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PSICOBIOLOGIA

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CAPERESUMO
A.K.A.
RESUMO

CAPERO 83
SUMÁRIO
CONCEITOS GERAIS // DROGAS PSICOATIVAS .............................................................. 2

CONTEXTO SOCIAL DO USO DE DROGAS ....................................................................... 9

NEUBIOLOGIA DA DEPENDÊNCIA ................................................................................... 13

DEPRESSORES I – ÁLCOOL ............................................................................................. 16

DEPRESSORES I - EFEITOS CRÔNICOS DO ÁLCOOL................................................... 23

USO ABUSIVO DE OPIÓIDES E BENZODIAZEPÍNICOS.................................................. 28

DEPRESSORES II - INALANTES ....................................................................................... 33

PERTURBADORES I E II .................................................................................................... 36

INTERVENÇÃO SOBRE DROGAS .................................................................................... 42

ESTIMULANTES: COCAÍNA E ANFETAMINAS ................................................................. 46

ESTRESSE E SAÚDE MENTAL ......................................................................................... 51

PSICOBIOLOGIA DO BEM-ESTAR .................................................................................... 58

Edição:
Lucas Caetano a.k.a. Caet
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CONCEITOS GERAIS // DROGAS PSICOATIVAS


um resumo de Lucas Caetano a.k.a. Caet
Droga
É qualquer substância capaz de modificar a função dos organismos vivos, causando
mudanças fisiológicas ou de comportamento.
Etimologia: Droga vem da palavra droog (holandês antigo), que significa folha seca.
Antigamente, a maioria dos medicamentos eram à base de vegetais.

Psicotrópico:
Psico: Psiquismo (o que sentimos, fazemos, pensamos);
Trópico: Tropismo (ter atração por);
Psicotrópico: atração pelo psiquismo;
Droga psicotrópica: atua sobre o cérebro, alterando o psiquismo. Essa alteração pode ser
proporcionada para fins: recreacionais (alteração proposital da consciência); religiosos (uso de
enteógenos); científicos (visando à compreensão do funcionamento da mente); ou médico-
farmacológicos (como medicação).

Medicamento/Fármaco: atua em organismos vivos, provocando efeitos benéficos ou úteis.


Tóxico: droga que, quando administrada em organismos vivos, produz efeitos nocivos.

Drogas Psicotrópicas são classificadas em:


1. Estimulantes: aceleram o funcionamento do cérebro
 Anorexígenos (diminuem a fome). Principais drogas pertencentes a essa classificação
são as anfetaminas. Ex.: dietilpropriona, femproporex, etc
 Cocaína
2. Depressoras: diminuem a velocidade de funcionamento do cérebro;
 Álcool
 Soníferos ou hipnóticos (drogas que promovem o sono): barbitúricos, alguns
benzodiazepínicos;
 Ansiolíticos (acalmam; inibem a ansiedade). As principais drogas pertencentes a essa;
classificação são os benzodiazepínicos. Ex.: diazepam, lorazepam, etc
 Opiáceos ou narcóticos (aliviam a dor e dão sonolência). Ex.: morfina, heroína, codeína,
meperidina, etc
 Inalantes ou solventes (colas,tintas, removedores, etc)
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3. Perturbadoras: alteram o funcionamento do cérebro (qualitativamente, diferente das outras


duas, que alteram quantitativamente)
 Origem vegetal:
o Mescalina (do cacto mexicano)
o THC (da maconha);
o Psilocibina (de certos cogumelos)
o Lírio (trombeteira, zabumba ou saia branca)
 Origem sintética:
o LSD-25
o "Êxtase"
o Anticolinérgicos (Artane®, Bentyl®)

Abaixo tem um resuminho das drogas mais importantes, que vão ser abordadas nesse
resumo, logo, não precisa ler se não quiser, mas se quiser fazer uma consulta rápida para lembrar,
tá aí. Good luck, and don’t fuck it up 

Estimulantes
Anfetaminas: drogas sintéticas.
A primeira a ser produzida foi a d-anfetamina, em 1928. Existe uma droga tipo anfetamina
natural, a encontrada nas folhas de Khat (Catha edulis), usada por nativos do norte da África e
Oriente Médio.
Inicialmente, eram usadas para congestão nasal. Depois, tratamento da depressão e
diminuição do apetite. Após descoberto do efeito de dependência da droga, houve um controle e
um declínio de seu uso, aumentando a utilização da cocaína.
Elas atuam aumentando a liberação e diminuindo a recaptação de dopamina e noradrenalina
no organismo, exacerbando as funções desses neurotransmissores. A ingestão de anfetamina
causa insônia, perda de apetite e um estado de hiperexcitabilidade. Deixa a pessoa ativa, inquieta
e extrovertida. Em caso de dose excessiva, a pessoa pode se tornar agressiva e ter delírios. Pode
ocorrer aumento da temperatura também (podendo levar à convulsões).
São metabolizadas pelo fígado, sendo inativadas e depois eliminadas pela urina. Uma
pequena quantidade é eliminada diretamente pela urina.
Ocorre efeito de tolerância ao efeito da droga, mas não ocorre síndrome de abstinência ao
cessar a ingestão abrupta da droga.
Cocaína: alcalóide presente na coca (Erythroxylon coca).
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O vinho de coca era um vinho preparado à base da planta, e era bastante usado na europa.
Tinha adeptos como o Papa Pio XI e Freud. A cocaína foi utilizada como medicamento até o início
do século, mas depois de demonstrados seus efeitos nocivos ao organismo, houve uma proibição
e declínio da utilização, mas atualmente estamos num pico de uma nova epidemia. Pode ser
consumida em forma de "chá de coca", que possui pouco efeito no cérebro; o "sal de cocaína",
obtido após processar utilizando produtos como solvente e ácido sulfurico; o "crack", obtido ao tratar
o sal com bicarbonato (formando um bloco, que ao ser quebrado faz um "crack"). O crack também
pode ser preparado a partir da pasta de cocaína.
A cocaína inibe a recaptação de dopamina e noradrenalina na fenda sináptica, aumentando
sua quantidade e amplificando a ação desses neurotransmissores. Traz sensação de euforia e
prazer. Aumenta as atividades motoras e intelectuais, diminui a sensação de cansaço, falta de
apetite e insônia. Em uma overdose, aparecem sintomas de irritabilidade, agressividade, delírios e
alucinações. Pode aumentar a temperatura e a pressão arterial, causar taquicardia e degeneração
dos músculos esqueléticos. Se usada via endovenosa ou respiratória, seus efeitos são quase
imediato (sem efeito de primeira passagem, indo direto ao cérebro). No caso da endovenosa, há o
risco de contaminação por DSTs.
É metabolizada pelo fígado, e seus metabólitos inativos são detectáveis na urina.
Não causa síndrome de abstinência característica, e o efeito de tolerância não foi
comprovado. Provoca fissura, uma vontade incontrolável de consumir a droga.
Cafeína: chamada também de metil-xantina, derivada das xantinas. É encontrada em grãos
de café, folhas de chá e de mate, sementes de cacau e em partes do guaraná. É a droga mais
utilizada do mundo. Um copo de café contém 85mg de cafeína.
Elas inibem os receptores de adenosina e a enzima fosfodiesterase, aumentando AMPc e
GMPc. No músculo liso brônquico, esse aumento leva ao relaxamento. Ao bloquear os receptores
de adenosina, prolonga o estado de vigília (e a diminuição da sonolência). Também estimula o
coração e aumenta a excreção urinária, alivia dores de cabeça, aumenta a secreção gástrica
(aumenta sintomas de gastrite e úlcera). Em doses moderadas, trazem bem-estar, melhora de
atenção e pensamento. Em doses elevadas (acima de 250 mg, uns 3 copos, watch out) surgem
efeitos de nervosismo, inquietação, insônia e tremores. Doses muito altas podem causar
convulsões, delírios e aumento da frequência cardíaca.
É metabolizada pelo fígado e eliminada pela urina.
Uso crônico (350mg ao dia) provoca dependência física e tolerância à droga. Na retirada,
pode aparecer síndrome de abstinência (caracterizada por dores de cabeça, nervosismo, irritação,
ansiedade e insônia).
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Depressoras
Álcool: etanol, produzido através de fermentação ou destilação de vegetais como a cana-
de-açúcar, frutas e grãos. O álcool é absorvido principalmente no intestino delgado e em menores
quantidades no estômago e no cólon. A concentração sérica depende da quantidade consumida
em certo tempo, massa corporal e metabolismo do usuário. Após chegar ao sangue, não há comida
ou bebida que interfira seus efeitos. No adulto, a taxa de metabolismo é de aproximadamente
8,5g/h. Efeitos dependem da quantidade de álcool ingerido em determinado período, uso anterior
de álcool e concentração sérica. Causa desde sensação de calor até o coma e a morte, a depender
da concentração.
Doses até 99mg/dl: sensação de calor/rubor facial, prejuízo de julgamento, diminuição da
inibição, coordenação reduzida e euforia;
Doses entre 100 e 199mg/dl: aumento do prejuízo do julgamento, humor instável, diminuição
da atenção, diminuição dos reflexos e incoordenação motora;
Doses entre 200 e 299mg/dl: fala arrastada, visão dupla, prejuízo de memória e da
capacidade de concentração, diminuição de resposta a estímulos, vômitos;
Doses entre 300 e 399mg/dl: anestesia, lapsos de memória, sonolência;
Doses maiores de 400mg/dl: insuficiência respiratória, coma, morte.
8 a 12h após a ingestão de grande quantidade de álcool pode ocorrer a "ressaca",
caracterizada por dor de cabeça, náusea, tremores e vômitos. A combinação de álcool com outras
drogas pode levar ao aumento do efeito, e até a morte. Uso prolongado pode causar doenças
hepáticas, cardíacas e problemas no TGI. Efeitos secundários: perda de apetite, deficiências
vitamínicas, impotência sexual ou irregularidade do ciclo menstrual.
Uso regular causa tolerância. Dependência física ocorre em consumidores de grandes
doses. Como estão adaptados à presença do álcool, podem apresentar sintomas de abstinência
ao pararem de beber. Pode-se desenvolver dependência psicológica com uso regular, mesmo em
pequenas quantidades. Há um desejo persistente de consumir álcool, e sua falta pode desencadear
quadros de ansiedade e até mesmo de pânico.
A síndrome fetal pelo álcool é causada pela exposição do feto ao álcool (durante a gravidez).
Pode causar retardo mental, deficiência de crescimento, deformidade facial e de cabeça,
anormalidades labiais e defeitos cardíacos.
Sedativos e Hipnóticos não-barbitúricos: introduzidos devido a necessidade de sedativos
e hipnóticos não barbitúricos, mas se tornaram drogas de uso abusivo. Podem ser classificados
assim os benzodiazepínicos, paraldeídos e brometos.
Exemplos de benzodiazepínicos: clordiazepóxido, diazepam, clonazepam e lorazepam.
Os benzodiazepínicos promovem a ligação do GABA a receptores na membrana dos
neurônios. Assim, aumentam as correntes iônicas através dos canais de cloreto, inibindo a
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atividade neuronal. Tem efeito sedativo-hipnótico dependendo da dose utilizada. Com aumento
progressivo da dose, há sono, inconsciência, anestesia cirúrgica, coma e depressão fatal da
regulação respiratória e cardio-vascular. Isso só ocorre em doses altíssimas. No nível de dose
terapêutica, pode ocorrer tontura, falta de coordenação motora, aumento do tempo de reação,
cefaléia, diarréia, vertigem, turvação visual e outros sintomas. A tolerância funciona de forma
diferente para os efeitos: a ação ansiolítica não sofre tolerância, mas as sedativas e hipnóticas sim.
A dependência ocorre devido ao uso crônico, e a gravidade depende da dose utilizada. A síndrome
de abstinência é caracterizada por insônia, ansiedade e alucinações. Se usado durante a gravidez,
o recém-nascido pode apresentar sinais de abstinência. Também pode ser passado através do leite
materno.
Paraldeído: líquido incolor, com forte odor e gosto desagradável. Após ingestão, é eficaz e
de ação rápida. Utilizado em convulsões do estado epilético, tétano e na abstinência grave de álcool
e barbitúricos.
Barbitúricos: antes drogas de escolha, foram substituídos por fármacos como os
benzodiazepínicos. Ainda são utilizados para tratar distúrbios convulsivos e induzir anestesia geral.
Ex: Amobarbital (ação curta/intermediária), Fenobarbital (ação prolongada), tiamilal (ação ultra-
curta).
Agem sobre o SNC. Podem causar depressão profunda, mesmo em doses que não afetem
outros órgãos. Causa desde efeito sedativo, anestésico cirúrgico ou até a morte. Causa sono,
induzindo relaxamento (efeito sedativo) ou sono (efeito hipnótico).
Uso pode ser VO, IM, EV ou retal. Se distribuem uniformemente pelos tecidos independente
da via. Liga-se a proteínas do sangue e agem principalmente no cérebro. Efeitos surgem entre 30s
a 15min.
Metabolizados no fígado e excretados na urina.
Envenenamento barbitúrico: >10x a dose hipnótica total em uma dose só. Se álcool for
utilizado em conjunto, a dose letal de barbitúrico é menor. Paciente comatoso, respiração lenta ou
curta e rápida, pressão sanguínea baixa, pulso fraco e rápido, pupilas mióticas e reativas à luz e
volume urinário diminuído. Pode causar insuficiência renal e complicações pulmonares.
Tratamento: suporte.
Uso crônico leva à tolerância de grau limitado, pois não há tolerância aos efeitos letais destes
compostos.
Inalantes: solventes (como a "cola de sapateiro") que possuem efeito estimulatórios,
depressivos ou até alucinógenos. Não se conhece a totalidade das substâncias para se elucidar
esses efeitos complexos, bem como a interação com os NT. Intoxicação se dá em 4 fases:
 Excitação, euforiam exaltação;
 Confusão, desorientação, perda de autocontrole;
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 Redução acentuada do alerta, incoordenação motora, ataxia;


