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Dos princípios e métodos expostos no curso “Princípios e Métodos da

Auto-educação”, ministrado pelo prof. Olavo de Carvalho1


Um breve resumo2

1. Princípios

1.1 FUNDAMENTAIS

1.1.1 DA IRREVERSIBILIDADE DAS COISAS3

É de fundamental importância a compreensão de que certas coisas são


irreversíveis – permanecerão para sempre de tal forma, ou então outras que nunca mais
acontecerão –, portanto tudo que for feito deve corresponder a essa consciência de que
será imutável, por mais que se possa (ou se tente) esquecê-lo.
 Daí decorre que para a vida intelectual, não importa o que permanece nos
domínios da memória ou da especulação, mas apenas as ações efetivas.
Portanto, é apenas importante preocupar-se com o que se faz, não com a
imagem que vão ter daquilo que faz.

1.1.2 DO PRIMADO DA REALIDADE SOBRE A MENTE

É preciso que não haja tentativas de dominar intelectualmente as situações reais,


que sempre apresentam muito mais alternativas do que nossas construções lógicas são
capazes de conceber, e que, portanto, se tome a realidade como mestra.
 Daí decorre que sempre que se chegar a dilemas mentais ou construções
lógicas contraditórias, deve-se desistir de tentar resolvê-los logicamente,
assumindo a real condição de dependente da realidade, que, ao contrário do
que se pode pensar, não é dependente do pensamento individual. É preciso
aprender a trabalhar em estado de dúvida – a operar em aberto.

1.1.3 DA FORÇA DA VONTADE

A vontade é a força unificadora da personalidade, pois é ela que, moldando e


estimulando a imaginação, a faz suscitar na pessoa um desejo que, quando é assumido a
sério, torna-se vontade. Então, sem vontade nada acontece.
Existe uma diferença, porém, entre o querer sério e o querer imaginário. O
querer sério condiz à realidade da vontade mortal que se tem por determinada

1
Este resumo, por si só, é infinitamente precário em relação a todo o curso e até ao caderno de anotações
do curso. Portanto, sem que se tenha o caderno e/ou o curso em mãos, muito provavelmente nada disso
fará o sentido correto.
2
Os critérios de seleção, organização, nomeação e disposição dos princípios e métodos aqui expostos são
meus, ainda que haja claras indicações no próprio conteúdo do curso. Também minha é a
responsabilidade por sua transcrição, que não teve o aval nem a revisão do autor. Aliás, isto tudo não tem
o aval do autor. Portanto, isto pode ou não ser útil para quem quer que seja que tenha tido acesso a isto.
3
A ordem em que serão expostos os princípios e métodos, dentro das classificações gerais, não reflete
nenhuma continuidade de significações, pois todos são válidos isoladamente e, ao mesmo tempo, se
complementam mutuamente. A ideia era que só as classificações gerais já ajudassem para uma
continuidade de significações e que seus critérios se evidenciassem sozinhos.
realização e decorre da admiração ativa que se tem por determinado objeto ou conjunto
de ações. O querer imaginário é fantasiar desejos e, por muitas vezes, pode estar ligado
à admiração contemplativa, que é passiva em relação ao objeto admirado.
 Daí decorre que, já que se tem sempre ambas as admirações, é preciso que se
entenda que há nos modelos alguns aspectos a serem imitados e outros que
não devem ser buscados, e que só se deve tomar por inspiração. A balança é
a vontade.

1.1.4 DA IMPORTÂNCIA DA EMPATIA

O ideal para uma vida intelectual é que não se tenha auto-imagem alguma, assim
como nenhum julgamento sobre nenhuma outra pessoa. A empatia é de extrema
importância, e consiste em você ser capaz de sentir o drama da pessoa desde a posição
dela, com todas as contradições presentes no pensamento dela.
 Daí decorre que, justamente pelo fato de que sua representação da situação
dela será sempre parcial e imperfeita (já que você não é ela e não tem todos
os elementos constituintes da vida interna dela), é impossível mesmo
qualquer tipo de julgamento, pois não se pode julgar algo que não se conhece
inteiramente.

