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§ 6 - AS CARACTERÍSTICAS DA FÉ EM JAVÉ

Tradição veterotestamentária: Adoração a Javé inicia no decurso do evento do


Sinai.

(Exclusão dos deuses. Exclusividade de fé em Javé) Não se pode estabelecer


época, lugar e acontecimento.

 Mas ambas são anteriores a terra de altura, e devem ser colocadas antes da
religião de Israel também nesta t. Cult.

Devem por tanto, seguir a tradição do evento Sinai.

a) O nome Javé.

1) EU SOU JAVÉ

1. Auto-revelação de Deus – Compreensão veterotestamentária de Deus.

• Deus e o ser humano: Deus fala, o ser humano ouve.

• Deus se da a conhecer através do seu nome – o ser humano pode invocá-lo.

• Auto apresentação: Gn.46.3; Ex.3.6.6.2; 20.2 – Promessas de Deus ou


incumbências ao ser humano.

• Profetas prometem para o futuro o conhecimento de “que eu Javé (Is.


43.10.45.6)

• O relacionamento entre Deus e o ser humano é diferente da história das


religiões, não há nelas uma manifestação pela palavra para que o ser humano
ouça. A palavra da revelação era um elemento constitutivo da religião de Israel.

2.“Eu sou Javé” veio do politeísmo.

• Apresentação da divindade pelo nome.

Conhecimento do interlocutor.

Exemplos: (Gn.17.1, Ex6.2 P com 45.3)


 NOME DA DIVINDADE – define e distingue de outras, permite falar dela e
com ela, a torna pessoa denominada que age, assim, os mitos falam sobre os
deuses e seus feitos.

• Na história das religiões, vem 1° uma fase “mágica”, na qual o poder divino
ainda não tinha existência pessoal, depois, quando Israel entra na história, o
Antigo Oriente já estava na idade do mito.

• Auto-apresentação da divindade:

-auto-recomendação

-presunçosa autoglorificação (vanglória diante de outra)

 Realizações e qualidades vinculadas ao nome da divindade faz surgir a


autoglorificação. Ex. do Dêutero-Isaías com formulação semelhante: Is. 44.24;
41.4; 45.7; Sl. 46.11.

Por causa das complementações, a auto-apresentaçã0 se encontra em diferentes formas e


com significado distinto a Antiguidade.

3.No Antigo Testamento fórmula jaz não é para apresentar alguém totalmente
desconhecido, e muitas vezes se refere à história de Deus com Israel, por exemplo, “eu”
divino inicia o Decálogo: “Eu sou Javé’.

A conexão entre auto-apresentação divina e anúncio de mandamentos parecia ser


desconhecida no mundo entorno de Israel, mas provavelmente não é original,
vejamos o decálogo:

• 1° e 2° mandamentos iniciam com o “eu” divino.

• 3° mandamento Deus parece na terceira pessoa.

• As instruções éticas que seguem são posteriormente transformadas em


palavras de Javé.

• Ele é composição de diversos elementos antigos reunidos em pequenas


séries de mandamentos, e de ampliações posteriores.

• As versões de Ex.20 e Dt. 5 possuem diferentes, recentes e com revisões.

• Foi enriquecido pouco a pouco.

• Os acréscimos mais antigos são mais difíceis de destacar.


• A idade da composição é controvertida.

• Citações proféticas formas preliminares do decálogo ou uma seleção da


totalidade já existente?

• Toda a coleção de leis pressupõe a sedentariedade de Israel na terra de


cultura, da mesma forma o decálogo que reuniu os mandamentos para
definir a relação entre Deus e o ser humano.

• A versão é temporal, sem datação.

• Particularidades lingüísticas recentes e a estruturação mostram


elaboração recente.

 Assim, só no passar do tempo os dez mandamentos alcançaram o lugar


predominante que agora ocupam no Pentateuco.

4. “Eu sou Javé” não estava ligado desde o início à proclamação da lei, mesmo que
fosse anterior ao Decálogo.

Ao contrário da tradição dos patriarcas, a tradição mais antiga do Sinai também


não contém a revelação do nome.

Então, não se atesta nesta época antiga a expressão em que Javé se dê a conhecer
de maneira nova a um grupo revelando seu nome.

Na verdade cada vez mais a “auto-apresentação” de Deus tornou-se o verdadeiro


centro do acontecimento do Sinai, e finalmente a revelação foi entendida como
auto-revelação:

• “eu” – alvo da história.

• Os mandamentos, como no Decálogo, foram relacionados com esse “eu”.

A fórmula auto-apresentação raramente é encontrada. Os profetas mais antigos quase


não usam Ezequiel e Dêutero-Isaias empregam com freqüência, além disso, se difundiu
mais na linguagem sacerdotal de época exílica.

