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21/04/2018 Intervenção, violência e políticas de segurança em terra de Marielle

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UM RACISMO QUE GRITA

Intervenção, violência e
políticas de segurança em
terra de Marielle
ACERVO ONLINE | RIO DE JANEIRO

por Ronilso Pacheco da Silva

Abril 20, 2018

Imagem por Manu Cunhas

No Brasil, a estrutura social e de poder está profundamente


marcada pelo colonialismo, pelo escravismo e pela
segregação. Não é preciso que o assassino de uma
parlamentar negra deixe um bilhete escrito expressamente
“made by a racist”, para que se justi que falar de racismo
como parte integrante da motivação

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21/04/2018 Intervenção, violência e políticas de segurança em terra de Marielle

É típico no Brasil que a questão racial não faça parte da discussão. É


comum que quem queira introduzir, em qualquer debate, o recorte
racial, a menos que o racismo esteja explícito, seja visto como aquele que
“vê racismo em tudo”. Curioso, já que a questão racial sempre marcou o
Brasil e a composição da sociedade brasileira. A herança da história
colonial-escravagista do Brasil se espalha em toda história de nossa
formação social, e não estaria ausente da construção das políticas que
aqui são empreendidas. Não seria diferente com as políticas públicas
para a segurança. E não seria diferente para pensar a efetividade e os
rumos da intervenção federal-militar no Rio de Janeiro.

O que di culta identi car como políticas de segurança no Brasil sempre


foram, e são, construídas com per s racistas é que, na base, onde está a
ponta das ações de repressão e operações ostensivas e os confrontos
armados, brancos e negros se misturam. Diferente da segregação racial
nos Estados Unidos, ou do apartheid na África do Sul, no Brasil, o corpo
de policiais militares, ou de soldados do Exército, recrutados para
operações ostensivas de repressão ou controle em territórios pobres e
periféricos, são compostos de brancos e, majoritariamente, negros. Na
segregação americana, policiais que reprimiam manifestações pelos
direitos civis com cães, jatos d’água, cassetetes, socos e pontapés, eram
brancos. Policiais e soldados que mantinham negros e negras con nados
nos territórios periféricos sul-africanos, como Soweto, eram brancos.

No Brasil, essa imagem é impossível. Essa “mistura” acabou por mascarar


um poderosíssimo racismo estrutural, que jogou pardos e pretos aos
montes para as frentes de batalha no passado, e para as operações de
combate a violência de hoje. A cúpula, de Michel Temer à Walter Braga
Netto, é branca. No Brasil, o Exército tornou-se, para a parte mais pobre
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da população jovem e suas famílias, uma possibilidade de emprego


estável. Para muitos pais, ter o lho, saindo da adolescência, sendo
aceito pelas Forças Armadas torna-se o primeiro passo para que ele
tenha condições melhores que as suas. Ingressar nas Forças Armadas
sempre foi visto como um destaque pro ssional para as famílias dos
jovens de favelas e comunidades do subúrbio.

De racismo, defesa e armas

Guardada as devidas proporções, estamos na mesma linha temporal que


nos trouxe do período imperial, durante a Guerra do Paraguai (1865-
1870), em que o Exército era a “grande oportunidade” de negros se

“livrarem” da condição de escravizados. Negros alforriados sem rumo, e


sem perspectiva de um lado. Negros escravizados, com o açoite e a
tortura como companhias permanente do outro. A elite rica e branca,
que amava o país mas não a ponto de morrer por ele, mas enriquecer
explorando nele, entregavam negros escravizados em troca de si
mesmos e dos lhos. Não por acaso, o Comando do Exército rejeitou, em
2017, a proposta de criação de uma unidade militar com trajes históricos
que pretendia homenagear os soldados negros que lutaram na Guerra do
Paraguai. Em outras palavras, na Guerra do Paraguai, negro era para
morrer. Nos Estados Unidos ou na África do Sul, o racismo é uma ferida
aberta. No Brasil, o racismo é uma gangrena que corrói por baixo do
tecido social, do corpo social, e segue destruindo por dentro, até que
partes deste corpo sejam amputadas.

Como bem disse Achille Mbembe em seu Políticas da Inimizade, “de um


ponto de vista histórico, nem a república de escravos, nem o regime
colonial e imperial eram corpos estranhos à democracia” Não há porque
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colonial e imperial eram corpos estranhos à democracia . Não há porque
imaginar que a democracia como está sendo conduzida no Brasil seja
estranha a própria construção da ideia de democracia e quem dela
realmente faz parte. A ideia de segurança, ou seguridade, intrínseca na
democracia, vai recorrer permanentemente à disciplina e ao controle, ou
quando necessário, à repressão, contra o inimigo que a ameaça. É
preciso que haja sempre inimigos que a ameaçam. O racismo no Brasil

deu à política de segurança, ao longo da história brasileira, os seus


inimigos preferenciais. Diz ainda Mbembe que “está na natureza do
racismo a constante tentativa de não se esclerosar”, ou, em outras
palavras, o racismo, como um sistema estruturante e ciente, sempre
encontrará formas de se renovar, metamorfosear, mimetizar relações
equânimes, mas que na realidade concentram e mantêm profundas
desigualdades e injustiça.

Se nove em cada dez mortos pela Polícia Militar no Rio de Janeiro são
negros ou pardos, isto não está se dá por conta de uma maioria negra na
população, mas por uma orientação profundamente racializada para as
formas de agir, abordar, prender e matar. Uma intervenção federal séria
no Rio de Janeiro, já poderia ter sido feita, assim que estes dados foram
divulgados. Se o governo federal não intervêm nas forças de segurança
do Estado que mata nove negros, para cada uma pessoa branca, as
orientações e prioridades políticas sobre segurança estão mais
racializados do que nós imaginamos.

