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Produção de

Rádio
Produção de

Rádio
um Manual Prático

Magaly Prado
Consultoria Editorial

Prof. Dr. Luiz Fernando Ramos


Professor da Escola de Comunicações
e Artes da USP

4ª Tiragem
© 2006, Elsevier Editora Ltda.

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ISBN 13: 978-85-352-1936-4


ISBN 10: 85-352-1936-4

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CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte.
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ
_________________________________________________________________________
P918p Prado, Magaly
Produção de rádio: um manual prático / Magaly Prado. — Rio de
Janeiro: Elsevier, 2006. — 4a reimpressão.
il.

Inclui bibliografia
ISBN 85-352-1936-4

1. Rádio — Produção e direção. 2. Rádio — Programas. I. Título.

CDD 791.440233
06-1414 CDU 654.195
_________________________________________________________________________
Dedico este pequeno manual aos meus queridos alunos, que me dão
motivação para o exercício diário de descobrir qual é a melhor
maneira de passar toda minha experiência radiofônica, e também
como forma contínua de me especializar no veículo, seja no dial ou
fora dele, com dedicação à audição investigativa permanente para
estudá-lo e analisá-lo em suas diferentes possibilidades sonoras.

Naqueles que resolveram ler este livro, espero incitar a vontade de


fazer rádio inteligente e fora da mesmice que assola o dial.
Agradecimentos

Agradeço, em primeiro lugar, à minha filha Jacqueline Prado


Caverzan, seus comentários sobre o conteúdo do manual são pertinen-
tes e imprescindíveis. A Marcos Resende, com toques indispensáveis, e
a Maria Angélica Campos Resende, pela revisão cuidadosa.
Confesso-me imensamente grata ao responsável pela idéia de eu es-
crever o livro: meu grande amigo Ninho Moraes.
Agradeço também a Luiz Caversan, sempre me dando dicas precio-
sas. A Sérgio Amadeu, pelos toques no projeto inicial, e a Nando Ra-
mos, que o avalizou.
A Sérgio Rizzo, que me trouxe de volta à esfera acadêmica e estimu-
lou minha vontade de compartilhar meus conhecimentos.
E àqueles que, de uma forma ou de outra, incentivaram meus proje-
tos de pesquisa, como Laan Mendes de Barros, Sabina Anzuategui,
Sidney Ferreira Leite e José Eugênio Menezes.
E também a todos que me deram depoimentos.
Prefácio

(...) é preciso transformar o rádio, convertê-lo de aparelho de distribui-


ção em aparelho de comunicação. O rádio seria o mais fabuloso meio de
comunicação imaginável na vida pública, um fantástico sistema de ca-
nalização. Isto é, seria se não somente fosse capaz de emitir, como tam-
bém de receber; portanto, se conseguisse não apenas se fazer escutar pelo
ouvinte, mas também pôr-se em comunicação com ele. A radiodifusão
deveria, conseqüentemente, afastar-se dos que a abastecem e constituir os
radiouvintes como abastecedores. Portanto, todos os esforços da radiodi-
fusão em realmente conferir aos assuntos públicos o caráter de coisa pú-
blica são totalmente positivos.
BERTOLD BRECHT, 1926, Teoria do Rádio

Muitas ondas se propagaram entre 1926 e 2006. Oitenta anos depois,


o rádio não apenas se reinventa como, em alguns momentos, parece
cumprir, aos poucos e cada vez mais, a utopia democratizante insistente-
mente cobrada por Brecht, sobretudo em sua “reencarnação” sobre o su-
porte de tecnologias digitais.
Utópico ou não, Brecht pedia claramente que o rádio deixasse de
ser uma questão apenas de oferta e passasse a organizar os ouvintes como
produtores, ofertantes.
x • Produção de Rádio

Esta obra prática, inspirada na vivência jornalística e, acima de


tudo, no enorme prazer de produzir e ouvir rádio, certamente ajuda a
democratizar o “saber fazer”. Mais que um manual, Magaly Prado produ-
ziu uma referência para ouvir criticamente. É leitura agradável e desejá-
vel para produtores, mas também para ouvintes exigentes. Ajuda, como
queria Brecht, a organizar nosso ouvir. Afinal, como dizia o velho esteta
marxista:

Um homem que tem algo a dizer e não encontra ouvintes está em má


situação. Mas estão em pior situação ainda os ouvintes que não encon-
tram quem tenha algo para lhes dizer.1

Ora, é fato também que Brecht, em alguns momentos, advogava


nada mais que a instrumentalização antiburguesa dessa tecnologia e, no
limite, seu uso propagandístico. Nesse sentido, a distância entre Brecht
e os donos de rádios comerciais que assumem candidamente a inviabi-
lidade do rádio sem jabá é menor do que podem supor nossas vãs filoso-
fias. Tanto o comunista quanto o capitalista, no que se refere ao rádio,
não estão assim tão longe do fato fundamental que é perceber o enorme
potencial de mobilização, sensibilização e sedução dos cenários sonoros
(Hitler ainda é o exemplo mais eloqüentemente assustador).
O texto é fluido, sonoro. Magaly escreve como quem transmite um
programa de rádio.
Além das preciosas dicas e orientações, este livro pode e precisa ser
tão lido quanto ouvido. Radiomaker, jornalista, professora de direção e
produção de rádio no curso de Rádio e TV da Faculdade de Comuni-
cação Cásper Líbero e parceira em projetos de áudio da Cidade do

1. Cf. Zuculoto, V.R.M., “Debatendo com Brecht e sua Teoria do Rádio (1927-1932): um
diálogo sempre atual sobre o papel social e as potencialidades da radiodifusão”, trabalho
apresentado no V Encontro dos Núcleos de Pesquisa da Intercom e disponível em http://
www.carosouvintes.com.br/universidade/ValciZuculoto.pdf.
Prefácio • xi

Conhecimento da USP, Magaly escreve como fala e, assim, nos ensina


a ouvir.
Para quem vai produzir em rádio, os seus alertas carregam a respon-
sabilidade de quem assina um blog sobre o tema no UOL, antenada em
Eli Correia, Zé Betio e Tutinha, mas também nas rádios livres e educa-
cionais.
Em um momento em que a sociedade brasileira se debate (mais do
que propriamente debate) no fenômeno da “convergência digital”, esta
obra de orientação prática e inteligente contribui para a formação indis-
pensável de ouvintes, produtores e legisladores.
GILSON SCHWARTZ
Jornalista, economista e sociólogo, diretor da Cidade do Conhecimento
(www.cidade.usp.br) e professor do Departamento de Cinema, Rádio e TV da
Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo
Tudo roufenho, distorcido, arrombando os
ouvidos, era uma curiosidade sem maiores
conseqüências.
ROQUETTE PINTO,
sobre a primeira transmissão de rádio no Brasil,
na Praia Vermelha, Rio de Janeiro, 1922

O rádio é um problema inteiramente cósmico:


todo o planeta está ocupado em falar.
GASTON BACHELARD
Pensador francês
Introdução

Quando fui convidada para lecionar Produção de Rádio no curso de


Rádio e TV da Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero, per-
cebi que não existia literatura brasileira específica para incluir e propor
na bibliografia básica da disciplina para auxílio dos alunos. Muitos livros
tratam de diversos assuntos referentes ao rádio, porém nenhum autor
brasileiro dedicou espaço para tratar exclusivamente da produção, tarefa
das mais importantes no meio. Portanto, resolvi com este manual abor-
dar as principais atividades com as quais um produtor de rádio se depara
no decorrer da vida profissional.
Inicialmente, atento para um detalhe esclarecedor (que pode soar es-
tranho para aqueles que estão iniciando carreira radiofônica e não sa-
bem exatamente o papel de um produtor): não há uma função específi-
ca que defina o trabalho de um produtor. O que existe são diferentes
atribuições designadas ao profissional, dependendo da rádio em que tra-
balha. Ou seja, se estiver em uma emissora de grande porte, poderá diri-
gir uma equipe numerosa de produção executiva; se trabalhar em uma
emissora pequena, deverá acumular outras funções que cabem a diver-
sos profissionais do rádio, como programador, locutor, entre outros.
Mas o que importa é entender a responsabilidade do produtor na
consecução do produto final, no que é levado ao ar. Mal sabem os ou-
xiv • Produção de Rádio

vintes que depende dele, muitas vezes somente dele (outras responsabi-
lidades envolvem diretores, comunicadores), o conteúdo que está sendo
transmitido, com todas as suas nuanças, desde a parte técnica (que deve
ser controlada para ir ao ar de forma impecável) até a plástica (que pode
desagradar a audiência se estiver mal escolhida). O timing (fundamental
para dar a dinâmica da atração), a voz do apresentador (que precisa es-
tar afinada e aveludada) e, por fim, o mais importante: o conteúdo (que
deve primar pelo ineditismo, pertinência e, principalmente, credibili-
dade) também são de sua responsabilidade.
A idéia que norteou a realização deste trabalho é passar alguns
macetes do dia-a-dia de um produtor, supondo que ele seja um “faz-
tudo” dentro da emissora em que trabalha, o que ocorre na maioria das
vezes. Existem casos em que a emissora tem uma estrutura em que as di-
versas atividades são bem divididas e hierarquizadas na equipe de pro-
dução. Se o leitor deste manual exerce a profissão de produtor em uma
estrutura similar, desconsidere as inúmeras tarefas que serão elencadas
para um mesmo profissional. Pode-se desmembrar as tarefas, se preferir,
e aproveitá-las, se quiser. Boa sorte e bom trabalho!
A AUTORA
Capítulo 1

Diferentes Programas e Produtos

Existem diferentes tipos de emissoras: jornalísticas, musicais, popula-


res, educativas, religiosas e as chamadas jovens ou adultas. Há também
as segmentadas: em classes sociais, em faixas etárias, e ainda as dedicadas
a determinados gêneros musicais. Muitas delas unem alguns desses tópi-
cos em um só.
Um exemplo é a Gazeta FM, de São Paulo, uma rádio musical que
possui uma audiência maior entre os jovens, principalmente da classe
social C, focada em gêneros populares, como samba, pagode, axé, serta-
nejo-romântico e ainda um pouco de pop-rock comercial. Outro exem-
plo é a rede CBN (AM e FM), jornalística em quase toda a sua grade
(salvo retransmissão do “Programa do Jô”, da TV Globo, na madruga-
da), que atinge principalmente as classes A a B adultas, com ouvintes
acima dos 30 anos.

Jornalísticos
A maioria das emissoras possui produtos jornalísticos em diferentes
proporções, espalhados também de diversas formas dentro das grades de
programação. Algumas dedicam mais tempo ao noticiário, com ou sem
2 • Produção de Rádio

esmero, enquanto outras o utilizam como uma obrigação, tamanho é o


descaso com que tratam as notícias.

Informação alheia
Infelizmente, é muito comum ouvirmos nas rádios informações lidas
da imprensa escrita ou de sites da Internet, em geral, exatamente como
foram publicadas. Em muitos casos, nem citam os créditos, o que de-
monstra falta de ética e prática não-recomendável, além de abominada
por grande parte da classe jornalística.

Copy-paste
É dever dos profissionais de rádio apurar as próprias notícias com uma
equipe de jornalistas ou comprar material informativo pronto de agências
de notícias especializadas. A prática do copy-paste (cortar e colar textos
alheios) ou do antigo gilette-press (quando radialistas recortavam as notí-
cias dos jornais) é criminosa, e o ato de plagiar dá cadeia para quem o
exerce. A maioria das empresas de comunicação faz radioescuta (mo-
nitoração do noticiário instantâneo de emissoras de rádio).

Fontes próprias
Vamos a um exemplo: no dia 7 de julho de 2005, logo após as ex-
plosões das bombas no metrô de Londres (Inglaterra), os sites de notí-
cias da Internet começaram a publicar informações sobre os atentados
terroristas. Provavelmente, nesse caso, um veículo ajuda o outro na
continuidade da notícia. Portanto, a produção de noticiários deve ir
atrás de novidades, furos de reportagem (quando ninguém mais tem a
informação), enfim, das informações do dia-a-dia. Se, por ventura, co-
lher a notícia de outros veículos, deve checar e apurar com fontes pró-
prias, procurando sempre trazer algo novo. O ideal é dar crédito ao au-
tor quando for necessário utilizá-lo e, de preferência, citar a data e o
veículo do qual foi tirada a informação.
Capítulo 1: Diferentes Programas e Produtos • 3

Por exemplo: Conforme noticiado na edição de hoje da coluna


“Zapping”, de Fabíola Reipert, no jornal Agora S. Paulo, Marcelo Rezende
troca de TV...

Especialistas
De modo geral, jornalistas são especializados por assuntos. Assim,
quem cobre esporte não cobre política, ou quem faz crítica cultural não
analisa a economia etc. Dessa forma, cabe à produção exigir material
quente e exclusivo do departamento jornalístico da emissora para cada
tema em pauta.

Agências
Se a rádio for pequena e não possuir uma equipe especializada, tente
convencer a direção a comprar pelo menos um resumo de um dos inú-
meros noticiários em tempo real disponíveis no mercado: não é tão caro
quanto manter uma equipe própria e é politicamente correto anunciar a
notícia com respeito ao ouvinte. Afinal, como confiar na fonte alheia?
E se ela falhar? Como cobrar? Se vier da agência que lhe oferece o noti-
ciário mediante pagamento, a exigência é possível e aceitável.

Exemplo

Vamos supor que o radioescuta ouviu em outra rádio a notícia da demissão


de José Genoíno da presidência do PT, na manhã do sábado, dia 9 de julho de
2005, e veio reportar.
O que a produção deve fazer?
Quais são os passos para recuperar a notícia e esquentá-la?
Com quem o produtor poderia repercutir a informação que acabou de ouvir
na emissora concorrente?
4 • Produção de Rádio

São várias as possibilidades de ação:


1. Levantar os diferentes vieses da produção de um boletim informativo sobre o
ocorrido, de forma a não somente copiar o que já foi informado, mas princi-
palmente acrescentar dados ainda não abordados.
2. Tentar obter a todo custo a declaração do próprio José Genoíno explicando os
motivos de sua renúncia.
3. Convocar, de imediato, os colunistas de política da emissora para comentários
e análises.
4. Relacionar os nomes levantados de outros políticos do partido, da oposição,
dos envolvidos no escândalo da corrupção, de quem está cotado para entrar
no seu lugar, de cientistas políticos, de estudiosos do PT, da população indig-
nada, entre outros que formam opinião.
5. Distribuir os nomes entre a equipe para que cada um deles possa ir atrás dos
depoimentos. Escalar quem vai para a rua fazer a enquete com o povo.
6. Enquanto isso, determinar pesquisa minuciosa sobre a vida política de
Genoíno, dentro e fora do PT. Pesquisar também os envolvidos no caso: as-
sessores, parentes etc.
7. Providenciar a preparação de um texto que explica a crise atual desde o co-
meço, passando pela saída de José Dirceu da Casa Civil, até os últimos acon-
tecimentos, como a história da mala cheia de dinheiro no Ceará etc.

Depoimentos gravados e material pesquisado

Para a edição do material, analisar o que chegou das gravações, desde a veri-
ficação das sonoras, se estão tecnicamente audíveis, até o descarte daquelas que
não prezaram por um conteúdo a contento e a ênfase nas melhores e nas mais
bombásticas.

Distribuição

Em relação à redação do roteiro do programa, deve-se saber dosar de forma


ágil informações históricas e atuais, depoimentos dos envolvidos, repercussão e
enquete na rua.
Capítulo 1: Diferentes Programas e Produtos • 5

Auge

Claro que se a emissora conseguisse uma declaração do presidente da Repú-


blica, Luiz Inácio Lula da Silva, sobre a saída de José Genoíno, o boletim estaria
completo. Nesse caso, se a emissora possuísse um correspondente na Escócia
cobrindo as reuniões do G8, poderia acioná-lo para conseguir a sonora de Lula.

Noticiários
O estilo é uma maneira muito simples de dizer coisas complicadas.
JEAN COCTEAU, cineasta francês

Se existir uma equipe na emissora, o produtor deve solicitar primei-


ro as manchetes dos principais jornais do país e, dependendo da rádio,
pode incluir as manchetes dos principais jornais do mundo.
Em seguida, deve pedir de cada editoria (economia, política, espor-
tes, cidades, cultura, saúde, educação etc.) o resumo das notícias rele-
vantes do dia. Se houver apenas uma, fique com essa, não será preciso
“encher lingüiça” com assunto requentado que não é o do dia. É prefe-
rível não falar nada a anunciar um fato velho. Com o material da equi-
pe em mãos, relacione as notícias de maior interesse do público daquele
programa ou horário e coloque-as na ordem para serem lidas pelo apre-
sentador. Cada notícia deve estar em uma folha separada.

Linguagem
A linguagem do texto varia conforme o público de cada emissora:
obviamente se a rádio é popular, os termos não devem ser rebuscados e
de difícil compreensão para o grande público.
Seguem alguns exemplos: não é preciso usar sepultamento, use en-
terro; no lugar de teenager, basta dizer adolescente; no lugar de justiçar,
assassinar; conhecido como, em vez de vulgo; olhar, em vez de contem-
plar e muitos outros termos que merecem um capítulo à parte.
6 • Produção de Rádio

Por outro lado, não é porque a emissora fala para um público popu-
lar que devam ser usados certos termos chulos como “sapatão”, “boiola”,
“maricas”, use simplesmente “homossexual”. Ao relatar que manifestan-
tes de uma passeata gritavam “político filha da...”, basta dizer que os ma-
nifestantes xingavam o político; não use palavrões, mesmo os mais usuais.
Existem ouvintes tradicionais que certamente vão reclamar.

Economês
Costumamos ouvir que o “economês” é o linguajar dos economis-
tas e que somente eles entendem os termos da economia. Assim como
os médicos, que utilizam denominações científicas que só eles enten-
dem. Isso se dá em diversas outras profissões. Cabe ao produtor alertar
o entrevistado para “traduzir” os termos para que os leigos possam
entendê-los. Volto a falar sobre o “economês” na seção sobre progra-
mas de economia.
Normalmente os manuais de redação trazem listas de termos técni-
cos tanto de economia quanto de medicina e outros, como termos jurí-
dicos etc. Por exemplo, em uma entrevista à rádio Trianon AM, de São
Paulo, o dermatologista Ademir Jr. explicou que nem todo careca sofre
de alopecia. A calvície masculina é um dos tipos de alopecia (essa infor-
mação pode ser colhida no manual de redação). A leitura de manuais
de redação dos grandes jornais do país e de algumas rádios (a maioria
não tem) é praticamente obrigatória para que o profissional se torne um
bom produtor.
Manuais também imprimem a linha de conduta da emissora. Co-
nheça um exemplo:

Nossa missão é informar com correção, prestar serviços e fiscalizar os po-


deres. Toda a programação da Rádio Eldorado deve levar em conta o in-
teresse do OUVINTE, nosso cliente. É ele quem ‘compra’ a Eldorado.
É o OUVINTE quem determina a qualidade do nosso trabalho, é ele
Capítulo 1: Diferentes Programas e Produtos • 7

que nos confere audiência. O número de ouvintes — aliado à qualifica-


ção deles — determina o êxito da emissora na área comercial junto ao
nosso outro cliente, as empresas anunciantes.
Rádio Eldorado – Procedimentos Internos, p. 2.

Suíte
Preste atenção às suítes. Quando um assunto rende o que falar por-
que é importante ou porque se descobre mais detalhes do que já havia
sido informado, ele vira uma suíte. Nesse caso, retome o que já foi dito
em uma espécie de resumo, faça um pequeno balanço de como anda o
tema, ou seja, em que pé está, e dê novas informações. É normal dizer
que tal assunto “deu suíte” porque voltou à pauta do dia.

Pequenas entrevistas
Certos programas não utilizam material do jornalismo, preferem co-
lher as principais notícias e repercutir com especialistas. Então, entra em
cena o produtor, com a sua agenda, e aciona os experts em cada tema
para conversar com o comunicador. Outras emissoras costumam ouvir
os comentaristas da própria casa. Portanto, em determinado assunto, o
colunista conversa com o comunicador. Em qualquer um dos casos, o
produtor precisa providenciar uma pesquisa detalhada sobre o assunto
para que a conversa se desenvolva.

Outro lado
Sempre que houver necessidade, não deixe de ouvir e incluir espe-
cialistas nos dois lados da história. Por exemplo: denunciaram que um
produto alimentício está contaminado. Conversar apenas com quem de-
nunciou não basta, deve-se ouvir também um responsável pela marca
do produto acusado de contaminação. Se não conseguir a sonora, deixe
claro que a produção entrou em contato e não obteve retorno. Se não
8 • Produção de Rádio

houver tempo de checar com os dois lados, deve-se esperar para não
correr o risco de ser parcial.

O princípio do contraditório é básico no jornalismo. Jamais permita que


um tema seja discutido sem que sejam oferecidas às partes envolvidas as
mesmas oportunidades para argumentações e justificativas. Se duas opi-
niões são muito divergentes, convide os dois lados a debater publicamen-
te na emissora. Quando uma das partes não puder ser ouvida, deixe cla-
ro o motivo que levou a essa situação.
MILTON JUNG, Jornalismo de Rádio, p. 107.

Entre aspas
Como no rádio não dá para usar o recurso das aspas, evite dizer:
“abre aspas” e depois “fecha aspas”. Basta falar “segundo Fulano...”, ou
simplesmente “disse Fulano”.

Credibilidade
O principal programa jornalístico [da rádio Nacional] tinha patrocínio da
companhia petrolífera Esso e produção da United Press. As notícias
eram lidas em frases curtas, na terceira pessoa, sem citações textuais ou
entrevistas gravadas. A credibilidade do “Repórter Esso” chegou a tal
ponto que, uma semana antes da capitulação alemã, um telegrama
anunciando o fim dos combates — que, na verdade, prosseguiam ainda
em Berlim — foi veiculado, em edição extra, pelo “Cacique no Ar”,
programa noticioso da rádio Tupi, dos Diários Associados, a notícia foi
recebida em silêncio; porém, quando a rádio Nacional anunciou — e
era verdade — o fim da guerra na Europa, badalaram-se os sinos de to-
das as igrejas, os automóveis buzinaram e pessoas se abraçavam na rua,
muito alegres.
NILSON LAGE, Teoria e Técnica do Texto Jornalístico, p. 165.
Capítulo 1: Diferentes Programas e Produtos • 9

Boletins
O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem. O tempo res-
pondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto o tempo o tem-
po tem.
(Retirado do site Contadores de Histórias –
http://br.geocities.com/contadores_ufgs/parlendas.htm)

Os boletins são pequenos programas, programetes ou “pílulas”


(dropes). O que todas as denominações querem dizer é que se trata de
um programa de curtíssima duração, que pode durar alguns minutos ou
até menos de um minuto.
Algumas emissoras estipulam a duração máxima de seus boletins. O
que é consenso entre a maioria dos dirigentes é que nada com mais de
três minutos deve ir ao ar. A explicação para essa determinação é que é
preciso supor que nem todos os ouvintes se interessam por todos os as-
suntos. Então, mesmo que o tema seja considerado importante para uns,
para outros pode não ter a menor relevância. Sendo assim, para que o
ouvinte não troque de estação, os boletins não devem ultrapassar três
minutos. Uma opção, caso o assunto renda mais tempo do que isso, é
intercalar as sonoras com outros programetes, para que não fique exaus-
tivo para quem não deseja ouvi-las.

Sonora
Se o material já está gravado, cabe ao produtor editá-lo em vários
“takes” (ou sonoras) de menos de três minutos e espelhá-los pela pro-
gramação. Deve-se retomar o assunto para lembrar o ouvinte de que ele
está acompanhando tal tema, que vem sendo desenrolado desde tal
hora, sinalizando que o ouvinte ainda ouvirá mais sonoras sobre o mes-
mo assunto. Vale ressaltar a importância do tema em questão para justi-
ficar o fato de incluir mais de um boletim sobre o mesmo assunto.
10 • Produção de Rádio

Entrevista no estúdio ou por telefone


Se o assunto estiver sendo disparado ao vivo, com algum convidado,
os cortes podem continuar acontecendo da mesma maneira. Basta expli-
car ao convidado o esquema de alternância e avisá-lo do procedimento.
Se o tema estiver sendo desenvolvido pelo telefone, também é pos-
sível que se intercalem outros temas; nesse caso, porém, os intervalos
devem ser menores.

Reportagem externa
Com equipe de reportagem na rua, o repórter, sabendo da minu-
tagem, corta a conversa. Caso isso não ocorra, quando possível, o apre-
sentador do programa acaba por interferir fazendo o corte. Os breaks ser-
vem para introduzir outros assuntos, veicular comerciais, apresentar de-
mais quadros etc. O repórter pode voltar minutos depois com mais uma
sonora sobre o mesmo assunto. Dessa forma, não fica cansativo para
quem não se interessa pelo tema abordado.
Não cabe ao produtor definir o trabalho do repórter; quem faz isso
é o pessoal do jornalismo propriamente dito. Porém, existe uma “troca
de figurinhas” a respeito dos assuntos cobertos pela reportagem, para
que se verifique o que interessa mais ao programa específico que o pro-
dutor comanda.
Por exemplo: a produção é de uma atração voltada para as mulhe-
res, e a reportagem externa está na fila de um posto de saúde, no qual a
população feminina pode receber atendimento pré-natal. Obviamente,
a indicação é que, para determinado programa, sejam feitas tantas sono-
ras quantas forem pertinentes para utilização. Muitas vezes, o próprio
produtor sugere que sejam feitas determinadas perguntas, de forma a guiar
o repórter para o que for melhor para seu programa.

Grau de interesse
Pode-se até mesmo guardar algumas sonoras para veicular durante a
semana, quando o assunto não é pontual e sim corriqueiro. Já se o pro-
Capítulo 1: Diferentes Programas e Produtos • 11

grama não é dirigido à mulher especificamente, basta uma sonora para


informar e ponto. O grau de interesse deve ser determinado pelo produ-
tor do programa. É ele quem sabe quando o assunto foi ao ar antes, se
faz pouco tempo ou não, para que volte a ser abordado com mais ou me-
nos intensidade.

Reunião de pauta
A determinação sobre que assunto vai interessar ao ouvinte é defi-
nida na pauta, com a equipe de jornalismo.

O jornalismo trafega informação nova, ou, ainda que antiga, desconhe-


cida do público — e, portanto, só então revelada. O critério de seleção é
o interesse jornalístico, difícil de definir porque varia com o fluxo da his-
tória e a ideologia, entendida como a maneira como a sociedade ou gru-
po social representam a realidade para si mesmos.
NILSON LAGE, Teoria e Técnica do Texto Jornalístico, p. 162.

Dependendo da emissora, o produtor participa da reunião de pauta


diária para saber o que a equipe de jornalismo está preparando para o
dia. Não é raro que ele, por conhecer o retorno dos ouvintes, aconselhe
uma ou outra pauta, sabendo do retorno que pode provocar.
Se o produtor não participa da reunião de pauta, ele pode e deve re-
ceber o roteiro da localização dos repórteres para incluir ou não reporta-
gem externa em algum momento do programa. Assim, ele entra em con-
tato com o chefe de reportagem ou direto com o repórter (varia conforme
a emissora) para dar as coordenadas do que exatamente quer enfocar.

Espírito colaborativo
O produtor pode estar fora do seu horário de trabalho, ou até longe
da emissora, mas, se por ventura se deparar com algum acontecimento
12 • Produção de Rádio

que mereça reportagem, deve acionar imediatamente a equipe da rádio.


Pode até mesmo colher as primeiras impressões do ocorrido, caso a equi-
pe de externa demore a chegar ao local. Muitas vezes, o fato é de inte-
resse da emissora e não exatamente da atração que comanda. Mesmo
assim, deve possuir espírito colaborativo e informar o departamento de
jornalismo da rádio em que trabalha.

A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve


fazer do seu próprio conhecimento.

Filósofo grego PLATÃO

Entrevistas
Sempre que possível, faça entrevistas pessoalmente. Elas rendem
muito mais quando se está cara a cara com o entrevistado. A conversa
flui de forma mais descontraída. Afinal, por telefone, não se vê o rosto
da pessoa e a entrevista tende a se encurtar automaticamente. Quan-
do o entrevistado aceita que o entrevistador vá até ele é sinal de que
terá tempo disponível o suficiente para valer a pena o deslocamento
do repórter.
Conheça um caso típico para exemplificar a importância do relacio-
namento cara a cara. César Faria roubou a cena na entrevista do filho,
Paulinho da Viola, e a conversa ficou ótima. Como contado na entre-
vista que fiz com Vicente Adorno, em novembro de 2005:

O Paulinho, na verdade, é uma pessoa reservada, tímida. Mas o César


Faria fala com conhecimento de causa e tem um alto-astral cativante.
Não tem como não gostar dele. Ele acabou falando mais na entrevista
do que o próprio filho.
Capítulo 1: Diferentes Programas e Produtos • 13

Quebrar o gelo
Com mais tempo, o repórter pode planejar melhor o que perguntar.
Se precisa fazer perguntas delicadas, com grande chance de o entrevis-
tado se recusar a responder, pode deixá-las para o final. Assim, no co-
meço ganha confiança fazendo perguntas mais amenas, porém bem for-
muladas, com ganchos pertinentes. Não se deve formular perguntas bo-
bas só para quebrar o gelo. Apenas deixe os assuntos mais leves para o
início; isso já é suficiente para esquentar o bate-papo.

Pilha fraca
Não se esqueça de checar o equipamento de gravação, se está com
os apetrechos necessários e em condições de gravação. É muito desagra-
dável, depois que fez a entrevista inteira, descobrir que não gravou nada.
Leve suprimentos suficientes (pilhas extras, fitas, MDs, seja o que for)
para gravar o tempo que for necessário. Também é bem frustrante gra-
var só metade do papo por falta de material.
Aliás, nunca se sabe se vamos nos deparar com alguma figura impor-
tante que mereça uma entrevista; portanto, o bom profissional deve ter
sempre equipamento necessário para uma entrevista de emergência.
Nesse caso, vai do bom conhecimento geral do radialista saber desen-
volver uma entrevista a contento. Por isso e por inúmeros outros moti-
vos, o radialista deve estar sempre atualizado: informar-se das notícias,
seja em jornais, Internet ou rádio, é fundamental. De qualquer forma,
mesmo estando atualizado com o noticiário, toda e qualquer entrevista
precisa de uma pauta prévia.

Lição de casa
Todo entrevistado merece respeito e isso, em muitos casos, quer di-
zer que o radialista precisa conhecê-lo, mesmo que seja em suas mais re-
centes atuações. Uma cuidadosa pesquisa sobre a pessoa deve ser reali-
14 • Produção de Rádio

zada com a maior antecedência possível, pois pode-se descobrir, com ela,
diversos temas para enriquecer a pauta da entrevista.
Depende do esquema de trabalho de cada rádio, mas algumas exi-
gem que o diretor, ou o coordenador, leia a pauta das principais entre-
vistas da programação. Assim, ele pode acrescentar perguntas ou limar
aquelas que, por ventura, ache inconvenientes.

Tento conhecer bem a pessoa e o assunto. Às vezes ajuda muito você fa-
lar com alguém que já entrevistou a pessoa, para ver se tem algumas ma-
nias, ou assuntos que você não pode tocar. Outras vezes, eu pergunto di-
retamente ao próprio entrevistado: avisando que eu gostaria de tratar de
tais e tais temas, existe algum que o senhor não queira falar? E simples-
mente a gente não toca. É uma deferência que você tem que fazer com a
pessoa, porque ela se dispôs a ser entrevistada, então você tem que mos-
trar respeito também.
Vicente Adorno, em entrevista à autora, novembro de 2005.

A primeira providência é descobrir exatamente como a pessoa se


apresenta. Se é conhecido pelo nome completo, se o apelido é mais usual
que seu nome, ou se o diminutivo de seu nome é corriqueiro. De qual-
quer forma, o radialista não deve chamá-lo de forma íntima, se assim
não for conhecido.
Por exemplo, Gustavo Kurten é conhecido no Brasil inteiro como
Guga, então não é preciso chamá-lo de Gustavo. O caso mais caracte-
rístico dessa regrinha é o do presidente Luiz Inácio Lula da Silva: seu
apelido foi incorporado ao nome. Outro caso é o da Xuxa: a maioria das
pessoas nem sabe o verdadeiro nome da apresentadora; então, não é ne-
cessário chamá-la pelo seu nome, salvo na abertura, se houver necessi-
dade (vai depender do teor da conversa). No caso do Marcelinho Ca-
rioca, não é recomendável chamá-lo de Marcelo, já que o jogador é co-
Capítulo 1: Diferentes Programas e Produtos • 15

nhecido pelo nome no diminutivo, seguido de seu apelido. Não se deve


utilizar o termo carioca, por exemplo, só porque o entrevistado é do Rio
de Janeiro, como Miguel Falabella, o Miguel carioca.
É preciso tomar cuidado com alguns apelidos, Roberto Carlos, por
exemplo, não gosta nada de ser chamado de Rei. Tente evitar também
os apelidos muito batidos, como Rainha dos Baixinhos, da Xuxa. Cada
nome na sua época certa. Nem preciso dizer que não se deve chamar
Gabriela Duarte de Namoradinha do Brasil, porque ela nunca ocupou o
posto deixado por sua mãe, Regina Duarte. E também imagino que esse
não seja seu objetivo profissional.

Nome e sobrenome
Se o entrevistado não é conhecido do grande público, deve-se apre-
sentá-lo inicialmente pelo nome completo e depois pelo sobrenome. Por
exemplo, Sergio Mendonça pode ser chamado de Mendonça.
É usual se dirigir ao convidado pelo seu sobrenome e isso tem lógica.
Se o entrevistado chama-se Pedro Sampaio, ficará mais bem identifica-
do por Sampaio, do que por Pedro. Além de soar menos íntimo, exis-
tem muito mais Pedros do que Sampaios.
Quando se trata de mulheres, o mesmo não soa bem. Nesse caso,
mesmo sendo Maria Sampaio, escolha chamá-la de Maria e alterne
com seu nome completo. Em alguns casos, os nomes devem ser pronun-
ciados completos porque são mais conhecidos dessa forma. É o caso da
atriz Sônia Braga. Ninguém a conhece como Sônia simplesmente, mas
também não dá para chamá-la de Braga.
Quando o entrevistado é destacado com seu sobrenome, deve-se
manter assim, como Beto Lee, não chamá-lo de Roberto, ou só de Beto,
nem de Roberto Lee. No caso de ser filho de alguém famoso, é reco-
mendado falar de quem é filho. Por exemplo, Beto Lee é filho de Rita
Lee e Roberto de Carvalho; no entanto, basta uma vez e de preferência
no começo, na apresentação.
16 • Produção de Rádio

Pronúncia de nomes e palavras estrangeiras


Erro grave é pronunciar errado o nome do entrevistado, convidado
ou ouvinte. Se houver dúvida, é preciso checar antes. Nomes estrangei-
ros devem ter suas pronúncias checadas e anotadas ao lado, entre pa-
rênteses. Não confie tanto em seu conhecimento das línguas estrangei-
ras: muitas vezes as pegadinhas nos trapaceiam. O ideal é verificar esses
detalhes antes de falar com o participante — é um dos pontos da pes-
quisa. Caso não dê tempo, ou a conversa seja de última hora, não te-
nha receio de perguntar ao entrevistado como se fala seu nome. Ele sen-
tirá mais confiança em você, pelo seu cuidado e profissionalismo. É pre-
ferível perguntar antes a passar pelo constrangimento de ser corrigido
no ar. Se o convidado tiver sobrenomes bem complicados de pronun-
ciar, escolha o mais simples. Porém, nunca o chame pelo primeiro nome,
por exemplo, John, só porque os sobrenomes são difíceis de falar.
Alguns apresentadores pedem para que coloquem entre parênteses a
pronúncia de palavras estrangeiras. Nesse caso, todo cuidado é pouco;
por isso, o ideal é ler antes de falar. Certa vez, ao anunciar o nome de
um músico, o locutor cometeu uma gafe no ar: “Você ouviu de Charles
Yves (pronuncia-se Aives).” Ou seja, ele leu inclusive o que estava den-
tro dos parênteses!
Perguntei ao jornalista Vicente Adorno, da Rede Cultura, que traba-
lha com jornalismo internacional, como ele faz no dia-a-dia para saber a
pronúncia das palavras estrangeiras. Confira algumas de suas dicas:

Um dos meus mestres, o Fausto Canova, costumava dizer assim, “bom,


eu acho que está certo, se eu não estiver, alguém me corrija”. Uma coisa
que recomendo muito, por exemplo, quando a gente sabe que vai ao ar um
noticiário sobre a Alemanha, aconselho a dar uma ligadinha para o consula-
do da Alemanha e perguntar como se pronuncia, ou o consulado polonês.
Aqui em São Paulo, tem uma porção de pessoas que trabalham há muito
tempo na área consular e eles nos atendem com a maior boa vontade.
Capítulo 1: Diferentes Programas e Produtos • 17

Outra dica é perguntar para alguém do lado. Não se pode ter vergo-
nha de perguntar. Tem que ter vergonha de falar errado.

