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FRENTE 2 Literatura
MÓDULO 1 A Lírica Trovadoresca
1. AS RAÍZES DA eram, muitas vezes, autores de poesia sua coita, ou seja, sua dor de amar
LITERATURA PORTUGUESA e música. sem ser correspondido. Muitas vezes,
Pode-se mencionar ainda que porém, esse amor ardente confes-
O aparecimento da Literatura nesse período, além da produção líri- sado encobre ora um apelo sexual,
Portuguesa coincide, a bem dizer, ca propriamente, houve também ora um conveniente galanteio de
com o aparecimento de Portugal produção literária em prosa, repre- inspiração política. (O sistema polí-
como nação livre. A primeira mani- sentada pelas novelas de cavalaria, tico-social da Idade Média, chamado
festação literária portuguesa de que pelos cronicões e livros de linhagem. feudalismo, reforçava a necessi-
se tem notícia, a “Cantiga da Garvaia” dade de o vassalo agradar sempre a
ou “Cantiga da Ribeirinha”, de Paio 3. OS CANCIONEIROS seu suserano — seu “senhor” — e à
Soares de Taveirós, é de aproximada- sua família.)
mente 1198 (ou 1189), ou seja, cerca O Trovadorismo é anterior ao a- As cantigas de amor não nasce-
de cinquenta anos apenas após o parecimento da imprensa. Por isso, ram em Portugal, mas na Provença
ano de 1143, data em que Portugal as cantigas medievais eram manus- (sul da França) e dali se espalharam
conseguiu sua independência da Es- critas e, colecionadas, formavam os por muitas cortes da Europa. A língua
panha, ou, mais propriamente, data cancioneiros, nome que se dá aos provençal também havia provindo do
em que foi reconhecida sua eman- códices (manuscritos antigos) que latim. Todo trovador que se prezasse
cipação dos Reinos Católicos (Leão, abrigam a poesia medieval. deveria conhecer um pouco o proven-
Castela, Navarra e Aragão). Como a Os cancioneiros da fase trova- çal. Nas canções provençais é que ele
“Cantiga da Garvaia” não é o início da doresca são três e foram descober- buscava inspiração para compor suas
Literatura Portuguesa, mas apenas o tos a partir do fim do século XVIII: cantigas em português arcaico. Quan-
documento literário mais antigo que • Cancioneiro da Ajuda, o mais to ao português destas cantigas — o
chegou até nós, podemos conjec- antigo, com 310 cantigas; chamado português arcaico —, trata-
turar que já se produzia literatura em • Cancioneiro da Vaticana, que se de uma língua permeada de gale-
Portugal desde o começo de sua vida contém 1.205 cantigas, distribuídas en- guismos. Esse fato não é surpreen-
como país independente. tre as quatro modalidades (amigo, dente, dada a proximidade linguística,
amor, escárnio e maldizer). Reúne a geográfica e cultural entre Portugal e
maioria das composições de El-Rei D. Galiza e dado que diversos trovadores
2. O TROVADORISMO — alguns entre os mais importantes —
Dinis, o mais notável trovador por-
tuguês; eram galegos, não portugueses. Daí
O primeiro período da Literatura • Cancioneiro da Biblioteca Na- ser mais apropriado que se fale em
Portuguesa é denominado Trovado- cional de Lisboa, que contém 1.647 trovadorismo galego-por tuguês, ou
rismo, e está compreendido aproxi- cantigas das quatro modalidades. É galaico-português, em vez de tro-
madamente entre os anos de 1198 também conhecido como Cancionei- vadorismo português simplesmente.
ou (1189) e 1418. ro Colocci-Brancutti.
São chamados trovadores os
TEXTO I
poetas da fase final da Idade Média, os 4. AS CANTIGAS DE AMOR
quais iniciaram um novo tipo de litera- CANTIGA DE AMOR
tura — o princípio das literaturas de lín- As cantigas de amor são com-
guas modernas, entre as quais o por- posições líricas em que o trovador Estes meus olhos nunca perderán,
tuguês. Os trovadores não eram ape- senhor, gran coita, mentr’ 1eu vivo for;
exalta as qualidades de uma mulher,
e direi-vos, fermosa mia senhor,
nas poetas, mas também músicos: a quem chama minha senhor (o fe- destes meus olhos a coita que han2:
eles compunham as melodias com minino dessa palavra ainda não se choran e cegan quand’alguen non veen,
que cantavam seus poemas. A poesia havia formado). Trata-a, portanto, se- e ora cegan por alguen que veen.
era sempre associada à música e se gundo o sistema hierárquico da so-
fazia presente tanto nas reuniões ciedade feudal, como a alguém de Guisado tẽen de nunca perder
palacianas da alta aristocracia quanto meus olhos coita e meu coraçon3,
condição superior, a quem ele se sub- e estas coitas, senhor, mias son,
nas festas populares. Os jograis mete, a quem “presta serviço” e de mais4 os meus olhos, por alguen veer,
eram executantes das composições quem espera benefício (ben). Na choran e cegan quand’alguen non veen,
dos trovadores, mas eles mesmos cantiga de amor, o poeta confessa a e ora cegan por alguen que veen.

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E nunca já poderei haver ben5, Conforme o lugar ou as circunstân- Comentários


pois que amor já non quer nem quer Deus; cias em que ocorre o episódio senti- • Observa-se a existência de duas solis-
mais os cativos destes olhos meus mental, a cantiga de amigo recebe o tas: a primeira (versos de 1 a 12) interroga as
morrerán sempre por veer alguen: flores, e a segunda (versos de 13 a 24)
título de cantiga de romaria, ser-
choran e cegan quand’alguen non veen, assume o papel das flores para a resposta.
e ora cegan por alguen que veen. ranilha, pastorela, marinha ou
Ambas se aliam às demais moças presentes
barcarola, bailada ou bailia, alba para entoar o refrão: “Ai, Deus, e u é?”, em que
(Joan Garcia de Guilhade, século XIII) ou alvorada, serena, malmariada o suspirar de amor pelo amado ausente passa
etc. Essas configurações das cantigas a ser compartilhado por todas.
Vocabulário e Notas de amigo traduzem os vários mo- • Observa-se também a técnica parale-
1 – Mentr’: enquanto. lística, que consiste em ir repetindo a ideia
mentos do namoro, desde a alegria
2 – Han: têm. central em duas séries de estrofes paralelas,
3 – Meus olhos e meu coração têm o hábito de da espera até a tristeza pelo aban-
isto é, a segunda estrofe repete a primeira, só
nunca deixar de sofrer (“perder...coita”). dono ou pela separação forçada.
alterando a palavra final para efeito de rima,
4 – Mais: mas. As cantigas de amigo são mais pri- sempre com estribilho (refrão):
5 – Haver ben: ter prazer. mitivas que as cantigas de amor; a pre-
sença do paralelismo e do refrão é Ai flores, ai flores do verde pinho, A
5. AS CANTIGAS DE AMIGO quase obrigatória e reflete mais a tra- se sabedes novas do meu amigo? B
dição poética e musical dos povos pe- Ai, Deus, e u é? (Refrão)

Além das cantigas de amor, os ninsulares que a influência provençal.


Ai flores, ai flores do verde ramo, A’
trovadores galego-portugueses dedi- se sabedes novas do meu amado? B’
caram-se a um outro tipo de compo- TEXTO II Ai, Deus, e u é? (Refrão)
sição lírica: a cantiga de amigo.
CANTIGA DE AMIGO
Esta é originária da Península
Ai flores, ai flores do verde pinho1, 6. AS CANTIGAS SATÍRICAS
Ibérica; ela não provém da tradição
se sabedes novas2 do meu amigo?
do trovadorismo provençal, pois não Ai, Deus, e u3 é? Do ponto de vista social e linguís-
se encontram, na obra dos trova-
Ai flores, ai flores do verde ramo, tico, as cantigas satíricas são de
dores de Provença, poemas com as
se sabedes novas do meu amado? extraordinária importância, já que
características da cantiga de amigo. Ai, Deus, e u é? compõem um retrato de vários usos e
Nesta, em primeiro lugar, o emissor, o
Se sabedes novas do meu amigo,
costumes medievais, em linguagem
eu lírico, não é um homem, mas
aquel que mentiu do que pôs4 comigo? mais popular, refletindo o falar das
uma mulher. Isso, evidentemente, Ai, Deus, e u é? camadas inferiores. Nem sempre é
não quer dizer que os poemas eram
fácil distingui-las, pois, às vezes, as
compostos por mulheres. Os poetas Se sabedes novas do meu amado,
aquel que mentiu do que m’a jurado? duas modalidades (escárnio e maldi-
eram os mesmos que compunham as Ai, Deus, e u é? zer) se misturam.
cantigas de amor, com a diferença
de que, nas cantigas de amigo, eles Vós me preguntades pelo voss’amigo?
E eu ben vos digo que é san’e vivo5 ❑ A cantiga de escárnio
fingiam um eu lírico feminino. A cantiga de escárnio continha
Ai, Deus, e u é?
Uma segunda característica im- sátira indireta, realizada com sutile-
portante das cantigas de amigo é o Vós me preguntades pelo voss’amado?
za, valendo-se da ambiguidade, de
E eu ben vos digo que é viv’e sano:
seu ambiente familiar. Elas não são “palavras cubertas que ajam dois
Ai, Deus, e u é?
composições que refletem o mundo en ten dimentos para lhe lo non
palaciano, típico das cantigas de E eu ben vos digo que é san’e vivo,
entenderem ligeiramente”. A sátira
amor. Ao contrário, as cantigas de e será vosc’ant’o prazo saído 6.
Ai, Deus, e u é? era artificialmente arquitetada e não
amigo põem em cena uma moça do permitia a identificação da pessoa
povo, que pode estar acompanhada E eu ben vos digo que é viv’e sano,
atacada.
de sua mãe ou de suas amigas, e e será vosc’ant’o prazo passado.
Ai, Deus, e u é?
que canta seu amor pelo namorado,
TEXTO III
o amigo (notemos que essa palavra (Dom Dinis, séculos XIII-XIV)
tem a raiz am–, do verbo amar). CANTIGA DE ESCÁRNIO
Vocabulário e Notas
Na cantiga de amigo, o amor da 1 – Pinho: pinheiro.
mulher em relação ao homem desen- 2 – Novas: notícias. Ũa dona, non digu’eu qual,
3 – U: onde. non agoirou ogano mal
volve-se num plano concreto. O amor
4 – Pôs: combinou. polas oitavas1 de Natal:
é realizado e a mulher lamenta-se 5 – San’e vivo: são e vivo. ia por sa missa oir
justamente por causa da ausência do 6 – E estará convosco quando terminar o prazo e ouv’un corvo carnaçal
amado. do serviço militar. e non quis da casa sair.

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A dona, mui de coraçon2, algum. Constituía a maioria das can- en que vos loarei toda via;
oíra sa missa enton tigas satíricas e era comum o empre- e direi-vos como vos loarei:
e foi por oir o sarmon, dona fea, velha e sandia!
go de termos baixos e chulos, no
e vedes que lho foi partir3 (Joan Garcia de Guilhade, século XIII)
ouve sig’4 un corvo acaron5 mais das vezes a resvalar para os
e non quis da casa sair. limites da mais grosseira obsce- Vocabulário e Notas
nidade. Mesmo os mais elevados 1 – Ora: agora.
A dona disse: — Que será? trovadores compunham cantigas de 2 – Loarei: louvarei.
E i6 o clérigu’7 está já 3 – Sandia: louca.
maldizer, consideradas ancestrais da
revestid’e maldizer-m’-á
se me na igreja non vir. sátira palavrosa de poetas como
Gregório de Matos e Bocage. Elas Em linguagem atual, teríamos:
E diss’o corvo: — quá, acá8,
e non quis da casa sair. testemunham a “vocação” luso-brasi-
Ai, mulher feia! você se queixou
leira para o chiste e para o palavrão. de que eu nunca a louvei em minha poesia;
Nunca taes agoiros vi,
A referência a atos fisiológicos e à mas agora eu vou fazer uma cantiga
des aquel dia que nasci,
com’aquest’ano ouv’aqui9; escatologia é frequente. em que eu a louvarei completamente;
e veja como a quero louvar:
e ela quis provar de s’ir10
mulher feia, velha e louca!
e ouv’un corvo sobre si
e non quis da casa sair. TEXTO IV
Ai, mulher feia! Deus me perdoe!
(Joan Airas de Santiago, século XIII)
pois você tem tão grande esperança
CANTIGA DE MALDIZER de que eu a louve por justiça,
Vocabulário e Notas
quero agora louvá-la completamente;
1 – Oitavas: missas. Ai, dona fea! fostes-vos queixar e veja qual será a louvação:
2 – Mui de coraçon: de muito boa vontade. porque vos nunca louv’en meu trobar; mulher feia, velha e louca!
3 – Partir: acontecer. mais ora1 quero fazer un cantar
4 – Sig’: consigo. en que vos loarei2 toda via; Ai, mulher feia! nunca a louvei
5 – Acaron: colado ao corpo. e vedes como vos quero loar: em minha poesia, e eu muito escrevi;
6 – I: ali (na igreja).
dona fea, velha e sandia3! mas agora farei uma bela cantiga
7 – Clérigu’: padre.
em que a louvarei completamente;
8 – Quá, acá: aqui, vem cá.
Ai, dona fea! se Deus me perdon! e vou lhe dizer como a louvarei:
9 – Com’aquest’ano ouv’aqui: como aquele
e pois havedes tan gran coraçon mulher feia, velha e louca!
ano houve aqui.
que vos eu loe en esta razon,
10 – Provar de s’ir: tentar ir.
vos quero já loar toda via; Comentários
e vedes qual será a loaçon: • Trata-se de uma sátira individual, con-
Comentário
dona fea, velha e sandia! tundente e, ainda que o nome da ofendida não
• Na cantiga anterior, o poeta zomba de
apareça, é dada como cantiga de maldizer.
uma mulher que, ao se dirigir à missa, ouviu
Dona fea, nunca vos eu loei • A mesma mulher, idealizada nas can-
um corvo em sua casa e, com medo do mau
en meu trobar, pero muito trobei; tigas de amor, é, nas cantigas de maldizer,
agouro (as pessoas na Idade Média eram
mais ora já un bon cantar farei, rebaixada à mais ínfima condição.
muito supersticiosas), não quis sair de casa.
Mas a cantiga é toda baseada em duplos
sentidos, a partir do segundo verso, pois a ex-
pressão “non agoirou ogano mal” pode signi-
ficar tanto “teve bastante [mau] agouro este
ano” quanto “não teve mau agouro este ano”.
Depois, a forma verbal ouve pode tanto cor-
responder ao verbo haver como ao verbo
ouvir. De início, parece que a mulher ouviu um
corvo, mas logo percebemos que ela teve
(ouve = houve) junto de si, colado à sua carne
(acaron), um “corvo carnaçal ”, que não é uma
ave de rapina, mas um homem faminto de
carne... E ela “non quis da casa sair ”... O
poema atinge o clímax quando imita o crocitar
do corvo (“E diss’o corvo: — quá, acá,” ), com
duas palavras do português arcaico que
podem significar “aqui, vem cá” — o corvo
sedutor chamando avidamente a sua presa.

❑ A cantiga de maldizer
A cantiga de maldizer encerrava
sátira direta, agressiva, contundente, A lírica provençal influenciou todas as literaturas da Europa, fazendo do amor e da
em linguagem objetiva, sem disfarce mulher o centro de uma inspiração poética e musical poderosa e refinada.
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MÓDULO 2 A Poesia Palaciana


da prosperidade, voltando-se para a A Revolução de Avis (1383-
CONCEITO E ÂMBITO
terra, para a inteligência, para o cor- 1385) marcou a substituição da Di-
A POESIA PALACIANA
po, para o prazer e para a aventura. nastia de Borgonha pela Dinastia de
FERNÃO LOPES
É, portanto, oposto ao espírito medie- Avis. Esta iniciou o processo de cen-
val, feudal e teocêntrico. tralização monárquica, aliando-
Historicamente, o Humanismo cor- se à burguesia ascendente. Foi o
responde a uma fase de profundas princípio do Estado Nacional
transformações sociais: o desenvol- Português, orientado na direção do
vimento do comércio, o surgimento da absolutismo e do mercantilis-
burguesia e das cidades, a aliança mo. O palácio tornou-se o centro
entre o rei e a burguesia (fermento das vital das decisões políticas, econô-
monarquias nacionais), o aparecimen- micas e da atividade cultural e artís-
to da imprensa, a divulgação da cultu- tica. A expansão dos interesses eco-
nômicos da burguesia e dos próprios
ra clássica e as Grandes Navegações.
políticos da monarquia lançou o país
Os primeiros anúncios desse pro-
na aventura ultramarina, cujo marco
cesso de transição foram registrados,
inicial foi a Tomada de Ceuta, em
na literatura, pelos italianos Dante
1415. Consolidou-se o nacionalis-
Alighieri (1265-1321), Francesco
mo português, e a nação começou
Petrarca (1304-1374) e Giovanni
a ganhar uma fisionomia própria na
Boccaccio (1313-1375).
Península Ibérica. No período ante-
A característica central do perío- rior, havia uma cultura mais ibérica
do humanista é o bifrontismo: a que especificamente portuguesa.
coexistência de resíduos medievais e Além do aparecimento do me-
Capa dos Adágios, de Erasmo de Roterdã,
com retratos dos autores gregos e latinos instituições antecipadoras do Renas- cenatismo oficial, outro fato cultural
traduzidos pelo humanista holandês. cimento. Teocentrismo e antropocen- relevante foi o surgimento de uma
trismo, feudalismo e mercantilismo, língua portuguesa, autônoma em
ideais cavaleirescos e pragmatismo relação ao primitivo dialeto galego-
1. HUMANISMO E
burguês são simultâneos. português. A prosa ganhou excelên-
PRÉ-RENASCIMENTO
cia literária com Fernão Lopes, o
primeiro bom prosador da língua.
❑ Localização ❑ O contexto
O apogeu do Humanismo cor-
histórico-cultural português (1434-1527)
respondeu aos reinados de D.
O Humanismo (no sentido que Em Portugal, o Humanismo ini-
Afonso V, D. João ll e D. Manuel,
aqui nos interessa) foi o movimento ciou-se em 1434, com a nomeação marcados pela intensa produção
intelectual que precedeu ao Renasci- de Fernão Lopes para Primeiro cultural e artística e pelo auge,
mento e constituiu um atento debruçar- Cronista-Mor do Reino, incum- também, das Grandes Navegações.
se do homem sobre sua própria bido por D. Duarte de escrever a Literariamente, os três fatos mais
condição. Se durante a Idade Média o história dos reis que o antecederam. relevantes do Humanismo português
homem se voltou para Deus, agora ele A criação do cargo de cronista- foram: a poesia palaciana, compi-
se volta para si mesmo (antropocen- mor e a nomeação de Fernão Lopes lada no Cancioneiro Geral de Garcia
trismo), readquirindo a consciência inauguraram, em 1434, o mecena- de Resende; a prosa historiográ-
de que é uma força criadora, capaz de tismo oficial e os reis tornaram-se fica de Fernão Lopes e o teatro
dominar o universo e transformá-lo. protetores da cultura e da arte, abri- medieval e popular de Gil Vicente.
Desenvolve-se a consciência de que é gando na Corte artistas e intelec-
necessário o saber e de que é por tuais, incentivados e subvenciona- 2. A POESIA PALACIANA
meio do conhecimento e da ação que dos pela própria monarquia. O perío- DO CANCIONEIRO GERAL
o homem e o mundo se transformam. do estendeu-se até 1527, ano em DE GARCIA DE RESENDE
Esse novo homem identifica-se que se iniciou o Classicismo-
com a cultura clássica greco-roma- Renascimento em Portugal, com a A produção poética da fase do
na, com o racionalismo, com a ciên- introdução da medida nova por Sá Humanismo, abrangendo os reina-
cia, com o ideal burguês do lucro e de Miranda. dos de D. Afonso V, D. João II e D.

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Manuel, foi compilada em 1516, por Dentre os 286 poetas que figu- dada no anseio de encontrar algo perdurável,
para além da fugacidade cósmica.
Garcia de Resende, no Cancio- ram no Cancioneiro Geral, os mais
Coube a Sá de Miranda trazer da Itália,
neiro Geral que leva o seu nome. famosos são Bernardim Ribeiro, Sá onde viveu de 1520 a 1527, a medida nova
Esse cancioneiro nada tem a ver de Miranda e Gil Vicente, que, po- (versos decassílabos, a forma fixa do soneto,
com os primitivos cancioneiros trova- rém, irá celebrizar-se, não como o terceto etc.), introduzindo em Por tugal
formas e temas característicos do Classicismo
dorescos. Nele, observa-se uma poeta lírico, mas como o maior autor renascentista, que os italianos denominavam
grande amostra da chamada “poesia teatral de língua portuguesa. dolce stil nuovo (= doce estilo novo). Como
palaciana”, ou poesia da Corte, que Camões, foi grande sonetista e tem, também,
parte de sua obra comprometida com a heran-
se praticou em Portugal no período TEXTOS ça medieval, nas composições que fez na me-
imediatamente anterior ao chamado dida velha, como a trova em questão.
Classicismo. É uma produção TROVA À MANEIRA ANTIGA • O tema da cisão da personalidade, a
sutil exploração dos mistérios do eu, a
poética que pode ser considerada fragmentação do sujeito lírico, em tensão
Comigo me desavim1,
pré-clássica, pois nela já se sou posto em todo perigo; consigo e por si, prestes a consumar a ruptura
encontram alguns dos componentes não posso viver comigo interior, é o tema de um belíssimo vilancete de
que caracterizarão a poesia do nem posso fugir de mim. Bernardim Ribeiro. Observe a aproximação
com o poema de Sá de Miranda anteriormente
período posterior. A poesia palaciana apresentado:
Com dor, da gente fugia,
representa uma evolução formal antes que esta assim crescesse;
em relação ao período trovadoresco. agora já fugiria Entre mim mesmo e mim
de mim, se de mim pudesse. não sei [o] que s’ alevantou1
A poesia separa-se da música, que tão meu imigo2 sou.
Que meio espero ou que fim
e o trovador cede lugar ao do vão trabalho que sigo,
poeta. Este escreve não mais para pois que trago a mim comigo, Uns tempos com grand’engano
tamanho imigo2 de mim? vivi eu mesmo comigo,
cantar, mas para ler e recitar nos
(Francisco Sá de Miranda) agora, no mor3 perigo,
serões da Corte. Como não depende se me descobre o mor dano.
mais da música, os refrãos e o Vocabulário e Notas Caro custa um desengano,
paralelismo são menos marcantes. 1 – Desavir: desentender, desencontrar. e pois m’este não matou,
2 – Imigo: forma arcaica de inimigo. quão caro que me custou!
Os poetas da fase palaciana
consolidaram a medida velha, nome Comentários De mim me sou feito alheio;
genérico que se dava às composições • A trova de Sá de Miranda, composta na entre o cuidado e cuidado
medida velha (versos redondilhos maiores), fo- está um mal derramado
em versos curtos — os chamados que por mal grande me veio.
caliza o desencontro do eu consigo mesmo, a
versos redondilhos. A estes, dá-se o partir do dilema viver comigo x fugir de mim, Nova dor, novo receio
nome de redondilhos menores, ambas as situações impossíveis para o poeta. foi este que me tomou,
quando têm cinco sílabas poéticas, Essa dilaceração do eu expressa as perple- assi4 me tem, assi estou.
xidades do homem diante das transformações (Bernardim Ribeiro)
e de maiores, quando têm sete nos limiares da Idade Moderna e projeta a
sílabas. Esses versos são até hoje, personalidade grave e reflexiva do autor. Sua Vocabulário e Notas
em Portugal e no Brasil, os versos postura estoica, cética e desiludida já se 1 – Alevantar: erguer. 2 – Imigo: inimigo.
integra nos quadros da cultura clássica, fun- 3 – Mor: maior. 4 – Assi: assim.
mais tradicionais e populares,
dada a facilidade de memorização, o
ritmo e a musicalidade envolventes. É o
verso mais comum nas composições
folclóricas e populares (cantigas de
roda, cantigas de ninar, acalantos,
modinhas, desafios etc.); foi, e ainda é,
o verso mais utilizado pelos autores que
buscaram e buscam as raízes mais tra-
dicionais da poesia e da música.
No plano temático, o caráter po-
pular e sentimental da poesia trova-
doresca é substituído pela poesia
frívola e galante, composta para o
deleite do público palaciano; disso
de cor re certa afetação e artifi -
cialismo.
Poemas satíricos, religiosos e nar-
rativos coexistem com poemas de
tema amoroso. As influências greco-
latina e italiana começam a aparecer. Capa da primeira edição do Cancioneiro Geral.

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MÓDULO 3 Gil Vicente


1. GIL VICENTE terceira esposa do Rei D. Manuel; sa. Foi cognominado O Genial
E AS ORIGENS DO alcançou uma situação de grande Criador do Teatro Português,
TEATRO PORTUGUÊS prestígio junto à Corte de Avis, o que em alusão ao fato de ter sido o
Ihe permitiu, em 1531, por ocasião primeiro autor a impor o texto escrito
❑ Os antecedentes de um terremoto, num discurso feito às encenações teatrais. Como para a
do teatro vicentino aos frades de Santarém, censurar Literatura o importante é o texto
Durante a Idade Média, o teatro energicamente os sermões terríficos que se escreve para a representa-
clássico greco-romano desapareceu. em que estes explicavam a catás- ção, Gil Vicente é considerado o
Ficaram ignoradas as tragédias e co- trofe como resultado da ira divina. fundador do teatro português.
médias, que expressavam, do subli- Quando Gil Vicente atinge a
me ao grotesco, a densa visão (In: LOPES, Óscar e SARAIVA,
plena maturidade de sua arte,
clássica do homem, do mundo e dos Antônio José. História da Literatura
opera-se a secularização com-
deuses. Portuguesa. 10.a ed., Porto: Porto pleta e definitiva de seu teatro. A
Não se pode falar propriamente Editora, p. 200.) galeria de tipos alarga-se e enri-
de teatro medieval, já que as encena- quece-se para nos oferecer uma
ções que se faziam em Portugal, Outra prova de sua influência substancial reconstituição da
antes de Gil Vicente, não pressupu- nos meios palacianos é a carta que sociedade de seu tempo: dos
nham um texto escrito, uma produ- escreveu ao rei, na qual se pronun- beberrões aos nobres, passando
ção literária de natureza dramática. ciava contra a perseguição movida pelos camponeses, ciganos, judeus,
Havia representações cênicas, mas aos judeus e cristãos-novos. alcoviteiras, bobos, padres moral-
estas eram, principalmente, figura- Suas encenações alcançaram mente relaxados, fidalgos decaden-
tivas. Não havia o texto dramático, largo sucesso na Corte e são referi- tes, burgueses gananciosos, artesãos
que é o que interessa à Literatura. das por vários contemporâneos do ambiciosos, usurpadores, corruptos.
As encenações, àquela época, dramaturgo. Sua última peça, Flores- Esses tipos são definidos não só
dividiam-se em duas vertentes: pro- ta de Enganos, foi encenada em pelas ações, hábitos e vestuários,
fanas (apresentadas nos palácios) 1536 e, posteriormente a essa data, mas também pela linguagem pecu-
e litúrgicas (nas igrejas e abadias). nada mais se sabe de seu autor. liar a cada um deles. Gil Vicente
No início da carreira de Gil Supõe-se que tenha morrido em revela toda sua força dramática,
Vicente, a tradição teatral portuguesa 1537, mas não há provas documen- captando os flagrantes da vida real,
que o precedeu foi irrelevante. Em tais. tipos e ambientes, com grande
suas primeiras peças, o modelo foi o Em 34 anos de atividade teatral, poder de evocação realista e relevo
castelhano Juan del Encina. da estreia, em 1502, à última ence- caricatural.
nação, em 1536, escreveu, encenou A crítica social e a dramaturgia
2. O GENIAL CRIADOR e representou cerca de 46 autos e religiosa revestem-se de forte inten-
DO TEATRO PORTUGUÊS farsas, sendo 17 em português, 18 ção moralizadora, pelas alegorias
bilíngues (com uso do espanhol e do que aproveitam temas bíblicos,
O pouco que se sabe a respeito dialeto saiaguês, falado em Sala- bucólicos, cavaleirescos e mitoló-
do primeiro e maior dramaturgo de manca) e 11 em castelhano. Foi, ao gicos.
Por tugal reduz-se ao seguinte: mesmo tempo, autor, diretor e ator de Gil Vicente traz ao palco toda a
nasceu por volta de 1465; encenou muitos de seus autos e farsas. nação portuguesa. Apesar de ser, do
sua primeira peça, O Monólogo do Um de seus filhos, Luís Vicente, ponto de vista cênico, um teatro
Vaqueiro ou Auto da Visitação, em foi o organizador de sua obra, publi- rudimentar, primitivo, baseado na
1502, sob proteção da rainha D. cada em 1562, sob o título espontaneidade e na impro-
Leonor; foi colaborador do Copilaçam de Todalas Obras de Gil visação, está vazado em alta poe-
Cancioneiro Geral de Garcia de Vicente, com muitas falhas e sia dramática. É um teatro que revela
Resende; desempenhou, na Corte, a omissões, devidas, pelo menos em o profundo pensamento cristão de
importante função de organizador parte, à censura. um artista a serviço de uma causa;
das festas palacianas, como, por É considerado o maior dramatur- sua obra é uma arma de combate, de
exemplo, a recepção, em Lisboa, da go ou teatrólogo da língua portugue- acusação e de moralidade.
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3. AUTOS E FARSAS morreu lhe garantiria a ida para o Dia. Ora, ponde aqui o pé...
Brí. Hui! e eu vou pra o Paraíso!
céu... Só são aceitos pelo Anjo o
Dia. E quem te dixe19 a ti isso?
❑ Autos Parvo (idiota), camponês explorado e Brí. Lá hei de ir desta maré20.
Inspirados no teatro religioso da sofredor, e quatro cavaleiros que mor-
Idade Média, nos mistérios, milagres reram em defesa da fé de Cristo. Nes- Eu sô ũa mártela21 tal,
e moralidades, os autos encerram uma se desfile de almas, temos um amplo açoutes22 tenho levados
e tormentos soportados23
intenção moralizante e trazem perso- quadro crítico da sociedade portu- que ninguém me foi igual.
nagens alegóricas (anjos, demônios guesa da época, apresentado em ver- Se fosse ò24 fogo infernal,
etc.), que são personificações de sos de enorme encanto, pois são alta- lá iria todo o mundo!
virtudes ou de defeitos humanos. mente refinados e não se afastam da A estoutra barca, cá fundo,
me vou, que é mais real.
linguagem falada da época, em seus
Auto da Barca do Inferno vários registros. Por tais motivos, Gil Barqueiro mano, meus olhos25,
Vicente é considerado, por críticos prancha a Brísida Vaz!
Representada pela primeira vez de importância, como o poeta mais
Vocabulário e Notas
em 1517, a peça de Gil Vicente faz original de Portugal e o maior drama- 1 – Tanto que: assim que.
parte de uma trilogia em que assisti- turgo europeu de sua época. 2 – Alcouveteira: alcoviteira, caftina, isto é, “mu-
mos a um desfile de almas de mortos lher que serve de intermediária nas relações
prestes a embarcar para a eter - amorosas” (dicionário Aurélio); prostituta.
nidade. Os títulos das peças indicam TEXTO 3 – Ea: eia!
4 – Como: por que.
os possíveis destinos da viagem: 5 – Joana de Valdês: alcoviteira conhecida.
AUTO DA BARCA DO INFERNO
Auto da Barca do Inferno, da Barca 6 – Arrecear: recear, temer.
do Purgatório e da Barca da Glória. Tanto que1 o Frade foi embarcado, veio 7 – Catar: procurar.
8 – Fato: roupas e outros bens móveis.
Na primeira peça, os mortos são con- ũa Alcouveteira2, per nome Brísida Vaz, a qual,
9 – Virgo: hímen.
frontados com o Diabo, que, com fina chegando à barca infernal, diz desta maneira:
10 – Que nom podem mais levar: porque não
ironia (é um diabo muito bem-humo- se pode levar mais.
Brí. Hou lá da barca, hou lá!
rado e com grande presença de 11 – Almário: armário.
Dia. Quem chama? 12 – Enlheo: enredo, confusão.
espírito), apresenta-lhes as razões Brí. Brísida Vaz. 13 – Alheo: alheio.
pelas quais devem embarcar no seu Dia. Ea3, aguarda-me, rapaz! 14 – Encobrir: disfarçar, iludir.
“batel” (navio), que vai para a “terra Como4 nom vem ela já? 15 – Movediço: móvel.
perdida”. Todos resistem e se Com. Diz que nom há de vir cá 16 – Coxim: almofada.
sem Joana de Valdês5. 17 – Mor cárrega: maior carga.
dirigem ao Anjo, que guarda a barca
Dia. Entrai vós, e remarês. 18 – Bofé: na verdade (em boa fé).
do Paraíso. O Anjo, em tom solene Brí. Nom quero eu entrar lá. 19 – Dixe: disse.
(ele não tem a graça do Diabo), 20 – Maré: vez.
mostra a quase todos (só há exceção Dia. Que saboroso arrecear6! 21 – Mártelo: mártir.
22 – Açoute: chicotada (punição dada às pros-
em dois casos) que seu caminho é Brí. Nom é essa barca que eu cato7.
titutas).
irremediavelmente o inferno, tendo Dia. E trazês vós muito fato8?
23 – Soportado: suportado.
Brí. O que me convém levar.
em vista a vida que levaram. E quem 24 – Ò: ao.
Dia. Que é o qu’havês d’embarcar?
são os mortos? São figuras alegó- 25 – Meus olhos: meu bem.
Brí. Seiscentos virgos9 postiços
ricas que representam classes ou e três arcas de feitiços
categorias sociais, como o Fidalgo, que nom podem mais levar10.
❑ Farsas
arrogante e falso, o Onzeneiro (usu- Inspiradas no teatro profano (não
Três almários11 de mentir, religioso), as farsas visam a ca-
rário), explorador dos outros, o Sapa-
e cinco cofres de enlheos12, racterizar, em simples episódios ou
teiro, ladrão de seus fregueses, o
e alguns furtos alheos13, em narrativas mais complexas, tipos
Frade, que vem acompanhado de assi em joias de vestir, característicos da sociedade portu-
sua amante, a Alcoviteira (cafetina), guarda-roupa d’encobrir14, guesa, na transição da Idade Média
que fornecia moças para homens de enfim – casa movediça15;
para o Renascimento.
dinheiro e poder, o Judeu, contra um estrado de cortiça
com dous coxins16 d’encobrir.
quem até o Diabo demonstra pre- Além das peças até aqui men-
venção, o Corregedor (juiz), pompo- cionadas, podem-se destacar ainda:
A mor cárrega17 que é:
so e corrupto, o Procurador, deso- essas moças que vendia. Auto da Alma, Farsa de Inês Pereira,
nesto como o juiz, o Enforcado, que Daquesta mercadoria Quem Tem Farelos?, Juiz da Beira,
acreditava que a forma por que trago eu muita, bofé18! Auto da Fé, Auto da Lusitânia etc.
– 43
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MÓDULO 4 A Medida Nova – Luís de Camões


ças a grandes cometimentos: des- estilo renascentista expressivo a
CONCEITO E ÂMBITO
coberta do caminho marítimo para partir de 1527, quando o poeta Sá de
A MEDIDA NOVA
as Índias, empreendida por Vasco Miranda regressou da Itália, local em
LUÍS DE CAMÕES
da Gama em 1498; descobrimento que viveu, entre 1520 e 1527, e onde
do Brasil em 1500; conquista de Goa esteve em contato com a literatura da
1. O RENASCIMENTO e de regiões da África entre 1507 e Renascença italiana, com o dolce stil
1513; Viagem de Circunavegação nuovo, e iniciou a divulgação, em Por-
❑ Conceito e âmbito realizada por Fernão de Magalhães tugal, das modalidades poéticas clás-
O Renascimento foi um dos perío- entre 1519 e 1520. sicas. Esse conjunto de procedimen-
dos mais férteis da cultura ocidental: Desses fatos sobreveio uma ex- tos artísticos, que, em território luso,
Dante, Camões, Petrarca, Sha- traordinária prosperidade econômi- chamou-se medida nova, consistia
kespeare, Rabelais, Ronsard, ca: Lisboa transformou-se num impor- • na utilização do verso decas-
Cervantes, Tasso, Ariosto, Miche- tante centro comercial; na Corte im- sílabo, em lugar dos redondilhos tra-
lângelo, Da Vinci alinharam-se perava o luxo desmedido, na certeza dicionais;
como as mais portentosas figuras da de que a Pátria houvesse chegado a • na predileção pelas formas fi-
arte em todos os tempos. Foi um uma inalterável riqueza material. Este xas, inspiradas nos modelos latinos e
período marcado pela supervalo- ufanismo, contudo, foi declinando italianos: o soneto, o terceto, a sexti-
rização do homem, pelo antro- até a derrocada final em Alcácer- na, a oitava, a ode, a elegia, a can-
pocentrismo, pelo hedonismo, Quibir, em 1578, com a destruição do ção, a écloga, a epístola, o epigrama,
em oposição ao teocentrismo, misti- exército português e morte de D. o epitalâmio; além do teatro clássico,
cismo e ascetismo medievais. Sebastião. A literatura começou a com a tragédia grega e a comédia
O interesse pelo homem e pelo refletir a comoção épica gerada pelo latina, regidas pela “lei das três uni-
que ele poderia realizar de alto, progresso nas primeiras décadas do dades” (de tempo, de lugar e de ação);
profundo e glorioso (Humanismo) século XVI, mas refletiu também, vez • na assimilação da influência
inspirou o conceito de homem in- por outra, o desalento e a advertên- temática e formal de autores como
tegral, senhor do mundo, sequioso cia, lúcidos perante a dúbia e provi- Horácio, Virgílio, Ovídio, Plauto, Te-
para conhecê-lo totalmente. sória superioridade. rêncio, Homero, Píndaro, Anacreonte,
O Renascimento português não Sannazzaro, Boccaccio, Boiardo, Tor-
❑ Características representou, como nos países protes- quato Tasso, Ariosto, Dante Alighieri e
centrais do Renascimento tantes, uma revolução cultural tão Petrarca, além da releitura dos filóso-
• Equilíbrio e harmonia de extensa e profunda. Na facção pro- fos gregos Platão e Aristóteles, filtra-
forma e fundo. Clareza, mentalida- testante, as condições foram mais dos pelo pensamento cristão de São
de aberta, intensidade vital, ímpeto favoráveis à liberdade de pensa- Tomás de Aquino e Santo Agostinho.
progressista, euforia, ânsia de glória mento e à difusão popular da cultu- Contudo, o espírito medieval não
e perenidade, apreço pelo humano. ra, graças à propagação da impren- foi completamente abandonado. Por
• Universalismo, apego aos sa, veículo privilegiado pela Refor- isso, o Quinhentismo luso constituiu
valores transcendentais (o Belo, o ma Luterana. Em Portugal, como na uma época bifronte, pela coexistên-
Bem, a Verdade, a Perfeição) e aos Espanha e Itália, a Contrar-reforma cia e, não raro, a interinfluência das
sistemas racionais; simplificação por Católica inaugurou, precocemente, duas formas de cultura: a medieval,
lucidez técnica, simetria. um período de recalque ideológico popular, tradicional, materializada na
• Culto da Antiguidade gre- e de repressão. Em 1547, o Santo medida velha, e a clássica, erudi-
co-latina. Deuses pagãos usados co- Ofício visitou casas e livrarias à ta, renascentista, que se expressou
mo figuras literárias e claras alegorias. procura de livros heréticos. Gil Vicente, por meio da medida nova. Esse
Camões, Sá de Miranda, Antônio bifrontismo foi lugar-comum entre os
❑ O Renascimento português Ferreira, entre outros, foram consi- autores portugueses da época renas-
O Renascimento em Portugal derados “agentes contra a Fé e os centista, cujas aparentes contradi-
correspondeu ao período de apogeu Costumes”. ções só podem ser explicadas quan-
da Nação, cujo império, à semelhan- do se tem em vista a ambivalência
ça do império inglês do século XIX, cultural da época.
abrangia do Oriente (China, Índia) 2. A ESCOLA CLÁSSICA RE- No caso português, acresce não
ao Ocidente (Brasil), e marcou, com NASCENTISTA (1527-1580) ter havido um Renascimento típico,
Camões, a plena maturação da lín- pois, dada a prevalência do catoli-
gua portuguesa. Ainda que, já no fim da Idade cismo e do poder eclesiástico, o ra-
Sob o reinado de D. Manuel, o Média, os autores da Antiguidade Clás- cionalismo e a ideologia burguesa
Venturoso, Portugal gozou de mo- sica fossem conhecidos em Portugal, não vingaram de modo tão expres-
mentânea mas intensa euforia, gra- só se pode falar na existência de um sivo como ocorreu em outros países.
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3. LUÍS DE CAMÕES plesmente como um sentimento, mas ❑ As redondilhas de Camões


como uma força vital, uma força Sem muita rigidez, pode-se dizer
A biografia de Camões apre- cósmica que pode elevar o espírito. que a grande maioria das composi-
senta problemas insolúveis por falta Camões celebrou amores, a beleza ções na medida velha, em versos
de dados seguros. Lisboa, Coimbra, feminina, o prazer sensual (os versos redondilhos, ao gosto do público pa-
Alenquer e Santarém disputam o seu em que descreve o encanto da es- laciano, e à maneira do Cancioneiro
nascimento. Mais provável Lisboa ou crava negra, a menina dos olhos ver- Geral de Garcia Resende, data da
Coimbra, por volta de 1525. Morreu des, a moça que vai buscar água na mocidade de Camões. Em geral, as
em 1580, em Lisboa. fonte); mas celebrou também o amor redondilhas são leves, brincalhonas,
Em 1552, num dia de Corpus espiritual (o amor dito “platônico” e madrigalescas e destinam-se à reci-
Christi, numa rixa com um funcio- que mais propriamente se deve tação na Corte. Revelam a habili-
nário do paço, Gonçalo Borges, foi considerar um sinal do neoplato- dade formal do poeta, que usa ima-
ferido com um golpe de espada, ten- nismo camoniano). Neste último gens, trocadilhos e ambiguidades
do sido recolhido à prisão do Tronco. caso, o amor é visto como força que
mais voltados para a magia verbal,
No ano seguinte, como aventureiro, pode libertar o espírito do mundo da
para a demonstração da habilidade
tomou parte em várias expedições, matéria e elevá-lo a um plano mate-
na manipulação de palavras e con-
refazendo assim toda a rota de Vasco rial superior.
ceitos, do que para a expressão
da Gama, na viagem do descobri- Outros temas da obra lírica ca-
pessoal e individualizada.
mento do caminho marítimo para as moniana são a mudança constan-
Índias, que mais tarde se converteu te de tudo, ou seja, a instabilidade
na ação central de Os Lusíadas. da vida humana, e o desconcerto TEXTOS
Em 1555, envolveu-se em traba- do mundo, ou seja, a desordem e a
lhos de guerra em Goa, cujo gover- desrazão que governam tudo. Dessas DESCALÇA VAI PARA A FONTE
nador era Afonso de Albuquerque. características, também decorre a MOTE
Por volta de 1558, esteve em Macau necessidade de um mundo supe-
(China), primeiro estabelecimento rior, liberto deste mundo de aparên- Descalça vai para a fonte
europeu no Extremo Oriente. Aí foi cias enganosas, no qual o próprio Lianor pela verdura;1
Provedor-Mor de Bens de Defuntos e amor não passa de fonte de desen- Vai formosa, e não segura.
Ausentes, importante cargo adminis- ganos e sofrimentos.
VOLTAS
trativo. Acusado de irregularidades, Os livros didáticos, sem muito
voltou preso a Goa, para justificar- rigor, abordam duas vertentes da Leva na cabeça o pote,
se. Durante a viagem (1559), naufra- lírica de Camões: O testo2 nas mãos de prata,
gou às margens do Rio Mekong, no • a primeira, tradicional, popu- Cinta de fina escarlata,
Camboja. Em Os Lusíadas há uma lar, de inspiração medieval, vazada Sainho de chamalote3;
alusão a este fato e ao seu salva- em trovas, vilancetes, cantigas e es- Traz a vasquinha4 de cote5,
mento com o manuscrito de Os parsas, composta em versos redondi- Mais branca que a neve pura;
Vai formosa, e não segura.
Lusíadas, o que faz ver que a obra lhos, na medida velha, com utiliza-
devesse estar quase completa ção frequente de motes e glosas. É Descobre a touca a garganta,
(Canto X, 127-128). É da tradição uma poesia leve, galante, madriga- Cabelos de ouro o trançado,
que tenha perdido neste naufrágio lesca, como as composições do Can- Fita de cor de encarnado6,
seu grande amor oriental (Dina- cioneiro Geral de Garcia de Resende; Tão linda que o mundo espanta!
mene), em memória de quem fez o • a segunda, clássica, erudita, Chove nela graça tanta,
soneto “AIma minha gentil que te de inspiração italiana, vazada em Que dá graça à formosura;
Vai formosa, e não segura.
partiste”, além de outros. sonetos, canções, odes, oitavas,
Morreu miserável em 1580, após éclogas, tercetos, sextinas e elegias, Vocabulário e Notas
o desastre militar de Alcácer-Quibir, composta em decassílabos, na me- 1 – Verdura: vegetação.
que antevia a anexação de Portugal dida nova. É a maturidade de Ca- 2 – Testo: tampa do pote.
aos domínios da Espanha. Poucos mões, marcada pelo tom reflexivo, 3 – Chamalote: tecido de lã e seda.
dias antes de morrer, em carta a um pela dialética cerrada e pela reflexão 4 – Vasquinha: saia de vestir por cima de toda
amigo, D. Francisco de Almeida, densa sobre o tema lírico-amoroso, a roupa, com muitas pregas na cintura.
5 – De cote: de uso diário.
dizia: “Enfim acabarei a vida e verão sobre os transes existenciais do poe-
6 – Encarnado: vermelho.
todos que fui tão afeiçoado à minha ta e sobre o desconcerto do mundo.
pátria, que não me contentei em Em ambas as vertentes, Camões Comentário
morrer nela, mas com ela”. foi o maior poeta de seu tempo. Sua • Trata-se de um vilancete, com mote e
obra abrange as diversas correntes glosa, na medida velha (redondilha). Faz parte
❑ Camões lírico artísticas e ideológicas do século XVI de um ciclo de redondilhas em torno do tema
O tema central da lírica camo- e reflete uma experiência pessoal da donzela que caminha descalça para algum
lugar (para a fonte, pela neve etc.)
niana é o amor, concebido não sim- múltipla.
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De inspiração medieval e popular (pela ❑ A lírica clássica camoniana É querer estar preso por vontade;
forma, pela protagonista e pelo sentimento É servir a quem vence, o vencedor;
Sob influência da escola renas-
amoroso expresso), a redondilha acentua a É ter com quem nos mata lealdade.
tendência para a elaboração engenhosa de
centista italiana, ou escola petrar-
conceitos, para o jogo de ideias e para a cons- quista, Camões realizou a parcela Mas como causar pode seu favor
trução antitética e paradoxal, pressagiando a mais densa e perfeita de sua lírica. Nos corações humanos amizade,
vertente conceptista da poesia barroca. Com os decassílabos da medida Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
À maneira das cantigas de amigo, a
protagonista, Leonor, é uma mulher do povo,
nova e com as formas fixas do Clas- ***
de hábitos simples. O poeta oscila entre a des- sicismo (sonetos, canções, odes, Alma minha gentil, que te partiste
contração e o realismo das cantigas, a expres- elegias, éclogas, oitavas e sextinas), Tão cedo desta vida, descontente,
são direta do sentimento amoroso e a ex- Repousa lá no Céu eternamente,
o poeta conseguiu o mais alto
pressão elevada e conceitual do amor, que irá E viva eu cá na Terra sempre triste.
marcar a lírica clássica dos sonetos.
equilíbrio entre a disciplina, o virtuo-
sismo formal e a reflexão profunda Se lá no assento etéreo, onde subiste,
ESPARSA AO DESCONCERTO DO MUNDO sobre o sentido do amor e da vida. Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Os bons vi sempre passar Amor é um fogo que arde sem se ver; Que já nos olhos meus tão puro viste.
no mundo graves tormentos;
É ferida que dói e não se sente;
e, para mais me espantar,
É um contentamento descontente; E se vires que pode merecer-te
os maus vi sempre nadar
em mar de contentamentos. É dor que desatina sem doer. Alguma coisa a dor que me ficou
Cuidando alcançar assim Da mágoa, sem remédio, de perder-te,
o bem tão mal ordenado, É um não querer mais que bem querer;
fui mau, mas fui castigado. É um andar solitário entre a gente; Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Assim que só para mim É nunca contentar-se de contente; Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
anda o mundo concertado. É um cuidar que ganha em se perder. Quão cedo de meus olhos te levou.

MÓDULO 5 Os Lusíadas – I
1. EPOPEIA CAMONIANA pansão geográfica custou caro para rior). Além de Os Lusíadas, Camões
os outros, os povos das terras “des- não publicou nenhum outro livro.
Epopeia é um poema do gê- cobertas”, para os quais a chegada
nero épico, poesia de tom elevado, dos europeus significou, na maioria 2. DIVISÕES FORMAIS:
heroica, que conta uma história e dos casos, dominação, destruição CANTOS E ESTROFES
celebra um herói, em aventuras ge- cultural, escravidão e morte.)
ralmente guerreiras, cujo sentido O assunto é um grande episó- • O poema divide-se em dez
grandioso se liga à vida da socieda- dio da conquista dos mares e avanço cantos (cantos são as principais divi-
de a que pertence. Depois das gran- sobre terras distantes e desconhe- sões materiais ou partes de um poe-
des epopeias da Antiguidade (a cidas: o descobrimento do caminho ma, correspondendo, na prosa, aos
Ilíada e a Odisseia, de Homero, do marítimo para as Índias, realizado no capítulos). Cada canto contém em
século VIII a.C.), a poesia épica raras fim do século XV por um português, média 110 estrofes ou estâncias. O
vezes atingiu a altura a que se Vasco da Gama, numa época em Canto VII é o mais curto, com 87
elevam Os Lusíadas. Neste poema, que Portugal vivia seu apogeu e estrofes; o Canto X é o mais longo,
os grandes ingredientes do gênero estava na vanguarda da aventura com 156 estrofes.
épico estiveram presentes: um mo- conquistadora da Europa. • O poema compõe-se de 1.102
mento grandioso, um assunto É com Os Lusíadas que a língua estrofes, com 8 versos em cada uma,
grandioso e um poeta grandioso. portuguesa adquire, definitivamente, dispostos em oitava-rima (esquema
O momento foi o Renascimento, sua maioridade. ABABABCC).
uma época fervilhante, de expansão Datadas do ano de 1572, há duas
das fronteiras do mundo conhecido edições de Os Lusíadas, praticamen- 3. AS PARTES DO POEMA
— expansão no espaço (descobriu- te idênticas. Não se sabe se as duas
se grande parte do planeta), no tem- foram feitas pelo poeta naquele ano A proposição (estrofes 1 e 2) é
po (redescobriu-se toda a Antiguida- ou se uma delas (não se saberia qual) parte obrigatória do poema épico. É a
de) e no espírito (ampliou-se enorme- é falsificação posterior, feita para iludir apresentação do assunto. O núcleo da
mente o conhecimento e iniciou-se a a Inquisição (que fora tolerante quan- proposição está nos versos 15 e 16
investigação científica do mundo). do da primeira edição do poema, mas (“Cantando espalharei por toda parte /
(Hoje, procura-se lembrar que a ex- exigiu alterações em edição poste- Se a tanto me ajudar o engenho e arte”):
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As armas e os barões1 assinalados, Em seguida, propõe uma infla- Da branca escuma1 os mares se mostravam
Que, da Ocidental praia Lusitana2, mada dedicatória a D. Sebastião, Cobertos, onde as proas vão cortando
Por mares nunca dantes navegados3, As marítimas águas consagradas2,
Passaram ainda além da Taprobana4,
estimulando-o a uma grande empre- Que do gado de Próteu3 são cortadas,
Em perigos e guerras esforçados sa de conquista que o elevasse à
Mais do que prometia a força humana, altura de seus ilustres antepassados Quando os Deuses no Olimpo luminoso,
E entre gente remota5 edificaram (sabe-se do desastre em que termi- Onde o governo está da humana gente,
Novo Reino, que tanto sublimaram6. Se ajuntam em consílio4 glorioso,
naria, poucos anos depois, a aven- Sobre as coisas futuras do Oriente.
E também as memórias gloriosas tura de D. Sebastião na África): (…)
Daqueles Reis que foram dilatando7
A Fé, o Império, e as terras viciosas8 E, enquanto eu estes canto, e a vós não Vocabulário e Notas
De África e de Ásia andaram devastando, [posso, 1 – Escuma: espuma.
E aqueles que por obras valorosas Sublime Rei, que não me atrevo a tanto, 2 – Consagrado: sagrado, santificado.
Se vão da lei da Morte libertando9: Tomai as rédeas vós do Reino vosso: 3 – Próteu: deus marinho, guardador do gado
Cantando espalharei10 por toda parte, Dareis matéria a nunca ouvido canto. de Netuno. Tinha o dom de tomar todas as
Se a tanto me ajudar o engenho e arte. Comecem a sentir o peso grosso formas possíveis.
(Que pelo mundo todo faça espanto) 4 – Consílio: conselho, assembleia.
Vocabulário e Notas De exércitos e feitos singulares
1 – Armas: guerras; barões: varões.
De África as terras e do Oriente os mares. No canto décimo, a narrativa se
2 – Portugal é o país mais ocidental da Euro- encerra e o poema se fecha com um
pa.
3 – Verso célebre, muito repetido. Na estrofe 19, inicia-se a nar- epílogo desalentado, em que o poe-
4 – Taprobana: Ceilão (hoje Sri Lanka), pon- ração de Os Lusíadas, a qual com- ta lamenta a situação presente de
to-limite primeiro ultrapassado pelos por-
preende três ações principais: a seu país e se dirige de novo a D.
tugueses. Sebastião, retomando a exortação
5 – Gente remota: povos distantes. viagem de Vasco da Gama, a
6 – Sublimar: elevar, enaltecer. história de Portugal e a luta que a ele fizera na dedicatória do
7 – Dilatar: ampliar, ou seja, espalhar pelo dos deuses do Olimpo (Baco x poema.
mundo.
Vênus); são, portanto, duas ações Contrapondo-se ao tom vibrante
8 – A Fé, o Império: O Cristianismo e o Impé-
históricas e uma ação mitológica. e ufanista do início do poema, o des-
rio português; terras viciosas: países não
cristãos. fecho contém uma dolorosa crítica à
Essas ações são entremeadas de di-
9 – Se vão da lei da Morte libertando: Vão-se decadência do país, corroído pela
gressões (dissertações) poéticas de
tornando imortais, porque serão sempre ambição desmedida de conquista e
lembrados. Camões sobre a moral, sobre a des-
de riqueza. É uma clara premonição
10 – Cantando espalharei: nessa expressão consideração de seus contempo-
está o verbo principal, do qual tudo o que da derrocada do país, submetido à
râneos pela poesia, sobre o verda-
veio antes é objeto. Espanha, e de seu Império Oriental:
deiro valor da glória, sobre a onipo-
tência do ouro e sobre o destino de Não mais, Musa1, não mais, que a Lira tenho
Depois dessa proposição — es-
palhar pelo mundo, com seu poema, Portugal. Destemperada2 e a voz enrouquecida,
O início da ação (I, 19) se dá, E não do canto, mas de ver que venho
os grandes feitos dos portugueses Cantar a gente surda e endurecida3.
—, o poeta faz a invocação, não não no início da viagem de Vasco da O favor com que mais se acende o engenho
das Musas (deusas que presidiam às Gama, mas quando os navegadores Não no dá a pátria, não, que está metida
já estão em pleno Oceano Índico, na No gosto da cobiça e na rudeza
artes), mas das Tágides, ou ninfas D’uma austera, apagada e vil tristeza.
do Rio Tejo, para que o inspirem. costa leste da África, à altura da Ilha
de Madagáscar. Só mais tarde é que Vocabulário e Notas
E vós, Tágides minhas, pois criado se irão narrar o início da viagem, a 1 – Musa: Camões dirige-se novamente a
Tendes em mim um novo engenho partida das naus e os incidentes da suas inspiradoras, as Tágides, para
[ardente1, informá-las de que vai parar o poema, não
Se sempre, em verso humilde, celebrado navegação no Atlântico. porque tivesse se cansado do canto, mas
Foi de mim vosso rio alegremente, Camões, na estrofe 19 do primei- porque sente falta do maior estímulo à sua
Dai-me agora um som alto e sublimado, ro canto, apresenta rapidamente os poesia: o reconhecimento do povo, da
Um estilo grandíloquo e corrente, pátria.
navegadores já no Índico, para, a se-
Por que de vossas águas Febo2 ordene 2 – Destemperado: desafinado.
Que não tenham inveja às de Hipocrene3. guir, apresentar a primeira ação mito- 3 – Gente surda e endurecida: o povo portu-
lógica, a primeira intervenção do guês. Para alguns críticos, Camões refere-
Vocabulário e Notas se apenas àquela parcela corroída pela
“maravilhoso pagão”, no episódio do
1 – Engenho ardente: refere-se à inspiração ganância e pelo individualismo. Para ou-
épica (heroica). “Consílio dos Deuses no Olimpo”: tros, o sentido da crítica é mais amplo e
2 – Febo: Apolo, deus do sol e aquele que presi- atinge toda a Nação, entregue ao obscu-
de as musas. Já no largo Oceano navegavam, rantismo religioso (a Contrarreforma), ao
3 – Hipocrene: fonte que o cavalo alado Pé- As inquietas ondas apartando; autoritarismo político (o Absolutismo), à
gaso fez brotar no Hélicon. Quem bebesse Os ventos brandamente respiravam, decadência econômica e à retórica pedan-
de suas águas se tornaria poeta. Das naus as velas côncavas inchando; te e esterilizante da ignorância e do medo.