Quem matou Marielle

Aqui jaz Marielle Franco. Negra, mulher, lésbica, mãe, parlamentar.


Enquanto segue em torno de mistérios, o assassinato brutal de Marielle
Franco junto com seu motorista Anderson Gomes vai expondo
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Franco, junto com seu motorista, Anderson Gomes, vai expondo
simultaneamente, a partir do Rio de Janeiro, nossa brutalidade política e
nossa relação perturbadora diante da possibilidade de reconhecer o
racismo como um agente presente (e in uente). Nossa brutalidade
política é a ousadia de assassinar uma parlamentar (do Parlamento da
capital do estado) de uma maneira cruel e fulminante. Brutalidade
política que torna o jogo político no Rio de Janeiro não apenas
competitivo, mas também violento, com profundas relações
dissimuladas entre política-polícia-milícia. Brutalidade política nas
declarações de ódio e vingativas nas redes sociais contra Marielle, que
na verdade é contra um simbolismo maior. De desembargadora à
parlamentar-homem-cristão (mas branca, branco, sempre), o ódio a
tudo o que Marielle representava foi imediato e inconsequente,
espalhando falsas notícias, que mais do que as mentiras do conteúdo
nelas contido, diziam mais sobre o que seus divulgadores pensavam e
apoiavam.

Nossa relação perturbadora com o racismo está no desconforto causado


por aqueles que se indignavam (quando não tentavam diminuir ou
ridicularizavam) quando o racismo (bem como o gênero e a sexualidade)

eram postos como fatores integrantes das razões do assassinato da


vereadora. No Brasil, como dito no início do texto, nossa estrutura social
e de poder está profundamente marcada pelo colonialismo, pelo
escravismo e pela segregação. Não é preciso que o assassino de uma
parlamentar negra deixe um bilhete escrito expressamente “made by a
racist”, para que se justi que falar de racismo como parte integrante da
motivação. Esta justi cativa é histórica.

“Não foi por racismo”, mas Claudia Ferreira era negra. “Não foi por
racismo”, mas Amarildo era negro. “Não foi por racismo”, mas o jovem
Jeremias Moraes era negro “Não foi por racismo” mas Rafael Braga é
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21/04/2018 Intervenção, violência e políticas de segurança em terra de Marielle
Jeremias Moraes era negro. Não foi por racismo , mas Rafael Braga é
negro. “Não foi por racismo”, mas os cinco jovens de Costa Barros
fuzilados com 111 tiros eram negros. “Não é por racismo”, mas a cada 23
minutos um jovem negro é morto no Brasil. “Não é por racismo”, mas as
mulheres negras são as que mais morrem durante o parto no SUS. “Não
foi por racismo”, mas Marielle Franco era negra, e mulher, e lésbica, e
cria da periferia. O assassinato da Mariele é o ponto mais extremo da
cultura de hostilidade à mulher preta que no nosso arquétipo de
linguagem racista foi descrita como “negrinha abusada”. Não deveria ser
difícil considerar o racismo como parte da motivação de um assassinato
num país em que se mata tantos pretos e pretas.

No contexto da intervenção, o assassinato de Marielle Franco acabou


por dinamitar a possibilidade de uma ação que perderia força e atenção
depois de suas primeiras semanas. Antes de ter servido como um recado
aos movimentos sociais e ativistas pelos direitos humanos, o assassinato
da vereadora serviu como uma rajada de frustração em qualquer possível
teatro institucional do Estado sobre sua demonstração de controle. Não
há controle. E ao perdermos Marielle, também soubemos que não há (e
que não pode haver) silêncio. O silêncio e a conformidade deixaram de
ser opção.

Discutir a intervenção federal-militar, sem permitir que o recorte racial


emerja para nos orientar numa profunda percepção do que estão
fazendo com o, e no, Rio de Janeiro, é atenuar uma intervenção que
parece só ser pautada pelos números da violência. Não é, e nem pode
ser. Se não há um confronto com a realidade em que o racismo
estrutural aqui nos jogou, seguimos repetindo os erros de sempre. Aqui,
política de segurança pública levada à sério deve ser aquela que
reconhece os estragos que o racismo, fruto de nossa longa história
colonial-escravagista fez.
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colonial escravagista fez.

*Ronilso Pacheco da Silva é graduando em Teologia na PUC-Rio;


membro do Coletivo Nuvem Negra, formado por estudantes negros/as
da PUC-Rio; ativista, evangélico, participa também da Campanha pela
Liberdade de Rafael Braga Vieira desde o seu surgimento em 2013. É
autor do artigo “É hora de racializar o debate sobre o sistema prisional
no Brasil”, publicado no livro BR 111: a rota das prisões brasileiras (Le
Monde Diplomatique Brasil/Veneta, 2017).

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Mayara Nami Tamataya · ITB Brasílio Flores de Azevedo


Excelente artigo e ótimas colocações dos fatos, as unicas coisas que me incomodaram foi o uso
das palavras 'opção de sexualidade' e o fato de que você citou que ela era lésbica, mas depois
num contexto parecido falou que era bissexual dando uma certa contradição
Curtir · Responder · 17 h

Ronilso Pacheco · PUC-RJ


Você tem razão. Eu deveria ter editado e mantido. Foi um equívoco meu.
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