Se não achar quem fale, dizer no ar: olha estou falando esse nome assim
porque eu acho que é assim, porém não achei ninguém que me ensinas-
se, se alguém souber e puder me dar um retorno, eu agradeço (...).

Uma coisa que eu canso de falar e que as pessoas não prestam atenção,
aliás, o William Waack também diz isso, e ele fala muito bem o ale-
mão, é que a palavra “bunker” é alemã, não é americana. E os locuto-
res falam pronunciando o U como Ã. O correto é pronunciar com U
mesmo. Em português se traduz como casamata, um termo militar, uma
fortificação ultrapoderosa (...).

Foi com um nome árabe que eu dei uma mancada. A gente nunca sabe
direito se é paroxítona, ou proparoxítona ou oxítona. Inclusive porque o
árabe é uma língua muito estranha, apesar de termos várias palavras de
origem árabe, como almofada, que é muito comum e as pessoas não sa-
bem que vem do árabe. Eu só comecei a melhorar um pouco quando al-
guns árabes passaram a ligar para a rádio avisando que eu estava pro-
nunciando vários nomes errados, e eu pedi, então, que me ensinassem.
Anotei o telefone deles e todas as vezes que tem um nome que eu não
saiba, eu ligo para eles.
VICENTE ADORNO, em entrevista à autora

O radialista da Rede Cultura conta que conhece o Mamede, um


professor de literatura árabe da USP, uma pessoa sensacional, que sem-
pre lhe corrige; tem também o sheik Muhammad Ragip, um erudito mu-
çulmano, profundamente religioso, que o ajuda quando tem alguma di-
ficuldade nessa área. Ele aconselha que as pessoas façam uma rede de
conhecimentos, de amizades. Falar de forma correta dá credibilidade.
18 • Produção de Rádio

Como apresentar os nomes


Logo na abertura, deve-se fazer um perfil resumido do entrevistado.
Por exemplo: Francisco Paes de Barros, diretor-geral da rádio Capital de
São Paulo, conhecido como Chico Paes de Barros, dirigiu outras emis-
soras como a rádio Nove de Julho etc. Na próxima pergunta, basta falar
“Barros”. Na outra pergunta, pode-se alternar com “Paes de Barros”. Na
outra, com “Chico Paes de Barros”. E assim por diante. Nunca use ape-
nas Chico, mesmo que você o conheça de longa data. Se a entrevista
for editada em vários takes e espalhada ao longo do programa, o nome
do convidado deve ser anunciado de forma completa, alternado com
uma das formas reduzidas. Ou seja, no segundo take no ar, pode-se usar
Paes de Barros, diretor da Capital AM, porque está perto do primeiro
que teve a apresentação completa. Já no terceiro, pode-se entrar mais de-
talhado: Chico Paes de Barros, diretor-geral da Capital AM. No quarto,
volta igual ao segundo. No meio da conversa, pode-se usar diretor, ou di-
retor de rádio, ou radialista. Nunca chame o convidado de doutor, se ele
não tiver doutorado, nem de mestre, se ele não tiver mestrado, e assim
por diante. Outra regra é apresentar o cargo e depois o nome da pessoa.

• Médicos, advogados
Evite chamar os participantes médicos ou advogados de doutor. Pre-
fira apontá-los pela sua especialização. “Converso com o cardiologista
Mario Costa e Silva, e com o criminalista Luiz Souza Júnior.” Assim, o
ouvinte terá parâmetros para entender melhor o tema do bate-papo. No
caso do primeiro, não utilize apenas o sobrenome Silva para chamá-lo,
pois é muito comum. Prefira usar Costa e Silva, e pode-se variar cha-
mando-o de médico. No caso dos nomes com Júnior, estes devem ser
usados, para não correr o risco de serem confundidos com seus pais.
Muitas vezes, o pai exerce ou exerceu a mesma profissão do filho. As-
sim, prefira chamá-lo de Souza Júnior, podendo variar com a designa-
ção: advogado.
Capítulo 1: Diferentes Programas e Produtos • 19

• Professores
Cada rádio estabelece regras próprias. Se não houver regras, adote
chamar os professores com suas específicas áreas de atuação e locais nos
quais ministram suas aulas. Ninho Moraes, professor de produção e de
direção de TV, na Cásper Líbero. Aliás, este é outro exemplo do apeli-
do adotado como nome. Ninho vem de Antoninho, que vem de Antô-
nio. Mas nem ele se apresenta como Antônio, muito menos como
Antoninho.

• Vários títulos
No caso do convidado possuir vários títulos, apresente-o inicialmen-
te com todos e depois utilize aquele que mais se refere ao tema da entre-
vista. Vejamos o caso de Flávio Mário de Alcântara Calazans: artista
plástico, designer, consultor de marketing, autor de histórias em quadri-
nhos, fanzineiro, escritor, livre-docente em artes visuais pela Unesp, pro-
fessor doutor em Ciências da Comunicação na ECA/USP, membro de
associações como UBE, SBAT, AQC, Greenpeace etc.
Se a conversa for sobre artes gráficas, webdesign e histórias em qua-
drinhos, nas próximas vezes chame-o de artista plástico, professor de ar-
tes plásticas ou simplesmente professor.
Atente para o detalhe, mesmo que o Calazans tenha doutorado, não
é necessário chamá-lo de professor doutor. Se falar sobre propaganda
subliminar, pode chamá-lo de escritor e mencionar a obra, na sexta edi-
ção, Propaganda Subliminar Multimídia. Em todos os casos, pode-se optar
por chamá-lo apenas de professor, no meio da conversa. Reafirmo, nunca
use apenas Flávio, mesmo que ele seja seu amigo e jante na sua casa.

• Explicações necessárias
Muitas vezes o ouvinte não conhece certos projetos, programas ou
ações. Nesse caso, é necessário fazer um breve resumo para melhor apre-
sentar o convidado. Por exemplo, o que é ser um fanzineiro? É aquele
20 • Produção de Rádio

que escreve fanzines (publicação com caráter amador, sem lucro). O


mesmo deve ser feito com o Greenpeace etc.

Siglas
As siglas devem ser explicadas, por mais conhecidas que possam pa-
recer. Se falar Universidade de São Paulo no começo, depois pode usar
apenas USP. Se a entrevista for longa, alterne com o nome inteiro. O
mesmo se aplica à explicação de termos como ECA, UBE, SBAT, AQC
etc. Nesses casos, suas siglas são menos conhecidas da maioria dos ou-
vintes e devem ser evitadas ao longo da conversa.

Números
Há quem prefira escrevê-los no roteiro exatamente como se lê (dois
mil e seis). Outros se atrapalham. O melhor a fazer é perguntar ao locu-
tor ou apresentador como ele quer o texto.
Quanto à grafia de números, cada emissora ou mesmo cada apresen-
tador escolhe como quer o roteiro. É uma questão de combinar. Em ge-
ral, escreve-se apenas de zero a dez por extenso. Quando o texto traz
quantias, alguns exemplos melhoram a legibilidade: R$3,5 milhões po-
dem ser grafados por extenso: três milhões e meio de reais; se a quantia
é em dólar, dez dólares é melhor do que US$10.

Cumprimentos
Basta um bom-dia, boa-tarde ou boa-noite para dar início a uma en-
trevista. Não é necessário perguntar se o convidado está bem, sobre sua
família, como anda no trabalho etc. Se o entrevistado saudar primeiro,
basta responder que sim e não se estender dizendo coisas do tipo: bom
dia, mas essa chuva que alaga a cidade está castigando a população e
blábláblá. Fica parecendo “nariz de cera”, ou seja, enrolação, falta do
que dizer.
Capítulo 1: Diferentes Programas e Produtos • 21

Despedida
Ao terminar, é de bom tom agradecer pela entrevista, mas não é
preciso dizer bom dia novamente. Porém, se houver tempo de sobra,
nada impede. O que deve ser dito é um resuminho de quem falou: con-
versei com fulano de tal, sua função e onde a exerce.

Assinatura
A maioria das equipes jornalísticas das rádios assina no final de suas
entradas com seus nomes, acrescentam o nome do programa e, em al-
guns casos, de onde falam. Exemplo: Bruno Rodrigues, da Baixada
Santista, para o programa “Holografia”.

Quando não é ao vivo


Caso do Marcos Aguena, conhecido como Japa (ex-Jovem Pan):

Em 1996, estava no meu terceiro ano como produtor-executivo da rádio


Cidade FM, de São Paulo. Na época, a emissora era líder de audiência
absoluta e tínhamos um programa de grande prestígio que era o ‘Sucesso
da Cidade’. Era diário e ia ao ar das 18h às 19h. Nesse horário, o locu-
tor Edu Mello apresentava as músicas mais pedidas durante o dia e en-
trevistava cantores, bandas, duplas sertanejas e artistas em geral.
Na verdade, ele não entrevistava ao vivo. Tudo era gravado e produ-
zido como se ele estivesse realmente ao vivo. Eu gravava com o convida-
do, editava somente as respostas e colocava em cartuchos, dos quais as
respostas eram disparadas uma a uma, após a pergunta do Edu.
Em uma entrevista com o Zezé Di Camargo e Luciano, a recepção
me ligou dizendo que tinha uma multidão de ouvintes lá embaixo. Seria
para receber algum prêmio? Camiseta da rádio? Adesivo? Não. Queren-
do ver a dupla!
Só que a Rádio Cidade ocupava um espaço físico tão pequeno no pré-
dio, que não tinha estrutura de receber ouvintes. E o pior: receber ouvin-
22 • Produção de Rádio

tes de uma entrevista “fantasma”. Desci para resolver o problema. Disse


que era entrevista gravada. Mas não adiantou. Ficaram lá plantados. Só
quando eram dez da noite é que saíram as últimas cinco fãs convencidas.
Para não perder viagem, pegaram o autógrafo do locutor que haviam en-
contrado lá embaixo e que iria entrar naquele horário.

Mesa de debate

Uma discussão prolongada significa que ambas as partes estão erradas.


VOLTAIRE, Filósofo francês

Tarefa árdua para o produtor é a escolha dos convidados para um


debate. Ele deve levar em conta o comportamento de cada um, ou seja,
não se coloca na mesma mesa pessoas com estilo parecido, fica monóto-
no. Explico melhor: mais de dois com espírito polêmico, vários que fa-
lam mole, e assim por diante. O ideal é balancear com pessoas de jeitos
variados para que o debate transcorra de forma dinâmica.
Não adianta colocar mais de seis em uma mesa para um debate de
uma hora (tempo usual de debates no rádio). Com mais de seis, corre-se
o risco de alguns não terem chance de abrir a boca. A chave do sucesso
de um debate é a presença de três ou, no máximo, quatro convidados
bem articulados. A agenda do produtor nessa hora é um trunfo. Depen-
dendo do tema que será discutido, a procura vai recair naqueles que me-
lhor sabem articular uma conversa, fazendo com que o debate flua bem.

Assunto
Cabe ao produtor zelar pela pesquisa sobre o assunto ou assuntos que
vão a debate. Nomes dos envolvidos, dados atualizados com suas devi-
das fontes de aferição, detalhes inusitados que ajudam a esquentar o
bate-papo etc. também são de responsabilidade do produtor.
Capítulo 1: Diferentes Programas e Produtos • 23

Quem é quem
Cada um dos convidados merece um perfil detalhado em uma ficha
a ser entregue ao apresentador do programa de debate para que ele não
fique perdido na hora da apresentação. Soa como uma gentileza entre-
gar os nomes e os atuais cargos dos convidados aos demais da mesa, para
que todos saibam com quem falam e possam interagir chamando cada
um pelo nome.

Interrupção
É a parte mais delicada e difícil. Corte o convidado se ele estiver
extrapolando o assunto, dando voltas para responder, enrolando com
frases evasivas, ou simplesmente quando ele monopoliza a conversa. De-
pende do apresentador fazer a mediação, porém é o produtor que está
de fora controlando o tempo e sabendo exatamente há quantos minu-
tos determinado convidado está no ar. É ele quem tem a obrigação de
alertar o apresentador para o corte.
É muito comum, com a empolgação do que está sendo discutido, vá-
rios falarem ao mesmo tempo. Novamente o apresentador precisa de
sangue frio para falar mais alto e interromper todos, colocando ordem
no estúdio.

Troca de tema
É bastante comum o assunto escolhido na pauta do dia não render.
Os convidados não conseguem chegar a uma conclusão, as opiniões es-
tão fracas e o debate não acontece de fato. Nesse caso, pode-se introdu-
zir outro tema para discussão. Um debate de uma hora deve ter vários
assuntos divididos em blocos.

Blocos
Podem ter tempo determinado e quando acabar esse tempo pede-se a
todos para concluir. Ou um tempo mais maleável, supondo que um assun-
24 • Produção de Rádio

to provoque uma discussão mais acalorada do que outro. Assim, é possível


estender um pouco mais e até mesmo suprimir um dos blocos, caso neces-
sário. Entretanto, o contrário também pode acontecer. Se o assunto não
tiver fôlego para ocupar todo o espaço do bloco, acabe com ele antes do
tempo. É preferível a arrastar uma conversa desmotivada. Se o programa
tem previsão de quatro blocos por hora, existem duas soluções: 1) esten-
de-se um pouco cada um dos outros blocos ou o que se saiu melhor; 2)
adianta-se algum tema que seria discutido em um dos blocos seguintes.

Intervalos
O horário dos intervalos comerciais entre os blocos é quando o pro-
dutor mais trabalha. Ele relata ao âncora como está o termômetro do
debate e o aconselha a insistir em assuntos contundentes ou pegar mais
leve com as intervenções. Os convidados também recebem orientação
de como estão se portando. Se estão gritando ou falando para dentro.
Casos delicados de convidados que falam demais deles mesmos ganham
leve repreensão do produtor, que vai procurar mostrar o quão desagra-
dável para o ouvinte é ouvir aquela falação.

Antes de começar
O produtor deve conversar exaustivamente com cada convidado,
dando as devidas dicas de como ele deve se portar. Por exemplo: não
interromper o outro, evitar falar palavrões, não apelar, não acusar nin-
guém sem provas, não mencionar marcas de produtos.

Propaganda de graça
Também é preciso ser taxativo com os convidados do programa,
principalmente quando entram no ar ao vivo, pois eles nem sempre sa-
bem que não podem citar nomes de produtos. Ou fingem que não sa-
bem. O departamento comercial cobra por qualquer tipo de menção de
marcas em programas.
Capítulo 1: Diferentes Programas e Produtos • 25

Enquetes
A enquete colhendo opiniões da população é um recurso bastante
utilizado, tanto em emissoras populares, quanto nas dirigidas a ouvintes
de classes mais altas. A busca pelo personagem dá veracidade aos fatos e
deixa a reportagem com credibilidade. O ouvinte gosta de ouvir pessoas
do povo discorrendo sobre um assunto da pauta do dia. As enquetes são
colhidas nas ruas ou em eventos.
Há que se tomar muito cuidado com a escolha e com o tempo de
duração da sonora, principalmente se o conteúdo for inexpressivo. Nem
sempre a reportagem escolhe quais sonoras estão com conteúdo melhor.
Muitas vezes, cabe ao produtor ouvir todas e separar aquelas que sejam
mais interessantes para o seu programa.
Praticamente todo assunto pode ter enquete, mas convém deixar
essa prática para os assuntos atuais e de maior relevância, que deixam as
pessoas indignadas. Dessa forma, as respostas são contundentes e dei-
xam transparecer o calor dos acontecimentos.
Outra maneira de incluir enquetes na atração é direcioná-las a per-
guntas que se referem ao conteúdo do programa. Por exemplo, se a atra-
ção gira em torno de informações sobre vagas de emprego, a enquete
pode perguntar à população se ela está ou não à procura de um empre-
go. Se a resposta for sim, qual tipo de trabalho a pessoa procura, ou ain-
da quanto tempo ela está desempregada etc.
Enquetes também servem para que a produção pesquise como está a
aceitação do programa ou, melhor, servem como parâmetro do que não
está funcionando ou, pelo menos, não está caindo bem.

Paradas
Perguntas sobre qual música o ouvinte gostaria de ouvir em determi-
nado programa também podem ser úteis para compor a listagem das dez
mais pedidas da atração. De modo geral, as emissoras jovens que anun-
26 • Produção de Rádio

ciam seu “Top Ten” mostram, na verdade, as músicas mais executadas,


não necessariamente as mais pedidas. Muitas vezes, elas são as mesmas,
já que as mais executadas acabam grudando no ouvido da audiência.
Agradam aos ouvintes pelo fato de que, por escutarem tanto a mesma
música, acabam sabendo a letra de cor para melhor cantarolar. E
“bingo”: o ouvinte passa a escolher aquela que ele sabe o nome, que é a
mesma que a emissora quer executar.

Exemplos

Veja algumas listas de paradas de São Paulo e do Rio de Janeiro aferidas pelo
Instituto de Pesquisa Crowley Broadcast Analysis do Brasil, com as músicas mais
executadas nas principais rádios de cada cidade.

Crowley Broadcast Analysis do Brasil


Top 10 – Semanal — Exclusivo para Magaly Prado
São Paulo — Período de 18/2/2006 a 22/2/2006

Ranking | Título Artista

1 My Humps Black Eyed Peas, The


2 Por Te Amar Demais Bruno & Marrone
3 Don’t Cha Pussycat Dolls, The Part. Busta Rhymes
4 You’re Beautiful James Blunt
5 Pescador de Ilusões — Unplugged O Rappa
6 Codinome Beija-flor — Live Barão Vermelho Part. Cazuza
7 Foi Zezé Di Camargo & Luciano
8 É Isso Aí Ana Carolina & Seu Jorge
9 Candy Shop 50 Cent
10 Photograph Nickelback

As rádios reportadas neste relatório são: S105, S89F, S97F, SALP, SANT, SBAN, SGAZ, SMET, SMIX,
SNAT, SNOV, SPAN, STCO, STRA, STUP. O Relatório reporta das 7h às 19h, de segunda a sexta.
Direitos autorais reservados CBAB, 1997 – 2006 — 23/2/2006 05:11:51.
Capítulo 1: Diferentes Programas e Produtos • 27

Crowley Broadcast Analysis do Brasil


Top 10 — Semanal — Exclusivo para Magaly Prado
Rio de Janeiro — Período de 18/2/2006 a 22/2/2006

Ranking | Título Artista

1 Ai, Ai, Ai... Vanessa da Mata


2 É Isso Aí Ana Carolina & Seu Jorge
3 Pescador de Ilusões — Unplugged O Rappa
4 Vale de Lágrimas Lulu Santos
5 O Sol Jota Quest
6 You’re Beautiful James Blunt
7 Bola de Sabão Babado Novo, Banda
8 Ela Só Pensa em Beijar Mc Leozinho
9 Just Feel Better Santana Part. Steven Tyler
10 My Humps Black Eyed Peas, The
11 Photograph Nickelback

As rádios reportadas neste relatório são: R94F, R98F, RANT, RCID, RCOS, RDIA, RJBF, RMPB, RNAT,
RPAN, RPDS, RTRA. O Relatório reporta das 7h às 19h de segunda a sexta. Direitos autorais reser-
vados CBAB, 1997 — 2006 — 23/2/2006 05:12:38

Específicas

Existem as paradas de cada rádio, de acordo com a segmentação. Veja outros


exemplos, como o da Band FM:

As 10 mais da Band

Ranking | Título Artista

1 Isso É Calipso Banda Calipso


2 Amor Eterno Jeito Moleque
3 Choram as Rosas Bruno e Marrone
4 Meu Ébano Alcione
5 Sampa Crew Mulher Fatal
6 Abalou Ivete Sangalo
7 Apelo Alexandre Pires
8 Desatino Daniel
9 Bola de Sabão Babado Novo
10 Um Anjo KLB
28 • Produção de Rádio

E o da Rede Transamérica Pop, que possui um top ten diário:

Quinta-feira, 23 de fevereiro

Ranking | Título Artista

1 Hung Up Madonna
2 Don’t Forget About Us Mariah Carey
3 Don’t Cha The Pussycat Dolls e Busta Rhymes
4 Memórias Pitty
5 My Humps Black Eyed Peas
6 You’re Beautiful James Blunt
7 Lutar Pelo Que É Meu Charlie Brown Jr.
8 All About Us T.A.T.U.
9 Crazy Simple Plan
10 Helena My Chemical Romance
11 Pescador de Ilusões (acústico) O Rappa
12 The Beat Goes On DJ Ross e Double You
13 Don’t Bother Shakira

Quarta-feira, 22 de fevereiro

Ranking | Título Artista

1 My Humps Black Eyed Peas


2 Memórias Pitty
3 Don’t Cha The Pussycat Dolls e Busta Rhymes
4 The Beat Goes On DJ Ross e Double You
5 O Sol Jota Quest
6 Hung Up Madonna
7 Don’t Forget About Us Mariah Carey
8 Crazy Simple Plan
9 Moving On Ian Van Dahl
10 Ai Ai Ai Vanessa da Mata
11 Photograph Nickelback
12 Lutar Pelo Que É Meu Charlie Brown Jr.
13 All About Us T.A.T.U.
Capítulo 1: Diferentes Programas e Produtos • 29

Terça-feira, 21 de fevereiro

Ranking | Título Artista

1 Don’t Cha The Pussycat Dolls e Busta Rhymes


2 All About Us T.A.T.U.
3 O Sol Jota Quest
4 Don’t Forget About Us Mariah Carey
5 Pescador de Ilusões (acústico) O Rappa
6 Love Generation Bob Sinclair
7 Codinome Beija-flor Barão Vermelho
8 My Humps Black Eyed Peas
9 Believe Me Fort Minor
10 Helena My Chemical Romance
11 Wake Me Up When September Ends Green Day
12 O Inferno São os Outros Titãs

15 +
Outras trabalham com Top 15, como a Tropical FM, de São Paulo:

Domingo, 26 de fevereiro

Ranking | Título Artista

1 Foi Zezé Di Camargo & Luciano


2 Meu Ébano Alcione
3 Não Tem Dia, Não Tem Hora Edson & Hudson
4 É Isso Aí Ana Carolina
5 Como Era Antes Adriana Ribeiro
6 Arrasta Uma Cadeira Roberto Carlos e Chitão & Xororó
7 É Pra Sempre Te Amar Guilherme & Santiago
8 Choram as Rosas Bruno & Marrone
9 Se Ainda Existe Amor Leonardo
10 Fique em Silêncio Os Rebeldes
11 Crítica Cyro Aguiar e Falamansa
12 A Gente Já Não Rola Turma do Pagode
13 Não Resisto a Nós Dois Wanessa Camargo
14 Sei Lá Atitude 4 e Belo
15 O Amor É Ilusão Rouge
30 • Produção de Rádio

Programa de paradas

A 89 FM, de São Paulo, aproveita o gancho e faz um programa em cima das


músicas mais pedidas, o “Rock 10”. Veja as músicas que foram executadas no dia
24/2/2006.

Ranking | Título Artista

1 Photograph Nickelback
2 Memórias Pitty
3 Believe Me Fort Minor
4 Crazy Simple Plan
5 Pescador de Ilusões (Acústico) O Rappa
6 Wake Me Up When September Ends Green Day
7 Helena My Chemical Romance
8 1997 Hateen
9 You’re Beautiful James Blunt
10 Ela Vai Voltar Charlie Brown Jr.

Especiais
Existem vários tipos de especiais, e alguns deles são produzidos para
entrar na grade de programação. Em geral são abordados temas de in-
teresse comum a todos. Por exemplo, saúde, perfis de artistas em evi-
dência ou que comemoram datas redondas. Não se deve colocar no ar
um programa em homenagem a um artista que completa 37 anos de
qualquer coisa: de morte, de nascimento, de carreira nem de aniversá-
rio. Subtende-se que no ano que vem, ele receberá outro especial pe-
los seus 38 anos. E todos os outros? Também deveriam ganhar especi-
ais todo ano?
É melhor ter como base datas redondas. Por exemplo, José Wilker
completa 40 anos de carreira: vale um perfil com ele ou um programa
que conte a história de sua trajetória. Até mesmo uma entrevista com o
artista mostrando que ele não trabalha só como ator e também atua no
Capítulo 1: Diferentes Programas e Produtos • 31

rádio. Depoimentos de seus amigos e de seus ouvintes-fãs servem para


ilustrar o programa.

Artistas em evidência
Um bom exemplo é Alice Braga, que desponta como excelente atriz
depois de estrelar três filmes seguidos. Brilha em “Cidade Baixa” como
protagonista. Merece uma entrevista contando todos os detalhes de sua
iniciante vida no cinema.

Tributos
De modo geral, os especiais sobre pessoas importantes, já falecidas,
vão ao ar nas datas significativas, como 100 anos de morte ou de nasci-
mento, ou em outras datas redondas. São programas que podem ser pro-
duzidos com bastante antecedência. A pesquisa pode ser aprofundada e o
programa desmembrado em uma série, se o homenageado merecer e se
houver material suficiente. É perfeito para entrar na gaveta.

De gaveta
Programas especiais são bem interessantes para arquivo, ou como se
diz entre os radialistas: gaveta. Quando alguma entrevista cai, ou me-
lhor, não pode ser colocada no rádio, por problemas com o entrevistado
ou mesmo com o entrevistador, basta apelar para os programas guardados
na gaveta, como os tributos a personalidades. Veja bem, não precisa ne-
cessariamente ser de artista, político, jogador de futebol. Pode ser de cien-
tista, de educador, de arquiteto ou qualquer outra profissão, desde que seja
conhecido do público. Quanto mais famoso, melhor.

Temas variados
Os especiais podem girar em torno de assuntos que não tratam espe-
cificamente de pessoas. Pode-se preparar uma série de especiais sobre a
construção de Brasília, o Golpe de 64, a descoberta da vacina contra a
32 • Produção de Rádio

gripe influenza, a emoção do gol no futebol, a milenar medicina chine-


sa, a história das tatuagens etc.

Biografias
Quem está seriamente doente e é famoso merece que sua biografia
seja produzida e guardada. De tempos em tempos, deve ser atualizada,
caso a personalidade tenha uma sobrevida. É duro lidar com isso, mas
nesse momento o radialista precisa ter sangue frio. Faça uma listinha de
todos aqueles que podem vir a falecer a qualquer momento. Comece pe-
los que estão doentes, internados ou em estado terminal. Depois liste
aqueles com idade avançada, os que já passaram dos 90; peça para equi-
pe pesquisar suas carreiras. Faça também uma ordem para a atualização.
Quem atualiza, apenas acrescenta o que a pessoa fez nos últimos tem-
pos, ou seja, parte do momento em que a biografia parou.

De repente
A personalidade sofre um revés. Qualquer fato inesperado como um
acidente ou um ataque cardíaco pega toda a mídia desprovida de mate-
rial. Não tem muito jeito, é necessário correr atrás para trazer uma pes-
quisa detalhada. O importante é compor o material aos poucos e colo-
car no ar à medida que for chegando. Assim, a emissora não fica sem
falar sobre a pessoa e, ao mesmo tempo, vai esquentando seu perfil ao
longo do dia, conforme chegam mais informações do departamento de
pesquisa. Sem contar que uma equipe de externa é mobilizada para ficar
de plantão no hospital, na porta da casa da pessoa ou, no caso de mor-
te, no velório, necrotério etc. Cabe aqui ressaltar que não se deve im-
portunar os mais próximos com perguntas fora de hora, como “o que ele
representava para você?”
Um exemplo do inesperado foi o grave acidente de avião que matou
todos os integrantes da banda Mamonas Assassinas, em 1996. O grupo
musical fazia enorme sucesso, principalmente entre os pré-adolescentes,
Capítulo 1: Diferentes Programas e Produtos • 33

mas os adultos e as crianças também se divertiam com as letras engraça-


das e o jeito debochado dos meninos.
Em casos como esse, o produtor deve, em primeiro lugar, acionar
todos os membros da equipe. Como eram famosos e a morte totalmen-
te inesperada, toda a equipe, sem exceção, deve estar a postos para o
trabalho, sem a menor discussão. Pode ser domingo, dia de folga, estar
na praia, na montanha, não importa, todos devem voltar o mais rápi-
do possível.
A equipe deve ser dividida entre aqueles que vão pesquisar a carrei-
ra, a vida de cada um, suas músicas, letras, hits. Outros vão tentar falar
com as pessoas próximas, pessoal da gravadora, empresários, assessores.
Determina-se o roteiro das músicas que devem entrar no especial com
informações sobre elas: quando foram compostas, as autorias, parcerias,
se entraram ou não nas paradas de sucesso etc.
Como foi um acidente aéreo, não adianta muito ficar especulando a
causa. Só depois da investigação, abertura da “caixa-preta” etc., é que
as informações corretas do que ocorreu virão à tona. Porém, todos os
ouvintes querem saber. Limite-se a elencar todas as possibilidades, evi-
tando, no entanto, especular sobre o assunto.
Fale que pode ter sido o tempo ruim, falha do equipamento, erro hu-
mano ou tudo isso junto, que ainda não se sabe ao certo o que ocorreu,
mas que será informado assim que houver dados concretos. Afinal de
contas, o que importa para os ouvintes é que todos morreram.
Já que eram músicos, todo o material colocado no ar deve ser alter-
nado com músicas do grupo. O programador musical escolhe aquelas
que melhor servem para BG (música de fundo) e aquelas que merecem
ser tocadas inteiras. Se o programador não achar nada que tenha uma
parte instrumental adequada para servir de fundo enquanto o locutor
noticia, o ideal é pegar um trecho e editá-lo em looping, repetindo-o
para que não entre a voz. Nesse caso, o trecho deve ser bem significati-
vo. Algo que nos primeiros acordes já lembre a banda.
34 • Produção de Rádio

Material de gaveta
Tenha sempre material de gaveta para dias em que o apresentador
tenha problemas. Podem ocorrer imprevistos, impossibilidades de falar
de forma normal, como uma gripe, rouquidão etc. Nesses casos, o bom é
ter uma entrevista de stand by com matéria fria para usar e, assim, pou-
par o comunicador de usar a voz.

Entrevistas
Se não tiver material de gaveta, o que nunca deve acontecer, apele
para aquele material que sobrou de uma entrevista enorme que só foi
utilizada pela metade, mas que ainda está muito boa e pode ir ao ar.
É preciso tomar cuidado com essas entrevistas de gaveta. Às vezes, o
entrevistado citou alguma data e, dependendo de quando entrar no ar,
pode ter passado e a informação deixar claro que a entrevista é fria. An-
tes de guardar uma entrevista na gaveta, anote as datas citadas e seus
respectivos lugares na fita. Ou seja, se o convidado comentou sobre uma
ação que vai acontecer daqui há três meses e a entrevista acontecer an-
tes, sem problemas, mas o contrário não pode acontecer. Então o pro-
dutor deve checar cuidadosamente as datas. Todo cuidado é pouco.
O mesmo problema pode acontecer com entrevistas de um dia para
o outro, quando o convidado passa a falar “amanhã”, sendo que a en-
trevista vai ao ar exatamente amanhã, e, nesse caso, a palavra certa se-
ria “hoje”. O produtor deve sinalizar quando a entrevista vai ao ar, se
houver data determinada, ou, se não houver, pedir ao convidado para
não citar esses termos. Caso aconteça, o produtor precisa cortar antes
de guardar.

Temas “frios”
Alguns exemplos de assuntos que são de interesse do ouvinte e que
podem entrar são aqueles que falam de saúde, nutrição, estética e dicas
Capítulo 1: Diferentes Programas e Produtos • 35

de todo tipo. Nunca é demais alertar para os perigos do sol (pode ser
tanto no verão quanto no inverno, tanto para peles brancas quanto ne-
gras, tanto para os idosos quanto para os bebês…). Escolha de alimen-
tos saudáveis também é uma boa pedida. Todos sabem que é bom comer
frutas, legumes e verduras, mas que tal acrescentar as vitaminas e mine-
rais que cada uma possui, quantidade de calorias e ainda receitinhas gos-
tosas? Temas “frios” não faltam.
Outra opção interessante e que rende uma boa bengala para dias di-
fíceis é criar listas de 10 ou 20 (ou qualquer número redondo) toques,
dicas, sugestões etc. para “N” assuntos. Exemplos: dez passos para con-
trolar os riscos de doenças cardíacas, evitar a obesidade, não entrar em
parafuso, começar exercícios físicos, escolher itens para o carrinho de
supermercado saudável etc.
Essas matérias devem ser produzidas e apresentadas pelo âncora
quando ele estiver bem. Ou seja, a cada semana deve-se colocar na ga-
veta algumas reportagens para uso nos dias difíceis. Deixe acumular pelo
menos umas dez, se o programa for diário, e umas três, se for semanal.

Clássicos
Se o programa é musical ou envolve música ao longo da programa-
ção, escolha músicas clássicas, que todos gostam. Faça e deixe sempre
atualizada uma pesquisa entre o público do programa para saber quais
músicas eles preferem. Deixe a locução gravada com o apresentador
anunciando e desanunciando (anunciando no final) a música. Se o pro-
grama tem o formato de comentar as músicas, deixe tudo pré-gravado.
Nesses dias difíceis, inclua as músicas que você sabe que são sucesso en-
tre a audiência e intercale aquela entrevista de gaveta. Você terá a voz
do apresentador entrando no programa. Isso tudo é possível se a atração
for meramente de entretenimento, como uma revista cultural, por exem-
plo. Se o programa tem o formato de intercalar notícias, esqueça. Ou o
36 • Produção de Rádio

âncora entra do jeito que está, ou terá que ser substituído. Para tanto,
âncoras de outros horários ou folguistas devem ser acionados, de prefe-
rência com a maior antecedência possível.

