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RALPH SCHOENMAN

A A HISTÓRIA OCULTA DO SIONISMO


A verdadeira história da formação do Estado de Israel
INTRODUÇÃO: O LEVANTE

“Com cólera, com ódio e com autêntica ferocidade, sem retro-


ceder diante do fogo da artilharia dirigida contra eles, milhares
de adolescentes atiravam pedras contra os ocupantes israelenses.
Era algo mais que uma agitação popular... Era o princípio de uma
revolta popular.”1
Essa foi a descrição de Hirsh Goodman, correspondente do Je-
rusalem Post, para o levante da juventude palestina da Cisjordânia
e de Gaza em meados de dezembro de 1987.
Goodman escreveu essas observações às vésperas da gre-
ve geral de 21 de dezembro, que envolveu todas as comuni-
dades palestinas sob dominação israelense. O diário israelense
Ha’aretz descreveu essa greve como “uma advertência muito
mais grave do que os sangrentos motins das últimas duas se-
manas”.2
“Naquele dia”, escreveu John Kifner, do New York Times, “o
imenso exército de trabalhadores árabes, garçons, verdureiros,
1 FISHER, Dan. Los Angeles Times, Los Angeles, 20 dez. 1987.
2 FISHER, Dan. Los Angeles Times, Los Angeles, 20 dez. 1987.
A história oculta do sionismo 3

lixeiros, pedreiros, enfim, todos aqueles que executam os traba-


lhos não-especializados em Israel, ficaram em casa”.3
A resposta israelense ao levante foi brutal. O ministro da Defe-
sa, Itzak Rabin, ordenou o uso de tanques blindados e metralha-
doras contra uma população desarmada.
O jornal San Francisco Examiner citou Rabin, fazendo uma de-
fesa aberta do assassinato: “podem disparar contra os dirigentes
desta desordem”, disse, justificando a atuação do Exército, que uti-
lizou franco-atiradores com rifles calibre 22 para disparar indiscri-
minadamente contra os jovens palestinos.4
Rabin ordenou a revista de casa por casa em busca, em primeiro
lugar, de jovens e, depois, de qualquer um que pudesse ser castigado
para servir como exemplo. Por volta do dia 27 de dezembro, mais de
2.500 palestinos já haviam sido detidos, muitos deles crianças de 12
anos. No fim de janeiro esse número subiu para 4 mil e crescia sem
parar5. Cogitou-se a deportação dos “militantes”. Os cárceres israelen-
ses de alta segurança e os centros de detenção estavam superlotados,
e os processos em massa contra os palestinos tinham sido iniciados.
A brutalidade que mais indignou os palestinos foi que o Exérci-
to detivesse os feridos em suas camas nos hospitais. Esse compor-
tamento, habitual durante a invasão do Líbano em 1982, transfor-
mou o Hospital Shifa, de Gaza, em um centro de resistência. Gran-
des multidões se concentraram para defender os feridos, temendo,
com razão, que eles jamais fossem vistos novamente.
“Os jovens de Gaza e da Cisjordânia, onde a rebelião irrompeu”,
escreveu Hirsh Goodman, correspondente do Jerusalem Post, “não
tinham recebido nenhum treinamento terrorista, nem são mem-
bros de nenhuma organização terrorista. Na verdade, eles somente
pertencem a uma geração que cresceu sem conhecer outra coisa
senão a ocupação.”6
3 KIFNER, John. New York Times, Nova York, 22 dez. 1987.
4 San Francisco Examiner, São Francisco, 23 dez. 1987.
5 Depoimento dado ao autor em primeira mão no Campo Dheisheh.
6 FISHER, Dan. Los Angeles Times, Los Angeles, 20 dez. 1987.
4 Ralph Schoenman

Foi perguntado à mãe de um palestino assassinado com três


balas na cabeça pelos soldados israelenses se ela permitiria aos fi-
lhos que lhe restara participar das manifestações. Ao que ela res-
pondeu: “Enquanto eu estiver viva, ensinarei os jovens a lutar...
Não me importa o que aconteça comigo, desde que consigamos
nossa terra.”7
O prefeito destituído de Gaza, Rashad Shawaa, expressou o
mesmo sentimento:
“Os jovens perderam a esperança de que Israel jamais lhes reco-
nheça seus direitos. Consideram que os países árabes são incapa-
zes de fazer alguma coisa. Têm a impressão de que a Organização
de Libertação da Palestina (OLP) não conseguiu nada.”8
O comentário do correspondente do Los Angeles Times é mais
significativo ainda: “Este novo sentido de unidade foi uma das
mudanças mais surpreendentes para os observadores estrangeiros
e para os palestinos que não vivem em Gaza [...] É um fenômeno
que engloba as antigas divisões entre jovens e velhos e entre os que
trabalham e os que não trabalham em Israel.”9

