevistas
com a banda. Eles acabaram de fechar contrato para fazer uma turnê. O vocalista está
aproveitando a folga na agenda para visitar a família. Acho que você não deveria criticar sem ao
menos conhecer a trajetória dos caras e, principalmente, suas canções.
Antes de o chefe mor verbalizar uma resposta, nossa atenção é atraída para o palco. Eu
estou de costas, não consigo visualizar o vocalista, porém esse timbre rouco é inconfundível, alguns
solos de guitarra no fundo fazem com que eu me sinta nostálgica.
— Uma vez, certo alguém, uma grande amiga, me disse a seguinte frase: “Busque seus
ideais, porque se eles se forem, você continuará vivendo, mas deixará de existir.” E foi isso o que
eu fiz. Se eu não tivesse buscado meus sonhos, hoje eu não estaria aqui, devo isso a você. Parte do
que me tornei, devo a você, meu anjo!
Meu rosto está banhado em lágrimas, minha emoção é tanta que não cabe dentro de mim. O
meu amigo, o meu Diogo, é o famoso vocalista da My Angel. Por isso esse nome, era assim que ele
me chamava: meu anjo.
Todos na mesa me olham sem entender, o solo da guitarra começa a se intensificar e, antes
que eu possa reagir, o garçom entrega-me um microfone. Diogo não me espera chegar junto dele
no palco, o tempo da música começa e me vejo obrigada a entrar na letra ali, diante das mesas,
no caminho até seu encontro.
Every Rose Has Its Thorn
(Toda Rosa tem Espinhos - Poison)

Nós dois deitados em silêncio


No calor da noite
Embora estejamos deitados de pertinho
Nós sentimos quilômetros de distância dentro de nós
Foi alguma coisa que eu disse ou que eu fiz
Minhas palavras não soaram corretas?
Embora eu tenha tentado não te machucar
Embora eu tenha tentado.
E ali, naquele instante, eu me entreguei à canção, fiz aquilo que éramos bons em fazer juntos,
cantamos com a alma e colocamos o coração em cada palavra. Tudo ao nosso redor não passou
de um borrão, exceto ele, o meu chefe. No momento em que meus olhos se abriram, eu procurei por
ele. Começo a não gostar de como Heitor me faz sentir, esse momento era para ser apenas Diogo
e eu, e isso me assusta. As pessoas começam a aplaudir e, quando a música atinge o seu refrão, eu
já estou no centro do palco. Novamente, nossos olhares se conectam e é como se ele quisesse me
dizer algo. Estou trabalhando com meu alerta ligado, depois que essa noite acabar, eu preciso
esquecer-me de como ele me faz sentir. Decido que é melhor interagir no palco com meu amigo,
como se Heitor não estivesse aqui, ou melhor, como se eu nunca o tivesse conhecido. Quando a
música acaba, eu olho novamente para a mesa onde estava e não o vejo.
É melhor assim, o que os olhos não veem, o coração não sente e o corpo não cobiça.
Caio e Joana aplaudem de pé, então as pessoas entram no embalo e começam a bater
palmas, pedindo bis. Olho para Diogo assustada, não sei como proceder daqui para frente. A
noite é da banda e é ele quem deverá conduzir o espetáculo, essas pessoas estão aqui por ele.
— Só mais uma, meu anjo. Vamos curtir e aproveitar o momento.
Faço que sim com a cabeça e, quando o solo da sua guitarra atinge a nota mais alta, eu
fecho meus olhos e começo a viajar novamente na letra de Don’t Stop Believing, de Journey, para
animar a noite. Pulamos, dançamos, cantamos e, no final da canção, Heitor não estava lá. Eu ainda
não sei dizer o porquê, mas no fundo gostaria que ele estivesse.
HEITOR
Uma noite fadada ao fracasso. Depois que saí do escritório, fomos até o apartamento do
Vitor. O cara estava mal e se recusou a nos receber, não pensamos duas vezes para invadirmos o
seu apartamento. Mas não tivemos êxito em arrastá-lo ao República Pub. Ele não estava em
condições físicas, precisamos fazer algo, pois está sendo difícil para nós, também, ver o nosso
amigo se destruindo a cada dia.
Quando chegamos ao Pub, a casa estava lotada, teria um show de um cantorzinho brasileiro
metido a estrela americana. Para completar a noite, o asno do Caio havia se esquecido de fazer
as reservas e, não por nada, mas, infelizmente, nos vimos obrigados a sentar com nossas
funcionárias.
De longe avistamos Joana, ela estava na companhia de uma loira, que eu jamais poderia
imaginar se tratar da mais nova arquiteta. Quando nos aproximamos da mesa foi como se eu
tivesse ganhado um soco no estômago, ali, diante dos meus olhos, estava a mulher mais linda que já
vi na vida.
Loira, com olhos azuis intensos e um sorriso docemente encantador. Melissa e eu fomos
devidamente apresentados por Caio. Seu nome combina com ela, meigo e delicado.
Inferno! Mil vezes inferno!
Nunca fui de observar os adjetivos que as mulheres possuem, agora estou aqui, feito um
babaca, admirando o sorriso de uma garota. Eu não sou adepto a essas merdas de sentimentos e
admiração, nada disso faz parte da minha vida. Tenho motivos suficientes para evitar qualquer
intimidade com uma mulher que não seja puramente física.
Exorcizo esses pensamentos, tenho mais o que fazer da vida para ficar com essa frescura de
cobiça e admiração. Meu humor estava de mal a pior, por mais que eu tentasse, não conseguia
interagir na conversa, a única coisa que pensava era no que aqueles lábios poderiam fazer com
meu corpo, coisas pecaminosas passavam pela minha mente. Para completar minha frustração, o
garçom se aproxima e entrega a Melissa uma rosa com um bilhete. Eu não pensei, foi como se algo
tivesse me cegado, simplesmente arranquei aquela rosa de suas mãos e guardei o bilhete. Não
facilitaria para nem um playboy, eu a queria, a desejava. Inferno! Nunca me portei assim, só pode
ser efeito do uísque.
Eu vi a raiva estampada nos olhos de Melissa e estava começando a me divertir com a
situação, a noite começava a ficar divertida, até o cantorzinho se tornar a estrela da noite. Que
porra era aquela? No momento em que ela pegou o microfone e começou a cantar, foi como se o
chão tivesse sumido dos meus pés. A maneira com que ela se entregou à canção me fez querê-la
ainda mais. Não consegui ficar ali sentado, vendo tudo aquilo, eles tinham uma sintonia de palco.
Pareciam ser um do outro, inferno! Caio, aquele idiota, percebeu meu comportamento e sorriu
cinicamente. Teve um momento em que ela abriu os olhos e me olhou intensamente, como se quisesse
a mesma coisa que eu. Não, definitivamente, não, eu já tinha merda o suficiente, não poderia me
deixar levar por desejos carnais.
Sem pensar duas vezes, saí da mesa e fui até o fundo do bar, para que ninguém me visse.
Fiquei ali, admirando-a através do telão.
O que ele significa para ela?
Não estou me reconhecendo! Desde o momento em que a vi não consigo pensar ou me
concentrar em outra coisa que não seja ela.
Não posso ser fraco! Eu não serei fraco.
Como se em meus ombros tivesse um fardo e em meu coração um peso, eu decido deixar o
local. Acho que uma noite de sexo irá resolver, só pode ser falta de sexo.
Impossível! Eu, Heitor Fortes! Não! Nenhuma mulher é merecedora de meus pensamentos. Meu
tempo é valioso e não posso ficar pensando no que eu gostaria de fazer no quarto com uma
garota que acabei de conhecer. Pior, com uma garota que trabalha para mim. Mas como
masoquista que sou, amanhã irei levantar sua ficha para saber quem é e de onde veio. É mais
forte que eu, não consigo evitar.
CAPÍTULO TRÊS
MELISSA

O que era para ser apenas mais uma música acabou sendo várias músicas. Eu havia
esquecido a sensação de estar no palco, mas quando Diogo e eu estávamos ali, senti se como nada
tivesse mudado. O resultado disso tudo foi muito sono. E a impressão que tenho é de que faz
apenas cinco minutos que fechei meus olhos e esse maldito despertador teima em me acordar.
Diogo e eu trocamos telefones e combinamos de nos encontrar durante a semana, pois ele
ficará mais alguns dias em São Paulo. Assim que coloquei a cabeça no travesseiro, não parei de
pensar em como Heitor me afetou. Embora a noite estivesse animada, sentia que faltava algo.
Como isso é possível?
Algumas frases da música Don’t Stop Believing começam a acender em minha mente, como se
estivessem me impulsionando a traduzi-las.
“Apenas uma garota do interior
Vivendo em um mundo solitário
Ela pegou o trem da meia-noite para qualquer lugar.”
É exatamente essa a sensação. Eu, a garota do interior, perdida na noite ou perdida dentro
de mim. Minha vontade é entrar naquele vagão, mas o único problema é que ele vai para
qualquer lugar e eu não posso ir a qualquer lugar, não seria seguro.
Por que eu nunca me senti atraída por nenhum homem até Heitor? Por que ele tem que ser
babaca e egocêntrico? Por que ele tem que ser meu chefe? Droga! Eu não tenho uma resposta. A
coisa mais certa a se fazer é manter nossa relação estritamente profissional.
Estou me sentindo horrível, um gosto amargo na boca, nem mesmo um demorado banho fez
com que meu corpo se sentisse aliviado. Preciso urgente de um pouco de cafeína, meu dia com
certeza será longo e estou sem paciência para aturar os rompantes da “bruxela”.
Chego ao escritório atrasada cinco minutos e, para minha surpresa, ao entrar na sala da
Morgana, dou de cara com o principal motivo da minha insônia. Sua feição é de poucos amigos,
Heitor me examina dos pés à cabeça e a sensação que tenho é como se ele estivesse tentando me
despir com os olhos.
— Senhorita Muller, saiba que pontualidade é um dos pontos fortes que um profissional deve
ter. Não preciso dizer que você está atrasada.
— Desculpe-me, senhor. Eu prometo que não acontecerá novamente.
— Corta essa, Melissa. Pode me chamar de Heitor, e, mais um atraso, sua permanência na
empresa começará a ser avaliada. — Ele cruza as pernas e coloca a mão no queixo, enquanto me
fita com um olhar indagador.
Idiota, cretino, arrogante e a lista de adjetivos só aumenta.
— Melissa, sei que foi o Caio quem cuidou de sua contratação, mas, antes de mais nada, eu
preciso te perguntar: por que você está aqui?
Pergunta idiota, tolerância zero!
É claro que não posso falar essas palavras na cara do babaca que, em menos de 24 horas,
tem se mantido refém em meus pensamentos.
— Estou aqui porque me formei em arquitetura e a H&C é uma ótima oportunidade para
abrir portas no mercado de trabalho.
Começo a desconfiar desse interrogatório, ele me olha de uma forma estranha, como se
fosse me atacar a qualquer momento.
— Melissa, mereça estar aqui. Você não tem experiência e ainda não tive tempo para
conhecer o seu potencial. Quero te dizer que temos arquitetos muito mais experientes que você e
que dariam a vida para estar no seu lugar.
Babaca, mil vezes babaca!
Respiro fundo e tento me acalmar para poder responder à altura.
— Heitor, se estou aqui é porque mereci estar. Experiência não quer dizer potencial. Uma
coisa é você estudar arquitetura e outra é ser arquiteto. Consegue entender minha linha de
raciocínio, senhor?
Toma essa, chefinho!
Vejo em seu semblante que está furioso. Heitor respira fundo, ficando mais do que nítido que
tenta se controlar.
— Acho que isso é tudo, Melissa. A propósito, Morgana teve que se afastar por motivos de
saúde, temos um projeto grande em andamento. Esteja na sala de reunião em 15 minutos.
Em silencio, tento sair da sala com a postura inabalável. Sei que não sou boa em esconder
emoções e Heitor deve ter notado a minha insatisfação depois seu discurso.
Quem ele pensa que é? Eu sei do que sou capaz e vou provar a esse babaca.
Cheguei até aqui e nunca deixei ninguém me dizer se sou ou não capaz de ir além...
Chego à sala de reuniões cinco minutos adiantada. A mesa é grande e redonda, todos os
lugares estão marcados, para minha triste desgraça, ficarei frente a frente com o poderoso
chefão. Pelo que entendi, essa reunião seria com a cúpula dos arquitetos, assim que os lugares
começam a ser preenchidos, todos me olham com especulação. Eu detesto ser a caloura.
Heitor, arrogante e seguro de si, dá início à tão esperada reunião.
— Bom dia a todos, como vocês sabem, estamos prestes a fechar um contrato muito
importante. Teremos que trabalhar como um verdadeiro time, para fazer acontecer. A rede
hoteleira de cassinos e hotéis Gonzalez nos deu prazo recorde para a realização desse trabalho.
Eles não nos passaram nenhuma informação de como querem, apenas disseram que adorariam ser
surpreendidos. Embora apenas um de vocês vá assinar o projeto, será um trabalho em equipe, fui
claro?
Todos anuem com um gesto de cabeça. Heitor vai até o datashow.
— Como vocês podem ver no telão, esse é o terreno em que será construído o complexo do
grupo Gonzalez. Peço que façam uma visita ao local, antes de esboçarem os croquis. O engenheiro
responsável pela obra tem todas as informações que precisarem. Na sexta-feira à tarde, teremos
uma reunião com o senhor Gonzalez, onde ele irá aprovar os croquis para darmos início ao
projeto final. Depois de aprovado, começaremos a desenvolver as maquetes, alguma pergunta?
Alguns fazem perguntas inoportunas, despertando a impaciência de Heitor, e assim que
somos dispensados, ele pede que eu fique por mais alguns instantes.
— Melissa, eu não trabalho com amadores, sua permanência nesta empresa dependerá
daquilo que você tem a nos oferecer. Eu sei que será impossível o seu projeto ser escolhido, pela
sua falta de experiência, para não dizer qualificação. Mas tenho esperança de que ele poderá
ser aproveitado em outro momento.
Não me dando o direito de resposta, saiu da sala e deixou-me olhando para a parede. Eu
tento não perder a compostura, apenas uma lágrima solitária insiste em rolar pela minha face, mas
sinto-me humilhada. Heitor foi muito duro com as palavras, sinto como se estivesse sendo ameaçada
a todo instante. Volto para minha sala, reparo que o visor do meu celular está piscando. É uma
mensagem de Diogo, me convidando para almoçar, e algumas chamadas perdidas da minha mãe.
Respondo sim para o convite do Diogo, em seguida, envio uma mensagem para minha mãe,
avisando que à noite retornarei sua ligação.
Posso não ter experiência, porém não aceito ser chamada de desqualificada. Esse maldito
projeto será uma questão de honra, farei aquele babaca engolir cada palavra.
Começo minhas buscas para conhecer meu futuro cliente e decido que amanhã visitarei o
terreno e também um dos hotéis para conhecimento de causa.
Aquele cretino que me aguarde!
Imersa em minhas buscas, não vejo as horas passarem, assim que chego à recepção, sou
recebida com um forte abraço do meu amigo, Diogo. Decidimos almoçar em um restaurante que
fica no mesmo quarteirão, estou maravilhada pela quantidade de fãs que ele conquistou. No
restaurante, fomos obrigados a pedir uma mesa reservada, devido ao assédio dos fãs.
— Diogo, eu ainda não sei se está tudo bem entre a gente. Você nunca me procurou, nenhum
telefonema, um e-mail, nada. Tem ideia de como senti sua falta?
— Sei que te devo um pedido de desculpas, mas acredite em mim, não foi fácil, meu anjo.
Porém foi necessário, eu precisava desse tempo longe. — Ele para de falar, ficando alguns
segundos em silêncio. Como se estivesse fugindo do meu olhar, brinca com a borda do copo.
— Eu não vou te julgar, você teve seus motivos, mas se sumir de novo, cortaremos relações,
fui clara? — Tento atrair a sua atenção, fazendo com que ele seja obrigado a me olhar.
— Muito clara, meu anjo. — Ele pega em minhas mãos e deposita um beijo em cada uma
delas.
Durante o almoço, Diogo fez uma narrativa breve de como tem sido sua vida de ídolo
americano, como conheceu seus amigos e como ocorreu a formação da banda. Estou maravilhada
com o quanto esse tempo fora do Brasil só fez bem para ele. Combinamos que no final de semana
iríamos a São Carlos, juntos, visitar nossa família e matar a saudade dos velhos tempos. Despeço-
me de meu amigo e volto para o escritório.
Passo pela recepção e não encontro Joana, na certa ainda não voltou do almoço.
Apressadamente, entro em minha sala e, para minha surpresa, lá está ele. Achei que já tivesse ido
para seu escritório depois da reunião, mas, pelo visto, não está com pressa, já que está sentado em
minha cadeira.
Droga! Será que não terei sequer um minuto de paz longe da presença desse ser que tanto
me abala?
— Vejo que falhei em minha missão empata foda, seu semblante cansado fala por si só,
Melissa. A noite deve ter sido quente — ele fala, abandonando a cadeira e vindo em minha
direção.
— Escute aqui, seu babaca! — Dou dois passos, quebrando a distância que nos separa,
contenho o impulso de descansar o peso da minha mão em seu lindo rostinho. Sei que ele é meu
chefe e que eu não podia ter me excedido na escolha das palavras, mas dessa vez Heitor passou
dos limites. — Não lhe dei intimidade para falar comigo dessa maneira, você não me conhece, não
sabe nada a meu respeito, então faça o favor de me tratar com respeito. ​
Estou me segurando para não chorar, que mal eu fiz para ele me insultar assim?
Heitor segura meu queixo e levanta meu rosto para que eu possa olhá-lo no fundo dos seus
olhos, o que vejo me assusta, é como se ele fosse um predador ,e eu, presa fácil.
— Posso não saber nada sobre você, Melissa, mas de uma coisa você pode ter certeza: eu
irei descobrir —sussurra em meu ouvido.
Estamos ofegantes, fico sem reação às suas palavras. Heitor sai e me deixa ali, no vácuo.
Maldito!
HEITOR
Procrastinação é uma palavra que não faz parte do meu cotidiano. Chamem-me de louco, se
quiserem, mas eu não poderia esperar até o outro dia para saber mais sobre Melissa. Era
madrugada quando estacionei meu carro na garagem do prédio onde fica um dos meus escritórios,
escritório esse, que é responsabilidade do Caio, onde Melissa trabalha.
No caminho até o vigésimo andar, é como se um misto de ansiedade se apoderasse de mim,
ainda não acredito que estou sendo capaz de me prestar a esse papel ridículo. Eu, Heitor Fortes,
dono da minha vida, o cara que sempre fez um papel de caçador, mas nesse exato momento
começa a se sentir a presa. Eu estou decidido, Melissa será minha para eu fazer o que quiser com
ela na cama, até quando eu quiser. Sem intimidades, apenas sexo.
De longe pude notar como ela era cobiçada pela torcida masculina. Melissa tem presença de
palco, sua voz, uma suave melodia aos meus ouvidos. Que inferno! Eu não posso sequer imaginar
outros homens a tocando.
No bilhete que o cantorzinho mandou a ela, estava escrito em inglês “TODA ROSA TEM
ESPINHOS”, justamente a música de abertura do show. Naquele instante, eu tive vontade de subir
no maldito palco e tirá-la de lá, levá-la para minha casa e possuí-la. Queria saber como seria sua
voz ao som de seus gemidos, estava inegavelmente atraído por ela. Mas nem tudo na vida é como
pensamos e sonhamos. No momento que abri o sistema nos arquivos do RH, minha vontade foi de
quebrar tudo ao meu redor.
Melissa Muller Sanches
Idade: 23 anos
Filiação: Clara Muller e Raul Sanches
Comecei a me sentir trêmulo. Era como se faltasse oxigênio no meu cérebro, além de eu não
conseguir respirar, não estava conseguindo raciocinar. Meu primeiro impulso foi voltar àquele Pub e
arrancá-la de lá para exigir a verdade.
Meu pai foi muito baixo colocando sua enteada infiltrada no meu trabalho. O que eles estão
tramando? Estaria tentando se vingar? São tantas dúvidas que eu não consigo seguir uma maldita
linha de raciocínio.
Vocês já ouviram falar que quem ri por último ri melhor? Que a vingança é um prato que se
come frio?
Eles não perdem por esperar...
Eu me vingaria do meu pai, destruiria Melissa e depois mancharia sua reputação, ela não
passaria de uma vadia sem escrúpulos.
No momento que cheguei em minha casa, não contive meu impulso e quebrei tudo o que
estava diante dos meus olhos, eu tinha que descontar a minha raiva em algo ou alguém. Passei as
últimas horas da madrugada formando uma estratégia para destruir Melissa e vingar-me de meu
pai, mas primeiro eu precisava saber se não estava pisando em um terreno inimigo, eu tinha que
conhecer as estratégias do meu adversário. A ligação da Morgana não poderia ter chegado em
um momento melhor, ela precisou fazer uma cirurgia de emergência e ficaria alguns dias afastada
do trabalho, ocasião perfeita para que eu pudesse passar mais tempo no escritório de Caio e
perto de Melissa sem levantar suspeitas.
Cheguei ao escritório mais cedo, pois precisava estar preparado para quando ela chegasse.
Assim que a porta da sala da Morgana se abriu, por alguns instantes me esqueci de tudo, minha
vontade era rasgar sua roupa e possuí-la em cima da mesa. Linda, meiga e jovial, Melissa estava
usando um vestido preto que a deixava muito sexy. Olhei dentro daquela íris azul e a interroguei,
perguntando por que ela estava aqui, e para minha decepção, ela sustentou seu olhar no meu,
transmitindo-me verdade em suas palavras. Eu estava fodido, mas não me deixaria ser levado tão
facilmente.
Pedi para que em quinze minutos estivesse na sala de reunião, eu não facilitaria, eu a
humilharia, a esmagaria, a enxotaria. Após dispensar os outros arquitetos, pedi para que ela
ficasse e não perdi a oportunidade de chamá-la de desqualificada, seus olhos se encheram de
lágrimas, eu havia feito um ponto ali, mas ainda assim não me sentia feliz.
Para ferrar ainda mais com meu dia, a vi entrar com o aprendiz de estrela americana no
mesmo restaurante onde Caio e eu estávamos. O babaca do meu amigo não perdeu tempo em
alfinetar.
— Heitor, é impressão minha ou você está com torcicolo? Cara, o que foi aquilo ontem à
noite?
— Não sei do que você está falando — desconverso e bebo um gole de água.
— Melissa. Estou falando da nova arquiteta e vou te dar um aviso: ela não serve para você.
— Ele enfatiza o “você’” apontando o dedo indicador para mim.
— Não sabia que tinha se tornado o defensor das donzelas em perigo.
— Eu sei reconhecer caráter, meu amigo. Não vou deixar você brincar com os sentimentos da
Mel, ela é muito pura para isso.
No momento que ouço Caio se referir a ela como Mel, meu sangue ferve e eu tenho que
segurar meu impulso para não socá-lo.
Será que ele está interessado nela?
— Não vou facilitar para você, Caio.
— E eu vou dificultar para você, Heitor. Nós somos amigos há muitos anos, sei de sua
filosofia em relação às mulheres, definitivamente, ela não se encaixa nos seus termos.
Saio do restaurante possesso com Caio, eu não cederia, ele não facilitaria. Mas estou
decidido a me cortar com esse espinho, vou descobrir qual o significado da letra dessa música
para o aprendiz de estrela americana. Vê-los juntos no restaurante só afirmou aquilo que a raiva
não foi capaz de sobrepor: meu desejo por ela.
Aproveito os minutos que ainda restam e entro na sua sala, vasculho seu computador para
tentar descobrir algo, mas para minha infelicidade, não encontro nada que a desabone.
Vejo sua expressão de espanto por eu estar em sua sala e não perco a oportunidade de
ofendê-la. Para minha surpresa, ao mesmo tempo em que Melissa parece ser forte, ela tem a
sensibilidade de uma rosa. Eu precisava quebrar a distância. Queria sentir seu corpo perto do meu.
Por alguns instantes, fui movido pela fúria e pelo desejo, estava pronto para beijá-la. Percebi que
a afetava da mesma maneira que ela me afetava, mas eu não seria fraco, pois assim como eu, ela
também estava ali por vingança.
Deixei Melissa perdida em seus pensamentos e voltei para minha sala. Tinha algumas
decisões importantes para tomar e não consegui me concentrar em absolutamente nada. Eu só
conseguia pensar naquela maldita.
Seu cheiro ainda estava impregnado em meus sentidos, tão doce que me lembrava essência
de baunilha. Fiquei imaginado como seria sentir o frescor de sua pele contra a minha, em como
seria fazê-la gozar olhando na profundidade daquela íris.
Maldita!
Repito a mim mesmo que não serei fraco.
Eu tenho um acerto de contas com o passado e Melissa vai pagar por todo sofrimento que
ela e sua mãe causaram à minha.
CAPÍTULO QUATRO
HEITOR
Se pudesse, apagaria as últimas 24 horas da minha existência. Não consigo apagar a
imagem daquela pequena mulher quase entregue em meus braços. Minha maior frustração é saber
que adorei a sensação de tê-la ali, tão próxima, era como se os seus olhos suplicassem “beije-me”,
como se o seu corpo gritasse “possua-me”. Droga! Cansado de lutar contra o desejo e o ódio,
deixo o escritório no meio da tarde e vou em busca de um colo, algumas horas de estrada valerão
todo o esforço. Estaciono o carro na garagem e decido dar uma volta pelos jardins. Tudo continua
como antes, nada mudou. As flores continuam valorizando a paisagem, as árvores completando o
espetáculo, a suave melodia do cantar dos pássaros transmitindo a sensação plena de paz, um
verdadeiro refúgio.
Depois da morte de minha mãe, minha avó e eu passamos horas tentando desvendar os
mistérios de cada flor, o que as fazia florescer e o que as fazia morrer. Esse lindo cenário era
nosso refúgio. Tristes ou alegres, era aqui que adorávamos passar horas do nosso dia. Dona Diva
e eu nos tornamos cúmplices um do outro, ainda não havíamos superado a perda de meu avô,
quando sofremos mais uma: a morte da minha mãe. Para mim é como se essa ferida nunca tivesse
sido cicatrizada, uma dor que não tem consolo. Com apenas oito anos, eu perdi tudo na vida, até o
amor próprio.
Caminho mais alguns passos e paro em frente a um lindo pé de ipê amarelo, a linda árvore
florida faz sombra para um imenso lago. Costumava me sentar aqui quando criança e contemplar
o horizonte. Minha avó costumava dizer que assim deveria ser a nossa alma e nosso coração:
alegre e florido. Que por mais que o lago tivesse o reflexo da sombra do ipê, a vida deles seguia
seu curso normalmente. Que por mais que nosso coração estivesse triste e que na nossa alma
tivesse a sombra da amargura, deveríamos superar e prosseguir, mas esquecer jamais.
Minha avó sempre foi sábia em suas palavras, sabia o que dizer no momento certo. Quando
deixei São Carlos para começar a faculdade, confesso que por vários momentos tive vontade de
desistir e voltar para perto de minha avó, sabia que ela estava sofrendo com a distância e, mesmo
assim, se fazia de forte para que eu não sofresse. Dona Diva sempre esteve presente em minha
vida, meu pai sempre ausente em suas viagens, minha mãe perdida em seu mundo depressivo.
Tornei-me uma criança solitária e agressiva, os psicólogos diziam que minha avó precisava ocupar
a minha mente, que eu era um garoto inteligente e hiperativo, porém meu avanço e minha melhora
dependiam totalmente da estrutura familiar. Não tínhamos uma família, eu era a família da minha
avó e ela era a minha, mas não tínhamos alicerces, a qualquer momento tudo estava prestes a
desmoronar.
Entregue à depressão, à dor e ao desespero, minha mãe estava viva, mas havia deixado de
viver. Mais tarde, eu me dei conta de que minha mãe, há muito tempo premeditava sua morte,
quando desistiu de nós. Ela era linda mesmo com todos seus defeitos, eu a amava e a admirava
como mulher. Não entendia como meu pai não era capaz de amá-la. Eu sei que ela forçou a
situação para que eles se casassem, mas o dia em que ele saiu de casa foi como se o meu mundo
tivesse desmoronado de vez. Minha avó se fazia de forte, ela precisava manter-se em pé para
que eu não caísse.
Eu era apenas um garoto de oito anos, por mais que tentasse, não entendia o porquê a vida
tinha que ser daquela maneira. A dor foi irreparável, para minha avó por ter que enterrar sua
única filha depois te ter enterrado seu marido, para mim, por enterrar minha mãe. Eu não
conseguia distinguir se a parte mais dolorosa era sua morte ou a causa dela, a maneira como tirou
sua vida.
Era uma manhã triste e chuvosa, eu não queria ir à escola, porque naquele dia minha mãe
havia saído do quarto. Ela pediu que minha avó me deixasse na escola, disse que estava se
sentindo bem e que iria ao cabeleireiro. Minha avó estava radiante por ver que sua filha tinha
tomado a iniciativa de fazer algo para si mesma, era como se minha mãe recuperasse o amor
próprio. Porém, para mim, minha mãe não transmitiu confiança em suas palavras, pois não me
olhava nos olhos e, quando ficamos por alguns momentos abraçados, pude sentir que ela estava se
despedindo.
Sempre fui sensitivo, quando estávamos na metade do caminho, eu pedi para minha avó que
retornasse, algo dentro de mim me dizia para voltar. A cena que presenciamos ainda está gravada
em minha memória. Ela havia tirado a própria vida, e ao lado do seu corpo, estava aquela maldita
carta que guardo até
hoje.
Pelo farfalhar das folhas, sinto a presença de minha avó, só ela tem o dom de me fortalecer
nos momentos em que me sinto perdido e carente.
— Heitor, meu filho! Eu vi quando você estacionou seu carro e sabia que viria para cá. Fiquei
apenas observando você de longe, mas não resisti e vim aqui matar a saudade.
— Ah, Dona Diva, eu preciso tanto do seu abraço...
Ela se senta em silêncio, ao meu lado, deito a cabeça em seu colo e choro igual a uma
criança. Choro como no dia em que encontrei a minha mãe morta. Choro por toda a mágoa e
sofrimento acumulados dentro de mim. Choro por desejar aquilo que não posso ter.
Minha avó nada diz, apenas fica ali, fazendo cafuné na minha cabeça, como se eu fosse
aquele garoto quebrado de oito anos. Ainda estou quebrado, a diferença é que mais de vinte
anos se passaram e acumularam minha dor.
Recomponho-me aos poucos, com muita dificuldade, minhas lágrimas cessam, e assim que
recupero minha voz, indago à minha avó:
— Dona Diva, a senhora nunca me contou como tem tanta certeza que Raul não é o pai da
filha da Clara.
— Ah, meu filho, então é isso? Tem certeza de que quer voltar ao passado?
— Eu não sairei daqui sem a resposta.
— Meu filho, é tão doloroso falar de um assunto que não diz respeito a mim, eu prometi à
sua mãe que não falaria nada. Ela me fez jurar que toda a verdade deveria sair da boca de
Raul.
— Vovó, meu pai morreu para mim no dia que enterrei minha mãe, nada do que ele disser
mudará o passado.
— Heitor, o ódio cega e a vingança destrói. Espero que um dia você se arrependa, Raul é
tão vítima quanto você.
— Chega, Dona Diva, eu sei que a senhora está tentando desconversar, não irá funcionar.
Levanto do seu colo e viro-me de costas para ela, aproximando-me do lago. Falar desse
assunto é doloroso.
— Está bem, meu filho, eu responderei apenas essa pergunta. No dia que a criança nasceu,
sua mãe subornou alguns enfermeiros e conseguiu realizar um teste de DNA.
Fico calado por alguns instantes, tentando entender tudo. Eu era criança, mas ainda me
lembro das discussões dos meus pais.
— Não negue, Raul, a criança que aquela estagiária está esperando é sua!
— Eu adoraria ser o pai biológico, mas infelizmente não sou. Clara tornou-se parte de mim, nós
iremos nos casar e aquela criança passará a ser minha, de qualquer maneira.
Minha avó interrompe minhas lembranças.
— Venha, Heitor. Já está ficando escuro, precisamos entrar. — Minha avó estende sua mão,
esperando que eu caminhe até ela.
Assim como a anterior, minha noite foi infernal. Eu rolei na cama e não consegui ter um sono
sem intromissões, toda vez que dormia, eu sonhava com ela, isso estava começando a me perturbar.
Quando o dia amanhece, eu me apresso, ainda tenho três horas de trânsito até chegar a São
Paulo, hoje não poderei fugir, minha fuga será meus projetos, meu trabalho. Decido ir para meu
escritório, o cheiro de baunilha ainda está impregnado em mim, eu preciso manter uma distância
segura, por mais que eu queira odiá-la, o desejo de possuí-la supera todo o resto.

MELISSA
Isso só pode ser vodu. Depois que Heitor deixou o escritório, foi como se o restante do mundo
tivesse deixado de existir. Desisto. O relógio marca dezoito horas e eu deixo as dependências do
prédio sorrateiramente, me esquivando de todos.
Ligo para minha mãe com a intenção de acalmá-la. Converso com Dona Clara todas as
noites, exceto ontem, ela deve estar uma fera comigo.
— Filha ingrata! Eu sabia que se esqueceria de mim, só não imaginei que seria tão depressa
— lamenta, chorosa, ao atender o telefone.
— Dona Clara, é impossível me esquecer de alguém que faz questão de ser lembrada a
todo instante — digo em tom de brincadeira, tentando amenizar o clima entre nós. — Obrigada
por encher minha timeline de mensagens com flores e corações.
— Filha, hoje você está muito engraçadinha, eu estou ligando para saber se você vira
sábado.
— Contando os dias, mãezinha, sinto sua falta.
— Também sentimos muito sua falta, minha princesa.
Conto para minha mãe sobre meu encontro com Diogo e faço um breve resumo de como têm
sido meus dias no escritório. Despeço-me com a promessa de que, nesse fim de semana, estarei em
casa.
Não sei dizer ao certo quantas horas se passaram, eu tenho medo de olhar no relógio e
constatar que o dia já irá nascer e que passei mais uma noite em claro, e que mais uma vez o
motivo de minha insônia foi meu “poderoso chefão”.
O que Heitor quis dizer quando mencionou que descobriria tudo sobre mim?
Por que ele é sempre tão contraditório? Olhando-me como se me desejasse, mas tratando-me
como se me odiasse?
E por que eu não consigo parar de pensar nele, mesmo ele me tratando tão mal?
Droga, Melissa! Você está sendo irresponsável. Perder o sono por causa de devaneios com seu
chefe não está na lista de prioridades.
Tento a estratégia de contar carneirinhos, mas lá pelo vigésimo eu desisto e decido que já é
hora de levantar da cama. Em passos lentos, caminho até a sala e entrego-me à única coisa que
me acalma: música. Pego meu violão, mas ainda não estou certa de qual canção aliviará meu
estado de espírito. Começo a dedilhar algumas notas e sou conduzida pela letra da música Try, da
Pink.
“Você já se perguntou o que ele está fazendo?
Como tudo virou mentiras?
Às vezes acho que é melhor
Nunca perguntar por quê
Onde há desejo, haverá uma chama
Onde há uma chama alguém está sujeito a se queimar
Mas só porque queima não significa que você vai morrer
Você tem que se levantar e tentar, tentar, tentar.”
Definitivamente, essa atração misturada à raiva que sinto pelo meu chefe, está se tornando
conflitante dentro de mim. Ele me assusta e me desconcerta, me irrita, mas desperta algo que ainda
não sei identificar.
Todas as palavras que Heitor dirigiu a mim foram ásperas, houve até ameaça de demissão,
caso eu não atenda às expectativas no trabalho. Mas seu jeito rude entrou em contradição no
instante em que juntou nossos corpos e um desejo avassalador pairou sobre nós por alguns
segundos. Eu podia jurar que ele me desejou tanto quanto eu, porém tenho a nítida certeza de que
ele me odeia, assim como eu o acho um tremendo babaca.
Sempre fui tímida e reservada, os únicos momentos em que costumo me deixar levar são
quando estou no palco. A maneira como me deixo ser conduzida por letra e melodia me transmite
uma sensação de liberdade e segurança.
Nunca tive um relacionamento sério. Depois que abandonei de vez os palcos, minha atenção
foi única e exclusivamente voltada aos estudos. Sempre fiz tudo certo em minha vida, e cobiçar meu
chefe parece ser errado.
Ele é um babaca arrogante.
Mas e eu? Sou o quê?
Uma garota mimada que não sabe nada da vida e de relacionamentos.
Assim que o dia amanhece, trato logo de expulsar os pensamentos da madruga e decido que
é melhor não alimentar qualquer tipo de esperança. Estou aqui com um único propósito e não posso
perder meu foco.
Sei que Diogo deve estar dormindo, mas não consigo segurar a minha ansiedade. E não será
a primeira vez que eu o tiro da cama.
Aquele cretino do meu chefe não perde por esperar, ele terá que engolir cada palavra.
— Oi, meu anjo, a que devo a honra dessa ligação. — Sua voz carregada de sono soa do
outro lado da linha.
— Oi, Diogo. Perdoe-me por ligar tão cedo, depois que eu explicar, você entenderá, mas
preciso de um favor seu.
— Mel, você sabe que pode me pedir qualquer coisa, o que não entendo é a urgência,
ainda são seis da manhã, meu anjo! O que tem de tão urgente que te fez me tirar da cama há
uma hora dessas?
— Sei que está hospedado em um dos hotéis do grupo Gonzalez, eu preciso que você
consiga uma reunião, ainda hoje, com o Sr. Artur.
— Ah, meu anjo, saiba que vou cobrar caro por esse favor — fala carinhosamente, me
deixando com peso na consciência, espero que entenda que se trata apenas de um favor.
—Você acha que é possível conseguir alguns minutos com ele? — pergunto esperançosa. No
dia que almoçamos juntos, Diogo me disse que estava hospedado no hotel de um amigo, e que em
Vegas fez vários shows de inauguração para o grupo Gonzalez.
— Mel, minha doce Mel, não me subestime. Digamos que Artur não se recusaria a atender
um pedido de um amigo.
— Você é meu herói — brinco, e Diogo insiste em dizer que irá cobrar o favor.
— Assim que eu tiver a confirmação, Mel, te envio uma mensagem com o horário e o local.
Agora me deixe dormir.
Agradeço e despeço-me do Diogo. Sei que estou desrespeitando totalmente a hierarquia,
mas dizem que no amor e na guerra tudo é valido. Heitor me trouxe para esta batalha e não
desistirei até que reste apenas uma sobrevivente: eu!
Esse projeto será assinado por mim, ponto e pronto.
CAPÍTULO CINCO
MELISSA
Vestida para matar, literalmente, é assim que me sinto.
Estou usando um vestido Off White e nos pés calço um salto alto em tom nude. Deixo meu
cabelo solto e faço alguns cachos nas pontas. Aplico uma maquiagem leve, uma sombra marrom
opaca, apenas para marcar o côncavo e olhos delineados de preto, nos lábios, um gloss
transparente para hidratar. Preciso me sentir segura e poderosa na frente do homem que se tornou
uma incógnita para mim.
Chego ao escritório cinco minutos adiantada, não posso dar motivos para o poderoso chefão
avaliar minha estadia na empresa, devido aos meus atrasos. Ligo o computador, salvo minhas
buscas nos favoritos e corro à procura de cafeína. Eu tenho apenas dois dias para deixar tudo
pronto e estou com o tempo reduzido.
Como diria Pedro Bial: “Não existe falta de tempo, existe fala de interesse. Quando a gente
quer, madrugada vira dia, quarta-feira vira sábado e o momento vira oportunidade.”
Este será meu momento. Esta será a minha oportunidade.
Não será um moreno lindo, babaca e arrogante que me dirá o que eu sou ou não capaz de
fazer, ou até onde serei capaz de chegar.
Retorno à minha mesa e percebo que Heitor ainda não chegou. Trato logo de esquecê-lo,
pois não posso me perder em pensamentos, restam-me dois dias para finalizar o esboço do meu
projeto. No entanto, grande parte do meu tempo me pego, sem querer, pensando em quem não
deveria e não merece nem um pouco de minha afeição. Por que minha mente insiste em me trair
desta maneira? Durmo e acordo pensando naqueles olhos intensos me fitando, no seu corpo tão
próximo ao meu, no calor da sua pele e em seu aroma amadeirado embriagando meus sentidos...
Droga, Melissa!
— Bem vamos lá! — Afasto os pensamentos inoportunos. Deixe-me ver o que temos aqui...
DIOGO>>> Segue o endereço do hotel, esteja lá ao meio-dia, meu anjo. Beijos!
Vibro com a chegada da mensagem e volto minha atenção para o trabalho. Ligo para o
engenheiro, confirmo as metragens do terreno e combino de passar depois do almoço para visitar
o local.
Começo a dar vida ao croqui, embasada em algumas pesquisas sobre o Grupo Gonzalez.
Sinto como se tivesse dando um tiro no escuro. A única direção que tenho são os resultados que
consegui pela internet. Preciso fazer o feio transformar-se em lindo, o pobre em rico. E tudo sem
saber ao menos se o Sr. Gonzalez procura algo mais clássico, contemporâneo ou inovador, o que
tem sugado minhas energias.
Ouço o barulho de dedos tamborilando sobre minha mesa e me dou conta de que Caio está
parado diante de mim, com um sorriso de fazer qualquer garota se apaixonar.
— Desculpe-me, Caio, não o vi chegar.
— Eu poderia passar o dia inteiro te vendo trabalhar. A impressão que tenho é que você
está se doando ao máximo a esse projeto, como se a sua vida dependesse disso — diz, sentando-
se à minha frente.
— É exatamente isso que estou fazendo, Caio. — Arrumo uma mecha de cabelo atrás da
orelha e descanso meus braços sobre a mesa. — Estou colocando a minha vida neste trabalho, não
posso falhar.
— Melissa, umas das principais qualidades que observei no dia da sua entrevista foi sua
determinação. Sei que irá surpreender.
— Obrigada, Caio, fico feliz em saber que pelos menos você me dá um voto de confiança. ​-
— Solto uma lufada de ar e relaxo minha expressão corporal. Nunca pensei que viver diariamente
sob pressão pudesse ser tão exaustivo.
— Eu sei que você está se referindo ao Heitor. O cara é um porre, mas um dia você se
acostumará. A propósito, ele só virá na sexta-feira. Eu estou saindo agora e não voltarei mais hoje,
qualquer coisa, me contate pelo celular.
Sinto uma leve decepção ao saber que Heitor só virá na sexta-feira, mas é passageiro.
Pensando bem, é um favor que ele me faz. Estou desgastada emocionalmente e não sei como
reagiria diante das suas grosserias.
— Caio, eu posso te pedir um favor? — Ele faz que sim com a cabeça e me incentiva a
prosseguir.
Revelo o que tenho em mente para a tarde de hoje e, assim que termino de falar, Caio não
para de gargalhar.
— Melissa, o Heitor vai surtar, mas eu não vou dizer nada. Ficarei na torcida, porém tenho
que te alertar do risco que você está correndo. Se der errado, voltará para o Heitor e eu não
quero ver a fúria do meu sócio, estamos entendidos?
— Deixa comigo, Caio, será por minha conta e risco.
Despedimo-nos e ele me deseja boa sorte. Caio, além de meu chefe, está se tornando um
amigo querido, diferente do estúpido Heitor. Olho para o relógio e me dou conta de que, se não
me apressar, chegarei atrasada, o que não poderá acontecer em nenhuma hipótese.
Como ainda sou nova em São Paulo, decido ir de táxi, pois não seria uma boa ideia confiar
em meu amigo GPS, ele já me colocou em várias furadas. O trânsito desta cidade é uma
verdadeira loucura e ainda não sei como Raul me deixou trazer meu carro. Minto. É claro que sei!
Meus pais ficaram trinta dias comigo para eu me adaptar e aprender a andar pelas ruas
principais, principalmente Raul, que é protetor ao extremo.
Quando ele se apaixonou por minha mãe, ela estava grávida. Ele a respeitou e esteve com
ela em todos os momentos, foi assim que conquistou o coração da Dona Clara. Minha mãe também
esteve ao seu lado em todos os momentos, até mesmo quando o filho de Raul se afastou e nunca
mais permitiu que ele se aproximasse. Raul carrega consigo uma grande ferida. Minha mãe e ele
nunca me explicaram toda a história, pois diziam que não era justo que eu sofresse com essa dor,
que as lembranças amargas deveriam ficar no passado e que um dia seu filho o entenderia e o
perdoaria.
Raul me criou como filha, me deu seu sobrenome, não perdeu nenhuma reunião de pais e
filhos na escola. Esteve ao meu lado quando dei meu primeiro passo e quando perdi meu primeiro
dente de leite. Foi ele quem passou remédio em meu machucado quando tive o primeiro tombo de
bicicleta. Sempre foi Raul, o meu pai, meu herói. Seja lá o que tenha acontecido, o único que
perdeu nessa história foi o filho dele, por privar-se de crescer ao lado de um grande homem. Eu
torço para que um dia Raul possa recuperar o tempo perdido.
Desço do táxi e me apresso em passar pela porta de vidro do Hotel Royal Gonzalez. Tudo
aqui é luxuoso e imponente. Eu não estava errada: arquitetura moderna 2020. Enquanto admiro o
ambiente à minha volta, não percebo a presença de Diogo ao meu lado, até que ele me levanta
pela cintura e, ao me colocar de volta no chão, abraça-me com força.
— Meu anjo, colírio para os meus olhos. Sua beleza é fenomenal. — Fita-me com ternura.
Pelo seu olhar, posso jurar que seus sentimentos não mudaram.
— Sempre tão galanteador, Diogo.
Droga! Não estou gostando da maneira que ele prende seu olhar ao meu, eu já vi essa cena
antes e foi em um filme que não gostei.
— Mel, você sabe que nada mudou aqui dentro, não sabe? — Ele brinca com uma mecha do
meu cabelo, deixando-me sem graça.
Salva pelo gongo, eu não tinha resposta para ele, pois não queria magoá-lo. Antes que eu
conseguisse elaborar uma resposta, uma mulher de cabelos loiros e sorriso simpático para ao nosso
lado.
— Melissa, Diogo — cumprimenta-nos com um aceno de cabeça.
— Andréa, obrigado por ter me feito esse grande favor. Na verdade, é para a Mel — diz
Diogo, olhando de mim para ela. — Quero que conheça oficialmente minha grande amiga,
Melissa.
A moça me encara sorridente e, sem pensar duas vezes, puxo-a para um abraço.
— Andréa, obrigada por tudo! Meu futuro depende do resultado desse almoço.
— Melissa, o Diogo me explicou sobre o que se tratava o encontro. O que estava ao meu
alcance, eu fiz, agora depende unicamente de você, eu só posso te desejar boa sorte.
— Muitíssimo obrigada, Andréa — digo sorrindo, tentando transmitir segurança a mim
mesma, enquanto somos guiados até nossa mesa.
Assim que sentamos, Andréa segura minhas mãos, transmitindo boas vibrações. Ela trabalha
há oito anos para o Sr. Gonzalez como assistente pessoal e relações públicas, se tem alguém com
alguma influência sobre o homem, esse alguém é ela. Mesmo Diogo sendo amigo de Artur, ele
pediu para que Andréa verificasse a disponibilidade na agenda.
Conversamos alguns minutos sobre música. No próximo mês terá a inauguração de um dos
cassinos do Grupo Gonzalez, em Las Vegas, e a banda do Diogo é quem fará o show de abertura.
Diogo e Andréa estão empenhados em me convencer a ir a Vegas, no fundo estou vibrando
com a ideia, é algo para ser analisado. Mas saio de meus devaneios ao reparar no homem se
aproximando da mesa. Moreno, alto, ele é muito bonito e seu porte demonstra uma segurança
inabalável. Seus traços são semelhantes aos do ator hollywoodiano Ben Affleck. Engulo em seco.
Rapidamente me dou conta de que estou diante do poderoso Artur Gonzalez. Como deixei passar
esse detalhe? Considerei que o Sr. Gonzalez fosse um homem na casa dos cinquenta anos, no
entanto, o que vejo à minha frente é um lindo homem com no máximo trinta e cinco.
— Melissa, conheça o Sr. Gonzalez. — Ouço a voz da Andréa me chamando de volta ao
planeta Terra. — Senhor Gonzalez, essa é a Melissa, arquiteta da H&C.
Solto uma lufada de ar, gradativamente, e só agora percebo que estava prendendo a
respiração. Artur Gonzalez é intimidante, em momento algum seu olhar desvia do meu. Sinto meu
corpo estremecer, mas apesar de sua beleza evidente, não é a mesma sensação que tenho quando
Heitor me prende com seu olhar. Apesar de temer o meu poderoso chefão na maioria das vezes, o
que sinto agora ao fitar o Sr. Gonzalez é algo semelhante ao pânico. Sinto-me nervosa, acuada.
Ele me passa a impressão de polidez extrema e sua seriedade me deixou insegura.
— Sr. Gonzalez, é um prazer conhecê-lo. Obrigada por aceitar me receber. — Sorrio em
simpatia, tentando dissipar o meu nervosismo.
— O prazer é todo meu, Melissa. Confesso que estou curioso a respeito desse encontro, mas
antes, se não se importarem, podemos almoçar?
Até o timbre de sua voz demonstra poder, o homem é a elegância em pessoa. Ele e Diogo se
abraçam e fazem algumas piadas internas.
— Por mim, tudo bem — concordo, seguido de Andréa e Diogo.
O almoço foi agradabilíssimo, Artur mostrou-se uma pessoa sociável e, apesar de sua
seriedade, descontraído. Não era como eu havia imaginado à primeira vista, ele fez o possível
para que nos sentíssemos à vontade em sua presença, conversando sobre amenidades e até nos
fazendo rir. Minha autoconfiança se regenerou e o nervosismo foi embora.
Após a refeição, Andréa convidou Diogo para um passeio, e eu sei que foi intencional, para
que eu pudesse conversar com o Sr. Gonzalez sobre o motivo que me levara até ali.
Agora estamos frente a frente e tento parecer o mais calma possível.
— Então, Melissa, quando Andréa mencionou esse almoço, confesso que não entendi. Só
concedi esses minutos em consideração ao Diogo. Não deveria ser o Heitor a me procurar para
falarmos desse assunto?
— Bem, Sr. Gonzalez... — começo, mas ele me interrompe.
— Por favor, me chame de Artur.
— Tudo bem, Artur. — Sorrio. — Na verdade, meu chefe não sabe que estou aqui,
provavelmente, se suspeitasse, me demitiria.
Encaro Artur, tentando decifrar sua expressão, mas fracasso. O cara é ilegível.
— Interessante. Prossiga, Melissa.
— Sou a mais nova contratada da H&C, quem me contratou foi Caio. Tenho vinte e três anos,
me formei recentemente e minha única experiência foi meu estágio. Ainda não assinei um projeto,
mas estou muito empenhada e, se eu falhar, ficarei extremamente frustrada. Respiro fundo e espero
para ver qual será a reação de Artur, eu sei que estou correndo um grande risco de ser demitida,
mas, quer saber, não me importo?
— Eu disse ao Heitor que gostaria de ser surpreendido, portanto, não posso falar para você.
Isso seria antiético, não entendo como eu poderia te ajudar, embora esteja torcendo por você
desde já.
— Obrigada por me conceder alguns minutos da sua atenção. Quando comecei essas
plantas, sabia que estava no caminho certo. Mas estando aqui e analisando as estruturas deste
hotel, comprovei minha teoria, porém não poderia continuar sem atrelar tudo isso a um rosto, eu
precisava traçar o perfil do meu cliente. Basta dizer sim ou não.
Enquanto eu faço meu discurso, Artur cruza suas pernas e seu dedo indicador descansa
sobre o queixo, aparentemente, me analisando. Sem delongas, retiro meu Macbook da pasta que
trouxe comigo e abro as plantas. Ele tenta disfarçar seu interesse, mas para mim, fica claro que ele
está gostando do que vê. Quando Artur desvia o olhar do laptop e me encara sem dizer nada,
mantenho-me firme, não me deixando intimidar.
— Um sim ou um não, Artur. É só o que eu preciso.
— Melissa, eu não lhe prometi uma resposta. A única coisa que posso fazer por você, por
enquanto, é ficar na torcida.
Bingo! Eu matei a charada!
Ele deu ênfase em “por enquanto”. Sei que consegui, mesmo que não tenha dito algo
relevante, aquele “por enquanto” significou um sim. Sorrio aliviada, fecho meu Macbook e o abraço
em meu peito. Ainda tenho muito trabalho, mas minha gratificação está nos olhos de Artur. Sei que
marquei um ponto positivo.
Despeço-me r e ele me puxa para um abraço caloroso. Sinto-me constrangida, não quero
que ele tire conclusões erradas, foi apenas um almoço de negócios.
Vou ao encontro de Andréa e Diogo, estou ansiosa para chegar ao escritório e dar
continuidade ao meu sonho, mas antes preciso visitar o terreno. Hoje minha madrugada, com
certeza, virará dia. Ao me despedir dos dois, eles insistem em nos encontrarmos mais tarde, a fim
de jantar e jogar conversa fora, aproveitando a estadia do Diogo no Brasil. Não tive como negar,
ainda mais depois de tudo o que eles fizeram por mim.