1.1.5 DA RELAÇÃO ENTRE A VIDA INTELECTUAL E A FÉ CRISTÃ

A realização intelectual deve sim ser atingida, pois é a vocação que nos foi dada
por Deus (em referência à passagem dos talentos, no Evangelho). Portanto, só se precisa
realizá-la para Deus, para mais ninguém.
É preciso conviver com as dúvidas sem permitir que elas afetem o núcleo da
nossa fé. Então, como cristão, você deve orar dia e noite para que o Espírito Santo o
guie e consinta em ser guiado por ele sem interferir. Não pode se preocupar com a
ortodoxia das coisas, porque você não sabe nada disso.
Neste tipo de aprendizado, não pode haver um caráter disciplinar (provas,
horários etc.), porque não é a autoridade do professor que importa, mas a da Verdade,
da Beleza e da Bondade. A ideia é produzir um amor por essas autoridades, não uma
obediência ao professor.
Evidentemente, nunca alcançaremos em vida um conhecimento infinito, porque
isso é incompatível com a nossa existência finita. Então não é para ter pressa.
Não permita que o elemento da falsidade penetre na sua integridade (funciona
muito aí o método confessional), porque a melhor coisa para conservar a sua memória
e a sua inteligência é a verdadeira sinceridade – não só nas palavras e ações, mas ser
sincero com você e, acima de tudo, com Deus.
É fazer de Deus seu único interlocutor, sua plateia, e agir diante d’Ele, querendo
agradar a Ele e a mais ninguém. Essa é uma esfera de atuação inalcançável para os
outros, muito superior ao sistema e que ele não abarca – “caminhar diante de Deus”.
Ninguém vai entender o que você está fazendo, mas ninguém precisa entender e é bom
que ninguém entenda mesmo. Essa é a fórmula mais velha do mundo: vide o
Evangelho. É só estar cagando e andando pra todo mundo que não for Deus. Isso é um
prazer e tanto, aliás.
1.1.6 DA VALIDADE DO TESTEMUNHO INDIVIDUAL

Tudo que se refere a alguma coisa real nunca pode ser objeto de uma prova
lógica inteiramente objetivada, que valha por si independentemente até da ausência de
ouvinte (como acontece, por exemplo, no reino da matemática, em que 2 + 2 são 4
mesmo que não se tenham 4 elementos ou até mesmo que ninguém saiba dessa regra,
pois a fórmula lógica, como não se refere a objeto real nenhum, é valida por si mesma).
 Daí decorre que a validação do testemunho humano depende de quanto
esse testemunho seja fidedigno ou não, e a fidedignidade do testemunho está
na sua experiência e na sua memória. Ou seja, não existe outra base do
conhecimento humano que não a experiência e a memória.
Só existe um modelo de certeza absoluta: a testemunha solitária. É o que
inaugura mesmo a nossa civilização (só Cristo sabia o que estava acontecendo). Isso
significa que não há nunca garantias externas a respeito da veracidade de nada. O
máximo de objetividade da verdade corresponde com a máxima dificuldade de prova.
Isso faz parte da estrutura do ser humano e do seu destino, não tem escapatória.

1.1.7 DA IMPORTÂNCIA DO DOMÍNIO DA LINGUAGEM

Só quando você alcança um amplo domínio da linguagem é que consegue agir


num meio social mais amplo. Portanto, a personalização da linguagem corresponde à
aquisição de um poder. É preciso dominá-la para que ela não o domine e, ao contrário
do correto, você passe a ver o mundo da forma genérica como consegue se expressar,
sem ser capaz de esmiuçar suas percepções por pura falta de domínio técnico
linguístico.
Ao ler um texto, não colocá-lo em dúvida desde o princípio, é preciso dá-lo
certo grau de credibilidade, sem medo de que ele lhe engane. Sem isso, você não tentará
levá-lo a sério e reconhecê-lo na realidade. Depois que você entende o que ele está
falando, aí tenta realizar aquilo imaginariamente, sem sacanagem alguma. Quando não
dá, é o caso da falha da não conexão real dos conteúdos.
Os cacoetes da linguagem acadêmica facilitam e estimulam esse erro de
abstração total, mas ainda não o obrigam. É preciso não se deixar hipnotizar pelos
conceitos que cria.

1.1.8 DO PROBLEMA DA EMOÇÃO

Emoções jamais indicam o que está acontecendo, elas só indicam o estado em


que você se encontra. Portanto, se você guiar suas decisões só pela emoção, vai errar
praticamente sempre. É preciso saber distinguir entre o sentir e o perceber, porque, se
logo que você percebe alguma coisa, vem uma emoção por cima, então aquilo que você
percebe dali para frente é a emoção, não mais aquela coisa.

1.1.9 DA IMPORTÂNCIA DA REMODELAGEM DE CONDUTA

É necessário que se pense em quais foram as deficiências da sua educação


doméstica que introduziram na sua personalidade vícios e deformidades. É preciso,
então, fazer uma revisão da sua vida, porque a vida intelectual não é possível sem que
você refaça toda a personalidade que lhe foi formada na sua educação fragmentária.
 Daí decorre que terá sim que se afastar de tudo e todos por um tempo, mas
deve fazer isso com respeito, sem brigas, pois é um afastamento por uma
questão de profilaxia, para que você não se acostume com aquelas pautas de
conduta que já estão consolidadas numa convivência viciosa – só por isso.