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MÓDULO 6 Os Lusíadas – II
A narração da Viagem de Melin- no Palácio de Netuno, desembocan-
de até Calicute, na Índia, é retomada do na “llha dos Amores”, onde os planos
pelo poeta no Canto Vl. Seguem-se histórico e mitológico se fundem.
os episódios da conquista do Oriente.
No Canto IX inicia-se a viagem de re- ❑ Resumo dos cantos
gresso à pátria, interrompida na “Ilha
dos Amores”, onde os navegadores CANTO I
são recebidos por Tétis e pelas Ninfas, Proposição, invocação, de-
que amorosamente os recompensam dicatória, início da narração
dos duros trabalhos do mar; (rápida referência a que os portugue-
• a segunda ação histó- ses já navegavam no Oceano Índico);
rica, o relato da história de Portugal, Consílio dos Deuses no Olimpo; em
com dois narradores: Vasco da Gama Moçambique, Quiloa e Mombaça,
e seu irmão, Paulo da Gama. Vasco ciladas de Baco contra os navegado-
da Gama conta ao rei de Melinde a res e intervenções de Vênus e das
Luís de Camões fundação do País; os feitos dos reis e Nereidas a favor dos portugueses;
heróis portugueses, as principais bata- reflexões morais do poeta.
1. A NARRAÇÃO DO POEMA lhas que venceram (Ourique, Salado
e Aljubarrota); o episódio lírico-amoro- CANTO II
Já vimos, na aula anterior, que a so de Inês de Castro; o sonho proféti- Em Mombaça, narram-se as ma-
narração da viagem de Vasco da co de D. Manuel; o início da viagem; quinações de Baco e as interven-
Gama inicia-se na estrofe 19 do Can- o episódio do Gigante Adamastor, per- ções de Vênus e das Nereidas;
to I, com os navegadores já no meio sonificação do Cabo das Tormentas Vênus sobe ao Olimpo e queixa-se a
da viagem, em pleno Oceano Índico. e símbolo da superação do medo do Júpiter, que profetiza os feitos lusos;
Vimos também que a narração “Mar Tenebroso”. chegada a Melinde, onde os portu-
compreende duas ações históricas e A relação dos heróis portugueses gueses são bem recebidos.
uma ação mitológica. Dessas ações
e de seus atos é completada no Canto
destacam-se inúmeros episódios de CANTO III
Vlll, por Paulo da Gama, que conta ao
natureza simbólica, profética, lírica, Vasco da Gama invoca a inspira-
catual, a pretexto de explicar o signi-
naturista, histórica ou mitológica. ção de Calíope e inicia a narração da
ficado das bandeiras de Portugal, os
Particularizando melhor a nar- história de Portugal, destacando: os
feitos heroicos da gente lusitana.
ração, temos primeiros heróis (Luso e Viriato), a fun-
As narrativas são entremeadas de
• a primeira ação histórica, dação do País e os reis de Portugal, as
intervenções do poeta, principalmen-
que principia com os navegadores já batalhas de Ourique e Salado e o epi-
te no final dos cantos, em que Camões
em pleno Oceano Índico, próximos sódio lírico-amoroso de Inês de Castro.
lança suas reflexões morais, invectivas
de Moçambique.
contra o desprezo dos portugueses CANTO IV
Vencidos os perigos do mar e as
armadilhas de Baco, em Quiloa e pela arte, considerações sobre o ver- Vasco da Gama prossegue a nar-
Mombaça, os portugueses aportaram dadeiro valor da glória, sobre a sub- ração da história de Portugal: a Bata-
em Melinde. missão dos homens ao dinheiro e lha de Aljubarrota (centralização mo-
Do Canto lll ao V a ação (viagem) é sobre a decadência do país; nárquica — início da Dinastia de Avis).
interrompida, e Vasco da Gama • a ação mitológica, que prin- As primeiras conquistas, a Tomada de
conta ao rei de Melinde a história de cipia no Canto I, 20, com o episódio Ceuta, o sonho profético de D. Manuel,
Portugal, desde os heróis primitivos, do Consílio dos Deuses no Olimpo. que confia a Vasco da Gama o des-
passando por todos os reis, heróis e Baco é contrário aos portugueses: cobrimento do caminho marítimo para
feitos relevantes, até a inserção do Vênus é favorável a eles, e acaba con- as Índias. A partir desse ponto, Vasco
próprio narrador (Vasco da Gama) na vencendo Marte e Júpiter. A interven- da Gama passa a narrar a própria via-
história, narrando, ele próprio, a ção de divindades mitológicas (“ma- gem, a partida das naus e a adver-
partida das naus, os incidentes da ravilhoso pagão”) desdobra-se em ou- tência do Velho do Restelo (censura
viagem de Portugal a Melinde, a tros episódios: as ciladas de Baco, às navegações, representando a
travessia do Cabo das Tormentas, ou as intervenções de Vênus e das Nerei- sobrevivência da ideologia medieval,
da Boa Esperança. das, o Consílio dos Deuses Marinhos feudal e conservadora).
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CANTO V (a “Máquina do Mundo”), apontan- ❑ Inês de Castro (III,118-135)


Vasco da Gama conclui a nar- do os lugares onde os portugueses Episódio de natureza Iírico-amo-
ração da sua viagem. Fala do Cruzeiro iriam praticar grandes feitos. Camões rosa, simboliza a força e a veemência
do Sul, do fogo-de-santelmo, da narra o episódio de São Tomé, em do amor em Portugal.
tromba marítima, do episódio cômico que se fundem o “maravilhoso cris- Valendo-se de fontes medievais
de Veloso e do Gigante Adamastor tão” (bíblico), o “maravilhoso pagão” (as Trovas, de Garcia de Resende) e
(monstro de pedra que personifica o (mitológico) e o plano histórico. Tétis clássicas (a tragédia A Castro, de
Cabo das Tormentas, simbolizando a despede-se dos portugueses. Re- Antônio Ferreira), Camões, pela boca
superação do medo do “Mar Tene- gresso à pátria. Camões lamenta a de Vasco da Gama, inscreve na
broso”). De novo em Melinde, Vasco decadência de Portugal (Epílogo), epopeia a narrativa lírica da jovem
da Gama exalta a tenacidade portu- faz exortação a D. Sebastião e va- condenada pelo crime de amar. Inês,
guesa. Aqui se encerra o primeiro ticina as futuras glórias. jovem da pequena nobreza de
ciclo épico. Camões recrimina os por- Castela, apaixonou-se pelo Príncipe
tugueses pelo desapego à poesia. 2. EPISÓDIOS NOTÁVEIS D. Pedro (depois D. Pedro I, de Por-
tugal). A corte portuguesa opunha-se
CANTO Vl Os episódios de Os Lusíadas a tal união, e o Rei D. Afonso IV, mes-
Camões retoma a narração da via- são ações acessórias às ações mo reconhecendo a inocência da
gem de Melinde para a Índia. Os deu- principais. Além das ações históri- moça, não impede sua morte. Pedro,
ses reúnem-se no Palácio de Netuno cas, reais, narradas diretamente pelo na época em trabalhos de guerra na
para o Consílio dos Deuses Marinhos. poeta, por Vasco da Gama, ou por África, regressa a Portugal e encon-
A bordo das naus, os portugueses se seu irmão, Paulo da Gama, há epi- tra a amada morta (de onde vem a
entretêm com a narrativa cavaleires- sódios mitológicos, proféticos, líricos expressão popular “agora Inês é
ca do episódio dos Doze da Ingla- e naturistas (descrições da natu-
morta”). Diz a lenda que, treslouca-
terra (inspirada nos torneios da cava- reza), entremeados uns aos outros,
do, o príncipe teria desenterrado Inês,
laria medieval). Meditações do poeta de forma que um mesmo episódio
coroando-a rainha após a morte, e teria,
sobre o verdadeiro valor da glória. pode ter vários significados.
ainda, obrigado a corte a beijar a mão
da rainha-defunta. O certo é que, as-
CANTO VII ❑ O Consílio dos
sumindo o trono, foi um dos reis mais
Os portugueses chegam a Cali- Deuses no Olimpo (I, 20-41)
cruéis do país, obcecado pela vingan-
cute, na Índia. Camões descreve o Reunidos sob a presidência de
ça contra os algozes da amada.
Oriente exótico. Júpiter, os deuses discutem o futuro
das navegações portuguesas e da ❑ O Velho do
CANTO Vlll viagem de Vasco da Gama. Baco é Restelo (IV, 94-104)
Paulo da Gama, atendendo a um contrário aos portugueses, pois teme Quando as naus de Vasco da
pedido do catual (autoridade re- que eles suplantem seus feitos no Gama se despediam do porto de Be-
gional da Índia), explica o significado Oriente. Também Netuno (deus do lém, um velho, o Velho do Res-
das bandeiras de Portugal e refere- mar) fará depois oposição aos nave- telo, elevando a voz, manifestou sua
se aos heróis portugueses e aos gadores, invejoso de seus sucessos oposição à viagem às Índias. A sua
seus feitos. Camões narra os perigos marítimos. Vênus (deusa do amor) e fala pode ser interpretada como a
enfrentados no Oriente. Vasco da Marte (deus da guerra) tomam par-
Gama é feito prisioneiro e é res- sobrevivência da mentalidade feudal,
tido dos lusos, considerados pela deu- agrária, oposta ao expansionismo e
gatado em troca de mercadorias sa como os maiores amantes e, por-
europeias. Camões tece conside- às navegações, que configuravam os
tanto, seus protegidos, e tidos por interesses da burguesia e da monar-
rações sobre a onipotência do ouro.
Marte como os guerreiros mais valen- quia. É a expressão rigorosa do con-
tes. Após o debate, Júpiter decide a servadorismo. Certo é que Camões,
CANTO IX
favor dos portugueses. Baco, incon- mesmo numa epopeia que se propõe
Os portugueses iniciam a viagem
formado, desce à Terra e tenta im- a exaltar as Grandes Navegações,
de regresso. Vênus e as Ninfas prepa-
ram a “llha dos Amores”, prêmio e re- pedir o êxito da viagem, armando ci- dá a palavra aos que se opõem ao
pouso para os navegadores. É a fusão ladas e ataques traiçoeiros. projeto expansionista.
dos planos histórico e mitológico. Essa ação mitológica, a disputa
entre Vênus e Baco, interfere no plano ❑ O Gigante
CANTO X histórico, e tem o claro propósito de ele- Adamastor (V, 37-60)
Na “llha dos Amores”, Tétis e as var os navegadores à altura dos deu- Quando a esquadra de Vasco da
Ninfas oferecem um banquete aos ses olímpicos. Inspiradas na tradição Gama atravessava o Cabo das Tor-
navegadores. Tétis mostra a Vasco clássica, essas alegorias constituem mentas, passando do Oceano Atlân-
da Gama uma miniatura do Universo alguns dos pontos altos do poema. tico para o Índico, um monstro disfor-
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me e ameaçador interpela os navega- portugueses iriam fincar sua ban- De outras belas senhoras e Princesas
Os desejados tálamos enjeita,
dores, condenando sua ousadia, pro- deira, incluindo aqui o Descobri-
Que tudo, enfim, tu, puro amor, desprezas,
fetizando desgraças e miséria. O Gi- mento do Brasil. Quando um gesto suave te sujeita.
gante narra, a seguir, a causa de sua Esse longo episódio é riquíssi- Vendo estas namoradas estranhezas,
transformação na figura monstruosa O velho pai sisudo, que respeita
mo em sugestões e significados.
O murmurar do povo e a fantasia
que guarnecia o Cabo das Tormentas: Simboliza a elevação dos navega- Do filho, que casar-se não queria,
tendo-se apaixonado por Tétis (filha dores à condição de semideuses, (III, 122)
de Dóris e Nereu), foi por ela repudia- interseccionando os planos histórico
do e tentou tomá-la à força. Derrota- Tirar Inês ao mundo determina,
e mitológico. Na exibição da Má- Por lhe tirar o filho que tem preso,
do e punido pelos deuses, foi transfor- quina do Mundo, os portugueses tor- Crendo com sangue só da morte indina11
mado num monstro de pedra. Inspi- nam-se senhores dos segredos do Matar do firme amor o fogo aceso.
rada na mitologia clássica (Homero e Que furor consentiu que a espada fina,
Universo, e Vasco da Gama triunfa Que pôde sustentar o grande peso
Ovídio), é uma das alegorias mais mais uma vez sobre Adamastor, tor- Do furor Mauro12, fosse alevantada
ricas do poema. Simboliza, no plano Contra hũa fraca dama delicada?
nando-se amante de Tétis, ninfa do
histórico, a superação, pelos portu- (III, 123)
mar. Inspirado em Virgílio, Horácio e
gueses, do medo do “Mar Tenebro-
Ovídio, o episódio é um hino ao amor (...)
so”, das superstições medievais. No
e à sensualidade.
plano lírico, desenvolve o tema do A corte, contudo, exige a morte
amante infeliz e desenganado (Tétis de Inês (nobre, mas bastarda), com
era esposa de Peleu, e enganou o TEXTOS quem o príncipe tinha filhos e de
Gigante); o amor-tragédia. Curiosa- quem não queria se afastar. Levada à
mente, o primeiro navegante a atraves- EPISÓDIO DE INÊS DE CASTRO presença do rei, Inês suplica a cle-
sar o Cabo das Tormentas, Bartolomeu (fragmentos) mência de D. Afonso IV, não por ela,
Dias, morreu exatamente ali, quando, ou pela sua vida, mas por seus filhos.
Passada esta tão próspera vitória1,
12 anos depois, em 1500, comanda- Tornado Afonso à Lusitana Terra, Observe a elegância e concisão do
va uma das quatro naus que Pedro A se lograr da paz com tanta glória poeta na estrofe que se segue:
Álvares Cabral perdeu na costa afri- Quanta soube ganhar na dura guerra,
cana, num naufrá gio. Era a O caso triste e digno da memória, Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito
Que do sepulcro os homens desenterra, (Se de humano é matar uma donzela,
vingança do Gigante, ou do Cabo Aconteceu da mísera e mesquinha Fraca e sem força, só por ter sujeito
da Boa Esperança, como o batizou Que depois de ser morta foi Rainha. O coração a quem soube vencê-la),
Bartolomeu Dias, em 1488. (III, 118) A estas criancinhas tem respeito,
Pois o não tens à morte escura dela;
Tu, só tu, puro Amor, com força crua, Mova-te a piedade sua e minha,
❑ A llha dos Pois te não move a culpa que não tinha.
Que os corações humanos tanto obriga,
Amores (IX, 18 a X, 143) Deste causa à molesta2 morte sua, (III, 127)
Após a conquista do Oriente, lan- Como se fora3 pérfida inimiga. Vocabulário e Notas
çadas as sementes do Império Por- Se dizem, fero Amor, que a sede tua 1 – Esta... vitória: refere-se à vitória dos cris-
Nem com lágrimas tristes se mitiga4, tãos na Batalha do Salado.
tuguês que aí surgiria, os navegado-
É porque queres, áspero e tirano, 2 – Molesto: lastimoso, lamentável.
res estão voltando a Portugal. Vênus, Tuas aras5 banhar em sangue humano. 3 – Fora: fosse.
entretanto, prepara-lhes uma surpre- (III, 119) 4 – Mitigar: abrandar.
sa, como recompensa aos seus es- 5 – Ara: altar.
Estavas, linda Inês, posta em sossego, 6 – Fruito: fruto.
forços e sacrifícios. Numa ilha para- 7 – Engano: êxtase, enlevo.
De teus anos colhendo doce fruito6,
disíaca, os navegadores são recebi- Naquele engano7 da alma, Iedo e cego, 8 – Fortuna: na crença dos antigos, deusa que
dos pelas ninfas do mar, que Cupido, Que a Fortuna8 não deixa durar muito, presidia ao bem e ao mal; destino, fado.
Nos saudosos campos do Mondego9, 9 – Mondego: rio que banha Coimbra.
por ordem de Vênus, fez enamora-
De teus formosos olhos nunca enxuito10, 10 – Enxuito: enxuto.
das dos portugueses. Emoldurados 11 – Indino: indigno.
Aos montes ensinando e às ervinhas
por uma natureza exuberante, vivem O nome que no peito escrito tinhas.
12 – Mauro: mouro.
instantes de prazeres ilimitados. (III, 120)
EPISÓDIO DO VELHO DO RESTELO
Homenageados por Tétis com um
Do teu Príncipe ali te respondiam
banquete, uma ninfa profetiza os Mas um velho, de aspecto venerando,
As lembranças que na alma Ihe moravam, Que ficava nas praias, entre a gente,
futuros feitos portugueses. Após, Que sempre ante seus olhos te traziam, Postos em nós os olhos, meneando
Tétis, do alto de um monte, mostra a Quando dos teus formosos se apartavam; Três vezes a cabeça, descontente,
Vasco da Gama a Máquina do De noite, em doces sonhos que mentiam, A voz pesada um pouco alevantando,
De dia, em pensamentos que voavam; Que nós no mar ouvimos claramente,
Mundo, espécie de miniatura do
E quanto, enfim, cuidava e quanto via C’um saber só de experiências feito,
Universo. Particularizando o globo Eram tudo memórias de alegria. Tais palavras tirou do experto1 peito:
terrestre, aponta os lugares onde os (III, 121) (IV, 94)

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“Ó glória de mandar, ó vã cobiça Deixas criar as portas o inimigo, Que a tua estátua ilustre não tivera
Desta vaidade, a quem chamamos Fama! Por ires buscar outro de tão longe, Fogo de altos desejos que a movera!
Ó fraudulento gosto, que se atiça Por quem se despovoe o Reino antigo, (IV, 103)
C’uma aura popular, que honra se chama! Se enfraqueça e se vá deitando a longe!
Que castigo tamanho e que justiça Buscas o incerto e incógnito perigo Não cometera o moço miserando8
Fazes no peito vão que muito te ama! Por que a Fama te exalte e te lisonje O carro alto do pai, nem o ar vazio
Que mortes, que perigos, que tormentas, Chamando-te senhor com larga cópia, O grande arquitector com o filho9, dando,
Que crueldades neles exprimentas2! Da Índia, Pérsia, Arábia e Etiópia. Um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio.
(IV, 95) (IV, 101) Nenhum cometimento alto e nefando
Por fogo, ferro, água, calma e frio,
Condenando a temeridade de Oh! Maldito o primeiro que, no mundo, Deixa intentado a humana geração.
se lançarem os portugueses na con- Nas ondas vela pôs em seco lenho5! Mísera sorte! Estranha condição!”
Digno da eterna pena do Profundo6, (IV, 104)
quista do Oriente, adverte para o pe- Se é justa a justa Lei que sigo e tenho!
rigo representado pelos árabes e Nunca juízo algum, alto e profundo, Vocabulário e Notas
amaldiçoa as navegações: Nem cítara sonora de vivo engenho, 1 – Experto: experiente, sábio.
Te dê por isso fama nem memória, 2 – Exprimentas: experimentas.
Não tens junto contigo o Ismaelita3, Mas contigo se acabe o nome e glória! 3 – Ismaelita: referente a Ismael, filho de
Com quem sempre terás guerras sobejas? (IV, 102) Abraão, segundo o Velho Testamento.
Não segue ele do Arábio a Lei maldita, 4 – Pola: pela.
Se tu pola4 de Cristo só pelejas? Trouxe o filho de Jápeto7 do Céu 5 – Seco lenho: embarcação, navio.
Não tem cidades mil, terra infinita, O fogo que ajuntou ao peito humano, 6 – Profundo: inferno.
Se terras e riqueza mais desejas? Fogo que o mundo em armas acendeu, 7 – Filho de Jápeto: Prometeu.
Não é ele por armas esforçado, Em mortes, em desonras (grandeengano!). 8 – Miserando: digno de pena.
Se queres por vitórias ser louvado? Quanto melhor nos fora, Prometeu, 9 – Grande arquitector com o filho: Dédalo
(IV, 100) E quanto para o mundo menos dano, (da mitologia grega) e seu filho, Ícaro.

MÓDULO 7 Barroco
1. CONCEITO E ÂMBITO tações liberais do protestantismo e ção do espaço é perceptível em Vitória,
racionalismo na Inglaterra, Holanda e Palestrina, Bach e Haendel, no vir-
A apreciação do Barroco França. Nessa dimensão, o Barroco tuosismo dos esquemas polifônicos,
oscila entre a recusa e a posi- designa um certo número de estrutu- geradores do contraponto e da fuga.
ção negativista dos críticos ras formais que tendem a fundir e a Em sentido mais restrito, es-
que acusam o estilo de rebuscado, conciliar atitudes opostas, correspon- pecialmente espanhol, Barroco é a
artificial e vazio de conteúdo e a dentes à coexistência e interdepen- expressão artística e literária da Con-
apologia entusiasmada de ou- dência, mesmo conflituosa, de formas trarreforma católica e do absolutismo
tros, maravilhados com a engenho- sociais profundamente diferentes na das cortes dos Habsburgos. Expres-
sidade e sutileza da linguagem artís- Europa. Essa ânsia de fusão dos con- sa a dualidade cultural da Contrar-
tica barroca, voltada para a novida- trários fornece os principais elemen- reforma: Humanismo renascentista
de, para a alusão, para a suges- tos para a cosmovisão do Barroco: (valorização da cultura pagã do
tão e para a ilusão, entendida como 1) na Filosofia, a passagem de mundo greco-latino) mais a religiosi-
fuga da realidade convencional. uma concepção finitista e estática do dade tridentina, gerada na estufa da
Em sentido amplo, tomado como mundo para uma concepção infini- nobreza e do clero romano, espanhol,
constante universal, no homem e na tista, energética e dinâmica, com austríaco e português (valorização
arte, barroco designa um conjunto de Pascal, Newton e Giordano Bruno; da cultura cristã do mundo medieval).
características estéticas e formais que, 2) nas Artes Plásticas, essa A dualidade, o bifrontismo (Teo-
aparentemente, ressurgem em certas ânsia de expressar o movimento, a centrismo x Antropocentrismo, Fé x
épocas, como no Helenismo, no profundidade e a irregularidade pro- Razão, Céu x Terra, Alma x Corpo,
Gótico flamejante, no século XVII, no jeta-se em Michelângelo, Bernini, Virtude x Prazer, Ascetismo x He-
Romantismo e no Impressionismo, mar- Rubens, Velásquez, El Greco, Cara- donismo, Cristianismo x Paganismo),
cadas pela tendência à intensifica- vaggio, Rembrandt, Tintoretto e faz do Barroco ibérico-jesuítico a ex-
ção, ao exagero, e pela ânsia de ex- Zurbarán, na criação de um espaço pressão de um sentimento de dese-
pressar a tensão e a irregularidade. tumultuado que busca sugerir atmos- quilíbrio, de frustração e de instabili-
O Barroco designa as caracterís- feras ora místicas, ora imprecisas, dade, relacionado com a repressão
ticas que assumem a arte e a cultura repletas de elementos ornamentais e inquisitorial, com o terror político e re-
seiscentistas, condicionadas, de início, pormenores significativos; ligioso e com a decadência do mun-
pelo Absolutismo e pela Contrar- 3) na Música, esse mesmo sen- do católico, abalado com a derrota
reforma, incluindo, depois, manifes- tido de profundidade labiríntica e dilui- da invencível Armada, em 1588.
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A transição do ideal clássico para cupação, ao lado da consciência da metáforas), num estado de verda-
o barroco é definida por Heinrich fugacidade do tempo, e da incerteza deiro delírio cromático, apoiado em
Wölfflin, em termos de uma passagem e inconstância da vida. sugestões intensivas de cores e de
1) do linear ao pictórico, sons. Esse processo de identificação
incluindo o pitoresco e o “colorido”; ❑ A religiosidade (ilusória, sensorial, não racional)
2) da visão de superfície à Projetando uma época de intensos apoia-se nos jogos de palavras, nos
visão de profundidade, implican- conflitos espirituais, o tema religioso trocadilhos, nos enigmas, nas metá-
do o desdobramento de planos e mas- aparece muitas vezes mesclado com foras e nas perífrases ou circunló-
sas; a sensualidade; as alegorias bíblicas quios (= torneio em redor do termo
3) da forma fechada à for- do Antigo e do Novo Testamento mis- próprio e adoção de muitas palavras
ma aberta, denotando as perspec- turam-se com a mitologia pagã; a fé para evitá-lo). Assim, em vez de lá-
tivas múltiplas do observador; cristã e o misticismo aliam-se ao racio- grima, o barroco diz o “cristal dos
4) da multiplicidade à uni- nalismo, no arrependimento e na bus- olhos”; em vez de dentes, as “pérolas
dade, subordinando vários aspectos ca do perdão. Os argumentos lógicos da boca”; em vez de leque, o “zéfiro
a um único sentido; sobrepõem-se à revelação mística e manual”. O abuso artificioso da fan-
5) da clareza absoluta dos a consciência do pecado não inibe a tasia no campo psicológico da repre-
objetos à clareza relativa, a su- esperança de salvação. É uma reli- sentação sensível faz do poeta gon-
gerir formas de expressão esfuma- giosidade tensa e conflituosa. górico um verdadeiro alquimista, que
das, ambíguas, não finitas. busca extrair do real uma natureza
❑ Atitude lúdica supranatural, imaterial e arbitrária.
2. CARACTERÍSTICAS O propósito da arte barroca é, O aspecto exterior, imediata-
ESTÉTICO-ESTILÍSTICAS muitas vezes, o de surpreender o lei- mente perceptível, no Barroco cultis-
tor pelo virtuosismo, pela engenhosi- ta ou gongórico, é o abuso no empre-
❑ O dualismo dade, enredando-o em verdadeiros go de figuras de linguagem.
O Barroco é a arte do conflito, do labirintos de imagens e ideias. Mani-
contraste, da contradição, do dilema, pulando as palavras, abusando das
TEXTO I
e da dúvida, que se expressam pelo figuras de linguagem, privilegia o as-
acúmulo de antíteses, parado- pecto formal, o significante, em A serpe1, que adornando várias cores2,
xos e oxímoros. detrimento do significado. Assim, Com passos mais oblíquos3, que serenos,
alguns textos barrocos parecem Entre belos jardins, prados amenos,
❑ O fusionismo vazios de conteúdo, meros pretextos É maio errante de torcidas flores4;
O artista barroco não se limita a para o artista exibir a sua habilidade
Se quer matar da sede os desfavores5,
expor os contrários; quer conciliá-los, na exploração de sutilezas, de Os cristais6 bebe coa peçonha7 menos,
fundi-los, integrá-los por meio das fi- trocadilhos e de construções Por que não morra cos mortais venenos,
guras de linguagem: inusitadas. Esse niilismo temático, Se acaso gosta8 dos vitais licores9.
“Incêndio em mares de água dis- essa “pobreza” de conteúdo é mais
Assim também meu coração queixoso,
farçado; / Rio de neve em fogo con- frequente no aspecto gongórico ou Na sede ardente do feliz cuidado,
vertido.” cultista do Barroco. Bebe cos olhos teu cristal 10 fermoso11;

❑ O feísmo 3. O BARROCO Pois para não morrer no gosto amado,


Depõe logo o tormento venenoso,
Expressando uma época de in- CULTISTA OU GONGÓRICO Se acaso gosta o cristalino agrado12.
certeza, de repressão, de obscuran- (Manuel Botelho de Oliveira)
tismo, o homem barroco tem acen- Denomina-se cultismo ou cultera-
tuada predileção pelos aspectos nismo o aspecto do Barroco voltado Vocabulário e Notas
1 – Serpe: cobra, serpente.
cruéis, dolorosos e sangrentos, pelo para o jogo de palavras, para o
2 – Adornando várias cores: perífrase de “co-
“belo horrendo”, pelo espetáculo trá- rebuscamento da forma, para a orna- lorida”.
gico, deformando as imagens pelo mentação estilística, para o precio- 3 – Passos ... oblíquos: coleante, como o movi-
exagero, a resvalar o grotesco. sismo linguístico, para a erudição mi- mento da serpente.
4 – É maio errante de torcidas flores: multico-
nuciosa. Retrata-se a realidade de
lorida, a serpe é tão colorida quanto a
❑ O pessimismo modo indireto, realçando mais a ma- primavera (maio, na Europa); torcidas
Vivendo na órbita do medo e da neira de representar que propriamen- flores sugere a imagem de cores em
dúvida, o Barroco manifesta-se por te o apresentado. Constitui o aspecto espiral, pelo movimento coleante da
uma visão desencantada do mundo. sensual do Barroco, voltado para a serpente (“passos oblíquos”).
5 – Se quer matar da sede os desfavores: é
Como na Idade Média e no Roman- descrição do mundo por meio das perífrase de “se quer beber água”.
tismo, a morte é uma constante preo- sensações (analogias sensoriais = 6 – Cristais: metáfora de “água”.

52 –
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7 – Peçonha: veneno; os cristais bebe coa falsa. Há conceptismo, por exemplo, Comentário
peçonha menos – bebe água, mas sem o na poesia sacra e reflexivo-filosófica • A propósito do achamento de um braço
veneno que nela se deposita. de uma estátua perdida de Cristo, o poeta,
8 – Gostar: beber, provar.
de Gregório de Matos, uma variante partindo de constatações óbvias (versos 1-2: o
9 – Vitais licores: água. da poesia a lo divino, dos místicos todo depende da parte e a parte, do todo),
10 – Cristal: brilho, beleza. espanhóis, em que o Homem é desenvolve um raciocínio sutil e paradoxal
11 – Fermoso: formoso. divinizado e Deus humanizado, por (versos 3-4: se a parte é que faz o todo, a parte
12 – Gosta o cristalino agrado: aqui o verbo é tudo — é essencial — para que haja o todo),
meio de sutilezas conceituais, na
gostar está em lugar de ver : vê o rosto exemplifica com um artigo de fé (Deus está
esteira de Quevedo, modelo concep- inteiro em cada hóstia, que é parte de seu
amado.
tista muito reproduzido em Portugal e corpo), chegando à conclusão de que o braço
4. O BARROCO CONCEPTISTA no Brasil. da imagem de Cristo vale não apenas como
O conceptismo é a vertente bar- parte, mas como a imagem toda.

O conceptismo, ou concep- roca mais diretamente influenciada


tualismo, é o aspecto construtivo pela visão de mundo da Companhia TEXTO III
do Barroco, voltado para o significa- de Jesus, pela fé inaciana e contrar-
do, para o jogo de ideias, para a reformista: os recursos da lógica aris- VOS ESTIS SAL TERRAE – Math., V, 13

argumentação sutil, para a dia- totélica e tomista postos a serviço do


Vós, diz Cristo Senhor nosso, falando com
lética cerrada. Configura a atitu- convencimento religioso; a expres-
os Pregadores, sois o sal da terra: e chama-
de intelectual do Barroco, o seu são da angústia de ter ou não ter fé, lhes sal da terra, porque quer que façam na
modo de reconhecer e conceituar os de amar a Cristo e revoltar-se contra terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir
objetos. Opera por meio de trocadi- suas determinações. Evitando a apa- a corrupção, mas quando a terra se vê tão

lhos, de associações inesperadas e rência brilhante do cultismo, o con- corrupta como está a nossa, havendo tantos
ceptismo procura economizar pala- nela que têm ofício de sal, qual será ou qual
dos mecanismos da Lógica: o silo- pode ser a causa desta corrupção? Ou é por-
gismo, o sofisma e o paradoxo. Há vras e imagens. Mas têm em comum
que o sal não salga, ou porque a terra se não
um constante esforço dialético orien- o desejo de surpreender pela novida-
deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os
tando a organização convincente de, pela excentricidade, requerendo Pregadores não pregam a verdadeira doutrina;
das ideias. A um certo caos plástico ambos do leitor um elevado grau de ou porque a terra se não deixa salgar, e os
(cultismo) opõe-se a ordem raciona- atenção, dado o obscurantismo deli- ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes
berado, a propor verdadeiros labi- dão, a não querem receber; ou é porque o sal
lista (conceptismo). Há uma tese a não salga, e os Pregadores dizem uma coisa e
demonstrar e o interlocutor tem de rintos de imagens e ideias.
fazem outra, ou porque a terra se não deixa
ser convencido. salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que
Enquanto o cultismo (gongoris- TEXTO II eles fazem, que fazer o que dizem: ou é
mo) procura apreender o como dos porque o sal não salga, e os Pregadores se
ACHANDO-SE UM BRAÇO PERDIDO DO pregam a si, e não a Cristo; ou porque a terra
objetos, por meio da captação (des-
MENINO DEUS DE N. S. DAS MARAVILHAS, se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de
crição) de seus aspectos sensoriais servir a Cristo, servem a seus apetites. Não é
QUE DESACATARAM
e plásticos (contorno, forma, cor, vo- INFIÉIS NA SÉ DA BAHIA tudo isto verdade? Ainda mal. (…)
lume), num verdadeiro frenesi cromá- (Padre Antônio Vieira,
tico e imagético, o conceptismo pes- O todo sem a parte não é todo; Sermão de Santo Antônio aos Peixes)
quisa a essência dos objetos, bus- A parte sem o todo não é parte;
Mas se a parte o faz todo, sendo parte, Comentário
cando saber o que são, buscando
Não se diga que é parte, sendo o todo. • A partir de um “conceito predicável”,
apreender a face oculta das coisas, extraído da citação bíblica, Vieira desenvolve
apenas acessível ao pensamento, ou Em todo o Sacramento está Deus todo, o raciocínio explorando as possibilidades
seja, aos conceitos. O cultismo e o E todo assiste inteiro em qualquer parte, sugeridas pelo tema, por meio de antíteses e
conceptismo não podem ser vistos E feito em partes todo em toda a parte, associações de ideias que, dispostas em
como polos construtivos opostos. Em qualquer parte sempre fica o todo. movimento circular, vão sendo retomadas e
ampliadas. A estrutura paralelística revela-se
Como observou Dámaso Alonso,
O braço de Jesus não seja parte, em várias orações — “Ou é porque o sal não
“esta paixão barroca, podería- salga, ou porque a terra se não deixa salgar”.
Pois que feito Jesus em partes todo,
mos dizer que o Gongorismo a Assiste cada parte em sua parte. O título, Sermão de Santo Antônio aos
expressa como uma labareda Peixes, indicia o fato de que, alegoricamente,
para fora e o Conceptismo co- Não se sabendo parte deste todo, Vieira irá falar aos “peixes”, que agrupam, se-
mo uma reconcentração para Um braço que lhe acharam, sendo parte, gundo ele, categorias humanas. Parte da lenda
Nos diz as partes todas deste todo. medieval segundo a qual o franciscano Santo
dentro”. São como duas faces de
Antônio, numa de suas pregações, não sendo
uma mesma moeda chamada Bar- ouvido pelos homens, lança a sua palavra ilumi-
(Gregório de Matos)
roco. Costuma-se dizer que o nada na praia deserta, e os peixes levantam a
conceptismo predomina na prosa e o Vocabulário e Notas cabeça à superfície das águas, como sinal da
gongorismo, na poesia. Esta noção é 1 – Parte: nada. força da palavra do santo pregador.

– 53
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MÓDULO 8 O Barroco Conceptista – Padre Antônio Vieira


1. PADRE ANTÔNIO VIEIRA semente é a palavra de Deus”. Trans- Encaminhando-se para a pero-
(Lisboa, 1608 – Bahia, 1697) formando o tema em pergunta, o ração (ou epílogo), lembra que os
pregador indaga: “E se a palavra de pregadores “pregam palavras de
Pregador da Companhia de Jesus Deus é tão poderosa e tão eficaz, co- Deus, mas não pregam a palavra de
que exerceu intensa atividade como mo vemos tão poucos frutos da Deus” e finaliza advertindo:
missionário no Brasil, nas diversas palavra de Deus?”
vezes em que aqui esteve. A serviço Depois de considerar todas as TEXTO III
da Coroa Portuguesa, foi como embai- condições pelas quais a palavra de
xador à França, Holanda e Itália. Na Deus não pode frutificar, passa a de- Semeadores do Evangelho, eis aqui o
Europa, foi perseguido pela Inquisição finir as qualidades exigíveis de um que devemos pretender nos nossos sermões,
por suas ideias favoráveis em relação pregador: não que os homens saiam contentes de nós,
senão que saiam muito descontentes de si; não
aos judeus. Chegou a ser expulso do
que Ihes pareçam bem os nossos conceitos,
Maranhão por opor-se aos colonos TEXTO I mas que Ihes pareçam mal os seus costumes,
que queriam escravizar os índios. as suas vidas, os seus passatempos, as suas
Brilhou como pregador na Itália, na Mas como em um pregador há tantas ambições e, enfim, todos os seus pecados.
qualidades, e em uma pregação tantas leis, e
corte da rainha Cristina da Suécia. No
os pregadores podem ser culpados em todas,
fim da vida, dedicou-se a compilar os em qual consistirá essa culpa? — No pregador 3. SERMÃO DE SANTO
sermões que havia pronunciado. podem-se considerar cinco circunstâncias: a ANTÔNIO AOS PEIXES
Além dos sermões, sua obra in- pessoa, a ciência, a matéria, o estilo, a voz.
clui três volumes de cartas e obras
Pregado em São Luís do Mara-
proféticas, como História do Futuro e, No quinto capítulo inicia o ata-
nhão, em 1654, revela fina ironia, rique-
em latim, Clavis Prophetarum (“Chave que ao preciosismo da oratória
dos Profetas”), ainda inédita. za nas sugestões alegóricas e agudo
gongórica, investindo contra os exa-
senso de observação sobre os vícios
geros ornamentais praticados por
e vaidades do homem, comparando-
❑ Estrutura dos sermões muitos sermonistas, especialmente o
o, por meio de alegorias, aos peixes.
Os sermões de Vieira têm estru- dominicano Frei Domingos de S.
Critica a prepotência dos gran-
tura tradicional: Tomás: “O estilo culto não é escuro, é
des que, como peixes, vivem do sa-
• proposição do tema, em ge- negro, e negro boçal e muito cer-
crifício de muitos pequenos, os quais
ral trecho da Bíblia; rado”. À condenação do gongorismo
• introito, em que expõe o pla- “engolem” e “devoram”. O alvo são
segue-se a defesa do conceptismo e
no segundo o qual se desenvolverá o os colonos do Maranhão, que no Bra-
do primado da lógica, da clareza, do
sermão; sil são grandes, mas em Portugal
rigor da sintaxe e do pensamento:
• invocação, geralmente, à “acham outros maiores que os co-
Nossa Senhora; mam, também, a eles”.
TEXTO II Censura os soberbos (= ronca-
• argumentação, que consis-
te no desenvolvimento do tema e in- Há de tomar o pregador uma só matéria, dores); os pregadores (= parasitas);
clui exemplos e sentenças; há de defini-la para que se conheça, há de os ambiciosos (= voadores); os hipó-
• peroração ou epílogo. dividi-la para que se distinga, há de prová-la critas e traidores (= polvos).
com a Escritura, há de declará-la com a razão,
há de confirmá-la com o exemplo, há de
2. SERMÃO DA SEXAGÉSIMA amplificá-la com as causas, com os efeitos, TEXTO IV
com as circunstâncias, com as conveniências
Pregado na Capela Real de Lis- que se hão de seguir, com os inconvenientes O polvo, com aquele seu capelo na
boa, em 1655, o Sermão da Sexagé- que se devem evitar; há de responder às cabeça, parece um monge; com aqueles seus
dúvidas, há de satisfazer às dificuldades, há raios estendidos, parece uma estrela; com
sima é uma teorização sobre a arte
de impugnar e refutar com toda a força da aquele não ter osso nem espinha, parece a
de pregar, um sermão sobre o ser- mesma brandura, a mesma mansidão. E,
eloquência os argumentos contrários, e depois
mão, uma aula de oratória sacra. Por debaixo dessa aparência tão modesta ou
disso há de colher, há de apertar, há de
isso, Vieira o escolheu para abrir sua concluir, há de persuadir, há de acabar.
dessa hipocrisia tão santa, testemunham
obra, como um prefácio, ou uma de- constantemente (...) que o dito polvo é o maior
claração de princípio. É uma defesa traidor do mar.
(...)
do conceptismo, um ataque aos exa-
geros do barroco cultista ou gon- As razões não hão de ser enxertadas, hão 4. SERMÃO DA PRIMEIRA
górico. O tema do sermão é extraído de ser nascidas. O pregar não é recitar. As
DOMINGA DA QUARESMA
razões próprias nascem do entendimento, as
de uma passagem bíblica escolhida alheias vão pegadas à memória e os homens
para a ocasião: “Semen est verbum não se convencem pela memória, senão pelo Também denominado Sermão
Dei” (São Lucas, Vlll, 11), ou seja, “A entendimento. do Cativo, foi pregado no Maranhão,
54 –
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em 1653. Nele o orador tenta per- Oh! se a gente preta tirada das brenhas
TEXTO VI de sua Etiópia, e passada ao Brasil, conhe-
suadir os colonos a libertarem os
cera bem quanto deve a Deus e à sua
indígenas, que compara aos hebreus Em um engenho sois imitadores de Cristo Santíssima mãe por este que pode parecer
cativos do faraó. Na corte, atuou na Crucificado: porque padeceis em um modo
desterro, cativeiro e desgraça, e não é senão
muito semelhante ao que o mesmo Senhor
defesa do índio contra os colonos e padeceu na sua cruz, e em toda a sua paixão.
milagre e grande milagre!
lá pregou, em 1662, o Sermão da A sua cruz foi composta de dois madeiros, e a
Epifania: “que os homens de qual- vossa em um engenho é de três. (...) Cristo
6. SERMÃO DO BOM LADRÃO
despido, e vós despidos; Cristo sem comer, e
quer cor, são todos iguais por natu-
vós famintos; Cristo em tudo maltratado, e vós
reza, e mais iguais ainda por fé”, maltratados em tudo. (...) Eles mandam, e vós Pregado em 1655, em Lisboa,
afirma o pregador, defendendo a servis; eles dormem, e vós velais; eles traz a distinção entre o ladrão co-
filiação comum e universal do descansam, e vós trabalhais; eles gozam o
fruto de vossos trabalhos, e o que vós colheis
mum, que eventualmente furta para
homem a um Deus criador e único. deles é um trabalho sobre outro. Não há sobreviver, e o ladrão que, amparado
trabalhos mais doces que os das vossas pelo poder, rouba cidades e reinos. A
oficinas; mas toda essa doçura para quem é? notória atualidade do tema tem tor-
TEXTO V Sois como as abelhas, de quem disse o poeta:
“Sic vos non vobis mellificatis apes”1.
nado frequente a transcrição de tre-
chos desse sermão em diversos ves-
No Sermão da Primeira Dominga
Vocabulário e Notas tibulares:
da Quaresma, imagina-se no lugar 1 – Verso atribuído a Virgílio: “Assim vós, mas
dos colonos que tivessem de se des- não para vós, fabricais o mel, abelhas”.
fazer de seus escravos e indaga: TEXTO VII
Mas, paradoxalmente, estabele-
Quem nos há de ir buscar um pote de ce uma cabal diferença entre o negro (...) Não só são ladrões, diz o Santo
água ou feixe de lenha? Quem nos há de fazer [Basílio Magno], os que cortam bolsas, ou
gentio, entregue à sua própria sorte espreitam os que se vão banhar para Ihes
duas covas de mandioca? Hão de ir nossas
na África, e o negro submetido à fé colher a roupa; os ladrões que mais própria e
mulheres? Hão de ir nossos filhos?
católica. Chega a bendizer a escra- dignamente merecem este título são aqueles a
vidão que trouxe o negro ao Brasil e quem os reis encomendam os exércitos e
5. SERMÃO XIV DO ROSÁRIO ao cristianismo: legiões, ou o governo das províncias, ou a
administração das cidades, os quais, já com
Pregado na Bahia para uma irman- (...) Deveis dar infinitas graças a Deus manha, já com força, roubam e despojam os
por vos ter dado conhecimento de si e por vos povos. Os outros ladrões roubam um homem,
dade de negros, revela a repulsa ao
ter tirado de vossas terras, onde vossos pais e estes roubam cidades e reinos; os outros
preconceito de cor e ao tratamento vós viveis como gentios, e vos ter trazido a furtam debaixo do seu risco, estes sem temor
cruel a que eram submetidos os es- esta, onde, instruídos na Fé, vivais como cris- nem perigo; os outros, se furtam, são enfor-
cravos: tãos e vos salveis. (...) cados, estes furtam e enforcam.

MÓDULO 9 Gregório de Matos


1. CONTEXTO 3) o terceiro momento com- nem consentissem que se impri-
HISTÓRICO-CULTURAL preende as primeiras décadas missem livros ou papéis avulsos”.
(SÉCULO XVII E PRIMEIRA do século XVIII, ainda centrado na Fomos o último povo da América a
METADE DO SÉCULO XVIII) Bahia, quando entram em moda as aca- conhecer a imprensa. A Impressão
demias literárias e científicas, por in- Régia foi implantada em 1808, com a
• Reconhecem-se três momen- fluência europeia. É o apogeu do Ma- vinda de D. João Vl, e nosso primeiro
tos no Barroco brasileiro: neirismo barroco, mercê das novas con- jornal, a Gazeta do Rio de Janeiro,
1) o primeiro momento cor- dições sociais que se vão criando com apareceu em 10 de setembro de
responde à primeira metade a descoberta de pedras e metais pre- 1808. Não havia o que ler na Colônia,
ciosos em Minas Gerais. Exagerando salvo os compêndios escolares,
do século XVII, marcado pela
o estilo barroco em suas linhas mes- obras religiosas e catequéticas,
dominação filipina, pela ocupação
tras, presencia-se o progresso no sen- coletâneas de leis e uns raros ro-
holandesa no Nordeste e pela hege-
tido de uma afetação cada vez maior, mances de cavalaria. As poucas
monia de Pernambuco, a capitania
correspondente ao estilo rococó. bibliotecas das casas religiosas reu-
mais adiantada; Não houve tipografia e imprensa niam algumas centenas de volumes
2) o segundo momento ocu- nos séculos coloniais e as tímidas ini- hagiográficos (de vidas de santos) e
pa a segunda metade do sécu- ciativas foram categoricamente proi- apologéticos (de defesa da fé).
lo XVII e marca a preeminência da bidas pela Metrópole. A Carta Régia Mesmo a circulação manuscrita era
Bahia, sede do Governo Geral, da de 8 de junho de 1706 determinava dificultada pelo alto preço do papel.
Diocese, da Relação, do principal “sequestrar as letras impressas e Até a expulsão da Companhia
presídio de tropas, do porto mais notificar os donos delas e os oficiais de Jesus, em 1759, os jesuítas
ativo e da economia mais dinâmica; de tipografia que não imprimissem detiveram o monopólio do
– 55
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ensino. Era um ensino “literário” e 1) Academia Brasílica dos Matos e não se encontrarão dois poe-
retórico, desdenhoso dos compor- Esquecidos (Bahia, 1724-1725) – mas absolutamente iguais nas diver-
tamentos científicos e técnicos Sebastião da Rocha Pita, o Acadêmi- sas edições que se seguiram à pri-
perante a realidade, infenso a toda co Vago, foi seu membro mais notório. meira tentativa de organizar, já no sé-
manifestação artística que escapas- 2) Academia Brasílica dos culo XX, sua suposta “obra comple-
se ao âmbito vocabular e oral. Renascidos (Bahia, 1759) – Propu- ta”. Nada tendo publicado em vida, e
Formávamos sacerdotes e ba- nha-se a reviver os Esquecidos. expurgado de nossa vida literária
charéis. Essa educação medie- 3) Academia dos Felizes durante dois séculos, os códices (=
valizante, retórica e contrarreformista (Rio de Janeiro) – Reuniu-se entre manuscritos antigos) e compilações
abafou, durante três séculos, os 1736 e 1740. trazem infinitas variantes, muitos
apelos da nova terra, a força de 4) Academia dos Seletos (Rio poemas que comprovadamente não
atração do meio tropical e a cons- de Janeiro, 1752) – Foi or-ganizada são de Gregório de Matos e inúmeros
ciência que os agrupamentos hu- em homenagem a Gomes Freire de casos de autoria duvidosa.
manos, mestiçados ou não, iam Andrade. Esquematicamente, podemos a-
tomando de sua diferenciação. grupar assim a poesia de Gregório
Esses apelos de nova terra irão 2. GREGÓRIO de Matos:
desaguar no sentimento nativista, DE MATOS GUERRA
fermento de várias rebeliões que, a (BA, 1623 – PE, 1699) I – Poesia satírica
partir de 1640, atestam a presença amorosa

{
de pruridos autonomistas (Amador ❑ O Boca do Inferno
erótico-irônica
Bueno, Beckman, Guerra dos Filho de senhores de engenho na
II – Poesia lírica sacra ou
Mascates, Emboabas, Vila Rica, Bahia, viveu entre a Colônia e a
religiosa
Inconfidência Mineira, Revolução Metrópole.
Bacharel em leis, advogado na reflexiva ou
dos Alfaiates, os Suassunas e a
Corte, teve vida atribulada. Andari- filosófica
Revolução Pernambucana de 1817).
Até meados do século XVIll lho, violeiro, conheceu a prisão e o
III – Poesia encomiástica
houve duplicidade linguística: o exílio em Angola por dois anos.
emprego do português e do tupi. O Incompatibilizado com autorida-
A obra atribuída a Gregório de
vernáculo era ensinado nas escolas des civis e eclesiásticas pela malda-
Matos é o organismo mais inventivo e
e revestido de uma aura de prestígio; de, irreverência e justeza de suas
atual de toda a poesia do período
a “língua geral” era empregada na sátiras, foi, desde sempre, “poeta
considerado luso-brasileiro. Gregório
vida familiar, refletindo o forte contin- maldito”. Sua obra permaneceu
praticamente inédita até o século XX, possui três modelos: Camões,
gente indígena e africano em circu- Góngora e Quevedo. Sua poética
lação durante o primeiro e segundo apesar da popularidade de que des-
frutou na Bahia, onde seus poemas mantém, portanto, compromissos
séculos. Esse “abrasileiramento lin- com a Renascença maneirista e
guístico” tem expressão nos autos de circulavam em cópias manuscritas e
eram constantemente oralizados com o Barroco cultista e con-
José de Anchieta, na poesia satírica
pelo povo. As peripécias de sua vida ceptista. Assim, a lírica amorosa
de Gregório de Matos e em alguns
foram romanceadas recentemente anda de permeio com a lírica religio-
momentos do Arcadismo.
por Ana Miranda, no romance bio- sa. Sua sátira desbocada e agressiva
As academias “literárias” baianas
gráfico Boca do Inferno. Sua sátira à vem também da Espanha barroca,
e cariocas foram o último centro
Bahia dominada pela “máquina mer- mas possui raízes medievais portu-
irradiador do Barroco literário e “o
cante” foi reaproveitada em música guesas e qualidades absolutamente
primeiro sinal de uma cultura huma-
por Caetano Veloso: próprias. A poesia encomiástica ex-
nística viva, extraconventual”, se-
plica-se pela habilidade versificatória
gundo Alfredo Bosi. Aglutinavam Triste Bahia, oh quão dessemelhante
religiosos, militares, desembarga- e pelas circunstâncias de sua vida.
Estás e estou de nosso antigo estado!
dores, altos funcionários, reunidos Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
É uma constante em sua poesia
em grêmios eruditos, à imitação das Rica te vi eu já, tu a mi abundante. a noção de que os homens e as vai-
congêneres europeias. Tinham cará- dades humanas são insignificantes,
A ti tocou-te a máquina mercante, de que o tempo é fugaz e a sorte
ter fortemente encomiástico (de
Que em sua larga barra tem entrado; instável. Dentro dessa linha, pro-
elogio) e seus atos acadêmicos des- A mi vem me trocando e tem trocado
tinavam-se à celebração das festas Tanto negócio e tanto negociante.
duziu, entre outros, o magnífico
religiosas ou dos feitos das autori- soneto “Nasce o sol, e não dura
dades coloniais. Deram maior contri- ❑ Uma obra problemática mais que um dia”, que lembra,
buição à História e à erudição em Não há um texto definitivo (edi- pela temática, o famoso “O sol é
geral que à Literatura. ção crítica) da poesia de Gregório de grande...”, de Sá de Miranda.
56 –
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❑ A sátira de Com palavras dissolutas Vocabulário e Notas


Me concluís, na verdade, 1 – Cobrado: recuperado.
Gregório de Matos
Que as lidas todas de um frade
Ora é respeitador do escrúpulo São Freiras, Sermões e Putas.
vocabular, usando palavras admiti- O poeta manipula, a seu favor, a
das pela convenção, para pôr a nu O açúcar já se acabou? … Baixou. parábola da ovelha desgarrada, do
as mazelas e baixezas de toda a E o dinheiro se extinguiu? … Subiu. Novo Testamento. A submissão e hu-
Logo já convalesceu? … Morreu. mildade religiosa reveladas no pri-
Bahia; ora é livre usuário de vocabu-
lários que ainda fazem enrubescer, À Bahia aconteceu
meiro quarteto são contraditadas nos
para retratar isomorficamente festas O que a um doente acontece, tercetos; insinua-se neles o argumen-
de bailes, passeios ou cenas pica- Cai na cama, o mal lhe cresce; to de que a alegria do Senhor e a sua
Baixou, Subiu e Morreu. glória dependem da salvação do poe-
rescas e pornográficas das ruas, lares
e prostíbulos de sua terra. Satiriza ta. Parafraseando o sofisma engen-
Por trás da contundência da sáti- drado: Se Cristo não me perdoar, ou
povo, clero e fidalgos do tempo, sem- ra observe a habilidade na constru-
pre com a mesma maldade, muita perderá uma ovelha desgarrada e,
ção das estrofes pelo processo de
inteligência e alta consciência poé- portanto, a glória, ou não é verdadei-
disseminação-e-recolha: o últi-
tica. A situação de “intelectual bran- ro o que a Bíblia registra.
mo verso de cada estrofe repete e
co” não muito prestigiado pelos po- dispõe no plano horizontal as três pa-
derosos do Brasil pungia o amor-pró- ❑ A poesia lírico-
lavras que finalizam os três primeiros
prio do poeta e o levava a estiletar versos da estrofe. -amorosa – espírito x corpo
todas as classes da nossa socieda- Apresenta-se sob o signo da
de, especialmente os “caramurus”, ❑ A poesia sacra dualidade barroca, oscilando entre
descendentes dos primeiros povoa- de Gregório de Matos a atitude contemplativa, o amor
dores e que por isso se julgavam a Os temas comuns da época da elevado, à maneira dos sonetos de
“nobreza” da terra; os “unhates”, co- Contrarreforma — o horror do peca- Camões, e a obscenidade, o carna-
merciantes portugueses; os mestiços, do, a ameaça do inferno e a humilha- lismo. É curioso que a postura platô-
mulatos, o clero e as autoridades. ção do homem perante Deus — for- nica é dominante, quando o poeta
A sátira constitui a vertente mais necem vasto material para o talento se refere a mulheres brancas, de
“brasileira” e original de sua obra, ain- poético de Gregório de Matos. A condição social superior, e a libido
da que tenha várias vezes recorrido consciência do pecado, o arre- agressiva, o erotismo e o deslo-
aos moldes espanhóis (Quevedo). pendimento e a busca do per- camento são as tônicas, quando o
dão divino são, quase sempre, pre- poeta se inspira nas mulheres de
RETRATO ANATÔMICO textos para o exercício poético. condição social inferior, especial-
DOS ACHAQUES DE QUE A manipulação engenhosa dos mente as mulatas.
PADECIA ÀQUELE TEMPO argumentos, através de silogismos,
A CIDADE DA BAHIA sofismas e paradoxos, evidencia a Minha rica mulatinha
(fragmentos) predominância conceptista na desvelo e cuidado meu,
eu já fora todo teu,
Que falta nesta cidade? … Verdade.
obra do poeta baiano, que tomou e tu foras toda minha;
Que mais por sua desonra? … Honra. emprestado de Quevedo formas,
Falta mais que se lhe ponha? … Vergonha. temas e até versos inteiros. Juro-te, minha vidinha,
se acaso minha qués1 ser,
O Demo a viver se exponha, A JESUS CRISTO, NOSSO SENHOR, que todo me hei de acender
Por mais que a fama a exalta, ESTANDO O POETA em ser teu amante fino
PARA MORRER pois por ti já perco o tino2,
Numa cidade onde falta
e ando para morrer.
Verdade, Honra, Vergonha.
Pequei, Senhor; mas não porque hei
[pecado Vocabulário e Notas
(...) 1 – Qués: quiseres.
Da vossa alta clemência me despido;
Porque, quanto mais tenho delinquido, 2 – Tino: juízo.
E que justiça a resguarda? … Bastarda.
Vos tenho a perdoar mais empenhado.
É grátis distribuída? … Vendida.
Que tem, que a todos assusta? … Injusta. Observe os versos curtos (medida
Se basta a voz irar tanto pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido; velha) e a aproximação com uma
Valha-nos Deus, o que custa Que a mesma culpa, que vos há ofendido, linguagem mais espontânea e popular.
O que El-Rei nos dá de graça, Vos tem para o perdão lisonjeado. Observe também o tema clássico
Que anda a justiça na praça
Bastarda, Vendida, Injusta. do carpe diem (“aproveita o dia”) que
Se uma ovelha perdida e já cobrada1
Glória tal e prazer tão repentino aparece no fragmento a seguir:
(...) Vos deu, como afirmais na sacra história,
Ó não aguardes, que a madura idade,
E nos Frades há manqueiras? … Freiras. Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada, te converta essa flor, essa beleza,
Em que ocupam os serões? ... Sermões. Cobrai-a; e não queirais, pastor divino, em terra, em cinza, em pó, em sombra,
Não se ocupam em disputas? … Putas. Perder na vossa ovelha a vossa glória. [em nada.

