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org Ano 2, n°5, 2010

A crise do PT e do trabalho de base no Brasil


Uma conversa com Marco Fernandes

Marco Fernandes é historiador, doutor em Psicologia Social pela USP, com tese
recentemente defendida, com o título “A Falta que faz a Mística – Elementos para a retomada
do trabalho de base nos movimentos populares”. Acompanhou de perto o movimento dos
piketeros na Argentina, atuou no movimento social urbano em São Paulo (MTST) por alguns
anos e vem se dedicando a repensar o trabalho de formação de bases no país. A entrevista que
segue resgata um pouco de suas reflexões sobre o tema.

Após os dois mandatos presidenciais do PT, como você vê a questão dos


movimentos sociais da esquerda, do ponto de vista de uma perspectiva histórica?

Grande parte da militância petista foi absorvida pela máquina estatal ao longo das últimas
décadas e, com a chegada de Lula a Brasília, esse processo se consolidou. Foram poucos os
movimentos sociais e populares que resistiram à dinâmica de cooptação governamental,
substituindo a saudável prática de conflito nas ruas e de ações diretas por negociações em
confortáveis gabinetes parlamentares e ministeriais. O resultado: milhares de militantes e
quadros formados pela esquerda brasileira nas últimas três décadas servindo de mediadores
entre os interesses da classe dominante brasileira – sempre muito habilidosa em obter favores
na máquina estatal – e os interesses da grande massa de trabalhador(es)/(as) no campo e na
cidade. Por isso, provavelmente um dos únicos consensos existentes hoje no interior da
fragmentada esquerda partidária e social seja o fato de que vivemos uma crise profunda, talvez a
mais profunda da história da esquerda brasileira.

Em perspectiva histórica, como você compararia o momento atual com o vivido


pela esquerda no golpe civil-militar de 1964?

É difícil comparar momentos históricos distintos, mas se pensarmos neste período pós-64,
que destruiu o ciclo de ascenso das lutas e mobilizações populares no país e que também causou
enorme fragmentação no interior das organizações (grande parte delas saídas, direta ou
indiretamente, do interior do “Partidão”), haveríamos de constatar uma diferença fundamental.

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Enquanto, naquele período, a derrota da esquerda foi causada por uma ofensiva do inimigo de
classe - que custou a liberdade e a vida de milhares de companheiros militantes -, a derrota que
amargamos nos últimos anos foi vivida conjuntamente com a “vitória” do projeto arquitetado no
início dos anos 80, pela própria esquerda.
Se os anos 70 se notabilizaram pela rearticulação das organizações da classe trabalhadora
nos sindicatos e nos movimentos populares - impulsionados pela orientação politizadora da
Teologia da Libertação e a difusão massiva das Comunidades Eclesiais de Base (nos bairros,
igrejas, escolas, locais de trabalho etc.), bem como pelo retorno dos militantes exilados ou
clandestinos, perseguidos pela ditadura, às atividades políticas – os anos 80 marcaram a
consolidação de uma aliança nacional e classista. A maior parte da esquerda se reorganizou sob a
mesma bandeira do Partido dos Trabalhadores, com intuito de conquistar espaços do poder
institucional (legislativo e executivo) e acumular forças para chegar à presidência do país, a fim
de promover as transformações que levariam “a nação ao socialismo”. Vinte e dois anos e quatro
eleições presidenciais depois de sua fundação, o PT de Lula chegou ao Palácio do Planalto, mas à
custa do abandono do projeto de transformação social – talvez justamente graças a este
abandono... A vitória do PT foi, portanto, uma vitória de Pirro.

Pode-se falar ainda em “projeto socialista” nesse caso?

Se é claro que “o socialismo não está no horizonte”, não é menos verdade que é tarefa das
organizações de esquerda pensar e agir no sentido de construir as condições que possibilitem um
avanço político e organizativo do proletariado, repondo o socialismo no horizonte político, ainda
que a longo prazo. Por isso, reconhecer que a objetividade do processo social possa restringir as
escolhas políticas dos dirigentes do partido (ou da classe) não deve significar a renúncia a lutar
pela superação do capitalismo. Muito menos deve significar prosseguir com um projeto de poder
que, no fundo, fortalece a classe dominante e contribui para um retrocesso dos setores
populares, como parece ser a tônica do governo lulista. Se uma época de descenso das lutas
sociais – como a que temos vivido nos últimos anos – inevitavelmente gera uma angústia
insuportável por perceber que nossos objetivos não parecem realizáveis a curto ou médio prazos,
é então nossa tarefa munirmo-nos de uma imprescindível paciência histórica, repensar nossa
estratégia, nossos métodos de trabalho, nossos discursos e formas de fazer política, a fim de
avançarmos rumo à transformação desta sociedade. Infelizmente, este deixou de ser um objetivo

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para o grupo hegemônico no interior do Partido dos Trabalhadores.

Que espécie de “luta de classes” está em jogo nessa hegemonia do PT?

A própria classe dominante brasileira é capaz de reconhecer publicamente (e agradecida)


