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ADVOCACIA-GERAL DA UNIÃO

PROCURADORIA-GERAL FEDERAL
PROCURADORIA SECCIONAL FEDERAL EM DUQUE DE CAXIAS

EXCELENTÍSSIMO SENHOR JUIZ DE DIREITO DA 1ª VARA CÍVEL DA


COMARCA DE BELFORD ROXO - RJ

Processo n.º 0026036-60.2017.8.19.0008


AUTOR: RONÃ MINEIRO

INSTITUTO NACIONAL DO SEGURO SOCIAL – INSS,


autarquia federal criada pela Lei nº 8.029/90 e regulamentada pelo Decreto nº
99.350/90, neste ato representado pelo Procurador Federal signatário, vem,
nos autos acima epigrafados, apresentar CONTESTAÇÃO, pelos motivos e
fundamentos adiante expendidos:

I – BREVE SÍNTESE DA DEMANDA

Pretende a parte autora a condenação do INSS a conceder-lhe


benefício auxílio doença previdenciário, alegando que é portadora de
inflamação de articulação, tendão ou músculo que lhe provocam incapacidade
para o exercício de sua atividade laborativa de bancário.

O pedido não merece acolhimento, como se demonstra a


seguir.

AV. Presidente Vargas, nº 96, 6º andar, Centro


Telefone (21) 3907-7880
Duque de Caxias – RJ CEP 25070-330
II - DO MÉRITO

II.1 - DO CASO CONCRETO

No caso dos autos, a parte autora recebeu o benefício de


auxílio-doença de 16/05/2017 até 15/12/2017. (extratos de benefícios em
anexo).

Registre-se que o benefício recebido pelo autor somente foi


cessado após a realização de perícia médica, com elaboração de laudo
pericial que concluiu que havia cessado a incapacidade laborativa
temporária decorrente da doença apresentada pela autora.

Registre-se que, mesmo o laudo médico (fl.37) confirme a


incapacidade, não há como comprovar a existência do Nexo Causal, já que
se trata de alterações degenerativas. (fl.32).
Vale ressaltar que os benefícios previdenciários e acidentários
têm por fundamento a incapacidade ou a redução da capacidade laborativa
decorrentes da lesão, sequela ou doença, e não a simples existência ou
presença de lesão, sequela ou doença.

Além disso, convém asseverar que o autor não comprovou


que a alegada incapacidade laborativa foi desencadeada em razão do
exercício de sua atividade laborativa, requisito essencial para a
concessão de qualquer benefício de natureza acidentária.

Portanto, como a parte Autora não comprovou o


preenchimento dos requisitos para a concessão de benefício acidentário,
especialmente a incapacidade laborativa e o nexo de causalidade entre a
doença e o exercício de sua atividade laborativa, impõe-se a improcedência
do pedido.

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II.2 - DOS REQUISITOS DO AUXÍLIO-DOENÇA, DA APOSENTADORIA POR
INVALIDEZ A E DO AUXÍLIO-ACIDENTE

A aposentadoria por invalidez e o auxílio-doença reclamam o


preenchimento dos seguintes requisitos:

a) a qualidade de segurado – tanto o art. 42, como o art. 59


fazem expressa menção à qualidade de segurado daquele
poderá vir a perceber tais benefícios; ostentam a qualidade de
segurado obrigatório da previdência social as pessoas físicas
elencadas no art. 11 da Lei 8.213/91; a manutenção e a perda
da qualidade de segurado é matéria tratada no art. 15 da LB,
cujo conteúdo será a seguir discutido; importante destacar,
desde logo, que somente fará jus às prestações
previdenciárias aquele que demonstrar que a enfermidade
que o acomete não é preexistente (não é anterior à filiação ao
RGPS), tendo surgido ainda no período em que mantinha a
qualidade de segurado;

b) carência – 12 contribuições mensais (art. 25, I da Lei


8.213/91). A carência, entretanto, será dispensada nos casos
de acidente de qualquer natureza ou causa e de doença
profissional ou do trabalho, bem como nos casos de segurado
que, após filiar-se ao RGPS, for acometido por alguma das
doenças e afecções especificadas em lista elaborada pelos
Ministérios da Saúde e do Trabalho e da Previdência Social a
cada três anos, de acordo com os critérios de estigma,
deformação, mutilação, deficiência, ou outro fator que lhe
confira especificidade e gravidade que mereçam tratamento
particularizado1 (art. 26, II, LB). Na verdade, esta carência

1
Até a seja elaborada a lista referida no art. 26, II da LB, independe de carência a concessão do
auxílio-doença e aposentadoria por invalidez as situações do art. 151 da Lei 8.213/91.

