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Muito antes de os hum anos conviverem com com putadores, internet, celulares e

televisões, sábios pressentiam quando um a estrela nascia. Um a força diferente


pairava sobre a terra, indicando que alguém m uito especial iniciava um a incrível
jornada. Pouco im portava se os cham assem de bruxos, m alfeitores ou criaturas
negras; para os sábios, sentir o poder de um a nova estrela era um a bênção
inigualável. Mal sabiam que outras criaturas mágicas tam bém sentiam a força
pulsando no m undo, com a im petuosidade do coração de um a m ulher
apaixonada. Seres poderosos, perfeitos e inteligentes, mas que usavam essas
estrelas para brilharem apenas em um céu: no seu céu particular. Ato egoísta
para criaturas tão superiores. Insensível, talvez, mas justificável, pois possuir um a
estrela com o essa significava deter a mais pura energia do m undo. Quem não
gostaria de ter tamanho poder em m ãos?
Sophia pressentiu quando Jade nasceu, pelos m eados de setem bro, no
subúrbio de um a enevoada Londres. Pelos deuses, como ela é poderosa, pensou
no m om ento em que percebeu a energia daquele ser invadindo as veias como
pura heroína, proporcionando um êxtase tão intenso, que fora capaz de deixar seu
corpo pálido e curvilíneo arrepiado. Aquela hum ana era perfeita. E ela seria sua.
Precisava esperar alguns anos para ver se aquela criança realm ente
brilharia. Muitos humanos talentosos jogavam fora os dons concedidos pelos
deuses, e a fada negra Sophia não podia se dar ao luxo de perder anos
enfeitiçando a garota por nada. Sendo considerada um a Leanan Sídhe, quase
um a fada am ante, Sophia recarregava as energias ao encantar e seduzir jovens
talentos perdidos pelo m undo. Jade tinha grande potencial para ser um desses
talentos, que depois são representados pelas m arcas negras espalhadas no peitoral
e braços da Leanan Sídhe. Marcas significativas, pois retratavam as vidas dos
hum anos envolvidos e inspirados por aquela m ulher. Hum anos m ortos pela m aldita
fada.
A Leanan percebeu o dom sendo exercido pela garota aos poucos. Quando
ouvia jazz, qualquer balançar de quadril vindo dela já a deixava excitada, com o se
dependesse daquilo para viver. Só faltava descobrir com o o dom se
m anifestaria na artista. Jade ainda não mostrava sinais concretos de ser uma
dançarina, apesar de o ritm o daquela m úsica fascinar tanto a jovem humana de
longos cabelos negros com o a noite, bochechas salientes e lábios rosados tão
carnudos, que Sophia se segurava para não tomá-los naquele segundo.
Na adolescência, a fada notou um avanço na m agia. A garota decidiu
com eçar a tocar guitarra, e dedilhava as notas no instrum ento com o os mais
exímios m úsicos. Aquilo era pura arte. Mas ainda não parecia ser o bastante. Não
para um a Leanan Sídhe. Afinal, se todos os hum anos que tocassem algum
instrum ento fossem inspirados por um a m usa, não haveria m etade da população
viva; todos teriam m orrido sugados pelas Leanans. O engraçado é que ninguém
perceberia. Tam bém , quem conseguiria notar um padrão em m ortes com o
aquelas? Algumas das vítim as não suportavam a perda de um a fada e se
atiravam de enorm es edifícios ou davam tiros certeiros na cabeça. Alguns se
drogavam até a m orte, outros eram achados congelados ao relento em alguma
parte do m undo. Todas as m ortes pareciam não ter sentido. Mas a Terra era um
lugar sem sentido. Não havia um padrão. Apenas m ortes. Uma grande
carnificina.
Os anos foram passando e Jade crescendo, tornando-se um a m ulher tímida,
sem uma beleza notável ou um grande talento aparente. Pelo m enos era essa a
opinião que seus pais guardavam para si. Mas Sophia entendia m ais. Sabia m ais.
Estava claro para ela, pois sentia o dom na garota. Jade seria algo especial no
m undo. Traria um tem pero, um tom sexy e com plicado para gerações. Sim . Ela
m overia gerações. Para a fada isso se tornava evidente. E por que não seria? Um
brilho daquele tinha de ser especial. Tão especial com o a joia rara que havia
inspirado o seu nom e.
Em pouco tem po a timidez de Jade foi passando. Ela foi se revelando nos
palcos im provisados de boates undergrounds e agitados pubs londrinos,
com em orando cada apresentação com brindes e m ais brindes. Queria se
destacar e m ostrar sua arte para o m undo, m esm o que ele se resumisse a apenas
algumas casas noturnas. Na infância, havia form ado um a banda de brincadeira,
porém foi na juventude que realmente m ostrou o dom , quando com eçou a cantar
profissionalmente com o parceiro de soul music . Assim o m undo ouvia sua voz. E
com o era linda. Parecia um anjo de tim bre em briagado, sedutor, até m esm o
triste, quase enigmático. Nessa época aquela voz não transparecia dor. Seria só
m ais tarde que isso iria acontecer? Sophia descobriria em pouco tem po, até
porque ela seria tam bém responsável por isso.
A vida de um artista nunca era fácil. Para conseguir alcançar o sucesso era
necessário trabalho árduo e m uitas noites em claro para se criar algo m ágico.
Jade sentia precisar de alguma coisa m ágica. Ainda não tinha m uitas
expectativas de atingir o estrelato desejado na alma. Precisava de um a dica do
destino para acreditar m ais em sua capacidade, em sua voz. A fada negra não
podia interferir no talento dela. Aguardava ansiosam ente pelo m om ento certo de
enfeitiçá-la. E o m om ento chegava, pois em pouco tem po Jade fecharia contrato
com uma boa gravadora inglesa para produzir o prim eiro álbum . O produtor que
escutara as dem os ficara im pressionado com tão fenom enal voz, em balada em
jazz e blues. Não havia nada parecido no m ercado, pelo m enos, que fizesse
sucesso. E aquela m ulher dava a impressão de ser diferente o bastante para se
destacar. Ele sabia o tesouro que tinha nas mãos e iria utilizá-lo.
O álbum seria lançado apenas no Reino Unido, m as m esm o assim ela se
sentia feliz por ter a oportunidade de se expressar. Jade se dedicaria ao máximo
para criar m úsicas capazes de inspirar pessoas a m udarem de vida, a
aproveitarem as chances de transformá-la, assim com o Jade estava fazendo. A
oportunidade de ter seu som gravado era um ato de m udança em um a vida
pacata, quando o tédio já pairava sobre a alm a atorm entada. Jade trabalharia
para que tudo corresse bem , tinha que dar tudo certo.
E assim com eçou a produção de um CD m ais forte do que ela m esma e
m ais forte que sua voz. Algo que ao ser lançado na terra da rainha já alcançou as
paradas, m esmo de um a form a tím ida, com o ela própria costumava ser. Estava
na hora da Leanan Sídhe fazer seu papel na história da futura líder das paradas
britânicas.
Passou-se um tem po e os singles apareceram no m ercado, m as ainda não
tinham o tem pero necessário para atingir o ápice. Sophia precisava desse
diferencial, para que Jade chegasse ao m om ento de sua vida ideal para a fada
recarregar as energias. Mesm o estando envolvida com outro artista, a Leanan
resolveu inspirar a cantora a aproveitar o sucesso absoluto. Um ser inspirado por
um a Leanan Sídhe tinha de ser m uito grato pela oportunidade. Aquela era um a
chance em um m ilhão.
Foi em um a noite chuvosa de quase transbordar a fonte da Tralfagar
Square, que Sophia resolveu aparecer para Jade. As gotas pareciam retratar as
futuras lágrim as da garota. Porque a cantora iria chorar, e m uito, quando
percebesse não ter tem po para aproveitar o sucesso. Será que ela ligaria tanto
para isso? No fundo, Sophia sabia que sim.
Jade dorm ia profundam ente, esparram ada de um a form a engraçada na
cam a coberta por lençóis pretos de seda. Um a escolha não m uito inteligente para
um a noite fria em Londres. Mesmo com o aquecedor ligado, dava para ver os
m am ilos ouriçados debaixo da única peça de roupa no corpo, um a cam iseta
preta velha de gola arredondada de um tim e de futebol britânico. Ela não gostava
de futebol. Dava para perceber isso claram ente, ao se analisar o rosto m anchado
de m aquiagem escura da noite anterior, o pufe do cabelo ainda com os gram pos,
as diversas tatuagens espalhadas pelo corpo e o cheiro de vodka pairando no ar.
Dava certo dó de acordá-la, m as aquele era o m om ento. Sophia sentou-se
delicadam ente na ponta da cama, tentando não fazer barulho. Estava na form a
feérica, então as asas coloridas batiam em um ritm o suave e as m arcas negras
pelo corpo se m ovim entavam levem ente por estarem perto de Jade. Usava um
vestido curto prateado revelando as pernas grossas, e os cabelos loiros chegavam
à altura da cintura. Aquele era o instante em que Jade acordaria e veria em sua
cam a a m ulher mais linda do universo. Veria um a fada esperando por ela. Quem
não gostaria de acordar com um a visão dessas? O m undo inteiro provavelmente
adoraria.
– Que m aldição! Quem é você? – questionou Jade, alterada, ao acordar e
dar de cara com a Leanan Sídhe sentada tranquilam ente.