 Depressão acentuada do alerta, sonhos bizarros e convulsões epiletiformes.
Exposição acentuada causa prejuízo de memória, diminuição da destreza manual, cansaço,
dor de cabeça, confusão mental, fraqueza muscular.
Eliminação através da respiração, mas a maior parte é metabolizada pelo fígado, sendo os
metabólitos eliminados na urina.
Opiáceos: substâncias derivadas da papoula. A codeína e a morfina derivam do ópio, e a
partir delas, produz-se a heroína.
Após a injeção de opióides, o usuário experimenta um "rush", uma "onda de prazer", pois
seus centros cerebrais superiores estão sendo estimulados. Isso pode ser seguido de depressão
do SNC. A dose também pode causar agitação, náuseas e vômitos. Aumentando a dose, entra-se
num estado em que "o mundo é esquecido", com boca seca, mãos e pés pesados. Esses efeitos
ocorrem por estimulação (através de opióides exógenos ou endógenos, como a morfina e as beta-
endorfinas, respectivamente) dos receptores opióides do tipo mu. Ao se ligarem a esse receptor,
elas causam analgesia, e com uso sistemátic, depressão do SNC. Fora do SNC, há contração da
pupila, depressão respiratória, retenção de urina e diminuição do volume urinário. Esses efeitos
decorrem da ação da droga no tronco cerebral, ponte e bulbo.
São absorvidos pelo TGI, mas sofrem efeito de primeira passagem, e atingem rapidamente
o interior das células. Como não possuem afinidade específica, causam diversos efeitos de acordo
com o tecido. Metabolismo final ocorre no fígado, com metabólitos eliminados na urina.
Com uso regular, há tolerância. A dependência pode surgir rapidamente. A dependência
psicológica ocorre quando a droga ocupa um papel importante na vida do usuário. A física faz com
que os usuários tenham sintomas de abstinência quando o uso é diminuído ou interrompido
abruptamente. Entre os sintomas, há agitação, diarréia, cólicas abdominais e fissura. Começam
horas depois da interrupção, ficam mais intensos entre 48 e 72h e cessam após uma semana.
Recém-nascidos de mães dependentes são menores e apresentam sinais de infecção aguda. Os
opióides atravessam a barreira placentária e hematoencefálica imatura do feto, causando
depressão respiratória intensa.
Perturbadores
Alucinógenos primários
Sintéticos:
 Êxtase: Metilena-DioxiMetaAnfetamina (MDMA). Produz alucinações e um estado de excitação.
Age nos neurotransmissores dopamina e noradrenalina.
 LSD-25: dietilamida do ácido lisérgico. Talvez a substância mais ativa que age no cérebro.
Possui um núcleo indol, presente na serotonina, por isso, interfere no mecanismo de ação da
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serotonina. Seus efeitos ocorrem principalmente no cérebro. Efeitos dependem da sensibilidade


da pessoa, do ambiente, da dose e da expectativa ante ao uso da droga. Efeitos físicos:
dilatação das pupilas, sudorese, aumento da frequência cardíaca, aumento de temperatura.
Alterações psíquicas: observação de cores brilhantes, audição de sons incomuns, ilusões e
alucinações. Podem ocorrer alterações desagradáveis, como visões terríveis e sensação de
deformidade externa do próprio corpo. Já foi descrito o efeito de flashback: semanas ou meses
após o uso da droga, os sintomas podem voltar, mesmo sem o consumo.
É metabolizado no fígado e eliminado nas fezes/urina.
Produzem pouco fenômeno de tolerância e não induzem dependência física.
Naturais:
 Maconha: provém de cânhamo (Cannabis sativa). Tem como princípio ativo o THC (Tetra hidro
canabinol). O haxixe é uma preparação com alta concentração de THC. Ela é uma perturbadora
do sistema nervoso. Efeitos dependem da quantidade absorvida, do tipo de preparação, da via
de administração, da sensibilidade da pessoa e do seu estado de espírito no momento do uso.
Pode ocorrer: boca seca, dilatação dos vasos da conjuntiva e aumento da frequência cardíaca.
A diminuição do hormônio sexual masculino (e infertilidade) pode ser um dos efeitos crônicos
do uso da maconha. Uso prolongado provoca redução das defesas do organismo.
Efeitos psíquicos: em algumas pessoas, pode provocar euforia e hilariedade, em outras,
sonolência e diminuição da tensão. Pode ocorrer perda de noção de tempo/espaço e diminuição
da memória. O THC não é solúvel em água, e por isso não pode ser injetado. É inativado pelo
fígado e eliminado pelas fezes e pela urina.
Uso prolongado leva à tolerância. Provoca dependência, mas não possui síndrome de
abstinência característica com a cessação.
Possui efeitos terapêuticos contra vômitos e náuseas causados pela quimioterapia e ação
analgésica/anticonvulsivante.
Alucinógenos secundários:
 Anticolinérgicos: plantas do gênero Datura produzem substâncias anticolinérgicas, como
a atropina e a escopolamina. Bloqueiam os receptores colinérgicos. Os anticolinesterásicos
agem especificamente em receptores muscarínicos. Nos olhos, há midríase. Outros
sintomas são pele seca e avermelhada, retenção urinária, aumento de temperatura
(podendo ocorrer ataques convulsivos), taquicardia. Efeitos no SNC são de alucinógenos,
podendo durar de um a três dias. Visões horripilantes, sendo as agradáveis muito raras.
 Mescalina: sintetizada a partir do peiote, um cactus. Tem estrutura semelhante à dopamina
e a adrenalina, e portanto, age produzindo efeitos semelhantes, mas principalmente o de
alucinações.
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CONTEXTO SOCIAL DO USO DE DROGAS


um resumo de Kenji a.k.a. Kenji

Primeiramente, devemos retomar que há uma relação histórica entre o homem e o consumo
de substâncias grosseiramente classificadas como drogas. Somamos a isso a própria
subjetividade na classificação, enquanto sociedade, entre aquilo que denominamos como
“droga” e aquilo que denominamos como “medicamento” ou “fármaco”. Há um limite muito nebuloso
e uma área cinzenta de distinção entre estas e, logo, do estigma e preconceitos envolvidos ao
consumo dessas substâncias, dependendo da categoria que contemplem. Diante disso, devemos
sempre retomar a abordagem mais atual do tema, que considera o quadro biopsicossocial, ou
seja, a tríade: droga, indivíduo e meio (contexto social).
Expomos então o conceito bioético de “Primum non nocere”, quer seja “Primeiro, não fazer
o mal”. Ele se aplica a efeitos adversos do uso de medicamentos. Ou seja, mesmo aquilo que
consideramos como medicamente pode vir a, dependendo de circunstâncias, agir com aquilo que
pressupomos por “droga”. Definimos, portanto, conforme Boyd e McCabe, que o uso inadequado
ou uso indevido de medicamentos se traduz como uso sem indicação médica e com propósitos
terapêuticos ou recreacionais. Ademais, confrontamos o modelo moral de consideração do uso
de drogas. Na transição entre o século XIX ao XX, este pregou a consideração dicotômica entre
abstinência e dependência, ligados estritamente aos valores morais e éticos do indivíduo. Assim
se apoiou a adoção da famosa Lei Seca nos EUA. Entretanto, atualmente, principalmente por
incentivo de grupos Alcoólicos Anônimos, passamos a considerar a dependência como uma
doença, não meramente como uma correlação do julgamento moral do indivíduo pela sociedade.
Isso se ampliou para adotarmos hoje o conceito de moderação, opondo-se à dicotomia
anteriormente estabelecida.
Podemos apontar como populações mais vulneráveis ao uso de drogas: (i) jovens, (ii)
mulheres, (iii) idosos e (iv) profissionais de saúde. Quanto ao primeiro, há o já conhecido
problema do excesso de auto-confiança, o desejo por conhecer e explorar novidades, além de
estarem em uma fase de formação de valores e mesmo neurológica, o que pode favorecer a
dependência. Quanto ao segundo, o risco de dependência se centraliza nos estereótipos
fomentados socialmente, sendo mais expostas ao uso abusivo de anfetaminas, para
emagrecimento, e ansiolíticos, para controle da ansiedade. Os idosos, por sua vez, expõem-se a
um maior risco de uso abusivo de analgésicos (especialmente opióides), por conta das dores
recorrentes, relacionadas ao processo natural de envelhecimento. Por fim, o último grupo, de
profissionais de saúde, relaciona-se com a exposição ao estresse, fadiga e facilidade de acesso,
sendo que, entre médicos, o abuso de opióides e benzodiazepinicos (BZD’s) é cinco vezes maior
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do que na média populacional, sendo os anestesistas, psiquiatras e emergencistas as


especialidades mais expostas.
Também é importante fazermos um adendo para explicar brevemente as classificações das
drogas. Podemos considera-las: (i) depressoras (álcool, solventes, heroína e BZD’s), (ii)
estimulantes (cocaína e anfetamina) ou (iii) perturbadoras ou alucinógenas (maconha, LSD,
cogumelos). Além disso, podem também ser consideradas como psicoativas, quando atuam no
SNC ou psicotrópicas, um subgrupo de psicoativas, quando apresentam potencial para
desenvolver dependência. Estas atuam centralmente na via da recompensa, ou seja, no
sistema límbico. Tanto o é que observamos a ativação do núcleo accumbens quando
dependentes são confrontados com imagens, sons, cheiro, palavra ou qualquer outro item
relacionado à droga da qual são dependentes. O crack, por exemplo, apresenta uma
farmacocinética na qual apresenta um potencial de atuação muito rápido no núcleo accumbens,
justificando a evolução para a dependência em poucas semanas ou meses.
Uma discussão muito enriquecedora e reflexiva, que é frequentemente evocada na área da
saúde, não estritamente sobre drogas, é quanto ao papel da mídia na difusão do debate e no
fornecimento de dados críticos sobre a questão. A exemplo, o tabaco, álcool, anfetaminas e
calmantes apresentam claramente um maior uso social do que a prevalência destes em artigos de
mídia. Ou seja, fala-se e se debate muito menos sobre essas drogas frente ao quanto representam
do real consumo destas pela sociedade. Torna-se muito interessante essa discussão quando
também levantamos dados sobre o risco de dependência apresentado por diferentes drogas. Os
ansiolíticos e a maconha, a despeito de qualquer ponto de vista, enquadram-se no grupo das que
apresentam o menor risco. No grupo intermediário, encontra-se o álcool e a cocaína. Por fim, no
grupo de maior risco, a nicotina (tabaco) é surpreendentemente a de maior risco, sendo cerca de
3,5 vezes o da maconha e quase o dobro da cocaína. Entretanto, raramente se debate sobre o uso
de nicotina em termos de sua dependência, a despeito desses dados e dos tantos mais acerca de
seus prejuízos direto à saúde e aumento do risco de diversas morbidades.
Podemos também fazer aqui um adendo acerca da definição de dependência pelo DSM-
V. Segundo este, ela se caracteriza por: (i) uso em quantidade ou frequência superior ao planejado,
(ii) desejo persistente, (iii) maior tempo necessário para se recobrar dos efeitos, (iv) fissura
importante, (v) prejuízos sociais, ocupacionais ou familiares em decorrência do uso, (vi)
continuidade do uso a despeito do reconhecimento desses prejuízos, (vii) uso apesar de prejuízos
físicos, (viii) exposição a situações de risco, (ix) tolerância e (x) ocorrência de Síndrome de
Abstinência.
Há também a questão da aceitação social do uso, na qual há forte influência do profissional
de saúde, a se destacar o médico e a indústria farmacêutica. A percepção do risco é muito
diminuída quando as pessoas consideram que os medicamentos, por serem fabricados em
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laboratórios com controle rigoroso de produção, com estudos mais claros da previsibilidade de seus
efeitos e, endossados e legitimados pela prescrição médica, automaticamente apresentem
menor risco de dependência do que as drogas. Entretanto, o debate nesse tema se liga ao
apresentado aqui inicialmente, ou seja, do limite na classificação entre uma droga e um
medicamento. Para reforçar a discussão, podemos apresentar dados nos EUA que apontam que a
prescrição de ansiolíticos aumenta em até 5 vezes o risco de o indivíduo utilizar o medicamento
sem receita posteriormente. Soma-se ainda a discussão acerca do conceito de medicalização,
quer seja, de adotarmos resoluções biomédicas para questões anteriormente fora do escopo
médico. Um exemplo clássico disso é o uso de medicamentos para emagrecimento meramente
estético ou o uso de anfetaminas para melhora no desempenho escolar.
Os BZD’s, por sua capacidade ansiolítica, ligada ao debate já bem recorrente da rotina
adotada nos grandes centros e ligada à globalização, são atualmente os principais medicamentos
psicotrópicos prescritos e com uso abusivo no Brasil. As “drogas Z” (zolpidem, zaleplon,
zopiclone) são indicados para insônia e também são comumente relacionadas entre drogas de
abuso prescritas atualmente. A prevenção e o tratamento para o abuso de BZD’s seguem duas
linhas centrais: (i) recomendação de limitação do uso por não mais que duas a quatro semanas
e (ii) recomendação da redução gradual da dose. Os opióides são indicados para analgesia,
lembrando também da codeína, presente em xaropes, indicados para depressão dos centros
nervosos da tosse. A intoxicação por estes é fortemente indicada pela triáde: coma, miose e
depressão respiratória. Seus principais antagonistas, utilizados em crises de overdose, são a
Naloxona e a Naltrexona. O risco do uso de opióides, somada a problemas na própria formação
médica, podem ocasionar a opiofobia, quer seja, uma síndrome que acomete médicos,
impedindo-os de prescrever opióides, principalmente a morfina, meramente por temerem o risco do
desenvolvimento da dependência pelo paciente.
Podemos também citar outros medicamentos, como: (i) o metilfenidato, uma anfetamina
usada para o tratamento de TDAH, mas utilizada também por estudantes saudáveis visando
melhora do desempenho escolar, (ii) a benzidamina, um AINE que, em doses elevadas, promove
alucinações, (iii) os antidepressivos, relacionadas a muitos casos de morte por overdose e (iv) a
fluoxetina, um ISRS, também utilizado para emagrecimento. Em relação ao tratamento da
dependência, podemos ilustrar o aplicado no caso da heróina com um modelo geral. A Fase 1
(desintoxicação) envolve a retirada gradual da substância ou substituição por outras de menor
potencial. No caso da heroína, podemos citar a substituição por metadona ou buprenorfina.
Ademais, o uso de clonidina atenua a síndrome de abstinência, sendo esta caracterizada por uma
hiperativação da via noradrenégica, opondo-se à sua inativação durante o consumo da droga. A
Fase 2 (manutenção) envolve grupos de ajuda, psicoterapias e suporte psicossocial, bem como
o uso de naltrexona e metadona para combater a abstinência.
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Por fim, é importante ressaltar que, em epidemiologia, as pesquisas populacionais