HEITOR
Meu dia foi uma lástima, discuti com um cliente, descontei a raiva em minha secretária. Teve
um momento em que tive que solicitar uma teleconferência com os arquitetos envolvidos no projeto
Gonzalez. A cada cinco minutos, eles me telefonavam para fazer perguntas descabidas. Para
aumentar a minha irritação, Melissa não estava no escritório, porque havia pedido autorização do
Caio para fazer sabe-se lá o que, na rua.
Eu não queria ter que fazer isso, mas preciso saber por que Melissa está infiltrada na minha
empresa, meu pai não vai ganhar assim tão facilmente. Pedi ao setor de T.I um relatório completo
de seus e-mails, diariamente, pois qualquer passo em falso e eu acabo com a princesinha do
papai.
Combinei com Caio e Vitor que jantaríamos essa noite, precisamos estar perto e dar apoio
ao Vitor. Embora hoje eu não seja uma excelente companhia, por meus amigos estou disposto a
passar por cima do meu mau humor.
Chego ao Hotel Royal Gonzalez no horário combinado. O restaurante do hotel é um dos
nossos favoritos e hoje é dia de rodízio de frutos do mar. Temos o hábito de nos encontrar
semanalmente para desfrutar do excelente camarão com cerveja.
— Heitor, você não vai contar quem é a dona dos seus pensamentos? — Vitor pergunta com
tom de ironia, ao perceber que estou disperso na conversa.
— Ela é alguém que, com certeza, não cairá nas garras desse a í— provoca Caio.
— Vocês querem, por favor, calar a merda da boca? — brado, irritado.
Hoje meu humor não está para brincadeira.
— Sabe, Vitor, se eu não tivesse tão quebrado por dentro, entraria no páreo. Melissa é linda
e doce, se a vaca da minha ex-noiva não tivesse me deixado com traumas de relacionamentos, com
certeza Mel seria a mulher que escolheria para casar — continua Caio, como se eu não estivesse
aqui.
Vitor sorri.
— Eu ainda não conheço essa preciosidade, mas como não sou adepto a relacionamentos,
ter alguém assim em minha cama, por algumas noites, não me faria mal nenhum.
Assim que meu amigo termina de falar, levanto-me e agarro os colarinhos das camisas dos
dois imbecis.
— Escutem aqui, pois falarei apenas uma vez, fiquem longe da Melissa, fui claro?
— Muito claro — diz Caio.
Os dois caem na gargalhada.
— Idiotas! — Sinto meu apetite ir por água a baixo.
Como se não bastasse meus amigos me azucrinando, viro-me para o lado e meu corpo se
retesa, fico tenso instantaneamente. A poucos metros de distância, vejo a razão do meu mau humor.
O que ela está fazendo aqui?
Caio não demora para notar sua presença.
— Vitor, meu amigo, hoje é seu dia de sorte. Venha, vou te apresentar à Melissa.
Ignorando-me, Caio e Vitor levantam-se e vão até a mesa onde Melissa está em companhia
do aprendiz de rockstar. Observo, furioso, enquanto cumprimentam-na. Ao voltarem para nossa
mesa, olham-me ressabiados e não ousam fazer nenhuma piada, sabem exatamente quando eu
não estou para brincadeiras. Logo o assunto Melissa é esquecido. Caio, a todo o tempo, tentava ser
engraçado para distrair Vitor. Nosso amigo teve mais decepções do que alegrias em sua vida, vê-
lo sorrindo, ultimamente, era algo raro.
Não demora muito para eles flertarem com duas loiras sentadas na mesa ao lado, já posso
imaginar como será o final da noite para os quatro. Enquanto eles flertam, eu fico aqui, desejando
o fruto proibido.
Maldita Eva, que fez Adão sucumbir ao pecado, e maldita Melissa, que me faz desejar algo
que não posso ter.
Como posso querer tanto alguém que entrou em minha vida com a intenção de me destruir?
Meus olhos se voltam mais uma vez em sua direção, no exato momento em que ela se levanta
e caminha rumo aos toaletes. Subitamente, sou tomado por um desejo insano e incontrolável. Não
penso direito, apenas levanto-me apressadamente e, em instantes, estou perto do banheiro
feminino. Sei que é loucura, que me arrependerei tão logo fizer o que tenho em mente, mesmo
assim, não consigo controlar meu impulso. Paro um dos garçons, chamando-o em um canto para lhe
pedir um favor. Um favor muito bem pago, por sinal.
— Não deixe ninguém entrar até que eu saia. Não vou demorar — peço em voz baixa,
colocando algumas notas de cem em seu bolso.
— Certamente, senhor.
Entro no banheiro e a encontro diante do espelho, nossos olhares se conectam e começo a
entender o que é desejar o fruto do pecado. Ela parece bastante surpresa ao meu ver, seus olhos
estão arregalados e sua boca entreaberta, como se tentasse dizer algo, mas as palavras se
recusassem a sair.
— Heitor, o que você está fazendo aqui? — diz, com certa dificuldade.
Eu não posso pensar em uma resposta coerente agora. Diminuo a distância entre nossos
corpos, enlaço minha mão em sua cintura e colo seu corpo no meu.
— Não diga nada — falo, fitando-a intensamente. — Sei que quer isso tanto quanto eu,
apenas sinta como você mexe comigo.
Sem dar espaço para mais perguntas, eu a beijo. Ela tenta resistir, eu insisto um pouco mais e
logo sua língua invade minha boca e suas mãos prendem meu cabelo. Pressiono minha ereção
contra ela, mostrando a intensidade do meu desejo. Nossas carícias se tornam cada vez mais
famintas e, sem pensar direito, coloco-a sentada na bancada da pia e abro suas pernas, ficando
entre elas. Céus! Ela está fodendo com a minha sanidade.
Na ânsia por saciar meu desejo, ergo seu vestido. Ela está usando uma minúscula calcinha
vermelha, despertando dentro de mim um instinto primitivo. Com apenas um puxão, rasgo o
pequeno tecido que me separa do que tanto almejo. Ela abre seus olhos, com o semblante
assustado, mas nada diz. Sem dar tempo para que pense em desistir, começo tocá-la intimamente,
fazendo-a gemer alto e delirante, me estimulando a ir mais além, sem me importar com o fato de
estarmos no banheiro de um restaurante, correndo o risco de sermos flagrados.
Melissa joga a cabeça para trás no momento em que meu polegar roça em seu clitóris.
Nenhuma palavra é perfeita o suficiente para descrever a sensação de vê-la tão entregue.
CAPÍTULO SEIS
HEITOR
Literalmente, provei do meu próprio veneno e, desta vez, quem desempenhou o papel de
“empata foda”, foi meu amigo, Caio. Estávamos movidos por nossos desejos, nossos corpos se
explorando em um ritmo desenfreado. Eu a queria e ela me desejava, embora em alguns momentos
eu tenha detectado resquícios de dúvida estampados em seus olhos, seu corpo me dava a certeza
de que eu precisava. Ela estava afetada por mim, na mesma proporção que eu estava afetado
por ela, era inegável. Éramos um homem e uma mulher em um momento de pura luxúria.
Prefiro me arrepender por fazer, do que por nunca ter feito. E assim eu fiz, agi pelo meu
instinto carnal. Fingi e menti para mim mesmo que Melissa era apenas Melissa, que não existia
Clara e Raul, que não existiam complicações, apenas o desejo de um homem e uma mulher sendo
explorado. Ela estava entregue a mim, aos seus desejos, e se o meu celular não tivesse tocado
naquele instante, eu a teria possuído ali mesmo.
No momento em que o toque do meu celular abafou nossos gemidos, foi como se Melissa
tivesse saído de um transe, então ela me empurrou e saiu de cima da bancada, ajeitou seu vestido
e se olhou uma última vez no espelho, tentando se recompor, antes de fugir. Eu apenas a fitava em
silêncio, tentando processar o que havia acabado de acontecer. Recuperando meu autocontrole,
ajeitei-me e retornei à minha mesa, olhando disfarçadamente na direção onde ela deveria estar,
porém não a encontrei. Por alguns minutos, cheguei a cogitar se tudo aquilo não passou de fruto
da minha imaginação.
— O que deu em você, cara? — pergunta Caio, encarando-me com desconfiança.
— Não estou me sentindo bem, vou embora. — Levanto-me e retiro algumas notas da
carteira, deixando-as em cima da mesa antes de sair sem grandes explicações.
Sempre fui responsável com estudo e trabalho, mas quando não estava ocupado com uma
das duas coisas, gostava de fazer farra. Não tenho dificuldades em conseguir encontros, sempre
me dei bem com as mulheres, mas nunca permiti algo além do sexo e começo a não gostar de ter
alguém presa em meus pensamentos. Desde que conheci Melissa, minha paz acabou. Sua pele doce
e macia, o toque suave de seus dedos em meus cabelos, o som de seus gemidos, música para meus
ouvidos. Ainda é possível sentir o gosto de seu doce beijo em meus lábios. Olhar nas profundezas
de sua íris me desestabilizou, foi como se ela quisesse me salvar do meu próprio abismo. Passei a
noite cheirando sua minúscula calcinha, as lembranças daquele momento íntimo ainda estão vivas
dentro de mim, maldita seja!
Mais uma vez, exorcizo esses pensamentos e procuro me focar em algo que não seja Melissa.
Não posso agir por impulso toda vez que eu a encontrar, preciso manter minha mente aberta e
meus pensamentos no lugar, essa fome voraz por essa mulher está sendo irracional. Sinto-me
atraído, mas é como se meu desejo procurasse motivos para duelar com o ódio.
Maldita seja você, Melissa!
Sou trazido à realidade com um leve bater na porta, nem preciso pensar muito para saber
que se trata de Caio, eu marquei uma reunião de última hora com ele.
— Posso saber o que há de tão importante que a vossa alteza não pode mover sua maldita
bunda até meu escritório? — diz ele ao entrar e fechar a porta.
— Bom dia para você também, Caio — respondo sarcástico, eu, no seu lugar, também teria
ficado irritado.
— Porra, Heitor, isso só pode ser falta de sexo, cara, você está insuportável essa semana!
Nisso eu tenho que concordar com meu amigo, nem eu tenho me suportado nesses últimos
dias. E pensando bem, depois que Melissa começou a assombrar meus pensamentos, não consigo
pensar em outra coisa que não seja fazê-la minha. Dificilmente outra mulher servirá no momento.
— Eu não vou falar sobre a minha vida sexual com você, seu idiota.
— E nem eu quero ouvir sobre a sua frustração sexual, meu amigo. Estou de olho em você,
Heitor, por isso resolvi te ligar ontem à noite, quando você sumiu e nos deixou jantando sozinhos.
— Eu não sei se te agradeço ou se te dou um murro, bem no meio dessa sua cara. — Não
sei qual seria minha reação se tivéssemos feito aquilo que nossos corpos imploravam para fazer.
— Me agradeça, Heitor, eu já te disse, vou dificultar para você. Mel não é como essas
mulheres que você está acostumado a usar e depois dispensar, quando já não lhe servem mais.
— Acho que Melissa está bem grandinha para tomar suas decisões, Caio, ou você está
mesmo interessado nela?
— Cara! Não estou com cabeça, mas saiba você que, em outras circunstâncias, teria feito de
tudo para ser merecedor de sua atenção.
De repente, tomo uma decisão movido por impulso e raiva.
— Droga, Caio! Já chega! Te chamei aqui para falar justamente sobre Melissa, eu quero que
você a demita. — Levanto e caminho até a janela, tentando controlar meu nervosismo.
Caio me encara como se quisesse me atacar fisicamente, isso vai ser mais difícil do que eu
pensava.
— Nunca, nem por cima do meu cadáver. Não vou demitir uma excelente profissional porque
seu chefe está frustrado por não conseguir levá-la para a cama. Heitor, você sabe muito bem que
não é permitido relacionamentos dentro da empresa, dê o exemplo, caralho! — revida Caio,
deixando-me sem argumentos.
— Eu não tenho culpa se você contratou uma desqualificada, sem experiência — tento
objetar. — Melissa não tem perfil para o cargo que ocupa.
— E desde quando, Heitor, você entende de perfis? Melissa vai te fazer morder a língua. E
mais, meu tempo é precioso, se quiser falar comigo, use o telefone, não preciso te dizer que você
também é dono daquela porra, as portas estão sempre abertas, apareça quando for algo
realmente importante.
Sem se despedir, ele simplesmente sai e bate a porta, deixando-me perplexo com sua
reação.
A quinta-feira passou se arrastando e Melissa não saiu de meus pensamentos.
Já é sexta e aqui estou, feito um adolescente com frio na barriga porque, dentro de alguns
minutos, o motivo do meu mau humor e frustração estará aqui, diante de mim. Cheguei adiantado
ao escritório, preciso olhar todos os projetos antes de mostrar ao Gonzalez. É uma conta muito
importante, não podemos falhar, preciso gastar as energias no trabalho para ver se esqueço
minhas batalhas internas, entre o querer e o poder, entre o ódio e a lascívia.
Não me dei ao trabalho de abrir o projeto da Melissa. Movido pela raiva e frustrado pelo
desejo, não voltarei atrás em minha decisão, ainda hoje vou enxotá-la daqui. Eu me recuso a ficar
no mesmo ambiente que ela. Meu pai não poderá ir diante com seu plano de me ver pelas costas e
eu não correrei o risco de ser processado por assédio sexual.

MELISSA
Vocês devem estar se perguntando o que aconteceu comigo depois de quase ter permitido
que Heitor me possuísse dentro do banheiro de um restaurante.
Bem, vamos lá. Eu nunca fui beijada de uma maneira íntima como aquela, quando os lábios
do Heitor devoraram os meus, confesso que, por poucos segundos, tentei resistir, mas a explosão
dentro de mim bloqueou todos os meus sentidos. Por um instante, eu não queria pensar, só precisava
daquele beijo, necessitada daquelas carícias mais do que qualquer outra coisa na vida. A sensação
do seu polegar em meu clitóris é inenarrável. Eu deveria ter sentido vergonha, mas pelo contrário,
a devassidão sobressaiu minha timidez. Posso não saber muito de sexo, mas sei entender a reação
do meu corpo traidor, eu o queria dentro de mim e isso era inegável.
Eu me senti ousada, a sensação de sua ereção pressionando minha pélvis fez com que eu me
sentisse desejada. No momento em que, com apenas um puxão, minha calcinha foi parar em suas
mãos, eu queria que Heitor me possuísse logo para não me dar o benefício da dúvida. Saber que
eu despertava nele a mesma sensação me desestabilizou por completo.
Foi quando o seu celular tocou e me trouxe de volta à razão, um misto de vergonha e
insegurança apoderou-se de mim. Eu não pensei, saí correndo como o diabo que foge da cruz.
Quando retornei à mesa, Andréa e Diogo, percebendo meu estado, ficaram sem entender o que
havia acontecido. Eu disse que não estava me sentindo bem, que deveria ser resultado de toda a
pressão devido ao projeto Gonzalez. Deixei meus amigos no restaurante e fui embora. Assim que
cheguei à minha casa, bloqueei todas as lembranças dos momentos anteriores e procurei minha
fuga: trabalho. Trabalhei durante toda a madrugada, quando eram exatamente quatro da manhã,
vencida pelo cansaço emocional, fui para a cama.
Durante a quinta-feira, eu me ocupei com a finalização do projeto, antes do encerramento
do expediente, eu mandei para o poderoso chefão, para que ele pudesse avaliar, pois na sexta
de manhã todos os projetos seriam apresentados ao Sr. Artur Gonzalez.
Enfim, hoje é sexta-feira, afundei o chão de tanto andar em círculos, Heitor está trancado em
sua sala. Segurei o impulso de invadi-la e correr para seus braços a fim de terminar o que
começamos no banheiro do restaurante. Definitivamente, esses pensamentos me assustam, estou
dividida entre a loucura e a lucidez. De longe, ouço a voz da Joana me trazendo à realidade.
— Mel, visita para você.
— Visita para mim? Eu não me lembro de estar aguardando alguém. — Antes que a Joana
possa responder, Artur entra em minha sala, com sua postura de superioridade.
— Oi, Melissa. Espero não estar atrapalhando, só passei aqui para te desejar boa sorte.
Sorrio, um pouco sem graça. Estendo minha mão para cumprimentá-lo.
— Oi, Artur, é claro que não está atrapalhando. Mas não vou negar que você é o motivo do
meu nervosismo e ansiedade.
Ele sorri simpaticamente enquanto coloca as mãos no bolso da calça do seu impecável terno.
— Eu adoraria acabar com sua ansiedade, porém, ainda não analisei nenhum projeto e
estou indo agora encontrar com Heitor, então relaxa, querida. Confie em você, acredite em seu
potencial. Se não for desta vez, oportunidades não faltarão, só você sabe onde é capaz de
chegar, então conquiste o mundo, esse poder está em suas mãos.
Comovida pelas palavras de incentivo de Artur e abalada emocionalmente pelo meu chefe,
não consigo conter a lágrima que rola em minha face. Artur, como gentleman que é, me puxa para
um abraço solidário. É quando alguém atrás de mim finge estar com uma leve coceira na
garganta, não preciso olhar para saber que é Heitor.
Afasto-me do abraço e encaro o homem responsável pela bagunça dos meus pensamentos,
seu semblante demonstra raiva.
— Bom dia, Sr. Gonzalez, Joana me comunicou da sua presença, nós podemos começar a
qualquer momento — Heitor diz, polidamente.
Não me olha, não me dirige a palavra. Eu me recuso a acreditar que diante de mim está
uma parede de gelo, diferente da lavareda de fogo que fez meu corpo sucumbir aos desejos
carnais.
Cretino, babaca, ordinário!
— Estou pronto, Heitor, só passei para dizer oi à Melissa, já podemos ir. — Artur percebe a
tensão entre mim e Heitor. Piscando um dos olhos e com um sorrisinho disfarçado, ele se aproxima e
me dá um beijo no rosto, sussurrando em seguida: — Até depois, querida.
Não preciso dizer que a atitude do Sr. Gonzalez foi intencional, ele quis provocar Heitor e
sobre isso não me restam dúvidas. Em nosso primeiro encontro, ele foi gentil e atencioso, eu retribuí
a simpatia e fiquei grata por ele me receber. Não estou certa se quero essa proximidade,
adoraria ganhar um amigo, mas senti que havia algo implícito naquele inocente beijo no rosto,
somado ao termo “querida”, com o qual ele decidiu atribuir a mim. Mas tudo pode ser fantasia da
minha cabeça, afinal, estou nervosa e a presença de Heitor me intimida e me deixa confusa.
Ele não me dirigiu a palavra e acompanhou Artur rumo à sua sala. Deixo-me cair em minha
cadeira e cubro meu rosto com as mãos.
É isso aí, Melissa. Você fez tudo o que estava ao seu alcance, agora, seja o que Deus quiser.
Deus e Heitor.
Cansada de esperar em minha sala, vou até a recepção. Já faz uma hora que eles estão
trancados na sala do poderoso chefão, o escritório está um pandemônio, pessoas abandonando
suas salas e andando de um lado ao outro, tamanha ansiedade. Alguns jogadores do “time de
arquitetos”, como Heitor costuma chamar, estão em posição de ataque, outros, em posição de
defesa, alguns confiantes e outros inseguros, tudo isso para provarem o seu valor.
Nesse momento, estamos na cafeteria do escritório, que fica anexo à recepção.
Caio, percebendo o caos do ambiente, se fez presente para tentar acalmar os ânimos e tirar
a ansiedade de todos por aqui. Esse projeto é muito importante, afinal, estamos falando do Grupo
Gonzalez, e quem assinar esse contrato estará com a carreira ganha.
— É impressão minha ou tem algo perturbando sua linda cabecinha? — Caio se aproxima,
parando ao meu lado e colocando as mãos no bolso de seu impecável terno.
Da janela, é possível observar a imensidão de prédios à nossa volta, seu olhar contempla os
inúmeros edifícios, assim como o meu.
— Na verdade, Caio, esta semana foi muito tensa em virtude desse projeto, e por se tratar
do meu primeiro, estou na expectativa.
— Ah, Mel, eu te entendo. Quando Heitor e eu iniciamos, em alguns momentos, nos sentíamos
assim, nos cobrávamos muito e não admitíamos falhar.
Ouvir Caio falar de Heitor me desperta a vontade de saber mais sobre ele, como se
conheceram, desde quando são amigos. Quero tanto entender por que ele é tão frio na maior
parte do tempo.
— Você não deveria estar participando da apresentação dos croquis junto ao Heitor? —
pergunto, tentando entender por que não está lá, sendo que ele é sócio. Ele olha para mim e sorri.
— Eu sou a mente que pensa e Heitor é quem executa. Trabalhamos em parceria com o
grupo Gonzalez há anos. Primeiramente, Heitor e Artur verificam os croquis e, depois de aprovado,
é feita uma reunião com os arquitetos, para que o projeto original comece a ganhar forma. E é aí
que eu entro, ajudando na elaboração e no desenvolvimento de todo o resto.
— Espero que o Sr. Gonzalez se agrade dos croquis — digo esperançosa, sorrindo para
Caio.
— É o que eu também espero, Melissa.
Ouvimos alguém se aproximar e nos viramos para encontrar Vitor. Os sócios se
cumprimentam com um aperto de mão.
— Bom dia, Caio. — Sorrio e aceno para ele.
— Olá, Melissa, é um prazer revê-la.
— Prazer é todo meu, Vitor.
— Caio, pelo bem de sua integridade física, posso saber o que você e a Mel fazem aqui,
fora de suas respectivas salas? —Vitor pergunta em tom de deboche.
Como assim, integridade física?
— Estamos todos entediados, enquanto Heitor e o Sr. Gonzalez não dão sinal de vida, nós
estamos aqui, esperando o tempo passar.
— Recebi uma ligação de Heitor, parece que o contrato será fechado, ele pediu que eu
estivesse presente.
Quando eu penso em perguntar ao Vitor se Heitor revelou mais alguma coisa, Joana nos
chama e avisa para que, em cinco minutos, estejamos na sala de reunião.
A sorte está lançada.
CAPÍTULO SETE
HEITOR
Dizer que eu estava com medo de enfrentar Melissa seria eufemismo de minha parte.
Mantive-me trancado no escritório, até não conter o impulso de ir à sala dela para devorar
aqueles lábios deliciosos e sentir novamente seu perfume inebriante. Só não estava preparado
para presenciar aquela maldita cena.
Assim que Joana percebe que estou indo em direção à sala da Melissa, vem ao meu
encontro e me informa de que ela está ocupada com o Sr. Gonzalez. Não me dou ao trabalho de
bater, simplesmente abro a porta e entro.
Fico totalmente sem reação, ainda estou sem entender. A dona dos meus pensamentos mais
promíscuos, ali, nos braços de Artur Gonzalez.
Não demora muito para eu compreender a realidade. Melissa não passa de uma caçadora
de fortunas, assim como sua mãe, uma cadela vadia. Antes de ontem, estava sem calcinha no
banheiro de um restaurante, pronta para se entregar a mim, e hoje está nos braços de outro.
Maldita!
Ainda não entendo por que, ao pensar em Melissa dessa forma, sinto um aperto no peito.
Minha vontade é quebrar a cara do Artur e deixar bem claro para ele que ali é território
privado. Mas não posso fazer o papel de marido traído, porque não temos nada e, apesar da
atração que sinto, tenho muita raiva por ela ser quem é, por pertencer à família que pertence.
Engolindo toda a minha frustração, trato-os polidamente e a ignoro.
Artur e eu deixamos a sala de Melissa, em silêncio, e nos dirigimos até a minha, para
analisar os croquis. A tensão entre nós é quase palpável, mas nosso relacionamento é profissional,
não devemos satisfações um para o outro e, apesar de estar muito puto, me contenho e retomo meu
autocontrole, mas reparo em como Artur está mudado. Sua indiferença é irritante, ele age como se
eu não estivesse presente, analisa as plantas e não demonstra nenhuma emoção, porém, quando
abre o projeto de Melissa, esboça um sorrisinho petulante.
Assim que Artur passa para o próximo projeto, disfarçadamente, verifico o de Melissa, que
eu propositalmente havia ignorado antes. Que porra é essa?
Esse croqui não poderia ter sido desenvolvido por alguém que nunca assinou um projeto
antes, ela é uma aluna recém-saída da faculdade e colocou meu time de arquitetos no bolso. Meus
olhos ainda não acreditam no que estão vendo, Caio tinha razão quando disse que eu morderia a
minha língua. Melissa é realmente talentosa e, se não está aqui porque meu pai a colocou, é
porque merece estar.
Ainda estou em choque por me dar conta de como eu estava errado a respeito de sua
capacidade profissional, sentindo-me um babaca por tê-la tratado daquele jeito.
Droga! Detesto ter que dar o braço a torcer. O projeto de Melissa é inovador e, de longe, o
melhor dos que foram apresentados.
Aguardo Artur terminar sua avaliação. Ele parece fazer questão de me torturar com seu
silêncio sepulcral. Preciso me conter para não demonstrar minha ansiedade, pois sei exatamente o
projeto que irá escolher e estou ciente de que ele fará disso tudo um grande show. O cara é
arrogante, prepotente e está agindo como um babaca. Mas tem caráter e não posso dizer o
contrário, pois o conheço há anos.
— Então, Artur, já fez sua escolha? — pego-me dizendo, sentindo a ansiedade tomar conta
de mim. — Eu gostaria de ouvir suas considerações.
Ele me deixa no vácuo por alguns minutos, como se estivesse concentradíssimo enquanto
analisa as plantas, antes de voltar sua atenção para mim.
— Sim, Heitor, já fiz minha escolha — respondeu seriamente. — Porém, quero ressaltar como
você teve sorte, caso contrário, não assinaria com a sua empresa e romperíamos uma parceria de
anos, por você ter estagnado.
Como é que é? Eu ouvi direito?
Artur deveria pensar duas vezes antes de sair falando merda por aí.
— Não entendo onde a sorte se encaixa aqui, Artur — blefo, pois sei exatamente aonde ele
está querendo chegar.
— Estou me referindo à sua sorte por ter Melissa na equipe, eu sei que ela está na empresa
há menos de uma semana e começou com o pé direito, salvando a cabeça do chefe.
— Trabalhamos em parceria há anos, Artur, você nunca se referiu especificamente a um de
meus arquitetos. Todos se preocuparam em atender suas recomendações, como sempre fazem.
Obviamente, um deles iria se destacar mais.
Seu sorriso sarcástico não passa despercebido. Essa é a parte ruim de ter que manter a
postura profissional, os sapos que preciso engolir para não colocar tudo a perder, principalmente
se tratando de um cliente importante como Artur Gonzalez.
— Heitor, eu fui bem claro quando pedi algo diferente. Esperava superação e inovação,
queria ser surpreendido, mas de forma positiva, e o que vi aqui foi mais do mesmo. Seus arquitetos
simplesmente modificaram alguns detalhes das plantas anteriores. — Alterou a voz, demonstrando
irritação. — Está tudo igual, e perdoe o meu palavreado, uma grande merda! Era isso que você
tinha para me apresentar, Heitor?
Droga!
Confesso que não esperava levar um esporro de Artur Gonzalez, mas reconheço — a
contragosto — que ele tem razão. O turbilhão de emoções com a descoberta de Melissa ser
enteada de meu pai, somado à minha frustração sexual, tirou minha concentração e prejudicou meu
desempenho no trabalho. Não acompanhei minha equipe, deixei tudo nas mãos deles e sei que isso
não podia ter acontecido. Pena ser tarde demais para reconhecer minha falha.
— Artur — começo, tentando contornar a situação. — Não tínhamos um ponto de referência,
partimos dos projetos anteriores, pois era a nossa base de como os cassinos e hotéis estão
estruturados. Não estou entendendo aonde você está querendo chegar.
— Sim, você sabe. Eu pedi novidade e o único projeto diferente foi o da Melissa, que, a
propósito, você nem viu. Este será meu último contrato com sua empresa. Para mim está mais do que
provado que você não sabe reconhecer um potencial.
Artur pode ter certa razão, mas está extrapolando em sua petulância. Estou cansado de
bancar o amistoso.
— Desculpe-me, Artur. Mas você está levando as coisas para um nível pessoal. Reparei no
seu interesse por Melissa, sei que o projeto dela é melhor do que imaginei, mas sua escolha não me
parece baseada apenas na excelência do trabalho que ela realizou. Você a está favorecendo. Há
segundas intenções por trás disso? — Tento manter a voz calma, mas me altero um pouco.
— Reparei na sua reação quando me viu com Melissa, acredito que também haja segundas
intenções por trás da maneira arrogante com que trata a moça.
— Isso não é da sua conta! — grito, sem conseguir me conter.
— Também não é da sua conta se eu estou ou não interessado nela — disse Artur, sem se
abalar com a minha irritação. — Mas ao contrário de você, não deixei que os meus sentimentos
prejudicassem meu julgamento profissional. Melissa é merecedora, foi corajosa o bastante para me
procurar, se dedicou para elaborar algo ousado e inovador, sem fugir dos padrões que o Grupo
Gonzalez considera de suma importância. Ela não ficou atrás de uma mesa maquiando um projeto
já existente para poupar tempo, pelo contrário, agiu, correu atrás e conseguiu me surpreender
positivamente. Esses motivos são suficientes para você entender o porquê escolhi o projeto dela?
Como assim, Melissa foi procurá-lo?
— Não sei por que é tão rigoroso com ela — continuou. — Mas se não sabe valorizá-la, eu
o farei. Está decidido, nosso último contrato será com o projeto da Melissa.
Engulo em seco. Se eu não me contiver, acabarei estragando tudo por causa de uma mulher,
Caio e Vitor ficarão putos comigo e eu serei o culpado por um grande rombo na empresa.
— Tudo bem, Vitor irá cuidar de toda a burocracia. Nos reuniremos em breve.
— Só mais uma coisa, Heitor. Depois deste projeto, Melissa virá trabalhar comigo na
construtora que o Grupo Gonzalez acaba de adquirir.
Nem fodendo que ela trabalhará com esse idiota!
— Melissa é minha funcionária e não trabalhará para você nem daqui a mil anos! — grito
novamente, perdendo a compostura.
Minha paciência com esse cara já se esgotou. Não espero sua resposta, saio da sala e o
deixo sozinho. Preciso esfriar minha cabeça, é muita coisa para digerir.
MELISSA
Realização é a palavra que me define. Assim que entramos na sala de reuniões, Heitor
começa a falar dos pontos positivos e negativos dos projetos. Seu semblante está sério, ele éduro
com as palavras, chamando todos de incompetentes, um verdadeiro massacre. Já fui humilhada por
ele antes, mas não chegou nem perto do episódio de hoje. Se meu projeto não for aprovado, com
certeza eu me demitiria para evitar que ele me humilhasse novamente.
Assim que Artur Gonzalez entra na sala de reuniões, as apresentações começam. Quando
chega minha vez, estou trêmula, minhas mãos suam frio e preciso de alguns instantes para
recuperar meu autocontrole e confiança. Foco minha atenção em Artur. Ele transmite segurança
através do seu olhar. Conduzo minha apresentação explicando meu ponto de vista, de por que
precisei mudar a direção em alguns momentos para chegar ao resultado final. Quando finalizo,
Heitor me surpreende ao aplaudir de pé, em seguida, todos vibram e aplaudem. Para minha
surpresa, Artur vem ao meu encontro e me abraça pela cintura, tirando meus pés do chão. Fico
constrangida, pois não quero que meus colegas pensem que estamos dormindo juntos e por isso
meu projeto foi aprovado.
Dada por encerrada a reunião, despeço-me de Artur e agradeço pelo voto de confiança.
Ele me convida para jantar e eu invento uma desculpa, desviando-me do seu contive. Joana e eu
nos reunimos com Caio na recepção para combinarmos a noite de comemoração, quando o chefe
furioso aparece com cara de poucos amigos.
— Vocês não deveriam estar trabalhando? — pergunta o zangado, acabando com nossa
diversão.
Caio faz de conta que Heitor não está presente, continua com o bate papo animado,
despertando a ira de Heitor.
— Mel, Joana, encontro vocês às dez. Hoje a noite é uma criança.
Ditas estas palavras, ele sai, ainda ignorando Heitor, que não se dá por vencido e nos
manda trabalhar, indo atrás de Caio.
Retorno para minha sala e ligo para minha mãe e Raul. Conto a eles que meu projeto foi
aprovado. Eles ficam radiantes com a notícia. Conversamos por mais alguns minutos e combinamos
que amanhã eu irei para o colo da mamãe. Antes de o expediente terminar, recebo um buquê de
rosas vermelhas com um bilhete.
Hoje você foi brilhante, adoro sua delicadeza e ousadia. Isso é só o começo.
Adoraria comemorar com você, não aceito não como resposta.
Aguardo seu contato.
A.

Ah, Melissa, acho que você está em sérios apuros.