A fada apenas sorriu. Jade não entendeu por que, m as sentiu-se bem ao ver
o doce sorriso. Isso não m udava o fato de que havia uma pessoa (ou seria coisa?)
estranha em seu quarto.
– Estou ainda sonhando ou tomei algo forte dem ais ontem no bar? –
continuou a perguntar.
Sophia tentou se aproxim ar da jovem para ver se o m agnetism o aum entava.
Num reflexo, a garota se encolheu.
– Calma, querida. Não existe razão para ficar assim. Não precisa ter m edo de
m im – disse Leanan. – Sou apenas um a am iga.
Jade manteve-se encolhida no canto da cam a, com o um ratinho preso em
um a gaiola.
– Na verdade, eu não tenho que ficar calma, não! Não te conheço. Não sei
nem o que você é. Preciso acordar, pois esse sonho está ficando cada vez m ais
bizarro.
– Isso não é um sonho, Jade. Sou tão real com o qualquer um a de suas
m úsicas...
– E o que você sabe sobre m inha m úsica? – interrom peu rispidam ente a
cantora.
– Mais até do que você m esma, porque sei aonde ela vai chegar, e, na
verdade, serei a responsável pelo destino dela.
– Esse papo está parecendo de m aluco.
– E não som os todos malucos? – retrucou Sophia.
A fada parecia ter razão, pelo m enos Jade sentia isso. Insanidade era algo
que cam inhava com ela desde pequena. Se havia chegado ao ponto de se
considerar louca por estar vendo a fada negra sentada de pernas cruzadas em sua
cama, era um sinal de que finalmente abraçava a loucura. Mas o que isso
poderia fazer com ela? Já se sentia no íntim o um a pessoa diferente. Anorm al.
Nada daquilo seria estranho.
Aos poucos foi ficando m ais à vontade com a alada. Enfim , o poder da
Leanan Sídhe com eçava a fazer efeito. Jade rendia-se aos encantos de Sophia,
sentindo-se seduzida por cada som m elódico que saía da boca angelical da fada.
Pareciam palavras sincronizadas, com o se em vez de falar ela cantasse uma
canção de ninar, daquelas que só de ouvir um a nota já se sente sono. Um soninho
gostoso e confortável de um a soneca depois do alm oço... E a feérica já
com eçava a se sentir excitada pela m ulher a sua frente que vestia som ente uma
cam iseta, deixando as longas pernas à m ostra. Im aginava Jade dançando em um
palco ao som de um a de suas m úsicas. Da nova rainha do jazz pop.
– Então você não é um a alucinação e tam bém não veio tentar m e matar? –
perguntou Jade, m ais calma.
– Na verdade, se eu quisesse te matar eu não tentaria. Eu conseguiria –
com entou Sophia, ainda sorrindo. Um a cena perturbadora. – Mas, não. Não sou
um a alucinação, fantasma ou qualquer coisa parecida. E tam bém não vim te
m atar agora.
– Então por que está aqui? – questionou a jovem . – Por que não estaria? – Sophia
retrucou.
A resposta fez Jade se sentir com pletamente feliz. Alguém dava importância
para sua existência. Isso era um a novidade para a garota com plexada que no
fundo se sentia m uito solitária. Padrão básico para um artista que provavelmente
seria seduzido por um a Leanan Sídhe. A dependência em ocional de Jade fazia
tudo ficar m ais fácil para Sophia. Os vícios da garota tam bém ajudavam no
processo.
O contato com eçou a se tornar m ensal. Sophia ainda não precisava da
garota, m as já queria dar o gostinho de poder para a gulosa cantora saborear. Ela
sabia o quanto um a atenção especial m exia com Jade, e isso já se tornava um
bônus. Quando a ajuda dela fosse necessária, saberia criar m úsicas incríveis. O
esforço seria recom pensado.
– Eu não entendo – disse, confusa, a garota. – Por que não pode passar mais
tem po com igo?
– Já te disse isso m ilhares de vezes.
– Eu sei, mas não quero aceitar. Preciso tanto da sua com panhia, do seu
carinho. Você é m uito especial para m im , Sophia!
As duas se encontravam novam ente sentadas na cam a bagunçada. Ao ouvir
a declaração, a fada abraçou a m ulher com força, parecendo um a m ãe
confortando um filho. Pegou o rosto dela com as m ãos geladas e a olhou nos
olhos. Não teve com o as duas não sorrirem . Era um a troca de carinho m uito
intensa, com o se há anos esperassem por aquele olhar de com preensão.
– Tenho assuntos a resolver e pouco tem po para m e dedicar a você. Mas
tudo vai dar certo.
– Você ainda vai poder ficar com igo? – questionou a garota, as lágrimas
borrando m ais um a vez o delineador preto.
– Algum a vez eu disse que não ficaria?
Jade sorriu. A presença da fada fazia sentir-se segura. A nuvem negra que
existia na m ente se espalhava aos poucos. O coração apertado com o se estivesse
am arrado se afrouxava.
Tudo graças à m ulher. Graças à incrível fada.
As duas ainda não tinham um contato físico m aior. Existia um a relação de
carinho, afeto, quase um a ligação maternal. Sophia tentava se controlar para não
iludir a garota, pois não queria com eçar a sugar a energia de Jade antes da hora.
Mas a cantora era tão sedutora, tão sexy, com atitudes m alucas e roupas
provocantes. Era m uito difícil se segurar. Contudo, em outros m om entos Sophia
se sentia aliviada, porque o carm a carregado pela cantora era grande. Sentia
um a energia negra em volta dela, um a sensação de desespero, de tristeza. Não
era raro vê-la chegar em casa cam baleando após shots de tequila e fileiras de
cocaína. Não que aquilo fosse anorm al entre seus escolhidos. Muitos artistas se
viam penetrados nesse m undo som brio, m as Jade parecia buscar refúgio nas
drogas por solidão e não revolta, com o os outros. Sophia chegava a ficar com dó,
m as ainda mantinha outros hum anos seduzidos em m ente.
– Por que m inha m úsica não estoura nas rádios? – questionou Jade a fada
enquanto cam inhavam pelas ruas góticas do bairro de Cam den Town.
Quem visse de longe acharia que a m ulher de vestido curto e decotado e
batom verm elho-cereja era m aluca ou estava drogada, pois dava a im pressão de
estar falando sozinha. Cam den Town podia ser o bairro dos punks, m as ainda era
frequentado por m uitos turistas e pessoas que não eram alternativas. Ver alguém
conversando sozinho pelas ruas era com um .
– Porque tudo tem seu m om ento – respondeu a fada. – E quando o m eu vai
chegar?
A Leanan estacou o passo e segurou a mão esquerda da garota com força.
– Quando você parar de perguntar e com eçar a agir – respondeu.
A m ão dela endureceu e Sophia pôde ver os lábios com prim irem . Havia
tocado em um ponto fraco de Jade. Norm almente nesses pontos que, ao serem
m exidos, m otivam um humano a agir. Talvez aquilo pudesse fazer Jade acordar
para o m undo. Principalm ente para a carreira.
No dia seguinte, no quarto cheirando a cigarro e bebida derram ada, Jade
tom ou um a decisão: a partir dali com eçaria a trabalhar. Já fazia um bom tem po
que não cantava com o parceiro e m uitos m eses haviam passado desde que
lançara o primeiro álbum . Se tinha a intenção de fazer algum sucesso verdadeiro
precisava agir. A fada estava certa. Mas Jade cogitava m uitas vezes se havia
ficado louca ou se os rem édios e drogas usados estavam desprogram ando seu
cérebro. As visitas da fada eram m aravilhosas, m as no fundo sem pre se
questionava se seriam reais. Se tudo não passava de um sonho. Aproveitou as
m ilhares de perguntas explodindo na cabeça para transbordar todos aqueles
sentimentos no papel. Precisava com por m úsicas divinas. Músicas capazes de
agradar um a fada. A sua fada-madrinha. Se atingiria o objetivo, ainda não sabia.
Mas desejava ardentem ente receber um carinho da m ulher que am ava. Sim ...
Jade já amava a Leanan Sídhe.
A mãe da garota percebia que ela consum ia mais drogas a cada dia. A filha
parecia estar em um a fase criativa e esforçava-se para com por novas m úsicas,
m as todas as noites eram regadas a bebidas e substâncias mais fortes. Os pais
cogitavam se ela deveria ser internada em um a clínica de reabilitação, e todas as
vezes em que tentavam conversar sobre isso com a filha, ela fugia do assunto.
Jade achava que não aprenderia nada que lhe pudesse ser útil em uma escola ou
na terapia; somente os uísques degustados todas as noites eram capazes de aguçar
a sua criatividade, fazê-la reencontrar a escuridão e assim conceber um novo
álbum.
Foram m eses escrevendo páginas e páginas de materiais, m uitas vezes
descartados definitivam ente, outras vezes, reaproveitados. Isso fazia parte do
duro processo de criação, e tudo piorava com a ausência da fada. Mas Jade
tentava se inspirar na presença dela e sonhava todas as noites com futuros beijos
naquela boca que parecia ser m acia e quente com o o sol de dom ingo. A cantora
criava m úsicas dançantes e ao m esm o tem po depressivas, que passavam ao
ouvinte a impressão de se estar em um film e antigo, cheirando a charuto e
cham panhe. Muitas vezes Jade brincava com o violão e, entre um gole ou outro,
tentava criar m ais alguma frase de im pacto. No final, sem pre conseguia. O
álbum criava-se e ficava perfeito. Perfeito com o aquele m om ento, à noite,
quando Jade fechava os olhos e sonhava com a fada.