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MÓDULO 10 Cláudio Manuel da Costa


1. O CONTEXTO não mais apenas descritivo e pito- ❑ Volta aos modelos clássicos
HISTÓRICO-CULTURAL resco (como ocorrera no Quinhen- Retorno aos modelos greco-ro-
tismo e no Barroco). manos e renascentistas, revaloriza-
O Arcadismo ou Neoclassicismo A vida literária, já estimulada no ção dos arquétipos da poesia e da
corresponde ao período de supe- final do período Barroco pelo apareci- mitologia da Antiguidade. Daí a de-
ração dos conflitos religiosos da mento das Academias Literárias, nominação de Neoclassicismo.
época barroca. No século XVIII a fé e ganha novo alento com o surgimento Predomínio da Razão, a arte
a religião perdem importância, e a de um público leitor. Estabiliza-se, busca o Belo, o Bem, a Verdade e
Razão e a Ciência passam a expli- dessa forma, a relação autor–obra– a Perfeição. Há intenção didática e
car o homem e o mundo. leitor, vale dizer, surgem escritores moralizante: “O belo é verdadeiro
O Arcadismo coincide com o brasileiros, que escrevem sobre o e o verdadeiro é o natural”.
Século das Luzes, marcado pelo Brasil, para leitores brasileiros. Busca da harmonia social pela obe-
Iluminismo (Rousseau, Montes- diência às leis da natureza. Otimis-
mo, crença no progresso do homem,
quieu, Voltaire); pelo Empirismo
da ciência e da razão.
Científico (Newton, Lavoisier, Lineu,
Locke); pelo Enciclopedismo
❑ Arte como
(Diderot) e, no âmbito político, pelo
imitação da natureza
Despotismo Esclarecido.
Obediência às regras de Aristó-
Representa, historicamente, o úl-
teles quanto à verossimilhança
timo período de dominação da aristo-
(mimese). O poeta deveria buscar na
cracia e as primeiras investidas da
natureza os seus modelos, selecio-
burguesia, emergente na Revolução
nando apenas os que configurassem
Comercial, e que assumirá a con-
as noções de Belo, Bem e Perfeição.
dição de classe dominante a partir Os teóricos do Neoclassicismo
da Revolução Francesa. (Boileau, Metastásio) propunham não
Em Portugal, corresponde à épo- a imitação direta da natureza, mas a
ca do Marquês de Pombal (1750- imitação com base nos autores
1777), que operou profundas trans- antigos ou renascentistas (Horácio,
formações administrativas e educa- Ovídio, Virgílio; Petrarca, Camões). O
cionais, sob influxo dos ideais do Jacques-Louis David (1748-1825), Morte poeta arcádico não visa à origina-
Iluminismo e do Despotismo de Marat (Musées Royaux des Beaux- lidade, não é um “inventor”, como o
Esclarecido (expulsão dos jesuí- Arts de Belgique).
barroco, o romântico, o simbolista, o
tas, submissão da Santa Inquisição, moderno; busca a perfeição na
laicização do ensino, reforma univer- 2. CARACTERÍSTICAS imitação do modelo.
sitária, divulgação das ideias cien- Poesia descritiva e objetiva. O
tíficas etc.) Reação aos exageros verbais do poeta deve ser mais um pintor de
No Brasil, corresponde ao Barroco, propondo a clareza, a sim- situações que de emoções.
apogeu da mineração do ouro em plicidade e o equilíbrio clássico. Poucas figuras de linguagem
Minas Gerais e à transferência do (em comparação com o Barroco),
centro econômico e cultural da Colô- Alguém há de cuidar que é frase inchada, preferência pela metonímia, predo-
nia do norte (Pernambuco e Bahia) Daquela que lá se usa entre essa gente, mínio da ordem direta da frase,
para o centro-sudeste (Minas e Rio Que julga que diz muito e não diz nada. emprego do verso branco (sem ri-
de Janeiro). ma), que aproxima a poesia da ca-
O nosso humilde gênio não consente
Corresponde também à fase de dência da prosa.
Que outra coisa se diga, mais que aquilo
estabilização de uma sociedade Que só convém ao espírito inocente.
urbana mais complexa e às primeiras ❑ Bucolismo, pastoralismo
rebeliões contra o Estatuto colonial A frase pastoril, o fraco estilo. Inspirados nos clássicos antigos,
(Inconfidência Mineira, Revolução dos Da flauta e da sanfona, antes que tudo, os árcades tematizam a natureza,
Alfaiates etc.). Daí o nativismo, Será digno que Albano chegue a ouvi-lo. vista sempre como cenário ameno e
que passa a ser reivindicatório e (Cláudio Manuel da Costa) aprazível (pastores, ovelhas, riachos

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cristalinos, campinas verdejantes, • Poesia Satírica: Tomás An- Que tarde nasce o Sol, que vagaroso!
Parece que se cansa de que a um triste
alamedas floridas etc.). A natureza tônio Gonzaga (Cartas Chilenas ) e
Haja de aparecer: quanto resiste
é convencional, e serve de Silva Alvarenga (O Desertor das Letras). A seu raio este sítio tenebroso!
moldura suave, de cenário para a
vida serena dos pastores e suas ❑ Cláudio Manuel da Costa Não pode ser que o giro luminoso
Tanto tempo detenha: se persiste
musas, ou de testemunha impassível (Glauceste Satúrnio)
Acaso o meu delírio! se me assiste
dos lamentos e desenganos do (Mariana, 1729 – Vila Rica, Ainda aquele humor tão venenoso!
poeta. 1789)
Autor de Obras Poéticas (1768), Aquela porta ali se está cerrando;
Dela sai o Pastor: outro assobia,
❑ Fingimento, afetação reunindo sonetos, éclogas, cantatas,
E o gado para o monte vai chamando.
e convencionalismo epicédios, epístolas e outras modalida-
Na mitologia clássica, a Arcá- des, além do poema épico de inspira- Ora não há mais louca fantasia!
dia era concebida como morada ção camoniana, denominado Vila Rica. Mas quem anda, como eu, assim penando,
Não sabe quando é noite ou quando é dia.
dos pastores que, governados por Nasceu em Minas, filho de mine-
Pã, viviam em contato com a na- radores, estudou na Corte. Voltando
• Tentou conciliar as conven-
tureza, tangendo suas ovelhas, en- ao Brasil, foi envolvido na devassa
ções do Arcadismo com a paisagem
tretidos em amáveis pugnas poéticas da Inconfidência Mineira, suicidan-
mineira, mas reconheceu as limita-
e musicais, e na exaltação da beleza do-se na prisão. ções que as adversidades da condi-
das musas e da excelência da vida ção colonial impunham à criação
campestre. Características poética. Observe esses fragmentos
Quando, por volta de 1690, alguns • Sobrevivem traços cultistas do “Prólogo” das Obras Poéticas:
poetas italianos começaram a se opor em sua obra, que se realiza como
ao Barroco, fundaram sociedades lite- uma transição entre o Barroco “que só entre as delícias do Pin-
rárias às quais deram o nome de ar- e o Arcadismo. do se podem nutrir aqueles espíritos
cádias, aludindo à inspiração clás- que desde o berço se destinaram a
sica que norteava essas associações • Buscou os modelos clássicos tratar com as Musas.”
e às propostas de uma poesia sim- (Teócrito, Virgílio, Sannazaro, Ca- “Não são estas as venturosas
ples, bucólica e pastoril. Os mem- mões) com equilibrada consciência praias da Arcádia, onde o som das
bros das arcádias adotavam pseudô- crítica. Concluindo o Prólogo ao águas inspirava a harmonia dos ver-
nimos pastoris e chamavam-se uns Leitor, das Obras Poéticas, diz, sos. Turva e feia, a corrente desses
aos outros de pastores. com visível falsa modéstia: ribeirões, primeiro que arrebate as
São frequentes os temas clássi- ideias de Poeta, deixa ponderar
cos: o carpe diem (= aproveita o dia), “A lição dos gregos, franceses e ambiciosa fadiga de minerar a terra
a aurea mediocritas (= mediania de italianos, sim, me fizeram conhecer a que Ihes tem pervertido as cores.”
ouro), a exaltação da vida simples, o “A desconsolação de não poder
diferença sensível dos nossos estu-
substabelecer aqui as delícias do Tejo,
fugere urbem (= fugir da civilização), dos, e dos primeiros Mestres da Poe-
do Lima e do Mondego, me fez empe-
buscar na natureza a felicidade, o sia. É infelicidade que haja de con-
cer o engenho dentro do meu berço.”
locus amoenus (= natureza amena, fessar que vejo e aprovo o melhor,
aprazível). Os poetas árcades ado- mas sigo o contrário na execução.” • Essa visão realista e objetiva
tavam como lema o inutilia truncat (=
da impossibilidade de transpor para
corta o inútil), aludindo à oposição de • Apesar dos traços cultistas a natureza brasileira as convenções
exageros ornamentais do Barroco. que sua obra revela, fez severas da poesia arcádica contribuiu para
restrições a esse estilo, defendendo que se criticasse, em Cláudio
3. ARCADISMO NO BRASIL a simplicidade arcádica. Manuel da Costa, a ausência do
elemento brasileiro. Contudo, a
De 1768, com as Obras Poéticas, • Foi grande sonetista, sóbrio paisagem mineira está presente na
de Cláudio Manuel da Costa, a 1836, e elegante, revelando acen- sua obra, através de alusões à
início do Romantismo, com Suspiros tuadas influências de Camões natureza áspera (pedras, penhas,
Poéticos e Saudades, de Gonçalves e de Petrarca. Poeta de forma rochedos, penhascos), que o
de Magalhães e Caldas Barbosa. trabalhada, virtuosística, adotou uma poeta faz contrastar com a brandura
concepção neoclássica de poesia, de seus sentimentos.
• Poesia Épica: Cláudio Ma- sem sacrificar por inteiro a expressão
...oh! quem cuidara
nuel da Costa, Basílio da Gama e das emoções e sentimentos, presen- Que entre penhas tão duras se cria
Santa Rita Durão. tes em suas melhores criações. Uma alma terna, um peito sem dureza.

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• Oscilou entre o apego à Colô- na tristeza da mudança das coisas Levantar-me de um sonho, quando atende
O meu ouvido um mísero conflito,
nia e o amor à Metrópole, atitude em relação à permanência dos sen-
A tempo, que o voraz lobo maldito
comum a muitos dos nossos árca- timentos; A minha ovelha mais mimosa ofende;
des. Por isso, é frequente a expres- – o contraste rústico x civilizado;
são do dilaceramento interior, – Nise, sua musa e pastora, Encontrar a dormir tão preguiçoso
Melampo, o meu fiel, que na manada
provocado pelo contraste entre o causa de seus lamentos e dissabo-
Sempre desperto está, sempre ansioso;
rústico mineiro e a experiência res:
intelectual e social na Europa. Ah! queira Deus que minta a sorte irada:
Aquela cinta azul, que o Céu estende Mas de tão triste agouro cuidadoso1
• Os temas que versou com À nossa mão esquerda, aquele grito Só me lembro de Nise, e de mais nada.
mais frequência foram Com que está toda a noite o corvo aflito
– o platonismo amoroso, Dizendo um não sei quê, que não se Vocabulário e Notas
configurado no amante infeliz e [entende; 1 – Cuidadoso (de): preocupado com.

MÓDULO 11 Autores Árcades


1. TOMÁS ANTÔNIO rado na estilização de sua alegria ou As preferências temáticas estão
GONZAGA (Porto, de seu drama. Essa nota de subje- centradas no ideal de vida simples,
1744 – Moçambique, 1810) tivismo é mais evidente na segun- no pastoralismo e bucolismo (fugere
da parte das Liras. urbem); no heroísmo que se atinge
Nascido em Portugal, veio para o Sob esse aspecto, é possível re- pela honradez e pelo trabalho (aurea
Brasil com 7 anos. Voltou a Portugal, constituir, a partir das Liras, a evolução mediocritas); no sentimento da
onde se formou em Direito e exerceu dos sentimentos e intenções de Dirceu transitoriedade da vida, que
a magistratura. Retornando ao Brasil, em relação a Marília: a descoberta e a arrasta o poeta ao carpe diem
já com 38 anos, na condição de horaciano; nos retratos que lisonjeiam e
revelação da mulher escolhida, a fase
Ouvidor de Vila Rica, ficou noivo de divinizam a mulher amada.
dos ciúmes, a consolidação dos senti-
Maria Joaquina Doroteia de Seixas (a Tudo isso se mistura à expressão
mentos e intenções, a frustração dos
Marília das Liras). de um ideal burguês de vida, às
planos de casamento e a expressão
Envolvido na Inconfidência Minei- tentativas de autovalorização,
da desesperança e da solidão. de afirmação narcisística das
ra, foi desterrado para Moçambique,
2.o) A imitação direta da na-
onde reconstruiu sua vida e conquis- qualidades do poeta, às cenas
tureza de Minas, e não da nature-
tou excelente situação econômica. da natureza que oscilam entre a
za reproduzida dos poetas bucólicos
frivolidade próxima ao estilo
greco-romanos ou renascentistas. A
❑ Obras ficção bucólica de Gonzaga é inje-
rococó e o realismo descritivo.
• Poesia lírica: Liras de Marília A primeira parte das Liras,
tada de autenticidade pela transcri-
de Dirceu – Partes I e ll; que corresponde à época do noiva-
ção dos aspectos rústicos e reais da
• Poesia satírica: Cartas Chi- do, expressa a vertente mais conven-
paisagem e da vida da Colônia.
lenas ; cional e neoclássica: os encantos de
Apesar das alusões mitológicas
• Tese jurídica: Tratado de Marília, os amores de Dirceu, os pro-
e de outras reminiscências clássicas,
Direito Natural. percebe-se que o poeta teve a preo- jetos de vida futura, os quadros des-
cupação de fazer-se claramente en- critivos amenos, a expressão otimista
❑ Características das Liras tendido por Marília. Para tanto, obser- e o narcisismo:
• Foi o poeta mais equili- va-se o tom familiar, quase prosaico,
bradamente neoclássico de Num sítio ameno,
de boa parte das composições.
nossa literatura, e sua obra lírica é, Cheio de rosas,
Mesmo admitindo a sinceridade De brancos lírios,
ainda hoje, das manifestações árca- das intenções do poeta, não há nas Murtas viçosas,
des no Brasil, a que mais se Liras um transbordamento de um apai- Dos seus amores
comunica com o leitor. xonado autêntico. Há muito de “fingi- Na companhia,
• Apesar de ceder, vez por outra, mento”, de frieza calculada e disfarça- Dirceu passava
às convenções da poesia arcádica, da de um conquistador cortês, dotado Alegre o dia.
infunde em sua obra dois elementos de apreciável intuição psicológica. Isso
não convencionais: explica as contradições na caracteri- A segunda parte das Liras,
1.o) O lirismo como expres- zação de Dirceu, ora honrado pastor, escrita no cárcere, expressa a amargu-
são pessoal, construído em torno ora ilustre magistrado, e na de Marília, ra, o desconsolo e a solidão. Há mo-
de seu modo de ser e pensar, inspi- ora loira, ora morena. mentos de revolta contra a injustiça e

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incompreensão dos homens. Os senti- Glaura, as ninfas te chamaram


E buscaram doce abrigo;
TEXTOS
mentos de melancolia, saudade e
Vem comigo, e nesta gruta
depressão aproximam-se do pathos
Branda escuta o meu amor. Minha bela Marília, tudo passa;
romântico. Mas não há o desvario a sorte deste mundo é mal segura;
sentimental dos românticos nem a in- se vem depois dos males a ventura1,
Alguns veem, na presença da pai- vem depois dos prazeres a desgraça.
continência verbal. Mesmo expressan-
sagem nativa e na exaltação de sua Estão os mesmos2 deuses
do seu desespero, o estilo de Gonzaga
graça e beleza, uma antecipação ro- sujeitos ao poder do ímpio fado3:
é sóbrio, equilibrado, ainda preso ao Apolo já fugiu do céu brilhante,
mântica.
espírito dos clássicos: já foi pastor de gado.
Defensor da política pombalina,
Se me visses com teus olhos escreveu um poema herói-cômico, O A devorante mão da negra morte
Nesta masmorra metido, Desertor das Letras, voltado para a acaba de roubar o bem que temos;
De mil ideias funestas até na triste campa4 não podemos
exaltação da reforma universitária e zombar do braço da inconstante sorte:
E cuidados combatido,
educacional promovida pelo Mar- qual5 fica no sepulcro6,
Qual seria, ó minha bela,
quês de Pombal. que seus avós ergueram, descansado;
Qual seria o teu pesar?
qual7 no campo, e lhe arranca os frios ossos
ferro do torto arado.
❑ As Cartas Chilenas 3. ALVARENGA PEIXOTO
Poema satírico, vazado em 13 (Rio, 1744 – Angola, 1792) Ah! enquanto os destinos impiedosos
cartas (a 7.a e a 13.a incompletas), não voltam contra nós a face irada,
façamos, sim, façamos, doce amada,
que ataca os desmandos do gover- Exaltou a política pombalina e os nossos breves dias mais ditosos8.
nador de Minas, D. Luís da Cunha assumiu, por vezes, atitude de crítica Um coração que, frouxo,
Menezes. Os nomes das pessoas em relação à política colonizadora de a grata posse de seu bem difere9,
envolvidas são ocultos por criptô- Portugal, tendo sido apontado como a si, Marília, a si próprio rouba
e a si próprio fere.
nimos. Gonzaga é Critilo; Cláudio responsável pelo lema da bandeira
Manuel da Costa, o suposto destina- da Inconfidência, extraído de um Ornemos nossas testas com as flores
tário, é Doroteu; o governador Cunha verso de Virgílio: Libertas quae sera e façamos de feno um brando leito;
Menezes é Minésio, o Fanfarrão. Os tamen, que significa “Liberdade, Prendamo-nos, Marília, em laço estreito,
topônimos também são trocados, gozemos do prazer de sãos amores.
ainda que tardia”. Sobre as nossas cabeças,
mas os fatos narrados por Critilo e Sua obra era considerada irregu- sem que o possam deter, o tempo corre;
imputados ao governador são reais. lar, escassa e convencional, atrelada e para nós o tempo que se passa
A crítica é de natureza pessoal, aos clichês árcades. Entretanto, também, Marília, morre.
dirigida ao governador. Não há opo- depois que Manuel Rodrigues Lapa Com os anos, Marília, o gosto falta,
sição à Metrópole nem ao sistema publicou cinco sonetos inéditos do e se entorpece o corpo já cansado:
colonial. autor (Vida e Obra de Alvarenga triste, o velho cordeiro está deitado,
e o leve filho, sempre alegre, salta.
Peixoto, Rio: INL, 1960), a crítica tem
A mesma formosura
2. SILVA ALVARENGA reavaliado a verve lírica desse poeta. é dote que só goza a mocidade:
(Vila Rica, 1749 – Rio, 1814) Transcrevemos a seguir um desses rugam-se as faces, o cabelo alveja,
sonetos: mal chega a longa idade.
Sua produção lírica está reunida
no livro Glaura, coletânea de poemas Que havemos de esperar, Marília bela?
Ao mundo esconde o Sol seus resplandores, Que vão passando os florescentes dias?
de forma fixa, especialmente de ron- e a mão da Noite embrulha os horizontes; As glórias que vêm tarde já vêm frias,
dós (composição poética graciosa e não cantam aves, não murmuram fontes, e pode, enfim, mudar-se a nossa estrela.
musical, com estribilho constante e não fala Pã na boca dos pastores. Ah! não, minha Marília,
número variável de versos) e de ma- aproveite-se o tempo, antes que faça
Atam as Ninfas, em lugar de flores, o estrago de roubar ao corpo as forças
drigais (forma poética delicada,
mortais ciprestes sobre as tristes frontes; e ao semblante a graça!
cantante), para exaltação da beleza erram chorando nos desertos montes, (Tomás Antônio Gonzaga)
e das graças femininas. sem arcos, sem aljavas, os Amores.
É o representante mais típico do Vocabulário e Notas
Vênus, Palas e as filhas da Memória, 1 – Ventura: felicidade.
estilo rococó, presente na ameni-
2 – Mesmo: próprio.
dade e frivolidade das pinturas da deixando os grandes templos esquecidos,
3 – Ímpio fado: impiedoso destino.
não se lembram de altares nem de glória.
natureza (beija-flores, borboletas 4 – Campa: túmulo.
etc.). Sua ambiência lírica é hetero- 5 – Qual: um.
Andam os elementos confundidos:
6 – Sepulcro: sepultura.
gênea: ninfas e dríades, extraídas da ah, Jônia, Jônia, dia de vitória 7 – Qual: outro.
poesia clássica, aparecem ornadas sempre o mais triste foi para os vencidos! 8 – Ditoso: feliz.
de flores de manacá e de maracujá. (Alvarenga Peixoto) 9 – Diferir: adiar.

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MÓDULO 12 Autores Épicos do Arcadismo e Pré-Romantismo


1. AUTORES bo, o amado da bela índia, foi levado niano (dez cantos, versos decassíla-
ÉPICOS DO ARCADISMO à morte por uma trama traiçoeira do bos em oitava-rima).
horrendo jesuíta Balda. Este agora vai Nesse poema, narram-se os
❑ Basílio da Gama conseguir seu intento de casar seu acontecimentos lendário-históricos do
(São José do Rio das Mor- repulsivo filho Baldeta com a índia, naufrágio, do salvamento e das
tes, MG, 1741 – Lisboa, 1795) que é filha do cacique. No final do epi- aventuras de Diogo Álvares Correia, o
Sua obra de maior representativi- sódio, Lindoia, refugiada numa gruta Caramuru.
dade foi O Uraguai, epopeia em para evitar o casamento indesejado, Caramuru destaca-se por apre-
cinco cantos, com versos brancos escreve por toda a parte o nome do sentar costumes e instituições dos
(sem rimas) e estrofação livre, que amado morto e depois deixa que uma índios brasileiros, a flora nativa e o
narra o conflito entre os índios de cobra venenosa Ihe morda o seio. sentimento nativista de amor à pátria.
Sete Povos das Missões e o exército Assim o poeta a descreve morta: Assim Santa Rita Durão prenun-
luso-espanhol. cia a figuração romântica do índio:
No poema, Basílio da Gama ten- Inda conserva o pálido semblante1
ta conciliar a louvação de Pombal e Um não sei quê de magoado e triste, Nós que zombamos deste povo insano,
Que os corações mais duros enternece,
do heroísmo do indígena. Torna herói Se bem cavarmos no solar nativo,
Tanto era bela no seu rosto a morte! Dos antigos heróis dentro às imagens
o comissário real português Gomes
Não acharemos mais que outros selvagens.
Freire de Andrade, fazendo recair Vocabulário e Notas
sobre os jesuítas a pecha de vilões. 1 – Semblante: rosto. Veja-se a abertura do poema:
Sobre O Uraguai, pode-se afirmar:
• nada há no poema que lembre Comentário De um varão em mil casos agitado,
• O antológico verso final, com suas Que as praias discorrendo do Ocidente,
as rígidas divisões do poema épico
aliterações em t e seu tom exclamativo, é Descobriu o recôncavo afamado
tradicional, ou seja, do modelo camo- imitação de um verso do poeta italiano Da capital brasílica potente,
niano; Petrarca (séc. XV): Morte bela parea nel suo bel Do filho do trovão denominado,
• a natureza é colhida por ima- viso, “a morte parecia bela em seu rosto belo”. Que o peito domar soube à fera gente,
gens densas e rápidas; já não são as Mas o verso de Basílio supera o italiano. O valor cantarei na adversa sorte,
imagens do Arcadismo, mas sim o Pois só conheço herói quem nela é forte.
caminho para o paisagismo român- Na lírica, suas produções são às
tico; vezes de alta qualidade, como atesta 2. PRÉ-ROMANTISMO
• há o realismo da ação heroica, o soneto seguinte, em que o lugar-
e não o fabuloso; comum do carpe diem é desen- Alguns periodizadores de nossa
• usa-se o sobrenatural (bruxa- volvido com o emprego de imagens literatura estabelecem a existência de
ria indígena); de discreto gosto barroco. um período de transição, situado
• o indígena é tomado como he- entre a Era Colonial e a Era
rói, equiparado ao português, pre- Já, Marfiza cruel, me não maltrata Nacional, entre o Arcadismo e o
Saber que usas comigo de cautelas,
nunciando o índio romântico de Qu’inda te espero ver, por causa delas,
Romantismo, denominado Pré-
Gonçalves Dias e Alencar. Arrependida de ter sido ingrata. Romantismo e compreendido entre
Veja-se a abertura do poema: 1808 (vinda da Família Real e
Com o tempo, que tudo desbarata1, Abertura dos Portos) e 1836 (início do
Fumam ainda nas desertas praias Teus olhos deixarão de ser estrelas; Romantismo, com o aparecimento de
Lagos de sangue tépidos1 e impuros2, Verás murchar no rosto as faces belas,
E as tranças d’ouro converter-se em prata. Suspiros Poéticos e Saudades, de
Em que ondeiam cadáveres despidos,
Pasto de corvos. Dura inda nos vales Gonçalves de Magalhães).
O rouco som da irada artilheria. Pois se sabes que a tua formosura Esse período de 1808 a 1836
MUSA, honremos o Herói3 que o povo rude Por força há de sofrer da idade os danos, marcou a transição da condição colo-
Subjugou do Uraguai e no seu sangue Por que me negas hoje esta ventura?
nial para a de país independente e,
Dos decretos reais lavou a afronta.
Ai, tanto custas, ambição de império4!... Guarda para seu tempo os desenganos, literariamente, apontou para os pre-
Gozemo-nos agora, enquanto dura, núncios do Romantismo, já esboça-
Vocabulário e Notas Já que dura tão pouco, a flor dos anos. dos, como vimos, em vários autores
1 – Tépido: quente. árcades. Houve intensa atividade jor-
2 – Impuro: porque o sangue é de indígenas, Vocabulário e Notas
nalística (vinculada à independência,
não cristãos. 1 – Desbaratar: arruinar.
3 – Herói: o general português que lutou
à abolição, às crises do período re-
contra os indígenas. ❑ Frei Santa Rita gencial), além da oratória sacra (Frei
4 – Império: domínio. Durão (Cata Preta, Francisco do Monte Alverne) e
MG, 1722 – Lisboa, 1784) da poesia (José Bonifácio de
O episódio mais famoso do poe- É o autor do poema épico Cara- Andrada e Silva, Frei Francisco
ma é o da morte de Lindoia. Cacam- muru, no qual segue o modelo camo- de São Carlos e Sousa Caldas).
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MÓDULO 13 Bocage

1. CONTEXTO PORTUGUÊS geometria, álgebra, óptica etc.), dan- rebeldia contra o Barroco (inutilia
ça, esporte. A Universidade de Évora, truncat), a tentativa de restabelecer a
O absolutismo tradicional pro- cujos proprietários eram jesuítas, foi simplicidade das artes renascentista
clamava a subordinação do monarca extinta. e antiga pertencem a um contexto
às leis de Deus (leis interpretadas A educação libertou-se do con- em que as discussões literárias estão
pela Igreja, evidentemente), aos cos- trole da Igreja, com base no princípio em comum acordo com discussões e
tumes do país e às leis que o rei iluminista de que a Razão é a fonte reformas de ordem legal.
promulgava para a nação. Em opo- de todo o conhecimento. Em 1790 foi fundada a Academia
sição, o despotismo esclareci- Surgiu, como reflexo das “luzes” das Belas Artes, logo depois denomi-
do entendia que as leis (as de Deus, e do racionalismo, uma nova Lisboa: nada Nova Arcádia. Três anos de-
as naturais e as da nação) deveriam metade da cidade havia sido destruí- pois, a Academia já publicava algu-
ser interpretadas pelo soberano. da por um terremoto (1755). Caíram mas obras poéticas de seus sócios,
Esse período começou, em Por- em ruínas o palácio real, igrejas, hos- sob o título Almanaque das Musas.
tugal, a partir de 1755, com o reinado pital, ópera, ruas e bairros opulentos. Seus integrantes mais importantes
de D. José (1750-1777). Seu grande O futuro Marquês de Pombal, em vez foram Domingos Caldas Barbosa
mentor foi o Marquês de Pombal, de reedificar a cidade a partir do (1740-1800), brasileiro que ficou
que, em parte, adotou teorias de al- traçado anterior, mandou destruir as famoso nos ambientes aristocráticos
guns pedagogos portugueses que ruínas e decidiu que fosse levantada pela interpretação e composição de
tinham vivido no exterior (pejorativa- uma cidade “esclarecida”: racional- modinhas e lundus, e Padre José
mente chamados de “estrangeiros”): mente planejada e edificada, com Agostinho de Macedo, poeta satírico.
Luís Antônio Verney, Ribeiro Sanches, ruas, praças e casas traçadas a ré- Com ele se desentendeu o poeta
colaborador da Enciclopédia, de gua e compasso. Bocage e, por causa das diver-
D’Alembert, entre outros. Enquanto a nova Lisboa revelava a gências internas, a Nova Arcádia, em
No Direito, o fundamento político ideologia racional dos iluministas, houve 1794, acabou desaparecendo.
dos Estados ilustrados era a Razão. em Portugal a convivência com o estilo
A lei de 1790, unificando a jurisdição tenso do Barroco: o ouro que ia do Brasil 3. MANUEL MARIA BARBOSA
em todo o país, constituiu um novo para Portugal e o vinho exportado para DU BOCAGE (1765-1805)
passo no sentido de romper os privi- a Inglaterra levaram prosperidade ao
légios feudais e impor a todos a auto- reino, acarretando a construção de ❑ Vida
ridade única da Coroa. mansões aristocráticas que seguiram Bocage é o pastor Elmano Sa-
Além do Direito, o lluminismo de- as formas tradicionais do Barroco. dino da Nova Arcádia (Elmano é
sempenhou um papel decisivo na A renovação cultural que se pro- anagrama de Manoel e Sadino é
cultura, sobretudo na educação re- cessou levou também à substituição homenagem ao Rio Sado, que passa
gular. O atraso do sistema de ensino da influência espanhola pelas influên- por Setúbal, terra natal do poeta).
português era grande. O Estado des- cias francesa, italiana, inglesa e alemã. Desde cedo, Bocage sente-se
pótico adotou a política da interven- identificado com Camões:
ção direta no sistema cultural, me- 2. O ARCADISMO Camões, grande Camões, quão semelhante
diante a censura do Estado (a cen- EM PORTUGAL Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
sura religiosa foi substituída pela
Real Mesa Censória, de 1768). O • 1756 – Fundação da Arcádia Jovem ainda, apaixonou-se por
ensino jesuítico foi proibido e subs- Lusitana. Gertrudes (Gertrúria da poesia árca-
tituído por uma educação renovada e • 1825 – Início do Período Ro- de), mas ao voltar a Lisboa — depois
mais progressista. Verney, com seu mântico, com a publicação do de ter ido servir em Goa, colônia
Verdadeiro Método de Estudar (1746), poema Camões, de Almeida Garrett. portuguesa, e de ir a Macau, tendo já
cobriu todos os campos da Educa- Com a fundação da Arcádia desertado — o poeta a reencontra
ção. As reformas educacionais impli- Lusitana, em 1756, teve início uma casada com seu irmão:
cavam o conhecimento da escrita, nova fase no setor doutrinário: as teo-
Por bárbaros sertões gemi, vagante:
línguas, humanidades (retórica, poe- rias sobre Arte Poética, de Cândido Falta-me ainda o pior, falta-me agora
sia e história), ciências (aritmética, Lusitano, inspiradas em Boileau, a Ver Gertrúria nos braços de outro amante.

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Boêmio, conheceu a vida devas- personalidade, que o faz retratar-se, Mas, quando ferrugenta enxada idosa
sa. Em 1797 foi preso e processado gritar o seu remorso e o horror do Sepulcro me cavar em ermo outeiro 6,
Lavre-me este epitáfio mão piedosa:
pelas ideias anticatólicas e antimo- aniquilamento na morte. Esta última
narquistas. Depois de meses de pri- é uma ideia que constantemente o “Aqui dorme Bocage, o putanheiro;
são, conseguiu sua transferência persegue. Revolta-se ainda contra a Passou vida folgada e milagrosa;
para o Mosteiro de São Bento. humilhação da dependência e Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro.”
Dizem os biógrafos que de lá ele contra o despotismo em nome da Vocabulário e Notas
saiu arrependido e transformado. Razão. Cultiva o fúnebre e o noturno, 1 – Verbi-gratia: por exemplo.
O certo é que Bocage, ao ser exprime clamores de ciúme, de 2 – Engrolar: enrolar, recitar de qualquer jeito.
libertado, passou a viver de tradu- 3 – Sub-venites: salmos.
blasfêmia ou contrição. É o
ções, sustentando a si e a sua irmã. 4 – Gatarrão: gato.
pessimismo e o fata lis mo que 5 – Gente de malta: gente de má fama, ralé.
Em vida, o poeta publicou Idílios invadem a poesia bocagiana. 6 – Outeiro: colina, monte.
Marítimos, recitados na Academia Percebe-se que o Bocage dessa
das Belas-Artes (1791) e as Rimas fase é pré-romântico: procura expres- Textos como esse foram utilizados
(três volumes: 1791, 1799 e 1804). sões novas para transmitir suas con- para fundamentar a prisão do poeta.
fissões, o arrependimento, a tensão
❑ A lírica de Bocage
dramática, o sofrimento moral. Para
Como lírico, é da maior impor- TEXTOS
ser inteiramente romântico, falta li-
tância. Cultivou a lírica elegíaca, a
bertar-se por completo de sua
bucólica e a amorosa, exprimindo-se
formação neoclássica. Isso talvez Meu ser evaporei na lida insana
em odes, elegias, canções, epístolas,
sonetos etc. É especialmente no tenha diminuído a temperatura dra- Do tropel de paixões que me arrastava;
mática de sua poesia. De qualquer Ah! cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
soneto que ele evidencia seu alto Em mim quase imortal a essência humana.
talento lírico, sendo invariavelmente forma, é um dos maiores poetas da
considerado um dos três maiores língua por tuguesa, tornando-se a De que inúmeros sóis a mente ufana
sonetistas da língua, ao lado de sua obra o grande elo entre o melhor Existência falaz me não dourava!
Camões e Antero de Quental. da poesia clássica, a de Camões, e a Mas eis sucumbe a Natureza escrava
Ao mal que a vida em sua origem dana.
que vingaria no Romantismo, carac-
❑ Evolução da lírica terizada pelo signo da revolta e da Prazeres, sócios meus e meus tiranos!
bocagiana: o conflito mais profunda insatisfação. Esta alma, que sedenta em si não coube,
razão versus sentimento Sintetizando as antecipações ro- No abismo vos sumiu dos desenganos.
Pode-se dividir em duas fases a mânticas de Bocage, vale enfatizar
poesia lírica de Bocage: • a imposição do eu: o subjeti- Deus, ó Deus!… Quando a morte à luz me
[roube,
vismo; Ganhe um momento o que perderam anos,
Primeira fase: • a presença da morte, da poe- Saiba morrer o que viver não soube.
a lírica arcádica sia noturna e fúnebre: o locus
É marcada pela maior presença horrendus substitui o locus amoenus ***
de regras e convenções trazidas pelo da primeira fase;
Arcadismo. O poeta adota uma atitu- • o pessimismo, o fatalismo e a Incultas produções da mocidade
de de artificialismo poético, cercan- Exponho a vossos olhos, ó leitores:
poesia confessional.
do-se de imagens mitológicas e clás- Vede-as com mágoa, vede-as com piedade,
Que elas buscam piedade, e não louvores:
sicas, para as quais transpõe os
❑ A poesia satírica de Bocage
seus infortúnios (fingimento poético). Ponderai da Fortuna a variedade
Ainda que considerada inferior à
Bocage procura sujeitar-se ao racio- Nos meus suspiros, lágrimas e amores:
lírica, a sátira de Bocage, vítima de
nalismo clássico, mas o seu tempe- Notai dos males seus a imensidade,
ramento e sensibilidade impelem-no severa repressão, foi o aspecto que A curta duração dos seus favores:
a uma expressão mais emotiva e pes- mais se popularizou, gerando um ane-
dotário fescenino que a imaginação E, se entre versos mil de sentimento
soal. Começa a impor-se o eu tumul- Encontrardes alguns cuja aparência
tuoso do artista contra a impes- do povo veio ampliando com o tempo.
Indique festival contentamento,
soalidade e o fingimento da poesia
Lá quando em mim perder a humanidade
árcade. Mais um daqueles que não fazem falta,
Crede, ó mortais, que foram com violência
Escritos pela mão do Fingimento,
Verbi-gratia1 — o teólogo, o peralta,
Cantados pela voz da Dependência.
Segunda fase: Algum duque, ou marquês, ou conde, ou
a lírica pré-romântica [frade; ***
O que melhor o distingue nessa
Não quero funeral comunidade, Marília, se em teus olhos atentara1,
nova fase é a matéria psicológica Que engrole2 sub-venites3 em voz alta; Do estelífero2 sólio3 reluzente,
que traz pela primeira vez à poesia Pingados gatarrões 4, gente de malta 5, Ao vil mundo outra vez o onipotente,
portuguesa: o sentimento agudo da Eu também vos dispenso a caridade; O fulminante Júpiter baixara 4.

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Se o deus que assanha as Fúrias te avistara, E se a força igualasse o pensamento, 2 – Estelífero: estrelado.
As mãos de neve, o colo transparente, Ó alma de minh’alma, eu te of’recera 3 – Sólio: trono; sólio estelífero: céu.
Suspirando por ti, do caos ardente Com ela a Terra, o Mar e o Firmamento. 4 – Baixara: baixaria; ver também as formas
Surgira à luz do dia e te roubara. verbais nos versos 8, 11 e 13.
Vocabulário e Notas 5 – Dafne: ninfa da mitologia grega que, para
Se a ver-te de mais perto o Sol descera, 1 – Atentara: atentasse; ver também as formas esquivar-se do assédio de Apolo, acaba
No áureo carro veloz dando-te assento, verbais nos versos 5 e 9. sendo transformada em loureiro.
Até da esquiva Dafne5 se esquecera.

Romantismo: breve histórico –


MÓDULO 14
Romantismo em Portugal

1. ROMANTISMO larismo do indivíduo (subjetivismo) e • O predomínio


do país (nacionalismo); em vez da da imaginação e da
❑ Contexto repetição do que a tradição consa- emoção – O subjetivismo
O Romantismo é o movimento gra, os românticos valorizam a A manifestação do subjetivismo
cultural que reflete as ideias e ideais originalidade, o novo. corresponde ao predomínio da fun-
da burguesia recém-chegada ao po- ção emotiva ou expressiva da lin-
der. É, no plano intelectual, uma revo- ❑ Características guagem.
lução que corresponde ao que, no formais e temáticas A metáfora é, mais uma vez, o
plano político, foi a Revolução Fran- • A ruptura com a instrumento pelo qual a imaginação
cesa (1789) e as outras revoluções disciplina clássica descobre semelhanças onde há dis-
burguesas (de 1770 e 1848), e, no Na poesia desaparecem as for- paridade. Daí a riqueza das imagens
plano tecnológico, ao que foi a Revo- mas fixas, predominando a liberdade e a ousadia das aproximações, fer-
lução Industrial (por volta de 1750). quanto à extensão do poema e quan- mentando um discurso pomposo,
Os movimentos culturais ocor- to aos temas e à natureza dos versos colo ri do, carregado de adje -
ridos após a Idade Média — Renas- e estrofes. A poesia aproxima-se tivos. A realidade confunde-se com
cimento, Barroco e Arcadismo —, do tom coloquial da prosa, e a a fantasia, e a percepção das coisas
apesar de suas diferenças, são todos prosa ganha inflexões poéti- torna-se mais importante do que elas
pertencentes à Era Clássica, que tem cas. O conto, a novela e o ro- próprias. A intensidade da emoção,
como fundamento socioeconômico o mance tornam-se gêneros muito o impulso, por vezes o tumulto,
fato de a nobreza estar no poder. O difundidos e ganham respeitabili- fazem frequentes as interjeições, os
Romantismo inaugura a Era Român- dade. pontos de exclamação e as reticên-
tica, que, a despeito também de suas O teatro rompe com a lei das cias, a dupla pontuação e as após-
diferenças, inclui ainda o Realismo- três unidades e manifesta-se em trofes violentas.
Naturalismo, o Parnasianismo, o Sim- prosa. O gênero épico ganha inú- • O nacionalismo vai buscar
bolismo e o Modernismo. meras modalidades e perde o rigor suas fontes no passado histórico e
A burguesia, instalada então no clássico; desaparecem as sugestões lendário (na Idade Média, para os eu-
poder após aquelas revoluções, mas fundadas na mitologia greco-romana. ropeus; na figura do índio e na
sem a tradição e o prestígio da no- A liberdade, a flexibilidade e a natureza, nos países da América).
breza, já decaída, instaura nova mistura de gêneros tornam relativos Desenvolve-se o gosto pelo exótico,
perspectiva estética: em vez dos pro- todos os valores. pela cor local e pelas manifes-
cedimentos artificiosos da cultura Retomando alguns aspectos do tações nacionais e populares.
clássica — imitação da natureza, Barroco (o impulso pessoal, a intensi- • O idealismo –
razão, ordem, equilíbrio, harmonia, dade, a irregularidade), o Romantis- A insatisfação –
impessoalidade etc. —, a arte agora mo constitui o primeiro grande estilo O escapismo
expressa os aspectos tumultuosos e moderno do Ocidente. Renova-se a (fuga da realidade)
pessoais da existência, como a pai- língua, com a incorporação da O mundo real sempre frustra o
xão, o amor, o sonho, o devaneio, a linguagem oral e do neologismo. A idealismo romântico. Daí a rebeldia
loucura, a morbidez, o tédio, o espí- superação do repertório linguístico dos poetas do mal-do-século. Esse
rito de rebeldia, o ímpeto revolucio- dos clássicos possibilita uma dicção desejo de fugir à realidade manifesta-
nário, a infância e a religiosidade. No mais solta e mais compatível com o se em atitudes como: a morbidez; o
lugar do universalismo da arte clás- gosto e com o entendimento da desejo de morrer; a boêmia desbra-
sica, o Romantismo propõe o particu- burguesia e das camadas populares. gada; o culto da solidão; a evasão no

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tempo (a busca do passado, a ante- insustentável — simultaneamente Herculano e Antônio Feliciano de


visão do futuro e a abominação do protetorado inglês e colônia do Brasil. Castilho, cujas obras têm ainda for-
presente); a evasão no espaço (a A regência do general Beresford, tes ressonâncias neoclássicas.
busca de lugares longínquos, exóti- a revolta do exército (1820), a Junta Esses autores marcam-se pela presen-
cos, o gosto pelas ruínas, a poesia Provisória, as eleições para as cortes, ça do medievalismo, que fascinou
noturna e fúnebre) etc. o regresso de D. João Vl a Portugal, a o grupo coimbrão do Romantismo.
• Ilogismo nova Constituição e a Independência Camões (1825), de Garrett (o
A negação da lógica e da razão do Brasil abrem um período de autor mais ativo do grupo), foi marco
e a instabilidade emocional manifes- revoluções e contrarrevoluções, con- inicial do movimento, que só se con-
tam-se por meio de atitudes anti- trapondo absolutistas e liberais de solidou na década de 1830. São
téticas — alegria/tristeza, euforia/ de- diversos matizes, que se estenderá dessa época as primeiras traduções
pressão, desejo/autopunição, religio- até 1851, quando o governo da para o português das obras de
sidade/satanismo. Regeneração, por meio de Saldanha, Walter Scott e a publicação de A Voz
• Idealização da mulher assume o poder, apoiado pela bur- do Profeta, de Alexandre Herculano;
Anjo ou demônio, inacessível, guesia unificada. • o segundo momento
poderosa, a mulher, para os român- É nesse contexto que se desen- (1840-1850) representa a transição
ticos, é capaz de alterar a vida do volve o Romantismo português,
entre o medievalismo e a observação
homem, levá-lo à loucura e à morte. cujos marcos cronológicos são:
da realidade. É a fase do ultrarro-
Início: 1825 – Publicação do
mantismo, das novelas passionais
2. O ROMANTISMO poema Camões, de Almeida Garrett;
de Camilo Castelo Branco e da
EM PORTUGAL Término: 1865 – Eclosão da
poesia mórbida de Soares Passos;
❑ O contexto “Questão Coimbrã”, que marca o
início do período realista. • o terceiro momento
histórico português
(1850- 1865) representa a aliança
Com a transferência da família
real e do governo português para o ❑ A evolução do do Romantismo com as antecipa-
Brasil, por 14 anos, a metrópole Romantismo em Portugal ções do Realismo. Júlio Dinis, com
transforma-se em colônia da colônia Há três momentos (ou gerações) o romance de costumes, foi funda-
(1808-1822). Com a corte de D. João que podem resumir a evolução do mental na caracterização da classe
Vl no Brasil, os portugueses enfren- Romantismo português: média urbana e rural. João de Deus,
tam quatro anos de guerra contra os • o primeiro momento (1825- na poesia, atacou duramente a vena-
exércitos francês e espanhol, e o 1840), a fase de implantação do Ro- lidade do regime da Regeneração,
país fica em situação lastimável: sa- mantismo, é representado por três antecipando a atitude crítica dos
ques, perseguições e uma política autores: Almeida Garrett, Alexandre realistas.

MÓDULO 15 Almeida Garrett e Alexandre Herculano

1. JOÃO BAPTISTA mânticos: o individualismo me- jornalista), tornando-se um dos inte-


D’ALMEIDA lancólico de Byron, Chateaubriand, lectuais do regime, ao lado de Ale-
LEITÃO DA SILVA Lamartine e Vigny; o “homem natu- xandre Herculano.
GARRETT (1799-1854) ral” de Rousseau; o medievalismo
de Walter Scott. Afastou-se, contudo, ❑ Obras
❑ Vida da “espontaneidade criativa”, • Poesia
Iniciou-se, Iiterariamente, no âm- um dos traços básicos da escrita Odes Anacreônticas
bito do neoclassicismo. São dessa romântica. Retrato de Vênus
fase de iniciação as tragédias clás- Na Inglaterra, escreveu os poe- Lírica de João Mínimo
sicas Mérope e Catão, bem como os mas longos Camões e D. Branca, pu- Camões
poemas de Lírica de João Mínimo, blicados, respectivamente, em 1825 e D. Branca
além do Retrato de Vênus, que 1826, constituindo os marcos iniciais Romanceiro (poemas narrativos
provocou forte ataque dos setores do Romantismo português, não de cunho folclórico, inspirados
reacionários, ligados à Igreja, que o obstante a sobrevivência dos traços em composições populares)
acusaram de materialista e obsceno. neoclássicos. Flores sem Fruto
Militante da Revolução Liberal, Com a vitória liberal, dedicou-se Folhas Caídas
conheceu por diversas vezes o exílio, à vida pública (além de encarregado • Prosa
na França e na Inglaterra. Nesses da reorganização do teatro nacional, Viagens na Minha Terra (misto de
países assimilou os ingredientes ro- também foi diplomata, deputado e romance, livro de viagem e diário)
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• Teatro romance de amor, na paixão irresis- Pescador da barca bela,


tível de Dona Branca e do chefe Inda é tempo, foge dela,
Um Auto de Gil Vicente
Foge dela,
D. Filipa de Vilhena mouro Aben-Afã, personagens a Ó pescador!
Alfageme de Santarém quem o autor comunica o idealismo
Frei Luís de Sousa (obra-prima característico da escola. Envolve Vocabulário e Notas
1 – Vás: vai.
do teatro romântico português) também as figuras de Oriana e 2 – Velar: esconder.
Mem do Vale — o glorioso e apai- 3 – Lanço: lance (de rede).
❑ Camões xonado cavaleiro de Santiago.
É um poema narrativo cuja ação Comentário
é o processo de composição e a ❑ Folhas Caídas • O poema tem o ritmo das barcarolas
publicação de Os Lusíadas. Funde Contém poemas já libertos do medievais: as estrofes são monórrimas (rima
comedimento arcádico. Inspirados única — ELA), formadas por um dístico em
procedimentos românticos e resíduos redondilha maior e outro, que contém o refrão,
neoclássicos. na tempestuosa e tardia paixão de sob a forma de um vocativo (“Ó pescador”),
• São românticos Garrett pela Viscondessa da Luz, cujos dois versos curtos, juntos, formam um
– a personagem nacional e pa- esses poemas marcam-se pela terceiro verso de sete sílabas.
triótica, o cunho nacionalista; intensidade emocional, pelo amor
NÃO TE AMO
– a invocação à saudade (alego- sensual, irresistível, real e vivido.
ria mitológica sem mitologia); Não te amo, quero-te: o amar vem d’alma.
ESTE INFERNO DE AMAR E eu n’alma — tenho a calma,
– o acentuado tom de elegia fú-
Este inferno de amar — como eu amo! — A calma — do jazigo.
nebre, a paisagem noturna, a am- Ai! não te amo, não.
Quem mo pôs aqui n’alma... quem foi?
biência fúnebre, que penetram o eu Esta chama que alenta e consome,
pensante; Que é a vida — e que a vida destrói — Não te amo, quero-te: o amor é vida.
– a concepção do amor como Como é que se veio a atear, E a vida — nem sentida
Quando — ai quando se há de ela apagar? A trago eu já comigo.
uma realidade fatalista e irresistível, a Ai! não te amo, não!
dominar as conveniências sociais;
Eu não sei, não me lembra: o passado,
– o gosto pelas ruínas, tradições A outra vida que dantes vivi
Ai! não te amo, não; e só te quero
e lendas medievais; De um querer bruto e fero1
Era um sonho talvez... — foi um sonho —
Que o sangue me devora,
– o herói romântico: o Camões Em que paz tão serena a dormi!
Não chega ao coração.
de Garrett é um incompreendido, Oh! que doce era aquele sonhar...
individualista, vagabundo e libertário, Quem me veio, ai de mim! despertar?
Não te amo. És bela; e eu não te amo,
à maneira de Byron, um “bardo mis- [ó bela.
Só me lembra que um dia formoso
terioso”, “moribundo cisne”, “harpa Quem ama a aziaga2 estrela
Eu passei... dava o Sol tanta Luz!
sublime”; Que lhe luz na má hora
E os meus olhos, que vagos giravam,
De sua perdição?
– o saudosismo, o patriotismo e Em seus olhos ardentes os pus.
o amor à Natureza, numa paisagem Que fez ela? eu que fiz? — não o sei;
E quero-te, e não te amo, que é forçado,
Mas nessa hora a viver comecei...
luarenta, misteriosa, esfumada; De mau feitiço azado3
– a ânsia de liberdade: “oceano Comentário Este indigno furor.
indomado por tiranos”. • O poema enfoca os efeitos contraditó- Mas oh! não te amo, não.
rios do amor. O sistema ternário, as frases
• Os resíduos neoclássicos es-
curtas, reticentes e interrogativas sugerem E infame sou, porque te quero; e tanto
tão presentes bem um estado de alma em que se confun- Que de mim tenho espanto,
– na estrutura, obedecendo à di- dem o prazer e a dor de amar. De ti, medo e terror...
visão tradicional da epopeia clássica: Mas amar!... não te amo, não.
BARCA BELA
invocação, dedicatória, narra-
ção que se inicia no meio da ação; Pescador da barca bela, Vocabulário e Notas
Onde vás1 pescar com ela, 1 – Fero: feroz.
– na divisão em dez cantos e na Que é tão bela, 2 – Aziago: que traz má sorte.
adoção dos versos decassílabos Ó pescador?
3 – Azado: oportuno, propício.
brancos, sem estrofação regular;
– no uso de algumas alegorias Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?2 Comentário
da mitologia clássica, que Garrett, Colhe a vela, • Garrett retoma aqui um conflito cons-
contudo, restringe a poucas pas- Ó pescador! tante na poesia portuguesa, passando pelos
sagens. poetas do Cancioneiro Geral e por Camões: a
Deita o lanço3 com cautela, diferença entre o amar e o querer. Garrett é o
Que a sereia canta bela... pagão do amor que segue a corrente aristo-
❑ D. Branca Mas cautela, télica, como Byron, e opõe-se ao amor
É um poema narrativo, de feição Ó pescador!
idealista de Platão: “Ai! não te amo, não; e só
novelesca, em que as personagens e te quero / De um querer bruto e fero”, confessa
Não se enrede a rede nela,
o assunto são nacionais. O assunto his- o poeta, sentindo a inferioridade do seu
Que perdido é remo e vela
tórico — a conquista do Algarve Só de vê-la, compor tamento, considerando-se “infame”,
— está romanticamente integrado no Ó pescador! possuído de um “furor indigno”.

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• Síntese das público. (Massaud Moisés, A Litera- ❑ Obras


características tura Portuguesa através dos Textos) • Poesia
de Folhas Caídas Poesias , incluindo “A Harpa do
I. ausência da poesia descritiva ❑ Frei Luís de Sousa Crente” e “A Cruz Mutilada”
das fases anteriores; Composta em três atos em prosa, • Prosa de Ficção
II. lirismo profundo, subjetivo; o representada pela primeira vez em 1843 O Bobo
amor humano construído em e publicada no ano seguinte, a tragédia Eurico, o Presbítero e O Monge de
torno dos sentimentos; Frei Luís de Sousa gravita em torno da Cister, reunidos sob o título Monasticon
III.a realidade e o fatalismo, o do- vida do prosador cujo nome dá título à Lendas e Narrativas
ce amargor, o gozo-dor, o ciú- obra. Como se sabe, Madalena de • Historiografia
me e o desespero; Vilhena e Manuel de Sousa Cou- História de Portugal
IV. o amor arrebatado, sem con- tinho haviam contraído núpcias, cer- História da Origem e Estabeleci-
venções; tos de que D. João de Portugal, mari- mento da Inquisição em Portugal
V. a linguagem coloquial, com do da primeira, desaparecera em • Coleção Documental
adjetivação sugestiva e equili- Alcácer Quibir, em companhia de D. – edição
brada; as redondilhas da poe- Sebastião. Entretanto, ele está vivo e Portugaliae Monumenta Historica
sia popular e tradicional. regressa a sua casa, oculto em andra- • Polêmica (Ensaios)
jos de romeiro. Aterrados pela surpre- Opúsculos
❑ Romanceiro A Questão Eu e o Clero
sa, colhidos em pecado, os cônjuges
Coletânea de xácaras ou can-
buscam ilibar-se do involuntário delito
ções de tom novelesco inspiradas ❑ Herculano — o poeta
tomando o hábito: durante a cerimô-
nas fontes nacionais do folclore e nas Só realizou poesia na mocidade,
nia, Maria de Noronha, única filha
composições populares em verso, até os 25 anos, sob influência de
do casal, morre a seus pés. Manuel de
como “A Nau Catarineta” e o “Bernal Chateaubriand e Victor Hugo.
Sousa Coutinho, no convento, adotou
Francês”, ou resultantes do aprovei- Sua poesia é reflexiva, solene, séria,
o nome Frei Luís de Sousa.
tamento de textos literários de contrapondo-se ao lirismo sentimen-
Bernardim Ribeiro (“Avalor”) e Gil tal e intimista de Garrett. O lirismo
Vicente (“D. Duardos”). 2. ALEXANDRE
amoroso não existe em Herculano.
HERCULANO
❑ Viagens na Minha Terra Os temas de que tratou são român-
DE CARVALHO E
É incerta a classificação dessa ticos: a Religião, a Pátria e a Natureza.
ARAÚJO (1810-1877)
obra, misto de jornalismo, literatu- Formalmente, Herculano distan-
cia-se do à vontade de Garrett, reali-
ra de viagens, diário íntimo e ❑ Vida
prosa de ficção. Publicada em zando uma poesia rica em símbolos e
De origem humilde, foi quase
1846, seu fio narrativo compõe-se de expressando-se num tom solene, gra-
autodidata. Estimulado pela Marque-
uma viagem levada a efeito por ve, reflexivo, e com uso frequente de
sa de Alorna, sua protetora, inicia-se
hipérbatos (inversões sintáticas).
Garrett em 1843 entre Lisboa e na literatura e na historiografia. Como
Santarém, a convite do político Passos Garrett, empenha-se nas lutas A CRUZ MUTILADA
Manuel. Repartida em 49 capítulos, liberais e conhece o exílio.
como que escritos ao sabor da via- Amo-te, ó cruz, no vértice firmada
De volta a Portugal, passa pelos
De esplêndidas igrejas;
gem, a obra relata as peripécias ocor- Açores, pelo Porto e pela Biblioteca Amo-te quando à noite, sobre a campa,
ridas entre aquelas duas cidades e as da Ajuda. Publica nessa época A Voz Junto ao cipreste alvejas;
reflexões desencadeadas na mente do Profeta, inspirado em Paroles d’un Amo-te sobre o altar, onde, entre incensos,
As preces te rodeiam;
do viajante, acerca dos mais variados Croyant, de Lamennais. Amo-te quando em préstito1 festivo
assuntos, desde o amor até a política. Na direção da revista O Panorama, As multidões te hasteiam;
Ao chegar a Santarém, o narrador publica Lendas e Narrativas e O Bobo. Amo-te erguida no cruzeiro antigo,
toma conhecimento da história amo- Como membro da Academia de No adro2 do presbitério 3,
Ou quando o morto, impressa no ataúde,
rosa da Joaninha dos olhos verdes, Ciências, organizou a publicação de Guias ao cemitério;
a “menina dos rouxinóis”, e de Portugaliae Monumenta Historica. Amo-te, ó cruz, até quando no vale
seu primo Carlos: ambos se apaixo- Desgostoso com os rumos políti- Negrejas triste e só,
Núncia4 do crime, a que deveu a terra
nam, mas ele se julga preso ao senti- cos do país, afastou-se da vida públi-
Do assassinado o pó:
mento de Georgina, que ficara na ca, retirando-se para a sua quinta em
Inglaterra; por fim, desfeito o impas- Vale de Lobos. Nessa época aban- Porém quando mais te amo,
se, Georgina entra para o convento e dona a literatura e passa a dedicar- Ó cruz do meu Senhor,
É, se te encontro à tarde,
Joaninha morre, enquanto Carlos, se, até a morte, à vida do campo. Antes de o Sol se pôr.
recomposto do transe, retoma sua Foi poeta, romancista, historiador
(...)
trajetória de dândi Don Juan e homem e polemista.
68 –
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(...) Mendes da Maia, à maneira das contro com suas consciências.