Musicais
Sua rádio é musical, mas para que ela se diferencie das demais, não
basta simplesmente anunciar e desanunciar as músicas. É preciso
contextualizá-las. No entanto, o tempo de “falação” não pode ser lon-
go. Colha todas as informações sobre uma música (compositor, intérpre-
tes e se for uma banda, as informações sobre os integrantes também va-
lem) e quebre-as em pequenas frases.
Quando a música for ao ar, uma das dezenas de informações co-
lhidas é dita com o anúncio do nome da música, o nome de quem a
compôs e de quem a interpreta. Detalhe: nem todas as emissoras exi-
gem que se fale o nome do compositor. Considere esse pequeno de-
talhe de suma importância. Afinal, o que seriam das rádios sem os
compositores?
Na próxima vez em que a música for ao ar (espera-se que não seja
tão logo, para não parecer “jabá”), dê outra informação da listinha. As-
sim, não fica aquele falatório desenfreado, irritando o ouvinte que quer
ouvir a música, mas sim pequenas doses de informação que chegam aos
poucos à audiência. No futuro, ela ficará agradecida, pois não só saberá
sobre a música, mas terá informações e curiosidades que facilitarão a sua
compreensão.
Tenha certeza de que, se você noticiar fatos musicais com a apre-
sentação do que entra em sua programação musical, ela ficará mais
agradável de ouvir. Mas cuidado com o tempo dedicado à fala antes
de a música tocar, não deve ultrapassar um minuto. De modo geral,
30 segundos bastam.
Capítulo 1: Diferentes Programas e Produtos • 37

Comentários
Fique atento para não adjetivar demais os músicos ou as músicas de
sua preferência. Por exemplo: se anunciar “Hung Up”, novo hit de
Madonna, não adianta dizer que ela é simplesmente genial. Se quiser
muito dar essa opinião, é preciso explicar então o porquê. “Madonna é
genial porque consegue a cada ano lançar sucessos mundiais sem perder
o pique. Desta vez, incita todos a dançar e não admite ninguém parado
em ‘Hung Up’.”
Controle-se naquelas horas em que quer ficar elogiando demais de-
terminados artistas: “Bono Vox (vocalista da banda U2) é maravilho-
so!” Saiba que nem todos o consideram assim tão maravilhoso. E que
esse adjetivo, na verdade, não acrescenta nada. Se não houver qualquer
informação consistente sobre ele, ou sobre a história da banda U2, co-
mente algo curioso, como o hit passado em que ele começava contando
em espanhol: “um, dois, três, quatorze!”.
Contudo, se você tem informações interessantes, pode falar, mas
com critério. Não é preciso dizer que soube que aquela determinada
canção foi composta quando o músico estava deprimido e não conse-
guia sair da depressão, por saber que sua mulher o abandonou e o tro-
cou pelo seu melhor amigo, em um dia chuvoso de abril de 2002, em
uma cidadezinha afastada da civilização. Diga apenas que foi composta
quando o músico sofreu uma desilusão amorosa inesquecível.
Se você tem contato pessoal com artistas e eles contam histórias
boas para abrir para o ouvinte, tente não ser pernóstico ao informar sua
intimidade. Não tem necessidade em dizer que “tal pessoa, quando foi
jantar lá em casa, na semana passada, adiantou que não vai renovar o
contrato com a gravadora, porque não gosta da forma impositiva com
que escolhem o direcionamento de sua produção musical e tem sido
obrigado a baixar a cabeça para não ser esquecido e não divulgado”.
Pode apenas dizer que “o artista não renova com a gravadora tal, por-
38 • Produção de Rádio

que está insatisfeito com o método de trabalho imposto pelos dirigentes,


interferindo em sua liberdade de criação”.
Mesmo que o músico freqüente sua casa e seja um de seus amigos,
nunca peça uma música para ele de forma íntima: “Toque aquela que
você sabe que é a que eu mais gosto, que tem aquele solo interminável
de bateria, toca para mim.” Pode sugerir, se ele demonstrar dúvida para
escolher, mas não precisa dizer que é dedicada a você.

Proibido
Nunca fale em cima da música, nem no começo, na parte
introdutória. Só se for obrigado pela direção. Algumas AMs populares
utilizam esse recurso. Tente convencer seu diretor artístico que prefere
colocar um BG (música de fundo) para anunciar calmamente, e, ao ter-
minar, uma fusão com a música anunciada traz a música do primeiro ao
último acorde. Aliás, não vale falar em cima do final da música, também,
coisas do tipo: “você está ouvindo...”, nem no meio, em partes instrumen-
tais. Respeite o compositor que odeia que alguém fale em cima da sua mú-
sica. Pior para aquele ouvinte que quer gravar a música, e no meio apare-
ce o locutor falando, com aquela voz empostada, a marca da rádio.

Tradução
Nem pensar em ficar traduzindo a letra das músicas enquanto o in-
térprete canta e, o que é pior, em cima da voz dele. Hélio Ribeiro fazia
isso com primor nos anos 70, na Bandeirantes. Mas ele era especial! Ti-
nha carisma suficiente, sabia várias línguas e fazia tudo de forma
descontraída e irreverente. O programa dele, personalíssimo, permitia. E
Ribeiro ainda cantava em cima. Para poucos, bem poucos. Tinha uma
voz linda! Indiscutivelmente, Hélio Ribeiro era um caso à parte. E eram
outros tempos, quando a Bandeirantes também era bem mais popular.
Não queira dar uma de Hélio Ribeiro e traduzir as músicas estrangeiras e
Capítulo 1: Diferentes Programas e Produtos • 39

muito menos cantar junto. Novamente, só se for obrigado pelo diretor.


Sendo assim, tente mudar isso.

Comente a letra
Pode propor uma solução: se a letra realmente merecer ser traduzida,
proponha fazer um resumo do que diz a letra, antes de a música come-
çar, mas nada ao pé da letra, só uma idéia do que se vai ouvir. Ou, ain-
da, generalize, por exemplo: “Quando Lou Reed estourou para o grande
público, falava, geralmente, sobre o submundo de Nova York, persona-
gens da noite, como os junkies, e ambiente sexual latente. Frank Zappa
gostava de criticar o establishment e gozava da cara dos políticos. Suas
letras picantes faziam com que ele fosse o inimigo número um das famí-
lias tradicionais norte-americanas.”

Com voz grave e uma entonação diferenciada para suas crônicas, muitas
vezes feitas de improviso, Hélio Ribeiro produzia momentos de catarse
coletiva nas ondas das emissoras por onde passou. Suas traduções simul-
tâneas de músicas, que chamava de “versão livre para o português”,
eram instantes de emoção que marcaram toda uma geração. Tanto que
após sua morte, em 6 de outubro de 2000, os fãs e amigos passaram a
organizar reuniões periódicas para trocas de informações e até de grava-
ções que o próprio profissional não tinha.

ÁLVARO BUFARAH JÚNIOR, Histórias do Rádio Paulista, por Hélio Ribeiro.

Três minutos
Nunca corte uma música para deixá-la com menos tempo. Se a dire-
ção de programação exige um número específico de músicas por hora, e
aquelas que você escolheu para ilustrar o programa são compridas de-
mais, opte por outra, mas não corte uma parte. A não ser que você só
40 • Produção de Rádio

esteja usando como BG. Aí sim, pode usar um trecho com fala por cima
ou como passagem de um quadro a outro. Nesse caso, a música, em ge-
ral, toca alguns segundos. Existem emissoras que cortam as músicas para
que elas fiquem todas com no máximo três minutos. Isso é um absurdo
total. Não se justifica em momento algum.

Sem repetir
Outra possibilidade é colocar a primeira parte da música inteira.
Muitas vezes, a música se repete igualzinha. Veja bem, só se for impres-
cindível usar aquela determinada música e não houver tempo mesmo
para tocá-la inteira. De qualquer forma, avise o ouvinte.

Background
O BG serve para ilustrar uma fala. A música escolhida deve combi-
nar com o assunto ou com o programa, ou ainda com o tema no qual se
fala. Não pode ser vocal, pois vai interferir com a voz do locutor. Em
geral, escolhe-se uma música instrumental, ou a parte da música em que
ainda não entrou a voz do cantor, para usar como BG.

Trilhas brancas
Existem CDs com um repertório composto exatamente para servir
de BG. São músicas neutras. Mas como muitas emissoras compram esses
CDs para uso no dia-a-dia, ficam todas meio pasteurizadas, repetitivas.
Se possível, não use trilhas brancas: pesquise músicas ou sons apropria-
dos ao assunto para o qual servirão de fundo.
Capítulo 1: Diferentes Programas e Produtos • 41

Esportivos
Eu disconcordo com o que você disse.
VLADIMIR, ex-meia do Corínthians, em entrevista para a Rádio Record.

Se a sua rádio não investe em esporte, está perdendo terreno com o


público masculino. Sabe-se que as mulheres dominam a audiência de rá-
dio no Brasil. Portanto, trate logo de incluir pelo menos boletins infor-
mativos sobre futebol para atrair os homens. E não digo somente de for-
ma sazonal, enquanto os campeonatos acontecem. É preciso planejar
programas de gaveta até mesmo para quando não acontecem torneios.
Coloque na gaveta programetes que contam a história de determi-
nado esporte, entrevistas com jogadores de destaque ou técnicos impor-
tantes, narrações de gols memoráveis, atletas escolhendo músicas, co-
mentaristas fazendo retrospectivas e perspectivas etc. Todo esse material
pode ir ao ar em tempo de recesso esportivo, que, diga-se de passagem, é
bem pouco: só no finalzinho do ano.

Copa
Aproveite a Copa do Mundo de Futebol para produzir séries de es-
peciais que possam ser espalhados na programação. No ano de 2006, a
Copa acontece na Alemanha. Uma boa idéia é levar ao ar informações
das cidades alemãs que vão abrigar jogos. Misture turismo com esporte,
vale tudo para dar gancho ao evento mais assistido do planeta. A histó-
ria das Copas, contada em capítulos, também pode render boletins su-
perespeciais, sempre marcados por trechos emocionantes de narração.

Futebol
Não adianta inventar muito, o forte do esporte no Brasil é o futebol
mesmo. Você até pode introduzir dropes (boletins curtinhos, de dois a
três minutos) de informações sobre as demais modalidades de esporte,
42 • Produção de Rádio

como basquete, tênis ou automobilismo. É uma boa idéia que enriquece


a programação esportiva. Não espere, porém, retorno retumbante. O que
dá audiência é a bola no pé.

Cobertura
Há muito não aparecem narradores jovens que se destaquem no
meio dos locutores esportivos. Os da velha guarda ainda permanecem
como os mais ouvidos. Porém, nada impede que sua emissora aposte em
novos talentos da narração. Até porque, daqui a pouco, os que ainda
narram, devem pendurar os microfones. Uma boa idéia é reciclar esses
profissionais. Que tal cursos nesse sentido?

Emoção
A grande maioria prefere a cobertura de um jogo de forma emocio-
nante. Narrações empolgadas no desenrolar da partida e gritos de gol
com emoção ainda agradam mais do que as coberturas no estilo euro-
peu: frias. Emissoras como a CBN São Paulo tentam investir em cober-
turas que se preocupam mais com o jornalismo do que com a emoção.
Informam, sem grandes arroubos. Este novo tipo de narração começou
há pouco tempo, ainda não dá para saber se vai vingar.

O Guinness Book incluiu Nicolau Tuma como o brasileiro que falou o


maior número de palavras em menor tempo, após análise de uma de suas
famosas locuções esportivas de turfe (corrida de cavalo). Nicolau Tuma,
o pioneiro em narrações detalhadas de jogos de futebol, em 1931, pela
rádio Sociedade Educadora Paulista, ficou conhecido com o apelido de
“speaker metralhadora”, durante a narração do jogo de futebol Vasco e
Flamengo, no Estádio de São Januário, em 1934. “No intervalo, pedi
para o humorista Barbosa Filho assumir o microfone enquanto eu des-
cansava um pouco. E ele falou: esse não é gente, é uma metralhadora.
Fala mais depressa que o jogo.”
Capítulo 1: Diferentes Programas e Produtos • 43

Com ou sem emoção, o importante é que sua rádio precisa de profis-


sionais especializados em esporte. Rádios como a Capital AM, com ca-
beça de rede em São Paulo (isto é, São Paulo retransmite para o restan-
te do país), depois de cerca de uma década sem cobertura de futebol,
não resistiu e fechou parceria com a ESPN. Se a sua rádio não possui
equipe esportiva, terceirize ou faça uma parceria. Mas não fique de fora
desse filão.

Testemunhais
Cuidado para não infestar o horário com propagandas. O ouvinte
vai, com certeza, procurar uma outra boa narração que tenha menos in-
serção de comerciais. Saiba dosar o anúncio com a programação edito-
rial de forma a não prejudicar a audiência.

Humor
Hoje em dia, a maior parte das coberturas jornalísticas ou programas
de esporte possui seus humoristas de plantão. Ótimo, é sempre bom rir.
Mas seja cauteloso ao escolher o humorista. A maioria só sabe imitar a
voz dos jogadores famosos de sempre: Pelé, Romário entre outros. Usam
textos datados, não sabem bolar um texto criativo para vir com a voz
imitada. O bom humorista não só sabe falar igualzinho, como traz a gra-
ça naquilo que diz, dentro de um contexto atualizado e informativo.
Os programas de humor atuais são marcados pela enorme confusão
de opiniões dos participantes, como se a briga deles por um time ou
outro, um passe de determinado jogador em detrimento ao de outro,
como verdadeiros torcedores, fossem suficientes para que o ouvinte
ache engraçado. Normalmente, a gritaria toma conta do programa
causando irritação no ouvinte, que se pergunta: “para que falar tão
alto, já que o microfone amplia a voz?” Cabe ao produtor controlar os
ânimos da equipe do programa, para que as exaltações não prejudi-
quem a boa audiência.
44 • Produção de Rádio

Humorísticos
Fazer humor no rádio é mais difícil do que parece. É preciso ser en-
graçado todos os dias. Não existe a possibilidade do recurso das
micagens. Em contrapartida, costumam investir nas imitações (princi-
palmente nos programas esportivos — Beto Hora é o mais cômico de
todos) e nos trotes com os ouvintes (prato cheio do programa “Chupim”,
da Metropolitana FM, de São Paulo) e centrar fogo nas vozes hilárias
com tiradas non sense.

Dr. Pimpolho
Um dos personagens mais famosos do rádio é o dr. Pimpolho, veicu-
lado na Rede Mix FM, criado por Felipe Xavier (ex-Sobrinhos do
Ataíde, um dos mais criativos humorísticos dos últimos tempos), depois
que saiu da Jovem Pan. É a imitação do Tutinha, com suas manias ex-
cêntricas e seu jeito desbocado de tratar os funcionários.

Pânico
Tutinha, Antonio Augusto Amaral de Carvalho Filho, dono da Jo-
vem Pan, fala em entrevista à Adriana Negreiros, na revista Playboy do
mês de novembro de 2005, do programa “Pânico”, sucesso do humor
radiofônico há dez anos, que depois de estrear na televisão (Rede TV!),
passou a fazer mais sucesso ainda, alavancando a audiência da rádio e co-
locando-a entre as cinco mais ouvidas do dial FM da Grande São Paulo.

Eu sou o dono do Pânico. Então eu ganho. O registro é meu. Fui eu


que inventei, botei na rádio, fui lutar pra levar pra televisão, fiquei ba-
tendo de porta em porta, arrumei o primeiro comercial, dei a idéia. De-
pois que o programa explodiu, falei: “Não é justo que eu fique ganhando
sozinho.” Então a gente é meio que uma sociedade em que todo mundo
ganha. Todo mundo tem uma participação na renda do programa.
Capítulo 1: Diferentes Programas e Produtos • 45

Utilidade Pública
Serviço de utilidade pública, alma das emissoras AMs, é fundamen-
tal para ajudar os ouvintes, principalmente aqueles com menor renda,
usualmente ouvintes de rádios populares. Mas os ouvintes da classe alta
também gostam de saber sobre como melhorar o seu dia-a-dia. Dicas de
quanto, como e onde pagar impostos, se eles aumentaram e quanto au-
mentaram, se existem formas de parcelamento etc. são informações que
facilitam a vida do cidadão, especialmente daquele das grandes cidades.

Pesquisas
Os dados apontam que, depois dos sites de relacionamento, o que os
internautas mais procuram na net são as páginas de serviços. Portanto,
mãos à obra, pois a pesquisa mostra o comportamento das pessoas e aca-
ba por servir para o rádio também. Se a sua emissora não possui uma
boa dose desse tipo de informação, trate de correr atrás. Tudo o que pos-
sa ajudar o ouvinte a viver melhor, lidar com a burocracia e abrir seus
caminhos será bem-vindo.

Desserviço
Pior do que não fornecer essa espécie de informações é dar o serviço
errado, com números e datas trocados, antigos etc. A checagem periódi-
ca é obrigatória e dá trabalho. Por conta disso, muitas vezes ouvimos no
rádio endereços incompletos, números de telefones que já não funcio-
nam mais, datas alteradas e toda sorte de desinformação. É erro gravís-
simo piorar a vida do ouvinte com esse tipo de transtorno.

Interatividade
Um dos temas que mais ajudam a pautar os quadros de serviço de
utilidade pública são as dicas dos ouvintes. Eles mesmos telefonam para
saber sobre concursos públicos, quando precisam matricular seus filhos
46 • Produção de Rádio

na escola, porque a taxa da água subiu etc. Em cima de suas dúvidas, o


programa deve ser produzido. Pode-se até mesmo utilizar a voz do ou-
vinte questionando. Personagens são sempre bem-vindos e enriquecem
a reportagem.

Defesa do consumidor
Esse é um dos temas de maior importância no rádio, que atinge qual-
quer classe social, mas, novamente, mais útil àqueles mais carentes de
informações. Se compararmos o trabalho que os jornais desenvolvem
em cima do assunto, nos depararemos com a eficiência das tentativas de
resolução do problema. O jornal Agora São Paulo possui uma página
dedicada à defesa do consumidor que é, na minha opinião, a página que
melhor atende aos seus leitores. Diga-se de passagem, a página já rece-
beu indicação ao Prêmio Folha por resolver cerca de 70% dos casos que
são ou não publicados diariamente no jornal. Todos sabem que basta
sair no jornal ou ser citado no rádio para que as empresas que lesaram o
consumidor solucionem rapidinho os problemas.

Em fevereiro de 1973, São Paulo viveu uma de suas piores tragédias: o


incêndio no edifício Joelma, no centro da cidade, que matou mais de 170
pessoas. As imagens do horror foram transmitidas para todo o mundo.
Naquelas horas de tensão da operação-salvamento, o rádio viveu um de
seus momentos mais importantes, respondendo à sua função prioritária
de servir a coletividade. A cobertura realizada pela Rádio Jovem Pan
foi tão eficiente que a emissora foi liberada de retransmitir o programa
obrigatório do governo, A Voz do Brasil. As informações dos repórte-
res serviram de guia para os bombeiros, as ambulâncias, o trânsito e
toda a população. A grande reportagem transformou-se em serviço de
utilidade pública.
FERNANDO VIEIRA DE MELLO
Diretor-executivo de jornalismo da TV Bandeirantes
Capítulo 1: Diferentes Programas e Produtos • 47

Trânsito
A cobertura de trânsito em cidades grandes talvez seja uma das fun-
ções mais úteis do rádio, desde que seja bem feita. Só cumpre seu papel
se a emissora for local, é claro. Nada mais irritante do que ouvir uma
rádio em rede nacional que fala do trânsito de uma cidade específica.
Reforço: boletins de trânsito só são úteis dentro de programações locais.
Parece óbvio falar assim, mas acontece, e muito, esse tipo de deslize.
Para ser eficiente, a cobertura do trânsito precisa trazer alternativas
de rota. Seja na cidade ou na estrada, se em determinado ponto há con-
gestionamento, o radialista precisa dar opção de desvio. Para tanto, é
preciso conhecer muito bem a cidade ou checar direito com a polícia
rodoviária, no caso das estradas.
É pelo trânsito carregado do começo da manhã e do final da tarde
que a cobertura torna-se fundamental no horário nobre. Foi por conta
desse horário do rush que várias rádios de São Paulo alegaram não trans-
mitir a Hora do Brasil obrigatória, para dar informações sobre os conges-
tionamentos na cidade. Concordo que esse tipo de cobertura é ideal
para o horário, pois ajuda o cidadão a se livrar dos engarrafamentos. A
Voz do Brasil pode ser incluída em outro horário que não o do rush.

Helicóptero
Este tipo de informação sobre trânsito virou febre entre as rádios.
Porém, a maioria delas acha que basta dizer que as Marginais do rio
Tietê ou do Pinheiros (duas das principais vias de tráfego de São Paulo)
estão engarrafadas que isso ajudará o ouvinte. É meio óbvio que as vias
ficam congestionadas porque o engarrafamento se repete diariamente.
Por isso, o importante não é só informar o que todos já sabem, e sim dar
alternativas que realmente funcionem. Para isso, as grandes rádios pos-
suem helicópteros; assim, seus repórteres conseguem enxergar rotas de
fuga para informar o ouvinte preso no trânsito.
48 • Produção de Rádio

Tráfego
Informações de acidentes, manifestações, quedas de barreiras ou
qualquer incidente que possa atrapalhar o trânsito são bem-vindas. Esse
tipo de incidente acontece em vias que nem sempre congestionam e,
isso sim, pode servir para alertar o motorista no sentido de evitar tal re-
gião. E se acontecer em vias que normalmente já congestionam, inci-
dentes desse tipo só tendem a piorar o trânsito. Nesse caso, se a pessoa
não tem como desviar de caminho, pode, ao menos, retardar a saída.

Chuvas e temporais
Basta começar a chover para o trânsito piorar. A explicação mais plau-
sível é que muita gente não sabe dirigir na chuva ou toma excessivo cui-
dado dirigindo mais devagar, o que acaba provocando engarrafamento.
Entretanto, como todos já sabem, no período do alto verão, as chu-
vas fortes inundam as cidades, piorando o trânsito. Cabe ao repórter in-
formar os principais pontos de alagamento da cidade e as alternativas
para evitar passar pela região inundada. Os temporais dessa época do
ano são esperados, e as produções das rádios já encaminham suas equi-
pes para fazer a cobertura.

Época de aulas
Durante o período de férias escolares, diminui a quantidade de veícu-
los nas cidades, mas, quando voltam as aulas, é notório, o congestiona-
mento piora. Filas duplas de carros com seus motoristas que esperam para
pegar os filhos na escola atrapalham mais ainda o trânsito. Outro ponto
para cobertura da reportagem é na saída das principais escolas da cidade.

Feriados
Os feriados, finais de semana de sol e início das férias são épocas de
engarrafamentos nas vias de acesso às principais estradas que levam ao
litoral e ao interior do estado. A reportagem também deve se instalar
Capítulo 1: Diferentes Programas e Produtos • 49

perto dessas vias, para reportar como anda o movimento ou há quanto


tempo tudo está parado.

Temperatura
Existem ouvintes que não saem de casa antes de ouvir pelo rádio a
previsão do tempo. Querem saber se devem ou não levar o guarda-chu-
va e se mais tarde vai esfriar. Narciso Vernizzi, morto em 2005, foi o
mais famoso radialista que falava da temperatura. Era o “Homem do
Tempo”.

Chute
Grande parte das rádios não se preocupa com esse tipo de informação
sobre temperatura, pois não existe um cuidado com o que se diz. Mais fá-
cil é generalizar e não afirmar nada, ficar enrolando o ouvinte com diva-
gações. Em geral, erram nas previsões. O importante é assinar um serviço
com credibilidade, ou então abolir o quadro da programação.

Ondas
Boletins de ondas servem principalmente aos surfistas. Banhistas em
geral não se interessam em saber se haverá ondas grandes ou se o mar
de tal praia não formará ondas no próximo final de semana. Portanto,
esse tipo de informação deve ser específico para rádios que possuem
grande faixa de público interessada em pegar onda. Mesmo assim, em
geral, são curtos.

Sazonais
Programas sazonais, que acontecem em determinados períodos, po-
dem ser produzidos com antecedência suficiente para que sejam bem
planejados, inclusive com mais possibilidades de patrocínio, já que po-
dem ser vendidos aos departamentos de marketing das empresas.
50 • Produção de Rádio

Estações do ano
O verão é a estação que melhor pode ser aproveitada por ações da
rádio. Eventos ao vivo patrocinados pela rádio envolvem diversas ativi-
dades ao ar livre. Toda a programação específica da época do calor pode
ser produzida meses antes de começar a esquentar. De boletins com di-
cas de saúde, como cuidados com as doenças de pele como micoses, até
shows com músicos que tocam na rádio podem ser agendados. Além de
parcerias com os locais situados nas praias como shoppings e a encomen-
da de brindes que combinam com a estação, como bonés, viseiras etc.

Frio
O inverno não fica atrás e as emissoras pensam suas atrações em mon-
tanhas e cidades que abrigam festivais de inverno. Nesse caso, as dicas vão
desde receitas de sopas e caldos até o roteiro completo das quermesses e
lugares que servem quentão e vinho quente. As camisetas com o logotipo
da rádio que são distribuídas nessa época são de manga longa.

Fim de ano
Tanto o Natal quanto o Réveillon são datas apropriadas para pro-
gramação específica, que pode ser produzida antes. O departamento de
promoção aproveita o espírito natalino para bolar promoções dentro dos
programas. Cabe ao produtor discutir as melhores idéias e viabilizar es-
paço na atração que comanda.

Retrospectiva
Fim de ano é sempre a mesma programação em toda a mídia. Não
dá para fugir das retrospectivas. Parece até que todos esperam por elas.
Dos principais acontecimentos, das músicas que estouraram, dos artistas
e das personalidades que se destacaram, enfim, o que não falta é gancho
para fazer o balanço.
Capítulo 1: Diferentes Programas e Produtos • 51

Mês a mês
Uma produção cuidadosa começa a guardar os fatos principais que
merecem entrar na retrospectiva logo no início do ano e, mês a mês,
arquiva tudo. Assim, no final do ano não é preciso ficar tentando lem-
brar de tudo o que aconteceu e correr o risco de esquecer e deixar fatos
importantes de fora.

Perspectiva
Não só de retrospectiva é feito o noticiário dessa época. As perspec-
tivas em diversos setores também são levantadas. Nesse caso, o ideal é
ouvir a opinião dos especialistas nos assuntos abordados. Assim, um
cientista político renomado pode falar sobre como será o ano que se ini-
cia com relação às eleições, um comentarista esportivo palpita sobre os
jogos da próxima Copa e assim por diante. Tenha uma lista de nomes
atualizados na sua agenda.

Policiais
Programas do gênero policial fazem sucesso de audiência em rádios
populares. Radialistas como Gil Gomes tornaram-se famosos interpre-
tando histórias de crimes escabrosos. Nesse caso, não bastava dar a notí-
cia e muito menos comentá-la. O forte sempre foi a interpretação elo-
qüente. A estratégia para conquistar o público começava na descrição
da ocorrência e a voz vinha em um crescente de dramaticidade atingin-
do seu auge no final da história.

Cartas
Muitos dos casos criminosos são relatados pelos próprios ouvintes. É
bem verdade que a produção do programa dá uma arrumada no texto,
às vezes acrescentando detalhes, até para deixar mais melodramático.
Outras produções só alteram a ordem dos fatos.
52 • Produção de Rádio

“Os ouvintes escrevem como contam. Em geral, o desfecho do pro-


blema vem logo no primeiro parágrafo. Mudamos para dar dinâmica à
história e deixar o suspense para o final”, garante Eli Corrêa, comuni-
cador da rádio Capital AM, que mantém há mais de 30 anos o quadro
“Que Saudade de Você”. O quadro começou apenas com histórias de
perdas amorosas por desilusões, separações etc. Depois de certo tempo,
as cartas chegavam com histórias dos amores que tinham sido perdidos
por conta de crimes ou mortes.

200 mil ouvintes por minuto


Ambos, Gil Gomes e Eli Corrêa, fazem papel de radioatores.
Teatralizam as dores dos ouvintes diariamente. Mas nem todo policial
radiofônico trabalha usando o ouvinte como fonte. Os citados são os
mais populares, possuem grande audiência, ultrapassam 200 mil ouvin-
tes por minuto. Em geral, são apresentados no mesmo horário. Caso do
Eli Corrêa, que vira ator sempre às 14h.

Rotina
Os demais programas policiais valem-se das ocorrências registradas
pela polícia no cotidiano. São colhidos os acontecimentos de tempos
em tempos e informados ao público. Se o caso merece destaque, autori-
dades são entrevistadas, especialistas são ouvidos, e o ocorrido ganha re-
percussão. Se envolve pessoas conhecidas, como artistas ou personali-
dades, o destaque é maior. A repercussão aumenta na medida em que
aumenta o número de vítimas. É meio óbvio que, se houver morte, maior
é o destaque. Nesses casos, não há qualquer teatralização. Muito pelo
contrário, o locutor não demonstra sentimentos, muito menos chora no
ar. Mas também não fala de maneira alegre.

Homem-sorriso
Por falar em Eli Corrêa, ele é conhecido como o homem-sorriso do
rádio, por ter um jeito de falar (quase) o tempo todo sorrindo. Porém,
Capítulo 1: Diferentes Programas e Produtos • 53

há de se ressaltar que, em notícias tristes, é claro que o comunicador dei-


xa de lado sua marca registrada e retira o sorriso dos lábios. Fala sério
como qualquer outro. O problema é que, pelo fato de Eli Corrêa ser o
radialista mais ouvido do dial (depois de padre Marcelo Rossi, líder de
audiência atualmente), todos procuram imitá-lo com essa maneira de fa-
lar sorrindo. Muitas vezes, esses locutores iniciantes se perdem na imita-
ção e acabam informando fatos tristes com aquele sorriso, como se esti-
vessem zombando. Horrível!

Perguntas óbvias
Em reportagens externas, quando as vítimas são abordadas pelos re-
pórteres, nada mais irritante que ouvir aquelas perguntas de sempre: “O
senhor está triste?”, “Como o senhor está se sentindo neste momento?”.
Deve-se evitar o lugar-comum e fazer perguntas que acrescentem algu-
ma informação à história, que obviamente já é triste por si só.

Duelo defronte à Catedral


A Rádio Jornal A Verdade, juntamente com a Anita Garibaldi é palco
também de discussões entre Manoel de Menezes e o delegado Trogílio
Mello, o que acaba num duelo entre o jornalista e o filho do delegado.
Tudo começa quando Manoel de Menezes vai entrevistar o delegado a
respeito da ordem dada pelo governador Heriberto Hülse de que seja coi-
bida “a desenfreada jogatina que toma conta da cidade”. O jornalista se
dirige até a delegacia para saber de Trogílio Mello se realmente ele vai
colocar na cadeia todos os contraventores.
Com transmissão pelo telefone, ao vivo pela Rádio Jornal A Verda-
de, o delegado responde que coloca na cadeia todos os contraventores.
— Todos os contraventores, coronel?, Insiste o repórter.
— Já disse, boto todo o mundo na cadeia.
— Até os agiotas? Como aquele que é tesoureiro do Tesouro do Es-
tado?
54 • Produção de Rádio

Como descreve Manoel de Menezes em Retalho do Tempo (1977),


“o homem endoidou, bateu com o telefone no gancho, e quem estava na
escuta pela rádio, não entendeu mais nada!”.
Segundo Menezes, o episódio tem continuidade à noite, quando
Trogílio “chamou todos os contraventores da cidade e com eles fez “uma
mesa-redonda” na Rádio Anita Garibaldi, para que aquela gente disses-
se, por aquele microfone, que eu tomava dinheiro deles”.
Menezes complementa: “Como eles se negaram em dizer uma coisa
que não era verdade, Trogílio resolveu insultar minha mãe pelo microfo-
ne da rádio do Barreto, que ele, aliás, gostava muito disso”.
No dia seguinte, Acácio Mello, tesoureiro do Tesouro do Estado, fi-
lho do coronel Trogílio, acusado de emprestar dinheiro do Estado, a 20%
ao mês, aos próprios colegas funcionários públicos estaduais, telefona
para a casa de Manoel de Menezes para marcar um duelo entre os dois,
às oito horas da manhã, defronte à Catedral Metropolitana, coração da
cidade. Quem leva a melhor no confronto é o dono da Rádio e Jornal a
Verdade, que consegue alvejar uma das pernas de Acácio de Mello.
Por sua vez, Manoel de Menezes é jurado de morte pelo delegado
Trogílio Mello, o que nunca, na realidade, chega a acontecer.
Depoimento de RICARDO MEDEIROS e ANTUNES SEVERO.
Caros Ouvintes – os 60 anos do Rádio em Florianópolis, p. 62.

Reality shows
Estudo identifica por que o telespectador gosta tanto dos programas
ao vivo, como as transmissões esportivas e os reality shows: o motivo se-
ria o gosto pelo desfecho surpreendente. Leia notícia publicada no site
da Agência Fapesp.

Atração pelo desconhecido (31/1/2006)


Agência Fapesp — Em ano de Copa do Mundo, as transmissões es-
portivas ao vivo acabam de ganhar muitos pontos entre o público, pelo
Capítulo 1: Diferentes Programas e Produtos • 55

menos se for considerado um novo estudo realizado pela Universidade de


Chicago, nos Estados Unidos. A pesquisa, que será publicada em março
no Journal of Consumer Research, mostra uma grande atração do
telespectador pelo desconhecido.
Segundo o estudo, o público não gosta muito dos programas com um
roteiro pré-definido. Transmissões esportivas ao vivo e realities shows ga-
nham atenção pelo fim desconhecido. Não saber quem vai ganhar é algo
que atrai os telespectadores. Por outro lado, os jogos gravados são deixa-
dos em segundo plano. Nos Estados Unidos, críticas costumam ser feitas
para algumas transmissões esportivas ao vivo, por serem muito longas,
como certos jogos de beisebol. Mas a eventual impaciência do
telespectador fica em segundo plano quando o enredo se desenrola à fren-
te dele. No passado, tanto o tênis como o vôlei chegaram até a mudar
regras para terem disputas mais curtas e, conseqüentemente, ficarem mais
atrativos para a televisão.
Mas essa predileção para o fim inusitado, segundo os autores do estu-
do, não é interessante apenas para os responsáveis pelas programações de
televisão. Esse gosto pode ser extrapolado, também, para o consumo em
geral. Até um programa de férias que fuja do convencional, e pegue o
visitante pelo fato surpreendente, pode ter um bom desempenho no quesi-
to vendas, afirmam os pesquisadores.

Journal of Consumer Research: www.journals.uchicago.edu/JCR.

Econômicos
O noticiário econômico possui maior audiência nas emissoras seg-
mentadas para público adulto das classes mais altas, A e B. Principal-
mente porque a linguagem, conhecida como “economês”, não é com-
preendida por todos. Porém, de uns anos para cá, desde que Joelmir
Beting passou a decifrar os termos na TV Globo, muita gente começou
56 • Produção de Rádio

a entender melhor os meandros da economia. Hoje, Betting faz seus co-


mentários econômicos na rádio Bandeirantes.

Exemplo

O Manual da Redação da Folha de S. Paulo exemplifica muito bem:

“A autoridade monetária está praticando uma política contracionista de ele-


vação de juros reais com o objetivo de tentar conter o crescimento dos ín-
dices inflacionários” significa apenas “o governo está aumentando os juros
para tentar segurar a inflação”.

Jargões

O Manual da Redação da Folha de S. Paulo possui também um anexo eco-


nômico na página 314 com diversos jargões econômicos que devem ser evita-
dos e termos usados no cotidiano, mas que requerem a devida explicação.
Exemplos do que deve ser evitado: alavancagem, descasamento, realização
de prejuízos etc. Exemplos do que precisa ser explicado: âncora cambial, base
monetária, crise sistêmica, debênture, selic, volatilidade etc.

Nomes estrangeiros

Muitos termos da economia são em língua inglesa, a grande maioria necessi-


ta de tradução. Exemplos: float, hedge, spread e muitos outros.

Comentários
Não é só de informação sobre a economia que o rádio alimenta seus
ouvintes. Os comentários acerca do que envolvem as informações e em
que medida a economia afeta não só a política do país, como o próprio
bolso do ouvinte, são cada vez mais necessários, tanto que a maioria das
grandes rádios possui um comentarista econômico de plantão.
Capítulo 1: Diferentes Programas e Produtos • 57

Horário nobre
De modo geral, as notícias do mundo financeiro são informadas na
primeira parte da manhã, horário reconhecido como nobre, porque con-
centra a maior parte dos ouvintes que acordam ouvindo rádio e vão
para o trabalho querendo estar informados antes de começar a jornada.

Cotações
Muitos profissionais que lidam com economia acompanham as vari-
ações das cotações das principais moedas estrangeiras, principalmente as
do dólar americano. Normalmente, o rádio que tem ouvintes com perfil
interessado no assunto fornece as cotações até as 19h, quando fecha a
última cotação do dia.

Internet
Com a chegada da Internet, a audiência específica que ouvia rádio
para se inteirar do noticiário econômico migrou para a Web, que forne-
ce os dados e as informações em tempo real. Nesse caso, estamos falando
de um público com poder aquisitivo alto, que está automaticamente
conectado à Internet.

