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Universidade de São Paulo

Faculdade de Educação

O papel da escola e os
modelos de ensino na
Educação Infantil

Disciplina: Práticas Escolares, Diversidade, Subjetividade

Docente: Profa. Dra. Silvia M. Gasparian Colello

Discente: Michelly Vital da Silva N. USP: 6518130


Introdução

Este trabalho tem como intuito apresentar as experiências de ensino e


aprendizagem desenvolvidos por professoras e coordenadora do Centro Educacional
de Ensino – CEI São Joaquim (CEI é a nomenclatura que substitui “creche”), tendo
como foco de análise os modelos de ensino utilizados pelas professoras e o papel da
escola na aprendizagem dos alunos. Passando também por questões pertinentes a
todo âmbito de ensino-aprendizagem, tais como: planejamento de aula, relação
professor-aluno, formação docente e barreiras na educação.

Este CEI localiza-se na zona sul de São Paulo e pertence à Prefeitura. Nele as
turmas são divididas por faixas etárias da seguinte maneira: Berçário I (0 a 1 ano),
Berçário II (2 anos), Mini-grupo I (3 anos) e Mini-grupo II (4 anos), porém a pesquisa
teve como foco somente as turmas de berçário II, mini-grupo I e II.

Foram feitas observações em sala, entrevistas dirigidas e semi dirigidas, além


disso, algumas professoras nos forneceram fotos de trabalhos realizados que serão
anexados neste trabalho.
Pesquisa

Além das observações em sala, foram feitas as seguintes perguntas para cada
uma das professoras e suas respectivas turmas:

 Você poderia discorrer sobre alguma atividade que para você foi
pertinente e significativa para os seus alunos? Você pode apresentar
alguns tipos de registros, tais como: fotos; vídeos; anotações; ou a
própria atividade.

 Para você, o que garante um ensino e uma aprendizagem significativa?

 Quando você aplica uma atividade para os seus alunos, qual o caminho
que você percorre?

 Na escola em que você trabalha há formação contínua para os


professores ou todo o seu esforço em promover atividades significativas
é fruto de uma pesquisa pessoal?

 Para você, como deve ser a relação professor-aluno?

 Para você, há barreiras na situação de ensino atual que impeçam o


trabalho do professor e a aprendizagem do aluno?

Para a coordenadora pedagógica foram feitas as seguintes questões:

 Você poderia discorrer sobre como é o seu trabalho na de função


coordenadora pedagógica de Educação Infantil.

 Você oferece formação a esquipe docente? O conteúdo desta formação vem


de uma proposta dos seus superiores ou é você mesmo que prepara,
baseando-se na realidade do cotidiano escolar? Você acha que as professoras
tem dificuldade de assimilar os conteúdos propostos na formação?

 Para você, o que garante um ensino e uma aprendizagem significativa? E qual


papel da escola para que isto ocorra efetivamente?

 Para você, há barreiras na situação de ensino atual que impeçam o trabalho do


professor e a aprendizagem do aluno?
Desenvolvimento

Na primeira etapa da pesquisa solicitei que as professoras contassem um pouco


da sua rotina escolar e se possível, que elas descrevessem uma atividade realizada
nos seus determinados grupos de atuação, que foram significativas. A professora de
Berçário II descreveu uma atividade da qual as crianças fariam massagem umas nas
outras com um frasco de desodorante roll-on a fim de causar uma sensação de
relaxamento e ao mesmo tempo as crianças reconheceriam as partes do corpo. Para
isso a professora faria intervenções identificando as partes que estavam sendo
tocadas com o massageador. Em nenhum momento a professora citou que conversou
com os alunos sobre seus conhecimentos prévios sobre partes do corpo, ou propôs
que eles descobrissem por si mesmo o que poderiam fazer com o objeto utilizado para
massagem. A atividade surtiu aspectos positivos para alunos, como interação social,
relaxamento, porém não provocou uma situação problema e nem mesmo estimulou o
raciocínio da criança, simplesmente a criança foi direcionada pelos professores a se
massagearem. Se questionássemos esta professora sobre o modelo de ensino
utilizado nesta atividade, com certeza ela nos diria que se baseou no modelo de
construção do conhecimento, porém há indícios do modelo tradicional. CARRAHER
(1986, p. 15) discorre bem essa “falsa consciência” dos professores:

“Todos nós gostaríamos de encarar-nos como “progressistas”


ao invés de “tradicionais”, como estimuladores das
capacidades intelectuais ao invés de inibidores...”
(CARRAHER, Educação Tradicional e Educação Moderna,
Petrópolis, Vozes, 1986)

Para CARRAHER (1986), embora rejeitamos verbalmente as características do


modelo tradicional do conhecimento, ainda acreditamos nele e intuitivamente, no fundo
de nossa mente, achamos que a educação é a transmissão de informações, fatos e
técnicas, ou seja, a professora aplicou uma atividade rica, porém com pouca
significação para a criança e não estimulou de fato seu raciocínio.