Força, Poder, Surras


Diante da intensificação do levante, o governo israelense e o
ministro da Defesa, Itzak Rabin, aplicaram “castigos coletivos”, tá-
tica característica da ocupação nazista na França, na Dinamarca
e na Iugoslávia. Impediam que alimentos, água e remédios che-
gassem aos acampamentos de refugiados palestinos de Gaza e da
Cisjordânia. O pessoal da Agência de Ajuda aos Refugiados Pales-
tinos do Oriente Próximo da ONU (UNRWA, na sigla em inglês)
denunciou que dispararam ou deram surras nas crianças que iam
buscar leite em pó nos armazéns da ONU.
Casbah, onde vive mais da metade dos 125 mil habitantes de
Nablus, foi cercada com barricadas de concreto e portões de ferro.
7 KIFNER, John. New York Times, Nova York, 21 dez. 1987.
8 FISHER, Dan. Los Angeles Times, Los Angeles, 23 dez. 1987.
9 FISHER, Dan. Los Angeles Times, Los Angeles, 20 dez. 1987.
A história oculta do sionismo 5

Qabatiya e o campo de refugiados de Jenin, próximo ao local, fo-


ram colocados sob estado de sítio. No momento em que este relato
estava sendo escrito, o cerco, que cortou o acesso aos alimentos, à
água, ao combustível e à eletricidade, já durava 55 dias.
Um analista do Jerusalem Post explicava assim a política de Ra-
bin:
“A prioridade absoluta é o uso da força, a exibição de poder,
as surras. [Estas práticas] são consideradas mais eficazes que as
prisões... [porque] depois eles podem voltar a apedrejar soldados.
Porém, se a tropa lhes fere as mãos, eles não serão mais capazes de
jogar pedras [...].”10
No dia seguinte, os meios de comunicação informaram sobre
as surras selvagens promovidas por soldados em toda a Cisjordâ-
nia e Gaza. A narrativa de John Kifner é impressionante:

Nablus, Cisjordânia ocupada por Israel, 22 de janeiro: Com ambas as mãos engessa-
das, Imad Omar Abu Rub explicava em sua cama do Hospital Rafidiya o que aconte-
ceu quando o exército israelense chegou ao povoado palestino de Qabatiya.
“Entraram nas casas como animais, gritando” – disse o estudante de 22 anos da Uni-
versidade de Bir-Zeit. “Os soldados nos arrancaram de casa dando-nos pontapés na
cabeça e espancando-nos com as culatras de seus rifles.”
Então, ele foi levado a um edifício em construção onde os soldados puseram um
balde vazio em sua cabeça.
Vários soldados o derrubaram e agarraram seus braços – ele disse – de forma que
suas mãos ficaram sobre uma grande pedra. Outros dois lhe bateram nas mãos com
pedras menores até quebrar-lhes os ossos.
Estas lesões são produtos de uma nova política oficial do exército israelense: é a po-
lítica de massacrar os palestinos com a esperança de pôr fim à onda de protestos nos
territórios ocupados na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, que começou no início de
dezembro. No transcurso dos protestos, as balas israelenses mataram pelo menos 38
palestinos.
Na cama ao lado da do sr. Abu Rub, Hassan Arif Kemal, um estudante secundarista
de Qabatiya, de 17 anos, contava uma história quase idêntica.11

10 New York Times, Nova York, 21 jan. 1988.


11 KIFNER, John. New York Times, Nova York, 23 jan. 1988.
6 Ralph Schoenman

Os líderes do Partido Trabalhista e do Likud responderam em


uníssono ao coro internacional de protesto contra essas medidas.
O presidente Chaim Herzog declarou: “A alternativa a que esta-
mos expostos hoje [...] é acabar com essas revoltas ou permitir a
criação de um novo Teerã ou uma nova Beirute”.12
John Kifner dizia no New York Times:
“O primeiro-ministro, Itzak Shamir, e o ministro da Defesa, It-
zak Rabin, continuam defendendo sua política, declarando ambos
publicamente que o objetivo das surras era incutir nos palestinos
o medo do exército israelense”.
Shamir declarou que os acontecimentos haviam “rompido a
barreira do medo [...] Temos a tarefa de voltar a criar essa barreira e
conseguir que os árabes destas zonas voltem a ter medo da morte...”
E concluía dizendo que o levante jamais teria acontecido “se as
tropas tivessem usado as armas de fogo desde o primeiro momen-
to”13.