Educativos
Falar de programas educativos no rádio mereceria um livro à parte, ta-
manha é a importância do tema. Recomendo o livro de Fábio Prado
Pimentel, O Rádio Educativo no Brasil — Uma Visão Histórica. Pimentel
nos faz crer no enorme potencial do rádio como veículo de educação.
Pimentel cita o criador da primeira rádio no Brasil, Edgard Roquette
Pinto:

O rádio é a escola dos que não têm escola, é o jornal de quem não sabe
ler, é o mestre de quem não pode ir à escola, é o divertimento gratuito do
58 • Produção de Rádio

pobre, é o animador de novas esperanças, o consolador dos enfermos e o


guia dos sãos — desde que realizem com espírito altruísta e elevado, pela
cultura dos que vivem em nossa terra, pelo progresso do Brasil.

Ignorância
Ao resumir o papel do rádio na educação da população, principal-
mente a de baixa renda, podemos afirmar categoricamente que o rádio
não só educa e forma opinião, como ajuda a tirar o ouvinte do analfa-
betismo e da ignorância.
O radinho de pilha leva informação e entretenimento ao morador
do campo, em lugares afastados da cidade, entre aqueles que trabalham
o dia todo e só conseguem ter tempo de aprender com o rádio de pilha
ligado. Não é preciso reafirmar aqui que o rádio ainda é o meio de co-
municação que atinge uma maior parcela da população, mesmo consi-
derando os avanços tecnológicos.

Educação a distância
O que hoje vem sendo amplamente difundido pela Internet é reali-
zado pelo rádio desde os anos 20. A educação a distância foi testada por
vários projetos de instituições governamentais e religiosas. Exemplo dos
principais programas citados no livro de Pimentel é o MEB — Movi-
mento de Educação de Base, desenvolvido pela igreja católica com o
objetivo de prestar ampla assistência educacional.
Existem inúmeros projetos de programas de educação popular sérios,
que suprem a deficiência do ensino de certas localidades. Em geral, liga-
dos às universidades, comunidades ou ainda às ONGs. O mais conheci-
do é o Projeto Minerva, o sistema oficial de ensino através do rádio.
Um exemplo que vale a pena ser citado é o trabalho do Programa
Educom.rádio, que teve início em 2001, na USP:

Seu objetivo é o de resolver um problema específico: combater a violên-


cia e favorecer uma cultura de paz num determinado ecossistema
Capítulo 1: Diferentes Programas e Produtos • 59

educativo: as escolas do ensino fundamental da rede pública municipal


de ensino.
O Projeto Educom.rádio privilegia, neste contexto, o emprego da lin-
guagem radiofônica através da introdução de um laboratório de rádio em
cada escola. Assim, objetiva o desenvolvimento de práticas pedagógicas
solidárias e colaborativas que permitam à comunidade escolar dar respos-
tas construtivas aos problemas da convivência diária.
Do site http://www.usp.br/educomradio.

Disciplinas
Não só de técnicas de alfabetização é composta a grade de uma rá-
dio educativa. Muito se pode ensinar através do rádio, de história do
Brasil e do mundo a higiene e saúde.

Lucro
Infelizmente, inúmeras emissoras brasileiras que possuem concessão
como rádio educativa não operam com esse propósito. Começam com o
objetivo de educar e viram rádios comerciais que só visam ao lucro.

Institucionais
De modo geral, apenas comerciais institucionais são inseridos na
programação. Nos últimos tempos, comerciais chamados de “apoio cul-
tural” ganharam espaço nessas emissoras.

Audiência das emissoras de rádio


O rádio comercial busca as classes A, B e C, ignorando as demais por
estarem fora do mercado de consumo. As emissoras educativas, por prin-
cípio, deveriam atingir todas as classes sociais o que, em termos práticos,
não ocorre. As rádios livres e comunitárias, ao contrário, tendem a atin-
gir justamente parcelas pobres da população, ignoradas pelas demais.
LUIZ ARTUR FERRARETTO, Rádio – O Veículo, a História e a Técnica, p. 37.
60 • Produção de Rádio

Universitárias
As rádios das universidades, geralmente produzidas por alunos, são
em número reduzido no Brasil. Normalmente não possuem audiência
significativa, diferente do que ocorre no exterior. Por exemplo, as rádios
universitárias nos Estados Unidos possuem boa audiência e invariavel-
mente lançam artistas.
Seria ótimo se essas emissoras baseassem suas programações em as-
suntos culturais e outros de real interesse do público. E não imitassem o
modelo de rádio comercial apenas para alavancar audiência.

Música clássica
Não é porque a emissora é educativa ou universitária que é preciso
ter uma programação apenas de música erudita. Qualquer outro gênero
de boa qualidade pode ser programado, desde que com o cuidado da es-
colha do melhor. É que, em geral, quando se ouve música erudita no
rádio, as emissoras ou são educativas ou universitárias. Esse tipo de mú-
sica não costuma dar retorno comercial para a rádio-empresa.

Nos dias de hoje


Reserve parte de sua grade de programação para a educação. Sem-
pre existirá um tema, em qualquer tipo de público, que poderá ser ensi-
nado e aprimorado.

Trabalhar no rádio, além de alegrias e realização pessoal, nos traz talvez


mais experiências que outros veículos, como o impresso, por exemplo, em
termos de rapidez de raciocínio e muito, muito “rebolado”. Por ser um
veículo cujas características marcantes são o imediatismo, instantanei-
dade e interatividade, o rádio realmente nos torna, pelo menos, mais in-
tuitivos, exercitando nossa criatividade o tempo inteiro.
Certa vez, eu estava transmitindo uma palestra do Sr. Eugênio Bucci
no auditório da Universidade para a rádio Universitária, a Fumec FM,
Capítulo 1: Diferentes Programas e Produtos • 61

na qual eu era monitora. E, como de praxe, nos ‘buracos’ [pausas] eu


apresentava para os ouvintes a palestra e fazia alguns comentários, lá do
estúdio, de onde estava fazendo a transmissão. De repente, o palestrante
volta ao microfone e pergunta de onde surgiu ‘a voz do além’... O retor-
no estava aberto no auditório, e todos lá escutaram a transmissão que eu
fazia pela rádio.
Os alunos não contiveram suas gargalhadas, eu não tinha idéia do que
estava acontecendo, se realmente era a minha voz na transmissão a que
ele estava se referindo, e o palestrante, de última hora, foi avisado sobre
a transmissão pela rádio da faculdade. O que aconteceu foi que deixa-
ram o retorno alto no auditório e ele, assim como todos que estavam no
auditório podiam ouvir tudo o que eu falava.
Para contornar a situação só mesmo deixando “passar em branco” a
falha e continuando a fazer o que devia ser feito: as apresentações para
ouvintes que por ventura tenham sintonizado há pouco tempo e comen-
tários. Se eu fosse interromper para explicar seria bem pior. Tem horas
que dá para se contornar a situação dessa forma, tem horas que não. Na
hora, julguei que seria o melhor a ser feito.
THAIS VALADARES, Jornalista e publicitária graduada
pela Universidade Fumec, Belo Horizonte, Minas Gerais.

Exemplos

Conheça algumas rádios universitárias brasileiras que constam na Wikipedia


(www.wikipedia.com).

• Rádio Interferência 91,5 MHz FM (UFRJ, Rio de Janeiro).


• Rádio Universitária Metropolitana 1030 KHz AM (Rio de Janeiro).
• Rádio Unijuí (Unijuí, Ijuí-RS).
• Rádio UFMG Educativa 104,5 FM (UFMG, Belo Horizonte, MG).
62 • Produção de Rádio

• Rádio USP 93,7 FM (USP — São Paulo).


• Rádio Universidade FM 107,9 (UEL, Londrina — Paraná).
• Rádio Unesp 105,7 FM (Unesp, Bauru — SP).
• Rádio Veritas 102,7 FM (USC, Bauru — SP).
• Rádio Universidade 1080 AM (UFRGS, Porto Alegre — RS).

Comunitárias
São as emissoras que, a princípio, devem atender à comunidade. São
rádios em que o sinal é de pequeno alcance, até porque o intuito é ser-
vir à comunidade do bairro.
Produzir para rádios comunitárias é tarefa pela qual todos deveriam
passar no começo da carreira. Com programação estritamente local, in-
forma tudo o que pode para ajudar a melhorar a vida do morador do
bairro e outras ações de conscientização, dá parâmetros de experiência
para quando o radialista ingressa em uma emissora comercial. É uma ver-
dadeira escola de rádio.
O que conforta e justifica é que, mesmo sendo uma audiência restri-
ta, é formada por pessoas que estão perto umas da outras. Fazem parte
da mesma comunidade, e isso pode gerar maior integração. O profissio-
nal de rádio comunitária costuma ajudar seus vizinhos, e o retorno dessa
ação é visível. O público é fiel e demonstra a força de sua mobilização.
Existem poucos livros que tratam do tema. Cláudia Mara Stapani
Ruas escreveu Rádio Comunitária: uma estratégia para o desenvolvimento
local, no qual mostra a radiodifusão comunitária em Mato Grosso do Sul
e sua influência na comunidade local.
Cláudia Ruas descreve o surgimento das rádios comunitárias no Bra-
sil a partir da eclosão de movimentos sociais contrários à massificação
da comunicação. O livro também reflete sobre o uso que as comunida-
des fazem das rádios comunitárias, o que gera a sua importância.
Capítulo 1: Diferentes Programas e Produtos • 63

Armando Coelho Neto trata das leis de radiodifusão comunitária


em seu livro Rádio Comunitária Não É Crime — direito de antena: o es-
pectro eletromagnético como bem difuso. Coelho começa com a pergunta:
“Pode um governo reprimir uma ação que a sociedade não condena?”
Chega à conclusão de que não existe crime.

Foco
Para quem faz rádio comunitária é preciso saber que a produção é
praticamente a mesma, o que muda é o foco. Enquanto em uma rádio
comercial a preocupação é informar sobre tudo o que acontece de mais
importante no Brasil e no mundo, a comunitária dedica-se mais aos as-
suntos locais, de sua região, seu bairro.
Até mesmo as informações das atividades culturais e de lazer referem-
se, principalmente, ao bairro. Muitas vezes, o artista local recebe espaço
na rádio para divulgar seu trabalho. Os produtores de eventos locais tam-
bém utilizam as emissoras comunitárias para chamar os ouvintes.

O projeto de implantação de rádios comunitárias, que vem tirando o


sono de grandes grupos radiofônicos, prevê a transmissão de sinais em fre-
qüência única num raio nunca superior a 400 metros. Para os profissio-
nais da radiodifusão brasileira, as rádios comunitárias são bem-vindas
como um passo a mais na democratização das telecomunicações e, fun-
damentalmente, como alternativa ao processo permanente de globa-
lização que agita a humanidade, atuando como difusor permanente da
cultura regional. É o tambor tribal de que falava Marshall McLuhan,
soando em cada quarteirão do Brasil.
FERNANDO VIEIRA DE MELLO,
Diretor-executivo de Jornalismo da TV Bandeirantes
64 • Produção de Rádio

Peças
Sitcom radiofônica
Trata-se de um programa curto, chamado de programete, em que
uma história de ficção é contada. Não é comum no rádio, mas pode ser
produzida e, se bem realizada, pode agradar o ouvinte. Pode ser bem-
humorada, mas não necessariamente. Em geral, são comédias de costu-
mes. Necessitam de radioatores, sonoplastia, trilha adequada e direção
especializada.

Radionovela e radioteatro
O mesmo acontece com as radionovelas e radioteatros. Não são usuais
hoje em dia. Apenas algumas emissoras do interior ainda colocam no ar
histórias contadas em capítulos. O público das cidades grandes tem mui-
tas atividades, o que dificulta acompanhar uma história que continua no
dia seguinte. Melhor é o radioteatro de um capítulo só. Começa e aca-
ba. Porém, devido aos altos custos de equipe e de produção, não se cos-
tuma investir neste tipo de programação.

Peça radiofônica
Em geral, são trabalhos de radioarte e exigem equipamento de pon-
ta. No Brasil, pouquíssimos radialistas produzem peças radiofônicas por
dois motivos básicos: não existe tecnologia para produzir paisagens so-
noras e nem tem espaço nas programações das emissoras para
veiculação. A rádio Cultura de São Paulo coloca no ar, de forma espo-
rádica, trabalhos que se assemelham a peças radiofônicas. Ao passo que
em países como a Finlândia e a Alemanha as peças radiofônicas são bas-
tante produzidas, ouvidas, premiadas.

Radiodocumentário
Pouco freqüente no Brasil, o documentário radiofônico aborda um deter-
minado tema com profundidade. Baseia-se em uma pesquisa de dados e
Capítulo 1: Diferentes Programas e Produtos • 65

de arquivos sonoros, reconstituindo ou analisando um fato importante.


Inclui, ainda, recursos de sonoplastia, envolvendo montagens e a elabo-
ração de um roteiro prévio.
LUIZ ARTUR FERRARETTO, O Veículo, a História e a Técnica, p. 57.

Infantis
É uma pena que as emissoras não apostem no público infantil e não
dediquem uma programação voltada para as crianças. São raras as atra-
ções radiofônicas que ficam muito tempo no ar. Normalmente, entram,
ficam alguns meses e saem da programação.

Cuidado
Todo cuidado é pouco ao se falar com crianças. Elas estão em forma-
ção e muitas vezes acreditam em tudo o que lhes é dito. Se falar ou pas-
sar conceitos errados, elas aprenderão errado.
Não trate a criança como adulto, falando coisas que ela não enten-
de, mas também não subestime sua inteligência. É preciso saber dosar
muito bem para acertar.
Saiba que as crianças gostam de música boa, não é necessário ficar
só programando canções insossas de apresentadoras de programas infan-
tis da TV. Selecione músicas bonitas e lúdicas. Faça uma pesquisa entre
os ouvintes mirins para saber exatamente o que eles gostam de ouvir. E
aproveite para criar gosto nesse público promissor.
Barbosa e Adami comentam sobre os primeiros programas infantis
do rádio:

Programas infantis também preencheram o espaço do rádio. Na esteira


dos pioneiros como “Tia Brasília” da Educadora Paulista, “Hora Infan-
til” da Record e “Pequenópolis” de Mary Buarque, surgiram, em segui-
66 • Produção de Rádio

da, “Tia Justina”, de caráter eminentemente educativo, sob a direção da


professora Virginia Rizzardi. “As Aventuras de Dick Peter”, na rádio
Difusora, emissora que conseguiu o maior êxito entre estes formatos, e o
“Clube Papai Noel”, sob o comando de Homero Silva.
ANDRÉ BARBOSA e ANTONIO ADAMI. São Paulo nas Ondas do Rádio,
Encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho, 2005.
Capítulo 2

Formatos

Programa curto
O formato de um programa de curta duração, que em média dura
entre um e três minutos, é chamado de programete, pílula, dropes, bole-
tim, entre outros nomes, como “Momento do...” (esporte, vinho, ouvin-
te etc.), ou “Dicas de...” (saúde, nutrição, moda). Os programetes costu-
mam ser espalhados ao longo da programação, com ou sem horário de-
terminado.
Pode-se abordar qualquer assunto em seu conteúdo. Por exem-
plo, um programete sobre meteorologia, ondas ou astrologia. Ultima-
mente, emissoras apostam em temas pouco usuais para este formato,
como boletins sobre decoração, empreendedorismo, mercado imobi-
liário etc.
Em geral, esse formato é muito utilizado para o espaço dedicado aos
colunistas e comentaristas, como uma espécie de crônica radiofônica. É
composto por boletins com assunto definido, como os colunistas da rede
CBN: Miriam Leitão, que fala sobre economia, ou assuntos gerais, ou
Arnaldo Jabor, que fala sobre política em geral, mas está aberto a co-
mentar qualquer assunto.
68 • Produção de Rádio

Humor
A maioria dos programas de humor é produzida em formato de
programete. A explicação é óbvia: é muito difícil ser engraçado por mui-
to tempo todos os dias, porque, em geral, os humorísticos são diários, ou
de segunda a sexta-feira. De um a dois minutos é um tempo ideal para
fazer uma graça inteligente e que prenda a atenção dos ouvintes. Claro
que existem programas de humor de mais de uma hora de duração,
como o famoso “Pânico”, da Jovem Pan FM, ou o “Chupim”, da Metro-
politana FM, de São Paulo. Porém, esses programas de duas horas são
alternados com entrevistas com personalidades, caso do “Pânico”, de
trotes com pessoas comuns, caso do “Chupim”, e de muita música entre
uma palhaçada e outra. Se computar o tempo do puro humor mesmo,
acaba sendo bem menos do que se imagina.

Ao vivo
Existem dois tipos: programação ao vivo e cobertura externa ao
vivo. O que significa que o que está indo ao ar está acontecendo na-
quele exato momento. Tanto pode ser o apresentador, ao vivo no estú-
dio, ou o repórter, ao vivo na rua, em um estádio ou na casa de alguém.

Ouvir antes
O grande trunfo do rádio é a instantaneidade. Nenhum outro veí-
culo chega antes dele em uma reportagem, a não ser a televisão, mas,
para tanto, ela precisa estar com todo o equipamento de externa em
muitos lugares, ao passo que o repórter de rádio pode, com apenas um
microfone ou um celular, reportar o fato em tempo real. Por isso, mais
deles chegam antes nos locais do acontecimento.

Cada vez mais, os meios de comunicação tendem a ser prestadores de


serviço, e nisso o rádio é imbatível. É informação na hora, não precisa
Capítulo 2: Formatos • 69

de câmera, iluminação, só um celular. Por mais que se inventem coisas


novas, ninguém bate o rádio no sentido da transmissão imediata.
VICENTE ADORNO, em entrevista à autora, em novembro de 2005.

Está certo que a TV também faz uso do celular e coloca uma ima-
gem estática na tela. Mas aí, convenhamos, não é exatamente TV, é rá-
dio na TV.
Mesmo com o surgimento da Internet, a notícia precisa ser redigida
e gerada. Hoje em dia, ferramentas como as dos blogs facilitaram muito
a rapidez da geração de informações, mas ainda assim, enquanto o locu-
tor está falando para a rádio, o repórter online está escrevendo. Os bo-
letins de áudio na Internet não são comuns, e as TVs na Internet ainda
não possuem audiência significativa para citarmos aqui.
De qualquer forma, o acontecimento noticiado ao vivo no rádio
atinge muito mais gente pelo simples fato de que é bem mais fácil as pes-
soas estarem com seu rádio ligado (em casa, no trânsito, no fone de ou-
vido) do que estar com a TV ou o computador “no colo”.

Celulares
Notícias em tempo real nos celulares é um campo que começa a ga-
nhar força atualmente. Cresce vertiginosamente, mas ainda existe mui-
ta resistência daqueles que não querem receber informações nos
aparelhinhos. Pura falta de costume.

Ao vivo sempre
Toda a programação do rádio deve ser ao vivo, inclusive na madru-
gada. Aliás, principalmente para as emissoras populares (a grande maio-
ria), a madrugada é o horário em que a interatividade cumpre um papel
que define uma das metas primordiais do rádio, o de fazer companhia.
Claro que ele faz companhia o dia todo, mas é na madrugada que as pes-
soas sentem mais a solidão e querem alguém conversando com elas.
70 • Produção de Rádio

Fins de semana
Algumas emissoras reprisam seus melhores programas da semana no
sábado e no domingo. Não deveriam, porque é no fim de semana que
muita gente presta mais atenção na programação radiofônica. Às vezes,
é o único lazer de uma família. Não acredito que programas interessan-
tes não devam ser reapresentados, mas eles podem ser alternados com a
programação ao vivo, que fale do que está acontecendo naquele mo-
mento em que a pessoa está ouvindo. Isso é fundamental para a con-
quista de ouvintes fiéis. Trata-se de respeito ao ouvinte.

Férias
Algumas emissoras gravam programas de seus principais comuni-
cadores (como se estivessem ao vivo, o que é pior) para seu mês de fé-
rias. O mais correto seria substituí-los nesse período. Talvez o medo de
perder ouvintes para a concorrência faça com que a direção opte por
utilizar esse expediente.
Uma boa opção é aproveitar as férias do apresentador para rea-
presentar alguns de seus programas especiais, desde que sejam frios, ou
seja, de assuntos que cabem em qualquer época. Ou ainda de algumas
das melhores entrevistas que foram mostradas ao longo do ano. É tarefa
do produtor assinalar as melhores quando elas acontecem, para não cor-
rer o risco de esquecer alguma.

Gravados
Programas gravados não são proibidos. Entenda bem, se o âncora vai
entrar no ar daqui a duas horas, nada impede que ele grave entrevistas
antes. Se um especialista em determinado assunto precisa entrar no pro-
grama naquele dia, mas ele não pode falar ao vivo no horário do progra-
ma, por compromissos já agendados, basta gravar. De preferência, no mes-
mo dia ou um dia antes, mas enquanto o assunto ainda estiver quente.
Capítulo 2: Formatos • 71

Entrevistas longas
O mesmo pode ocorrer em entrevistas demoradas, muitas vezes até
complicadas (por muitos motivos, porque o entrevistado é uma pessoa
difícil, ou porque não é articulado etc.). Nesse caso, o melhor a fazer é
agendar um ou mais dias para gravar a entrevista, que tanto pode acon-
tecer na casa do entrevistado, em seu escritório ou no estúdio, o que fica
bem melhor tecnicamente, diga-se de passagem. Grava-se toda a con-
versa, e depois editam-se as melhores partes, dividindo em pequenos
takes de, no máximo, três minutos cada.

Com participações
Com platéia
Quando a programação vai ao ar com platéia, é preciso toda uma
organização para evitar transtornos. Uma orientação básica aos convi-
dados precisa ser feita antes de começar. Parece bobagem, mas é preciso
avisá-los que não podem gritar, interromper, invadir o palco, sair baten-
do a porta etc.

Poucas pessoas
Se apenas um grupo está assistindo ao programa ao vivo, dentro do
estúdio, as recomendações das boas maneiras também devem ser dadas.
De qualquer forma, não é recomendado superlotar o estúdio de gente,
para não atrapalhar o comunicador e sua equipe de produção.

Com convidados especiais


Um programa que é formatado com a participação constante de
convidados deve tomar certas precauções.
Em primeiro lugar, o produtor precisa ter uma agenda repleta de
contatos de pessoas de renome e, obviamente, atualizada (leia mais no
tópico Agenda, no Capítulo 8).
72 • Produção de Rádio

Em segundo lugar, os convites à participação necessitam de antece-


dência suficiente para que o convidado possa se agendar. Reforço do
convite dias antes do programa para verificar se o convidado não se es-
queceu do compromisso também é conveniente.

Credibilidade
É muito simpático contar com convidados no programa. Se forem es-
pecialistas, darão credibilidade às opiniões discutidas no ar. Se forem pes-
soas comuns, trarão a discussão para um melhor nível de compreensão e
identificação.

Tempo
Mesmo sendo convidados conhecidos da produção, é fundamental
ficar de ouvidos atentos para cortá-los, caso ultrapassem um tempo plau-
sível para o rádio. Repito: nada com mais de três minutos. Lembre-se:
nem todo mundo se interessa pelo tema e o ouvinte pode acionar o bo-
tão do dial.

Logística
Para melhor receber os convidados, a produção prepara o ambiente,
checa em que lugar ele vai ficar ao chegar, se a sala de espera está em con-
dições de recebê-lo, se possui água fresca, café quente, jornal do dia etc.
Em alguns casos, quando necessário, a produção providencia um
motorista da rádio para buscar o convidado. Não se esqueça de pedir
para levá-lo de volta.

Recomendações e regras
Convidado ou convidados a postos, o produtor faz aquele papel de-
licado de recomendar obviedades do tipo: não fale alto porque o micro-
fone já amplifica a voz, duas ou mais vozes ao mesmo tempo “embolam”
o que está sendo dito e o ouvinte não entende nada etc.
Capítulo 2: Formatos • 73

Em programas de debate com convidados, as recomendações são pon-


tuais. Se houver algum tipo de regra que estabelece a ordem de cada um
falar, tempo que ganham para falar com possibilidades de réplicas ou
tréplicas, tudo deve ser muito bem explicado antes de o programa começar.

Fala, ouvinte!
Programa com participação de ouvintes exige uma preocupação
maior por parte da produção. Como não se sabe o que o ouvinte vai
falar, todo cuidado é pouco. Diferente de um convidado que já se co-
nhece, e se sabe que entende do assunto, o ouvinte é sempre uma in-
cógnita.
O corte de sua fala fica sempre por um fio, ou seja, qualquer deslize é
interrompido pelo apresentador. Nesse caso, tanto o próprio apresenta-
dor quanto o produtor estão atentos ao que o ouvinte diz para cortá-lo
quando for pertinente.
Muitas vezes, o ouvinte fala bem e sua conversa é interessante. No
entanto, se fala demais e estiver chegando perto de três minutos, é pre-
ciso cortá-lo sem piedade.

Consultores
A participação dos consultores fixos ou esporádicos é diferente. Ele
já sabe o espaço que tem e fala dentro do tempo estipulado. E se ele che-
gou ao posto de consultor de determinado assunto, é porque sabe se ex-
pressar bem. Sua entrada é, em geral, tranqüila e ocorre sem problemas
na maioria das vezes.
De modo geral, os consultores têm um horário determinado para en-
trar, o que não impede que sejam acionados quando algum fato de re-
percussão acontece, e sua opinião é imprescindível. Muitos consultores
já sabem dessa possibilidade e se oferecem para falar quando estoura um
assunto fora de hora que eles dominam.
74 • Produção de Rádio

Tenha uma lista de seus consultores com nomes de reserva ao lado,


para o caso da ausência de um deles por variados motivos (férias, doen-
ça, viagem etc.). Os da lista de reserva são esporádicos, mas devem ser
testados e, caso necessário, treinados para entrar no lugar do titular.
Algumas emissoras operam com uma lista maior de consultores, tra-
balhando em rodízio. Assim, podem variar de opiniões. Ao mesmo tem-
po, ao fazer com que o consultor não trabalhe de forma fixa, nem sem-
pre remuneram suas participações.
Todo e qualquer trabalho radiofônico fixo deve ser remunerado. Fi-
que alerta com profissionais que oferecem seus serviços de graça. Boa
coisa não deve ser. Além disso, ele está tirando o lugar daquele que po-
deria receber para trabalhar.

Interativos
Hoje em dia, a palavra de ordem é interação. O rádio sempre foi
interativo, com participação de ouvintes e colaboradores. Mas nada im-
pede que a produção invista cada vez mais, fazendo com que essa
interação seja consistente e proveitosa. Faça uma lista dos ouvintes que
mais assiduamente ligam para participar do programa. Ligue para eles de
vez em quando para mantê-los participativos. Separe na agenda quais
são os mais articulados, menos tímidos, e coloque ao lado dos seus no-
mes os temas que gostam de discutir. Sempre que precisar, recorra a eles
para que entrem no ar ilustrando o programa. Lembre-se: nada mais in-
sosso do que o comunicador falando o tempo todo, mesmo que ele saiba
do que fala e tenha uma voz agradável.
É preciso ouvir outras pessoas com outros pontos de vista sobre o
mesmo assunto: o ouvinte comum, o especialista no tema, ou mesmo al-
guém na rua que nunca participou de nenhum programa da rádio. To-
dos têm validade e trazem aquela aura de cotidiano com que todos se
identificam.
Capítulo 2: Formatos • 75

O jornalista e radialista Vicente Adorno comenta:

O repórter precisa ficar sempre atento, pois, às vezes, se depara com um


personagem, que foge da pauta, mas que é interessante. Pode ser um sem-
teto, um militante político que está em uma passeata, às vezes é um solda-
do. Um dos perigos da nossa profissão é a gente achar que é dono da verda-
de. A gente tem que ter a humildade de saber que nem sempre o que a
gente acha é a verdade, pode ser uma parte da verdade, mas não toda. Tem
que ter o cuidado de ouvir o outro lado, e quanto mais outros lados a gente
ouvir, melhor ainda. Aí sim a gente vai ter um retrato mais aproximado
do que talvez seja a verdade. E sentir que as pessoas têm uma outra moti-
vação e outra percepção das coisas que não a nossa. É uma escola de vida,
e o repórter precisa ter esse cuidado de não menosprezar o fato de falar com
a pessoa da rua, aquele que sai do bar, a dona de casa que está fazendo
compras, o sujeito que está saindo do fórum, o marceneiro que foi fazer
uma entrega, enfim, todos esses podem ser personagens de uma matéria e
enriquecê-la com o toque humano que só os personagens podem dar.

Perguntas e respostas
Programas que utilizam perguntas e respostas contam com um esque-
ma que facilita o trabalho do comunicador. Se ele conversa com apenas
uma pessoa, pode fazer uma entrevista no estilo pingue-pongue, o que
quer dizer: ele pergunta, o outro responde, utilizando apenas uma aber-
tura, dando um resumo do assunto que será discutido. Só não deve ser
usado sempre, para que não fique monótono. Alterne com outros tipos
de abordagem de assuntos.

Coletivas
A produção deve tentar conseguir, com a assessoria de imprensa de
quem vai falar, uma entrevista exclusiva para a rádio antes da data
76 • Produção de Rádio

marcada para a entrevista coletiva. Nem sempre concedem. Nesse caso,


é preciso saber “vender o peixe”, explicar a importância do programa,
do comunicador, dar números da audiência e o retorno que a exclusiva
pode trazer. Por que tudo isso? É bem melhor ter uma conversa única,
direcionada aos ouvintes específicos do seu programa, do que gravar na
coletiva e transmitir exatamente o mesmo que todas as demais emisso-
ras. Se posso colocar no ar algo diferente, por que vou colocar igual?

Última tentativa
Muitas vezes, a assessoria não concede a exclusiva por falta de tem-
po, ou por achar que a coletiva vai demorar muito e o entrevistado tem
outro compromisso. Ainda resta uma última tentativa, e o repórter deve
ser orientado para esse tipo de procedimento. Ao terminar a coletiva,
não custa nada arriscar que o entrevistado responda ao menos uma per-
gunta. Basta chegar perto dele com o gravador e fazer a pergunta direta-
mente, sem rodeios. Não tem necessidade de perguntar: “Posso fazer
apenas uma pergunta?” Nesse caso, já se está perdendo tempo.
O repórter deve ir direto ao assunto, com uma pergunta curta. Claro
que não é o momento de o repórter fazer uma daquelas interrogações
que começam com uma introdução enorme, para depois sair a pergunta.
Em geral, o término de uma coletiva é tumultuado. Outros repórteres
também vão tentar uma resposta só para eles, assessores vão querer tirar
o entrevistado da mesa para ir embora ou para uma sessão de fotos. Por-
tanto, o repórter já deve ter separado o que vai perguntar (na cabeça,
porque também não é hora de ler no papel).
Se o entrevistado responder de forma interessada, e o repórter per-
ceber que existe a chance de continuar perguntando, ele deve conti-
nuar. Por isso é bom que ele não tenha falado no começo que era “só
uma pergunta”. O mais importante é perguntar o que não foi dito antes
na coletiva, é claro. Só vai aborrecer o entrevistado se o repórter fizer
uma pergunta meio parecida, sobre um assunto que foi abordado há
Capítulo 2: Formatos • 77

pouco. Isso pode ocorrer por dois motivos. O repórter pode achar (e
acha errado) que o que ele respondeu a todos não serve e quer que ele
responda apenas para ele. Bobagem, ele vai falar a mesma coisa, muitas
vezes com as mesmas palavras, e ficará irritado. O outro motivo pode
soar até pior: o repórter chegou atrasado e não pegou a coletiva inteira,
ou, ainda mais incômodo, estava lá desde o começo, mas não prestou
atenção. Portanto, cabe ao repórter saber muito bem cavar uma respos-
ta realmente exclusiva.

Exclusiva
Caso consiga uma entrevista exclusiva, dê-se por feliz, pois normal-
mente os entrevistados (principalmente os “vips”) escolhem os princi-
pais veículos de comunicação. Saiba aproveitar o entrevistado só para o
seu programa e capriche na pauta da entrevista. Fuja das obviedades,
pois elas estarão em todas as rádios. Não desmerecendo as perguntas das
coletivas, onde acontece de tudo, das perguntas mais medíocres às mais
inteligentes. Mas em exclusivas não se deve perder tempo com o básico.
Nem é preciso dizer que o entrevistador, seja o repórter ou o comu-
nicador, deve estar muito bem preparado, mais do que para uma entre-
vista rotineira. Todas as entrevistas exigem preparação, mas as exclusi-
vas devem ganhar um reforço de pesquisa, até pelo fato de não serem
corriqueiras.

Exemplo

Tempos de governo Erundina

Em uma entrevista exclusiva, o repórter da Folha questionava a interrupção


no funcionamento do crematório de Vila Alpina (zona leste de São Paulo), cujo
forno estava parado há mais de 20 dias. Em meio a várias informações
78 • Produção de Rádio

desencontradas, o administrador do Serviço Funerário não conseguia explicar o


porquê dos problemas.
Justamente na hora em que o repórter do caderno Cotidiano insistiu na per-
gunta, seu gravador parou de funcionar. Várias tentativas de fazer a fita voltar a
rodar foram em vão durante a entrevista.
O administrador provocou:
— Meu filho, se o seu gravador é novo e quebra, imagine o que não pode
acontecer com um forno de mais de 20 anos.

Curiosidades, do site Círculo Folha, da Folha Online,


em http://www1.folha.uol.com.br/folha/circulo/index.htm.
Capítulo 3

Público-alvo

Segmentação
Uma das principais preocupações de um produtor é seu público.
Para conhecê-lo melhor, conta com o suporte das pesquisas de audiên-
cia, que mostram exatamente quem ele é. Os dados apresentam o perfil
do público que a rádio possui. Para continuar atendendo a esse perfil de
público, mantém-se a programação do jeito que está, fazendo apenas pe-
quenos ajustes para melhorá-la.

Outro público
Para conquistar um público diferente, acrescentam-se mudanças de
acordo com o novo perfil que se quer atingir. Entretanto, de nada
adianta apresentar uma programação fora do gosto do público-alvo com
o intuito de mudar sua preferência. Isso não acontece de repente. E as
mudanças não podem ser bruscas.

Classe social
Existem vários tipos de segmentação; a que detecta melhor o tipo de
público é aquela que aponta sua classe social. Uma rádio pode ser ouvi-
da por todas as classes sociais, apesar de ser difícil que isso ocorra. No
80 • Produção de Rádio

entanto, ela será ouvida mais por um segmento do que por outro. Por
exemplo: os dados em porcentagem mostram que determinada rádio
tem audiência formada por 60% de classes A e B, 30% de classe C, 8%
de classe D e 2% de classe E. Portanto, essa emissora é considerada uma
que atinge as classes A, B e C, com maior público entre as classes A e
B. Isso indica que a produção impulsiona todo o seu trabalho pensando
exatamente nesse público.
Pode acontecer uma mudança de estratégia para alcançar mais de-
terminado público do que outro. Tomemos o mesmo exemplo da rádio
citada acima: se a diretoria resolve investir mais nas classes A e B, vai
direcionar a sua programação de acordo com o gosto desse público (é
claro que será preciso verificar outros dados do perfil). Mas a conclusão
é que a incidência de ouvintes das outras classes sociais vai diminuir. De
repente, a audiência das classes D e E acaba por deixar de ouvir a rádio
por considerá-la elitista.
O que não deve ser feito é uma mudança radical de estilo de pro-
gramação. Por exemplo: uma emissora que possui um histórico de
atender há mais de 20 anos a uma audiência popular, com ouvintes
na sua maioria das classes D e E, não pode, de um dia para o outro,
alterar de forma radical toda a programação para agradar a ouvintes
das classes A, B e C. Isso porque esses ouvintes não ouvem essa rádio,
e vai demorar bastante para que eles saibam que ela está com outra
programação.
Será necessária divulgação maciça para que o novo público a ser
atingido descubra a novidade e queira ouvir para constatar; afinal, a
mudança foi drástica. Por outro lado, vai espantar todo o público que
estava acostumado e que gosta de ouvir rádio popular. Esse ouvinte não
vai pensar duas vezes, vai acionar o dial e passar a ouvir a concorrente.
Parece óbvio o que é apontado como atitude perigosa, mas acredite, isso
realmente acontece. E o que é pior, os dirigentes acham que em menos
de um ano recuperam o estrago. Impossível.
Capítulo 3: Público-alvo • 81

Sem intervalos comerciais


Se a diretoria insiste em trocar o perfil de ouvinte, precisa arcar com
o tempo que isso vai requerer para conquistar novos ouvintes. E, en-
quanto isso não acontece, uma reserva financeira resolve o período da
falta de recursos, pois não é só o público que sai correndo, os anuncian-
tes também. Afinal, os comerciais eram dirigidos a um outro tipo de pú-
blico. Um planejamento minucioso pode detalhar como deverá ocorrer
a mudança de segmento, prevendo as conseqüências, como a fuga do
público fiel e a lenta chegada do outro ouvinte e dos novos anuncian-
tes. Isso leva tempo. No mínimo dois anos para começar a recuperar.