Encerro minhas atividades do dia e guardo todas as minhas preocupações para segunda-
feira. Nada irá estragar a minha noite e nem o meu fim de semana.
***
Demoro um pouco mais que o esperado na banheira, não estava em meus planos, porém,
quando encostei a minha cabeça na borda e fechei meus olhos, sua imagem surge. Heitor tem
estado diariamente em meus pensamentos, toda essa loucura está sendo desgastante. Preciso
superar essa louca e avassaladora atração que sinto por ele.
Já em frente ao espelho, meus olhos brilham de alegria diante do resultado final.
Um vestido curto, Off White, mais mostra do que esconde, minhas costas estão nuas, sinto-me sexy,
e se a minha mãe me visse dentro dele teria um infarto, com toda certeza.
Hoje eu quero extravasar geral, então decido que a melhor opção é ir de táxi. Chego à
boate no horário combinado, Caio e Joana já estão me esperando. A casa está lotada, a banda
do Diogo vai animar a noite, se Andréa não tivesse conseguido colocar nossos nomes em uma lista
VIP, nós teríamos que enfrentar a fila que está virando o quarteirão.
Assim chegamos ao camarote, para a minha surpresa, vejo Heitor, mais lindo do que nunca. A
calça jeans surrada e a camiseta preta, definindo seus músculos, o deixam gostoso pra cacete. Tento
disfarçar meu desejo descabido pelo “senhor tentação” e me concentro em meus amigos, uma
tarefa quase impossível, já que ele está me despindo com os olhos.
Viro-me na direção de Caio, que chama todos para um brinde em comemoração ao meu
sucesso.
— E aí, Mel, preparada para nossa viagem amanhã? — pergunta Diogo. — Sairemos às
sete, então beba com moderação.
— Preparadíssima — digo sorrindo. — É você quem deveria se preocupar em acordar
cedo, não tenho esse problema.
— Não sei qual seria a programação de vocês, mas com a correria de hoje, me esqueci de
comunicar à Melissa que amanhã ela terá que trabalhar — Heitor fala paulatinamente, ao se
aproximar e interromper nossa conversa.
Como é que é?
— Sinto muito, Heitor, amanhã não irei comparecer, você pode descontar o dia, se quiser.
Ele me encara com aqueles olhos expressivos, nada diz, mas sei que está tramando algo.
Diogo se despede e vai para o palco, dar início ao Show. Andréa e Joana não conseguem
segurar a euforia e invadem a pista de dança. Caio e Vitor saem de propósito, deixando-nos
sozinhos.
Heitor nada diz, simplesmente vem em minha direção, como se eu fosse uma presa fácil, e me
encurrala no canto mais escuro do camarote, tomando-me em um beijo agressivo. Sinto sua ereção
apertar o meu corpo, seus lábios estão famintos e suas mãos fazem um emaranhado de nó em
meus cabelos. Eu não consigo resistir ou protestar, é sempre assim quando estamos perto um do
outro, ele me tem.
— Ah, Melissa — murmura ao se afastar, fitando meus olhos. — Não diga nada, aproveite o
momento.
Droga, Melissa, não seja fraca!
Está na cara que isso não vai acabar bem. Ele esfrega sua rigidez em mim, intercalando
entre chupar meus lábios e beijar meu pescoço.
Céus! Eu não consigo raciocinar.
— Heitor, não entendo como você pode me desejar desse jeito, se faz questão de mostrar
que me odeia. Isso é muito contraditório.
— Ah, minha pequena, tem razão, eu deveria odiá-la. Mas meu desejo é intenso, mesmo
sabendo quem você é, meu corpo não consegue te rejeitar.
Como assim, quem sou eu?
Heitor está me confundindo, porém meu desejo por ele também é mais forte que a razão. Eu
sei que vou me arrepender, mas o que posso fazer, se é mais forte que eu?
— E quem sou eu, Heitor? — pergunto, tentando não perder o controle enquanto as mãos
dele descem pelo meu corpo e apalpam meu traseiro.
— Alguém que não deveria ter entrado na minha maldita vida — sussurra em meu ouvido,
afastando-se em seguida para me olhar nos olhos, de um jeito estranho, enigmático. — Está pronta
para encarar as consequências?
Como assim, encarar as consequências?
Estou com medo de ler nas entrelinhas, e, ainda assim, não consigo me manter distante. Anuo
em silêncio, sem pensar se isso realmente faz sentido.
Sinto as mãos de Heitor entrarem por baixo do meu vestido, apertando o interior de minhas
coxas e alcançando o tecido da minha calcinha. Sei que deveria pará-lo, mas não quero. Estou
muito mais consciente agora do que quando estivemos no banheiro do restaurante. Vê-lo ali, diante
de mim, tão ousado, diferente de como é no dia a dia, deixa-me entorpecida, o desejo, a loucura e
a lascívia tomando o lugar da minha lucidez.
Quando penso em protestar, sinto os dedos de Heitor escorregarem para o meu clitóris,
deixando-me a ponto de explodir. Não resisto ao impulso e agarro seus cabelos, porém meu
gemido, que até então estava preso na minha garganta, faz com que Heitor volte a si.
— Melissa, não podemos fazer isso aqui. — Ele tem razão, poderíamos ser flagrados a
qualquer instante. — Vem comigo?
Estava pronta para dizer não, mas assim que ele para de me tocar e leva os dois dedos que
me acariciaram à sua boca, chupando-os, tudo o que consigo fazer é balançar minha cabeça,
aceitando seu convite. Sou puxada pela mão e conduzida para fora da boate, tudo muito rápido.
Céus! Acho que estou completamente fora de mim...
CAPÍTULO OITO
MELISSA
Assim que chegamos ao estacionamento, Heitor deita-me no capô do seu carro e sinto o frio
da lataria em minhas costas. Devora-me com seus lábios, fazendo com que o calor do seu beijo se
espalhe por todo o meu corpo, deixando-me aquecida. Nossos corpos têm a necessidade de ficar
colados para que um possa aquecer o do outro.
O sabor do seu beijo é viciante, eu passaria horas sendo devorada por esses lábios quentes
e macios e, ainda assim, não seria o suficiente para acalmar meu desejo, a minha fome.
— Ah, pequena, por que você mexe tanto comigo?
Sinto-me pequena e frágil diante da virilidade de Heitor, seu corpo deitado sobre o meu é
como se fosse uma manta de algodão egípcio cobrindo uma cama com o mais perfeito caimento.
Sinto o raspar de sua barba em minha pele, isso tudo floresce em mim sensações até então
desconhecidas. Fecho meus olhos e por alguns segundos esqueço que estou deitada sobre o capô
de um carro, em um estacionamento público, apenas me deixo levar pelo momento. Depois de um
tempo entre beijos e carícias, Heitor se afasta e me acomoda no banco de carona do seu carro,
dando partida em seguida. O caminho até a casa dele é feito em silêncio, o único barulho audível
é nossa respiração descompassada. Minha razão começa a gritar dentro de mim e recuso-me a
ouvi-la. Esta será, com certeza, a maior loucura que cometo na vida.
Heitor estaciona e abre a porta do carro para mim, segura minha mão e nos conduz até o
elevador, sinto-me um pouco tensa e ele percebe, me acalmo quando ele sorri e aperta minha mão,
em um gesto carinhoso.
Assim que entramos na cobertura de Heitor, aprecio cada detalhe, tudo aqui é requintado e
luxuoso, porém parece frio e impessoal. Ele caminha em silêncio até o aparelho de som e liga uma
suave canção, na voz de Ricky Martin, Mátame Otra Vez. Em silêncio, diminui a distância entre nós.
Ampara-me em seus braços, deixando-me perdida e sem reação, tudo em seu corpo exala luxúria.
Perco-me na letra da canção enquanto Heitor me abraça, como fôssemos apenas um. Não existe
outro lugar no mundo em que eu deseje estar, neste momento, além dos braços deste homem que
me cega, embriaga-me e deixa-me sem saber quem eu realmente sou, ou para onde irei. Ele nos
conduz no ritmo da melodia e eu não quero admitir, não posso sequer pensar em dizer isso em voz
alta, mas a razão de eu estar aqui e agora, não é apenas a insanidade, fui guiada pelos meus
sentimentos.
Melissa, sua burra! Você está apaixonada pelo chefe.
“Mate-me outra vez, mate-me, eu te rogo
Que não há maneira mais bela de morrer
Que em seus braços, lentamente
Mate-me outra vez, mate-me sem medo
Que prefiro perder esta guerra
A começar de novo
Sem você, ooh, ooh...”
Seu cheiro me enlouquece, seu beijo me desconcerta, seu toque eleva meus desejos profanos
ao último estágio. Eu o quero, o desejo, preciso de seu corpo colado no meu, sua boca devorando
a minha.
Estou uma bagunça emocional e estar aqui, em seus braços, deixa-me impotente. Eu quero
tudo o que ele está disposto a me oferecer, preciso dessas sensações mais do que preciso do ar
para me manter respirando.
Assim que nossos olhos se abrem, Heitor segura meu rosto com as duas mãos e beija-me
como se estivesse sugando algo do meu interior. Afasta nossos lábios e me pega no colo, mais
alguns passos e sou depositada em uma enorme cama.
Cuidadosamente, ajuda-me a retirar meu vestido, seguido de minha calcinha, e quando estou
completamente nua, é como se ele idolatrasse o meu corpo.
— Tão linda, tão pequena, tão perfeita e totalmente minha...
Com seus dedos percorrendo meu corpo, seu olhar fixo no meu. Estou nua e meus seios
obedecem ao comando de Heitor. Por alguns minutos, fecho os olhos e posso sentir o calor da
minha pele, ainda não acredito que tive coragem de chegar até aqui.
— Minha pequena, abra os olhos. Não tenha vergonha, se entregue ao momento.
Nosso beijo começa a tomar proporções mais agressivas, mas, carinhosamente, abre minhas
pernas e encaixa seu corpo ao meu. Sua língua deixa rastros molhados pelo meu corpo. Quero
gritar. Quero sucumbir aos meus desejos mais insanos. Esse homem está me reduzindo ao pó, como
se tivesse se apoderado dos meus sentidos. Quando ele se delicia em meus seios, reveza em
abocanhar meus mamilos e beijar suavemente meu pescoço, sinto que vou explodir.
— Melissa, sei que você está pronta para mim, mas antes eu preciso sentir o seu sabor —
dito isto, Heitor explora meu sexo com sua língua, uma sensação arrebatadora.
Agarro seus cabelos e pressiono meus pés no colchão, elevando meus quadris, dando a ele
total acesso. A magnitude desse momento é sublime, nunca pensei que esta seria a sensação. Fecho
os olhos e me entrego por completo a esse moreno em fúria, meu corpo agora obedece a todos os
seus comandos, uma perfeita simetria.
Quando estou prestes a chegar ao êxtase, Heitor retira sua língua e, apressadamente, se
livra de suas roupas. Solto um gemido de frustração por ele ter parado, mas a visão de seu corpo
nu me faz querer apreciar cada detalhe.
Assim que ele se deita sobre mim, retomando o beijo, aproveito para acariciar seu corpo,
sentindo os músculos dos braços e suas costas nuas.
— Está ciente da loucura que estamos prestes a cometer? — questiona, olhando-me nos
olhos, pairando sobre mim. — Ainda dá tempo de desistir, Melissa.
Jamais!
Eu o quero, preciso de tudo isso para me sentir completa, desejo-o insanamente e isso é
irrevogável.
— Eu quero você, Heitor. Continue...
Sinto seu membro em minha entrada úmida. Em hipótese alguma posso demonstrar medo,
amanhã terei tempo suficiente para pensar no hoje, agora eu só preciso que ele me possua e que
me faça dele. Mais uma vez, elevo meus quadris, implorando para que ele me tome. Percebendo
a minha urgência, beija-me e acaricia minha entrada com o polegar, deixando-me ainda mais com
o desejo à flor da pele.
— Se continuar assim, eu não durarei muito tempo. Depois que eu entrar em você, não serei
delicado, Melissa. Vai ser do meu jeito.
Cravo minhas unhas em seus bíceps, o incentivando a continuar. Procuro não pensar e evito
ao máximo demonstrar insegurança, não quero deixar que meus medos decidam por mim, eu trilhei
esse caminho do qual não me arrependo. Está na hora de viver a vida e deixar de ser certinha e
sistemática. Heitor começa a entrar em mim, sem pressa, mas logo seu corpo fica em estado de
alerta. Sei que foi impedido de prosseguir, devido ao bloqueio do hímen. Nesse momento, meu
corpo fica tenso e minha segurança, que parecia sólida, começa a desaparecer gradativamente.
— Que porra é essa, Melissa? — pergunta surpreso, ainda dentro de mim, porém sem
avançar. — Caralho! Eu não acredito que você é virgem! Não pensou em me contar esse detalhe?
— Tem razão, Heitor. É apenas um detalhe — digo, fazendo-o perceber que não há dúvidas
sobre minha decisão. — Resolva isso.
Eu não me arrependo de ser virgem, não imagino outro a não ser Heitor para tornar esse
momento inesquecível. Confesso que o medo do desconhecido me assombra, porém estou disposta
a viver e a desfrutar desse momento que será único e, de certa forma, especial.
— Tem noção da responsabilidade que está atribuindo a mim? — Ele parece perplexo.
Não desvio meu olhar, mostrando a ele a confiança que sinto.
— Por favor, Heitor, continue. Preciso de você.
Ele fecha os olhos por alguns segundos, como se estivesse lutando uma batalha interna. Por
um momento, sinto que irá recuar e mudar de ideia.
— Droga, Melissa! — diz, abrindo os olhos e recostando sua testa na minha. — Eu ainda vou
me arrepender de tudo isso, mas agora eu só quero me enterrar em você. Sabe que vai doer, não
sabe?
Faço que sim com a cabeça.
Mais uma vez, nossos lábios se fundem. Através do beijo, aos poucos, Heitor foi conseguindo
dissipar a minha tensão e me fez esquecer todas as minhas inseguranças e, ao mesmo tempo, as
suas. Pensei que ele fosse desistir, mas nós dois vencemos nossas batalhas internas. Ainda com seus
lábios colado nos meus, Heitor leva sua mão até a minha nuca e puxa-me pelos cabelos. Assim que
meu corpo se entrega às emoções do momento, Heitor retira sua mão dos meus cabelos e, com
firmeza, eleva meu quadril.
— Quando menos perceber, estarei dentro de você, só preciso de sua total confiança e
entrega.
Subo minha mão de suas costas e a prendo em seus cabelos, puxando-o para um beijo,
demonstrando que, definitivamente, não quero parar. Segundos depois, sinto a penetração romper
a barreira e uma dor momentânea sendo substituída por uma ardência incômoda, mas que, aos
poucos, se ameniza.
— Ah, Melissa, a sensação de estar dentro de você é arrebatadora. — Ele sorri e acaricia o
meu rosto, fitando-me com intensidade. — Relaxe seus músculos, aproveite o momento.
Não posso dizer que não doeu. Teve um momento que achei que não caberia dentro de mim.
Porém a sensação arrebatadora fez com que eu esquecesse a dor e, ali, naquele momento, tive a
certeza dos meus sentimentos por Heitor.
O frenesi apoderou-se de nossos corpos, quanto mais eu gritava, movida pela intensidade
daquele momento, mais Heitor me possuía com pressa e, então, pude entender o que ele havia
mencionado sobre ser do seu jeito. Mas desfrutei de cada segundo, acompanhando seu ritmo e
deleitando-me com o prazer de nossos corpos encaixados, movimentando-se em perfeita sincronia.
Sinto minha libertação se aproximando e, ao explodir em um orgasmo arrebatador, eu
desabo, cravando minhas unhas em suas costas, fazendo com que Heitor movimente-se dentro de
mim de forma desenfreada, até urrar o meu nome e cair sobre mim, exausto.
Poderão passar cem anos, eu jamais esquecerei a minha primeira vez. E assim que
recuperamos a nossa respiração, Heitor me olha de uma forma intensa, com ternura e ao mesmo
tempo intrigado, tentando buscar respostas para tudo o que acabou de acontecer.
Melissa, não se perca no momento, não crie expectativas...
— Eu te desejo muito além do que você e eu podemos imaginar.
Não digo nada, apenas sorrio, apreciando cada segundo desse momento sublime.
— Nós temos muito o que conversar, Melissa. Mas agora eu quero ficar aqui, exatamente
assim, sentindo o seu corpo colado ao meu — diz, acomodando-se ao meu lado na cama,
puxando-me para perto si.
A última coisa que eu quero fazer agora é conversar, pois não somos bons em conversar um
com o outro sem brigar. E eu não quero brigar. Antes que ele desista, viro-me de frente para ele e
beijo o seu pescoço, sussurrando:
— E é assim que quero ficar, Heitor, exatamente assim, nua em seus braços...
Ainda ofegantes, retomamos as carícias, mas desta vez sem pressa.
Minha mãe sempre costumava dizer que havia diferença entre o sexo e o amor, em nossas
conversas entre mãe e filha. Segundo ela, no sexo era somente a carne, sem sentimentos e sem
arrependimentos. Eu não tenho a menor dúvida de que o que eu e o Heitor fizemos foi amor. Ele
me amou e venerou cada curva do meu corpo, a todo instante fazia questão de me mostrar quão
linda eu sou e qual a reação do seu corpo diante do meu. Amamo-nos sem pressa e sem medida, e
me recuso a pensar nesse momento como uma simples transa. Sei que não sou experiente, mas eu
pude sentir a entrega de Heitor, da mesma maneira que ele sentiu a minha.
Depois do ato em si, ele foi extremamente cuidadoso, encheu a banheira e cuidou de mim,
me banhou, tomou meus lábios e me possuiu novamente.
Sentindo o cansaço no meu corpo, me deitou novamente em sua cama, e ficamos calados por
alguns minutos, apenas tentando decifrar o indecifrável. Meus dedos percorreram o caminho do
seu peito, e não tive como deixar de afagar seu rosto. Ficamos em silêncio, apenas curtindo a
sensação de estarmos ali, expostos, com muitas dúvidas pairando sobre nós. Eu fiquei durante
horas admirando o homem que, até então, eu havia feito de tudo para odiar, mas por quem, por
alguma razão, eu acabei me apaixonando.
Não sei como será nosso amanhã, a única certeza que tenho é que estou irrevogavelmente
apaixonada por ele.
Acordo feliz e revigorada, meu coração começa a palpitar toda vez que meu olhar vai ao
encontro do seu, o frio no estômago é inevitável, começo a ficar assustada com essas sensações.
— Bom dia! Gosta do que vê?
Não estava preparada para ser flagrada o admirando.
— Estou tentando entender como eu vim parar aqui — digo, sorrindo.
— Não tente, pequena, apenas curta o momento.
Eu amo ouvir quando ele me chama de pequena, me sinto sua.
— Heitor, posso te fazer uma pergunta?
— E por que não poderia, Melissa?
Pensei em dizer a ele: “Porque você geralmente é um babaca? ”, mas não quis estragar o
momento, apenas deixei passar.
— Por que você não me chama de Mel, como todo mundo?
— Porque eu não sou todo mundo, Melissa. E para mim você será sempre Melissa, a minha
pequena.
Rapidamente, meu corpo é esmagado contra o colchão, Heitor prende meus pulsos por cima
da minha cabeça e, por alguns segundos, não tira seu olhar do meu.
— Eu não consigo me saciar de você, eu a quero de novo e de novo. Posso passar o dia
enterrado em você, mas precisamos recuperar as energias.
A luz que escapa através da cortina revela que já amanheceu, e lembro-me do meu
compromisso. Não posso deixar de ir ver meus pais para ficar com Heitor. Eu bem que gostaria,
mas preciso acordar para a realidade de que isso foi algo momentâneo e que, muito
provavelmente, ele voltará a me odiar na segunda-feira.
— Heitor, eu preciso ir — digo, tentando me afastar. —Tenho um compromisso. Diogo já deve
estar me esperando.
Quando menciono Diogo, sinto seu corpo ficar tenso e ele me prende contra o colchão, com
seu peso.
— Não se preocupe, Melissa, eu já avisei ao aprendiz de astro americano que você estará
ocupada durante o fim de semana.
Como é que é?
Tento, sem sucesso, empurrá-lo de cima de mim.
Não posso aceitar que ele interfira em minha rotina. Se eu não estivesse puta da vida com
Heitor, por ele ter cancelado meu compromisso sem me consultar, até poderia rir do apelido que ele
colocou em Diogo.
— Posso saber como você tomou essa decisão sem me consultar, Heitor? — pergunto irritada.
— Não é porque estou na sua cama que te dou o direito de ser dono da minha vida. E se você
ainda não sabe, o nome dele é Diogo.
— Eu te dei uma escolha e você decidiu ficar. Ainda não estou pronto para te deixar ir. Você
está encrencada, Melissa, você procurou por isso.
Heitor me intriga quando diz coisas como essa, mas não consigo me afastar. Tento não
pensar nas consequências, ele volta a me beijar de forma intensa e eu não quero que ele pare, eu
quero ser sua de novo... E de novo...
HEITOR
Como resumir as últimas horas do meu dia e da minha noite? Eu já sabia que queria Melissa
em minha cama, só não conseguia admitir. Porém, quando Artur demonstrou seu interesse, decidi
que precisava fazer algo a respeito.
Melissa foi magnífica em sua apresentação, Artur e eu parecíamos dois babões.
Além de linda, ela é inteligente e talentosa. Se não fosse o seu projeto, minha empresa teria
sido esmagada pelo Sr. Gonzalez. Artur deixou bem claro que custe o que custar, Melissa não
trabalhará mais na H&C. O imbecil comprou uma construtora e a quer como arquiteta responsável.
Vai sonhando, Artur....
Depois que se enceraram as reuniões, Caio me contou que eles iriam comemorar com Melissa.
Foi então que resolvi estar presente e ir de encontro ao que tanto desejava desde que a conheci.
Quando finalmente a tive nua e entregue, jamais poderia imaginar que ela fosse virgem. Porra!
Isso mudou algo em mim, ser o primeiro significava que ela era só minha e de mais ninguém.
Nenhum outro havia experimentado ou sentido o que eu senti estando dentro dela. Podem se
passar mil anos, que minhas memórias estarão aqui, vivas dentro de mim. O som de seus gemidos,
sua total entrega..
Eu ainda não estou preparado para deixá-la partir e sei que vou para o inferno depois que
tudo acabar.
Passei a noite em claro, não precisava abrir os olhos para saber que ela me fitava. Quando
ouvi sua respiração lenta e reparei que não se remexia na cama, abri meus olhos e constatei que
finalmente havia dormido. Levantei-me com extremo cuidado, tentando não fazer barulho, para
não acordá-la, e fui até o sofá da sala, onde estava sua bolsa. Peguei seu celular e mandei uma
mensagem para o aprendiz de astro americano. Minha vontade era ligar para aquele babaca e
dizer que Melissa não iria mais viajar, porque estava em minha cama.
Quando pela manhã ela quis partir, eu disse que já tinha avisado o cantorzinho, porém a
reação de Melissa me deixou puto da vida. Enquanto eu a quiser em minha cama, não permitirei,
em hipótese alguma, que Diogo se aproxime do que é meu. Ainda tenho o babaca do Gonzalez
para me preocupar. Mas no momento só preciso saber o que fazer para mantê-la comigo nesse
fim de semana.
Eu deveria odiá-la, mas só sei desejá-la. Deveria me afastar, mas preciso de sua presença.
Saber que nenhum outro homem esteve onde eu estive faz com que eu me sinta um verdadeiro
homem das cavernas, é um sentimento de posse incontrolável. Minha vida está uma bagunça, não
sei para onde ir e nem aonde pretendo chegar. Mas de uma coisa sei: eu a quero.
Além disso, ainda não chegou a hora de me vingar do meu pai. Por enquanto a manterei em
minha cama, quando e como eu quiser.
Tento me lembrar das palavras de minha mãe naquela carta, porém, quando estou perto de
Melissa, elas perdem o significado. Nunca antes trouxe uma mulher para minha casa, por ser íntimo
demais. Mas quando a trouxe da boate, a queria aqui, exatamente assim, nua em meus braços, sob
a minha proteção e meus cuidados.
Isso será mais complicado do que eu pensava.
Inferno! Maldita seja você, Melissa, por entrar em minha vida. Maldita seja!
Deixo-a dormindo e vou até a sala novamente, sento-me no sofá e permaneço por longos e
intermináveis minutos, tentando buscar a compreensão para essa loucura. Deveria me sentir feliz
por ter possuído a filhinha do papai, mas em vez de felicidade por estar concretizando minha
vingança, eu me sinto perdido. Fico imaginando o que o Sr. Raul Heitor Sanches falaria, se
descobrisse que a sua filha não foi visitar os pais porque estava ocupada na cama do seu filho
rejeitado.
CAPÍTULO NOVE
MELISSA
Nunca julguei minha mãe, no fundo, eu sempre desejei ser impactada por uma paixão
arrebatadora, assim como ela, quando conheceu meu pai. Sem sombra de dúvida, nesse fim de
semana eu soube o significado de cada palavra da Dona Clara. Agora entendo quando minha
mãe contava que o desejo que sentia por meu pai biológico era além da compreensão. Ela
entregou-se e logo depois se viu grávida e desamparada.
Ai, meu Deus!
Nesse exato momento, me dou conta de que Heitor não usou camisinha em nossa primeira
vez.
Melissa, como você pôde ser tão irresponsável?
Primeiramente, até dois dias atrás eu era virgem e não estava em um relacionamento estável
ao ponto de me prevenir com antecedência. Segundo, eu não fazia ideia que sairia de casa e
passaria o fim de semana na cama daquele moreno em fúria. Portanto, faço uma nota mental para
agendar horário com um médico e também começar a tomar contraceptivo.
Heitor insistiu para que eu dormisse em sua casa no domingo. Confesso que quase não resisti,
porém eu precisava de um momento a sós para reorganizar meus pensamentos. Ele se apossou do
meu celular e deixou-me incomunicável o fim de semana inteiro. Não preciso ser advinha para
saber que minha mãe deve estar muito decepcionada e preocupada comigo. Dona Clara é
desconfiada, sei que ela não engoliu fácil a desculpa que não fui visitá-los porque estava
trabalhando.
Chegamos em frente ao prédio, ficamos em silêncio por alguns minutos. Assim como eu, ele
não sabe como agir na hora da despedida. Opto por descer do carro, murmurando um “tchau”, e
começo a abrir a porta. É nesse momento que ele toma a iniciativa e me puxa para um profundo
beijo. Embora o desejo nunca tivesse abandonado os nossos corpos, esse beijo foi terno, como se
ele quisesse me provar algo.
Desci do carro em silêncio, atrapalhando-me para procurar a chave dentro da minha bolsa,
literalmente abalada com a forma de nossa despedida e com a maneira que ele me afetava.
Dispenso o elevador e decido que ir pela escada é o caminho mais prudente. Abalada, estou a
ponto de desabar, uma sensação de pânico me amedronta. Um misto de dúvidas me assombra,
deixando-me impotente.
Não conversamos sobre como seria nossa relação depois dos momentos mágicos que
compartilhamos. Não sou ingênua e estou preparada para sentir a indiferença e a grosseria do
meu chefe. Eu sucumbi a sensações que não fazia ideia que existiam, agora tenho que estar
preparada para as consequências.
Retorno a ligação para minha mãe e tento acalmá-la e convencê-la de que está tudo na sua
mais perfeita órbita. Aproveito para ligar para Diogo e pedir desculpas. Combinamos de almoçar
na segunda-feira, já que ele viajará para sua turnê na Europa.
Depois de um demorado banho, é hora de colocar a cabeça no travesseiro e avaliar as
ações dos últimos dias. Sei que estou perdidamente apaixonada pelo meu chefe e isso é
irrevogável. Sei que ele me fez uma mulher feliz e completa e isso é inegável. Agora só me resta
saber o que virá depois.
Heitor se mostrou completamente diferente do babaca arrogante que conheci. Ele estava
atento às minhas vontades e meus mais profundos desejos. Mesmo não tendo experiência nenhuma,
ali na sua cama, em seus braços, me senti a mais feliz das mulheres. Eu o queria e ele me desejava,
simples assim, nós nos entregamos à luxúria, nossos corpos pediam e nós prontamente atendíamos
nossas vontades. Sem pudor, sem reservas.
Foi tão natural tomar café com Heitor, almoçar com ele e acordar em seus braços. Algo aqui
dentro de mim grita que ali é meu lugar e que, se eu não estiver em sua presença, não serei eu. O
que me assusta é imaginar que tenha sido apenas mais uma em sua cama. Heitor é um homem
lindo, com certeza as mulheres fazem fila para disputar os seus lençóis.
Você não deveria ter sucumbido ao moreno em fúria.
O Bip do meu celular me traz de volta dos meus devaneios, verifico no visor, uma mensagem
de Heitor. Sorrio com meu celular em mãos, ele deve ter gravado seu número em meus contatos
quando enviou a mensagem ao Diogo.
HEITOR>>> Minha pequena, eu tentei te odiar e te afastar com todas as minhas forças,
porém, sinto que estou perdendo essa batalha. Maldita seja você, os momentos que passamos
juntos ainda gritam dentro de mim. Minha cama está vazia sem você.
Sinto-me uma criança quando ganha seu doce favorito. Não entendo a parte que ele
deveria me odiar. Procuro nunca entender, só de saber que assim como eu ele está se lembrando
de nossos momentos, fico eufórica. Com as mãos trêmulas, digito uma resposta.
MELISSA >>> Fico feliz em saber que o ódio está perdendo o duelo para o desejo. Meus
lençóis estão gelados, sem o calor de seu corpo.
A resposta vem de imediato.
HEITOR >>> Não faça isso, pequena, confesso a você que tive que conter a vontade de ir
até sua casa e te possuir, seus gemidos são como uma perfeita canção de ninar.
Resolvo testar seus limites, gravo um rápido áudio, com o som que ele parece gostar tanto, e
envio.
Ah, como eu adoraria ver a sua expressão...
HEITOR>>>Puta que pariu! Não estou em meu perfeito estado, então não abuse, pequena.
Durma com anjos e sonho comigo devorando você.
Acordo sobressaltada, ainda com o telefone em meu peito. Procuro não pensar em nada
relacionado ao meu moreno em fúria. Preciso ser profissional, tenho que conter o impulso de
mostrar a ele como me sinto.
Chego ao escritório ciente da ausência de Heitor, assim é melhor, espero que ele não se faça
presente essa semana, pois eu não saberia como agir.
Verifico meus e-mails e fico em alerta com o conteúdo que acabo de receber.
_____________________________________________________________________________
De: Artur Gonzalez
Para: Melissa Sanches
Assunto: Alterações e almoço.

Bom dia, Melissa,


Em anexo, segue algumas alterações para o projeto. Preciso que sejam entregues amanhã, ao meio-dia. Aguardo
você para um almoço, no restaurante do hotel onde nos encontramos da primeira vez. O assunto será de seu total
interesse.