A resistência palestina cresce


A rebelião do povo palestino na Faixa de Gaza e na Cisjordâ-
nia englobou cada vila, cada cidade e cada campo de refugiados.
Crianças de até 8 anos de idade e idosos que chegam aos 70 ou
80 anos desafiam o exército israelense diariamente. Vilas intei-
ras, carregando bandeiras palestinas feitas de lençóis e retalhos,
marcham de forma desafiadora, cantando e gritando palavras de
ordem enquanto jogam pedras em soldados, que respondem ati-
rando com metralhadoras.
O Grande Levante – a Intifada – tornou-se o símbolo da na-
cionalidade palestina. E a brutal repressão, que no passado enchia
o povo de desespero, agora abastece sua determinação e vontade,
que engloba sua prontidão para morrer.
A represália israelense tem sido uma verdadeira barbárie. A re-
pressão caiu de forma particularmente selvagem sobre os campos
12 KIFNER, John. New York Times, Nova York, 27 jan. 1988.
13 KIFNER, John. New York Times, Nova York, 27 jan. 1988.
A história oculta do sionismo 7

de refugiados e os velhos quarteirões habitados pela população


empobrecida.
Por volta de abril de 1988, mais de 180 palestinos já haviam
morrido. O governo israelense admitia a prisão de 2 mil pessoas,
mas o número conhecido de prisões chegava a 4 mil. Contudo, o
número real era muito maior.
Fontes de Gaza e da Cisjordânia estabeleciam que o número de
detenções no fim de semana de 17 de março excedia a 13 mil. Bas-
sam Shaka’a, o prefeito deposto de Nablus, afirmava que somente
em Dhariyah – um acampamento construído às pressas e cercado
por arame farpado – encontravam-se mais de 10 mil detidos.
No campo de Balata, nos arredores de Nablus, e em Casbah,
mil pessoas foram presas no intervalo de 48 horas. A descoberta
de pessoas em covas – com tiros nas costas ou na nuca – foi relata-
da em vários vilarejos nas áreas de Gaza e da Cisjordânia.
Bassam Shaka’a descreveu da seguinte forma a violência das
unidades armadas israelenses:
“Em qualquer casa em que se entre, ouvimos relatos de famí-
lias cujos membros foram feridos ou presos. Comboios de ônibus
cruzam as ruas de Nablus seguidos por carros da Mossad – a polí-
cia secreta israelense. Unidades armadas vasculham casa por casa,
arrancando jovens de suas camas às 3 horas da manhã. Na medida
em que os ônibus se enchem, os soldados espancam os jovens rai-
vosamente, atingindo-os em suas cabeças, virilhas, queixos e cos-
tas. Gritos de agonia preenchem o ar.”
“Quando o exército faz suas rondas, seqüestrando os jovens
de suas casas, o povo se reúne nas janelas e telhados gritando em
uníssono: ‘Falistin Arábia, Thawra Hatta al Nas’r, Allah Akhbar’
[por uma Palestina árabe, Revolução até a vitória. Alá é grande] .”14
Bassam Shaka’a também descreveu as tentativas do exército
israelense de espalhar o pânico e o terror em Nablus e nas vilas
próximas:
14 SHAKA’A, Bassam. Conversações telefônicas com o autor entre 5 de
fevereiro de 1988 e 13 de março de 1988.
8 Ralph Schoenman

“Frotas de helicópteros sobrevoam Nablus durante a noite, des-


pejando sobre a cidade densa quantidade de um gás verde e tóxico.
O odor invade todas as casas. Unidades armadas lançam, aleato-
riamente, cápsulas da substância para dentro das casas. Médicos
do Hospital Ittihad relatam vários casos de morte e de ferimentos
pulmonares provocados por esse asfixiante produto químico – to-
talmente distinto do gás lacrimogênio – até o momento não-iden-
tificado.”
Entre as vítimas estavam, por exemplo, a avó da família Da’as
e o pai – com cem anos de idade – de Mohammad Irshaid, um
conhecido advogado de Nablus. Os soldados entraram na casa às
2h da manhã, destruindo a mobília e detonando uma cápsula do
nefasto gás verde, ao mesmo tempo em que impediam que a famí-
lia abandonasse a residência.
Duas crianças com 9 e 11 anos de idade, vestindo seus pijamas,
foram levadas pelos soldados, que faziam zombarias, obrigando
-as a engatinhar pelas ruas ao mesmo tempo em que as espanca-
vam e as forçavam a limpar os escombros.
Simultaneamente, o exército israelense voltava-se contra os
hospitais. Tanques blindados investiam contra as ambulâncias e
formavam bloqueios para impedir que elas chegassem até as casas
daqueles que haviam sido atacados pelo gás. Em numerosas ocasi-
ões, os soldados invadiram o Hospital Ittihad, em Nablus, aprisio-
nando os feridos e aqueles que desejavam doar sangue para seus
familiares. Até mesmo a sala de cirurgias foi invadida no momen-
to em que os médicos estavam operando seus pacientes.
Médicos foram espancados e equipamentos destruídos. Fami-
liares foram impedidos de entrar no hospital e os carros de médi-
cos e enfermeiros foram destruídos por soldados.
Enquanto isso, toda Nablus estava paralisada por uma greve
geral. Em todas as ruas, em todos os quarteirões da cidade, era
impossível ver sequer uma única loja ou local comercial em ativi-
dade. Enquanto o gás invadia a cidade, gritos e cantos preenchiam
a noite.
A história oculta do sionismo 9