No pedestal musgoso, em que te ergueram novelas de cavalaria medievais; A religião é o complicador do
Nossos avós, eu me assentei. Ao longe,
Do presbitério rústico mandava – “Arras por Foro de Espanha” – conflito sentimental de Eurico e
O sino os simples sons pelas quebradas novela histórica em torno de D. serve aos intuitos vingativos de Vasco.
Da cordilheira, anunciando o instante Leonor Teles; A época histórica de Eurico é a do
Da Ave-Maria; da oração singela, – “O Pároco da Aldeia” – novela
Mas solene, mas santa, em que a voz do
domínio árabe. Por carência de
[homem campesina que terá desdobramento bases documentais, Herculano recor-
Se mistura nos cânticos saudosos, na obra de Júlio Dinis. Apologia do re à intuição para nos dar o choque
Que a natureza envia ao céu no extremo cristianismo, sem qualquer ranço de duas civilizações: a dos ára-
Raio de Sol, passando fugitivo
anticlerical. bes, bárbara, violenta, e a dos go-
Na tangente deste orbe 5, ao qual trouxeste
Liberdade e progresso, e que te paga • O Bobo dos, já caldeada pelo cristianismo. O
Com a injúria e o desprezo, e que te inveja Romance histórico, aclimatado romance é mais poético do que
Até, na solidão, o esquecimento! no castelo de Guimarães, na época
(...)
histórico, e talvez por isso, menos do
das figuras legendárias de Afonso agrado de Herculano (por ferir seus
Vocabulário e Notas Henriques e Egas Moniz. Dom Bibas escrúpulos de historiador rigoroso).
1 – Préstito: procissão. é um enjeitado que diverte a corte O narrador é onisciente. O autor
2 – Adro: pátio externo, localizado em frente ou com seus defeitos físicos e seus gra-
em torno a uma igreja. ocupa sempre o primeiro pla-
3 – Presbitério: igreja paroquial.
cejos. Desprezado como o “bobo-da- no, mesmo no diálogo, por meio do
4 – Núncia: anunciadora. corte”, acabou por auxiliar os portu- qual exprime as suas ideias, ou em
5 – Orbe: mundo. gueses na independência.
suas divagações e comentários, nos
Comentário • Eurico,
• A poesia é uma vibrante afirmação de fé
quais o tom saudosista (poético)
o Presbítero – Monasticon
e uma condenação ao desprezo e ingratidão se mistura com uma ironia quase
No tempo em que godos e árabes
dos homens. Foi escrita em versos brancos agressiva muito característica de
(sem rima) em algumas passagens, e o poeta lutavam na Península Ibérica (século
Herculano em Eurico.
utiliza-se de várias estruturas estróficas. Vlll), havia um godo, Eurico, que
Há três partes distintas na obra: a
escolhera o sacerdócio como meio
primeira apresenta a pancronia da
❑ O romance para curar-se do amor impossível por
época; a segunda introduz e carac-
histórico de Herculano Hermengarda e que vazava seu tor-
teriza as personagens na ação, que,
• Lendas e Narrativas mento passional em poemas e can-
na terceira parte, surge clara e em
Reaproveitam a prosa medie- ções que logo se fizeram conhecidos
seu pleno desenvolvimento, até a
val (os nobiliários, os cronicões e as por toda parte. Com o acirramento da
conclusão. Isso contraria a estrutura
obras de Fernão Lopes e Rui de Pina), guerra entre godos e árabes, Eurico
da epopeia clássica e do romance
recriando essas fontes documentais, abandona o hábito e, tornando-se o
realista, que iniciam a narrativa em
que emprestam cor local às tramas Cavaleiro Negro, consagra-se como
pleno desenrolar da ação.
romanescas, aclimatadas em diversos herói de lendárias façanhas. Nem por
A linguagem majestosa, ritma-
períodos da Idade Média. isso o êxito sorri aos cristãos.
da, rica de lirismo e de comparações
Não há unidade de ação, e o autor Hermengarda é raptada pelos árabes.
sugestivas permite a classificação
interrompe a narrativa com frequentes Eurico enfrenta todos os perigos para
reflexões morais, religiosas, po- como poema (ao que se acresce a
salvá-la. Em delírio, a moça confessa a
líticas e com evocações históri- forma literalizante, vernácula, arcai-
Eurico que o ama. O desespero da
cas (tumultos, procissões, ambientes zante e o tom levemente irônico).
revelação (ele era, agora, um padre)
interiores e exteriores) que recons- O colorido na recriação da
leva-a à loucura, e Eurico morre em
troem a cor local com rigor histórico. época e da paisagem tem o caráter
escaramuça contra os inimigos.
Entre as Lendas e Narrativas, des- de uma crônica histórica.
tacam-se: Observações Pelo trabalho inventivo, fic-
– “Alcaide de Santarém” – aclima- Eurico, o Presbítero constitui com cional, é um romance.
tada na época de dominação árabe; O Monge de Cister uma dupla novela, A grandiosidade, a nobreza
– “Dama Pé-de-Cabra” – narrada aglutinada sob o título Monasticon, das personagens, os lances
à maneira das velhas avós que relata- que pretende examinar a questão do violentos, a unidade de ação e
vam suas lendas e crendices, em tom celibato clerical à luz do sen- o desenrolar fatídico dos acon-
poético e levemente zombeteiro; timento. tecimentos fazem de Eurico um
– “O Bispo Negro” – em que avul- A tese não se prova porque a hi- aparentado da tragédia.
ta o nacionalismo na reconstituição pótese é apresentada recorrendo-se Assim, lido como poesia, como
da personalidade afirmativa e domi- a duas figuras — Eurico e Vasco —, crônica, como romance e
nadora de D. Afonso Henriques; que se fizeram sacerdotes, não por como tragédia, Eurico é a obra-
– “A Morte do Lidador” – centra- vocação, mas por fuga a amores fra- prima de Herculano, e uma das joias
da na bravura e destemor de Gonçalo cassados ou por buscarem um en- literárias de Portugal.
– 69
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Aqui transcrevemos o momento 3. ANTÔNIO FELICIANO havia de conservador, em termos


em que Eurico se entrega, voluntaria- DE CASTILHO (1800-1875) artísticos, no país.
mente, à morte:
“E quase a um tempo dois pesados golpes Associa-se tanto à introdução do ❑ Obras
de franquisque assinalaram profundamente os Romantismo como à sua suplantação – Cartas de Eco e Narciso – 21
elmos de Opas e Juliano. No mesmo momento pelo Realismo. cartas, escritas em decassílabos,
mais três ferros reluziram. Castilho, porém, apesar de divul- tendo como inspiração o poeta
Um contra três! — Era um combate calado
gador da nova corrente literária, foi clássico Ovídio.
e temeroso. O cavaleiro da Cruz parecia
desprezar Mugueiz: os seus golpes retiniam só
um conservador. Procurou tornar
acadêmico, de acordo com uma – A Primavera – 4 poemas bucó-
nas armaduras dos dois Godos. Primeiro o
velho Opas, depois Juliano caíram. forma de pensamento neoclás- licos, dentro da convenção arcádica,
Então, recuando, o cavaleiro cristão sico, o que o Romantismo possuía com a mesma natureza estratificada
exclamou: de transformador. Persegue-o o ideal e as inevitáveis ninfas, os deuses
‘Meu Deus! Meu Deus! — Possa o sangue mitológicos, as evocações a Baco e a
de moderação, com que atenuava a
do mártir remir o crime do Presbítero!’ apologia da vida campestre (fugere
E, largando o franquisque, levou as mãos
inovação artística dos escritores que
ao capacete de bronze e arrojou-o para longe gravitavam em torno de sua pessoa. urbem, aurea mediocritas, locus
de si. Castilho, cego aos 6 anos amoenus), tudo no mais superficial
Mugueiz, cego de cólera, vibrava a espa- de idade, recebeu formação figurino de Horácio e Virgílio.
da: o crânio do seu adversário rangeu, e um jorro clássica e clerical e um senso
de sangue salpicou as faces do Sarraceno.” – Amor e Melancolia ou A Novís-
de disciplina que não Ihe per- sima Heloisa – 25 poemas inspirados
E, na sequência do desfecho, mitiram penetrar naquilo que o na paixão por uma reclusa de um
quando Pelágio constata que Her- Romantismo possuía de revo- mosteiro.
mengarda, sua irmã, enlouquecera: lucionário: a liberdade de cria-
ção. Não percebeu o sentido real da – A Noite do Castelo – poema
“Nessa noite, quando Pelágio voltou à
caverna, Hermengarda, deitada sobre o seu história e da relatividade das formas em 4 cantos em torno do ciúme,
leito, parecia dormir. Cansado do combate e artísticas. Foi um intransigente. E numa visão ultrarromântica.
vendo-a tranquila, o mancebo adormeceu, essa intransigência levou-o a criticar
também, perto dela, sobre o duro pavimento da – Os Ciúmes do Bardo – poema
gruta. Ao romper da manhã, acordou ao som os jovens escritores realistas, fazendo dramático, à maneira de Byron, eiva-
de canto suavíssimo. Era sua irmã que cantava eclodir a Questão Coimbrã. do de sensualismo e morbidez.
um dos hinos sagrados que muitas vezes ele As observações críticas de Cas-
ouvira entoar na catedral de Tárraco. (...) tilho apareceram na carta-posfácio – Foi também autor de obras pe-
Quando Hermengarda acabou de cantar, dagógicas, históricas; envolveu-se
ficou um momento pensando. Depois, repen- ao Poema da Mocidade, do futuro
tinamente, soltou uma destas risadas que romancista anticlerical Pinheiro Cha- em muitas polêmicas; traduziu (às
fazem eriçar os cabelos, tão tristes, soturnas e gas. As respostas a elas e a polêmica vezes muito bem) Ovídio, Virgílio,
dolorosas são elas: tão completamente expri- Anacreonte, Molière, Goethe, Cer-
gerada marcaram o início da afirma-
mem irremediável alienação do espírito.
ção do Realismo e comprometeram vantes e Shakespeare e deixou um
A desgraçada tinha, de feito, enlouque-
negativamente Castilho com o que abalizado Tratado de Metrificação.
cido.”

MÓDULO 16 Camilo Castelo Branco


1. CAMILO CASTELO A moça, casada por imposição gueira ameaçadora. Em 1.o de junho
BRANCO (1825-1890) familiar, foge do marido e junta-se de 1890, já cego, Camilo se suicidou.
com Camilo. Ambos são presos por
❑ Vida dois anos. Na prisão, Camilo es- ❑ Obras
Teve vida atribulada. Filho natu- creve, em quinze dias, sua obra- • Novelas: dentre as 58 que
ral, perdeu a mãe aos dois anos e o prima — Amor de Perdição —, que escreveu, destacamos:
esteve na iminência de ser rasgada Primeira Fase – Iniciação:
pai aos dez. Viveu sucessivamente
pelo autor. Com a morte do marido narrativas de mistério e novelas de
com uma tia, até os quartoze anos, e
assunto histórico: Anátema, Carlota
com uma irmã. Casou-se aos dezes- de Ana Plácido, ela e Camilo são
Ângela, Onde Está a Felicidade?, Um
seis anos. Aos vinte e um, já separa- libertados e vão viver em São Miguel
Homem de Brios e Memórias de
do da mulher, rapta uma senhora em de Seide.
Guilherme do Amaral.
Vila Real. São aprisionados. Cursa, Entregue à redação de suas
Os romances dessa fase mar-
sem concluir, Medicina e Engenharia obras, nas quais tinha seu ganha-
cam-se pelo tom macabro, terrífi-
e frequenta o seminário. Envolve-se pão, Camilo levou existência difícil,
co, com tendências para o melo-
com uma freira. Em 1857, conhe- pela falta de dinheiro, pela loucura
drama (ódios, vinganças, fata-
ce Ana Plácido, sua grande paixão. de um filho — Jorge — e pela ce-
lismo).
70 –
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Há instabilidade literária e falta • Vária rico e renovou o vernáculo castiço,


de concisão no enredo; é percep- Compreendendo crônicas, crítica comunicando-se com o grande pú-
tível a influência de Ann Radcliffe, literária, escritos sobre história, me- blico, sem deixar de fazer obra de arte.
Eugênio Sue, Alexandre Dumas, mórias etc.
Victor Hugo.
As personagens são representa- ❑ Amor de Perdição TEXTOS
tivas da miséria, dor, crime, corrup- Dois jovens, Simão Botelho (ri-
ção, perversão. É notória a influência I
co fidalgo) e Teresa Albuquerque,
de seus estudos médicos. estão enamorados. As respectivas fa- — Agora é tempo de dar sepultura ao
Já se percebem nessas obras os nosso venturoso amigo... É ventura morrer
mílias, separadas por velhas ques-
quando se vem a este mundo com tal estrela.
elementos passionais que marcarão tões, não veem com bons olhos tal Passe a senhora Mariana ali para a câmara,
a segunda fase e a intenção crítica afeição, e tentam de vários modos que vai ser levado daqui o defunto.
que amadurecerá na terceira. afastá-los, chegando até a enviar (...)
Segunda Fase – A Novela Simão para Coimbra e a obrigar Foi o cadáver envolto num lençol e
Passional: Amor de Perdição, Amor Teresa a ingressar num convento por transportado ao convés.
de Salvação e A Queda dum Anjo não se casar com seu primo Mariana seguiu-o. Do porão da nau foi
(novela satírica). Essa fase representa trazida uma pedra, que um marujo lhe atou às
Baltasar Coutinho. Diante disso, pernas com um pedaço de cabo. O comandan-
a maturidade. os jovens planejam uma fuga e, te contemplava a cena triste com os olhos úmi-
Amor de Perdição, obra que quando Simão se dirige ao convento, dos, e os soldados que guarneciam a nau, tão
confere notoriedade ao autor, apre- encontra, às portas desse, o pai e o funeral respeito os impressionara, que insensi-
senta enredo conciso, equilibrado, primo de Teresa. Trava-se, então, uma velmente se descobriram.
sem personagens dispensáveis e luta entre o último e Simão. Baltasar Mariana estava, no entanto, encostada ao
quase sem digressões. A linguagem é acaba morto. Simão é preso e con-
flanco da nau, e parecia estupidamente encarar
adequada: é romântica na corres- aqueles empuxões que o marujo dava ao cadá-
denado ao exílio. Faz-lhe companhia ver, para segurar a pedra na cintura.
pondência Simão – Teresa; é popu- a pobre Mariana, moça simples, que Dois homens ergueram o morto ao alto
lar, direta, coloquial em João da
o ama sem ser correspondida e que sobre a amurada. Deram-lhe o balanço para o
Cruz; irônica e caricatural, quando arremessarem longe. E, antes que o baque do
lhe tem sido um anjo da guarda.
envolve as freiras do convento. cadáver se fizesse ouvir na água, todos viram,
Enquanto Teresa definha no convento,
Há elementos de poesia, de e ninguém já pôde segurar Mariana, que se
atacada por um mal incurável, o moço atirara ao mar.
novela e de tragédia, perpas-
aguarda a hora de partir. O barco À voz do comandante desamarraram rapi-
sados de forte humanismo, que con-
larga. Ainda Simão avista, ao longe, o damente o bote, e saltaram homens para salvar
ferem à obra vigor e grandiosidade.
convento de Monchique e o lenço Mariana.
Terceira Fase – A Anteci- Salvá-la!...
branco de Teresa acenar debilmente.
pação Realista: Eusébio Macário, Viram-na, um momento, bracejar, não para
Sobrevém-lhe repentina febre, que o
A Corja, A Brasileira de Prazins e resistir à morte, mas para abraçar-se ao cadáver
Vulcões de Lama. prostra à morte. É sepultado no mar. de Simão, que uma onda lhe atirou aos braços.
O poder de observação desce ao Mariana lança-se ao mar e morre (Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição)
pormenor descritivo, com uma lingua- abraçada ao cadáver de Simão.
gem mais próxima da classe popular. II
As personagens, extraídas das ca- ❑ Características da
Havia na botica um relógio de parede, na-
madas populares, não destoam da ga- novela passional camiliana cional, datado em 1781, feito de grandes toros
leria camiliana: são enjeitadas, mulhe- • Esquema folhetinesco tra- de carvalho e muita ferraria. Os pesos, quando
res moralmente fracas, tísicas, loucos, dicional: amor impossível, adúltero, subiam, rangiam o estridor de um picar de
adúlteros, beberrões, mal-amados etc. incestuoso, que se engrandece em amarras das velhas naus. Dava-se-lhe corda
Pretendendo criticar e ironizar o face das dificuldades, tornando-se como quem tira um balde da cisterna. Por
eterno; debaixo da triplicada cornija1 do mostrador
romance naturalista, parece que
• amor fatal, obsessivo, tão havia uma medalha com uma dama cor de
Camilo acabou por aderir à nova ten- laranja, vestida de vermelhão, decotada, com
dência, realizando o romance de crí- grandioso que não pode ficar restrito
uma romeira2 e uma pescoceira, crassa3 e
tica social decalcado no tema realista ao campo terreno; grossa de vaca barrosã 4, penteada à Pom-
do adultério e na observação perso- • desenlaces trágicos, com padour, com uma réstia de pedras brancas a
nalizada da realidade. a expiação transcendental das culpas enastrar-lhe5 as tranças. Cada olho era maior
dos amantes: morte, suicídio, loucura, que a boca, dum vermelho de ginja 6. Ela tinha
• Poesia a mão esquerda escorrida no regaço, com os
convento;
Pundonores Desagravados, O dedos engelhados7 e aduncos8 como um pé
• como Balzac e Sue, procurava
Juízo Final e o Sonho do Inferno, A de perua morta; o braço direito estava no ar,
enredar emocionalmente o leitor, jo-
Murraça, Nas Trevas. hirto 9, com um ramalho de flores que parecia
gando com suas expectativas. Mes- uma vassoura de hidrângeas10. Este relógio
• Teatro mo trabalhando esquemas narrativos badalara três horas que soaram ríspidas como
Agostinho de Ceuta, O Marquês já incorporados ao gosto do leitor, as pancadas vibrantes, cavas, das caldeiras
das Torres Novas, A Morgadinha de Camilo inovou a escrita literária por- da Hecate de Shakespeare11.
Val d’Amores. tuguesa. Afastou o empolamento retó- (Camilo Castelo Branco, Eusébio Macário)

– 71
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Vocabulário e Notas de boi, o qual é então denominado bar- 8 – Adunco: curvo.


1 – Cornija: moldura. rosão; diz-se também do boi que tem pelo 9 – Hirto: retesado, esticado.
2 – Romeira: agasalho feminino. da cor do barro. 10 – Hidrângea: hortênsia.
3 – Crasso: pesado (sentido figurado). 5 – Enastrar-lhe: entretecer-lhe, ornar-lhe. 11 – Hecate: personagem da peça Macbeth,
4 – Barrosã: feminino de barrosão, de Barroso, 6 – Ginja: fruto muito semelhante à cereja. de William Shakespeare.
região portuguesa onde se cria uma raça 7 – Engelhado: enrugado.

As Gerações Românticas – Primeira Geração:


MÓDULO 17
Gonçalves Dias
A POESIA ROMÂNTICA NO BRASIL (1836-1881)

Reconhecem-se três gerações, marcadas por certa unidade temática e formal nem sempre rígida. A atitude de
uma geração projeta-se nas demais. A seguir, há um quadro-resumo da poesia romântica no Brasil.

GERAÇÕES TEMAS E FORMAS POETAS


Primeira: Índio (idealizado como cavaleiro medieval e como o “bom selvagem” Gonçalves de Magalhães, conde
Indianista ou de Rousseau), natureza (nativismo ou ufanismo), passado his- Manuel de Araújo Porto-Alegre (fase de
tórico, religiosidade, antilusitanismo, xenofobia (aversão ao formação) e Gonçalves Dias (consolidação
Nacionalista.
estrangeiro), projeto de uma “língua brasileira”. da poesia romântica).

Segunda: Morte, tédio, dúvida, escapismo, boêmia, satanismo, Álvares de Azevedo,


Byroniana ou Individualista, ou do saudosismo (infância, família), solidão, depressão, sensualis- Fagundes Varela,
Mal-do-Século, ou Egótica, mo reprimido (“amor-e-medo”). Incorporação de novos temas Junqueira Freire e
ou Ultrarromântica. bucólicos e roceiros; poesia maldita. Casimiro de Abreu.

Liberdade, temas sociais (Guerra do Paraguai, Abolição, Castro Alves e Tobias Barreto.
Terceira: República). Poesia enfática e declamatória (poesia de comí- Sousândrade (que radicalizou as inova-
Condoreira ou cio). Uso de metáforas ousadas, baseadas em aspectos gran- ções linguísticas e desvios criativos) constitui
da poesia social, diosos da natureza (oceano, amplidão, infinito, céu, universo). caso à parte, pela originalidade e
Hugoana, ou da Águias, condores e albatrozes são utilizados como imagens da modernidade; contemporâneo da Segunda
Escola de Recife. liberdade. Emprego de antíteses, hipérboles e apóstrofes Geração, sua poesia refoge aos parâmetros
violentas, além de interjeições, exclamações, reticências etc. brasileiros.

1. A PRIMEIRA GERAÇÃO do Romantismo. O livro vale mais pe- • equilíbrio, senso de medi-
(Indianista ou Nacionalista) lo Prólogo (primeiro manifesto da da, virtuosismo e erudição, con-
poesia romântica), que pelos poemas, sequências da sólida formação
Compreende dois grupos: o escritos em Paris. Foi apelidado de neo- clássica, que não abandonou
fluminense, em torno das revistas “romântico arrependido”.
de todo;
Niterói, Minerva Brasiliense e Guana- Tentou a poesia épica indianista,
• presença de modelos portu-
bara (Gonçalves de Magalhães, com A Confederação dos Tamoios,
obra duramente criticada pelo então gueses (Garrett, Alexandre Hercu-
conde Araújo Porto-Alegre, Joaquim
iniciante José de Alencar, provocando lano), que se harmonizam com a es-
Norberto) e o maranhense (Sotero
polêmica que teve larga repercussão. pontaneidade e sabor nacional;
dos Reis, Odorico Mendes). O caçula
Colaborou com Martins Pena e • expressividade do ritmo,
da Primeira Geração, Gonçalves
João Caetano na criação do ponto forte de Gonçalves Dias, que se
Dias, pertenceu aos dois grupos e
teatro nacional, tendo escrito os utiliza de todos os metros poéticos
foi, destacadamente, o melhor poeta
dramas Olgiato e Antônio José ou O com insuperável propriedade.
de sua geração.
Não obstante defenderem a esté- Poeta e a Inquisição.
Obras
tica romântica, esses poetas apre- ❑ Gonçalves Dias
• Primeiros Cantos (1846).
sentaram fortes resíduos do Neo- - (Maranhão, 1823-1864)
classicismo. Primam pelo comedi- Consolida a poesia romântica Consta de três partes:
mento, pela sobriedade e, amparados com Primeiros Cantos (a “Canção do Poesias Americanas (a mais im-
pelo imperador, esforçaram-se por Exílio” é o poema que abre o livro). portante, pelo tratamento dado ao
não aborrecer Sua Majestade, nem a Sua poesia marca-se pelas se- índio e à natureza); Poesias Diversas
pacata sociedade de então. guintes características: e Hinos (impregnados de panteísmo
• riqueza temática, abran- — sentimento entre filosófico e religio-
gendo a poesia indianista, o li- so de ver em tudo (natureza, mares,
❑ Gonçalves de Magalhães
rismo amoroso, poesia da na- montanhas, vales, florestas, auroras)
(Rio, 1811 – Roma, 1882) tureza, saudosismo, poesia
Introdutor do Romantismo, com uma projeção de Deus).
religiosa, poesia erudita (escrita
seus Suspiros Poéticos e Saudades • Segundos Cantos e Sextilhas
em português arcaico, medieval) e
(1836), foi poeta medíocre, ainda que poesia egótica, antecipando o de Frei Antão. Obra erudita, escrita
teorizasse com lucidez as propostas mal-do-século; em português arcaico, à maneira dos

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trovadores medievais, e que Gonçalves medieval (a ação se passa em 1512), Não permita Deus que eu morra,
Dias denominava ensaio filológico. escrito em prosa. D. Jaime, Duque Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
• Os Timbiras. Poema épico in- de Bragança, suspeita da relação de
Que não encontro por cá;
dianista, do qual temos apenas os sua esposa, Leonor, com o jovem Al- Sem qu’inda aviste as palmeiras,
quatro cantos iniciais. Os doze coforado. Ambos são punidos injus- Onde canta o Sabiá.
restantes perderam-se no naufrágio tamente.
em que morreu o poeta. O plano do Gonçalves Dias deixou outros
dramas, além de traduções, estudos TEXTO II
poema era ambicioso:
etnográficos, geográficos, literários,
cartas e um dicionário de tupi. I-JUCA-PIRAMA
“(…) imaginei um poema… como nunca
(fragmento: canto X)
ouviste falar de outro: magotes de tigres, de
coatis, de cascavéis; imaginei mangueiras e
jabuticabais copados, jequitibás e ipês arro-
Antologia de Gonçalves Dias Um velho Timbira, coberto de glória,
gantes, sapucaieiras e jambeiros, de palmeiras Guardou a memória
nem falemos; guerreiros diabólicos, mulheres Do moço guerreiro, do velho Tupi!
feiticeiras, sapos e jacarés sem conta; enfim,
TEXTO I E à noite, nas tabas, se alguém duvidava
um gênese americano, uma Ilíada Brasileira. Do que ele contava,
Passa-se a ação no Maranhão e vai terminar no CANÇÃO DO EXÍLIO Dizia prudente: — “Meninos, eu vi!”
Amazonas com a dispersão dos Timbiras;
guerras entre eles e depois com os portu- Minha terra tem palmeiras, “Eu vi o brioso no largo terreiro
gueses.” Onde canta o Sabiá; Cantar prisioneiro
As aves que aqui gorjeiam Seu canto de morte, que nunca esqueci:
Não gorjeiam como lá. Valente, como era, chorou sem ter pejo;
• Últimos Cantos, em que se Parece que o vejo,
inclui a obra-prima do indianismo Nosso céu tem mais estrelas, Que o tenho nest’hora diante de mi.”
romântico, “I-Juca-Pirama”. Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida, “Eu disse comigo: ‘Que infâmia d’escravo!’
• Cantos, que reúne os livros an- Nossa vida mais amores. Pois não, era um bravo;
teriores, mais os Novos Cantos. Aí se
Valente e brioso, como ele, não vi!
inclui “Ainda uma Vez, Adeus”, poema Em cismar, sozinho, à noite, E à fé que vos digo: parece-me encanto
lírico-amoroso, de fundo autobio- Mais prazer encontro eu lá; Que quem chorou tanto,
Minha terra tem palmeiras,
gráfico, tematizando o insucesso amo- Tivesse a coragem que tinha o Tupi!”
Onde canta o Sabiá.
roso. Nessa vertente, mais intimista, há
ainda, em outros livros, poemas famo- Minha terra tem primores, Assim o Timbira, coberto de glória,
Que tais não encontro eu cá; Guardava a memória
sos, como “Se se Morre de Amor”,
Em cismar — sozinho, à noite — Do moço guerreiro, do velho Tupi.
“Olhos Verdes”, “Não me Deixes” etc. E à noite, nas tabas, se alguém duvidava
Mais prazer encontro eu lá;
• Leonor de Mendonça é um Minha terra tem palmeiras, Do que ele contava,
drama em três atos, de assunto Onde canta o Sabiá. Tornava prudente: “Meninos, eu vi!”

As Gerações Românticas – Segunda Geração:


MÓDULO 18
Álvares de Azevedo e Outros

1. POESIA DA SEGUNDA SE EU MORRESSE AMANHÃ IDEIAS ÍNTIMAS


GERAÇÃO ROMÂNTICA I
Se eu morresse amanhã, viria ao menos (...)
(Byroniana – Individualista
Fechar meus olhos minha triste irmã; Basta de Shakespeare. Vem tu agora,
– do Mal-do-Século – Fantástico alemão1, poeta ardente
Minha mãe de saudades morreria
Ultrarromântica) Se eu morresse amanhã! Que ilumina o clarão das gotas pálidas
(...) Do nobre Johannisberg! Nos teus romances
❑ Álvares de Meu coração deleita-se… Contudo,
Azevedo Parece-me que vou perdendo o gosto,
(1831-1852) Vou ficando blasé2, passeio os dias
• poesia cerebral, que reflete Pelo meu corredor, sem companheiro,
Ligado aos grupos boêmios da
mais leituras que vivências. A preco- Sem ler nem poetar. Vivo fumando.
Faculdade de Direito de São Paulo (...)
(Sociedade Epicureia), morreu aos cidade de sua poesia oscila entre
momentos geniais e descaídas. Es- Vocabulário e Notas
vinte anos. É o melhor representante
1 – Fantástico alemão: Goethe.
do mal-do-século. crevia tumultuariamente, entregue,
2 – Blasé: entediado.
Suas principais características às vezes, à incontinência verbal e ao
são: descabelamento. Nem sempre exer- • erotismo irrealizado, as-
• morbidez, tédio, dúvida, cia o senso crítico, que possuía mais sociado à culpa e ao medo. O desejo
satanismo, na esteira de Lord agudo que qualquer romântico na- e a punição fundem-se. O amor só se
Byron, modelo que seguiu de perto: cional, à exceção de Gonçalves Dias: realiza no plano do sonho:
– 73
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IDEIAS ÍNTIMAS Vocabulário e Notas Falando ao coração… que nota aérea


IX 1 – Águas-furtadas: sótãos. Deste céu, destas águas se desata?
2 – Venturoso: feliz. Canta assim algum gênio adormecido
Oh! ter vinte anos sem gozar de leve
3 – Morfeu: deus grego dos sonhos. Das ondas mortas no lençol de prata?
A ventura de uma alma de donzela!
4 – Mavioso: afetuoso.
E sem na vida ter sentido nunca
5 – Otelo: personagem de peça homônima de Minh’ alma tenebrosa4 se entristece,
Na suave atração de um róseo corpo
Shakespeare; personifica o ciúme. É muda como sala mortuária…
Meus olhos turvos se fechar de gozo!
6 – Devaneio: fantasia, imaginação. Deito-me só e triste sem ter fome,
Oh! nos meus sonhos, pelas noites minhas
7 – Cioso: cuidadoso. Vendo na mesa a ceia solitária.
Passam tantas visões sobre meu peito!
8 – Rol: lista.
(...)
9 – Werther e Carlota: personagens de Werther, Ó lua, ó lua bela dos amores,
• poesia humorística (realismo de Goethe. Se tu és moça e tens um peito amigo,
10 – Laura e Beatriz: musas de Petrarca e Não me deixes assim dormir solteiro,
humorístico e humor negro) e litera-
Dante, respectivamente. À meia-noite vem cear5 comigo!
tura fantástica são duas contribui- (Álvares de Azevedo)
ções originais ao nosso Romantismo: Vocabulário e Notas
• Os presságios da morte, as
1 – Embuçar: cobrir.
É ELA! É ELA! É ELA! É ELA! alusões à família e à infância, a fúria 2 – Carapuça: gorro.
É ela! é ela! — murmurei tremendo, da solidão, as dualidades sonho 3 – Vagabundo: errante.
E o eco ao longe murmurou “é ela!...” versus realidade, espírito versus 4 – Tenebroso: sombrio.
Eu a vi… minha fada aérea e pura, carne e alguns arroubos liberais 5 – Cear: jantar.
A minha lavadeira na janela! (“Pedro Ivo”) são temas constantes.
• A Noite na Taverna, escrito à
Dessas águas-furtadas1 onde eu moro Obras maneira dos contos fantásticos de
Eu a vejo estendendo no telhado
Os vestidos de chita, as saias brancas…
• Lira dos Vinte Anos reúne seus Hoffmann, traz à tona o mundo insólito
Eu a vejo e suspiro enamorado! melhores poemas: “Ideias Íntimas”, da inconsciência e da embriaguez
“Spleen e Charutos”, “É Ela! É Ela! É (incesto, envenenamento, traição, ne-
Esta noite eu ousei mais atrevido Ela! É Ela!”, além de “Lembrança de crofilia, duelo etc.), através das recor-
Nas telhas que estalavam nos meus passos dações de alguns jovens embria- ga-
Morrer” e “Se Eu Morresse Amanhã”.
Ir espiar seu venturoso2 sono,
Vê-la mais bela de Morfeu3 nos braços! O livro é dividido em três partes, e a dos, numa taverna, em noites de tem-
segunda parte vem precedida de pestade, entre mundanas bêbadas,
Como dormia! que profundo sono!… prefácio em que o poeta demonstra adormecidas, garrafas vazias etc.
Tinha na mão o ferro do engomado…
grande consciência dos componen- Solfieri, Johann, Gennaro, Bertran,
Como roncava maviosa4 e pura!
Quase caí na rua desmaiado! tes estéticos de seu trabalho. Arnold e Herman resolvem, por des-
fastio, contar casos escabrosos e ver-
Afastei a janela, entrei medroso: LEMBRANÇA DE MORRER dadeiros que tivessem vivido.
Palpitava-lhe o seio adormecido… • Macário, de classificação pro-
Fui beijá-la… roubei do seio dela Eu deixo a vida como deixa o tédio
Um bilhete que estava ali metido…
blemática, oscila entre o teatro, o
Do deserto, o poento caminheiro
— Como as horas de um longo pesadelo diário íntimo e a narrativa. Satã e
Oh! decerto… (pensei) é doce página Que se desfaz ao dobre de um sineiro; Penseroso dialogam no cemitério
Onde a alma derramou gentis amores! sobre os vícios e destinos da cidade
São versos dela… que amanhã decerto (...)
de São Paulo, veiculando as ideias do
Ela me enviará cheios de flores…
próprio poeta.
Descansem o meu leito solitário
Tremi de febre! Venturosa folha! Na floresta dos homens esquecida, • Conde Lopo e Poema do
Quem pousasse contigo neste seio! À sombra de uma cruz, e escrevam nela: Frade são poemas narrativos, motiva-
Como Otelo5 beijando a sua esposa, — Foi poeta — sonhou — e amou na vida. dos diretamente pela emulação do
Eu beijei-a a tremer de devaneio…6
modelo byroniano.
É ela! é ela! — repeti tremendo, SPLEEN E CHARUTOS
Mas cantou nesse instante uma coruja… I ❑ Fagundes
Abri cioso7 a página secreta… SOLIDÃO Varela (1841-1875)
Oh! meu Deus! era um rol8 de roupa suja! Autor, dentre outras obras, de
Nas nuvens cor de cinza do horizonte
Vozes d’América, Cantos e Fan-
Mas se Werther morreu por ver Carlota9 A lua amarelada a face embuça 1;
Dando pão com manteiga às criancinhas, Parece que tem frio e, no seu leito, tasias, Cantos do Ermo e da Cidade
Se achou-a assim mais bela… eu mais te Deitou, para dormir, a carapuça 2. e Anchieta ou o Evangelho nas
[adoro Selvas, realizou uma síntese da
Sonhando-te a lavar as camisinhas! Ergueu-se… vem da noite a vagabunda3 poesia romântica, versando temas
Sem xale, sem camisa e sem mantilha,
É ela! é ela! meu amor, minh’alma,
que vão do indianismo de Gonçalves
Vem nua e bela procurar amantes…
A Laura, a Beatriz10 que o céu revela… É doida por amor da noite a filha. Dias ao condoreirismo de Castro
É ela! é ela! — murmurei tremendo, Alves, passando pela poesia gótica,
E o eco ao longe suspirou “é ela!”. (...) pelo satanismo, pelo patriotismo,
74 –
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pelo naturalismo e pela poesia CÂNTICO DO CALVÁRIO “Meus Oito Anos”, “Amor e Medo”,
religiosa. Foi um poeta de transição “Minha Terra”, “Minha Mãe”, além da
Eras na vida a pomba predileta
no Romantismo. Que sobre um mar de angústias conduzia “Canção do Exílio”, derivação imita-
Os temas roceiros e bucó- O ramo da esperança. — Eras a estrela tiva do poema homônimo de Gonçal-
licos (“Juvenília”, “A Roça”, “A Flor Que entre as névoas do inverno cintilava ves Dias.
do Maracujá”), ao lado da dualidade Apontando o caminho ao pegureiro1.
Eras a messe2 de um dourado estio. MEU LAR OU CANÇÃO DO EXÍLIO
cidade versus campo, natureza versus
Eras o idílio de um amor sublime.
civilização, constituem a parte mais Se eu tenho de morrer na flor dos anos,
Eras a glória, — a inspiração, — a pátria,
significativa de sua obra, sem esque- O porvir de teu pai! Ah! no entanto, Meu Deus! não seja já!
cer o “Cântico do Calvário”, elegia Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
Pomba, — varou-te a flecha do destino!
Cantar o sabiá!
dedicada ao filho morto, obrigatória Astro, — engoliu-te o temporal do norte!
em qualquer antologia romântica. Teto, — caíste! — Crença, já não vives!
Meu Deus, eu sinto e tu bem vês que eu
[morro
A ROÇA (...)
Respirando este ar;
Faz que eu viva, Senhor! dá-me de novo
O balanço da rede, o bom fogo
Vocabulário e Notas Os gozos do meu lar!
Sob um teto de humilde sapé;
A palestra, os lundus, a viola, 1 – Pegureiro: guardador de gado; pastor.
2 – Messe: colheita. (...)
O cigarro, a modinha, o café;
AMOR E MEDO
Um robusto alazão, mais ligeiro ❑ Casimiro de
Do que o vento que vem do sertão,
Negras crinas, olhar de tormenta,
Abreu (1839-1860) Quando eu te fujo e me desvio cauto
Pés que apenas rastejam no chão. Poeta da saudade, do amor ado- Da luz de fogo que te cerca, oh! bela,
lescente, simples, espontâneo, comu- Contigo dizes, suspirando amores:
(...) “— Meu Deus! que gelo, que frieza aquela!”
nicativo; sua poesia, muito popular,
ainda agrada aos que pedem pouco Como te enganas! meu amor é chama
A FLOR DO MARACUJÁ
à poesia. Essencialmente musical, Que se alimenta no voraz segredo,
(...)
Casimiro não tem maior complexida- E se te fujo é que te adoro louco…
Por tudo o que o céu revela! de filosófica e psicológica, e sua obra, És bela — eu moço; tens amor — eu
Por tudo o que a terra dá, acessível a qualquer leitor alfabetiza- [medo!…
Eu te juro que minh’alma do, versa sempre as pulsões eróticas (...)
De tua alma escrava está!…
da adolescência, oscilando entre o
Guarda contigo este emblema
Da flor do maracujá! amor e o medo; as saudades da infân- MEUS OITO ANOS
Não se enojem teus ouvidos cia, da família e da pátria. Opera uma
De tantas rimas em – a – Oh! que saudades que tenho
“descida de tom” em relação a Gon-
Mas ouve meus juramentos, Da aurora da minha vida,
çalves Dias e a Álvares de Azevedo. Da minha infância querida
Meus cantos ouve, Sinhá!
Te peço pelos mistérios As Primaveras, reunião de suas Que os anos não trazem mais!
Da flor do maracujá! poesias, incluem os conhecidos (...)

As Gerações Românticas – Terceira Geração:


MÓDULO 19
Castro Alves

1. A TERCEIRA GERAÇÃO Representa o segmento liberal- E traz, volvendo após das praias cérulas1,
(Condoreira – Poesia Social – progressista da burguesia, que acre- — Um brilhante — o perdão!
A alma fica melhor no descampado…
Hugoana – Escola de Recife) dita no progresso, opondo-se à ten-
O pensamento indômito, arrojado
dência saudosista e regressiva, do- Galopa no sertão,
❑ Castro Alves (1847-1871) minante em nosso Romantismo. Qual nos estepes o corcel fogoso
Os temas que versou com maior Relincha e parte turbulento, estoso2,
Imbuído da concepção de poe- Solta a crina ao tufão.
frequência foram:
ta mediúnico (que escreve em tran- (Espumas Flutuantes, 1870)
• a poesia da natureza, explo-
se, que se acredita instrumento me-
rando o efeito plástico e sugestivo dos Vocabulário e Notas
diador entre as forças superiores, grandes planos (mar, infinito, ocea- 1 – Cérulo: da cor do céu.
Deus, o cosmos e os homens), colo- 2 – Estoso: ardente, febril.
no, vastidão, águias e albatrozes).
cou sua poesia a serviço da reforma … • a poesia erótica, de sen-
da sociedade e das grandes causas Qual no fluxo e refluxo, o mar em vagas sualidade forte e madura, viril, às
Leva a concha dourada… e traz das plagas
de seu tempo (Guerra do Paraguai, vezes galhofeira, conciliando o exer-
Corais em turbilhão,
Abolição, República). A mente leva a prece a Deus — por pérolas cício poético com a prática do amor.
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ADORMECIDA Só tem a rua de seu… A CRUZ DA ESTRADA


Ninguém vos rouba os castelos,
Uma noite, eu me lembro… Ela dormia Tendes palácios tão belos… Caminheiro que passas pela estrada,
Numa rede encostada molemente… Deixai a terra ao Anteu1. Seguindo pelo rumo do sertão,
Quase aberto o roupão… solto o cabelo Quando vires a cruz abandonada,
E o pé descalço do tapete rente. Vocabulário e Nota
Deixa-a em paz dormir na solidão.
1 – Anteu: gigante, filho de Posídon e de Geia
‘Stava aberta a janela. Um cheiro agreste (Terra). Habitava na Líbia e obrigava todos
Que vale o ramo do alecrim cheiroso
Exalavam as silvas1 da campina… os viajantes a lutar contra ele. Enquanto
estivesse em contato com sua mãe, era Que lhe atiras nos braços ao passar?
E ao longe, num pedaço do horizonte,
invencível. Vais espantar o bando buliçoso
Via-se a noite plácida e divina.
Das borboletas, que lá vão pousar.
De um jasmineiro os galhos encurvados, • o amor ao progresso e à
É de um escravo humilde sepultura,
Indiscretos entravam pela sala, liberdade:“O Livro e a América”, “O
E de leve oscilando ao tom das auras, Foi-lhe a vida o velar de insônia atroz.
Trem de Ferro”.
Iam na face trêmulos — beijá-la. Deixa-o dormir no leito de verdura,
• poesia de inspiração judai- Que o Senhor dentre as selvas lhe compôs.
Era um quadro celeste!… A cada afago
ca: “Hebreia”, “Ahasverus e o Gênio”.
Mesmo em sonhos a moça estremecia… • poesia abolicionista e hu- Não precisa de ti. O gaturamo1
Quando ela serenava… a flor beijava-a… manitária, momento mais expressivo Geme, por ele, à tarde, no sertão.
Quando ela ia beijar-lhe… a flor fugia… do condoreirismo nacional. Valendo-se E a juriti 2, do taquaral no ramo,
de metáforas ousadas, antíteses, hipér- Povoa, soluçando, a solidão.
Dir-se-ia que naquele doce instante boles e apóstrofes violentas, Castro
Brincavam duas cândidas crianças… Dentre os braços da cruz, a parasita,
A brisa, que agitava as folhas verdes,
Alves confere dignidade estética ao
Num abraço de flores, se prendeu.
Fazia-lhe ondear as negras tranças!… tema social, em sua movimentada Chora orvalhos a grama, que palpita:
alocução. “O Navio Negreiro”, “Vozes Lhe acende o vaga-lume o facho seu.
E o ramo ora chegava, ora afastava-se… d’África”, “A Cruz da Estrada”, “A
Mas quando a via despertada a meio, Canção do Africano” são os poemas Quando, à noite, o silêncio habita as matas,
P’ra não zangá-la… sacudia alegre
Uma chuva de pétalas no seio…
mais expressivos nesse aspecto. A sepultura fala a sós com Deus.
Prende-se a voz na boca das cascatas,
O NAVIO NEGREIRO
Eu, fitando esta cena, repetia, E as asas de ouro aos astros lá nos céus.
(Tragédia no Mar)
Naquela noite lânguida e sentida:
(...) Caminheiro! do escravo desgraçado
“Ó flor! — tu és a virgem das campinas!
Virgem! — tu és a flor de minha vida!…” Negras mulheres suspendendo às tetas O sono agora mesmo começou!
(Espumas Flutuantes, 1870) Magras crianças, cujas bocas pretas Não lhe toques no leito de noivado,
Rega o sangue das mães. Há pouco a liberdade o desposou.
Vocabulário e Notas Outras, moças… mas nuas, espantadas, (Castro Alves)
1 – Silva: designação comum a diversas No turbilhão de espectros arrastadas,
plantas da família das rosáceas; silveira, Vocabulário e Notas
Em ânsia e mágoa vãs.
sarça. 1 e 2 – Gaturamo e juriti: espécies de aves.
(…)
Senhor Deus dos desgraçados! ❑ Obra
• a poesia patriótica e de-
clamatória, “Ode ao Dous de
Dizei-me vós, Senhor Deus! Espumas Flutuantes, único livro
Se é loucura… se é verdade publicado em vida (1870), reúne poe-
Julho”, “Pedro Ivo”. Tanto horror perante os céus…
Ó mar! por que não apagas
sia lírica, patriótica, naturista, faltan-
O POVO AO PODER Co’a esponja de tuas vagas do apenas o tema do escravo negro,
A praça! A praça é do povo
De teu manto este borrão?… que surgirá nos livros póstumos (Os
Como o céu é do condor, Astros! noite! tempestades! Escravos, A Cachoeira de Paulo
É o antro onde a liberdade Rolai das imensidades!
Afonso). Deixou, ainda, o drama his-
Cria águias em seu calor. Varrei os mares, tufão!...
Senhor!… pois quereis a praça?
tórico sobre a Inconfidência: Gonza-
Desgraçada a populaça (…) ga, ou a Revolução de Minas.

MÓDULO 20 Prosa Romântica I – José de Alencar I


1. ROMANCE ROMÂNTICO dievais até o romance moderno. O romance projeta, nesse sen-
Assim, a epopeia clássica, as no- tido, o gosto do público burguês,
Narrar, contar uma história, é ativi- velas de cavalaria medievais, as fábu- emergente à condição de classe
dade que remonta aos primórdios da las, as histórias de terror, as aventuras dominante com a Revolução Fran-
literatura. Os gêneros literários de picarescas, o conto e o romance são cesa. Seu triunfo deveu-se ao
natureza basicamente narrativa sem- formas de narrar que se desdobram alargamento do público ledor
pre foram os mais difundidos, desde pelos diversos períodos históricos, re- (que, em grande parte, não tinha a
as histórias orais dos rapsodos gre- fletindo o gosto predominante em cada cultura necessária à compreensão da
gos e as das canções de gesta me- época. epopeia clássica e renascentista) e,