Atenciosamente,

Artur Gonzalez.
_____________________________________________________________________________
***
As horas passam voando. Meu celular acusa uma mensagem, é Diogo, avisando que está me
esperando no hall de entrada do edifício Fortes. Corro ao encontro do meu amigo e, como sempre,
sou recebida por um abraço de urso.
Diogo escolheu o restaurante, não consegui conter o riso quando ele me conduziu até um
Bentley estacionado, coisas de celebridades. No caminho, cantamos algumas músicas. Na verdade,
elas foram gritadas com os vidros abertos, coisa que fazíamos quando éramos adolescentes.
— Mel, eu te vi saindo da boate com Heitor. Você quer falar sobre isso?
Eu não estava preparada para falar com Diogo sobre Heitor. Nego, com um gesto de
cabeça.
— Foi por isso que você não foi para São Carlos comigo, não foi?
Faço que sim com a cabeça. Sei que Diogo não vai se calar até saber toda a verdade.
— Mel, eu confesso que quando te vi, depois de todos esses anos, tudo o que estava
dormindo aqui dentro de mim acordou, porém minhas esperanças se foram no momento em que eu
te vi nos braços de outro.
Meu cérebro fica em alerta, eu espero que Diogo tenha me visto somente saindo da boate, e
não no estacionamento, isso teria sido constrangedor.
— Diogo, eu não vou mentir para você, não posso mandar nos meus sentimentos, nós somos
amigos há uma longa data e isso nunca vai mudar, mas, por favor, preciso que você entenda.
Antes que Diogo me diga qualquer coisa, sou surpreendida por Heitor, que aparece por trás
de mim, sem que eu perceba, e se abaixa, beijando-me nos lábios com extrema lentidão. Mesmo
aturdida por seu gesto de afeto em público e sabendo que é proposital, para mostrar a Diogo que
sou dele, acabo por corresponder ao beijo, pois não há como negar o quanto senti sua falta.
Não posso ser tão fraca e permitir que Heitor brinque comigo desse jeito...
HEITOR
Passo a noite de domingo fazendo uma avaliação de mim mesmo e confesso que até eu
estou assustado com o resumo de tudo.
Assim que deixei Melissa em seu apartamento, a sensação de vazio se apoderou de mim.
Quando cheguei à minha casa, foi como se o único lugar em que eu nunca me senti só tivesse se
tornado vazio sem explicação. Sempre fui bom em esconder emoções, o que não acontece diante
dela, pois não faço nenhuma questão de usar minha máscara. Não sei se ainda quero alimentar o
meu ódio, pois não estou fingindo desejar Melissa, só Deus sabe o quanto eu a quero. No momento,
vou fazer de conta que Raul, Clara e minha mãe não existem, para que eu possa desfrutar ao
máximo dos momentos com Melissa.
Precisei reter o impulso de ir até sua casa depois que ela, molecamente, me mandou um
áudio com seus gemidos. Trocamos algumas mensagens e, por alguma razão, eu me senti feliz por
desfrutar dessas pequenas coisas com ela. Esse estado de felicidade me assusta, pois trilhei meu
próprio caminho, sou dono da minha vida e me tornei independente. Não posso me permitir ser
influenciado por sentimentos.
Pessoas vêm e vão, é sempre assim. Depois da partida, fica somente a dor e a tristeza da
saudade.
Incomodado com a mudança na direção da minha vida, resolvo ligar para minha avó. Ela
sempre acalma as tempestades dentro de mim.
— Heitor, meu filho, que bom que se lembrou dessa velha aqui. — Sua voz acalma minha
tempestade interna.
— Dona Diva, a senhora não sai dos meus pensamentos.
— Eu estava querendo mesmo falar com você. — Sua respiração fica ofegante, como se ela
estivesse nervosa. Talvez o assunto não seja do meu agrado.
— Sou todo ouvidos, Dona Diva. — Tento parecer calmo para encorajá-la.
— Essa semana estive conversando com Raul, ele perguntou por você.
Droga! Era tudo o que eu precisava...
Não era com essas lembranças que eu planejava encerrar a noite.
— Vovó, posso saber por que a senhora ama Raul como um filho, mesmo depois de ele ter
desgraçado as nossas vidas? — Tento controlar minha respiração, escondendo meu nervosismo.
— Heitor, eu não quero mais ouvir você falar assim do seu pai, você não sabe da missa a
metade. Você deveria ver seu pai como um herói e não como um vilão, o pior cego é aquele que
não quer ver.
Com minhas feridas expostas, eu decido que a melhor opção é encerrar a ligação.
— Vovó, hoje não! Só liguei para saber como a senhora está, amo você.
— Também te amo, Raul Heitor Sanches Junior, espero que reflita nas minhas palavras.
Desligo o telefone irritado com minha avó, ela sabe o quanto me perturba me chamar por
esse nome. Eu me chamo Heitor Fortes, me recuso a carregar o nome e o sobrenome daquele que
desgraçou a minha vida.
Preciso acalmar meus ânimos. Definitivamente, não estou preparado para confrontar o
passado, preciso esquecer Raul, se pretendo manter Melissa em minha cama.
***
Com Morgana afastada, Caio tem ficado sobrecarregado. Minha vontade é passar mais
tempo naquele escritório, mas preciso me manter racional, ter Melissa tão perto só afetaria meu
estado.
Chego cedo ao escritório. Marquei uma reunião com Vítor, pois tivemos que mudar algumas
cláusulas no projeto Gonzalez, já que será nosso último contrato.
— Heitor, você tem certeza de que prestou atenção em alguma palavra do que eu disse? —
Vitor pergunta exasperado. Solto uma lufada de ar e reviro os olhos.
— Não me teste, Vitor. Eu só não desfaço esse maldito contrato para não queimar nossa
empresa diante de clientes tão grandes e porque Melissa trabalhou muito para conseguir assinar o
projeto da obra. Mas aquele babaca do Gonzalez não perde por esperar.
— Amigo, acho que Melissa provou seu ponto. Sinto-me em um duelo de gigantes.
Enquanto sou motivo de chacota por Vitor, recebo um e-mail que é direcionado à caixa de
entrada de Melissa, um dos favores que pedi ao nosso técnico de TI, para saber o que meu pai e
ela andam tramando contra mim. Mas o e-mail não é de Raul, porém me deixa tão irritado quanto.
Trata-se de Artur Gonzalez, convidando-a para um almoço.
Sem conter o impulso, dou um soco na mesa, fazendo com que Vitor se assuste.
— Quer saber? — Encaro meu amigo, irritado. — Encontre todas as brechas possíveis para
tirar de Artur tudo o que conseguir, pelo rompimento desse contrato. Foi ele quem quis assim, ele
que irá arcar.
— Mas e o contrato de Melissa, Heitor?
Minha vontade é mandar Artur se ferrar, só não faço por causa dela. Nunca irei permitir que
ela trabalhe para ele.
— Este será o último, depois de assinado, não poderão fazer nenhuma alteração. Crie uma
cláusula onde, em hipótese alguma, a arquiteta responsável poderá encontrar-se a sós com o
grupo Gonzalez sem a minha presença. É imprescindível que eu esteja a par de tudo relacionado a
este projeto.
— Falou e disse, assim será. —Nem quando o assunto é sério Vitor perde a oportunidade de
alfinetar.
Depois de reler diversas vezes o contrato, ele e eu saímos para almoçar, nós marcamos com
Caio em um restaurante que fica no meio do caminho entre os dois escritórios.
***
Isso só pode ser uma brincadeira de mau gosto!
Melissa está a poucos metros, sentada em uma mesa mais afastada, com o aprendiz de astro
americano. Percebo que a feição de Melissa é séria, ela fala e ele ouve encantado tudo o que ela
diz. Sem conter meu impulso de homem das cavernas, vou até eles, paro ao seu lado e, sem que
ela tenha tempo de protestar, eu a beijo sem pressa. Sei que ela ficará puta comigo, mas
comemoro quando a sinto retribuir meu gesto aparentemente de carinho, mas que não passou de
uma demarcação de território.
Ao me afastar, reparo que Melissa me fuzila com o olhar. Ela pede licença ao cantorzinho,
que eu faço questão de ignorar, e me puxa pelo braço, caminhando para fora do restaurante.
— Heitor, você foi longe demais! Com que direito você tenta provar seu ponto em uma
competição de mijo?
Ela está possessa, nunca pensei que dentro dessa pequena mulher pudesse ter tamanha
revolta, ela parece ser tão meiga e frágil, uma presa fácil, mas mostra que estou redondamente
enganado.
— Melissa, vou falar apenas uma vez: eu não compartilho. — Mantenho-me firme em meu
propósito.
Vejo sua face ficar vermelha e sinto que ela está disposta a me enfrentar.
— Vou repetir as mesmas palavras, mas dessa vez espero que você entenda: Não é porque
estive na sua cama, que isso te dá o direito de ser dono da minha vida.
Sem esperar minha reação, ela sai caminhando em passo firmes e deixa-me plantado na
calçada em frente ao restaurante. Decido deixar por isso mesmo, no momento. Envio uma
mensagem para Caio, avisando que resolvi almoçar em outro lugar. Melissa não perde por esperar.
Vou deixar claro para ela que essa coisa entre nós será como eu quiser. Ela não deveria brincar
com fogo.
CAPÍTULO DEZ
MELISSA
Chocada com as palavras de Heitor, viro as costas e o deixo falando sozinho.
Posso ser pequena, mas a fera que em mim habita é grande, posso ter sido mimada, mas
tenho caráter e opinião formada. Posso ter certeza dos meus sentimentos por Heitor, mas jamais
permitirei que alguém dite as regras na minha vida.
— Mel, não precisa me dizer nada, eu a conheço tempo suficiente para saber que Heitor
está em seu coração. Você voltou muito abalada da sua conversa com o homem das cavernas.
Droga, ponto para você, Diogo.
— O Homem das cavernas precisa entender que eu não sou a mulher da idade da Pedra —
respondo, tentando controlar minha raiva.
— Sabe, Mel, eu, no lugar do Heitor, teria quebrado a minha cara. Também não iria aprovar
que a minha garota estivesse almoçando com um cara que eu não conheço. Já parou para pensar
nisso? O que você faria, ao contrário?
— Nada justifica a atitude possessiva de Heitor. Somos amigos e até onde eu sei vocês
foram apresentados.
— Mel, eu estou começando a achar que essa história terá o enredo de uma novela
mexicana — brinca.
— Vejo que meu amigo está em seu modus operandi sarcástico. Fique você sabendo que,
quando chegar ao momento das lágrimas, eu irei compor uma música para essa novela, e você
será o intérprete de tanto drama em uma única canção.
Rimos.
Só Diogo para me fazer rir depois de Heitor estragar minha alegria com sua atitude
possessiva.
— Ei, nós viemos aqui para falar de novelas ou para você me contar quais suas expectativas
em relação a essa turnê? — Tratei logo de mudar de assunto.
— Acredite, Melissa, essa é a concretização do sonho de uma vida inteira.
Posso sentir a emoção em cada palavra do meu amigo, a música passou a ser a sua vida,
sua maior alegria, foi assim desde que nos conhecemos.
— Promete para mim que irá mandar notícias? Promete que não irá sumir?
Com os olhos brilhando pelas lágrimas, Diogo pega minhas mãos e fixa seu olhar no meu.
Não consigo conter a emoção e deixo o choro rolar em minha face.
— Mel, quero que você saiba que nada mudou, sempre estarei aqui, e se aquele babaca a
fizer sofrer, eu volto para matá-lo.
— Diogo, por que fala como se Heitor e eu tivéssemos algo concreto?
— Porque eu conheço você, Mel, seus olhos são expressivos, percebi a maneira como ele te
abalou quando te beijou. E porque acredito que Heitor não seria tão babaca ao ponto de deixá-
la ir, sua atitude provou que ele também está, de alguma forma, abalado por você.
As palavras de Diogo deixam-me apreensiva e esperançosa. É inegável meus sentimentos
por Heitor, porém sou inexperiente em relacionamentos e orgulhosa o bastante para abrir mão de
minha vida e meus princípios, para doar-me para alguém ao ponto de me esquecer de mim mesma.
Não seria capaz de permitir que um homem controlasse meus passos e escolhesse as minhas
amizades. Infelizmente, é assim que vejo Heitor se comportando. Essa possessividade me
desagrada.
— Diogo, tudo é muito novo e não quero criar expectativas. Mas não vou negar que Heitor
está ocupando um espaço dentro de mim que nunca foi habitado por ninguém, e isso me assusta.
— Mel, quando o sentimento é recíproco, não podemos deixar que o medo e as
inseguranças assombrem a felicidade. Basta viver um dia de cada vez e aproveitar cada momento.
O difícil é quando duas pessoas se amam e a terceira pessoa acaba sofrendo.
Eu estava tentando de toda forma evitar esse assunto, eu sei que ele está sofrendo e não há
nada que eu possa fazer para aplacar esse sofrimento.
— Diogo, abra seu coração e deixe-o livre para que alguém possa entrar.
Posso sentir o seu sofrimento, eu não queria que terminasse assim. Espero que algum dia meu
amigo possa encontrar alguém que o ame pelo que ele é e não pelo que se tornou. Conversamos
por mais alguns momentos e nos despedimos. Diogo é alguém por quem tenho um apreço muito
grande e vê-lo sofrendo faz com que eu me sinta infeliz.
***
A tarde no escritório foi como se eu estivesse de luto. Triste por magoar um amigo e ferida
por não saber o que esperar de Heitor.
Logo depois que nos despedimos, Diogo me mandou um áudio, pedindo que eu ouvisse a
música depois que ele não estivesse mais no Brasil. Disse que eu entenderia tudo através da
canção. Pediu-me para não me sentir culpada e garantiu que ele já havia superado, porém, jamais
esquecido.
Por que tenho a sensação de que se trata de alguma música composta para mim? As
palavras cantadas dizem tudo o que ele gostaria de me falar e por alguma razão não teve
coragem?
Sinto-me perversa por não poder retribuir o amor que ele diz sentir por mim. Gostaria de
poder mandar em meu coração. Com certeza, expulsaria Heitor e daria uma oportunidade ao
Diogo.
Meu sexto sentido alerta-me de que não estarei segura com Heitor. E para completar a
bagunça da minha vida, amanhã tenho um almoço com um homem lindo e muito atencioso. Artur
Gonzalez. Toda mulher merecia um Artur em sua vida. Não por ele ser lindo e, acima de tudo, rico,
mas por parecer ser o tipo de pessoa que motiva todos à sua volta. Tem uma alma iluminada, é
atencioso e educado. Andréa havia mencionado o quanto os funcionários do Grupo Gonzalez o
têm em alta estima. Seus colaboradores trabalham por ele e não para ele. Um homem capaz de
conquistar a admiração das pessoas à sua volta é porque tem a humildade como uma das
principais qualidades.
Tento não alimentar a desconfiança de que possa existir algum interesse por parte de Artur,
que não esteja relacionado ao trabalho, para comigo. Já tenho conflitos demais para ter que lidar
com isso.
Foco minha atenção nas alterações do projeto Gonzalez. Estou muito feliz por ter assinado a
responsabilidade sobre um trabalho tão importante para a H&C depois de ser menosprezada por
Morgana e por Heitor, sinto que terei meu trabalho reconhecido daqui por diante e darei o melhor
de mim para sempre surpreender de forma positiva os meus chefes.
Termino as modificações e, para que minha mente não tenha tempo de se perder em
pensamentos por Heitor, quebro a promessa feita a Diogo. Pego meu celular e executo o áudio.
“Quando a vi, de cara soube que você era um anjo,
Meu anjo
O tempo passou e eu me sentia um ser iluminado
Você trouxe a luz para meus dias, meu anjo
Eu queria ter coragem de dizer
O que você precisava saber através de minhas palavras
Porém o medo e a insegurança me tornaram prisioneiros
Dentro de mim
Quando enfim lutei e venci a batalha contra o medo
Uma nuvem negra pairou sobre mim
E então, meu anjo, você se foi
E hoje estou aqui
Na escuridão do meu inferno pessoal
O paraíso não existe
Porque o dia em que acordei
Eu descobri que estava sonhando
Estou nas trevas e aqui não existem anjos
Já me conformei em viver na escuridão...”
Recuso-me a ouvir até o final. Vou até o banheiro para que Joana ou até mesmo Caio não
me vejam chorando.
Mesmo através do solo da guitarra, pude ouvir o sussurro das lágrimas de Diogo, ele
chorava enquanto cantava e ouvir sua dor me fez sentir culpada. Retorno à minha sala com as
emoções à flor da pele. Aviso ao Caio que preciso sair mais cedo e vou para casa, tentando
entender por que Diogo demorou tanto tempo para me procurar. Quando ele abriu seu coração
para mim, anos atrás, pareceu entender que eu não correspondia seus sentimentos da maneira
como ele gostaria. Porém, dias depois, eu soube que Diogo havia ido embora sem se despedir. A
impressão que tenho é que mesmo distante, ele tenta me fazer sentir culpada de alguma maneira.
Pois bem, ele conseguiu.
O que posso fazer?
Não posso alimentar falsas esperanças, esse sentimento não poderá ser retribuído. Não
posso viver com a consciência pesada sabendo que sou a culpada pelo sofrimento de um amigo.
Eu o conheço bem, ele me fez prometer ouvir a música depois porque sabia que o procuraria, o
confrontaria. Eu ainda não sei se Diogo é um lutador ou um covarde, sempre foge para evitar o
confronto.
Sinto-me confusa...
DIOGO
Quando deixei o Brasil, parti em busca da realização de um grande sonho, porém
destroçado emocionalmente. Conheci meu empresário em um show onde Melissa e eu abrimos um
festival, em nossa cidade. Quando recebi a proposta, na época, fiquei na dúvida. Não conseguia
ficar longe dela. Mas um dos motivos que me fez aceitá-la foi o desejo de adquirir prestígio,
acumular fortuna, conquistar Melissa e poder abrir um escritório de arquitetura para ela.
Estudávamos juntos, cantávamos juntos, fazíamos trabalhos juntos. Nós estávamos sempre
juntos e não conseguia imaginar minha vida longe dela. Idealizei um futuro ao seu lado, precisava
estar com ela. Melissa era o meu chão, minha vida, mesmo não sabendo disso. Sempre fui inseguro
em abrir o meu coração. Tinha esperanças que ela sentisse o mesmo por mim, já que nunca havia
se relacionado com alguém.
Enquanto ela não conhecia meus sentimentos, manter-me esperançoso era uma ilusão que eu
nutria.
— Diogo, acredite em mim, adoraria sentir por você o que diz sentir por mim. Porém, minhas
prioridades são outras, não procuro relacionamentos. Eu não seria justa com você.
Depois que ela matou todas as minhas esperanças, eu soube que era a hora de partir. Deixei
o Brasil sem olhar para trás. Não teve sequer um maldito dia que eu deixei de pensar nela.
Quanto mais fama alcançava, mais desejava que ela estivesse ali, torcendo para mim.
Isso nunca veio ao conhecimento de Melissa, mas Clara, sua mãe, torcia pela nossa felicidade.
Ela disse que eu já tinha sua aprovação. Quando fui embora, a única pessoa de quem me despedi,
além da minha família, foi Clara. Nunca perdemos o contato, ela me passava com frequência um
relato sobre a vida da Mel. Disse que Melissa ficou arrasada com a minha partida repentina e
estava inconformada por eu não ter me despedido. Na época, fiquei arrasado por fazê-la sofrer,
mas havia feito minha escolha.
Ao longo desses anos, várias mulheres conquistaram um lugar em minha cama, mas nenhuma
conseguiu um lugar em meu coração. A dor de amar e não ser correspondido aos poucos vai te
consumindo por dentro. A sensação de você acordar e saber que tudo aquilo não passou de um
sonho é esmagadora, aos poucos tudo isso vai entorpecendo o que há de melhor dentro de você.
Como esquecer o gosto de seu beijo, sem nunca tê-la beijado?
Como esquecer o toque macio de seus dedos, sem ela nunca ter me tocado tão intimamente?
Dia após dia, eu tento esquecer esses malditos sonhos, mas quanto mais tento, mais eles me
perseguem.
Às vezes, penso que não serei capaz de suportar tamanha devastação, é nessa hora que a
música me acalma, passo horas do meu dia compondo e todas as letras que escrevo é pensando
nela, meu anjo. Mesmo que a vontade de vê-la, fosse maior que minha resistência Melissa jamais
saberia que estive no Brasil, se o destino não fosse tão cruel e a colocasse diante de mim, naquela
noite do Repúlica Pub.
Percebi as intenções de Heitor sem saber qual era o papel que ele representava na vida de
Melissa. Ele fez o seu show em frente ao garçom, quando mandei a rosa para ela, de longe
observei a maneira agressiva com que ele guardou o bilhete no bolso, soube ali, naquele instante,
que ele a queria. Melissa tinha em seu rosto um olhar reprovador e aquilo me encheu de
esperanças. Eu lutaria por ela, dessa vez não seria covarde.
Quando estive com Melissa, no almoço com Artur Gonzalez, vi a maneira como ele a olhou.
Melissa não percebeu, mas Artur ficou encantado por ela. O jeito com que ela falava ou sorria
fazia com que os olhos dele brilhassem. Artur Gonzalez estava entusiasmado com Melissa. Eu
queria dizer a ele que ela me pertencia, queria afastá-lo. Já estava acostumado com o efeito que
ela causava nos homens, porém não queria dizer que eu me sentisse confortável quando os
presenciava cobiçando o meu tesouro, meu anjo.
Mesmo amando e cantando rock, a música que tocava meu coração e fazia lembrar-me de
Melissa era de um cantor sertanejo. Meu pai sempre cantava nas rodas de viola e ela nunca me
saiu da cabeça.
É, Daniel, se o tempo apaga, dessa vez não apagou...
Um amigo me falou
Que a poeira vai baixar
Que qualquer carinho novo
Põe as coisas no lugar
Que essa falta de você
Tende a desaparecer
E a distância
Faz a gente esquecer...
Que o amargo e a solidão
Que me corta o coração
De repente vão embora
E é chuva de verão
Que esse pranto vai secar
E eu vou me acostumar
Que a tempestade logo
Vai passar...
Pra falar a verdade
Na realidade
É que pra você
O nosso amor desencantou
Só que no meu caso
Saiu tudo errado
Se o tempo apaga
Dessa vez não apagou...
Teve um momento em minha vida que comecei a trilhar um caminho sem volta, me isolei de
todos e minha única fuga era a bebida. Ao sair vivo de um coma alcoólico, jurei a mim mesmo que
não tornaria a beber para esquecer minhas aflições. Depois daquele fatídico dia, eu me foquei na
carreira. Ainda com Melissa no coração e na companhia das músicas de Daniel, procurei
alternativas para aliviar minha dor.
Na sexta-feira à noite, estava esperançoso, chamaria Mel no palco e a manteria ocupada,
junto a mim. Mas não passou pela minha cabeça presenciar o que presenciei. Quando a vi saindo
de mãos dadas com Heitor, soube imediatamente que a batalha estava perdida. Como masoquista
que sou, os segui até o estacionamento e a cena que vi destroçou-me por completo, dificilmente
conseguirei juntar meus pedaços.
Atrasamos o show por alguns minutos até que eu conseguisse me recompor. Minha vontade foi
largar tudo e sair correndo em busca de um entorpecente para aplacar a dor em meu peito
dilacerado. Eu não poderia e não seria justo com a banda, se fizesse isso. Meus amigos que me
acolheram, que me transformaram em quem sou. A única saída foi bloquear as lembranças e me
esquecer de tudo o que consumia meu emocional.
Quando ela me ligou e marcamos de almoçar, pensei em declinar, porém, lembrei-me de
Clara me contando o quanto ela sofreu e mudei de ideia. Mas estava preparado para expor
minhas cicatrizes, confessar a ela o quanto estava ferido. E mais uma vez me vi entre a cruz e a
espada, no momento em Heitor tomou os lábios de Melissa, em minha presença. A dor era tamanha
que meu coração parou de bater por alguns minutos, não consegui respirar, só queria fechar os
olhos e morrer para acabar de vez com essa dor de amor.
Acima de tudo, sempre fui seu amigo, e estava evidente, para quem quisesse ver, o quanto os
dois pareciam apaixonados. Mais uma vez, guardei meus sentimentos, eu estava ali para ela e era
dos sentimentos dela que deveríamos falar. E assim eu fiz a mulher que amo confessar para mim
que está apaixonada por outro homem, e isso me desestabilizou por completo.
Eu não sobreviveria mais um dia na sua presença, vendo seus olhos brilharem por outro como
nunca o fariam para mim, então resolvi antecipar minha partida, fugir era melhor do que vê-los
juntos. Espero algum dia poder tirá-la do meu coração, preciso de alguma maneira superar esse
amor por Melissa. Não mereço ter que passar por isso novamente.
Partirei, mas desta vez sem a intenção de voltar. Espero que através da minha canção,
Melissa compreenda que era meu anjo, que sem ela eu estou no inferno e que aqui anjos não
existem.
CAPÍTULO ONZE
HEITOR
Depois de ser abandonado em frente ao restaurante por Melissa, decido ir andando alguns
quarteirões. Preciso dissipar minha raiva e conter meu impulso de voltar lá e tirar Melissa à força,
da companhia do aprendiz de astro americano. Minha vontade é trancá-la na minha casa e possuí-
la até que juntos nos entreguemos ao desejo que ainda grita dentro de nós.
Em meio às inúmeras pessoas que transitam a pé por todos os lados, tento agir normalmente.
Nunca estive em meio a tanta gente, na rua. Sempre me mantive isolado. Estar aqui por alguns
instantes me faz entender que sou apenas mais um na multidão, começo a enxergar a vida como
ela é.
Algumas delas andam apressadamente, correndo contra o tempo. Outras apenas seguem por
seu caminho como se nada mais importasse. À minha volta, tudo parece estar normal, exceto a
minha vida. Meu olhar segue perdido, fico me perguntando se todos, de alguma maneira, têm seus
demônios para exorcizarem, ou se todos ao meu redor guardam consigo uma ferida em seu peito,
incurável. Pergunto-me se alguém aqui já teve que duelar entre o ódio e o desejo. Por mais que eu
busque a compreensão, não tenho respostas.
Fixo meu olhar em um casal de namorados, andando em passos lentos à minha frente. O
homem, em um gesto de carinho, puxa sua namorada pela cintura e sussurra algo em seu ouvido. A
moça parece estar radiante, já que não tenta conter seus risos, chamando a atenção de todos que
por ali passam. Por alguns breves segundos, penso que adoraria estar segurando Melissa da
mesma maneira. Imagino qual seria a sensação de andarmos abraçados na rua, felizes e
despreocupados.
Nunca tive esses pequenos momentos com nenhuma outra mulher, antes de Melissa. Uma noite
de sexo já bastava. Mas agora só o sexo parece não bastar. Tudo aquilo que tive antes dela
deixou de ser referência em minha vida. Convicto de que não sei como agir e nem para onde devo
ir, daqui em diante, minha única certeza é que eu a quero junto a mim, fazendo coisas normais.
Minha frustração é não agir como um casal comum.
Inferno! Isso me assusta pra caralho.
Sou guiado por minhas lembranças, para o final de semana. Em meu peito cresce uma
espécie de onda e, de repente, tenho medo de que essa onda se quebre antes que eu consiga me
equilibrar. Não posso naufragar, eu não sobreviveria. Melissa é minha perfeita onda. Só preciso
aprender a surfar, ou sair da água antes que essa onda se quebre e me pegue desprevenido.
Hoje consigo perceber como ela consegue iluminar a todos que estão em sua volta. Seu
sorriso brota da alma, contagia a todos. Começo a entender o porquê do aprendiz de astro
americano e do babaca Gonzalez ficarem radiantes em sua presença. Nem todos conseguem sair
imunes ao efeito do seu sorriso
Só de lembrar que ela me deixou plantado, há poucos minutos, no meio da calçada como se
eu fosse qualquer um, faz com que um desejo insano cresça dentro de mim. Essa afronta despertou
a sede de tomar o que é meu. Melissa é só minha, entregou-se a mim por escolha própria quando
dei a ela a opção de desistir. Agora que a tive em meus braços, não consigo pensar na ideia de
vê-la se afastar ou dar uma oportunidade a outro. Somente eu estive dentro dela e não permitirei
que nenhum outro reivindique o que por direito é meu. Sim, por direito. Ela se entregou e agora me
pertence.
Minhas lembranças revivem a sensação de acariciar sua pele macia, seu cheiro de baunilha
tomando conta dos meus sentidos enquanto minha língua passeava pelo seu corpo. Todas essas
lembranças exigem de mim um autocontrole que eu nunca terei, pois a quero demais e isso é
inevitável. Homem nenhum terá o que eu tive.
Ela, de alguma maneira, me estragou para outras mulheres. Desde que a conheci, ela tem
habitado meus pensamentos, e isso está me desestabilizando. Comecei essa perseguição como um
predador correndo atrás de sua presa, mas depois que consegui alcançá-la, meu único desejo foi
possuí-la sem pressa, para saborear a sensação de tê-la tão entregue. Agora me pergunto: onde
está minha vingança? Serei capaz de me vingar de alguém de quem não consigo manter distância?
Alguém que sinto vontade de proteger e estar sempre por perto?
Escolho uma mesa perto da janela para continuar olhando as pessoas na rua, elas parecem
dar valor às coisas simples da vida e não se importam com o mundo que as cerca.
Sem fome, por conta do meu conflito interno, opto por uma bebida forte para acalmar meu
ânimo.
Assim que vejo dois homens se aproximarem, reviro os olhos e solto uma lufada de ar. Tudo o
que eu mais quero no momento é ficar sozinho. Que porra de amigos!
— Qual a parte de me deixar sozinho vocês não entenderam? — Olho frustrado para Caio
e Vitor, que, sem pedir licença, sentam-se nas cadeiras livres.
— Não perderia por nada na vida ver o Sr. Raul Heitor Sanches Junior com dor de cotovelo
— Vitor fala com seu modo sarcástico.
— Vai se ferrar, Vitor — ralho com ele. —Se você me chamar mais uma vez por esse nome,
juro que arrebento sua cara.
Inferno! Será que esses babacas perderam a noção do perigo?
— Heitor, não adianta lutar contra isso. Fortes é o sobrenome de sua mãe, o qual você não
carrega. Somos amigos de uma longa vida e acho que está na hora de você superar — Caio
fala, como se quisesse deixar bem claro sua opinião.
— Chega! Eu não quero mais falar sobre esse assunto — digo exasperado.
— Falemos então do que aconteceu minutos atrás, no outro restaurante. Ainda estamos no
escuro aqui, meu amigo. — Caio termina seu discurso com um olhar inquisitivo.
Fecho meus olhos e respiro fundo, preparando-me para ouvir poucas e boas, principalmente
do Caio.
— Droga! Eu transei com a Melissa e ela era virgem. — Solto tudo de uma vez, omitindo o
fato de que Melissa é enteada do meu pai.
Caio me encarou com seu olhar inquisidor.
— Heitor, você é um babaca frio e arrogante. — Abre um sorrisinho de escárnio. — Mas
quer saber? Fico feliz que esteja prestes a pagar seus pecados.
— Vai se ferrar, Caio! — resmungo.
— Deixe-me ver se entendi direito — começou Vitor. — Heitor Fortes, dono de uma postura
inabalável, transou com sua arquiteta e agora está apaixonado por ela? — Ri, debochado. — E
mais, depois de presenciar a cena onde sua amada almoçava tranquilamente com outro, o até
então impenetrável, Heitor, está aqui, em plena segunda-feira, enchendo a cara em um bar. É isso
mesmo?
Juro que se Vitor não fosse meu amigo, eu quebrava mesmo a cara dele. Entendo
perfeitamente o porquê dessa reação. Com certeza ele fez comparações com seu maldito passado.
— Vão para o inferno, vocês dois. Vão dizer que nunca agiram por impulso em suas vidas? E
querem mesmo saber? Foi a melhor transa da minha vida, e não estou disposto a deixar que ela se
vá. Qualquer imbecil que ousar chegar perto do que é meu pode se considerar um homem morto.
— Encaro meus amigos com um olhar frio, dando por encerrado o assunto.
Depois do almoço, tratamos de algumas pendências do escritório. Meu dia passou como um
borrão e quando enfim a noite chegou, me vi diversas vezes com meu celular na mão, tentado a
ligar para Melissa. Eu queria confrontá-la. Queria que ela soubesse que não permitirei jamais que
Diogo ou até mesmo Gonzalez tentem se apropriar do que é meu. Cansado de lutar contra meus
instintos e desejos, tomei alguns calmantes para dormir.
Sei que minha atitude no restaurante foi impensada e que o impulso de dizer a ela que
pertence somente a mim poderia assustá-la. Se eu ligasse ou fosse até sua casa, com certeza diria
coisas das quais me arrependeria. Estava com muita raiva, as dúvidas eram tantas que precisei me
entorpecer e forçar meu sono, para não fazer nada impulsivo.
***
Ainda sob efeito dos calmantes, ouço meu despertador me trazer de volta ao mundo dos
vivos. Levanto-me preguiçosamente. Hoje, ao meio-dia, Melissa terá um almoço com Artur, e será a
última vez que ele ficará a sós com ela, eu mesmo me encarregarei para que isso aconteça.
Apresso-me em ir para o escritório, finalizo algumas pendências pela manhã, pouco antes do
horário do almoço, sigo para o Hotel Royal Gonzalez. De longe, observo Artur e Melissa. Vê-la com
outro faz com que todos os meus demônios se manifestem. É impossível não me lembrar de todo o
sofrimento que minha mãe passou, por amar e não ser amada. Essa cena me remete à
autoflagelação a que ela se submeteu por ver o homem que amava transbordando alegria nos
braços de outra.
Expulso esses pensamentos que tentam de alguma maneira dilacerar-me e volto minha
atenção para os dois. Reparo que Melissa está tensa através de sua expressão corporal. Seu
sorriso está de alguma forma opaco, como se ela estivesse insegura. Nunca pensei que algum dia
eu pudesse me prestar a um papel tão ridículo. Minha lucidez está em uma linha tênue com a
loucura. Minhas mãos estão trêmulas, sinto náuseas que se manifestam cada vez que fecho os olhos
e imagino minha pequena sucumbindo às investidas de Artur.
Será que era essa a sensação de impotência que minha mãe sentia por não conseguir o amor
do homem que ela amava? Era a essa fraqueza que ela se referia em sua carta?
Impossível, eu jamais me permitiria amar alguém. O que sinto por Melissa é apenas um
desejo desenfreado, que logo será saciado. A única coisa que preciso fazer é mantê-la em minha
cama e, depois que eu me fartar, será como se nunca tivesse a conhecido.
Droga!
Corro apressado para o banheiro e esvazio meu estômago. Só então me dou conta de que
minha última refeição foi o café da manhã de ontem. Sei que esta reação está sendo
desencadeada pelo meu sistema nervoso, não queria ter que admitir, mas estou mentindo para mim
mesmo. Retorno para o salão do restaurante e percebo que Melissa se foi. Em passos firmes e
decididos, vou até a mesa de Artur.
— Eu pensei que no contrato tivesse ficado bem claro que eu deveria estar presente em
qualquer alteração do projeto, Sr. Gonzalez.
Antes de sua resposta, Artur esboça um sorriso sarcástico.
— E quem disse que o que eu tinha para tratar com Melissa eram assuntos relacionados com
trabalho, Heitor?
Inalo o ar, tentando segurar o impulso para não socar a cara de Artur.
— Não vou cair no seu joguinho. Saiba você que Melissa é minha e eu quero que fique bem
longe — aviso.
Artur é um sujeito prepotente e arrogante. Com um sorriso de triunfo nos lábios, deixa bem
claro que minhas palavras não surtiram efeito.
— Heitor, se vocês estão realmente juntos, eu não vejo por que tanta preocupação. Se
Melissa o escolheu, deveria estar radiante e não com aspecto de derrotado.
Eu vou socar a cara desse babaca! Quem esse imbecil pensa que é?
— E digo mais, sei que em algum momento você vai falhar. Te conheço tempo suficiente para
saber que irá magoá-la. Fique sabendo que, quando esse dia chegar, estarei aqui por ela. Não
importa o quanto lute, no final, você mesmo irá guiá-la para os meus braços.
Antes mesmo de Artur acabar seu discurso, minhas mãos já estão em seu colarinho.
— Espere sentado, Artur, isso nunca acontecerá. Darei um jeito de mantê-la longe de você.
Sem dar oportunidade de réplica, viro as costas e saio, para não ser preso por agressão.
MELISSA
Nunca pensei que pudesse desejar tanto estar protegida em meu refúgio. Tive uma noite de
insônia terrível, a cena do beijo no restaurante ainda grita em minha memória e, para completar
minha frustração, Heitor não saiu dos meus pensamentos. As mudanças em minha vida aconteceram
rápido demais, sinto não ter maturidade suficiente para administrar alguns conflitos.
Achei que esse dia não teria fim, o almoço com Artur foi tenso ao extremo. Por um momento,
pensei que seria esmagada por suas palavras.
— Artur, pensei que esse almoço fosse para tratarmos das alterações do projeto.
— Acredite, Melissa, essa era a intenção. Porém, uma cláusula no novo contrato impede que
tratemos desse assunto a sós.
Olho para ele intrigada, com certeza Heitor deve estar envolvido, mas decido deixar para lá.
— Melissa, eu vou direto ao ponto: quero você trabalhando para mim.
Encaro Artur com o semblante em dúvidas e ele esboça um sorriso tranquilizador.
— Artur, eu já estou trabalhando para você.
— Vou ser mais claro para que não restem dúvidas. Estou expandindo meu ramo de negócios,
minha mais nova aquisição foi uma construtora. Quero você como arquiteta responsável. Tudo passará
pela sua supervisão.
Isso é muita informação para digerir. Para minha carreira, esse emprego seria uma idealização.
Mas amo trabalhar na H&C e, por mais que seja muito recente, foi Caio que abriu as portas para mim.
Ainda não tenho experiência o bastante para um cargo de tamanha responsabilidade, além disso, não
seria justo com Caio, até mesmo com Heitor, que eu saísse da empresa após assinar meu primeiro
projeto, para trabalhar com Artur Gonzalez.
— Artur, confesso que a proposta é tentadora. Porém, não seria profissional da minha parte
virar as costas para a empresa que me abriu as portas quando ninguém acreditava em mim.
Ele apoia seus braços sobre a mesa, capturando as minhas mãos.
— Ah, Melissa, você não faz ideia de como a minha admiração por você cresceu em um curto
espaço de tempo — fala, segurando seu olhar no meu. — Eu não esperava outra atitude, mas leve o
tempo que precisar, a vaga continuará sendo sua.
Com a profundidade do seu olhar, parece que ele está tentando me desestabilizar. Procuro não
encarar as profundezas daquele abismo. Eu não estou preparada para ir até lá e acho que nunca
estarei.
— Obrigada, Artur. Acredite, eu ficaria muito feliz em aceitar esse desafio, porém não posso —
falo, tentando esconder o meu nervosismo.
— Não se preocupe, Melissa. Essa vaga será sua, algum dia.
Gostaria de poder desvendar os mistérios por trás de suas palavras. Artur parece muito
convicto de sua atitude.
— Adoraria ter sido forte o suficiente e tratar com você apenas assuntos de trabalho. Porém,
sinto que o tempo está passando e não posso esperar mais. Por favor, não interprete errado, a
proposta de emprego é pelo seu admirável talento. O pedido que farei agora é algo que anseio
muito. Por favor, Melissa, me dê uma chance de fazê-la feliz, me faça feliz! Eu a quero e isso é
inegável.
Aos poucos, vou soltando as lufadas de ar que tentava segurar.
Por que será que a minha felicidade significa a infelicidade de alguém?
— Artur, eu seria hipócrita se dissesse que me sinto indiferente com suas palavras. Você é um
perfeito cavalheiro, além de simpático e atencioso. Porém, eu não estou livre, quer dizer, meu coração
não está livre, consegue entender?
— É o Heitor, não é?
Confirmo com a cabeça.
— Eu daria tudo o que tenho para estar no lugar dele. Infelizmente, sinto que cheguei tarde.
Mas isso não significa que irei desistir. Esperar é minha principal virtude. Eu serei paciente, e quando
Heitor te decepcionar, estarei aqui, esperando você.
As últimas palavras de Artur gritam no meu subconsciente. Ele fez questão de deixar claro
que eu sairia magoada, depois de tudo. Eu não posso permitir que Heitor me magoe.
Droga! Um futuro incerto está diante de mim.
Costumava viver a minha vida com tudo planejado e, por um triste momento, acabo de
descobrir que fui guiada até um labirinto. A pergunta é: como encontrar a saída?
Saio do banho ainda com os cabelos enrolados na toalha. Visto um short doll confortável e
opto por deixar meus cabelos molhados. Cansada emocionalmente, vou até a sala com meu violão
e decido cantar para esquecer minhas aflições. Se eu pudesse arrancar Heitor do meu coração,
ficaria dividida entre Diogo e Artur. Eles são o extremo oposto do meu moreno em fúria, o homem
que devastou meus sentidos feito um furacão. Antes eu era livre, meu coração era livre. Agora
tenho medo que o único que teve acesso a ele não o trate bem e o arranque do meu peito,
fazendo com que sangre.
O toque da campainha me desperta dos devaneios. Em passos lentos, vou até a porta e
verifico pelo olho mágico quem acaba de chegar, meu coração transborda em meu peito. Abro a
porta e tento esconder minhas emoções. Não posso demonstrar como ele mexe comigo.
Heitor despe-me com seus olhos. Por alguns segundos, detém o seu olhar em meu abdômen.
Sinto sua luxúria, a mesma que reconheço em meu corpo. Quando seu olhar para de encontro ao
meu, ele fecha os olhos, parecendo buscar forças dentro de si. Assim que se recompõe, encara-me
com seu olhar de predador, despertando em mim todas as dúvidas e inseguranças que agora
duelam com a lascívia.
— Melissa, eu posso entrar? — Heitor pergunta com sua voz rouca, tentando demonstrar
tranquilidade.
Com um sinal de positivo com a cabeça, abro o caminho para que ele possa entrar. Heitor
não se move do lugar, mas ergue meu queixo com suas mãos para que meu único foco seja ele.
— Não estou pedindo para entrar apenas em seu apartamento, estou pedindo para entrar
em sua vida. Mas se disser sim, terá que ser meu jeito, tudo bem para você?
Uma corrente elétrica percorre meu corpo. Sou impedida de verbalizar uma resposta. Quero
fechar meus olhos e me jogar com tudo nesse precipício, mas algo em meu subconsciente alerta-me
para fechar a porta.
Não sei o que fazer!
CAPÍTULO DOZE
MELISSA
A intensidade de seu olhar deixa-me completamente hipnotizada. É como se ele estivesse
usando um poder sobrenatural para prender minha atenção. Meu foco único e exclusivo, no
momento, são seus olhos. Através deles consigo enxergar que esse moreno em fúria construiu uma
barreira entre nós. Não sei dizer se algum dia eu conseguirei derrubá-la, ele me confunde com
apenas um olhar. Não saberia dizer se o que ele sente por mim é o mesmo que sinto por ele, ou se
algum dia chegará a ser.
Sua expressão corporal denuncia impaciência.
— Melissa, ainda não tenho sua resposta — ele fala com sua testa colada à minha. O
frescor do seu hálito me atinge por inteiro. Suas mãos agora prendem minha cabeça, fazendo
alguns movimentos sutis com seus dedos em meus cabelos. Prendo ainda mais minha respiração,
para não demonstrar ansiedade. Eu o quero, o desejo. Tê-lo tão perto desperta minha libido.
Faço um esforço metal, tentando passar pela névoa que se forma em meu cérebro, me
impossibilitando de pensar em qualquer coisa que não seja ele. Por alguns minutos, esqueço o que
ele disse. Porém, quando a realidade bate em mim, fico apreensiva em ouvir a resposta da
pergunta que não quer calar dentro de mim.
— O que significa “do seu jeito”, Heitor?
Ele fecha os olhos.
— Melissa, você me deseja da mesma maneira que eu te desejo. Veja a reação de nossos
corpos. Ainda temos um longo percurso juntos, isso aqui está muito longe de acabar. Quando digo
do meu jeito, me refiro a sexo. Apenas sexo é o que terá de mim, pois é só isso o que busco em
você. Se me permitir entrar, será minha.
Fecho os olhos para segurar as lágrimas que insistem em cair. Esta é a resposta que eu tanto
tenho buscado. Infelizmente, me dou conta de que não estava pronta para ouvi-la. Não posso
negar o que sinto e o efeito que ele causa em mim. Ainda assim, não é o suficiente para que eu
anule de vez os meus sentimentos, já que é apenas sexo o que ele deseja. Não estou certa se
quero percorrer esse caminho.
Droga, Melissa, você é a contradição em pessoa!
Incerta se devo deixá-lo entrar, sou nocauteada por minha insanidade. Mesmo não tendo
coragem de admitir para mim mesma, ele me tem. Estou ciente de que não é isso que busco ou
mereço. Este é apenas um prenúncio da catástrofe que está por vir em minha vida. Só posso estar
abalada mentalmente, para concordar com tal ofensa.
Vou entregar o meu corpo a esse homem, se é isso que ele busca. Mas antes farei algumas
objeções. Tento não demonstrar fraqueza em minha voz. Ele não poderá perceber, em hipótese
alguma, que me assusta, deixando expostas minhas inseguranças. Com ele deverá ser de igual
para igual. Posso amá-lo mesmo que em silêncio, mas não posso dar poderes a esse furacão, ele
me devastaria na primeira oportunidade e isso eu não posso permitir. Ergo minha cabeça para que
ele veja a sinceridade em meus olhos e sinta firmeza em minhas palavras.
— Heitor, dou a você total acesso à minha cama, mas fora dela, sou dona de mim e não
permitirei que interfira na minha vida pessoal. Serei sua entre quatro paredes, apenas isso. — Ele
tenta não demonstrar o quão chocado ficou, seu maxilar rígido confirma minhas suspeitas. Heitor
não gostou das minhas objeções.
— Isso é o que veremos, Melissa — fala convicto.
Vai sonhando!
Em silêncio, Heitor me conduz de costas alguns passos, até que tenha espaço para entrar,
mantendo-me imobilizada pelas suas mãos, que agora estão cobrindo minhas costas, com um
abraço de posse. Ele fecha a porta com os pés. Sem que eu tenha tempo para alguma reação, ele
captura meus lábios e devora-me.
— Como senti falta do seu beijo​ — diz sem desgrudar seus lábios dos meus. Sua língua
invade minha boca e não tenho outra saída a não ser aproveitar cada sensação que seu toque me
proporciona.
— Ah, minha pequena, estou muito longe de me saciar de você.
Não vou desperdiçar esse momento com palavras, quero desfrutar de cada segundo em sua
presença. Meu silêncio é a resposta que ele precisa. Correspondendo às suas carícias, eu o
incentivo a continuar.
Cuidadosamente, ele me ergue em seus braços. Minhas pernas agora estão enroladas em
sua cintura. Heitor me ampara e seu calor me aquece. Sinto como se estivesse em um verdadeiro
refúgio.
— Veja como você é perfeita para mim, como nossos corpos parecem peças de um quebra-
cabeça e se encaixam com perfeição...
Sob efeito da magnitude do momento, Heitor carrega-me até a sala, sem perder nosso
contato visual. Seu corpo cobre o meu conforme me deita no sofá.
— Espero que se acostume quando digo que será do meu jeito...
Você me teve desde o dia em que coloquei os olhos em você... penso comigo.
Porém, esse detalhe ele nunca saberá. Como posso expor meus sentimentos para um homem
que acaba de deixar claro que apenas quer visitar minha cama?
— Seu único acesso será à minha cama. Que fique bem claro, Heitor.
Com um sorriso sarcástico, ele demonstra que não se importa com o que acabo de dizer.
Começo a acreditar que estou ferrada.
— Terei muito tempo para te mostrar os meus termos. Agora só preciso de você.
Seus lábios exploram meu pescoço. Sua boca passeia por cada pedacinho do meu corpo.
Com suas mãos firmes em meus quadris, mesmo por cima do jeans, é impossível não sentir a rigidez.
Heitor exala sensualidade pelos poros. Seu efeito é letal para mim.
— Tão linda... A partir de agora, você é só minha, Melissa. Fui claro?
Faço que sim com a cabeça e ele prossegue, sussurrando em meu ouvido em um tom erótico.
Entregue a essa paixão excitante e ardente, meus batimentos começam a acelerar e minha
respiração começa a ficar descompassada com tamanha excitação.
Seu sussurro sensual faz com que todo meu corpo fique em alerta. Estou a ponto de implorar
que ele me possua de vez e acabe com essa tortura.
Heitor levanta seu corpo, ficando de joelhos sobre o sofá, para que seus olhos tenham total
acesso ao meu corpo.
— Você é a mulher mais linda que já conheci na vida. Não me canso de admirar sua beleza.
Você me leva ao paraíso e ao inferno ao mesmo tempo. Fico feliz por ter sido o primeiro e serei o
único.
Sou uma romântica incorrigível. O efeito de suas palavras faz com que uma lágrima solitária
role por minha face. E saber que não terei forças para lutar contra isso vai contra todos os meus
princípios. Tentando usar a máscara da indiferença, não perco a oportunidade de alfinetá-lo.
— Primeiro homem, sim, único, já é impossível. Você não parou para pensar que talvez eu
busque o mesmo que você? Que será benéfico para ambos até certo momento, mas que irá ter um
fim?
— Não me provoque, Melissa. Já falei que não compartilho o que é meu.
Assim que ele termina sua frase, com um único puxão, rasga meu short. Na sequência, faz o
mesmo com minha blusa, deixando-me exposta.
Heitor está parado no meio de minhas pernas, tendo total acesso ao meu sexo e fazendo
com que eu implore pelo seu toque. Seu sorriso de triunfo demonstra que ele está no poder.
Serei capaz de juntar meus pedaços depois que ele se for?
Sua língua agora está brincando com meu umbigo. Seus dedos ávidos fazem um caminho que
começa em minhas costelas e param na altura do meu sexo. Heitor desliza um dedo sobre os
grandes lábios e explora sem pressa. Minhas mãos agora passeiam por meu corpo, parando em
meus seios. De repente, sinto a necessidade de me acariciar, tentando intensificar minhas sensações.
— Isso, minha pequena, me dê o seu prazer. Quero que se toque para mim. Entregue-se.
Obedecendo ao comando de sua voz, sou conduzida pelo calor da emoção. Aos poucos,
começo a sentir meu corpo tremer. A sensação de estar quase alcançando o paraíso é
arrebatadora. O único som que sai de minha garganta é o nome do Heitor.
— Abra seus olhos, pequena, olhe para mim.
Concentro minha atenção em Heitor, que, em poucos segundos, se desfaz de sua roupa.
Um presente dos deuses para ser cobiçado. Confiante e dono de si, Heitor segura seu
membro com firmeza. Seus movimentos começam na ponta, indo até a base. Posso ver o líquido
pré-ejaculatório, passo a língua sobre meus lábios, desejando sugar até a última gota.
— Ah, pequena, se continuar me olhando com essa cara devassa, não responderei por mim.
— Heitor, por favor. Quero você dentro de mim e quero agora.
Sem protelar mais, ele me penetra com força.
Atento às minhas necessidades, ele toma meus lábios com urgência. Sou dominada pela
emoção e correspondo com sofreguidão.
— Amo a sensação de estar dentro de você, Melissa.
— Também amo você dentro de mim, Heitor. É malditamente perfeito.
Ele agora segura minhas pernas e aumenta o ritmo das investidas.
Se esse é o seu jeito, não existirá no mundo outro que eu goste mais.
Estamos ofegantes, sinto que ele está perto. Ele me aperta com mais força, seu corpo emana
calor para o meu. Seus lábios quentes não desgrudam dos meus. Sinto um turbilhão de espasmos se
apoderarem de nossos corpos e então, juntos, alcançamos o paraíso.
Cravo minhas unhas em seu bíceps e, sem raciocinar direito, grito seu nome. Sinto os jatos de
sêmen em meu interior e, aos poucos, nossas respirações começam a estabilizar.
Heitor encosta sua testa na minha e desaba sobre mim. Não quero que acabe esse momento
mágico. Porém, quando ele ergue o pescoço, para que fiquemos frente a frente, o encaro, tomada
por uma sensação de pânico.
Heitor me observa com um olhar inquisitivo.
— Melissa, eu machuquei você?
Temendo por sua reação, ainda não sei se devo ser honesta com o “Sr. Encrenca”.
— Heitor, nós não usamos camisinha — murmuro sem ânimo.
Sinto seu corpo tensionar. Ele fecha os olhos e, aos poucos, solta o ar que estava preso em
seus pulmões. Mesmo que seu semblante seja ilegível, é perceptível que ele está travando uma
batalha interna.
— Droga, Melissa! Diga-me que você toma algum contraceptivo...
Sinto a frieza e a indiferença de Heitor através de seu olhar acusador. Sem pensar direito, o
empurro para longe de mim.
— Vá para o inferno, Heitor — grito. —Você acha que não sei o que está passando pela
sua cabeça? Acha que premeditei isso? Foi você quem veio até mim, seu babaca egocêntrico! —
Ando de um lado para o outro, em meio à minha sala.
— Olha a boca — repreende, tentando recompor seu controle emocional. — Eu sei que a
culpa é toda minha, não podia ter esquecido, droga! Mas quando estou com você, a única coisa
que importa é te ver e isso me assusta pra cacete.
Meu moreno em fúria me abraça, tentando dissipar a nuvem de tensão que paira sobre nós.
— Não vamos pensar nisso agora.
Eu o abraço, tentando encontrar a paz que tanto procuro. Sinto um beijo terno em meus
cabelos, um gesto de proteção e carinho. Ele afaga minhas costas, fazendo com que eu me aninhe
ainda mais a ele. Quando sente que estou menos tensa, me pega no colo e seguindo minhas
indicações, vamos para o quarto.
— Espere aqui que vou encher a banheira e preparar seu banho.
Antes que eu levante e vá encontrá-lo na suíte, ouço sua voz destacando-se entre o barulho
da água:
— Fique aí, daqui a pouco irei buscá-la.
Sorrio a me dar conta de como é natural tê-lo em minha casa e como adoraria que isso
virasse rotina. Após alguns minutos de espera, Heitor retorna e me carrega no colo e juntos nos
acomodamos na banheira.
Espero nunca ter que acordar desse sonho. Ele cuidadosamente esfrega meu corpo, como se
eu fosse uma peça de cristal, me banha em silêncio. O único som audível é da chuva que cai lá
fora.
Com minha cabeça deitada em seu ombro. Fecho meus olhos por alguns segundos e me
perco em nossas lembranças. Meu peito rasga quando suas palavras me atingem em cheio.
Apenas sexo é o que terá de mim, pois é só isso o que busco em você.
Recuso-me a acreditar que cada um de nossos momentos sejam vistos por Heitor como
apenas sexo. Ele alterna entre o arrogante e o amável e isso é frustrante.
Eu serei forte o suficiente para não demonstrar o que sinto por esse homem? Sexo será o
bastante para mantê-lo aqui, junto a mim?
— Posso ouvir as engrenagens dessa linda cabecinha trabalhando. Quer dividir seus
pensamentos comigo, pequena?
Sem medir minhas palavras, falo por impulso:
— Adoraria, se você estivesse preparado para ouvir. Nesse caso, deixe-me com meu
silêncio.
— Não irei persuadi-la, por ora. Mas quero que saiba que eu preciso saber tudo o que se
passa com você. Se não estiver bem, é minha obrigação saber. Quero cuidar de você.
Contraditório, esse é Heitor. Em alguns momentos me transmite segurança com suas palavras,
em outros, é como se estivesse tentando me punir de alguma maneira, por algo que eu nem sei o
que é.
Ele me conduz para fora da banheira e me ajuda a vestir um roupão, acompanhando-me
até a cama.
Em silêncio, observo-o se deitar nu, ao meu lado. Ele deita de barriga para cima, fazendo
com que eu me aninhe em seus braços. Passo minhas mãos em sua cintura. Fecho os olhos,
recordando-me de como é bom acordar com ele ao meu lado.
— Lembrei-me de algo — diz Heitor, me afastando com suavidade para então se levantar.
— Espere, eu já volto — tranquiliza-me antes de sair.
Minutos depois, ele volta com suas roupas enroladas em uma das mãos e, com a outra,
segura meu violão. Presto atenção em cada movimento seu. Tudo o que ele faz é perfeito aos meus
olhos. Observo-o colocar suas roupas e o violão na poltrona, em frente à cama, retirando
cuidadosamente um papel amassado do bolso de sua calça.
Em passos firmes, caminha em silêncio ao meu encontro. Seu olhar sempre firme no meu, fica
mais do que provado que essa é a maneira mais perfeita de nos conectarmos quando não estamos
nus e ofegantes. Ele hesita por um momento, antes de me entregar o papel.
Every Rose has its thorn
(Toda rosa tem seus espinhos)
Trata-se do bilhete de Diogo, que ele interceptou quando nos conhecemos. Estou atônita, mas
por outro lado, feliz. Sua atitude é de quem sente ciúmes, e ciúmes é sinal de posse.
Devo me agarrar a essa esperança?
— O que significa essa frase para você, Melissa? O que o aprendiz de astro americano
significa para você? Por favor, me conta tudo, não omita nenhum fato.
CAPÍTULO TREZE
MELISSA
Seu olhar impaciente deixa claro que ele busca decifrar o que parece ser um enigma. Ainda
em silêncio, pego em sua mão, fazendo com que ele se sente na cama, ficando de frente para mim.
Assim que meus dedos tocam em sua pele, sinto como se uma descarga elétrica percorresse todo
meu corpo. O intenso rubor do meu rosto é observado por ele, através do seu olhar apreciativo.
Ainda relutante sobre querer ou não ter essa conversa com alguém que deixou claro que só
quer estar comigo na cama, mordo os lábios, tentando disfarçar minha relutância. Heitor e eu
progredimos pouco até aqui. É como se ele fosse um agente em uma missão secreta, onde não
pudesse revelar, em hipótese alguma, sua identidade.
Quem é esse homem? Por que entra em contradição a todo tempo, sendo que suas atitudes
não vão de acordo com o que ele diz?
Eu o conheço há tão pouco tempo e ele já ocupa um lugar de destaque em minha vida
— Melissa, eu te fiz uma pergunta. Começo a achar que não gostarei da resposta, já que
você parece incomodada.
Não me sinto incomodada, sinto-me insegura.
Ele quer tudo de mim e não tem nada para oferecer em troca. Apenas quero ser inacessível
em algumas coisas, assim como ele, para mim, em todos os aspectos.
— Heitor, eu não me sinto incomodada, apenas não vejo motivos para falar de uma questão
pessoal quando nosso envolvimento é apenas sexo.
Ele inclina seu corpo para frente, colocando uma mecha do meu cabelo atrás da orelha. Em
seguida, seus lábios suavemente se encostam aos meus em um beijo casto. Segura meu rosto com
suas mãos macias, fazendo-me olhá-lo nos olhos. Sinto-me pequena e indefesa perante ele.
— Vai me dizer ou devo usar outros meios para descobrir? — pressionou, com a voz
calculadamente suave. Ele controla a irritação, porque quer a minha verdade, está tentando não
ser arrogante e, de certa forma, isso me agrada.
Não consigo conter o riso diante da sua colocação. Pelo pouco tempo que passamos juntos,
sei que ele será insistente e não desistirá até saber o que deseja.
— Tudo bem, você venceu. Porém, não sem antes barganharmos.
— O que deseja barganhar, pequena? — Fita-me com curiosidade.
— O direito de também fazer perguntas. Eu te digo o que deseja saber, mas em troca você
terá de responder algo que eu desejo saber. Cada pergunta que fizer me dará o direito de
também perguntar. Se não quiser responder, poderei fazer o mesmo.
Por alguns instantes ele reluta, por fim, vejo seus ombros relaxarem em sinal de rendição.
Começo a achar que isso será divertido. Parece que estamos progredindo aqui.
— Esse não é o tipo de jogo que costumo jogar. Se eu quero algo, tomo para mim, simples
assim. Com você não será diferente. Porém, como sei que não irá facilitar e não está disposta a
ceder, farei pequenas concessões.
Meu olhar é atônito. Heitor deixa mais do que provado quem é que realmente dá as cartas.
Mas minha curiosidade sobre ele faz com que eu ceda à sua imposição.
Isso não vai prestar...
— Diogo e eu nos conhecemos na faculdade. É muito fácil ser amiga dele, já que ele
contagia tudo o que está ao seu redor. Nós nos tornamos inseparáveis. Ele entrou para a
faculdade de arquitetura porque queria agradar ao seu pai, não que o curso fosse realmente o
seu sonho. Mesmo não gostando, isso não o impediu de ser um aluno destaque. Estávamos juntos em
todos os grupos de estudos e isso nos tornou os melhores amigos.
Seu semblante é indecifrável. Como se ele estivesse tentando digerir as minhas palavras.
— Não foi isso o que eu perguntei, Melissa. Quero saber o que ele significa para você e o
que quer dizer esse maldito bilhete.
Heitor me olha com um misto de dor e amargura nos olhos. Jamais imaginei que ele traria
esse assunto à tona e que se sentiria tão desconfortável por falar de Diogo.
— Não vou omitir de você o fato de que Diogo me ama e o quanto me sinto culpada por
não retribuir. Infelizmente, não mandamos em nosso coração, e se eu pudesse escolher, o amaria
com toda certeza.
Olho para Heitor com medo de sua reação. Ele ainda está indecifrável e com um sinal de
afirmativo pede que eu prossiga.
— Ainda na faculdade, ele expôs os seus sentimentos. Eu o via apenas como amigo e isso
não iria mudar. Diogo não recebeu bem a notícia, e no dia seguinte foi embora do Brasil. Depois
disso, não tive notícias dele, até aquela noite, no República Pub.
— Não pense que me agrada saber que outros homens a desejam. E saber que você me
deixou plantado em frente ao restaurante para almoçar com o aprendiz de astro americano só
aumenta minha vontade de quebrar a cara daquele cantorzinho.
— Você foi o único responsável! Diogo é meu amigo e isso nunca mudará. Infelizmente, já
não está mais no Brasil, mas se ainda estivesse, nada mudaria minha relação com ele, que isso
fique bem claro.
Sustento meu olhar em um duelo de tensão entre nós. Preciso esclarecer que ele não irá
intervir em meus assuntos pessoais.
— Aquele babaca já foi tarde. Mas, voltando ao assunto do bilhete, ainda não consigo
entender onde se encaixa a letra daquela maldita música, já que vocês sempre foram amigos.
Precisa concordar que é uma canção intensa.
É impossível não me recordar dos momentos felizes que Diogo e eu compartilhamos. Ele
sempre foi tudo o que eu precisei. Um amigo leal e companheiro para todas as horas.
Compartilhávamos todos os pensamentos e éramos bons no que fazíamos juntos. Essa música
sempre foi a nossa favorita, nossas vozes se encaixavam na mais perfeita melodia.
— Por favor, me tire desse escuro, droga! — Heitor começa a demonstrar sua irritação
contida.
— Todo fim de semana fazíamos a noite do cinema, na casa de algum amigo na faculdade.
Quando chegou minha vez, sugeri meu filme favorito: Rock Of Ages. Eu sempre adorei cantar e já
havia assistido diversas vezes àquele filme, sabia todas as músicas de cor. Meus amigos disseram
que eu me parecia com a Julianne Hough, não somente na aparência física, mas nosso timbre vocal
alcançava o mesmo tom. Diogo na época já tinha uma banda, insistiram para que eu cantasse com
eles no festival de música da faculdade e comecei a participar dos ensaios. A música escolhida foi
Every Rose Has It’s Thorn, do Poison. Julianne Hough a interpretou no filme. Vencemos o concurso e,
depois disso, começamos a fazer shows e cantar em bares nos finais de semana. Essa música
passou a ser a abertura dos shows.
Observo Heitor, em silêncio, esperando sua reação. Sua mandíbula contraída, controlando-se
para não demonstrar a irritação que sente.
— É notável que, quando revive esses momentos, você se ilumina e parece feliz. Se você
amava a música, por que é que não fez como Diogo e seguiu sua carreira?
— Eu já havia deixado a banda antes mesmo do Diogo ir embora. A música era uma
paixão, mas a arquitetura era a minha vida, e quando precisei fazer a escolha, sabia qual
caminho desejava seguir.
— Se você estivesse escolhido à música, com certeza não estaríamos aqui, pequena.
Não faça isso, Heitor. Não me iluda.
Fecho os olhos e, em silêncio, busco o toque de sua testa na minha. Perco-me na sensação de
sentir sua pele. O frescor de seu hálito quente em meu rosto acende as labaredas dentro de mim e,
antes que eu seja consumida pelo meu desejo carnal, Heitor nos afasta bruscamente.
— No dia que te conheci, fui nocauteado por sua beleza. Eu a desejei, a queria ali, naquele
instante. Quando o garçom se aproximou da mesa com aquela rosa, precisei segurar meu impulso
de quebrar tudo. Desculpe-me pela grosseria, por arrancar o bilhete de suas mãos. Quando você
levantou da mesa com o microfone e, começou as primeiras estrofes da canção, soube que você
seria minha. Eu amei ouvir você cantar e aquela maldita música tem assombrado minha memória.
Não quero mais ser esmagado pela lembrança de você cantando com outro homem. Preciso que
você construa uma nova lembrança. Demonstre através da sua linda voz qual é a música que você
escolheria para eternizar esse momento, nosso momento. Preciso que você cante para mim,
pequena. Por favor...
Incendiada por um desejo desenfreado, me jogo em seus braços e capturo seus lábios com
volúpia. Minhas mãos afagam seus cabelos e o beijo toma proporções intensas. Não quero parar,
mas não posso deixar de atender seu pedido e ter a oportunidade de mostrar a ele minha opinião
sobre nós. Afasto nossos lábios abruptamente e, quando nossa respiração se estabiliza, desço da
cama e pego o violão. Sento-me na poltrona e dedilho as cordas, preparando-me para tocar.
— Não sabia que você além de cantar, também tocava algum instrumento. Fiquei surpreso e
curioso ao ver o violão.
Sorrio.
— Tem muitas coisas que você não sabe sobre mim, Heitor. Também espero saber mais sobre
você.
—Você tem direito a duas perguntas, hoje.
— As guardarei para quando tiver um crédito de quatro perguntas, assim teremos um
diálogo mais complexo sobre você.
— Isso significa que eu terei que fazer mais duas perguntas.
— Exatamente. Agora me deixe cantar para você. Peço que reflita sobre a letra. — Ele faz
um gesto com as mãos em sinal de rendição, enquanto eu inspiro e espiro o ar dos pulmões para
buscar coragem.
Making Love Out Of Nothing At All - Air Supply
(Fazer amor em troca de nada)
Eu sei muito bem como sussurrar
E sei exatamente como chorar
Eu sei bem onde encontrar as respostas
E sei muito bem como mentir
Eu sei como fingir
E sei como tramar
Eu sei a hora de encarar a verdade
E então sei muito bem quando sonhar
E sei exatamente onde te tocar
E sei o que provar
Sei quando devo puxar você para perto
E sei quando devo soltar você
E eu sei que a noite está acabando
E eu sei que o tempo vai voar
E eu jamais vou te dizer
Tudo que tenho para te dizer
Mas eu sei que tenho que tentar