quantitativas sobre uso de drogas podem assumir duas opções: (i) uso de métodos laboratoriais,
que permitem maior precisão, mas demandam um maior custo e mesmo questões éticas para
obtenção de amostras, sendo mais utilizados para o acompanhamento de populações específicas
ou (ii) uso de auto-relatos, que apresentam um menor custo e maior riqueza de informações,
embora tenham como principal opositor a validade das informações obtidas. Entretanto, esse tipo
de relato é considerado ainda a melhor forma de medir o consumo na população. Devemos
também ressaltar para a distinção entre uso e frequência de uso. Este se refere ao número de
vezes que houve consume dentro de dado período. Aquele, por sua vez, se refere à ocorrência de
consumo pelo menos uma vez dentro de dado período.
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NEUBIOLOGIA DA DEPENDÊNCIA
um resumo de João Paulo Alves a.k.a. J.P.

Baseado em: Aula NEUROBIOLOGIA DAS DEPENDÊNCIAS – Prof. Dr. Isabel M. H. Quadros
Atualização científica: uso nocivo de substâncias, neurobiologia e ideologia – John C. M. Brust
Neurobiologia da dependência química – Marcelo Ribeiro

Abuso de drogas leva a neuroadaptações duradouras nos núcleos da base. O núcleo


accumbens (responsável em parte pela via da recompensa) é afetado, sofrendo uma redução na
atividade dos receptores dopaminérgicos.
Dependência: um conjunto de sintomas fisiológicos, cognitivos e comportamentais em que
o uso de substância adquire prioridade muito maior para um indivíduo que outros comportamentos
que antes tinham mais valor (CID-10).
Influência:
 Indivíduo
 Droga
 Ambiente
 Momento
 Fatores genéticos (ex.: Deficiência da aldeído-desidrogênase em asiáticos)
 Contexto social
 Estado psíquico
 Estresse
 Via de administração

Fases de transição: do uso ao abuso

Experimentação Uso recreativo Uso habitual Dependência /Uso compulsivo

Efeitos das drogas de abuso


Efeito reforçado: o reforço serve de estímulo contingente a uma resposta comportamental,
aumentando a frequência de resposta. Ou seja, o consumo da droga é mantido devido aos efeitos
reforçadores positivo da droga (prazer).
Reforço negativo: o consumo mantém-se para aliviar estados desagradáveis. O
comportamento de dependência é mantido pelo desejo de evitar a síndrome de abstinência
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Mecanismos biológicos
comuns
O sistema de recompensa
(dopaminérgico) está presente desde os
mamíferos mais primitivos. Ele tem
participação fundamental na busca de
estímulos causadores de prazer, tais
como alimentos, sexo, relaxamento. Por
meio do reforço positivo da recompensa,
obtida durante essas experiências, o organismo é impelido a buscá-las repetidas vezes. Cria-se
uma memória específica para isso. A dopamina é o neurotransmissor sintetizado dentro do sistema
de recompensa. Uma vez liberada na fenda, atua sobre os receptores dopaminérgicos, cujo efeito
é uma sensação de bem-estar e euforia.
Nota 1: Ritalina (metilfenidato) possui o mesmo mecanismo de ação da cocaína; efeito difere
da cocaína devido a via de administração.
Nota 2: Anfetamina e cocaína agem diretamente no núcleo accumbens, causam bloqueio de
transportadores da dopamina levando ao acúmulo do neurotransmissor na fenda sináptica.
Nota 3: anfetaminas –
facilitam a liberação de
monoaminas, além de reduzir
a recaptação. Também
compete com o receptor de
dopamina.

Efeitos crônicos e neuroadaptação


15

Após a experimentação, com um uso repetido e prolongado, o cérebro sobre diversos


processos (tolerância e sensibilização) que o levam a se adaptar a presença da droga no
organismo. Isso acaba resultando em um
comportamento de vício, dependência e uso
compulsivo.
Tolerância: É necessário um aumento da
dose para a obtenção do mesmo efeito inicial. A
tolerância se desenvolve aos EFEITOS da droga e
não a droga em si.
Ela pode ocorrer em nível farmacocinético,
com um aumento na metabolização da droga; ou em
um ritmo farmacodinâmico, relacionado com os números de receptores, transdução do sinal,
aumento na expressão gênica e outros.
Dependência: é uma nova forma de funcionamento do SNC, contando com a presença da
droga no organismo. Quando retirada a substância, o organismo entra novamente em desequilíbrio
e pode resultar na síndrome de abstinência.
Síndrome de abstinência: é um conjunto de sintomas que ocorrem quando da retirada
absoluta ou relativa de uma substância psicoativa consumida de modo prolongado. Possui
gravidade variável e é específica para droga ou conjunto de drogas. Tem duração de 1-4 semanas,
dependendo da droga e é a grande causa de recaída em dependentes em desintoxicação.
Sensibilização ou tolerância reversa: é um tipo de "aprendizado implícito", aumenta a
sensibilidade do organismo para alguns efeitos da droga. Ela está envolvida também, nas
memórias emocionais da experiência positiva com a droga, que leva ao uso continuo ou predispõe
a recaída.
16

DEPRESSORES I – ÁLCOOL
um resumo de Hígor Barrera a.k.a. Higão
Uso de bebidas
 Ritos de passagem (adolescentes, festas viagens de formatura, trotes universitários)
 Cultura elítica: uso associado ao esporte, cultura e celebração
 Estado de embriaguez é tolerado

Álcool é, em geral, a primeira droga


psicotrópica experimentada (exceto cafeína) e é
um fator de risco para o uso de outras
substâncias na adolescência
 Idade média da primeira vez de uso: 13 anos
 Binge drinking: prática de consumir grande
quantidade de álcool em uma única ocasião (4 a
5 doses ou mais, de forma que uma dose contém
14g de etanol puro), o famoso "beber pesado"
 Uso frequente/pesado relativamente elevado
nos jovens

Álcool é a droga mais usada, seguida de tabaco e, depois, maconha. Sua ação depende de
basicamente 6 fatores:
 Frequência da ingestão
 Quantidade ingerida
 Quantidade absorvida
 Distribuição pelos tecidos
 Sensibilidade dos diferentes órgãos e tecidos
 Velocidade de metabolização do indivíduo

As mulheres são mais sensíveis ao efeito do álcool (necessitam de menor quantidade da


droga para se atingir um nível de concentração elevado)
17

CORRESPONDÊNCIA ENTRE ALCOOLEMIA E SINTOMAS

*4,5+ causa morte por conta de falência respiratória


**os sintomas podem haver pequenas variações de acordo com a fonte, mas no geral é isso

Moradores de rua: ingerem bebida alcoólica para não sentirem frio, porém acabem tendo
desregulagem do hipotálamo, sofrendo hipotermia da mesma forma

Intoxicação aguda por álcool


 Alterações da fala, visão, equilíbrio, audição e capacidade de julgamento
 Influenciada por características genéticas (ex: filhos de alcoólatras apresentam para um
mesmo nível de concentração sanguínea sintomas mais brandos do que filhos de não
alcoólatras)

METABOLIZAÇÃO DO ÁLCOOL
90% ocorre no fígado, e a enzima principal que age é a álcool desidrogenase presente no
citoplasma do hepatócito (pico de metabolismo se dá 30 minutos após o consumo da dose)
Enzima secundárias:
 MEOS: sistema de oxidação microssomal (não específico, sujeito a indução enzimática, é
ativado no uso crônico)
 Catalase (pouco significativo)
 Mulheres tem menor atividade de ADH (álcool desidrogenase) gástrica
18

*ALDH2: aldeído desidrogenase 2, responsável pela oxidação do aldeído


*eliminação de 7g de álcool por hora

O acúmulo do acetaldeído causa:


 Rubor facial
 Taquicardia
 Aumento da PA
 Dor de cabeça
 Náuseas
 Vômitos

Acúmulo de acetaldeído depende de produção e eliminação:


 Uma enzima ADH muito eficiente produz muito acetaldeído
 Uma enzima ALDH2 pouco eficiente metaboliza pouco acetaldeído, gerando acúmulo
19

*há maior prevalência de alto acúmulo de acetaldeído em orientais

Existe um fármaco que age na enzima aldeído desidrogenase, impedindo sua ação, que é
utilizada no tratamento do alcoolismo:
 Dissulfiram age na enzima ALDH2, inibindo o metabolismo de acetaldeído e tornando os
efeitos da ingestão do álcool mais intensos

ÁLCOOL - EFEITOS FARMACOLÓGICOS NO SNC


Efeitos bifásicos:
 Doses baixas: euforia (alta atividade do sistema dopaminérgico)
 Doses altas: hipnose, sedação, coma (alta atividade do sistema gabaérgico)
20

Principais neurotransmissores envolvidos: dopamina, serotonina, glutamato, GABA,


peptídeos opióides e adenosina
Sistema dopaminérgico:
 Dopamina pode atuar como neuromodulador em áreas envolvidas nos sistemas de
motivação e esforço, especialmente em relação ao glutamato
 Baixas doses de etanol: aumento da liberação de DA nos neurônios dopaminérgicos do
núcleo accumbens, contribuindo para os efeitos reforçadores do etanol
 Dependentes de álcool possuem muitas vezes receptores dopaminérgicos de baixa
responsividade do que na população geral
 A estimulação dopaminérgica depende da integridade do sistema de peptídeos opióides
endógenos, sendo que a administração de antagonistas opióides inibe a liberação de DA
induzida pelo etanol

Peptídeos Opióides Endógenos


 Neuromoduladores que alteram as ações de neurotransmissores do SNC
 Dificultam a excitação neuronal por alterarem as propriedades elétricas da célula nervosa
 Alívio de dor e euforia
 Etanol pode ativar o sistema opióide, contribuindo para o efeito reforçador
 Antagonistas opióides (como o Naltrexone) reduzem a vontade de ingerir álcool em
humanos
21

 Hipóteses de que um sistema opióide mais responsivo contribuiria para a predisposição ao


alcoolismo

Sistema Serotonérgico
 Dependentes de álcool apresentam menores níveis de 5HT no líquor
 Hipótese de que o álcool tenta "normalizar" os níveis de 5HT, desde que etanol
agudamente aumenta seus níveis
 Inibidores Seletivos de Recaptação de Serotonina (ISRS) provocam redução do consumo
de álcool em animais e alguns dependentes de álcool
 Os efeitos terapêuticos dessas drogas podem estar associado aos efeitos sobre ansiedade
e depressão, que são frequentemente associadas ao uso do etanol
 Neurônios dopaminérgicos podem ser afetados pelos serotonérgicos (interação de 5HT
com 5HT2 estimula liberação de DA na área tegmental ventral, e interação daquela com
5HT3 estimula a liberação de DA no núcleo accumbens)

Sistema GABA
 GABA é o principal neurotransmissor inibitório do SNC, interagindo com o receptor GABAa
 Etanol aumenta o influxo de Cl- para dentro das células, facilitando a ação do GABA
(inibição neuronal). Esta ação associa-se com o efeito sedativo e hipnótico do etanol (altas
doses)
 Alterações no GABAa estão associadas ao desenvolvimento de tolerância aos efeitos
depressores do álcool, assim como à dependência fisiológica
 Sensibilidades diferentes no sistema GABA poderiam estar relacionadas à susceptibilidade
para o desenvolvimento de dependência do álcool
 Agonistas gabaérgicos são eficazes no tratamento da síndrome de abstinência ao álcool
 5HT pode aumentar as atividades dos neurônios gabaérgicos na formação hipocampal,
provocando alterações cognitivas, na memória e na capacidade de julgamento

Sistema Glutamatérgico
 A ativação de seus receptores AMPA e NMDA causa excitação da célula pós sináptica
 Baixas concentrações de etanol apresentam efeito inibidor do fluxo iônico mediado pelo
NMDA (inibindo assim a despolarização e consequente excitação da célula)
 Álcool altera a liberação de DA, noradrenalina e acetilcolina induzida pela ativação de
NMDA
 Os efeitos do álcool sobre o NMDA geram consequências como a Síndrome Fetal pelo
álcool (inibição do NMDA no período pré natal), alterações de memória e aprendizagem,
aumento da excitotoxicidade pelo aumento de receptores NMDA (decorrência do uso
22

crônico, sendo que antagonistas de NMDA reduzem a sintomatologia da síndrome da


abstinência)

Sistema Adenosina
 Neuromodulador que pode facilitar ou dificultar a neurotransmissão
 Etanol afeta a função dos transportadores desse sistema, provocando alteração nos níveis
de mensageiros secundários
 Estes efeitos estão relacionados à sedação, intoxicação e incoordenação motora

TRATAMENTO DA INTOXICAÇÃO ALCOÓLICA


Havia no Brasil relatos de hipoglicemia desencadeada pelo uso do álcool em crianças e
pessoas em jejum prolongados, mas também relatos de hiperglicemia.
Um estudo revelou que não há diferença significativa na redução da intensidade de sintomas
subjetivos após administração de glicose ou soro fisiológico, nem diferença na alcoolemia.
Conclusão dos estudos: embora o álcool possa inibir a gliconeogênese hepática (mas não a
renal), só é necessária a administração de glicose em casos de hipoglicemia comprovada pelo
teste.
23

DEPRESSORES I - EFEITOS CRÔNICOS DO ÁLCOOL


um resumo de Henrique Fernandes de Lima a.k.a. Psoas Menor

Estudaremos aqui os efeitos crônicos do álcool nos diversos sistemas do organismo,


analisando seus efeitos sistema por sistema.
Abuso de álcool e danos ao sistema cardiovascular
Os efeitos do álcool no organismo estão relacionados
com diversos fatores, sendo um deles a quantidade de doses
consumidas por dia. Para os homens, duas doses é o limite
considerado pela OMS como seguro, enquanto para as
mulheres, uma dose.
Quando falamos na relação álcool-sistema
cardiovascular, deve-se notar que há direta conexão entre o
consumo de álcool e o desenvolvimento de miocardiopatias,
coronariopatias, distúrbios relacionados à hipertensão arterial,
maior risco de ocorrência de AVCs, e ainda desenvolvimento
de arritmias cardíacas.