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especialmente, à abertura que o plexas e significativas, como o romance de Minas e Goiás (O Garimpeiro e
caracteriza, já que é um gênero histórico, o de costumes, o indianista, O Seminarista, de Bernardo Guima-
literário que possibilita inúmeras varia- os de perfis de mulher e o regionalista. rães) e o sertão e o Pantanal de
ções, abrigando a imaginação fértil Em linhas gerais, a ficção român- Mato Grosso (Inocência, do Viscon-
dos românticos e acolhendo os mais tica, apoiada no propósito naciona- de de Taunay).
variados temas e formas. lista de reconhecer e exaltar nossas O regionalismo romântico enfo-
Os primeiros romances editados paisagens e costumes, desdobrou-se cava aspectos exóticos e pitorescos,
no Brasil, ainda na década de 1830, em três direções: oscilando entre a idealização
marcam-se pelo predomínio do as- • O Passado (Alencar e Bernardo Guimarães) e o
pecto folhetinesco. O folhetim, publi- Por meio do romance histórico, realismo fotográfico (Taunay e
cado com periodicidade regular pela buscava-se na História e nas lendas Franklin Távora).
imprensa, equivale às atuais novelas heroicas a afirmação da nacionalida- José de Alencar, nosso primeiro
de televisão e confina com a subli- de. Na Europa, a Idade Média e as ficcionista de largo voo, exemplifica,
teratura. Essa modalidade apoia-se novelas de cavalaria ofereceram a um pelo conjunto de sua obra, quase todos
na complicação sentimental, na peri- Walter Scott (Ivanhoé) e a um Alexan- os tipos do romance romântico.
pécia, na aventura e no mistério; as dre Herculano (Eurico, o Presbítero) Manuel Antônio de Almeida, em Me-
personagens são lineares (herói/ as possibilidades para a reconsti- mórias de um Sargento de Milícias,
heroína x vilão); a narrativa centra-se tuição do clima, dos costumes e das afasta-se das convenções românti-
na tensão bem x mal e desdobra-se instituições da época medieval, per- cas, criando uma obra que destoa do
no sentido da punição do mal (inten- mitindo também largos voos da tom idealizador e heroico dos demais
ção moralizante); a história principal é imaginação e da fantasia. romancistas de sua época, para
enxertada com histórias secundárias O romancista não tem compro- aproximar-se da imparcialidade dos
e personagens ocasionais. Não há missos com a verdade histórica. narradores realistas, ao retratarem as
análise psicológica, embora se bus- Derivado do romance de “capa-e- classes sociais do Rio colonial.
que retratar a crise moral, fazendo espada” e do romance de mistério, o A narrativa era feita na 1.a pessoa
com que a personagem sinta seus romance histórico foi tomado como (subjetividade, emoção, confidência)
crimes e meça seu desespero, sus- substituto da epopeia clássica, mo- ou na 3.a pessoa (objetividade),
pendendo por um instante o fluxo dos delando heróis nacionais, calcados conforme a natureza do assunto. Em
acontecimentos. nos valores coletivos. qualquer caso, projetava sempre os
O folhetim (romance publicado No Brasil, os índios de Alen- sentimentos e a ideologia do autor,
em capítulos, diariamente, nos jornais, car (O Guarani, Iracema e Ubirajara) que impunha ao leitor os seus comen-
semelhante às telenovelas atuais) são transformados em cava- tários e reflexões.
gozou de grande popularidade, leiros medievais, vistos como A linguagem era bastante retó-
distraindo as donzelas casadoiras e símbolos e elementos formadores da rica, apoiando-se em imagens e com-
as vovozinhas. Captava os costumes nacionalidade, substituindo a Idade parações, em adjetivos sonoros e co-
da época, exteriorizando uma visão Média que não tivemos. loridos. As descrições tendiam
superficial da vida: saraus, passeios a • A Cidade ao grandioso e eram enriquecidas
cavalo, namoricos, fofocas, histórias Com o romance urbano e de pela notação da cor, da forma e da
de amor à base do “não-ata-nem- costumes, retrata-se a vida da corte, musicalidade, em correlação com os
desata”, sem mostrar a essência no Rio de Janeiro do século XIX, estados d’alma ou com as situações
alienada desse mundo e sem pene- fotografando-se, com alguma fidelida- dramáticas.
trar nas intenções escusas e nos de, costumes, cenas, ambientes e
desejos inconfessáveis, escondidos tipos humanos da burguesia carioca. 2. TEIXEIRA E SOUSA
sob a máscara risonha das amenida- As personagens caracterizam-se
des e da hipocrisia. por meio de atos, gestos, diálogos, De origem humilde, mulato, car-
Teixeira e Sousa e Joaquim Ma- roupas. Em Macedo (A Moreninha) pinteiro, foi, cronologicamente,
nuel de Macedo foram os iniciadores não há nenhum aprofundamento nosso primeiro romancista, com
do romance folhetinesco, cujo suces- psicológico, mas em Alencar (Diva, O Filho do Pescador, publicado em
so se prolongou até os nossos dias, Lucíola, Senhora) se encontram suti- 1843.
nas radionovelas, fotonovelas e na lezas devidas a um fino entendedor Representa cabalmente o gênero
subliteratura das Sabrinas, Júlias e da sensibilidade feminina. folhetinesco. Deixou obra volumosa e
Bárbaras Cartlands. Mesmo autores • O Regionalismo de qualidade inferior, incursionando
respeitáveis, como Alencar (Cinco Volta-se para o campo, para a pro- também pelo romance histórico e pelo
Minutos, A Viuvinha e A Pata da Ga- víncia e para o sertão, num esforço de mistério.
zela), empenharam seu talento em nacionalista de reconhecer e exaltar a
produzir folhetins, atraídos pelo suces- terra e o homem brasileiro, acentuando 3. JOAQUIM MANUEL
so perante o público e pelo ganha-pão as particularidades de seus costumes DE MACEDO (1820-1882)
seguro do emprego na imprensa. e ambientes. Buscou-se retratar o
Mas nem só de folhetins se ali- Nordeste (O Sertanejo, de Alencar, e Qualitativamente, foi o nosso
mentou a ficção romântica. Houve vá- O Cabeleira, de Franklin Távora), o primeiro romancista, inaugurando
rias outras modalidades mais com- - Sul (O Gaúcho, de Alencar), o sertão o romance urbano com A Moreninha
– 77
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(1844). Foi médico, político, professor, e • o período pré-cabralino (Ubi- do de defesa de um uso brasileiro da
seus romances sentimentais e mo- rajara); língua portuguesa, escreveu Alencar:
ralistas gozaram de grande popula- • os primeiros contatos entre o “Como pode um povo que chupa a
ridade. Escrevia para o gosto do leitor índio e o colonizador nos séculos XVI manga, o abacaxi e o cambucá falar
da época, apoiando-se nas tramas e XVII (Iracema e O Guarani ); como um povo que sorve a uva, a
complicadas, intrigas, mistérios, mal- • a colonização (A Guerra dos pera e a nêspera?”.
entendidos, que acabavam sempre Mascates, As Minas de Prata); Enriqueceu a nossa língua literária
com a vitória do verdadeiro amor • o presente, a vida urbana no de inúmeros brasileirismos, aprovei-
(happy end ) e com a punição do vilão. século XIX, em todos os romances tando vocábulos, expressões e um
Escreveu romances, novelas, tea- urbanos. fraseado tipicamente nacionais, dan-
tro, poesia, crônica, reunidos em mais No plano étnico, o índio e o do à frase um meneio, uma cadência
de 40 volumes. Na ficção, além de A branco alternam-se como heróis, tropical. Suas imagens e metáforas
Moreninha, deixou O Moço Loiro, modelados na honradez e galanteria utilizam com beleza e entusiasmo a
Mulheres de Mantilha (seus livros mais dos cavaleiros medievais: Peri, Poti, fauna e a flora do país.
conhecidos) e outras obras, que repro- Jaguarê, D. Antônio Mariz e seus Além do vigor descritivo e da jus-
duzem sempre os mesmos esquemas cavaleiros, Arnaldo Louredo, Manuel teza com que “pinta” a paisagem
folhetinescos das obras iniciais, sem Caño. Alencar omite a violência de humana e a natureza, apoiado em
qualquer evolução. que o índio foi vítima, indiscrimina- metáforas que ressaltam o colorido,
Sua obra vale como documento dos damente; assim, os brancos honra- fundindo a realidade humana e a
costumes da corte no século XIX, dos, na visão alencariana, irmana- paisagem, Alencar desenvolveu
retratando a vida doméstica e social da ram-se com os índios na construção da um contínuo esforço no sen-
burguesia da época. Há, pois, algum nacionalidade, que o romancista idea- tido analítico e crítico, aprofun-
realismo no registro que acompanha as lizava morena, mestiça, resultado da dando a dimensão psicológica
tramas sentimentais e idealistas. integração da natureza (índio) com a de suas personagens, especial-
A linguagem oscila entre o uso civilização (branco). mente em Lucíola e Senhora. Ten-
coloquial, nos diálogos que são muito O negro aparece como persona- tando compreender as desarmonias e
vivos, e o português academizante gem no teatro, em O Demônio Familiar estranhezas da conduta e desmas-
(por vezes rebuscado), nas digres- e no dramalhão Mãe, cabendo lembrar carar e denunciar certos aspectos
sões e nas descrições. que, fiel à sua posição política profundos da realidade humana e
A trama de A Moreninha centra-se conservadora e à sua origem rural e social, Alencar foi, sem embargo
na fidelidade ao amor infantil, envol- aristocrática, Alencar foi contra a da idealização romântica, um
vendo o par amoroso Augusto e Caro- abolição do regime escravagista. modesto precursor de Machado
lina, a moreninha. Entre patuscadas É sempre com desprezo e irritação de Assis.
dos estudantes de Medicina (Augusto, que Alencar observa os costumes urba-
Leopoldo, Felipe, Fabrício), saraus, nos de seu tempo, bem como a vida ❑ Evolução
partidas de gamão, intrigas, fofocas, da burguesia. A atitude do autor da obra alencariana
situações cômicas ou dramáticas, o diante da vida urbana é sempre • Primeira fase (1856-1864)
casal acaba por concretizar o jura- saudosista, regressiva e res- Alencar iniciou-se publicando crô-
mento de amor que fizera na infância. sentida. Ao condenar a cidade, a saí- nicas na imprensa carioca, mais tar-
da que Alencar entrevê é puramente de reunidas em Ao Correr da Pena
4. JOSÉ DE sentimental: o retorno à natureza, ao (1856). Ganha notoriedade nesse mes-
ALENCAR (1829-1877) índio, ao sertão, aos campos. mo ano, travando áspera polêmica
A intuição nacionalista de Alencar acerca do poema épico pseudo-
❑ Características levou-o a inventar uma imensa saga indianista A Confederação dos Ta-
Consolida o romance nacional, brasileira, fundando, bem ou mal, uma moios, de Gonçalves de Magalhães.
compondo um verdadeiro painel do mitologia mestiça, colossal e telúrica, Já havia publicado A Viuvinha, sem
Brasil que abrange todas as latitudes, uma verdadeira sinfonia americana. nenhuma repercussão, quando, em
todos os períodos históricos e todos Os índios e super-heróis inscre- 1857, publica O Guarani, que lhe traz
os grupos étnicos e regionais. vem-se nesse propósito de criar uma rápida notoriedade. São dessa fase,
No plano do espaço, abrange: literatura nacional com arquétipos, e o entre outros, Lucíola, Diva, As Minas
• o sertão do Nordeste (O Serta- entusiasmo com que Alencar mergu- de Prata e Iracema (1865), além das
nejo); lhou nesse trabalho verdadeiramente peças de teatro.
• o litoral cearense (Iracema); enciclopédico explica os erros de • Segunda fase (1866-1869)
• o pampa gaúcho (O Gaúcho); História e Geografia e os exageros Envolvido na política (deputado,
• a zona rural (Til ); imaginativos, que lhe valeram inúme- ministro da justiça, candidato rejeita-
• a zona da mata fluminense (O ras críticas e zombarias. do a senador), deixou, nessa fase, os
Tronco do Ipê); Ainda o nacionalismo inspirou a escritos políticos intitulados Cartas de
• a cidade, a corte no Rio (Diva, luta que Alencar empreendeu em Erasmo.
Lucíola, Senhora) e demais romances defesa do português falado no • Terceira fase (1870-1875)
urbanos. Brasil, liberto do rigor das gramá- Abandonando a política e o tea-
No plano do tempo, abarca: ticas e dicionários lusitanos. No senti- tro, desgostoso e retraído, entrou em
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nova fase criadora, publicando cerca Na realidade, se episódios da colonização frases solenes, e vinha embeber-se no seu
de dez livros (entre outros, O Gaúcho, do Brasil nos albores do século XVII constituem coração, que se abria para recebê-la.
o entrecho da obra, o protagonista é um índio, A água subindo molhou as pontas das
Ubirajara, Senhora e O Sertanejo),
Peri, elevado à categoria de autêntico herói largas folhas da palmeira, e uma gota, resva-
além do romance póstumo Encar- romântico. Logo depois que Filipe ll da Espanha lando pelo leque, foi embeber-se na alva cam-
nação e da autobiografia Como e por ocupa o trono de Portugal, D. Antônio de Mariz, braia das roupas de Cecília.
que Sou Romancista. fidalgo da velha estirpe portuguesa, fiel à sua A menina, por um movimento instintivo de
pátria, prefere instalar-se no interior do Brasil a terror, conchegou-se ao seu amigo; e nesse
❑ Divisão da obra de Alencar servir à Coroa estrangeira. Com sua família e momento supremo, em que a inundação abria a
alguns homens de armas, inicia a formação de fauce enorme para tragá-los, murmurou
a) Romances indianistas (for- uma fazenda à margem do Rio Paquequer, docemente:
mação da nacionalidade; anteceden- afluente do Paraíba. De um acidente resulta a — Meu Deus!... Peri!...
tes aborígines): morte de uma índia de uma tribo aimoré, que Então passou-se sobre esse vasto deserto
– O Guarani passa por isso a hostilizar os brancos de água e céu uma cena estupenda, heroica,
colonizadores. D. Antônio de Mariz conta com a sobre-humana; um espetáculo grandioso, uma
– Iracema amizade de Peri, jovem guerreiro goitacá, de sublime loucura.
– Ubirajara nobres instintos e extrema bravura. O selvagem Peri alucinado suspendeu-se aos cipós
b) Romances históricos (bos- devotava a Cecília, a filha do fidalgo, uma que se entrelaçavam pelos ramos das árvores
quejos históricos e crônicas roman- adoração quase religiosa e por isso estendia já cobertas de água e, com esforço deses-
sua proteção providencial a toda a família. perado, cingindo o tronco da palmeira nos seus
ceadas dos tempos coloniais): Depois de inúmeros acidentes e peripécias, em braços hirtos, abalou-o até as raízes.
– As Minas de Prata que se destaca a ação de Peri, conjurando Três vezes os seus músculos de aço,
– Alfarrábios perigos advindos não só dos indígenas inimi- estorcendo-se, inclinaram a haste robusta; e
– A Guerra dos Mascates gos, mas também do vilão Loredano e seus três vezes o seu corpo vergou, cedendo à
asseclas, dissimulados entre os “aventureiros” retração violenta da árvore, que voltava ao lugar
c) Romances regionalistas
que serviam a D. Antônio, este, esgotadas as que a natureza lhe havia marcado.
(a pátria brasileira; a sociedade rural): possibilidades de resistência, pede a Peri que Luta terrível, espantosa, louca, esvairada;
– O Gaúcho salve Cecília, levando-a para a Corte, enquanto luta da vida contra a matéria; luta do homem
– O Sertanejo faz explodir sua casa, a fim de evitar o trucida- contra a terra; luta da força contra a imobilidade.
mento de todos pelos selvagens. O final do ro- Houve um momento de repouso em que o
– Til
mance, com a palmeira arrastada pelas águas homem, concentrado todo o seu poder,
– O Tronco do Ipê da enchente e abrigando na sua copa os dois estorceu-se de novo contra a árvore; o ímpeto
d) Romances urbanos (roman- seres de raças diferentes, é um símbolo feliz da foi terrível; e pareceu que o corpo ia despe-
ces de complicação sentimental, perfis futura população do Brasil. (R. M. Pinto, in Pe- daçar-se nessa distensão horrível.
de mulher e quadros da sociedade): queno Dicionário de Literatura Brasileira, Cultrix.) Ambos, árvore e homem, embalançaram-
se no seio das águas: a haste oscilou; as raízes
– Cinco Minutos desprenderam-se da terra já minada profunda-
– A Viuvinha TEXTO I
mente pela torrente.
– A Pata da Gazela Peri compreendera o gesto da índia; não A cúpula da palmeira, embalançando-se
– Sonhos d’Ouro fez, porém, o menor movimento para segui-la. graciosamente, resvalou pela flor da água
Fitou nela o seu olhar brilhante e sorriu. como um ninho de garças ou alguma ilha flu-
– Encarnação tuante, formada pelas vegetações aquáticas.
Por sua vez a menina também compreen-
– Diva Peri estava de novo sentado junto de sua
deu a expressão daquele sorriso e a resolução
– Lucíola firme e inabalável que se lia na fronte serena do senhora quase inanimada: e, tomando-a nos
– Senhora prisioneiro. braços, disse-lhe com um acento de ventura
Insistiu por algum tempo, mas debalde. suprema:
Peri tinha atirado para longe o arco e as — Tu viverás!...
Antologia de Cecília abriu os olhos e, vendo seu amigo
flechas e, recostando-se ao tronco da árvore,
José de Alencar conservava-se calmo e impassível. junto dela, ouvindo ainda suas palavras, sentiu o
De repente o índio estremeceu. enlevo que deve ser o gozo da vida eterna.
O GUARANI Cecília aparecera no alto da esplanada e — Sim?... murmurou ela; viveremos!... lá
lhe acenara; sua mãozinha alva e delicada no céu, no seio de Deus, junto daqueles que
agitando-se no ar parecia dizer-lhe que espe- amamos!...
Publicado primeiramente em fo-
rasse; Peri julgou mesmo ver no rostinho gentil de O anjo espanejava-se para remontar ao
lhetins no Diário do Rio de Janeiro, em berço.
sua senhora, apesar da distância, brilhar um raio
1857, O Guarani foi o desdobramento de felicidade. — Sobre aquele azul que tu vês, continuou
da polêmica de Alencar com Gon- (O Guarani, cap. II) ela, Deus mora no seu trono, rodeado dos que
çalves de Magalhães sobre a criação o adoram. Nós iremos lá, Peri! Tu viverás com
de uma verdadeira epopeia nacional. TEXTO II tua irmã, sempre...!
O livro procura ser a resposta de Alen- Ela embebeu os olhos nos olhos do seu
Epílogo amigo, e lânguida reclinou a loura fronte.
car ao problema que tanto preocupou O hálito ardente de Peri bafejou-lhe a face.
os escritores que estabeleceram o (...) Fez-se no semblante da virgem um ninho
Romantismo entre nós. Alencar afasta- Peri tinha falado com o tom inspirado que de castos rubores e límpidos sorrisos: os lábios
se da épica tradicional: não escreve dão as crenças profundas; com o entusiasmo abriram como as asas purpúreas de um beijo
em verso, como Magalhães, mas em das almas ricas de poesia e sentimento. soltando o voo.
Cecília o ouvia sorrindo e bebia uma a A palmeira arrastada pela torrente impe-
prosa, e sua narrativa filia-se ao uma as suas palavras, como se fossem as tuosa fugia...
gênero mais em voga naquela época: partículas do ar que respirava; parecia-lhe que E sumiu-se no horizonte.
o romance — no subgênero romance a alma de seu amigo, essa alma nobre e bela, (O Guarani )
histórico de aventuras. se desprendia do seu corpo em cada uma das

– 79
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FRENTE 2 Literatura

MÓDULO 21 Prosa Romântica II – José de Alencar II

1. O ROMANCE URBANO Antologia


q Senhora
Publicado em 1875, é o terceiro TEXTO I
da série “perfis de mulher”. A per-
sonagem principal é Aurélia Camar- (...)
Na sala, cercada de adoradores, no meio
go, rainha dos salões cariocas na das esplêndidas reverberações de sua
época do Segundo Reinado. Herdei- beleza, Aurélia, bem longe de inebriar-se da
ra repentina de um avô que desco- adoração produzida por sua formosura e do
culto que lhe rendiam, ao contrário parecia
nhecia, passa da pobreza a uma
unicamente possuída de indignação por essa
existência de fausto social. Toda a turba vil e abjeta. Um funcionário a passeio com sua famí-
intriga gira em torno do tema do Não era um triunfo que ela julgasse digno
de si, a torpe humilhação dessa gente ante sua
lia, em tela de Debret.
casamento por interesse, por meio
riqueza. Era um desafio, que lançava ao
do contrato e dote, fato comum na mundo, orgulhosa de esmagá-lo sob a planta, TEXTO II
época. Aurélia enquanto pobre so- como a um réptil venenoso.
frera amarga decepção ao ver E o mundo é assim feito; que foi o fulgor
satânico da beleza dessa mulher a sua maior Aurélia passava agora as noites solitária.
Fernando Seixas, por quem se ena- Raras vezes aparecia Fernando, que ar-
sedução. Na acerba veemência da alma revol-
morara, afastar-se diante do aceno ta, pressentiam-se abismos de paixão, e entre- ranjava uma desculpa qualquer para justificar
de um dote de trinta contos de réis, via-se que procelas de volúpia havia de ter o sua ausência. A menina, que não pensava em
quando ela de nada dispunha. Jurou amor da virgem bacante. interrogá-lo, também não contestava esses
Se o sinistro vislumbre se apagasse de fúteis inventos. Ao contrário, buscava afastar
vingar-se e ao receber a herança da conversa o tema desagradável.
súbito, deixando a formosa estátua na penum-
manda sigilosamente oferecer ao ex- bra suave da candura e inocência, o anjo Conhecia a moça que Seixas retirava-lhe
noivo a quantia de cem contos de casto e puro que havia naquela, como há em seu amor; mas a altivez de coração não lhe
réis para um casamento com moça todas as moças, talvez passasse desperce- consentia queixar-se. Além de que, ela tinha
bido pelo turbilhão. sobre o amor ideias singulares, talvez inspira-
desconhecida. Fernando repeliu As revoltas mais impetuosas de Aurélia das pela posição especial em que se achara
inicialmente a oferta, mas, neces- eram justamente contra a riqueza que lhe servia ao fazer-se moça.
sitando de dinheiro, aceitou-a, com a de trono e sem a qual nunca, por certo, apesar (Senhora, cap. VI)
condição de receber vinte contos de de suas prendas, receberia como rainha
desdenhosa a vassalagem que lhe rendiam.
réis em adiantamento. Na noite de q Lucíola
Por isso mesmo considerava ela o ouro
núpcias, é recebido com desprezo, um vil metal que rebaixava os homens; e no Neste romance, Alencar desen-
sofrendo a humilhação de encarar o íntimo sentia-se profundamente humilhada volve um tema romântico que moti-
pensando que, para toda essa gente que a vou, e ainda motiva, muita paixão. É
recibo da sua compra em posse de
cercava, ela, a sua pessoa, não merecia uma o tema da “boa prostituta”, que se
Aurélia. Um ano depois, consegue, só das bajulações que tributavam a cada um
graças a um negócio antigo, receber de seus mil contos de réis. redime de seu “pecado” por meio do
a quantia de vinte contos que Nunca da pena de algum Chatterton amor sincero de um belo jovem, que
desconhecido saíram mais cruciantes apóstro- a ama, mas que a sociedade tentará
entrega à mulher para compra de fes contra o dinheiro, do que vibrava muitas afastar dela. Ela é Lúcia, meretriz de
sua liberdade. Aurélia pede-lhe que vezes o lábio perfumado dessa feiticeira meni-
singular nobreza de caráter, inspi-
fique, pois o seu procedimento fizera na, no seio de sua opulência.
Um traço basta para desenhá-la sob esta rada na Marguerite da peça A Dama
com que se redimisse de toda a ve- das Camélias, de Alexandre Dumas
face.
nalidade [venal é quem se vende] e Convencida de que todos os seus inúme- Filho; ele é Paulo Silva, um jovem
infâmia. O romance retrata os hábitos ros apaixonados, sem exceção de um, a promissor, de boa família, inspirado
e vícios da sociedade fluminense da pretendiam unicamente pela riqueza, Aurélia
reagia contra essa afronta, aplicando a esses
no Alfredo da mesma peça. Aqui, co-
época, influenciada pelos hábitos mo em Senhora, Alencar, romantica-
indivíduos o mesmo estalão.
europeus e em vias de formação Assim costumava ela indicar o mereci- mente, apresenta o amor como ope-
urbana. Com uma narrativa comple- mento relativo de cada um dos pretendentes, rador de mudanças comportamen-
xa para o romance da época, é dos dando-lhes certo valor monetário. Em lingua- tais nas pessoas — mudanças que
gem financeira, Aurélia cotava os seus adora-
melhores livros de José de Alencar. dores pelo preço que razoavelmente poderiam
trazem purificação, redenção, eleva-
(A. Coutinho, Enciclopédia de Litera- obter no mercado matrimonial. ção. No jogo de “pecado”, “pureza”,
tura Brasileira, MEC) (Senhora, cap. I) sexo e convenções sociais, revela-se
– 41
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a concepção moral de Alencar, que que significa, na sua língua, “filho da


exprime o moralismo da parcela con- dor”. Martim enterra o corpo da espo-
servadora da sociedade de seu tem- sa e parte, levando o filho e a sauda-
po. de da fiel companheira. (R. M. Pinto,
in Pequeno Dicionário de Literatura
TEXTO III Brasileira, Cultrix.)
Iracema, por sua linguagem su-
Um embaraço imprevisto, causado por gestiva e delicada, é um verdadeiro
duas gôndolas1, tinha feito parar o carro. A
poema em prosa. A narrativa procura
moça ouvia-me; voltou ligeiramente a cabeça
para olhar-me e sorriu. Qual é a mulher bonita Iracema, de Antônio Parreiras (1869- representar, miticamente, o surgimen-
que não sorri a um elogio espontâneo e um 1937), inspirado na personagem homô- to da nacionalidade brasileira pelo
grito ingênuo de admiração? Se não sorri nos nima de José de Alencar. Iracema, “lenda contato da terra virgem (Iracema é a
lábios, sorri no coração. do Ceará”, metaforiza a formação de uma
Durante que se desimpedia o caminho,
“virgem dos lábios de mel”) com o
nova raça, morena, mestiça, tropical, uma europeu civilizado. Quanto a este
tínhamos parado para melhor admirá-la; e
utopia romântica e nacionalista, revestida
então ainda mais notei a serenidade de seu sentido simbólico, já foi notado que o
olhar que nos procurava com ingênua curiosi-
de um intenso lirismo e alta poesia.
nome Iracema é um anagrama de
dade, sem provocação e sem vaidade. O carro
partiu; porém tão de repente e com tal ímpeto q Resumo América (anagrama é palavra forma-
dos cavalos por algum tempo sofreados, que a Numa atmosfera lendária, de exó- da pela transposição das letras de
moça assustou-se e deixou cair o leque. Apres- tica e delicada poesia, desenrola-se a outra palavra).
sei-me e tive o prazer de o restituir inteiro.
Na ocasião de entregar o leque apertei-lhe história triste dos amores de Martim,
primeiro colonizador português no Cea- TEXTO IV
a ponta dos dedos presos na luva de pelica.
Bem vê que tive razão assegurando-lhe que rá, e Iracema, a jovem e bela índia taba-
não sou tímido. A minha afoiteza a fez corar; Além, muito além daquela serra, que
jara, filha de Araquém, pajé da tribo.
agradeceu-me com um segundo sorriso e uma ainda azula no horizonte, nasceu Iracema.
ligeira inclinação da cabeça; mas o sorriso Martim saíra à caça com seu amigo Iracema, a virgem dos lábios de mel, que
desta vez foi tão melancólico, que me fez dizer Poti, guerreiro pitiguara, e perdera-se tinha os cabelos mais negros que a asa da graú-
ao meu companheiro: do companheiro, indo ter aos campos na e mais longos que seu talhe de palmeira.
— Esta moça não é feliz! O favo da jati não era doce como seu
dos inimigos dos tabajaras. Encontra
— Não sei; mas o homem a quem ela sorriso; nem a baunilha recendia no bosque
amar deve ser bem feliz! Iracema, que o acolhe na cabana de como seu hálito perfumado.
Nunca lhe sucedeu, passeando em nos- Araquém, enquanto volta Caubi, seu Mais rápida que a ema selvagem, a
sos campos, admirar alguma das brilhantes irmão, que reconduziria o guerreiro morena virgem corria o sertão e as matas do
parasitas que pendem dos ramos das árvores, Ipu, onde campeava sua guerreira tribo, da
abrindo ao sol a rubra corola? E quando ao co-
branco, são e salvo, às terras piti-
grande nação tabajara. O pé grácil e nu, mal
lher a linda flor, em vez da suave fragrância guaras. Iracema, porém, apaixona-se roçando, alisava apenas a verde pelúcia que
que esperava, sentiu o cheiro repulsivo de por Martim, traindo o “segredo da jure- vestia a terra com as primeiras águas.
torpe inseto que nela dormiu, não a atirou com ma”, que guardava como “virgem de Um dia, ao pino do sol, ela repousava em
desprezo para longe de si? um claro da floresta. Banhava-lhe o corpo a
É o que se passava em mim quando
Tupã” [Iracema entrega-se sexualmen- sombra da oiticica, mais fresca do que o
essas primeiras recordações roçaram a face te a Martim, inebriados ambos pela orvalho da noite. Os ramos da acácia silvestre
da Lúcia que eu encontrara na Glória. Voltei-me droga cujo segredo ela deveria pre- esparziam flores sobre os úmidos cabelos.
no leito para fugir à sua imagem e dormi. servar]. Acompanha o esposo, deixan- Escondidos na folhagem os pássaros ameiga-
(Lucíola, cap. II) vam o canto.
do na sua tribo um ambiente de revol- (...)
Vocabulário e Notas ta, acirrado pelos ciúmes de Irapuã, Rumor suspeito quebra a doce harmonia
1 – Gôndola: carro puxado por burros. destemido chefe tabajara. Desenca- da sesta. Ergue a virgem os olhos, que o sol
deia-se a guerra de vingança, e os não deslumbra; sua vista perturba-se.
2. O ROMANCE INDIANISTA Diante dela e todo a contemplá-la, está um
tabajaras são derrotados; Iracema con- guerreiro estranho, se é guerreiro e não algum
q Iracema funde as venturas do amor com as mau espírito da floresta. Tem nas faces o bran-
Iracema é um romance lírico que amargas tristezas que despertam os co das areias que bordam o mar, nos olhos o
desenvolve uma antiga lenda sobre a campos juncados de cadáveres de azul triste das águas profundas. Ignotas armas
e tecidos ignotos cobrem-lhe o corpo.
colonização do Ceará, terra do autor. seus irmãos. Ao remorso e saudade Foi rápido, como o olhar, o gesto de Irace-
A ação, centrada no encontro/desen- outra dor se lhe acrescenta: o arrefe- ma. A flecha embebida no arco partiu. Gotas de
contro entre o europeu e o nativo cimento do amor de Martim que, para sangue borbulham na face do desconhecido.
brasileiro, envolve a rivalidade entre amenizar a nostalgia da pátria distan- De primeiro ímpeto, a mão lesta caiu
sobre a cruz da espada; mas logo sorriu. O
as tribos tabajara e pitiguara. Martim te, ausentava-se em longas e demo- moço guerreiro aprendeu na religião de sua
é europeu, branco e civilizado; Irace- radas jornadas. Num dos seus regres- mãe, onde a mulher é símbolo de ternura e
ma, a bela selvagem tabajara que sos, encontra Iracema às portas da amor. Sofreu mais d’alma que da ferida.
O sentimento que ele pôs nos olhos e no
foge com ele para o litoral, repre- morte, exausta pelo esforço que fize-
rosto, não o sei eu. Porém a virgem lançou de
senta a América virgem e ingênua, ra para alimentar o filhinho recém-nas- si o arco e a uiraçaba e correu para o guer-
cativa e dominada. cido, a quem dera o nome de Moacir, reiro, sentida da mágoa que causara.

42 –
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A mão que rápida ferira estancou mais q Visconde de Taunay q Franklin Távora
rápida e compassiva o sangue que gotejava. (1843-1899) (1842-1888)
Depois Iracema quebrou a flecha homicida:
deu a haste ao desconhecido, guardando
Engenheiro militar, participou da Foi o mais radical e coerente dos
consigo a ponta farpada. Guerra do Paraguai, tendo oportuni- regionalistas românticos, propondo
dade de observar a paisagem e os uma literatura do Norte, distinta da
(Iracema, cap. II)
costumes do sertão e do Pantanal do Sul, fundada na realidade local
Mato-Grossense, que retrata de ma- vivida e observada, apoiada em uma
3. O ROMANCE REGIONALISTA neira objetiva, “realista”, em Inocência, atitude documental com relação à
OU SERTANEJO considerado o melhor romance que o História, à Geografia e aos proble-
regionalismo romântico produziu. Em mas humanos da região açucareira
q Bernardo Guimarães A Retirada da Laguna compôs um do Nordeste. Foi, nesse sentido, pre-
(1825-1884) relato histórico-documental desse cursor, entre outros, de Domingos
Trouxe a paisagem do sertão de episódio da Guerra do Paraguai. Olímpio, Manuel de Oliveira Paiva,
Minas Gerais e de Goiás, fundindo a Aproxima-se do Realismo, no Euclides da Cunha, Rachel de Quei-
idealização romântica e a descrição sentido da fidelidade fotográfica com roz, José Lins do Rego, José Américo
da paisagem cheia de adjetivos com que fixa a natureza e os costumes da de Almeida, Graciliano Ramos,
os elementos tomados à narrativa região mato-grossense. Mas o enre- ficcionistas comprometidos com a
oral, na base do contador de casos. do, a trama, é ainda romântico. (Ino- paisagem nordestina.
Escreveu o primeiro romance cência reproduz um dos clichês mais Atacou duramente o idealismo e
regionalista brasileiro: O Ermitão de usados no Romantismo — história de a imaginação de José de Alencar
Muquém (1858). amor com desfecho trágico, provo- nas Cartas a Cincinato. Sua obra,
O Ermitão de Muquém e O Semi- cado pela autoridade paterna, pela ainda que vazada em um estilo
narista são romances de tese contra intriga e pela atuação do vilão.) sóbrio e bem-ordenado, é inconve-
o celibato clerical e a vocação força- Em Inocência, Pereira simboliza niente.
da, inspirados no Monasticon, do a noção de honradez do sertanejo, Em O Cabeleira focaliza o bandi-
romancista romântico português Ale- intransigente e anacrônica. Inocên- tismo e a violência, personificados no
xandre Herculano (Eurico, o Presbíte- cia personifica a beleza submissa, bandido José Gomes que, arrastado
ro e O Monge de Cister). meiga e singela. Manecão repre- ao crime pela sociedade e por seu
Com A Escrava Isaura, antecipa senta a mentalidade rústica e vio- próprio pai, regenera-se pelo amor
o filão abolicionista, apesar dos exa- lenta do vaqueiro. Cirino, curandeiro, de uma donzela que tentara violentar
geros de idealização (Isaura, escrava caracteriza um tipo regional. O e na qual reconhece a companheira
branca, que fala francês e toca cientista alemão Mayer, hóspede de de infância que amava. O Matuto e
piano) e da fragilidade do enredo Pereira, expressa, dentro do ro- Lourenço reconstituem episódios da
folhetinesco. Em Maurício, ou Os mance, a visão europeia e “civiliza- Guerra dos Mascates (1710/1711,
Paulistas em São João Del Rei, rea- da” do sertão. A fidelidade na carac- entre Recife e Olinda), também apro-
liza romance histórico, tematizando a terização dos costumes e do modo veitados por Alencar. Louva-se o
descoberta e exploração do ouro. O de pensar do sertanejo e a repro- equilíbrio das descrições dos costu-
Garimpeiro focaliza a paisagem dos dução do falar regional são peças mes regionais nordestinos em Um
garimpos da região de Araxá (MG). fundamentais do romance. Casamento no Arrabalde.

MÓDULO 22 Manuel Antônio de Almeida


1. MANUEL ANTÔNIO DE q Vida e obra descrições pomposas, o apego ao
ALMEIDA (1831-1861) Memórias de um Sargento de concreto imediato, a presença das
Milícias, seu único romance, apare- camadas populares (trabalhadores
ceu em folhetim publicado no suple- braçais, malandros, vadios), a ausên-
mento dominical “A Pacotilha”, do cia de heróis e vilões e a imparciali-
Correio Mercantil, entre junho de dade do narrador fizeram das Memó-
1852 e julho de 1853, sob o pseu- rias uma obra excêntrica em relação à
dônimo “Um Brasileiro”. corrente formada pela ficção idea-
Médico (não exerceu a profissão), lizadora, galante, heroica e sentimen-
jornalista, diretor da Tipografia Nacio- tal, tão ao agrado do leitor da época.
nal, Manuel Antônio de Almeida pare- Como Memórias fugisse à tipicidade
ce não ter tido pretensões à carreira da ficção romântica, não obteve êxito
literária, embora revele inegável talen- no tempo em que foi publicado.
Manuel
Antônio to na pequena obra-prima que deixou. A crítica mais recente tirou-o da
de O estilo despretensioso, a lingua- vala comum das obras menores, ven-
Almeida gem coloquial direta, a ausência de do nele antecipações de Machado de
– 43
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Assis e Lima Barreto, ao retratar o coti- faltou a proteção da madrinha, tudo em todos os seus níveis, com
diano carioca, e de Mário de Andrade, tem “conclusão feliz”: promoção a transgressões da lei cometidas
pelo humor e pelo cinismo que fazem sargento de milícias e casamento até pelas altas figuras que têm o
do protagonista, Leonardo, um ances- com Luisinha. (A. S. Amora, verbete dever de zelar pelo respeito à lei.
tral de Macunaíma, na mais legítima “Memórias de um Sargento de Milí-
linhagem do malandro nacional, do cias”, in Pequeno Dicionário de Lite- Antologia
“herói sem nenhum caráter”. ratura Brasileira, Cultrix.)
Como Macunaíma, Leonardo é um
anti-herói, com características de píca- TEXTO I
ro (tipo vadio, que vive ao sabor do
acaso). Bastardo, “filho de uma pisa- Era no tempo do rei.
dela e de um beliscão”, Leonardo en- Uma das quatro esquinas que formam as
carna um amoralismo relacionado com ruas do Ouvidor e da Quitanda, cortando-se
mutuamente, chamava-se nesse tempo — O
a necessidade de sobrevivência,
canto dos meirinhos1 —; e bem lhe assentava
fome e toda sorte de sujeições que o nome, porque era aí o lugar de encontro favo-
oprimem as camadas populares. rito de todos os indivíduos dessa classe (que
Memórias de um Sargento de Mi- gozava então de não pequena consideração).
lícias, escrito no reinado de D. Pedro II, Os meirinhos de hoje não são mais do que a
sombra caricata dos meirinhos do tempo do
refere-se ao período de D. João VI,
Uniforme militar, em desenho de Debret rei; esses eram gente temível e temida, respei-
fase de transição entre a condição tável e respeitada; formavam um dos extremos
colonial e a independência. As festas da formidável cadeia judiciária que envolvia
populares, a arraia-miúda (saloias, q Características todo o Rio de Janeiro no tempo em que a
meirinhos, parteiras, barbeiros, deso- Resumindo e esquematizando, demanda era entre nós um elemento de vida: o
extremo oposto eram os desembargadores. Ora,
cupados etc.), as mazelas, o jeitinho as características principais das Me- os extremos se tocam, e estes, tocando-se,
e o empreguismo são retratados mórias de um Sargento de Milícias fechavam o círculo dentro do qual se pas-
direta e objetivamente, distorcidos são as seguintes: savam os terríveis combates das citações, pro-
apenas pelo tom galhofeiro e bem- • semelhança voluntária com o varás2 , razões principais e finais e todos esses
humorado do narrador que, divertido, estilo da crônica histórica, assumi- trejeitos judiciais que se chamava o processo.
Daí sua influência moral.
desmascara os mecanismos de uma do em tom irônico e crítico;
sociedade minada pela hipocrisia e • filiação à tradição do romance pi- (Memórias de um Sargento
pelo falso moralismo. caresco, por centrar-se nas aven- de Milícias, cap. I)
turas de um herói de posição social
q Resumo inferior, a partir do qual se traça um Vocabulário e Notas
1 – Meirinho: antigo funcionário judicial, cor-
As Memórias são uma narrativa retrato da sociedade em seus diver- respondente ao oficial de justiça de hoje.
vibrante e cheia de peripécias, o que sos estratos. O pícaro, para sobre- 2 – Provará: cada um dos artigos de um
torna qualquer resumo inapropriado viver na pobreza, dribla as condi- requerimento judicial.
e pálido. Em linhas gerais, trata-se da ções adversas por meio de peque-
história da vida de Leonardo, filho de nos engodos e variados empregos;
dois imigrantes portugueses, a saloia • representação de usos e costumes TEXTO II
[camponesa, rústica] Maria da Horta- da sociedade carioca à época de
liça e Leonardo, “algibebe” [vendedor D. João (valor documental e artís- Apesar de tudo quanto havia já sofrido por
de roupas grosseiras] em Lisboa e amores, o Leonardo de modo algum queria
tico);
emendar-se; enquanto se lembrou da cadeia,
depois meirinho [oficial de justiça] no • ausência do idealismo heroico que dos granadeiros e do Vidigal esqueceu-se da
Rio no tempo do Rei D. João Vl: caracteriza os romances românti- cigana, ou antes só pensava nela para jurar
nascimento do “herói”; sua infância cos, o que faz de Manuel Antônio esquecê-la; quando, porém, as caçoadas dos
de endiabrado; suas desditas de de Almeida um autor de transição companheiros foram cessando, começou a
filho abandonado mas sempre salvo entre este período e o Realismo; renovar-se a paixão, e teve lugar uma grande
de dificuldades pelos padrinhos (a descrição de diversos tipos popu- luta entre a sua ternura e a sua dignidade, em
que esta última quase triunfava, quando uma
parteira e um barbeiro); sua juventu- lares, por vezes apresentados ca-
descoberta maldita veio transtornar tudo. Não
de de valdevinos [vagabundo]; seus ricaturalmente: ciganos, barbei- sabemos por que meio o Leonardo descobriu
amores com a dengosa mulatinha ros, militares aposentados, bea- um dia que o rival feliz que o pusera fora de
Vidinha; suas malandrices com o tas, policiais etc.; combate era o reverendo mestre-de-ce-
truculento Major Vidigal, chefe de • completo afastamento de qual- rimônias1 da Sé! Subiu-lhe com isto o sangue
polícia; seu namoro com Luisinha; quer forma de moralismo: o ma- à cabeça:
sua prisão pelo major; seu enga- — Pois um padre!?... dizia ele; é preciso
landro Leonardinho não é conde-
que eu salve aquela criatura do inferno, onde
jamento, por punição, no corpo de nado, assim como são apresen- ela se está metendo já em vida...
tropa do mesmo major; finalmente, tados com naturalidade episódios E começou de novo em tentativas, em
porque os fados [o destino] acaba- em que se evidencia o funcio- promessas, em partidos para com a cigana,
ram por Ihe ser propícios e não Ihe namento “malandro” da sociedade que a coisa alguma queria dobrar-se. Um dia
44 –
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que a pilhou de jeito à janela abordou-a e — Homem, sabe que mais? Você para uma modinha.
começou ex-abrupto2 a falar-lhe deste modo: pregador não serve, não tem jeito... eu como (Memórias de um Sargento
— Você está já em vida no inferno!... pois estou, estou muito bem; não me dei bem com de Milícias, cap. XV)
logo um padre?!... os meirinhos; eu nasci para coisa melhor...
A cigana interrompeu-o: — Pois então tem alguma coisa que dizer Vocabulário e Notas
— Havia muitos meirinhos para escolher, de mim?... Hei de me ver vingado... e bem 1 – Mestre-de-cerimônias: padre que dirige o
mas nenhum me agradou... vingado. cerimonial litúrgico.
— Mas você está cometendo um pecado — Ora! respondeu a cigana, rindo-se. 2 – Ex-abrupto: de súbito; sem preparação;
mortal... está deitando sua alma a perder... E começou a cantarolar o estribilho de intempestivamente.

MÓDULO 23 Introdução ao Realismo-Naturalismo

1. CONTEXTO café, as oligarquias regionais e a raça, hereditariedade), sociológi-


HISTÓRICO-CULTURAL aparição de novos atores na cena cos e ambientais (Ecologia, Geo-
política — os militares). Porém, nossa grafia, meio ou classe social), além
elite pensava segundo os modelos das circunstâncias históricas.
q A Revolução Industrial – europeus e procurava assimilar os Em síntese: determinismo de raça,
O Materialismo – costumes civilizados de Paris e de meio e momento.
O Cientificismo Londres.
Da segunda metade do século Opondo-se ao idealismo e ao es- q Os antecedentes europeus
XIX ao início do século XX, o mundo piritualismo românticos, os realistas Em sentido amplo, a atitude
ocidental assistiu ao triunfo da fazem da ciência e do materialismo realista sempre existiu, em
Revolução Industrial, à consoli- uma nova religião. Nada que não pu- todos os tempos e em todas as es-
dação e ao fortalecimento da bur- desse ser visto, apalpado, medido e colas literárias, como um dos polos
guesia como classe dominante e à examinado por meio dos sentidos de- da criação artística, voltada para a
expansão do capitalismo industrial veria merecer atenção do cientista e tendência de reproduzir nas obras os
às antigas áreas coloniais da Amé- do artista. Assim, as noções de alma, traços observados no mundo real,
rica, da África e da Ásia, agora sob a de religião, de Deus, de transcen- seja nas coisas, seja nas pessoas ou
denominação de capitalismo avança- dência, tão caras aos românticos, nos sentimentos. Essa atitude rea-
do, alicerçando-se no avanço cien- são abandonadas. Tornam-se comuns lista, universal no tempo e no espa-
tífico e tecnológico (locomotiva a vapor, o anticlericalismo e a crítica ao ço, opõe-se à atitude romântica (tam-
eletricidade, telégrafo sem fio etc.). cristianismo (Guerra Junqueiro, Eça bém universal), caracterizada pela
Surge a civilização indus- de Queirós, Inglês de Sousa, Aluísio fantasia, pela tendência a inventar
trial e acentuam-se os seus des- Azevedo, dentre outros, fizeram dos um mundo novo, diferente e muitas
dobramentos: a explosão urbana, as padres os vilões de suas obras). vezes oposto às leis do mundo real.
massas trabalhadoras, os sindicatos, Dentre as correntes científicas e Os autores e as modas literárias
as reivindicações do proletariado filosóficas em voga no Realismo e no oscilam incessantemente entre am-
(socialismo utópico de Proudhon, o Naturalismo, destacam-se bas as atitudes e é da sua combi-
socialismo científico de Marx e Engels). • o Positivismo de Auguste nação, mais ou menos variada, que
Ciência, Progresso e Razão pas- Comte, propondo o primado da ciên- se faz a Literatura.
sam a ser as palavras de ordem da cia positiva no conhecimento do A ficção moderna constitui-se
classe dominante, interessada na homem e do mundo; justamente da tendência de se bus-
estabilização de suas conquistas, • o Evolucionismo de Charles car, cada vez mais, comunicar ao
substituindo o ímpeto revolucionário, Darwin e de Herbert Spencer, subme- leitor o sentimento da realidade, por
contestatório e individualista da épo- tendo o homem às leis da Biologia meio da observação exata do mundo
ca romântica. A paixão e o impulso e à evolução natural das espécies. e dos seres. Nesse sentido, o roman-
pessoal cedem lugar à reflexão, à O homem passa a ser visto como um ce romântico esteve pleno de
observação, à análise e à disciplina. animal, submetido às mesmas leis realismo. Autores como Stendhal e
As ideias avançadas do cientifi- que regem todos os animais. Daí a pre- Balzac, na França, Charles
cismo e do materialismo europeu ferência pelos aspectos biológicos, Dickens, na Inglaterra, Gogol, na
contaminam a elite brasileira, ainda fisiológicos e instintivos que de- Rússia, todos da primeira metade do
que nossa realidade social e eco- terminam as ações das personagens, século XIX, ainda que frequente-
nômica fosse diferente da situação superando a vontade e a razão. mente relacionados ao Romantismo,
europeia. Éramos ainda uma socie- A realidade passa a ser interpre- foram os verdadeiros fundadores do
dade agrária, recém-saída do escra- tada como um todo orgânico em que Realismo na ficção contemporânea.
vagismo, fundada na produção agrí- o universo, a natureza e o homem
cola (café, açúcar, borracha) e estão intimamente associados e su-
governada por uma República Oli- jeitos, em igualdade de condições, aos 2. CARACTERÍSTICAS
gárquica, instável e frequentemente mesmos princípios, leis e finalidades;
abalada por conflitos de interesses • o Determinismo de Hippolyte q Objetivismo
no seio da própria classe dominante Taine, o qual propõe que o compor- Preocupação com a verdade não
(aristocracia decadente da cana-de- tamento humano seja determinado apenas verossímil, mas exata, apoia-
açúcar, aristocracia ascendente do pelos fatores biológicos (instinto, da na observação e na análise.
– 45
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q Predomínio das sensações q Romance social, psicológi- Apresenta preferência pelos


A realidade é captada e trans- co e de tese; poesia urbana temas escabrosos, pela patologia
crita por meio de impressões senso- e agreste (Carvalho Júnior, humana e social (taras, vícios,
riais nítidas, precisas. Daí o predomí- Bernardino Lopes, Cesário sedução, adultério, incesto, assas-
nio da descrição objetiva e minucio- Verde); poesia filosófico- sinato, homossexualismo). A aborda-
sa. Os detalhes são da maior impor- científica (Sílvio Romero); gem dos aspectos degradantes da
tância: nada é desprovido de poesia social (Antero de condição humana implica certo mo-
interesse na reconstituição exata da Quental, Guerra Junqueiro ralismo, não importando a opinião
realidade. e Teófilo Braga). sobre os atos, mas os atos em si
Enquanto o romântico capta o mesmos.
mundo por meio do coração, do q Preocupação formal É frequente a zoomorfização,
sentimento, o realista é, sobretudo, Buscam-se a clareza, o equilí- ou seja, a aproximação, por meio de
sensorial. O amor perde a conotação brio, a harmonia da composição. símiles, entre o homem e o animal, com
espiritualizante, para privilegiar o propósito depreciativo em relação ao
aspecto físico. Ocorre uma “sexuali- q Correção gramatical homem-larva, ao homem-besta,
zação” do amor, e o sexo torna-se Purismo, vernaculidade, econo- regido pelo instinto cego e brutal:
tema quase obrigatório. mia vocabular, precisão lexical.
Rita Baiana… uma cadela no cio
q q Predomínio da denotação
Temas contemporâneos
Só o presente interessa; desa- A metáfora cede lugar à meto- O Cortiço… uma geração que pa-
parece o romance histórico. A ficção nímia. Linguagem simples, direta. recia brotar espontânea… e multi-
centra-se na crítica social (contra Preferência pela narração. Uma plicar-se como larvas no esterco.
a burguesia, contra o clero, contra o contribuição importante do Realismo
capitalismo selvagem, contra o obs- foi a superação do tom excessiva- Leandra… a ‘Machona’, portuguesa
curantismo) e na análise psico- mente declamatório e do verbalismo feroz, berradora, pulsos cabeludos e
lógica, voltada para a investigação adjetival dos românticos. grossos, anca de animal do
das causas profundas das ações campo.
humanas. 3. O NATURALISMO (A. Azevedo, O Cortiço)

Surgiu na França, e seu criador e Focaliza, de preferência, as


q Impassibilidade – principal teórico foi Émile Zola camadas sociais inferiores, o
Contenção Emocional (Thérèse Raquin, Germinal ). Foi Zola proletariado e os marginaliza-
O autor ausenta-se da narrativa, que cunhou a expressão romance dos. Denuncia os aspectos degra-
assumindo uma posição neutra, im- experimental como designativa de dantes, com o propósito de tomada
parcial, desinteressado pelo destino suas aproximações com as ciências. de consciência, visando à redenção
das personagens, fotografadas “por Ainda no âmbito das propostas moral e social do homem. Arte enga-
dentro” (Machado de Assis) e “por realistas, o Naturalismo representa jada, a serviço de ideais políticos e
fora” (Aluísio Azevedo). Busca-se uma exacerbação, uma radicalização sociais.
uma explicação lógica e cientifi- do cientificismo, do materia- O Naturalismo peca, quase
camente aceitável para o compor- lismo e do determinismo. Bus- sempre, pelo reducionismo e pelo
tamento e para as ações das perso- cou analisar o comportamento hu- esquematismo, restringindo-se às
nagens. mano à luz das teorias científicas do explicações mecanicistas, à exterio-
fim do século XIX, ressaltando os ridade, aos condicionamentos, inca-
q Personagens esféricas aspectos instintivos e biológi- pazes de apreender o homem em
Opondo-se à linearidade das cos do homem, submetido ao peso toda a sua complexidade.
personagens românticas (herói x dos fatores que determinavam Nos textos que se seguem, a
vilão), as personagens realistas são sua conduta: a hereditariedade, passagem de O Cortiço ilustra a típi-
complexas, multiformes, imprevisí- a raça, o meio ambiente e a ca descrição naturalista, e a de A
veis, repelindo qualquer simplifica- sociedade. Cidade e as Serras satiriza a atitude
ção. São também dinâmicas, porque Inspirado no experimentalis- cientificista daquele tempo.
evoluem e têm profundidade psico- mo científico de Claude Bernard
lógica. (a Medicina Experimental), o Natu-
ralismo assimilou a objetividade TEXTO I
q Materialismo – das Ciências Naturais, fazendo
Cientificismo do romance uma espécie de labora- Noventa e cinco casinhas comportou a
A realidade é de caráter exclu- tório da vida, e encarando o homem imensa estalagem.
sivamente material. Oposição à como um “caso” a ser analisado. Daí Prontas, João Romão mandou levantar na
metafísica e à religiosidade. decorre a visão mais mecanicista, frente, nas vinte braças que separavam a ven-
da do sobrado do Miranda, um grosso muro de
mais determinista, e o enquadra-
dez palmos de altura, coroado de cacos de
q Narrativa lenta mento do homem como produto das vidro e fundos de garrafa, e com um grande
Ao se valorizarem as minúcias, a leis da Biologia; da hereditariedade, portão no centro, onde se dependurou uma
ação e o enredo perdem a importân- da Sociologia e da Ecologia, contra as lanterna de vidraças vermelhas, por cima de
cia para a caracterização das perso- quais a razão e a vontade humana uma tabuleta amarela, em que se lia o seguin-
nagens e dos ambientes. nada podem. te, escrito a tinta encarnada e sem ortografia:

46 –
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“Estalagem de São Romão. Alugam-se o brilho, a uma forma algébrica:


casinhas e tinas para lavadeiras”. TEXTO II

}
As casinhas eram alugadas por mês e as suma ciência
tinas por dia; tudo pago adiantado. O preço de (...) Ora, nesse tempo Jacinto concebera X = suma felicidade
cada tina, metendo a água, quinhentos réis; uma ideia… Este Príncipe concebera a ideia suma potência
sabão à parte. As moradoras do cortiço tinham de que “o homem só é superiormente feliz
preferência e não pagavam nada para lavar. quando é superiormente civilizado”. E por ho- E durante dias, do Odeon à Sorbona, foi
Graças à abundância de água que lá mem civilizado o meu camarada entendia louvada pela mocidade positiva a equação
havia, como em nenhuma outra parte, e aquele que, robustecendo1 a sua força metafísica de Jacinto.
graças ao muito espaço de que se dispunha pensante com todas as noções adquiridas Para Jacinto, porém, o seu conceito não
no cortiço para estender a roupa, a concor- desde Aristóteles e multiplicando a potência era meramente metafísico e lançado pelo gozo
rência às tinas não se fez esperar; acudiram corporal dos seus órgãos com todos os elegante de exercer a razão especulativa; mas
lavadeiras de todos os pontos da cidade, mecanismos inventados desde Terâmenes, constituía uma regra, toda de realidade e de
entre elas algumas vindas de bem longe. E, criador da roda, se torna um magnífico Adão, utilidade, determinando a conduta, modalizan-
mal vagava uma das casinhas, ou um quarto, quase onipotente, quase onisciente, e apto do a vida. E já a esse tempo, em concordância
um canto onde coubesse um colchão, surgia portanto a recolher dentro de uma sociedade com o seu preceito, ele se surtira5 da Pequena
uma nuvem de pretendentes a disputá-los. e nos limites do progresso (tal como ele se Enciclopédia dos Conhecimentos Universais
E aquilo se foi constituindo numa grande comportava em 1875) todos os gozos e todos em setenta e cinco volumes e instalara, sobre
lavanderia, agitada e barulhenta, com as suas os proveitos que resultam de saber e de os telhados do 202, num mirante envidraçado,
cercas de varas, as suas hortaliças verdejan- poder… Pelo menos assim Jacinto formulava um telescópio. Justamente com esse teles-
tes e os seus jardinzinhos de três e quatro copiosamente2 a sua ideia, quando conversa- cópio me tornou ele palpável a sua ideia,
palmos, que apareciam como manchas ale- mos de fins e destinos humanos, sorvendo numa noite de agosto, de mole e dormente
gres por entre a negrura das limosas tinas bocks3 poeirentos, sob o toldo das cervejarias calor. Nos céus remotos lampejavam relâm-
transbordantes e o revérbero1 das claras bar- filosóficas, no Boulevard Saint-Michel. pagos lânguidos. Pela Avenida dos Campos
racas de algodão cru, armadas sobre os Este conceito de Jacinto impressionara Elísios, os fiacres6 rolavam para as frescuras
lustrosos bancos de lavar. E os gotejantes os nossos camaradas de cenáculo4, que, do Bosque, lentos, abertos, cansados,
jiraus2, cobertos de roupa molhada, cintilavam tendo surgido para a vida intelectual, de 1866 transbordando de vestidos claros.
ao sol, que nem lagos de metal branco. a 1875, entre a batalha de Sadowa e a batalha
E naquela terra encharcada e fumegante, de Sedan, e ouvindo constantemente, desde (Eça de Queirós,
naquela umidade quente e lodosa, começou a então, aos técnicos e aos filósofos, que fora a A Cidade e as Serras, cap. I)
minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, espingarda de agulha que vencera em
uma coisa viva, uma geração, que parecia Sadowa e fora o mestre-escola quem vencera
brotar espontânea, ali mesmo, daquele la- em Sedan, estavam largamente preparados a Vocabulário e Notas
meiro, e multiplicar-se como larvas no esterco. acreditar que a felicidade dos indivíduos, 1 – Robustecer: fortalecer.
(Aluísio Azevedo, O Cortiço, cap. I) como a das nações, se realiza pelo ilimitado 2 – Copiosamente: abundantemente.
desenvolvimento da Mecânica e da erudição. 3 – Bock: cerveja preta.
Vocabulário e Notas Um desses moços mesmo, o nosso inventivo 4 – Cenáculo: grupo de amigos.
1 – Revérbero: reflexo. Jorge Carlande, reduzira a teoria de Jacinto, 5 – Surtir-se: servir-se.
2 – Jirau: varal. para lhe facilitar a circulação e lhe condensar 6 – Fiacre: carruagem.

