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27 DE MARÇO DE 2012 · 21:30

Esboço de uma teoria geral da magia

Por Alice, Giovana e Hevellyn sobre os capítulos “Históricos e Fontes”, “Definição de Magia” e “Conclusão” do
Esboço de uma teoria geral da Magia, de Marcel Mauss

Marcel Mauss inicia seu texto “Esboço de uma teoria da magia” com uma avaliação do que já foi feito em
relação à teoria da magia. Para ele, Tylor não produziu uma teoria da magia, pois explica a magia através
do animismo. Porém, nos infora que Tylor foi quem primeiro falou sobre a magia simpática. Quem será
considerado como autor de uma teoria da magia será Frazer, pois trouxe elementos que são
mencionados até hoje como os de contágio e simpatia. Frazer foi criticado por Mauss, assim como havia
sido por Malinowski, porque parte do princípio da superação da magia pela ciência. Outra crítica feita à
Frazer é por ele atribuir apenas à magia atos simpáticos (que conta com a aplicação das leis da
similaridade e da contigüidade), pois para Mauss podemos encontrar atos simpáticos na religião
também.

Ao escrever sobre a definição de magia, Mauss afirma que não podemos chamar de mágico um
fenômeno, apenas por este ter sido assim considerado por meio de uma interpretação subjetiva.
Devemos considerar mágico aquilo que é considerado mágico pela comunidade, para “toda sociedade e
não apenas uma fração”. Além disso, para ser considerado magia deve envolver agentes, atos e
representações. Os atos ritualísticos são repetidos por tradição. E tal repetição é necessária para serem
considerados atos mágicos, assim como a crença, de toda a comunidade, na eficácia dos ritos.

Os atos rituais podem ser confundidos com outros ritos, como os atos jurídicos, mas para que sejam atos
rituais mágicos, devem ter uma eficácia, devem produzir algo e esse algo vai além de contratos e
convenções .
Mauss separa o rito mágico do rito religioso, eles tem agentes diferentes e são feitos em lugares
diferentes. A melhor forma de distinguir magia e religião é através de dois polos: o malefício e o sacrifício.
A magia seria entendida como uma ‘religião’ para as necessidades elementares da vida. Outra importante
distinção feita pelo autor é que a prática religiosa é sempre prevista e oficial, ela faz parte de um culto. Há
um aspecto obrigatório, mesmo sendo voluntário, por exemplo: uma pessoa poderia dizer “a missa é
voluntária, mas eu tenho que ir”. No caso do rito mágico, há uma característica irregular, anormal e mais
importante: para realiza-lo, há uma necessidade e não obrigação moral.

O parentesco da magia é com a religião, por terem similitudes em relação às suas finalidades. Mas a
magia também tem em certo grau parentesco com as técnicas e as ciências, pela força das idéias
mentais que é empregada na técnica e pela importância dada ao acúmulo de conhecimentos. “Mas
enquanto a religião, por seus elementos intelectuais, tende para a metafísica, a magia, que descrevemos
mais apaixonada pelo concreto, dedica-se a conhecer a natureza”.

Mauss compreende a magia como a primeira forma de representação coletiva e que posteriormente se
torna o fundamento do comportamento individual.

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4 Respostas para “Esboço de uma teoria geral


da magia”

Emerson da Silva
3 de abril de 2012 às 12:26

Garça e Paz pessoal!


Parabéns pelas postagens ficaram ótimas!
Frazer, considerado como autor da teoria da magia, foi criticado por Mauss e Malinowski por falar da superação
da magia pela ciência. Esta concepção de Frazer nos faz lembrar um pouco a teoria dos três estados de Augusto
Comte, onde ele afirma que o espírito humano para explicar o Universo teria passado por três estados: O estado
teológico e fictício, onde o homem explica a natureza através da intervenção de seres sobrenaturais; O estado
metafísico, que caracteriza-se na substituição dos deuses pelos diferentes tipos de força: força física, força
química, forças vitais, culminando na reunião de todas essas forças em uma única chamada de natureza. Aqui,
ha uma desconstrução da ideia de subordinação da natureza e do homem ao sobrenatural. E por fim o estado
positivo, este se baseia na subordinação da imaginação e da argumentação à observação. O conceito de causa,
no estado positivista, é substituído pelo de lei, onde procura-se explicar encadeamentos dos fatos pelas suas leis.

Outro ponto interessante do texto é a ideia de que : para serem considerados mágicos os atos ritualísticos
devem ser repetidos tradicionalmente. A título de ilustração, seria interessante ressaltar alguns ritos que
perduraram na nossa sociedade, dentre tantos, existe o de acender fogueiras no dia de São João Batista. As
festas ocorrem em junho porque na Europa este é o mês do Solstício de Verão (época em que o sol passa pela
sua maior declinação boreal – dias 22 ou 23 de junho), e os povos pagãos comemoravam a chegada desta
estação com rituais que invocavam a fertilidade para garantir o crescimento da vegetação, na fartura, na
colheita e clamar por mais chuvas. Eles achavam que dependiam dessas manifestações para evitar uma
calamidade.Costumavam acender fogueiras e tochas por acreditarem que assim livrariam as plantas e colheitas
dos espíritos maus que poderiam impedir a fertilidade. Esses rituais persistiram através dos tempos e na Era
Cristã não houve como apagá-los. A Igreja Católica, então, se viu obrigada a adaptá-los às comemorações do dia
de São João Batista que, coincidentemente, teria nascido em 24 de junho, dia próximo ao solstício.