1.2 AUXILIARES

1.2.1 DA TÉCNICA

Na técnica (ao produzir um objeto técnico, qualquer que seja), não se pode ter a
pretensão de articular intelectualmente os vários aspectos da coisa, pois só há a
articulação física. O objeto condensará em si inumeráveis conhecimentos que não têm
conexão entre si, não respondem a um princípio comum e jamais poderão responder.

1.2.2 DA VOCAÇÃO

Perguntar-se pela sua vocação é perguntar-se qual o mal que você pode
combater indefinidamente sem que se afete negativamente por ele. Portanto, vocação
nada tem a ver com gosto, mas com certa resistência que você tem a determinada coisa
– o que é, com certeza, algo extremamente aprimorável, aumentando na medida mesma
em que aprende a combater e a vencer esse mal.

1.2.3 DA IGNORÂNCIA

Ao contrário da nesciência (desconhecer algo que você não deveria mesmo


conhecer – ou seja, inocência), a ignorância é não saber algo que, dada a sua condição
e seus objetivos de vida, você deveria saber. Portanto, a ignorância é sempre culpa de
alguém – ou só de você, que não quis ou não quer aprender tal e qual coisa, ou também
de alguém, que não está lhe ensinando o que devia – e, assim, não pode ser tolerada.

1.2.4 DA REALIZAÇÃO FINANCEIRA

Jamais se deve preocupar com dinheiro. É um problema unicamente


matemático que deve ser resolvido de forma unicamente matemática: se precisar de
dinheiro, diminua o ritmo dos estudos e vá ganha-lo e prove ser um homem capaz de
sustentar uma família. Qualquer carga emocional que der a isso, só irá atrapalhar.

1.2.5 DA ESFERA PÚBLICA DE ATUAÇÃO

É preciso experimentar tanto um longo período de estudo solitário quanto um


período de agitação, para que não se crie em você algumas ilusões, não a respeito da sua
inteligência, mas sobre a sua coragem. Muitos eruditos foram grandes covardes.
Uma hora será preciso que assuma posturas em público – não porque você
precisa disso, mas porque o país precisa. Então, se não estiver acostumado ou não gostar
de ter uma figura pública, desista.

1.2.6 DO TRABALHO EM GRUPO

Ter um grupo de amigos tão (ou quase tão) qualificados quanto você é bom,
mas nele não deve se tornar sua referência básica, senão você se torna um parasita deles
(ou o contrário). Você tem que dar alguma coisa para esse grupo de amigos e esse algo
certamente você não recebeu deles: é a parte que você tem que buscar sozinho. Mesmo
porque o grupo de amigos só tem um aspecto educativo quando junta várias gerações e
os jovens aprendem com os mais velhos.

2. Métodos

2.1 EIXO PRINCIPAL

2.1.1 PRIMEIRA ETAPA

2.1.1.1 MAPEAMENTO DO TERRENO PRINCIPAL

A primeira etapa do processo consiste no mapeamento do terreno daquilo que


lhe interessa. A essa etapa você deve dedicar, no mínimo, um ou dois anos da sua vida,
pois o mapeamento do terreno é anterior à escolha do caminho a seguir. O terreno a ser
mapeado deve ser, a princípio, o mais amplo possível e abarcar o território das questões
que lhe são fundamentais, às quais você sente a necessidade existencial de responder.
Você deverá ver quais são as disciplinas que melhor se articulam a isso. Para mapear o
terreno, os procedimentos são:
o Reunir decentemente a história de cada uma dessas disciplinas;
o Dentro dessas histórias, você deverá fazer uma cronologia dos autores e
obras que marcaram as etapas de desenvolvimento de cada uma dessas
ciências;
o É fundamental distinguir, dentro dessas cronologias, as fontes primárias
(que são os livros fundamentais e incontornáveis por todos os autores
subsequentes a eles) das fontes secundárias (que são os estudos feitos
sobre esses livros);
o E distinguir ainda, para cada livro recolhido, a diferença entre sua data
de publicação e a data de difusão de seu conteúdo, ou seja, quando
aquilo se tornou socialmente importante.
o Ainda, para cada autor considerado de forma especial, é preciso reunir
sua fortuna crítica, que é aquilo que a crítica fala sobre ele ao longo do
tempo, a noção geral que se tem sobre aquele autor.
 Daí decorre que esta etapa de estruturação das cronologias só acaba quando
você morre, pois se desenvolve à medida da sua necessidade e do seu
interesse.