Em Annwn, m undo onde as fadas reinavam, Sophia podia sentir os ritm os da


m úsica da garota batendo no coração. Jade pedia por ela. Muitas e m uitas
vezes. Precisava visitá-la, porque já não dava mais para fugir da ânsia. Jade a
queria m ais do que qualquer coisa, e isso ficava claro em cada refrão criado.
Aquele seria um CD magnífico. O m ais interessante era que Sophia o inspirava
sem nem m esm o ter se esforçado para seduzir a garota. A garota era de um a
personalidade tão volúvel, que com poucas conversas e abraços Sophia havia
conquistado aquela alma. Agora seria dom iná-la e fazê-la sua por com pleto.
Possuindo cada centímetro do corpo dela, receberia um a explosão de
sentimentos, na m aioria deles de excitação. A Leanan necessitava daquilo. Do
am or da cantora m elódica.
O pôr do sol de m ais um a semana chegava, cobrindo o céu de sangue,
deixando Londres com um tom averm elhado deslumbrante. Jade saía toda
produzida, m as ainda cheirando a tabaco, em direção a um a casa noturna onde
iria cantar. O salto do escarpim preto enroscava nos vãos de pedras da calçada.
Ela quase tropeçava, m as não ligava. Cambaleando, entrou no estabelecim ento
abafado, conform e a noite escura e ao m esm o tem po prateada de estrelas
dom inava a terra de Sherlock Holm es.
Encontrou o local já quase lotado de fãs esperando para ouvir sua m úsica.
Aquilo, por algum a razão estranha, não a deixava feliz. O grupo de cem pessoas
não parecia ser o suficiente para ela. O que m ais a deixava triste era o fato de
Sophia não estar a seu lado, cam inhando sensualmente, arrastando o vestido pelo
chão grudento pelos drinques derram ados. Sentia o estômago revirar-se. Por que
a fada a deixava? Ela já estava escrevendo novas m úsicas. Canções inspiradas
nela. Não tinha m otivo para Sophia a deixar.
O show com eçou. As luzes fortes do local abaixaram , e um a penum bra
rom ântica recaiu sobre o am biente, deixando o rosto do público sem ioculto. Os
m úsicos que a acom panhavam vestiam trajes sociais negros, elegantes. Ela
vestia o m esm o estilo de sem pre, tão apreciado pelos fãs. Até copiado por
algumas m ulheres. Jade precisava com eçar a cantar. Entrou no palco, quase
caindo por cim a da bateria, pois a m ente rodopiava por ter tom ado um a dose de
absinto antes de entrar. Os fãs perceberam e uivaram com o lobos fam intos,
apreciando o lado perverso dela. A cantora deu um sorriso safado, rasgado no
rosto fino, e ao aproxim ar-se do m icrofone todos ficaram em silêncio. O anjo da
m orte com eçava a cantar. E do m eio do palco escuro, ela pôde vislum brar, nos
prim eiros m inutos da m úsica, um a figura fosforescente bem no m eio da
m ultidão, irradiando luz para todos os lados. Só havia um a criatura com tam anho
brilho.
Sophia havia aparecido para o seu show.
Aquilo fez com que Jade engasgasse no meio da canção, m as ao ouvir um
com entário rude do baixista, continuou cantando. O peito explodia em tamanha
em oção, seu corpo ardia de desejo, e Jade sentia ser a hora. O dia tão desejado.
Será que realmente Sophia seria dela? A fada estaria procurando finalm ente por
ela? Pelo sorriso estam pado na face de Sophia, parecia que sim . Afinal, ela havia
aparecido. Sua fada estava lá para vê-la cantar.
Jade m ovia-se no palco e via Sophia imitar os gestos no m eio da m ultidão.
Não entendia com o ninguém naquele local conseguia perceber a energia. Para
ela a força parecia m ais do que evidente, e tinha de se segurar para não se jogar
do palco na direção dela. Queria tanto abraçá-la, render-se aos beijos m olhados
e quentes, e poder explorar cada m arca negra do seu corpo. Talvez houvesse
tem po m ais tarde para fazer tudo isso, m as ainda tinha toda um a noite pela
frente. Então resolveu seguir o conselho de alguns artistas de sua era e “fez am or
com o público” com o diziam . Gem ia alto durante a m úsica, suspirava, puxava o
próprio cabelo em baraçado e ajoelhava-se no palco, com o se estivesse em
algum m otel escondido em um a noite de am or. Os fãs deliravam , dançando no
ritmo sensual e pedindo m ais e mais. A Leanan não parava de sorrir, vendo o
espetáculo que Jade arm ava para ela. O corpo estrem ecia a cada segundo e
sentia-se sendo preenchida. A questão era se não seria energia dem ais. Jade em
seus m om entos de em polgação quase dava sua alma para a Leanan Sídhe e
aquilo não era bom . Se decidisse, Sophia poderia roubá-la cedo dem ais.
As m úsicas foram rolando, e a m adrugada reinava, este era o m om ento em
que os filhos da noite se encontravam nos bares para se divertir. Sophia dançava
rem exendo o corpo com o se estivesse conectada à voz de Jade. Os delicados pés
davam passos tím idos para os lados. Os joelhos e a cintura m ovimentavam -se
com o se estivesse em um zigue-zague sedutor, parecendo um a cobra naja ao ser
encantada por um flautista. Deixava-se levar pelo som , os olhos fechados e a
boca m urm urando a letra criada pela m ulher encantada. A cascata de cabelos
platinados estava jogada por cim a do om bro e já grudava pelo suor em seu
decote por estar se entregando para a pista de dança. Jade apenas observava,
m orrendo de desejo em cima do palco. Sabia que presenciava um m om ento
histórico. O instante em que um a Leanan Sídhe dançava sua m úsica. Ao acabar a
últim a nota, a cantora observava Sophia sorrir para ela, com o se aquele fosse o
m om ento de m ais orgulho de sua vida.
Mal ela sabia ainda que m uitos m om entos assim estavam por vir.
– Você estava incrível – disse Sophia ao se aproxim ar do palco após o show. Jade
suava e m ostrava-se um pouco sem fôlego, provavelm ente pelo
cansaço após cantar tantas m úsicas, mas tam bém pelo conteúdo do copo que
tendia a virar durante as m úsicas.
– Não. Você é incrível! – retrucou ela.
As duas sorriram , e a quantidade de sentim entos revelados deixava claro o
quanto precisavam se explorar, descobrir os pontos m ágicos do corpo de cada
um a.
– Vam os sair daqui? – sugeriu a Leanan, esticando a m ão para a garota. – Conheço
um lugar... – respondeu ela.
Segurando a m ão da fada discretam ente para não cham ar a atenção de
ninguém na casa noturna, Jade foi desviando-se das pessoas até chegar à porta de
funcionários. Lá encontraria o corredor que dava para o camarim .
Quando estava quase no local desejado, o guitarrista apareceu saindo da
porta ao lado.
– Pronta para com em orar? – questionou o rapaz anim ado. Assustada, a m ulher
respondeu:
– Mais tarde. Preciso de um tem po sozinha. Mas divirta-se.
– Estou vendo que entrou em outra fossa – com entou o guitarrista. – Cuidado
com o que apronta.
Após dar um a dura na jovem , o hom em saiu pelo corredor voltando à porta