que uma das principais funções do governo Lula é o de jogar água fria na fervura da luta de
classes no país. Foi o que se pode ouvir, há pouco mais de um ano, de Roger Agnelli, presidente
da Companhia Vale do Rio Doce – maior companhia privada e segunda maior empresa em solo
brasileiro (só perde para a Petrobrás) –, representante de um dos setores-chave da política
econômica lulista, o de exportação de commoditties, além de ser uma das maiores agressoras do
meio-ambiente por todos os lugares do planeta onde está instalada. Num programa de
entrevistas do canal Globo News, comandado por Miriam Leitão, o Sr. Agnelli foi questionado,
no final da entrevista, a respeito de protestos então recentemente realizados pelo MST, cujos
militantes haviam travado por 12 horas uma linha férrea que transportava minério do Pará até o
porto de exportação, no Maranhão, denunciando uma série de irregularidades – que iam desde
infrações das leis ambientais até a própria privatização fraudulenta da companhia – e causando
prejuízos da ordem de 30 milhões de dólares, segundo a empresa. A jornalista da Globo
provocava: “O senhor não acha, Sr. Agnelli, que esses protestos absurdos e inaceitáveis do MST,
que nada têm a ver com a reforma agrária, só aconteceram pela falta de mão dura do presidente
Lula com os movimentos sociais?” Ao que o executivo respondeu, sem titubear: “Não, Miriam, eu
discordo. Acho que o presidente Lula tem sim um ótimo diálogo com os movimentos sociais do
país. E acho que, se não fosse esse bom diálogo do presidente com os movimentos, a situação
política do Brasil estaria hoje em dia muito mais radicalizada”. A jornalista global ficou sem
resposta, mas não deixa de ser trágico constatar a afinação perfeita entre os discursos de um
histórico dirigente da classe trabalhadora e de um dos principais representantes da classe
dominante brasileira, reveladores das alianças políticas e dos interesses econômicos que
sustentam o governo de Lula.

Uma “aliança de classes” no alto escalão dos poderes, que maneja e movimenta a
economia...

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Além de uma efetiva mudança na relação do Estado com o empresariado, que fez mover a
economia como há tempos não se via, a elite brasileira se deu conta de que a aliança com o
núcleo dirigente petista lhe trouxe uma vantagem com a qual há muito ela não contava. Por
motivos óbvios, Lula tem a capacidade política de fazer o que jamais nenhum tucano (muito
menos um “DEMo”) poderia fazer: conter as possíveis insatisfações dos diversos setores da
classe trabalhadora, desmobilizando e/ou cooptando eventuais manifestações de oposição.
Desde os setores organizados em sindicatos – pois a CUT, que se tornou majoritariamente uma
mera correia de transmissão do presidente, controla mais da metade dos sindicatos no país e a
Força Sindical, a segunda maior central, tornou-se aliada do PT – até a maioria absoluta dos
movimentos sociais e populares, praticamente todos possuem cargos e outras benesses estatais e
se consideram parte do governo (o MST é hoje a mais importante das raras exceções). Para não
falar do setor majoritário do proletariado, que não possui nenhuma forma de organização, nem
tampouco garantias trabalhistas, já que fazem parte da massa de mais de 50% da força de
trabalho nacional que não possuem carteira assinada (segundo dados do IBGE), mas viram sua
miserável vida melhorar um pouco graças a um conjunto de medidas econômicas e programas
sociais.

O que leva a pensar como é possível retomar o “trabalho de base”...

Sim. Como afirmou Frei Betto – que também deixou o governo Lula há alguns anos
(dezembro de 2004) por discordar de seus rumos – em entrevista ao jornal Brasil de Fato, em
2006, refletindo sobre o difícil momento pelo qual passa a esquerda brasileira: “o que falta é
aquilo que houve nos anos 1970 e 1980. Retomar a pedagogia e o trabalho de base. Com
exceção do MST e das CEBs, quase ninguém mais faz trabalho de base. Os núcleos do PT
desapareceram. Os movimentos sindicais já não vão mais para a porta de fábrica, não têm mais
comissões de fábrica”1 (grifo meu). A (auto)crítica de Frei Betto é compartilhada hoje pela maior
parte do que restou da esquerda organizada. É patente a falta de influência das organizações
combativas sobre a vida cotidiana, sobre os valores e as idéias da maioria esmagadora da classe
trabalhadora, bem como é nítida a insuficiência de nossas atuais organizações em servir como
instrumento político e de mobilização populares massivas com o objetivo de pressionar o Estado

1 Entrevista de FREI BETTO ao Jornal Brasil de Fato, de 12/12/2006 (“Precisamos de mais pressão e menos
corporativismo”).

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e os patrões a atenderem ao menos nossas reivindicações mais básicas (como no caso da reforma
agrária, da reforma urbana, da reforma da previdência, da reforma política, da manutenção do
pagamento de extorsivos juros da dívida pública etc.), para não falar das transformações
estruturais. Evidentemente, não há como imaginar um avanço da hegemonia política e cultural
da esquerda, nem mesmo a longo prazo, sem que haja uma retomada consistente do trabalho de
base nos locais onde a classe convive, sejam estes de trabalho, moradia ou estudo.

Agora, trabalho de formação de base dá... “trabalho”, não? Por que o abandono?

O trabalho de base deixou de ser importante para a estratégia do PT devido à relação com a
institucionalidade que o partido consolidou, sobretudo a partir dos anos 90, quando as eleições
se tornaram a prioridade absoluta de suas ações. Em segundo lugar, como conseqüência, a
esquerda desaprendeu a fazer trabalho de base, na medida em que este deixou de ser uma tarefa
prioritária em sua estratégia, tendo a energia e os recursos da militância sido dirigidos quase que
exclusivamente para as campanhas eleitorais.
No momento em que os movimentos populares deixam de ser encarados como
organizações políticas que partem da luta coorporativa – mas que carregam o potencial de gerar
outras formas de vínculos sociais entre seus membros e, com isso, fazer avançar a consciência
política e organizativa da classe trabalhadora e fortalecer a luta pela transformação social –, e
passam a ser encarados meramente como elementos de disputa interna dos dirigentes do
partido, com o objetivo de fortalecer os seus respectivos projetos eleitorais, então há um nítido
retrocesso político e organizativo. Desta forma, pois, a maior parte dos movimentos populares
foi deixando de ser instrumento de organização do povo, deixando de ser um espaço de debates
sobre os rumos da classe e da nação, como foram no surgimento do partido, para se tornarem
meras correias de transmissão de dirigentes e de seus respectivos grupos e projetos eleitorais,
sem que haja mais relação com as pautas de sua “base social”. Do ponto de vista da relação entre
os dirigentes e a extensa base social conformada pelo PT ao longo dos primeiros e calorosos anos
de formação do partido, um dos marcos históricos do retrocesso organizativo e democrático das
instâncias partidárias foi, sem dúvida, o fechamento dos núcleos de base, em 1991.