A forma de auto-apresentação deve ter surgido na terra de cultura, pois a tradição


veterotestamentária não a remonta claramente aos primórdios, e mesmo existindo
paralelos nos povos vizinhos, a época do sedentarismo deve ser o momento onde Israel
adotou uma expressão das religiões estrangeiras para distinguir seu Deus dentre outros
deuses, expressando a singularidade de sua fé.

2) O NOME “JAVÉ”
1. O nome pode revelar algo do modo de ser da divindade, suas características
ou lugar de suas aparições.

O nome de “Javé” revela algo do modo de ser do Deus de Israel?

 O significado pode vislumbrar a origem de Deus, mas não expressa algo da sua
atuação na história.

 Origem e essência não são obrigatoriamente iguais.

 Importância tecnológica: Mais do que o significado do nome é o universo de


conceitos e revelações de Deus que seus adoradores associam com seu nome.
Entretanto, como o próprio A.T faz uma tentativa de interpretação (Êx. 3.14, Os.
1.9) seria precipitado concluir que uma explicação filológica do nome seria
teologicamente indiferente.

• “El” “ou” Baal” – designação genérica para “deus” ou “senhor” e nome próprio
de determinado deus.

• “Javé” – é somente nome próprio (Os.12.6; Ex.15.3; Is. 42.8). Mais tarde, o
judaísmo evitou pronunciar o nome próprio de Deus.

2. Formas reduzidas do nome “Javé”.

 “Yahu”: papiros de Elefantina em “Yirmeyahu” = Jeremias e outros.

 “Yah”: Textos poéticos como Êx. 15.2 em “Halelu-yah” = aleluia.

 “Yo”: “Yo-natam” = Jônatas.

“Yah” é uma abreviação do tetragrama sagrado que é atestado não só no A.T


(Êx. 3.14; Jz. 5. 4s) como também em inscrições, p. ex; na estela do rei
Mesha de Moavel (840 a.C).

O nome “Javé” provavelmente não está limitado a Israel e além disso, é mais
antigo que 6 A.T, vejamos algumas comparações.

• Em nome de pessoas da Síria o uso de Ya-(Ebla, 3° milênio a. C; Ugarit)

• Ya’u-como elemento teofórico (inscrições assírias do sec.8).

• Yw - Mencionado nos textos mitológicos de Ugarit como filho do deus El,


possivelmente um outro nome usado para designar o deus do mar “Yam”,
mas de modo nenhum pode-se deduzir que “Javé” antigamente teria sido um
deus cananeu, um “filho de El”.

• Yawi – elemento verbal semelhante ao nome “Javê” usado em nomes


amoríticos para pessoas de Mari, nomes estes que expressavam gratidão ou
confiança na proteção da divindade. Será esta uma revelação com “Javê”? O
desejo de quem dá esse nome teria se tornado designação e essência de um
deus específico e, assim, nome próprio desse um Deus: “ele é / se mostra/
age”?

• Yagut – “ele ajudará”, ou Ya ‘uq – “ ele protegerá” – ambos da Arábia pré-


islâmica como nomes de deuses.

• “terra dos Shasu Yhw’” – menção de material extra-bíblico, listas egípcias da


época pré-israelita designando uma montanha, assim, combinando com as
informações veterotestamentárias nas quais “ Javé” aparece como Deus do
monte de Sinai. Estaria aqui a pátria do nome “Javê”?

3. O nome “Javê” passou por diversos estudos e sugestões etimológicas com


resultados e significados distintos, mas em resumo, a interpretação mais
simples é a mais plausível (Êx. 3.(4): ele “é/ se mostra/ atua”.

O nome de Deus na 3ª pessoa, o esforço do judaísmo em evitar o nome,


mostra um mistério em torno do Deus Javé, que se revela e se torna acessível
em seu ser ou agir, mas não se deixa apropriar por uma imagem divina e
protege seu nome do mau uso.

4. O nome “ele é/ está” sofre, em Êx. 3.14, uma pequena transformação ao ser
integrado no discurso direto do Deus que se revela. Além disso, substitui o
aramaico (Dt.26.5), ou melhor, a forma mais antiga conservada no aramaico,
pelo hebraico. A partir daí torna-se compreensível a considerável diferença
entre nome (Yahwe) e sua explicação (‘ehye).

3) JAVÉ-DEUS DOS MIDIANITAS?

1. É possível que o nome Javé seja anterior a Israel (Gn. 4.26; 9.26).

Diversos indícios apontam para a região ao sul da Palestina, na qual


habitavam também os midianitas (1.Rs.11.18).