MIOCARDIOPATIAS
No caso das miocardiopatias não-isquêmicas, 45% estão relacionadas com o consumo de
álcool. Apesar disso, o prognóstico da miocardiopatia alcoólica é melhor quando comparado à não
alcoólica, havendo uma taxa de sobrevida após 5 anos equilavente a 81%, versus 45% nas não
alcoólicas. Além disso, há possibilidade de reversão do quadro clínico após abstinência. O sexo
feminino é um fator de risco para a miocardiopatia alcoólica.
As arritmias cardíacas estão mais
relacionadas à intoxicação aguda por álcool, sendo
a fibrilação atrial o tipo mais comum de arritmia
nesses casos. Quando consumido em excesso,
pode causar alterações no ECG, com onda P
prolongada, o que dá-se o nome de holiday heart
syndrome, predispondo evolução para fibrilação
atrial.
24

CONSUMO DE ÁLCOOL E RISCO DE AVC


O consumo moderado de álcool está relacionado com a redução da incidência de AVC
isquêmico, havendo redução na colesterolemia, com efeitos anti-trombóticos, o que diminui a
formação de trombos e de placas ateroscleróticas.
Entretanto, o abuso de álcool aumenta a incidência de AVCs isquêmicos e hemorrágicos.

CONSUMO DE ÁLCOOL E PRESSÃO ARTERIAL


O abuso de álcool, na regulação periférica, causa inibição das células endoteliais, reduzindo
os níveis celulares de Mg, precipitando distúrbios celulares e subcelulares nas vias bioenergéticas
citoplasmáticas e mitocondrial, o que provoca sobrecarga de Ca e isquemia.
Em modo geral, há piora da vasodilatação dependente do endotélio em usuários crônicos da
bebida, o que poderia contribuir para a alta prevalência de doenças cardiovasculares nesses
indivíduos.

Tratamento para sistema cardiovascular


 A abstinência é o melhor tratamento com fins curativos para as complicações
cardiovasculares do abuso de álcool.
 Em baixa quantidade, o álcool pode ser benéfico para o sistema cardiovascular. Os
mecanismos dessa ocorrência também não foram muito bem esclarecidos até o momento.
 Ainda não sem bem elucidados os mecanismos deletérios do álcool sobre o sistema
cardiovascular. Seus estudos podem colaborar no desenvolvimento de terapias mais
efetivas.

Abuso de álcool e alterações ósseas


O álcool também possui efeitos deletérios no sistema esquelético. Seu abuso está
relacionado com maior risco de fraturas, fragilidade ósseas generalizada, além de ser fator de risco
para osteoporose.
O abuso de álcool pode induzir osteopenia, caracterizada por perdas brandas da massa
óssea. Como dito, esse abuso resulta em fragilidade óssea generalizada e prejuízo no controle
muscular, o que causa fraturas ósseas e perda da massa óssea, principalmente na coluna vertebral,
no calcanhar e no quadril. Há também risco de crises convulsivas pela síndrome de abstinência do
álcool (SAA), crises de hipoglicemia e aumento de doenças neuromusculares.
25

MECANISMOS POTENCIAIS
Álcool e nutrição
O abuso de álcool induz em má absorção de nutrientes, dieta pobre e aumento da excreção
renal, resultando numa baixa nos níveis de diversos nutrientes, como cálcio, magnésio e fósforo.
Estaria aí uma das causas das doenças ósseas induzidas pelo álcool?
Álcool e hormônios sexuais
O consumo moderado de álcool pode elevar os níveis e efeitos de hormônios sexuais, com
isoflavanóides atuando como estrogen-like, e testosterona sendo convertida em estradiol, o que
aumenta o efeito do estrogênio. Assim, há aumento da densidade óssea, por aumenta de fixação
de cálcio nos ossos.
Álcool e células ósseas
Novamente, seu abuso resulta em maior apoptose e diminuição da síntese celular de
poliaminas. Há diminuição da atividade celular e da proliferação de osteoblastos, resultado de uma
menor síntese proteica e menor síntese de DNA. Todos esses fatores resultam na diminuição da
formação óssea.
Álcool e sistema hepático
O fígado está relacionado com o metabolismo de gorduras, açúcares, proteínas e vitaminas.
Também elimina toxinas, microorganismos, controla resposta ao trauma, estresse e inflamação.
A degradação do fígado pelo álcool passa por três etapas: estatose, hepatite e cirrose. A
maior susceptibilidade está relacionada com fatores nutricionais, ambientais e hereditários.
 Esteatose: Acúmulo de lipídeos em células ou tecidos onde normalmente não ocorre,
geralmente em consequência de distúrbios metabólicos. O metabolismo de álcool produz acetil
CoA em excesso, que será utilizado para a síntese de ácido graxo pelos hepatócitos, e
consequentemente de triglicerídes. Isso ocorre porque o álcool é metabolizado pela álcool
desidrogenase a acetaldeído, que sofre ação da enzima acetaldeído desidrogenase,
produzindo acetil CoA. Nessas duas reações há produção de elétrons e íons H+, havendo
produção de NADH em excesso. Assim, falta NAD+ para aceitar elétrons no Ciclo de Krebs,
que será inibido, acumulando acetil CoA, que será desviado para a síntese de ácidos graxos.
 Hepatite alcoólica: Inflamação do fígado decorrente de sua
cicatrização. Influenciado por fatores genéticos, subnutrição e outros
problemas no fígado, como hepatite C. Mulheres correm mais risco
de desenvolver hepatite alcoólica.
 Cirrose: Lesão grave no fígado, resulta em formação de cicatrizes,
quanto mais extensa, menor será o número de células funcionantes.
É o princípio do estado de falência do fígado.
26

Álcool e Pâncreas
O consumo excessivo de álcool é uma das principais causa de pancreatite, uma inflamação
do pâncreas que pode ser fatal. O álcool desencadeia uma libertação precoce das enzimas
digestivas, possibilitando fuga de enzimas digestivas para o tecido normal, além de conduzir à
formação de aglomerados de proteínas, dando origem a cálculos passíveis de bloquear o canal
pancreático.
O álcool também pode determinar uma alteração no parênquima pancreático, que é
substituído por tecido fibroso, endurecido, reduzindo o tamanho do órgão e resultando em atrofia.
Álcool e SNC
O álcool atua como depressor do SNC, sendo dose-dependente. Em pequenas quantidades
causa desinibição. Em média, o indivíduo apresenta diminuição de resposta aos estímulos, fala
pastosa, dificuldade em locomoção. Já em altas quantidades, pode induzir ao coma e mesmo à
morte.
Os receptores GABA alfa são potencializados pelo álcool, havendo maior poder inibitório no
SNC, levando ao relaxamento e sedação do organismo. Com o tempo, reduz os receptores de
GABA por um mecanismo down regulation, o que explica os efeitos de tolerância ao álcool.
O álcool também altera a ação sináptica do glutamato no cérebro, reduzindo a transmissão
glutaminérgica excitatória. Nos outros neurotransmissores, estimula liberação de serotonina e
endorfinas, contribuindo para o bem-estar do indivíduo.
Os efeitos do álcool dependem da quantidade e frequência, idade de início, condições gerais
de saúde do indivíduo,etc. Pode geral transtorno amnésico alcoólico, uma espécie de "branco" dos
acontecimentos.
Álcool e sistema imune
O excesso de álcool é tóxico para quaisquer células do organismo, levando a degeneração
das células do sistema imune. Além disso, interfere com as citocinas responsáveis pela resposta
imunológica. O consumo crônico de álcool dificulta a reação por parte do organismo diante dos
patógenos, mas quando o organismo reage a um patógeno, potencializa exageradamente os
efeitos inflamatórios.
Também afeta o processo de quimiotaxia e a produção de hormônios que modulam a
resposta imunológica.
Em alcoólatras, a morte por pneumonia chega a ser 2x maior, há maior susceptibilidade a
patógenos, maior incidência e severidade de tuberculose, aumento de infecção por transmissão
sexual, além de anormalidades nos linfócitos T.
Aumenta a incidência de Hepatites B e C, além de maior incidência de infecções do trato
urinário, meningite, abcesso pulmonar e diversas outras doenças.
27

Como medidas terapêuticas, pode-se citar a utilização de Igs contra endotoxinas e citocinas
específicas, além de bloquear a produção de citocinas e aumentar a resposta de TH1 pela
administração de IL-12 ou IFN-y.

Álcool e dano cerebral


Alterações neuropatológicas
Encefalopatia de Wernicke: confusão, ataxia, problemas visuais. Associado com deficiência
de tiramina.
Síndrome de Korsakoff: amnésia anterógrada, lesões no tálamo.
Alterações morfológicas
Uso crônico leva alargamento dos ventrículos e dos sulcos, redução de massa cerebral,
perdas neuronais, danos ao córtex cerebral e hipocampo. A abstinência por meses pode levar a
leve recuperação.
Alterações funcionais
Alterações nas funções relacionadas ao córtex frontal. Há dificuldade em diferenciar
estímulos relevantes de irrelevantes, fáceis de difíceis, conhecidos de desconhecidos.
Alguns déficits podem ser recuperados com anos de abstinência, outros são permanentes.
Além disso, há aumento de impulsividade, comportamento socialmente inapropriado e
agressividade.

Mecanismo de ação da neurotoxicidade


O principal é o estresse
oxidativo. O slide da aula
simplifica muito bem.
O álcool também altera
fatores de crescimento
essenciais para crescimento,
sobrevivência e manutenção
dos neurônios.
O tratamento da
intoxicação alcoólica com
glicose não tem justificativa
teórica que lhe dê base. Há na
literatura relatos de hipoglicemia desencadeada pelo álcool, mas também há relatos de
hiperglicemia.
28

USO ABUSIVO DE OPIÓIDES E BENZODIAZEPÍNICOS


um resumo de Lucas Toshio a.k.a. Tosh

Uso Abusivo de Opiáceos


 Opiáceos ou opióides???
Opiáceos: substâncias naturais ou semissintéticas, derivadas do ópio (“suco” das cápsulas
de papoula Papaver somniferum); exemplos: morfina, codeína (antitussígena), heroína
(semissintética).
Opioides: qualquer substância (natural ou sintética) com propriedades semelhantes às da
morfina, ativando os receptores opioides (µ, κ, δ, σ); exemplos: opiáceos, fentanil (100x mais
potente que a morfina), metadona, tramadol (Tramal®), buprenorfina, hidrocodona (Vicodin®:
hidrocodona + paracetamol, “remédio do Dr. House”), oxicodona, meperedina, propoxifeno,
peptídeos endógenos (encefalinas, endorfinas, dinorfinas).
Antagonistas opioides: ligam-se aos receptores opioides para impedir a ligação destes
com os agonistas, podendo ser utilizados em casos de overdose de opioides; exemplos: naloxona,
naltrexona.