Mas esse trabalho de base tinha qual força antes dessa desmontagem geral?

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A constituição de núcleos, principalmente por categorias e por bairros, foi a grande


novidade histórica que caracterizou a consistência social e política da mais importante
organização da esquerda brasileira. A partir deles, debatiam-se os rumos do partido,
elaboravam-se estratégias de ação, organizavam-se lutas reivindicativas de inúmeros setores,
construíam-se coletivamente programas de futuros governos populares e (por que não?)
sonhava-se coletivamente com uma transformação radical que nos levaria em direção ao
socialismo. Para tal, a concepção original da organicidade dos núcleos de base previa que estes
tivessem muito poder de deliberação, a ponto de poder submeter todas as decisões importantes
do partido à consulta das bases.
Eram espaços abertos a toda a militância, que serviam para atrair e formar novos
militantes e que garantiam a democratização dos debates internos. Claro, não eram os soviets do
período pré-revolucionário russo e tampouco representavam todos os setores da classe
trabalhadora, tão distante, em sua maioria, de uma vida política cotidiana. Mas talvez fossem
embriões de uma futura construção política popular, enraizada nas bases da sociedade, nos
distintos setores da classe trabalhadora. No interior deles, milhares de militantes em todo o país
construíam um lugar onde a política era aprendida cotidianamente e, aos poucos, ia deixando de
ser entendida como uma atividade de “especialistas” (os “políticos”) para ser vivida como uma
atividade de todos aqueles que aspiravam a construir uma sociedade justa e sem exploração.

E se compararmos isso com a esquerda mais atuante do passado...

Até então, na pouco gloriosa história da esquerda brasileira, não havia experiência que
pudesse ser comparada, seja em representatividade da classe, seja pelo seu alcance massivo:
apesar de seu radicalismo de base, os anarco-sindicalistas do começo do século ficaram restritos
a núcleos em São Paulo e Rio de Janeiro (além de outros menores, geralmente em capitais),
proporcionais à pouca maturidade organizativa de uma classe trabalhadora recentemente
conformada num país que acabara de sair do regime escravocrata, cuja indústria ainda
engatinhava e eram pouquíssimos os trabalhadores com acesso a alguma representação sindical;
já os camaradas do PC brasileiro, que em décadas de história havia sido tolerado por pouco
tempo como um partido “legal”, também não foram capazes de estabelecer “núcleos de base” de
militantes por todo o país (e nem apostaram nisso). Ao contrário, o PC sempre se notabilizou por
sua estrutura extremamente hierárquica, cujo poder se concentrava em poucas figuras

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(geralmente vindos dos setores médios, quase nunca de origem proletária) e que possibilitava
muito pouco debate interno a respeito de suas principais diretrizes políticas – tendências que
provavelmente se agravaram em virtude da tática, adotada desde os anos 50, de submeter-se
“estrategicamente” à direção política do PTB, em nome da famosa e fracassada aliança com a
burguesia nacional. O fato é que, por mais que houvesse construído relevante hegemonia em
setores médios intelectualizados, tivesse conquistado direções de inúmeros sindicatos e relativa
influência em setores médios das Forças Armadas, o PC jamais criou instâncias tão
democráticas, nem tampouco foi capaz de agregar massivamente a tantos setores da classe
trabalhadora (e setores médios) como o fez o Partido dos Trabalhadores a partir de seus alicerces
organizativos, os núcleos de base. Por isso mesmo é que o PT nasce e se desenvolve inicialmente
com fortes críticas, teóricas e práticas, ao modelo organizativo do “Partidão”, seja em suas táticas
de ação nos sindicatos e movimentos populares, seja em sua forma organizativa interna.

Vamos voltar um pouco mais à história do movimento operário no Brasil... A


organização da esquerda brasileira, não ao nível do discurso, mas ao nível das
relações concretas, horizontais e cotidianas, sempre foi muito difícil. E no entanto,
havia um forte trabalho de base no início do século XX entre os anarco-
sindicalistas, por exemplo, em São Paulo. Quais experiências ainda poderíamos
tirar dessa tradição?

A primeira coisa que devemos levar em conta ao tratar das “dificuldades” das
organizações de esquerda do país é o fato de que a classe dominante brasileira jamais tolerou
qualquer tipo de oposição organizada contra seus interesses. Sempre que possível se utilizou da
repressão para desmantelar as iniciativas da classe trabalhadora. Foi assim com as centenas de
militantes anarquistas presos e/ou expulsos do país entre os anos 10 e 20 do século passado e,
mais ainda, com a incessante perseguição que sofreu o Partido Comunista Brasileiro em
praticamente toda a sua história: imagine-se que, entre a sua fundação (1922) e o fim da
(segunda) ditadura civil-militar (1985), o PC só esteve fora da “clandestinidade” durante pouco
mais de dois anos. Então, com todas as legítimas críticas que se pode fazer ao Partidão, não se
pode perder de vista que organizar a classe sofrendo permanente perseguição policial não é das
tarefas mais fáceis... Esse fio histórico é hoje evidente, por exemplo, na feroz campanha que a
mídia representante da direita raivosa desse país vem movendo quase que diariamente contra o
MST.
Mas voltando, os primeiros capítulos da história do movimento operário no Brasil foram

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escritos pelas associações, pelas ligas e pelos sindicatos anarquistas, cujos ideais e formas
organizativas chegaram ao país de navio, trazidos nas mentes e corações dos milhares de
imigrantes (principalmente italianos e espanhóis) que buscavam aqui a promessa de uma vida
melhor nos trópicos, empregando-se como mão de obra barata nas lavouras, no comércio e nas
primeiras indústrias, localizadas principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Até onde se deu a hegemonia dos anarquistas nesse período?