E eu conheço o caminho da riqueza


E conheço os caminhos da fama
Eu conheço todas as regras
E então sei como quebrá-las
E eu sempre sei o nome do jogo
Mas eu não sei como te deixar
E jamais te deixarei cair
E não sei como você consegue
Fazer amor em troca de nada
Fazendo amor
Em troca de nada...
Toda vez que te vejo todos os raios do sol estão
Passando pelas ondas de seus cabelos
E toda estrela no céu está mirando teus olhos
Como um holofote
Os batimentos do meu coração são como um tambor que está perdido
E procura um ritmo como você
Você pode tirar a escuridão das profundezas da noite
E transformá-la numa luz que brilha infinitamente
Eu tenho que segui-la, pois tudo que sei
Não é coisa alguma até ter dado a você
Eu posso fazer o corredor tropeçar
Posso fazer a jogada final
Eu posso executar todos os dribles ao som do apito
Eu consigo fazer todos os estádios vibrarem
Posso fazer esta noite durar para sempre
Ou posso fazê-la desaparecer ao amanhecer
Eu posso te fazer todas as promessas que já foram feitas
E posso fazer desaparecer todos seus temores
Mas nunca vou conseguir sem você
Você realmente quer me ver rastejar?
E jamais vou conseguir como você consegue
Fazer amor em troca de nada
Conforme minha voz foi atingindo as notas mais altas da música, deixei claro que não sei
como ele consegue fazer amor em troca de nada.
Assim que termino a música, Heitor se levanta e segura minha mão, fazendo com que eu
fique de pé à sua frente. Sua ereção roça em meu ventre. Heitor espalha uma trilha de beijos por
meu pescoço, deixando-me na expectativa.
— Olhe para mim. — Segura meu rosto em suas mãos. — Eu sei o que eu disse e o que isso
te fez pensar. Agora quero que você me ouça. Dedico a você a segunda parte dessa canção que
dedicou a mim. Também quero que reflita e não me pergunte sobre isso, pois essa resposta você
não terá.
Lágrimas queimam no canto dos meus olhos quando me deparo com a queda da última
barreira imposta. Os olhos são reflexos da alma e o que vejo nos seus é paixão, carinho e ternura.
Ao pé do meu ouvido, ele sussurra novamente o trecho da música com a qual se identificou:
Os batimentos do meu coração são como um tambor que está perdido
E procura um ritmo como você
Você pode tirar a escuridão das profundezas da noite
E transformá-la numa luz que brilha infinitamente
Eu tenho que segui-la, pois tudo que sei
Não é coisa alguma até ter dado a você
Eu posso fazer o corredor tropeçar
Posso fazer a jogada final
Eu posso executar todos os dribles ao som do apito
Eu consigo fazer todos os estádios vibrarem
Posso fazer esta noite durar para sempre
Ou posso fazê-la desaparecer ao amanhecer
Eu posso te fazer todas as promessas que
Já foram feitas
E posso fazer desaparecer todos seus temores
Mas nunca vou conseguir sem você
Você realmente quer me ver rastejar?
Perdida na emoção do momento, ele toma meus lábios em um beijo faminto enquanto retira o
violão do meu colo e me ajuda a ficar de pé.
— Eu sei o que quero e farei de tudo para ter você entregue aos meus comandos, Melissa.
Sua língua vai de encontro ao meu sexo, fazendo movimentos estimulantes, roçando no meu
ponto mais sensível, fazendo com que uma onda insana de desejo se apodere de mim. Não
contenho os espasmos do meu corpo, enrolo meus dedos em seus cabelos e elevo meus quadris, o
estimulando a continuar. Sou devastada por uma paixão ardente no momento em que alcanço meu
clímax.
Abro os olhos e encontro o desejo refletido através de seu olhar. Heitor mais uma vez busca
meus lábios e sela esse momento com o mais profundo beijo.
— Eu menti, talvez até para mim mesmo. Jamais faria amor em troca de nada. Você me
desconcerta e traz um misto de sensações que, até então, eram desconhecidas para mim. Cheguei
aqui com a intenção de buscar apenas sexo, mas sairei com a descoberta da diferença entre fazer
sexo e fazer amor. Porque mesmo sem saber, desde a nossa primeira vez, sempre fiz amor com
você, Melissa.
CAPÍTULO CATORZE
MELISSA
Conforme os dias se passaram, Heitor foi se tornando indispensável em minha vida. Passamos
todas as noites juntos, desde então. Ele, em um curto espaço de tempo, passou a ser o centro do
meu universo, tudo é por ele ou para ele. Lutei e relutei para não permitir que ele exercesse
qualquer efeito sobre mim, mas fracassei em todas as tentativas. É como se um imã nos atraísse e
não conseguíssemos ficar longe. Só Deus sabe que eu não conseguiria, que não quero ficar longe.
Heitor não tem poupado esforços para provar o quanto eu estava errada em meu ponto de
vista. Quero acreditar, me entregar de vez a essa doce ilusão. Porém, as dúvidas e as inseguranças
não me deixam desfrutar de tudo aquilo que ele está disposto a oferecer sem temer a dor e a
desolação.
Diariamente, volto minhas lembranças para a noite em que ele me surpreendeu com suas
lindas palavras.
Como ficar imune a tudo isso, se a única coisa que ele tem feito é selar nossos momentos com
devoção e paixão?
Diferente do babaca que conheci, ele tornou-se perfeito para mim. Tenho a impressão de
que Heitor está passando por cima de tudo o que acredita para que tenhamos nossos momentos de
paixão. É como se fôssemos predestinados a viver juntos, pelo menos é assim que me sinto. Para
alguém que somente buscava sexo, Heitor está quebrando todas as regras.
Não tivemos encontros em lugares públicos. Como romântica incurável que sou, adoraria um
cinema ou um jantar romântico. Mas quando estou com ele, a única coisa em que penso é estar nua
em seus braços. Fiz de tudo para não criar expectativas e alimentar falsas esperanças, mas foi
inevitável.
Toda vez que fecho os olhos, consigo ouvir o seu sussurrar sobre mim:
“Minha pequena, tenho você e você me tem mais do que eu desejaria.”
Perco-me em suas palavras e as agarro com todo o meu ser. Mesmo sem ele dizer com todas
as letras, sinto o fogo da paixão em seus olhos. Isso fica comprovado através da maneira com que
ele me beija e me venera. O cuidado que tem comigo, não me deixando dirigir, me levando e me
buscando diariamente no trabalho. Nossas trocas de mensagens e os telefonemas no meio do
expediente. Tornei-me dependente de sua atenção e não sei o que faria se isso acabasse de
repente.
Meu celular toca e verifico o visor. É minha mãe.
— Mamãe, tudo bem?
— Oi, Mel, saudades de você, filha.
— Também estou com saudades.
— Estou ligando para lembrá-la de que Raul e eu finalmente faremos nossa tão sonhada
viagem de férias.
— Essa viagem é mais que merecida, que seja muito proveitosa!
— Ficaremos fora por algumas semanas, tudo bem para você?
— Está tudo bem, e ficarei mais feliz sabendo que vocês estão felizes. Manda um beijo para
Raul e diga que eu o amo.
— Também amamos você, Mel.
Conversamos mais alguns minutos e despeço-me, aliviada. Não estou preparada para
enfrentar os questionários da Dona Clara. Ela descobriria meu envolvimento emocional com meu
chefe e isso não acabaria bem. Na certa, Raul viria pessoalmente até Heitor tirar satisfações, e isso
seria constrangedor.
Volto a minha atenção para o trabalho, quando a luz do visor no meu celular me chama a
atenção.
HEITOR >>>Tudo bem se hoje você for de táxi? Tenho uma reunião e chegarei tarde.
Infelizmente, não conseguirei abrir o zíper do seu vestido, mas com certeza chegarei a tempo de
tirar seu pijama.
Como é possível alguém ser feliz com tão pouco? Bastam algumas palavras dele para que
eu me sinta uma adolescente apaixonada.
MELISSA>>>Ansiosa para sentir seus dedos trilhando meu corpo. Esperarei por você, nua.
Caso demore a chegar, não se preocupe, meus dedos podem antecipar algumas sensações em meu
corpo.
Se tem uma coisa que me diverte é tirar Heitor do sério.
HEITOR>>> Você não deveria testar a fúria de um homem. Seu prazer é meu prazer. Devo
te lembrar de que é minha obrigação fazer você feliz e completa, todos os dias.
Busco esperanças em cada brecha que Heitor abre, mas é como se eu nunca conseguisse
alcançá-lo. Procuro deixar minhas preocupações de lado, tentando mais uma vez recuperar meu
foco, quando olho para cima e encontro o olhar inquisitivo de Joana.
— Mel, há dias tenho notado que você está diferente. Não precisa ser adivinha para
perceber sua cara de mulher apaixonada.
Será que sou tão ruim para esconder minhas emoções?
Decido ser sincera, mas um pouco omissa:
— Sim, estou apaixonada por alguém que não está a fim de relacionamentos. Consegue
entender o tamanho da encrenca em que fui me meter?
— Hoje à noite você me explicará com mais clareza, Mel. Andréa acabou de ligar dizendo
que nos espera no República Pub, e nem pense em dizer não.
Como sei que Heitor chegará tarde, para não demonstrar fraqueza e para que ele não
ache que eu fiquei desesperada, aguardando seus comandos, resolvo aceitar o convite. Uma noite
com as amigas é tudo o que preciso.
— Ok, Joana, diga a Andréa que estaremos lá.
***
Chegamos ao República Pub minutos antes do horário combinado com Andréa e somos
conduzidas pelo garçom até a mesa que reservamos. Fazemos nossos pedidos enquanto
aguardamos Andréa. Assim que as bebidas chegam, Joana bebe todo o conteúdo do copo em um
único gole. Estranho seu comportamento e ela me diz que precisa beber para esquecer.
Será que ela permitiu, assim como eu, que um tsunami entrasse em sua vida?
— Sabe, Mel, desisto de tentar entender o que se passa na cabeça dos homens. Não estou
disposta a deixar de ser quem sou só porque a outra pessoa não me aceita.
— Se não te aceita como você é, essa pessoa não te merece, Joana.
Ela parece refletir nas minhas palavras enquanto seu olhar divaga perdido entre as pessoas.
— Como assim, Dona Melissa e Dona Joana, vocês não me esperaram para secar o caneco?
— diz Andréa, em alto e bom tom, ao se sentar conosco para que possamos dar continuidade na
noite das garotas.
— Andréa, eu estava dizendo à Melissa que é difícil compreender os homens.
— Eu já desisti há muito tempo. Desisti na primeira tentativa — diz Andréa, firme em sua
colocação.
— O que você pensa sobre os homens, Melissa? — Joana pergunta.
— Bem, meninas, eu acho que devemos esquecer os homens por essa noite, o que acham?
Viemos aqui para nos divertir e é isso o que faremos — digo, tentando mudar o rumo da conversa,
porque, pelo que conheço de Joana, logo serei alvo de suas especulações.
— Você venceu, Mel. Tentaremos não falar de homens, pelo menos esta noite — concorda
Joana, alegre, devido ao efeito da bebida.
— Quem nunca brincou de ‘trava língua’? Quem errar deverá secar o copo em um único
gole — sugeriu Andréa, tentando animar a noite.
— Eu começo. — Joana se empolga com a ideia. — Um prato de trigo para um tigre triste,
dois pratos de trigo para dois tigres tristes.
Depois de alguns copos, vários “trigues” e nenhum tigre, nós resolvemos fazer um trio no
karaokê. Ainda incerta se devo acompanhar minhas amigas bêbadas e alegres, Joana me puxa
pela mão e me conduz até o palco.
As meninas fazem o papel de coreógrafas e backing vocal, enquanto eu tento imitar a Cyndi
Lauper, e quando a música chega ao refrão, em um gesto sensual, fizemos um “trenzinho” e, juntas,
descemos até o chão, nas batidas da música. Fecho os olhos enquanto viajo na letra da música,
desejando que Heitor estivesse aqui para contemplar minha sensualidade. Queria tanto que ele
enxergasse que por trás dessa garota existe uma mulher rendida por seus encantos.
Quando as batidas da música começam a acalmar, abro os olhos e dou de cara com meu
pior pesadelo. Heitor está parado em frente ao palco, dirigindo-me um olhar furioso. Não tenho
tempo de reagir, pois rapidamente sou retirada do palco pelo moreno em fúria.
Andréa e Joana me fitam com reprovação. Se essa noite eu consegui não falar de homens,
no nosso próximo encontro terei muito o que falar sobre Heitor. Minhas amigas irão me fuzilar, caso
eu não revele o motivo do comportamento do meu chefe homem das cavernas.
HEITOR
Assim que demos por encerrada a reunião com nosso futuro cliente, saio em disparada para
o apartamento de Melissa. Recuso o convite de Caio para ir ao República Pub. Não tem outro lugar
no mundo que eu deseje estar, senão com ela, a mulher que virou meu mundo de ponta cabeça.
Estou perdido em meio a um fogo cruzado, a única coisa que sei é que posso ser ferido a qualquer
momento.
Ela tem abalado o inferno dentro de mim e eu já não estou nem aí, se conseguirei sair sem
danos maiores de toda essa loucura. Eu a quero e esse sentimento tem me tornado refém daquela
pequena. Depois da noite em que, em um ato de desespero, fiz de tudo para provar que apesar
de ter falado sobre ser somente sexo, fazíamos amor, não consegui me manter distante de Melissa.
Ela tornou-se tudo de que preciso. Sim, ela é suficiente para mim. A sensação de acordar em meus
braços tem o poder de apagar um passado de dor e sofrimento, como se nada mais existisse em
nossa volta, apenas ela e eu.
Eu não estou me permitindo pensar, só preciso viver cada momento como se fosse o último.
Não quero que acabe. Não estou preparado para deixá-la ir. Ela fixou suas garras em mim e não
faço questão nenhuma de me soltar.
Droga, Caio, isso são horas de ligar?
Como não atendo o celular quando estou dirigindo, Caio não perde a oportunidade de me
aporrinhar, enviando mensagens. Aproveito quando paro no sinal fechado, para verificar o celular.
Assim que abro a mensagem, meu sangue congela. Trata-se de uma foto da Melissa com suas
amigas, no República Pub.
Mas que merda é essa? Inferno, Melissa! Não era isso que havíamos combinado.
Preciso atravessar a cidade em tempo recorde, Melissa não perde por esperar. Se alguém
me contasse, jamais acreditaria. Melissa está totalmente bêbada, cantando no palco, sendo o objeto
de desejo de toda a torcida masculina. Com os olhos fechados, ela canta o refrão da música de
Cyndi Lauper, Girls Just Want To Have Fun[1]. Seu corpo obedece às batidas da música,
requebrando até o chão. Ela parece alheia à plateia, mas toda vez que repete o rebolado,
arranca suspiros da “macharada”. Quando ela abre os olhos, seu olhar vem de encontro ao meu.
Melissa nada fala, é como se ela estivesse avaliando o estrago. Não contenho o impulso, subo no
palco e, em um movimento rápido, coloco-a em meus ombros. Passo por Caio e Vitor e peço que
eles tomem conta de Joana e Andréa, que certamente não terão condições de irem embora
sozinhas. Assim que a coloco no banco do carona, passo o cinto de segurança em seu corpo,
enquanto ela sussurra, meio grogue:
— Heitor, o que faz aqui?
— Melissa, não diga nada. Eu só quero te levar para casa.
Enquanto tento dissipar minha raiva, segurando firme ao volante, olho para o lado e vejo
que Melissa pegou no sono.
O que ela tinha na cabeça ao sair para beber e não me comunicar?
Estaciono o carro na garagem e com cuidado pego-a no colo. Ainda dormindo, ela passa as
mãos em meu pescoço e aninha sua cabeça em meu peito. Sinto-me o mais feliz dos homens por tê-
la em meus braços. Só ela é capaz de acalmar a tempestade que ela mesma causou. Assim que a
deito na cama, Melissa abre os olhos e, através da profundidade de seu olhar, consegue derreter
minha parede de gelo.
— Fique aqui enquanto preparo seu banho.
Hesitante em deixá-la sozinha, dou um beijo em sua testa e vou até o banheiro. Assim que a
banheira está pronta, carrego-a em meus braços e tiro sua roupa com cuidado, como se ela fosse
uma obra de arte rara. Livro-me das minhas roupas e entro na banheira com ela. Em silêncio, meus
dedos passeiam por suas perfeitas curvas e se detêm em seus seios. Em movimentos circulares, eu a
caricio e arranco gemidos de sua garganta. Prestes a cometer uma loucura, dou o banho por
encerrado. Cuidadosamente, eu a tiro da banheira e a visto com um roupão. Coloco-a deitada na
cama e me deito ao seu lado.
Como um soldado na guerra, procurando por um abrigo de proteção em campo inimigo,
Melissa se aninha em meus braços, entrelaçando uma de suas pernas entre as minhas. A sensação é
inebriante, como se aqui estivesse minha fonte de vida.
— Durma, pequena, amanhã falaremos sobre o episódio de hoje, agora quero que feche os
olhos e durma.
Depois de alguns minutos de silêncio, sua respiração começa a ficar suave e seus batimentos
mais compassados. Sinto que esta noite terei muito no que pensar. Melissa tem o dom de me
desestabilizar, como se eu estivesse perdendo o rumo de todos os aspectos relacionados à minha
droga de vida. Sempre mantive as rédeas de tudo, agora nada mais sei de mim. Busco em meu
abismo pessoal, tentando encontrar o homem que um dia eu fui, e a única coisa que encontro é um
homem que não conheço. Saber que esse novo eu encontrou a luz para seus dias faz com que eu
tenha medo da escuridão. Não quero voltar para lá.
Ainda em silêncio, ouço Melissa resmungar, quase inaudível, e faço um esforço para
compreendê-la.
— Amo você, Heitor...
Meu copo fica tenso com o que acabo de ouvir ou imagino ter ouvido. Meus olhos a
procuram e a encontro dormindo.
Será que eu imaginei ter ouvido?
Só posso estar a um passo da loucura, fecho os olhos, tentando acalmar os batimentos do
meu coração. A verdade é que se foi real ou não, senti uma felicidade que não conhecia antes
dela.
CAPÍTULO QUINZE
MELISSA
Assim que minha mente desperta pela manhã, faço um esforço para me lembrar dos
acontecimentos da noite anterior. Aos poucos, as lembranças começam a se fazer presente, e aquilo
que eu mais temia aconteceu. Sob efeito do álcool, disse a Heitor que o amava. Eu havia
prometido a mim mesma que ele nunca saberia dos meus sentimentos em relação a nós. Fiz essa
promessa para evitar a dor do amor, não queria que ele me achasse uma garota tola, daquelas
que se apaixonam por seu primeiro homem. Homem esse que deixou claro que teríamos apenas
sexo.
Droga, Melissa, como você foi baixar a guarda e expor seus sentimentos?
Ainda sem coragem de enfrentar a fera que dorme ao meu lado, faço uma breve viagem
pela noite das garotas. O ponto alto da noite foi ter sido carregada pelo meu ogro.
Ainda posso sentir seus dedos trilhando meu corpo enquanto me banhava. A maneira com
que me protegeu, amparando-me em seus braços, me fez sentir segura e amada.
Sem acordá-lo, viro-me lentamente para ficar de frente para ele. Meus olhos passeiam por
seu corpo. Ao contemplar sua face imaculada e sua virilidade, sinto uma espécie de dor em meu
peito. Eu o amo mais que minha própria vida. Como sobreviver depois de Heitor?
— Gosta do que vê?
Droga! Não estava preparada para encará-lo nesse momento.
— Apreciar essa vista faz um bem para meus olhos — digo, tentando não demonstrar meu
nervosismo.
— Além de admirar, você pode desfrutar de tudo isso. É seu, pequena, faça bom uso. —
Heitor desliza sua mão até o criado mudo para pegar uma camisinha.
Uma parede de músculos agora está sobre mim e, enquanto minha boca é violada por sua
língua, Heitor penetra-me sem aviso, deixando-me imobilizada.
— Ah, Melissa. Passei uma noite desconfortável sentindo você se esfregando em mim. Não
vou me segurar por muito tempo. Mas vou garantir que você goze primeiro.
Busco seus lábios e enrolo minhas pernas em sua cintura, facilitando o acesso. Conforme
Heitor aumenta o ritmo das estocadas, sinto meu sangue fervilhar. Estamos pertos e isso desperta o
desespero para que nossos corpos trabalhem juntos, como se fossem apenas um só.
Heitor prende meu corpo com o seu, sugando todas as minhas forças. Meu grito é abafado
por seu beijo e minha entrega é recebida por ele com fome e urgência. Um momento de êxtase,
paixão e ternura. O desespero pela total entrega apoderou-se de nós de forma agressiva e
demoramos alguns segundos para nos recompor.
Ele se afasta de mim e retira a camisinha. Assim que minha cabeça vai de encontro ao
travesseiro, vejo o quarto girar. A náusea é forte e me põe em alerta. Em questão de segundos,
estou em frente ao vaso sanitário, esvaziando o líquido que há em meu estômago.
Alguém, por favor, me lembre de não beber com o estômago vazio.
Sinto Heitor segurar meus cabelos e colocar uma toalha fria em minha testa. A última coisa
que eu desejo é que ele me veja em um momento constrangedor.
— Melissa, você está bem? Vem comigo, preciso te levar ao médico.
Em que mundo ele vive? Que exagero de sua parte me levar ao médico por causa de uma
ressaca.
— Estou bem, Heitor, só preciso de um banho. Nada melhor que um café da manhã
caprichado para curar minha ressaca.
— Tem certeza?
Eu faço que sim com a cabeça, na tentativa de transmitir segurança para Heitor, que me olha
preocupado.
— Você se importa se eu for preparar seu café da manhã enquanto toma seu banho?
— Um café é tudo de que preciso, obrigada.
Ainda hesitante, Heitor deixa-me sozinha no banheiro e vai para a cozinha. Demoro um
pouco mais que o esperado no banho, quando sinto sua parede de músculos pressionar meu corpo
debaixo do chuveiro.
— Não diga nada, Melissa, deixe-me cuidar de você.
Fecho os olhos e viajo na sensação de sentir seus dedos sobre minha pele. A maneira como
ele afaga minha cabeça enquanto lava meu cabelo é viciante. Não tenho como deixar de soltar um
gemido de satisfação.
— Você sabe que eu poderia me tornar dependente desse banho, não sabe, Heitor? —
pergunto, erguendo meu corpo para sentir sua ereção na minha barriga, enquanto passo meus
braços por trás de seu pescoço, em um abraço sensual, já que meus seios agora tocam em sua
pele.
— Melissa, não vou cair em tentação. Não agora, antes preciso te alimentar. Preparei uma
surpresa para você e, se não nos apressarmos, perderemos o voo.
Desligo o chuveiro, visto meu roupão e saio em disparada para a cozinha. Só de imaginar
Heitor e eu em uma viagem, sozinhos, me dá forças para prosseguir nessa caminhada incerta e
obscura.
Tudo o que mais desejo é que possamos sair em público, juntos. Adoro estar em quatro
paredes com meu moreno em fúria, mas isso não significa que seja suficiente. A possibilidade de
desfrutarmos de alguns momentos fora do quarto faz de mim a mais nova milionária. Este prêmio
terá um valor inestimável e, com certeza, guardarei no meu coração.
Assim que chego à cozinha, o cheiro de omelete embrulha meu estômago. Faço um tremendo
esforço para segurar a náusea. Heitor me olha intrigado, mas não quero estragar o momento. Se
eu demonstrar meu desconforto, com certeza ele desistirá dos planos, e isso eu não permitiria.
Chegamos ao aeroporto e eu não consigo esconder minha alegria. Heitor anda ao meu lado
em passos firmes, seu braço em minha cintura, em gesto de posse. Reparo nos olhares furtivos em
sua direção vindo de outras mulheres, mas ele parece estar alheio a tudo.
— Heitor, não vai me dizer para onde estamos indo?
— Se eu te dissesse, não seria surpresa. — Beija minha testa, com carinho.
Fazemos nosso check-in e descubro que nosso primeiro destino será Porto Alegre.
— Não me olhe assim, Melissa, você não está com créditos para barganha. Ainda temos
pendente a conversa sobre o República Pub.
Estava demorando para ele abordar o assunto.
— Por falar em barganha, ainda tenho o crédito de duas perguntas — digo, tentando
mudar o assunto.
— Esse assunto virá à tona, queira você ou não, por enquanto, vou deixar para depois.
Fique à vontade em usar suas perguntas para descobrir aonde iremos, caso queira realmente
saber.
Boa tentativa, garotão. Eu conheço seu jogo. Não quer ser o foco das perguntas.
— Jamais desperdiçaria minhas perguntas, Heitor, prefiro não estragar a surpresa. — Dou
uma piscadela, deixando claro que entendi sua intenção.
Chegamos a Porto Alegre e um carro está à nossa espera, no aeroporto. Não falamos muito
durante o trajeto. Heitor está sério e compenetrado em alguns contratos que precisa assinar.
Enquanto ele trabalha, aprecio o paredão verde que é a paisagem que nos cerca.
— Como você sabia que estava em meus projetos conhecer Gramado?
— Sou um bom observador.
— Bisbilhotar meus perfis nas redes sociais não o torna observador — digo em um misto de
brincadeira e descontração, enquanto ele me puxa para tomar meus lábios.
Quando Heitor disse que havia arrumado minha mala na noite anterior, a vontade de abri-la
para espiar e saber quais eram os looks que ele havia separado foi tentadora. Eu teria feito, se
ele não tivesse escondido a chave do cadeado. Hoje, pela manhã, mencionou que eu precisava me
manter aquecida do frio.
A cidade de Gramado está localizada em uma das mais belas regiões do Brasil, nos altos da
Serra Gaúcha, no nordeste do Rio Grande do Sul. Rodeada por vales e matas, é um misto de
harmonia, aconchego, tranquilidade e encanto, fascinando a quem por aqui passa.
— Obrigada, Heitor, por me proporcionar esse momento.
— Não precisa agradecer, Melissa. Só o fato de vê-la sorrir me motiva a fazer tudo
novamente.
Deixamos as malas no luxuoso hotel e saímos em busca de um apetitoso almoço, só agora
percebi que estou faminta. Sinto fome, porém, ao me lembrar de comida, sinto a bile subir.
Céus! Sai de mim, mal-estar.
Tento disfarçar meu desconforto para que Heitor não perceba e não arruíne nosso passeio.
No caminho até o restaurante, Heitor segura firme minha mão enquanto seguimos encantados
com tudo ao nosso redor. Eu não tenho mais dúvida, ele é meu ponto de partida e meu ponto de
chegada.
— Se esse for o preço para ver o seu mais lindo sorriso, posso te garantir que repetiremos
mais vezes — diz ele.
Fico na ponta dos pés e envolvo seu rosto com as minhas mãos. Beijo lentamente sua face e,
quando ele vira o rosto, seus lábios encostam-se aos meus, transmitindo um alerta para todo o meu
corpo.
— Ah, Heitor. O lugar não me importa, desde que eu esteja com você.
Ele busca meus lábios avidamente, por alguns segundos esquecemos que estamos no meio da
calçada. Esse não é apenas um beijo. Ele está tentando me mostrar que o sentimento é recíproco.
Aos poucos, sinto que suas barreiras começam a desmoronar de vez. Não é preciso dizer com
palavras. Seu carinho e suas ações falam por si só.
Optamos por saborear uma deliciosa massa acompanhada com vinho, em uma perfeita
combinação. Como meu estômago ainda não está dos melhores, escolho suco de uva.
— Não me importo se acabei de ingerir carboidratos que levarão algum tempo para serem
queimados — digo a ele enquanto saboreio meu segundo prato de spaghetti.
— Posso te garantir que te ajudarei a queimar todas as calorias. Podemos sair daqui e
eliminar algumas, o que acha?
— Nesse frio, me movimentar, queimar calorias e, de quebra, ter alguém para me aquecer
parece perfeito. — Fecho meus olhos e passo a língua pelos lábios, provocando-o.
— Não me faça alterar nosso cronograma. Estou sendo tentado a trocar nosso passeio pelo
quarto de hotel.
— A escolha é sua, querido.
Heitor fita-me com seu olhar intenso. Para mim, está mais do que evidente que ele está
ponderando as duas opções. Mas como hoje está em seu modus operandi romântico, sei que irá
optar pelo passeio.
Assim que terminamos a refeição, Heitor observa-me silenciosamente enquanto eu devoro
meu fondue de morango. Vejo que adota uma postura séria. Sei o que vai dizer.
— Melissa, sei que você está desconversando. Sinto muito te dizer que não vai funcionar.
Acho que esse é o momento ideal para me contar o que foi fazer no República Pub, ontem, sem
consentimento.
Vou fazer de conta que não ouvi a última palavra. A vida é minha e não preciso do
consentimento de ninguém.
— Acho que deixei claro que seu acesso seria à minha cama, não em minha vida.
Heitor segura a respiração por alguns segundos e fecha os olhos, enquanto fecha o punho
em sinal de pura ira.
— Melissa, estamos juntos tempo suficiente para você saber que a nossa relação está além
dos lençóis.
— O que é além dos lençóis para você, Heitor?
Ele afaga minha mão enquanto olha dentro dos meus olhos, aproxima sua face e fala
pausadamente:
— Significa que eu tenho você. Que você é irrevogavelmente minha. Espero que me consulte
antes de pensar em sair à noite sem minha companhia.
Durante a tarde decidimos praticar snowboard. O parque de neve Snowland guarda em seu
interior a primeira e única montanha eterna de neve do Brasil. Depois de intermináveis tombos,
resolvemos brincar de guerra com bolinhas de neve. Em um momento de distração de Heitor, acerto
uma bola em sua cabeça. Ele olha e sorri, deixando claro, com seu sorriso travesso, que terá
revanche. Apresso-me em minha fuga, com o chão liso, tenho dificuldades em correr. Heitor me
alcança e derruba-me, ficando em cima de mim.
— Menina levada. Acho que alguém está em apuros por ser má e desobediente.
— E qual seria minha punição, moreno tentador?
Heitor suga meus lábios em um beijo faminto.
— Hoje à noite eu vou punir você, mal posso esperar.
— Aguardarei ansiosa.
— Melissa, não teste meus limites.
Retornamos ao Hotel e depois de um banho quente e roupas limpas estamos prontos para
aproveitar a noite de Gramado.
— Não acredito que você me trouxe ao festival de cinema em Gramado!
— Sei que adora filmes, não poderia deixar de proporcionar esse momento a você.
O Festival de Cinema de Gramado é reconhecido como o maior festival do gênero no país e
reúne uma grande quantidade de pessoas, sendo visto também como um ótimo espaço de
divulgação e incentivo para criações cinematográficas.
Assim que as premiações foram entregues, Heitor e eu retornamos ao Hotel, como um casal
de namorados. Não estávamos preocupados com horário e nem tampouco se alguém nos olhava
quando nos beijávamos. Embora não verbalizado, sua atitude deixou mais do que provado que nós
estamos vivendo o auge de uma paixão.
— Enfim sós, pequena.
Heitor vem ao meu encontro com um olhar faminto. Só de antecipação, meus seios ficam
doloridos, implorando por seu toque.
— Pelo seu mau comportamento na última noite, como castigo, a farei implorar. Ouviu bem,
Melissa?
Faço um sinal de afirmativo com a cabeça enquanto vou me despindo sem pressa. Se tem
alguém que irá implorar, esta noite, com certeza não serei eu. Com uma lingerie preta, faço
movimentos sensuais enquanto Heitor fica parado e sem reação, me cobiçando com os olhos.
— Tão linda. Tão suave e delicada, uma verdadeira obra de arte.
Suas palavras me transmitem segurança e me fazem ousada. Eu preciso me sentir segura
para o que vem a seguir.
Tiro suas roupas devagar, enquanto meus lábios passeiam por sua parede de músculos. Tomo seus
lábios com fome e urgência enquanto arranco alguns gemidos de sua garganta. Sentindo-me
devassa, fico de joelhos à sua frente e, com meus dentes, deslizo sua cueca, levando-a de encontro
ao chão.
Heitor prende meus cabelos com suas mãos. A ardência em meu couro cabeludo me incentiva
a continuar. Isso mostra que ele está perdendo o controle e é isso que busco, eu o quero totalmente
entregue a mim.
— Isso não estava nos meus planos. Você me tem em suas mãos, Melissa.
Suas palavras acendem em mim como um rastro de pólvora, pronto para uma explosão.
Passo minha língua por meus lábios e abocanho seu membro. No começo, penso não conseguir ir em
frente, mas seus gemidos deixam-me louca para provar seu gosto.
— Se essa boca continuar a me torturar, não vou me segurar por muito tempo.
Começo a aumentar meus movimentos com a mão enquanto minha boca o saboreia. Heitor
prende suas mãos em meus cabelos, sei que ele está próximo do orgasmo pelo tremor de seu
corpo e seus movimentos desenfreados. Ele tenta se afastar, mas não permito. Assim que seus jatos
quentes atingem minha garganta, sugo até a última gota. Vê-lo perder seu controle, com certeza,
elevou minha autoestima.
Recuperado, Heitor me levanta, devorando meus lábios. Enquanto me beija, arranca minha
lingerie, destruindo-as com suas mãos. Assim que sou colocada na cama, ele faz uma trilha de
beijos pelo meu corpo, chegando até o meio de minhas pernas. Perco-me na emoção do momento,
enquanto ele recebe minha total entrega. Meu prazer, minha excitação e meu coração.
— Minha. Toda minha.
Não contenho as lágrimas e, em uma atitude movida pelo calor de nossos corpos, eu quebro
a promessa que havia feito a mim mesma.
— Eu te amo, Heitor. Te amei desde a primeira vez e foi inevitável.
Ele, mais uma vez, viola minha boca com sua língua, cobre meu corpo com o seu e entra em
mim, olhando-me nos olhos.
— Diga de novo, preciso me certificar de que não estou delirando.
— Eu te amo.
CAPÍTULO DEZESSEIS
MELISSA
O frio na Serra Gaúcha foi intenso. Resolvemos ficar na cama domingo pela manhã e tomar
café no quarto. Se pudesse, congelaria esse momento. Senti que houve progresso da parte de
Heitor. Mesmo ele não tendo retribuído meu “eu te amo”, provou com seu carinho e atitudes que é
recíproco. Eu não posso estar equivocada em relação aos seus sentimentos.
— Heitor, não quero que esse momento acabe. Não queria ter que ir embora — digo
olhando em seus olhos, para deixar claro que é realmente o meu desejo.
— Não pense nisso agora. Iremos embora amanhã, só nos resta eternizar cada momento.
Meu coração capta e armazena cada palavra proferida por Heitor. Espero que lá na frente,
meu banco de dados do coração não precise de formatação. Se isso acontecer, perderei todos os
dados salvos nele e na minha mente, e isso será tão ruim quanto a morte.
— Mais um dia nesse paraíso, é tudo o que preciso, Heitor. Mas não penso em sair da cama,
ou melhor, de baixo de você, ou talvez em cima. Ainda não me decidi.
— Nada disso, pequena, quero que conheça todos os pontos turísticos. Passamos muito
tempo entre quatro paredes, não que tenha sido ruim, mas chegou a hora do mundo conhecer a
mulher magnífica que conquistei. Minha namorada, a mulher mais linda e encantadora que conheci
na vida.
Eu não vou chorar, não vou chorar, me recuso a chorar.
Jamais imaginei que o grosseiro do meu chefe pudesse ser o mais perfeito dos príncipes.
Heitor é extremamente carinhoso, atencioso, além de lindo. Ele lava minha alma com suas palavras
românticas. Dormir com a incerteza de que nossa relação era apenas carnal e acordar como
namorada do homem da minha vida eleva minha alegria ao mais alto nível.
De repente, me dou conta de que ainda não sei muita coisa sobre ele. Preciso que ele me
faça conhecer o seu mundo.
— Heitor, ainda não conversamos sobre como será a nossa relação de chefe e funcionária.
Eu não quero que especulem que conquistei o meu espaço liberando um lugar na minha cama para
você.
— Melissa, minha equipe está comigo tempo suficiente para não ousar pensar uma coisa
dessas. O que fazemos fora do ambiente de trabalho só diz respeito a nós dois. Trabalhamos em
escritórios separados, o que faz muito bem para minha sanidade. Eu não conseguiria conter o
impulso de transar com você em cima da sua mesa ou da minha.
— Isso seria, no mínimo, muito estimulante — digo, sorrindo com malícia, provocando Heitor
com uma suave passada de língua em meus lábios.
— Melissa, sei o que está tentando fazer. Eu não vou cair no seu jogo, você precisa de
descanso. Veja seus lábios, estão sensíveis e inchados, por ora eu manterei distância.
Ainda resignada, me dou por derrotada, mas não sem antes fazer cara de menina manhosa.
—Tudo bem, Heitor, por ora manteremos distância. Chegou o momento de usar minhas
perguntas e conseguir mais créditos, o que acha?
Heitor parece em dúvida, mas logo ergue as mãos em sinal de rendição.
— Primeira, garotão. Onde estão seus pais?
Sinto seu corpo tensionar. Ele desvia o olhar, seu maxilar rígido demonstra que não ficou
confortável com minha pergunta.
— Eles morreram.
Com apenas duas palavras, pude sentir um rastro de amargura em sua voz. Ficou evidente
que esse não é o melhor assunto para falarmos no momento. Não quero assustá-lo, preciso ganhar
sua confiança aos poucos para que ele consiga se abrir comigo, do contrário, não chegaremos a
lugar nenhum.
Tem tanta coisa que eu gostaria de saber a seu respeito. Porém sua atitude me intimida a
continuar. Resolvo mudar o foco das perguntas, um dia chegarei lá e ele terá que se abrir.
— Qual a sua idade, Heitor?
Vejo que aos poucos seu corpo vai relaxando, eu estava certa em mudar o foco do meu
interrogatório.
— Tenho 31 anos, Melissa. Agora é minha vez, já que utilizou seus créditos.
— Tudo bem.
— Como é o relacionamento com seu padrasto? Você o ama como um pai?
Eu não me lembro de algum dia ter dito a Heitor que Raul era meu padrasto. Estranho, o
único assunto pessoal de que falamos foi da minha relação com Diogo.
— Heitor, como sabe sobre meu padrasto se nunca falamos de nossas famílias?
— Desculpe, Melissa, não foi minha intenção ouvir sua conversa. Acontece que um dia eu ouvi
você comentando com a Joana sobre ele.
Confesso que ele não me convenceu, mas resolvo deixar para lá, por ora.
— Embora não tenha o sangue do Raul, eu o vejo como pai. Ele tem meu carinho, respeito e
admiração, pelo homem de caráter que é e também pelos seus princípios e valores.
Heitor está deitado de costas, seu olhar está fixado no teto. Sinto-o frio e distante. É como se
ele estivesse tentando acalmar uma tempestade dentro de si. Seu semblante é vazio, diferente do
homem ao qual entreguei meu coração.
— Ele tem outros filhos?
Começo a achar estranha a maneira que ele conduz suas perguntas. Pensei que quisesse
saber sobre mim, sobre o que eu gosto de fazer. Sobre livros e filmes, qualquer coisa, menos isso.
— Sim, Raul tem um filho. Filho esse que o excluiu de sua vida, porém nessa história quem
saiu perdendo foi ele. Raul teria sido um perfeito pai, assim como foi para mim, se o filho tivesse
permitido que ele fizesse parte de sua vida.
Em um único movimento, Heitor projeta seu corpo para fora da cama e, em silêncio entra no
banheiro, deixando-me só. Alguns minutos se passam enquanto busco a compreensão para sua
atitude inesperada. Será que ele cresceu sem os pais e por isso ficou tão abalado ao me ouvir
falar de Raul? Ou teria eu dito alguma coisa que o ofendeu?
Momentos depois, ele retorna ao quarto de banho tomado, apenas com uma toalha enrolada
em sua cintura. Em silêncio, observo a toalha deslizar e cair no chão. Enquanto meus olhos passeiam
pelo seu corpo, sinto a cama afundar com seu peso. Ele já parece não estar preocupado com a
sensibilidade dos meus lábios enquanto os devora como se a sua vida dependesse desse beijo.
— Melissa, eu vou errar muito com você e, quando isso acontecer, por favor, lute por mim.
Sem tempo para uma resposta, ele captura meus lábios com fome e urgência, enquanto me
perco no doce sabor do seu beijo.
No decorrer do dia, não tive mais o desprazer de encontrar com aquele Heitor que não
conheço. Depois de fazermos amor, meu moreno em fúria estava de volta e isso me deixou
aliviada. Heitor me levou para conhecer todos os pontos turísticos da cidade e, quando a noite
chegou, ele me amou. Não teve pressa, depois de me despir, sua língua fez uma trilha molhada por
meu corpo. Seus olhos reluziam fogo quando encontravam com os meus. Era como se nunca se
saciasse de saborear minha pele.
— Melissa, minha queda começou quando coloquei meus olhos sobre você. Por favor, me
perdoe por ter sido um idiota.
Com lágrimas nos olhos, não tive como verbalizar minhas palavras e minha única reação foi
beijá-lo, enquanto ele fazia amor comigo.
Se eu tivesse que resumir meu final de semana com três palavras, seria: lindo, mágico e
encantador.
***
De volta à rotina e à vida real, estou nervosa em passar o dia na presença de meu chefe, já
que hoje ele estará aqui no escritório. De mãos dadas, assim que entramos na H&C, para surpresa
de muitos, Heitor fez questão de me acompanhar até minha sala, dando-me um beijo de
despedida.
— Hoje tenho alguns assuntos importantes para tratar com Vitor e Caio, por isso não poderei
almoçar com você, mas à noite estaremos juntos novamente.
— Amo você — digo baixinho em seu ouvido e me afasto, deixando meu moreno com um
sorriso nos lábios.
Enquanto ligo meu computador, Joana entra em minha sala, às pressas.
— Mel, estou magoada com você por ter escondido isso de mim. Você e Heitor juntos, isso é
incrível!
— Desculpe-me, Jô, esse segredo não era somente meu.
— Mel, nós marcaremos outra noite das garotas, só que dessa vez sem trava-línguas, eu
preciso saber tudinho.
— Combinado, amiga.
Volto a me concentrar no trabalho. Preciso comunicar ao meu chefe que logo serão
agendadas as reuniões sobre o avanço do projeto com o Grupo Gonzalez. Ao mesmo tempo,
preciso conter a fúria de um namorado ciumento. Ficou bem claro, no contrato, que tudo o que
fosse relacionado a esse projeto necessitava da presença do CEO da H&C, Heitor.
Ouço um estrondo na porta, chegando a levar um susto enquanto vejo Morgana entrar sem
pedir licença.
— Bom dia para você também, Morgana. Não sabia que já estava de volta.
— Tem muita coisa que você não sabe, Melissa. Por exemplo, depois que você não for mais
novidade para o Heitor, ele vai te jogar na rua, feito uma cadela sarnenta.
Ah, então é isso.
— Morgana, não lhe dei permissão para opinar sobre minha vida, esse assunto só diz
respeito a mim e ao Heitor.
— Você se acha muito espertinha, Melissa, mas vou logo avisando que não vou facilitar para
você. Esse projeto era para ser meu. Mas não, a vadia loira foi lá e dormiu com o chefe para
conquistar seu espaço. Pois saiba que a mim você não engana.
Quem essa mulherzinha pensa que é?
Não contenho a fera que habita em mim. Encurto a distância entre nós e, sem que ela espere,
meus dedos vão de encontro à sua face. Morgana me encara com um olhar cruel enquanto passa
a mão em seu rosto, onde as marcas dos meus dedos estão em evidência.
— Sua vadia, isso não ficará assim, Melissa. Você não perde por esperar.
Assim que ela deixa minha sala, sento-me na cadeira, tentando me recompor. Não posso
falar nada para Heitor sobre o ocorrido. Ele a vê como uma de suas melhores arquitetas. Não
quero que pense que estou com ciúmes, porque na certa aquela víbora viraria o jogo ao seu favor.
Aproveito meu horário de almoço e decido ir até o shopping, comprar lingeries novas.
HEITOR>>> Cadê você, pequena?
Olho para a mensagem com um sorriso maroto em meus lábios. Faz apenas algumas horas
que estamos longe e para mim é como se fizesse uma vida.

MELISSA>>> Abastecendo meu estoque de calcinhas.


HEITOR>>> Se eu te pedisse um favor, você faria para mim?
MELISSA>>> E o que meu namorado me pede chorando, que eu não faço sorrindo?
HEITOR>>> Não as compre, quero ter o prazer de escolhê-las uma a uma, imaginando
como ficarão no seu corpinho delicioso. Antes de ir para sua casa, preciso passar em um lugar. O
motorista irá levá-la, só te peço que me espere nua.
Quando Heitor faz promessas em tom de mistério, é como se acendesse uma lavareda de
fogo em meu interior. Só de lembrar a deliciosa sensação de estar nua em seus braços, sinto uma
comichão espalhar-se por todo meu corpo.
Aproveito os minutos que tenho para almoçar. Quando me aproximo da praça de
alimentação do Shopping, sinto o cheiro de comida e corro apressadamente ao banheiro para
esvaziar meu estômago. Preciso procurar um médico para saber o que está acontecendo comigo,
há dias tenho sentido um desconforto no estômago, seguido por náuseas e dores leves de cabeça.
CAPÍTULO DEZESSETE
HEITOR
Conseguiria eu ter saído imune a Melissa, considerando que ela foi um presente da vida?
Não, isso seria impossível, ela mudou tudo em mim e agora um encontro com o passado será
inevitável. Melissa surgiu em minha vida como um raio de sol em dias de inverno, derretendo minha
parede de gelo.
Antes dela, mulher alguma chegou tão perto. Ela foi única e será eternamente única. Através
dela, aprendi a valorizar as coisas simples da vida, Melissa me ensinou que ninguém é feliz
sozinho. Demorei muito tempo para perceber isso e, agora que eu descobri, não deixarei escorrer
por entre meus dedos a verdadeira felicidade.
Ela não muda quem ela é para agradar, sua audácia era tanta que, em nenhum momento,
deixou que a palavra final relacionada à sua vida fosse minha. Com o passar do tempo, tive que
aprender a lei da conquista. Estou certo de que ela é a pessoa que escolhi para juntos construirmos
uma família. Família esta que eu não tive o privilégio de ter.
Se tem uma lição que aprendi na vida é que a mentira é como uma traça, aos poucos corroí,
e quando finalmente percebemos o estrago é irreparável. Antes de dar um passo importante na
minha vida com Melissa, preciso confrontar o passado. Não sei o que me espera, minha maior
insegurança é não saber qual será a reação da minha pequena. Quando lembro como fui rude
com ela, no início, minha vontade é pedir perdão de joelhos. Com certeza ela não mereceu minha
raiva. Depois que a conheci, percebi que Melissa não faz ideia de quem eu sou. Com certeza meu
pai sabe onde ela está trabalhando, a resposta que busco é saber o porquê ele permitiu.
Decidido a consertar os erros de uma vida, resolvo ligar para minha avó e abrir meu
coração para que ela possa entender e até mesmo me direcionar, quem sabe assim eu consiga
diminuir os danos e Melissa saia ilesa desta história.
— Heitor, meu filho, que saudades de você. — Ouço a voz me saudando do outro lado da
linha.
— Oi, Dona Diva, também estou com muitas saudades. A senhora não sabe como tem feito
falta em minha vida. Liguei por um bom motivo.
— Meu filho, só de ouvir a empolgação em sua voz me sinto feliz. É como se eu estivesse
falando com outra pessoa, Heitor.
— Realmente, vovó, aquele Heitor que a senhora conheceu ficou no passado. Apresento a
você, Dona Diva, Raul Heitor Sanches Junior, a senhora já ouviu falar?
Minha avó fica em silêncio por alguns segundos, na certa, está tentando entender o
significado de minhas palavras, já que nunca permiti ninguém me chamar pelo meu primeiro nome.
— Heitor, essa velha aqui está com o coração fraco para fortes emoções. Quero te ver
pessoalmente e entender o que está querendo me dizer.
— Vovó, não será necessário. Planejo passar um final de semana em sua casa. Quero que
conheça uma pessoa muito importante para mim. Mas, antes de qualquer coisa, ela é importante
para o meu pai, assim como meu pai é importante para ela. Magoando um, automaticamente, a
briga será com os dois. A senhora consegue entender?
— Deus do céu, Heitor, acho que sim. Mas não quero me equivocar, prefiro ouvir as palavras
de sua boca. — Ela parece estar chocada.
— Aconteceu e foi inevitável. Ela surgiu em minha vida, devolvendo minha alegria de viver, e
agora não consigo ficar imune a ela. Eu a amo como nunca amei ninguém na vida.
— Eu já a amo só em saber que ela te faz feliz, por favor, não a deixe ir. Lute, meu filho.
—Não deixarei. Eu não imagino meus dias sem ela. O problema é que, para construir meu
futuro, preciso fazer um acerto de contas com o passado.
— Ande logo e desembucha, Heitor.
— Melissa é a enteada do Raul. — Fecho os olhos, respiro fundo e fico aguardando sua
reação.
O único som audível na linha telefônica é a respiração incontrolável da minha avó, espero
que ela esteja bem. Eu sei que esse assunto é delicado para falar ao telefone. Porém, não tinha
como esperar mais um dia para buscar seus conselhos e a segurança que suas palavras
transmitem.
— Vovó, tudo bem com a senhora? — Faço alguns movimentos circulares em minha têmpora
para acalmar meu nervosismo, seu silêncio me preocupa.
— Desculpe, meu filho, é que você me pegou de surpresa. Embora eu temesse que isso fosse
acontecer, não pensei que ficaria tão surpresa por ter acontecido.
— Como assim, vovó? Do que a senhora está falando? — Ela despertou minha curiosidade.
Levanto e começo a andar em círculos pelo escritório, para acalmar minhas emoções.
— Deixa para lá, meu filho, primeiro me conte como tudo aconteceu.
— Conto quando eu chegar aí. Agora, por favor, termine o que a senhora começou.
— Está bem, meu filho, embora não me sinta confortável em dividir isso com você. — Faz
uma pausa, como se estivesse incerta sobre continuar, sinto sua respiração ficar pesada, ela parece
nervosa. — Quando Raul soube que Melissa havia sido contratada para trabalhar em sua
empresa, ele me procurou de imediato. Ele queria podar o amadurecimento da filha, sabendo que
era seu maior sonho e a sua empresa era a mais qualificada para o início de carreira da moça.
Por isso Raul não disse nada a ela. Ele sabia que, se ela soubesse, teria abandonado seus sonhos
por medo de magoá-lo.
Não esperaria outra atitude de Melissa. Ela ama Raul como pai, no começo foi difícil ouvi-la
falar dele sem sentir raiva. Com o passar do tempo, foi despertando em mim a curiosidade de
saber como seria o convívio com meu pai.
— Ela o magoaria? — Sento-me novamente e, ao poucos começo, a relaxar.
— Heitor, chegou a hora de você saber a verdade. Raul te ama incondicionalmente. Procure
seu pai e peça perdão a ele.
Encerro a ligação, me encosto na cadeira, descansando minhas pernas na mesa, e reflito
sobre a conversa.
As últimas palavras de minha avó têm martelado dentro de mim.
Qual será essa verdade? Por que sou eu quem tem que pedir perdão?
Raul te ama incondicionalmente. Procure seu pai e peça perdão a ele.
Cresci alimentado ódio e amargura. Não permiti que meu pai se aproximasse, pois para mim
ele sempre foi o culpado de tudo, cresci acreditando nisso e me tornei vazio e solitário. Quando
conheci o amor através de Melissa, foi como se eu tivesse renascido das cinzas. Tornei-me um
homem frio e solitário. Espero que eu consiga me entender com Raul e que, juntos, consigamos
enterrar o passado, para que Melissa e eu possamos construir nosso futuro.
Eu ainda não disse que a amo, embora ela canse de dizer o quanto me ama. Fui tolo e
covarde, mas isso acaba aqui. Vou levá-la para almoçar e direi o quanto ela é importante em
minha vida. Embora cada um de nós tenha seu apartamento, praticamente moramos juntos. Não
posso mais esperar, quero oficializar nossa relação. Melissa é minha e isso jamais mudará.
— Heitor, tudo bem com você? — Sua voz sexy ao atender o telefone desperta meus
desejos mais profanos.
— Passarei aí ao meio-dia para que você almoce comigo.
— Desculpe-me, Heitor, lembra-se de que comentei com você sobre um compromisso?
Melissa tem andado calada e distante. Sei que algo a está preocupando, embora ela teime
em não assumir.
— Perdoe-me, pequena, eu havia esquecido. Hoje à noite será especial, jantaremos juntos.
Melissa despede-se dizendo que me ama, e, como o covarde que sou, ainda não consegui
verbalizar essas palavras.
Quero que seja especial e do meu jeito. Não será um simples “eu amo você”.
Em minha opinião, palavras sem atitudes tornam-se vazias. Quero mostrar a ela o porquê de
amá-la da maneira que amo.
Passei muito tempo sendo um homem amargurado e vivendo na escuridão. Quando ela
trouxe a luz para meus dias, devolveu-me a vida. Para alguém que já conheceu as trevas, andar
na luz é tudo que eu preciso.
Reserva do restaurante okay, agora só preciso me certificar de que entregarão o vestido dela
no horário marcado...
Quero tornar essa noite especial, sei que ainda temos um bom percurso pela frente. Mas
para que evitar o inevitável? O mais engraçado de tudo é que Melissa já tem meu sobrenome,
então só preciso torná-la oficialmente a minha Sra. Sanches.
Cancelo meus compromissos para tarde e saio em busca de um perfeito anel para minha
futura esposa. Sei que deveria segurar a ansiedade e vê-la somente à noite, mas quando me dou
conta, estou subindo o elevador para ir ao seu encontro.
— Morgana, Melissa ainda não retornou do almoço? — Ela revira os olhos, evidentemente
incomodada por eu perguntar sobre Melissa.
— Boa tarde para você também, Heitor. — Faz-se de ofendida por eu entrar feito furacão
no escritório, sem cumprimentá-la. — Não, ela ainda não retornou do almoço, seu compromisso
deve estar interessante.
Viro as costas e a deixo falando sozinha. A última coisa de que preciso é das insinuações de
Morgana. Tento contato pelo telefone e cai na caixa postal.
Inferno, Melissa, aonde diabos você se meteu?
Atravesso a rua e decido esperá-la na cafeteria. Assim que piso na calçada, após
atravessar a faixa de pedestres, é como se tirassem o chão dos meus pés. Olho novamente para
me certificar de que não estou tendo alucinações, mais uma vez, a cena que meus olhos veem é
destruidora. Foi como se estivessem segurando uma arma em minha cabeça e de uma hora para
outra puxassem o gatilho, me enviando diretamente para o inferno.
A mulher que amo está a poucos metros de mim, nos braços de outro. Artur Gonzalez
envolve Melissa em seus braços enquanto sua cabeça descansa em seu tórax. Ela está de costas
para mim e ele não percebe minha presença. Volto para o escritório fora de mim e quebro tudo à
minha volta.