Cápsulas de gás recuperadas por Bassam Shaka’a, Yousef al


-Masri (chefe do Hospital Ittihad) e pelo escritor norte-america-
no Alfred Lilienthal traziam a seguinte inscrição: “560 cs. Federal
Lab. Saltsburg, PA. USA MK2 1988”. Bioquímicos estão estudando
a propriedades desse gás à medida que as mortes aumentam.
John Kifner relatou em 4 de abril que “centenas de refugiados
foram tratados nas clínicas da ONU devido à inalação de gás”. No
dia 15 de abril, Kifner escreveu: “[...] o gás foi atirado dentro de ca-
sas, clínicas e escolas, onde os efeitos são particularmente graves”.15
Seu relato foi o primeiro, depois de quatro meses de uso dessas
armas químicas, a reconhecer o fato de que:
“Médicos da Agência de Ajuda aos Refugiados Palestinos do
Oriente Próximo da ONU (UNRWA, na sigla em inglês) verificam
sintomas não-relacionados com o gás lacrimogêneo, e a Agência
está buscando informações sobre os componentes do gás [...] para
produzir um antídoto [...] especialmente para os grupos mais vul-
neráveis [...] mulheres grávidas, os muito jovens e os idosos”.
Posteriormente, Kifner relatou: “Avisos nas cápsulas dizem que
o conteúdo pode ser letal”. De todas as partes de Gaza e da Cisjor-
dânia surgiram relatos de abortos involuntários, hemorragia vagi-
nal e asfixia que ocorreram depois do uso do gás.

Um ligeiro olhar sobre a selvageria


Um dos incidentes mais nefastos ocorreu na cidade de Qalqiya.
Soldados entraram na casa de trabalhadores, jogaram gasolina so-
bre seus corpos e atearam fogo. Seis trabalhadores foram cobertos
pelas chamas. Quatro das vítimas conseguiram sair do prédio e
rolaram pelo chão, arrancando suas roupas; duas delas ficaram se-
riamente queimadas e em estado crítico.
Em 20 de fevereiro, dois jovens foram presos em Khan Yunis,
espancados ferozmente e levados para uma praia, onde foram en-
terrados vivos na areia. Depois que os soldados partiram, morado-
res locais conseguiram desenterrá-los.
15 KIFNER, John. New York Times, Nova York, 4 e 15 abr. 1988.
10 Ralph Schoenman

Relatos na imprensa oficial dão uma pequena dimensão da es-


cala da brutalidade israelense. O relato de um soldado no jornal
israelense Hadashot, e citado na Newsweek, é um exemplo disto:
“Nós temos ordens para bater em todas as portas, entrar e reti-
rar todas as pessoas do sexo masculino. Os mais jovens são enfilei-
rados com seus rostos contra a parede, e os soldados os espancam
com seus cassetetes. Isto não se dá devido à iniciativa particular de
ninguém. Essas são as ordens de nossos comandantes.”16
Os relatos evidenciam que os protestos israelenses contra os
excessos praticados por soldados, isoladamente, são obviamente
falsos. A Newsweek revelou:
“Armados com cassetetes de madeira com cerca de 70 cm e
incentivados por seu primeiro-ministro para ‘recolocar o medo
entre os árabes’, os soldados israelenses têm espancado metodica-
mente os palestinos desde o início de janeiro, quebrando delibera-
damente seus ossos e espancando prisioneiros até que eles fiquem
inconscientes. As mortes incluem não somente homens jovens [...]
mas também mulheres. A maioria dos feridos foge dos hospitais,
com medo de ser detida.”
O fato de os feridos evitarem os hospitais tem impedido a rea-
lização de um relato preciso sobre os selvagens espancamentos em
vasta escala e as mortes produzidas por eles, mas um indício dessa
situação foi dado pelos informes de equipes médicas que inspecio-
naram os feridos nos hospitais no início de fevereiro de 1988.
A doutora Jennifer Leaning, professora da Escola de Medi-
cina de Harvard e especialista em traumas, relatou suas desco-
bertas:
“Há um padrão sistemático de ferimentos nos membros que
demonstra o claro propósito de provocar fraturas [...] um padrão
consistente de quebra dos ossos da costa das mãos e do meio do
antebraço que [...] advém da prática de manter as mãos ou os bra-
ços presos em um local e aplicar fortes pancadas no osso.”17
16 A soldier’s account. Newsweek, 8 fev. 1988.
17 LEANING, Jennifer. New York Times, Nova York, 14 fev. 1988.
A história oculta do sionismo 11

