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doi: 10.4025/10jeam.ppeuem.

04006

A PROVA DA EXISTÊNCIA DE DEUS PELA VIA DO MOVIMENTO


EM SÃO TOMÁS DE AQUINO.

IZIDIO, Camila de Souza (UEM)

Essa pesquisa tem como objetivo a análise da primeira das cinco vias que provam
a existência de Deus propostas pelo filósofo e teólogo Tomás de Aquino. Essas vias têm
como princípio argumentos atestados pela nossa razão, ou seja, será provado que Deus é,
não pela via da fé, mas por premissas que podem ser demonstradas.
Tomás de Aquino mostrará a partir das coisas sensíveis que são mais facilmente
conhecidas pelo nosso intelecto, que as mesmas são efeitos que dependem de uma causa
primeira. É na Suma Teológica, mais precisamente na questão II, artigo terceiro e na Suma
Contra os Gentios, livro I, capitulo XIII que é encontrada a argumentação acerca da
primeira via, que tem como principio o movimento. De maneira que, Tomás tem como
premissa fundamental que tudo aquilo que se move no mundo é movido por outro; Na
primeira obra citada acima, o filósofo inicia seu texto já observando que a primeira das
cinco vias, a qual por sua vez, trata essa pesquisa é a mais clara e manifesta dentre todas as
outras, pois tem como fundamento o movimento que, por sua vez é atestado pelos nossos
sentidos estando nas coisas sensíveis.
Em ambas as obras, Tomás emprega em seus argumentos um principio advindo de
Aristóteles, o ato e potência em outras palavras, aquilo que a coisa é nesse momento e
aquilo que a coisa pode vir a ser, o que parece envolver claramente o movimento. Diante
disso, na Suma Teológica, o filósofo considera que mover é reduzir algo de potência a ato,
como por exemplo, considerando uma semente ela é uma árvore em potência, pois
futuramente é isso que ela se tornará, movimento, nesse caso, seria a mudança de semente
à árvore. No entanto, como esse movimento de passagem de potência a ato, terá como
principio a própria coisa, se ela não pode estar em ato e potência simultaneamente, usando
o exemplo acima, a semente não pode ser ao mesmo tempo semente e árvore. Tomás então
argumenta que considerando que as coisas não podem mover-se a si mesmas, passando de

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potência a ato, pois isso implicaria em um erro lógico, é necessário que algo fora da coisa a
mova, ou seja, aquilo que se move é movido por outro. Porém, esse outro não pode estar
em potência já que potência é o estado de vir a ser algo, dessa maneira aquilo que move as
coisas deve ser algo que esteja em ato.
Na Suma contra os Gentios Tomás inicia seu texto partindo da premissa enunciada
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acima de que “tudo aquilo que é movido é movido por outro.” Sendo assim esse outro
movente ou também é movido por outro ou não. Nesse caso se A é movido por B, ou B
não é movido, ou o é por C. Entretanto C também necessitaria de algo que o movesse e
assim por diante, dessa maneira prosseguiríamos ao infinito na série de moventes e
movidos, o que não é possível. Porém, se tal movente é imóvel a ele denomina-se Deus.
Para melhor entender o que foi dito acima, Tomás apresenta uma análise mais
detalhada acerca do pressuposto de que o que se move é movido por outro e não por si
mesmo. Primeiramente, diz que, se algo movesse a si mesmo, nele também residiria o
principio do seu movimento, se assim não fosse seria movido por outro. Se algo move-se a
si, deve também ser movido em “razão de si mesmo e não em razão de uma parte sua” 2,
ou seja, se algo se move por si mesmo, se move como um todo e não dependente de uma
de suas partes. Como é caso dos animais que são movidos, a partir do movimento de suas
partes. Todavia, Aristóteles no livro VIII da física, afirma que aquilo que se move deve ser
divisível e ter partes. De que maneira então, algo que é divisível pode ter o principio do
movimento em si como um todo, e não em uma de suas partes?
Para melhor explicitar a objeção dita acima consideremos os argumentos de Tomás,
pois como vimos àquilo que se move a si é primeiramente movido, logo se é também
divisível, o repouso do todo se segue do repouso das partes. Porém, se uma das partes
estiver em repouso, e outra se mover conclui-se que o todo não foi o primeiro a ser
movido, mas sim uma das partes, por aquela que estava em repouso. “Mas nada que
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repousa devido ao repouso de outro movimenta-se a si mesmo.” De maneira que, ao
repouso de uma, a outra também repousa, e que ao movimento de uma parte segue-se o
movimento da outra. Disso concluí-se que as coisas não se movem a si mesmas, já que

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Suma contra os Gentios, I, cap. XIII.
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Suma contra os Gentios, I, cap. XIII.
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Suma contra os Gentios, I, cap. XIII.