MELISSA
— Moça, tudo bem com você? Tem certeza de que não quer que eu chame alguém?
Faço que não com a cabeça e saio do laboratório andando sem direção, cega pelas minhas
lágrimas.
POSITIVO
Minhas pernas fraquejam, luto incansavelmente contra essa fragilidade. Se tem uma coisa
que não sou, é covarde. Minha mãe me ensinou a enfrentar os problemas de cabeça erguida,
exceto uma gravidez inesperada.
Droga, Melissa!
Meu primeiro impulso foi voltar para casa e esconder-me do mundo. Na mesma velocidade
que me veio esse pensamento, eu o expulsei. Agora não me resta outra coisa a não ser enfrentar o
pai da criança. Só de imaginar o que virá a seguir, as comportas se abrem, inundando meu rosto e
borrando toda a maquiagem.
As pessoas que passam por mim me olham como se eu fosse um alienígena. Não faço ideia
da bagunça que estou. Como o laboratório fica a poucas quadras do escritório, decido ir andando
para tentar limpar as nuvens que se formam em minha cabeça, impedindo meu raciocínio.
Grávida, Melissa, você está grávida, sua idiota!
Eu definitivamente não sei o que fazer, a não ser chorar. Ando feito um trem desgovernado
na rua, com meu rosto banhado em lágrimas, e choro, tentando aliviar meu ataque de pânico,
quando, de repente, sinto braços fortes sobre mim.
— Melissa, tudo bem com você? — uma voz conhecida me chama para a razão.
Ergo meus olhos e me deparo com Artur. A realidade apodera-se mais de mim e choro tão
desesperadamente que ele se vê obrigado a me amparar. Sinto seus braços em volta de meu
corpo, em um abraço protetor. Não retribuo o gesto, apenas encosto minha cabeça em seu peito e
desmancho-me em lágrimas.
— Melissa, você está começando a me assustar. Quer que eu ligue para o Heitor vir ao seu
encontro? Enquanto isso podemos aguardar na cafeteria.
No instante que ouço o nome de Heitor, meu corpo fica em alerta e eu me afasto. Decido
voltar para o escritório, tentar me acalmar e ligar para meu namorado, a fim de contar o que
acabo de descobrir.
— Obrigada, Artur, no momento não estou bem, mas prometo que ficarei.
Afasto-me e volto correndo para o escritório.
— Você pensou mesmo que seu conto de fadas duraria para sempre, Melissa? — Morgana
não perde a oportunidade de destilar seu veneno.
— Cala sua maldita boca e saia da minha frente — grito.
Passo por Morgana e entro em minha sala. Assusto-me ao constatar o caos instalado. Tudo
está destruído, mesa, cadeiras, computador. Não tem nada no lugar, apenas a devastação.
— Se divertiu no almoço, Melissa?
O tom cruel na voz de Heitor me põe em alerta. Um frio atinge minha coluna, deixando-me
imóvel no lugar.
— Heitor, nós precisamos conversar. O que está fazendo aqui? Por que a minha sala está
destruída? — Crio coragem e caminho em sua direção, ficando em sua frente.
— Você não tem mais sala. Pegue suas coisas e saia do meu escritório e da minha vida,
Melissa.
Céus! Eu só posso estar sonhando, me recuso a acreditar que minha vida está sendo destruída
sem aviso prévio.
— Eu não estou entendendo, Heitor...
— Acabou a diversão, Melissa. Chega de fingir, eu sei quem você é. Antes que eu te coloque
para fora, por favor, saia!
Suas palavras me desestabilizam e as lágrimas que pareciam ter secado agora voltam com
tudo. Esse não é o homem que amo e está longe de ser o homem por quem me apaixonei. Mesmo
sendo humilhada pelo pai do meu filho, resolvo contar a ele sobre a novidade.
— Estou grávida, Heitor.
Heitor me fuzila com seu olhar, canalizando seu ódio sobre mim.
— Só falta me dizer que esse filho é meu, Melissa. Eu vi vocês juntos! Sei o que vi. Poupe o
constrangimento e saia antes que eu te expulse.
Fecho os olhos com força, buscando forças para confrontá-lo.
— Vou fingir que não ouvi seus insultos e darei a chance de se redimir — sentencio, sentindo
minhas lágrimas se esvanecerem. Não fiz nada para que ele me trate dessa maneira, se quando
nos conhecemos ele me humilhou, não será agora que voltará a fazê-lo. — Tem uma explicação
para o que você acha que viu, mas de cabeça quente você não vai me deixar falar, não é?
— Sei o que vi, demorei para enxergar a verdade, mas a sua máscara caiu.
Franzo a testa.
— Máscara? Sempre fui verdadeira com você, respeitando o seu silêncio sobre quase tudo
relacionado à sua vida pessoal. Quem sempre usou máscara, Heitor, foi você. Mas eu te amo
mesmo assim.
Seu olhar furioso me assusta, recuo um passo. Não posso acreditar que ele está assim
porque presenciou um simples abraço.
Minha vida não pode desmoronar, não agora que tudo estava indo tão bem...
— Você não me ama, Melissa. Vá embora! — grita, fazendo com que eu pule, assustada.
Encaro-o com firmeza, apesar de estar triste. Preciso ser forte agora, porque se eu desabar,
não vou conseguir me reerguer tão cedo.
— Assim que eu sair por essa porta, está tudo acabado entre nós — aviso, no mesmo tom de
frieza que ele uso. — Desculpa nenhuma vai me fazer voltar para você.
Ele ri com escárnio.
— Espere sentada, isso não vai acontecer. Acabou, Melissa.
Engulo em seco, não vou chorar na frente dele, embora a dor dilacere o meu coração.
— Não vou esperar, Heitor. Eu vou seguir em frente, mas ainda vou te ver rastejar, seu
desgraçado!
Heitor e eu duelamos com o olhar. Sei que ele não voltará atrás em suas palavras, como eu
não voltarei atrás em minha decisão.
— Apenas saia, Melissa.
Ergo minha cabeça, reuso-me a sair da sala humilhada, embora por dentro seja assim que
eu me sinta. Não consigo entender por que ele me tratou tão mal, ao ponto de acabar com tudo o
que construímos nos últimos meses. Vou em direção ao elevador, quando me deparo com Caio e
Vitor.
Eles não me perguntam o que aconteceu. Através do meu estado deplorável, qualquer um
consegue ver o óbvio. Assim que fechei a porta do meu ex escritório, desabei novamente em
lágrimas.
— Vitor, por favor, fique com ela enquanto eu falo com o Heitor. — Caio me fita assustado,
indeciso se vai ao encontro de Heitor ou se me consola.
Vitor me ampara em seus braços, enquanto eu choro copiosamente. Se ele não me segurasse,
com certeza eu já teria ido de encontro ao chão.
Heitor tirou tudo de mim e ao mesmo tempo me deu tudo.
A partir de hoje, eu viverei por você, meu amor, assim como sua vovó viveu por mim. Heitor
escolheu nos expulsar de sua vida. Mas a partir de hoje, nós o excluiremos das nossas. Ele nunca
saberá o que é ter o amor do seu filho. Fez sua escolha e espero que esteja pronto para sofrer as
consequências...
CAPÍTULO DEZOITO
HEITOR
Sou trazido de volta do meu transe com o eco da batida na porta. Melissa tirou o meu chão.
Olho perdido para a sala e a única coisa que meus olhos conseguem enxergar é a devastação.
Sinto o vazio da solidão se apropriar do meu íntimo. A dor dilacera-me.
Como é possível dormir sonhando e acordar diante de um pesadelo?
Tento buscar alternativas para me aquecer enquanto um tremor se apodera do meu corpo. É
como se eu estivesse nu e desprotegido, em um dia frio no inverno. Cruzo meus braços enquanto
meu corpo é vencido pelos calafrios. Aos poucos, sinto que vou perdendo as forças de minhas
pernas, obrigando-me a procurar abrigo no chão. Lentamente, meu corpo vai desfalecendo, as
lágrimas que eu até então tentava engolir sufocam minha garganta. As mãos que sustentavam meu
peitoral agora abraçam meus joelhos, enquanto meu corpo tenta se estabilizar dos espasmos
causados pelo desespero incontrolável. Com meu rosto banhado em lágrimas, solto tudo aquilo que
estava preso em minha garganta. Minha alma está dolorosamente sangrando, deixando abertas
feridas incuráveis, não sei dizer se algum dia elas irão cicatrizar.
As palavras de minha mãe, naquela maldita carta, voltam a me assombrar.
O amor é para os fracos. Não seja fraco.
Teria eu sido um fraco? Teria eu sido completamente idiota, deixando-me levar pela emoção
e não pela razão?
Tudo aquilo que eu tentei afastar, atraí para minha vida. Dor, desespero e desolação.
Como levantar-me depois dessa rasteira?
Em meu total desespero, sinto uma vontade desenfreada de aplacar minha dor. Porém, a
única solução para acabar com meu tormento é a morte. De mim, restaram apenas as ruínas. A
destruição foi total, não tenho forças para juntar os destroços, eles estão por toda parte.
Estou grávida!
Não, não pode ser...
Como você pôde fazer isso comigo, Melissa? Por quê? Eu me doei a você por inteiro, busquei
em você a cura para minhas feridas. Eu não merecia isso.
Em um rompante de fúria, me coloco em pé. Termino de quebrar o que está à minha volta,
para não ir até Artur e quebrar a cara daquele cretino. Ouço a voz de Caio, distante, pedindo
para que eu pare. Mas não paro, ao contrário, começo a socar a parede. A dor que sinto em
minha mão não é nada comparada à dor que estou sentindo em meu interior desolado. É como se
um tornado tivesse passado em minha vida, deixando apenas o caos.
Enquanto o sangue escorre por entre os meus dedos, começo a sentir uma leve dormência em
minha mão.
Adoraria sentir essa dormência em meu coração, para acabar de vez com essa angústia.
— Heitor! Se você não se acalmar, serei obrigado a colocá-lo em uma camisa de força.
Ouço a voz de Caio, mas é como se não estivesse ouvindo.
— Saia daqui! Deixe-me sozinho com a minha desgraça. — Não me dou o trabalho de olhá-
lo. Meu olhar segue perdido para o caos à minha frente.
— Heitor, você está sendo irracional. Por favor, acalme-se e vamos conversar. — Ouço os
passos de Caio vindo em minha direção. Ele para, esperando que eu olhe para ele, mas não o
faço.
— Eu não tenho nada para falar com você. Aliás, não tenho nada para falar com ninguém,
saia! — grito e me afasto.
Começo a chutar tudo o que vejo em uma atitude de furor. A mão de Caio toca meu ombro
e, quando me viro para mandá-lo à merda, sinto o peso de seu punho. O desgraçado me acerta
no nariz.
— Eu falei para você se acalmar, Heitor. Eu não sairei daqui até que você me diga que
porra aconteceu!
Por alguns segundos, reprimo a vontade de dissipar minha raiva em meu amigo, conforme o
tempo vai passando, busco forças para falar em voz alta aquilo que está me matando por dentro.
— Ela está grávida. Ela me traiu. — Derrotado, sento-me no chão, e não me importando com
a presença de Caio, deixo as lágrimas lavarem minha alma.
— Heitor, sempre soube que você era um babaca. — Ele se senta ao meu lado. — Mas não
pensei que chegasse a tanto. Qualquer um que olha para a Mel vê o quanto ela é apaixonada
por você.
Dobro meus joelhos e baixo minha cabeça, usando as mãos como apoio, tentando encontrar
uma posição confortável, mas não encontro. Nada acontece, minha aflição está se tornando
insuportável.
— Se está tentando me consolar, perdeu seu tempo, Caio — respondo sem emoção.
— Heitor, o pior cego é aquele que não quer enxergar. Eu te conheço tempo demais para
saber o quanto a Mel fez bem aos seus dias. Recuso-me a acreditar que você está jogando ao
vento a chance de ser feliz.
— Eu os vi abraçados. Ela recusou almoçar comigo e, quando fui esperá-la na cafeteria, os
vi juntos. — Ergo a cabeça e encontro o olhar de reprovação de Caio.
— Heitor, seu imbecil! — Ele levanta, exasperado, passa a mão no cabelo, segurando a
respiração. — Você acha mesmo que ela estaria nos braços de outro em frente ao seu escritório?
Eu vou te perguntar mais uma vez: realmente acha isso?
As palavras de Caio me fazem refletir por alguns instantes.
Teria eu permitido que meu ciúme e minhas inseguranças me cegassem?
— Como eu vou saber, Caio? Artur gosta dela, só estava esperando uma oportunidade de
agir.
Coloco-me em pé, ando de um ladro para o outro, tentando esfriar a cabeça, forçando
minha mente a voltar àquela maldita cena. Teria eu sido tão idiota a ponto de deturpar os fatos?
— Não creio que a Mel queira te ver nesse instante. Eu, no seu lugar, conversaria com Artur,
não precisa ser um sábio para perceber que isso não passou de um mal-entendido.
Não termino de ouvir o discurso de Caio e saio em disparada para o elevador.
Vou procurar Artur e confrontá-lo. Aquele desgraçado não perde por esperar.
MELISSA
As palavras de Heitor ainda gritam em mim. Não sei o que é mais doloroso, minha decepção
por ter entregado meu coração a ele ou sentir na pele a frieza com que me tratou.
Como pude me enganar a esse ponto? Eu nunca fui tão humilhada em toda minha vida. Como
ele pôde colocar em xeque o meu caráter, não acreditando na sua paternidade?
“Eu sei quem você é.”
Quem sou eu? Por que tenho a impressão de que Heitor esconde algo?
Entreguei meu amor e minha vida para um homem que eu não conhecia e que não me
permitiu conhecê-lo. Eu dei tudo de mim. Entreguei-me por inteiro e, como recompensa, fui
escorraçada de sua vida sem ao menos saber onde foi que errei.
Desde que Heitor pediu para entrar em minha vida, nos tornamos inseparáveis. Não teve
uma noite que ficamos longe um do outro. Eu construí meu castelo na areia, alimentando a doce
ilusão que o tinha em meu coração.
Não, Melissa! Você não precisa de autopiedade. Você deu seu máximo nessa relação, não é a
culpada por Heitor ter te magoado de maneira irreversível. O que precisa fazer agora é seguir em
frente por essa vida que cresce dentro de você.
Heitor roubou tudo de mim. Tirou a esperança de dias melhores, destruiu o melhor que havia
em mim. Ainda não consigo idealizar o meu amanhã, a única coisa que sei é que, no momento, não
sei o que o futuro me reserva. Cheguei a São Paulo cheia de sonhos e ideais, sabia que, para
concretizar cada objetivo, precisaria me doar ao máximo. Eu dei o meu melhor em cada etapa da
minha vida e, quando a ela me trouxe Heitor, me entreguei sem reservas. Não ponderei minhas
alternativas, apenas fui lá e amei. Desde nosso primeiro confronto, precisei provar a Heitor minhas
qualidades profissionais. Para fazer parte de sua vida pessoal, negligenciei a minha. Nunca fiz
uma análise para medir se o que Heitor dava em troca era suficiente. Estava tão cega de amores
que estar com ele me bastava. Ao contrário de mim, ele nunca disse que me amava, me agarrei na
esperança de que era recíproco e que um dia ouviria de sua boca as palavras que tanto desejava
que ele pronunciasse.
Como pude ser tão ingênua?
Morgana estava coberta de razão, fui expulsa de sua vida como uma cadela sarnenta.
Tem uma canção da banda G10, com o nome de Cristal Quebrado, que diz assim:
Melhor assim, cada um vai pro seu lado,
está desfeito, não tem jeito,
o encanto foi quebrado,
não tô a fim de amar sem ser amado,
eu não aceito no meu peito
um amor despedaçado
Cristal quebrado não cola jamais,
Sonhos feridos não curam, não saem.
Baby, eu juro te amar nunca mais.
Ele me humilhou sem dar a oportunidade de me justificar. Tratou-me como se eu fosse nada.
Ficou evidente, através de seu olhar de raiva, que ele não sentiu nenhum remorso. Quebrou-se
nosso cristal, quebrou a confiança que eu depositava nele. Não consigo avaliar o tamanho do
estrago, a única alternativa é recomeçar, mesmo estando emocionalmente destruída. Eu preciso ser
forte, não por mim, mas pelo meu pequeno, que precisa de mim. As coisas do coração eu resolverei
depois.
— Mel, para onde você quer ir? Eu não posso te deixar sozinha.
Só agora me dou conta de que Vitor ainda está dirigindo pelas ruas de São Paulo.
— Por favor, me leve para a casa de meus pais. Mas prometa-me que não dirá ao Heitor.
— Mel, você tem a minha palavra. Espero que se entendam.
Não verbalizo minha resposta. Eu não saberia o que dizer. Fui expulsa da vida de Heitor e
ainda me pergunto o motivo. “Nunca” é uma palavra pesada demais para se usar, não vou dizer
que nunca irei perdoá-lo. Porém, isso não quer dizer que algum dia eu o deixarei fazer parte da
minha vida novamente, nem da do meu filho.
A viagem até São Carlos foi feita em silêncio. Vitor respeitou minha dor. Ele e Caio tornaram-
se amigos queridos, amizades que faço questão de guardar, mesmo não fazendo mais parte da
vida de Heitor.
Não contei à minha mãe sobre meu relacionamento com Heitor. Sei que ela não irá me julgar,
mas para mim é humilhante retornar grávida para casa de meus pais, sem o apoio daquele que
também foi responsável pela concepção da criança que cresce dentro de mim. Heitor acabou com
minha perspectiva de um novo amanhã. Por enquanto meus projetos serão engavetados até eu
decidir o que farei da minha vida daqui por diante.
Fiz uma escolha e faria novamente, quantas vezes fosse preciso. Quando deixei a música
para me tornar arquiteta, sabia exatamente o que estava fazendo. Se eu tiver que abandonar a
arquitetura para ocupar o cargo de mãe, não hesitarei em fazê-lo.
Sempre será você, meu pequeno, eu sempre escolherei você...
A história se repete, só que, desta vez, eu não sou a filha. Mesmo quando meu pai me
rejeitou na barriga de minha mãe, ela enfrentou o mundo com sua bravura por mim.
Assim eu farei por você, meu amor, enfrentarei o mundo se preciso for.
Enquanto o carro movimenta-se pela rodovia, meus olhos agora buscam o brilho dourado do
sol. Porém, se deparam com o cinza do céu. As nuvens escuras cobrem o brilho do sol, assim como
minha mágoa agora ofusca o meu brilho interior.
Mesmo tendo ofuscada a minha alegria pelo desespero, ao receber a notícia de que seria
mãe, me sinto agraciada. Ser mãe é uma dádiva. Eu confesso que não era algo que planejava,
mas não significa que eu não esteja radiante por dentro. As circunstâncias são tristes, mas o
acontecimento é sublime.
Assim que Vitor estaciona em frente à casa de meus pais, minha mãe vem correndo ao meu
encontro com um olhar indagador. Ela me conhece o suficiente para saber que, quando eu quiser
falar sobre o assunto, assim o farei. Despeço-me de Vitor com um abraço e agradeço por ele estar
ao meu lado nesse momento. Quando o carro se afasta, corro para os braços de minha mãe, choro
e soluço feito criança. Ainda abraçada a mim, ela me escolta para dentro de casa.
— Mel, você está começando a me assustar — diz ela, com a voz embargada pelo choro.
— Mamãe, me perdoe, eu não queria que tivesse sido assim. Eu falhei com você, não segui
seus conselhos, por favor, perdoe-me.
Enquanto choro, minha mãe afaga minhas costas e beija meu cabelo, como se quisesse
afirmar que tenho seu apoio.
— Minha filha, não importa o que tenha feito ou acontecido. Sempre será a minha menina, e
isso nunca mudará. Estarei sempre aqui por você.
Quanto mais ela fala, mais as comportas se abrem e eu não tenho como conter as lágrimas.
— Não quero falar agora, mamãe, só quero dormir um pouco. Amanhã vocês saberão de
tudo. No momento, eu só preciso desligar minha mente.
— Vou preparar um calmante para você, Mel, isso ajudará você a dormir.
— Calmante não — falo abruptamente, enquanto minha mãe me fita com desconfiança.
Não preciso ser adivinha para saber que a Dona Clara já matou a charada.
—Tudo bem, meu amor, vou preparar um chá.
Quando minha mãe me deixa sozinha no quarto que um dia foi meu, o desespero toma conta
de mim, mais uma vez. Mesmo tendo buscado uma fuga, eu me dou conta de que não é aqui que
eu quero ficar. Não posso fugir como covarde e abandonar a minha vida. Sou uma mulher
crescida, posso arcar com as consequências de minhas escolhas. Sei que meus pais tentarão me
fechar em uma redoma, isso só me sufocaria e não seria saudável.
Minha prima Sheila formou-se em pedagogia e estava procurando um emprego em São
Paulo. Ela será minha tábua de salvação, assim conseguirei a aprovação de minha mãe e Raul
para voltar ao meu apartamento e retomar a minha vida.
Nem tudo está perdido. Eis que um pensamento me surge.
“Obrigada, Artur. Acredite, eu ficaria muito feliz em aceitar esse desafio, porém eu não posso”,
falo, tentando ser firme em minhas palavras e esconder o meu nervosismo.
— Não se preocupe, Mel. Essa vaga será sua algum dia.”
Sim, trabalhar para Artur será o meu recomeço.
Não me permitirei ser fraca, vou enfrentar tudo de cabeça erguida, como a guerreira que
sempre fui. Não posso ficar na casa de meus pais, esperando meus tediosos dias passarem como
borrão. Eu estou grávida e não morta. Quem nunca passou por um fim de relacionamento e
conseguiu se levantar depois da queda? Viver um dia de cada vez e ocupar a minha mente com
aquilo que me transmite paz, este será meu principal objeto.
Ansiosa, ligo para minha prima.
—Mel, tudo bem? — Sua voz irradia alegria.
— Oi, Sheila, tudo bem. Quer dizer, mais ou menos. Mas te explico depois. Se eu te pedir
para morar comigo em São Paulo, você aceita?
Enquanto aguardo sua resposta, cruzo os dedos, torcendo para que ela diga sim.
— Oh, Melissa! Você não sabe como esse convite veio em boa hora. Estou, sim, de mudança
para São Paulo e, até então, não havia conseguido alugar um apartamento ou uma pensão.
— Está decidido, você morará comigo.
Converso mais alguns minutos com minha prima e faço um breve resumo da minha história.
Desde criança somos amigas, ter alguém comigo nesse momento me fará bem. Não quero me sentir
triste e solitária. Eu só preciso convencer a Dona Clara e senhor Raul. Esta será a tarefa mais
difícil.
CAPÍTULO DEZENOVE
MELISSA
Assim que minha cabeça descansa no travesseiro, fecho meus olhos, tentando ser vencida
pelo cansaço. Busco o sono, mas não o encontro, só quero dormir para esquecer. Sei que estou
sendo covarde, mas isso se faz necessário. Eu não quero voltar lá, não quero reviver todos os
momentos e, de repente, abrir os olhos e constatar que ficou no passado, que os melhores dias da
minha vida, vivi ao lado de um homem que na primeira oportunidade me condenou, não me dando
oportunidade nenhuma de defesa.
Porém, tenho uma vida para reconstruir. Ser fraca não está no meu DNA. Recomeçar será
meu maior desafio. O que me assusta é não saber o que vem a seguir.
Embora tenha sido aqui, neste quarto, onde passei a maior parte da minha vida, sinto como
se estivesse em um lugar desconhecido.
Assim que Raul chegou do trabalho, ele veio ao meu encontro, em silêncio, não verbalizou
nenhuma palavra, apenas me deu um beijo na testa, tentando transmitir coragem e mostrando que
estava ao meu lado, mesmo não sabendo o que estava acontecendo.
Tornei-me independente depois da minha maioridade e quando realizei meu sonho de sair
da casa de meus pais foi como se eu estivesse ganhando o mundo. Estar aqui não está me
ajudando, preciso voltar e enfrentar o que está por vir, mas preciso fazer isso sozinha. Necessito
do apoio dos meus pais, mas não deixarei que eles decidam por mim.
Quando enfim amanhece, resolvo levantar da cama e encarar a vida. Paro em frente ao
espelho e reparo na figura pálida à minha frente. Meus olhos estão vermelhos, pelo efeito das
lágrimas, e olheiras profundas, resultado de uma noite mal dormida.
Após um demorado banho, saio do banheiro e vejo um lindo vestido floral, em cima da cama.
Minha mãe não se cansa de me tratar como sua princesinha. Sua atitude aquece meu coração, ela
foi guerreira por mim e tornou-se minha referência.
Chego à cozinha e o cheiro de café embrulha o meu estômago. Dona Clara finge não ter
percebido. Sei que espera que eu tome a iniciativa.
Sou surpreendida pelo abraço carinhoso de Raul.
— Bom dia, Mel, que surpresa boa tê-la aqui. — Meus olhos se enchem de lagrimas. Beija
minha cabeça, se afasta e faz sinal para que eu me sente ao seu lado na bancada.
— Também estou feliz por estar de volta, mesmo que de passagem.
— Achei que passaria mais algum tempo conosco, filha — diz minha mãe, fitando-me.
— Eu adoraria, porém tenho minha vida em São Paulo e fugir dos meus problemas não está
na minha lista de prioridades.
Tomamos café em um silêncio desconfortável. Mesmo sem fome, forço-me a comer. Com a
ansiedade me dominando, não consigo ingerir muita coisa. Percebendo meu nervosismo, assim que
meus pais terminam de comer, mamãe toma a iniciativa e sugere irmos até a sala, para que enfim
possamos conversar. Sei que estão preocupados e que não posso adiar a conversa por mais
tempo.
— Estou grávida — digo de uma só vez.
Raul demonstra-se impassível. Minha mãe, pelo contrário, não segura as lágrimas, e juntas
caímos no desespero.
— Quem é o pai do seu bebê? — Mamãe pergunta, após se acalmar.
— O nome dele é Heitor, e... — Respiro fundo, tomando coragem antes de continuar. — Ele é
um dos meus chefes. Tivemos um relacionamento conturbado no início, mas quando me dei conta,
estava envolvida demais para ponderar se era ou não errado me envolver com alguém do
trabalho, principalmente se tratando de um dos donos da empresa.
Raul está com lágrimas nos olhos e meu coração, já partido, se quebra ainda mais. Sei que
decepcionei meu pai. Não queria vê-lo assim e isso me deixa ainda mais triste. Ele passa a mão
nos cabelos, demonstrando seu nervosismo. Decido continuar respondendo suas perguntas
silenciosas.
— Estávamos bem, até ontem. Cheguei à H&C após voltar do laboratório, onde tive a
confirmação da gravidez. Heitor estava lá, crente de que eu o estava traindo, sendo que nunca dei
motivos para que suspeitasse da minha fidelidade. Tentei conversar, mas ele estava possesso, me
expulsou e, não bastasse isso, deixou claro que não acredita que é o pai do meu bebê. — Não
tenho mais forças para continuar a falar, o choro de angústia por reviver o pior momento de minha
vida ganha força e deixo as lágrimas expressarem toda a dor que sinto. Minha mãe chora,
agarrada a mim.
— A culpa é minha... — murmura Raul, em um fio de voz
— Não, pai, a culpa é minha. Eu fui fraca, irresponsável. Por favor, me perdoem por
decepcioná-los.
Raul se aproxima e me abraça forte, deixo-me embalar e choro novamente. Minha mãe se
junta a ele e ficamos assim por algum tempo.
— Não devia ter permitido que você trabalhasse naquela empresa — diz Raul, afastando-
se para me encarar. Seu semblante sério me deixa intrigada. — Eu não tinha o direito de interferir
na sua vida, sabia o quanto estava animada para iniciar sua carreira profissional e conquistar sua
independência. Mas eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, a verdade teria que vir à tona. Sinto
muito por não ter contado antes...
Não entendo aonde ele está querendo chegar.
— Do que está falando, Raul? — minha mãe faz a pergunta que eu tanto queria fazer.
Raul nos encara em silêncio, antes de dizer o que nunca pensei que seria possível.
— Heitor é meu filho.
Se eu já não estivesse sentada, teria caído no chão, ainda assim, sinto o braço de minha mãe
me dando suporte. Levo um tempo para assimilar essa verdade tão inesperada, mas aos poucos
lembro-me do interesse de Heitor em saber da minha relação com meu padrasto.
Será que ele sabia?
Mas é claro que ele sabia! Por isso me tratou tão mal, quando nos conhecemos...
O que não consigo compreender é por que, depois de me desprezar, Heitor ficou comigo,
sabendo de minha ligação com o homem que ele odeia, mesmo sendo seu pai. Não leva muito
tempo para que as peças do quebra-cabeça se encaixem, a certeza de que fui usada surge
repentinamente, sinto como se tivesse levado uma facada no peito. Mas a verdade é que fui
apunhalada pelas costas e isso dói demais. Heitor me usou o tempo todo e me jogou fora,
culpando-me quando, na verdade, tudo o que queria era atingir Raul.
Não é possível que eu tenha sido tão ingênua. Como não percebi os sinais?
— Raul, por Deus, como você foi capaz de esconder isso de mim? — Minha mãe não
consegue esconder a decepção em sua voz.
— Jamais passou pela minha cabeça que eles iriam se envolver, Clara. Eu não podia tirar o
sonho da nossa filha. Se contasse a verdade, Mel teria abandonado seus projetos.
— O pai tem razão, mãe. — Tudo o que não preciso agora é que meus pais briguem.
Fitando Raul diretamente nos olhos, digo: — Sei que o relacionamento com seu filho é conturbado,
mas, por favor, sem mais segredos. Se eu soubesse de tudo antes de sair de casa, talvez tivesse
sido diferente...
Minha mãe transmite confiança a Raul através do olhar. Seja lá o que ele tenha para me
falar, com certeza não será fácil.
— Casei com a mãe de Heitor porque ela estava grávida, nunca a amei, e ela sabia disso.
Era possessiva e fazia de tudo para tornar minha vida um inferno. Os anos que suportei ao seu
lado foram exclusivamente por causa de Heitor. — Raul para alguns segundos, tentando organizar
seus pensamentos. — Um dia, ela se deu conta de que jamais a amaria e, para me ferir, por saber
o quanto eu amava meu filho, Meire confessou que o menino não era meu. Tudo foi planejado por
ela para que me casasse e, com o tempo, viesse a me apaixonar. Mesmo amando Heitor como se
fosse meu filho, não suportei mais viver com ela e pedi o divórcio. Tempo depois, ela se matou e
Heitor nunca me perdoou por isso.
— Meu Deus... — murmuro, sem saber o que dizer.
— A verdade nunca me fez amar menos o Heitor. Por mais que ele não tenha o meu sangue,
não deixa de ser meu filho. Assim como você, Mel. Eu amo vocês dois, são meus filhos de coração.
Raul para alguns instantes para tentar recuperar a sua fala, sua voz está embargada pelas
lágrimas. Enquanto ele trata silenciosamente de sua ferida que foi exposta, minha memória volta
para as vezes que eu o ouvia chorando nos braços de minha mãe, pela dor da indiferença do seu
filho.
Sou trazida de minhas memórias quando uma voz amargurada atinge o meu consciente. Olho
para o homem quebrado em minha frente e não faço outra coisa a não ser chorar.
A empatia atinge meu coração quando sua voz, carregada de tristeza, me fere. Só agora
me dou conta de que Heitor não sabia da verdade.
HEITOR
Entro em disparada no escritório de Artur. Quando Andréa pensa em me deter, invado sua
sala sem dar a ele tempo de reação.
— Senhor Gonzalez, me perdoe, não tive tempo de anunciá-lo — justifica a secretária.
— Tudo bem. Deixe-nos a sós. — A postura de Gonzalez não se abala com a minha
presença. Assim que ela fecha a porta, Artur me encara com evidente desprezo.
— O que você fez com ela, Heitor? Eu sabia que isso aconteceria, só não pensei que seria
tão rápido — acusa-me.
Não penso duas vezes quando diminuo a distância entre nós e o seguro pelo colarinho.
— Você não perde tempo, não é, Artur? — cuspo as palavras. — Eu os vi juntos hoje, seu
desgraçado! Vai negar que ela estava em seus braços?
Artur esboça um sorriso de triunfo. Ficamos ali, cara a cara, duelando com os olhares.
— Então é isso, Heitor — ele quebra o silêncio. — Eu não deveria perder meu tempo
explicando o que aconteceu. Melissa não merece essa desconfiança, seu idiota. Adoraria que
estivesse em meus braços, mas, infelizmente, é você que ela ama.
Eu o empurro para longe de mim e ando de um lado para o outro, tentando acalmar meu
coração. Artur joga a verdade em minha cara:
— O que você viu foi um amigo amparando uma amiga que estava em prantos, no meio da
rua. Se eu não houvesse dado a ela um suporte, Melissa teria desabado ali mesmo. O que você fez
com ela, seu imbecil?
Conforme vou digerindo as palavras de Artur, sinto a bile subir e faço um esforço imenso
para segurar a ânsia de vomito. A realidade me atinge de uma forma insuperável.
“Estou grávida.”
Droga! Heitor, o que você fez?
Tento me recompor do baque causado por mim mesmo enquanto formulo uma resposta para
Artur.
— Ouça bem, Artur. — Aponto o dedo em riste. — Melissa é a mulher que escolhi para ser
minha. Fique onde está e assista à nossa felicidade. Ela está esperando um filho meu, foi a mim que
ela escolheu. Supere isso.
Ele não se abala com meu aviso.
— O que eu disse continua valendo, Heitor. Eu não sei o que houve entre vocês, mas estarei
aqui por ela.
Viro as costas e deixo o desgraçado falando sozinho.
Enquanto dirijo até a casa de Melissa, sinto como se em meu peito tivesse aberto uma
cratera.
Como pude agir movido pelo ciúme e insegurança?
Sei que o estrago que causei pode ser irreparável. Só de imaginar a mulher que amo e meu
filho indiferentes a mim, sinto vontade de rasgar meu peito com as próprias mãos. Entro no
apartamento de Melissa e constato que está vazio. A triste realidade começa a se fazer presente.
Ela se foi. Ando até o quarto, à procura dela, e a única coisa que encontro é o vazio da solidão.
Heitor, seu idiota! O que você fez, seu babaca.?
Artur disse que Melissa não estava bem quando a encontrou. Provavelmente, havia
descoberto a gravidez e se sentia assustada. No momento em que ela mais precisou de mim, eu a
tratei com desprezo e duvidei da paternidade do meu próprio filho.
Vou até a bandeja de bebidas, que Melissa costuma deixar no aparador da sala, e pego
uma garrafa de vodca. Sento-me no sofá e, bebendo do gargalo, desabo em lágrimas. Choro,
grito, continuo bebendo. Tento trazer um acalento para meu coração estraçalhado. Sei que
estraguei tudo. Ela pediu uma chance para se explicar, eu a mandei embora e ela foi resoluta ao
me avisar que, se saísse por aquela porta, tudo acabaria entre nós.
Como concertar um erro de tamanha proporção?
Bebo mais um gole da bebida, mas a verdade é que o único bálsamo para minhas feridas
não está aqui e, conforme as horas vão passando, começo a achar que ela não voltará.
Lembro-me de que Caio falou sobre Vitor levar Melissa embora da empresa, mas se ela não
está em casa, ele deve tê-la deixado em outro lugar. Procuro pelo celular no bolso da calça e,
apesar da visão embaçada pelo efeito da bebida, consigo localizar o número do meu amigo na
lista de contatos.
— Onde ela está, Vitor? — pergunto desesperado, assim que ele atende à ligação. — Eu
sei que você sabe.
— Heitor, você está bêbado. Durma, meu amigo. Amanhã, se eu achar que você merece, eu
direi.
Sem me dar a oportunidade de justificativa, o desgraçado desliga na minha cara. Tento ligar
para Caio, mas o idiota não me atende e o celular de Melissa cai direto na caixa postal.
Porra! Onde você está, pequena? Volta para mim...
Termino a garrafa de vodca e desmaio no sofá.
Assim que o dia amanhece, acordo com a claridade no ambiente e uma dor de cabeça
terrível. Após muito esforço, levanto-me e tomo um banho para tirar o cheiro de álcool do meu
corpo e tentar amenizar minha ressaca. Estar aqui na casa dela me remete a muitas lembranças.
Preciso sair daqui e ir procurá-la. Trazê-la de volta é minha prioridade agora.
No visor do meu celular, a mensagem de Vitor me diz que chegou a hora de encontrar meu
passado.
VITOR >>> Mel está na casa dos pais. Pare de agir feito babaca e faça bom uso dessa
informação.
Chego à guarita do condomínio onde meu pai mora e, para minha surpresa, o porteiro é
conhecido de minha avó. Ele libera minha entrada sem que eu seja anunciado. Estou diante da
linda casa e, por alguns segundos, me pego imaginando como teria sido viver aqui.
Subo os degraus de acesso à entrada principal. Quando penso em bater na porta, ouço
vozes de pessoas chorando. Em uma atitude de desespero, forço o trinco e, percebendo que a
porta está aberta, entro sem bater. Eles não notam a minha presença, enquanto eu fico
observando. Sem reação, meus pés grudam-se no chão e, em estado de choque, eu não consigo
sair do lugar enquanto ouço o que o meu pai fala para Melissa.
— A verdade nunca me fez amar menos o Heitor. Por mais que ele não tenha o meu sangue,
não deixa de ser meu filho. Assim como você, Mel. Eu amo vocês dois, são meus filhos de coração.
Pisco meus olhos rapidamente e balanço minha cabeça, como se o efeito da bebida estivesse
me fazendo ouvir coisas que não fazem sentido. Mas não, eu não estou alucinando, Raul está
dizendo que não sou seu filho.
— Como é que é? Você não é meu pai? — deixo escapar, fazendo minha presença ser
notada por Melissa e, logo em seguida, por sua mãe e... Raul.
Os três me fitam boquiabertos. Enquanto Raul vem ao meu encontro, Clara abraça Melissa,
que chora sem parar. Só agora me dou conta de que somos quatro pessoas chorando. Encaro o
homem que agora está diante de mim e aguarda uma reação de minha parte. Por anos, tudo o
que senti ao ouvir seu nome ou vê-lo foi raiva. Agora, como um filme se passando em minha
cabeça, relembro as inúmeras conversas com minha avó e constato que ela sempre soube dessa
verdade, por isso me incentivava a encontrar Raul e pedir perdão. Por mais de vinte anos eu o
desprezei. Tudo o que sinto, nesse momento, é a dor do arrependimento pelo que causei a Melissa
e a Raul.
Deixando o orgulho de lado, deixo-me levar pela emoção e puxo Raul para um forte
abraço. É engraçado, ao mesmo tempo em que é trágico, que só agora, ao saber que ele não é
meu pai, sinto algo pelo homem que sempre me tratou como um filho e, em troca, recebeu
desprezo. Raul retribui o abraço e sinto-me o pior dos homens por tudo o que fui capaz de dizer a
ele e por fazer com Melissa a mesma coisa.
Como senti falta da presença paterna em minha vida, mas estava cego demais pelo ódio
que me consumia por dentro. Às vezes, enxergamos apenas o que queremos, e isso pode mudar
nosso destino de maneira negativa.
Com a humildade, atitude de quem reconhece os erros que cometeu, ajoelho-me na frente do
homem do qual neguei a existência e busco minha libertação, rasgando minha alma e implorando
seu perdão.
Só agora compreendo as palavras da minha mãe, naquela maldita carta:
“Não o culpe, filho meu, ele foi uma vítima, assim como você.”
— Perdoe-me, Raul... — murmuro, tentando buscar as palavras para expressar meu
arrependimento.
Raul me segura pelos ombros e me impulsiona a levantar, tornando a me abraçar.
— Heitor, você sempre será meu filho.
Eu não tenho palavras, minhas lágrimas falam por si só, enquanto choro nos braços de meu
pai. Perco a noção de quanto tempo permanecemos ali, até que me afasto ao sentir o olhar dela
sobre mim. Viro-me para fitar a mulher que amo, a poucos metros de mim, e meu coração se
aperta. Engulo o choro, ela faz o mesmo, mas não a reconheço mais. Melissa não esboça nenhuma
reação, nada se parece com a mulher que me fitava com amor, dias atrás. Essa constatação me faz
temer pelo nosso futuro.
Raul percebe minha angústia e libera minha passagem, para que eu possa me aproximar de
Melissa.
— Clara, vamos deixá-los a sós. Os dois precisam conversar — diz meu pai à sua esposa.
CAPÍTULO VINTE
MELISSA
Precisei conter o impulso de correr até o homem que amo e abraçá-lo. Nesse instante, só
queria confortá-lo. Vê-lo ali, diante de mim, de joelhos e dilacerado, pedindo perdão a Raul, fez
com que caíssem por terra todas as barreiras que eu havia levantado. Precisei reunir forças que
até mesmo eu não sabia que existiam dentro de mim, para segurar meu coração.
São muitas informações a serem processadas. Minha gravidez e a maneira com que ele me
expulsou de sua vida. É como se o mundo resolvesse desabar de vez sobre a minha cabeça. A
parte mais triste de todos esses acontecimentos foi descobrir, no pior momento de minha vida, quem
realmente é Heitor. Jamais imaginaria que nossas famílias estavam completamente ligadas. Essa
informação será um pouco mais difícil de digerir. Ele quebrou minha confiança, sabia o tempo todo
quem eu era e não fez outra coisa a não ser omitir os fatos. Nossa relação começou de um jeito
errado. Primeiro, era somente em minha cama onde ele queria estar. Depois, embora felizes,
faltava algo. Não éramos cúmplices, ele sabia tudo sobre mim, e o que eu sabia sobre ele?
Meu coração está disposto a perdoá-lo por ter omitido que era filho de Raul. Eu cresci vendo
meu padrasto sofrer por não fazer parte da vida de Heitor. O mínimo que posso fazer é aceitá-lo
em nossas vidas como filho de Raul. O que meu coração não está disposto a aceitar são as
palavras que ele usou para me ferir, a maneira com que fui expulsa de seu escritório e, o mais
importante, de sua vida.
Com lágrimas escorrendo por sua face, ele vem ao meu encontro. Para minha surpresa,
ajoelha-se diante de mim e afaga a minha mão. Ficamos ali, em silêncio. Nesse momento, Heitor
está quebrantando-se diante de mim. É como ele quisesse limpar todas as impurezas, deixando que
as lágrimas fizessem uma faxina interior. Seguro uma lufada de ar para tentar acalmar as batidas
do meu coração. É difícil olhar para ele e enxergar tudo aquilo que sempre tentou esconder.
Sua voz rouca aquece meu coração. Por alguns breves segundos, esqueço quem somos.
Esqueço que ele é o único culpado por estarmos aqui, quebrados e desolados. Nesse instante, eu
só quero beijá-lo. Mesmo perto, estamos longe. Distância esta que ele mesmo impôs.
— Melissa, eu amo você.
Fecho os olhos enquanto minhas lágrimas silenciosas escorrem por minha face.
— Por favor, me perdoe. As merdas que eu disse, foi tudo da boca para fora. Eu não sei
agir de outra maneira e ataco para me defender, causando dor em pessoas inocentes.
Em silêncio, vou guardando cada palavra. Sinto a sinceridade através de seu olhar e de sua
voz. Mas isso não significa que seja suficiente.
— Tudo o que eu mais queria era ouvir que você sentia o mesmo por mim. Eu nunca te
pressionei. — Fito-o, enquanto ele fecha os olhos. — Você me expulsou de sua vida, tudo o que
disse pode ter sido da boca para fora, mas cada palavra penetrou fundo em meu coração,
partindo-o em pedaços. Eu vi a maneira como me olhou, era repulsa, estava convicto do que fazia
ao me mandar embora. Então eu fui. Assim como eu estava convicta quando eu disse que, se eu
saísse por aquela porta, seria o nosso fim. Ao contrário de você, não falei da boca para fora.
Cada palavra que digo me machuca por dentro, mas não posso ceder à emoção do
momento. Ele fez uma escolha e agora eu estou fazendo a minha.
Heitor coloca suas mãos em minha nuca, sua testa encostando na minha. Sinto seu hálito
quente, fecho meus olhos. Estar vulnerável e tão próxima a ele não me faz bem. Temo não ser forte
o suficiente para agir com a razão.
— Melissa, por favor, acredite em mim. Eu estava arrebentado por dentro, assim como estou
agora. Ver você nos braços de Artur fez com que meu ciúme e insegurança se manifestassem. Mais
uma vez, eu julguei e condenei, sem dar oportunidade de defesa. Parece que o que sei fazer de
melhor é julgar pessoas inocentes.
Assimilo suas palavras e a raiva cresce dentro de mim. Não posso acreditar que ele me
tratou daquele jeito por causa de um simples abraço. Nesse instante, a fera que em mim habita se
manifesta, e eu o empurro para longe, ficando em pé.
— Então foi por isso? — pergunto, alterando o tom de voz. — Confiança e diálogo, você
conhece essas palavras, Heitor?
—Acalme-se, Melissa, você não pode ficar nervosa. Não fará bem para o bebê.
— Como se você se importasse! — grito. — Afinal, você mesmo disse que ele não é seu! —
Aponto o dedo em riste, em sua direção. — Você só enxerga o próprio umbigo, enquanto eu
estava assustada por descobrir a gravidez, você estava me acusando de ser infiel e de mau
caráter.
— Por que não me contou, antes de fazer o exame? Se tivesse dito a verdade, desde que
desconfiou estar grávida, as coisas teriam sido diferentes! Não teria que ficar com medo do
resultado, eu te apoiaria, porra!
— Você não tem o direito de me cobrar verdade alguma, eu disse que te amava, era você
quem se esquivava de revelar o que sentia. Como eu poderia saber se iria receber bem a notícia?
É claro que eu fiquei com medo, você é sempre tão irritado com tudo e todos. Primeiro ataca com
as palavras, depois pensa nas consequências.
Heitor se encolhe no sofá, parecendo um animal encurralado. Passa a mãos nos cabelos,
nervosamente.
— Quando Raul se divorciou da minha mãe, achei que ele tinha abandonado nossa família
para se casar com a sua — revelou, fitando-me com tristeza. — Depois que ele saiu de casa,
presenciei ela se autodestruir enquanto ele desfilava com a Clara pela cidade. Ela estava grávida
de você e os dois transbordavam alegria, enquanto minha mãe se afundava na depressão. Jurei a
mim mesmo que jamais perdoaria meu pai por ter causado a morte dela. — Parou alguns segundos
para se recompor, o choro querendo voltar. — Hoje consigo entender o real motivo de sua morte.
Ela carregava consigo o peso de sua consciência. Ver o único homem que amou na vida
constituindo uma nova família foi a desculpa perfeita para tirar a própria vida. Eu cresci odiando
o meu pai Clara. Eles eram o motivo da minha desgraça. Então descobri que você era enteada de
Raul, pensei que ele tivesse te mandado para me vigiar, se vingar de mim por tê-lo rejeitado. Eu
também queria me vingar por achar que ele era o responsável pela morte da minha mãe. Só
Deus sabe o quanto eu tentei odiá-la, Melissa, por isso te tratei mal assim que nos conhecemos, mas
dia após dia, aqui dentro de mim, crescia um amor que nem eu mesmo sabia que poderia ser
capaz de sentir por alguém. Esse foi o motivo que me fez esconder de você o que sentia. Tive
medo, cresci negando a existência do amor e acreditando que esse sentimento era para os fracos.
Absorvo cada palavra sua e sinto minhas forças se esvaírem do meu corpo. Sento-me em
uma poltrona e pondero sobre sua revelação. Ver Heitor se expor dessa maneira me faz amá-lo
ainda mais, mesmo depois de tudo o que ele me fez, percebo que foi movido por um ódio
alimentado durante anos. Como eu gostaria de não ter me apaixonado por ele. Não estaria
sofrendo agora. A mágoa que carrego é grande o bastante para que eu não demonstre o meu
amor, por mais difícil que seja, mantenho-me impassível.
— Ontem era para ter sido diferente, Melissa — ele recomeça a falar. — Eu estava pronto
para dizer o quanto te amo. Então tudo fugiu do meu controle e fiz o que fiz. Mas não muda a
verdade: amo você, Melissa, e vou passar a vida amando. Te amo desde o início, só tinha medo de
assumir em voz alta. Sei que eu fui um cretino e também sei o quanto você está ferida. Mas, por
favor, não tire de mim o privilégio de ser pai. Não faça o que eu fiz e de que me arrependo
amargamente, não afaste um filho do pai.
Encaro-o em silêncio, ainda sem conseguir dizer nada.
— Por favor, perdoe-me, Melissa. Você foi um presente da vida e, mesmo que eu saia daqui
sem o seu perdão, saiba que passarei a vida tentando me redimir.
Ele envolve seus braços sobre mim, sentando-se no braço da poltrona. Permanecemos em
silêncio, ouvindo apenas nossa respiração se recuperando de tanto chorarmos. Ao perceber que
estou mais calma, ele beija-me na testa, erguendo meu rosto para que meus olhos possam
enxergar sua alma.
— Não vou te pressionar, Mel. — É a primeira vez que ele me chama assim. — Só peço que
não me afaste completamente, quero fazer parte da vida do meu filho e, quando estiver pronta
para me perdoar, da sua também.
HEITOR
Chego em frente ao túmulo de minha mãe e fico em silêncio, organizando meus pensamentos.
Palavras não ditas, verdades encobertas. Atitudes mesquinhas e egoístas movidas por sentimentos
não correspondidos. Cresci rodeado por cada um deles. Minha mãe não me ensinou os valores do
amor. Dia a dia, ela fazia questão de me cegar, fazendo com que eu alimentasse ódio por alguém
que foi vítima de sua loucura. Ela mentiu para mim. Omitiu fatos importantes que mudariam minha
forma de encarar a vida. Sendo assim, ela não poderia ser mais vista por mim como vítima, pois
era a principal vilã.
Cresci ouvindo as brigas diárias dos meus pais. Anos depois, comecei a entender o que eram
aquelas brigas, ela virava o jogo ao seu favor, colocando-me contra Raul. Fez-me acreditar que
meu pai havia nos abandado porque estava apaixonado por outra mulher, sendo que ela o
prendeu, envolvendo-o na sua teia de mentiras.
Lembro-me das inúmeras vezes em que joguei para ele palavras de desprezo.
“Eu te odeio! Você morreu para mim no dia em que enterrei minha mãe. Recuso-me a acreditar
que tenho o sangue de um verme feito você, Raul.”
— Por que teve que ser assim? Você não tinha esse direito. Ele me deu seu sobrenome, me
amou mesmo sabendo que eu não era seu filho, enquanto você alimentava dia a dia o meu ódio
por um homem inocente! — grito, extravasando minha dor.
O cemitério está vazio. Tudo em minha volta parece frio e vazio. Sinto mãos firmes
segurando-me pelos ombros e, quando olho para trás, encontro Raul, direcionando um olhar de
misericórdia.
— Não a culpe, filho. Perdoe. Liberte-se. Eu já a perdoei há muito tempo.
Eu não tenho resposta. Minha única reação é chorar em seu ombro. Tudo isso está sendo
doloroso para mim. Cresci sendo amargurado e infeliz, nunca tive o privilégio de ter uma família
de verdade.
— Eu sempre estive por perto, Heitor. Desde o colegial até sua faculdade, em todos os
momentos, eu estive lá.
Quanto mais ele fala, mais desmorono por dentro. Suas palavras são como bálsamo para as
feridas do meu coração. A vida o trouxe no momento em que eu mais preciso de um suporte.
Minha visão está turva, efeito das lágrimas, e minha voz presa dentro da garganta.
— Conheci Clara depois que me divorciei de sua mãe, embora já estivéssemos separados há
muito tempo. Logo depois que me formei, fui embora para São Paulo. Meses depois, fui obrigado a
voltar para me casar com sua mãe, para assumir a responsabilidade da gravidez. Meire sempre
soube que nunca a amei e sua obsessão por mim tornou-se doentia. Depois que você nasceu, a
verdade veio à tona. Meire fez questão de jogar na minha cara que você não tinha meu sangue,
queria me ferir por não amá-la. Mas nunca me importei, porque desde que te peguei em meus
braços, amei você como um filho. Quando me dei conta do quanto ela te manipulava e o colocava
contra mim, decidi começar uma nova vida. Nossas brigas te prejudicavam. Sua avó me garantiu
que você ficaria bem, por isso resolvi partir. Clara era estagiária em meu escritório, nunca me
importei com o fato de ela estar grávida de outro homem, pois ele rejeitou a ela e a Melissa. Eu
me apaixonei por ela, cuidamos um do outro e construímos nossa vida juntos.
Um passado doloroso, um presente revelador e um futuro incerto. Sou indigno do seu
sobrenome, de seu amor e de seu perdão. Como pude ter me tornado uma pessoa tão
amargurada? Como pude ter causado tanta dor a quem só queria o meu bem?
— Quando eu pensei que tudo estava bem, que minha única preocupação era conquistar
sua confiança e seu amor, sua mãe tirou a própria vida e, junto com ela, levou você de mim. Mas
nunca desisti de você, Heitor, então liberte-se, enterre suas mágoas com sua mãe e saia daqui um
novo homem. A vida está te dando a oportunidade de recomeçar.
Farei exatamente o que Raul está me dizendo. Heitor Fortes morre aqui. Sairei daqui um
novo homem, disposto a enfrentar o que for preciso para reconstruir minha vida e conquistar minha
família.
— Por favor, Raul, me perdoe. Eu quero me tornar alguém melhor, tenha fé em mim.
— Seja bem-vindo de volta, meu filho. Você tem uma família, agora.
Nós nos abraçamos e sinto-me renovado, pronto para me abrir ao que a vida pode me
trazer de bom a partir de hoje.
— Eu a amo, Raul — digo ao me afastar. Preciso que ele entenda que meus sentimentos por
Melissa são reais. —Ela precisa me perdoar, vamos ter um filho e já não imagino minha vida sem
eles.
Raul me olha, buscando a sinceridade em minhas palavras. Sei que causei muita dor a ela, e
ele, como sua figura paterna, certamente ficará ao lado de Melissa, mesmo assim, preciso que
saiba que pretendo consertar meus erros.
— Amo os dois, indiferente do que decidirem. Mas se o que diz é verdade, mostre o quanto
a ama. Mel tem um coração puro, se você for merecedor, na hora certa ela te perdoará. Ela não
mereceu ouvir o que você disse, mas o tempo pode curar as feridas. Não desista dela.
Sim, eu me arrependo amargamente do que disse. Se pudesse, voltaria no tempo para
mudar partes do meu passado. O que me resta agora é crescer e aprender com meus erros, para
me tornar alguém melhor.
Raul e eu fomos juntos até a casa de minha avó. Assim que chegamos à porta, Dona Diva se
emocionou ao perceber que fizemos as pazes e enterramos o passado.
Questionaram-me se eu tinha interesse em descobrir quem é meu pai biológico. Assumo que, para
mim, Raul sempre foi e sempre será meu pai, mesmo que eu tenha desperdiçado mais de vinte anos
sem sua presença. É lamentável que minha mãe tenha dormido com outra pessoa somente para
engravidar e se casar com Raul. Mas prefiro passar uma borracha no passado sujo de minha mãe,
antes que me entristeça ainda mais. Não quero pensar ou imaginar quem poderia ter me colocado
no mundo. Tem coisas que é melhor não vir ao nosso conhecimento.
Dentro de um curto espaço de tempo, minha admiração por Raul foi elevada ao mais alto
nível. Espero poder ser a metade do homem que meu pai é, quando meu filho nascer.
Hoje entendo a admiração que Melissa tem por nosso pai, porque, sim, ele é nosso. Raul é
merecedor da linda família que construiu ao lado de Clara e por ter se tornado um respeitável
juiz.
CAPÍTULO VINTE E UM
MELISSA
Algumas pessoas costumam dizer que o tempo é o melhor remédio para curar um coração
ferido. Começo a achar que, para a minha doença, ainda não inventaram nenhum antídoto. Posso
falar com a plena convicção de que, quanto mais se passam os dias, mais aumenta minha
saudade.
Estava me sentindo sufocada com o excesso de cuidados por parte dos meus pais. Senti-me
impotente ao ver Raul no meio do fogo cruzado, ele sofria com nosso sofrimento. Heitor e ele
estavam mais próximos e criando um vínculo familiar que há muito tempo foi rompido. Fiquei feliz
por Raul ter se aproximado do filho e por Heitor, que ganhou a chance de conviver com o pai.
Decidi retornar para o meu apartamento, mesmo contra a vontade de meus pais. Não vejo
Heitor desde nossa última conversa, mesmo que Raul e ele tenham se aproximado, evitei estar por
perto nessas ocasiões.
Dei início ao meu pré-natal, fiz todos os exames e procedimentos médicos exigidos no início
de uma gestação. Estou com dez semanas e começo a notar mudanças em meu corpo. Todo dia me
olho no espelho por alguns minutos, tentando reparar se minha barriga cresceu. Enquanto minhas
mãos massageiam meu ventre, é impossível conter as lágrimas enquanto falo e converso com meu
bebê.
Heitor tentou entrar em contato, mas nunca atendi suas ligações, ouvi seus áudios no
aplicativo de mensagem, porém não os respondi. Para que as tentativas de contato cessassem,
optei por manter meu celular desligado. Vez ou outra, ligo o aparelho somente para ouvir sua voz,
sei que é masoquista de minha parte, mas apesar de estar magoada, meu coração ainda é dele.
Eu o amo e vamos ter um filho. Cedo ou tarde, teremos que tornar a nos ver. Só não quero pensar
nisso por enquanto.
Em uma nova tentativa de aproximação, Heitor me enviou um e-mail, abalando minhas
estruturas emocionais.