Dra Leaning e a equipe Médicos em Defesa dos Direitos Hu-


manos viajaram através da Cisjordânia e da Faixa de Gaza. Eles
concluíram: “É um padrão controlado. Um padrão sistemático
aplicado sobre uma vasta área geográfica. É como se ordens tives-
sem sido dadas.”
O relatório da doutora Leaning sobre os novos pacientes inter-
nados no Hospital Shifa, em Gaza, é categórico:
“Parece que eles foram atacados com marretas. O que é im-
pressionante é o número de fraturas por paciente. Parece que esses
pacientes foram jogados dentro de uma máquina de lavar roupas.
Eles [os soldados] mantiveram os pacientes no chão e espanca-
ram-nos sem parar.”
Legiões inteiras de jovens baleados deliberadamente nos
testículos foram verificadas no Hospital Shifa, em Gaza, e no
Hospital Makasaad, em Jerusalém Oriental. Soldados jogaram
água fervente sobre uma criança de 2 anos de idade, deixando-a
catatônica.

“Subjugando os protestos”
John Kifner, correspondente do jornal New York Times,
chamou as rondas sistemáticas de “parte de uma série de no-
vas e duras medidas, incluindo sanções econômicas e punições
coletivas, que o exército de Israel e outras autoridades estão
impondo na esperança de subjugar os protestos, que se trans-
formaram em um crescente e organizado movimento de mas-
sas palestino nos territórios ocupados da Faixa de Gaza e da
Cisjordânia”.18
As novas ordens do exército permitem detenções sem qualquer
tipo de acusação específica ou julgamento, mesmo em cortes mi-
litares. Além disso, de acordo com a edição do dia 23 de março do
New York Times, “os novos procedimentos afastam a possibilidade
de revisão das sentenças de prisões administrativas e permitem
que os comandos locais ordenem as detenções”.
18 KIFNER, John. New York Times, Nova York, 21 fev. 1988.
12 Ralph Schoenman

Imediatamente após o decreto, pessoas foram perseguidas dia e


noite em mais de uma dúzia de distritos de refugiados, vilarejos e
cidades da Cisjordânia e de Gaza.
O ministro da Defesa israelense Yitzhak Rabin anunciou que
os civis israelenses têm a mesma autoridade que os soldados para
atirar, acrescentando que os soldados não precisam fazer qualquer
tipo de aviso prévio antes de atirar em palestinos.19
A revista Newsweek foi ainda mais explícita: “O decreto signifi-
ca que os soldados israelenses podem atirar nos jovens palestinos
para matar [...] Yitzhak Rabin [estava], efetivamente, delegando
esse poder aos colonos.”20
A decisão, de acordo com a Newsweek, iria “abrir as comportas
da frustração contida de cerca de 60 mil colonos [sic]”.
Isso foi pouco antes de um novo ataque acontecer. No dia 6 de
abril, colonos envolvidos em um claro ato de provocação atiraram
a sangue frio em um palestino que estava trabalhando em seu pe-
daço de terra, nos arredores do vilarejo de Beita. A atenção, no
entanto, foi focada na morte de Tirza Porat, uma colona de 15 anos
que se encontrava junto com o grupo. Os colonos afirmaram que
Tirza Porat foi apedrejada até a morte pelos palestinos, mas uma
autópsia revelou que ela foi baleada na cabeça por um seguidor de
Rabbi Meir Kahane (fundador da Liga de Defesa Judia) que atuava
como seu guarda informal.
Apesar do relatório da autópsia, o primeiro-ministro Itzak Sha-
mir usou a ocasião para fazer a promessa solene de que os pales-
tinos “iriam ser esmagados como gafanhotos [...] com as cabeças
despedaçadas contra as rochas e as paredes”.21
No vilarejo de Beita, cenário do incidente, 30 casas foram ex-
plodidas. O número de casas destruídas foi confirmado por Ham-
di Faraj, um reconhecido jornalista palestino.