A hegemonia anarquista no interior dos sindicatos brasileiros durou pouco mais de duas
décadas: se estabeleceu desde os primeiros anos do século passado até, mais ou menos, meados
da década de 20, sendo, aos poucos, suplantada pelo crescimento do Partido Comunista, que
contou, inclusive, com a adesão de inúmeros ex-militantes anarquistas e que passaria a exercer
grande influência sobre o proletariado nacional. Foram inúmeras as causas históricas desta
perda de hegemonia, dentre elas, talvez a mais importante tenha sido a cruel perseguição
empreendida pelos órgãos de repressão estatal contra a militância operária, sobretudo na
segunda metade da década de 10, coincidindo logicamente com o período de maior mobilização,
sobretudo do proletariado paulistano e carioca.
Aproveitando-se do fato de que grande parte das lideranças anarquistas eram
estrangeiras, o governo brasileiro simplesmente extraditou centenas de trabalhadores sob
acusação de “subversão”, “atentado à segurança nacional”, ou qualquer outra figura jurídica que
os pudesse condenar à expulsão do território brasileiro. Calcula-se que mais de mil militantes
proletários tenham sido extraditados nas duas primeiras décadas do século. Some-se a isso o fato
de que outros tantos milhares de proletários foram presos durante greves e manifestações
(muitos deles encarcerados em lugares ermos, como Fernando de Noronha ou Clevelândia do
Norte, no atual estado do Amapá), e teremos a dimensão dos ataques sofridos pelas nascentes
organizações anarco-sindicalistas.

Mas voltando à questão da experiência acumulada pelos anarquistas nas primeiras


décadas do século XX... o que você acha mais interessante nas suas práticas?

Nas formas organizativas assumidas pelos anarquistas “brasileiros”, podemos identificar a


importância atribuída às festas realizadas por seus sindicatos, ligas e associações proletárias,
como meio de reunir ludicamente os operários, garantindo-lhes um lazer autonomamente

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organizado, ao mesmo tempo em que se difundiam nestes espaços os ideais libertários das
lideranças militantes. Longe de se tratar de uma “prática anarquista”, a realização de inúmeras
atividades de entretenimento coletivo levadas a cabo pelas instituições proletárias eram práticas
quase “naturais” do movimento operário, fosse ele de orientação anarquista, social-democrata
ou, num período posterior, comunista (evidentemente, no Brasil e também na Argentina,
destacam-se os anarquistas pelo fato de estes deterem, como mencionamos acima, a hegemonia
do movimento nas primeiras duas décadas do século XX).
Além das festas, são de se destacar pelo menos outros dois grandes instrumentos
organizativos desenvolvidos e utilizados pelos anarquistas com objetivos de “agitação e
propaganda” no cotidiano dos trabalhadores. Um deles eram os inúmeros grupos de “teatro
livre”, formados por atores amadores, quase sempre proletários ligados a algum sindicato que se
apresentavam nas festas da classe, encenando uma dramaturgia própria cujo repertório era
garantido por diversos autores nacionais e europeus. Retratavam, quase sempre, os impasses das
lutas, dos sofrimentos, da dignidade e da esperança de dias melhores para os trabalhadores de
todo o mundo.

Sem falar ainda na imprensa anarquista!

Pois é. O outro instrumento fundamental da luta proletária eram os periódicos mantidos


pelas associações: jornais e revistas (diários, semanais ou mensais) eram a mais eficiente forma
de difusão massiva das idéias e das propostas de organização e de luta da classe que começava a
se fortalecer.
Em suma, as atividades festivas, bem como a produção estética (teatro e música,
principalmente) e a manutenção de uma imprensa operária constituíam os principais elementos
da produção simbólica do movimento anarco-sindicalista. Tais elementos eram a base da
construção da identidade da classe, uma tentativa de instaurar um sistema de significados que
dessem sentido não só aos esforços da militância em assegurar as condições mínimas de
organização das lutas (assembléias, greves etc.), mas, principalmente, que constituíssem os
elementos imaginários (estéticos e políticos) capazes de conformar uma comunidade de iguais,
cujos integrantes fizessem parte de uma rede de homens e mulheres dispostos a trabalhar, lutar
e festejar coletivamente.

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Ou seja, parecia haver uma certa unidade de meios e fins...

A necessidade de difundir os ideais e as propostas anarquistas no seio do proletariado


exigia, em primeiro lugar, a capacidade das associações e sindicatos de atraírem as pessoas para
seus espaços. Ora, nada mais apropriado do que organizar “atividades culturais” para um público
carente de acesso satisfatório aos bens culturais da cidade, cuja oferta, é claro, privilegiava as
classes mais abastadas.
Eu diria que ao apostarem em novas formas de confluência entre propaganda ideológica e
entretenimento popular, os anarquistas desenvolveram um método próprio de formação
política, bem como uma política de criação de identidades coletivas, sem as quais a classe não
se “forma” como classe, autoconsciente e unida diante dos desafios cotidianos da luta de
classes. Assim, por exemplo, nos festivais proletários, ainda que tenham sido mantidas as
intenções pedagógicas das lideranças, preocupadas em fortalecer o “nível de consciência” dos
trabalhadores organizados, poderíamos dizer que, neste caso, o acento recai menos sobre o
“conteúdo revolucionário” dos discursos anarquistas e muito mais sobre a formação de vínculos
de uma multidão de trabalhadores celebrando juntos um dia especial, em que podiam fruir as
raras horas de liberdade reservadas a um proletário, ao mesmo tempo em que tais eventos
permitiam a arrecadação de recursos necessários para a manutenção das entidades da classe,
principalmente seus jornais.

Como se deu, em linhas gerais, o processo de formação do chamado “ciclo PT” e


que influências políticas e ideológicas foram importantes neste processo?