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somente é exigível para os segurados filiados ao RGPS após
24/07/91, data da promulgação da Lei 8.213/91, que
aumentou este período de 60 para 180 meses. Para os
demais segurados, há a regra de transição prevista no art.
142 desta Lei;

c) a incapacidade, insusceptível de reabilitação para o


exercício de atividade que lhe garanta a subsistência
(tratando-se de aposentadoria por invalidez), e ser-lhe-á paga
enquanto permanecer nesta condição, ou então, nos casos de
auxílio-doença, ficar constatada a incapacidade para o seu
trabalho ou para a sua atividade habitual por mais de 15
dias. Note-se que a incapacidade geradora do auxílio tem a
peculiaridade de ser temporária, e inviabilizar totalmente o
desempenho do trabalho habitual do segurado; diversamente,
se houver incapacidade total e permanente, isto é, estiver o
interessado incapaz de desempenhar qualquer tipo de
atividade que lhe garanta a subsistência, cabível seria a
aposentadoria por invalidez.

Ressalte-se que a incapacidade apta a gerar o auxílio-doença


ou a aposentadoria por invalidez há de ser total, não sendo possível o
deferimento caso haja capacidade para o trabalho, ainda que para executar
serviços mais leves. Portanto, a incapacidade meramente parcial não é
suficiente ao preenchimento dos requisitos legais dos benefícios
previdenciários. Nesta esteira, confira-se julgamento da Turma Recursal do
Paraná:

“II – Razões de voto: O laudo do Perito judicial, apresentado às


fls. 45/46, afirma que o autor continua trabalhando na lavoura, em
serviços leves, como ajudante (fl. 45).
A razão do indeferimento do primeiro requerimento administrativo

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decorreu da constatação da inexistência de incapacidade (fl. 18) e
posteriormente, constatada a incapacidade (fl. 28), o benefício foi
indeferido em virtude da perda da qualidade de segurado.
As informações do perito judicial registram que apesar do autor
não ter plenas condições de trabalhar como lavrador, está em
condições de executar serviços leves, como já vem fazendo
(quesito g – fl. 46).
Se o autor, neste momento, não está totalmente incapacitado,
ao tempo em que o benefício foi indeferido por ausência de
incapacidade, por certo, também o não estava, justificando
assim, o indeferimento do primeiro requerimento pela
Autarquia.
Inexistindo incapacidade à época da primeira perícia, o autor
não manteve a qualidade de segurado até a data do novo
requerimento, ademais, o laudo judicial de fls. 45/46 foi claro
quanto à inexistência de incapacidade total, ratificada pelo
próprio fato do autor continuar trabalhando no meio rural,
adaptando-se às suas limitações.
Portanto, o autor não manteve a qualidade de segurado,
tampouco existe incapacidade que gere direito ao auxílio-
doença e muito menos à aposentadoria por invalidez, sendo
possível a reabilitação profissional e tratamento médico, com
o alívio dos sintomas, caso existam. Deixo de ficar honorários
advocatícios porque sucumbente o recorrido, nos termos do art.
1º da Lei 10.259/01 c/c art. 55 da Lei 9.099/95. Do exposto, meu
voto é no sentido de DAR PROVIMENTO AO RECURSO, para
julgar improcedente o pedido, nos termos da fundamentação. 2”

Já o benefício de auxílio-acidente demanda a presença


cumulativa de três elementos essenciais à caracterização do acidente do

2
Autos n. 2002.70.01.028014-4, recorrente INSS – rel. Juíza Federal Cláudia Cristina Cristofani, v.u.,
d.j. 03/12/2003. No mesmo sentido foi também a decisão da C. Turma nos autos n.
2003.70.01.000505-8, dando provimento ao recurso do INSS e julgando improcedente o pedido do
recorrido, v.u., d.j. 03/12/2003.

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trabalho. Em primeiro lugar, o acidente, tomado este na acepção ampla; em
segundo lugar, que esse acidente provoque lesão corporal ou perturbação
funcional. Por fim, como terceiro elemento, que decorra a morte ou a perda
ou redução, reversível ou não, da capacidade para o trabalho.

Note-se que no caso das doenças do trabalho, que recebem


da legislação previdenciária tratamento equiparado ao dos acidentes típicos,
presentes os três elementos descritos, ainda assim, disso não decorre,
necessariamente, obrigação previdenciária de se conceder a prestação-
benefício denominada auxílio-acidente, já que a própria legislação traz
hipóteses não consideradas como doenças do trabalho.