____________________________________________________________________________
De: Raul Heitor Sanches Junior.
Para: Melissa Sanches.
Assunto: Leia e descubra.

Passei uma vida aprendendo a como mascarar qualquer sentimento ou emoção. Quando conheci você, percebi
que eu tinha tudo e, ao mesmo tempo, não tinha nada. Ganhei o mundo, porém a coisa mais importante de todas
eu não conquistei: a minha paz. Na mais pura arrogância, achava que o dinheiro comprava tudo. Quando a vida
me trouxe você, ela trouxe a luz. Eu soube ali, naquele momento, que o dinheiro não poderia comprar o seu amor.
Eu estava assustado. No fundo, sabia que a qualquer momento eu cometeria alguma besteira. O medo de te
perder era tão grande, que vivi meu tormento em silêncio, até que o momento que eu mais temia aconteceu, perdi
você e voltei a viver na escuridão.
Por favor, pequena, devolva minha paz, traga-me de volta a luz.

Amo você.
- Heitor
_____________________________________________________________________________

— Não, Melissa! De novo não. Eu me recuso a sentar aqui e ver você desmoronar — diz
Sheila, sentando-se ao meu lado no sofá.
— Sheila, estou perdida. Não sei para qual direção devo seguir. Sinto que não vou
conseguir sem ele, está difícil ficar aqui sofrendo e sabendo que o homem que amo também se
sente assim. — Minha voz sai carregada pela angústia que me aflige.
Sheila me fita com calma, prende a respiração para ponderar as palavras que serão ditas
na sequência.
— Mel, não tem sido fácil ficar aqui vendo você sofrer e não poder fazer nada para te
ajudar. Estou prestes a tirar o celular de suas mãos para que não se torture mais olhando essas
mensagens. Se você o ama, perdoe-o. Se não consegue perdoar, siga em frente e supere. Mas
tome uma atitude, pare de se afundar nessa dor.
Às vezes, o peso da verdade acaba sendo desconfortável.
— Mel, você está sendo irresponsável. Tem feito pouco caso do que a médica falou. Qual a
parte de se alimentar bem, fazer pequenas caminhadas e tomar vitaminas, você não entendeu?
Ao ouvir Sheila falar rispidamente comigo, a realidade me atinge. Estou sendo negligente
comigo e com meu bebê.
— Você tem razão, Sheila. Ficar chorando dentro de casa, definitivamente, não é a solução
para meus problemas. Prometo que farei de tudo para seguir em frente. Meu anjinho precisa de
mim, não posso entregar-me a essa maldita dor. — Tento transmitir segurança.
— Olhe para você. — Carinhosamente, ela ajeita uma mecha de cabelo atrás da minha
orelha. — Perdeu sua autoestima e vaidade. Está parecendo um trapo humano.
Sheila é um anjo na minha vida. Se não fosse por ela, eu não sei o que seria de mim. Tenta
aumentar minha autoestima, fazendo com que eu olhe a figura magra e sem vida em frente ao
espelho, e, ao mesmo tempo, me trazendo para a realidade.
— Vamos combinar de ir ao shopping, quero que você conheça a Ingrid, mãe do
Miguelzinho. Ele tem quatro anos, é uma criança doce e encantadora. Ingrid tem sua história, cada
um de nós carrega sua própria cruz. Porém, no dia em que ela me contou seu passado, fiz
exatamente o que estou fazendo hoje com você. Chorei junto.
— Não vejo a hora de conhecer sua amiga e o Miguelzinho. Seus olhos brilham quando você
fala nele.
— Você vai se apaixonar por ele no momento em que ele abrir aquela santa boquinha,
Melissa.
***
— Melissa, você tomou essa decisão movida pela mágoa? — pergunta-me Artur.
Alguns dias atrás, comecei a trabalhar na construtora de Artur. Sua amizade tem sido um
alicerce para minha vida, que por pouco não desabou de vez.
— Artur, não vou mentir para você, estou profundamente magoada. Mas o motivo de eu
aceitar a oferta de emprego foi porque não podia ficar trancada dentro de casa vendo os dias
passarem. O trabalho edifica e enobrece. — Não tiro os olhos da tela do computador, fazendo de
conta que está tudo bem.
— Ouça a voz da experiência. — Dá uma pausa, ponderando as palavras. Corrijo minha
postura na cadeira e olho para ele. — O perdão é um dom que poucos possuem. Não estou
tentando defender o Heitor, ele foi o único causador de sua desgraça. Mas vocês se amam, a vida
é muito curta para guardar ressentimentos. O amanhã é incerto, Melissa, e talvez possa ser tarde.
As palavras de Artur me intrigam.
— Qual sua história, Artur? — pergunto, ao perceber que seu conselho tem um toque de
experiência de vida.
Ele me olha e sorri disfarçadamente. Já o conheço o bastante para saber que ele não gosta
de ser o foco da conversa.
— Digamos que eu já tenha errado muito no passado e a vida não me deu uma segunda
chance — diz, levantando-se. — Bem, agora chega de falar de mim. Deixo em suas mãos as
novas alterações do projeto.
Desconversando, ele muda de assunto e foge da minha sala, como o diabo foge da cruz,
para que eu não fizesse mais perguntas sobre o seu passado.
Fecho meus olhos enquanto reflito em suas palavras.
Ultimamente, as pessoas não têm poupado esforços para me fazer refletir sobre a vida, o
amanhã e o perdão.
HEITOR
Meus dias têm sido solitários e vazios. Meu novo projeto pessoal está na sua finalização. Se
eu não conseguir o perdão da mulher que amo até tudo ficar pronto, meu esforço terá sido em
vão.
Abandonei de vez a minha vida para me doar ao máximo à realização desse sonho.
Durante o dia, consigo ocupar minha cabeça para que as lembranças não possam me assombrar.
Quando a noite cai, é como se tudo voltasse para mim com força total. O sono não vem, porque
com ele estão meus piores pesadelos. Não há uma noite sequer que eu não acorde com o choro de
uma criança. Quando vou procurar meu filho, para fazer com que ele pare de chorar, encontro
apenas o vazio da solidão.
Tenho passado as noites e os finais de semana em estado de entorpecimento, causado pelo
álcool. Eu não quero voltar ao meu perfeito juízo e constatar que estou vivendo novamente no meu
inferno pessoal.
— Que merda é essa, Heitor? — Ouço a voz de Vitor, distante.
— Essa merda é a droga da minha vida.
— Cara! Olhe para você, está um lixo. Tem quantos dias que você não toma banho? Olhe
essa barba. Está parecendo um mendigo!
Estou há dois dias deitado no sofá. Só me levanto para buscar uma nova garrafa de uísque,
quando a outra termina.
— Caramba, Heitor, esse lugar está fedendo a álcool. Você espera mesmo que Melissa se
sensibilize ao te ver assim e volte para você? — grita Caio.
Só quem já viveu no paraíso entende o que é padecer no inferno. Eu estou vivendo nas
trevas.
— Filho, se espera reconquistar o amor da mulher que ama, está indo pelo caminho errado
— é a vez do meu pai falar.
Mas que diabos está acontecendo aqui? Não acredito que os babacas dos meus amigos foram
pedir ajuda para o Raul. Inferno!
— Ela não atende minhas ligações, não responde minhas mensagens e não retorna meus e-
mails, o que mais vocês esperam que eu faça?
Meu pai caminha em minha direção. Faz um sinal com a cabeça para meus amigos, quando
menos espero, os desgraçados prendem meus braços e minhas pernas, enquanto sou jogado na
banheira, ainda de roupa.
— Heitor, meu filho. Essa batalha não é nossa, e se você espera que tenhamos pena de você,
engana a si mesmo. Pare de ser covarde e lute. Quem muito se ausenta, um dia deixará de fazer
falta.
Droga! Será que o inferno resolveu conspirar contra mim?
— Você quer o que, seu imbecil? Que a Melissa pare a vida dela, enquanto você destrói a
sua? Ela recomeçou, seu idiota, coisa que você já deveria ter feito! — grita Caio.
— Ouça, filho. Amanhã você irá retomar sua vida. Retornará ao trabalho, voltará a ser o
empresário responsável que sempre foi. Feito isso, irá se aproximar da minha filha e mostrar a ela
qual é o seu papel em sua vida, torne-se indispensável para ela. Comece nos pequenos detalhes.
Eu tenho uma ideia para tentar reaproximá-los. Você precisa ter calma e paciência, não esqueça
que paciência é uma virtude que poucos possuem.
Depois de banho tomado e barba feita, pedimos pizza para o jantar. Assistimos ao futebol e
jogamos conversa fora. Vitor e Raul engataram um assunto sobre jures e veredictos, enquanto Caio
e eu discutimos sobre algumas decisões que precisam ser tomadas no escritório.
Soube através de meu pai que Clara passará a noite com Melissa, enquanto ele passará a
noite comigo. Tê-lo de volta em minha vida foi o maior presente que eu poderia ganhar, além de
Melissa e nosso filho. Ele tornou-se meu pilar de sustentação nessa fase obscura que estou vivendo.
Retorno ao trabalho, alguns dias se passam e nada muda. Melissa não facilita minha
aproximação. Sua indiferença tem se tornado insuportável. Nada preenche essa lacuna. Minha
alma está completamente dilacerada. Perder Melissa foi a minha maior queda. É como se eu
estivesse preso em uma vala e não tivesse forças para sair. Mesmo atolado no trabalho, ela
sempre ocupa meus pensamentos.
Meu celular toca e fico apreensivo.
— Heitor, é você? — pergunta uma voz feminina do outro lado da linha.
— Sim, quem está falando? — Não reconheço a voz.
— Meu nome é Sheila, sou prima da Mel. Antes de qualquer coisa, me prometa que
guardará segredo sobre essa ligação.
— Oi, Sheila. Obrigado por ter ligado. Você tem a minha palavra. Está tudo bem com a
Melissa e com o nosso bebê? — pergunto preocupado. Por que ela estaria me ligando sem o
conhecimento de Melissa?
— Sábado iremos ao shopping. Te enviarei uma mensagem, confirmando o endereço e o
horário, espero que faça bom uso dessa informação.
— Sheila, você acaba de alegrar meu dia. — Meu coração bate descompassado de
tamanha expectativa. — Estarei lá, com certeza. Vou aguardar sua mensagem.
— Eu entro em contado, tchau. — Desliga.
Estar próximo a ela novamente, mesmo sem poder tocá-la, acalma meu coração. Espero que
Melissa não fuja, ela terá que me ouvir nem que para isso eu tenha que raptá-la.
CAPÍTULO VINTE E DOIS
MELISSA
Assim que chegamos ao Shopping, não contive o impulso de visitar algumas lojas de enxoval
de bebê. Estou entrando na vigésima semana de gestação, daqui a alguns dias descobrirei se
carrego um menino ou menina em meu ventre. Tudo o que me encantava, me remetia a pensar qual
seria a opinião Heitor. Esses últimos dias têm sido dolorosos. Ouvi uma conversa entre minha mãe e
Raul sobre o estado deplorável de Heitor. O pânico me atingiu como um soco no peito e chorei
desesperadamente nos braços de meu pai.
Queria correr até Heitor e abraçá-lo, entregar mais uma vez o meu amor. Mas fui impedida
novamente pelas dúvidas e minhas inseguranças, que me assombravam. Saio de meus devaneios
quando sinto alguém me puxar pela barra do meu vestido.
— Tia Mel, é verdade que dentro da sua barriga tem um bebezinho? — pergunta o
garotinho que me encantou à primeira vista.
Meu coração dispara e meus olhos se enchem de lágrimas ao me deparar com dois olhinhos
verdes e cativantes, aguardando pela minha resposta. Fico de joelhos à sua frente, igualando-me à
sua altura, e o puxo para um forte abraço.
— Ei, Capitão, você deve ser o Miguel. Prazer em conhecê-lo. Sim, na minha barriga tem um
bebezinho. — Sorrio para ele, emocionada com a sua fofura.
— Não, tia Mel. Eu não sou Capitão, sou o Homem de Ferro.
Sheila me apresentou a Ingrid, uma jovem linda e loira. Nós nos demos bem desde o primeiro
sorriso que ela dirigiu a mim. Eu ainda não conheço sua história, mas ao perceber a maneira com
que ela protege seu filho, admiro-a e recarrego minhas forças para suportar tudo o que está por
vir.
Escolhemos um local mais reservado para almoçarmos. Miguel sentou-se ao meu lado e
trouxe vida ao meu sábado com suas perguntas.
— Tia Mel, você vai deixar seu bebê levar cachorrinho pra escola? A mamãe não deixa eu
levar...
— Melissa, me perdoe pelas perguntas do meu filho — diz Ingrid, constrangida. — Ele está
na fase dos “porquês” e, assim que você responder a essa pergunta, se prepare para as que
virão a seguir.
Juntas, caímos no riso enquanto Miguelzinho dispara:
— Por que estão dando risada de mim?
Quando penso em responder, meu olhar se perde na direção do homem que habita meus
pensamentos e meu coração dia e noite
— Oi, meninas, podemos nos sentar com vocês? — Pergunta Vitor, se aproximando de nossa
mesa, acompanhado de Heitor.
Meu coração parece que vai sair pela boca, não consigo desviar meus olhos dos seus e
minhas emoções estão à flor da pele. Não sei se permaneço sentada, se saio correndo, se desmaio
ou se o expulso daqui.
Enquanto Vitor faz as apresentações, meu corpo é tomado por uma corrente elétrica, assim
que Heitor se senta ao meu lado. Não nos tocamos, mas é quase palpável a atração que paira
entre nós.
Desconforto é o que sinto por não poder tocá-lo e beijá-lo. Tê-lo tão perto traz à tona todos
os sentimentos que eu estava tentando matar dentro de mim.
Desvio meu olhar do seu e volto minha atenção para nossos amigos, tentando manter a
naturalidade. Reparo que Vitor fita Ingrid de um jeito diferente e ela parece abalada por sua
presença, por mais que tente disfarçar, é notável que está desconfortável pela maneira com que
ele a encara.
O silêncio entre nós está beirando o constrangimento, mas Miguel ameniza o clima, iniciando
uma conversa amistosa com Vitor, que parece encantado com o filho de Ingrid. Em poucos minutos,
os dois parecem muito à vontade um com o outro, como se fossem velhos amigos. Ninguém interfere
no diálogo entre eles, apenas observamos com curiosidade e admiração. Por um lado, essa
distração me permitiu ignorar a presença de Heitor, mas sinto o seu perfume tão próximo que a
vontade que tenho é de me jogar em seus braços.
— Tio, eu sou o Homem de Ferro e você pode ser o Homem de Barro — anuncia o menino,
empolgado. — Compra a máscara do Homem de Ferro pra mim?
Encaro Ingrid, seu rubor intenso a denuncia.
— Miguel, quantas vezes a mamãe já explicou a você que não se deve pedir nada para
pessoas estranhas? — A pergunta saiu em tom de reprimenda.
— Mamãe, mas o tio Vitor não é estranho — responde, confiante. Virando-se para Vitor, ele
sorri. — Fala pra ela, tio!
Vitor sorri para o menino.
— Miguel, o que sua mamãe está querendo dizer, é que sou um estranho porque acabamos
de nos conhecer. Você não deve aceitar presente de pessoas desconhecidas.
Miguelzinho olha atentamente para Vitor, prestando atenção em cada palavra que ele diz.
Meu coração aquece ao assistir a cena. Heitor está tão admirado quanto eu. Minha imaginação
voa para longe, fico imaginado como será quando ele estiver ensinado alguma coisa ao nosso
filho. Expulso esse pensamento quando sinto meus olhos arderem pelo efeito das lágrimas que
ameaçam cair.
— Mas como somos amigos — prossegue Vitor, encarando seu novo amiguinho —, Homem
De Ferro e Homem De Barro, comprarei a máscara para você.
Vitor levanta e pega na mão de Miguel, encarando Ingrid com expectativa, aguardando seu
consentimento.
— Vitor, eu te agradeço, mas realmente isso não é necessário — responde sem graça,
encarando o filho em seguida. — Não é mesmo, Miguel? — Arqueia as sobrancelhas.
— Por favor, eu faço questão — ele insiste.
— Viu, mamãe? O tio Vitor agora é meu amigão! — A empolgação do menininho é
contagiante.
Heitor e eu não contemos o sorriso ao ver o pequeno Miguel usando sua persuasão com a
mãe.
— Como somos dois contra um, eu faço questão de acompanhá-los. — Ingrid dá o braço a
torcer. — Conheço Miguel o suficiente para saber que ele irá escolher a coleção completa dos
Vingadores, sendo que já possui todos — argumenta, encabulada.
Os três se despedem de nós e, em seguida, minha prima traidora inventa uma desculpa
esfarrapada, deixando-me a sós com Heitor.
Permanecemos em silêncio por alguns minutos, como se estivéssemos obtendo a coragem
necessária para puxar assunto. Reparo em seu semblante abatido e constato que ele está mais
magro. Nossos olhares se cruzam e nenhum de nós está disposto a desviar. O magnetismo que nos
atrai é muito forte.
Finalmente, ele toma a iniciativa:
— Melissa, eu... — Hesita alguns segundos, fechando os olhos rapidamente, respira fundo
antes de abri-los novamente e prosseguir com mais convicção. — Não vou fazer rodeios, minha
vida está um inferno sem você. Por favor, me diga o que preciso fazer para que possa finalmente
me perdoar. — Sua voz chorosa me deixa angustiada. Detesto vê-lo assim. — Estou perdendo
minhas forças, pequena. Não sei mais o que fazer...
Droga, Melissa, sua fraca, você tinha que chorar logo agora?
— Heitor, não tem sido fácil para mim também. Você matou a confiança que eu tinha em
você. Ainda não consigo esquecer, por favor, me entenda.
Ele segura minhas mãos enquanto as lágrimas escorrem pelo seu rosto. Olha-me nos olhos
para que eu possa enxergar dentro de sua alma.
— Por favor, não me afaste de você. Deixe-me fazer parte de sua vida e merecer seu
perdão. Como acha que me sinto por ter perdido sua primeira consulta do pré-natal, por não estar
acompanhando o desenvolvimento do nosso filho? Sua barriga está linda e não pude sequer tocá-
la. Está sendo doloroso demais perder as fases de sua gravidez. Eu não posso mais, Melissa,
preciso estar com vocês.
O que dizer? O que fazer? Como agir? Droga! Eu não tenho essas respostas. Tem muita coisa
para ser assimilada, digerida e perdoada. Mas ainda não tomei nenhuma decisão.
— Por favor, Heitor, não insista...
Ele se aproxima e eu não me afasto, sua testa encosta na minha e nos perdemos um no outro
enquanto nossas lágrimas silenciosas caem livremente.
— Eu não estou desistindo, Melissa — sussurra. — O que ainda me mantém de pé é a
esperança de conseguir seu perdão. Por favor, não tire isso de mim. Não me afaste de você. É
preferível viver com suas migalhas a não ter nada, nenhum fio de esperança.
Sem dar a ele uma resposta, afasto-me e me levanto, saindo às pressas e o deixando para
trás. Abalada, não tenho estrutura para aguentar essa pressão sobre mim. Preciso clarear minhas
ideias e ficar diante de Heitor faz com que meus pensamentos congelem e que meu coração fale
mais alto que razão.
Envio uma mensagem a Sheila, avisando que estou indo para casa. Ao chegar ao
apartamento, vou direto para meu quarto. Sou vencida pelas lágrimas, que insistem em cair sem
cessar. Minha alma está dilacerada, é como se essa dor nunca tivesse fim.
Ouço meu celular vibrar, verifico o aplicativo de mensagens e, sem conseguir evitar,
reproduzo o áudio que Heitor acaba de me enviar. A voz de Bon Jovi, interpretando This Ain't A
Love Song[2], soa pelo ambiente e para falar por si só:
Eu deveria ter notado quando as rosas morreram
Deveria ter visto o fim do verão em seus olhos
Eu deveria ter ouvido quando você disse boa noite
Você realmente quis dizer adeus
Baby, não é engraçado como nunca se aprende a cair.
Você realmente está de joelhos, quando você pensa que está de pé.
Mas somente os tolos são os sabe-tudo e eu fui esse tolo para você
Eu chorei e chorei
E houve noites que eu morri por você, baby
Eu tentei e tentei negar que o seu amor me deixou louco... Baby.
Se o amor que eu tinha por você se acabou
Se o rio que eu chorei não foi suficiente
Então eu errei, sim, eu errei
Esta não é uma canção de amor.
Quando a música atinge o refrão, minhas lágrimas descem com força total. Começo a sentir
uma pontada no peito e o ar começa a me faltar. Para tentar respirar normalmente, levanto-me,
começo a andar de um lado para o outro. Movida por um desespero impulsivo, arremesso meu
celular contra a parede.
Como acabar de vez com esse sofrimento? Se eu o amo tanto, por que não consigo perdoá-lo?
HEITOR
Deixo o Shopping ainda mais desolado. Envio uma mensagem para Vitor, comunicando que
irei embora de táxi, pois vim de carona com ele. Encaro as pessoas que se aglomeram na calçada,
cada uma seguindo uma direção diferente, e me dou conta de que não sei para onde ir. Meus
olhos perdidos vão de encontro ao céu. Sinto gotas de chuva molharem minha face. Eu já não me
importo com minha aparência. Dane-se se irei me molhar ou não. Só preciso andar, mesmo sem
rumo. Não sei para onde correr. Parece que tudo o que faço para tentar uma reaproximação nos
afasta ainda mais.
Enquanto caminho, deixo minhas lágrimas se misturarem com a chuva, assim ninguém notará o
tamanho da minha desgraça.
Tenho dinheiro e status. Mas é como se eu fosse um miserável. De que adianta ter tudo, se o
que mais quero meu dinheiro não pode comprar?
Minha avó sempre foi uma pessoa religiosa. Quando eu estava enriquecendo com a
ascensão da minha carreira, não tinha tempo para mais nada e apenas aquilo me bastava. Dona
Diva, sábia que é, costumava me dizer: “Engana-se você, meu filho, se pensa que o dinheiro poderá
comprar a sua felicidade”. Ela fazia questão de citar uma frase da Bíblia:
“Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma? Ou que dará o
homem em recompensa da sua alma?”[3]
Cresci obstinado em ser o melhor e provar ao meu pai que eu havia conseguido sem ele.
Alimentei o pior dentro de mim e quando conheci o verdadeiro sentido da felicidade, nos braços de
Melissa, entendi o significado das palavras de minha avó. Infelizmente, era tarde demais, pois já
havia perdido minha alma. Por diversas vezes tive a chance de mudar o meu passado e solidificar
meu futuro com coisas boas, mas não o fiz. Deixei-me ser cegado pelo ódio.
Esta semana, minha avó me disse que Deus perdoa nossos pecados, porém temos que estar
preparados para sofrer as consequências. Seriam essas as consequências por todos os meus erros?
Estaria eu preparado para responder pelos meus pecados?
Quando minhas pernas perdem as forças, encosto-me na parede lateral de um prédio e, aos
poucos, vou escorregando até ficar no chão. Não sei dizer quantas horas estou caminhando e nem
onde estou. A única coisa que sei é que tudo o que faço não é o bastante para aplacar essa dor.
Disco o número do meu pai, tentando buscar algum conforto. Estou desfalecendo com a
ausência e indiferença da mulher que amo.
Assim que Raul atende à ligação, vou logo desabafando, sem deixá-lo falar:
— Nada saiu como o planejado. Ela fugiu, levando a minha, a minha vontade de viver. Eu
não consigo mais, pai. Viver sem ela é pior que morrer.
— Heitor, Raul está no banho e pediu que eu atendesse — é Clara quem me responde.
Fecho os olhos com força, arrependido por ter ligado.
— Clara, desculpe, pensei que fosse meu pai — esclareço, envergonhado. Depois que
conheci a mãe de Melissa, me dei conta de que, durante todos esses anos, o único que perdeu em
toda essa história fui eu. Ela é uma mulher de bom coração, recebeu-me de braços abertos, mesmo
com o sofrimento que causei à sua filha.
— Heitor, eu acredito em você, querido. Sei que ama minha filha e está disposto a se
retratar. Melissa ainda está muito ferida. Mas você não pode desistir da minha menina, se quer
tanto tê-la de volta, está disposto a lutar por ela?
— Pela mulher que amo e pelo meu filho estou disposto a tudo — respondo com convicção.
Ouvir que ela acredita no meu amor por Melissa me anima. — Só não digo que estou disposto a ir
até o inferno porque já estou nele, Clara...
— Então ouça o que vou te dizer, depois deixe a emoção do momento falar por si só.
Ouço com atenção o plano de Clara e Raul, já que agora estamos os três no viva-voz. As
pessoas passam na rua e olham-me como se eu fosse algum maluco, mas não dou a mínima para
elas, tudo o que quero é me munir de forças para reconquistar Melissa.
Despeço-me de Clara e Raul e, na sequência, chamo um táxi. No caminho até meu
apartamento, faço o planejamento dos próximos dias. A parte dolorosa é segurar a ansiedade e
esperar o momento certo, mas será necessário. Só não quero que ela pense que desisti de nós.
CAPÍTULO VINTE E TRÊS
MELISSA
Hoje era para ser um dia alegre. Porém, tudo à minha volta se resume a solidão. Em um dos
momento mais sublimes de uma gravidez, a descoberta do sexo do bebê, eu não tenho ninguém
para dividir esta alegria. Raul tem um júri popular e não pode se ausentar no trabalho. Minha
mãe está com uma forte crise de labirintite, sendo impedida de levantar da cama. Sheila não
conseguiu ninguém para substituí-la na escola onde dá aula. Ingrid está cuidando do Miguel, que
está com febre. Andréa está viajando a trabalho com Artur e Joana, como sempre, atolada no
trabalho.
Se eu não fosse orgulhosa e cabeça dura, poderia ter convidado Heitor. A verdade é que
tenho medo de estar em sua presença. Não quero correr para seus braços, mesmo que fazendo
isso eu acabe com a solidão que me domina.
Pergunto-me se o que estou fazendo é correto. Amo desesperadamente alguém e não
consigo perdoá-lo. Aquelas malditas palavras falam mais alto que tudo.
Patrícia, uma colega de trabalho, disse-me, dias atrás, que quanto mais damos alimento a um
monstro, mais ele cresce. Seria esse o meu problema? Teria eu alimentado mais a mágoa e o
ressentimento do que o amor e o perdão?
Superar, esquecer e perdoar, por que têm que ser tão difíceis?
Chego à clínica alguns minutos antes da consulta. Eu não quero ter que ficar na recepção
assistindo aos maridos apaixonados pelas barrigas de suas esposas grávidas. Assim que passo
pela porta, me sobressalto, incrédula. A poucos metros de distância, vejo Heitor folheando uma
revista, alheio a tudo em sua volta. Como ainda não notou minha presença, aproveito para admirá-
lo. Como eu senti sua falta.
De repente, seus olhos encontram os meus, ele esboça um sorriso, levanta-se e vem em minha
direção. Sem me dar tempo para reagir, ele me abraça e eu prontamente retribuo, deixando-me
dominar pela emoção de sua presença, permitindo que as lágrimas rolem sobre minha face.
Como eu senti falta desse abraço e de seu cheiro embriagador...
— Você achou mesmo que eu não estaria presente nesse momento, pequena? — pergunta
Heitor, com delicadeza.
Eu não consigo falar. Estou uma bagunça emocional. Só quero estar em seus braços, rendida
ao homem que tanto amo.
Tento me recuperar do baque causado por sua presença, enquanto a auxiliar da Dra.
Rosane me chama, preciso me preparar para a consulta. Heitor beija o topo de minha cabeça e
sussurra ao pé do meu ouvido:
— Nosso sofrimento acaba aqui, Melissa. Eu te amo e não vou a lugar nenhum.
Já não tenho mais forças para negar o que sinto, minhas barreiras desabam e tenho vontade
de gritar para que todos saibam que eu não o deixarei sair para longe de mim, mas me contenho.
Sei que minha sessão de lágrimas chamou a atenção de todos os presentes, as pessoas tentavam
disfarçar, mas seus olhares curiosos questionavam o que poderia estar acontecendo comigo.
De mãos dadas, entramos na sala onde será realizada a ultrassonografia. Tê-lo aqui comigo,
em um dos momentos mais sublimes da gestação, faz com que todo o sofrimento se esvaia, ficando
no passado.
Enquanto esperamos a Dra. Rosane, Heitor passa a mão na minha barriga, emocionado. Ele
não contém suas lágrimas e eu admiro sua comoção diante do seu gesto de carinho para comigo e
nosso bebê.
Quando nos separamos, eu estava na oitava semana de gestação, hoje estou na vigésima
primeira. Foram meses de tristeza para ambas as partes, mas estou disposta a finalmente colocar
uma pedra nessa mágoa que só me fez mal.
— Oi, bebê — ele conversa com a minha barriga. — Ainda não sei nada sobre você, mas
meu coração de pai sente que você é um lindo menino. Saiba que você e sua mamãe foram as
melhores coisas que aconteceram na minha vida, e eu amo muito vocês.
Como não me emocionar ao ver uma cena tão linda como essa?
Não tenho palavras. Apenas choro. Só que dessa vez as lágrimas são de emoção. Dra.
Rosane entra na sala e me encara confusa. Para ela é novidade ver o pai da criança, já que em
todas as outras consultas ele não esteve presente. Ela explica que é um ultrassom morfológico e a
sua importância. Heitor ouve com atenção, quando ela faz alguma pausa, ele aproveita para tirar
suas dúvidas. Ele pergunta sobre tudo, tudo mesmo. O que posso ou não comer, usar e fazer. Fico
perplexa e constrangida quando ele pergunta sobre relações sexuais. O rubor na minha face me
denuncia.
Minha vontade é gritar: Ei! Eu estou aqui.
Será que ele acha que depois que sairmos daqui, faremos sexo?
Tudo bem, dane-se o mundo, eu quero fazer sexo depois que sair daqui.
— A ultrassonografia morfológica é um exame de imagem que permite visualizar o bebê
dentro do útero, facilitando a identificação de algumas doenças ou má-formações como Síndrome
de Down ou cardiopatias congênitas, por exemplo. É recomendável ser feita entre as 18ª e as 24ª
semanas de gestação e, além de identificar malformações no feto, também pode indicar o sexo do
bebê.
Heitor aperta minha mão, me transmitindo carinho e segurança enquanto a doutora
prossegue:
— Durante o teste, vou lançar ondas de som em alta frequência para dentro do útero, e
essas ondas atingirão o bebê. O computador traduz os sons de eco, que são recebidos de volta em
imagens de vídeo, revelando o formato, sua posição e seus movimentos. Estão prontos?
Assentimos, eufóricos.
Heitor afaga meu cabelo enquanto assistimos à médica passar o gel sobre minha barriga e
iniciar o procedimento. Ela teve toda a paciência, mostrou e explicou sobre o funcionamento de
cada órgão. A emoção foi tamanha ao ouvir o coraçãozinho do nosso pequeno... Olhávamos
admirados para o monitor, que mostrava o pequeno ser humano que crescia dentro de mim, o fruto
do nosso amor.
Nosso bebê estava com as perninhas fechadas e não facilitou a descoberta do sexo. Saímos
do consultório sem saber se seríamos pais de um menino ou menina. Heitor pediu para a médica
imprimir as imagens. Estamos muito emocionados, não consigo pôr em palavras a emoção do
momento. Nesse instante, me dou conta de que não teria sido tão especial como foi, se Heitor não
estivesse comigo.
Assim que chegamos à calçada em frente à clínica, Heitor me surpreende, erguendo-me e me
rodopiando. Quando me devolve ao chão, me encara, transbordando felicidade em seu sorriso.
— Eu sou o filho da puta mais sortudo do planeta. Tenho a mulher mais linda do mundo e
ela está esperando um filho, o meu filho. Obrigado, Melissa! Obrigado por me permitir estar lá com
você e ter a chance de ver nosso bebê.
Fico parada no meio da calçada, contemplando o seu sorriso. Ele abrandou meu coração.
Ele encosta seu corpo ao meu e cola sua testa na minha. Suas mãos acariciam meu rosto,
fecho os olhos e respiro seu hálito quente. Minhas pernas fraquejam, meus batimentos aceleram.
Heitor causa esse efeito em mim. A vontade de beijá-lo está ganhando força.
— O universo é testemunha de como eu vivi no inferno sem você. Por favor, pequena, volta
para mim...
Não quero ficar mais tempo longe dele. Ouvir de sua boca que deseja ficar comigo devolve
minha alegria de viver, mesmo depois de tanto relutar contra esse sentimento que me domina,
Heitor não desistiu de mim e isso me faz ver que o seu amor é mesmo verdadeiro. E, com isso,
minhas mágoas ficam para trás.
— Eu estou aqui... — murmuro.
— Quer dizer que não me esqueceu?
Seguro seu rosto em minhas mãos e fixo o meu olhar no seu.
— Eu nem sequer tentei, você já é parte de mim, Heitor. Obrigada por não ter desistido,
mesmo quando a mágoa ainda me dominava. Vamos recomeçar, deixar o passado para trás e
viver nosso presente juntos.
Seu sorriso ilumina a minha alma. Heitor também segura meu rosto entre suas mãos.
— Você é o meu presente e o meu futuro, Melissa. Eu te amo.
— Eu também te amo.
CAPÍTULO VINTE E QUATRO
MELISSA
Entro no carro com Heitor e não pergunto para onde iremos, na minha casa ou na dele, o
que importa é estarmos juntos novamente. Temos muito que conversar, mas por enquanto eu só
quero ficar perto dele e sentir seu corpo junto ao meu. Enquanto ele dirige, reparo em cada traço
de seu rosto, memorizando para nunca mais esquecer. Heitor me encara e sorri maliciosamente, em
seguida, estaciona no acostamento.
Sorrio em resposta enquanto ele, sem dizer nada, aproxima nossos lábios e me toma em um
beijo que começa doce e terno, mas nossas línguas duelam e as carícias tomam proporções mais
agressivas.
— Como senti falta do seu toque, do seu beijo e do seu cheiro... — sussurra, cheio de
desejo.
Quero dizer a ele que me ame aqui e agora, que o lugar não importa. Porém seus lábios me
calam e só quero usufruir de cada segundo, a saudade e o desejo deixam meus hormônios à flor
da pele. Heitor interrompe abruptamente, dando-se conta do local onde estamos. Olha em volta,
ponderando continuar ou não, e então se afasta.
— Quero te levar a um lugar, mas é surpresa — revela.
— Eu vou gostar?
Ele demora alguns segundos para responder, como se estivesse pensando na resposta.
— Vai adorar, porque pensei em você e no nosso filho a cada pequeno detalhe.
Remexo-me no banco, agitada e ansiosa.
— Estou ficando curiosa, vamos logo!
Ele ri, mas nega com um gesto de cabeça.
— Primeiro você tem que permitir que eu vende os seus olhos.
Meu olhar apreensivo me denuncia.
— É parte da surpresa, amor — tranquiliza-me. — O trajeto será curto, eu prometo. Confia
em mim?
Essa pergunta significa muita coisa, a partir de agora. Eu o perdoei e aceitei um recomeço.
Amo Heitor e preciso demonstrar que não tenho dúvidas quanto a isso. Sorrio para ele e anuo.
— Confio cegamente — respondo, fechando os meus olhos.
Ele se aproxima e beija a ponta do meu nariz, em seguida, ouço o barulho da sua
movimentação e sei que ele retirou algo do porta-luvas.
— Trouxe uma venda, não sabia se iria me perdoar, mas vim preparado para te sequestrar
caso me dissesse não.
Engulo em seco.
— Está brincando, não é? — Abro meus olhos, para especular sua expressão facial.
Seu semblante está sério e ele me fita intensamente.
— Sim e não — responde, em um tom de mistério. — Não com a intenção de mantê-la
cativa, mas, sim, eu tentaria uma última vez levá-la sem consentimento aonde eu pretendo ir agora.
— Tudo bem, vamos lá.
Heitor venda meus olhos e me beija uma última vez antes de seguirmos viagem.
Fizemos o restante do trajeto em silêncio, tento disfarçar minha ansiedade, mas assim que ele
para o carro, meu coração acelera em expectativa. Heitor me ajuda a descer e me guia,
segurando-me pela cintura. Subimos alguns degraus e ele atentamente cuida para que eu não
tropece. Quando finalmente paramos, Heitor se posiciona atrás de mim, descansando sua cabeça
em meu ombro, suas mãos passeando delicadamente pela minha barriga. Engulo o choro de
emoção, é imensurável o carinho que ele dedica ao nosso filho.
— Sejam bem-vindos, meus dois amores. — Heitor retira a venda de meus olhos, me
permitindo olhar em volta, maravilhada, enquanto registro em minha mente todos os detalhes.
Estamos em um quarto de bebê. A decoração é azul, o que deixa evidente a certeza de
Heitor sobre ser um menino. Meu olhar profissional registra cada detalhe. Não tenho a menor
dúvida de que tudo foi devidamente planejado. Os móveis, a pintura, o papel de parede.
Não consigo evitar, as lágrimas, que se tornaram rotina em minha vida nos últimos meses,
tornam a cair, porém, desta vez, elas são de alegria. Abro a boca, para tentar pôr em palavras o
quanto estou surpresa, encantada e agradecida por tamanho gesto de amor, mas não consigo
dizer nada, tomada pela forte emoção. Heitor continua atrás de mim, mas me abraça
carinhosamente e beija minha face.
— Quando você se foi, eu não tinha ânimo para nada. Não queria trabalhar nem falar com
ninguém que não fosse você, mas o seu silêncio matava um pedaço de mim a cada dia. Planejar
nossa casa foi o que me fez levantar todos os dias. Esta foi a maneira que encontrei de provar
que você e o nosso filho são as duas pessoas mais importantes da minha vida e que sempre tive
esperança de que pudesse me perdoar, embora quase a tenha perdido nos últimos dias.
Saber que ele fez tudo pensando em nós, em nosso futuro, faz meu coração transbordar de
amor, respeito e admiração. Até poucas horas atrás, eu me sentia incompleta, como se uma parte
de mim tivesse sido levada no momento em que Heitor saiu de minha vida. Mas agora os pedaços
do meu coração estão reunidos novamente, e sei que a cada dia ele irá cicatrizar e se tornar mais
forte, pois o amor que o alimenta é capaz de curar a mais profunda das feridas.
Viro-me para ele e acaricio seu rosto.
— É tudo tão perfeito, nem sei o que dizer...
— Diga que aceita transformar esta casa em um lar, comigo e nosso filho. Vamos construir
uma família juntos, Melissa. Diga que aceita se casar comigo e me tonar o mais feliz dos homens.
Oh, meu Deus...
— Vo-você está... — Não consigo completar a frase, estou tremendo!
Seu sorriso responde minha pergunta.
— Sim, eu estou te pedindo em casamento. — Heitor se abaixa lentamente, ajoelha-se à
minha frente e segura meu quadril, me fitando nos olhos, suplicante. — Melissa Sanches, você quer
se casar comigo?
— Sim! Mas é claro que sim! — digo entre choro e risada. — Mas se me magoar de novo,
eu quebro a sua cara!
Ele ri e se levanta, puxando-me para um beijo.
— Se eu te magoar de novo, pequena, eu mesmo quebro a minha cara — diz ao se afastar.
Olho em volta, admirando o quarto do nosso filho.
— E se for menina? — questiono, reparando em todos os detalhes em azul.
Heitor pega minha mão e me dirige um sorriso maroto.
— Quando comecei a planejar nossa casa, eu não sabia o sexo do bebê. — Dá de ombros.
— E ainda não sabemos, não é? Então projetei dois quartos. Um rosa e um azul. A casa é bem
espaçosa, pois gostaria muito de ter mais filhos, talvez mais dois. O que você acha?
Seu olhar cheio de expectativa e insegurança me comoveu.
— Sou filha única e sempre quis irmãos para brincar, mas, infelizmente, não aconteceu. Três é
um bom número, mas vamos com calma, moreno lindo.
— Temos uma vida inteira pela frente, amor.
Adoro quando ele me chama de amor, mal consigo acreditar que minha vida está entrando
nos eixos novamente.
—Venha, vamos conhecer sua nova casa, minha futura esposa. — Sorrio enquanto ele me
guia pelo corredor, entrando em outro quarto de bebê, todo cor-de-rosa.
O que difere os dois quartos é apenas a cor. No mais, tudo é igual. Heitor pensou e estudou
cada detalhe.
A casa é linda e aconchegante, tem até escritório e minha biblioteca. Quando chegamos ao
“nosso” quarto, a primeira coisa que reparo é a cama imensa. Há lençóis limpos, como se ela já
estivesse pronta para ser habitada. Aliás, a casa inteira está mobiliada, e até mesmo na cozinha eu
reparei que os armários e geladeira estavam abastecidos.
— Você já está vivendo aqui? — pergunto, sem conseguir desviar os olhos da cama.
— Ainda não, mas trouxe minhas coisas para cá ontem. Agora só falta você trazer as suas.
Viro-me para ele e o encontro sorrindo de um jeito sexy. Ele passa a língua nos lábios e me
encara com malícia, como se quisesse me devorar.
— Tinha certeza que eu diria sim?
— Eu não sabia, Melissa, juro. Mas precisava ter fé e acreditar. Foi o que fiz. Se não me
aceitasse de volta, eu ficaria aqui e tentaria recomeçar, mesmo faltando uma parte de mim. Não
consigo mais ficar naquele apartamento, além disso, meu filho teria que ter um lugar para ficar
quando estivesse comigo, eu jamais abriria mão dele, mesmo que fosse uma guarda compartilhada.
Sinto-me desconfortável ao imaginar como seria um futuro sem Heitor, tendo que dividir o lar
de nosso filho em dois para que ele pudesse conviver com os pais separados. Balanço a cabeça,
afastando essas lembranças inexistentes. Enrolo meus braços em seu pescoço e beijo seu queixo,
com delicadeza.
— Obrigada por acreditar em nós, Heitor. Eu te amo e ter você de volta é tudo que
precisava para prosseguir. A casa ficou linda, amei cada cômodo. Não tenho dúvidas que seremos
muito felizes aqui.
Heitor está emocionado com minhas palavras. Ele não consegue segurar as lágrimas. Beija-
me, afaga minha barriga. Fecho os olhos enquanto aproveito cada minuto de seu carinho. Começo
a achar que, ao afastá-lo de mim, a mais prejudicada fui eu. Só de imaginar minha casa, meu
marido e eu morando juntos não tenho dúvidas de que esse é o nosso “felizes para sempre”.
— Quer dizer que podemos ir ao seu apartamento, ainda hoje, para buscarmos suas coisas?
— Você está mesmo decidido, não está? — Sorrio, bem-humorada.
— Já passei tempo demais longe de você, Melissa. Por favor, venha para nossa casa ainda
hoje.
Como dizer não quando ele me olha desse jeito?
— Tudo bem, eu venho. Mas preciso conversar com minha prima, ela mora comigo.
Heitor devora-me com seus olhos, fazendo promessas silenciosas, sinto borboletas no meu
estômago. Erguendo-me em seus braços, me carrega até a cama, deitando-me de costas para o
colchão macio. Devagar, vai me despindo enquanto seus dedos tocam a minha pele, causando
arrepio por todo meu corpo.
— Linda, perfeita e toda minha — diz, deixando um rastro de beijos pelo meu corpo.
Quando sua boca chega à minha barriga, ele a toca com carinho, como se fosse algo frágil e
precioso.
Para minha tortura, ele desce sua boca faminta e alcança a parte interna das minhas coxas.
Como senti falta do seu cheiro, do toque de suas mãos macias pelo meu corpo, da sua língua
acariciando o meu ponto mais sensível. Fecho meus olhos e permito-me apreciar cada carícia, ele
está focado em me dar prazer.
Sua língua habilidosa atinge o meu limite e eu me entrego com força total.
Heitor me vira de lado e molda seu corpo ao meu, mesmo louco de desejo, ele entra sem
pressa, controlando o desejo de ir rápido e com força, do jeito dele, para apreciar cada segundo
da nossa fusão. Seu gemido de satisfação ao estar dentro de mim soa como música para os meus
ouvidos.
— Não se mova, pequena. Preciso prolongar esse momento...
Amamo-nos lenta e apaixonadamente. Estar em seus braços é o que eu preciso, o resto
resolveremos depois. Neste momento, nada mais importa, apenas o homem que amo.
***
Heitor e eu acabamos não indo até meu apartamento buscar minhas coisas, ocupados demais
nos perdendo um no outro. Andréa enviou-me uma mensagem durante a noite, comunicando que
Artur me deu folga no dia seguinte, supondo que, após minha ultrassonografia, eu estaria sensível
demais. Ele tem se revelado um bom amigo, mas não quero abusar de sua bondade. Porém, a
folga veio a calhar, pois assim poderei buscar minhas coisas no apartamento, conversar com minha
prima e ligar para meus pais.
Sheila me ajuda a reunir minhas roupas e objetos pessoais, ela permanecerá no
apartamento. Dei a ideia para ela convidar alguma amiga para morar com ela ou colocar um
anúncio no jornal em busca de uma colega.
— Não se preocupe comigo, vou ficar bem, prima! O importante é que você voltou a sorrir.
Heitor teve que ir trabalhar, mas prometeu estar em casa cedo. Ainda me sinto um pouco
deslocada, mas aproveitarei a sua ausência para colocar tudo em ordem, pois sempre que ele está
por perto minha vontade é colar-me a ele e não me afastar. É como se eu tentasse recuperar cada
minuto perdido.
Tomo um banho e me arrumo, Heitor me ligou antes de sair do escritório, avisando-me de
que jantaríamos fora. Como há muito tempo eu não me animo em cuidar da aparência, desta vez
capricho no visual. Um vestido de tecido leve, na cor vermelha, e sandálias rasteiras, pois meus pés
estão inchados e o salto alto tornou-se desconfortável. Escovo meus cabelos e os deixo soltos,