Foi no seio do cristianismo popular, sobretudo nos anos 70, que emergiu a mais
importante e massiva experiência de organização da classe trabalhadora brasileira em toda a sua
história. Contrariando a ortodoxia marxista de base atéia, a Teologia da Libertação surgiu em
toda a América Latina como um movimento massivo de padres, freiras e leigos radicais, cuja
interpretação do Evangelho – inspirada inclusive pelo próprio materialismo histórico – assumia
a “opção pelos pobres” como o mais importante exemplo de vida e de fé legada por Jesus Cristo.
Ser católico significava, a partir de então, apoiar e fomentar todas as iniciativas de resistência e
organização do proletariado urbano e rural: os pobres a quem Cristo entregou a sua própria vida.
Graças a esta reconfiguração das relações de forças no interior da estrutura eclesiástica – que
operou simbólica e institucionalmente algo equivalente ao milagre da transformação da água em

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vinho – a Igreja brasileira ingressava no palco da luta de classes reivindicando papel de


protagonista, que foi compartilhado com os militantes provenientes das organizações marxistas,
derrotados pela ditadura, e as novas lideranças de um sindicalismo combativo que entrava em
cena (muitas das quais também formados na Igreja). No caso dos ex-guerrilheiros que
sobreviveram às perseguições e assassinatos, tratou-se de uma reinserção militante que partiu da
autocrítica de sua experiência recente e da reavaliação seus papéis na luta política, imbuídos
então de um certo pudor a respeito das posições vanguardistas. Graças a essa nova postura,
tiveram uma importância inestimável em diversos sentidos: traziam uma rica experiência
organizativa, um aprofundamento do instrumental marxista de análise da sociedade (cuja
deficiência nos espaços da Igreja era gritante), bem como eram portadores de saberes específicos
ligados à formação universitária e profissional típicos de cidadãos das classes médias, como
advogados, médicos, engenheiros, sanitaristas, historiadores, sociólogos, economistas, artistas
etc., isto é, saberes de suma importância para a luta popular. Por isso, foram raros os
movimentos populares e as oposições sindicais combativas de maior consistência política que
não contaram com a participação de algum quadro marxista. Contudo, em geral, foi nos espaços
da Igreja (CEBs e pastorais) que esses militantes experientes encontraram uma “base social”
onde puderam dar utilidade para sua bagagem política.

Quais os principais aspectos que caracterizaram o papel da Igreja nesta retomada


das lutas da classe trabalhadora?

Poderíamos dizer, de maneira um tanto esquemática, que a Igreja conquistou o direito aos
holofotes da política nacional durante os anos 70 graças a três fatores principais, que não se
separam concretamente, mas que distinguiremos aqui simplesmente para facilitar a exposição.
Seriam eles: a) no nível institucional, a riquíssima Igreja direcionou uma quantidade enorme de
recursos financeiros e humanos para o incentivo à criação de organizações populares e sindicais,
bem como para a formação política de suas respectivas lideranças. Grande parte da capacidade
que ela sempre teve de arrecadar fundos no país ou no exterior foi aproveitada em prol das lutas
populares e uma quantidade incalculável de seus quadros (padres, freiras, leigos, teólogos,
pedagogos etc.) foi arregimentada de acordo com as demandas que surgiam à medida que se
reacendia a luta de classes pelos quatro cantos do país; b) o poder simbólico e a legitimidade (ou
hegemonia cultural) que ela detinha (hoje menos), sobretudo, entre as classes populares, de

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modo que em muitos casos, bastava que um clérigo convocasse o povo a uma atividade com
objetivos políticos (ainda que este não fosse explicitado) para que o povo comparecesse – ou
ainda, em alguns momentos, somente se a Igreja convocasse é que o povo aparecia; c) graças a
um também milenar acúmulo de sabedoria em lidar com o imaginário popular, somada ao
esforço de criação de métodos inovadores de trabalho de base e educação popular, muitos
quadros da Igreja foram responsáveis pelo desenvolvimento de uma experiência inédita na
esquerda brasileira, que passava a dispor de uma metodologia político-pedagógica capaz de
aglutinar, formar e mobilizar milhares de trabalhadores pobres do campo e da cidade. Apesar
dos claros limites de tal metodologia, esta representou um inestimável e inédito avanço político e
organizativo para a esquerda - que nunca tinha ido tão longe do ponto de vista de sua inserção
nos setores populares –, cujo resultado se concretizou na fundação do PT, em 1980. Todos estes
fatores que concorreram para a transformação da Igreja tiveram nas Comunidades Eclesiais de
Base (CEBs) seu locus privilegiado de existência, de tal modo que, como afirma Hamílton Pereira
(ex-ALN), ele mesmo fruto deste encontro de uma militância vinda da guerrilha com o povão que
começava a se juntar nas CEBs, “sem essa mudança na Igreja, levaria anos para essa
aproximação entre a esquerda e aquilo que havia de mais fecundo na luta dos trabalhadores – se
é que a gente ia conseguir. Se isso é difícil na cidade, imagina no campo”. As estimativas mais
modestas falam de 40 mil CEBs em todo o país; as mais fervorosas chegam a calcular em até 80
mil, reunindo em torno de 2 milhões de fiéis, muitos deles agora também militantes das causas
do povo. Enfim, os “núcleos” das CEBs foram a inspiração, e, muitas vezes, o prolongamento
histórico daquilo que seriam os “núcleos de base” do PT.

Que lições poderíamos tirar deste processo para pensar a retomada do trabalho de
base nos dias de hoje?