 Usos e efeitos dos opioides


Causa depressão do SNC, mas age também na periferia, como nos plexos gastrointestinais.
O principal uso é a analgesia, mas promovem outros efeitos como ações antitussígena, sedativa,
antidiarreica (causa obstipação). Alguns efeitos colaterais: miose, sonolência, náuseas, vômitos,
liberação aumentada de histamina (pode causar coceira e broncoespasmo).
O uso recreativo (de abuso) dos opioides deve-se,
principalmente, à sensação de euforia promovida pelos
opioides (exceto codeína, pentazocina e nalorfina; esta
última causa disforia). Nesse aspecto, o indivíduo entra em
um estado de torpor, desligado da realidade, com sensação
de calmaria que se mistura com um mundo sem sofrimentos.
Doses elevadas de opioides, porém, podem causar
depressão respiratória, bradicardia, hipotensão, hipotermia,
convulsões e coma, podendo levar à morte. “Tá vendo, é
tudo uma emboscada.”
Existe, no meio médico, certo receio no uso de opioides (opiofobia médica), uma vez que
há falta de capacitação no tratamento da dor, deficiências na abordagem do ensino médico sobre
os opioides, medo de gerar dependência nos pacientes e também dificuldades legais para
29

prescrever. Porém, a própria OMS recomenda o uso de opioides analgésicos para reduzir as dores
intensas de pacientes com câncer, por exemplo.
No meio farmacêutico, também há aversão aos opioides (opiofobia farmacêutica), pois
estes geram pouco lucro, aumentam a fiscalização sanitária, implicam trabalho burocrático
excessivo e maior probabilidade de roubo. (ALTAS CHANCES DE CAIR ISSO NA PROVA)

 Dependência de opioides
O uso contínuo de opioides gera uma tolerância, que ocorre de maneira mais rápida para
os efeitos eufóricos e mais lentamente para os outros efeitos como analgesia, depressão
respiratória, sedação. Ou seja, o indivíduo vai aumentando continuamente a dose da droga para
obter um mesmo efeito.
O uso dos opioides também gera um efeito reforçador, descrito como um estímulo que
aumenta a frequência de uma resposta comportamental (euforia e prazer, no caso). Por isso, a
dependência seria mantida pelo desejo de obter a euforia, o prazer, estimulando continuamente as
vias de recompensa encefálicas (dopaminérgica mesolímbica), por meio da inibição da liberação
de GABA na área tegmental ventral, a qual contém os corpos celulares dos neurônios
dopaminérgicos que se direcionam ao núcleo accumbens.
Além disso, a cessação do uso pode gerar síndrome de abstinência, com uma
hiperatividade autonômica e somática frente a uma queda nos níveis séricos da droga. Sinais e
sintomas incluem: humor disfórico, lacrimejamento, rinorreia, bocejos, ansiedade, sudorese,
midríase, mialgias, febre, fissura, inquietude, irritabilidade, anorexia, insônia, astenia, náuseas,
vômitos, diarreia etc., de forma que tais efeitos dependem do tempo após último uso. Assim, o
desejo de evitar a síndrome de abstinência contribui para a manutenção da dependência.
Pessoas mais vulneráveis a criar dependência são profissionais da saúde (que têm acesso
mais fácil aos opioides, além de rotina estressante) e pacientes sob tratamento de dores crônicas
intensas com os opioides.

 Heroína
Opiáceo semissintético formado pela acetilação da morfina. Gera um estado de euforia, bem
como analgesia, sedação, supressão da tosse. Tem grande potencial em gerar dependência.
Overdoses de heroína são frequentes, pois há muita variação do teor de pureza das drogas
no mercado, além de que, muitas vezes, é usada em combinação com outros depressores do SNC
(como o álcool).
Algumas complicações físicas relacionadas ao seu consumo refletem problemas no TGI
(obstipação, cirrose, pancreatite), nos pulmões (infartos, fibrose, edema, pneumonia), no sistema
30

cardiovascular (arritmias, hipotensão, miocardite e endocardite), no sistema imunológico (aumenta


probabilidade de infecções oportunistas, HIV, sepse) e no SNC (convulsões e coma).

 Tratamento da dependência
Uma primeira forma de tratamento baseia-se na desintoxicação, caracterizada pela
substituição ou não por metadona ou buprenorfina e, a seguir, a redução gradual das mesmas.
Pode-se utilizar conjuntamente a clonidina, um agonista α2 adrenérgico (de efeitos
antiadrenérgicos!), que maneja os sintomas da síndrome de abstinência (como náuseas, vômitos,
sudorese, dores intestinais e diarreia), uma vez que, no estado de abstinência, há uma
hiperativação das vias noradrenérgicas centrais.
Uma outra abordagem de tratamento é a de
manutenção. Consiste no uso prolongado de agonistas
opioides, como a metadona e a buprenorfina. Pode-se
utilizar também a naltrexona, que bloqueia os efeitos
prazerosos dos opioides e reduz a fissura. O tratamento
de escolha ainda é a substituição por metadona e sua
manutenção, juntamente com suporte psicossocial. Ao
final, resultados mostram que há diminuição do uso
ilícito de opioides, da morbidade psicossocial e clínica relacionada à dependência, da mortalidade
e da atividade criminal. O gráfico mostra as variações de humor de acordo com a droga utilizada.
Percebe-se que a metadona tem caráter bem mais estável nesse aspecto.

Uso Abusivo de Benzodiazepínicos


 Ansiolíticos/tranquilizantes
Como o próprio nome diz, os ansiolíticos, ou tranquilizantes, são medicamentos que têm a
propriedade de atuar sobre a ansiedade, a tensão, o estresse, reduzindo tais efeitos no
organismo. São utilizados também no tratamento de insônia, caracterizando-as como drogas
hipnóticas. São exemplos de ansiolíticos: hidrato de cloral (1850-1930, muito tóxico, era usado para
fazer “Mickey Finn”), barbitúricos (1900-1960, estreita janela terapêutica) e benzodiazepínicos
(1950- ).
 Benzodiazepínicos (BZDs)
Os BZDs, comparados aos ansiolíticos das gerações anteriores, possuem maior eficácia
clínica e bom perfil de segurança. Além dos efeitos já mencionados, os BZDs também são
anticonvulsivantes e miorrelaxantes. Porém, na década de 80, percebeu-se que havia cada vez
mais casos de abuso/dependência e síndrome de abstinência de BZDs, o que fez com que a
prescrição dos mesmos se tornasse mais restrita. Atualmente, há regulamentação das atividades
31

de produção, embalagem, comércio, prescrição, dispensação e fiscalização de psicotrópicos


como os BZDs, e farmácias e locais de atendimento à saúde estão submetidos à vigilância
sanitária.
Apesar disso, ainda há grande número de prescrições inadvertidas. Muitos pacientes e
as pessoas que convivem ao seu redor insistem aos médicos pela prescrição dos BDZs. E, ao
chegarem às farmácias, há grande burocracia ao redor da dispensação do medicamento, mas que
eventualmente é ignorado e os BZDs são desviados.
Exemplos de BZDs são: midazolam/Dormonid®, triazolam (ação curta de 2-7h),
alprazolam/Frontal®, bromazepam/Lexotam®, estazolam, flunitrazepam/Rohypnol®,
lorazepam/Lorax®, oxazepam (ação intermediária de 8-30h), clobazam, clonazepam/Rivotril®,
diazepam/Valium®, flurazepam, medazepam, nitrazepam (ação longa de 30-120h).

 Efeitos dos BZDs no organismo e seus usos


O mecanismo de funcionamento principal dos BZDs baseia-se na potencialização da
neurotransmissão GABAérgica, por meio da ligação da droga com um sítio específico presente
nos receptores de GABAA.
Os efeitos terapêuticos dos BZDs incluem redução da ansiedade/tensão/estresse,
indução de sono (uso em pacientes com insônia), redução da vigília, relaxamento muscular
e ação anticonvulsivante. Por terem algumas ações que levam o paciente ao estado de “bem-
estar” (relaxado, calmo), os BZDs são utilizados, inadvertidamente, como substâncias recreativas
(drogas de abuso), muitas vezes em combinação com outras drogas.
Porém, quando a dose é ultrapassada, os BZDs podem ter efeitos tóxicos, que se
manifestam por meio de hipotonia muscular, ataxia, hipotensão, coma, depressão respiratória (em
casos de overdose por via EV) etc. Mulheres grávidas não são recomendadas a fazer uso de BZDs,
pois estes são teratogênicos.
Eventos adversos, que aparecem principalmente em uso
crônico de BZDs, contemplam: sonolência diurna, comprometimento
da coordenação motora fina, comprometimento de memória
anterógrada, tontura, zumbidos, riscos de queda e fratura, reação
paradoxal (ocorre uma desinibição idiopática que pode promover
convulsões, comportamentos agressivos, eufóricos e impulsivos, ou
seja, efeitos contrários aos desejados), reação por interação
medicamentosa ( incidência em idosos) e dependência.
Um uso peculiar dos BZDs é no tratamento de síndrome de abstinência de álcool, que
dura cerca de 1 semana. Após esse período, os BZDs devem ser retirados gradualmente. Vale
ressaltar que a combinação álcool + BZDs potencializa tanto os efeitos deste como daquele.
32

 Dependência de BZDs
Assim como os opioides, o uso contínuo de BZDs induz tolerância, e são necessárias doses
cada vez maiores para se obter um mesmo efeito. O uso recomendado como ansiolítico e hipnótico
não deve passar de 4 semanas. Muitos usuários não tem noção dos riscos do uso crônico, e
não veem necessidade em parar. Subpopulações mais vulneráveis são mulheres, casadas,
fumantes, de baixa renda, com algum transtorno de ansiedade e idade média entre 50 e 70
anos.
A dependência aos BDZs parece estar ligada mais à tentativa de evitar os sintomas
desagradáveis da síndrome de abstinência. Esta tem tempo de início de 2 a 10 dias após a
retirada da droga (varia conforme a meia-vida de cada droga), e os sintomas principais são
tremores, sudorese, palpitações, letargia, nauseas, vômitos, cefaleia, insônia, agitação,
irritabilidade, mialgia, pesadelos.
O tratamento baseia-se na retirada gradual da droga. Assim, pode-se, a cada semana,
reduzir a dose em ¼. Para o paciente, vai se tornando cada vez mais difícil de controlar a vontade
de usar, principalmente após a metade final. Uma maneira de complementar o tratamento é
substituir os BZDs de curta duração por de longa duração, para depois iniciar a redução gradual
das doses.

BOA PROVA!!!
33

DEPRESSORES II - INALANTES
um resumo de Lucas André a.k.a. Bovespa

A droga é usada logo na juventude, na média de 13 a 22 anos sendo uma das drogas
utilizadas mais cedo (apenas álcool e tabaco possuem uma média menor), a população mais
afetada é a dos jovens em situação de rua. Inúmeras substancias podem ser inaladas e dar
alterações mentais, como fluido de isqueiro, de botijão, thinner, tintas, vernizes, cola de sapateiro,
cola de madeira, combustível, removedores de manchas, fluido corretor, aerossóis, laquê para
cabelo, esmalte.

Farmacocinética
Absorção
Os solventes são absorvidos principalmente pela via inalatória. Uma vez nos alvéolos, alcançam a
circulação sanguínea por difusão simples.
Difusão nos tecidos
A difusão dos solventes do sangue para os tecidos, segundo os autores, depende de três
fatores: a solubilidade nos tecidos, a concentração de solvente no sangue e o fluxo sanguíneo
dentro daquele tecido determinado. A natureza lipossolúvel (solúvel em gorduras) dos solventes
lhes confere afinidade pelo sistema nervoso central, ricamente composto por lipídios.
34

Metabolização e excreção
Os solventes podem ser eliminados em sua forma pura pelos pulmões. Quanto menos
solúveis, mais rápida a excreção pulmonar. Muitos deles, no entanto, são metabolizados pelo
fígado, por meio do sistema citocromo P450.

Mecanismo de ação
Assim como ocorre com o álcool, os solventes são substâncias que têm efeito bifásico, ou
seja, causam uma excitação inicial, seguida por depressão do funcionamento cerebral, que
dependerá da dose inalada.
Após a inalação, os solventes alcançam os alvéolos e capilares pulmonares e são
distribuídos pelas membranas lipídicas do organismo. O pico plasmático é atingido entre 15 a 30
minutos. Praticamente todos os inalantes, com exceção dos nitritos, produzem efeitos prazerosos
e depressores do Sistema nervoso central. O Tolueno, substância encontrada em produtos como
tintas, colas e removedores, parece agir ativando o sistema dopaminérgico (efeito eufórico). Este
sistema neural se relaciona à dependência. É responsável pela sensação de prazer associada ao
consumo da droga. Além disso há ativação GABAérgica (efeito depressor) e alteração na
permeabilidade de membrana.
Mortes por inalantes
 Hipersensibilidade das fibras miocárdicas pela adrenalina, levando a arritmia e morte
 Acidentes com saco plástico
 Quedas
 Atropelamentos
 Depressão profunda do SNC
Razões típicas para uso
 Inicio do efeito rápido
 Qualidade e padrão dos efeitos
 Baixo custo
 Facilidade de aquisição
 Questão legal
Efeitos dos inalantes
 Primeira fase: excitação (sintomas de euforia, excitação, tonturas, perturbações auditivas e
visuais – alucinações). Os efeitos indesejados são: náuseas, espirros, tosse, salivação, fotofobia
e vermelhidão na face.
 Segunda fase: depressão inicial do SNC com confusão, desorientação e visão embaçada. Pode
surgir cefaleia e palidez.
35

 Terceira fase: depressão média do SNC, com redução acentuada do alerta, incoordenação
ocular e motora, fala pastosa e perda do reflexo.
 Quarta fase: depressão profunda do SNC em que pode sobrevir inconsciência, algumas vezes
ocorrendo confusões e morte súbita.
Efeitos periféricos:
 Prejuízo renal e hepático
 Sincope cardíaca
 Morte
 Tolerância: 1-2 meses
 Síndrome de abstinência: ansiedade, agitação, tremores, insônia
Efeitos crônicos
 Rinite crônica, epistaxes (sangramento nasal) recorrentes
 Halitose, ulcerações nasais e bucais
 Conjuntivite
 Bronquite
 Anorexia, perda de peso
 Irritabilidade, depressão, agressividade, paranoia
 Neuropatia periférica
 Disfunção cerebral
 Demência
36