MÓDULO 24 O Realismo em Portugal – Antero de Quental


1. O CONTEXTO PORTUGUÊS combatiam. escola.
Os realistas-naturalistas portugue- As teorias que fundamentaram
As teorias positivistas do século XIX ses oscilaram entre duas posições: a ideologicamente o Realismo-Natura-
surgiram em decorrência das solici- dos republicanos, adeptos de uma lismo foram, dentre outras,
tações materiais ou ideológicas da maior intervenção social do governo – a teoria determinista de
Revolução Industrial, nos países mais para promover a democratização do Hippolyte Taine (1825-1893), se-
desenvolvidos. Não era o caso de liberalismo, e a dos socialistas utó- gundo a qual o homem (e a própria
Portugal, que possuía ainda formas picos, defensores, de acordo com o arte) resultava de três condicio-
capitalistas primárias, associa- modelo proudhoniano, da criação de nantes: a raça (fatores hereditários,
das a sobrevivências feudais. cooperativas operárias, que se con- biológicos), o meio (social, geográ-
O Realismo vai chegar ao país por trapusessem à força do grande capital. fico) e o momento (fatores históri-
importação. Foi mais uma posição inte- cos);
lectual de grupos reformistas minori- – a filosofia positivista de
tários. Contudo, sua influência será 2. CARACTERÍSTICAS DO Auguste Comte (1798-1857), que
bastante importante em setores bur- REALISMO PORTUGUÊS propugnava por uma espécie de
gueses mais progressistas. “religião da ciência”, já que
A ausência de uma base social Os modelos literários do Realis- todos os fatos do mundo físico, social
similar à da França atenuará a con- mo português foram franceses: ou espiritual possuem conexões
tundência que o Realismo teve na- Balzac e Stendhal (advindos do imediatas, mecânicas. Precursor na
quele país. As produções mais tími- Romantismo) e, especialmente, Gus- moder na tecnocracia, defendia o
das e mesmo os escritores mais ra- tave Flaubert e Émile Zola, autores primado do conhecimento empírico,
dicais mostram em suas obras traços que o viés positivista e a crítica social baseado na observação, experimen-
ideológicos do Romantismo, que tanto fizeram paradigmáticos da nova tação e comparação;
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– o socialismo “utópico” de tizar (sobretudo numa perspectiva


Pierre-Joseph Proudhon (1809- republicana) o poder político e de
1865), que, contrário à luta política, instituir amplas reformas sociais.
propunha a organização dos peque- Procuravam diagnosticar os proble-
nos produtores em associações de mas da vida social e apontar solu-
auxílio mútuo. Ateu e antiburguês; ções reformistas, de caráter às vezes
– o evolucionismo de Char- socialista, mas mantendo-se a estru-
les Robert Darwin (1809-1882), que tura do regime capitalista;
fundamentou a teoria de que os • representação da vida
seres vivos evoluíram por causa da contemporânea, procurando mos-
seleção natural das espécies, e as trar todos os seus detalhes signifi-
espécies mais simples teriam, grada- cativos. Há a preocupação de se es-
tivamente, dado origem às mais tabelecer conexões rigorosas de cau-
complexas; sa e efeito entre os fenômenos obser-
– o experimentalismo de vados, já que as leis naturais são
Claude Bernard (1813-1878), equivalentes, por exemplo, nos cam-
fisiologista, fundador da “medicina pos da Física, Química e Biologia. Teófilo Braga, em gravura de autor
experimental”, na qual propunha que desconhecido, 1864.
a verdade “científica” só poderia ser 3. A QUESTÃO COIMBRÃ
concebida como tal após sua com- A primeira desavença entre os
provação “experimental” ou labora- q Antecedentes dois grupos surgiu quando Castilho,
torial; Romântico, no começo do século prefaciando o poema D. Jaime, de
– o criticismo e o anticleri- XIX, já não era somente o literato Tomás Ribeiro, declarou que Os
calismo de Joseph-Ernest filiado à Escola, mas designava um Lusíadas já não tinham mais razão de
Renan (1823-1892), propondo a estado de alma: misto de me- ser; que nenhum poeta de seu tempo
revisão da história e do papel da lancolia, tédio, abandono da subscreveria uma única oitava de to-
Igreja Católica. vida, inquietação — tudo em dos os dez cantos. João de Deus se
Podemos sintetizar o sentido comportamento liricamente insurgiu contra o “ditador das letras”
ideológico de construção da escrita choroso. e achou que a atitude do leviano crí-
do Realismo-Naturalismo português Em oposição, o século XIX ama- tico era a de profanação. Isto foi a pri-
nos seguintes pontos: durecia em conquistas científi- meira clarinada do combate.
• crítica ao tradicionalis- cas: de um lado crescia a indus-
mo vazio da sociedade portuguesa, trialização, trazendo novos hábitos q A Questão Coimbrã ou a
produto, segundo eles, da educação de vida; de outro, firmavam-se a polêmica Bom Senso e
romântica, muito convencional e Física, Química, Biologia, Psi- Bom Gosto (1865)
distante da realidade. Há um com- cologia, promovendo novos conhe- A contrarresposta de Castilho
promisso ético do escritor em relação cimentos e exigindo alterações de apareceu em sua Carta que acom-
à realidade, a ser representada com base do homem diante da vida. panhava, como posfácio, o Poema
toda a veracidade, e o seu papel é A literatura, nutrida dessas novas da Mocidade, de Pinheiro Chagas.
semelhante ao de um profeta, com concepções, abandona o Romantis- Tal poema, ingênuo e ultrarromân-
uma missão a cumprir; mo — completamente divorciado da tico, explora assunto banal e gasto:
• crítica ao conservadoris- realidade da vida —, e surge o Rea- Artur, enamorado de Ema, é traído
mo da Igreja, uma instituição volta- lismo, preocupado em ser objetivo e por ela. Bate-se em duelo com o rival
da para o passado e que impedia o de- exato. Surgiram novas ideias sobre e se desgraça, a si e à amante... Mas
senvolvimento natural da sociedade; poesia, romance, crítica, filosofia. Castilho considerou-o excelso; lou-
• visão objetiva e natural Em Coimbra, um grupo de vou o poema, discutiu política, filo-
da realidade: o escritor deveria cons- rapazes vivia em pleno tumulto sofia, estética e educação. E, em
truir suas personagens utilizando mental. Identificados com a reno- tudo, sempre, ironicamente, fez refe-
tipos concretos existentes na vida vação que vinha da França, exaspe- rências desairosas aos moços de
social, observando suas relações ravam-se diante da indiferença do Coimbra e aos impulsos (moder-
com o meio. A personalidade desses resto do país. nizadores) da rapaziada.
tipos seria a do meio ambiente, em Em Lisboa, pontificava Cas- Antero de Quental foi quem
menor escala, pelos seus compo- tilho. Era o mentor de um grupo de respondeu à Carta de Castilho, no
nentes psicofisiológicos, isto é, pela poetas e críticos, reunidos no mundo célebre folheto Bom Senso e Bom
influência dos órgãos e glândulas do do “elogio mútuo”. Bem se poderia Gosto. O moço foi desabrido e irre-
corpo humano em sua conduta; dizer: Coimbra simbolizava a reno- verente, não respeitando as cãs de
• preocupação com a refor- vação, a ideia nova, o Realismo; Lis- seu antigo professor de primeiras
ma (e não com a revolução) da so- boa, o passado, o pieguismo, o letras: “queremos puxar-lhe as
ciedade, com o objetivo de democra- Romantismo. orelhas”, diz.
48 –
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A favor de Castilho militaram • Poesia


Pinheiro Chagas, Camilo Cas- a) Primeira Fase: O Idealis-
telo Branco, Júlio de Castilho mo – O Lirismo Amoroso – As
e Ramalho Ortigão. Aproximações com o Roman-
Cerca de quarenta opúsculos tismo
circularam durante a contenda. Em Primaveras Românticas e
Os moços de Coimbra, em em alguns momentos de Raios da
verdade, não “derrubaram” o Ro- Extinta Luz, Antero parece buscar a
mantismo, mas prepararam o campo transcendência do amor espiritual.
ideológico no qual o Realismo cres- Na linha de Petrarca e de Camões,
ceu imponente e fértil. en con tramos o dualismo psico -
Castilho simboliza o Romantismo lógico quanto ao amor: a beleza
em agonia; Antero é profeta dos espiritual x a atração carnal,
novos tempos, e o Realismo não foi o amar x o querer. Antero es-
só um “momento” literário, mas o piritualiza a mulher a ponto de
sinal da nova civilização, alicerçada projetar nela a excelência e a
nas conquistas do século XIX. pureza da figura materna, da irmã,
A Questão Coimbrã é considerada da criança.
o marco inicial do Realismo português. Antero Tarquínio de Quental na juven- IDEAL
tude. Foto de autor desconhecido, 1864.
q As Conferências do Cassi- Aquela, que eu adoro, não é feita
no Lisbonense Organizou as Conferências De lírios nem de rosas purpurinas,
Realizadas na primavera de 1871, Democráticas do Cassino Lis- Não tem as formas lânguidas, divinas
foram consequências da Questão bonense (1871), proferindo a con- Da antiga Vênus1 de cintura estreita...
Coimbrã, espécie de aplicação das ferência “A Causa da Decadência
Não é a Circe2, cuja mão suspeita
ideias defendidas, arregimentação dos Povos Peninsulares”.
Compõe filtros mortais entre ruínas,
prática dos gênios da época. Publicou, além disso, artigos em Nem a Amazona3, que se agarra às crinas
Realizaram-se quatro conferên- jornais republicanos e folhetos de Do corcel 4 e combate satisfeita...
cias. Anunciada a quinta, o Cassino propaganda socialista para as orga-
foi fechado pela polícia. nizações operárias. Fundou, com A mim mesmo pergunto e não atino
Antero de Quental fez-se José Fontana, a seção portuguesa Com o nome que dê a essa visão,
Que ora amostra, ora esconde o meu
socialista; Teófilo Braga, positivis- da Organização Internacional dos
[destino...
ta e republicano; Eça de Queirós, Trabalhadores.
Ramalho Ortigão, Guerra Jun- Candidatou-se a deputado (sim- É como uma miragem que entrevejo,
queiro e Oliveira Martins, críticos bolicamente) por duas vezes. Desi- Ideal, que nasceu da solidão...
e negativistas: todos esses constituí- ludiu-se das possibilidades revolu- Nuvem, sonho impalpável do Desejo...
am o conhecido Grupo dos Ven- cionárias das camadas populares,
Vocabulário e Notas
cidos da Vida, marcado pelo ceti- passando a integrar o Grupo dos
1 – Vênus: deusa do amor.
cismo risonho e conformista. Embora Vencidos da Vida. 2 – Circe: feiticeira lendária.
“vencedores”, em termos de reco- Oscilando sempre entre o mate- 3 – Amazona: mulher guerreira que montava a
nhecimento social, consideravam-se rialismo e o idealismo, entre a cavalo.
“vencidos” em termos de ideais. E dúvida e a fé, teve vida agitada. 4 – Corcel: cavalo.
em alegres jantares comemoravam a Acometido de uma psicose de-
crise e o desalento ideológico. pressiva, suicidou-se. b) Segunda Fase: A Poesia
Antero de Quental constitui, de Combate – O Socialismo –
4. ANTERO TARQUÍNIO DE com Camões e Bocage, o trio dos
QUENTAL (1842-1891) O Humanitarismo
maiores sonetistas da Língua Por- Nas Odes Modernas, a visão
q Vida tuguesa. cristã do mundo é substituída por
Formado em Direito por Coimbra; q Obras uma religiosidade naturalista, pan-
ainda como estudante liderou a • Prosa teísta (= identificação de Deus com
chamada Campanha do Bom Senso – Bom Senso e Bom Gosto o mundo concreto). A revolução é
e Bom Gosto (Questão Coimbrã), – A Dignidade das Letras e as vista em termos dessa religiosidade:
publicando os folhetos Bom Senso e Literaturas Oficiais ideais como liberdade, igualdade e
Bom Gosto e A Dignidade das Letras – Tendências Gerais da Filo- justiça são transformados em valo-
e as Literaturas Oficiais, ambos em sofia na Segunda Metade do res santificados. O próprio ato de
1865. Interessado no movimento Século XIX escrever transforma-se em um ato
operário, instalou-se em Paris, como – Causas da Decadência dos de fé revolucionária, uma utopia que
tipógrafo, para acompanhar o movi- Povos Peninsulares nos Sécu- o escritor procura alcançar seguin-
mento operário francês. los XVII e XVIII do o humanismo proudhoniano.
– 49
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TESE E ANTÍTESE Recebi o batismo dos poetas Vocabulário e Notas


E assentado entre as formas incompletas, 1 – Roto: estragado.
I Para sempre fiquei pálido e triste. 2 – Fragor: estrondo, barulho.
Já não sei o que vale a nova ideia,
Quando a vejo nas ruas desgrenhada, O poeta frustra-se por não con-
Torva no aspecto, à luz da barricada, A GERMANO MEIRELES
seguir uma síntese entre o co-
Como bacante1 após lúbrica2 ceia!
nhecimento subjetivo (ideia) e Só males são reais, só dor existe;
Sanguinolento o olhar se lhe incendeia... o objetivo (formas reais). Uma Prazeres só os gera a fantasia;
Aspira fumo e fogo embriagada... Em nada, um imaginar, o bem consiste,
“ideia pura” pediria uma forma
A deusa de alma vasta e sossegada Anda o mal em cada hora e instante e dia.
Ei-la presa das fúrias de Medeia3! plena, totalizadora, para assim che-
gar-se a uma síntese de absolutos.
Um século irritado e truculento Se buscamos o que é, o que devia
Chama à epilepsia pensamento, Por natureza ser não nos assiste;
Verbo ao estampido de pelouro e obus4...
c) Terceira Fase: O Pessimis- Se fiamos num bem, que a mente cria,
mo – A Poesia Dilemática e Que outro remédio há aí senão ser triste?
Mas a ideia é um mundo inalterável, Metafísica – O Transcendentalis-
Num cristalino céu, que vive estável... Oh! quem tanto pudera que passasse
Tu, pensamento, não és fogo, és luz!
mo – A Morte e a Busca de Deus
A vida em sonhos só e nada vira...
Nas partes finais dos Sonetos Mas, no que se não vê, labor1 perdido!
Vocabulário e Notas Completos, agrava-se a divisão do
1 – Bacante: integrante do cortejo de Baco.
poeta, já expressa nas fases ante- Quem fora tão ditoso2 que olvidasse3...
2 – Lúbrico: sensual.
riores, entre o Ideal (que leva ao Mas nem seu mal com ele então dormira,
3 – Medeia: figura mitológica; abandonada
Absoluto, a Deus) e o Real (que leva Que sempre o mal pior é ter nascido!
pelo marido, Jasão, vinga-se assassinando
os filhos de maneira horrenda. às ciências experimentais). Os poe-
4 – Pelouro e obus: munição e peça de mas dilemáticos dessa fase oscilam Vocabulário e Notas
artilharia, respectivamente. 1 – Labor: trabalho, esforço.
entre a sensação de aniquilamento 2 – Ditoso: feliz.
(“O Palácio da Ventura”, “A Germano 3 – Olvidar: esquecer.
O soneto, de inspiração hegelia-
Meireles” etc.) e o conformismo mís-
na, expressa o sentido contraditório do
tico (“Na Mão de Deus”).
comportamento humano: a ideia é su-
blime, mas o homem, para implantá- O PALÁCIO DA VENTURA
la, comete desmandos e a falsifica.
Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
TORMENTO DO IDEAL
Paladino do amor, busco anelante
O Palácio encantado da Ventura!
Conheci a Beleza que não morre
E fiquei triste. Como quem da serra Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Mais alta que haja, olhando aos pés a terra Quebrada a espada já, rota1 a armadura...
E o mar, vê tudo, a maior nau ou torre, E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!
Minguar, fundir-se, sob a luz que jorre;
Assim eu vi o mundo e o que ele encerra Com grandes golpes bato à porta e brado:
Perder a cor, bem como a nuvem que erra Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Ao pôr-do-sol e sobre o mar discorre. Abri-vos, portas d’ouro, ante meus ais!

Pedindo à forma, em vão, a ideia pura, Abrem-se as portas d’ouro, com fragor2...
Tropeço, em sombras, na matéria dura, Mas dentro encontro só, cheio de dor, Antônio Feliciano de Castilho,
E encontro a imperfeição de quanto existe. Silêncio e escuridão — e nada mais! aos 70 anos.

MÓDULO 25 Eça de Queirós I


1. JOSÉ MARIA EÇA DE simples espectador da Ques- q Obras
QUEIRÓS (1845-1900) tão Coimbrã, ligando-se aos rea- a) Primeira fase: de 1866 a
listas em Lisboa, no grupo Cenáculo. 1875. Há apego romântico e fanta-
q Vida Viaja, em 1869, para o Egito; partici- sioso. Escreveu folhetins na Gazeta
“Eu sou apenas um pobre pa, em 1871, das Conferências do de Portugal, depois reunidos no vo-
homem de Póvoa do Varzim.” Cassino; vai para Leiria, como admi- lume Prosas Bárbaras. Ainda a essa
Assim Eça de Queirós se apresen- nistrador do conselho. Em 1873, vai fase pertencem O Mistério da Estra-
tava. Em 1866, forma-se em Direito, como cônsul para Havana; viaja pela da de Sintra, romance originalíssimo,
pela Universidade de Coimbra. Exer- América e, finalmente, segue para a escrito em parceria com Ramalho
ce o cargo de advogado, influencia- Inglaterra e depois para a França, Ortigão. Eça estava em Lisboa. Ra-
do pelo pai, que era juiz de direito. É onde, já casado, vem a falecer. malho, em Liz. Durante dois meses,
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sem nenhum plano da obra, cada comprometedoras da ama, e explo- apoplexia1. O pároco era um homem san-
escritor remetia um folhetim ao jornal rou plenamente a situação, pondo a guíneo e nutrido, que passava entre o clero
Diário de Notícias, continuando o patroa no trabalho e maltratando-a. diocesano pelo comilão dos comilões.
Contavam-se histórias singulares da sua
enredo. Também da primeira fase é Eça declara: “A família lisboeta é pro- voracidade. O Carlos da botica — que o de-
Uma Campanha Alegre, coletânea duto do namoro, reunião desagradá- testava — costumava dizer, sempre que o via
de seus artigos publicados em As vel de egoísmos que se contradizem, sair depois da sesta, com a face afogueada de
Farpas — periódico de combate, que e, mais tarde ou mais cedo, são cen- sangue, muito enfartado:
analisava e criticava Portugal em tros de bambochata. Uma sociedade — Lá vai a jiboia esmoer2. Um dia
estoura!
todos os setores de atividade: sobre estas falsas bases não está na Com efeito estourou, depois de uma ceia
política, educação, arte, literatura, verdade: atacá-la é um dever”. de peixe — à hora em que defronte, na casa
saúde, finanças. do Dr. Godinho, que fazia anos, se polcava3
• O Mandarim com alarido. Ninguém o lamentou, e foi pouca
b) Segunda fase: de 1875 a Romance de influência orienta- gente ao seu enterro. Em geral não era
lista. As lutas de consciência tra- estimado. Era um aldeão; tinha os modos e os
1888, quando Eça se integra na
vadas em um homem que substitui o pulsos de um cavador, a voz rouca, cabelos
técnica realista (“Sobre a nudez nos ouvidos, palavras muito rudes.
forte da verdade, o manto trabalho pelo enriquecimento ines- Nunca fora querido das devotas; arrotava
diáfano da fantasia”), e apare- crupuloso. no confessionário e, tendo vivido sempre em
cem os romances: freguesias da aldeia ou da serra, não com-
• Os Maias preendia certas sensibilidades requintadas da
Romance de crítica social, último devoção: perdera por isso, logo ao princípio,
• O Crime do Padre Amaro da série pertencente à segunda fase quase todas as confessadas, que tinham pas-
Este livro é o introdutor do roman- sado para o polido Padre Gusmão, tão cheio
do autor. É a história do amor inces-
ce realista em Portugal. A obra tem a de lábia!
tuoso de Carlos da Maia com sua
preocupação de fixar instantâneos E quando as beatas, que lhe eram fiéis,
irmã, Maria Eduarda, e, ao mesmo
da vida provinciana. A sociedade lhe iam falar de escrúpulos de visões, José
tempo, uma ampla crônica da alta Miguéis escandalizava-as, rosnando:
leiriense é o cenário, com os serões sociedade lisboeta. Se, em O Crime — Ora histórias, santinha! Peça juízo a
da Sra. Joaneira. Romance ma- do Padre Amaro (1875), Eça foca- Deus! Mais miolo na bola!
licioso, farto de observações agudas As exagerações dos jejuns sobretudo
lizou a vida devota da Província, e,
e belos quadros psicológicos. O irritavam-no:
em O Primo Basílio (1878), retratou a
herói é o padre Amaro, que mantém — Coma-lhe e beba-lhe — costumava
classe média da Capital, com Os
relações íntimas com Amélia, e gritar —, coma-lhe e beba-lhe, criatura!
Maias (1888) o escritor retrata a vida Era miguelista — e os partidos liberais, as
depois a abandona. das altas esferas da política, do go- suas opiniões, os seus jornais enchiam-no
verno, da aristocracia e dos literatos, duma cólera irracionável:
• O Primo Basílio em meio a jogos e festas. — Cacete! cacete! — exclamava,
Análise da família burgue- meneando o seu enorme guarda-sol vermelho.
sa. Neste romance, Eça cria tipos (O Crime do Padre Amaro, cap. I)
definitivos. O Conselheiro Acá-
Vocabulário e Notas
cio, que é o formalismo oficial: “Era 1 – Apoplexia: derrame cerebral.
alto, magro, vestido todo de preto, 2 – Esmoer: fazer a digestão.
com o pescoço entalado num cola- 3 – Polcar: dançar a polca.
rinho direito. O rosto, aguçado no
queixo, ia-se alargando até a calva,
vasta e polida, um pouco amolgada TEXTO II
no alto. (…) Era muito pálido; nunca Que noite para Luísa! A cada momento
tirava as lunetas escuras. (…) Fora, acordava num sobressalto, abria os olhos na
outrora, diretor-geral do Ministério do penumbra do quarto, e caía-lhe logo na alma,
Reino e sempre que dizia — El-Rei! como uma punhalada, aquele cuidado pun-
erguia-se um pouco na cadeira. Os gente: Que havia de fazer? Como havia de ar-
seus gestos eram medidos, mesmo a ranjar dinheiro? Seiscentos mil-réis! As suas
joias valiam talvez duzentos mil-réis. Mas de-
tomar rapé. Nunca usava palavras
pois, que diria Jorge? Tinha as pratas… Mas
triviais, não dizia vomitar, fazia um era o mesmo!
gesto indicativo e empregava resti- A noite estava quente, e na sua inquie-
tuir.” Luísa, a heroína que se entre- Eça de Queirós, por volta de 1868. tação a roupa escorregara; apenas lhe restava
gara, durante a ausência do marido, Fotografia de Henrique Nunes.
o lençol sobre o corpo. Às vezes a fadiga
aos amores de um primo conquis- readormecia-a de um sono superficial, cortado
tador, Basílio, encarna o papel da de sonhos muito vivos. Via montões de libras
adúltera que sofre desesperadamen- TEXTO I reluzirem vagamente, maços de notas agita-
rem-se brandamente no ar. Erguia-se, saltava
te. Juliana, a criada, que “personifi- Foi no domingo de Páscoa que se soube para as agarrar, mas as libras começavam a
ca o descontentamento azedo e o em Leiria que o pároco da Sé, José Miguéis, rolar, a rolar como infinitas rodinhas sobre um
tédio da profissão”, possuía cartas tinha morrido de madrugada com uma chão liso, e as notas desapareciam, voando

– 51
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muito leves com um frêmito1 de asas irônicas. punha frialdades de metal sobre a pele nua do Vocabulário e Notas
Ou então era alguém que entrava na sala, peito. Acordava assustada; e o contraste da 1 – Frêmito: agitação.
curvava-se respeitosamente e começava a sua miséria real com aquelas riquezas do 2 – Chinó: peruca.
tirar do chapéu, a deixar-lhe cair no regaço li- sonho era como um acréscimo de amargura. 3 – Pera: barba no queixo, cavanhaque.
bras, moedas de cinco mil-réis, peças, muitas, Quem lhe poderia valer? — Sebastião! 4 – Impudente: desavergonhado, atrevido,
muitas, profusamente; não conhecia o homem; Sebastião era rico, era bom. Mas mandá-lo sensual.
tinha um chinó2 ver melho e uma pera3 chamar e dizer-lhe ela, ela Luísa, mulher de 5 – De esguelha: de lado.
impudente4. Seria o diabo? Que lhe impor- Jorge: — Empreste-me seiscentos mil-réis. —
tava? Estava rica, estava salva! Punha-se a Para quê, minha senhora? E podia lá
chamar, a gritar por Juliana, a correr atrás responder: para resgatar umas cartas que A terceira fase da obra de Eça de
dela, por um corredor que não findava e que escrevi ao meu amante. Era lá possível! Não,
estava perdida. Restava-lhe ir para um con-
Queirós, que constitui uma profunda
começava a estreitar-se, a estreitar-se, até que
era como uma fenda por onde ela se arrastava vento. reviravolta em alguns elementos im-
de esguelha5, respirando mal e apertando portantes da fase anterior, será estu-
sempre contra si o montão de libras que lhe (O Primo Basílio, cap. Vlll) dada na próxima aula.

MÓDULO 26 Eça de Queirós II


romances da Idade Média. Desse con- próprio título indica, a obra baseia-se
traste surge, por um lado, a ironia e, em uma antítese, dividindo-se em
por outro, o sentimento de amor à ter- duas partes. A primeira, que vai até a
ra, à gente e à paisagem portuguesa. metade do capítulo oitavo, narra a
Em A Ilustre Casa de Ramires vida de Jacinto em Paris. A segunda,
ocorrem duas histórias paralelas: a que encerra a obra, relata a ida de
primeira é a história central, ambien- Jacinto para o campo e seu encontro
tada no século XIX, que focaliza os com os ideais da vida rústica, o amor
valores da aristocracia decadente, e a felicidade. Neste romance, Eça
representada pelo protagonista Gon- critica a elite portuguesa afrancesa-
çalo Mendes Ramires; a segunda é a da e defende um retorno às raízes e
novela medieval, escrita por esse à cultura lusitana.
mesmo protagonista, que narra a A obra é estruturada de forma
vida de seu antepassado, Tructesin- dialética. Semelhante a um silogismo,
do. Temos assim uma história dentro apresenta uma tese, a antítese e a
da outra. Ambas são narradas em síntese. Primeiro, o protagonista Jacin-
terceira pessoa, por narradores to proclama a vida na cidade como o
oniscientes. As diferenças estão no suprassumo da civilização; depois,
compor tamento dos dois perso- passa a contestar o artificialismo da
nagens (o primeiro é covarde e vida urbana, voltando-se para as delí-
Eça de Queirós em Newcastle-on-tyne. ganancioso, e o segundo, heroico e cias do campo. Por fim, a cidade e as
Foto de H. S. Mendelssohn. honrado), no tempo (século XIX e XII) serras se conciliam, e a personagem
e na linguagem das duas narrativas usa as conquistas da civilização para
q Obras (continuação) (a primeira é realista, e a segunda, melhor aproveitar a vida rural.
c) Terceira fase: a partir de de caráter épico, parodia os roman- O romance é narrado na primeira
1897. É considerada a fase de ces históricos, à moda de Hercula- pessoa por Zé Fernandes, amigo
maturidade, em que Eça retorna aos no). íntimo de Jacinto. Trata-se de um
valores tradicionais portugueses. No final do romance, Gonçalo parte narrador-testemunha, que apresenta
Sua obra, agora, tem preocupação para a África em busca de fortuna, os fatos segundo sua ótica pessoal,
moral. A sátira corrosiva é substituída viagem que significará sua redenção ou seja, subjetivamente, de acordo
por uma ironia condescendente. Em moral e, numa alegoria ao antigo im- com o seu humor, sua simpatia ou
lugar do pessimismo, entra um oti- pério português de ultramar, a renova- antipatia.
mismo esperançoso. Abandonam-se ção das energias ancestrais do país. A ação se passa no período que
os esquemas naturalistas. Pertencem vai de 1820 a 1893. O protagonista,
a essa fase os romances: • A Cidade e as Serras Jacinto, tinha o apelido de “Príncipe
Publicado em 1901, um ano após da Grã-Ventura”, devido à sua riqueza,
• A Ilustre Casa de a morte do autor, A Cidade e as saúde e sorte. Vivendo em Paris, no
Ramires Serras é seu último romance, desen- palacete número 202 da Avenida
Publicado em 1897, e de forma volvido a partir do conto “Civilização” Campos Elíseos e convivendo com a
completa em 1900, o romance con- (1892). Desencantado com a civiliza- alta classe local, seu ideal de vida era
fronta a realidade do século XIX com ção urbana, Eça compõe um hino à expresso na “equação metafísica”:
o universo heroico e fantasioso dos natureza e à vida rural. Como o
52 –
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suma ciência (…) Certamente, meu Príncipe, uma nesta criação tão antinatural onde o solo é de
X
suma potência } = suma felicidade ilusão! E a mais amarga, porque o homem
pensa ter na cidade a base de toda a sua
grandeza e só nela tem a fonte de toda a sua
pau e feltro e alcatrão, e o carvão tapa o céu,
e a gente vive acamada nos prédios como o
paninho nas lojas, e a claridade vem pelos
miséria. (…) Na cidade findou a sua liberdade canos, e as mentiras se murmuram através de
No entanto, decorrido algum tem-
moral; cada manhã ela lhe impõe uma arames, o homem aparece como uma criatura
po, ele começa a enfadar-se de sua
necessidade, e cada necessidade o arremes- anti-humana... (…) E aqui tem o belo Jacinto o
vida repleta de luxo e riqueza, mas sa para uma dependência; pobre e subal- que é a bela cidade!
pobre de espírito. Atacado por uma terno, a sua vida é um constante solicitar, E ante estas encanecidas4 e veneráveis
melancolia crescente que afeta sua adular, vergar, rastejar, aturar; e rico e superior invectivas5, (…) o meu Príncipe vergou6 a
saúde, Jacinto parte para o campo, como um Jacinto, a sociedade logo o enreda nuca dócil, como se elas brotassem, inespe-
indo viver em sua propriedade na em tradições, preceitos, etiquetas, cerimônias, radas e frescas, duma revelação superior,
Serra de Tormes, em Portugal. Em praxes, ritos, serviços mais disciplinares que naqueles cimos de Montmartre:
contato com a natureza e o trabalho os dum cárcere ou dum quartel… (…) Os — Sim, com efeito, a cidade… É talvez
rural, ele recupera o antigo vigor e sentimentos mais genuinamente humanos uma ilusão perversa!
disposição. O amor de Joaninha logo na cidade se desumanizam! (…) Mas o (A Cidade e as Serras, cap. VI)
completa o quadro de sua felicidade. que a cidade mais deteriora no homem é a
inteligência, porque ou lha arregimenta dentro Vocabulário e Notas
1 – Balar: o mesmo que balir: berrar como
da banalidade ou lha empurra para a extra-
ovelha, soltar balidos.
vagância. Nesta densa e pairante camada de
TEXTO 2 – Esgar: trejeito, careta.
ideias e fórmulas que constitui a atmosfera
3 – Cabriola: cambalhota.
Neste trecho de A Cidade e as mental das cidades, o homem que a respira, 4 – Encanecido: de encanecer: embranquecer
nela envolto, só pensa todos os pensamentos
Serras, Jacinto e Zé Fernandes ob- os cabelos; experiente; antigo.
já pensados, só exprime todas as expressões 5 – Invectiva: ataque, crítica feroz.
servam a cidade de Paris do alto de
já exprimidas (…) Todos, intelectualmente, são 6 – Vergar: curvar, dobrar.
uma colina. Essa visão panorâmica carneiros, trilhando o mesmo trilho, balando1 o
encoraja Zé Fernandes a falar sobre mesmo balido, com o focinho pendido para a
os males da civilização urbana. Entre as demais obras de Eça de
poeira onde pisam, em fila, as pegadas
pisadas; e alguns são macacos, saltando no Queirós, estão A Relíquia, A Capital,
— Sim, é talvez tudo uma ilusão… E a topo de mastros vistosos, com esgares2 e A Tragédia da Rua das Flores, Con-
cidade a maior ilusão! cabriolas3. Assim, meu Jacinto, na cidade, tos, Cartas de Inglaterra.

MÓDULO 27 Poesia da Época do Realismo: Cesário Verde


1. VIDA q A valorização da cidade q O proletariado urbano
Entre os anos de 1877 e 1880, a Cesário Verde apresenta, entre
Filho de comerciante, Cesário grande musa de sua poesia é a ci- as imagens novas de sua poesia, um
Verde nasceu em Lisboa, em 1855. dade de Lisboa e suas transforma- quadro impressionante do operaria-
Frequentou por algum tempo o Curso ções ao se modernizar (com a che- do da cidade de Lisboa. São pes-
Superior de Letras e viajou a Paris gada da iluminação pública a gás, soas transformadas em “bestas” de
um ano antes de sua morte prematu- por exemplo). O poeta dedica à pai- carga, em consequência das con-
ra, em 1886, aos 31 anos de idade. sagem citadina um importante poe- dições desumanas de trabalho:
A poesia inovadora que produziu ma chamado “O Sentimento dum
Homens de carga! Assim as bestas vão
não foi devidamente reconhecida du- Ocidental”. Posteriormente, já tu- [curvadas!
rante sua vida, sendo publicada somen- berculoso, passa à fase da poesia
te em 1887, por seu amigo Silva Pinto, campestre, quando elogia os as- Que vida tão custosa! Que diabo!
com o título O Livro de Cesário Verde. pectos saudáveis desse tipo de (“Cristalizações”)
vida.
2. CARACTERÍSTICAS Por todas estas características,
assim como pela objetividade, preci-
É o mais singular poeta realista q A forte visualidade são e antissentimentalismo de sua
português. Sua obra não possui os A cidade, figura básica de sua linguagem, sua obra reveste-se de
aspectos místicos e filosóficos que poesia, é fixada por meio de flashes, extraordinária modernidade, tendo
caracterizam a poesia de Antero de imagens em movimento, que captam por isso influenciado alguns poetas
Quental. Ao contrário, utiliza uma lin- seu clima humano e os elementos inovadores, como os brasileiros
guagem objetiva e coloquial, com- perdidos com o desenvolvimento Augusto dos Anjos e João Cabral de
pletamente fora dos padrões do moderno. A montagem dos flashes Melo Neto e o português Fernando
lirismo tradicional, ao descrever faz-se por um processo que lembra, Pessoa, cujos heterônimos Álvaro de
cenas do cotidiano, até então hoje, o cinema, com a justaposição Campos e Alberto Caeiro prolongam
consideradas inadequadas para a de imagens fragmentadas e múlti- as duas faces de sua poesia: a cita-
poesia. São notáveis em sua obra: plas. dina e a campesina.
– 53
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EU E ELA Nós teremos então sobre os joelhos Vocabulário e Notas


Um livro que nos diga muitas cousas 1 – Lousa: túmulo.
Cobertos de folhagem, na verdura,
Dos mistérios que estão para além das 2 – Vida à paxá: vida preguiçosa e feliz.
O teu braço ao redor do meu pescoço,
[lousas1, 3 – Flos Sanctorum (latim): A Vida dos Santos,
O teu fato sem ter um só destroço,
Onde havemos de entrar antes de velhos. título de uma antologia moral composta
O meu braço apertando-te a cintura;
por Alonso de Villegas no século XVI.
Num mimoso jardim, ó pomba mansa, Outras vezes buscando distração, 4 – Laxo: débil, fraco, franzino.
Sobre um banco de mármore assentados. Leremos bons romances galhofeiros, 5 – Cavaleiro de Faublas: personagem do
Na sombra dos arbustos, que abraçados, Gozaremos assim dias inteiros, romance Os Amores do Cavaleiro de
Beijarão meigamente a tua trança. Formando unicamente um coração. Faublas (1787-90), de Louvet de Couvray.

Nós havemos de estar ambos unidos, Beatos ou pagãos, vida à paxá2,


Sem gozos sensuais, sem más ideias, Nós leremos, aceita este meu voto,
Esquecendo para sempre as nossas ceias, O Flos Sanctorum3 místico e devoto
E a loucura dos vinhos atrevidos. E o laxo4 Cavaleiro de Faublas5...

MÓDULO 28 Machado de Assis I


1. LOCALIZAÇÃO cação das instituições culturais e dos bava sempre absorvido pela respei-
HISTÓRICO-CULTURAL órgãos de imprensa (A Revista tabilidade acadêmica. Até o irreve-
Brasileira, A Gazeta Literária, A rente Emílio de Meneses acabou elei-
q Os antecedentes europeus Semana, dentre outros). to para a Academia.
e brasileiros Esse incremento na vida cultural A importância desse período
No Brasil, especialmente na projetou a maturação da nacionalida- completa-se com o relevo adquirido
ficção regionalista e urbana, os auto- de e a dinamização e consolidação da pela oratória civil (Rui Barbosa); pelos
res românticos procuraram a descri- vida nacional (modernização das cida- estudos históricos (Joaquim Nabuco,
ção da vida social e a observação do des, codificação racional das leis, mo- Capistrano de Abreu e Oliveira Lima);
ambiente, contrabalançando os exa- dernização do equipamento técnico pelo jornalismo (José do Patrocínio e
geros da imaginação e da fantasia. e do ensino superior, penetração nas Alcindo Guanabara); pelos estudos
José de Alencar, em Senhora, zonas internas, estabilização das de gramática (Júlio Ribeiro e João
desmascarou e pôs a nu certas idea- fronteiras com os países limítrofes). Ribeiro); pela crítica literária (Sílvio
lizações da moral burguesa, aprofun- O escritor passa a ser socialmen- Romero, José Veríssimo e Araripe
dando a análise psicológica e a críti- te reconhecido. Nesse sentido, a fun- Júnior) e pelo ensaísmo (Tobias
ca social; Bernardo Guimarães, dação da Academia Brasileira Barreto, Farias Brito, Euclides da
em O Seminarista, descreveu o amor de Letras (1897) veio, de certo Cunha e Clóvis Bevilácqua).
com acentuada franqueza, anteci- modo, oficializar a literatura, logran-
pando aspectos do determinismo do o reconhecimento do mundo 2. CARACTERÍSTICAS
biológico dos naturalistas; Taunay, oficial e da opinião pública e exer-
em Inocência, fotografou, com muita cendo a intermediação entre a pro- q Observação importante
fidelidade, os costumes e a paisa- dução intelectual, o poder e o pú- No Brasil, os movimentos realis-
gem do sertão de Mato Grosso; blico, papel exercido, timidamente, ta, naturalista e parnasianista
Franklin Távora, nas Cartas a no Romantismo, pelo Instituto Histó- são simultâneos, e não suces-
Cincinato, censurou duramente José rico e Geográfico. sivos. Os três ocorreram no mesmo
de Alencar pela falta de observação Se, por um lado, a Academia deu período cronológico: 1881-1893. O
adequada dos costumes e da paisa- respeitabilidade à literatura perante o Realismo inaugura-se em 1881, com
gem e pelas inverdades, que são corpo social, por outro lado, acabou a publicação de Memórias Póstumas
comuns em O Sertanejo, O Gaúcho e gerando o academicismo (no mau de Brás Cubas, de Machado de
A Guerra dos Mascates; Manuel sentido), dando à literatura um cunho Assis. O Naturalismo aparece tam-
Antônio de Almeida, em Memó- oficial e ajustando-a aos ideais da bém em 1881, com a publicação de
rias de um Sargento de Milícias, classe dominante. O Mulato, de Aluísio Azevedo. Costu-
focalizou, com surpreendente impar- Ao lado da tendência acadêmi- ma-se identificar como marco inicial
cialidade, os costumes do Rio de ca, respeitosa do decoro, que tem do Parnasianismo o aparecimento,
Janeiro, no fim da Era Colonial. em Machado de Assis um verda- em 1882, do livro de poemas Fanfar-
deiro paradigma de sobriedade, ras, de Teófilo Dias.
q O contexto brasileiro equilíbrio e dignidade, surge a figura É comum designar-se como pe-
O período realista foi o primeiro, do escritor boêmio, à margem dos ríodo realista o conjunto desses
em nossa literatura, a apresentar um padrões burgueses, livre e sem pre- três movimentos ou correntes: o
panorama completo da vida literária, conceito, cujo exemplo mais vivo é o Realismo propriamente dito, o Natu-
com todos os gêneros moder- de Emílio de Meneses. Mas o ralismo (ou Realismo Naturalista) e o
nos florescendo, com a multipli- segmento boêmio e irreverente aca- Parnasianismo.
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Esse período irá desdobrar-se q A ficção machadiana tradição entre parecer e ser, entre a
muito além de seus limites cronoló- A) Conto máscara e o desejo, entre a vida pú-
gicos estritos, projetando-se no Pré- O contista Machado de Assis, blica e os impulsos escuros da vida
Modernismo (Euclides da Cunha, para muitos, supera o romancista. interior, desembocando sempre na
Monteiro Lobato, Lima Barreto) e Coube a ele dar ao conto densidade fatal capitulação do sujeito à aparên-
fundindo-se, por vezes, com a prosa e excelência insuperáveis em nossa cia dominante.
de cunho impressionista. A atitude literatura, fundando esse gênero e Machado procura roer a substân-
realista de observação direta e de abrindo caminhos, pelos quais, cia do “eu” e do fato moral conside-
crítica social será retomada, em ple- mais tarde, iriam trilhar Mário de rados em si mesmos, mas deixa nua
no Modernismo, pela ficção regio- Andrade e Clarice Lispector, para a relação de dependência do mundo
nalista do Nordeste (Neorrea- ficarmos em apenas dois contistas interior em face da conveniência do
lismo), na década de 1930. Essa modernos. mais forte. É dessa relação que se
atitude realista, modernizada quanto Distinguem-se duas fases: a pri- ocupa, enquanto narrador.
ao código linguístico e tornada mais meira, dita romântica, com os livros É a móvel combinação de de-
aguda quanto ao propósito de Contos Fluminenses e Histórias da sejo, interesses e valor social que
análise e crítica da sociedade, é Meia-Noite; a segunda, realista, inclui fundamenta as estranhas teorias do
evidente nos autores regionalistas, os melhores contos: Papéis Avulsos, compor tamento expressas nos
ou neorrealistas, Graciliano Ramos, Histórias sem Data, Várias Histórias e contos “O Alienista”, “Teoria do
José Lins do Rego, Rachel de Relíquias de Casa Velha. Medalhão”, “O Segredo do Bonzo”,
Queiroz, Jorge Amado e José Améri- “A Sereníssima República”, “O
co de Almeida. A1) Na fase romântica, a angús- Espelho”, “A Causa Secreta”, “Conto
tia, oculta ou patente, das persona- Alexandrino”, “A Igreja do Diabo”.
3. MACHADO DE ASSIS gens é determinada pela necessida- É exatamente isso que nos diz o
(Rio de Janeiro, 1839-1908) de de obtenção de status, quer pela mais sábio dos bonzos:
aquisição de patrimônio, quer pela “Se puserdes as mais sublimes
q Vida consecução de um matrimônio com virtudes e os mais profundos conhe-
Machado de Assis é o grande parceiro mais abonado. “Segredo de cimentos em um sujeito solitário, remo-
representante do Realismo no Brasil. Augusta” e “Miss Dollar” antecipam a to de todo contato com outros ho-
De origem humilde, foi autodidata, temática de A Mão e a Luva: o dinhei- mens, é como se eles não existis-
venceu limitações pessoais (era ga- ro como móvel do casamento. O sem. Os frutos de uma laranjeira, se
go e epilético) e sociais (era mulato tema da traição (suposta ou real), ninguém os gostar, valem tanto como
e pobre). Foi aprendiz de tipógrafo antes de aparecer em Dom Casmur- as urzes e as plantas bravias, e, se
na Tipografia Nacional, sob as ro, já estava nos contos “A Mulher de ninguém os vir, não valem nada; ou,
ordens e proteção de Manuel Antô- Preto” e “Confissões de uma Viúva por outras palavras mais enérgicas,
nio de Almeida (o autor de Memórias Moça”. não há espetáculo sem espectador.”
de um Sargento de Milícias) e iniciou Nessa primeira fase, a mentira é (“O Segredo do Bonzo”)
sua carreira literária aos dezesseis punida ou desmascarada. Há nisso
anos. Ocupou cargos públicos um laivo de moralismo romântico, na B) Poesia
importantes e foi o fundador e pri- pregação de casos exemplares. Mas Em Crisálidas, Falenas e Ameri-
meiro presidente da Academia Bra- essa linha será, a seguir, superada, canas, livros que encerram a poesia
sileira de Letras. ainda na fase romântica. Em “A Para- romântica de Machado de Assis,
Considerado um agudo “analista sita Azul”, o enganador triunfa pela são evidentes as sugestões temá-
da alma humana”, Machado de Assis primeira vez. O cálculo frio, o cinis- ticas e formais da poesia de Gon-
começou escrevendo poesia e prosa mo, a máscara e o jogo de interesses çalves Dias, Casimiro de Abreu e
romântica. Em 1881 inaugura o Rea- constituem o cerne desse pragmatis- Fagundes Varela: o lirismo senti-
lismo, com o romance Memórias mo ou utilitarismo para o qual pen- mental, a poesia indianista, a natu-
Póstumas de Brás Cubas, um dos dem especialmente as personagens reza americana.
livros mais extraordinários de nossa femininas, capazes de sufocar a pai- Já Ocidentais revela maior
língua. Seus contos chegam a ser tão xão e o amor em nome da “fria elei- apuro formal e contenção de lin-
importantes quanto seus mais notá- ção do espírito”, da “segunda nature- guagem, aproximando-se das dire-
veis romances. Escreveu também za, tão imperiosa como a primeira”. A trizes do Parnasianismo. A poesia
peças teatrais, mas no teatro, assim segunda natureza do corpo é o de cunho filosófico, a reflexão sobre
como na poesia, não conseguiu ele- status, a sociedade que se incrusta o ser, o tempo e a moral constituem
var-se acima do nível mediano da na vida. os momentos mais bem realizados
produção de seu tempo. Como cro- do livro, que são os poemas: “So-
nista e como crítico literário publicou A2) Na fase realista, a partir dos neto de Natal”, “Suave Mari Magno”,
páginas notáveis, que estão entre o contos de Papéis Avulsos, Machado “A Mosca Azul”, “Círculo Vicioso”,
que se escreveu de melhor nesses começa a cunhar a fórmula mais “No Alto” e “Mundo Interior”. É
gêneros no Brasil. permanente de seus contos: a con- sempre uma poesia discreta, sem
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arrebata-mentos, reflexiva e densa, do pequeno ao grandioso, do real muitas vezes poderíamos obter,
culta, teórica, correta, mas quase ao imaginário. Por medo de tentar.]
sempre ca rente de emoções e Não quis fazer romance de
vibração. E) Crítica costumes; tentei o esboço de uma
Apesar de pequena, a produção situação e o contraste de dois carac-
C) Teatro
machadiana no gênero revela hones- teres; com esses simples elementos
Quase todas as comédias de
tidade, senso estético, fina capaci- busquei o interesse do livro, a crítica
Machado são da década de 1860,
dade analítica e independência decidirá se a obra corresponde ao
contemporâneas, portanto, das pro-
intelectual, que o colocaram acima intuito, e sobretudo se o operário tem
duções “românticas” na poesia. São
dos modismos de sua época. jeito para ela.
mais contos dialogados que propria-
Entre seus melhores trabalhos, É o que peço com o coração nas
mente peças teatrais; revelam-se
incluem-se as apreciações sobre os mãos.”
poemas de Castro Alves (em carta a Ainda que se tenha vulgarizado a
melhores quando lidas do que quan-
José de Alencar), as considerações designação de romances “românti-
do encenadas.
sobre a pouca originalidade da poe- cos”, essas primeiras experiências
Essas comédias foram represen-
sia arcádica e o estudo sobre Eça de com a ficção de maior fôlego não se
tadas com algum êxito durante a vida
Queirós, que suscitou verdadeira po- enquadram nos estreitos limites da
do seu autor, e são: A Queda que as
Mulheres Têm para os Tolos, Desen- lêmica. ficção propriamente romântica: a idea-
cantos, Quase Ministro, O Caminho lização das personagens centrais
da Porta, O Protocolo, Não Consultes F) Romance não é total, reservando lugar para
o Médico, Os Deuses de Casaca e F1) A Fase Romântica aspectos problemáticos de sua con-
Tu, só Tu, Puro Amor, inspirada no Os primeiros romances de Ma- duta, e a tensão bem versus mal, herói
chado de Assis (Ressurreição, A versus vilão, não é nítida. Caberia
episódio de Inês de Castro, de Os
Lusíadas, e encenada em come- Mão e a Luva, Helena e Iaiá Garcia) melhor a designação de romances
podem ser considerados experiên- “convencionais”. Já existem nesses
moração do tricentenário da morte
cias para o salto qualitativo que viria romances os traços que serão cons-
do poeta português.
com Memórias Póstumas de Brás tantes na fase realista: a observação
Cubas (1881), que inaugura a fase psicológica e o interesse como o mó-
D) Crônica realista de Machado. vel principal das ações humanas.
Machado de Assis militou na O caráter de “experiência” fica Mesmo as heroínas ditas “românti-
imprensa diária do Rio de Janeiro evidente na “Advertência” com que cas” de Machado de Assis agem
durante quase toda a sua vida: pas- Machado apresenta a primeira edi- movidas pelo interesse, pelo desejo
sou pelas redações, entre outras, do ção do romance Ressurreição: de ascensão social, e não pelo amor.
Correio Mercantil, do Diário do Rio de “Não sei o que deva pensar des-
Janeiro, da Gazeta de Notícias, de O te livro; ignoro sobretudo o que pen-
Século. As crônicas que escreveu sará dele o leitor. A benevolência
iam da linguagem sarcástica, dos com que foi recebido um volume
tempos de militância liberal, ao inti- de contos e novelas, que há dois
mismo das páginas de Relíquias de anos publiquei, me animou a
Casa Velha. Nomeado funcionário escrevê-lo. É um ensaio. Vai despre-
público, subordinado à Secretaria de tensiosamente às mãos da crítica e
Estado, não pôde atuar de forma do público, que o tratarão com a
mais ostensiva no Movimento Aboli- justiça que merecer.” E, concluindo a
cionista, o que serviu de base a “Advertência”:
ideias de que ele não teria tido in- “Minha ideia ao escrever este
teresse na sorte dos escravos, dos livro foi pôr aquele pensamento de
quais descendia pelo lado paterno. Shakespeare:
As crônicas, pela maior liberda- Our doubts are traitors,
de que permitem, revelam a tendên- And make us lose the good we
cia de Machado para o diver - oft might win,
tissement, a brincadeira, o texto leve By fearing to attempt.
e divertido. Vão do corriqueiro ao [Nossas dúvidas são traidoras
sublime, do cotidiano ao clássico, E fazem-nos perder o bem que Machado de Assis aos 45 anos.

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MÓDULO 29 Machado de Assis II


F2) O Romance Realista ciais e os impulsos interiores, a q O pessimismo
É a partir de Memórias Póstumas normalidade e a loucura, o acaso, o Machado revela sempre uma vi-
de Brás Cubas (1881) que Machado ciúme, a irracionalidade, a usura, a são desencantada da vida e do ho-
atinge o ponto mais alto e equilibrado crueldade. mem. Não acreditava nos valores do
da ficção brasileira. Alinhavamos, a A pobreza de descrições, a qua- seu tempo e, a rigor, não acreditava
seguir, alguns aspectos da ficção se ausência da paisagem são ainda em nenhum valor. Mais do que pes-
machadiana. desdobramentos dessa concentração simista ou negativista, sua postura é
na análise psicológica e na reflexão “niilista” (nihil = nada). O desmasca-
q A ruptura com filosófica. As tramas dos romances ramento do cinismo e da hipocrisia,
a narrativa linear machadianos poderiam, sem grandes do egoísmo e do interesse, que se
Os fatos e as ações não se- prejuízos à narrativa, ser transplanta- camuflavam sob as convenções so-
das para qualquer época e qualquer ciais, é o móvel de grande parte da
guem um fio lógico ou cronológico;
cidade. ficção machadiana:
obedecem a um ordenamento inte-
rior, são relatados à medida que Não tive filhos, não transmiti a
q As influências
afloram à consciência ou à memória nenhuma criatura o legado de nossa
Machado de Assis esteve acima
do narrador, num processo que se miséria. (Memórias Póstumas de Brás
dos modismos da época. Enquanto
aproxima do impressionismo Cubas, “Das Negativas”, cap. CLX)
Gustave Flaubert, pai do Realismo,
associativo. defendia a superioridade do “ro- q A ironia, o humor negro
mance que narra a si mesmo”,
A forma de revolta de Machado
q A organização ocultando por completo a figura do
era o riso, quase sempre um riso
metalinguística do narrador, Machado subverte essa
amargo, que exteriorizava o desen-
discurso narrativo regra, intrometendo o narrador na
canto e o desalento ante a miséria fí-
É comum, na ficção machadiana, narrativa, fazendo que o leitor o
sica e moral de suas personagens:
que o narrador interrompa a narrativa identifique sempre, por trás e acima
“…Em verdade vos digo que
para, com saborosa e bem-humora- das convenções de verossimilhança
toda sabedoria humana não vale um
da bisbilhotice, comentar com o leitor (= aparência de realidade) da
par de botas curtas.
a própria escritura do romance, fa- ficção.
Autodidata, Machado adquiriu
Tu, minha Eugênia, é que não as
zendo-o participar de sua constru- descalçaste; foste aí pela estrada da
ção; ou, ainda, para dialogar sobre sólida formação clássica: Shakes-
peare, Dante Alighieri, Cervantes e vida, manquejando da perna e do
uma personagem, refletir sobre um amor, triste como os enterros pobres,
episódio do enredo ou tecer suas Goethe eram suas leituras obriga-
tórias. Mas os modelos que seguiu solitária, calada, laboriosa, até que
digressões sobre os mais variados vieste também para esta outra men-
mais de perto foram os do século
assuntos. sagem… O que eu não sei é se a tua
XVIII: Voltaire, com sua ironia cor-
Machado assume a posição de existência era muito necessária ao
tante, além do refinado sense of
quem escreve e, ao mesmo tempo, se século. Quem sabe? Talvez um com-
humor dos autores ingleses Sterne e
vê escrevendo. Esses comentários à parsa de menos fizesse patear a tra-
Swift.
margem da narração têm interesse gédia humana.”
central, pois neles se encontram im- q Os grandes arquétipos “Antes cair das nuvens que de
portantes ideias do autor sobre sua Uma das linhas mestras da um terceiro andar.”
arte — sobre a narrativa e sua rela- ficção machadiana parte do aprovei- “Deus, para a felicidade do ho-
ção com a vida. tamento dos arquétipos (arquétipo mem, criou a religião e o amor. Mas o
= modelo de seres criados; padrão, demônio, invejoso do sucesso de
q O universalismo exemplar; imagens psíquicas do Deus, fez com que o homem confun-
Machado captou, na sociedade inconsciente coletivo e que são o disse a religião com a Igreja, e o
carioca do século XIX, os grandes patrimônio comum a toda a humani- amor com o casamento.”
temas de sua obra. O seu interesse dade), remontando à tradição clás-
jamais recaiu sobre o típico, o pito- sica e aos textos bíblicos. q O psicologismo
resco, a cor local, o exótico, tão ao Assim, o conflito dos irmãos Pe- Ação e enredo perdem a impor-
gosto dos românticos. Buscou, na dro e Paulo, em Esaú e Jacó, remon- tância para a caracterização das
sociedade do seu tempo, o univer- ta ao arquétipo bíblico da rivalidade personagens.
sal, a essência humana, os grandes entre Caim e Abel; a psicose do Os acontecimentos exteriores
temas filosóficos: a essência e a ciúme de Bentinho, em Dom Casmur- são considerados somente à medida
aparência, o caráter relativo da ro, aproxima-se do drama de Otelo e que revelam o interior, os motivos
moral humana, as convenções so- Desdêmona, de Shakespeare. profundos da ação, que Machado de-
vassa e apresenta detalhadamente.
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Daí a narrativa lenta, pois o menor deta- Lobo Neves, homem ambicioso. qua e dissimulada”, brilha entre todas
lhe e o menor gesto são significativos Virgília, que se torna amante de Brás as personagens de Machado, não só
na composição do quadro psicológico; Cubas, é uma das grandes persona- as femininas.
nada é desprovido de interesse. Essa gens femininas de Machado. Nessa
fixação pelo pormenor é o que se obra já aparece o filósofo-mendigo q Quincas Borba (1891)
denomina microrrealismo. Quincas Borba, que será a persona- Quincas Borba é continuação de
gem principal do romance seguinte Memórias Póstumas de Brás Cubas,
q O estilo machadiano pois, como vimos, o filósofo-mendi-
de Machado. Fundamentalmente pes-
Machado prima pelo equilíbrio, simista, Brás Cubas é também um go, personagem que dá nome a este
pela disciplina clássica, correção homem cínico, até cruel, figura ele- romance, e a sua filosofia, o Humani-
gramatical, concisão e economia vo- gante e típica da ociosa elite carioca tismo, já tinham aparecido nas
cabular. Ao contrário da nossa do século passado. Memórias, nas quais, na verdade, há
congê- nita tendência ao uso um período de tempo em que Quin-
imoderado do adjetivo e do advérbio, cas Borba desaparece, só voltando
tão ao gosto de Castro Alves, de para morrer na casa de Brás Cubas.
Alencar, de Rui Barbosa etc., O romance Quincas Borba narra em
Machado é parcimonioso, sóbrio, terceira pessoa as aventuras de
quase “britânico”. Não é, contudo, Quincas nesse intervalo, nas quais in-
uma linguagem simétrica e terveio, novamente, o acaso: Quincas
mecânica, porém medida pelo seu recebeu uma herança e foi viver num
ritmo interior, donde o segredo da local tranquilo, Barbacena, mais ade-
unidade da obra. São frequentes as quado à sua filosofia. Lá se pas-
experiências narrativas
saram os fatos principais da história.
antecipadoras da modernidade, pelo
Apaixonado e recusado por Maria
aspecto irônico e antinarrativo.
Piedade, Quincas adoeceu e foi
Em Memórias Póstumas de Brás Capitu, em pintura de J. da Rocha Ferreira.
tratado por Rubião, seu amigo. Este,
Cubas, em vez de narrar a morte de
a quem Quincas tentara explicar o
D. Eulália Damasceno de Brito, Brás q Dom Casmurro (1899) Humanitismo, se interessava na ver-
Cubas “fotografa” seu epitáfio, trans- Dom Casmurro é considerado um dade pela fortuna do outro. E Rubião,
pondo o ícone, a inscrição tumular: romance sobre o adultério. Nem o de fato, tornou-se herdeiro universal
adultério é fato certo na história, nem do filósofo sob a condição de cuidar
Capítulo CXXV
o tema do romance se limita a ele. É de seu cão (que se chama também
Epitáfio
antes a abordagem da vaidade mas- Quincas Borba). Despreparado para
AQUI JAZ culina, e do vazio das instituições que a riqueza, ele é explorado pelo casal
domina, e do mistério da mulher. Sofia e Cristiano Palha. Apaixona-se
D. EULÁLIA DAMASCENO DE BRITO
Assim, todo o conjunto de certezas por ela, que é incentivada pelo mari-
MORTA da realidade (e do Realismo) torna-se do a ser receptiva a seus favores.
frágil, ilusório e enganador. Todos os Aos poucos, vai perdendo tudo, sem
AOS DEZENOVE ANOS DE IDADE
acontecimentos narrados na obra conquistar o amor de Sofia, e enlou-
ORAI POR ELA!
ganham esta aura de dúvida por cau- quece, como Quincas. Nesse roman-
sa do ciúme que o próprio narrador- ce, é desenvolvida a teoria do Huma-
q Memórias Póstumas personagem — Bentinho, um ser me- nitismo e sua máxima, “ao vencedor,
de Brás Cubas (1881) díocre — tem de Capitu, amiguinha as batatas”. Trata-se de satirização de
Nesse romance, em primeira de infância, depois namorada, noiva correntes filosóficas da época, como
pessoa, o narrador-personagem e, enfim, esposa. Não há nenhuma pro- o Positivismo e o Evolucionismo.
Brás Cubas relata sua vida a partir va conclusiva do adultério de Capitu;
de uma estranha situação: já está ao contrário, a relação intertextual do q Esaú e Jacó (1904)
morto, sendo, por isso, como ele romance com Otelo, de Shakespeare, O título alude à famosa passa-
mesmo diz, um “defunto autor”. Com parece advertir que tanto a realidade gem do Antigo Testamento, em que
um texto cheio de digressões e de quanto as percepções humanas são
dois irmãos disputam o privilégio da
humor, narra o grande projeto de sua abaladas pelas paixões. Assim,
bênção do pai. Machado, utilizando
todas as “provas” e, em particular, a
vida, criar o “emplasto anti-hipocon- a ideia da rivalidade entre irmãos, cons-
semelhança de Ezequiel, o filho do
dríaco Brás Cubas”, esperança frus- trói as personagens Pedro e Paulo,
casal, com Escobar, o suposto amante,
trada de renome e riqueza. Brás Cubas cujo desentendimento e inimizade
são relativas, duvidosas. Machado
conta sua infância, fala da família, de não têm explicação racional. Brigavam
atinge o objetivo de mostrar que a
Marcela — a primeira amante — e de desde o útero materno. Flora é a mu-
realidade é algo móvel e enganador.
Virgília, que foi sua namorada e que lher que se apaixona pelos dois, e
Capitu, de “olhos de ressaca”, “oblí-
acaba se casando com o deputado
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que ambos amavam. Nem a morte e Carmo e o drama de sua vida, a im- lancólica da velhice, da solidão e do
dela nem a de sua própria mãe os possibilidade de ter filhos. Conso- mundo. D. Carmo, esposa do velho
reconcilia. Seu ódio destruía as pes- lam-se no amor paternal que dedi- Aguiar, seria a projeção da própria
soas em redor. Nessa obra já apa- cavam a um afilhado, Tristão. Deses- esposa de Machado, já falecida. A
rece o Conselheiro Aires, persona- peram-se quando este vai para a ironia e o sarcasmo dos livros anterio-
gem central do romance seguinte, o Europa e reencontram alegria com res são substituídos por um tom com-
último de Machado de Assis. Fidélia, até que de novo a fatalidade passivo e melancólico, as persona-
q Memorial de Aires (1908) intervém: Tristão casa-se com Fidélia gens são simples e bondosas, muito
Nesse romance em forma de diário, e a leva consigo para a Europa. distantes dos paranoicos e psicóti-
o narrador, Aires, diplomata, relata Memorial de Aires é apontado cos dos romances anteriores. Alguns
episódios de sua vida após se apo- como o romance mais projetivo da veem no Memorial de Aires uma obra
sentar, o retorno ao Brasil, a vidinha personalidade e da vida de Machado de retrocesso a concepções romanti-
em Petrópolis. Por meio de Fidélia, de Assis. zadas do mundo; outros tomam o ro-
Aires e sua irmã, Rita, entram em con- Escrito após a morte de sua es- mance como o testamento literário e
tato com o casal de velhinhos Aguiar posa, Carolina, revela uma visão me- humano de Machado de Assis.