Faixa etária
A segmentação dos ouvintes por faixa etária também conta na
hora de pensar a programação do dia-a-dia da rádio. As emissoras cos-
tumam denominar seu público adulto ou jovem, já que não existe rá-
dio infantil nem rádio exclusiva para idosos. Poderíamos encaixar aqui
a rádio Scalla FM (SP, BSB) que atinge ouvintes principalmente com
mais de 50 anos, o que não pode ainda ser considerado um público
idoso; de qualquer forma, não deixa de ser uma rádio voltada para o
público mais velho.
Entre as emissoras jovens, existem as mais jovens, que agradam des-
de os pré-adolescentes, digamos, a partir dos 12 anos, as jovens, e as jo-
vens-adultas, que, além de atenderem aos jovens, conquistam os adultos
que possuem o mesmo gosto dos jovens.
As emissoras adultas também misturam público jovem/maduro. Na
verdade, existe uma variedade entre as divisões por faixas etárias. O que
vai contar definitivamente para segmentar o público é sua maioria. Um
exemplo: uma rádio que possui 70% de público entre 25 e 50; 20% en-
tre 18 e 25, e 10% acima dos 50 anos terá seu foco naqueles que têm
entre 25 e 50 anos. A não ser que queira mudar. E se começar a
direcionar sua programação para os mais jovens, vai aumentar o núme-
82 • Produção de Rádio

ro entre os que têm menos de 25 e perder cada vez mais aqueles que
possuem mais de 50.

Mulheres
A segmentação de uma emissora também pode atingir em maior nú-
mero as mulheres ou os homens. De modo geral, historicamente, o gran-
de público do rádio é feminino. Rádios populares, de grande audiência,
costumam ter às vezes até mais de 80% de mulheres entre seus ouvintes.
O fato de as mulheres estarem mais em casa, envolvidas com o trabalho
doméstico, influi nessa estatística. Até mesmo as rádios FMs são muito
ouvidas por elas. A maior ou menor quantidade de homens entre os ou-
vintes depende do tipo de programação oferecida.

Estilo
Uma rádio pode ser segmentada por estilo de programação: musical,
jornalística, educativa, religiosa etc. Algumas mesclam programação mu-
sical com esportes, jornalismo e programas de variedades, que falam de
diversos assuntos.

Gêneros musicais
Dentro desses estilos existe uma nova fase de segmentação. No caso
das emissoras musicais, por exemplo, uma emissora pode contemplar ape-
nas música brasileira, caso da Rede Nova FM, só rock e pop, como a Rede
Rádio Rock, samba e pagode, como a Transcontinental, de Mogi (SP),
jazz, como a WBGO, de Nova York, ou música clássica, como a Cultura
FM, de São Paulo. São chamadas de segmentadas por gêneros musicais.

Segmentação da segmentação
E, mais que isso, dentro de um estilo musical, pode-se chegar a seg-
mentar ainda mais, como faz a Tupi FM (SP), enfocando a música ser-
taneja mais atual, deixando para a Terra FM (SP) a sertaneja de raiz.
Capítulo 3: Público-alvo • 83

Outro exemplo dessa segmentação é o caso da Brasil 2000 FM, que mos-
tra rock, mas, de preferência, o alternativo.
As possibilidades são inúmeras. Uma rádio pode tocar apenas músi-
cas dos anos 60, como a emissora francesa Nostalgie, ou apenas música
orquestrada, como fazia a Scalla FM, ou clássicos do rock, como a Kiss
FM, ambas de São Paulo. Assim, existem rádios para diversos gostos mu-
sicais, o que acaba misturando um pouco as classes sociais e as idades. E
a produção segue à risca o gosto de seu público.

Jornalísticas
Hoje em dia, estão em voga rádios chamadas “all news”, ou seja, só
de notícias, 24 horas por dia. As músicas são incluídas só nas vinhetas
ou para ilustrar alguma notícia, em geral, do mundo musical. Esse tipo
de emissora ainda repete muito as informações ao longo do dia, o que
torna cansativo ouvi-la o tempo todo. A alternativa é escutar um pouco
em cada período. Sai-se melhor a Rede CBN, que alterna o noticiário
com entrevistas que aprofundam o assunto. Mesmo em se tratando de
uma rádio só de notícias, pode-se tratá-las de forma a conquistar dife-
rentes públicos, dos mais simples aos mais sofisticados. Em geral, a dife-
rença está na escolha dos assuntos e na forma de apresentá-los.

Audiência
Aferição
Diretores de rádio trabalham com as planilhas dos institutos de pes-
quisa em suas mesas. As planilhas com os dados mais recentes, as tabelas
referentes aos dados dos meses anteriores, aquelas que trazem os balan-
ços dos números da audiência comparando o último ano etc. São várias
planilhas para analisar, a principal é a planilha geral: com números rela-
tivos a todos os dias (de segunda a segunda), em todos os horários, en-
tre ouvintes de todos os gêneros (homens e mulheres), de todas as clas-
ses sociais (A, B, C, D e E), de todas as idades. Além da geral, há
84 • Produção de Rádio

outras específicas, que focalizam alguns tipos de corte, como a que de-
termina diferentes perfis de público.
Por exemplo, pode-se criar uma planilha que apresente apenas os
ouvintes de segunda a sexta-feira, ou só os do final de semana, ou ainda
em períodos definidos, como das 6h às 19h, tido como “horário comer-
cial”, por ser detectado como o horário mais ouvido do rádio. Tem lógi-
ca: depois das 19h a maioria do público-ouvinte vai assistir à televisão.
Mas não pense que depois das 19h não existe audiência significativa.
Muito pelo contrário, basta verificar o investimento das emissoras nos
horários noturnos e até mesmo na madrugada.

Hora a hora
Os dados também são aferidos em uma planilha que aponta a au-
diência hora a hora. Portanto, dá para saber exatamente quantos ou-
vintes a emissora conquista em cada um de seus horários. Isso é impor-
tante para mudar os rumos da programação, trocando programas de lugar,
ou até mesmo tirando-os da grade, se por ventura não estiverem agradan-
do a audiência. O contrário também ocorre, se determinada atração au-
menta o número de ouvintes, pode ganhar mais tempo de duração.

Períodos
Pode-se também mapear o perfil do ouvinte que mais freqüenta cada
faixa de horário. Por exemplo, determinada rádio pode ter pela manhã mais
homens, na hora do almoço grande incidência de jovens, à tarde muito
mais mulheres, à noite uma mistura dos três, e na madrugada mais homens
(isso pode ser causado pelo mercado de trabalho que conduz o homem a
trabalhar na madrugada muito mais do que a mulher, e ele pode, muitas ve-
zes, ouvir rádio). Profissões como vigias, porteiros, taxistas, caminhoneiros e
plantonistas em geral muitas vezes ouvem rádio até para ficarem acordados.
Exemplo de uma planilha de segunda a sexta-feira, das 6h às 19h,
hora a hora, do trimestre de abril a junho de 2005, do dial AM, da
Grande São Paulo.
Grande São Paulo
Abr./2005 a jun./2005
Segunda a sexta-feira

EMISSORAS 06-19 06-07 07-08 08-09 09-10 10-11 11-12 12-13 13-14 14-15 15-16 16-17 17-18 18-19

IA% IA% IA% IA% IA% IA% IA% IA% IA% IA% IA% IA% IA% IA%
TOTAL RÁDIO 19,03 7,47 11,07 17,34 24,95 26,44 25,34 22,6 21,07 21,97 21,12 19,05 15,43 13,6

TOTAL FM 14,9 3,94 6,45 11,16 15,2 20,11 20,15 19,05 18,3 18,81 18,46 16,69 13,44 11,89
TOTAL AM 4,14 3,54 4,62 6,18 9,75 6,33 5,19 3,55 2,77 3,16 2,67 2,35 1,98 1,7
GLOBO 1,35 0,8 1,13 1,86 5,7 2,62 1,92 1,02 0,57 0,51 0,41 0,37 0,26 0,34

CAPITAL
CAPITAL 0,67 0,6 0,75 0,89 0,82 0,86 0,77 0,56 0,66 1,16 0,71 0,43 0,3 0,2
BANDEIRANTES 0,39 0,73 0,82 0,83 0,67 0,4 0,3 0,24 0,15 0,15 0,17 0,18 0,22 0,27

JOVEM PAN 0,33 0,43 0,7 0,66 0,44 0,36 0,33 0,35 0,19 0,16 0,17 0,19 0,18 0,18
TUPI 0,29 0,2 0,32 0,49 0,52 0,52 0,47 0,24 0,2 0,22 0,18 0,18 0,17 0,09

CBN 0,17 0,25 0,25 0,29 0,24 0,2 0,17 0,13 0,10 0,11 0,12 0,1 0,1 0,09
IMACULADA 0,11 0,06 0,06 0,12 0,19 0,15 0,14 0,11 0,10 0,10 0,16 0,12 0,1 0,05

Capítulo 3: Público-alvo • 85
9 DE JULHO 0,10 0,05 0,06 0,14 0,14 0,16 0,14 0,10 0,10 0,08 0,11 0,12 0,12 0,04
RECORD 0,09 0,04 0,05 0,13 0,14 0,16 0,15 0,08 0,07 0,06 0,06 0,07 0,05 0,08
AMÉRICA 0,09 0,03 0,04 0,08 0,14 0,13 0,12 0,08 0,09 0,09 0,09 0,09 0,08 0,06

BOA NOVA 0,07 0,01 0,03 0,08 0,11 0,12 0,11 0,08 0,07 0,09 0,06 0,06 0,06 0,02
ELDORADO 0,06 0,05 0,09 0,08 0,06 0,07 0,07 0,06 0,04 0,05 0,06 0,05 0,04 0,04
(continua)
86 • Produção de Rádio
Grande São Paulo (continuação)
Abr./2005 a jun./2005
Segunda a sexta-feira

EMISSORAS 06-19 06-07 07-08 08-09 09-10 10-11 11-12 12-13 13-14 14-15 15-16 16-17 17-18 18-19
IA% IA% IA% IA% IA% IA% IA% IA% IA% IA% IA% IA% IA% IA%

MORADA 0,05 0,02 0,02 0,04 0,06 0,05 0,05 0,06 0,06 0,05 0,05 0,06 0,06 0,04
OUTRAS 0,05 0,02 0,02 0,07 0,07 0,06 0,05 0,07 0,06 0,05 0,04 0,03 0,02 0,02
SÃO PAULO 0,04 0,01 0,02 0,06 0,06 0,07 0,07 0,04 0,03 0,03 0,04 0,05 0,05 0,03

GAZETA 0,04 0,05 0,04 0,04 0,04 0,06 0,06 0,06 0,05 0,04 0,04 0,05 0,02 0,02
N. LEMBRA 0,04 0,03 0,03 0,07 0,07 0,06 0,04 0,04 0,05 0,03 0,03 0,03 0,01 0,01

CULTURA 0,03 0,03 0,03 0,04 0,03 0,04 0,05 0,04 0,03 0,03 0,02 0,03 0,02 0,02
NACIONAL 0,03 0,03 0,02 0,02 0,04 0,03 0,03 0,03 0,03 0,03 0,03 0,03 0,03 0,02

METROPOLITANA 0,02 0,03 0,05 0,04 0,03 0,03 0,02 0,01 0,01 0,02 0,02 0,03 0,01 0,01
TERRA 0,02 0,02 0,02 0,03 0,03 0,02 0,03 0,02 0,01 0,01 0,02 0,01 0,01 0,03
N. DIFUSORA 0,02 0,01 0,02 0,03 0,04 0,03 0,02 0,02 0,01 0,01 0,02 0,01 0 0

UNIVERSO 0,02 0,01 0,01 0,01 0,02 0,03 0,02 0,02 0,02 0,02 0,02 0,02 0,02 0,01
ATUAL 0,02 0 0,01 0,02 0,02 0,02 0,01 0,03 0,03 0,03 0,01 0,01 0,01 0
Capítulo 3: Público-alvo • 87

Comercial
A tabela de anúncios baseia-se na quantidade de ouvintes de cada
horário para vender o espaço em cada programa. Claro que em um ho-
rário nobre, considerado o do começo da manhã, das 7h às 9h, o spot
(espaço comercial) é o mais caro da tabela. Ao passo que, em casos es-
peciais, essa premissa se contradiz. Tenho certeza que o horário do
comunicador Eli Corrêa, a maior audiência da rádio Capital e do dial
AM no horário das 14h às 15h, por exemplo, é mais caro do que o da
manhã. Mas é uma exceção.

Grau de instrução
Para conhecer melhor ainda seus ouvintes, os dados de pesquisa
mostram a idade deles e a classe social. Por exemplo, o público que sin-
toniza o período da noite da 105 FM, na qual só toca rap, é formado
principalmente por homens jovens e, na sua maioria, das classes sociais
C e D. A pesquisa pode apontar ainda o grau de instrução. Tudo isso é
fundamental para as ações do departamento comercial e de marketing.

Zona
Pesquisas mostram onde a rádio “pega” melhor, o que também signi-
fica angariar maior audiência. Permite ao departamento de manutenção
e transmissão ajustes de antena, de sinal, de alcance de seu equipamen-
to. Sabe-se que, se determinada emissora não “chega” em uma determi-
nada zona da cidade, por exemplo, a zona leste de São Paulo, está fada-
da a figurar sempre depois das quatro primeiras do ranking.

Que rádio você ouve?


O instituto mais conhecido é o Ibope. Algumas emissoras dizem não
dar importância para os números das pesquisas. Outras rádios não con-
cordam com o modo de aferição. Há quem ache que o número de ou-
vintes pesquisados é irrisório e lança a pergunta: “Você já foi entrevista-
88 • Produção de Rádio

do pelo Ibope?” e ainda desconfiam da veracidade dos dados. Algumas


emissoras contratam pesquisas de outros institutos. O fato é que nin-
guém vive sem elas. E a verdade é que a maioria assina o serviço e não
só acredita como trabalha de acordo com as oscilações desses números.
Subir no ibope (com minúscula) virou sinônimo de subir em núme-
ros de audiência. Todos, dos membros da diretoria aos contínuos, que
dependem dos bons números nas pesquisas torcem pelo sucesso de pú-
blico da rádio. Mas a responsabilidade desse sucesso normalmente recai
nos comunicadores, que precisam ter credibilidade, carisma, simpatia,
voz aveludada, saber se expressar bem etc., para conquistar cada vez
mais público e, o mais difícil, mantê-lo fiel. É novamente a equipe de
produção que fica atenta para qualquer deslize dos comunicadores. É ela
que sente o clima, o ritmo, o timing necessário para cada momento do
programa. É o termômetro.
Os números do ranking dos programas são responsáveis pela subida
e descida do valor do passe dos principais comunicadores do dial. Se o
comunicador ganha público, aumenta o valor do seu passe, e quando
vai renovar o contrato, sobe ainda mais o valor. Em geral, quando che-
ga perto da renovação, passa a receber convites das emissoras concor-
rentes para a compra do seu passe. O inverso também ocorre. O
comunicador que perde ouvintes diminui o valor do seu salário, muitas
vezes sendo transferido para um horário que, em média, possui menos
ouvintes. Às vezes, continua a perder audiência e acaba sendo despedi-
do. A guerra da audiência provoca esse tipo de atitude cruel.

Conquista
Não se conquistam ouvintes de um mês para o outro. O comuni-
cador necessita de um tempo para ganhar a confiança, a simpatia, e cair
nas graças dos ouvintes. Isso leva tempo. O ouvinte é ressabiado, des-
confiado, a princípio não gosta dos novos, prefere aquele com quem está
acostumado. No começo, fica até com raiva do novo apresentador, que
Capítulo 3: Público-alvo • 89

(na cabeça do ouvinte) tomou o lugar do anterior, que ele já considera-


va um “amigo”. Portanto, a produção tem que ir com calma, sem pres-
sionar o comunicador, para que ele se sinta à vontade para trabalhar. Se
ele é bom, os ouvintes vão se aproximando aos poucos.

O Ibope surgiu em 13 de maio de 1942, fundado por Auricélio Pentea-


do, talvez da necessidade de determinação com precisão sobre a partici-
pação dos vários veículos junto ao público, pois tanto jornais como emis-
soras de rádio apregoavam a situação de popularidade que melhor lhes
conviesse para convencer os anunciantes a destinarem seus investimentos
publicitários.
MARIA ELVIRA BONAVITA FEDERICO,
História da Comunicação: Rádio e Televisão no Brasil, p. 67.
Capítulo 4

Voz

A ausência de um rosto que fala não é uma inferioridade: é uma supe-


rioridade; é precisamente o eixo da intimidade que vai se abrir.
GASTON BACHELARD, filósofo francês

Tipos diferentes
Não existe mais aquela obrigatoriedade de se ter uma voz impos-
tada, típica de um locutor das antigas. Quanto mais grossa a voz, me-
lhor para o homem que desejava ser locutor. Para a mulher não era
exigência; no entanto, as vozes muito finas eram rejeitadas e as mu-
lheres de voz grave sempre tiveram um charme a mais. Atualmente,
vozeirão não é o principal.
O importante é ter uma boa dicção, articular bem as palavras, saber
pronunciá-las corretamente, inclusive as estrangeiras. É preciso também
ter um compasso, uma espécie de balanço adequado ao falar, ou seja,
não pode ser muito rápido, que ninguém agüenta, e nem devagar de-
mais, que todos dormem. Uma voz equilibrada consegue dosar o tempo
certo para a locução.
92 • Produção de Rádio

Rapidinho
Existem rádios que obrigam os locutores a falar com certa rapidez:
são emissoras jovens que acham que seu público é agitado e se identi-
fica com quem também fala meio atropelado. Diretores costumam di-
zer que as pesquisas provam que os jovens gostam de uma voz rápida,
telegráfica e um tanto exaltada. Quando um locutor acerta o tempo
que eles acreditam ser o melhor, ele vira um modelo e todos os demais
são forçados a imitá-lo.

Veludo
O contrário também funciona. Rádios adultas colocam no ar locu-
tores com vozes mais formais, de timbre mais grave, tom compassado,
sem muitas risadas à toa, demonstrando seriedade. Vozes aveludadas na
cadência ideal também são copiadas pela maioria que quer se dar bem
nos microfones.

Taquara rachada
Vozes infantis não colam nem para as mulheres e muito menos
para os homens. Problemas como sibilar ou falar colocando a língua
para fora ao pronunciar o s também não pegam bem. Aos poucos, vão
atormentando os ouvidos. Infelizmente, pessoas com problemas desde
estes menores até os mais complicados, como gagueira ou vozes
esganiçadas, não podem trabalhar como locutores. Salvo tratamento
100% eficaz.

“Estar querendo” ir gravar


Elimine de vez o gerundismo, antes de evocar uma irritação profun-
da no ouvinte. Nada mais desagradável do que ouvir: “fulano vai ‘estar
dando’ entrevista no próximo quadro”; “os ouvintes vão querer ‘estar
participando’ da promoção”... Além de irritante, é incorreto.
Capítulo 4: Voz • 93

Ator
Locutor é um pouco ator, precisa convencer. Não basta saber ler sem
gaguejar. Muito mais do que isso: é comum fingirem não ler, como se
estivessem falando de improviso. Não é fácil, mas nada que um treina-
mento persistente não resolva.

Controle as tomadas de fôlego, nos momentos adequados. O ar deve ser


expulso de maneira lenta e regular, para que a respiração seja suave e
silenciosa.
MARIA ELISA PORCHAT, Manual de Radiojornalismo (Jovem Pan), p. 79.

Leitura de notícias
Ni más, ni menos. Las noticias tal y como son.
Slogan da Rádio Nacional de España.

Claro que o locutor do noticiário não precisa ler as notícias como se


estivesse na sala de casa, contando as últimas para a família. Nesse caso,
todos sabem que ele está lendo. Basta caprichar na pontuação e naque-
la cadência que falamos antes. Uma leitura dando informações não pode
ficar monótona. Porém, nada de arroubos interpretativos. O locutor não
está no palco. Não pode se exaltar mesmo que noticie finalmente a pri-
são de Bin Laden. Muito menos chorar de emoção ao noticiar o bebê
encontrado vivo dentro de um saco plástico boiando no lago.

Funções
Um locutor é diferente de um apresentador e de um âncora. A de-
nominação muda de uma rádio para outra, mas, em geral, costuma-se
dizer que o locutor é aquele que lê — desde notícias a recados e anún-
cios — e anuncia e desanuncia as músicas. O apresentador, além de fa-
94 • Produção de Rádio

zer o que faz o locutor, apresenta convidados, interage, faz perguntas,


atende e conversa com os ouvintes no ar. E o âncora faz tudo o que o
apresentador faz e ainda pode emitir opinião. Comenta os fatos,
esbraveja, lamenta etc.
Nas emissoras de grande porte essa divisão de funções é bem defini-
da. Já em rádios menores, os locutores fazem de tudo. Acontece muitas
vezes de o locutor falar mais do que deveria, fazendo comentários inde-
sejáveis, racistas, preconceituosos, machistas, ou seja, soltando o verbo
de forma politicamente incorreta. Quando não querem dar uma de
humoristas e fazem piadas sem graça... Locutores assim são a vergonha
da classe. O responsável pela produção do programa pode alertar o lo-
cutor de que ele não está sendo feliz nas intervenções e que deve seguir
o roteiro ou, quando muito, falar algo que acrescente ao ouvinte e não
fazê-lo perder tempo com bobagens.

Era uma cidadezinha do interior do Rio Grande do Norte, onde as notí-


cias ganhavam a comunidade através de um alto-falante no alto da torre
da igreja. O padre perdeu a voz por causa de uma dor de garganta e seu
ajudante, louco por falar ao microfone, teve, enfim, sua chance. A notí-
cia, urgente, era da morte de um grande político da região. Gente rica.
O padre, com receio do que o ajudante poderia dizer, escreveu o texto
para ser lido: “morreu neste dia, o senhor...”. No final, o ajudante quis
facilitar a vida dos ouvintes, como fazia o padre, reforçando a informa-
ção mais importante: “Então, resumindo e sintetizando, não percam este
sensacional enterro.”
FRANCISCO MORAIS,
durante Encontro de Comunicadores, em Curitiba, 1998.

Verborrágico
Algumas vezes, o locutor se empolga e fala demais, sem parar, como
uma metralhadora. Talvez queira treinar para ser narrador esportivo.
Capítulo 4: Voz • 95

Novamente é preciso chamar a sua atenção para que fale apenas o ne-
cessário e não se estenda nos comentários. Claro que isso não acontece
em rádios sérias. Esse tipo de locutor não tem vez em rádios que respei-
tam os ouvintes.

Sexy
Existem mulheres que acham que devem ter voz de travesseiro para
agradar os ouvintes. Não percebem que a função de locutoras é outra,
que não existe a necessidade de fazer um tipo com voz melosa, e que a
idéia não é seduzir o ouvinte. Não precisa imitar a voz masculina. Se
tiver uma voz sensual, apenas não deve forçá-la.

Sotaque
Uma boa pronúncia é fundamental. Não é bom fazer uma locução
com sotaque, seja ele qual for. Se o locutor está em uma emissora fora
de sua região, onde se fala com determinado sotaque, deve fazer um trei-
namento para eliminá-lo quando for para outra rádio de outra região.
Na maioria das emissoras é permitido se o sotaque for bem leve.

Não soa bem


Preste atenção com a má consonância, o chamado cacófato, por
exemplo: por cada, amar ela etc. Por isso, a leitura antes de falar ao mi-
crofone é fundamental.

Digo
O que eles devem fazer ao errar? Vai depender da direção da emisso-
ra, mas em algumas delas não se corrige o erro no ar. Errou, continua.
Porque quem começou a ouvir no minuto seguinte nem ouviu e quem
ouviu pode achar que não ouviu direito. Diretores de rádio acreditam
que basta falar novamente como se estivesse reafirmando a informação
e, nesta segunda vez, falar de forma correta. Afinal, o locutor falou erra-
96 • Produção de Rádio

do? Nem pensar. Outras rádios determinam que, após o erro, o locutor
peça desculpas e repita em seguida a palavra certa.

Ao apresentador cabe também colocar-se no lugar do ouvinte. Assim,


caso uma informação do repórter não fique suficientemente clara, é obri-
gação do apresentador esclarecer, fazer nova pergunta, tentar o entendi-
mento perfeito da informação.
Rádio Eldorado – Procedimentos Internos, p. 17.
Capítulo 5

Conteúdo

Seja claro, preciso, direto, objetivo e conciso.


Manual de Redação e Estilo de O Estado de S. Paulo

Apuração

A apuração é a principal função do repórter de rádio. Não se deve


acreditar em tudo o que se lê ou que se diz. Muitas notícias podem ser
plantadas pelos assessores, para fazer com que seu cliente seja notícia
na rádio. Ou, em muitos casos, pode-se plantar notícias até para falar
mal de seus concorrentes. Claro que isso não é uma regra. Ao contrá-
rio, existem assessorias de imprensa sérias e competentes, assim como
existem bons e péssimos radialistas; é preciso conhecê-las e saber
diferenciá-las.
Mesmo quando uma assessoria confiável passar uma notícia fresca,
convém apurar direto com a fonte para confirmar a veracidade da infor-
mação. Caso a única fonte seja a própria assessoria, diga com todas as
letras quem forneceu a notícia.
98 • Produção de Rádio

Texto

É um erro primário associar o profissional do rádio a um inimigo do tex-


to ou a alguém que teria menos trabalho com a palavra escrita. Talvez
em nenhum outro meio o texto seja tão importante e precioso. Dinâmi-
co, rápido e ágil, o rádio exige de quem escreve a objetividade, a econo-
mia de palavras e o encadeamento claro e simples das idéias, para que o
ouvinte possa compreender facilmente a informação no momento exato
em que a escuta. Se ele parar para pensar, já terá perdido outras notícias.
MARCELO PARADA, Rádio: 24 horas de jornalismo, p. 49.

Vícios de linguagem
Cuidado com os vícios de linguagem. Em outros capítulos, eles fo-
ram mencionados, mas vale ressaltar que esses vícios, também chama-
dos de bengalas, e que muitas vezes funcionam na linguagem coloquial,
em rádio devem ser evitados. Apresentadores que utilizam termos como
“jóia”, “ma-ra-vi-lha!” etc. cansam a paciência do ouvinte e, o que é
pior, não acrescentam nada.
Hoje em dia é moda colocar o termo “aí” no meio das frases. Por
exemplo: “você vai ouvir aí a música.” Outra expressão que virou ma-
nia é “ele que é” ou “ela que é”, normalmente usada para apresentar
as pessoas. Por exemplo: “vamos ouvir fulano de tal, ele que é poeta,
compositor, arranjador.” Se prestar atenção, vai descobrir que a ex-
pressão pode ser eliminada, sem problemas de entendimento e a frase
vai soar muito melhor.
Com relação a vícios de linguagem, o Manual de Redação da Folha
de S. Paulo traz exemplos para a imprensa escrita que servem perfeita-
mente para a linguagem oral. Vale a pena consultá-lo. Veja alguns
exemplos de cacoetes de linguagem (p. 56) que devem ser evitados:
Capítulo 5: Conteúdo • 99

Abrir com chave de ouro, aparar as arestas, dispensar apresentação, em


nível de, fonte inesgotável, pergunta que não quer calar, requintes de cru-
eldade, vitória esmagadora etc.

O Manual da Folha também traz sinônimos de algumas palavras que


soam melhor como no quadro “Não complique – Em vez de... use”.

Em vez de colisão, use batida; morrer no lugar de falecer, carro e não


viatura etc.

O Manual de Redação e Estilo – O Estado de S. Paulo pede para banir


do texto os modismos e os lugares-comuns.

Você sempre pode encontrar uma forma elegante e criativa de dizer a


mesma coisa sem incorrer nas fórmulas desgastadas pelo uso excessivo.
Proceda da mesma forma com as palavras e formas empoladas ou rebus-
cadas, que tentam transmitir mera idéia de erudição. O noticiário não
tem lugar para termos como tecnologizado, agudização, consubstan-
ciação, execucional, operacionalização, mentalização, transfusional, pa-
ragonado, rentabilizar, paradigmático, programático, emblematizar, con-
gressual, instrucional, embasamento, ressociabilização, dialogal, transa-
cionar, parabenizar e outros do gênero.
http://www.linhadecodigo.com.br/artigos/manual.doc

Dicas de linguagem

Claro que cada rádio possui uma linguagem própria de acordo com
o perfil da maioria de seus ouvintes. Se a rádio é jovem, obviamente, o
vocabulário é mais informal, ao contrário de uma rádio adulta, na qual
o cuidado com as palavras é maior. Quando o apresentador entra na
100 • Produção de Rádio

emissora, é informado sobre como deve se portar, como falar e, princi-


palmente, o que falar.
No entanto, o produtor que está sempre por perto, prestando aten-
ção naquilo que vai ao ar, desempenha um papel de censor, proibindo
essa ou aquela expressão, pronunciada muitas vezes por escorregadas
do locutor. Mas não é a sua única função nesse sentido. O produtor
também dá dicas de expressões interessantes que o locutor pode e
deve usar.

Ontem
Tente suprimir a palavra “ontem” no noticiário, pois a informação
soa datada. Outras palavras que devem ser eliminadas são aquelas que
só ocupam o precioso tempo do rádio e são desnecessárias: entretanto,
no entanto, contudo, todavia, além de, sobremaneira etc.

Rapidez
Muito mais do que isso, a produção se preocupa com a velocidade
da informação. Sabemos que o rádio é um veículo instantâneo. Quando
os fatos acontecem, precisam de relato imediato. Não faz sentido ficar
segurando a informação, para melhorá-la, ou porque o próximo boletim
demora um tempo para entrar no ar. Se a informação é importante e de
interesse da maioria dos ouvintes, deve-se informar o quanto antes e, a
seguir, incrementá-la aos poucos.

Direção jornalística
Quem escolhe as fontes, os participantes, o mediador, as informa-
ções que devem entrar antes, ou aquelas que devem ser deixadas para o
final? Cada emissora trabalha de um jeito e não existe regra geral. Quan-
do existe um departamento de jornalismo, é o diretor do departamento
que define as prioridades das notícias, aponta, com bom senso, as me-
Capítulo 5: Conteúdo • 101

lhores fontes, as confiáveis, e elimina as inadequadas, aquelas que de-


monstram interesses por trás das informações.
Em rádios menores, nas quais não existe departamento de jornalis-
mo, novamente é de responsabilidade do produtor esse tipo de procedi-
mento. Ele avalia quem merece constar na agenda de fontes e quem
não serve. Determina quais informações são relevantes para entrar no
boletim jornalístico e em que ordem devem entrar, se é o caso de dar
destaque, de incluir nas manchetes, ou não.

Imparcialidade
Qualquer funcionário sabe que é seu dever seguir a linha da emisso-
ra. O apresentador, por exemplo, obedece aos ensinamentos da chefia
que estabelece normas de conduta e de ética. Uma das principais regras
é ser imparcial. Não deve tomar partido, ou seja, não pode mostrar que
está atrelado a algum grupo político, religioso, organização ideológica ou
até mesmo time de futebol. Não pode esquecer que, entre os ouvintes,
existe todo tipo de pessoa.

A RBS não admite preconceitos de qualquer espécie. Ninguém poderá


ser identificado, em notícia de teor negativo, por sexo, raça, religião, ori-
gem étnica, regional ou nacional, deficiência física ou mental, a menos
que seja fator relevante para a compreensão da informação.

Guia de Ética e Responsabilidade Social da RBS – Rede Brasil Sul, p. 27.

Conheço muita gente que não ouve certas emissoras cujos âncoras
declaram livremente os times para que torcem. O argumento dessas pes-
soas é que ficam extremamente irritados pelo fato de torcerem pelo time
adversário. O que fazem? Trocam imediatamente de rádio. Portanto,
para que dizer algo que possa magoar os ouvintes?
102 • Produção de Rádio

Ética
A legibilidade é, então, a contrapartida da clareza junto ao destinatário.
Quanto maior for a clareza tendencial, menor será o custo da deco-
dificação. Trata-se do princípio da economia aplicado ao texto.

CLÓVIS BARROS FILHO, Ética na Comunicação, p. 42.

O radialista não pode se aproveitar de sua profissão para qualquer


tipo de benefícios ou vantagens. Mesmo que essas vantagens sejam
transferidas a seus ouvintes. Por exemplo, não pode falar bem de algu-
ma empresa só porque ela fornece brindes para a audiência. Também
não pode haver boicote de informação de quem não fornece brindes,
ou o músico que não deu a entrevista exclusiva não tocar mais na rádio.
Esse tipo de procedimento implica erro grave. Muito se diz atualmente
que determinado músico não toca porque não “paga” para tocar. O
“jabá” é prática que deve ser banida.
Milton Jung conta em seu livro Jornalismo de Rádio (p. 32) que o
Manual de produção do Repórter Esso apresentava características curiosas:

Nas notícias do Brasil, citavam-se os nomes apenas dos presidentes da


República, do Congresso Nacional, do Supremo Tribunal Federal, do
Supremo Tribunal Militar, do Tribunal Federal de Recursos, além de go-
vernadores e ministros de Estado. A intenção era impedir outras pessoas
de usarem a audiência e importância do Repórter Esso para promoção
particular.

Convites
Radialistas não devem aceitar qualquer tipo de convites que não sir-
vam para uso profissional. Explico: se o produtor ou o comunicador re-
cebe convite para um show e seu programa é musical, não vejo proble-
Capítulo 5: Conteúdo • 103

ma algum em aceitar, já que precisa ter parâmetros musicais para avaliar,


programar músicas e comentá-las. Nesse caso, é preferível seu creden-
ciamento e não convites. No entanto, convites para eventos que não
serão úteis para o programa devem ser recusados, de forma educada.

Presentes
Não é de bom tom receber presentes (muito menos quantias em di-
nheiro) de empresas que possuem interesses em divulgar seus produtos.
Já os pequenos mimos dos ouvintes, em geral, não acarretam falta de éti-
ca, e sim um agrado quando gostam do apresentador.

Fofoca
Todos nós sabemos que a fofoca virou moda em diversas rádios, ga-
nhando audiência. É comum que diretores das emissoras queiram intro-
duzir esse tipo de assunto nos programas. Infelizmente, se for uma or-
dem, não existe muito o que fazer, pede-se demissão ou aceita-se a im-
posição.
No caso da inclusão da fofoca, pode-se amenizar seu conteúdo ne-
fasto com alguns cuidados, admitindo falar da vida de artistas e persona-
lidades apenas em relação à carreira dos mesmos. Já no que diz respeito
à sua intimidade, é perigoso e pode acarretar processos jurídicos, impli-
cando não só a emissora, mas também a produção e o apresentador.

Boatos
Falar de problemas financeiros de celebridades é de extremo mau
gosto. Comentar sobre suas trocas de parceiros, que, em muitos casos,
são nitidamente “armadas” exatamente para sair na mídia, idem. Não se
esqueça de cruzar as informações, por mais banais que sejam. Se não
conseguir confirmação, melhor nem noticiar, ou deixar claro que se tra-
ta de um rumor. Se por acaso comete-se o erro de dar uma informação
104 • Produção de Rádio

que depois é confirmada como falsa, deve-se admitir o erro e se retratar


no ar. Por isso, é muito importante checar as informações.