que levava à casa noturna. Jade levou a m ão direita ao coração, sobressaltada.
Era estranho falar com alguém sabendo que a fada encontrava-se ao seu lado.
– Quase fom os pegas – com entou esbaforida.
Sophia deu um a gargalhada divertida, achando graça do com entário.
– Nós não tem os com o ser pegas, sua boba – disse ainda rindo. – Esqueceu
que só apareço para você?
Jade não achou graça.
– É com plicado m e acostumar com essas esquisitices – com entou bufando. – E elas
não valem a pena? – rebateu Sophia.
Ao ouvir aquela pergunta, a garota percebeu com o era idiota toda essa
preocupação com a opinião dos outros. Sem pre fazia isso. Estava com ela, e
finalmente a sós. Para que se preocupar com sanidade?
A Leanan abriu violentam ente a porta do m inúsculo cam arim . Havia um a
pequena bancada branca com algum as coisas espalhadas por cima, um enorm e
espelho de fora a fora da parede e um a banqueta desgastada. Mal a cantora
entrou e Sophia já a puxou para dentro, trancando a porta em seguida. E com um
m ovimento um pouco m ais forte a trouxe para perto, deixando alguns
centím etros de distância entre suas bocas. Jade engoliu a seco, pois entrava em
choque. O m om ento realmente aconteceria. Agora não tinha certeza se estava
preparada para aquilo. Mas quem sabe nunca estivesse?
Em um a expressão de com prom etim ento, Jade segurou o rosto da Leanan
com o ela havia feito no passado. As duas se olharam ternam ente, e m ais nada no
m undo importava enquanto aquele m om ento durasse. Am bas sentiam a
necessidade de se beijarem , e o m om ento aconteceu. Os lábios se encontraram
em questão de segundos, não dando tem po de respirarem . Pressionaram os lábios
carnudos um a na outra, e aos poucos as línguas com eçaram a se explorar,
desvendando os segredos ali guardados. Sophia percebeu que Jade tinha um gosto
cítrico na boca, provavelm ente de alguma bebida. Era um gosto bom ,
convidativo, e ela sentia desejo. Brincavam com o duas crianças, revezando o
beijo entre os lábios e a língua suave. As mãos de Jade saíram da face e
enroscaram -se no pescoço delicado da outra m ulher. A fada envolveu a cintura
da pequena criatura e a apertou com força pela agitação. Os seios roçavam -se e
as pernas se juntaram . Pareciam estar em apenas um corpo. Duas almas em
um a carne. Essa era a sensação que Jade sentia. Sophia tam bém .
No reflexo do m om ento haviam fechado os olhos para curtir a sensação do
beijo, m as agora Sophia forçava-se a abrir para visualizar as maçãs do rosto
rosadas da nova presa. Ao m esmo tem po em que se rendia à paixão, sabia que o
sentimento pela cantora não era verdadeiro. Seria um passatem po para ela, pois
nunca poderia am á-la com a m esm a intensidade. Seu obj etivo era outro, por isso
não poderia deixar de ter o controle.
– Você m e deseja? – perguntou Sophia para a m ulher tatuada.
A outra, não conseguindo respirar entre o am asso e a pergunta, balançou a
cabeça quase sem força, m ostrando estar totalmente entregue a ela. Com um a
força anorm al, Sophia pegou Jade pela cintura e a fez ficar sentada na bancada
branca, se encaixando por entre as pernas da hum ana. Aos poucos foi beijando
os braços desenhados da cantora, passando pelo pássaro livre que ela possuía
tatuado. A frase desenhada ao lado m ostrava o desejo interior dela de poder fazer
o que quiser.
No m om ento Sophia a deixava fazer o que quisesse. Interrom pendo a sessão
de pequenos beijos pelo corpo m agro, a Leanan perguntou:
– Teria com o cantar para m im ? Somente para m im?
Jade não conseguiria negar um pedido com o aquele, m as tam bém não sabia
se teria forças para cantar. Aos poucos, sons saíam da boca agora averm elhada
pelos beijos da fada, e a m úsica, que se tornaria a m ais conhecida dela, com eçou
a ser entoada. Aquilo deixava Sophia louca e parecia afetar Jade da m esm a
form a, pois constantem ente seu corpo estrem ecia e a fada soltava um gem ido
involuntário.
– Com o você é linda...
A Leanan não parava de elogiá-la, o que fazia a garota cantar com m ais
confiança. Quem a ouvisse acharia que a cantora havia surtado e que cantava
com o um a desequilibrada. Mas para Sophia aquilo era lindo.
As duas se amaram . Os gem idos foram constantes e os m ais altos que a
fada jamais ouvira. Jade deixava-se levar para outro m undo, outra dimensão,
onde seria feliz com a possibilidade de experimentar aquela sensação tão gostosa.
Quando viu que a cantora não parecia m ais aguentar, cravou as unhas verm elhas
na coxa branca dela e esperou pela energia que sentiria pela satisfação da garota.
As veias ardiam , queimando mais do que o inferno. E aquilo era bom . Por que o
inferno era considerado tão ruim assim se os prazeres dele eram tão bons? Não
conseguia entender.
Naquele m om ento teve toda a vida de Jade em suas mãos. E se sentia bem
por isso. Meta cum prida.

A relação entre as duas passava a ser prioritária. Agora Sophia focaria


apenas na garota e em ninguém mais. Jade m erecia a atenção. Por isso
aproveitariam a nova m úsica criada e form ariam um novo álbum . Algo que
atingiria todas as paradas de sucesso: desde os Estados Unidos até o Japão ou
algum país do Terceiro Mundo. A querida am ante receberia sua recom pensa por
ser tão maravilhosa. Aquele sem pre foi um com binado coerente. Se a presa a
satisfazia, ela a ilum inava dando a m aior inspiração do m undo. Por causa disso as
duas passaram horas em cim a dos papéis escolhendo as m elhores canções.
Tam bém rolavam em cima deles enquanto faziam am or alucinadam ente.
Pegavam fogo e pareciam destinadas a ficarem juntas. Ou talvez não...
Doce ilusão.
Sophia sentia Jade se entregar com m uita facilidade e de um a form a m ais
intensa que o necessário. Logo estaria com a carga de energia com pleta e teria
que abandoná-la. Não havia um hum ano vivo para contar com o era ficar sem
sua fada, após ela se recarregar. O m esm o aconteceria com Jade. Por que a
garota tinha de ser tão em otiva?
Precisava encontrar um a form a de a cantora dividir a paixão pela m etade,
para assim ficarem m ais tem po juntas. Sophia não sabia m uito bem qual seria o
plano, m as encontraria um a form a de desacelerar a outra. Até porque toda a
animação chegava a quase provocar um a overdose de sentimentos nela. Tudo
tinha de ser controlado. Um a afeição de hum ano tinha o efeito de um a fileira de
cocaína para a Leanan, se usasse m uito da droga poderia m orrer. Sem o hum ano
ela não sobrevivia, porém com um a dose m aior tam bém corria o risco de sofrer.
Com o controlar isso parecia ser com plicado. Contudo Sophia já tinha um a boa
experiência, e Jade devia ser a trigésim a pessoa que seduzia. Não com eteria
erros.