MÓDULO 30 Machado de Assis III


grupo e cada época encontrem as desde cedo chamou a atenção dos
suas obsessões e as suas necessi- críticos, como um dos temas prin-
dades de expressão. Por isso, as cipais de sua obra.
sucessivas gerações de leitores e
críticos brasileiros foram encon-
q “O Alienista”
trando níveis diferentes em Machado
de Assis, estimando-o por motivos di- Quanto ao problema da loucura,
versos e vendo nele um grande podemos citar o conto “O Alienista”.
escritor devido a qualidades por (…) Um médico funda um hospício
vezes contraditórias. O mais curioso para os loucos da cidade e vai
é que provavelmente todas essas diagnosticando todas as manifes-
interpretações são justas, porque ao tações de anormalidade mental que
apanhar um ângulo não podem observa. Aos poucos o hospício se
deixar de ao menos pressentir os enche; dali a tempos já tem a metade
outros. (...) da população; depois quase toda
Muitos dos seus contos e alguns ela, até que o alienista sente que a
dos seus romances parecem aber- verdade, em consequência, está no
tos, sem conclusão necessária, ou contrário da sua teoria. Manda então
Machado de Assis permitindo uma dupla leitura, como soltar os internados e recolher a
ocorre entre os nossos contempo- pequena minoria de pessoas equili-
ANÁLISE CRÍTICA
râneos. (...) bradas, porque, sendo exceção, esta
Talvez possamos dizer que um é que é realmente anormal. A minoria
Nessa aula você lerá trechos de
dos problemas fundamentais da sua é submetida a um tratamento de
um texto de Antonio Candido, que
versa sobre alguns dos temas pre- obra é o da identidade. Quem sou “segunda alma”, para usar os termos
sentes e característicos da obra de eu? O que sou eu? Em que medida do conto precedente: cada um é
Machado de Assis. No texto, origi- eu só existo por meio dos outros? Eu tentado por uma fraqueza, acaba
nalmente uma palestra proferida em sou mais autêntico quando penso ou cedendo e se equipara deste modo à
1968, o crítico ressalta a importância quando existo? Haverá mais de um maioria, sendo libertado, até que o
e modernidade das “situações ficcio- ser em mim? Eis algumas perguntas hospício se esvazia de novo. O alie-
nais” criadas por Machado de Assis, que parecem formar o substrato de nista percebe então que os germes
citando, respectivamente, alguns de muitos dos seus contos e romances. de desequilíbrio prosperaram tão
seus contos e romances. Sob a forma branda, é o problema facilmente porque já estavam laten-
Nas obras dos grandes escrito- da divisão do ser ou do desdo- tes em todos; portanto, o mérito não é
res é mais visível a polivalência do bramento da personalidade, estu- da sua terapia. Não haveria um só
verbo literário. Elas são grandes por- dado por Augusto Meyer. Sob a homem normal, imune às solicitações
que são extremamente ricas de forma extrema é o problema dos das manias, das vaidades, da falta
significado, permitindo que cada limites da razão e da loucura, que de ponderação? Analisando-se bem,
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vê que é o seu caso; e resolve inter- foi um dos temas centrais do tramos em diversos contos e sobre-
nar-se, só no casarão vazio do hospí- existencialismo literário contempo- tudo num dos mais belos e pun-
cio, onde morre meses depois. E nós râneo, em Sartre e Camus, por gentes que escreveu: “Um Homem
perguntamos: quem era louco? Ou exemplo. Serei eu alguma coisa Célebre”.
seriam todos loucos, caso em que nin- mais do que o ato que me exprime? Trata-se de um compositor de
guém o é? Notemos que este conto e Será a vida mais do que uma polcas, Pestana, o mais famoso do
o anterior manifestam, no fim do século cadeia de opções? Num dos seus momento, reconhecido e louvado por
XIX, o que faria a voga de Pirandello melhores romances, Esaú e Jacó, onde vá, procurado pelos editores,
a partir do decênio de 1920. ele retoma, já no fim da carreira, abastado materialmente. No entanto,
este problema que pontilha a sua Pestana odeia as suas polcas que
q Dom Casmurro obra inteira. Retoma-o sob a for ma toda a gente canta e executa, porque
Outro problema que surge com sim bó lica da rivalidade perma - o seu desejo é compor uma peça
frequência na obra de Machado de nente de dois irmãos gêmeos, erudita de alta qualidade, uma sona-
Assis é o da relação entre o fato real Pedro e Paulo, que representam ta, uma missa, como as que admira
e o fato imaginado, que será um dos invaria velmente a alter na tiva de em Beethoven ou Mozart. À noite,
eixos do grande romance de Marcel qualquer ato. Um só faz o contrário postado no piano, leva horas solici-
Proust, e que ambos analisam princi- do outro, e evidentemente as duas tando a inspiração que resiste. De-
palmente com relação ao ciúme. A possibili da des são legítimas. O pois de muitos dias, começa a sentir
mesma reversibilidade entre a razão grande problema suscitado é o da algo que prenuncia a visita da deusa
e a loucura, que torna impossível de- validade do ato e de sua relação e a sua emoção aumenta, sente
marcar as fronteiras e, portanto, de- com o intuito que o sustém. Através quase as notas desejadas brotando
fini-las de modo satisfatório, existe da crônica aparen temente cor - nos dedos, atira-se ao teclado e...
entre o que aconteceu e o que riqueira de uma família da bur- compõe mais uma polca! Polcas e
pensamos que aconteceu. (…) Uma guesia carioca no fim do Império e sempre polcas, cada vez mais bri-
estudiosa norte-americana, Helen começo da Re pú blica, surge a lhantes e populares é o que faz até
Caldwell, no livro The Brazilian cada instante este debate, que se morrer. A alternativa é negada tam-
Othello of Machado de Assis, levan- comple ta pelo terceiro per sona - bém a ele; só lhe resta fazer como é
tou a hipótese viável, porque bem gem-chave, a moça Flora, que possível, não como lhe agradaria.
machadiana, de que na verdade ambos os irmãos amam, está claro,
Capitu não traiu o marido. Como o mas que, situada entre eles, não q Conclusão
livro é narrado por este, na primeira sabe como escolher. É a ela, como Isto é dito para justificar um con-
pessoa, é preciso convir que só a outras mulheres na obra de selho final: não procuremos na sua
conhecemos a sua visão das coisas, Machado de Assis, que cabe obra uma coleção de apólogos nem
e que para a furiosa “cristalização” encarnar a decisão ética, o com- uma galeria de tipos singulares. Pro-
negativa de um ciumento, é possível promisso do ser no ato que não curemos sobretudo as situações fic-
até encontrar semelhanças inexisten- volta atrás, porque uma vez pra- cionais que ele inventou. Tanto aque-
tes, ou que são produtos do acaso ticado define e obriga o ser de las onde os destinos e os aconteci-
(como a de Capitu com a mãe de quem o praticou. Os irmãos agem e mentos se organizam segundo uma
Sancha, mulher de Escobar). Mas o optam sem parar, porque são as espécie de encantamento gratuito;
fato é que, dentro do universo ma- alter nativas opostas; mas ela, que quanto as outras, ricas de significado
chadiano, não importa muito que a deve identificar-se com uma ou em sua aparente simplici- dade,
convicção de Bento seja falsa ou com outra, se sentiria reduzida à manifestando, com uma enganadora
verdadeira, porque a consequência metade se o fizesse, e só a posse neutralidade de tom, os conflitos
é exatamente a mesma nos dois das duas metades a realizaria; isto essenciais do homem consigo mes-
casos: imaginária ou real, ela destrói é impossível, porque seria suprimir mo, com os outros homens, com as
a sua casa e a sua vida. E concluí- a própria lei do ato, que é a opção. classes e os grupos. A visão resul-
mos que neste romance, como nou- Simbolicamente, Flora morre sem tante é poderosa, como esta palestra
tras situações da sua obra, o real escolher. não seria capaz sequer de sugerir. O
pode ser o que parece real. melhor que posso fazer é aconselhar
q “Um Homem Célebre” a cada um que esqueça o que eu
q Esaú e Jacó Parece evidente que o tema da disse, compendiando os críticos, e
Neste caso, que sentido tem o opção se completa por uma das abra diretamente os livros de Macha-
ato? Eis outro problema funda - obsessões fundamentais de Macha- do de Assis.
mental em Machado de Assis, que do de Assis, muito bem analisada
o aproxima das preocupações de por Lúcia Miguel-Pereira — o tema (Antonio Candido. “Esquema de
escritores como o Conrad de Lord da perfeição, a aspiração ao ato Machado de Assis”. Vários Escritos. São
Jim ou de The Secret Sharer, e que completo, à obra total, que encon- Paulo, Livraria Duas Cidades, 1970.)
60 –
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MÓDULO 31 Aluísio Azevedo


Realismo), com a publicação de O 3. CARACTERÍSTICAS
Mulato, de Aluísio Azevedo. DAS OBRAS

q Obra heterogênea
2. ALUÍSIO AZEVEDO
(1857-1913) Alterna romances naturalistas, de
vigor crítico e estofo cientificista, com
q Vida melodramas românticos, publicados
em folhetins pela imprensa e que
Filho de vice-cônsul português
foram, durante algum tempo, o ga-
em São Luís, transfere-se para o Rio
nha-pão do autor.
de Janeiro após ter atacado a con-
servadora sociedade maranhense
com a publicação de O Mulato. No
Rio, juntou-se ao irmão, o famoso co-
mediógrafo Artur Azevedo. Foi jorna-
lista e escreveu romances, contos,
operetas e revistas teatrais. Era
também bom desenhista, hábil na
Aluísio Azevedo arte da caricatura. Esse seu talento,
aliás, tem relação com a força plás-
1. NATURALISMO NO BRASIL tica de suas descrições. Tentou so-
breviver de sua profissão de escritor Courbet, Os Britadores de Pedras – Óleo
Caracterizando-se como um Rea- e, para isso, teve de aceitar encomen- sobre tela – 1849 – coleção particular,
lismo mais extremado, o Naturalismo das de editores, que lhe pediam ro- Milão, Itália.
tem como elemento fundamental o mances românticos ao gosto do pú-
determinismo cientificista, que diver- blico, em completo contraste com seus q Romance social
ge do determinismo sociopolítico, tí- ideais literários. Aos 38 anos aban- Nos livros mais bem realizados,
pico do Realismo. No final do século donou a carreira literária, ingres- Aluísio Azevedo revela extraordinário
XIX, junto ao avanço da ciência sur- sando na diplomacia. poder de dar vida aos agrupamentos
ge uma nova visão de mundo, diver- humanos, às habitações coletivas,
q Os folhetins romanescos onde os protagonistas vão, social e
sa da idealização romântica: Ver-
dade, Razão e Ciência são agora os Decorrem da atividade de Aluísio moralmente, se degradando, por for-
ideais. Observação e análise são Azevedo como escritor profissional; ça da opressão social e econômica e
seus métodos. Produzir uma arte do- têm escasso valor literário e represen- dos impulsos irreprimíveis da sexuali-
tam meras concessões ao gosto do dade, das taras e dos vícios.
cumental é seu objetivo. O autor na-
turalista constrói enredo, trama e per- leitor da época. Escritos sem muito
cuidado, para publicação na impren- q Visão rigorosamente
sonagens com a intenção de com-
sa diária, o próprio autor reconhecia a determinista
provar certas teorias, nas quais
fragilidade desses trabalhos. Para o autor, o Homem e a socie-
acredita, sobretudo aquelas das
Essas obras são: Uma Lágrima dade estavam submetidos às leis
ciências biológicas: Evolucionismo, inexoráveis da raça (instinto, heredi-
de Mulher, Condessa Vésper, Girân-
Genética, Patologia. A nova visão tariedade), do meio (geográfico, so-
dola de Amores, Filomena Borges e
teórica repercute na prática política cial) e do momento (circunstâncias
A Mortalha de Alzira.
de vários autores, por meio da qual históricas).
se manifestam as preocupações so- q Os romances
cialistas, atividades abolicionistas e realistas-naturalistas q Influências de Eça
a tendência anticlerical. Constituem o segmento apreciá- de Queirós e Émile Zola
Os principais autores naturalistas vel da obra de Aluísio Azevedo, Utilizou a técnica do tipo, defor-
brasileiros foram Aluísio Azevedo, ainda que seja um conjunto bastante mando, pelo exagero, os traços,
Júlio Ribeiro, Adolfo Caminha, Do- heterogêneo, sem resíduos românti- criando verdadeiras caricaturas. Não
mingos Olímpio e Inglês de Sousa. cos, com documentação realista, conseguiu criar personagens que
Todos seguiram o mestre francês Émile experimentação naturalista etc. O pudessem transcender as condições
Zola, o mais importante escritor des- Mulato, Casa de Pensão, O Coruja, O sociais que as geraram. As persona-
se movimento. O Naturalismo, no Brasil, Homem, O Cortiço e O Livro de uma gens são psicologicamente superfi-
tem início em 1881 (assim como o Sogra são as obras dessa vertente. ciais e subsistem apenas em função
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de contextos predeterminados. Não vida e morte de um cortiço, meio pelo que aspira à nobreza. Do outro, a
há drama moral; os protagonistas qual seu dono, o português João “gentalha”, caracterizada como um
são vistos “de fora”, e a tragédia em Romão, pretende enriquecer. Ao la- conjunto de animais, movidos pelo
que as tramas desembocam decorre do, há um sobrado, que simboliza um instinto e pela fome:
apenas do fatalismo das doutrinas nível social mais elevado e cujo E naquela terra encharcada e fu-
deterministas. proprietário é também um português, megante, naquela umidade quente e
Não há o refinamento estilístico de o comendador Miranda. Os portu- lodosa, começou a minhocar, a fervi-
Machado de Assis, nem a potência gueses conseguem ascensão econô- lhar, a crescer um mundo, uma coisa
verbal de Raul Pompeia, mas os diá- mica e social rápidas, que obtêm por viva, uma geração que parecia brotar
logos se salvam pela vivacidade, pela meio da exploração do brasileiro, re- espontânea, ali mesmo, daquele
frase sempre incisiva. Há visível ten- presentado coletivamente pelo povo lameiro e multiplicar-se como larvas
dência lusitanizante, o que se explica do cortiço. É nesse espaço social no esterco.
pela origem luso-maranhense do autor. que as leis ambientais interferem no (...)
indivíduo e determinam seu compor- As corridas até a venda reprodu-
q O Mulato (1881) tamento. O cortiço e a negra Berto- ziam-se num verminar de formigueiro
Obra de crítica ao preconceito leza, amásia de João Romão, só lhe assanhado.
racial e à Igreja. O mulato Raimundo, interessam enquanto lhe são úteis. A redução das criaturas ao nível
educado na Europa, retorna a São Quando João Romão se casa com animal (zoomorfismo) é caracterís-
Luís para conhecer suas origens. Zulmira, a filha do comendador, e tica do Naturalismo e revela a in-
Apaixona-se por sua prima Ana atinge a posição social desejada, fluência das teorias da Biologia do
Rosa, mas a família lhes impede o nem Bertoleza, que o ajudara a subir século XIX (darwinismo, lamarquis-
casamento. Pretendem fugir, mas na vida, nem o cortiço, com o qual mo) e do determinismo (raça,
Raimundo é perseguido e morto a enriquecera, são mais necessários: o meio, momento):
mando do padre Diogo, que represen- cortiço sofre um incêndio e passa por ...depois de correr meia légua,
ta a degradação do clero. Ana Rosa remodelação, e Bertoleza, rejeitada e puxando uma carga superior às suas
acaba se casando com o assassino, denunciada à polícia (era uma escra- forças, caiu morto na rua, ao lado da
com quem viverá de modo feliz. va foragida), suicida-se.
carroça, estrompado como uma besta.
(...)
q Casa de Pensão (1884) Leandra... a ‘Machona’, portugue-
4. CARACTERÍSTICAS
Narrativa intermediária entre o sa feroz, berradoura, pulsos cabelu-
DE O CORTIÇO
romance de personagem (O Mulato) dos e grossos, anca de animal do
e o romance de espaço ou de cole- campo.
tividade (O Cortiço). Inspirado em um q Romance social (...)
caso verídico, a Questão Capistrano, Desistindo de montar um enredo Rita Baiana... uma cadela no cio.
crime que sensibilizou o Rio de em função de pessoas, [Aluísio] ate-
Janeiro entre 1876 e 1877, expressa ve-se à sequência de descrições q A força do sexo
uma visão determinista. Amâncio muito precisas onde cenas coletivas
O sexo é, em O Cortiço, força
Vasconcelos, personagem central, e tipos psicologicamente primários
mais degradante que a ambição e a
tem suas ações e comportamento fazem, no conjunto, do cortiço a per-
cobiça. A supervalorização do sexo,
determinados pela formação (a sonagem mais convincente do nosso típica do determinismo biológico e do
educação severa, a superproteção romance naturalista. (Alfredo Bosi, Naturalismo, conduz Aluísio a buscar
materna, a sífilis contraída da ama- História Concisa da Literatura Bra- quase todas as formas de patologia
de-leite). Ele, um jovem e rico mara- sileira) sexual: desde o “acanalhamento”
nhense, chega ao Rio de Janeiro Todas as existências se entrela- das relações matrimoniais até o adul-
para estudar Medicina. Boêmio e çam e repercutem umas nas outras. tério, prostituição, lesbianismo etc.
extravagante, hospeda-se na pensão O cortiço é o núcleo gerador de tudo
de João Coqueiro, que trama casá-lo
e, feito à imagem de seu proprietário,
com sua irmã, Amélia, para apossar- q A situação da mulher
se da fortuna de Amâncio. Com a cresce, desenvolve-se e se trans-
As mulheres são reduzidas a três
recusa do rapaz, Coqueiro o denun- forma com João Romão. condições: a primeira, de objeto,
cia falsamente por violência sexual usadas e aviltadas pelo homem:
contra a irmã, é derrotado na justiça q A crítica ao Bertoleza e Piedade; a segunda,
e, inconformado, mata Amâncio. capitalismo selvagem de objeto e sujeito, simultaneamente:
O tema é a ambição e a explora- Rita Baiana; a terceira, de sujeito
q O Cortiço (1890) ção do homem pelo próprio homem. — são as que independem do ho-
Ambientado no Rio de Janeiro, De um lado, João Romão, que mem, prostituindo-se: Leonie e
este romance narra o nascimento, aspira à riqueza, e Miranda, já rico, Pombinha.
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MÓDULO 32 Raul Pompeia


1. RAUL POMPEIA como microcosmo da sociedade. – elementos impressionis-
(1863-1895) “Vais encontrar o mundo” é a pri- tas: evidenciam-se no trabalho da
meira sentença do livro. memória como fio condutor. O pas-
Narrado em primeira pessoa por sado é recriado por meio de “man-
Sérgio, um homem que revê seu pas- chas” de recordação — daí a exis-
sado e conta passagens de sua vida tência de um certo esfumaçamento
de menino, o romance estrutura-se da realidade, pois o internato é
por meio de “manchas de recorda- reconstituído por meio das impres-
ção”, ou seja, de uma sucessão de sões, mais subjetivas que objetivas.
episódios, cujo fio condutor é a me- A técnica impressionista que
mória do personagem-narrador. A Pompeia utiliza consiste em destacar
evocação do passado faz que a se- antecipadamente do objeto que
quência cronológica de fatos (o tem- descreve um ou mais traços e seu
po objetivo) seja entrecortada por efeito no observador. Há quem, por
associações e semelhanças sub- isso, rotule O Ateneu de romance
conscientes (o tempo subjetivo, a impressionista:
duração interior). Esse procedimento Transformara-se em anfiteatro
evidencia certa ruptura do romance uma das grandes salas da frente do
com os modos realista e naturalista edifício, exatamente a que servia de
de mera observação objetiva da vida. capela; paredes estucadas de sun-
Raul Pompeia tuosos relevos, e o teto aprofundado
B) Há uma superposição de
diversos estilos, o que torna proble- em largo medalhão, de magistral
q Vida
mática a vinculação de O Ateneu a pintura, onde uma aberta de céu azul
Nascido em Angra dos Reis (RJ), despenhava aos cachos deliciosos
em 1863, Raul Pompeia estudou uma determinada corrente estética.
Assim, podemos identificar anjinhos, ostentando atrevimentos
Direito e ocupou cargos públicos. róseos de carne, agitando os minús-
Militou no movimento abolicionista e – elementos expressionis-
culos pés e, as mãozinhas, desatan-
no republicano e colaborou na Gaze- tas: a linguagem do livro aproxima-se
do fitas de gaza no ar.
ta de Notícias, de José do Patrocínio. da técnica expressionista, que consis-
– elementos naturalistas:
Envolveu-se em diversas polêmicas te na deformação grotesca e mórbida
decorrem da concepção instintiva e
e num duelo com Olavo Bilac. Suici- do que se descreve. Apresenta enor-
animalesca das personagens, cujo
dou-se na noite de Natal de 1895, me poder para a caricatura (distor-
comportamento é determinado pela
aos 32 anos. ção ou ênfase dos elementos domi-
sexualidade, condição social etc. Há
nantes de um objeto ou de uma pes-
q Obra um certo gosto “naturalista” pelas
soa) e grandes recursos de imagens
A) Prosa “perversões”. É o que ocorre nas
visuais e sonoras. A frase transmite
– Uma Tragédia no Amazonas descrições de Ângela e na tensão do
uma forte carga emocional. O estilo é
(romance) homossexualismo que existe nas
nervoso, ágil. A redução das perso- relações de Sérgio com Sanches,
– Microscópicos (contos) nagens a caricaturas parece prove-
– As Joias da Coroa (romance) Bento Alves e Egbert:
niente da intenção de deformar, de Ângela tinha cerca de vinte anos;
– O Ateneu (romance) exagerar, como se Raul Pompeia
– Agonia (romance inacabado e parecia mais velha pelo desenvolvi-
estivesse se “vingando” de tudo e de mento das proporções. Grande, car-
inédito) todos:
B) Poesia nuda, sanguínea e fogosa, era um
Os companheiros de classe desses exemplares excessivos do
– Canções sem Metro (poemas eram cerca de vinte; uma variedade
em prosa) sexo que parecem conformados ex-
de tipos que divertia. O Gualtério, pressamente para esposas da mul-
miúdo, redondo de costas, cabelos tidão — protestos revolucionários
q O Ateneu: Crônica de revoltos, motilidade brusca e caretas contra o monopólio do tálamo.
Saudades de símio palhaço dos outros, como Mas é um naturalismo dissiden-
A) O romance O Ateneu, Crônica dizia o professor. O Nascimento, o bi- te, que nada tem a ver com o aprio-
de Saudades (1888) focaliza a vida canca, alongado por um modelo ge- rismo ou com o esquematismo
em um internato, apresentando pe- ral de pelicano, nariz esbelto, curvo e característicos dessa corrente. O
netrante análise social e psicológica largo como uma foice; (...) o Negrão, doutor Cláudio, conferencista que
das personagens: Aristarco, o diretor de ventas acesas, lábios inquietos, algumas vezes pontifica no internato,
(que personifica o poder), professo- fisionomia agreste de cabra, canhoto e que exterioriza algumas ideias
res, funcionários e alunos, e a escola e anguloso... artísticas do próprio Raul Pompeia,
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define a arte como o processo sub- de decifrar o sistema de ideias que extremo gozo em que pode ficar a vida porque
jetivo da “evolução secular do ins- se poderia depreender. fora uma conclusão triunfal. Notas graves,
uma, uma; pausas de silêncio e treva em que
tinto da espécie”. 1.a) Fala sobre a cultura brasi- o instrumento sucumbe e logo um dia claro de
Seria possível rastrear, em O leira, em que os desejos republica- renascença, que ilumina o mundo como o
Ateneu, aproximações também com nos de Pompeia se mostram, momento fantástico do relâmpago, que a
o Parnasianismo, com o Simbolismo investigando o “pântano das escuridão novamente abate...
Há reminiscências sonoras que ficam per-
e, até, antecipações modernistas. almas” da vida emocional, sob a pétuas, como um eco do passado. Recorda-me,
C) O comportamento sexual é o “tirania mole de um tirano de às vezes, o piano, ressurge-me aquela data.
traço mais valorizado na personali- sebo”. Do fundo repouso caído de convalescente,
dade dos adolescentes do internato, 2.a) Fala sobre a arte, entendida serenidade extenuada em que nos deixa a
febre, infantilizados no enfraquecimento como
divididos em “machos” e “fêmeas”, pré-freudianamente como “educa- a recomeçar a vida, inermes contra a
em dominadores e dominados. Ob- ção do instinto sexual”, e ante- sensação por um requinte mórbido da
serve o que diz o narrador em rela- cipando também Nietzsche como sensibilidade — eu aspirava a música como a
ção ao seu colega Bento Alves: “expressão dionisíaca”: embriaguez dulcíssima de um perfume
funesto; a música envolvia-me num contágio
Estimei-o femininamente, porque Cruel, obscena, egoísta, imoral, in- de vibração, como se houvesse nervos no ar.
era grande, forte, bravo; porque me dômita, eternamente selvagem, a arte As notas distantes cresciam-me n’alma em
podia valer, porque me respeitava, é a superioridade humana acima dos ressonância enorme de cisterna; eu sofria,
quase tímido, como se não tivesse âni- preceitos que se combatem, acima como das palpitações fortes do coração quan-
do o sentimento exacerba-se — a
mo de ser amigo. Para me fitar espera- da ciência que se corrige: “embria-
sensualidade dissolvente dos sons.
va que eu tirasse dele os meus olhos. guez como a orgia e como o êxtase”. Lasso, sobre os lençóis, em conforto ideal
D) Raul Pompeia projeta no inter- 3.a) Fala sobre as relações entre de túmulo, que a vontade morrera, eu deixava
nato toda a problemática do mundo a escola e a sociedade: martirizar-me o encanto. A imaginação de
asas crescidas fugia solta.
adulto. O Ateneu é uma redução, em (...) Não é o internato que faz a sociedade; (...)
escala, da visão que o autor tinha da o internato a reflete. A corrupção que ali viceja
sociedade como um todo. O móvel vai de fora. (...) (Raul Pompeia, O Ateneu, cap. XII)
(...)
das ações de Aristarco era o dinhei- A educação não faz as almas; exercita-as.
ro, e os alunos eram tratados pelo Vocabulário e Notas
(Raul Pompeia, O Ateneu, cap. XI)
diretor conforme o segmento social a
1 – Gottschalk: Louis Moreau Gottschalk
que pertenciam seus pais. Música estranha, na hora cálida. Devia ser (1829-1869), pianista e compositor nascido
Raul Pompeia não deixa ao arbí- Gottschalk1. Aquele esforço agonizante dos em Nova Orleans (EUA) e falecido no Rio de
trio dos futuros intérpretes o trabalho sons, lentos, pungidos, angústia deliciosa de Janeiro.

MÓDULO 33 Parnasianismo
1. ORIGENS romana (Monte Parnaso = região da 2. ANTECEDENTES
Fócida, na Grécia, que a mitologia BRASILEIROS
O Parnasianismo remete-nos contemplava como a morada dos
ao mesmo contexto histórico-cultural Em 1878, desfere-se pelas pági-
deuses e poetas, ali isolados do
do Realismo e do Naturalismo e nas do Diário do Rio de Janeiro a
mundo para dedicarem-se exclusiva- “Batalha do Parnaso”, polêmica,
compartilha, com esses dois movi-
mente à arte). Isso sugere a apro- em versos agressivos (e de má quali-
mentos, de alguns ideais e de algu-
ximação às fontes e aos ideais dade), entre os defensores da
mas atitudes: a negação do sub-
clássicos da arte (o Belo, o Bem, “IDEIA NOVA” e os epígonos do
jetivismo, a postura antirro-
a Verdade, a Perfeição, o Equilíbrio, a Romantismo.
mântica e a luta contra “o uso
Disciplina e o rigor formal, a obe- Influenciados pela Questão Coim-
profissional e imoderado das
diência às regras e aos modelos, a brã e pelas obras dos poetas rea-
lágrimas”. listas portugueses Teófilo Braga
arte como imitação da natureza — a
O movimento parnasiano surgiu (Visão dos Tempos) e Antero de
mimese aristotélica, a Razão, o
na França em 1866, com a edição da Quental (Odes Modernas), os arau-
antologia Le Parnasse Contem- antropocentrismo). São frequentes as
tos da “IDEIA NOVA” combatiam
porain. Abrigando poetas de tendên- alegorias fundadas na mitologia e na
os “Abreus e Varelas”, opondo-se ao
cias diversas, como Théophile história da Grécia e de Roma: “O sentimentalismo piegas e à frouxidão
Gautier, Leconte de Lisle, Charles Sonho de Marco Antônio”, “A Sesta dos versos dos últimos românticos, e
Baudelaire, Heredia, Banville, havia de Nero”, “O Triunfo de Afrodite”, “O propunham algumas atitudes:
em comum a oposição ao sentimen- Incêndio de Roma”, “A Tentação de • a poesia participante,
talismo romântico. Xenócrates”, “O Julgamento de Fri- que pregasse a justiça, a república
neia”, “Delenda Cartago”, todos de fraternal, o progresso científico e
A denominação Parnasianismo
Olavo Bilac, “O Vaso Grego” e “A Vol- material, atacando, algumas vezes
remete-nos à antiguidade greco-
ta da Galera”, de Alberto de Oliveira. de forma desabrida, as instituições; é
64 –
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o caso de Lúcio de Mendonça, Vocabulário especialmente o soneto (quase


Martins Júnior e Sílvio Romero. 1 – Beneditino: abnegado como um monge abandonado pelos românticos), além
beneditino.
• a poesia “realista”, com da sextina, da balada e do rondó.
abandono dos eufemismos relativos q A impassibilidade – O emprego de enjambements
ao amor por uma descrição mais dire- A contenção lírica como meio de quebrar a monotonia
ta do corpo e dos desejos, e ainda a Para desidentificar-se da anti- rítmica (enjambement — palavra fran-
poesia realista urbana e agreste; se- quíssima síntese entre eu e mundo, cesa que se pronuncia ãjãbemã — cor-
guem nessa direção: Carvalho Júnior, introduzindo um hiato entre essas responde ao prolongamento sintático
Bernardino Lopes e Teófilo Dias. duas instâncias do real, o narrador e semântico de um verso no verso
Cabe observar que os sonhos de parnasiano (o eu lírico) procura trans- seguinte, com supressão da pausa
justiça e a república fraternal já ha- formar a poesia em puro trabalho, característica do final do verso):
viam encontrado em Castro Alves, artefato, construção.
Daí a aproximação com os ideais E, de súbito, paramos na estrada
no último romantismo, uma expressão Da vida, longos anos, presa à minha
muito mais talentosa, convincente e das artes plásticas — o poeta- A tua mão, a vista deslumbrada
eloquente. ourives, o poeta-escultor, o Tive, da luz que seu olhar continha.
Costuma-se considerar as Fanfar- poeta-arquiteto, o poeta-pintor; (Olavo Bilac, “Nel Mezzo del Camin”)
ras, de Teófilo Dias, como o primeiro o poeta que modela pacientemente
livro parnasiano, em seu sentido sua obra, sem confundir-se com ela. q A poesia descritiva,
próprio. O Parnasianismo tal como Invejo o ourives quando escrevo:
plástica e visual
hoje o concebemos só se definiria com Imito o amor Os parnasianos pretendem apre-
Alberto de Oliveira, Raimundo Com que ele, em ouro, o alto relevo ender descritivamente o real, por meio
Faz de uma flor. de impressões sensoriais nítidas, apo-
Correia e Olavo Bilac, que cons-
(...) iando-se em imagens visuais, que
tituíram a Trindade Parnasiana e Torce, aprimora, alteia1, lima
realizaram suas obras sob os prin- A frase; e, enfim,
se convertem em verdadeiros
cípios da “arte pela arte”, da im- No verso de ouro engasta 2 a rima, cromos, tal a intensidade das
passibilidade e da perfeição Como um rubim. cores e do brilho.
formal, ainda que tivessem, todos Concentram-se na descrição de
Quero que a estrofe cristalina,
eles, estreado com versos românticos. Dobrada ao jeito fenômenos da natureza (o anoi-
Do ourives, saia da oficina tecer, a primavera, as árvores); na
3. CARACTERÍSTICAS Sem um defeito. fixação de cenas históricas e
(...)
mitológicas (“O Incêndio de
q A arte pela arte – (Olavo Bilac, “Profissão de Fé”) Roma”, “O Triunfo de Afrodite”); na
O esteticismo contemplação de objetos de
Vocabulário e Notas
Sintetizada na forma latina ars arte, exóticos e requintados (“O
1 – Altear: elevar.
Vaso Grego”, “O Leque”, “A Estátua”),
gratia artis (arte pela arte), a poesia 2 – Engastar: encravar, embutir.
privilegiando, também, a beleza
parnasiana propõe que a beleza
q Perfeição formal física da mulher.
formal justifica a existência do
poema, e que a arte não deve ter ou- Centrados no puro fazer poético,
tros compromissos senão com o os parnasianos instauram o mate- q O mito da
rialismo da forma. A palavra é tra- objetualidade e o Kitsch
belo, com a perfeição formal.
balhada como matéria-prima, que deve O gosto pelo exótico, pelo
Negando a poesia realista, filosó-
ser lapidada, burilada, cinzelada. diferente, o prazer da raridade visa
fico-científica e socialista de seus
A poesia deve ser fruto do esfor- especialmente a satisfazer “o bom
precursores, os parnasianos impõem
ço intelectual, da elaboração. Por isso, gosto” burguês, sua ânsia pelo raro,
uma atitude de distanciamento
os parnasianos, exímios conhecedo- pelo prestigioso, pela negação da
da vida, de afastamento do
res da língua, são “poetas de di- vulgaridade (sem esquecer que um
cotidiano, de alienação dos
cionário”, obcecados pela cor- - dos aspectos mais repelentes da
problemas do mundo, de des-
reção gramatical, pela pureza vulgaridade é o esforço medido e
prezo pela plebe e pelas aspi-
da linguagem, pela vernaculi- planejado para fugir dela).
rações populares e de recusa
dade, pela seleção vocabular. Buscando o raro e o requintado, o
de temas vulgares.
Outro aspecto desse formalismo parnasiano cai, muitas vezes, na
Assim, os parnasianos se fecham
é a valorização de alguns procedi- superficialidade, na obsessão do
em suas “torres-de-marfim”, en-
mentos, tais como adorno, esquecido da essência.
tregues ao puro fazer poético:
• o culto das rimas ricas, É nesse sentido que se alinham
Longe do estéril turbilhão da rua, raras e preciosas; al gumas objeções à atitude parna-
Beneditino1 escreve! No aconchego • a preferência pelos versos siana:
Do claustro, na paciência e no sossego, alexandrinos (12 sílabas métricas) • privilegiando a organização
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua! léxica e gramatical do discurso poé-
e a metrificação rigorosa;
(Bilac, “A um Poeta”) • o gosto pelas formas fixas, tico, os parnasianos se esquecem de
– 65
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que a grande poesia consiste “na xou, além da obra poética que vere- penha em um maior comedimento,
linguagem carregada de signi- mos, crônicas, novelas, poesias in- quer do ímpeto romântico, quer do
ficação no mais alto grau fantis, conferências literárias e um convencionalismo parnasiano, valo-
possível” (Ezra Pound). Por isso os tratado de versificação. rizando o aspecto reflexivo e filo-
modernistas, entendendo que, na Estreou em 1888 com Poesias, sófico e as ce nas da natureza,
grande poesia, cada palavra livro saudado com entusiasmo por vazado em linguagem simples e
deve vibrar como um novo Alberto de Oliveira e Raimundo Cor- acessível, já distante do artificialis-
significado, atacaram duramente o reia, que formariam, com Bilac, a mo dos livros anteriores.
parnasianismo, no que ele tinha de “Trindade Parnasiana”. Em Tarde, Bilac procura, nos
ornamental e estereotipado; As Poesias, além de uma introdu- poemas descritivos, captar a tonali-
• diz-se que um artista pratica o ção em verso, chamada “Profissão de dade do momento fugaz, valorizan-
Kitsch quando ele mistura formas e Fé” — espécie de manifesto parnasia- do a sugestão e a notação impres-
truques para impressionar o aprecia- no —, continham três partes distintas: sionista:
dor, sugerindo, por meio de efeitos • Panóplias: poemas descritivos,
obedecendo rigorosamente aos câno- CANTILENA
previamente estudados, conotações
prestigiosas, ostentando falsa rique- nes parnasianos, aproveitando suges- Quando as estrelas surgem na tarde, surge
tões da antiguidade greco-romana, [a esperança...
za ou cultura. Toda alma triste no seu desgosto sonha um
O Kitsch está na base da cha- com referências que tendem à super-
[Messias:
mada indústria cultural, por meio da ficialidade e ao puramente ornamental. Quem sabe? o acaso, na sorte esquiva,
reprodução em série de obras de arte • Via-Láctea: trinta e cinco so- [traz a mudança
e objetos “raros” para deleite da clas- netos, tematizando o lirismo amoroso E enche de mundos as existências que
platônico, com o aproveitamento de [eram vazias!
se média neurotizada pelo status —
sugestões românticas e clássicas. Quando as estrelas brilham mais vivas,
(móveis Luís XV; porcelana inglesa
Obra de inegável êxito junto ao leitor, [brilha a esperança...
do século XVIII; escultura oriental da
resvala o Kitsch, reeditando, em Os olhos fulgem; loucas, ensaiam as asas
Dinastia Ming; quadros de grandes frias:
tom menor, a lírica de Camões e
mestres e pequenos pintores, Rem- Tantos amores há pela terra, que a mão
Bocage. O título Via-Láctea alude a [alcança!
brandt e Di Cavalcanti, lado a lado;
uma constante na poesia de Bilac: E há tantos astros, com outras vidas, para
peças do artesanato marajoara, as estrelas (“Ora (direis) ouvir [outros dias!
nordestino etc., tudo adquirido no estrelas! Certo / Perdeste o senso!”).
supermercado da esquina). • Sarças de Fogo: poemas eróti- Mas, de asas fracas, baixando os olhos, o
O Parnasianismo tem muito disso: [sonho cansa;
cos, centrados na beleza física da No céu e na alma, cerram-se as brumas,
provocar efeitos, valorizando o que é mulher e no amor carnal, reduzido a [gelam as luzes:
logro e ostentação, sob a máscara da um jogo bem-arranjado de palavras, Quando as estrelas tremem de frio, treme a
beleza e do prestígio. Nenhum dos nos- buscando mais o efeito que a genuí- [esperança...
sos parnasianos foi helenista, mas qua- na sensualidade. É um erotismo de- Tempo, o delírio da mocidade não
se todos recorreram a evoluções este- clamatório, que descamba, muitas ve- [reproduzes!
reotipadas da Antiga Grécia (galerias, zes, para algo próximo à pornografia. Dorme o passado: quantas saudades e
mármores, vasos, pártenons), trans- É o caso de “Tentação de Xenócra- [quantas cruzes!
formadas em verdadeiros fetiches. Quando as estrelas morrem na aurora,
tes”, “Satânia”, “O Julgamento de [morre a esperança...
4. AUTORES Frineia”, “Alvorada do Amor” e outras.
Em 1902, as Poesias foram acres- (Olavo Bilac)

q Olavo Bilac (1865-1918) cidas de três outros livros: Alma In- q Alberto de Oliveira
Olavo Brás Martins dos Guimarães quieta e Viagens, marcados por um (1859-1937)
Bilac, já no próprio nome um alexan- veemente temperamento romântico, Foi o mais ortodoxo dos nossos
drino perfeito, cursou Medicina e controlado pela disciplina formal parnasianos e o que seguiu com
Direito, sem concluir nenhum dos cur- aprendida com os parnasianos fran- maior rigor as propostas da escola:
sos. Viveu como jornalista, funcioná- ceses (Gautier, Leconte de Lisle e objetivismo, impassibilidade,
rio público, boêmio e poeta de largo Heredia), além do poema épico-
preocupação esteticista, rigor
prestígio no seu tempo. Foi eleito em patriótico “O Caçador de Esmeral-
formal e tecnicismo. Coerente
1913, pela revista Fon-Fon, o Prín- das”, escrito em sextilhas e alexan-
com as propostas parnasianas, afas-
cipe dos Poetas Brasileiros. drinos, evocando a figura de Fernão
tou-se do sentimentalismo e da pie-
Ativista nas campanhas abolicio- Dias Pais, apoiado na tradição
guice, realizando uma poesia des-
nista, republicana, civilista, pelo ser- ufanista e motivado pelo civismo,
critiva, plástica, visual, apoiada nos
viço militar obrigatório, pela vacina que Bilac praticou na frequente
exaltação da pátria, de seus símbo- modelos clássicos renascentistas e
obrigatória, pela reurbanização do
los e heróis. arcádicos.
Rio de Janeiro, pela entrada do Brasil
na Primeira Grande Guerra; autor da • Em 1919, aparece o livro pós- Obras
letra do Hino à Bandeira, Bilac dei- tumo Tarde, em que o poeta se em-
– Canções Românticas
– Meridionais
66 –
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– Sonetos e Poemas mulher, recorrendo a formas e moti- q Vicente de Carvalho


– Versos e Rimas vos que se aproximam de Casimiro (1886-1924)
– Por Amor de uma Lágrima de Abreu e dos românticos menores. Assumiu uma postura indepen-
– O Livro de Ema Sinfonias marca a adesão do dente em relação às tendências for-
– Alma em Flor poeta ao Parnasianismo, reunindo malistas do Parnasianismo, manten-
VASO GREGO seus melhores e mais conhecidos do o veio romântico e sentimental que
poemas: “As Pombas”, “Mal Secreto”. marcou sua estreia, nos livros Arden-
Esta de áureos relevos, trabalhada
tias e Relicário. Absorveu também a
De divas mãos, brilhante copa, um dia,
Já de aos deuses servir como cansada, MAL SECRETO fluidez, a musicalidade, a melancolia
Vinda do Olimpo, a um novo deus servia. e a emotividade do Simbolismo.
Se a cólera que espuma, a dor que mora Em Poemas e Canções e Rosa,
Era o poeta de Teos que a suspendia N’alma e destrói cada ilusão que nasce, Rosa de Amor, firma-se como um
Então, e, ora repleta ora esvazada, Tudo o que punge, tudo o que devora
grande lírico da natureza, fundindo o
A taça amiga aos dedos seus tinia, O coração, no rosto se estampasse;
Toda de roxas pétalas colmada.
sensorial e o emotivo, em uma lingua-
Se se pudesse o espírito que chora gem nova e pessoal, marcada pela
Depois... Mais o lavor da taça admira, Ver através da máscara da face, plasticidade, pela musicalidade e
Toca-a, e do ouvido aproximando-a, às bordas Quanta gente, talvez, que inveja agora pelas ressonâncias psicológicas.
Finas hás de lhe ouvir, canora e doce, Nos causa, então piedade nos causasse!
q Francisca Júlia
Ignota voz, qual se da antiga lira Quanta gente que ri, talvez, consigo
Fosse a encantada música das cordas, Guarda um atroz, recôndito inimigo, (1874-1920)
Qual se essa voz de Anacreonte fosse. Como invisível chaga cancerosa! Mármores, sua obra mais expres-
siva, submete-se rigorosamente aos
q Raimundo Correia
Quanta gente que ri talvez existe, preceitos parnasianos: esteticismo,
Cuja ventura única consiste contenção lírica, perfeccionismo. A
(1859-1911) Em parecer aos outros venturosa!
poetisa paulistana, muito considera-
Em Primeiros Sonhos, livro de es-
da em sua época pelos mestres
treia (1879), que reúne a poesia de Outras obras parnasianos, configurou, ao lado de
adolescência, revela a aproximação – Versos e Versões Alberto de Oliveira, a vertente mais
com o Romantismo, na idealização da – Aleluias ortodoxa da escola.

MÓDULO 34 Simbolismo: Características, Autores e Obras

1. CONCEITO E ÂMBITO A oposição ao racionalismo, às q Decadentismo e


pretensões cientificistas e ao progres- Simbolismo
q A reação antimaterialista, sismo da sociedade industrial tem O termo decadentismo foi aplica-
antipositivista e como precursores alguns filósofos — do às primeiras manifestações da lite-
antirrealista como Schopenhauer e Kierkegaard ratura simbolista, que ocorreram em
A ciência e a técnica permitiram — e alguns escritores e poetas “es- Paris, em torno dos anos 1880-90. A
ao homem do fim do século XIX um tranhos”, como o americano Edgar designação perdeu a conotação pejo-
extraordinário conforto material (tele- Allan Poe. Charles Baudelaire, gran- rativa inicial, que lhe foi atribuída
fone, motor a explosão, microfone, fo- de poeta que se afasta dos padrões pelos opositores da nova literatura, e
nógrafo, raios X, cinematógrafo, telé- passou a designar um conjunto de
do Parnasianismo de seu tempo, é
grafo, lâmpada incandescente), pro- elementos típicos como: gosto por
um dos pais da nova poética, de que
vocando enorme euforia. O espírito signos do refinamento e da ele-
serão expoentes Stéphane Mallarmé,
científico, o materialismo, o positivis- gância intelectual de certas épocas
mo, o determinismo transformaram- Paul Verlaine e Arthur Rimbaud. O tidas como “decadentes” (o helenis-
se numa verdadeira religião. desenvolvimento da ciência, em fins mo de Alexandria, o fim do Império
Contudo, alguns intelectuais, dis- do século XIX e início do século XX, Romano); a predileção por experiên-
tanciados dessa euforia, começaram orientou-se para caminhos seme- cias raras, sutis, artificiosas, “proi-
a expressar a necessidade de supe- lhantes aos trilhados por aqueles bidas”; a recuperação de um ideal
rar a visão racionalista e mecanicista grandes pensadores e poetas. Assim, esgotado de beleza; a evocação de
do universo, colocando questões a física relativista de Einstein colocou um Oriente misterioso e sensual; o
que transcendem a possibilidade de em questão alguns postulados bási- desprezo pelas ideias humanitárias e
comprovação objetiva, na busca de cos da ciência tradicional, enquanto socialísticas; a recusa do positivismo
um modo suprarracional de conheci- Freud inaugurou o estudo do incons- burguês; a exaltação do irracional e
mento, que pudesse penetrar as ca- ciente e abalou crenças fundamen- o interesse no esotérico, no oculto, na
madas profundas do “eu” e traduzir tais a respeito da lógica do compor- ascese mística ou, no outro extremo,
os “mistérios” da vida. tamento humano. no inferno do submundo da prostituição

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e da marginalidade. Um exemplo sais para o plano do consciente a fim que se expressam por meio de si-
desse clima decadentista na literatura de comunicá-las a outrem. Era neces- nestesia, um tipo de metáfora que
de língua portuguesa se encontra na sário inventar uma linguagem nova, consiste na transferência (ou “cruza-
narrativa A Confissão de Lúcio, de fundada numa gramática e numa mento”) de percepção de um senti-
Mário de Sá-Carneiro. Também Fer- sintaxe psicológica, utilizando arcaís- do para outro, ou seja, a fusão, num só
nando Pessoa, contemporâneo e ami- mos, termos exóticos e litúrgicos, re- ato de percepção, de dois sentidos ou
go de Sá-Carneiro, inicia a obra de correndo a neologismos, a inespera- mais. É o que ocorre em “ruído
seu heterônimo Álvaro de Campos das combinações vocabulares e a áspero” (audição e tato); “música do-
com um grande poema de explícito recursos gráficos (maiúsculas alegori- ce” (audição e gustação); “som colo-
teor decadentista, “Opiário”, confis- zantes, uso de cores na impressão rido” (audição e visão).
são de um viciado em ópio que viaja dos poemas).
por um Oriente fantástico (“um Orien- Para tentar traduzir as mensa- d) A música antes de tudo –
te ao oriente do Oriente”). Coinciden- gens cifradas do “eu profundo”, das as aliterações e assonâncias.
temente, aquele que é talvez o maior partes nebulosas do ser, os simbo- Para os simbolistas, a música
poeta simbolista da literatura de listas apelaram para a evocação, ocupa o primeiro lugar entre todas as
língua portuguesa, Camilo Pessanha, para a sugestão, empregando uma artes porque, liberta de toda referên-
foi viciado em ópio e viveu no Oriente linguagem indireta que apenas
cia específica aos diversos objetos da
(China). sugerisse os conteúdos emotivos e
vontade, poderia exprimi-la em sua
O nome simbolismo, que veio a sentimentais, sem narrá-los ou des-
essência.
substituir decadentismo, foi proposto crevê-los. A metáfora e o símbolo
É o que propõe Verlaine.
por Jean Moréas, em manifesto pu- ganharão, a partir daí, nova estrutura
blicado em 1886 em defesa da nova e fisionomia, buscando as múltiplas
ARTE POÉTICA
escola. relações entre a essência do “eu
profundo”, a palavra e o objeto. Antes de tudo, a Música. Preza
Portanto o Ímpar. Só cabe usar
q As propostas do Simbolismo c) A teoria das correspon- O que é mais vago e solúvel no ar,
• Características dências – a sinestesia. Sem nada em si que pousa ou que pesa.
a) O Simbolismo pode ser consi- Propunha Baudelaire: “tudo, for-
ma, movimento, número, cor, perfume, Pesar palavras será preciso,
derado um prolongamento ou uma Mas com algum desdém pela pinça:
radicalização do Romantismo: retoma no [mundo] espiritual, como no Nada melhor do que a canção cinza
o subjetivismo, o individua- natural, é significativo, recíproco, Onde o Indeciso se une ao Preciso.
lismo, o espiritualismo, o sen- conversível, correspondente”.
Uns belos olhos atrás do véu,
tido conflituoso “eu x mundo”, e CORRESPONDÊNCIAS O lusco-fusco no meio-dia,
leva às últimas consequências a A turba azul de estrelas que estria1
concepção de mundo inaugurada com A natureza é um templo onde vivos pilares O outono agônico2 pelo céu!
Podem deixar ouvir confusas vozes: e estas
as doutrinas romântico-liberais.
Fazem o homem passar através de florestas Pois a Nuance é que leva a palma,
Mas, contrariamente aos românti- De símbolos que o veem com olhos familiares. Nada de Cor, somente a nuance!
cos, os simbolistas entendiam que a Nuance, só, que nos afiance3
poesia não é somente emoção, Como os ecos além confundem seus rumores O sonho ao sonho e a flauta na alma!
mas a tomada de consciência Na mais profunda e mais tenebrosa unidade,
Tão vasta como a noite e como a claridade, Foge do Chiste4, a Farpa mesquinha,
dessa emoção; que a atitude Harmonizam-se os sons, os perfumes e as Frase de espírito, Riso alvar5,
poética não é unicamente afe- [cores. Que o olho do Azul faz lacrimejar,
tiva, mas ao mesmo tempo afe- Alho plebeu de baixa cozinha!
tiva e cognitiva. Por outras pala- Há perfumes frescos como carnes de criança,
Doces como os oboés, verdes como as A eloquência? Torce-lhe o pescoço!
vras: a poesia carrega em si uma E convém empregar de uma vez
[campinas,
certa maneira de conhecer. E outros, corrompidos, mas ricos e triunfantes, A rima com certa sensatez
b) O mergulho no “eu pro- Ou vamos todos parar no fosso!
fundo”, no inconsciente, a in- Que possuem a efusão das coisas infinitas
Como o sândalo1, o almíscar2, o benjoim3 e Quem nos dirá dos males da rima!
tuição, a sugestão. Que surdo absurdo ou que negro louco
[o incenso,
Buscando as esferas inconscien- Forjou em joia este toco oco
Que cantam o êxtase do espírito e dos
tes, o “eu profundo”, os simbolistas [sentidos. Que soa falso e vil sob a lima?
iniciam a exploração do mundo inte- (Charles Baudelaire,
rior, rompendo os níveis do razoável, Música ainda, e eternamente!
trad. de Jamil A. Haddad)
Que teu verso seja o voo alto
do lógico e atingindo os estratos Vocabulário e Notas Que se desprende da alma no salto
mentais anteriores à fala e à lógica. 1 – Sândalo, 2 – Almíscar, Para outros céus e para outra mente.
Mais do que tocar os desvãos do 3 – Benjoim: substâncias aromáticas.
inconsciente, pretendiam senti-los, Que teu verso seja a aventura
Esparsa ao árdego6 ar da manhã
examiná-los. A teoria das correspondên-
Que enchem de aroma o timo7 e a hortelã...
O problema mais difícil era o de cias propõe um processo cósmico E todo o resto é literatura.
como transportar as vivências abis- de aproximação entre as realidades (Verlaine, trad. de Augusto de Campos)

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Vocabulário e Notas ras”, “cabalístico”, “quimérico”, “tan- vidade romântica e parnasiana, sua
1 – Estriar: riscar. tálico”, “hialino”, “ebúrneo”, “cinamo- poesia espanta pela intensidade e
2 – Agônico: aflito.
3 – Afiançar: garantir. mos”, “quintessências” etc. pelas inovações. Apoiado nas corres-
4 – Chiste: gracejo. Esta musicalidade do Simbolismo pondências sinestésicas (sons /
5 – Alvar: grosseiro. apoia-se na valorização do su- cores / imagens / sentimento), propõe
6 – Árdego: impetuoso. gestivo e na diminuição do sig-
7 – Timo: tomilho.
uma instrumentação verbal, uma
nificado lógico das palavras: à poesia nem descritiva nem narrativa,
Visando à sugestão, à nuance,
medida que não entendemos o signifi- mas sugestiva; “nomear um objeto é
ao indeciso dos estados da al-
cado de uma frase, tendemos a prestar suprimir três quartos do prazer do
ma, ao vago do coração, ao ne-
mais atenção a seu aspecto sonoro. poema, que é feito da felicidade de
buloso, ao quimérico, ao místi-
co, ao inexprimível, ao trans- adivinhar pouco a pouco; sugeri-lo,
cendente, os simbolistas querem e) A alquimia do verbo – o eis o sonho, (...) pois deve haver
tocar o ouvido, sem feri-lo, por meio de ilogismo – o hermetismo. sempre enigma em poesia, e é o
procedimentos sonoros, tais como O verso simbolista é obscuro, objetivo da literatura — e não há outro
d1) a rima aproximativa, nem hermético, distanciando-se do vulgar — evocar os objetos”.
rica nem agressiva. e do profano. Construído por sucessi- f) Espiritualismo, misticismo,
d2) as aliterações: (sequência vas implicações de sentidos de sons, de subjetivismo intenso, ocultis-
de fonemas consonantais idênticos ritmos, vale pelas sugestões, e não mo.
ou de mesma área de articulação, por suas descrições ou explicações. A Ânsia de superação, de fuga do
dentro do mesmo verso). função do poema não é significar ou terreno, comunhão com os Astros,
dizer, mas existir por si mesmo, como o Espírito, o Alto, a Alma, o
E as cantilenas de serenos sons amenos Infinito, a Essência, o Desco-
fogem fluidas fluindo à fina flor dos fenos. objeto ideal, perfeito, oposto à
(Eugênio de Castro) nhecido. Fixação pela Idade Mé-
impureza do mundo.
dia e por vocabulário litúrgico de am-
Vozes veladas veludosas vozes biência eclesiástica (antífona,
Volúpias dos violões, vozes veladas. e1) Rimbaud, antecipando ca- missal, ladainha, hinos, breviá-
(Cruz e Sousa) minhos que os modernistas retomaram, rio, turíbulos, aras, incenso).
propunha a palavra poética acessível
d3) as assonâncias (sequên- a todas as significações; a fixação do g) As maiúsculas alegori-
cia dos mesmos fonemas vocálicos inexprimível; a alquimia do verbo, zantes.
nas sílabas tônicas de palavras su- buscando a Beleza por meio da Os simbolistas empregavam, sis-
cessivas ou próximas).
vertigem, do delírio, da aluci- tematicamente, substantivos comuns
Ó formas Alvas, brAncas, formas clAras nação sensorial, daí a alucinação escritos com inicial maiúscula, no inte-
(Cruz e Sousa) e o mistério da palavra. rior do verso, para realçá-los semanti-
camente, aumentando a sua expressi-
d4) as onomatopeias (com- “...ser vidente por meio de um vidade:
binação ou repetição de palavras, cu- longo, imenso e racional desregra-
jos sons, numa espécie de harmonia Indefiníveis músicas supremas,
mento de todos os sentidos; buscar a Harmonia da Cor e do Perfume...
imitativa, transmitem ideias si, esgotar em si todos os venenos, a Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,
aproximadas ou exatas do objeto ou fim de só reter a quintessência.” Réquiem do sol que a Dor da luz resume
ação a que se refere o texto).
(Cruz e Sousa)
A catedral ebúrnea do meu sonho
e2) Cabe ressaltar que os simbolis-
Aparece na paz do céu risonho tas tinham verdadeira fixação pela no- h) É frequente o uso de reticên-
Toda branca de sol, tação cromática, especialmente pela cias, sugerindo a vaguidão, o indefi-
cor branca e suas variáveis se- nível, o inefável, bem como do co-
E o sino canta em lúgubres responsos:
“Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus” mânticas: cisne, lírio, linho, neve, né- nectivo bíblico e no início do verso.
voa, nívea, alvo; ou por objetos trans-
d5) as palavras raras e mu- lúcidos (astros, sol, luz, lua). Em Cruz e i) Pontos de contato com o
sicais, escolhidas pela sonoridade: Sousa há verdadeira obsessão pela Parnasianismo:
arcaísmos, neologismos, termos litúr- cor branca, que traduzia os ideais de – preocupação formal, culto da
gicos, combinações vocabulares ines- vaguidão, do mistério, da languidez, da rima, preferência pelo soneto
peradas, numa verdadeira verboma- espiritualidade, da pureza, do etéreo, (não sistematicamente);
nia: “absconso”, “adamantino”, “cíto- do oculto, do transcendente etc. – distanciamento da vida, des-
las”, “crótalos”, “lactescentes”, “oaris- e3) Stéphane Mallarmé repre- compromisso com as ques-
tos”, “cornamusas”, “balaústres”, senta o ponto mais radical que atingi- tões mundanas (os poetas das
“mádidas”, “dormências”, “clepsidra”, ram as experiências simbolistas. “torres de marfim”, os “nefeli-
“litanias”, “antífona”, “turíbulos”, “a- batas”).
Abandonando a retórica e a discursi-
– 69
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j) Antecipações da moder- marco inaugural da nova estética — Que eu vi morrer num sonho, como um ai...
nidade: Oaristos, de Eugênio de Castro, de Ó suaves e frescas raparigas,
Adormecei-me nessa voz... Cantai!
– ruptura com o descritivo e 1890.
linear;
– monólogo interior, captação do q q Camilo Pessanha
Antônio Nobre (1867-1900)
fluxo de consciência; Autor de Primeiros Versos, Despe- (1867-1926)
– desarticulação sintática e se- didas e Só, representa a vertente Filho natural de um estudante e
mântica; simbolista de raízes neorromânticas. uma moça do povo, nasceu em Coim-
– sondagem infinitesimal da Esse retorno ao Romantismo bra, onde cursou Direito. Formado,
memória. evidencia-se não só na recuperação segue para a China, onde se orien-
da tradição literária, na influência de talizou e se viciou em ópio. Viveu como
2. SIMBOLISMO PORTUGUÊS Garrett, como no tom acentuada- funcionário público no Oriente,
mente subjetivista, marcado pela publicando esporadicamente nos jor-
q O contexto histórico saudade e pela tristeza. nais de província alguns poemas.
Não são nítidas as relações entre Suas poesias comunicam ao leitor Numa visita a Portugal, em 1915,
a arte simbolista e a vida política e intensa depressão e profundo ditou a João de Castro Osório as com-
social portuguesa, e as ligações que pessimismo. O temperamento de posições que viriam a ser coletadas no
se estabelecem nesse nível não artista tuberculoso, descrente de tudo volume Clepsidra, aparecido em 1920.
esclarecem absolutamente os proble- e de todos, desalentado, dava às suas Consumido pelo ópio, morre em Macau.
mas da poesia simbolista. poesias um estranho sabor de
A Proclamação da República amargura e infelicidade. O “sosis- Obra
parece ter definido certas tendências mo” (expressão que deriva do título Clepsidra – 1920
pré-simbolistas, numa atmosfera do livro Só) criou uma legião de imi-
neorromântica, que correspon- China – Coleção de artigos sobre
tadores idólatras e tem ressonância, a cultura chinesa, reunidos em 1944.
deriam a duas posições ideológicas: a no Brasil, na poesia de Manuel Ban-
monárquica e a republicana. À Foi o poeta mais autentica-
deira e Ribeiro Couto, entre outros.
primeira, monárquica, corresponderia mente simbolista de Portugal,
Antônio Nobre afastou-se do pre-
o neogarrettismo (ou nacionalis- e um grande inovador da poética de
ciosismo vocabular de seus contem-
mo, integralismo), representado seu país, cuja influência se estende
porâneos, utilizando o registro colo-
por Alberto de Oliveira e Afonso Lopes até os modernistas, como Fernando
quial da linguagem, inspirado na
Vieira. À segunda, republicana, estaria Pessoa. Afastou-se do discursivismo
dicção popular, no decadentismo
ligado o saudosismo de Teixeira francês (Jules Laforgue) e na lírica neorromântico dos poetas do seu
de Pascoaes, representando o romântica de Garrett. tempo (Antônio Nobre, Augusto Gil,
misticismo panteísta que já Afonso Lopes Vieira) e inovou a escri-
A caracterização de ambientes
impregnara a Geração de 1970 ta poética, incorporando proce-
provincianos, as recordações da in-
(Guerra Junqueiro, entre outros). Essa dimentos próximos aos do deca-
fância, a atmosfera crepuscular, a nos-
vertente saudosista serviu de apro- dentismo de Verlaine, em especial
talgia, o pessimismo, a evasão do pre-
ximação entre o neorromantismo, no que se refere à aproximação
sente e a projeção na sua infância dos
o simbolismo e o modernismo da entre a poesia e a música.
mitos pátrios são ainda aspectos
revista Orpheu, o orfismo.
dessa aproximação de Antônio Nobre
A afirmação mais radical do este- • Uma poética da
ao Romantismo.
ticismo simbolista repelia, contudo, as
desagregação
correntes saudosista, naciona-
A percepção de mundo em Camilo
lista ou regionalista, encami- TEXTO
Pessanha é fragmentária, aparente-
nhando-se para a arte “pura”, sem
mente desarticulada, expressa por meio
qualquer compromisso, a não ser com SONETO
sua própria elaboração. Essa é a de sensações que o poeta considera
situação de Eugênio de Castro,
Ó Virgens que passais, ao Sol-poente, sem sentido. A desagregação formal
Pelas estradas ermas, a cantar!
poeta muito mais relacionado com as parece corresponder à desagregação
Eu quero ouvir uma canção ardente,
experiências de outras partes do Que me transporte ao meu perdido Lar. do próprio poeta opiômano, hipersen-
mundo, notadamente de Paris, do que sível e inadaptado.
com a realidade portuguesa. A Cantai-me, nessa voz onipotente, Lírico da desesperança, da
O Sol que tomba aureolando o Mar, dor e da ilusão, seu pessimismo
influência francesa foi fundamental A fartura da seara reluzente,
para a divulgação das novas expe- O vinho, a Graça, a formosura, o luar!
tem laivos do decadentismo francês e
riências rítmicas e estilísticas, por meio do budismo que conheceu em Macau.
de duas revistas editadas em Cantai! cantai as límpidas cantigas! É constante a sensação de estranheza
Coimbra, em 1889, Insubmissos e Das ruínas do meu Lar desenterrai diante do mundo, da alucinação,
Boêmia Nova, e da obra que serve de Todas aquelas ilusões antigas expressas numa linguagem poderosa,
70 –
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sugestiva, tecida com metáforas Vocabulário e Notas II


insólitas, símbolos, sinestesias 1 – Lânguido: abatido, sem forças. Encontraste-me um dia no caminho
e intensa musicali- dade 2 – Inerme: indefeso. Em procura de quê, nem eu o sei
(alterações, assonâncias etc.). — Bom dia, companheiro — te saudei,
Aproximou-se do rigor formal de TEXTO II Que a jornada é maior indo sozinho.
Mallarmé, sem a determinação
intelectual do poeta francês. A CAMINHO É longe, é muito longe, há muito
I [espinho!
intelectualização dos poemas de
Paraste a repousar, eu descansei...
Camilo Pessanha é marcada pelo Tenho sonhos cruéis; n’alma doente
Sinto um vago receio prematuro. Na venda em que pousaste, onde
pessimismo em relação ao mundo,
Vou a medo na aresta do futuro, [pousei,
que lhe parecia em degenerescência. Bebemos cada um do mesmo vinho.
A adesão do poeta à estética de- Embebido em saudades do presente...
cadentista-simbolista não era simples É no monte escabroso2, solitário.
modismo — era existencial. Saudades desta dor que em vão
[ procuro Corta os pés como a rocha dum
Do peito afugentar bem rudemente, [calvário
Devendo, ao desmaiar sobre o poente, E queima como a areia!... Foi no
TEXTO I Cobrir-me o coração dum véu escuro!... [entanto

Porque a dor, esta falta d’harmonia, Que choramos a dor de cada um...
INSCRIÇÃO
Toda a luz desgrenhada1 que alumia E o vinho em que choraste era comum:
Eu vi a luz em um país perdido. As almas doidamente, o céu d’agora, Tivemos que beber do mesmo pranto.
A minha alma é lânguida1 e inerme2.
Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído! Sem ela o coração é quase nada: Vocabulário e Notas
No chão sumir-se, como faz um Um sol onde expirasse a madrugada, 1 – Desgrenhado: desordenado.
[verme... Porque é só madrugada quando chora. 2 – Escabroso: escarpado.