2.1.1.2 MAPEAMENTO DAS ÁREAS CONTÍGUAS

O mapeamento não deve apenas ser feito a respeito da área específica que quer
atuar, mas deve conter também as áreas contíguas. Para isso, usar o princípio de
Aristóteles da credibilidade dos quatro discursos:
Discurso Poético  Credibilidade de mera possibilidade;
Discurso Retórico  Credibilidade de verossimilhança;
Discurso Dialético  Credibilidade de probabilidade razoável;
Discurso Lógico-Analítico  Credibilidade de certeza absoluta.
 Daí decorre que a primeira área de mapeamento é o terreno poético da Arte,
no qual você deve, além do trabalho das cronologias, absorver as formas
musicais, de pintura e de representação e tê-las na memória. Depois, partirá
para o terreno retórico das Discussões sócio-político-religiosas, da persuasão
coletiva (fazer as cronologias também). Depois disso, entrará no terreno
dialético das discussões de Filosofia, mas só depois de ter realizado o
trabalho nos campos anteriores. Por fim, entrará no território lógico-analítico
das Ciências e suas descobertas, que, surpreendentemente, é bem menor,
porque pouca coisa se sabe realmente com certeza absoluta. Só depois disso
tudo, então, é que você vai se perguntar sobre qual é a questão que lhe
interessa resolver.

2.1.2 SEGUNDA ETAPA

2.1.2.1 LEITURAS ESPECIALIZADAS

Só quando chegar a hora das pesquisas especializadas é que você vai entrar no
oceano das bibliografias secundárias. Aí não tem muita regra de orientação, apenas a
sorte e a precaução de que não é porque ninguém falou sobre determinado ponto que o
ponto não é importante – e, no mais, saber que seria bom se você lesse rápido bem.
A própria leitura depende do trabalho de mapeamento do território cultural e
intelectual, porque ela é mais bem feita na medida em que seu horizonte de
consciência se amplia e se torna comparável ao do autor que está lendo. Quando isso
acontecer, nenhuma técnica de leitura e assimilação será necessária (fichamentos, por
exemplo).
Antes, porém, de ler uma obra sequer dessas disciplinas escolhidas, é preciso ter
uma visão unificada do desenvolvimento histórico dela. Portanto, só serão lidas as
obras que tiverem uma importância objetiva no desenvolvimento daquela disciplina e as
que tiverem uma importância pessoal para aquilo que você quer saber em particular.
Como um óculos, que você põe não para ver as lentes, mas as coisas, as
filosofias também são as lentes feitas para que você veja objeto mais precisamente. É
preciso ir muito além do texto escrito e focar-se no objeto real em si, não tomar a
filosofia como próprio objeto de estudo porque ela mesma não foi feita para isso.
 Daí decorre que haverá sempre uma tensão entre a fidelidade à interpretação
do texto e a realidade do objeto. As duas coisas nunca estão perfeitamente de
acordo.

2.1.2.2 CRIAÇÃO DA PERSONALIDADE LITERÁRIA

Todo grande autor tem um critério estilístico consciente, que ele escolheu,
raramente é natural (só é quando os critérios já estão profundamente arraigados nele). É
preciso captá-los, ainda que não intelectualmente, mas perceptivamente – sentir a coisa.
Mas eles podem sim ser puxados da escrita e até expressos em palavras (por ex.: o
critério de escolha de vocabulário de Graciliano Ramos, que faz com que ele jamais
escolha usar um termo erudito quando ele pode usar um popular). São os estilos
literários.
 Daí decorre que, ao contrário da personalidade com a qual já nascemos e que
desenvolvemos ao longo da vida, a personalidade literária é algo que deve
ser criado. O estilo literário nada mais é do que a expressão de algum
temperamento que o sujeito tem e que ele consegue transpor na sua
personalidade literária. Ela é, portanto, criada por escolhas e, quando mais
honestas e sinceras elas forem, mais autêntico será o estilo. Isso é escrever
como você mesmo: você verá que, quando tem mesmo alguma coisa séria
para dizer, nenhum estilo de autor algum dará conta, por si só, de abarcar seu
propósito e, então, é combinando-os que você cria o seu estilo.