A ideia de ritual presente no texto tangencia a diferenciação entre algumas técnicas e rituais religiosos, embora
tendo algumas semelhanças (a série de gestos do artesão, bastante parecida com a séries de gestos de um
mágico) atos rituais mágicos devem produzir uma eficácia além de contratos e convenções sociais. Os ritos
religiosos tem um caráter mais social, ao ponto de provocar determinadas sanções nos que se recusarem a
praticá-los. Já os ritos mágicos dependem da necessidade do praticante ou da pessoa que o procurou,
percebesse neste algo mais individual. A título de Ilustração,( para essa individualidade da magia) o poeta
brasileiro Augusto Branco escreveu: “Para realizar maior parte da coisas que desejamos, precisamos recuperar a
magia da infância, precisamos recuperar o Mago que há dentro de nós, e fazer valer a crença de que confiando
exclusivamente em nós mesmos, podemos ultrapassar qualquer fronteira”!

A magia possui alguns pontos de similitude com a ciência, dentre tantos podemos destacar as fórmulas
empregadas nos rituais mágicos, que expressam um determinado meio racional para a execução da prática.

Responder

Wellthon Leal
11 de maio de 2012 às 18:33

Para mim é por vezes estranho essa separação que é dita pelo autor, em que a Religião é mais obrigatória e
comum, e a magia é quase que uma raridade e ruptura. Acredito que esse conceito se encaixaria facilmente nos
moldes comparativos entre religiões, na qual o outro é magia e o meu é religião, mas que de fato o termo
“magia” acaba sendo usado de modo pejorativo.
Entretanto para isso ele afirma que a magia existe a partir do consenso com o grupo de que aquilo posto é
classificável como tal. Portanto mesmo que se veja que atitudes sejam mágicas, o ponto de vista do antropologo
é abafado pelo o que o nativo afirma ser.
De fato não consigo compreender essa divisão, tendo em vista que a observação de fora também é necessária e
fundamental para a construção do conhecimento cientifico.
Até que ponto a voz do nativo deve ser a palavra final? Vejo que toda religião possui sua magia, e mesmo que ela
seja negada pelos religiosos que acreditam em uma determinada religião o motivo e a razão para se estrar
frequentando tal religião é o efeito dela sobre os sujeitos. A busca é por esse efeito, e essa efeito transformador
nada mais é para mim do que a magia.

Responder
Sandro Freitas
13 de maio de 2012 às 21:09

Primeiramente, gostaria de parabenizar as colegas pela exposição do texto de Mauss. Também gostaria – já
corroborando com a apresentação – de ressaltar alguns pontos fundamentais neste importante texto que, ao
longo de mais de um século, influenciou as análises da antropologia, em especial, seus estudos voltados à
religião.
Em sua proposta de desenvolver um levantamento sobre a produção de conhecimento ligada ao tema “magia”,
Mauss ao mesmo tempo em que reconhece a importância, na obra de Frazer, da questão de transmissão da
magia por meio do contato e da mimese, o critica em diversos aspectos. As críticas se fundamentam tanto pelo
fato de Frazer ter desconsiderado diversos aspectos essenciais da magia, quanto pelo seu modelo evolutivo –
que explicaria a superação da magia pela religião. Mauss vai afirmar que a melhor forma de distinguir magia e
religião é através da distinção: Sacrifício (religião) x Maleficio (magia).
Por não possuir, ele vai defender a ideia da execução de um inventário sobre as diversas magias existentes e
afirma que para realizar tal empreitada, vai proceder sua análise através do modelo comparativo. Nesse sentido,
o que Mauss é que aqueles indivíduos que realizam o exercício da magia, já têm uma condição distinta no
interior do grupo que desta forma os trata como mágicos. Diante disso, se constitui como uma construção
social, já que não é que escolhe ser mágico, mas o é aquele que possui as qualidades já reconhecidas pelo grupo.
Para Mauss, é necessário que se defina a magia entendendo-a como aquelas ações que assim são caracterizadas
por todos do grupo (assim como foi mencionado no texto acima), e não apenas por uma parcela.
Em resumo, Mauss vai defender que a magia não pode ser entendida pela forma de seus atos, mas pelo contexto
a qual ela é praticada. É necessário entende-la como um fato social total.

Responder

Raoni Neri da Silva


13 de maio de 2012 às 22:41

Acredito que essa forma de diferenciar magia e religião a dotada por Mouss acaba por cair num viés, diferenciar
as duas apenas usando os informes dos membros da sociedade não basta, há a necessidade de um olhar externo
para que se possa observar de forma mais nítida as estruturas. Atualmente, acredito, que seria impossível obter
um consenso do que seria magia na nossa sociedade. Religião e magia acabam por se misturar de uma forma
que é muito difícil a dissociação.

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