PERTURBADORES I E II
um resumo de Eduardo Mattias a.k.a. Prolong

As drogas perturbadoras podem também ser chamadas de Alucinógenas, psicodélicas ou


ainda de psicodislépticas, e seu uso já é notável em registros que datam de milênios antes de cristo.
Define-se como perturbadora a droga cujo efeito principal é provocar alterações no funcionamento
cerebral, que resulta em vários fenômenos psíquicos anormais, entre os quais destacamos os
delírios, alucinações, cinestesias, cenestesias e sinestesias. Em linhas gerais, podemos definir
alucinação como uma percepção sem objeto, ou seja, a pessoa vê, ouve ou sente algo que
realmente não existe.
Delírio, por sua vez, pode ser definido como um falso juízo da realidade, ou seja, o indivíduo
passa a atribuir significados anormais aos eventos que ocorrem à sua volta. Há uma realidade, um
fator qualquer, mas a pessoa delirante não é capaz de fazer avaliações corretas a seu respeito.
Por exemplo, no caso do delírio persecutório, nota em toda parte indícios claros – embora irreais –
de uma perseguição contra a sua pessoa. Esse tipo de fenômeno ocorre de modo espontâneo em
certas doenças mentais, denominadas psicoses, razão pela qual essas drogas também são
chamadas psicotomiméticos.
Cenestesia é a consciência (senso-percepção) que temos do próprio corpo, é a
representação consciente do próprio corpo, de sua posição, de seu movimento, de sua postura em
relação ao mundo à sua volta e em relação aos suas diversas partes e segmentos, enquanto
cinestesia já diz respeito à senso-percepção dos movimentos corporais e em relação ao ambiente
à sua volta. As Alucinações Cenestésicas devem ser diferenciadas das Alucinações Cinestésicas,
que não dizem respeito à sensação tátil, mas sim aos movimentos (cine=movimento). Nas
cinestesias os pacientes percebem as paredes movendo-se ou eles próprios movendo-se no
espaço.
Por fim, as sinestesias são um distúrbio neurológico que faz com que o estímulo de um
sentido cause reações em outro, “criando uma salada sensorial” entre visão, olfato, audição,
paladar e tato. Por exemplo, para um sinesteta, o número 5 pode ser sempre verde.
37

CLASSIFICAÇÃO DOS ALUCINÓGENOS DE ACORDO COM A SIMILARIDADE


ESTRUTURAL E FUNCIONAL
1. INDÓLICOS – Incluem o LSD, Pscilocibina, Ibogaína e
DMT, e são caracterizados pela presença do anel
indólico, característica comum à serotonina e motivo
pelo qual essas drogas agem como agonistas
serotonérgicos. Os neurônios serotoninérgicos cerebrais
estão envolvidos em diversas funções fisiológicas tais
como sono, humor, sensação de dor, controle da
temperatura e regulação da pressão arterial e em
condições patológicas, tais como enxaqueca, ansiedade e depressão. No sistema
cardiovascular, os principais efeitos são contração do músculo liso e potente vasoconstrição,
que justifica possíveis aumentos na pressão arterial, devido ao aumento na resistência
periférica.

DMT (Ayahuasca)
A ayahuasca, também conhecida pelos nomes de caapi, daime, yajé, natema, vegetal e
hoasca, é uma bebida composta pela associação de duas plantas primordiais: o caule da
Banisteriopsis caapi Morton e as folhas da Psychotria viridis. Originalmente, era utilizada por grupos
indígenas associados ao xamanismo e por vegetalistas curandeiros que praticavam a medicina
popular à base de extratos vegetais. A palavra ayahuasca é originária da língua quéchua e quer
dizer: “aya”: “pessoa morta, espírito” e “waska” que significa “corda, liana, cipó”; logo, traduzindo-
se para o português ficaria “corda dos mortos”. A combinação do caule com as folhas forma uma
associação sinérgica, pois a B. caapi possui β-carbolinas: harmalina (HRL), harmina (HRM) e
tetraidro-harmina (THH), inibidoras reversíveis da enzima monoaminoxidase (MAO) e a P. viridis,
contém a N,N-dimetiltriptamina (DMT), que é um potente alucinógeno, também metabolizada pela
MAO. Dessa forma, a ingestão da bebida proporciona aumento nas concentrações de serotonina
e torna biodisponível a DMT por via oral.
Relataram resultados da medida de concentração plasmática de voluntários que ingeriram a
bebida durante o andamento de uma cerimônia religiosa, e foi observada duração dos efeitos foi
coincidente com os níveis de alcalóides presentes no plasma, variando entre visualização de
imagens coloridas com olhos fechados, modificação dos processos perceptivos, cognitivos e
afetivos.

LSD - LSD-25 (abreviação de dietilamina do ácido lisérgico)


É utilizado habitualmente por via oral, embora possa ser misturado ocasionalmente com
tabaco e fumado. Algumas microgramas já são suficientes para produzir alucinações no ser
38

humano. O LSD-25 atua produzindo uma série de distorções no funcionamento do cérebro,


trazendo como conseqüência uma variada gama de alterações psíquicas.
A experiência subjetiva com o LSD-25 e outros alucinógenos depende da personalidade do
usuário, suas expectativas quanto ao uso da droga e o ambiente onde ela é ingerida. Enquanto
alguns indivíduos experimentam um estado de excitação e atividade, outros tornam-se quietos e
passivos. Sentimentos de euforia e excitação ("boa viagem") alternam-se com episódios de
depressão, ilusões assustadoras e sensação de pânico ("má viagem"; bode).
LSD-25 é capaz de produzir distorções na percepção do ambiente --- cores, formas e
contornos alterados--- além de sinestesias, ou seja, estímulos olfativos e táteis parecem visíveis e
cores podem ser ouvidas.
Outro aspecto que caracteriza a ação do LSD-25 no cérebro refere-se aos delírios. Estes são
o que chamamos: "juízos falsos da realidade", isto é, há uma realidade, um fato qualquer, mas a
pessoa delirante não é capaz de avaliá-la corretamente. Os delírios causados pelo LSD costumam
ser de natureza persecutória ou de grandiosidade.
O LSD-25 tem poucos efeitos no resto do corpo. Logo de início, 10 a 20 minutos após tomá-lo,
o pulso pode ficar mais rápido, as pupilas podem ficar dilatadas, além de ocorrer sudoração e a
pessoa sentir-se com uma certa excitação. Muito raramente têm sido descritos casos de convulsão.
Mesmo doses muitos grandes do LSD não chegam a intoxicar seriamente uma pessoa, do ponto
de vista físico.
O perigo do LSD-25 não está tanto na sua toxicidade para o organismo, mas sim no fato de
que, pela perturbação psíquica, há perda da habilidade de perceber e avaliar situações comuns de
perigo. Isto ocorre, por exemplo, quando a pessoa com delírio de grandiosidade julga-se com
capacidades ou forças extraordinárias.
Ainda no campo dos efeitos tóxicos, há também descrições de pessoas que após tomarem
o LSD-25 passaram a apresentar por longos períodos (o maior que se conhece é de dois anos) de
ansiedade muito grande, depressão ou mesmo acessos psicóticos. O flashback é uma variante
deste efeito a longo prazo: semanas ou até meses após uma experiência com LSD, a pessoa
repentinamente passa a ter todos os sintomas psíquicos daquela experiência anterior e isto sem
ter tomado de novo a droga.

2. FEAs (feniletilaminas) – Família da mescalina

As Feniletilaminas são compostos orgânicos (monoaminas) que se encontram amplamente


distribuídos no reino vegetal e animal, sendo encontrados também no corpo humano e produzidos
de maneira endógena pelo cérebro. Essa classe é representada principalmente pela Mescalina e
pelo Ecstasy (MDMA).
39

Mescalina – A mescalina é um alucinógeno forte extraído do cacto Peyote (Lophophora


Williamsii). Sabe-se que a mescalina possui estrutura semelhante aos neurotransmissores
cerebrais dopamina, noradrenalina e serotonina (especialmente à dopamina, enquanto o LSD, por
exemplo, assemelha-se mais à serotonina). Em função dessa afinidade, a molécula liga-se aos
mesmo locais (receptores) em que estas substâncias se conectam, onde passam a desenvolver a
função de neurotransmissores, neste caso, de origem externa. A mescalina não é capaz de
desenvolver relação de vício com o usuário e não possui toxicidade cerebral suficiente para
acarretar problemas, distúrbios ou danos neurológicos. O grande problema encontrado no uso de
substâncias como a mescalina não recai em seus mecanismos fisiológicos, mas sim nos efeitos
imprevisíveis que esta adição pode causar no indivíduo psiquicamente (principalmente quando
utilizada com fins recreativos).
MDMA - O MDMA é um
composto derivado da
metanfetamina, que apresenta
propriedades estimulantes,
derivadas das anfetaminas, e
alucinógenas, derivadas da
mescalina. O MDMA interfere em
vários neurotransmissores
causando liberação de serotonina
(5-hidroxitriptamina), dopamina e
norepinefrina no sistema nervoso
central , os quais estão envolvidos
no controle do humor,
termorregulação, sono,
apetite e no controle do
sistema nervoso
autônomo. Os efeitos
psicoestimulantes do
MDMA são observados 20
a 60 minutos após a
ingestão de doses
moderadas do êxtase (75 a
100 mg), persistindo por 2
a 4 horas. O pico de
concentração plasmática
40

ocorre 2 horas após administração oral, e os níveis residuais (0,005 mg/L) são encontrados 24
horas após a última dose. Os efeitos neuropsiquiátricos agudos positivos incluem felicidade e
empatia, aumento da autoconfiança e da percepção sensorial, euforia, loquacidade e agitação.Os
efeitos negativos incluem Diminuição do apetite, trismo, náuseas, taquicardia, hipertensão,
sudorese e tremores. O usuário pode sofrer também com efeito “pós-uso”, caracterizado por falta
de apetite, fadiga, dores musculares, insônia e dificuldade de concentração. O usuário passa por
um estado depressivo, fruto da depleção serotonérgica. O uso crônico desta substância traz a
possibilidade de dependência (rara, e só em casos de uso diário, pesado), distúrbios de memória
e síndrome do pânico.

3. DROGAS ANTICOLINÉRGICAS

Plantas do gênero Datura (cartucho, trombeta, saia-branca, zabumba), utilizadas como


arbustos ornamentais, produzem substâncias anticolinérgicas, como a atropina e a escopolamina.
Essas plantas podem ser encontradas em diversas regiões do Brasil. Essas substâncias têm a
capacidade de bloquear (antagonismo competitivo) os receptores onde o neurotransmissor,
acetilcolina, age. Os anticolinesterásicos, como a atropina e a escopolamina, agem mais
especificamente em receptores chamados muscarínicos. Os seus efeitos, como a pupila dilatada,
ocorrem devido ao bloqueio desse tipo de receptor.
Nos olhos, as pupilas ficam bastante dilatadas (midríase), o que causa embaçamento e "falta
de foco" da visão. O coração bate mais rapidamente, a pele fica seca e avermelhada. Há também
retenção urinária, aumento de temperatura, podendo ocorrer ataques convulsivos. Em alguns
casos, a intoxicação pode levar à morte.
Os efeitos no sistema nervoso
central são os de um processo
alucinatório, podendo durar de um a
três dias. As visões são geralmente
de cenas horripilantes (animais,
plantas, cadáveres). Visões
agradáveis são raras.
Os anticolinérgicos não
apresentam evidência de tolerância
ou síndrome de abstinência a longo
prazo.
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4. PCP E KETAMINA

PCP e ketamina pertencem a classe dos anestésicos dissociativos.


PCP – É um anestésico intravenoso desenvolvido nos anos 50 cujo uso foi descontinuado
devido aos efeitos secundários: Alucinações, delírios e mania. O PCP é um antagonista do receptor
de NMDA/ Glutamato não-competitivo, mas também pode ter efeito em canais iônicos de sódio
voltagem-dependentes, canais de potássio e receptores nicotínicos de acetil-colina. O PCP causa
“revelações místicas’, alucinações, relaxamento, prejuízo cognitivo, incoordenação motora e
vertigens.
Ketamina - uma medicação utilizada principalmente para induzir e manter a anestesia. A
substância induz um estado de transe, proporcionando alívio da dor, sedação e perda de memória.
O uso recreativo da ketamina pode ser vivenciado como um estado mental alterado e psicodélico
(o k-hole). A intensidade destes efeitos psicodélicos está relacionada com a dose consumida. Em
doses subanestésicas, a ketamina produz uma síndrome clínica que se assemelha neurofisiológica
e comportamentalmente a uma psicose esquizofrênica. Em experimentação animal foram
observados fenómenos de tolerância, dependência e síndrome de abstinência. A tolerância aos
efeitos desejados da ketamina desenvolve-se rapidamente e pode resultar num aumento da dose
administrada
42

INTERVENÇÃO SOBRE DROGAS


um resumo de Luiz Gustavo a.k.a. Gusssss

Pode-se classificar o consumo de álcool de acordo com uma escala, que tenta abranger
todos os tipos de consumo. Começa com ausência de uso, chamada de abstinência, passando
para uso experimental, uso moderado, uso abusivo, seguido por dependência, que pode ser leve,
moderada ou grave. A progressão por todos esses estágios supracitados dura, em média, 10 anos.
Para identificar indivíduos que possivelmente apresentem problemas com uso/abuso de álcool ou
outras drogas, mas sem fornecer diagnóstico, alguns instrumentos de triagem foram criados. Isso
faz com que seja possível uma detecção mais breve e sem ser necessário formação especializada.
O principal instrumento usado é o AUDIT (Alcohol Use Disorders Identification Tests), que é
específico para o álcool. Por detectar diferentes níveis de problemas relacionados aos diferentes
padrões de consumo, é mais abrangente. O tempo levado em consideração na análise são os
últimos 12 meses e pode ser auto aplicado ou ser feito em forma de entrevista, tendo um tempo
médio de duração de 3 a 4 minutos apenas. Vale ressaltar que suas questões (10) correspondem
aos principais critérios da CID
10, dando-lhe confiabilidade.
Para cada questão,
cinco respostas são
possíveis, sendo atribuídos
valores de 0 a 4 a cada uma
delas. No final do teste,
soma-se a pontuação de
cada questão, obtendo um
valor final, que é dividido em
quatro faixas possíveis:
 0-7: zona de baixo
risco, com prevenção
primária.
 8-15: uso de risco,
com orientação
básica.
 16-19: uso nocivo,
com intervenção breve e monitoramento.
 20-40: provável dependência, encaminhando para serviço especializado.
43

Outro instrumento de triagem bastante empregado é o ASSIT, que avalia não só o uso de
álcool, mas de outras drogas, como tabaco, inalantes, opióides, etc. Comparado ao AUDIT, tem a
aplicação mais demorada e analisa o uso na vida e nos últimos três meses. Para o score, exclui-
se a questão oito.