Imparcialidade

Os veículos da RBS não mantêm índex de nomes ou assuntos proibidos


para divulgação. A notícia deve abrir espaço a todos os lados envolvidos
no assunto, sem qualquer preconceito, favorecimento ou perseguição.
Guia de Ética e Responsabilidade Social da RBS – Rede Brasil Sul, p. 24.
Capítulo 6

Produção Executiva

Equipe
As equipes de produtores e de produtores assistentes são montadas de
acordo com a necessidade de cada emissora. O número de produtores da
equipe vai depender do porte da rádio. Em geral, rádios não estritamente
musicais são aquelas que mais contratam produtores. O certo seria: para
cada programa, um produtor ou até mesmo uma equipe de produção. Vale
levar em consideração se o programa é diário e quantas horas fica no ar.
Quanto menos horas semanais, menos profissionais na equipe.

Curinga
Emissoras pequenas contratam um produtor que faz um pouco de
tudo, da direção de programas a serviços de motorista. Cabe ao profis-
sional aceitar ou não suas funções. É importante deixar claro, ao assinar
o contrato, que tipo de atividades terá de exercer, para não se decepcio-
nar depois.

Divisão de tarefas
Quando a equipe é formada por mais de um produtor, na divisão de
tarefas convém indicar exatamente o que cada um faz, para que não
106 • Produção de Rádio

haja problemas de um achar que fez o que o outro deveria ter feito. Nor-
malmente, um deles é o responsável pelo cumprimento das tarefas, ga-
nhando o cargo de chefia, para cobrar do outro a atividade a contento.

Organização
Em equipes numerosas, a organização de produção é essencial. To-
das as funções e atividades diárias (da elaboração de um orçamento à
contratação de um novo funcionário) são planejadas, distribuídas e co-
bradas sistematicamente. Qualquer falha põe em risco o bom desempe-
nho de um programa.

Bobagem?
Os mínimos detalhes são arrolados para que tudo dê certo. Parece
bobagem, mas o ar-condicionado no nível certo, os microfones bem
posicionados, a música de fundo adequada, a notícia pertinente, o con-
vidado bem escolhido, e até o bom humor do sonoplasta, cada detalhe
interfere no ritmo do programa.

Projetos
A elaboração dos projetos futuros ou complementares à programa-
ção é rotina nas atividades de um produtor. Sempre que possível, os pro-
gramas podem ser incrementados, ou até mesmo mudados (para me-
lhor). Fora o entra e sai do ar de programas que ainda não estão conso-
lidados na grade. O produtor, mais do que os demais, é requisitado para
dar idéias de novas atrações ou fornecer balanços do que está sendo
transmitido. Claro que para isso é preciso acompanhar não só a progra-
mação da rádio, como o trabalho da concorrência.
O desenvolvimento de um projeto para rádio não foge muito do es-
quema de qualquer projeto. O principal objetivo é sempre como atingir
o público-alvo. Depois vêm os objetivos gerais, os específicos, os
Capítulo 6: Produção Executiva • 107

prioritários. Destaque para a justificativa e a relevância, bem como a ex-


plicação minuciosa do conteúdo e como realizá-lo. Por fim, vêm tópicos
como estratégias de comunicação etc.
Produtores também recebem idéias de projetos de terceiros. Nesse
caso, muitas vezes, além de avaliar a possibilidade, é preciso adequar ao
público ou à linha de conteúdo da rádio, às possibilidades administrati-
vas ou aos interesses comerciais.

Relógio
Usualmente montado pela produção executiva que cuida da grade
como um todo, pode ser também desmembrado para cada produtor respon-
sável pelos programas em separado. O gráfico do relógio serve para ajeitar
melhor tudo o que entra em cada hora e minuto da grade de programação.

Conheça o relógio da rede Band News FM

8 :59 :00 :01


:57 :5 :02 :0
3
:56 :04
:55 :01 :05
:54
roportos

:06
:53
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:07
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s

:34 :25
:33 :26
2 :27
:31 :3 :30 :29 :28
108 • Produção de Rádio

Uma hora
Assim, um relógio de um programa de uma hora, por exemplo, tem
seu conteúdo distribuído nos 60 minutos. Ali entram os minutos reser-
vados aos comerciais, que são, de modo geral, transmitidos em três for-
matos, de 15, 30 ou 45 segundos. Também no relógio entram as chama-
das institucionais (da própria rádio ou de outros programas), que podem
variar até um minuto, e as promoções, que também possuem duração va-
riada até, no máximo, um minuto. O tempo destinado aos colunistas ou
comentaristas é, normalmente, no máximo de três minutos. E ainda den-
tro do relógio estão incluídos os quadros que entram naquela hora, que
podem ser informações sobre trânsito, temperatura, cotações financei-
ras, hora certa etc. O gráfico do relógio é útil para organizar a produção.

Títulos
Para os títulos dos programas e dos quadros exige-se grande
criatividade. Primeiro porque não é interessante repeti-los, segundo por-
que precisam ser chamativos. Eles assumem a cara do programa combi-
nando com o que é levado ao ar. Use apenas palavras fáceis de com-
preender e, principalmente, de pronunciar. Palavras difíceis só atrapa-
lham, pois os ouvintes ficam tentando decifrá-las. Uma pesquisa entre
os funcionários da rádio pode detectar se o nome é bom e se tem chances
de “pegar”. Algumas emissoras deixam para o público decidir. Fazem
enquetes com três ou quatro nomes mais cotados para tirar o melhor.

Criatividade
Combinar o nome do programa ou de um quadro com a vinheta so-
nora é comum nas rádios. Quem não identifica o miado do programa
“Pulo do Gato”, da Rede Bandeirantes. Em certas ocasiões, o nome com-
bina com o apresentador, como “A Hora do Ronco”, do comunicador
Pedro Luiz Ronco. O “Brilhantina Show”, atração da Kiss FM (SP), leva
Capítulo 6: Produção Executiva • 109

ao ar clássicos do rock dos anos 50 e 60, época em que o creme era usado
nos cabelos. A “Sessão da Tarde”, programa da rádio Brasil 2000 FM, de
São Paulo, que fez muito sucesso sob o comando de Roberto Miller Maia,
acontecia, obviamente, à tarde. “Oitentaenoise”, atração de rock pesado
da rádio 89 FM (SP), fazia alusão ao nome da própria emissora. E assim
por diante.

Avaliações
Avaliar a equipe de produção e o resultado na programação é tarefa
diária e permanente. Reuniões periódicas são marcadas para retorno
dessas avaliações e dos conseqüentes novos procedimentos. Se os pro-
blemas apontados persistirem, medidas administrativas são tomadas,
com o intuito de deixar a equipe pronta para trabalhar dentro dos parâ-
metros que a direção considera ideais.

Cargo de confiança
As avaliações recaem no comportamento profissional da equipe e no
conteúdo daquilo que é transmitido. A intenção é enquadrar tanto o
funcionário quanto o programa na linha de atuação adotada pela emis-
sora. Cargos de chefia, como produtor executivo, geralmente são cargos
de confiança da diretoria ou até mesmo dos donos das rádios.

Treinamento
Grande parte das emissoras de ponta treina e recicla seus funcioná-
rios com cursos internos ou subsidia cursos fora da rádio. Até porque
querem que eles tenham um estilo de trabalho de acordo com os pa-
drões predeterminados. Em geral, são treinados os iniciantes na função
e os estagiários. Nem todos são contratados, mas a idéia é essa.
110 • Produção de Rádio

Alguns radialistas ou recém-formados na profissão procuram, por


conta própria, cursos de aperfeiçoamento ou de extensão universitária
para acompanhar as mudanças no meio radiofônico e para aprimorar seu
desempenho. Todos esses recursos são válidos. No momento atual, em
que a cada ano centenas de radialistas formam-se para entrar no merca-
do, quem é mais especializado tem melhores chances não só de ser con-
tratado, como de manter o emprego.
Capítulo 7

Produção

Pauta
Diariamente, a pauta é elaborada para listar os assuntos que devem
ser abordados no dia. Em ordem de prioridade, os principais temas são
sugeridos na reunião de pauta com a equipe de jornalistas. O objetivo é
decidir quais temas receberão maior ou menor destaque, qual merece re-
portagem externa, qual deve ter entrevista exclusiva, quais assuntos re-
percutir, quais merecem acompanhamento em tempo real, ou nos dias
seguintes etc. Os temas levantados são aqueles de maior interesse do pú-
blico da rádio.
Existe a possibilidade de a pauta não ser exatamente para o dia. As
pautas que necessitam de maior tempo de produção são: as especiais, as
pautas de acontecimentos previsíveis, como aquelas exemplificadas no
tópico de programas sazonais (como pautas sobre as enchentes de São
Paulo no alto verão), e as pautas de gaveta com material frio.

O pauteiro é o ‘pensador’ por excelência, aquele que na imensidão dos


acontecimentos capta o que pode ser transformado em reportagem. Esse
trabalho vai além da seleção dos assuntos do dia. (...) O pauteiro pensa
os assuntos por inteiro e indica os caminhos que devem ser percorridos
112 • Produção de Rádio

para que a reportagem prenda a atenção do ouvinte, atinja o público-alvo


da emissora. Ele apóia decisivamente a construção da reportagem, suge-
rindo perguntas e caminhos para o repórter...
HERÓDOTO BARBEIRO e PAULO RODOLFO DE LIMA,
Manual de Radiojornalismo – Produção, Ética e Internet, p. 59.

Material de referência
Tendo como base os temas definidos na pauta, a pesquisa começa
pela procura pelos contatos, os especialistas no assunto, seus desdobra-
mentos, quem já publicou alguma coisa sobre o tema, o que não foi ain-
da abordado, dados estatísticos, pesquisas de opinião etc. É a hora de
falar com as fontes para colher detalhes e ampliar a pesquisa.

Recurso
Em alguns casos, colher citações de personalidades sobre o assunto
serve para compor o conteúdo da pesquisa. As perguntas aos especialis-
tas podem valer-se dessas citações: “Segundo Fulano de Tal,... o senhor
concorda?” É uma das possibilidades para dar um empurrão na conver-
sa, caso nada mais tenha sido encontrado.

Autoria das músicas


A maioria das rádios nunca cumpriu a prerrogativa de que se deve
anunciar o nome dos compositores. Vicente Adorno fala a respeito:

A música está associada a alguém que a produziu. Vamos ouvir “Una


Furtiva Lágrima”, de Donizette, da ópera El Elixir de Amor.

O radialista lembra que quando criança via sua mãe tocando piano
e lia nas partituras o nome do tema e do autor. Assim, cresceu tendo a
Capítulo 7: Produção • 113

noção de propriedade. Hoje, em seus programas na Rádio Cultura, de


São Paulo, ele dá o máximo de informações possíveis.

Exemplos

Julie London cantou acompanhada de um sexteto, sendo assim, dá para falar


o nome deles. Mas quando é uma orquestra, por exemplo, a de Duke Ellington,
com mais de 20 nomes, aí não dá porque “come” todo o tempo do programa. O
que pode ser feito é destacar o que merece ser destacado: “Fulano de tal, solo
de saxofone”. Outro exemplo é o de Nelson Riddle, arranjador que melhor traba-
lhou com Frank Sinatra. Eu ia botar no ar um tema de um disco que ele gravou
com Ella Fitzgerald que começa com um solo de trombone baixo e termina com
um solo de trumpete em surdina, que eram exatamente as marcas registradas de
Riddle, ou seja, o uso desses instrumentos dessa forma. Nesse caso, é conve-
niente dar o destaque aos músicos que estão fazendo os solos, até para educar o
ouvinte. Eu me lembro que foi o Walter Silva que batalhou mais para que isso se
tornasse uma regra. Ele falava: “Ouvimos de Antonio Carlos Jobim e Vinícius de
Moraes, ‘Chega de Saudade’, com João Gilberto, arranjo e regência de Antonio
Carlos Jobim.”

Descobertas
Adorno reforça que quem tem a voz no rádio precisa acrescentar in-
formações aos ouvintes como se fosse até uma espécie de obrigação. Ele
conta uma história sua para servir de modelo: quando ouvia Walter Sil-
va falando no rádio dos arranjos que César Camargo Mariano fazia para
a Elis Regina. Ela deu uma guinada na carreira quando passou a traba-
lhar com o arranjador, que ele conhecia só de ouvir falar e, de repente,
tornou-se uma pessoa muito mais importante. Aí descobriu que César
Camargo Mariano já tinha um trabalho enorme.
114 • Produção de Rádio

Pesquisa musical
Em cima das músicas que fazem parte do gosto dos ouvintes da rá-
dio, uma pesquisa contempla várias possibilidades de uso. Elas podem
ser designadas para serem utilizadas como BG e, nesse caso, precisam ter
um trecho instrumental, como ilustração sobre algum gênero musical,
nesse caso têm de ser características de tal gênero, como ilustração a par-
tir do conteúdo de sua letra, daí a pesquisa recai em sua poética, como
informação musical, o que vem sendo lançado no mercado discográfico,
novos talentos, música emergente.
Enfim, são inúmeras as possibilidades de inclusão de uma música no
rádio. Ela pode ter uma pegada interessante para virar vinheta, sinteti-
zar um assunto para entrar em uma chamada, pode ser importante para
fazer parte em algum programa que resgata músicas do passado.

Tributo
Há ainda as músicas pesquisadas por conta de seu intérprete, quan-
do ele é a notícia, e a música complementará a informação. Se for o
caso de traçar um perfil do músico, entram suas músicas mais marcantes.
Pode ser uma homenagem ou um balanço de carreira, e aí, prepare os
ouvidos: é preciso ouvir a obra inteirinha.

O programa era religioso e, naquele dia, tratava de amizade. A primeira


música era de Roberto Carlos e foi anunciada pelo meu colega com mui-
to entusiasmo. Quando a música foi ao ar, ouvimos o Roberto cantar:
“Meu carro é vermelho, não uso espelho pra me pentear...” Rolou uma
parte da música e tivemos que engatar uma conversa sobre afeto e apego
às coisas, antes de falar da amizade entre as pessoas, nosso verdadeiro
tema. No final do programa, acertamos a faixa e Roberto cantou que
queria mesmo era ter um milhão de amigos.

Rádio Vaticano, 1999. Programa Jubileu.


Locutores: Thays Poletto e Diego García.
Capítulo 7: Produção • 115

Vinhetas e chamadas
Músicas específicas para as vinhetas são as que mais dão trabalho na
hora da pesquisa. Pelo fato de irem ao ar repetidamente por muito tem-
po, precisam ser muito bem escolhidas. Com certeza, não será a primei-
ra música que vier à cabeça que vai entrar. As chamadas também pedem
pesquisa prolongada, pois vão ficar no ar por um bom tempo, menos que
as vinhetas, mas também se repetirão espalhadas na programação.

Por que repete?


Dizem que é para marcar o programa. A idéia é que, ao ouvir deter-
minada música, o ouvinte identifique no ato de qual programa se trata.
Imagine uma música estridente há mais de 30 anos no ar? Só isso basta
para que muita atenção e muito rigor sejam despendidos na tarefa.

As vinhetas e chamadas não devem usar trechos de músicas que lembrem


outro programa. Procure ser original. Ao colocar um ruído numa vinheta ou
chamada, este precisa ser característico. Do contrário, será interferência e não
ilustração. O girar de uma roleta para anunciar a corrida de Fórmula Um
em Mônaco dificilmente se identifica. Não ilustra e atrapalha a audição.
MARIA ELISA PORCHAT, Manual de Radiojornalismo (Jovem Pan), p. 81.

Técnica
Muitos devem achar que a parte técnica não é de responsabilidade
do produtor. Em outros tópicos já foi alertado que, em muitas emissoras,
as de menor porte, o produtor faz de tudo. Nesses casos, também cuida
da equipe técnica. Verifica com os sonoplastas a manutenção dos equi-
pamentos, para garantir o bom funcionamento na hora da captação do
som, da edição e da transmissão. Em grandes rádios, existem responsá-
veis nessa área, que, no entanto, também se reportam aos produtores.
116 • Produção de Rádio

Sincronia
O operador de som e o comunicador precisam se dar bem, ou seja,
um tem que entender o outro até mesmo por meio de olhares. Pelo sem-
blante do apresentador, o técnico já sabe se ele está nos seus melhores
ou piores dias. Em casos de improviso, de saias justas, essa interação en-
tre eles é fundamental para que o técnico meio que “adivinhe” o que o
apresentador quer fazer para resolver a questão. Se existe má vontade
ou antipatia no relacionamento, sem dúvida isso será refletido no ar.

Cúmplices
O professor universitário Álvaro Bufarah mostra o relacionamento
de Hélio Ribeiro e Jonny Black, no texto “Histórias do Rádio Paulista,
por Hélio Ribeiro”:

Desde o período em que passou pela Rádio Tupi, em 1967, Hélio teve o
apoio e a cumplicidade do sonoplasta. De origem pobre e com um dom
natural para o manuseio de sons, Jonny dava um colorido especial ao
trabalho do apresentador. Tanto que na entrevista dada a CBN, Ribeiro
afirma taxativamente: “não haveria Hélio Ribeiro se não houvesse Jonny
Black”. Nos improvisos e crônicas feitas por ele, o técnico comple-
mentava cada expressão com um toque, um sinal sonoro ou uma músi-
ca. Isto ocorreu também na criação de um novo estilo estético para o rá-
dio paulista.

Estúdio
Além do bom relacionamento com os técnicos, o dia-a-dia dos estú-
dios deve ser checado. Estão limpos? Com cheiro agradável? As cadeiras
estão gastas, rangendo? A espuma do microfone está puída? Todos esses
detalhes devem ser verificados pelo produtor ou pelo produtor-assisten-
te. É muito desgastante para o comunicador, sempre ao chegar ao estú-
Capítulo 7: Produção • 117

dio, precisar chamar a atenção para a temperatura do estúdio que está


excessivamente gelada, a falta de garrafas de água, a mesa repleta de pa-
péis do programa anterior etc. O bom produtor cuida para que o estúdio
esteja impecável.

Em 2005, eu tinha um programa na webradio Rede Blitz, o “PF à De-


riva”, que ia ao ar de terça a sábado, da 1h às 2h, ao vivo. Para que ele
pudesse entrar na programação com tudo certo, eu e a minha equipe co-
meçávamos a pensar no programa por volta de 10h. Óbvio que sobrava
bastante tempo entre o final da produção e a hora que ele entrava. Isso
era bom. Como se tratava de um programa com o lado humorístico des-
tacado, era importante ter esse tempo de sobra. Ele servia para criarmos
novas atrações, como foi o caso do “Mano do Orkut”, um cara que usa-
va as comunidades para conhecer as meninas e sair com elas. A cada
semana tinha uma história nova do Mano. Tudo fictício, claro!
No começo, não existia na produtora nenhum software específico de
rádio. Então, a gente usava dois players para colocar as músicas,
vinhetas e BGs no ar. O Winamp e o Windows Media Player. Pouco
tempo depois, compramos um ótimo software de automação de rádios.
O caso é que esse software tem pastas específicas para conter os arquivos.
Ele não lê nenhuma outra pasta do computador. Logo, as músicas arqui-
vadas na rádio, vinhetas, trilhas têm que estar numa pasta dele ou que
você cria dentro dele.
O problema foi que se tínhamos já arquivados, antes dele, 40 ou 50
GB de músicas no servidor do estúdio, com ele, teríamos que optar entre
transferir todo esse conteúdo para as pastas específicas do software ou en-
tão dobrar essa quantidade. A princípio, pela falta de conhecimento, foi
o que aconteceu. Dobramos a quantidade. Tínhamos as pastas do Digi-
tal Playlist e outras no HD com o mesmo conteúdo.
Com o tempo, fomos criando confiança, mudando os hábitos de pro-
dução e resolvemos ficar com uma pasta só. A ordem foi: apague o con-
118 • Produção de Rádio

teúdo dobrado do servidor do estúdio. Parece claro que as pastas a serem


apagadas, por tudo isso que já comentamos, fossem as antigas, que esta-
vam fora do software.
No dia que fiz esse pedido, por algum motivo, cheguei em cima da
hora para fazer o programa. Faltavam uns 10 minutos para entrar em
rede. Quando eu abro o software: Cadê o playlist de hoje? Bom, o pes-
soal deve ter esquecido de fazer. Peguei o roteiro do programa e me pro-
pus a fazer a lista. Cadê os arquivos?
As pastas do software foram apagadas. Só faltava agora as que não
estavam dentro dele também terem sido. Felizmente não foram. Como
não havia tempo hábil de se transferir 40 ou 50GB de arquivos para ele,
apenas transferi o que iria usar naquele dia. Mas não pense que foi fácil
assim. Até chegar a essa “brilhante” conclusão, cinco gerações ou mais
daquele que ficou responsável pela tarefa foram devidamente homena-
geadas. A pressão de ter que entrar em rede com espaço de tempo cur-
tíssimo e um problema dessa ordem acontecendo faz com que as
obviedades sejam inacessíveis no seu cérebro.
A questão é: e se o locutor (nesse caso eu), os produtores, ou quem
mais pudesse estar no estúdio naquela hora não soubesse como o programa
funcionasse? O que iriam fazer? Põe tudo para rolar no CD Player? Pro-
vavelmente não. Nem sempre o acesso a algumas salas de uma rádio é li-
berado após a saída de seu responsável. Caso da sala de CDs. Por serem
pouco usados após a automação das emissoras, eles ficam em salas separa-
das onde o acesso é desnecessário por parte de outros membros da equipe.
Se, do ponto de vista operacional, a automação das emissoras facilitou
muito a vida dos profissionais, podemos dizer que em relação à lógica
operacional as coisas ficaram um pouco mais complicadas. Os problemas de
funcionamento dos equipamentos modernos vão além de estarem ou não fisi-
camente conectados ou de um botão estar pressionado na hora que não deve-
ria. Além desses, existe a estrutura lógica de funcionamento dos softwares,
muito mais complexa que a simples operação dos equipamentos.
Capítulo 7: Produção • 119

O ideal é que o profissional contemporâneo tenha conhecimento cada


vez mais detalhado sobre o funcionamento do estúdio em que trabalha.
Se ele for além da operação e da locução, certamente será mais valioso
para a empresa, pois dificilmente será pego por uma dessas surpresas e
sempre terá uma solução para problemas “tecnológicos” que possam
acontecer a qualquer momento.
PAULO FREITAS, produtor e apresentador,
em depoimento à autora, em fevereiro de 2006, em São Paulo.

Externas
O ideal é que a maioria das rádios tenha a possibilidade de ter repór-
teres na rua. Melhor ainda se houver um em cada canto da cidade. A
rádio Capital AM, na gestão do diretor Jair Brito, preparava cobertura
jornalística com cinco repórteres, para as zonas norte, sul, leste, oeste e
central, da cidade de São Paulo. Porém, o diretor saiu da emissora antes
de implantar o projeto.

Logística
Em cidades grandes, a logística é complicada e os gastos dessa pro-
dução altos. Até porque é preciso ter mais de um repórter para fazer o
revezamento de turnos, mesmo que a cobertura não contemple a ma-
drugada. É necessário equipamento extra para sair da rádio e todos os
riscos que isso implica, como possível roubo, perda e desgaste maior, ou
seja, manutenção redobrada.

Raio X
O retorno de uma cobertura eficiente, que coloca repórteres nos
principais pontos da cidade, é imediato. Há que se lembrar que não bas-
ta fazer um raio X e deixar o repórter lá, à espera dos acontecimentos a
serem reportados. Inúmeros outros fatos acontecem em diversos pontos
120 • Produção de Rádio

da cidade, e esse ou outros repórteres precisam ser deslocados para a co-


bertura.

Ouvinte-Repórter
Coube à rádio Eldorado, de São Paulo, a invenção de utilizar o pró-
prio ouvinte como repórter, principalmente nas informações do trânsi-
to. Como não dá para colocar um repórter em cada ponto de engarrafa-
mento da cidade, a idéia emplacou de forma redonda. Até porque sabe-
mos que os problemas de congestionamentos nem sempre estão só nos
locais previstos.

Trata-se da marca registrada da Eldorado. O ouvinte-repórter, além de


potencializar a quantidade de informações, estabelece um vínculo funda-
mental entre a rádio e sua audiência. Toda informação ou solicitação
passada deve ter desdobramento imediato através de checagens, telefone-
mas, mobilização de repórteres e até a utilização do helicóptero.
Rádio Eldorado – Procedimentos Internos, p. 18.

Tragédias
Em casos extremos de tragédias, mais de um repórter é acionado. Por
exemplo: o caso das três mortes em um estacionamento de São Paulo,
quando ocorria um show improvisado dos músicos do grupo mexicano
RDB. Nesse caso, uma equipe de repórteres deve ir para o local no in-
tuito de entrevistar parentes das vítimas, amigos, autoridades, pessoal da
organização, da prefeitura, entre outros.

Vigília
Em eventos de duração indefinida, como alguém importante hospi-
talizado, repórteres fazem vigília por 24 horas, em esquema de
revezamento, pois algo pode acontecer em qualquer horário. É preciso
Capítulo 7: Produção • 121

estar a postos para cobrir e reportar ao vivo para a rádio, como parentes
e amigos que chegam para as visitas e podem ser entrevistados.

O recurso da transmissão externa deve ser utilizado apenas para eventos


muito importantes, de repercussão garantida, ou caso tenham caráter
institucional. A transmissão externa, quando banalizada, conturba o es-
quema normal da área técnica e “prende” o repórter por muito tempo,
além de custar caro.
Rádio Eldorado – Procedimentos Internos, p. 17.

Improviso
As reportagens de improviso podem acontecer dentro do estúdio ou
fora dele. O que importa é o jogo de cintura, ter raciocínio rápido para
saber como agir. Nesses momentos, ter bons conhecimentos de cultura
geral, boas leituras e estar antenado com tudo o que acontece de rele-
vante no mundo é muito importante.

Visita inesperada
De repente, uma personalidade aparece na rádio, e a direção pede
para o comunicador que está no ar interromper o que faz e conversar
com o visitante. Conversar é modo de falar: trata-se de uma entrevista.
Para tanto, como não há tempo de pesquisa, as primeiras perguntas vi-
rão da memória do apresentador. Enquanto o convidado responde às
primeiras questões, o produtor providencia uma pesquisa rápida, para
passar alguns dados de última hora para o comunicador.

Espírito jornalístico
O mesmo raciocínio rápido deve ser colocado em prática quando
se está na rua ou em algum local em que aconteça um fato que pode
virar notícia. Mesmo que o apresentador não domine o assunto, é im-
122 • Produção de Rádio

prescindível que ele dê uma de repórter e passe às primeiras coordena-


das do ocorrido para a rádio em que trabalha. Isso demonstra espírito
jornalístico.

Cronometragem
... a função do editor de rádio é selecionar as matérias, revisá-las e fazer
a montagem, redigir notas, além de definir o tempo de cada matéria e
sugerir chamadas.
GISELA SWETLANA ORTRIWANO, escritora

Em alguns casos, a emissora possui pessoal especializado em decupa-


gem, cronometragem, edição de sonoras. Muitas vezes, a tarefa fica a car-
go do produtor ou de seus assistentes. De qualquer forma, mesmo sendo
realizada por outros profissionais, é de responsabilidade do produtor a
avaliação do trabalho realizado. Ele precisa conferir se a edição não dei-
xou de lado as melhores partes da entrevista, se a sonora foi crono-
metrada exatamente como deveria ter sido etc.

Decupagem
Depois da cronometragem na íntegra, a sonora é dividida em partes,
de acordo com o pensamento de quem fala. Não é porque cada take pre-
cisa ter no máximo três minutos que o editor vai cortar a frase no meio,
ou mesmo antes de o entrevistado ter completado o raciocínio. Por isso
existem várias possibilidades de corte, antes de se chegar aos três minutos.
Pode-se cortar em dois minutos, um minuto e meio, e assim por diante.

Pré-edição
Caso não dê mesmo para cortar um raciocínio para ficar no tempo
estabelecido, e a sonora passar um pouco de três minutos, cada caso
deve ser estudado individualmente. Será que não dá mesmo para cor-
Capítulo 7: Produção • 123

tar? É possível tirar a sonora inteira e o apresentador resumir o que o


entrevistado falou? O que não pode ocorrer é deixar que todos os takes
estourem o tempo.

Edição
Após decupar os trechos possíveis de entrar no ar, eles devem ser
listados, com seu tempo de duração e o resumo do que foi dito em cada
um deles, para facilitar a entrada e apresentação por parte do apresenta-
dor. Por exemplo: no primeiro take, o médico falou da importância da
soja, no segundo, sobre o fato de ser bom também para os homens, no
terceiro, explicou que deve-se ingerir com moderação, porque engorda,
no quarto, concluiu que é um dos principais alimentos funcionais.

Um trabalho que requer “engenho e arte”. Tem como finalidade dar con-
cisão (o maior número de informações no menor tempo!), nitidez, coe-
rência e “tempero” à matéria gravada. O repórter deve procurar gravar a
matéria da maneira direta e concisa, para facilitar o trabalho posterior de
edição. Editar, em rádio, significa montar uma matéria após selecionar,
hierarquizar e emendar trechos da gravação. Como um artesão, o editor
deve “limpar” a matéria, eliminando o que for desnecessário ao entendi-
mento, e “dar brilho”, redigindo um bom texto que a torne nítida, coe-
rente e interessante.
MARIA ELISA PORCHAT, Manual de Radiojornalismo (Jovem Pan), p. 61.

Esqueleto
Radialistas costumam denominar “esqueleto” o roteiro em tópicos de
tudo o que vai entrar no programa: a parte técnica, o ponto em que en-
tra o locutor, cada sonora pré-gravada, externas, músicas de fundo
(BG), músicas que tocarão inteiras, vinhetas, comerciais etc.
124 • Produção de Rádio

Vamos supor um programa musical que focalize a carreira de um mú-


sico. Em geral, as vinhetas são do programa e não do músico em ques-
tão. No BG, entra uma música escolhida para ficar de fundo enquanto
o locutor fala. Pode ser a mesma até o final, pode ser mudada a cada
bloco, ou ainda a cada fala. Quando os BGs entram, de modo geral, fi-
cam por pouco tempo, de 5 a 10 segundos.
Na abertura, subtende-se que ele vá cumprimentar o ouvinte e, no
cardápio, que ele fale o que o público vai ouvir no programa de hoje. Nes-
se caso, que conta a trajetória de um artista, as músicas escolhidas devem
estar entre aquelas mais marcantes, mais bonitas, os hits, as desconheci-
das, mas legais, as parcerias com outros músicos famosos, as parcerias com
músicos novatos, os lançamentos, a primeira gravação, a última, músicas
de uma fase, de outra fase, com determinado grupo, com outro grupo etc.
A cronometragem de cada música entra especificando os minutos e
os segundos, e pode ser grafada assim: 3’25”, o que significa 3 minutos e
25 segundos. Alguns preferem abreviar os minutos com “m” e os segun-
dos com “s”. Não importa, basta definir um padrão e adotá-lo.

Exemplo

Um exemplo dos possíveis esqueletos


(Técnica pode ser abreviada por Tec, e locutor por Loc)

Tec: vinheta de abertura


Tec: BG – X segundos
Loc: abre
Tec: BG
Loc: cardápio
Tec: BG
Loc: anuncia primeira música
Capítulo 7: Produção • 125

Tec: música X, do disco Y, faixa Z, tempo: X’xx”


Tec: BG
Loc: avisa que o músico vai falar e diz sobre o quê
Tec: sonora com depoimento do artista
Tec: BG
Loc: anuncia segunda música
Tec: música X, do disco Y, faixa Z, tempo: X’xx”
Tec: vinheta alfinete
Tec: comercial

Tec: vinheta alfinete


Tec: BG (pode ser diferente do primeiro bloco)
Loc: retoma o assunto e chama terceira música
Tec: música X, do disco Y, faixa Z, tempo: X’xx”
Tec: BG
Loc: avisa agora que é um outro músico que vai falar
Tec: sonora com depoimento do amigo do artista
Loc: anuncia quarta música: em parceria com o músico que falou
Tec: música X, do disco Y, faixa Z, tempo: X’xx”
Tec: vinheta “estamos apresentando”
Tec: comercial

E assim por diante, podem entrar os quadros (se houver), com suas devidas
vinhetas, repórteres na rua colhendo depoimentos de fãs, gravações raras, tre-
chos de shows ao vivo etc.

Como encerrar
Cada comunicador possui um estilo pessoal que é marcado pelo jei-
to como abre os programas, como se apresenta e também como encerra
e se despede. Cabe a ele constatar como fica melhor, se imprime mais
126 • Produção de Rádio

ou menos intimidade com seus ouvintes, se prefere ser mais direto, mais
sério, fazer uma linha mais descontraída etc. Tudo vai depender do tipo
de programa e, principalmente, da personalidade do apresentador. Se
ele está tímido demais, o produtor pode dar uns toques para que ele se
solte nessa hora. Afinal, o programa terminou, pode relaxar!

Assinatura
A maioria das equipes jornalísticas das rádios assina no final de suas
entradas com seus nomes e acrescenta o nome do programa e, em al-
guns casos, de onde falam. Por exemplo: Bruno Rodrigues, da Baixada
Santista, para o programa Holografia.

Cabeça
Quando houver a participação do repórter ou de um colaborador, ao
vivo ou gravado, seja com uma externa ou mesmo dentro do estúdio, o
âncora apresenta de forma sucinta o que será abordado pelo repórter ou
participante. Essa introdução é chamada de “cabeça”. Em contrapartida,
a finalização do take é designada como “pé”, e tanto pode ser feita pelo
repórter dando a palavra final, quanto pelo âncora, se achar que deve
comentar.

Exemplo

A produção avisa que a colunista de moda vai falar sobre as polêmicas


polainas, pois alguns acham de extremo mau gosto e outros acreditam que de-
vem ser usadas para esquentar as pernas.
Cabeça: Vivian Whiteman sabe que o uso das polainas não pega nem mesmo
nos dias mais frios. Vamos ouvi-la no boletim sobre moda.
Pé (do âncora): Agora você sabe exatamente por que algumas peças do ves-
tuário, no caso do exemplo de hoje, as polainas, sofrem tanto preconceito.
Capítulo 7: Produção • 127

Atendimento ao ouvinte
Nessa hora, todo cuidado é pouco. Não se pode passar muita intimi-
dade e nem ter uma frieza que deixe o ouvinte acanhado. É preciso sa-
ber dosar o jeito com que se fala no ar com o ouvinte. Tratá-lo com res-
peito sempre é importante. Mesmo que ele esteja dizendo besteiras, o
apresentador nunca se rebaixa com quem quer que seja no ar. Porém,
costumeiramente, os ouvintes que ligam para rádios gostam de falar mui-
to. Ficar atento para poder cortá-lo sem melindrar os brios dele é tarefa
razoavelmente difícil, que vem com a prática e muita atenção no mo-
mento da conversa.

Leitura de cartas
Normalmente é a equipe de produção que faz uma primeira triagem
das cartas que chegam, separando as melhores. Melhores não quer dizer
necessariamente as que estão bem escritas, mas, principalmente, aquelas
que têm conteúdo, assuntos inusitados, interessantes. Como ler é uma
decisão conjunta da direção, do produtor e do apresentador, será esco-
lhida uma maneira condizente com o programa, assim a leitura pode
tanto ser com interpretação ou mera leitura mesmo.

Feedback
Há quem se utiliza das cartas dos ouvintes como o melhor momento
de sua programação. Caso do Eli Corrêa, da Rede Capital AM, que in-
terpreta as cartas no famoso quadro “Que Saudade de Você”. Vale res-
saltar que as cartas são importantes meios de comunicação entre a equi-
pe do programa e seus ouvintes. São as opiniões daqueles que não tele-
fonam para a rádio, mas preferem escrever. Eles dão o feedback (retorno)
necessário para continuar do jeito que está ou mudar o rumo do progra-
ma, caso não esteja agradando.
Capítulo 8

Pré-produção

Entende-se como pré-produção tudo o que é produzido antes de o pro-


grama ou boletim ir ao ar. Sabe-se que não é bom deixar para o apre-
sentador improvisar na fala, o técnico na colocação das sonoras, e o pro-
dutor ficar ao lado esperando o que pode acontecer. Obviamente, tudo
tem que ser bem detalhado antes de começar.