As m úsicas ficaram prontas em pouco tem po, e em seguida a cantora


m ostrou o trabalho para o produtor. Precisava saber se ele aprovaria e se o
conteúdo seria gravado. O sorriso do hom em falava m ais do que tudo. Era óbvia a
alegria de todos da gravadora ao reconhecerem o enorm e valor daquele
álbum. A frágil, m as ao m esm o tem po, revoltada garota, havia produzido
m úsicas incríveis de timbres e gingados perfeitos para a rádio. E um a m úsica em
especial poderia fazer m uito sucesso. A letra era ousada, original. Nunca alguém
havia escrito sobre vícios de um a form a tão despojada. Aquilo seria um a m ina
de ouro para o bolso deles. Claro que tam bém investiriam um a grande soma na
divulgação do álbum . Muitos a julgariam , provavelmente achariam
inapropriadas as letras e ofensivas. Mas o produtor não se importava. Se a m ulher
fosse tão forte com o aparentava, teria de se acostumar com aquilo. E se não se
acostumasse, eles a teriam em todos os tabloides e principalm ente nas rádios pelo
m enos por um tem po. Contudo Jade não pensava nisso. Para ela aquele álbum
seria um a form a de liberdade e de poder falar o que pensava. Talvez agir da
form a que queria, sem precisar consultar os pais, m em bros de bandas ou
qualquer pessoa. A única que precisava estar ao seu lado era Sophia. Estando lá
já fazia toda a diferença. O coração ficava mais leve, com o um a plum a a
sobrevoar o m ar. Jade pensava em por que ficava assim , tão rendida ao am or
daquela m ulher. Talvez por ela ser a única que acreditou no valor dela desde o
início. Os outros sem pre duvidavam .
Mas agora não m ais.
Outras m úsicas foram criadas pelo estúdio, e pessoas foram contratadas
para acom panhá-la nas gravações e na futura turnê. Diversas gravadoras
estavam furiosas por terem perdido tam anho talento. Até o visual de Jade parecia
ser m uito invejado. Mas ela não se im portava com isso. A única coisa que a
deixava brava era quando tentavam fazer algo que com prom eteria a qualidade
do seu trabalho. Não deixaria ninguém prejudicar o álbum feito com tanta paixão
e m elancolia. Tam bém não teria com o, pois no fundo sabia que Sophia a havia
ajudado m agicam ente na construção dele. Com certeza impediria de tentarem
prejudicá-la. Um a defendia e protegia a outra.
Pelo m enos Jade achava isso.
Não tinha um dia de estúdio em que a fada não a acom panhasse. Tinha se
tornado quase um a fiel escudeira, sem pre a observá-la quando cantava nas
cabines de gravação. O produtor chegava a com entar que m uitas vezes Jade
parecia distraída, olhando para o nada, fixando os olhos em algum ponto
im aginário. Porém , ressaltava que nesses mom entos ela cantava com o um anjo
e pedia para que continuasse.
O álbum estava pronto, e o lançam ento se aproxim ava. O ânimo de Jade
era m uito inconstante, e às vezes Sophia não sabia com o lidar com ela. Já havia
se relacionado com artistas assim , m as Jade era um a m ulher, e com as m ulheres
sem pre parecia ser m ais difícil. Por isso ficava na retaguarda, e tentava bolar um
plano para dividir o afeto dela o m ais rápido possível. Mas o futuro parecia estar
do lado da Leanan Sídhe, porque em pouco tem po já tinha um a resposta para a
questão. Havia um hom em que poderia aj udá-la, e não seria difícil atraí-lo para
aquela confusão. Foi por causa disso que Jade conheceu Phil.
– Sua m úsica é linda – disse o rapaz m agro para Jade ao cruzar com ela nos
bastidores de uma casa noturna.
A garota ficou sem graça, o que não acontecia com m uita frequência, e
apenas sorriu. Reparou que ele tinha certo charm e, apesar de quase parecer um a
vareta. As tatuagens pelos braços e o chapéu preto com o o de um gângster a
atraíam . Quando deu por si estava a alguns m inutos encarando o rapaz, ainda
parado a sua frente. Sophia, invisível ao seu lado, apenas observava a cena. Jade
percebeu o erro que com etia e olhou em pânico para a Leanan. A outra apenas
gargalhou e m ostrou não haver problem a com aquilo.
– Só que eu te acho m ais linda do que sua m úsica – com pletou o rapaz. Um a
cantada rom ântica demais para um roqueiro de gravata cheirando a
uísque.
– E o que você vai fazer a respeito disso? – questionou a cantora em tom
sedutor.
Ele riu e disse:
– Te pagar um a bebida.
Ao falar aquilo pegou a m ão fina da garota, levando-a para perto do bar
com um a bancada repleta de copos diversos jogados por todo lado. Pelo canto
dos olhos Jade procurou Sophia, com m edo de perdê-la, m as a fada continuava a
rir e a observar, encorajando a outra.
– Duas cervejas... – pediu o rapaz.
Antes de recebê-las notou o olhar de desaprovação dela e percebeu que
com etia um equívoco.
– Melhor... Traga duas vodcas duplas.
Pelo sorriso de confirm ação, o garoto notou que ganhava pontos com a
cantora. Sabia que ela era conhecida e já havia ouvido sua m úsica, m as não
im aginava o futuro sucesso da garota.
Nem ela sabia disso.

Jade sentia-se confusa e quase dividida ao m eio em relação ao garoto. A


Leanan com em orava o sucesso de seu desejo. Com Phil na vida dela, talvez a
garota sossegasse da obsessão pela fada. Sophia am ava Jade da sua m aneira e
por isso não queria perdê-la tão cedo. Seria um a pena se ela m orresse antes de o
m undo inteiro ouvir sua voz. Nesse caso Phil seria essencial, porque daria um a
sensação de hum anidade a ela.
Desde que a Leanan entrara em sua vida, Jade não pensava em mais
ninguém . Quase nem se lem brava dos pais, imagina se preocupar com algum
hom em . A fada já a satisfazia mais do que o necessário. No entanto, era evidente a
atração pelo rapaz tatuado. Sentia tesão por ele. Não do m esm o nível que pela
fada, mas era algo parecido. Jade chegava a se sentir triste pelo fato de a m ulher
não ligar para a atração que sentia. Quando foi para a cam a com o roqueiro, a
m ulher só ficou observando e m ordendo os lábios ao vê-la ser dom inada por ele.
A confusão de sentim entos era enorm e e quase inexplicável. A cantora precisava
de um pouco de paz na m ente, m as aquela não havia sido a m elhor hora para
isso. O single do segundo álbum havia sido lançado, ficando entre as cinco
m úsicas m ais tocadas da Europa. E em poucas sem anas, do m undo. Jade se
transform ava na grande estrela que deveria ser.
Alguns m eses depois, Jade pôde m udar-se para um a nova casa em Cam den
Town.
– Baby, você toda hora parece dispersa – com entou Phil, enquanto ela
fum ava, sentada na sacada da nova casa.
– Você é que m e enche a paciência o tem po todo – respondeu ela
rudem ente. – Preciso de um tem po sozinha. Você poderia dar um a volta, né?
Phil revirou os olhos castanhos em sinal de frustração. Desde que
com eçaram a se ver era assim , um dia Jade se encontrava loucam ente
apaixonada por ele, no outro respondia com grosserias ou o atacava. Mas ele era
louco por aquela m ulher e continuaria tentando se entender com ela.
– Vou com prar m ais bebida, então. Quer algo m ais forte?
A m ulher parou de olhar para o horizonte e virou-se para ele dizendo: – A droga
m ais enlouquecedora que você achar.
Ele riu debochado.
– Essa você já tem . Sou eu.
Sozinha em casa a cantora pôde parar para respirar, tranquila. A vida não
era m ais a m esm a, e a em polgação inicial com Phil, e até m esm o com Sophia,
passava. Só tinha vontade de vom itar, usar m ais pílulas entorpecentes, fum ar
cigarros proibidos e beber até passar mal. Alguma coisa acontecia com ela.
Sentia-se cada vez mais fraca e irritada, até m esm o violenta. Precisava de paz, e
aquilo parecia ser impossível.
A fam a havia chegado e arrebatado sua vida. Agora vivia em ritm o
acelerado. Sem pre existia um evento para ir, m uitas vezes, um grande show para
fazer. Ela tinha se tornado a garota do m om ento. A cantora que todos ouviam e
desejavam assistir ao vivo. Mal sabiam que ela quase não conseguia parar em pé
de tanto m altratar o corpo e a m ente. Precisava dar um jeito em sua situação
hum ilhante.
– Você só sabe brincar com igo! – disse raivosa, num a tarde, para a Leanan
Sídhe, que estava nua debruçada na janela do quarto.
A loira virou a cabeça e ainda de costas respondeu:
– Quem brinca com você é você m esm a. Eu faço com o o com binado. Você
m e queria e aqui estou. Tam bém desejava o sucesso, e ele está m ais do que
evidente na sua vida.
– Mas eu não queria estar sofrendo assim. Sinto com o se estivesse quase
m orrendo, e ainda por cima, existe Phil agora na m inha vida m e deixando louca.
A Leanan Sídhe riu.
– Você é louca, Jade! Só não percebeu ainda porque não quis. Phil é um
hom em terrível. Entendo que ele é violento, te leva a usar m ais dessas porcarias,
m as ele é o que tem te m antido viva. Não se pode ter tudo na vida.
– Quando você fala essas coisas sem sentido fico ainda m ais furiosa –
resmungou a cantora.
– Elas vão fazer sentido para você, m enina. Só espero que no m om ento
certo.
Ao term inar a conversa, a fada negra cam inhou lentam ente até a cama de
estilo m edieval, onde a cantora encontrava-se deitada apenas de calcinha.
Tirando o cigarro da boca dela, beijou-a intensam ente, iniciando mais uma
sessão de am or.