A intervenção breve (IB) é feita após a análise dos mecanismos de triagem e é indicada para
indivíduos que apresentam risco abusivo ou uso de risco. É uma estratégia bem estruturada e
objetiva que auxilia a própria pessoa a desenvolver autonomia, assumindo iniciativa e
responsabilidade por suas escolhas. Possui um ótimo custo benefício, é efetiva e estudos apontam
redução de consumo após IB. A IB mais usada é a FRAMES. O F estaria relacionado com um
feedback, um retorno do especialista, sobre seu padrão de consumo. Configura também ser o ponto
de partida para convidar o paciente para a intervenção. O especialista pode fazer uso do AUDIT
para caracterizar o consumo e seguir com o teste. Na próxima etapa, o R é relacionado com
responsabilidades e metas assumidas pelo paciente após conversa com o profissional. É mais ou
menos como uma barganha dos métodos de intervenção, ressaltado sempre a importância do
paciente para atingir a meta. No próximo passo, o A, temos um aconselhamento, fazendo uma
relação dos problemas associados ao consumo, listando todos eles, como ulcera gástrica,
neuropatia, por exemplo. É de extrema fazer uma tabela com os prós e contras do consumo daquela
substância e pedir para o pacienta imaginar uma balança, a balança decisória, comparando esses
fatores. Uma forma de ajudar na decisão é fornecer orientações claras sobre a diminuição ou
interrupção do uso, aumentando a percepção do risco pessoal e possibilitando que haja um motivo
para o paciente considerar uma mudança. O M, por sua vez, consiste em apresentar um menu de
opções com estratégias para modificação do comportamento. O objetivo é identificar, com o
paciente, situações que favoreçam o consumo, como companhias, situações, dentre outros. Com
44

isso, estabelecem-se estratégias para evitar tais situações. Dessa forma, aumenta-se a
responsabilidade para realizar a mudança e a confiança pessoal de que isso seja possível. Pode-
se também usar aqui o famoso argumento financeiro (se você usa 4 pedras por dia e cada uma
delas custa 10 reais, em um ano, economizaria quase 15 mil e daria para comprar uma coisa x que
você gosta). O próximo passo, o E, é dado pela empatia, pela construção do sentimento pelo
paciente que você pode e é capaz de ajuda-lo. Já o S consiste na auto eficácia, mostrando para o
paciente que ele é capaz, aumentando sua confiança, sendo encorajado a acreditar nos próprios
recursos e ser otimista em relação a sua capacidade de mudança. É importante também analisar
sua rede social e identificar pessoas que possam contribuir positivamente nesse processo.
A parada no uso de substâncias não é feita de maneira abrupta, mas sim, gradual, tendo um
longo processo com diversas fases envolvido, podendo até mesmo haver alternância entre elas,
como uma grande espiral.

Na pré-contemplação, ainda não há o pensamento de mudança, com o uso de substâncias


sem preocupação, como se não apresentasse riscos. Já a contemplação apresenta um
pensamento de diminuir ou até parar com o uso, caracterizando uma maior conscientização. Há o
sentimento de incapacidade por não saber como sair de tal situação. Na preparação e ação, há
uma busca por ajuda, uma atitude para a mudança. Associado a isso, apresenta redução do uso
ou até abstinência. Na manutenção, apresenta um novo comportamento, precisando de
encorajamento, afirmação e apoio. A recaída consiste em retroceder uma fase. É importante
identificar a fase para adequar ao melhor tipo de abordagem.
45

Anfetaminas e cocaína
Um resumo de Henrique Alves Xavier
46

ESTIMULANTES: COCAÍNA E ANFETAMINAS


um resumo de Futuro a.k.a. Henrique Alves Xavier

MECANISMO DE AÇÃO DAS ANFETAMINAS


As anfetaminas afetam principalmente o uso das monoaminas na neutrotransmissão, como
veremos a seguir:

Dopamina
As anfetaminas entram no neurônio pré-sináptico por difusão e por transporte ativo (os dois
acontecem simultaneamente). Quando as anfetaminas são carregadas pelo DAT (transportador de
dopamina) elas ocupam esse transportador, que deixa de realizar recaptação de dopamina – isso
se caracteriza como uma inibição competitiva da recaptação de dopamina e acarreta em aumento
da concentração do neurotransmissor na fenda sináptica.
Além disso, as anfetaminas são agonistas do receptor TAAR1 (a anfetamina em si, ou alfa-
metilfenetilamina, é um agonista total). Quando ativado, esse receptor desencadeia a fosforilação
(através de PKA e PKC*) e consequente internalização dos DAT – isso se caracteriza como uma
inibição não competitiva da recaptação de dopamina. Quando a fosforilação é mediada pela PKC
ela também induz inversão da função do DAT, que passa a fazer efluxo de dopamina (ou seja, além
de fazer o DAT entrar no neuronio e, portanto, parar de recaptar dopamina, ela faz o DAT carregar
dopamina para fora dele).
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Essa fosforilação também gera influxo de cálcio no neurônio pré-sináptico por mecanismo
não identificado, e esse influxo estimula a liberação da dopamina.
Finalmente, quando as anfetaminas interagem com o VMAT2 (transportador vesicular pré-
sináptico de monoaminas) elas fazem com que a dopamina, que antes estava presa em vesículas,
seja liberada no citoplasma do neurônio, estando então suscetível ao mecanismo de efluxo por
DAT fosforilado.
*proteína quinase A e proteína quinase C

Então, resumidamente, as anfetaminas:


 Inibem recaptação de dopamina por competir pelo DAT
 Inibem a recaptação de dopamina fosforilando o DAT (via TAAR1 e proteína quinases)
 Estimulam a liberação de dopamina através do influxo de cálcio
 Estimulam a liberação de dopamina por ação reversa do DAT (quando fosforilado por PKC)
 Aumentam a dopamina livre no citoplasma através da interação com o VMAT2, dando mais
substrato para ser liberado por ação reversa do DAT

Agora que entendemos como as anfetaminas afetam a dopamina, fica muito mais fácil
entender os mecanismos dos outros neurotransmissores:

Norepinefrina
As anfetaminas afetam a norepinefrina (noradrenalina) de forma análoga a como afetam a
dopamina. De fato, basta substituir dopamina por norepinefrina e DAT por NET (transportador
de norepinefrina) para que o texto acima seja válido para este neurotransmissor.

Serotonina
Os mecanismos que envolvem a serotonina são os mesmos para dopamina e norepinefrina,
mas as anfetaminas têm ação menos potente quando se trata deste neurotransmissor. Ainda assim,
as considerações feitas para as outras monoaminas também são válidas para a serotonina,
bastando mudar de DAT ou NET para SERT (transportador de serotonina).
Além dos mecanismos análogos aos supracitados, as anfetaminas também são agonistas
parciais do receptor 5-HT1A de serotonina. Mesmo assim, os efeitos das anfetaminas são bem
mais notáveis quando se trata das outras monoaminas.
48

Outros mecanismos
 Quando em doses altas, as anfetaminas inibem a MAO, levando a um aumento ainda mais
notável da concentração de monoaminas nas fendas sinápticas.
 As anfetaminas induzem maior expressão do gene CARTPT , levando a produção de CART
(cocaine and amphetamine regulated transcript), um neuropeptídeo estimulante do SNC.
 Anfetaminas aumentam a neurotransmissão, de forma menos notável, por outras moléculas,
como o glutamato.

Efeitos e uso terapêutico


Os efeitos das anfetaminas são aqueles esperados do estímulo do SNC: taquicardia,
hipertensão arterial, midríase, xerostomia, náusea, hiperatividade, nervosismo, euforia,
inapetência, insônia etc. O uso crônico, principalmente quando abusivo, pode levar a arritmias,
AVCs, desnutrição, ansiedade etc.
Não é necessário decorar estes efeitos – basta pensar no que um SNC excessivamente
estimulado acarretaria…
Uso terapêutico
 Obesidade: como essa classe de fármacos tem como efeito a diminuição do apetite, ela é
indicada em casos de obesidade (IMC>30).
 Narcolepsia: Pela sua ação de supressão do sono, as anfetaminas são usadas em casos de
narcolepsia.
 TDAH: o aumento da ação dopaminérgica na via mesolímbica leva a uma melhora da atenção
do indivíduo, tornando as anfetaminas efetivas no tratamento do transtorno de déficit de atenção
e hiperatividade.
 Depressão: anfetaminas não são mais indicadas para o tratamento do quadro, mas tinham
efetividade pelo aumento da ação das monoaminas.

Outras características
As anfetaminas são bases fracas e, portanto, são melhor absorvidas em meio básico. Além
disso, uma dieta mais alcalina pode até dobrar a meia-vida delas no corpo. A metabolização desses
fármacos se dá no fígado, e sua excreção é pela urina (uma parcela chega não metabolizada).
A anfetamina (alfa-metilfenetilamina) tem duas isoformas. Sua forma dextrógira é de 3 a 4
vezes mais potente que a levógira.
As anfetaminas têm potencial de gerar dependência, principalmente quando o uso é abusivo.
Dependência por uso terapêutico é mais difícil de ocorrer. As crises de abstinência são compostas
por depressão, isolamento, hipersonia e fadiga – exatamente o contrário do que o efeito agudo da
droga gera (euforia, sociabilidade, insônia e “sensação de energia”).
49

MECANISMO DE AÇÃO DA COCAÍNA


A cocaína age, a nível central, inibindo a recaptação de dopamina e noradrenalina ao ligar-
se nos respectivos transportadores (DAT e NET). Esse mecanismo que é responsável pela ação
estimulante da cocaína. Em doses muito altas a cocaína também inibe a recaptação de serotonina.
Além isso, sabe-se que a cocaína agoniza com receptores como o D1 (dopaminérgico), o
NMDA e o kappa (opióide), dentre outros, mas essas interações não são determinantes quanto ao
efeito da droga.
Por outro lado, a nível local a cocaína tem efeito anestésico, bloqueando canais de sódio.
Isso evita a condução do impulso nervoso e portanto a transmissão mecano, termo e nociceptiva.
Outras “caínas”, como a lidocaína, compartilham desse mecanismo, mas a cocaína é a única do
grupo com efeitos psicoativos.

Uso terapêutico e recreativo


A cocaína já teve uso terapêutico como anestésico local. Atualmente, dá-se preferência a
outros fármacos como a lidocaína e a benzocaína, mas ainda pode-se utilizá-la.
O uso recreativo de cocaína se dá, em geral, por um dos cinco métodos a seguir:
 Aspiração: absorção se dá pela mucosa nasal. Os efeitos duram cerca de 20 minutos. Utiliza-
se a cocaína na sua forma de sal (cloridrato de cocaína)
 Absorção por outras mucosas: mucosa oral, vaginal, retal etc.
 Via oral: pouco popular na forma de sal. Em geral acontece na mastigação das folhas de
coca (hábito de certas populações sulamericanas). Dose e efeitos são muito menores e a
prática não é associada com danos à saúde.
 Endovenosa: efeito dura de 15 a 30 minutos e é o mais intenso que pode obter. O risco de
overdose fica muito aumentado.
 Inalação (vapor): para ser praticável, deve-se utilizar a forma de base conjugada (a forma de
sal queima em vez de evaporar, perdendo sua efetividade), também conhecida como “crack
cocaine” ou apenas “crack”. Apresenta maior potencial de habituação e tem o efeito mais
curto – cerca de 5 minutos.

Efeitos
 Aumento da auto-confiança, pressão arterial, frequência cardíaca, temperatura corporal,
velocidade de execução de tarefas físicas e intelectuais.
 Diminuição do apetite, fadiga, sono.
 Midríase, euforia, xerostomia, vasoconstrição.
 Cefaleia, náusea, tremores, ansiedade, paranoia, disfunção erétil.
50

O uso crônico pode levar a: nervosismo, paranoia, insônia, distúrbios alimentares, disfunção
sexual, hipertensão, hipertrofia miocárdica, perfuração de sépto nasal (se aspirada), infarto do
miocárdio etc.
Novamente, basta pensar no que um estimulante faria para deduzir os efeitos.
Usuários crônicos desenvolvem tolerância, tendo que aumentar a dose com o tempo.
Quando em abstinência, dependentes sofrem de fadiga, depressão psíquica, aumento do
sono etc.
As crises de abstinência são menos intensas do que as relativas ao uso de anfetaminas.

Uso durante a gravidez


A cocaína é capaz de atravessar a barreira placentária e, portanto, afeta o desenvolvimento
do feto. A vasoconstrição induzida pela droga leva a uma diminuição do aporte sanguíneo do feto
e acarreta em problemas como: baixo peso ao nascer, malformações, defeitos neurais e morte
neonatal. O recém-nascido pode sofrer também com tremores, inapetência, alterações do sono,
dentre outros problemas.

Cocaína e álcool
Quando a cocaína é ingerida após o uso de álcool, os dois são metabolizados no fígado
gerando o cocaetileno, metabólito com efeitos sobre o SNC similares aos da coca, porém de meia
vida mais longa (cerca de duas vezes e meia) e efeitos muito mais prejudiciais à saúde. Estima-se
que o risco de morte súbita (em geral por AVCs ou infartos do miocárdio) quando utiliza-se cocaína
juntamente ao álcool é 18 vezes maior do que quando usa-se a cocaína sozinha.
51

ESTRESSE E SAÚDE MENTAL


um resumo de Lucas Menezes a.k.a. Pira

O que é estresse?
Estímulos que ameaçam o bem-estar e/ou a sobrevivência do indivíduo  estressores
físicos
Estímulos imprevisíveis ou sobre os quais não há controle, situações com informações
discrepantes  estressores psicológicos
Estímulos que suplantam a capacidade adaptativa do indivíduo
Sistemas de respostas a esses estímulos são filogeniticamente conservados e
habilitam o indivíduo a enfrentar essas adversidades
Eixo hipotálamo-hipófise-adrenal  culmina na liberação de cortisol
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O indivíduo que ‘’perde a


briga’’ tem concentrações mais
altas de cortisol por um período
de tempo mais longo.