Checklist
O “esqueleto” está pronto. Os convidados avisados e relembrados.
As sonoras cronometradas e colocadas no ponto certo. As músicas esco-
lhidas, não somente as que vão tocar inteiras, mas as dos BGs também.
As cartas que vão entrar separadas. Os brindes que serão sorteados enu-
merados em uma lista. Os endereços que precisam ser ditos no programa
checados (isso quer dizer que a produção ligou para conferir não só o
número do telefone, como o nome da rua etc.). O estúdio arrumado, a
água providenciada etc.

Projetos futuros
Fazem parte da pré-produção os projetos dos possíveis programas que
venham a entrar no ar. Todo o projeto, desde seus conceitos até pesqui-
130 • Produção de Rádio

sas para verificação de audiência, perfil de ouvinte etc., é confecciona-


do para apresentação à diretoria.

Orçamentos
Orçamento aproximado
Deve constar em um pré-projeto o orçamento aproximado do que
será gasto inicialmente para pagar pela idéia, por consultorias etc., e um
orçamento mensal. Para tanto, o Sindicato dos Radialistas pode forne-
cer salários básicos dos diferentes profissionais que compõem a equipe
de produção de um programa. Fora isso, os custos de direitos autorais
também devem ser listados.

Orçamento detalhado
Com o projeto aprovado, ou a pedido dos dirigentes da emissora, o
orçamento detalhado é providenciado. Todos os gastos precisam ser ar-
rolados, desde o motoboy até a compra de CDs ou de MP3. Como o
programa ainda não está no ar, é preciso fazer um levantamento de to-
dos os itens que normalmente constam nos orçamentos de programas do
mesmo tipo.

Viabilidade
A viabilidade de recursos só acontece se os dirigentes acreditarem na
idéia do projeto. Por isso, é preciso um detalhamento minucioso para
provar que o programa será interessante e trará retorno de audiência.
Muitas vezes, coloca-se no ar determinado programa para verificar se vai
agradar e, só depois, a verba é destinada. Cabe aos produtores e demais
envolvidos fechar o contrato, estipulando prazos de quando se começa
a receber pelo trabalho.
Capítulo 8: Pré-produção • 131

Patrocínios
Existem várias formas de patrocínio de programas. O patrocinador
pode bancar o programa como um todo e exigir exclusividade. Nesse
caso, ele cobre todas as despesas. Ou, o que é feito na maioria dos casos,
divide-se o patrocínio em cotas, que podem variar de duas até seis, como
a inserção comercial (de 15” ou 30”) a cada dez minutos de um progra-
ma de uma hora. Claro que é preciso tomar cuidado para que o pro-
grama não fique poluído.

Permutas
É comum no rádio fazer permutas com empresas, em troca de anún-
cios comerciais. Exemplos dos tipos de permuta mais comuns: os profis-
sionais da emissora estudam inglês de graça em uma escola de línguas,
os dirigentes e seus convidados e parceiros almoçam sem pagar a conta
em determinados restaurantes, casas noturnas abrem suas portas e forne-
cem as bebidas para abrigar as festas da emissora, fabricantes de camise-
tas e bonés fazem peças exclusivas com o logotipo da rádio etc. tudo em
troca de “aparecer no rádio”, ou seja, uma forma de propaganda sem
custo financeiro.
É preciso tomar muito cuidado com essa prática. Não é porque exis-
te uma permuta com um determinado restaurante que o seu chefe de
cozinha é o único a dar receitas no programa que tem um quadro de
culinária. Não se pode deixar de divulgar algum evento (de interesse dos
ouvintes) de uma casa noturna só porque ela não faz permuta com a
emissora, entre outros exemplos.

Jabá
Abreviatura de jabaculê, que significa um ato de corrupção em geral
praticado por gravadoras e empresários que subornam radialistas para
execução de músicas, promoção de artistas e divulgação de informação.
Oferecem dinheiro, presentes, paparicagens.
132 • Produção de Rádio

Tutinha, Antonio Augusto Amaral de Carvalho Filho, proprietário


da Jovem Pan, em entrevista à revista Playboy, refere-se ao jabá como
um “acordo comercial”:

Na minha rádio tem nota fiscal, tô pouco me danando. O cara para en-
trar no Fantástico também paga. Jabá é quando você faz ilegalmente na
empresa. O que eu faço são acordos comerciais.

E vai além ao explicar esses “acordos”:

Por exemplo: hoje chegam 30 artistas novos por dia na rádio. Por que eu
vou tocar? Eu seleciono dez, mas não tenho espaço para tocar os dez. Aí
eu vou nas gravadoras e para aquela que me dá alguma vantagem eu dou
preferência.

A jornalista cutuca para saber detalhes sobre essas “vantagens”:

Se você tem um produto novo, você paga pra lançar. Era isso o que eu
fazia. Eu tocava, mas queria alguma coisa. Promoção, dinheiro. Ah,
bota aí 100 mil reais de anúncio na rádio. Me dá um carro pra sortear
para o ouvinte. Mas hoje não tem mais isso. As gravadoras não têm mais
dinheiro. O que pode existir é o empresário fazer acordo. Ah, toca aí meu
artista e eu te dou três shows. Ou uma porcentagem da venda dos discos.

Permuta polpuda
Volto a exemplificar com as respostas de Tutinha Amaral à Playboy,
até onde os “acordos” podem chegar para um artista tocar em uma rádio:

Existe uma dificuldade para se tocar música em espanhol no Brasil. Não


temos essa tradição. Aí a gravadora falou: “Te dou 1 dólar por disco se
você tocar a Shakira”. Eu falei: “Não vou tocar essa porra”. Peguei o
disco e joguei em casa. Depois de uma semana eu voltei e ouvi minha
filha assim, cantando: “Estoy aquí, queriéndote”. Voltei na gravadora e
Capítulo 8: Pré-produção • 133

falei: “Aceito o acordo”. A Shakira vendeu 1 milhão de discos e fizemos


70 shows lotados. Mas ela não era nada. Eu dei um jantar na minha
casa para a Shakira e ninguém queria ir. Convidei o Rogério Fasano, o
Luciano Huck, ninguém queria ir.

Comercial
Audiência e perfil
Os projetos de futuros programas, sejam eles de terceiros ou de pro-
fissionais da rádio, também são formatados para o comercial, ou seja,
com um “molho” especial para “vender” a idéia do programa aos patro-
cinadores. Em geral, destacam os números da audiência da rádio e do
horário do programa. Mostrar o perfil do ouvinte é fundamental para sa-
ber qual tipo de anunciante escolher para ser o patrocinador. Por exem-
plo: um programa que fala de vestibular atrai principalmente os jovens;
portanto, um patrocinador ligado a um pool de casas noturnas que pro-
movem “baladas” se interessa pelo público em questão.

Populares e elitistas
Existem anunciantes que não distinguem faixa etária, mas sim a clas-
se social. Por exemplo: as Casas Bahia anunciam praticamente para to-
das as idades, pois vendem de telefones celulares a móveis. Porém, seu
foco não é na classe alta. O contrário também serve para exemplificar:
não adianta anunciar um cruzeiro de navio para um público que no má-
ximo viaja para Praia Grande (litoral da Baixada Santista, SP). Anún-
cios desse tipo servem para o público de emissoras como da Rede Ante-
na 1, para citar uma rádio que fala para quem é da classe A.

Formato próprio
Em geral, a produção e a direção responsáveis pelo projeto que será
destinado ao comercial levantam os pontos conceituais principais do
134 • Produção de Rádio

programa, e um profissional da área comercial formata o projeto com o


intuito de levá-lo aos patrocinadores. Ele produz, com o departamento
de marketing, os gráficos de evolução da audiência, de caracterização do
perfil do ouvinte e de pesquisas de interesse em relação ao tema.

Pesquisa
Se o programa vai enfocar determinado assunto, por exemplo, saú-
de, é possível pesquisar se as pessoas se interessam pelo tema, quem se
interessa mais, se é o homem ou a mulher, de que faixa etária, se existe
crescimento desse interesse etc. Todos esses dados entram no projeto.
Possíveis patrocinadores, de acordo com os temas que serão aborda-
dos no programa, também podem ser listados. Isso facilita as coisas para
que o contato publicitário mapeie onde ele vai “vender” o projeto. Por
exemplo: se o programa é um boletim de boa forma, uma marca de be-
bida que repõe sais minerais pode ser uma das patrocinadoras.

Concorrência
O concorrente, se houver, é um fator importante. Deve-se saber se
ele vai dividir o público ou não, e se a concorrência será saudável para
ambos, no sentido de aperfeiçoamento. Muitas vezes, a partir do con-
corrente, as falhas são levantadas para que não se cometam os mesmos
erros. Um dos programas pode também complementar o que o outro
deixa a desejar, reforçar o que o outro tem de bom etc. É preciso apon-
tar exatamente que é o concorrente. Às vezes, existe um programa pa-
recido, porém destinado a pessoas de outra faixa etária ou de outras
classes sociais.

Crescimento do meio rádio


Depoimento do criador do Website Rádio Agência, empresário, pro-
dutor e apresentador do programa “Jazz Masters”, da Eldorado FM, Pau-
lo Mai, à autora, em março de 2006.
Capítulo 8: Pré-produção • 135

Podemos analisar o crescimento do meio rádio tomando como base a es-


timativa da auditora PricewaterhouseCoopers, através do seu trabalho
intitulado Global Entertainment and Media Outlook 2005 — 2009. O
estudo, em sua sexta edição, abrange Estados Unidos, Europa, Oriente
Médio, África, Ásia, América Latina e Canadá. As projeções incluem
aporte de publicidade, serviços pagos (rádios por assinatura, por exem-
plo) e emissoras estatais pagas com taxas de contribuintes.
Os números de todos esses serviços focados em rádio apontam para
um crescimento de 5,1% ao ano em todo o mundo. Passaremos dos
US$62 bilhões registrados em 2004 para US$80 bilhões em 2009.
Os Estados Unidos irão liderar o crescimento, com 6,4% ao ano, saltan-
do de US$26,5 bilhões registrados em 2004 para US$36 bilhões em 2009.
Embora todos os estudos apontem um aumento de 10% no investi-
mento da publicidade em rádio no Brasil, o resultado chega à casa dos
R$500 milhões. Um valor distante dos quase R$13 bilhões anuais reser-
vados à publicidade no Brasil. Resumindo, ainda batemos nos 4,1% de
participação. Na América Latina, o México lidera com quase 15%.

Agenda
Uma agenda considerada ideal é aquela que contém não somente os
nomes e telefones de contato, mas também endereços e, principalmente,
características do contato. Essas características vão nortear o produtor na
hora de escolher quem chamar para falar sobre determinado assunto.

Exemplo

Alguns exemplos

Fulano fala bem, no entanto deve-se recomendar que seja conciso. Sicrano
é um superespecialista, mas não fala bem quando é ao vivo. Nesse caso, só gra-
136 • Produção de Rádio

vando para que ele possa corrigir falhas e recomeçar quantas vezes for necessá-
rio. Beltrano entende do assunto, é bem falante, entretanto não consegue conter
palavrões. Portanto, precisa de edição. E por aí vai. Basta escrever ao lado do
nome do contato como ele é ao microfone. Por exemplo, no caso de Manoel de
Figueiredo Júnior, coloque sempre o nome completo começando pelo primeiro
nome. Nunca inclua na agenda na letra Z, mesmo que você o conheça como
Zezão, nem no J, por mais que todos o chamem de Júnior. Também não coloque
no F de Figueiredo. É preciso estabelecer um padrão, para facilitar na hora da
procura, senão vira uma bagunça: uns pelo sobrenome, outros não.
Ficaria assim: Manoel de Figueiredo Junior, médico (celular: XXXXXXXX),
cardiologista do Hospital do Coração (tel. XXXXXXXX), diretor da Associação dos
Estudos Cardíacos (tel. XXXXXXXX), plantonista do Hospital Brigadeiro (tel.
XXXXXXXX), atende na clínica particular Coração Feliz, no bairro Moema (tel.
XXXXXXXX), secretária: Sandra Maria.
Em alguns casos, quando se trata de fonte recorrente, é recomendado incluir
também o telefone da residência, da casa da praia, e o nome da esposa. Por
exemplo: Manoel de Figueiredo Júnior, médico (celular: XXXXXXXX), cardiologista
do Hospital do Coração (tel. XXXXXXXX), diretor da Associação dos Estudos Cardí-
acos (tel. XXXXXXXX), plantonista do Hospital Brigadeiro (tel. XXXXXXXX), atende
na clínica particular Coração Feliz, no bairro Moema (tel. XXXXXXXX), secretária:
Sandra Maria. Residência (tel. XXXXXXXX). Casa de veraneio (tel. XXXXXXXX). Es-
posa: Silvia Regina.
Detalhes: Sabe falar de forma resumida, mas prefere receber as perguntas
antes para poder preparar as respostas. Seu tom de voz é baixo, precisa de cuida-
do redobrado da parte técnica com a altura do volume. Não costuma retornar a
ligação rápido. Só deve ser acionado, se houver tempo, de um dia para o outro.

Dica

O melhor é escrever tudo a lápis; assim, quando for preciso fazer alterações,
fica mais fácil, basta apagar. Ou adote uma agenda eletrônica para poder deletar
quando necessário.
Capítulo 8: Pré-produção • 137

Atendimento ao ouvinte
Na pré-produção, o atendimento ao ouvinte deve ser considerado
tão importante quanto o ao vivo, durante o programa. Muitas vezes,
esse ouvinte dá sugestões ou reclama de algo que passa despercebido
pela produção. Ouvi-lo com atenção, além de ser educado, é conhecer
o público do programa, descobrir seus anseios e o que ele realmente pre-
cisa ouvir. Se a equipe não é numerosa o suficiente para atender todas
as ligações, o ideal é colocar uma secretária eletrônica para registrar os
pedidos e as queixas.

Atender ao ouvinte antes


O radialista Vicente Adorno fala dos obstáculos na hora de dar
atenção às solicitações dos ouvintes, em entrevista à autora, em novem-
bro de 2005:

Como faço um programa de música americana, eu recebo muitos pedi-


dos, toca isso, toca aquilo, aquilo outro... Não dá para atender a todos.
Às vezes, pedem assim: “eu queria ouvir o tema tal com tal cantor”.
Quando especificam, fica muito mais fácil achar. Só que na maioria das
vezes, as pessoas citam aleatoriamente: “uma música que ouvi em um
filme na década de 60...’’ Os ouvintes não têm noção da dificuldade de
pesquisar uma canção quando não se sabe nem o nome dela nem o autor
ou intérprete, ou quem estava acompanhando o cantor, ou quem fez o
arranjo. Afinal, é um trabalho coletivo.

Estudos
Os estudos de necessidades acontecem quando se verifica alguma fa-
lha que possa ser corrigida. Para corrigir problemas de ritmo de voz, bas-
ta treinar, se possível, com especialistas. É imprescindível levantar todos
os problemas dos radialistas da emissora. Feito isso, é preciso contratar
138 • Produção de Rádio

um profissional para ajudá-los a superar alguns obstáculos que fazem


com que suas vozes não saiam a contento, ou que estejam agravando
algum problema latente. Por exemplo: se o locutor começa a aparecer
rouco sistematicamente, deve-se tomar cuidado e procurar um fono-
audiólogo.

Ensaio
Quem disse que só o radioator ensaia antes de entrar no ar? Comu-
nicadores também ensaiam novas abordagens, mudanças de estilo ou mes-
mo quando acham que estão precisando se aprimorar. Mas, de modo ge-
ral, são os iniciantes nos microfones que ensaiam com mais persistência.
Funciona bem, se houver uma avaliação atenta do resultado do ensaio.

Corrigir
Treinar a voz, a impostação, a dicção, a pronúncia etc. só vale se de-
pois houver a preocupação de fazer os acertos. Ficar treinando em vão
não adianta muito, serve apenas para soltar a voz. Quem não tem al-
guém para dirigir e apontar o que não está bom pode, ao menos, gravar
o ensaio e ouvir com muita atenção para verificar as falhas e também os
pontos altos, para que sejam reforçados.

Plano de produção
É muito melhor planejar tudo direito do que fazer as tarefas con-
forme elas vão aparecendo, na última hora. O trabalho de um bom
produtor é: organizar o passo-a-passo do trabalho da equipe, listar as
tarefas prioritárias, incluir as de reserva, caso alguma não dê certo, le-
vantar as possibilidades de mudanças de rumo, caso uma das pautas
caia, listar todos os telefones dos envolvidos naquela edição do pro-
grama, conferir o “esqueleto”, checar se os convidados não esquece-
ram do compromisso etc.
Capítulo 8: Pré-produção • 139

Preparação de entrevistas
É claro que não basta ser articulado e ter conhecimentos gerais para
encarar qualquer entrevistado. Todo profissional, por mais experiente
que seja, precisa fazer uma pesquisa para atualizar os dados referentes ao
convidado.

Perguntas
A informação que temos não é a que desejamos. A informação que de-
sejamos não é a que precisamos. A informação que precisamos não está
disponível.
JOHN PEERS, escritor

Amplitude de entrevistas
Somente por meio da pesquisa o entrevistador conseguirá tornar a
conversa um bate-papo, pois conhece bem com quem está falando a
ponto de puxar um assunto ligado ao que o entrevistado acabou de di-
zer. Ou seja, para que aconteça um pingue-pongue harmonioso, que não
soe truncado, do tipo “pergunta-se uma coisa, vem a resposta, pergunta-
se outra sem gancho, outra resposta...”, é preciso que o comunicador es-
teja bem informado sobre o entrevistado. Aí a conversa flui, espon-
tanemente.

Antiperguntas
Cuidado com aquelas perguntas fora de hora, sobre assuntos delica-
dos ou da vida pessoal do convidado. A conversa pode ser interrompida
por uma pergunta mal formulada ou provocativa. Não é que seja proibi-
do fazer perguntas provocativas. No entanto, elas têm de ter propósitos,
não podem soar gratuitas, só para fazer alarde. Se a intenção é mesmo
de cutucar o entrevistado com perguntas ferinas, deixe esse tipo de per-
gunta para o final. Assim, caso ele fique aborrecido, a maior parte da
entrevista já terá sido feita.
140 • Produção de Rádio

Outro tipo de pergunta que se deve evitar é aquela (normalmente


longa) em que já vem embutida a resposta, e no final questiona-se ape-
nas se o convidado concorda ou não.
Corre-se o risco do entrevistado responder de forma seca, “sim” ou
“não”, e o locutor ficar sem graça.

Múltiplas perguntas
Não há necessidade de emendar uma pergunta na outra. Alguns
apresentadores acham que ganham tempo perguntando duas coisas em
uma questão só. No rádio, principalmente, veículo em que entram no-
vos ouvintes a cada segundo, a segunda parte da resposta do convidado
referente à segunda pergunta pode ficar totalmente solta para quem sin-
tonizou naquele momento.
Pelo contrário, o locutor precisa estar atento para atender aos avisos
da produção, que pode sinalizar que o tempo está estourando, por
exemplo. Nesse caso, o locutor interrompe a resposta, de forma delica-
da, é claro, e retoma a pergunta novamente, fazendo um resumo do que
já foi respondido e ressaltando a parte que falta responder.
Aliás, atenção é tudo em uma entrevista. É essencial que o apresenta-
dor vá anotando o que o convidado fala se quiser interagir puxando outra
pergunta ou reafirmando alguma informação. Ele anota nomes, datas e lo-
cais, para não se atrapalhar na hora de voltar a falar do assunto.

Certa vez, há uns dez anos, fui entrevistado por um radialista da Rádio
Eldorado AM, para um programa que ia ao ar à tarde. Se não me enga-
no, chamava-se “Eldorado à Tarde”. Ele perguntava sobre a nova grade
de programação da TV Cultura para o próximo ano (era final do ano).
Entre as novidades, falei sobre a estréia de uma série espanhola chamada
“Dom Quixote”. No final da conversa, o locutor fez alguns comentários
Capítulo 8: Pré-produção • 141

e citou a série referindo-se a ela como “Don Pixote”. Tive que me conter
para não dar risada no ar.
Depoimento de IRINEU GUERRINI, na época diretor da TV Cultura,
de São Paulo, hoje coordenador e professor do curso de Rádio e TV
da Faculdade Cásper Líbero, de São Paulo.

Dicas
Dicas aos entrevistados também caem bem. Por exemplo, é preciso
deixar claro e pedir para que o entrevistado anote o nome do comu-
nicador. Parece meio insistente, mas é importante pedir para que ele
soletre ou repita o nome. Se for um nome difícil de ser pronunciado,
cabe ao produtor ensinar a pronúncia correta e, depois disso, pedir que
o convidado fale o nome do apresentador tantas vezes quanto puder.
É assim que as coisas funcionam em rádio. Sempre lembrando que o
ouvinte acabou de girar o botão e caiu em uma entrevista cujo entre-
vistado ele não sabe quem é. Da mesma forma que o comunicador repe-
te o nome do entrevistado, este deve tratá-lo da mesma forma. Parece
desnecessário dar esse tipo de dica, mas não é. Muitos convidados en-
tram e saem do ar sem ao menos se referir ao apresentador pelo nome
uma única vez.

Hélio Ribeiro
No capítulo “Aprendendo a ouvir aquilo que não foi dito”, do livro
O Poder da Mensagem, o saudoso radialista Hélio Ribeiro brinca com o
significado das respostas dos entrevistados:

1. “Bem...tudo é relativo.” Quando o entrevistado responde assim, está


querendo dizer: “Não entendi o que foi dito antes, e não estou en-
tendendo o que está sendo falado agora.”
2. Outra, é quando o entrevistador formula a questão, e o entrevista-
do diz: “Boa pergunta...Essa é uma boa pergunta.” O verdadeiro
142 • Produção de Rádio

sentido dessa resposta é: “Êta pergunta desgraçada que esse cama-


rada me fez. Tô frito.”
3. Quando o sujeito diz: “Bem, isso requer um estudo em profundida-
de...” Talvez esteja querendo dizer: “E agora? Eu não sei nada sobre
isso... Que é pra fazer aqui?”
4. Quando o entrevistado diz: “Eu esperava mesmo que você fizesse
essa pergunta...” está querendo dizer... “Putz, logo esta?”
5. “Muito bem colocada essa pergunta.” Quer dizer: “Essa me pegou no
fígado.”
6. Quando diz: “Aliás, essa pergunta tem várias interpretações...” Aí ele
está pensando: “Agora não sei se choro ou dou risada. Eu quero a
minha mãe...”
7. Quando o entrevistado vem com aquela de que... “Você disse exata-
mente o que eu queria dizer”, significa: “Se eu concordar com ele a
coisa vai ficar mais fácil aqui?”
8. Finalmente, quando o entrevistado diz: “Muito bem lembrado...” Na
verdade está pensando: “Logo esta? ... Esse cara foi lembrar logo esta?”.

Texto
Fale no rádio como se estivesse dirigindo-se a apenas um ouvinte.
Trate-o de você e nunca refira-se a mais de um usando “vocês”. “Você
vai ouvir...”; ”Você pode participar ligando para...”

O rádio oferece proximidade e intimidade, portanto, verosimilhança.


Credibilidade. Dez pessoas podem ouvir juntas uma mesma mensagem
radiofônica mas ela será apreendida individualmente, como manifesta-
ção pessoal. Experiência privada num meio de comunicação de massas.
Essa é uma das suas vantagens intrínsecas, razão pela qual McLuhan
considera o rádio como um meio “quente”, ao contrário da TV que,
para ele, é “fria”. Ainda não estavam popularizados os conceitos de
Capítulo 8: Pré-produção • 143

real e virtual mas o estudioso canadense já ponderava que a apresenta-


ção de uma imagem minimiza o uso da imaginação, a realidade não
aciona fantasias.
ALBERTO DINES, na apresentação para “O Rádio na Era da Informação –
Teoria e Prática do Novo Radiojornalismo”, de Eduardo Medistsch,
colhida do site do Observatório da Imprensa.)

Cada emissora possui um estilo de acordo com seu target (público-alvo).


Portanto, de nada adianta ser rebuscado em rádios que atingem as clas-
ses D e E, como a rádio Nove de Julho, de São Paulo. Da mesma forma
que não se deve usar linguagem séria para uma rádio jovem, como a rede
Mix FM.

Exemplo

Conheça um exemplo de texto do programa “Rádio Fashion”, da rádio


Eldorado, de São Paulo.

SETEMBRO/2005
música: algo de cinema

ATENÇÃO PESSOAL DE CINEMA


QUE OUVE A RÁDIO FASHION...
VOCÊS TÊM ATÉ PRIMEIRO DE JUNHO PARA PARTICIPAR
DO SEGUNDO FILME FASHION BRASILEIRO...
O concurso prevê premiações para figurinos nas seguintes
categorias: longa-metragem; filme publicitário; videoclipe;
videodocumentário, videodesfile
e vídeo universitário.
O objetivo desse minifestival
144 • Produção de Rádio

é estimular a cultura de moda...


SOBE SOM
É que o primeiro Filme Fashion, ano passado, em São Paulo e no
Rio de Janeiro,
não teve caráter competitivo
e apenas destacou a participação
de grandes estilistas no cinema.
Como vocês devem lembrar, foram exibidos filmes com figurinos
assinados por Coco Chanel, Christian Dior, Yves Saint Laurent,
Giorgio Armani, Jean Paul Gaultier
e Yohji Yamamoto, entre outros.
A próxima edição do evento acontece de 6 a 18 de julho, no
18
Centro Cultural Banco do Brasil, no centro de São Paulo...
30 filmes vão ser exibidos
para um júri oficial e um júri popular...
Se quiser mais detalhes,
escreva para Francisco César Filho,
que é o organizador do Filme Fashion...
O e-mail dele é XIKINO 2 @ UOL PONTO COM PONTO BR. XIKINO
É COM X E COM K.

Palavras e músicas
O espaço que o texto tem dentro do programa também é preesta-
belecido pela direção quando o programa é criado. Em geral, emissoras
AM dão mais valor às palavras do que as FMs, que nasceram mais musi-
cais. Pode ser por conta da qualidade técnica, que favorece tocar músi-
cas em FMs, ou pela cultura da AM, mais jornalística, ou mais compa-
nheira, como as populares.
Uma boa divisão é balancear os diversos tempos de “falação”. Em rá-
dios AM, pode-se intercalar as várias falas: a do apresentador com a do
Capítulo 8: Pré-produção • 145

comentarista, com a do ouvinte, com a do repórter na rua, com a do


comercial etc. Assim, toda fala não fica monótona e ganha um “timing”
preciso para “prender” o ouvinte.
Em rádios FM, vincula-se o texto apenas aos programas especiais,
como homenagens a artistas. Nesse caso, só para exemplificar com um
programa de uma hora, o ideal é deixar no máximo 20 minutos de fala
para 40 de música. Claro, que esses 20 minutos devem ser bem alternados
para não ficar cansativo. Isso se não houver comerciais no meio, claro.

Jornalismo
Para cada notícia, o texto jornalístico tenta sintetizar ao máximo, le-
vando-se em consideração que o objetivo é dar as informações básicas
do fato. Como um boletim noticioso normalmente é curto, as notas são
concisas para que dê tempo de incluir várias delas no mesmo boletim.
Estamos tratando de rádios musicais, pois em uma emissora do tipo “all
news” (de notícias), esse tempo é maior, já que a rádio é baseada em
texto 24 horas por dia.

Improviso
Muitos comunicadores preferem falar de forma improvisada e gostam
de trabalhar com um texto só com tópicos, para não esquecer nomes,
datas, serviços e, eventualmente, temas sobre os quais precisam falar. Por
um lado soa bem melhor, mais espontâneo, quando o apresentador fala
de forma corrente, sem ler. Por outro, se o radialista tem tendência a fa-
lar demais, corre o risco de ser prolixo.

Iniciantes
Radialistas que estão começando nos microfones lêem os textos por
medo de errar, gaguejar, dar branco etc. Muitas vezes, escrevem tudo,
desde o bom dia e as piadinhas do meio do programa, aos elogios dados
aos ouvintes e o endereço da própria rádio. Tudo isso para amenizar o
nervosismo dos primeiros tempos, quando realmente o microfone inti-
146 • Produção de Rádio

mida quem não tem a prática da profissão. Temos de reconhecer que,


depois de alguns meses, esses mesmos apresentadores passam a exercer
suas atividades muito mais facilmente.

Pergunta
Uma boa dica para avisar o locutor de que a frase é uma pergunta:
coloque o ponto de interrogação no começo da frase. Assim, evita-se
aquela inflexão da voz somente na última palavra.

Sinalização
Produtores possuem um verdadeiro aparato de ajuda aos comuni-
cadores. Em tabuletas ou mesmo em folhas de papel escritas com pincel
atômico, para melhor visualização, dão sinais enquanto o programa está
sendo transmitido. Nesses avisos, sinalizam quando o apresentador es-
tourou o tempo de falação, se já passou dos limites na discussão de um
debate, se está falando com a voz para dentro, se está sério demais, se
deve ser mais simpático, se está falando muito depressa e assim por dian-
te. São avisos providenciais, e só o produtor, que está ouvindo de forma
integral o programa, pode interferir para deixá-lo melhor.
Sem os papéis ou tabuletas, existe outra prática que utiliza uma gama
de gestos com as mãos que significam variados códigos silenciosos. São
usados também pelos apresentadores dentro do estúdio ao longo do pro-
grama. Duplas de comunicadores e apresentadores também podem esta-
belecer seus próprios sinais.
Por exemplo: com a palma da mão virada para cima, o movimento
da mão subindo significa aumentar o volume. Para avisar que a conver-
sa deve ser cortada, alguns usam o sinal da tesourinha, com os dois de-
dos da mão abrindo e fechando, ou o sinal de um dedo estirado na gar-
ganta, como se fossem cortá-la. Se o comunicador precisa se aproximar
do microfone, o produtor coloca a palma da mão perto da boca, se o
aviso é o contrário, para que ele se afaste do microfone, basta inverter a
mão, deixando a palma para o lado de fora da boca. Ao colocar um dedo
Capítulo 8: Pré-produção • 147

no ouvido, o apresentador quer saber como o que ele diz está soando, se
soa bem ou não. Com as duas mãos entrelaçadas, o produtor pede para
que o comunicador evite cortes. E assim por diante.

Chamadas

Usar parágrafos curtos e evitar palavras desnecessárias, qualificativos,


principalmente, tendenciosos, e frases-feitas.
Manual de Redação do Diário Carioca

Fora do programa
Chamadas são programetes de curta duração, em média um minuto,
que resumem uma atração. Na chamada, tenta-se convencer o público
de que ele deve ouvir determinado programa. Ela pode ser tanto de um
programa de estréia quanto de um programa semanal ou diário. Desta-
ca-se tudo o que for relevante como atrativo, desde uma música inédita,
que tocará com exclusividade, a um convidado especial. Em geral, as
chamadas são formatadas com músicas de fundo e a voz do locutor, que
tanto pode ser a voz padrão da emissora ou o apresentador do programa.
Entre os intervalos, o apresentador chama o próximo assunto de
destaque para “prender” o ouvinte, deixando-o sintonizado.

Promoções
Muitas emissoras trabalham com promoções. Em rádios de grande
porte existe um departamento que cria as promoções especificamente
para cada programa ou para a programação da rádio como um todo. Em
alguns casos, as promoções são vinculadas aos fatos do dia-a-dia.
Por exemplo, uma rádio musical voltada para o rock coloca no ar
uma promoção que envolve os integrantes da banda Rolling Stones.
148 • Produção de Rádio

Sorteiam-se ouvintes para visitar o camarim dos músicos no hotel


Copacabana Palace, depois do show, no Rio de Janeiro. Cada emissora
trabalha as promoções que agradam o seu público. Hoje em dia, algu-
mas rádios colocam no ar promoções envolvendo grandes prêmios,
como apartamentos, carros etc. Um exemplo interessante de promoção
que condiz com o público da rádio aconteceu com a Tupi FM, de São
Paulo, segmentada em música sertanejo-romântica, que oferecia um boi
aos vencedores de determinada promoção.

Quiz
São programas de perguntas e respostas sobre conhecimentos gerais,
culturais ou, ainda, específicos do segmento da rádio ou de programas.
Por exemplo, no caso das emissoras musicais, as questões giram em tor-
no de música ou cultura pop; em um programa esportivo, as perguntas
são sobre o mundo do esporte etc.
Existem dois tipos de quiz: aqueles que acumulam pontos e as per-
guntas vão ficando mais difíceis e outros, mais simples, com poucos
questionamentos. Existem emissoras com programas que duram uma se-
mana, no qual os participantes vão sendo eliminados conforme vão er-
rando as respostas. Algumas perguntas são banais e outras, ao contrário,
são inteligentes, aguçam a imaginação dos ouvintes.
André Barbosa e Antonio Adami, em “São Paulo nas Ondas do Rá-
dio”, Encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho, 2005, comen-
tam sobre o início dos quizzes:

Outro formato que mereceu destaque surgiu no final de 1938: os “quiz


programmes” ou programas de perguntas e respostas. É necessário destacar
o primeiro destes, lançado pela Kosmos em 1937, “Pergunte o que Qui-
ser”. Mas o êxito veio com “Caixinha Mágica” de Jerônimo Monteiro, na
Rádio Tupi. Outro programa neste estilo a ter boa repercussão foi o “Escu-
te e Aprenda”, de Cid Franco, pela Rádio Cruzeiro do Sul.
Capítulo 9

Pós-produção

Tarefas
Gravação
Na grande maioria das emissoras, não se grava o que vai ao ar. Até
porque, se fossem gravar todos os dias, as 24 horas, não teriam material
suficiente. Porém, alguns comunicadores pedem para a produção gravar
seus programas. Caso isso ocorra, é preciso incluir mais essa tarefa na lis-
ta de planejamento do dia-a-dia da produção.

Cópias
Não é prudente aceitar fazer cópias dos programas a pedido de con-
vidados, colunistas ou quem quer que seja. Se atendidos, pedidos como
esse acabam por aumentar as funções do cotidiano da equipe de produ-
ção. Por outro lado, se o produtor aceitar o pedido, pode virar regra, e
esses participantes podem requisitar cópias sempre.

Catalogação
Como catalogar as entrevistas gravadas, as músicas e os textos
pesquisados e outras matérias? Cada profissional possui um método que
lhe convém. O que interessa relevar é a importância da organização des-
150 • Produção de Rádio

se catálogo, para que seja fácil achar qualquer um dos itens quando for
preciso manuseá-lo. Seja por nome, autor, intérprete, datas etc.: o que
importa é estabelecer um método e segui-lo.

Arquivo
Sabe-se que certas mídias precisam de locais apropriados para serem
preservadas. Não é em qualquer lugar que se guardam fitas K7 (é, em
muitas rádios do interior ainda se usa a velha fita K7), DATs, MDs, ro-
los, CDs, vinis etc. Esses materiais precisam estar acondicionados em
ambientes climatizados, protegidos de fungos, poeira, sol e outros agen-
tes nocivos. As normas de preservação, estabelecidas por especialistas
(arquivistas, bibliotecários etc.), devem ser rigorosamente observadas,
com pena de se perder todo o material.

Devolução
Parece infantil levantar a questão da devolução do material que, por
ventura, for pego emprestado. É mais uma atitude de boa-educação. Po-
rém, não custa reforçar que é conveniente devolver o material logo após
o uso, o quanto antes, seja ele um disco raro ou qualquer outra coisa.
Assim, a equipe de produção será atendida com boa-vontade quan-
do precisar fazer novo empréstimo.