Todos os dias a equipe de Jade aum entava, e ela não tinha mais controle do
que acontecia na sua carreira internacional. Apenas existiam pessoas tentando
fazê-la não se atrasar para os com prom issos, m arcados sem sua autorização.
Esse parecia ser o preço do sucesso, da fam a tão alm ejada. A cantora tentava
entender a confusão catastrófica. Passava os dias bebendo m isturas alcoólicas
exóticas e aparecendo em program as idiotas de TV. Phil quase sem pre a
acom panhava, e Sophia aparecia pelo m enos um a vez por semana. A garota
sentia falta da fada e queria resgatar aquele m om ento em que criou as m úsicas,
quando estava sem pre perto dela, porém Sophia dizia ser necessário o
afastam ento. Mas Jade não com preendia. Então, se dedicava cada dia m ais ao
nam orado. Afinal ele estava ali, apesar de ela não entender o m otivo. Seria por
dinheiro? Ele a am ava de verdade? Jade vivia se questionando, porém respostas
com o aquelas seriam difíceis de serem respondidas.
Em um a tarde quente de quase fazer um a pessoa norm al desmaiar em
plena avenida, a cantora se encontrava largada no sofá, após a terceira carreira
de pó branco conseguido por Phil em um dos bairros pobres da cidade. O hum or
dela estava péssimo, e o rapaz tentava se distrair com alguns am igos pela enorm e
casa da m ulher. Ele com em orava, pois a havia pedido em casam ento na noite
anterior durante um jantar, m ais parecido com um a degustação de vinhos. O
estranho foi que Jade aceitou sem nem pensar. O “sim” foi tão espontâneo que
até ele se assustou. Talvez com o casam ento, Sophia lhe desse m ais atenção. Ser
quase abandonada pela fada a machucava m uito.
– Minha gostosa! Hoje é dia de celebrar – disse Phil aproximando-se do
sofá com um a garrafa de tequila na m ão. – Vam os nos casar e você está aí
parada.
As palavras saíam confusas. O rapaz tinha bebido m uito durante o dia e
provavelmente tom ado ecstasy para estar tão am oroso.
– Me deixa em paz – m urm urou a garota virando para o outro lado do sofá. –
Olha só, Jam es! – gritou o roqueiro para um am igo ruivo que estava do
outro lado da sala. – Nem casou ainda e já está m e ignorando.
Os dois riram , lem brando dois bobos da corte sem graça, o que fez a fúria
crescer no peito da cantora. Quase esqueceu que estava drogada. Parecia mais
lúcida do que qualquer CDF em dia de exam e final. Ela sentia raiva dele. Por que
pensava em se casar com aquele m onstro? Ele m erecia estar preso em uma
cadeia superlotada.
– Seu filho da m ãe desocupado! – gritava ela pela casa com as veias
saltando do pescoço. – Só sabe viver às m inhas custas e se m eter em encrenca.
Quero que saia da m inha frente e leve todos esses perdedores e essas vagabundas
para fora da m inha casa. Saia agora antes que eu te m ate!
Jade tinha a face afogueada, soltava as palavras com o se fossem chamas.
Enquanto levava o noivo para fora aos socos e tapas. Algo errado para um casal
prestes a se casar. Na verdade, errado para qualquer tipo de casal.
Acostumado com os ataques da m ulher, Phil revidou a agressão com um
tapa na cara e saiu batendo a porta ao passar, quase quebrando o vidro. Jade caiu
no chão com o m ovim ento brusco e ficou deitava no piso gelado com as m ãos na
face ardida por alguns m inutos. Precisava se acalm ar e tentar achar uma solução
para os problem as. Chorava com o um bebê e não entendia qual era a pior parte
daquela situação. Suas atitudes estavam com pletamente erradas, m as o garoto
tam bém não ajudava, sem pre dependente e alterado, revidando quando não
precisava.
– Mais um a vez no chão? – disse Sophia calmam ente a cantora ainda jogada
no piso, com o em total decadência.
A Leanan observava a cantora no m omento em que foi agredida pelo
neurótico noivo. Jade, ao vê-la ajoelhada a seu lado, m ovim entou-se o mais
rápido possível e a agarrou pela cintura com o um a criança precisando de colo.
Chorava de ensopar o vestido am arelo da fada e praguejava contra todas as
entidades conhecidas por ela.
– Não adianta você culpar os deuses pelas suas atitudes – disse Sophia.
– Eu não fiz nada para m erecer tudo isso – retrucou a garota entre longos
suspiros. – Minha vida sem pre foi um a bosta.
A Leanan Sídhe se m ostrou chateada.
– Com o é ingrata! Nasceu com um dom incrível, tem um a fam ília até
dedicada e está tendo a oportunidade de ter um a carreira invejada por m uitos.
Qual é o seu problem a?
Jade não sabia responder.