Elevação
persistente dos
níveis de cortisol
está associada com
uma diminuição do
volume hipocampal.

Doença de Cushing e uso tratamento com anti-inflamatórios esteroidais são causas de


elevação cronica dos níveis de cortisol.

Estressor social e morfologia dendrítica


Relação de dominância e subordinação é estabelecida quando 2 machos são alojados juntos
Subordinado apresenta alterações de comportamento: retira-se do campo de visão do dominante
e torna-se hipoativo. Alterações fisiológicas incluem aumento das adrenais e da atividade do SNS
e redução dos testículos.
Notar os níveis de cortisol
muito mais elevados (em % em
relação ao controle) do
subordinado. Notar também a
perda de peso do subordinado.
53

O número de
ramificações
dendríticas do
subordinado é
menor.

Estresse e depressão
Na depressão, o feedback negativo do cortisol é menor e, portanto, os níveis de
CRH (Corticotropin-releasing
hormone) secretados pelo
hipotálamo são maiores, o
que leva a maiores níveis de
ACTH secretados pela
hipófise, culminando em
maior liberação de cortisol
pelas adrenais.

Pacientes com
depressão também
apresentam diminuição
do volume hipocampal.
CMDD= Grupo
com depressão maior
RMDD= Grupo em
remissão espontânea
HC= Controles
saudáveis

Hipótese neurotrófica da depressão


Nos pacientes deprimidos, o cortisol está mais elevado e as monoaminas estão reduzidas,
isso levaria a uma diminuição do BNDF (Brain-derived neurotrophic factor) que culminaria em
54

diminuição das ramificações dendríticas. O tratamento da depressão consegue reverter esses


danos.

Stress: o retrato de um assassino


Nesse documentário o Neurobiólogo da Universidade de Stanford e renomeado autor Robert
Sapolsky revela novas respostas para o porquê e como o stress crónico está a ameaçar as nossas
vidas e como a nossa posição da hierarquia social influencia os nossos níveis de stress. Sapolsky
estuda o estresse crônico e seus efeitos em babuínos, estes vivem em sociedade e como
sociedade. O stress é então, nestas colónias, causado uns pelos outros, pelos tumultos sociais e
psicológicos inventados pela própria espécie em si, sendo por isso o modelo perfeito para as
doenças relacionadas com o stress de uma sociedade ocidental. O seu método de investigação
consistia em recolher amostras de sangue destes primatas no seu ambiente natural com o objetivo
de analisar a relação entre os níveis hormonais e o stress.
Entre as conclusões obtidas por Sapolsky, uma das primeiras foi a identificação entre uma
ligação entre o stress e a hierarquia social dos babuínos. A posição hierárquica de um babuíno
determinava o nível de stress hormonal presente no seu sistema. Ou seja, os machos com posição
hierárquica possuiriam um nível de stress hormonal baixo, e os machos com posição inferior um
nível muito mais alto. A outra descoberta foI que os indivíduos com uma posição mais baixa
possuíam ritmos cardíacos mais elevados e maior pressão arterial.
O professor Michael Marmot liderou um estudo na Grã-Bretanha denominado Whitehall, na
qual monitorizava a saúde de mais de 28 000 pessoas ao longo de 40 anos com empregos estáveis.
Comparando as opiniões sobre o trabalho de dois indivíduos em que um é um advogado que não
tem um estatuto muito elevado no seu departamento e outro indivíduo que possui um cargo elevado
no governo, notamos que este último tem uma opinião muito mais satisfatória sobre o seu emprego
que o primeiro, afirmando que o seu trabalho não é stressante, e que o primeiro admite sofrer de
stress crónico.
55

Notamos então aqui uma ligação entre o estatuto social e o risco de doença e longevidade.
Comparando as situações, um ser humano com um estatuto inferior é subordinado por outro
indivíduo com um estatuto superior, o mesmo acontece entre os machos alfa no grupo dos
babuínos, que subordinam os machos do seu grupo.
O stress e o seu “banho” de hormônios aumentam a pressão arterial, danificando as paredes
das artérias tornando-as um verdadeiro depósito de placas bacterianas, o que pode condenar a
chegada do sangue ao coração. O efeito do stress não se fica apenas pelas doenças estomacais
ou cardiovasculares, mas também pode afetar as células cerebrais. McEwen afirma que o stress
pode ter dois efeitos na memória: O stress crónico pode alterar os circuitos cerebrais, o que pode
resultar na perda de capacidade de nos lembrarmos de coisas que necessitamos e o stress agudo
muito intenso pode resultar na impossibilidade de nos lembrarmos, durante curtos períodos de
tempo, de coisas que sabemos perfeitamente.
O stress está também relacionado com o modo como acumulamos gordura no nosso corpo:
os indivíduos com uma posição social mais baixa têm uma maior probabilidade de terem gordura
nos abdómenes do que os indivíduos com uma posição social mais elevada. (fato relacionado aos
aumento crônico de cortisol).
No entanto, o efeito do stress pode ser ainda mais profundo, afetando os cromossomos. Os
cromossomos estão revestidos por uma estrutura genética denominada por telómeros, que têm
como função impedir as extremidades dos nossos cromossomos se desintegrarem. Esta estrutura
vai tornando-se mais curta conforme a idade, no entanto, o stress pode aumentar a aceleração da
diminuição dos telómeros. Ou seja, um indivíduo com uma menor posição social, com uma elevada
taxa de stress, vai possuir telómeros mais curtos. Blackburn descobriu então que o comprimento
dos telómeros está diretamente ligado à quantidade de stress a que uma pessoa está sujeita e ao
número de anos que já se vive sob esse stress.
Um acontecimento marcou os estudos de Sapolsky, tendo efeitos profundos na sua
investigação. O primeiro grupo que estudou foi vítima de uma epidemia de tuberculose, quase
metades dos machos do bando morreram. Mas algo curioso despertou a atenção de Sapolsky:
Todos os machos alfas tinham morrido, o bando tinha sido, assim, transformado. Os machos que
sobreviveram foram aqueles com maiores relações sociais e os mais simpáticos com as fêmeas, o
que transformou completamente a atmosfera do grupo, uma nova cultura babuíno havia surgido:
As relações sociais eram maiores, o ambiente era mais positivo e os níveis de agressão eram
menores.
Os problemas como pressão arterial já não eram tão numerosos, o mesmo acontecia com
os problemas relacionados com a química cerebral. Não é só a posição social, é o que a posição
social significa na sociedade.
56

Resiliência
Termo emprestado da física: capacidade de um material retornar à forma original após uma
tensão ou pressão aplicada a ele.
Habilidade de se adaptar com sucesso ao estresse/trauma.
Respostas psicológicas e fisiológicas adaptativas ao estresse.

Fatores de resiliência
Apoio social
Contato físico

Neuropeptídeo Y (NPY) e resiliência ao estresse


Ratos com super expressão de NPY tem menos degeneração neuronal causada pelo
estresse. Pessoas deprimidas apresentam menores níveis de NPY, assim como indivíduos com
transtorno de estresse pós-traumático.
Estratégias de enfrentamento
Tentativas de usar estratégias cognitivas e comportamentais para administrar e regular as
pressões, demandas e emoções geradas por estresse.
Estratégias de envolvimento (positivas)
1. Resolução de problemas
2. Reestruturação cognitiva
3. Expressões de emoções
4. Apoio social
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Estratégias de distanciamento (negativas)


1. Evitar o problema
2. Pensamentos ilusórios
3. Auto-crítica
4. Evitação social

CONCLUSÕES
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PSICOBIOLOGIA DO BEM-ESTAR
um resumo de Renan Alves a.k.a. Renetter

"O mundo não está preparado para isso. É algo muito além do nosso tempo, mas as
leis vão prevalecer, e um dia farão um sucesso triunfante"
Nikola Tesla

Bem-estar: complexo estado psicossomático caracterizado pela sensação de satisfação


plena, segurança, CONFORTO, tranquilidade, prosperidade, FELICIDADE.
É importante ressaltar que a saúde mental é indispensável para um estado de bem-estar.

Definição de saúde pela Organização Mundial de Saúde - OMS (WHO):


"Health is a state of complete physical, mental and social well-being and not merely the
absence of disease or infirmity." (1948)

Assim, entende-se que saúde e bem-estar são estados interdependentes.


O estado de bem-estar é resultado da interação de vários aspectos relacionados às
necessidades humanas básicas:
 Disponibilidade de comida;

 Saúde;

 Habitação;

 Estabilidade econômica;

 Meio ambiente;

 Aspectos psicológicos etc.

Dessa forma, situações estressantes (fome ou falta de comida, enfermidade, falta de abrigo,
problemas financeiros, ambiente insalubre, problemas psicológicos e de saúde mental), que geram
pressão sobre as necessidades humanas básicas, são agentes que afastam o indivíduo do estado
de bem-estar.
Assim como o comportamento, o estado de bem-estar é determinado por genética e
ambiente, bem como pelas atitudes do indivíduo.
O componente genético é herdado dos pais e sua expressão modulada epigeneticamente
ao longo da vida, especialmente por meio da ação do ambiente sobre o indivíduo.
O ambiente, que nesse caso pode ser tratado como "estilo de vida", representa o conjunto
de fatores que afetam a percepção do indivíduo sobre o ambiente, interferindo em sua expressão
59

gênica e em seu comportamento (aqui mais facilmente tido como atitudes). Como exemplos desses
fatores temos os sócio-demográficos, o "lugar" que o indivíduo ocupa na sociedade, os econômicos,
a saúde (em tempos passados e atualmente), as relações pessoais, o trabalho, as práticas de lazer,
habitação, educação, dieta, sono, prática de exercícios físicos, práticas contemplativas (no caso de
pessoas que sentem muita dificuldade em exercitar-se).
Fatores determinantes do bem-estar.
Dessa forma, tem-se que diversos
sistemas se conectam e interagem com o
indivíduo para a determinação do bem estar.
Ambiente -> indivíduo (muda atitude e
percepção)
60

Representações esquemáticas da Teoria Ecológica do Desenvolvimento Humano (Urie


Bronfenbrenner). Ilustra as influências mútuas a que são submetidos cada um dos indivíduos em
suas formações humanas.
Várias práticas foram desenvolvidas ao longo dos séculos, com vista em promover sensação
de bem-estar para as pessoas. Dentre essas, atualmente uma das mais conhecidas e estudadas é
o "mindfulness", desenvolvida pelo professor emérito da Escola Médica da Universidade de
Massachusetts, Jon Kabat-Zinn. Mindfulness, ao contrário do que possa ser sugerido pelo nome,
não é um estado de mente cheia de pensamentos, mas um estado de atenção plena às sensações,
aos pensamentos, às emoções do momento presente, sem julgamentos e buscando afastar-se de
preocupações com o tempo passado ou futuro.
O mindfulness trata-se, em suma, de uma prática de observação de si próprio, dos próprios
pensamentos e do próprio ato de pensar (focado no agora).
Existe um protocolo associado ao mindfulness, o Mindfulness-Based Stress Reduction
(MBSR), que padroniza algumas técnicas com objetivo de promoção do bem-estar. É constituído
de práticas formais, como o body scan (inspeção do próprio corpo), lovingkindness (uma espécie
de meditação baseada em compaixão, cuidado, ternura), meditação sentado, meditação na
montanha etc. Também possui práticas informais como o urge surfing (ou surfando na fissura),
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"PARAR" para respirar (e atentar-se à própria respiração, frequência, profundidade, som, sensação
de ar entrando e saindo do peito), executar mindfulness, ou atenção plena, em pequenas atividades
diárias etc.
Há estudos que indicam associação entre o MBSR e a melhoria da qualidade de vida em
pessoas doentes. Para alguns casos, como o da fibromialgia, o mindfulness se mostrou totalmente
ineficaz, para alguns outros espera-se ainda avaliar os efeitos e para outros foi comprovada a
eficácia da prática. OBS: as práticas de mindfulness NÃO levam à diminuição da sensação de dor,
desconforto ou tristeza, mas melhoram a capacidade do indivíduo em lidar com e perceber essas
sensações desagradáveis.

Notam-se, durante essas práticas, efeitos diretos e indiretos:


 Observação -> experiência direta (sensações, pensamentos, emoções)

 Associações secundárias -> associações (reações, julgamentos, sofrimento)

De forma bastante simplificada, temos uma oposição direta entre bem-estar e sofrimento.
Um estado de sofrimento é um impedimento à sensação de bem-estar. O sofrimento pode ser
primário, decorrente de processos mais concretos (dor, desconforto, tristeza), ou secundário,
relacionado à forma como reagimos ao sofrimento primário (pensamentos e sensações).
Existem atitudes intencionais que buscam reduzir o sofrimento. Entre elas, podem-se citar:
 Psicologia positiva;

 "Coping";

 Gratidão/generosidade;

 Empatia;

 Compaixão.

Empatia se refere à capacidade de enxergar o sofrimento alheio e agir em favor da


interrupção desse sofrimento.
O mecanismo biológico de ação dessas atitudes intencionais baseia-se na liberação do
neurormônio ocitocina, o chamado hormônio do amor e da felicidade. É interessante notar que os
conceitos de felicidade e bem-estar são muito próximos, talvez interdependentes, e às vezes
fundidos e tratados como uma única entidade.
Por fim, deixamos uma sugestão de prática simples e que pode proporcionar bem-estar:
62

Aluno meditando para superar o segundo ano (cujo fim, enfim, aproxima-se).
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calma que vai acabar *foto de god monsoon abençoando e treinando mindfulness*