O que a experiência das comunidades eclesiais demonstrou foi que, ao menos em se


tratando da organização dos setores populares em nosso país, a dissociação entre relações
primárias (ou relações “cara a cara”, afetivas, de solidariedade etc.) e relações políticas
constitui um grave erro de orientação política, cujas conseqüências para a organização da classe
tendem a ser desastrosas. Não há como fazer política de massas sem práticas capazes de
aglutinar o povo em torno de fortes sentimentos de identidade coletiva e nossa experiência
histórica demonstra que não se pode aglutinar o povo partindo de ideais abstratos como “o

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socialismo”, ou “a revolução”, mas que esses são pontos de chegada (e não de partida), frutos de
um processo de formação política e organizativa, do fortalecimento dos laços sociais e de
confiança, da formação de fortes símbolos identitários baseados nas lutas da classe, mas que só
são passíveis de serem postos em prática se logramos conjugar a luta por reivindicações
concretas de melhorias na vida dos trabalhadores com um conjunto de práticas coletivas que
poderíamos chamar de mística. Quer dizer: de elementos materiais e simbólicos que sirvam
para criar vínculos e laços afetivos, identidade coletiva e sentimento de pertença a uma
comunidade organizada, que represente, para todos nós, a possibilidade de nos sentirmos
acolhidos por um coletivo, e de sermos agentes do acolhimento dos outros que, como nós,
também buscam um lugar no mundo onde possam cultivar - através da luta cotidiana pela
transformação social, pela superação do capitalismo - os valores socialistas.

Que elementos explicam a eficiência dos métodos de formação e trabalho de base


das CEBs?

Todas estas práticas eram balizadas pelo método “ver-julgar-agir”, onde cada tema
proposto era imaginariamente confrontado com a maneira pela qual, dedutivamente, Jesus
reagiria em cada situação, o que servia de fonte de inspiração para o julgamento das situações e
para as intervenções coletivas propostas pelos participantes. O grande mérito deste método, a
despeito das críticas que podemos fazer, é o fato de ele partir sempre do que há de mais
concreto, ou seja, da vida cotidiana das classes populares. Ao contrário dos métodos tradicionais
de formação política da esquerda, que procuram partir de conceitos abstratos como “o capital”,
os “modos de produção” ou “o caráter da revolução brasileira”, geralmente transmitidos através
de “cursos de formação política” de formato escolar absolutamente descolados dos costumes
populares (sem falar do caráter dogmático que marcava o método de formação do PC), o método
das CEBs se apropriava dos problemas cotidianos da vida familiar, do bairro ou do local de
trabalho – evidentemente comuns a toda a classe -, propunham uma reflexão a respeito de suas
causas – inspirada no Evangelho, mas que, em alguma medida, chegava à exploração capitalista
– e, em seguida, propunham “soluções” para este sofrimento. Ainda que tais “soluções” fossem,
não raro, meros paliativos que não resolviam as contradições de fundo referentes ao regime
capitalista (como a usual iniciativa das “compras comunitárias” para combater a inflação, o
“mutirão” de construção na favela para combater a falta de moradia), ao menos eram capazes de

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gerar um forte sentimento de solidariedade entre seus integrantes, além de muitas vezes
representarem um primeiro passo no despertar de liderança e de possibilitarem posteriormente
a formação de movimentos populares mais consistentes. E em inúmeros casos, estas iniciativas
deram origem a massivas mobilizações e práticas de ação direta, como ocupações de terreno,
caravanas a órgãos públicos, apoio e sustento de greves por longos períodos etc., ou seja, todo
um repertório de lutas que se generalizaram pelo país.

Neste sentido, você crê que foram historicamente inovadores?

Sim, o ciclo impulsionado pelas CEBs representou uma novidade histórica na esquerda
brasileira, na medida em que criou os espaços e as oportunidades para que milhares de cidadãos
pobres pudessem se tornar sujeitos políticos, lideranças de movimentos populares. Para que as
incontáveis lutas e mobilizações de sindicatos e de movimentos populares tivessem sucesso e
reconhecimento, foi necessário aprender uma série de atividades, na prática cotidiana, desde
falar para assembléias massivas até compreender o modo de funcionamento e os labirintos da
máquina estatal, desde aprender a coordenar uma reunião, tomar decisões e encaminhar as
deliberações coletivas até dominar as artimanhas dos quadros burocráticos estatais e as
armadilhas montadas por governantes em mesas de negociação. Desta maneira, as CEBs e os
movimentos sociais por elas impulsionados tornaram-se verdadeiras escolas de lideranças
populares, possibilitando que inúmeros trabalhadores, bem como donas-de-casa, passassem a
exercitar em seu dia a dia uma série de capacidades relacionadas ao fazer da política que, até
então, não faziam parte de seu imaginário. Contudo, em que pese a grandeza histórica dessa
experiência, não foram menos significativos os limites políticos e organizativos deste que foi,
sem sombra de dúvida, o ciclo da esquerda brasileira mais massivo e enraizado nos setores
populares.

E quais seriam estes limites?

Se a “conscientização” adquirida através do método ver-julgar-agir, baseado no paralelo


com as Escrituras, se mostrou fonte eficiente do que poderíamos chamar de uma “centelha
crítica” que despertou em muitos milhares de trabalhadores um grau de politização suficiente
para fomentar o sentimento de coletivismo que logrou gerar inúmeras formas de organização de

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luta por direitos negados, tal “centelha” não teria sido suficiente, em geral, para verter o
sentimento de injustiça numa consciência mais profunda (e anticapitalista) das contradições
estruturais da sociedade, bem como das ações que pudessem atingí-la em seu cerne. Muitos
militantes da época avaliam que faltou maior aprofundamento teórico e também organizativo, de
forma que pudessem ser capazes de elaborar estratégias políticas mais consistentes. Mas os
limites históricos das formas de organização dos movimentos populares surgidos da Igreja não
podem ser explicados somente por suas fragilidades internas, afinal, sua incorporação como um
dos setores fundadores do partido poderiam muito bem ter contribuído para a superação destes
limites no interior de um instrumento político mais maduro, pois uma das tarefas históricas de
tal instrumento deveria ser justamente o de contribuir para enriquecer e fortalecer os inúmeros
movimentos de massa que o compunham. No entanto, é evidente que os movimentos de massas
surgidos das CEBs não poderiam deixar de sofrer as conseqüências desastrosas dos rumos
conservadores tomados pelo partido. É sintomático que, com a exceção de Lula, todos os outros
membros do “núcleo duro” dos dois governos de Lula (antes e depois do “mensalão”) sejam
provenientes de setores médios. Ou seja, como bem disse um companheiro há pouco tempo:
“Neste governo, de peão, só tem o Lula. E olhe lá!”