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dependem primeiro do movimento de uma parte, para que depois o todo se movimente.
Logo é necessário que a coisa seja movida por outro.
Outra proposição analisada por Tomás referente à primeira via, é a seguinte “Na
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série de moventes e movidos não se pode proceder indefinidamente.” Para demonstrar
isso ele nos apresenta os seguintes argumentos: Primeiramente, o filósofo diz que se
houver um processo ao infinito entre moventes e movidos, considerando que os moventes e
movidos encontram-se em uma ordem em que um é movido pelo outro, se o primeiro
movente é retirado todo o resto cessa de mover-se já que há uma relação de dependência.
Entretanto, se houver moventes infinitamente, não haverá um primeiro motor, mas apenas
moventes intermediários, que por sua vez, não se moveriam e consequentemente nada
mundo se moveria.
Tomás na Suma contra os Gentios apresenta mais um argumento para provar a
existência de Deus, tendo também como principio o movimento. Diz que “Se todo
movente se move tal proposição é verdadeira ou por si mesma ou por acidente.” 5, Se for
verdadeira por acidente não é necessária, visto que o acidente é algo que pode ou não ser
inerente à coisa, por outro lado que nenhum movente se mova é contingente, partindo do
principio de que contingente é aquilo que ora é, ora não é, ou seja, o não-necessário. No
entanto, se nenhum movente se move, nada será movido por ele, de maneira que também é
contingente que nada seja movido, pois se nada se move nada é movido. Todavia, como
afirma Aristóteles na Física, livro VIII, capítulo I, é impossível que em algum momento no
mundo não tenha havido movimento, dessa forma o primeiro movente não pode ser
contingente. Por outro lado vemos que “se duas coisas estão unidas por acidente em uma
terceira, e uma pode ser encontrada sem a outra, é também provável que esta outra possa
ser encontrada sem a primeira.” 6 Logo movente e movido estando unidos por acidente, é
possível que aquilo que move a coisa não esteja na mesma, é possível também que o
movente seja encontrado sem aquilo que move. Entretanto, mesmo que movente e movido
estejam unidos somente por acidente, de que maneira aquilo que move algo será
primeiramente movido? Será pelo mesmo tipo de movimento que movente e movido serão
movidos? Se assim fosse seria certo que, aquele que ensina algo seria também ensinado, o

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Suma contra os Gentios, I, cap. XIII.
5
Suma contra os Gentios, I, cap.XIII
6
Suma contra os Gentios, I, cap.XIII

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que é impossível já que quem ensina uma ciência deve primeiramente dominá-la.
Entretanto, se o movido tiver um movimento diferente do movente, existirão inúmeras
formas de movimento, considerando que há vários moventes e movidos intermediários e
que um move o outro. Dessa maneira prosseguiríamos ao infinito o que não é possível, se
assim fizéssemos suprimiríamos o principio do movimento, temos então que admitir que
haja um primeiro motor, que por sua vez, não é movido por outro extrínseco ao mesmo.
Admitindo que haja um primeiro motor que não é movido por algo extrínseco,
ainda assim não resultará que ele seja imóvel, Tomás então se fundamenta no argumento
aristotélico e propõe duas possibilidades acerca do primeiro motor, ou ele é algo imóvel ou
é algo que move-se por si mesmo. Entendamos por si mesmo algo que tem em si o
principio do movimento. Um exemplo são os animais, pois seu movimento advém de uma
de suas partes, no caso a alma. Entretanto mesmo sendo movidos por si, ainda assim são
entes corruptíveis no mundo, fazendo com que o movimento esteja unido a eles por
acidente, pois em um tempo eles existem e em outro não mais. Parece então que é
necessário que haja uma causa da geração e corrupção desses auto-moventes, e que por sua
vez seja também, causa da eternidade dessa corrupção e geração.
Dessa maneira os entes corruptíveis, mesmo que o principio do movimento esteja
neles, ainda assim dependem mediante a sua geração e corrupção de um ente que seja
infinito e eterno, e que por sua vez, não se mova nem por si e nem por acidente.
A prova de um motor imóvel decorre da premissa que Tomás usa como principio
do argumento, o que é movido é movido por outro. Este princípio mostra que o movimento
é secundário e dependente de um tipo imóvel de ser, como vimos acima. Em seu texto
Aquinas on God no segundo capitulo intitulado The First Thing to Know: Does God Exist?
Rudi Te Velde, dentre outros assuntos, faz uma breve analise do conceito de movimento
defendido por Aristóteles em seu livro da Física, e que por sua vez é utilizado na
argumentação de Tomás.
Faz-se necessária a análise do conceito de movimento dentro da presente pesquisa,
levando em consideração que o mesmo, é o principio básico para a formulação da primeira
via aqui discutida. Em sua obra The Metaphysical Thought of Thomas Aquinas, John
F.Wippel apresenta na terceira parte do livro, uma análise da primeira via que prova a
existência de Deus. Conseqüentemente o autor começa por explicitar o conceito de
movimento utilizado por Tomás na Suma Contra os Gentios e na Suma Teológica.