Meses passaram e foram se transform ando em anos. Nunca um álbum


havia recebido tantos prêm ios e tanta atenção da m ídia. O engraçado era que
Jade não dava a m ínima para aquilo, faltava aos shows, saía em tabloides pelas
inúm eras brigas e aparecia na televisão portando substâncias ilegais. Ela
im plorava para ser odiada, e as pessoas continuavam a idolatrá-la. Agora, sendo
um a m ulher casada, enfrentava os dilem as da vida conjugal, e Phil não m ostrava
sinais de ser um bom m arido, com o se esperava. Os dois viviam brigando e na
m aioria das vezes saíam com hem atomas pelos corpos, já tão m agros por tanta
substância ingerida. Os dois se m atavam aos poucos, enquanto Sophia apenas
observava. Para ela nada m udava. Jade continuava a cantar pelos palcos do
m undo, e a fada obtinha a energia necessária. Percebia o desgaste da amada e
sabia que logo Jade não aguentaria m ais. O pior era que antes disso não
aprenderia o real valor da vida.
Sophia via m uitos artistas lutarem contra as drogas, a fama e a solidão. No
final, a m aioria reconhecia os erros e tentava sair dessa vida para um a m elhor.
Não conseguiam , porque, se eram afetados por um a Leanan Sídhe, um fim
trágico os aguardava, m as pelo m enos iam com a consciência um pouco m ais
tranquila. A fada tem ia que Jade não tivesse um a passagem tão tranquila assim .
Ela não conseguia ver bondade no m undo, não praticava o bem . Sua m úsica
podia salvar vidas, contudo não se im portava.
Em m ais um a semana com plicada, Phil voltou para casa sangrando.
Mesmo irritada, a garota ficou preocupada e queria saber o que havia
acontecido. Ele se recusou a falar. Mas ela era Jade, a cantora m ais fam osa de
sua geração, seria im possível esconder algo assim . Em breve a notícia estaria
circulando pelos tabloides, sendo com entada em alguma parte.
No dia seguinte chegou a intim ação, e depois de alguns m eses ficou
evidente que Phil iria para a cadeia. Ele tinha se m etido em mais um a briga e
pelo visto aquela havia sido feia. A data foi m arcada e agora ela chorava, pois,
m esm o sem pre brigando, am ava o m arido. Os dois tinham um am or perturbado,
chegando a ser doentio, m as no fundo realm ente se am avam . Aquele
afastam ento seria uma tragédia.
No entanto, a vida não podia parar, e em pouco tem po Jade estava
novam ente no palco. Precisava fazer turnês e ganhar dinheiro, ainda m ais agora
que o m arido seria preso. Só percebia que na m aioria das vezes acabava ficando
com a m enor parte do lucro. Sentia-se enganada.
Chegou atrasada ao país onde faria o show e com as dores dos últim os
ferim entos. Tinha com eçado um a mania de se autom utilar, com o se beber até a
m orte já não fosse o bastante. Quando subiu ao palco ouviu vaias em alto tom,
afinal ela estava atrasando o show da banda seguinte. Seu visual apreciado por
m uitos estava horroroso e a voz quase não saía, extrem amente rouca. Não
deveria estar lá em cima. Culpava a equipe por forçá-la a subir. No m eio de um a
das m úsicas lem brou-se do m arido e do fato de que o iria perder. A distância não
faria bem para os dois. Podia sentir o fim do casam ento no peito dolorido. Ela
teve de se segurar para não chorar. Diante dos fãs tinha de se m anter um a rocha.
Não podia derram ar uma lágrima, m esmo querendo chorar durante o show
inteiro. O m arido fora enfim preso, e se via desam parada. Sophia ficava cada
vez mais distante. Jade sentia-se usada e não entendia que tipo de m agia aquela
fada possuía. Ela parecia o dem ônio em pessoa. Só havia trazido desgraça para
sua vida. Por que tinha se envolvido com ela? Jade não entendia. Mesm o assim ,
sentia falta dos beijos, dos toques no corpo, do hálito no pescoço, principalm ente
das besteiras m urm uradas. Se não podia ter Phil a seu lado, pelo m enos a fada
poderia voltar para ela.
Doce ilusão.
Sophia não tinha m ais interesse na garota. Ela já era um a grande estrela e
tinha cum prido seu dever. O am or da fada por ela m orria aos poucos, pois a
Leanan no fundo não era maligna e sentia-se triste pela falta de força de vontade
da garota, até pela falta de bondade que percebia nela. Se ela tivesse um pouco
de fé, am or ou talvez com paixão verdadeira por alguém , conseguiriam ficar
juntas por mais um tem po. Contudo, a cantora não m ostrava isso e aprenderia o
poder do perdão da form a m ais trágica.

Era um a noite tranquila no agitado bairro de Cam den Town. Com o era baixa
tem porada, não havia tantas pessoas circulando pela vizinhança, m esm o ainda
tendo alguns garotos de m oicanos passeando pelas ruas desertas de lojas punks
fechadas. Jade encontrava-se sozinha em casa, debruçada sobre o sujo vaso
sanitário, quase inconsciente. Mais uma noite havia abusado das drogas e bebidas.
Sentia que precisava de socorro. Só que dessa vez não havia alguém para ajudá-
la, pois o m arido continuava trancafiado. Existiam os seguranças, mas eles
vigiavam o exterior da casa. Seria difícil perceberem que ela passava mal no
banheiro de hóspedes. O pânico tom ava conta dela a cada minuto. A garganta
parecia estar fechando, sentia-se tonta e totalmente sem forças. Já com eçava a
se despedir do m undo. Conseguia o que queria e tentaria ser livre. Mas pensava
no fato de que, m esm o m orrendo, Sophia não aparecia. A fada tinha realmente a
abandonado. Aquele era o único pensam ento na m ente dela, antes de os olhos
fecharem e do silêncio invadir sua alma.
Parecia ser o fim . O final da m úsica.
Existia um a luz. Pelo m enos ela sentia a claridade tentando invadir os olhos
irritados. Aos poucos os sentidos foram voltando feito um passe de m ágica e
com eçava a ouvir barulhos sem sentido e a sentir cheiros fortes ao redor. Porém ,
não eram barulhos conhecidos, e os cheiros pareciam de álcool, m as não o tipo a
que estava acostumada. Tentava forçar as pálpebras, contudo parecia algo
im possível. Só havia um pequeno rasgo e era dele que entrava a luz. Aquela
estranha luz. Quando se acostum ou com a claridade, sentiu-se relaxada, com o
corpo m ais leve. Praticou m ais uma vez o ato, e agora os olhos davam a
im pressão de responder. Foi abrindo-os lentam ente, com o se esperasse o
m om ento de fechá-los correndo. Mas nada aconteceu. Jade apenas viu os
grandes e redondos olhos verdes de sua m ãe a encarando.
– Não vou dizer que isso foi um susto, pois está virando rotina – com eçou a
falar a m ãe com um a expressão indecifrável. – Mas, m inha filha, m e diga com o
posso ajudá-la. Não quero te perder.
A súplica parecia sincera. Jade ainda se acostum ava com a claridade, m as,
m esm o zonza, sentiu a honestidade em cada palavra da mãe. Percebia que m ais
um a vez havia parado no hospital, contudo não lem brava com o. Havia apagado
no banheiro e ninguém passaria por lá tão cedo. Perguntava-se com o tinha
chegado ao hospital.
– Você deu sorte. Se eu não tivesse pressentido que estava mal,
provavelmente estaria m orta nesse m om ento – disse a mãe.
– Com o assim ? – questionou a cantora com a voz ainda rouca.
– Quando fui dorm ir, iniciei m inha oração e pedi aos santos que te
guiassem . Senti um aperto forte no peito e em seguida ouvi perto do ouvido um a
voz suave falar seu nom e. Não sei com o isso aconteceu, m as naquele m om ento
sabia que você corria perigo. Liguei na hora para os seguranças e dei autorização
para a procurarem . Não aguentei nem esperar a resposta deles e m e dirigi para
sua casa. No m eio do cam inho já tinham m e retornado avisando do seu desmaio.
Você estava com os batimentos cardíacos m uito fracos. Quase m orreu. Você
sabe com o um a mãe se sente ao receber a notícia de que sua filha quase partiu?
Jade agora via lágrimas cristalinas deslizarem pelo rosto redondo da m ãe.
Sentia-se um lixo por tê-la feito sofrer assim . A m ãe não m erecia aquilo. A
cantora percebia que seus atos não prejudicavam som ente a ela. Toda a fam ília
ficava envolvida nesses casos. Estava cansada de passar noites em hospitais e de
m agoar todos a sua volta. Vendo a m ãe chorar percebia o veneno de suas
atitudes. Tinha que se cuidar. Por sua m ãe, seu pai e principalm ente por ela
m esma. No fundo sentiu um a pontada de felicidade no espírito. Pelo relato da
m ãe, Sophia havia voltado para ela. Somente a Leanan tinha o poder de avisar a
m ulher sobre o desm aio. Jade ficava intrigada com toda a situação.
– Me desculpa! – sussurrou a garota. A m ãe soltou um suspiro pesado.
– Tem os que bolar form as m ais eficazes do que desculpas – disse ríspida. –
Seu pai e eu pretendem os te internar. Você precisa se cuidar, m inha filha.
A cantora levou um choque. Os pais sem pre se m ostraram anim ados com a
ideia de interná-la em um a clínica de reabilitação, mas nunca haviam im posto a
situação. A excitação parecia ser bizarra, m as era norm al para pais de adictos.
Eles a queriam lim pa. Queriam seu bebê de volta.
Jade ficou pensando por alguns m inutos sem falar com a mãe. A outra
respeitou o m om ento. Um a situação m adura acontecia. As duas dialogavam
sobre a saúde e a segurança da garota. Ela, que sem pre se sentia deixada de lado,
agora notava a preocupação da fam ília.
– Tudo bem – respondeu.
Foram duas palavras mágicas. E, naquele m om ento, Sophia apareceu no
quarto do hospital em sua form a de fada, e Jade abriu um enorm e sorriso. A m ãe
da garota pensou ser para ela aquele belo sorriso, e beijou a testa da filha. Nascia
ali um a sem ente de esperança para Jade.