Independente dos argumentos extra-bíblicos, o AT fornece razões para tal


nexo através de uma série de textos: O sogro de Moisés era midianita (Êx.
2.16; 3.1), o casamento de Moisés (Êx. 2.2), a vocação no monte de Deus na
região dos midianitas (Êx. 3.1), o encontro no deserto (Êx. 18. 1ss), e a
companhia em direção à terra de cultura (Nm. 10.29ss).

Tomadas isoladamente essas indicações significarão pouco, mas juntas


dificilmente se haverá de considerar casual estes indícios.

2. Antes da perícope do Sinai, encontra-se um relato de um sacrifício conjunto


do sacerdote midianita e dos israelitas (Êx. 18. 1-12) Êxodo 18, por si só, é
demasiado frágil para provar que Israel adotou o culto a Javé dos
midianitas, mas o capítulo é um elo da corrente de argumentos. Já que o
sacerdote sacrificou a seu deus, é plausível supor que os midianitas
originalmente tenham sido adoradores de Javé.

3. As expressões “montanha de Deus” deve ter sido a mesma localização do


Sinai, lugar de encontro com os midianitas.

• “Montanha de Deus” – preferência Eloísta peço termo “Deus”

• Qual deus foi adorado, caso não tenha sido o contexto pressuposto, Javé
do Sinai?

• Se as afirmações veterotestamentárias são a mesma montanha sagrada,


então temos relatos avulsos do evento que foi preservado
fragmentadamente: Sinai (Êx. 19;24) e montanha de Deus (Êx 18).

4. Do ponto de vista histórico-traditivo, o capitulo da sarça permanece abscuro


de modo que é difícil tirar conclusões históricas dele.

O máximo que pode ocorrer, na narrativa de vocação de Moisés, é uma


lembrança de que Israel adotava a adoração a Javé em território midianita.

5. Uma narrativa, um tanto obscura, talvez contenha a comparação da adoração


a Javé por parte dos midianitas – Ex. 4.24 – 26.

O fato de uma mulher, com uma faca de pedra, efetuar a circuncisão é muito
primitivo, não atestado em nenhum outro lugar no AT,

Existe a possibilidade de que os nomes do Deus de Javé e da filha do


sacerdote midianita Zípora façam parte desta tradição, se não desde sempre,
ao menos desde muito cedo.

6. Pelo fato do AT conhecer relações anteriores de Javé com os quenitas, as


conjecturas sobre a origem da adoração a Javé são dificultadas: Gn.4 revela
isso.

• Caim, antepassado dos quenitas, usava um sinal de Javé (Gn. 4.15), que
expressa propriedade e proteção divinas.

• Entre os quenitas (1Cr. 2. 55) são contados os recabitas, que se


empenham de maneira dedicada por Javé (Jr. 35; 2 Rs. 10. 15ss)

• Os quenitas foram adoradores de Javé, tornando-se mais fácil entender


que eles tenham sido contados entre os integrantes de Judá (1°SM 30.29)

• A narrativa de Gn.4 pressupõe igualdade e desigualdede dos quenitas –


comunhão na fé e diferença no modo de vida.
• Com a inserção no marco da história dos primórdios a narrativa é
ampliada para torna-se um evento geral e exemplar da humanidade:
Quem assassina uma pessoa está matando seu irmão.

7. No geral, o AT ainda conserva lembranças obscuras segundos as quais, por


um lado, israelitas e midianitas tomavam parte num culto comum (Êx. 18.12) e, por
outro lado, os quenitas podem ter sido adoradores de Javé (Gn.4)

De qualquer modo a fé em Javé só teve efeito histórico em Israel.


Desconhece-se como teria sido a possível adoração a Javé pelos quenitas ou
midianitas e o que essas tribos relacionavam ao nome “Javé”.

Os midianitas ou quenitar desapareceram, ao passo que Israel, por sua fé, se


manteve e fez história. Nesse sentido, aplica-se também a “Javé” o que se
pode constatar de forma geral em termos histórico-religiosos: “ a pergunta
pela origem dos deuses não conduz à resposta sobre a sua essência”( Carl
Ratschow).

4) JAVÉ – DEUS DE MOISÉS?

Parte dos pesquisadores mais antigos e mais recentes considera Moisés o criador
da compreensão veterotestamentária de Deus.

Entretanto, a confusa situação histórico-traditiva não permite, senão com fortes


reservas, esse recurso a um individuo.

Épocas posteriores compilaram e retocaram a tradição, encobrindo densamente o


passado remoto. O próprio AT menciona Moisés raras vezes fora do Pentateuco
(Jz. 1.16; 4.11; Jr. 15.1; Is. 63.11s.; Sl.90.1; 103.7; Mq.6.4; Os. 6.5 e outras), de
modo que o questionamento efetivamente só pode recorrer ao Pentateuco.