MÓDULO 35 Simbolismo no Brasil I


1. SIMBOLISMO NO BRASIL lismo e Pré-Modernismo são quase a fundação da Academia Brasileira
sempre discutíveis, dada a simulta- de Letras, e que não deixou margem
q Limites cronológicos neidade em que esses movimentos a que se reconhecesse o valor e
• Início: 1893 se desenvolvem. alcance do movimento simbolista.
Publicação de Missal (poemas O primeiro núcleo simbolista no “O Simbolismo Brasileiro, apesar
em prosa) e Broquéis (poesia), de Brasil formou-se no jornal carioca Fo- de ter produzido um Cruz e Sousa e
Cruz e Sousa. lha Popular, por volta de 1890-1891, um Alphonsus de Guimaraens, foi su-
reunindo Bernardino Lopes, Emi- focado (...) e, só hoje recebe a
• Término: 1902 liano Perneta e Oscar Rosas, devida consideração, negligenciado
Em sentido amplo, os limites do liderados por Cruz e Sousa, que, a como era sob o regime artificialmente
Simbolismo se estendem até a Se- propósito do ambiente intelectual prolongado do Parnasianismo.
mana de Arte Moderna, em 1922, e, daquela época, diria: (...) O Modernismo, Simbolismo
em sentido estrito, até 1902, quando “Era uma politicazinha engenho- inconsciente a meu ver, possibilitou a
se reconhece a publicação de Os sa de medíocres, de tacanhos, de transformação do Simbolismo priva-
Sertões, de Euclides da Cunha, e de perfeitos imbecilizados ou cínicos, do em poesia pública.”
Canaã, de Graça Aranha, como mar- que faziam da Arte um jogo capcio- (Otto Maria Carpeaux)
cos iniciais de um novo período lite- so, maneiroso, para arranjar relações
rário, o Pré-Modernismo, cujo ad- e prestígio no meio, de jeito a não Apelidados de nefelibatas (ou se-
vento não significou a interrupção do ofender, a não fazer corar o diletan- ja, “habitantes das nuvens”), os sim-
Simbolismo. tismo das suas ideias (...)”. bolistas eram, pejorativamente, iden-
No Brasil, os movimentos artísti- No Brasil, o Simbolismo foi “su- tificados pelos parnasianos como so-
cos finisseculares (fins do século XIX focado” pelo prestígio que, entre nós, nhadores, que se valiam de uma lin-
e início do século XX) são muito mais gozou o Parnasianismo, cujos poe- guagem de conotação imponderável,
simultâneos que sucessivos, o que tas, de mais fácil leitura e dóceis ao puramente sugestiva, estratosférica.
torna problemáticos os já em si pre- regime, gozavam de inequívoca pre- Além de Cruz e Sousa e Al-
cários critérios de periodização. For- ferência da elite “culta” dos salões phonsus de Guimaraens, pode
çoso é admitir que os limites cronoló- literários e do poder público. O Par- ser estudado também Augusto
gicos do Realismo, Naturalismo, Par- nasianismo era a poesia “oficial”, dos Anjos, que não foi propria-
nasianismo, Impressionismo, Simbo- que condicionou, pelo seu prestígio, mente simbolista, mas assimilou
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grande influência dessa estética. degradadas, como a doença, a lou- oprimido, vil e desprezível. A única
Augusto dos Anjos será estudado no cura, a miséria e o preconceito de cor. solução seria a fuga, a separação, a
Pré-Modernismo (no livro de Litera- transcendentalização, a ascensão
tura, porém, este autor é estudado no • Resíduos Parnasianos
para outro mundo, espiritual, puro,
capítulo dedicado ao Simbolismo). Na predileção pelo soneto, pelas
etéreo, branco. Da tensão “eu” versus
rimas ricas, pela chave de ouro, pelo
“mundo” decorre o emparedamento,
vocabulário raro, especialmente em
2. CRUZ E SOUSA (1861-1898) a sensação aguda de que a existên-
Broquéis (broquel era um tipo de es-
cia é uma prisão. O próprio poeta
cudo espartano, bem ao gosto par-
q Vida autodefinia-se como o “grande triste”.
nasiano de reviver objetos raros e an-
Negro retinto, filho de escravos tigos). Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
alforriados, Cruz e Sousa foi edu- • Formação Filosófica e De luares, de neves, de neblinas!...
cado na cidade natal, Desterro, atual Científica, Realista e Naturalista Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas...
Florianópolis, Santa Catarina, como No emprego de termos científi- Incensos dos turíbulos das aras...
(“Longe de Tudo”)
criança branca, graças ao tutor, um cos e na visão pessimista, combi-
marechal que o protegeu até a ado- nada com as imprecisões e musicali- Vocabulário
lescência. dades vagamente espiritualistas do 1 – Sidérea: celeste.
Ponto de companhia teatral, pu- Simbolismo e com um individualismo • É comum identificarem-se em
blica seus primeiros versos na impren- neorromântico, na transfiguração de sua trajetória espiritual estes marcos
sa catarinense, e, em 1885, com Vir- seus impulsos pessoais. bem definidos:
gílio Várzea, Tropos e Fantasias, al- • Influência de Baudelaire 1 – a revolta contra a condição
ternando páginas sentimentais e poe- A quem deve o domínio do poe- humana, especialmente os negros,
sias contra a escravidão, à maneira ma em prosa, certo satanismo, o sen- os humilhados, os miseráveis (a dor
do condoreirismo de Castro Alves. so dos contrastes e das correspon- de ser homem);
Impedido de assumir o cargo de dências (sinestesias), além do gosto 2 – a busca da transcendência,
promotor da cidade de Laguna, por pela forma lapidar. aceitação da dor (a dor e a glória de
causa do preconceito, muda-se para • O culto da noite, o pendor ser espírito).
o Rio de Janeiro, onde forma o pri- pela poesia filosófica e a tensão
meiro grupo simbolista brasileiro, meditativa o aproximam de Antero • A Obsessão do Branco
com Bernardino Lopes e Oscar Ro- de Quental. Roger Bastide, crítico e admira-
sas, colaborando também com a Fo- • O professor Antonio Candido dor incondicional de Cruz e Sousa,
lha Popular. ressalta, como traço fundamental, a localizou em sua obra a aparição, por
Casa-se com uma jovem negra, potência verbal de Cruz e Sousa, 169 vezes, de imagens apoiadas na
Gavita, de quem teve três filhos. Vi- aproximando-o de Raul Pompeia e cor branca e em palavras associa-
vendo aperturas econômicas, mina- Coelho Neto, e que terá como desdo- das à área semântica do branco, do
do pela tuberculose, abalado com a bramento radical a poesia de Augus- brilho, da transcendência (“lírio”, “li-
loucura da esposa, morre em Sítio, to dos Anjos. nho”, “neve”, “névoa”, “nuvem”, “lumi-
estação climática, em Minas Gerais, Para essa potência verbal noso”, “brilhante”, “marfim”, “espu-
aos 36 anos de idade. contribuem o verbalismo requintado ma”, “opaco”, “pérola”, entre outros
e oratório, o senso exaltado de me- exemplos).
q Obras lodia da palavra e o poder de criar Procurou-se uma explicação psi-
Missal (poemas em prosa) imagens de grande beleza que reves- cológica para essa recorrência à cor
Broquéis (poesias) tem a concepção trágica da branca: seria uma forma compen-
Evocações (poemas em prosa) vida e a busca da transcen- satória à negritude, que o poeta teria
Faróis (poesias) dência. se recusado a assumir; um instru-
Últimos Sonetos (poesias recolhi- • Imbuído de alto fervor quanto mento de “clarificação”, de ascensão
das por Nestor Vítor, amigo e admira- à missão do poeta, é, a um só tempo, social.
dor do poeta, obra publicada em 1905) poeta expressivo e construtivo, Essa interpretação tem sido refu-
q
harmonizando seus impulsos pes- tada. Ocorre que a cor branca, além
Características
• Não convém ler a poesia de soais e a consciência estética dos de simbolizar, na liturgia religiosa, a
Cruz e Sousa do ponto de vista da procedimentos estilísticos adequa- pureza, a espiritualidade, é, de velha
biografia sentimental. Ocorre que, ain- dos à expressão. É esse equilíbrio data, símbolo da ânsia de totalidade,
da que sua visão trágica da exis- que faz de Cruz e Sousa, segundo de transcendentalização, de supera-
tência tenha íntima relação com a Roger Bastide, um dos três maiores ção da dor pela elevação espiritual,
sua vida, não há alusões diretas à nomes do Simbolismo mundial. atitudes que o poeta assumiu com
autobiografia e à confissão: a trans- • A cosmovisão de Cruz e Sou- fervor. Como místico excepcional, faz
figuração das experiências ma- sa lembra o Barroco: o mundo da Dor motivo para a superação es-
nifesta-se em seus textos nas alusões terreno é um grande cárcere de dor e piritual, para a grandeza moral, para
a realidades sociais degradantes e infortúnio; o homem, um ser a purificação e o êxtase.
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ANTÍFONA TÉDIO

Ó Formas alvas, brancas, Formas claras Vala comum de corpos que apodrecem,
De luares, de neves, de neblinas!... Esverdeada gangrena
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas... Cobrindo vastidões que fosforescem
Incensos dos turíbulos das aras... Sobre a esfera terrena.
(Cruz e Sousa) (...)

FLORES DA LUA Mudas epilepsias, mudas, mudas,


Mudas epilepsias,
Brancuras imortais da Lua Nova, Masturbações mentais, fundas, agudas,
Frios de nostalgia e sonolência... Negras nevrostenias1.
Sonhos brancos da Lua e viva essência
Dos fantasmas noctívagos1 da Cova. Flores sangrentas do soturno vício
Que as almas queima e morde...
(Cruz e Sousa)
Música estranha de letal suplício,
Vago, mórbido acorde...
Vocabulário
1 – Noctívago: que vagueia de noite. (...)
(Cruz e Sousa) Cruz e Sousa
SIDERAÇÕES Vocabulário q Apreciações críticas
1 – Nevrostenia: irritação dos nervos. Transcrevemos, a seguir, algu-
Para as Estrelas de cristais gelados
As ânsias e os desejos vão subindo, mas apreciações feitas pela crítica a
Galgando azuis e siderais noivados • “Vê como a dor te trans- respeito da obra de Cruz e Sousa:
De nuvens brancas a amplidão vestindo... cendentaliza” – A maturidade “Três principais direções tomou a
(Cruz e Sousa) dos Últimos Sonetos sua inspiração: a sondagem do mundo
Se nos primeiros livros o sensualis- interior, donde arrancou a tragédia de
• O Emparedamento – mo forte, o desejo carnal, é diretamen- todas as suas revoltas, de todos os
A Dor e a Revolta te estetizado (sem sublimação), com seus delírios (vejam-se, a título de
Em Faróis e Evocações, o esteti- os Últimos Sonetos é que o poeta ob- exemplo, ‘Só’, ‘Emparedado’), mas
cismo dos primeiros livros transfor- tém em maior grau a espiritualização também onde encontrou raios de fé,
ma-se num lirismo trágico, tétrico, sublimatória da experiência dos sen- de esperança e de caridade (‘Renas-
mórbido. tidos. O eu lírico forceja por libertar-se cimento’, ‘Assim Seja’); a visão da
Basta um inventário nos títulos da carne. A caridade e a piedade existência no que esta oferece de es-
insinuam-se como o caminho de sal- petáculo trágico de dores, de misé-
para termos uma ideia do mundo que
vação e conforto. Liberto dos apeti- rias, de injustiças, de vícios, de insa-
povoa estes poemas: “Tristeza do
tes sensuais e sociais, o poeta se des- nidade (‘Crianças Negras’, ‘Vida
Infinito”, “Sem Esperança”, “Caveira”,
poja, se humilha rendido, pondo-se Obscura’, ‘Meu Filho’, ‘Acrobata da
“A Flor do Diabo”, “Música da Morte”, nu diante do Mistério, cujo recesso Dor’, ‘Lésbia’, ‘Tuberculosa’), desgra-
“A Ironia dos Vermes”, “Condenado à almeja conhecer integralmente. çadas sinas humanas que só a espe-
Morte”, “Dor Negra”, “Anjos Rebela- Nessa etapa, a palavra e a subs- rança da libertação do espírito pode
dos”, “No Inferno”, “Talvez à Morte?”, tância poética, o tecido expressivo, consolar (‘Triunfo Supremo’); final-
“Abrindo Féretros”, “O Emparedado”, fundem-se numa só entidade, reali- mente o sentido muito íntimo e inten-
“Tédio”. zando o ideal simbolista de explorar samente lírico da realidade circun-
Segundo um crítico, “do ponto até o seu limite último o conteúdo se- dante (‘Violões que Choram’, ‘Triste’).
de vista da aceitação social, a bio- mântico e musical das palavras. Possuído de inspiração por vezes
grafia do preto Cruz e Sousa, poeta delirante, de capacidade invulgar de
‘maldito’, é o inverso da do mulato SORRISO INTERIOR expressão, sobretudo para os ele-
Machado de Assis, que teve a sua mentos plásticos dos seus delírios já
carreira de escritor glorificada pelo O ser que é ser e que jamais vacila próximos do surrealismo, deu-nos uma
Nas guerras imortais entra sem susto,
poder cultural (...). Leva consigo esse brasão augusto poesia que tem, a par de densidade
Considerando-se o ‘emparedado Do grande amor, da grande fé tranquila. e intensidade dramática, uma imagé-
de uma raça’, Cruz e Sousa registrou tica simbolista estranha e algumas
Os abismos carnais da triste argila vezes preciosa e esotérica, o que sem
em Evocações ‘a batalha formidável Ele os vence sem ânsias e sem custo...
de um temperamento fatalizado pelo Fica sereno, num sorriso justo, dúvida contribuiu para que viesse a
sangue’. Enquanto tudo em derredor oscila. ser poeta apenas de uma aristocra-
Daí a aproximação com Baude- cia intelectual, se bem que seja, in-
laire, com a poesia enraizada no san- Nessa mesma linha, você deve contestavelmente, um poeta autênti-
gue e na carne, a mesma que Au- ler os sonetos “Cárcere das Almas”, co, dos maiores em língua portugue-
“Assim Seja!”, “Alma das Almas”, sa.” (Antônio Soares Amora, História
gusto dos Anjos irá retomar pouco
transcritos no livro 4, cap. 3, pp. 90-1. da Literatura Brasileira, pp. 124-5)
depois.”
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“Pondo de parte os poemas ini- gir as camadas do Absoluto e desco- Os miseráveis, os rotos
ciais publicados ainda em Santa Ca- brir o ‘mistério de todas as coisas’.” são as flores dos esgotos.
tarina, e que não passam de simples (Naief Sáfady, Dicionário de Literatura) São espectros implacáveis
aprendizagem, assim como os volu- “Em que consiste a singularida- os rotos, os miseráveis
mes de prosa do poeta, conside- de da poesia de Cruz e Sousa? ...
remos apenas os volumes dos poe- Andrade Murici, respeitável estu- São os grandes visionários
mas dados a lume no Rio, alguns pos- dioso do Simbolismo brasileiro, se dos abismos tumultuários
tumamente: Broquéis, Faróis, Últimos empenhou em destruir ou ao menos ...
Bandeiras rotas, sem nome
Sonetos, grosso modo. Em Broquéis atenuar o mito do poeta negro fe- das barricadas da fome.
é, substancialmente, a dor de ser chado em sua alienada torre literária,
negro que se exprime; em Faróis, a surdo a qualquer reclamo racial e E a litania continua, em versos
dor de ser homem, o que já repre- aos grandes problemas (a Abolição) acoplados, como um cortejo de Breu-
senta, com relação a Broquéis, um que ocorrem ao seu redor e como- ghel, como uma marcha da fome de
ponto muito mais alto na escalada; em vem todo o país; ou no máximo inte- um filme expressionista. Procedimen-
Últimos Sonetos, a dor, mas também a ressado neles somente em primeira tos expressionistas podem-se colher
alegria e a glória de ser espírito, de pessoa, para fugir individualmente por toda parte. Baste a autobiográfica
comungar com o eterno e he- da sua própria condição de negro: ‘Canção Negra’:
roicamente sobrevoar os abismos e com o álibi do ódio
as sombras da pobre terrenalidade. Ó boca em tromba retorcida
Claro que se trata de simples esque- Ó meu ódio... cuspindo injúrias para o Céu
matização, para efeitos didáticos.” Meu ódio santo e puro, benfazejo, aberta e pútrida ferida
orgulhoso com os seres sem Desejo, em tudo pondo igual labéu,
(Tasso da Silveira, Cruz e Sousa, p. 7)
sem Bondade, sem Fé...
“Dois aspectos são constantes Ódio são, ódio bom! sê meu escudo... imagem barroca, selada com o dístico
na obra de Cruz e Sousa: a tendência
formal (o grosso de suas composi- ou com a agulha do desejo sempre bendita seja a negra boca
ções são sonetos) e a constante da que tão malditas coisas diz!
apontada para um ‘branco’ que en-
atitude mística, formada numa filoso- che os seus versos de gelos, de ‘nu-
fia da vida que se representa pelo Tanto em Broquéis como em Fa-
vens brancas’, de cândidas luas, fan- róis se prolonga ainda o gosto parna-
esquema: vida material — restrição tasmas de ‘brancuras vaporosas’, de
do espírito (emparedamento); morte siano pelo soneto (fechado sempre
‘formas claras de luares, de neves, com magistral ‘chave de ouro’), pela
— libertação do espírito. Essa atitude
de neblinas’, de ‘brancas opulências, rima rigorosa (quase irônica às ve-
passa por três fases, que coincidem
brumais brancuras, fúlgidas brancu- zes), as quadras clássicas de decas-
com a cronologia de seus escritos:
ras, alvuras castas, virginais alvuras, sílabos alternados; mas os conteú-
1.a – em que a temática se prende à
latescências das raras latescências’. dos e a sensibilidade são sem
dolorosa contingência material do
Aquele mito, apoiado como é sobre dúvida diferentes. Não descreve,
Homem; animam-na preocupações
uma honesta estatística lexical, natu- mas sugere: com o som sobretudo.
puramente estéticas, que se refletem
em atitudes escassamente humani- ralmente resiste. Mas, para corrigir a Rimas em fim de verso e rimas inter-
zadas. A ela pertence Broquéis, com interpretação sociológica para a qual nas (das quais em seguida nascerá o
o poema ‘Antífona’, verdadeira profis- ‘o Simbolismo produzia exatamente o milagre desta prosa simbolista),
são de fé simbolista (melopeia, poe- tipo de arte e de literatura que na- aliterações, assonâncias, reminis-
sia do inconsciente, tédio, ânsia); 2.a quele momento mais convinha aos cências litúrgicas e hínicas:
– tentativa de carrear para a poesia manejos da contrarrevolução’ (Astro-
uma experiência humana, menos in- jildo Pereira), temos a seu lado, tími- Filho meu, de nome escrito
da, a realidade de um homem negro da minh’alma no Infinito.
telectualizada, entretanto negativista
e pessimista, muito semelhante à de crescido literariamente à sombra das
Escrito a estrelas e sangue
Raimundo Correia, destacando-se a ‘Vozes d’África’ e do Navio Negreiro no farol da lua langue...
ânsia de descobrir o absoluto (nirva- de Castro Alves, diretor de um jornal-
na), a essência das coisas; 3.a – em zinho ilustrado de título racialmente Das tuas asas serenas
provocativo (O Moleque, Desterro – faz manto para estas penas.
que aparece a sublimação da vivên-
cia humana, agora integralmente 1885) e autor de sonetos, poemas e Dá-me a esmola de um carinho
transferida para o campo da poesia, prosas abolicionistas (‘25 de Março’, como a luz de um claro vinho.
e seguida de uma doação, onde os ‘Escravocratas’, ‘Dilema’, ‘Auréola
anseios cedem lugar à pregação do Equatorial’, ‘Na Senzala’, ‘Dor Ne- Com tua mão pequenina
amor, numa mensagem de fé suprar- gra’). Poucos textos de protesto tur- caminhos em flor me ensina.
...
racional, de um cristianismo incons- vam contudo a nitidez de Broquéis Faz brotar nevados lírios
ciente, valorizando, especialmente, a ou arranham o polimento de Faróis: a das cruzes dos meus martírios.
libertação do espírito, por meio da ‘Litania dos Pobres’ (em que Alfredo
morte, de sua contingência material Bosi sente traços de Blok, suponho Dá-me um sol de estranho brilho,
perecível, para que a Alma possa atin- Flor das lágrimas, meu filho.
que do Blok dos Doze):
74 –
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(...) Ao fechado, autossuficiente As sonoras Por toda a parte escrito em fogo eterno
universo do parnasiano, à estátua, ao ondulações e brumas do Mistério Inferno! Inferno! Inferno! Inferno! Inferno!”
...
mármore, mas também à Distinção (Luciana Stegagno Picchio, La
Agora fundos, no ondular da poeira
civil e ao sorriso, o simbolista Cruz e Letteratura Brasiliana, pp. 328-32)
...
Sousa contrapõe o seu universo si- Ondula, ondeia, curioso e belo
nuoso, instável, inquietante, misterio- ...
so, alucinante. Brumas, névoas, mar- De ondulações fantásticas, brumosa
fins, pratas, crânios, lua, o beijo da ...
múmia, ‘Lésbia nervosa, fascinante e Trêmulo, triste, vaporoso, ondeante
doente’. Mas também ‘o Cristo de ...
E o teu perfil oscila, treme, ondula,
bronze do Pecado, ... o Cristo de
(...)
bronze das luxúrias’; o Mistério, a pelos abismos eternais circula,
Morte, o Sonho, o Infinito, o Luar, a
Formosura, a treva, o Infer no, o
e chamas que rompem em
Tédio,
fachos o limbo branco cinza
Tédio que pões nas almas olvidadas argênteo do cosmo:
ondulações de abismo...
Não sei se é sonho ou realidade todo
e ondas, ondas, ondas:
esse acordar de chamas e de lodo
Ondulação da vaporosa Iua Cruz e Sousa (direita) e os amigos Virgílio Várzea
... até o grito desesperado: (centro) e Horácio de Carvalho.

MÓDULO 36 Simbolismo no Brasil II


1. ALPHONSUS DE Cursou Direito em São Paulo e, q O Amor e a Morte
GUIMARAENS (1870-1921) formado, exerceu a magistratura em Alphonsus de Guimaraens foi um
Mariana, Minas Gerais, isolado da poeta monotemático. Quase tudo
q O Solitário de Mariana – agitação dos grandes centros, com que escreveu gravita em torno do
O Trovador Enfermiço – catorze filhos, que sustentou a duras amor e da morte, da morte da
O Poeta Lunar penas. Burocrata, boêmio, levando amada (a prima Constança) ou da
Afonso Henriques da Costa Gui- uma vida pacata, “entre a rotina e a Virgem Maria, com quem esse ca-
marães era o nome real do poeta. quimera”, realizou uma poesia sem tólico mariano e devoto termina por
Perdeu, aos 18 anos, uma prima desníveis — das mais puras que a identificar a amada perdida.
— Constança — de quem se ena- nossa lírica conheceu. O tom lírico predominante é o
morara, e cuja presença é constante ele gíaco, perpassado pela tris-
em sua lírica. q Obras teza das cidades antigas de Minas,
• Poesia das quais o verso plangente de
Kiriale (publicado somente em Alphon sus nunca destoou, com
1902) suas igrejas, catedrais, procissões,
Setenário das Dores de Nossa réquiens, fins de tarde, flores roxas.
Senhora (1899) Quando o fantasma da amada
Câmara Ardente (1899) morta assola o poeta, a morte se lhe
Dona Mística (1899) repropõe como a presença do corpo
Pauvre Lire (1921) morto, como o luto circunstante — os
Pastoral aos Crentes do Amor e círios, o cantochão, o esquife, o
da Morte (1923)* féretro, os panos roxos, o réquiem, o
Escada de Jacó (1938)* sepultamento no campo santo, as
Pulvis (1938)* orações fúnebres. Kiriale é um dobre
de finados, até pelos títulos dos poe-
• Prosa mas: “Luar sobre a Cruz da Tua Co-
Os Mendigos (1920) va”, “À Meia-Noite”, “Ocaso – Im-
pressões de Véspera de Finados”,
• Tradução “Spectrum”, “Ossea Mea”.
Nova Primavera (de Heine) O platonismo místico conduz ao
(1938)* desalento do amor que não se cum-
priu e que jamais se cumprirá, salvo
Alphonsus de Guimaraens * publicações póstumas. além-túmulo ou na esfera transcendente.
– 75
TEORIA_PORT_C2_3A_Conv_DANIEL 09/01/12 14:05 Page 76

Daí o elogio da morte que se saltos obsedantes dos três ‘inimigos A CATEDRAL
materializa numa simbologia funerária. da alma’: diabo, carne e mundo.”
Entre brumas 1, ao longe, surge a aurora.
A obsessão da morte não tem (Alfredo Bosi) O hialino2 orvalho aos poucos se evapora,
em Alphonsus o caráter negativo de agoniza o arrebol3.
horror, de fobia. Ela é desejada, an- Como lírico religioso, es- A catedral ebúrnea4 do meu sonho
siada, porque encarna a possibilida- sencialmente mariano, coloca-se co- aparece, na paz do céu risonho,
toda branca de sol.
de de aproximação da amada e/ou mo um emotivo da religiosida-
do Absoluto, representado por Deus, de, simples e devoto. Esse veio ele- E o sino canta em lúgubres5 responsos6:
oferecendo-lhe o tão procurado apa- gíaco irá ramificar, no Modernismo, “Pobre Alphonsus, pobre Alphonsus!”
ziguamento e a superação da vida, em certas páginas de Manuel Ban-
vista como miséria, pó, infâmia, lama deira, Ribeiro Couto, Henriqueta O astro glorioso7 segue a eterna estrada.
Uma áurea seta lhe cintila8 em cada
e podridão. Observe os fragmentos: Lisboa e, especialmente, em Cecília refulgente raio de luz.
Meireles. A catedral ebúrnea do meu sonho,
(...) onde os meus olhos tão cansados ponho,
Mãos que os lírios invejam, mãos eleitas recebe as bênçãos de Jesus.
Foi-lhe a vida um eterno mês de maio,
Cheio de rezas brancas a Maria, Para aliviar de Cristo os sofrimentos,
Que ela vivera como num desmaio. Cujas veias azuis parecem feitas E o sino clama em lúgubres responsos:
Da mesma essência astral dos óleos bentos: “Pobre Alphonsus, pobre Alphonsus!”
Tão branca assim! Fizera-se de cera...
Sorriu-lhe Deus, e ela, que lhe sorria, Mãos de sonho e de crença, mãos afeitas (...)
Virgem voltou como do céu descera. A guiar do moribundo os passos lentos,
E em séculos de fé, rosas desfeitas O céu é todo trevas: o vento uiva.
(“Pulchra ut Luna” — expressão
Em hinos sobre as torres dos conventos Do relâmpago a cabeleira ruiva
latina que pode ser traduzida por
vem açoitar9 o rosto meu.
“bela como a lua”.)
(Setenário das Dores de Nossa Senhora) E a catedral ebúrnea do meu sonho
afunda-se no caos do céu medonho
(...)
q como um astro que já morreu.
Trabalhou com a mesma quali-
A lua, que lhe foi mãe carinhosa, dade as redondilhas medievais
Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la E o sino geme em lúgubres responsos:
Entre lírios e pétalas de rosa. e as formas e gêneros arcaicos da “Pobre Alphonsus, pobre Alphonsus!”
medida velha, bem como os de- (Alphonsus de Guimaraens,
Os meus sonhos de amor serão defuntos... cassílabos, em sonetos de grande in Pastoral dos Crentes do Amor e da Morte)
E os arcanjos dirão no azul, ao vê-la, expressividade.
Pensando em mim: — “Por que não vieram Vocabulário
[juntos?” 1 – Bruma: nevoeiro.
ISMÁLIA
(“Hão de Chorar por Ela os Cinamomos”) 2 – Hialino: transparente como o vidro.
Quando Ismália enlouqueceu, 3 – Arrebol: vermelhidão ao nascer do Sol.
Pôs-se na torre a sonhar… 4 – Ebúrneo: de marfim.
q Viu uma lua no céu, 5 – Lúgubre: triste, fúnebre.
A poesia mística –
Viu outra lua no mar. 6 – Responso: conjunto de versículos pronun-
A lírica mariana ciados ou cantados alternadamente.
Foi o maior poeta místico da Lite- No sonho em que se perdeu, 7 – Astro glorioso: o Sol.
ratura Brasileira, não apenas pela Banhou-se toda em luar… 8 – Cintilar: brilhar.
parte diretamente referente à liturgia Queria subir ao céu, 9 – Açoitar: chicotear.
católica e à exaltação da Virgem, mas Queria descer ao mar…
q Apreciações críticas
também pela atmosfera de sonho e
E, no desvario1 seu, Antônio Soares Amora, em sua
mistério, pela tonalidade medieval, Na torre pôs-se a cantar…
pelo tom de ternura e melancolia. História da Literatura Brasileira (pp.
Estava perto do céu,
“O fato de ter transformado a reli- 125-6), assim se refere a Alphonsus
Estava longe do mar…
gião numa experiência profunda lhe de Guimaraens:
possibilitou não só adotar a moda E como um anjo pendeu “Embora poeta de alta estirpe, não
simbolista da poesia litúrgica, mas As asas para voar… conseguiu, em vida, fazer sentir toda
Queria a lua do céu, a significação literária da sua obra.
vivê-la interiormente, tornando-se o Queria a lua do mar…
único a exprimir uma religiosidade Modernamente vem-lhe fazendo, a
que não parece receita da escola.” As asas que Deus lhe deu
crítica, a justiça que merece. Simbo-
Ruflaram2 de par em par… lista desde as primeiras horas do
(Antonio Candido) Sua alma subiu ao céu, movimento, definiu, entre 1899/1902,
Seu corpo desceu ao mar… com Setenário das Dores de Nossa
“No poeta mineiro, passadista e Senhora, Câmara Ardente, Dona Mís-
decadente, há um homem preso às (Pastoral dos Crentes do Amor e da Morte)
tica e Kiriale, os caminhos da sua
franjas de uma religiosidade espan- Vocabulário inspiração dentro do movimento ge-
tada, cujo fim último é evocar o fan- 1 – Desvario: loucura. ral de renovação da poesia brasileira:
tasma da morte para reprimir os as- 2 – Ruflar: agitar-se. 1) lirismo amoroso de caráter espiri-
76 –
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tualista, ou mais precisamente, platô- na mocidade está presente dando castelã morta:
nico; o que significou, no seu caso, o um tom de amargurada tristeza. O
A suave castelã das horas mortas
regresso ao idealismo amoroso de vocabulário utilizado casa-se bem a
Assoma à torre do castelo. As portas,
Petrarca, de Camões, e de todos os essa sensibilidade e são frequentes Que o rubro ocaso em onda ensanguentara,
medievais e clássicos do amor espiri- as referências a flores roxas, a vio- Brilham do luar à Luz celeste e clara,
tualizado, o que, entretanto, não o letas, a virgens mortas, a fins de tar-
impediu de ser original, e comovida- de. Tinha também o gosto de criar ou ainda:
mente sincero. Nesta atitude perante vocábulos, tão em voga entre os Quando as folhas caírem e tu fores
a Mulher e o Amor, ditada por in- simbolistas, ao mesmo tempo que a Procurar minha luz no campo-santo,
fluências muito sugestivas do Sim- influência de língua arcaica, o que o Hás de encontrá-la, meu amor, num canto,
bolismo europeu, mas também con- fez arcaizar o próprio nome. A redon- Circundada de flores.
dizente com o seu caráter e o seu dilha foi um dos metros que preferiu,
temperamento, pôde construir uma e o soneto decassílabo o que mais (...) É fato que há na poesia de
obra cheia de belezas, rica de emo- utilizou, dando-lhe, entretanto, uma Alphonsus de Guimaraens um as-
ção e muito significativa na história característica própria, um módulo to- pecto lúdico, de travesti intelectualís-
da nossa literatura (Kiriale, Dona Mís- do pessoal. Verlaine e Mallarmé fo- tico (o medievalista, o petrarquista, o
tica, Pastoral aos Crentes do Amor e ram seus mestres, do primeiro tra- enamorado da menina morta e, tal-
da Morte); 2) lirismo religioso, im- duzindo belamente alguns poemas, vez, o poeta simbolista: um Alphon-
pregnado de intenso sentimento mís- ao segundo dedicando um dos seus sus lutuoso que sorri de si mesmo
tico, comovido, docemente encan- sonetos em francês, em que confessa nos versos franceses, autodenomi-
tado ante todas as belezas concebi- o que lhe deve. Poesia pouco descri- nando-se, com transparente calem-
das pelo Cristianismo: as doçuras da tiva, que consegue muito mais sugerir bour, ‘Vicomte de Grandeuil’), que
vida piedosa e penitente; as inefá- do que dizer, a música tem, nela, não foi ainda suficientemente estu-
veis delícias da vida celeste; o grande importância: os versos de A. dado. Tendentes a construir um cli-
profundo e arrebatador sentido do de G. são finamente melodiosos. Para ché existencial, esquecemos por ve-
simbolismo hierático, litúrgico e alcançar isso, inovou ele os metros zes que, como queria Fernando Pes-
mortuário; a poesia que envolve to- consagrados, alterando e deslo- soa ‘o poeta é um fingidor’, e despre-
das as manifestações de Fé, e de cando acentos, conferindo-lhes o tom zamos certos aspectos de Alphon-
culto aos mortos; o profundo signifi- musical que, juntamente com o voca- sus que aparentemente contrastam
cado da vida de Nossa Senhora, bulário tão peculiar, criam a nota que com a sua máscara oficial: o repu-
plena de Virtudes, ‘Mater Dolorosa’ é dele e só dele na poesia brasileira.” blicano, o poeta juvenil não ainda
(Setenário das Dores de Nossa “Poesia de amor e poesia místi- ‘castigado’:
Senhora, Dona Mística, Escada de co-religiosa da qual participa, como
Ó minha amante, eu quero a volúpia vermelha
Jacó); 3) evasão da vida, da humana evocação, uma paisagem de meias- dos teus beijos febris receber sobre a boca...
dor, fuga para o mundo encantado tintas, enfumaçada de luz crepuscu-
da fantasia, onde, e só onde, conse- lar (não por acaso o Penumbrismo o autor de versos satânicos que são
guiu realizar-se, ou como um brasileiro terá raízes também na poe- o reverso da medalha angélica e fu-
‘cavaleiro’ da mística e amatória sia de Alphonsus) ou banhado de nérea, e também o Alphonsus que se
cavalaria medieval, ou como um luar. A mulher amada aparece sobre compraz em escrever — sem todavia
‘trovador’ vagabundo, de cantigas de o leito de morte com a marmórea rigi- assiná-los — versos facetos em jor-
amor, ou, num extremo de desmateri- dez, a inexorável juventude de uma naizinhos das cidades mortas que o
alização, como espírito puro a pas- estátua sepulcral: hospedaram: Mariana, Conceição do
sear e a viver num éden de supremas Serro.” (L. S. Picchio, La Letteratura
Mãos de finada, aquelas mãos de neve,
belezas, de suprema felicidade (A Brasiliana, pp. 336-9)
de tons marfíneos, de ossatura rica,
Escada de Jacó, Pulvis).” pairando no ar, num gesto brando e leve,
que parece ordenar, mas que suplica ...
Fernando Góes fez a seguinte Acrescente-se à lista de L. S.
caracterização da poesia de Alphon- ou Picchio mais um aspecto da obra de
sus de Guimaraens (in Pequeno Di- Alphonsus de Guimaraens que a crí-
Hirta e branca... Repousa a sua áurea cabeça tica tem descurado: a reflexão meta-
cionário de Literatura Brasileira, s.v.): Numa almofada de cetim bordada em lírios.
“A poesia de A. de G. é uma poe- Ei-la morta afinal como quem adormeça linguística, a poesia que tematiza o
sia de tons velados, poesia de Aqui para sofrer Além novos martírios. próprio fazer poético, utilizando-se
música de câmara, que o ambiente de um símbolo que remete à ave cé-
em que viveu marcou profundamente, De mãos postas, num sonho ausente, a som- lebre de Edgar Allan Poe: trata-se de
[bra espessa
com as procissões, as igrejas, a vida um poema estranho e único na obra
Do seu corpo escurece a luz dos quatro círios:
devota, os sinos tocando de manhã à Ela faz-me pensar numa ancestral Condessa do Solitário de Mariana, “A Cabeça
noite. Poesia elegíaca, em que a Da Idade Média, morta em sagrados delírios, de Corvo” (poema que se encontra
lembrança da noiva que ele perdeu ou, com insistência sobre o tema da transcrito na p. 96 do livro 3).
– 77
TEORIA_CONV_C3_DANIEL 29/04/11 19:38 Página 25

FRENTE 2 Literatura

MÓDULO 37 Pré-Modernismo I
1. CONCEITO E ÂMBITO rastreado em Euclides da Cunha, operariado e pelo subproletariado,
Lima Barreto, Monteiro Lobato e novos atores que, ainda timidamente,
O Pré-Modernismo não confi- Graça Aranha. se projetam na cena política.
gura um estilo literário ou uma O período pré-modernista convi- Entre os fatos históricos que mar-
escola, com um programa definido, veu com diversas correntes do século cam o período, destacamos: a Revolu-
com propostas estéticas específicas. XIX, que já se iam esgotando quando ção de Canudos, o fenômeno do
Não é como o Romantismo, Realismo, da “explosão” modernista de 1922. cangaço e do fanatismo religioso, no
Simbolismo etc. Trata-se de um Daí o caráter de estagnação, de Nordeste; a Revolta da Chibata, a
período cronológico marcado imobilismo que impregnou a literatura revolta contra a vacina obrigatória, no
pelo sincretismo (= fusão, mistura) oficial das academias e salões literá- Rio de Janeiro; a Guerra do Contes-
de diversas tendências, identificado rios, que assistiram (= ampararam) os tado, em Santa Catarina; as greves
primeiramente por Tristão de Ataíde últimos suspiros do Parnasianismo operárias dos imigrantes do Brás e da
(Alceu de Amoroso Lima), que cu- (Alberto de Oliveira, Raimundo Mooca, em São Paulo (1917).
nhou a expressão Pré-Moder nismo Correia, Bilac, Vicente de Carvalho
para designar um conjunto de autores ainda escreviam); do Neoparnasia- 3. EUCLIDES DA CUNHA
que, entre 1902 (Os Sertões, de nismo (Amadeu Amaral e Martins (1866-1909)
Euclides da Cunha, e Canaã, de Gra- Fontes); da prosa tradicionalista
ça Aranha) e 1922 (Semana de Arte de feitio clássico (Rui Barbosa e "Misto de celta, de tapuia
Moderna), representam a aliança ou Joaquim Nabuco); do regionalismo e grego", como se autodefinia, Eu-
transição entre as correntes do fim realista-naturalista (Simões clides da Cunha foi militar (expulso
do século XIX e antecipações da Lopes Neto, Valdomiro Silveira, do Exército), engenheiro, jornalista,
modernidade. Afonso Arinos) e até neoclássicos professor, acadêmico e grande es-
Assim, as chamadas correntes e neorromânticos encontraram critor.
pré-modernistas marcam-se por uma espaço para suas tardias manifesta- Acompanhou, como correspon-
antinomia: o moderno versus o an- ções. dente do jornal A Província de São
timoderno, a renovação versus o Em síntese, quanto à linguagem e Paulo (hoje O Estado), as operações
conservadorismo, aliando (= sin- ao estilo, os pré-modernistas expres- do Exército contra os rebeldes de
cretizando) tendências diversas. sam-se como realistas, naturalis- Canudos, permanecendo no Sertão da
• O aspecto conservador, an- tas, impressionistas, simbolis- Bahia de agosto a outubro de 1897.
timoderno, pode ser localizado na tas, assimilando em graus diferentes Em 1898 e 1901, escreveu, pri-
sobrevivência da mentalidade as características desses estilos. meiro em Descalvado, depois em São
positivista e determinista dos realistas Quanto aos temas, ao conteúdo, é José do Rio Pardo, Os Sertões, cuja
(naturalistas) e parnasianos, e no que se aproximam dos modernos, publicação, em 1902, alcançou reper-
estilo, no código, na linguagem, que, pelo compromisso com a realidade cussão nacional.
com poucas ousadias, perma- brasileira: o sertão da Bahia (Eu- Além de Os Sertões, deixou ou-
neceram fiéis aos modelos realistas clides da Cunha); o subúrbio ca- tros livros sobre problemas brasileiros:
(Machado, Aluísio, Eça, Zola, Flau- rioca (Lima Barreto); o Vale do Contrastes e Confrontos, À Margem
bert, Balzac). Vale observar que o Paraíba paulista (Monteiro Loba- da História, Peru versus Bolívia, Re-
Modernismo de 1922 representou, so- to); a adaptação do imigrante ao latório sobre o Alto Purus.
bretudo, uma ruptura em termos de trópico (Graça Aranha).
linguagem, do código, e, nesse sen- ❑ Características
tido, os pré-modernistas foram, em 2. O CONTEXTO HISTÓRICO • O cientista e o artista
diferentes medidas, antimodernos. Primeiro grande pensador social
• O aspecto antecipador da As primeiras décadas do século brasileiro, Euclides da Cunha harmo-
modernidade localiza-se mais em XX têm como marca a contradição niza o rigor científico, a erudi-
nível do conteúdo, na problema- entre a postura tradicionalista da oli- ção, a formação positivista e
tização da realidade brasileira, na garquia rural e a inquietação dos se- determinista, a exatidão do ma-
crítica às instituições arcaicas, no tores urbanos, esta última matizada de temático e engenheiro, com a
regionalismo crítico e vigoroso e no diversas tendências assimiladas da paixão pela palavra e a potên-
espírito inconformista e rebelde que, América do Norte e da Europa, pelo cia verbal, provando que a arte e a
de diversas maneiras, pode ser imigrante, pela classe média, pelo ciência não se opõem.

– 25
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• Crítica Reflete a preguiça invencível, a da realidade brasileira contemporâ-


Sua obra Os Ser tões analisa e atonia9 muscular perene10, em tudo: nea e, por outro lado, a história de um
procura compreender o fenômeno do na palavra remorada11, no gesto con- homem que se realizou pelo amor e
fanatismo religioso no sertão, espe- trafeito, no andar desaprumado, na pela satisfação de seus ideais.
cialmente o caso Canudos. Apresenta cadência langorosa12 das modi- nhas,
visão determinista: A Terra, O Homem, na tendência constante à imobilidade 5. LIMA BARRETO
A Luta (meio, raça, momento). e à quietude. (1881-1922)
Primeira denúncia vigorosa que Entretanto, toda esta aparência
se faz na cultura brasileira contra a de cansaço ilude.
miséria e o abandono em que vive o (Euclides da Cunha, Os Sertões)
sertanejo.
Vocabulário
1 – Desempeno: elegância. 2 – Hércules: figura
TEXTO mitológica, símbolo de força física. Quasímodo:
o corcunda de Notre-Dame, símbolo de feiura.
3 – Fealdade: feiura. 4 – Aprumo: elegância,
(fragmento)
altivez. 5 – Displicência: tédio, apatia. 6 – So-
O sertanejo é, antes de tudo, um frear: refrear. 7 – Espenda: parte da sela sobre
a qual assenta a coxa. 8 – Celeremente: rapi-
forte. Não tem o raquitismo exaustivo
damente. 9 – Atonia: fraqueza. 10 – Perene:
dos mestiços neurastênicos do litoral. eterno. 11 – Remorado: demorado. 12 – Lan-
A sua aparência, entretanto, ao goroso: lânguido, lento, arrastado.
primeiro lance de vista, revela o con-
trário. Falta-lhe a plástica impecável, o 4. GRAÇA ARANHA
desempeno1, a estrutura corretíssima (1868-1931)
das organizações atléticas.
É desgracioso, desengonçado, ❑ Dados biográficos Lima Barreto.
torto. Hércules-Quasímodo2, reflete no – Nasceu em São Luís do Mara-
aspecto a fealdade3 típica dos fracos. nhão; ❑ Obras
O andar sem firmeza, sem aprumo4, – foi discípulo de Tobias Barreto; Recordações do Escrivão Isaías
quase gingante e sinuoso, aparenta a – participou da Semana de Arte Caminha (romance) – 1909
translação de membros desarticula- Moderna; Triste Fim de Policarpo Quaresma
dos. Agrava-o a postura normalmen- – faleceu no Rio de Janeiro. (romance) – 1911 (em folhetins) e
te abatida, num manifestar de displi- 1915 (em livro)
cência5 que lhe dá um caráter de hu- ❑ Obras Numa e Ninfa (romance da vida
mildade deprimente. A pé, quando Canaã (romance) contemporânea) – 1915
parado, recosta-se invariavelmente ao Malasarte (drama folclórico em Vida e Morte de M. J. Gonzaga
primeiro umbral ou parede que encon- três atos) de Sá (romance) – 1919
tra; a cavalo, se sofreia6 o animal para Estética da Vida (obra filosófica) Histórias e Sonhos (contos) – 1956
trocar duas palavras com um conhe- Viagem Maravilhosa (romance) Cemitério dos Vivos (incompleto)
cido, cai logo sobre um dos estribos, “Espírito Moderno” (conferência) – 1956
descansando sobre a espenda7 da “A Emoção Estética na Arte Mo- Clara dos Anjos (romance) – 1948
sela. Caminhando, mesmo a passo derna” (conferência)
rápido, não traça trajetória retilínea e ❑ Apreciação crítica
firme. Avança celeremente8, num ❑ Apreciação crítica Recordações do Escrivão Isaías
bambolear característico, de que Canaã, romance ao qual deveu Caminha, romance em primeira pes-
parecem ser o traço geométrico os sua celebridade, é construído a partir soa, autobiográfico, retrata a vida de
meandros das trilhas sertanejas. E se da observação de uma pequena um grande jornal da época. Sátira a
na marcha estaca pelo motivo mais comunidade de imigrantes alemães figurões da imprensa e das letras.
vulgar, para enrolar um cigarro, bater (Milkau e Lentz), no Espírito Santo, Extravasamento de suas decepções
o isqueiro, ou travar ligeira conversa evidenciando o contraste entre o ale- e revoltas.
com um amigo, cai logo — cai é o mão, fruto de uma civilização euro- Romance em terceira pessoa,
termo — de cócoras, atravessando peia adiantada, e o miserável homem Triste Fim de Policarpo Quaresma
largo tempo numa posição de equi- rural e provinciano brasileiro. mostra com clareza o ridículo e paté-
líbrio instável, em que todo o seu cor- Malasarte, drama característico tico de um nacionalismo fanatizante e
po fica suspenso pelos dedos simbolista, representa o conflito do anacrônico. O maior sonho de Policar-
grandes dos pés, sentado sobre os indivíduo, dividido entre o desejo vio- po é “o tupi como língua oficial no
calcanhares, com uma simplicidade lento dos prazeres e as forças da mo- Brasil”.
a um tempo ridícula e adorável. ral (Malasarte, Dionísia e Eduardo). Clara dos Anjos, romance auto-
É o homem permanentemente fa- Viagem Maravilhosa procurou, biográfico, é a triste ruína de um ho-
tigado. por um lado, oferecer uma visão total mem que se entrega à embriaguez.
26 –
TEORIA_CONV_C3_DANIEL 29/04/11 19:38 Página 27

num uníssono sustentado. Suspen- com uma enorme saúva agarrada


TEXTO
deram um instante a música. O major com toda a fúria à sua pele magra.
apurou o ouvido; o ruído continuava. Descobriu a origem da bulha. Eram
(fragmento) Que era? Eram uns estalos tênues; formigas que, por um buraco no
parecia que quebravam gravetos, assoalho, lhe tinham invadido a des-
A casa estava em silêncio; do la- que deixavam outros cair ao chão... pensa e carregavam as suas reservas
do de fora, não havia a mínima bu- Os sapos recomeçaram; o regente de milho e feijão, cujos recipientes
lha1. Os sapos tinham suspendido um deu uma martelada e logo vieram os tinham sido deixados abertos por
instante a sua orquestra noturna. baixos e os tenores. Demoraram mui- inadvertência3. O chão estava negro,
Quaresma lia; e lembrava-se que to; Quaresma pôde ler umas cinco e, carregadas com os grãos, elas, em
Darwin escutava com prazer esse páginas. Os batráquios2 pararam; a pelotões cerrados, mergulhavam no
concerto dos charcos. Tudo na nossa bulha continuava. O major levantou- solo em busca da sua cidade subter-
terra é extraordinário! pensou. Da se, agarrou o castiçal e foi à depen- rânea.
despensa, que ficava junto a seu dência da casa donde partia o ruído, (Lima Barreto,
aposento, vinha um ruído estranho. assim mesmo como estava, em ca- Triste Fim de Policarpo Quaresma)
Apurou o ouvido e prestou atenção. misa de dormir.
Os sapos recomeçaram o seu hino. Abriu a porta; nada viu. Ia pro- Vocabulário
Havia vozes baixas, outras mais altas curar nos cantos, quando sentiu uma 1 – Bulha: barulho.
e estridentes; uma se seguia à outra, ferroada no peito do pé. Quase gritou. 2 – Batráquio: sapo.
num dado instante todas se juntaram Abaixou a vela para ver melhor e deu 3 – Inadvertência: descuido.

MÓDULO 38 Pré-Modernismo II
1. MONTEIRO LOBATO ❑ Apreciação crítica cócoras enquanto o Brasil esperava
(1882-1948) “A sua obra é variada: contos, por ele”, na famosa figura de Jeca
crônicas e artigos, ensaios quase Tatu; depois se desculpou, falando
❑ Vida das difíceis condições da vida do cam-
panfletários, e literatura infantil. Des-
Nasceu na chácara do Visconde ponês. Atacou publicamente o Mo-
taca-se aqui o sentido da obra do
de Tremembé, seu avô materno, hoje dernismo, no artigo “Paranoia ou
contista de feitio regionalista. Ela está
conhecida como Chácara do Pica- Mistificação?”, de 1917, escrito a pro-
presa à experiência no interior, com-
Pau Amarelo. Formou-se em Direito pósito de uma exposição de Anita
preendido sobretudo nos limites da
em São Paulo, tendo participado in- Malfatti. A principal característica de
região que se denominaria das ‘cida-
tensamente de atividades políticas es- sua linguagem é a oralidade.
des mortas’, onde brilhou o fausto das
tudantis. Fundou a Companhia
grandes fazendas de café do século
Editora Nacional; incentivou as cam-
passado [XIX]. Constitui-se assim de TEXTO
panhas do petróleo e do ferro, fun-
flagrantes bem apanhados do homem
dando, em 1931, a Cia. Petróleo do UM HOMEM DE CONSCIÊNCIA
e da paisagem, embora tomados nos
Brasil. Foi preso por escrever carta ao
seus aspectos exteriores, para nos
ditador Getúlio Vargas sobre o proble- Chamava-se João Teodoro, só. O
comunicar a sugestão de marasmo e
ma do petróleo brasileiro. Mudou-se mais pacato e modesto dos homens.
indolência reinantes. E não disfarça
para a Argentina, regressando no ano Honestíssimo, com um defeito ape-
inteiramente o propósito de denúncia
s