Contas
A prestação de contas por parte dos profissionais de um programa
deve ser encarada com responsabilidade. Arrolar devidamente todos os
gastos com a produção quando acontecem, sem deixar para o dia seguin-
te, facilita e muito a tarefa. Colocar as notas fiscais em lugar apropriado
também ajuda na hora de juntar todas e prestar contas. Basta se organizar.

Relatórios
Freqüentemente as emissoras exigem relatórios de produção, sejam
semanais, mensais ou, em alguns casos, diários. Esse exercício deve virar
Capítulo 9: Pós-produção • 151

rotina e ser feito da forma mais completa possível. Apresentar os deta-


lhes de cada etapa da produção realizada é condição primordial para um
relatório completo e eficaz. Se o relatório não é diário, convém anotar
em uma agenda própria para isso o que vem sendo feito, para facilitar
na hora de escrevê-lo.

Divulgação
Não é papel do produtor alimentar a imprensa com as novidades da
rádio ou de sua programação. Mas se a emissora não possui assessoria de
imprensa, muitas vezes o produtor acaba por fazer o trabalho de divulga-
ção. Claro que um extra no salário deve ser discutido. Não se acumula
função de graça. É interessante para que o trabalho do produtor tenha
visibilidade. Qualquer destaque na mídia atrai ouvintes. Sendo assim,
basta informar aos jornalistas as estréias de programas, mudanças na gra-
de, troca de radialistas, presença de convidados importantes, retorno de
um quadro, nova música que entrou na listagem das mais tocadas etc.
De modo geral, escreva de forma clara e concisa. Não adianta um
relatório imenso contando toda a história de um programa. Se quiser
muito incluir um histórico, coloque embaixo. No começo do texto, ape-
nas a novidade.
E é obvio que o release deve ser encaminhado antes da estréia ou
da novidade que vai acontecer. Mesmo que seja uma notícia quente,
como a de um comunicador que acabou de assinar com a emissora, a
informação deve ser comunicada antes, avisando que o profissional
está prestes a fechar com a rádio. Muitas vezes, a emissora não gosta
de divulgar esse tipo de notícia antes, imaginando que possa dar algo
errado na “hora H”. Sendo assim, divulgar para websites é a única for-
ma de evitar que a notícia fique velha ou requentada no dia seguinte.
É imperdoável que estréias de atrações, que são conhecidas de ante-
mão, não sejam divulgadas com antecedência. Nenhum outro concor-
152 • Produção de Rádio

rente vai colocar no ar, em alguns poucos dias, um programa igualzi-


nho, se a informação vazar.

Regras básicas
Não imagine que o jornalista saiba de todas as informações que você
sabe. Mesmo que o jornalista seja especializado em cobrir o assunto rá-
dio (na verdade existem pouquíssimos), ele não quer perder tempo che-
cando horários, nome do programa, nome completo do apresentador,
número da freqüência etc. Esse tipo de serviço deve ser incluído sem-
pre, mesmo que você tenha mandado um release na semana passada
com uma novidade e esta semana com outra. Não ache que o jornalista
fica guardando todas as informações em arquivos, muito menos na ca-
beça. Lembre-se, só em São Paulo, no dial tradicional, existem mais de
60 emissoras, fora as rádios na Web.

Adjetivos
Não adianta adjetivar muito o texto, o jornalista vai cortar todos os
excessos, então, facilite o trabalho dele. Se o programa ou o locutor é o
mais ouvido do dial FM, por exemplo, só diga isso se você tem dados
para comprovar e inclua os números não somente dele, como da con-
corrência, senão fica vago. De preferência, acrescente os dados dos últi-
mos meses que demonstrem o crescimento ou a consolidação da posição
no ranking. Não adianta tentar burlar a imprensa, dizendo que o ânco-
ra é o primeiro lugar, e não dizer exatamente o corte que foi aferido.
Mesmo que ele seja o mais ouvido considerando as 24 horas do dia, em
todos os dias, entre ouvintes de todos os gêneros e classes sociais, tudo
deve ser fornecido informando a fonte, a data da pesquisa e em que re-
gião foi feita. De nada adianta dizer que tal programa é o líder de audi-
ência e o jornalista descobrir que é verdade, sim, mas, somente entre as
22h e 23h, nos sábados, junto às mulheres universitárias, das classes B e
C, entre 18 e 25 anos. Não omita nenhum dado significativo.
Capítulo 9: Pós-produção • 153

Telefones
O release deve ter texto enxuto, falando da novidade, senão não é
notícia, munido de todas as informações necessárias, incluindo os con-
tatos telefônicos. Um celular que cai sempre na caixa postal e um tele-
fone que só dá sinal de ocupado apenas vão deixar o jornalista irritado.
Se a notícia é sobre algum radialista, por exemplo, um comunicador que
está estreando um novo quadro, deve-se deixar o telefone dele (com sua
autorização). Isso adianta o expediente do repórter, que pode até apro-
veitar os números à mão e entrevistá-lo. Facilite a vida do jornalista,
liste os melhores horários para ligar para o radialista. Explique que não
adianta ligar entre tal e tal hora porque ele estará no ar etc.

Fotos
Se houver material fotográfico profissional recente, mande duas
imagens (uma vertical e outra horizontal) em baixa resolução no cor-
po do e-mail e um link com as mesmas fotos em alta resolução. Aliás,
todo o release deve ser enviado no corpo do e-mail, sem logotipos e ima-
gens desnecessárias que só pesam o arquivo. Assim, você poupa o tra-
balho do jornalista de ter de ligar para pedir foto. De repente, ele tem
pouco espaço, o concorrente mandou tudo explicadinho e com foto,
e você mandou um texto enorme cheio de adjetivos, faltando infor-
mação e sem foto: adivinha quem vai ficar com o espaço? A concor-
rência agradece.

CD
Se possível, envie um CD-demo (demonstração) do programa que
vai estrear e outro CD com a cópia do programa inteiro, caso o jorna-
lista queira fazer uma crítica da estréia e não tem como ouvir em de-
terminado horário. Se forem programetes curtos, tipo pílulas, mande
mais de uma, três ou quatro, para que se tenha uma idéia melhor do
que vai ao ar.
154 • Produção de Rádio

Não cobre do jornalista se vai sair, quando vai sair, e muito menos
peça a ele para enviar o texto antes da publicação para ver como ficou.
Lembre-se que o jornalista não é obrigado a publicar só porque você lhe
forneceu todas as informações.

Exemplo

Exemplo de um release

(1/8/05)
Professor Pasquale estuda as letras de Caetano Veloso. Um dos maiores e
mais importantes nomes da música popular brasileira, Caetano Veloso será
o tema do programa “Letra & Música” da Rádio Cultura AM (1200 kHz) que vai
ao ar na terça-feira (9/8), às 18h, com reapresentação no sábado (13/9),
às 13h.
Na semana em que completa 63 anos, Caetano terá algumas de suas com-
posições minuciosamente analisadas pelo professor Pasquale Cipro Neto na pró-
xima edição do “Letra & Música”. No programa, Pasquale fará um estudo dos
versos das músicas “Quereres”, “Livros”, “O Ciúme” e “Podres Poderes”.

Nascido Caetano Emanuel Vianna Telles Veloso, em 7 de agosto de 1942,


o cantor se interessou por música graças à Bossa Nova, especialmente João
Gilberto, e por cinema graças ao Cinema Novo, notadamente os filmes de
Glauber Rocha.
Ao lado do amigo, músico e atual ministro da Cultura, Gilberto Gil, foi um
dos pilares de um dos movimentos musicais brasileiros mais importantes de to-
dos os tempos, o Tropicalismo. Reconhecido internacionalmente, o cantor e
compositor chegou a dirigir o filme Cinema Falado, em 1986, e a publicar três
livros: Letra Só, Verdade Tropical e Alegria, Alegria. Bem mais produtivo em
sua carreira musical do que na cinematográfica e na literária, Caetano Veloso
Capítulo 9: Pós-produção • 155

lançou 38 álbuns, através dos quais presenteou a música popular brasileira com
verdadeiros hinos do gênero, como Sampa, Alegria, Alegria, Reconvexo, entre
vários outros.

Mais informações: ML&A Comunicações Rodolfo Bonvetti/Tiago Bechara.


Capítulo 10

Perspectivas

Rádio na Internet
A revolução está em curso. A cara do planeta está mudando. As formas
hierarquizadas estão sendo substituídas pelas ações em rede.
MANUEL CASTELLS, escritor catalão

Desde o final do século passado, o mundo ganhou mais um meio de


comunicação: rádio pela Web. Trata-se da possibilidade de se ouvir mú-
sica e informação, só que através da Internet. No Brasil, esse meio co-
meçou a ser utilizado apenas nos últimos anos.
Vários formatos de rádio fora do dial convencional surgiram para
atrair os internautas. Desde as simples listas de músicas divididas em gê-
neros ou artistas, passando pela mera transmissão do áudio de uma rádio
do dial comum, até rádios criadas especialmente para a Internet, com
programas e locutores.
Nos últimos meses, uma nova modalidade, chamada de podcasting,
virou febre entre aqueles que possuem MP3 players. Neste caso, o estou-
ro teve início com os iPods, da Apple.
Aparentemente, o mais comum deveria ser as emissoras tradicionais
colocarem o áudio ao vivo, para possibilitar a audição para ouvintes fora
158 • Produção de Rádio

do alcance da sintonia do dial, e acompanharem a evolução da era da


informação. No entanto, muitas delas ainda não possuem essa forma de
comunicação. Mas é notória a possibilidade que a digitalização propor-
ciona na distribuição da programação radiofônica pela Web. E o retor-
no positivo do público traz a necessidade de maior discussão a respeito
da expansão do conteúdo de rádio, disponível para um número cada vez
maior de internautas-ouvintes.
Pesquisas apontavam o Brasil como a décima maior população de
internautas do mundo, com 22 milhões de pessoas conectadas à rede.
Dados publicados, no dia 10 de novembro de 2005, pela Organização
das Nações Unidas (ONU), mostraram que o mundo conta com 875,6
milhões de internautas.
Nicolas Negroponte, um dos “papas” do mundo digital, foi certei-
ro ao dizer que no futuro os átomos serão substituídos pelos bits. Hoje,
até mesmo pequenas emissoras já preparam seus sites e testam a dispo-
nibilização do áudio, bem como conteúdo complementar sobre notíci-
as de interesse do target da emissora. Uma rádio segmentada em rock
gera nas páginas do site históricos de bandas de rock; notícias atua-
lizadas sobre a carreira e a vida pessoal dos músicos; serviços de utili-
dade pública, como lista de números de telefone úteis, endereços de
locais públicos etc.
Esse contexto provoca a reformulação do modo de fazer rádio hoje
em dia. Não basta ter apresentadores, noticiaristas e programação musi-
cal. O surgimento das rádios na Web incita radialistas a pensarem de
modo abrangente, que inclua a versão na Internet, evitando que sejam
passados para trás pelas demais.
Depoimento do designer Alex Borba, da Web:BBox, à autora, em
novembro de 2005

...Cansado de escutar FM, primeiro porque no trabalho nunca rolava


um consenso para o radinho sintonizar em alguma rádio bem-vinda
Capítulo 10: Perspectivas • 159

(diga-se Brasil 2000 ou Kiss FM). Segundo, porque trabalhando em re-


dações de jornal e Internet, o povo da radioescuta sempre sintonizava
as noticiosas e nunca sobrava tempo nem espaço no dial para ouvir
um rockzinho, que dirá um techno supermoderno ou um indie-cabeça-
experimental.
Desde 1997, fui colecionando MP3 na máquina de casa, sem
compromisso, a não ser única e exclusivamente com meu gosto musical.
Em casa, podia escutar 25 minutos de microfonia sem ninguém
me importunar (a Brasil 2000 corta “Diamond Sea”, do Sonic Youth,
com nove minutos!)
Então, comprei um HD maior e fui entupindo o winamp e o
itunes. Baixava tudo que pintava, assinei umas vinte listas de mú-
sica independente, no Brasil, na Itália, Inglaterra, EUA, Es-
panha... trocando idéias, links de FTP, CDs de bandas independentes do
Brasil e da Europa que iam e vinham por sedex... Mas tudo para eu es-
cutar sozinho, alternativo entusiasta, entre quatro paredes!
Em 1999, já escutava bastante rádios via Web no trabalho (no fone
de ouvido), 3wk e woxy, prioritariamente... E morria de inveja
dos lançamentos que eles tocavam e que levariam um, dois anos para
tocar na Brasil 2000 (ou em algum programa lado B ou no “Gara-
gem”). Sonhava em um dia poder ter minha ‘radinha’ também...
Em 2000, ouvi falar em alguma lista do tal live 365, site
concomitante e de plataforma semelhante à rádio UOL, onde cada
um montava seu playlist do que eles dispunham no site e fazia um
spam entre os amigos. Mas ainda não era isso que queria. Fuçando na
Web, no mesmo ano, descobri o shoutcast, que é um site de rádios que
utilizam todas o mesmo plugin para Winamp. Fascinante! (obrigado,
Laura Prado!)
De um dia pro outro, botei meus 40Gb de MP3 para rolar na Web:
indie rock, eletrônica, bossa nova, maracatu, punk rock, ska &
160 • Produção de Rádio

rocksteady, dub e todas vertentes do drum&bass, aliado a uma poderosa


coleção de música independente brasileira.
A BBox Radio estreou em setembro de 2000, furando a Trama Vir-
tual — era até então a primeira rádio a tocar Cachorro Grande, Los
Piratas, Monokini, Forgotten Boys e Ludov, entre outros ultra-pops da
cena independente brasileira de hoje — com seu conteúdo eclético. Espa-
lhou-se pelo mundo, de uma forma discreta, mas com ouvintes que vão
da Eslovênia à Nova Zelândia, do Alasca ao Sri Lanka, além dos ami-
gos brasileiros, todos interessados na mistura tupiniquim com electro, coisa
meio antropofágica, Roberto Carlos com Miss Kittin...
Desde então, ela já ficou no ar mais de 73 dias seguidos, pegou
vírus, faleceu o PC, ficou meses fora do ar, veio outra máquina e
continua lá, com seu número de IP flutuante, sem site oficial, tudo
mambembe, divulgando por e-mail mesmo, mas com uns 30 unique
visitors diários, que Deus sabe da onde vêm, e escutam ali seus 20,
30 minutinhos em média diários.
Penso para um futuro próximo criar um serviço de podcast, e para
isso terei que montar um programa de uns 30 minutos (que é muito
pouco para blá-blá-blá + um set diferente) e arrumar uma hospedagem
e criar um site bacana (que, como designer, é uma vergonha não ter
feito ainda, sei, sei!). Podcast é a bola da vez, e com isso a BBox
pode crescer e aparecer.
Mas isso também poderia corrompê-la de alguma forma, deixaria de
ser um blog randômico de sons que estão aí para quem quiser
escutar, inteiramente livre de barreiras e preconceitos e orçamentos
e estratégias para se tornar uma concorrente nanica de rádios e de gente
que investe nisso com vontade, determinadas a ganhar dinheiro ou levan-
tar bandeiras.
Acho que, no fundo, literalmente, o que vale mesmo é o fundo
de quintal da coisa, naïf, poliana, low profile demais. Nunca botei
um tostão na rádio e, passados cinco anos, continuo não preten-
Capítulo 10: Perspectivas • 161

dendo investir um centavo nisso, não pela grana, mas pelo trabalho de
TER que fazer alguma coisa de verdade, profissional.
A BBox sequer é amadora, e é assim que deve continuar... Enquanto
isso, eu e todos que têm o mesmo perfil e que a escutam podem se orgu-
lhar de não ouvir nada que não queiram no dia-a-dia. Hoje pulo do
computador para o ipod e o CD do carro e nunca mais fiquei sabendo se
uma banda podre faz sucesso pelas barbas ou pela bunda dos vocalistas.
BBox radio é trash, é indie, é psy, é moderna, seja lá o que isso for!
Ouça em 201.6.62.253:8000 ou, para os leigos, http://201.6.62.
253:8000/listen.pls enquanto a luz não acabar lá no Sumaré e o núme-
ro de IP não for renovado...

Rádio digital
Trata-se de uma revitalização do rádio. O que muitos não sabem é
como vai funcionar o rádio digital e quanto tempo vai demorar a
emplacar no Brasil; dizem que no mínimo dez anos. Os testes, iniciados
em setembro de 2005, devem comprovar o que se imagina: melhoria na
qualidade sonora. Vão se beneficiar principalmente as emissoras do dial
AM, que com a transmissão digital prometem fazer com que os chiados
sumam e, sendo assim, terão o som próximo ao de uma FM, com a van-
tagem de não ter as piratas a importunar. As FMs, por sua vez, terão som
melhor ainda, igual ao de CD, e, nos locais onde a transmissão ana-
lógica é falha, vai dar para sentir a diferença. Se uma FM quiser trans-
mitir a apresentação ao vivo de uma orquestra, poderá mostrar riqueza
de detalhes dos sons de cada instrumento, o que no analógico não é
possível captar.
As rádios que poderão operar no sistema digital, em caráter experi-
mental, foram autorizadas pela Anatel (Agência Nacional de Telecomu-
nicações) para execução do serviço para fins científicos e experimentais
por seis meses, podendo ter esse prazo prorrogado.
162 • Produção de Rádio

Se considerarmos o alto custo para colocar uma rádio transmitindo


via digital, podemos constatar que, por falta de acesso imediato, a pira-
taria vai diminuir. Já não será mais com aproximadamente três mil reais
que essas emissoras poderão funcionar. Sistemas digitais são diferentes;
para a conversão, depende muito do que já se tem instalado. O mais ba-
rato dos transmissores digitais sai por 50 mil dólares, fora o estúdio digi-
tal, uma nova antena ou, ainda, a combinação com um transmissor
analógico. Nesse caso, o custo pode chegar a até 20 mil dólares.
Não existe ainda uma portaria definitiva estabelecendo qual sistema
será adotado no Brasil. Ao contrário do que acontece com a discussão
sobre qual sistema utilizar para a TV digital, ou se é o caso de criar um
padrão próprio, o pessoal do rádio adotou logo de uma vez o sistema
Iboc (in band on channel) para testes. A justificativa é que a tecnologia
Iboc permite a utilização da mesma freqüência tanto no digital quanto
no analógico. Isto evita que o Ministério das Comunicações dispo-
nibilize outro grupo de freqüências para as rádios, como o das faixas de
UHF, o mesmo das TVs digitais. Pensando bem, emissoras que utilizam
como nome o número da freqüência (como 89, por exemplo) não ficam
descaracterizadas. Por outro lado, a mudança pode vir aos poucos, e os
ouvintes não precisam trocar de aparelho, por enquanto. Bom para os
radiodifusores, que não precisam se preocupar com a concorrência, pois,
no caso de utilização de outra banda, inúmeras emissoras podem surgir,
acirrando a guerra pela audiência.
Na hipótese de que o padrão Iboc venha a ser adotado definitiva-
mente, as futuras emissoras digitais serão apenas as que já possuem ou-
torga. No caso de São Paulo, por exemplo, não existe mais espaço para
novas outorgas no espectro.
Os receptores ainda são extremamente caros, estão na faixa de 2,5
mil reais aqui no Brasil. A nova geração já está mais barata lá fora, cerca
de 300 dólares. No entanto, não dá para saber ainda a que preço vai
chegar aqui. Os novos receptores vão permitir que os ouvintes possam
Capítulo 10: Perspectivas • 163

escolher entre ouvir o analógico e o digital, de forma manual ou auto-


mática, com a diferenciação feita pelo próprio aparelho.
As vantagens da radiodifusão sonora digital apontam para uma ver-
dadeira revolução no modo de ouvir rádio, já que o veículo se tornará
multimídia. Ao mesmo tempo que se ouve um determinado cantor, por
exemplo, será possível ler a letra da música, notícias da banda ou mes-
mo acessar a discografia completa do músico. Como se não bastasse,
existe a possibilidade de se ouvir música em uma rádio, gravar o conteú-
do de uma segunda, ler no visor as informações de uma terceira etc. Em
um futuro próximo, as imagens de um show estarão acessíveis ao vivo
no rádio digital. E continuaria a ser rádio? O rádio, que já é uma mídia
interativa por natureza, vai fazer com que seu ouvinte participe ainda
mais daquilo que quer ouvir (e ver).
Tudo isso é complicado e só muito mais para a frente, quando o rádio
deixar de ser analógico por completo, essa transformação poderá viabilizar-
se. A previsão do mercado é para daqui a uns dez anos. Ninguém quer
perder nem 1% dos ouvintes no Ibope. Enquanto não houver 99% de re-
ceptores digitais, os transmissores analógicos não serão desligados. E tam-
bém não é interessante concorrer com a TV, nesse momento.
Hoje já é possível usar um segundo canal de áudio digital com in-
formação diferenciada do primeiro. Nos Estados Unidos e Europa, emis-
soras utilizam-se de um segundo canal para transmitir hit-parades, dei-
xando o primeiro para a programação normal. Há uma perda de quali-
dade sonora, o que inviabiliza um terceiro canal no caso de rádio musi-
cal. Em rádios faladas, essa perda não é notada.
A briga deve acontecer no plano das discussões em torno do sistema
a ser adotado. Ao temer a competição que pode vir com a proliferação
de emissoras, proprietários de rádios terão de repensar o conteúdo que
estão transmitindo. Até porque, em um futuro próximo, ouvintes vão
cada vez mais debandar para emissoras do mundo inteiro pela Web. En-
tão, se não for com o advento do rádio digital e a possibilidade da demo-
164 • Produção de Rádio

cratização da radiodifusão, outras formas de ouvir rádio estarão disponí-


veis. Uma delas é o streaming de rádios FMs através da rede de uma
operadora de serviços móveis de telecomunicações.

A operadora KDDI já vendeu mais de 3 milhões de aparelhos celulares


com receptores de rádio FM embutidos. Por ulitilizar a infra-estrutura de
radiodifusão, a transmissão das músicas em si não é cobrada do usuário.
Porém, há um software pré-instalado nos aparelhos que permite ao clien-
te receber informações sobre a programação da emissora que está escu-
tando e até mesmo comprar ringtones, wallpapers e músicas completas
relacionadas aos artistas.

O texto acima, de Fernando Paiva, no site da KDDI, diz respeito ao


Japão e foi escrito em maio de 2005.
Quer exemplo mais emergente do que ouvir rádio pelo celular? Em
um curto período de tempo, usuários do Brasil estarão com seus fones de
ouvido plugados nos aparelhinhos portáteis, e, o que é melhor, recebe-
rão o sinal do rádio digital.

Celulares e aparelhos de rádio digital serão unificados em um único equi-


pamento. Dessa forma, usuários dos telefones móveis poderão usá-los para
ouvir transmissões em qualquer lugar do mundo, além de pausá-las ou re-
trocedê-las (talvez o recurso mais interessante dos rádios digitais). Pelo me-
nos é no que acredita Hugh Panero, presidente da XM Satellite Radio
(www.xmradio.com), uma das principais emissoras de rádio digital via
satélite dos Estados Unidos. Em entrevista à agência de notícias Reuters,
ele afirmou esperar que essa convergência ocorra nos próximos cinco anos:
“É óbvio que nossa base de assinantes é de pessoas que escutam rádio em
casa e no carro. Agora entramos no mercado móvel e creio que o próximo
passo é colocar o rádio digital em celulares ou outros portáteis.”
LUIZ, “Telefone celular vai se integrar ao rádio digital”,
www.forumpcs, 11/12/2004).
Considerações Finais

Com as palavras de Marshall McLuhan encerro a primeira edição des-


te manual, fazendo um paralelo com a produção do rádio no futuro, seja
na Web ou nas novas emissoras digitais que estão por vir. Daqui para a
frente, qualquer um pode fazer rádio. Em um streaming de áudio lançado
na Internet, um podcast ou, simplesmente, audiocast, o radialista é pro-
dutor, locutor, programador e diretor de si mesmo, podendo ser inteira-
mente livre para veicular o que acha que merece ser divulgado.

O rádio provoca uma aceleração da informação que também se estende a


outros meios. Reduz o mundo a uma aldeia (...). Mas, ao mesmo tem-
po que reduz o mundo a dimensões de aldeia, o rádio não efetua a
homogeneização dos quarteirões da aldeia. Bem ao contrário.
MARSHALL MCLUHAN, pensador canadense
Glossário

Abert: Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão. Con-


grega as emissoras e representa os interesses do empresariado.
Aesp: Associação de Emissoras de Rádio e Televisão do Estado de São
Paulo. Entre suas atribuições está a defesa dos interesses da radiodi-
fusão no estado de São Paulo.
Alcance: Distância em que o sinal da emissora é captado.
AM: Sigla de Amplitude Modulada. Amplitude Modulada é a variação
da intensidade de saída de RF (Rádio Freqüência) do transmissor a
uma velocidade de áudio. A tensão de saída do radiotransmissor tem
uma variação que oscila para cima e para baixo de seu valor nomi-
nal de acordo com a freqüência de áudio. Modulação da amplitude,
ou comprimento das ondas, em freqüências que variam de 550 a
1600 kHz.
Anatel: Agência Nacional de Telecomunicações. A Anatel herdou do
Ministério das Comunicações os poderes de outorga, regulamenta-
ção e fiscalização das emissoras. Entre suas atribuições está propor o
Plano Geral de Outorgas, administrar o espectro de radiofreqüências
e estabelecer restrições, limites ou condições a grupos empresariais
para obtenção e transferência de concessões, permissões e autoriza-
168 • Produção de Rádio

ções, de forma a garantir a competição e impedir a concentração


econômica no mercado.
Âncora: Apresentador que comanda programas. Além de locutar e en-
trevistar os convidados, dá opinião.
Apuração: Averiguação e investigação dos fatos que vão virar reporta-
gem ou notícia.
Áudio digital: Som que foi transformado para o formato binário.
BG ou Background: Música ou qualquer som usado de fundo para a
locução ou para servir de passagem entre uma fala e outra.
Barriga: Um erro grave de informação. Quando uma falsa notícia é des-
coberta.
Bloco: Parte de um programa. Módulo, segmento.
Bordão: Expressão comumente usada por alguém, sempre em uma
determinada situação. Também serve para facilitar a identificação
de diversos personagens no meio humorístico. O bordão de Eli
Corrêa é “Ôi Gente!”, falado de forma exaltada: “Ôôôôiiiiiiiiiiii
Geeeentiiiii”.
Branco: Espaço de tempo com silêncio. Buraco.
Break: Significa intervalo. Usa-se break comercial, ou, para uma para-
da, dar um break.
Cabeça: Resumo do assunto de uma sonora ou de uma entrevista.
Cabeçalho: Dados que constam no alto da página do roteiro de um pro-
grama (nome do redator, data, duração etc.).
Cadeia: Várias emissoras transmitindo simultâneamente a mesma pro-
gramação ou notícia.
Campanha: Ação de objetivo social. Tema que a emissora assume em
defesa de determinado assunto, em geral a serviço da cidadania.
Pode vir por meio de slogan na programação ou de reportagens. A
Rádio Eldorado mantém a campanha “Pintou Limpeza”, que incen-
tiva, entre outras atitudes, a reciclagem do lixo.
Glossário • 169

Chamada: Programete de curta duração, gravado, anunciando estréias


ou programas inéditos da grade, em geral espalhados na programa-
ção, para chamar a atenção do ouvinte para a novidade.
Checagem: Verificação ou pesquisa de dados de uma informação.
Checklist: Checar a lista das tarefas de uma produção.
Clichê: Estereótipo, lugar-comum, conceito repetitivo.
Coletiva: Entrevista dada a diversos profissionais ao mesmo tempo.
Compacto: Resumo com os melhores momentos de uma sonora.
Compreensão: Procedimento usado para diminuir o tamanho do arqui-
vo, descartando ou não dados menos importantes.
Concisão: Exposição de idéias em poucas palavras. Falar (ou escrever)
de forma sucinta.
Correspondente: Profissional encarregado de fazer a cobertura de deter-
minada cidade ou região, dentro ou fora do país, e de enviar regular-
mente matérias e boletins para a emissora.
Cozinhar: Reescrever informação de outro veículo.
Crédito: Identificação da autoria dos profissionais.
Crítica: Comentário com argumentos claros de especialista no assunto.
Cruzamento de informações: Ouvir a versão de diferentes fontes para a
mesma informação. Ouvir o outro lado. Confrontar informações.
Dab: Sigla para Digital Audio Broadcasting. Transmissões Sonoras
Digitalizadas, tecnologia de alta qualidade.
Dat: Sigla para Digital Audio Tape. Fita Digital de Áudio.
Deixa: Marcação das últimas palavras que indica o ponto em que acaba
um take.
Decupagem: Trabalho de separar as partes da sonora, colocando-as em
ordem de entrada e sinalizando a duração de cada take.
Direito autoral: Direito de um autor sobre a sua obra.
Distorção: Quando o som ultrapassa os níveis acima ou abaixo da fre-
qüência do equipamento, resultando em som com ruído.
170 • Produção de Rádio

Download: Transferência ou cópia de arquivo de um computador remo-


to para outro através de uma rede.
Ecad: Escritório Central de Arrecadação e Distribuição. Órgão que fis-
caliza a execução de músicas.
Edição: Seleção, manipulação e corte de trechos da sonora, preparan-
do-a para ser transmitida.
Edição extraordinária: Notícia importante de última hora que entra em
qualquer lugar da grade de programação.
Efeito especial: Sons e ruídos montados para ilustrar programas. Po-
dem ser barulhos de passarinhos, de trovões, do vento, de porta ba-
tendo etc.
Emendar: Unir um trecho a outro.
Enquete: Opinião de pessoas sobre temas variados.
Enxugar: Tornar um texto conciso, eliminando tudo o que for desne-
cessário.
Estourar: Ultrapassar o tempo estabelecido.
Fade: Efeito sonoro para abaixar ou aumentar gradualmente um som
(música, voz, ruídos).
Fade in: Elevação gradual do volume de um som.
Fade out: Diminuição gradual do volume de um som.
Flash: Rápida informação sobre um fato urgente.
FM: Sigla de Freqüência Modulada. Sistema de transmissão em que a onda
portadora, na faixa de 87,5 a 108 MHz, é modulada em freqüência.
Fonte: Pessoas ou entidades que fornecem a informação.
Fundo: O mesmo que background ou BG.
Furo: Informação exclusiva. Em jornalismo, furo é o jargão para a infor-
mação publicada em um veículo antes de todos os demais.
Fusão: Mistura de dois temas musicais diferentes, vozes ou ruídos que
indicam mudança de ambiente, tempo ou situação. Mistura de sons.
Gancho: Quando um assunto ganha dimensão para ser noticiado ou co-
mentado.
Glossário • 171

Identificação: Dados da empresa, como o nome da emissora, número da


freqüência, prefixo etc., gravados pela voz padrão.
Jabá: Propina de empresários de artistas e pessoal de gravadoras aos ra-
dialistas para a execução de músicas.
Janela: Espaço de tempo destinado aos comerciais.
Jargão: Palavras utilizadas apenas por um grupo de profissionais.
Jingle: Fonograma musical usado para propaganda.
KHz: Símbolo de quilohertz, unidade de medida de freqüência.
Lauda: Folha padronizada para a redação dos textos.
Lide: A abertura. Deve conter informações que despertem o interesse
do ouvinte para continuar escutando a notícia ou a reportagem.
Manchete: Resumo da notícia em uma frase.
Matéria: Reportagem.
MHz: Sigla para megahertz. Um megahertz corresponde a 1.000KHz.
Mixagem: União de músicas.
Nariz de cera: Introdução que retarda a entrada do assunto.
Nota: Notícia curta.
Off ou Off the records: Fora dos registros. Informação confidencial
fornecida por fonte que pede para ser mantida anônima.
Pauta: Lista de assuntos a serem apurados e acompanhados pela equipe
de reportagem.
Pingue-pongue: Quando o âncora faz uma série de perguntas, e o con-
vidado ou participante vai respondendo uma a uma.
Pool: Grupo reduzido de profissionais de veículos selecionados para uma
cobertura especial, na qual não é permitida a presença de muitos.
Plantão: Trabalho escalado fora do horário regular, em geral, nos fins de
semana.
Programete: Programa de curta duração; em geral não ultrapassa dois
minutos.
Puff: Ruído provocado pela articulação de consoantes como o P, quan-
do o locutor fala próximo ao microfone.
172 • Produção de Rádio

Quadro: Bloco, módulo ou segmento.


Radiofusão: Transmissão de áudio através do espaço, em forma de on-
das eletromagnéticas.
Radioscuta: Profissional que faz a audição de outras emissoras, acompa-
nhando o noticiário e a programação das concorrentes.
Rede: Transmissão total ou parcial de uma mesma programação, simul-
taneamente, por várias emissoras.
Resenha: Resumo crítico de uma obra literária, musical, teatral etc.
Descrição minuciosa.
Retranca: Termo jornalístico que identifica as palavras-chave da repor-
tagem.
Roteiro: Texto do programa com as entradas das falas, da técnica, das
sonoras, dos comerciais.
Série de reportagens: Reportagens sobre o mesmo assunto.
Setorista: Repórter encarregado de colher informações diárias de deter-
minado setor: estradas, aeroportos, câmara municipal, bolsa de valo-
res etc.
Sonora: Arquivo gravado, pode ser de voz com um depoimento, uma
entrevista, uma opinião colhida em uma enquete, ou mesmo de som
com ruídos
Som ambiente: Som que caracteriza o lugar onde se está gravando. O
barulho da rua, do metrô, da floresta, de uma multidão, de uma tor-
cida em um jogo, de uma passeata etc.
Spot: Fonograma usado como peça publicitária com ou sem música e
ruídos.
Stand by: No jargão radiofônico, significa material de reserva, na gaveta.
Streaming: Tecnologia de compressão de dados, que permite transmitir
áudio através da rede de computadores, sem a necessidade de
downloads de arquivos. A máquina recebe as informações ao mes-
mo tempo que as disponibiliza ao usuário.
Suíte: Quando o assunto rende continuidade e volta a ser abordado.
Glossário • 173

Take: Parte, trecho, pedaço.


Vazamento: Quando uma informação “vaza” é porque foi divulgada an-
tes da hora ou nem deveria ter sido divulgada.
Vinheta: Associação de texto e música. Identifica a emissora, apresenta-
dor, programa etc. Mensagem transmitida no intervalo de progra-
mas, composta de um texto curto, música e efeitos sonoros. Pode ha-
ver vinheta para chamar uma matéria ou programa, campanha
institucional e outras.
Vinheta de passagem: Música que identifica um programa no início e
fim de um bloco ou de uma transmissão.
Voz padrão: Voz do locutor que representa a rádio. Grava as vinhetas,
chamadas e identificações.
Wikipedia: Enciclopédia livre na Internet (www.wikipedia.org).
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Free Internet Radio. Listagem em tempo real das Web radios mais ouvidas do
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Servidor livre para streaming de rádios livres.

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Audacity® software livre para gravação e edição de áudio.

http://darkice.sourceforge.net
DarkIce, streamer de áudio.

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X Multimedia System é um player de arquivos de som.

http://www.winamp.com/
Programa de reprodução de áudio.

http://www.eupodo.com.br
Como criar podcasts.

http://sl.radiobras.gov.br/
Software Livre na Radiobrás.

http://www.kuradio.com
Rádio livre.

http://www.carosouvintes.com.br
Comunidade de apaixonados por rádio.
182 • Produção de Rádio

http://musica.uol.com.br/radiouol/
Rádio UOL: canais com diferentes gêneros musicais.
http://www.bbc.co.uk/radio1
Rádio 1 da BBC, criada por John Peel.
http://www2.expresso2222.terra.com.br/
Rádio Virtual de Gilberto Gil.
http://podopera.podblaze.com/skin_podopera.xml
Podopera: primeiro podcast com óperas no repertório.
http://www.musicalmpb.com.br
Site da música popular brasileira.
http://salu.cesar.org.br/manguetronic/jornal
Manguetronic: o primeiro programa de rádio para Internet da América Latina.
Destaca a cena recifense e o mangue beat.
http://www.coverville.com/index.xml
Um dos podcasts de música mais conhecidos. Só com regravações de músicas.