Voltando ao momento atual, ao PT de hoje. Como explicar a desmontagem daquele


trabalho de base tão forte até o fim dos anos 80?

Em que pese sua relevância histórica e originalidade, assim como seu vigor democrático e
organizativo, dando vida e cor à dinâmica interna do partido – e por mais que só tenham sido
oficialmente fechados em 1991, por decreto da direção partidária – os núcleos de base viveram,
desde cedo, as conseqüências de uma tensão estrutural existente no PT praticamente desde a sua
fundação, qual seja, a tensão entre a lógica e os tempos do trabalho de base organizativo –
fomentador de lutas reivindicativas (principalmente pela “ação direta”) e formador de militantes
– e, por outro lado, a lógica e os tempos da institucionalidade, pautada pelas regras do jogo
eleitoral e confinado nos marcos da legalidade do estado de direito burguês, supostamente
democrático. Desta forma, na medida em que o PT começa a eleger parlamentares e conquistar
cargos no executivo, estas estruturas burocráticas começam a drenar a militância que mais se
destacava nos núcleos e, por nunca haver tido um projeto consistente de formação de novas
lideranças, os núcleos vão se enfraquecendo.
À medida que o PT vai se consolidando como uma força eleitoral relevante, o seu centro de

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gravidade político vai se deslocando: ele surge de uma base alargada e participativa localizada
nos núcleos, porém transfere-se para os mandatos parlamentares, tendencialmente reduzidos à
decisão de pouquíssimos, com peso enorme na “pessoa do candidato” e com cada vez menos
influência, seja dos núcleos de base (que, nesse momento, eram importantes instrumentos de
campanha), seja dos próprios diretórios locais. Não foi à toa que o fechamento dos núcleos de
base foi encaminhado como uma “medida administrativa”, vinda da direção do partido, sem se
submeter a nenhum amplo debate interno e, ainda por cima, sob a alegação de que era
necessário “dar mais agilidade” às deliberações políticas, pois se “gastava muito tempo” em
intermináveis discussões nos núcleos de base.

Pelo visto dá-se o seguinte: o trabalho de base, além de ser trabalhoso, não gera
frutos imediatos...

Por outro lado, desde 1989, quando voltaram as eleições, nós temos uma eleição a cada dois
anos, uma pra cargos municipais, a outra pros cargos parlamentares estaduais e federais, pra
governador e presidente. Pois bem, e quanto dura uma campanha eleitoral? Pode levar seis
meses, um pouco menos, ou mesmo mais que isso, oito meses, nove... Isso depende da
conjuntura e dos recursos que cada candidato tem. Então, se a eleição é em setembro, a
campanha começa em janeiro, fevereiro, mais ou menos, e só termina em outubro, no segundo
turno. Ora, pois então se trabalha pra campanha durante praticamente o ano inteiro, e isso a
cada dois anos! Mas, no meio disso, nos ‘anos ímpares’, tem a eleição interna do partido, o PED,
e a campanha pra essa eleição também dá muito trabalho. Mas, ainda no meio, tem todas as
eleições sindicais, que são estratégicas pro partido, e que não param de acontecer. Então, o
resultado é óbvio: os militantes do partido viraram cabos eleitorais em regime quase que
permanente, pois o partido virou uma máquina de disputar eleição!

Ou seja, a prioridade passa a ser outra... uma espécie de máquina eleitoral...

O partido vira uma organização na qual o processo eleitoral passa a ter prioridade sobre
todas as suas ações. Ele vai moldar a sua militância, os seus quadros, de acordo com tal
prioridade. A força política e a influência que cada dirigente terá no interior do partido
dependerão da sua capacidade de receber votos (claro, com exceção de alguns “articuladores”,
que obtêm poder graças aos contatos políticos e às alianças que podem fazer, mesmo que não

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sejam “bons de urna”, como era o caso notório de José Dirceu) e isso significa apostar
praticamente todas as suas fichas em táticas para ampliar o número de seus eleitores. Fracassar
numa eleição, quase que inexoravelmente, quer dizer ser rebaixado na hierarquia (formal e
informal) do partido. Mas é evidente que, com a “naturalização” da lógica eleitoral, precisou
haver uma mudança de orientação do trabalho da militância, pois uma coisa é ir a uma favela, a
uma escola ou porta de fábrica para fazer campanha para um candidato; outra coisa, muito
distinta, é ir a estes mesmos lugares para fazer aquilo que estou chamando de trabalho de base,
ou seja, uma atividade que conjugue agitação e propaganda, trabalho coletivo e organização
de lutas reivindicativas, com formação política e organizativa de militantes, partindo das
demandas do local (de trabalho ou moradia), mas concatenado a um projeto mais amplo, a um
projeto da classe.

E a militância, como fica nesse novo modelo?

Se o militante vai “às bases” para fazer campanha, basta ter algum bom contato com
alguma liderança no local – quando ele mesmo já não é referência por ali – munir-se do material
de campanha e preparar os discursos que tentarão convencer a população de que votando no
candidato A ou B, este os representará, no parlamento ou no executivo, e ajudará a resolver suas
demandas. Se ele tiver influência sobre o local (sobre um bairro, por exemplo), melhor ainda,
porque poderá manter a militância e apoiadores trabalhando cotidianamente em prol de sua
candidatura. E se ele tiver a capacidade de angariar apoio no interior de um movimento popular,
então poderá contar com mais trabalho “militante” e com mais base eleitoral. Mais chance,
portanto, de se eleger...
Então parece que há um certo deslocamento geral na militância, de seu papel mais
ativo, direto...