19 Los Angeles Times, Los Angeles, 23 mar. 1988.


20 Newsweek, 4 abr 1988
21 New York Times, 1 abr 1988.
A história oculta do sionismo 13

O surgimento de formas de auto-organização


O recente levante palestino desafiou o controle israelense de
forma mais intensa do que ocorreu nos últimos 20 anos. Toda a
infra-estrutura do domínio de Israel foi desbaratada. Espiões estão
pedindo perdão, confessando suas ações e expondo o aparato de
controle. Policiais estão renunciando aos seus cargos.
As Ligas dos Vilarejos, organizações de colaboradores isra-
elenses, entraram em colapso. O jornal Los Angeles Times afirma
que os desafios colocados pela “Direção Nacional Unificada do
Levante” levou à renúncia conselhos de municípios, cidades e vi-
larejos.
Antes do levante, 20 mil palestinos trabalhavam sob o controle
do exército e da polícia israelenses, prestando serviço na Cisjordâ-
nia e em Gaza. Eles eram professores, escriturários e administra-
dores. A maioria deles também renunciou.
Também de forma crescente, formas de auto-organização es-
tão emergindo na Cisjordânia e em Gaza. Os israelenses fecharam
as escolas; a resistência organiza as aulas. Os israelenses ordenam
a abertura das lojas; a resistência garante que elas permaneçam
fechadas. Os israelenses fecham as lojas, a resistência promove a
abertura delas.
Cisjordânia e Gaza estão presas em uma armadilha que a
Newsweek chamou de “arranjo colonial”. O periódico cita o demó-
grafo israelense Meron Benvenisti, ex-prefeito de Jerusalém, que
afirmou: “Os territórios ocupados transformaram-se em uma fon-
te de mão-de-obra barata e em mercado cativo para os produtos
israelenses”.22
Benvenisti também revela que o superávit comercial de Israel
com Gaza e Cisjordânia é de U$ 500 milhões ao ano. O governo
ainda arrecada mais U$ 80 milhões por ano com taxas cobradas
sobre os insignificantes serviços sociais que oferece. Os territórios
importam U$ 780 milhões por ano em produtos israelenses, ven-
didos por preços altíssimos.
22 Newsweek, 28 mar 1988.
14 Ralph Schoenman

Mas o levante mudou tudo, declara a Newsweek:


“Os palestinos têm algumas armas econômicas próprias. Milhares de trabalhadores
árabes há muito tempo abandonaram seus empregos em fazendas, fábricas e cantei-
ros de obras israelenses. Lojistas palestinos deixaram de comprar produtos israelen-
ses. Negociantes árabes e profissionais autônomos deram um golpe ainda mais di-
reto na ocupação: eles têm se recusado a pagar os impostos e as taxas comerciais
israelenses.”

Assim, como a Newsweek reconheceu o impacto econômi-


co se produz em duas direções. A indústria da construção in-
dustrial israelense, que retirava 42% de sua mão-de-obra dos
territórios ocupados, “foi paralisada pelas greves dos árabes”.
Hotéis em Jerusalém também relatam um profundo corte nas
reservas.
O ministro da Economia israelense, Gad Yaacobi, estimou que
os primeiros três meses de “distúrbios” custaram, “no mínimo, U$
300 milhões” à economia de Israel – 10% da ajuda econômica que
os Estados Unidos dão em um ano inteiro.

“Zonas liberadas”
Nenhum tipo de trégua pode ser esperada por Israel. As vilas
em Gaza e na Cisjordânia têm respondido de forma desafiante ao
bárbaro massacre promovido por Israel, declarando a si próprias
como “zonas liberadas”, levantando barricadas nas ruas e hastean-
do a bandeira palestina.
A Newsweek informa: “Seus protestos são habilmente coor-
denados através de panfletos publicados pelo nebuloso Coman-
do Nacional Unificado do Levante. Seus panfletos são a lei da-
quela terra.”23
Apesar da repressão brutal, a moral palestina nunca esteve tão
alta. Esse espírito talvez seja o fator de maior preocupação para o
Estado de Israel. O primeiro-ministro, Yitzhak Shamir, declarou à
televisão israelense:
23 Newsweek, 28 mar. 1988.
A história oculta do sionismo 15

“As pessoas que estão jogando as pedras, os incitadores, os líde-


res, hoje estão em uma situação de euforia, de grande entusiasmo.
Eles pensam que são os vitoriosos.”
O editor para o Oriente Médio do Jerusalem Post, Yehudi Lita-
ni, relatou que “as forças de segurança [israelenses] estimam que
o exército já deteve a maioria daqueles que, agora, estão liderando
o levante” – e mesmo assim o levante continua, os panfletos conti-
nuam a surgir e uma situação que se aproxima do pânico continua
a vigorar entre os líderes israelenses.
No dia 30 de março, Dia da Terra – o dia em que os pales-
tinos que moravam em Israel antes de 1967 protestam contra
o confisco de suas terras –, foi convocada uma greve geral de
palestinos que residem dentro das fronteiras existentes antes
de 1967. Essa ação reanimou a greve geral em apoio ao levante,
que foi levada a cabo pela primeira vez em 21 de dezembro de
1987.
A Direção Nacional Unificada do Levante nos Territórios Ocu-
pados convocou “enormes protestos contra o exército e as colô-
nias”, que coincidiram com a greve geral.
Pela primeira vez desde 1948, palestinos através do Líbano –
acompanhados por libaneses em Sidon, Beirute e outras cidades
– também protagonizaram seus próprios protestos e uma greve
geral em solidariedade ao levante.
O levante não galvanizou apenas os árabes israelenses, mas
também os palestinos da diáspora. A participação dos palestinos
do Líbano e de milhares de libaneses locais foi sentida em todo o
mundo árabe.
Essa nova fase da Revolução Palestina não deixou de ser per-
cebida pelas autoridades israelenses. Numa tentativa de conter a
coordenação entre os palestinos dentro da “Linha Verde” [as fron-
teiras anteriores a 1967] e os palestinos residentes em Gaza e na
Cisjordânia, os israelenses “lacraram” completamente estas últi-
mas duas áreas. Como declarou um graduado militar: “Já que a
Intifada [o Levante] está acontecendo tanto na Cisjordânia quanto
16 Ralph Schoenman