caindo pelos ombros, faço uma leve maquiagem e borrifo um pouco de perfume em meu pescoço e
pulsos.
Olhando-me no espelho, admiro a mulher refletida nele. Pela primeira vez desde que me
descobri grávida, sinto-me bonita, radiante, até. Há um brilho em meus olhos que me faz diferente,
não sei explicar exatamente o que é, mas desconfio que seja o brilho da felicidade.
— Meu Deus, você está maravilhosa!
Viro-me para o homem escorado na porta do quarto, fitando-me apaixonadamente. A
passos largos, Heitor se aproxima e me toma nos braços, beijando-me com volúpia. Sinto o fogo da
paixão queimando dentro de mim, já não quero sair de casa, não quero ir a lugar algum que não
seja a nossa cama. Relutante, ele interrompe o beijo e suas mãos deslizam por meu corpo, deixando
um rastro de calor latente. Segurando minhas mãos, ele as beija com adoração. — Desculpe,
Melissa, eu menti para você. Nós não vamos jantar fora, esta noite.
Franzo a testa, intrigada.
— Não? Você vai cozinhar para mim? Porque eu não fiz o jantar.
— Tenho uma surpresa para você, venha.
Quando chegamos ao jardim, meu sorriso se expande e, mais uma vez, movida pelos
hormônios da gravidez, as lágrimas surgem em meus olhos. Meus pais, Dona Diva, Caio, Vitor,
Andréa, Jô, Sheila, Ingrid e o pequeno Miguel, todos os nossos amigos estão aqui, em nossa casa.
Minha alegria está completa. Estou grávida e vou me casar com o homem que amo. Minha família e
meus amigos estão aqui, tornando o meu primeiro dia oficial em minha casa e de Heitor um
momento especial. Eu não tenho mais nada o que pedir, somente agradecer.
Heitor pousa sua cabeça em meu ombro e abraça-me por trás, descansando suas mãos em
minha barriga. É um gesto que está se tornando muito familiar e eu adoro isso. Todos formam uma
fila para nos cumprimentar pelo noivado e pela casa.
Dona Diva é a primeira a nos parabenizar.
— Melissa, agradeço a Deus todos os dias por ter colocado você na vida do meu neto.
Passei anos vendo-o se fechar para o mundo e excluir as pessoas. Posso partir sossegada, porque
sei que ele enfim construiu sua família. Meu maior medo era morrer e deixá-lo só. Temia que as
amarguras do passado fizessem com que ele se isolasse para sempre. Obrigada, minha querida.
Não seguro a emoção e juntas choramos nos braços uma da outra. Eu imagino como deve ter
sido triste para ela, que perdeu marido e filha cedo. Heitor era sua única família.
— Dona Diva, pare de bobagem. Sua missão aqui ainda não acabou. A senhora terá muito
trabalho com seu bisneto — diz Heitor, puxando-a para um abraço.
— Deus te ouça, meu filho. Quero viver muito para vê-lo crescer.
Assim que ela se afasta, minha mãe e Raul aproximam-se de nós.
— Eu não poderia estar mais feliz como estou agora, vendo meus filhos radiantes de
felicidade — diz Raul, emocionado. — Que Deus abençoe essa união, e que a confiança, respeito
e cumplicidade, além do amor, reinem neste lar.
— Pai, nosso passado foi marcado por muita tristeza. A partir de hoje, só teremos alegrias
em nossas vidas. Mesmo me afastando do senhor e da Clara, em meio a tantas pessoas, meu
destino se cruzou com o de Melissa. Acho que de qualquer maneira teria sido impossível não me
apaixonar por ela. Talvez tenha sido melhor assim, porque se tivéssemos crescido na mesma casa,
certamente me apaixonaria por ela e talvez o senhor não aprovasse, nos vendo como irmãos.
Minha única saída seria roubá-la.
O comentário de Heitor nos faz rir, descontraídos.
Prefiro não imaginar como teria sido crescer na mesma casa com Heitor, não se pode voltar
no tempo nem mudar o passado. A vida é o agora.
— Mel, minha filha. Que esse seja o início de uma linda trajetória. Vocês merecem — diz
minha mãe enquanto nos abraçamos, Heitor e Raul se juntam ao abraço e meu coração irradia
alegria e esperança.
A vida está me compensando por cada lágrima de tristeza derramada.
Depois que todos os nossos amigos nos felicitam, encomendamos o jantar em um restaurante
chinês. A noite foi regada a muita conversa e risadas. Estar com quem se ama realmente é
sensacional.
Assim que nos despedimos de nossos pais, os últimos a irem embora, Heitor fecha a porta e
vem em minha direção.
— Enfim sós, pequena.
CAPÍTULO VINTE E CINCO
MELISSA
Heitor tem me proporcionado os melhores dias da minha vida. Prometemos um ao outro que
seríamos sinceros e que não usaríamos a omissão jamais. Quando fizemos o pacto de que entre nós
não haveria mais segredos, Heitor me surpreendeu quando confessou que os meus e-mails eram
direcionados ao e-mail dele e que, no dia que almocei com Artur, ele se fez presente às
escondidas. Mesmo surpresa e um pouco chateada, preferi não retomar um assunto que já é
passado, mas não contive o riso ao imaginar a cena.
Heitor e Artur se entenderam. Meu moreno em fúria reconheceu que exagerou no ciúme e
tomou a iniciativa de se retratar com o presidente do Grupo Gonzalez. Embora não sejam mais
parceiros de trabalho, a possibilidade de se tornarem bons amigos não está descartada, Artur é
meu chefe e também amigo, deixei claro para meu noivo que não pretendo desistir do emprego,
em breve entro em licença maternidade e depois pensarei no que fazer, mas sei que Heitor tentará
me convencer a voltar para a H&C.
Uma das grandes surpresas foi o retorno de Diogo ao Brasil. Meu amigo entrou em contato
assim que soube, por minha mãe, que eu estava grávida e também noiva de Heitor. Desde a última
vez que o vi, não tive notícias dele, e poder reencontrá-lo tirou um grande peso de minhas costas.
Conversamos e ele pareceu sincero ao me desejar felicidades nessa etapa que se inicia. Meu
moreno em fúria parou de se referir a Diogo como “aprendiz de astro americano”. Sei que não
serão grandes amigos, mas ao menos cada um aceitou o seu lugar em minha vida, Diogo como um
bom amigo e Heitor como o homem que amo, sua insegurança está diminuindo a cada dia.
Desta vez, consegui me despedir de Diogo sem culpa, ciente de que ele seguiu em frente.
Torço para que um dia ele encontre alguém que o ame da maneira que ele mereça, então poderá
compreender como me sinto em relação a Heitor.
***
Aproveito o dia de hoje para adiantar alguns assuntos na construtora, Artur me liberou na
parte da tarde, para que Heitor e eu possamos resolver as pendências para o nosso casamento.
Quero me casar grávida, acho que a gravidez é um momento sublime na vida de uma mulher. Sei
que Heitor não está se casando comigo apenas por causa do bebê, então faço questão de exibir
meu barrigão em um vestido de noiva.
Vou de táxi para a H&C encontrar Heitor. Chego à recepção e não encontro Joana.
Deparo-me com Morgana, que me avalia dos pés à cabeça, com seu olhar desdenhoso e de
superioridade. Seu sorrisinho sarcástico não me intimida, mas eu sinto calafrios quando estou perto
dela. Essa mulher não me passa uma energia positiva, nunca passou.
— Então a vadiazinha conseguiu o que queria, vai se casar com o chefe — destila seu
veneno.
Começo a suar frio. Em outra época, eu teria me aproximado e deixado a marca dos meus
cinco dedos em seu rosto. Mas estou exausta e desgastada para iniciar essa discussão.
— Morgana, não vou ceder à sua provocação, então, por favor, nem desperdice a sua
saliva.
Ela não recua, encara-me de uma maneira sinistra, como se sentisse raiva de mim. Engulo em
seco e olho à nossa volta, estamos sozinhas na recepção. Viro-me em direção ao corredor de
acesso aos escritórios, mas Morgana impede a minha passagem.
O que essa maluca quer comigo?
— Estou há anos nessa empresa, fiz de tudo para Heitor me enxergar como mulher. Se você
não tivesse aparecido, eu teria conseguido
Tento me desvencilhar, mas Morgana não está disposta a me deixar passar. Ela dá alguns
passos para a frente e eu recuo, repousando a mão em minha barriga, em um gesto de proteção
ao meu bebê. Quando me dou conta, estou contra a parede, e ela sorri de um jeito tão diabólico
que começo a ficar assustada.
O que ela pretende com isso?
Encurralada, abro minha boca, tentando chamar por ajuda, mas o nervosismo me trava e
não consigo emitir nenhum som. Estou suando frio e, apesar de estar com medo, tento não
demonstrar vulnerabilidade.
Deus, não permita que nada de ruim aconteça comigo e com meu bebê...
— Eles estão na sala de reuniões, não podem nos ouvir. De nada vai adiantar você chamar
alguém ou gritar. Sabe que a sala é a prova de som — canta vitória.
Ela segura meus cabelos com força, me fazendo gemer de dor. Minha respiração começa a
ficar pesada e sinto uma contração na barriga, deixando-me em estado de alerta. Quero revidar,
mas tenho medo de que ela faça alguma coisa que afete o meu filho.
Quando ela segura meu queixo com uma das mãos, sinto suas unhas compridas afundarem
em minha pele. Solto um grunhido agonizante, tento afastá-la, mas me sinto fraca, e ela está
determinada a me manter presa. Tento engolir o choro, mas é impossível, uma nova contração me
faz temer que algo ruim esteja para acontecer.
Droga, Melissa! Reaja!
— Morgana, por favor, me solte — imploro com a voz chorosa.
De nada adianta eu manter uma postura inabalável, quando estou em desvantagem. Engulo
o meu orgulho e começo a chorar, talvez assim ela se sinta vitoriosa e me solte. Torço para que sua
raiva por mim não extrapole ainda mais.
Seu sorriso se expande, ela está adorando me ver em pânico.
— O que será que acontece se eu der um chute na sua barriga? — sibila, com os olhos
cheio de fúria. — Se você perder esse bebê, o Heitor não casa mais com você. Quer apostar?
A raiva supera o medo. Quem essa maluca pensa que é para ameaçar a vida do meu filho?
— Sua louca! — grito. — Está ameaçando a vida do meu filho? — Tento empurrá-la,
sentindo minhas pernas fraquejarem. — Me solta, Morgana!
Meu grito ecoa pela recepção e persisto, tentando afastá-la de mim. Ela segura meus
ombros com força e vejo seu joelho se dobrando, em uma ameaça contra minha barriga,
instintivamente, paro de empurrá-la para tentar proteger meu filho. Recuo, batendo com as costas
contra a parede, minhas pernas amolecem e sinto que estou prestes a desabar no chão, quando
ouço um estrondo vindo dos corredores.
Heitor surge às pressas, furioso, ele empurra Morgana com tanta força, que a derruba no
chão. Minha visão fica turva e, por mais que eu me esforce, não consigo manter os olhos abertos.
Antes que eu sinta o contato do meu corpo com o chão, sou aparada pelos braços do homem que
tanto amo.
— Melissa, meu amor, você está bem? — O desespero em sua voz é gritante, mas não
consigo responder para tranquilizá-lo. — Melissa! Droga, Mel! Fala comigo!
A verdade é que eu não estou bem.
— Que porra é essa? — Ouço a voz de Caio, ao longe.
Tento me manter acordada, mas minhas forças se esvaem. Tudo o que me lembro de ouvir,
antes de ficar inconsciente, é a voz suave de Heitor ao pé do meu ouvido:
— Fica comigo, amor, fiquem comigo.
HEITOR
Assim que a reunião termina, levanto-me ansioso para ir embora e ajeito os papéis em minha
pasta, com pressa. Caio abre a porta da sala, mas retorna à mesa para pegar seu celular. É
quando ouço a voz de Melissa, gritando para que Morgana a solte. Largo o que estou fazendo e
corro em direção à voz de minha mulher. A adrenalina percorre o meu corpo e, ao me deparar
com a cena diante de mim, a raiva e o instinto de proteção me dominam. Empurro a desgraçada
que estava machucando Melissa, arremessando-a contra o chão. Tudo o que vejo é a mulher que
amo desfalecendo. Consigo segurá-la a tempo de evitar que se machuque, mas Melissa está quase
desacordada, o que me deixa ainda mais desesperado.
No caminho do Hospital, o pânico me domina. Ligo para a Dra. Rosane, enquanto pressiono
Joana para ser mais ágil ao volante. Precisamos chegar à clínica o mais rápido possível. Melissa
está desacordada e meu desespero atinge o nível máximo de proporção.
Tão logo chegamos, uma equipe de enfermeiros está a postos para atendê-la, orientados
pela médica de Melissa.
— Heitor, você tem que aguardar aqui. Assim que eu tiver notícias, aviso. — Dra. Rosane vira
as costas e deixa-me perdido na sala de emergência.
Tentando manter minha sanidade, lembro-me de avisar meu pai, fazendo um breve resumo
do que aconteceu e pedindo que ele venha ao meu encontro, pois não tenho estruturas emocionais
para lidar com essa merda sozinho. Ando de um lado para o outro, nervoso.
Deus, por favor, cuide dos meus amores. Não permita que nada de ruim aconteça a eles...
Joana retorna ao escritório, para auxiliar Caio e Vitor, que ficaram para resolver a questão
de Morgana. A maluca tentou se fazer de coitada, dizendo que só estava “pregando uma peça”
em Melissa para se vingar de uma bofetada que havia levado meses atrás. Como se nós fôssemos
burros o bastante para acreditar nessa mentira esfarrapada. Mas ela está muito enganada se
acredita que irá sair dessa ilesa. Antes de vir para o hospital, exigi que Caio chamasse a polícia e
prestasse queixa contra ela. Essa maldita vai se arrepender até o último fio de cabelo por colocar
a vida da minha mulher e do meu filho em risco.
Sento-me em uma cadeira, tentando me acalmar. Não consigo controlar minhas lágrimas e
tudo o que faço é rezar para que nada de ruim aconteça. Perco a noção de quanto tempo estou à
espera de notícias.
Sinto o toque de uma mão em meu ombro, levanto meu olhar para encarar um Raul aflito e
uma Clara em prantos. Levanto-me para abraçar meu pai e, logo em seguida, minha sogra.
Conto tudo o que vi para Raul, vejo o seu semblante se alterar e ele pede licença para
fazer algumas ligações. Sei o que ele está fazendo, Morgana está encrencada.
O tempo passa e a falta de notícias me aflige. Quando a Dra. Rosane aparece na sala de
espera, sou o primeiro a me levantar e ir ao seu encontro.
— Eles estão bem? — pergunto desesperado. — Por favor, me diz que eles estão bem.
A expressão corporal da médica é tensa, mas ela mantém os olhos fixos no meu, sem
demonstrar qualquer tipo de emoção que denuncie a gravidade da situação.
— Realizamos todos os procedimentos exigidos nessas circunstâncias. A pressão estabilizou,
mas a bolsa se rompeu e ela está com contrações, porém não apresenta dilatação. Ela está com
quase vinte semanas, não podemos arriscar um parto normal. Faremos a cesariana, mas sendo
parto prematuro, estejam preparados para as próximas notícias.
Dra. Rosane continua explicando os riscos e estatísticas, mas tudo o que penso é que não
posso ser castigado dessa maneira cruel, agora que encontrei minha felicidade. Melissa e meu filho
não podem pagar pelos meus pecados. Se eu pudesse, daria a minha vida em troca da deles.
A médica se afasta e volto a me sentar, rezando em silêncio para que Deus proteja Melissa e
permita que nosso filho viva.
— Tenha fé, Heitor. Melissa é uma guerreira, tudo vai dar certo.
A voz de minha avó me acalenta, ela se senta no meu colo e eu a abraço, buscando
conforto. Raul providenciou que um táxi fosse buscá-la antes de ir para a delegacia registrar o
boletim de ocorrência contra Morgana, ele me prometeu que advogado nenhum iria aceitar
defendê-la e que faria de tudo para que a justiça fosse feita.
Tudo à minha volta parece distante. Eu não ouço nada e ninguém, o único som audível são as
batidas do meu coração. Só de imaginar minha vida sem Melissa, ele começa a perder as forças
de seus batimentos.
Essa maldita espera é cruel. Não tem nada que eu possa fazer a não ser ficar aqui.
Sentado, chorando, rezando e contando cada minuto, até receber uma notícia.
Em um determinado momento, levanto-me e cedo lugar à minha avó, que ainda estava em
meu colo. Vejo meus amigos na sala de espera, mas não quero falar com ninguém. Caminho até um
canto, onde não há cadeiras e ninguém por perto, sento-me no chão, dobro os joelhos e envolvo
meus braços em torno deles. Ninguém se aproximou, compreenderam a minha necessidade de
isolamento, mas ao ouvir a voz da Dra. Rosane chamando pelos familiares de Melissa, levanto-me
abruptamente e me junto aos demais.
CAPÍTULO VINTE E SEIS
HEITOR
— Heitor, quero que conheça a Dra. Sônia. Ela é a pediatra neonatal e cuidará do caso do
seu bebê.
Após os cumprimentos, finalmente recebemos notícias.
— A cesárea ocorreu perfeitamente bem — avisa Dra. Rosane. — Melissa está bem, seu
filho é um menino. Nasceu com 595gr e medindo 32cm. Porém, quando coletado o sangue para
realização dos exames necessários após o nascimento, foi detectado que a hemoglobina está
baixa. A Dra. Sônia explicará tudo o que vocês precisam saber.
Fico emocionado em saber que é um menino. Meu coração de pai me dizia que seria. Meu
pequeno nem bem chegou ao mundo e já está tendo que lutar pela sua vida.
A pediatra iniciou a explicação usando termos que eu não conheço e deixando-me ainda
mais nervoso. Tudo o que desejo é saber se meu filho vai sobreviver e quando poderei vê-lo.
Porra! Sou pai de um menino! Não quero uma palestra sobre glóbulos vermelhos e metaloproteína.
Sei que é importante, mas agora só consigo pensar em ver Melissa e meu filho.
Solto uma lufada de ar, exasperado.
— Por favor, doutora, simplifique —peço, reparando que minha sogra e minha avó também
estão confusas.
Ela me dirige um sorriso sem graça.
— Heitor, seu filho está com anemia. Ele precisa urgente de uma transfusão de sangue.
Precisa vir conosco, fazer os exames para verificarmos se o seu sangue é compatível.
Por que ela não disse isso logo?
Sinto o peso da minha responsabilidade. A vida do meu bebê também depende de mim.
Assim que meu sangue é coletado, sou liberado para visitar Melissa, que está em um quarto
particular. Entro silenciosamente e paro na porta, observando-a e me esforçando para não chorar
ao vê-la tão fragilizada. Ela está pálida, em seu rosto, pequenos curativos, onde as unhas de
Morgana deixaram sua marca. Sua aparência abatida parte o meu coração. Mas não posso
desabar em sua frente. Ela precisa de mim. Assim que seus lindos olhos, ofuscados pelas lágrimas,
vêm de encontro aos meus, diminuo a distância entre nós e a beijo na testa.
Ela me abraça e, juntos, tentamos amenizar nosso sofrimento.
— Ele é tão pequeno e frágil, Heitor — murmura entre as lágrimas. — Estou com muito
medo...
Vê-la triste e fragilizada me faz sentir impotente. Se pudesse, arrancaria com minhas mãos a
sua dor. Ela chora inconsolavelmente em meus braços.
— Calma, pequena. Tudo ficará bem. Em breve nosso menino estará conosco.
— É um menino, como você disse que seria...
Estou usando todo o meu autocontrole para não desmoronar diante dela. Penso em algo
para tirar o foco de sua dor.
— Ainda não escolhemos o nome do nosso pequeno.
Ela me olha e sorri. Mas seu sorriso é triste e sem vida.
— Faço questão que você escolha, Heitor. Eu sei que sua escolha me fará feliz.
Eu não tenho nenhuma dúvida sobre a escolha do nome. Tenho certeza que ela concordará.
Sorrio para ela, grato por ter me concedido essa honra.
— Nosso menino se chamará Raul Heitor Sanches Neto — anuncio com orgulho. — Em
homenagem ao nosso pai. Tenha fé, Melissa, o Raulzinho é um guerreiro e vai vencer essa batalha.
Ela segura firme minha mão, enquanto suas lágrimas não param de trilhar pelo seu lindo
rosto. Quando finalmente se acalma, ficamos abraçados, em silêncio, até que ela adormece.
A Dra. Sônia comunica que meu sangue é compatível e me encaminho para fazer a
transfusão. Peço que ainda não liberem visita a Melissa, ela precisa descansar. Raulzinho está
internado na UTI neonatal, eu ainda não pude vê-lo. A pediatra me explicou que, pelo fato de ele
ter nascido chorando, não precisará ficar entubado. Essa notícia me deixa um pouco mais
esperançoso.
Depois de coletado meu sangue, permaneço em observação por um tempo, enquanto
realizavam a transfusão para o meu filho. Assim que fui liberado, retornei à recepção para
atualizar meus amigos e familiares. Pedi que não tivessem pressa em ver Melissa. Clara relutou no
início, mas depois acabou entendendo.
Vou até a capela do hospital. Nunca fui religioso, mas sinto que chegou o momento de eu
agradecer por ter minhas preces atendidas. Ajoelho-me em frente ao altar e deixo minhas
lágrimas caírem, enquanto quebranto meu coração na presença de Deus, pedindo pela vida do
meu filho.
Não me resta escolha a não ser ter fé. Sinto-me mais aliviado. Eu preciso crer que Raulzinho
vencerá essa batalha. Eu sei que ele vai conseguir.
Volto para junto de Melissa e juntos aguardamos o resultado da transfusão. Dra. Rosane
permitiu que Melissa recebesse visitas, um pouco a contragosto, mas compadecendo-se da angústia
de todos, à espera de notícias, deu um prazo de cinco minutos parra que pudessem vê-la. Quando
revelamos o nome do bebê, todos se emocionaram, principalmente Raul.
Após a visita ser encerrada, Dra. Sônia apareceu para nos comunicar sobre o procedimento.
Tudo correu perfeitamente bem, Raulzinho ficará por tempo indeterminado na UTI neonatal, mas
passa bem. Tentei não demonstrar a Melissa o medo que ainda sinto, mas fracasso em minha
tentativa. Melissa tenta me consolar, mas também está aflita com tudo o que nos tem acontecido.
Pais de primeira viagem, inseguros e medrosos.
Melissa foi cuidadosamente colocada em uma cadeira de rodas e juntos seguimos para a UTI
neonatal, para finalmente conhecermos Raulzinho. Mesmo ciente de que não poderei segurá-lo
junto a mim, estar perto dele e saber que está vivo acalenta meu coração.
MELISSA
Enquanto sou conduzida por Heitor até a UTI neonatal, em minha cabeça, passa uma espécie
de filme. Passamos por tanta coisa até aqui. Lutamos pelo nosso amor e quando achamos que tudo
ficaria bem a vida nos surpreendeu. Sei que Heitor está sofrendo, ele tenta se fazer de forte por
mim, mas eu o conheço suficiente para perceber o quanto está desesperado.
A parte mais dolorosa é saber que não poderei meu filho no colo, nem amamentá-lo, pois ele
ficará por tempo indeterminado sob cuidados médicos. Heitor olha receoso para a incubadora,
levanto-me para abraçá-lo e, juntos, apoiamos um ao outro, a emoção tomando conta ao ver nosso
filho, pequeno e frágil, lutando por sua vida enquanto não podemos fazer nada, a não ser rezar e
esperar.
— Minha avó costuma dizer que Deus não dá ao homem um fardo maior do que ele possa
carregar — diz Heitor, tentando controlar a emoção. — Enfrentaremos isso juntos, meu amor.
Raulzinho é vencedor só pelo fato de já nascer lutando, nosso pequeno guerreiro irá vencer essa
batalha, tenha fé.
Emociono-me ao ouvir suas palavras.
Se alguém me dissesse, há alguns meses, que o babaca do meu chefe, bem lá no fundo, era
romântico, na certa eu duvidaria. Ele é tudo o que eu sempre quis e o que realmente preciso. Minha
felicidade estará completa assim que eu puder pegar meu filho nos braços e levá-lo para nossa
casa.
— Amo você, Heitor. Só de imaginar meu futuro ao lado dos meus dois Raulzinhos, me sinto
completa.
CAPÍTULO VINTE E SETE
MELISSA
Sessenta dias. Tristes e longos sessenta dias. Este foi o tempo de espera, agonia e
perseverança. Quando pensei que era fraca, Deus me revelou uma mulher forte.
Hoje percebo que ser mãe é um presente de Deus. Passei a valorizar as coisas simples da
vida. Apesar de tudo, posso dizer que saí fortalecida dessa experiência dolorosa. Não tem dor
pior para uma mãe do que ver seu filho sofrendo e não poder fazer nada para ajudar.
Seus dias na UTI neonatal foram cheios de altos e baixos. Havia dias que saíamos desolados
do hospital, mas quando retornávamos na manhã seguinte, descobríamos que Raulzinho ganhava
peso e comemorávamos cada vitória.
Os médicos nos alertaram que precisávamos estar preparados para tudo. Nosso filho era
muito pequeno e, se não ganhasse peso, ficaria mais debilitado. Foi necessária uma transfusão de
sangue, um novo susto em meio ao fio de esperança que fazíamos o possível para não deixar
arrebentar. Bastava olhá-lo, tão pequenino e frágil, que minhas forças retornavam. Conversava e
cantarolava para ele, criando um laço invisível do mais puro e perfeito amor. Dizia a ele o quanto
era amado, contando cada detalhezinho do seu quartinho fofo e como estávamos ansiosos para
que ele fosse para casa comigo e com Heitor.
A emoção que senti no dia em que o segurei no colo pela primeira vez jamais se apagará
de minha memória. Eu não saberia descrever com palavras, era como se minha vida dependesse
daquele coraçãozinho batendo contra meu peito. Tive medo de machucá-lo, mas logo me senti
segura. Heitor chorou feito criança quando o segurou, demonstrando um dom natural para a
paternidade, acalentando Raulzinho como se tivesse anos de prática.
Quando finalmente Raulzinho recebeu alta, apesar de nossos amigos estarem ansiosos para
vê-lo de perto, Heitor e eu optamos por reservar esse momento somente para a família. Nossos
pais e Dona Diva passaram a semana conosco, e aprendi muito com as duas mulheres. Ser mãe de
primeira viagem, ainda mais de um bebê prematuro, me fez ver o mundo com outros olhos. Meu
coração está em paz agora.
***
Estamos na igreja para celebrar o batizado de Raulzinho. Com quatro meses de vida,
apesar de pequenino, é uma criança forte e saudável. Os tios e tias postiços disputam entre si para
segurá-lo no colo.
A cerimônia se inicia e o padre fala das responsabilidades que tem um padrinho na vida de
uma criança. Quando chega a hora de molhar a cabecinha de nosso filho, Heitor entrega Raulzinho
a Artur, que é auxiliado por Sheila, padrinho e madrinha do nosso primogênito.
Sheila esteve ao meu lado durante toda a gravidez, amparando-me nos piores momentos e
incentivando a me reerguer, cuidando de mim e do meu bebê. Além de ser da família, é uma
grande amiga, por isso confiei a ela a responsabilidade de madrinha.
A escolha do padrinho partiu de Heitor, o que me surpreendeu e ao mesmo tempo deixou-me
feliz. Artur se manteve por perto durante todo o período de recuperação do Raulzinho, prestando
solidariedade. Aos poucos, o clima tenso entre meu noivo e meu chefe se dissipou, eles voltaram a
se tratar com cordialidade e acabaram por se tornar amigos. Desde que o visitou em casa pela
primeira vez, Artur se afeiçoou a Raulzinho e esse laço se fortaleceu a cada dia. Temi que Heitor
ficasse com ciúmes e voltasse a ser rude com ele, mas isso não aconteceu. Algo me diz que meu
noivo sabe uma parte da história de Artur Gonzalez que eu desconheço.
Agora, observando-o emocionado enquanto executa o seu papel junto à Sheila, meu coração
de mãe grita em meu peito que Heitor e eu não poderíamos ter feito melhor escolha.
Após a cerimônia, fotografamos com os padrinhos, avós e tios babões. Reunimo-nos em nossa
casa para celebrar o nascimento e vitória de Raulzinho.
Contemplo tudo ao meu redor e sinto-me grata pelo simples fato de respirar. Muitas pessoas
acham que riqueza é ter bens materiais e dinheiro. Ao contrário do que pensam, para mim, a
maior riqueza é a família e as amizades que conquistei ao longo do caminho.
Seguindo o conselho de meu compadre, Artur, que um dia me disse: “Viva hoje como se fosse
morrer amanhã. ” É o que tenho feito desde então.
Heitor parece perdido em alguma lembrança, assim como eu. Estamos na sombra, à beira da
piscina, deitados em uma chaise, com nosso filho deitado no tórax de seu pai. Nossos amigos estão
na piscina, divertindo-se enquanto nós permanecemos em uma redoma invisível e particular.
Ele me olha e sorri.
— Não existe outro lugar no mundo onde eu queira estar, a não ser aqui, com vocês.
Contemplar o sono tranquilo do nosso filho, com minha noiva linda ao meu lado, é o paraíso na
Terra.
CAPÍTULO VINTE E OITO
MELISSA
— Melissa, se você não parar de chorar terá que refazer a maquiagem — diz a minha
mãe.
Não tenho como não me emocionar diante de tudo. Das lembranças e do momento que
estamos prestes a viver. Hoje meu pequeno completa um ano e é um garoto forte e saudável.
As alegrias não param por aqui. Fizemos questão de esperar até que esse dia chegasse.
Hoje diremos sim ao nosso amor e Raulzinho entrará comigo até o altar. Queria ter me casado
grávida, mas devido às circunstâncias, adiamos nossos planos e decidimos esperar nosso filho
completar seu primeiro ano.
— Serei a noiva do Chuck, mamãe — brinco, tentando secar minhas lágrimas. — Estou
emocionada demais para me preocupar com maquiagem.
A cerimônia do casamento será realizada no jardim da casa onde Heitor cresceu, queremos
apagar as lembranças tristes, substituindo-as por momentos de felicidade. Dona Diva ficou radiante
ao saber que suas flores e o lago seriam testemunhas da nossa história de amor.
Heitor e eu decidimos que ninguém nos acompanharia até o altar. Seremos somente ele, eu e
Raulzinho, que aguarda o momento nos braços de sua avó. Ele está a cada dia mais parecido com
o pai, a versão compacta do meu moreno em fúria. Vestido como um noivinho, meus olhos brilham e
meu coração se enche de amor ao admirá-lo.
— Papa...
Raulzinho está começando a pronunciar as primeiras palavras. A sua favorita é “papa”,
como referência a Heitor. Os dois são muito apegados, Heitor o mima demais e eu acabado
fazendo o papel de chata, algumas vezes, dizendo não quando necessário, mesmo que ele faça o
seu charminho fofo.
Aproximo-me de minha mãe, que entrega meu filho nos braços.
— Papai está nos esperando, amorzinho. Daqui a pouco iremos encontrá-lo.
Minha mãe entrega-me meu pequeno bagunceiro e despede-se, já que dentro de alguns
minutos daremos início ao casamento.
Quando Heitor entra no quarto, as batidas do meu coração aceleram. Ele está ainda mais
lindo, tão perfeito em seu traje de noivo. É impossível não me apaixonar ainda mais cada vez que
nossos olhares se encontram. Raulzinho percebe sua presença e se joga nos braços dele, nos
fazendo rir. É sempre assim. Mesmo segurando o nosso filho, Heitor não para de me fitar com
admiração.
—Você está radiante, Melissa...
Meu vestido branco, sem alças, modelo tomara que caia, é longo e com uma pequena calda.
Por ser ao ar livre, não quis nada extravagante. Nos pés, um par de sapatilhas que não aparecem
e me proporcionam conforto para caminhar sobre a grama. Meus cabelos estão soltos, escovados
com esmero e, como adereço, uma tiara de flores substituindo o tradicional véu. A maquiagem é
discreta, mas provavelmente desapareceu devido ao meu choro antecipado.
Saímos de mãos dadas, com Raulzinho apoiado em um de seus braços, rumo à nossa
felicidade plena. Um ano se passou desde que nosso filho chegou para tornar nossa vida ainda
mais completa, mas ao dizermos sim diante do cerimonialista, na presença de nossos amigos mais
queridos e familiares como testemunhas, estaremos selando definitivamente o nosso laço de união.
Chegamos diante do lago e Heitor não contém a emoção ao contemplar a vista. A
decoração com flores de ipê refletem a paisagem à nossa volta, tornando o cenário romântico e
místico. Meu próprio conto de fadas, com final feliz.
— Está pronto para afogar as lembranças tristes no lago e florescer novas memórias neste
jardim? — pergunto. Seu lindo sorriso responde por ele. Heitor se aproxima, deposita um beijo em
minha testa e sussurra ao pé do meu ouvido:
— Mais do que pronto, determinado. Uma delas, em um futuro não muito distante, será você
e eu sem roupa, escondidos entre essas árvores, e a lua como testemunha.
Seu olhar cheio de malícia aquece meu corpo e desperta minha libido, mas me recomponho
ao sentir os olhares de expectativa em nossa direção. Os convidados estão acomodados em seus
lugares, meus pais, Dona Diva e nossos padrinhos aguardam para entrar e se posicionarem no
local combinado em um ensaio.
Vitor explica a Miguel como segurar a almofada com as alianças, enquanto Ingrid observa,
segurando a risada. Incrível como ele se afeiçoou ao filho de minha amiga.
Dona Diva é a primeira a entrar. Depois dela, meus pais, e na sequência, os padrinhos: Ingrid
e Vitor, Joana e Caio, Andréa e Artur, Sheila e Diogo.
Quando chega a nossa vez, a marcha nupcial começa a soar e, de mãos dadas, caminhamos
lentamente pelo corredor de flores. Miguelzinho segue à nossa frente, mandando beijos a todos.
Raulzinho, no colo de Heitor, olha com curiosidade para todos os convidados.
Paramos diante do altar improvisado e Heitor entrega nosso filho para Raul.
Assim que o celebrante nos declara marido e mulher, Heitor me surpreende, emocionando a
mim e aos convidados com as palavras vindas do seu coração:
— Melissa, eu cresci desacreditado do amor. Quando a vida me presenteou com esse
sentimento, fiz o que pude para fugir da verdade. A verdade era que eu já te amava, mas fazia
de tudo para negar esse amor. Quando finalmente estava disposto a reconhecer esse sentimento, o
ciúme e a insegurança me cegaram e, como punição, perdi você. Foram quase três meses vivendo
no inferno, a única força que manteve vivo foi a fé. Eu precisava ter fé que você voltaria para
mim. Quando esse dia chegou, achei que tudo ficaria bem, mas o destino novamente nos pregou
uma peça. Mas cada lágrima de tristeza que derramamos nos tornou fortes e, juntos, superamos os
obstáculos. Como recompensa, o pequeno Raul, um presente de Deus para simbolizar nosso amor. A
vida é muito curta para guardar mágoas e ressentimentos. Então, Melissa, obrigada por me
perdoar, por deixar suas mágoas e ressentimentos no passado e por me ensinar a fazer o mesmo.
Durante um ano, temos colecionado lembranças felizes, e que continuemos assim, transbordando de
alegria cada minuto de nossas vidas. Eu te amo, pequena.
Entre as lágrimas, sorrio para o homem à minha frente.
— Heitor, obrigada por existir, por me amar e me dar um filho lindo. Mas acima de tudo,
obrigada por se permitir ser feliz de verdade. Eu amo você.
EPÍLOGO
MELISSA
Estamos comemorando o nosso primeiro aniversário de casamento e o segundo ano de vida
de Raulzinho. Ingrid me ajudou na organização da festa com tema de super-heróis. Miguel fez
questão de que o pequeno Raul fosse o Homem de Ferro. O dia que ele propôs que fizéssemos
uma festa a fantasia para nosso pequeno, concordei imediatamente. Meu bebê é um herói! Ele
venceu a morte, mesmo sem superpoderes.
É comovente o carinho que Miguel tem pelo Raulzinho. O Menino de seis anos cuida do
amiguinho como se fosse seu próprio irmão. Vestido de Capitão América, o filho de Ingrid se
diverte como se a festa também fosse sua. Amo Miguel, adoro e torço para que a amizade entre
ele e meu filho prospere ainda mais com o passar dos anos, assim como aconteceu comigo e
Ingrid.
Estou vestida de Mulher Gato e, Heitor, de Batman. Por insistência do “Capitão América”,
todos os tios e tias também deveriam se fantasiar para a festa. Vitor é o Super-Homem, enquanto
Ingrid é a Mulher Maravilha. Eles se aproximaram muito desde que se conheceram, meu amigo se
apegou demais ao menino, e Ingrid, mesmo sem admitir, adora a atenção que Miguel recebe de
Vitor. Embora os adultos se estranhem de vez em quando, estão sempre na companhia um do outro,
quem não os conhece, acaba pensando que Vitor é o pai de Miguel. Para mim, isso é paixão
reprimida, mas ambos são orgulhosos demais para admitir.
Os convidados começam a chegar, todos em suas respectivas fantasias. Caio, vestido de
Lanterna Verde, registra todos os momentos com uma câmera fotográfica, enquanto Vitor se
encarrega de fazer algumas filmagens. Queríamos um momento em família, com fotos e vídeos
caseiros, sem a presença de qualquer tipo de equipe. Todos se esforçaram para que tudo ficasse
lindo e se revezaram entre uma tarefa e outra.
Artur está fantasiado de Thor e todos os homens pegaram no pé dele por não ter cabelo
loiro e comprido, eles estão agindo como se fossem realmente os personagens, o que torna tudo
ainda mais divertido. Diogo conseguiu vir ao Brasil, aproveitando a pausa na turnê mundial que
está fazendo com a banda My Angel, fantasiado de Deadpool, mas sem a máscara, ele anda
para lá e para cá, entretendo as crianças com suas palhaçadas. Sheila, Andréa e Joana são as
“Três Espiãs Demais”, e até mesmo meus pais entraram no clima, Raul é um Power Ranger vermelho
e minha mãe, a rosa. Dona Diva está muito elegante em seu terninho preto, dizendo ao Miguel que
é uma agente secreta, pedido para que ele guarde segredo.
A tarde passa rapidamente, mal percebemos as horas correrem. Ao anoitecer, as babás se
encarregam de supervisionar as crianças, no quarto de brinquedos, enquanto transformamos a
festa infantil em nossa comemoração de Bodas de Papel. Contratamos um Dj e recolhemos as mesas
para uma pista de dança improvisada. Heitor e eu fomos os primeiros a extravasar, seguidos por
nossos amigos.
— Não vejo a hora de rasgar a roupa da Mulher Gato — meu marido diz, ao pé do meu
ouvido, beijando-me em seguida. Sem me conter, colo meu corpo ao dele e envolvo meus braços em
seu pescoço, enquanto suas mãos deslizam por minhas costas, descendo até abaixo do quadril.
— Vocês dois, por favor, procurem um motel! — provoca Vítor.
Heitor se afasta um pouco, sorri com malícia e encara o amigo, ao nosso lado.
— Cale a boca, “empata foda”. Por que em vez de vir aqui, bancar o Coringa para cima
de mim, não encarna o Super-Homem e vai lá mostrar ao Thor, que está tentando dar uma
martelada na Mulher Maravilha, quem é o dono da porra toda? — revida Heitor, em um tom de
deboche.
Encaro os dois amigos, sem saber o que dizer. Seguro o riso ao ver Vitor arregalar os olhos,
a cor se esvaindo da sua face enquanto ele procura Ingrid e Artur, com os olhos. Imediatamente,
seu sorriso se esvai.
— O Thor pode dar martelada em quem ele quiser. — Dá de ombros, mas não consegue
evitar a irritação.
Ingrid e Artur parecem estar se divertindo na companhia um do outro, dançando. Vitor está
morrendo de ciúmes, mas não vai admitir tão cedo. Tenho certeza de que minha amiga está
tentando provocá-lo, e Artur, esperto como é, está tentando ajudá-la, mesmo que ela não saiba. Sei
que ele não tem interesse romântico por ela, meu compadre é um dos que enxergam o que
somente Vitor e Ingrid se recusam a enxergar: São loucos um pelo outro.
— Tem razão — concorda Heitor, colocando mais lenha na fogueira. — Um deus de Asgard
e uma deusa amazona podem formar um belo par. Prevejo filhos lindos, o Miguelzinho vai ser o
líder de sua própria liga de heróis.
Heitor é muito cara de pau. Ele sabe que Miguel é o ponto fraco de Vitor.
— Não fala merda, Heitor. Eles só estão dançando, são apenas amigos — argumenta ele.
— E até quando você será apenas um amigo? — resolvo interceder. — Quer um conselho?
Nada de ir até lá e dizer para eles procurarem um motel.
— Querem saber? Me deixem em paz! — Vira as costas, afastando-se a passos firmes.
Heitor solta uma gargalhada a plenos pulmões, me fazendo rir também.
— Quem fala o que quer, ouve o que não quer — filosofa, bem-humorado.
Thank You For Loving Me, do Bon Jovi, começa a tocar. Heitor me puxa para perto,
novamente, depositando um beijo em minha testa. Repouso a cabeça em seu ombro e me deixo
embalar pela canção que diz: Obrigado por me amar.
Divago em nossas lembranças e percebo que, se pudesse voltar no tempo, faria tudo
novamente. Até as dores me tornaram mais forte, transformaram-me em uma mulher completa.
“... Eu nunca soube que tinha um sonho
Até o sonho ser você
Quando olho dentro de seus olhos
O céu fica num azul diferente
Explore meu coração
Eu não visto disfarces
Se eu tentasse, você faria de conta
Que acreditou em minhas mentiras
Obrigado por me amar
Por ser meus olhos
Quando eu não consigo enxergar
Por separar meus lábios
Quando eu não podia respirar
Obrigado por me amar
Você me ergue quando eu caio
Você soa o gongo antes que eu seja nocauteado
Se eu estivesse me afogando você abriria o mar
E arriscaria sua própria vida para me resgatar...”
Aproveitamos que todos estão entretidos na música lenta para sairmos sem ser notados.
Heitor faz a frente, puxando-me pela mão. Estamos indo para os fundos de nossa casa,
onde tem um jardim repleto de ipês floridos. Assim como meu marido cresceu em uma casa cercada
por plantas, ele quis o mesmo para a infância do nosso filho.
Paramos embaixo de uma das árvores e minha boca se abre, incrédula com o que vejo
diante de nós. Há um cobertor estendido no chão, algumas almofadas espalhadas sobre ele e uma
cesta com morangos, ao lado de um balde de gelo, onde uma garrafa de champanhe nos
aguarda. Apesar de ser noite, há um pequeno poste de luz iluminando o ambiente.
— Você fez isso para nós? — pergunto com a voz embargada.
— Eu tive a ideia, mas sua mãe quem arrumou tudo para mim — confessou, puxando-me
pela mão, para que nos sentássemos no cobertor.
Tiramos nossos calçados e nos acomodamos. Heitor se apressa ao me deitar de costas,
repousando minha cabeça em uma das almofadas. Pairando sobre mim, ele acaricia meu rosto e
beija meus lábios rapidamente.
— Hora do morcego e da gatinha ficarem pelados...
Não consigo impedir minha risada.
— Você entrou mesmo no personagem, não foi, marido?
— Foi, sim, mas agora eu quero entrar em você...
— Tá maluco? Alguém pode aparecer, Heitor!
— Não se preocupe com isso, já avisei a todos que esse jardim é área restrita.
Seu sorriso malicioso e seu olhar de desejo desabam minha barreira de receio. Estamos
vestidos de super-heróis, deitados no meio do mato, prestes a ficarmos nus...
Uma bela fantasia erótica, não?
Decido entrar na brincadeira e aproveito a ocasião para contar uma novidade, queria que
fosse um momento especial, para que guardássemos em nosso baú de boas lembranças, pois da
primeira vez, não tivemos essa oportunidade.
— Como se chamaria o bebê de um morcego com uma gatinha? — pergunto, olhando
fixamente em seus olhos.
Observo a expressão de Heitor se alterar instantaneamente. Ele não desvia seu olhar, mas a
cobiça e a luxúria são substituídas por ternura e expectativa.
— Você tem certeza? — pergunta com a voz embargada de emoção.
Anuo com um gesto de cabeça. Heitor se deita ao meu lado, ajeito-me para ficar de frente
para ele. Sua mão esquerda passeia por minha barriga em uma suave carícia.
— Seis semanas — revelo, sentindo minha respiração ficar descompassada.

— Isto é incrível. — Com um sorriso aberto, ele torna a se sentar e se abaixa para beijar
minha barriga, por cima da roupa de couro preto. — Obrigado, Melissa. Mais um presente em
nossas vidas! Eu não poderia estar mais feliz!
— Quem sabe, desta vez, venha uma menina? — Coloco minha mão sobre a sua.
Heitor permanece em silêncio por alguns minutos, ponderando o que acabo de dizer. Por fim,
se move, tornando a pairar sobre mim. Sorrio para o homem da minha vida, sentindo-me a mais
feliz e abençoada das mulheres.
— Se for menina, a filha do morcego com a mulher gato será a Feiticeira Escarlate. Assim
ela já aprende, desde pequena, com o irmão Homem de Ferro, a se proteger dos garotos maus.
— E se for menino?
— Se for menino, será War Machine. Aí teremos dois homens de ferro para a nossa
superfamília. — Beija-me nos lábios e, ao se afastar, sussurra: — Agora vamos deixar os
personagens de lado. Eu, Heitor, quero fazer amor com a minha mulher, Melissa.
— Pode vir, moreno em fúria, sou todinha sua.

FIM

[1] Garotas só querem se divertir.


[2] Esta não é uma canção de amor.
[3] (Mateus 16.26)