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QUE horas ela volta? Direção: Ana Muylaert. Produção Executiva: Claudia Buschel.

Direção
de Fotografia: Barbara Alvez. Direção de Arte: Marquinho Pedroso. Produtor: Fabiano Gullane;
Caio Gullane; Debora Ivanov e Gabriel Lacerda. Roteiro: Ana Muylaert. [S.I.]: Globo Filmes;
Gullane; África Filmes; Pandora, 2015.

Que horas ela volta? é um drama angustiante com roteiro e direção de Anna Muylaert.
A diretora já possui uma grande participação em trabalhos na televisão e cinema brasileiro,
Anna formou em comunicação na USP e logo participou de criação de programas infantis no
SBT, TVE Brasil e TV Cultura. No cinema ela possui no currículo obras premiadas como “O
ano em que meus pais saíram de férias” e “Durval Discos”, mas com certeza “Que horas ela
volta?” foi a maior criação da roteirista. O longa conta com grandes atores do nosso cinema
como Regina Casé (Val), Camila Márdila (Jéssica), Michel Joelsas (Fabinho), Karine Teles
(Bárbara), Lourenço Mutarelli (Carlos), Helena Albergaria (Edna), Luis Miranda (empregado)
e Theo Werneck (motorista), com produção de Gullane, Africa Filmes e Globo Filmes; Brasil,
2015, 1h51’.
O longa conta a história da pernambucana Val, que deixa sua filha no Pernambuco com
o pai e vai em busca de melhores condições financeiras em São Paulo. Na capital paulista ela
encontra emprego como empregada em tempo integral na casa de uma família rica da zona sul
paulista. Val passa treze anos trabalhando nessa residência cuidando desde a infância do filho
da família desenvolvendo por este um sentimento materno, o mesmo não sendo possível com a
sua filha, o que causa uma angustia interna no seu ser. Toda essa estrutura é abalada quando a
filha de Val resolve ir para São Paulo a fim de fazer vestibular para arquitetura na FAU USP, a
garota ao chegar na casa não age conforme o protocolo da residência o que gera muita tensão
social entre a sala e a cozinha e no meio desses desentendimentos Val terá que escolher se
defende os ideias dos seus chefes em contraponto dos desejos de sua filha.
“Que horas ela volta? ” veio reacender o enorme potencial cultural do cinema brasileiro
que estava vazio desde o primeiro “Tropa de elite” sendo esse intervalo de tempo sendo
preenchido por tenebrosas comédias chulas quase sempre protagonizadas por Fabio Porchat
e/ou Bruno Mazzeo. A magnífica obra de Anna Muylaert vem de forma bastante madura e
incisiva tocar nas feridas das relações trabalhistas do mundo das empregadas domésticas nas
grandes cidades, no caso São Paulo. Na obra é possível encontrar traços sociólogos de grandes
livros da última fase modernista do Brasil, em “Que horas ela volta?” pode-se verificar nas
entrelinhas subtextos de Casa Grande e Senzala e mais incisivo Sobrados e Mocambos, ambos

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de Gilberto Freyre além de Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda. Sintetizando essas
ideias, nota-se claramente nas relações sociais apresentadas no filme o novo tipo de família
patriarcal urbana, representada em Sobrados e Mocambos onde Freyre relata como a sociedade
brasileira mudou depois da chegada de Dom João VI ao Brasil, havendo uma inversão dos
costumes rurais para a cidade no qual os filhos de famílias ricas começam a irem estudar na
Europa e houve um enorme crescimento do consumo cultural europeu no Brasil com o advento
do teatro e costumes trazidos pela família real. Nesse contexto, apesar da mudança da alta
sociedade brasileira da zona rural para a urbana uma coisa permaneceu igual, a relação da
escrava da casa grande com os seus senhores, essa ideia é brilhantemente representada no livro
Casa Grande e Senzala pelo qual ele ressalta a presença da negra em todas as fases na vida de
um homem branco, seja na amamentação, cuidados básicos até a primeira relação sexual e isto
de maneira análoga percebe-se no cotidiano das empregadas domesticas na nossa sociedade
atual, aonde no filme é representada pelo sentimento materno desenvolvido pela personagem
de Regina Casé com o filho da família e através dos instintos sexuais que a filha da empregada
desperta nos homens da casa, com descrevido na obra de Freyre.
[…] tudo aquilo que constitui uma sincera expressão da vida… na ternura, na
mímica excessiva, no catolicismo em que se deliciam nossos sentidos, na
música, no andar, na fala, no canto de ninar menino pequeno… Da escrava ou
sinhama que nos embalou. Que nos deu de mamar. Que nos deu de comer, ela
própria amolengando na mão o bolão de comida. Da negra velha que nos
contou as primeiras histórias de bicho e de mal-assombrado. Da mulata que
nos tirou o primeiro bicho de pé de uma coceira tão boa. Da que nos iniciou
no amor físico e nos transmitiu, ao ranger da cama de vento, a primeira
sensação completa de homem. (FREYRE, 2005. p. 369).

Essa relação próxima entre a empregada e a família é constantemente relatada de


maneira familiar, a patroa constantemente enfatiza que a doméstica é como se fosse da família,
todavia, desde que durma no quarto abafado dos fundos, que almoce separadamente depois que
todos já comeram, que esteja sempre disponível para realizar as atividades mais simples do
cotiando, como pegar um refrigerante ou um sorvete. Essa falsa cordialidade apresentada no
filme foi escrita no livro Raízes do Brasil, mais especificamente no capítulo V “Homem
Cordial”, de Sérgio Buarque, onde o autor afirma na falsa cordialidade do brasileiro que utiliza
da sutileza e laços familiares para conseguir seus objetivos de cunho pessoal e intransferível.