Foram idas e vindas de clínicas de reabilitação de luxo. A garota tentava se


acostumar com a ideia de dividir seus sentim entos com estranhos. Após longas
sessões de terapia, aos poucos Jade foi tom ando um pouco de juízo. Algo que
nunca teve. Precisava tom ar novos rum os. Tinha a fam ília para cuidar e um a
carreira a esperava. Se os pais, fãs e equipe não acreditassem nela, não tinha
m ais motivos para viver.
Desde a aparição no hospital, Sophia não a havia visitado. A cantora
entendeu aquilo com o um sinal de incentivo. Cada vez que ela tom asse um a
decisão certa ou m elhorasse em algum a coisa, provavelmente a fada apareceria.
E ela queria aquilo. Sentia falta da Leanan.
– Ficam os tão felizes com seu progresso – com entou a m ãe em um a das
visitas.
– Estam os orgulhosos de você – com pletou o pai.
O casal que estava quase na terceira idade encontrava-se próxim o a sua
cam a na nova clínica. Ela apenas os encarava. No final, acabou rendendo-se a
um a conversa am igável.
Quando percebeu a leveza em seu corpo, Jade notou que era a hora de
m udar sua vida. Saiu da clínica e voltou para casa. A mãe tinha contratado uma
em pregada e o local se encontrava im pecável, bem diferente do de antigam ente.
Decidia as últimas questões pendentes da atual vida e pensava em um a form a de
botá-las em prática.
Pouco tem po depois, Phil recebia na prisão os papéis do divórcio. Outras
pessoas tam bém ouviram sobre a volta dela. Inclusive o produtor de sua
gravadora ficou animado em ver a artista voltando às atividades. Jade resolveu
tam bém ajudar outras pessoas, em especial crianças de países mais pobres. Aos
poucos tom ava consciência do seu papel no m undo. Tinha vindo para aquele
local com propósitos m aravilhosos e agora com eçava a entender.
Ficou firm e nos objetivos por um tem po. Resistiu às tentativas de contato de
Phil, aos convites para festas de supostos am igos e tentou ficar longe da am ada
bebida, m as parecia ser bem mais difícil do que imaginava. Os ensinam entos do
tratam ento eram eficazes, m as ela era fraca e por isso, m esm o tentando ficar
firm e, tinha suas recaídas.
Sophia, m esmo já estando envolvida com outro artista, ainda tinha contato
com Jade, afinal o destino delas não estava com pleto. A cantora havia sido um
dos relacionam entos m ais longos de sua vida, porém sentia o fim se
aproxim ando. Viu atos bons com eçarem a ser praticados por ela, m as
determ inação parecia ser um a questão difícil para a cantora. Percebeu que
precisavam conversar novamente, e talvez essa fosse a última conversa delas.
– Olá, Jade!
A fada aparecia em um a m anhã de dom ingo em que a cantora não tinha
conseguido dorm ir. Ela havia passado a m adrugada toda fum ando cigarro na
sala, assistindo a vídeos de apresentações suas dos últim os m eses. Não conseguia
pensar em program a de sábado à noite mais depressivo que aquele.
Quando percebeu a Leanan Sídhe na sala, largou o cigarro no cinzeiro ainda
aceso e saiu correndo para encontrá-la. Não deixou a fada dizer mais uma
palavra e a tom ou nos braços beijando-a com a intensidade que há tem pos não
sentia. Sophia ficou em choque pela atitude, m as havia sido boa. Com o contato
dos lábios dela, recuperou a sensação de prazer. Sentiu a energia entrando no
corpo conform e a sugava pela boca da cantora. Fez bem em visitá-la. Precisava
daquela nova dose de adrenalina.
Parecia que ficaram horas se beijando, entregando-se ao am or de longos
m eses e várias noites. Abismada, Jade percebeu que não buscava sexo na sua
relação com a fada, som ente a queria perto. Sophia percebeu isso tam bém e
ficou feliz. A cantora ainda tinha m uitos defeitos, m as estava amadurecendo, e
talvez em um a próxima vida pudesse consertar esses defeitos, afinal já estava no
cam inho para isso.
– Você dem orou... – sussurrou a jovem .
– Mas você sem pre soube que um dia eu voltaria – respondeu Sophia. A garota
abraçou a fada mais um a vez com força, apertando seu corpo com
um a vontade absurda.
– Sinto com o se esse fosse o últim o abraço. Sophia beijou a testa da garota.
– Nunca será o último. Vam os ficar juntas para sem pre. – Nas suas marcas? –
questionou a cantora.
– No m eu coração – respondeu a fada.
Sentindo pela última vez o gosto do m el da boca da eterna fada-m adrinha,
Jade percebeu que iria m orrer. A Leanan se afastava, e sua vida havia se
transform ado em um caos. Mesm o querendo viver e se achando invencível,
sabia que no m undo era apenas uma alma com plicada em processo de evolução.
Tinha um cam inho longo pela frente, m as tentaria aprender com os erros
daquela vida e quem sabe em um a próxim a, após passar pelas dificuldades, ela
poderia com eçar o cam inho pela paz. Precisava acalmar pelo m enos um a alma
antes de partir daquela vida, e por isso chamou a m ãe para um jantar.
– Muito obrigada pelo jantar, filha – com entou a m ulher ao deliciar-se com o
últim o pedaço de m edalhão de frango. – Sinto falta de m om entos com o esses.
Jade deu um gole em sua água gelada, pois evitava beber na frente da mãe,
e olhando-a nos olhos disse:
– A senhora m erecia m uito m ais de m im. A m ãe riu do com entário.
– Não existe mãe mais orgulhosa do que eu no m undo, m eu am or. Você não
precisa ser tão dura consigo m esm a.
Foi a vez de a cantora rir. Até no final, a m ãe tentava poupá-la de seus
problem as. Ela confundia esta form a dos pais de dem onstrar preocupação com
indiferença. Pensava em com o havia sido burra todo aquele tem po.
– Eu te am o! – sussurrou Jade.
– Eu tam bém te am o m uito... – respondeu a m ãe.
Aquelas foram as últim as palavras entre as duas. Na verdade, as últim as
palavras da garota naquela vida atorm entada.

Em um dia norm al sem nenhum acontecimento diferente na grande cidade,


o segurança de Jade a observava pela janela. A cantora estava presa dentro da
casa havia alguns dias e não saía para nada, o que era estranho.
Parecia ter dorm ido m ais um a vez no sofá, m as fazia algumas horas que se
encontrava na m esma posição, e ele com eçava a se preocupar. Não era a
prim eira vez que ela ficava assim, e sempre tinha que ajudar a patroa a se
recom por de seus excessos após noitadas agitadas. Aguardou m ais alguns
instantes, m as não conseguiu ficar m uito tem po parado. Entrou na casa e
cutucou-a para ver se estava bem .
Não houve reação. Nenhum a resposta.
A am bulância foi chamada, e a garota foi levada inconsciente ao hospital.
Pouco tem po depois já existia um mar de pessoas na frente de sua casa e do
local em que cuidavam dela. Mas tudo aquilo era inútil. A alma de Jade já tinha
sido levada pela Leanan Sídhe havia horas. A cantora finalmente deixava aquele
m undo. Havia fugido de sua escuridão.
O relatório final m ostrou que ela havia ingerido quase duas garrafas de
bebida em um a noite sozinha. Um absurdo, m as que talvez não m atasse uma
pessoa saudável. Mas seu corpo m altratado não resistiu.
O segurança achou estranho, pois durante a noite a observara, e apenas a
viu sorrindo, assistindo à televisão, parecendo em paz. Ele pensava em com o ela
havia conseguido beber tanto durante aquela noite. Aquilo ele nunca saberia,
porém era intrigante.
E com 27 anos a rainha do pop jazz deixava o m undo em lágrimas. Um
m undo que tentou cuidar dela. Que lhe quis dar carinho.
Mas ela teimava em dizer não. E não.

E não.