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Segundo Wippel, na SCG Tomás apresenta a primeira via que prova a existência de Deus,
baseada em dois argumentos que tem como principio o movimento. Primeiramente ele
analisa a proposição de que tudo o que se move é movido por outro, o conceito de
movimento aqui é advindo de Aristóteles, o qual considerava que mover era levar aquilo
que é potência a ato. Logo, aquilo que é potência só pode ser movido por algo que esteja
em ato, como já foi dito acima, a coisa não pode mover-se a si mesma, sendo assim
movente e movido, ato e potência simultaneamente. O segundo argumento parte de que se
algo se move é movido por outro e esse outro também necessita de um movente e assim
por diante, porém não se admite um regresso ao infinito nessa argumentação, de forma que
Tomás propõe que haja um primeiro motor imóvel, partindo aqui também de um principio
aristotélico. A partir disso, Wippel diz que o conceito de movimento em sentido estrito é
dividido de três modos; qualidade que consiste na alteração de algo, quantidade no sentido
de diminuir e aumentar algo e no movimento em um local. Tomado de maneira mais
abrangente o conceito de movimento é considerado como mudança nas substâncias que
consiste na geração e corrupção de algo. Wippel fala que Tomás parece usar de todos os
sentidos do conceito de movimento nessa primeira via, para explicitar a questão do
movimento. Porém, vimos que Tomás considera que movimento é a redução de potência a
ato, logo se vê que o conceito é empregado de forma estrita, desconsiderando a questão da
geração e corrupção que será na verdade tratada na terceira via da existência de Deus.
Wippel diz ainda que levando em consideração os dois argumentos de Tomás, ato e
potência e regresso ao infinito, o movimento é tomado em sentido estrito, mais
precisamente como movimento local e alteração das coisas.
As cinco vias são em geral consideradas metafísicas exceto a primeira, da qual trata
essa pesquisa, que parte de um princípio físico, o movimento. E é por partir desse principio
que é levantada uma argumentação contrária à via do movimento, baseada no conceito de
inércia. É na obra Aquinas on God mais precisamente no segundo capitulo intitulado The
First Thing to Know: Does God Exist? A partir da página 47, que Rudi Te Velde trata
desse assunto. A via do movimento, como já foi dito acima parte do pressuposto de que
tudo o que se move é movido por outro, já o principio da inércia tem como fundamento
que um corpo não precisa de outro para se movimentar ou continuar em movimento. Ou
seja, partindo disso a primeira via seria refutada cientificamente, no entanto Velde mostra
que o principio da inércia é fundado em leis físico-matemáticas, que por sua vez

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consideram movimento observando apenas o estado de um corpo. O argumento de Tomás
de Aquino que é baseado na definição de movimento Aristotélica, não considera
movimento apenas como o estado de um corpo, mas a mudança desse estado. Enquanto a
inércia considera que um corpo se movimenta essencialmente de acordo com a necessidade
que ele tem de uma força física, o argumento de Tomás acaba por ultrapassar essa
afirmação, pois para o filósofo um corpo está em movimento essencialmente por reação, já
que ele foi movido por outro que será dito Deus. Velde então mostra que o argumento de
Tomás apesar de partir de um principio físico, como o movimento, assume a posição de
um argumento ontológico, pois mostra que a causa desse movimento está em um plano
metafísico e não na realidade física. De maneira que a prova de Tomás acerca da existência
de Deus não pode ser negada tão facilmente por uma lei da física moderna.

REFERÊNCIAS

TOMÁS DE AQUINO. Suma Contra Os Gentios. Trad. D. Odilão Moura e Ludgero


Jaspers. Rev. Luis A. De Boni. Porto Alegre: Livraria Sulina Editora. 1990.
_____. Suma Teológica. Trad. Aimom - Marie Roguet et al. São Paulo: Loyola, 2001.
TORREL, Jean Pierre. Iniciação a São Tomás de Aquino. Trad. Luiz Paulo Rouanet. São
Paulo: Loyola, 1999.
VAZ DE LIMA, Pedro Henrique. Raízes da Modernidade. São Paulo: Loyola, 2002.
WIPPEL, John F.The Metaphysical Thought of Thomas Aquinas: from finite being to
uncreated being. Washington: The Catholic University of America Press.2000.
VELDE, Rudi A.te. Aquinas on God: The ‘Divine Science’ of the Summa Theologiae.
England: ASHGATE.2006.
ARISTÓTELES, Metafísica. Trad. Giovanni Reale.São Paulo: Loyola, 2005
TOMÁS DE AQUINO, Commentary on Aristotle’s Physics. Trad. Livros: I-II: Richard
J. Blackwell, Richard J. Spath & W. Edmund Thirlkel. Livros III-VIII: Pierre H. Conway,
O.P. Disponível em: http://dhspriory.org/thomas/ Acesso em: 01\04\2011.