Já a segunda professora de mini-grupo II apresentou uma atividade relacionada


à “contação” de histórias infantis. Ela relatou que desenvolveu um trabalho ao longo do
ano que permitiria que as crianças experimentassem diversos tipos de texto, além de
ampliar o conhecimento de mundo, palavras e estilos. Primeiramente a professora
listou um repertório já conhecidos pelos alunos e depois apresentou cinco histórias
que seriam contadas repetidamente durante todo ano. A atividade também consistia
na atuação das professoras como escribas, do qual elas escreveriam o que os alunos
contassem. Houve também caracterização dos personagens pelos alunos, ou seja,
dramatização da história e por fim ela encerra dizendo “Acreditamos que a atividade
esteja sendo significativa, pois, as crianças memorizaram alguns trechos”.

Nesta atividade, a professora de mini-grupo I, focalizou um dos aspectos


importantes ao modelo de ensino construtivista, o conhecimento prévio do aluno, ou
seja, procurou saber as histórias que seus alunos já conheciam antes de elaborar a
atividade propriamente dita. E nas palavras de WEISZ(2002, p. 24):

“Na concepção de aprendizagem que se tem chamado


construtivista – na qual o conhecimento é visto como produto
da ação e reflexão aprendiz – esse aprendiz é compreendido
como alguém que sabe algumas coisas e que diante de novas
informações que para ele fazem algum sentido, realiza um
esforço para assimilá-las. Ao deparar como questões que a ele
se colocam como problemas, depara-se também com a
necessidade de superação. E o conhecimento novo aparece
como resultado de um processo de ampliação, diversificação e
aprofundamento do conhecimento anterior que ele já detém.
Assim, sendo, é inerente à própria concepção de
aprendizagem que se vá buscar o conhecimento prévio que o
aprendiz tem sobre qualquer conteúdo. (Weisz, Começa com
Piaget, A construção de um novo olhar sobre a aprendizagem,
São Paulo, Ática, 2002, p. 24)

Na segunda etapa da atividade desenvolvida pela professora, ela se refere a


“repetição da história” ao longo do ano e mais no final afirma que a mesma foi
significativa porque os alunos “memorizaram” os contos. Ora, a memorização por
repetição é uma prática inerente ao modelo tradicional de ensino e segundo
CARRAHER (1986, p. 16), é comum nas atuações das professoras primárias a
insistência na importância da “fixação” pela repetição e a opinião de que a prática
repetitiva é a melhor maneira de garantir que o aluno aprenda o que tem que aprender
é lugar comum. O mesmo afirma que tal fato demonstra uma aceitação da ideia de
que a educação consiste na transmissão de informações e técnica.

A última professora entrevistada, de mini-grupo II, descreveu uma atividade que


trabalha a importância da alimentação. Nesta escola, as crianças de 4 anos
experimentaram o projeto self-service, ou seja, nas refeições almoço e jantar, as
crianças possuem a liberdade de se servirem na quantidade que quiserem e os
alimentos que mais saboreiam. Para tanto a professora realizou um preparo com
pesquisa de conhecimentos prévios dos alunos sobre alimentos saudáveis, sua
predileções e também trabalhou a coordenação-motora das crianças para que
aprendessem a utilizar talheres, copos e pratos. Todas as etapas foram pertinentes
para uma aceitação e acomodação da criança nesta nova maneira de se alimentar. A
situação problema foi posta a criança, pois agora ela teria que aprender a se servir
sozinha sem o auxílio total da professora, é claro que houve orientação e aqueles que
apresentaram dificuldades foram ajudados.