Há ainda que ser atingido um quarto passo do iter normativo:


que a perda ou redução funcional irradie efeitos sobre a capacidade
laborativa específica, ou seja, que haja perda ou redução da capacidade
para o trabalho habitualmente exercido pelo acidentado.

II. 3 – DA DE INÍCIO DO BENEFÍCIO – DATA DA JUNTADA DO LAUDO


PERICIAL

Na eventualidade de a prova pericial atestar a existência de


restrição à capacidade ou mesmo incapacidade laborativa, convém registrar
que deve ser considerada a data da juntada do laudo pericial como data de
início do benefício.

Com efeito, diante da ausência de prova da incapacidade na


época da alta ou mesmo em períodos anteriores ao exame, deverá prevalecer
a presunção de legitimidade dos atos administrativos que determinaram a
cessação do benefício e negaram a concessão de pedidos subsequentes
por não constatação da incapacidade.

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Nesse sentido:

“RECURSO ESPECIAL. PREVIDENCIÁRIO. APOSENTADORIA


E AUXÍLIO-ACIDENTE. CUMULAÇÃO. DEFINIÇÃO DA LEI
APLICÁVEL. DATA DA JUNTADA DO LAUDO PERICIAL EM
JUÍZO. [...]
2. Em se tratando de incapacidade resultante de doença do
trabalho e inexistindo nos autos qualquer notícia da data do início
da incapacidade laborativa para o exercício da atividade habitual,
ou o dia da segregação compulsória, impõe-se a fixação do dia
do acidente na data em que foi realizado o diagnóstico, assim
considerada a data da juntada do laudo pericial em juízo. [...]
4. Agravo regimental improvido.”
(STJ - AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL –
631668 Processo: 200400226470 UF: SP Órgão Julgador: SEXTA
TURMA Data da decisão: 22/06/2004).

“PREVIDENCIÁRIO. AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO


REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. AUXÍLIO-DOENÇA.
MOLÉSTIA PRÉ-EXISTENTE À LEI N.º 9.528/97.
APOSENTADORIA DE 1993. CUMULAÇÃO. POSSIBILIDADE.
TERMO INICIAL DO BENEFÍCIO. DATA DA JUNTADA DO
LAUDO PERICIAL. [...]
2. Não havendo como precisar a data do início da moléstia, sendo
certo, entretanto, que foi anterior à lei nova, e reconhecido pelas
instâncias ordinárias o nexo causal, deve-se considerar como
seu termo inicial o dia da juntada do laudo pericial em juízo.
Precedentes do STJ.
3. Agravo regimental desprovido.”
(STJ - AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO REGIMENTAL NO
RECURSO ESPECIAL – 401285 - Processo: 200101917873 UF:
SP Órgão Julgador: QUINTA TURMA - Data da decisão:

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23/09/2003).

No mesmo sentido, entende E. Tribunal de Justiça do Rio de


Janeiro:

“(...) Se o obreiro suprimiu a via administrativa e veio


diretamente a Juízo pleitear beneficio por incapacidade
decorrente de doença do trabalho, o termo inicial do
beneficio tem que ser o da apresentação em Juízo do laudo
pericial atestador da sequela indenizável. (....)”
(TJRJ - 2000.001.01623, APELACAO CIVEL, DES. MIGUEL
ANGELO BARROS - Julgamento: 25/04/2000 - DECIMA SEXTA
CAMARA CIVEL)”

IV – REQUERIMENTOS

DIANTE DO EXPOSTO, requer a Vossa Excelência seja


julgado IMPROCEDENTE os pedidos, com a condenação do demandante
nos ônus da sucumbência e consectários legais.

Se eventualmente procedente o pedido, o que se cogita


apenas por força do princípio da eventualidade, requer o réu:

1 - seja observada a prescrição quinquenal (art. 103,


parágrafo único, da Lei n°. 8.213/91);

2- seja observada a limitação legal do valor do salário-de-


benefício e da renda mensal dos benefícios previdenciários
(arts. 29, § 2º, 33 e 41, § 3º, da Lei nº 8.213/91) em cada
competência, por ocasião da liquidação de sentença;

3- seja fixada DIB do benefício na data da juntada do laudo


aos autos e/ou aplicada a lei vigente à época do surgimento

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da lesão;

4 – seja eventual benefício indenizatório cessado na data da


concessão da aposentadoria;

Protesta por todos os meios de prova em Direito admitidos,


especialmente pela prova pericial médica e pela prova pericial de nexo causal.

Pede deferimento.

Duque de Caxias, 09 de outubro de 2017.

GUIDO ARRIEN DUARTE


Procurador Federal

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