em Israel (grifo nosso), nós decidimos separar os dois e evitar a


desordem pública em larga escala”24
Já o ministro da Defesa Rabin disse: “Nós queremos deixar bem
claro que nós não iremos hesitar em usar quaisquer medidas que
sejam necessárias”.
Ariel Sharon, ex-ministro da Defesa e então ministro do Co-
mércio, anunciou que o levante “iria nos levar inevitavelmente
para a guerra com os Estados árabes e para a expulsão dos árabes
da Cisjordânia, de Gaza e da Galiléia”.25
Mas os palestinos, que já estão enfrentando o 40º ano de ocu-
pação desde a fundação do Estado de Israel, não foram intimida-
dos. A “guerra revolucionária” do povo palestino está recrutando
os corações e as mentes dos jovens em todos os países árabes e nas
capitais ao redor de todo o mundo.
Esse “espírito” foi totalmente captado em uma carta escrita por
membros da resistência clandestina palestina no território ocupa-
do da Cisjordânia, endereçada a uma manifestação realizada em 3
de março de 1988, em Paris, organizada por um comitê de defesa
dos direitos humanos na Palestina. Em um trecho, a carta afirma:

Caros amigos,
Nós estamos enviando esta carta desde nossa amada terra – nossa honrada terra,
uma terra de dignidade, de coragem e rebeldia –, de nossa Palestina, de nossa Jeru-
salém, a cidade sagrada.
Nós enviamos esta carta em nome de nosso povo; um povo paciente que hoje está se
levantando bem alto e conduzindo uma luta sem paralelos em toda a nossa história.
Nós queremos que vocês saibam que o povo palestino não foi derrotado. Eles estão
vivos. Eles estão lutando. Eles estão dizendo que não irão aceitar humilhação e sub-
missão.
A confiança de nosso povo é reforçada pela certeza de que a legitimidade desta luta é
imensa. E nosso povo sabe que a vitória é certa, sejam quais forem os sacrifícios, seja
qual for o preço que teremos de pagar.
Hoje, nosso povo está sofrendo. Eles estão derramando seu sangue para ganhar li-
berdade, dignidade e honra, o direito para determinar seu destino, o direito de viver

24 Los Angeles Times, Los Angeles, 29 mar. 1988.


25 New York Times, Nova York, 1 abr. 1988.
A história oculta do sionismo 17

em sua terra natal e de construir um Estado livre, democrático e soberano em toda


a Palestina.
Para todos os homens e mulheres livres, para todos os companheiros, nós dizemos
o seguinte:
O povo palestino tem sido vítima, durante muitas décadas, de um complô interna-
cional – com nefastos ataques – com o objetivo de exilá-lo e persegui-lo nas terras
em que eles têm vivido por séculos.
Nós fomos expulsos de nossas terras – terras que, agora, estão ocupadas por estran-
geiros em consonância com os objetivos do colonialismo e do imperialismo. Essa
colonização foi imposta pelas leis da opressão promovidas pelas nações do Ocidente
e pelos regimes totalitários do Leste. Estas leis opressivas também são as leis do Sio-
nismo internacional.
Nós fomos submetidos ao terror, ao assassinato, à tortura. Hoje, até mesmo os nos-
sos mais elementares e legítimos direitos são negados.
Eles tentaram nos transformar em um povo exilado, destinado a viver permanente-
mente em campos de refugiados. Eles tentaram nos destruir e nos eliminar.
Por meio das guerras de 1948 e 1967 eles impuseram a ocupação de toda a Palestina.
Mas eles esqueceram que, ao ocupar toda a Palestina, eles também unificaram todo
o povo palestino na sua luta contra a opressão.
É isso que está acontecendo hoje, quando as crianças, os velhos, as mulheres e os
jovens se levantam como uma única pessoa, sem armas, para enfrentar a máquina
militar do sionismo e do imperialismo – para enfrentar a violência das metralhado-
ras, dos cassetetes, dos seqüestros e dos assassinatos.
Nossas armas vêm de nossa terra natal. Elas são as pedras com as quais nosso povo
construiu uma muralha para defender seus combatentes e a Revolução.
Caros amigos: vocês deveriam saber o que está acontecendo em nossa terra natal.
Duas semanas atrás, as forças de ocupação enterraram oito jovens vivos, depois de
terem sido brutalmente espancados e seus membros quebrados. Quatro deles foram
salvos pela população; os outros quatro nunca foram achados.
Três dias atrás, as forças militares de Israel jogaram três jovens palestinos, ainda vi-
vos, de um helicóptero que voava em alta altitude. Um deles tinha 13 anos de idade.
É isso que eles estão fazendo atualmente com nosso povo.
Caros amigos: nós queremos que vocês saibam que nós rejeitamos todas as cha-
madas soluções e projetos de paz que algumas pessoas gostariam de nos impor por
meio das conferências internacionais. Nós queremos que vocês saibam que nós esta-
mos totalmente comprometidos em dar continuidade à nossa Revolução até a total
liberação de toda a Palestina, até o estabelecimento de um Estado livre e democrá-
tico de todos os palestinos, no qual todos os homens e mulheres livres, indepen-
dentemente de onde eles sejam, serão bem-vindos, contanto que eles aceitem viver
conosco, como iguais, na nossa terra Palestina.
18 Ralph Schoenman