 Múltiplas tarefas de Moísés:

• Ele anuncia ação salvífica de Deus (Êx. 3.16s.), segundo a


exposição javista;

• Ele atua como salvador (Êx. 3.10ss.), para a camada eloísta;

• Nos códigos legais ele é o porta voz (Êx. 21.1; cf.20.19; 24.3s e
7; Dt.5ss.)

• Segundo o Escrito Sacerdotal, ele regulamenta a vida de culto da


comunidade ( Êx. 25ss.).

Pela a mediação dos midianitas, talvez especialmente de seu sogro Jetro


(sacertode- Êx. 18.12), Moisés veio a conhecer a fé em Javé e a levou aos israelitas que
viviam no Egito submetidos ao trabalho forçado?
Se tais reflexões estiverem baseadas na realidade, tornasse compreensível por que
Moisés assume, na tradição mais recente, um papel constitutivo para fé em Javé.

De momento, porém, a pesquisa sobre Moisés dificilmente pode fazer mais do que
ponderar diversas possibilidades. Não é possível evidenciar que o aspecto essencial da
fé em Javé – que se pode definir com o primeiro mandamento – seja proveniente das
experiências que esse homem teve com Deus. Assim, a historicidade de Moisés é
insofismável; Sua pessoa não é controvertida, ao passo que sua obra o é.

B) A EXCLUSIVIDADE DA FÉ: O PRIMEIRO MANDAMENTO.

1. A exclusividade da fé em Javé é distinta de “monoteísmo”.

• No primeiro mandamento a exigência básica de reconhecer unicamente a


Javé não monoteísta, como, aliás, o Deus “Javé” se distingue de outros deuses
já por seu nome.

• “Monoteísmo” – designa a fé num único deus, que exclui a existência de


outros.

• “Monolatria” – significa que só se adora um deus, sem que a existência de


outros seja negada.

• “Henoteísmo” – quer dizer que o deus adorado (momentaneamente) é tido


como o deus supremo ou único; pode ser alternada com outros deuses.

• “Henolatria” – é uma adoração temporariamente ilimitada de um determinado


deus (protetor) no conjunto de uma concepção politeísta.

Onde está o limite entre o monoteísmo “teórico” e o monoteísmo “prático” na


adoração de Deus?

2. De modo geral, a tolerância a divindades estrangeiras e seus cultos era algo


natural no Antigo Oriente. O politeísmo e o sincretismo se correspondem. Por
não se conhecer uma exclusividade da fé,também não havia, a rigor,apostasia
por adesão a outras divindades.

Também segundo indicações do AT, em épocas mais antigas, quem ia para uma
outra terra também passava a adorar o deuses dessa terra ( Rt. 1.15ss.; 1Sm. 26.19;
2Rs. 5.17s.; Dt. 4.27s.).

3. Quanto ao conteúdo e à história da exclusividade da fé, podem-se distinguir


cinco estágios do conhecimento da fé:
a) O testemunho da solicitude exclusiva do Deus Javé para com um grupo.

b) A percepção dos profetas dos séculos 9, 8 e 7.

c) A formulação da relação com o Deus uno em uma norma jurídica ou


exigência.

d) A confissão à “unidade” de Deus – Shema (Dt. 6.4).

e) A formo monoteísta – ou os traços monoteístas - da confissão.

4. A realidade de Israel de forma alguma correspondia, sempre e em toda parte, à


exclusividade da fé. O próprio AT confessa abertamente que a fé esteve exposta
a tribulações e nem sempre conseguiu sustentar a exclusividade.

5. Em suma, a exclusividade da fé ou a expectativa de dedicação integral e indivisa


não é, de maneira nenhuma, moldada em linguagem uniforme, mais muito
diversificada.

6. A importância da exclusividade não é dada desde o princípio. Somente no


decorrer da história surgem as implicações e as conseqüências.

7. Talvez a adoração exclusiva de um Deus também tivesse conseqüências sociais,


apesar deste aspecto da fé praticamente nunca ter sido investigado e dificilmente
pode ser comprovado.

8. Em suma, a exclusividade da fé teve conseqüências decisivas. Por expressar e


conservar a peculiaridade de Israel, o primeiro mandamento com razão
determina amplamente o AT.

O primeiro mandamento não é nenhum dogma que, uma vez proferido, vale para
sempre. Pelo contrario, em cada nova situação, ele necessita ser reinterpretado e
reapropriado. O mesmo vale para o segundo mandamento. A fé no Deus único
não é uma condição alcançada uma vez por todas, que gerações futuras herdam
do passado. Ela é, pelo contrário, exigência permanente para o futuro.

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