VASCONCELLOS (2010, pg.72) citando Piaget esclarece que o conhecimento


da realidade está diretamente relacionado com o desenvolvimento da inteligência
humana, que é construída num processo de contínua busca de um equilíbrio mais
abrangente e que para compreender os resultados dessa construção, seria necessário
compreender a dinâmica que se reorganiza em todas as fases do desenvolvimento
humano. Essa dinâmica citada por ele, funcional e estrutural, só foi possível após
esclarecimentos dos mecanismos adaptativos de assimilação e acomodação,
mecanismos complementares e interdependentes, fundamentados na teoria
piagetiana. A assimilação consiste em conhecer o mundo com as estruturas de
pensamento que o indivíduo já possui e acomodação implica na transformação; refere-
se às mudanças das estruturas existentes em função da influência do mundo físico e
social, que envolve objetos e pessoas.

No seu texto, VASCONCELOS(2010) dá um exemplo de assimilação utilizando a


ação de mamar da criança, ou seja, quando a criança mama pela primeira vez, um
novo elemento do mundo externo e incorporado ao esquema já existente, isto é, a
criança busca assimilar o seio da mãe com ao reflexo já existente de sucção.
Podemos falar que no caso da atividade sobre alimentação da professora do mini-
grupo II, é colocada um situação nova para criança, se antes ela comia com a ajuda
da mãe ou da professora, colocando comida em sua boca, agora ela fará todo o
processo sozinha utilizando o (self-service). A criança apresentará algumas
dificuldades e alguns aspectos serão modificados para que ela se acomode com tal
fato, processará aí uma acomodação, ou seja, transformação estrutural que permitirá
depois de vários exercícios uma “compreensão” da nova situação. Para
VASCONCELOS(2010):

“É exatamente o processo de modificação de estrutura


anteriores com vistas à solução de problemas que da origem
ao pensamento e à construção do conhecimento...”
(VASCONCELOS, O caminho cognitivo do conhecimento,
Curitiba, Melo, 2010, p. 73)

Das três atividades apresentadas, esta foi a que realmente apresentou


características do modelo construtivista em sua elaboração e desenvolvimento.
Em relação às para pergunta feita para as professoras e coordenadoras acerca
do que garante um ensino efetivo e uma aprendizagem significativa. O gráfico abaixo
ilustra a opinião das professoras:
A maioria das professoras responderam esta questão dizendo que toda atuação
do professor deve partir da necessidade de aprendizagem do aluno, assim a
aprendizagem seria significativa. Apenas uma professora respondeu que uma boa
relação professor-aluno e uma boa formação do professor garantiriam um bom ensino.

Umas das professoras relacionou o bom resultado da aprendizagem com a


adequação do conteúdo a faixa etária em questão e para OLIVEIRA (1995, p. 62), o
processo de ensino-aprendizado deve ser construído, então, tomando como ponto de
partida o nível de desenvolvimento real da criança – num dado momento e com
relação a um determinado conteúdo a ser desenvolvido – e como ponto de chegada os
objetivos estabelecidos pela escola, supostamente adequados à faixa etária e ao nível
de conhecimento e habilidade de cada grupo de criança.

Já a coordenadora pedagógica referiu se a revisão da pratica docente e


atividades mais atrativas para os alunos
A pergunta da qual se referia ao planejamento de atividades, a maioria das
professoras respondeu que considerava os conhecimentos prévios dos alunos para
assim desenvolver uma atividade mais desafiadora e que chamasse a atenção dos
alunos, mas em um dos planejamentos apresentados (berçário II) este conhecimento
prévio ficou de lado.
Em relação à pergunta de como deveria ser o relacionamento entre professores
e alunos. A maioria das professoras citou o vinculo afetivo como essencial para se
realizar um bom ensino e atingir os objetivos de aprendizagem.

Em relação à formação oferecida pela escola, a maioria das professoras disse


que ela ocorria de fato e tinha pontos positivos para a sua atuação em sala. Outras
afirmaram que é preciso buscar mais formações fora da escola, mas poucas
afirmaram que o fazem.
Também foi questionada a formação que a coordenadora fornecia a equipe
docente e a sua importância pra um bom andamento do ensino na escola em questão.
A coordenadora explicou que é fundamental que haja formação do professor, bem
como que o conteúdo discutido seja posto em prática pelas professoras. Ela revelou
que nem todas as professoras assimilam bem o conteúdo, até mesmo pelo cansaço
do trabalho, ou seja, não consegue estar concentradas totalmente no horário
destinado para isto. Nesta escola é desenvolvido um Projeto Especial de Ação com
temas escolhido pela equipe docente.
É importante ressaltar aqui a reflexão que COLELLO (2010) faz, acerca da
formação dos professores:

“De fato, o esforço, tantas vezes empreendido em iniciativas de


capacitação docente, para ‘encher a cabeça’ do professor com
as informações conceituais ou metodológicas que
supostamente lhe faltassem, hoje não se sustenta. Em lugar
disto, a autora, sem desmerecer o conhecimento formalizado
pelos cursos universitários ou de extensão, defende a
possibilidade de se aprender também com a realidade vivida,
lidando, no cotidiano escolar, com os conflitos e os significados
que brotam das experiências singulares...” (Colello, Para onde
vai a profissão docente, Madri, Caceu/OEI, 2010, p. 242)

COLELLO (2010) explicita aqui o quanto é importante o diálogo entre as


professoras e a troca de experiências vividas por elas, e esta formação feita no CEI
São Joaquim deveria também priorizar este aprendizado através da prática do
professor. Assim além da formação baseadas em metodologias de melhoria de ensino,
poderia se discutir a resolução de problemas apresentados dentro do cotidiano escolar
e da realidade dos alunos.

Em relação às barreiras da educação, nenhuma das professoras citou a sua


prática como algo que impede uma melhoria no ensino. Todos os fatos são externos a
prática docente.
Já a coordenadora pedagógica, citou além da estrutura escolar e
comprometimento de toda comunidade escolar, a revisão da prática docente:

Muitas das professoras apontaram a desvalorização do professor como uma


grande barreira à melhoria do ensino e em relação a este agravante COLELLO(2010)
afirma:

“ ...urge considerar tarefa docente não deve ser considerada


como uma ocupação (atividade remunerada que garante
sobrevivência) nem como um ofício (função para a qual as
pessoas se preparam tecnicamente), mas um exercício
profissional de quem supera a tarefa do bem ensinar. À
competência e a especialidade do professor, agregam-se a
formação humanista calcada em um amplo espectro cultural e
o compromisso ético e politico lhe permitem tomar decisões e
enfrentar desafios do nosso mundo. É neste sentido que se
pode, efetivamente, compreender o papel do professor e
valorizar a profissão docente.”(COLELLO, Para onde vai a
profissão docente, Madri, Caceu/OEI, 2010, p. 246)
Conclusão

Através deste trabalho podemos perceber o quanto o modelo de ensino


tradicional ainda está presente nas praticas educativas e o quanto é necessário uma
revisão de como se aplicar a formação docente. O modelo de ensino construtivista
ainda sofre algumas “distorções” pelos professores, coordenadores e instituições de
ensino, seja por falta de um bom preparo dos professores, ou pelo próprio
desconhecimentos dos interessados. O modelo tradicional ainda está muito enraizado
nas nossas concepções e é necessário um esforço não só dos centros universitários
que formam professores, mas também do próprio professor buscando seu
conhecimento.

O construtivismo citando CARRAHER (1986, p. 26), é um modelo que salienta o


a importância do raciocínio e do pensamento do aluno, ou seja, incentiva a criança a
pensar ao invés de apenas imitar.

Além disso, é importante que o professor também avalie a sua prática e busque
melhorias. Não podemos colocar a culpa das mazelas da educação apenas no
governo ou no sistema de ensino, precisamos rever o que estamos fazendo dentro da
nossa própria sala de aula.
Referências

CARRAHER, Educação Tradicional e Educação Moderna, in Carraher, T (org)


Aprender Pensando, Petrópolis, Vozes, 1986

COLELLO, Para onde vai a profissão docente, Madri, Caceu/ OEI, 2010.

Oliveira, Desenvolvimento e aprendizado, In. Vygotsky – aprendizado e


desenvolvimento um processo sócio- histórico, SP, Scipione, 1995

VASCONCELOS,O caminho cognitivo do conhecimento, in. Wanjnsztejn et al


Desenvolvimento cognitivo e aprendizagem escolar, Curitiba, Melo, 2010

WEISZ, Começa com Piaget, a construção de um novo olhar sobre a aprendizagem


( e textos seguintes), in. O dialogo entre o ensino e aprendizagem, São Paulo, Ática,
2002.