Nós não estamos mais de joelhos. Nós estamos firmes sobre nossos pés. Nós não ire-
mos nos render. Nós acreditamos que é legítimo que exijamos ajuda e assistência de
todos os povos do mundo que estão lutando para se verem livres de toda opressão.
Nós solicitamos que vocês não somente falem em apoio à nossa luta em seus discur-
sos e protestos, mas também exijam que seus governos assumam uma clara postura
de oposição aos métodos repressivos e criminosos do sionismo. Nós solicitamos o
seu apoio moral e material para o povo palestino, que está lutando para obter sua
vitória final.

O povo palestino levantou-se e seu grito por emancipação está


mobilizando todas as massas pauperizadas dos países orientais
árabes. Reduzidos a uma condição de penúria por regimes corrup-
tos que venderam seus países, os povos do Egito, da Jordânia e da
Arábia Saudita começaram a responder ao extraordinário exem-
plo dado pelo povo palestino.
Talvez ainda mais significativo seja um detalhado relato feito
por Robert S. Greenberger, do The Wall Street Journal, descreven-
do o profundo efeito da Intifada entre as próprias massas judai-
cas, particularmente os judeus originários de países árabes, os
sefarditas.
Compondo, agora, cerca de 70% da população de Israel, seus
sentimentos estão mudando; em contraste com os radicais do Li-
kud (o partido no poder, em Israel), como Reuvin Rivlin – que
declara de forma execrável: “Eu acredito que Deus é judeu; eu
acredito que o problema demográfico será resolvido” –, os judeus
sefarditas estão dando uma resposta diferente à situação:

Os protestos esfacelaram o mito perpetuado pelo fundador do Likud, Menachem


Begin, e seu sucessor, o primeiro-ministro Itzak Shamir [...] Os sefarditas estão exi-
gindo serviços sociais e querem construir uma ponte sobre o abismo criado entre
ideologia e soluções práticas para o conflito árabe-israelense.
[...] Eles se preocupam mais com empregos, moradia e educação do que com a ma-
nutenção da fé em um Israel territorialmente inviolável.26

26 The Wall Street Journal, 8 abr. 1988.


A história oculta do sionismo 19

Henoch Smith, um norte-americano especialista em pesquisas


eleitorais, discutindo sobre o novo “desafio” colocado pelos sefar-
ditas, afirmou: “Este ano, pela primeira vez, eles irão contabilizar
51% dos votantes”.
Como a carta dos companheiros clandestinos atesta, o povo
palestino, auto-estimulado e com uma crescente confiança no po-
der da luta de massas, está solicitando “a ajuda e a assistência de
todos os povos do mundo que estão lutando para se ver livres de
toda opressão”.
Essa mensagem está começando a atingir os judeus israelenses.
Está para chegar o dia em que eles também irão procurar por um
futuro livre do Estado sionista, que tem combinado a subjugação
dos palestinos com a exploração dos judeus pobres.
Este livro tem como objetivo trazer à tona a história oculta do
sionismo, um movimento enraizado na ideologia da opressão ra-
cista por parte dos judeus e colonizadores da mesma estirpe. O
livro foi escrito em antecipação ao dia em que a dedicação e o fer-
vor do povo palestino – perseguido e oprimido por tanto tempo
– tocará os judeus, relembrando-os sobre sua própria dolorosa
história, com um programa para uma Palestina em que as vítimas
do passado e do presente irão criar juntas a Intifada do futuro e
derrubar um Estado baseado na opressão, na tortura, na expulsão,
na expansão e na guerra sem fim.

Ralph Schoenman
Santa Bárbara, Califórnia,
19 de abril de 1988.
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