No Brasil, pode-se dizer que só excepcionalmente tivemos um sistema


administrativo e um corpo de funcionários puramente dedicados a interesses
objetivos e fundados nesses interesses. Ao contrário, é possível acompanhar,
ao longo de nossa história, o predomínio constante das vontades particulares

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que encontram seu ambiente próprio em círculos fechados e pouco acessíveis
a uma ordenação impessoal (Holanda, 1995, p. 146).

O roteiro é baseado na vida da Val (Regina Casé) que é uma doméstica que mora na
casa dos patrões e tem uma filha que ela não vê a mais de dez anos que mora no Pernambuco
com o pai. O filme todo praticamente se passa na perspectiva da empregada, sendo o lado de
dentro da porta da cozinha o grande divisor das classes sociais apresentadas na película. Bárbara
(Karine Teles), que é a patroa de Val, fala constantemente que considera a personagem de
Regina Casé como se fosse da família, mas quem realmente mais aproxima dessa afirmação é
Fabinho (Michel Joelsas), filho de Bárbara, mas que desde criança foi criada por Val,
desenvolvendo por ela um sentimento materno devido a sua mãe passar muito tempo
trabalhando fora. Neste contexto familiar dos patrões nota-se a formação do novo núcleo
familiar totalmente contrária as bases da família patriarcal, pois no filme a mãe trabalha fora e
conduz as regras da casa enquanto o pai Carlos, (Lourenço Mutarelli), é aposentado devido a
uma herança e submete as vontades da mulher.
Essa hierarquia social se mantém estável até o momento em que Val recebe uma ligação
da filha Jéssica (Camila Márdila) dizendo que passará uns dias com a mãe a fim de fazer um
vestibular numa conceituada faculdade de São Paulo. Jéssica, diferente da mãe, representa a
nova geração da classe média baixa que ascendeu socialmente nos últimos anos devido as
políticas públicas, a garota teve a oportunidade, embora ainda deficiente, de concluir seus
estudos básicos e almeja o ensino superior. Neste contexto, e vivendo em modelo de sociedade
totalmente diferente no interior de Pernambuco, a garota ao chegar na capital paulista logo não
entende o fato da mãe morar no trabalho e logo se incomoda com as condições que sua mãe é
tratada na casa dos chefes. Ao notar a enorme diferença da vida que os patrões de Val possuem
para as condições que são impostas aos empregados, Jéssica desenvolve uma rebeldia a fim de
contrariar sua mãe por não entender o modo como Val é tratada na casa. A partir desse momento
o filme começa a seguir uma nova trajetória simbolizando o início da revolução social de
Valéria. Logo quando chegou Jéssica despertou um sentimento de atração em Carlos e este
começa a corteja-la introduzindo a garota cada vez mais no meio familiar dos chefes o que
causa uma enorme revolta em Bárbara que considera a menina folgada e intrusa, uma cena
marcante que explica esse fato é quando a esposa de Carlos manda esvaziar a piscina da casa
com a desculpa que viu um rato na água depois que Jéssica e Fabinho tomaram banho lá. Essa
tensão vai crescendo até o dia do vestibular, coincidentemente Fabinho e Jéssica vão prestar a
prova na mesma instituição de ensino e esse fato é um dos grandes pontos do filme, a
possibilidade do filho de uma família muito rica moradores do Morumbi buscar uma vaga numa
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universidade nas mesmas condições da filha de uma empregada doméstica descendente do
interior de Pernambuco e quando sai o resultado da primeira fase a cena em que Val comemora
o sucesso da filha em frente ao fracasso do filho de Bárbara é umas das mais icônicas da história
representando a primeira vez que uma empregada encontrou-se numa posição superior à dos
seus patrões. Deste ponto em diante Valéria começa a se valorizar mais como pessoa e quando
descobre que é avó ela se sente na necessidade de se libertar das correntes do seu trabalho a fim
de cuidar e reaver o tempo perdido do contato com sua filha, o ponto alto da sensação de
liberdade de Val é quando pela primeira vez ela entra na piscina da casa, mesmo que quase
vazia, esta cena representa perfeitamente a libertação social da nordestina e a partir desse
momento ela começa a traçar uma nova história para a sua vida de um jeito que ela jamais
sequer cogitou pensar antes de sua filha vir para São Paulo.
O longa retrata de maneira bastante angustiante a questão social entre ricos e pobres
presentes na sociedade brasileira, apesar de não ser um tema novo e original a forma como essa
relação é apresentada é o diferencial desse filme. A diretora passa para o público sempre a
posição do ponto de vista da empregada, como pode ser visto nas cenas constantes em que Val
fica ouvindo a conversa dos seus patrões atrás da porta da cozinha. A obra de Muylaert consegue
de maneira enfática incomodar muita gente que assiste o filme pois ele representa de maneira
escatológica as relações das patroas e domesticas presente em quase todas casas da classe média
alta brasileira.
O filme com certeza é umas das melhores obras cinematográficas do cinema brasileiro
dos últimos anos e vale a pena ser assistido, vale ressaltar as atuações de Regina Casé e Camila
Márdila que passam um sentimento verdadeiro de angustia e sofrimento da classe média baixa.

Bibliografia

HOLANDA, Sérgio Buarque. ‘‘O Homem Cordial’’. Em: Raízes do Brasil. São Paulo: Cia. das
Letras, 1995 (26° Ed.), p. 139-151.
FREYRE, Gilberto. Sobrados e Mocambos. Rio de Janeiro. Editora Record. 9ª edição. 1996.
FREYRE, Gilberto. Casa-Grande & Senzala, 50ª edição. Global Editora. 2005.