Fazer trabalho de base requer muita paciência, pois é sempre um processo lento, cujos
resultados muitas vezes demoram a surgir. É preciso ter militantes que convivam no local de
atuação (trabalhando, morando ou, então, sempre presente em virtude das tarefas), método para
trabalhar as questões, militantes preparados e capazes de formar outros militantes, além de
capacidade organizativa a fim de fazer frente aos problemas e necessidades daquela comunidade,
preferencialmente por meio da auto-organização para uma luta ou um mutirão, por exemplo.

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Somente neste processo permanente de organização (nos locais de trabalho e moradia) e de


estímulo aos conflitos sociais é que podemos, realmente, falar em trabalho de base, em formação
de militantes, em fortalecimento da identidade coletiva e da consciência de classe e, quem sabe,
numa mudança na relação de forças políticas favoráveis ao proletariado.
Ora, um dos preços pagos pela esquerda ao priorizar a via institucional como método de
acúmulo de forças foi justamente o de atuar, direta ou indiretamente, para arrefecer os
confrontos com os patrões, os proprietários e o estado. São incontáveis os militantes e quadros
vindos dos movimentos sociais e populares que se tornaram parlamentares, ou assessores de
parlamentares. Neste caso, a maior parte dos movimentos optou por substituir a ação direta
(ocupações, greves, piquetes, marchas, “trancaços” etc.), por negociações e articulações
mediadas por gabinetes parlamentares. Para isso, não é necessário desenvolver métodos de
organização, muito menos formar militantes. Basta uma meia dúzia de dirigentes experientes e
um bom acordo com um, ou mais, parlamentares. Agora, quando o partido conquista o executivo
(municipal, estadual ou federal) e deve administrar o capitalismo nos marcos da ordem, então
nada mais temeroso do que a explosão de confrontos, nada mais danoso à imagem do governo
do que ter o povo, organizado e combativo, reivindicando seus direitos na porta da sede do seu
governo.

Paradoxalmente, quanto mais pragmático o processo político, mais ele convida ao


afastamento da realidade prática...

É evidente a perda de contato da maior parte da antiga militância com suas respectivas
bases sociais. É a distância que separa um dirigente burocratizado de seus pares trabalhadores. E
a distância física entre um gabinete climatizado e o chão da fábrica, ou da favela,
inevitavelmente se converte em distância ideológica. Ao deixar de vivenciar a experiência
cotidiana proletária, é inevitável que o militante do partido vá deixando de falar a “língua do
povo”, vá perdendo os hábitos que moldavam sua subjetividade proletária, vá perdendo a
identidade que possuía com aqueles que ele agora somente “representa”, vá deixando, ele
próprio, militante, de se reconhecer enquanto um membro da classe.

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É fato que, com a conquista de tantos espaços no interior da máquina estatal – e a eleição
de Lula sacramentou essa tendência – muitos dos dirigentes do PT foram alçados à condição de
membros da classe dominante. Não há dúvida de que um parlamentar, um prefeito ou um
governador de estado (pra não falar do presidente) passam a conviver muito mais tempo com
membros da elite do que com a classe trabalhadora, passam a freqüentar lugares onde os
“trabalhadores” são certamente barrados na porta por seguranças nada simpáticos, passam a ter
um padrão de consumo de luxo com o qual o povo somente pode sonhar, deixam de entrar numa
favela se não estiverem acompanhados da polícia ou de seguranças particulares. Em suma, os
dirigentes do partido – que um dia foram metalúrgicos, bancários, professores, petroleiros,
pedreiros – viram sua identidade originária de classe se dissolver, para construírem uma nova
identidade, de patrões, coronéis, chefes de governo e de todos aqueles que outrora foram
“inimigos de classe”, contra quem estes dirigentes lutaram por tanto tempo durante a década
gloriosa da formação do partido. Graças à terrível dialética da luta de classes – que não poucas
vezes na história nos fez testemunhar a conversão de partidos revolucionários em imensos e
eficientes aparatos de dominação burguesa – grande parte dos dirigentes do PT se transformou
no “seu outro de classe” e há muito que não podemos mais contar com estes antigos
companheiros.
O PT foi se tornando, desta maneira, um “partido da ordem”, cujos métodos de ação cada
vez menos o diferenciam dos outros partidos (conservadores) do cenário político nacional.

Uma crise geral de organização, só remediável com a crítica e a autocrítica


permanente...

O quadro que se apresenta na atual conjuntura não é dos mais animadores para os setores
de esquerda que continuam a pautar sua atuação numa crítica ao sistema capitalista, tendo como
horizonte a construção de um projeto socialista de sociedade. Em grande parte desarticulada
com a virada pragmática dada pelo PT nos últimos anos, principalmente durante a “Era Lula”, a
esquerda brasileira vive uma crise em todos os sentidos: de projeto, de métodos, de legitimidade
e de reconhecimento por parte dos setores que ela deveria organizar. Num momento de tamanha
fragilidade, de refluxo de mobilizações devido à perda de referência com sua base social, não
resta outra alternativa às organizações de esquerda que resistiram à maré desfavorável, bem
como às organizações recém criadas, do que retomar o esforço hercúleo de organizar os

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inúmeros setores da classe, a partir, sobretudo, da retomada do trabalho de base e da


formação de militantes. Neste sentido, penso que o MST tem o potencial de se tornar uma
importante matriz da retomada das lutas de massa no país, pois é a praticamente a única
organização política da esquerda que, com todas as dificuldades, manteve ricas práticas de
trabalho de base e de formação de militantes.
Em suma, temos muito “trabalho” pela frente.

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