2.2 TÉCNICAS AUXILIARES

2.2.1 DE CARÁTER ESPECULATIVO

2.2.1.1 NÍVEIS DE CONHECIMENTO

É preciso perceber que você tem pelo menos três níveis de conhecimento:
Conhecimentos fundamentais: são os princípios-chaves que já se incorporaram
nos seus mecanismos de percepção e que determinam a sua maneira de perceber o
mundo (mesmo que não se lembre de onde os adquiriu ou nem se tenha clara
consciência de quais são, eles são facilmente identificáveis nas conversas e discussões
com outras pessoas em que se notam grandes diferenças de opinião entre você e elas –
não pontualmente em relação a determinadas coisas, mas diferentes chaves gerais que
orientam a sua percepção num sentido diferente do das demais pessoas).
Conhecimentos prováveis: os que não são tão básicos, mas que você acredita ter
e provavelmente tem.
Conhecimentos possíveis: os que de certo modo você não tem, mas que estão ao
seu alcance a qualquer momento que queira possuí-los.
 Se   “o   conjunto   de   conhecimentos   que   você   tem   só   vale   na   medida   em   que  
você pode classificá-los”  (Aristóteles),  daí  decorre  que  saber classificá-los é
de extrema importância, maior até do que aprofundar-se em determinado
seguimento de conhecimentos.

2.2.1.2 GRAUS DE CREDIBILIDADE

Conhecer alguma coisa com razoável nível de eficiência é saber graduar o


quanto de certeza você tem àquele respeito. Para isso, é preciso fazer uso dos quatro
graus de credibilidade sobre os conhecimentos adquiridos, propostos por Aristóteles:
Certeza absoluta: aquilo que você tem comprovação de que sabe;
Probabilidade razoável: aquilo que é muito provável que saiba;
Verossimilhança: aquilo que parece que você sabe;
Possibilidade: aquilo que é meramente possível que você saiba.
 Daí decorre que é preciso fazer essa análise com todos os conhecimentos que
já tem e os que venha a alcançar.

2.2.1.3 GÊNEROS LITERÁRIOS

É preciso conhecer os gêneros literários para que se saiba qual grau de


credibilidade cada escrito tem e o que você pode e não pode esperar daquilo. Atentar-se,
porém, com o problema da verossimilhança: às vezes a coisa aconteceu mesmo, mas,
narrando-a, você não consegue expressá-la com verossimilhança.
 Daí decorre que a verdade intrínseca dos fatos narrados nem sempre
corresponde à verossimilhança da narrativa que os expressa. Isso é assim
porque a verossimilhança depende não só do contador da história, mas
também do ouvinte: a linguagem deve ser adequada a quem a recebe.
Depende também da intenção da narrativa: se for uma história real, uma
narrativa factual, necessita de provas reais, usadas de tal e qual maneira que
melhor a justifique; se, em vez disso, se tratar de uma narrativa simbólica,
história imaginária, as pretensões de comprovação real são bem menores.

2.2.1.4 SISTEMA DAS CIÊNCIAS

É preciso conhecer também o sistema das ciências: o sistema que classifica e


ordena em diferentes áreas o todo do conhecimento humano. Nunca essa distribuição e
classificação em disciplinas e ciências diferentes resolveu completamente a divisão
entre os diferentes assuntos do conhecimento humano, mas conhecer as divisões
disciplinares que foram feitas ao longo da história e também a que está correntemente
em uso hoje, nos seus acertos e problemas, é fundamental para que você se oriente
naquilo que estuda e saiba encaixar aquilo dentro do todo.

2.2.1.5 TOPOGRAFIA DA IGNORÂNCIA

É preciso fazer um mapa da sua ignorância: esse mapa (que dará sempre conta
do seu conhecimento ou desconhecimento a respeito apenas de determinada área do
saber, não sendo nunca capaz de abranger o todo da sua ignorância) servirá para elencar
o que lhe falta saber para compreender alguma coisa que queira e deva compreender.
 Se   “todo   conhecimento   parte   de   algum   conhecimento”   (Aristóteles),   daí  
decorre que o mapeamento da sua ignorância partirá sempre de algo que
você já conhece em partes, sendo que esse mapa se constituirá, portanto, de
imagens e dúvidas que você tem a respeito daquilo – sobretudo das mais
vitais e existenciais dúvidas, o resto não vale a pena a não ser para auxiliar a
composição geral, pois não diz respeito às suas reais vontades.

2.2.2 DE CARÁTER PRÁTICO

2.2.2.1 REUNIÃO DE MODELOS

A coleta, reunião e constante remodelagem de uma constelação de modelos é o


começo da auto-educação.
(Teste 1: modelo é, por exemplo, o livro que leu e que o fez querer tê-lo
escrito você mesmo;
Teste 2: é modelo também o livro que foi escrito de uma forma que o
faz querer escrever exatamente daquele jeito;
Teste 3: o professor que, em alguns pontos do ensinamento, traduz
certos aspectos de uma personalidade intelectual que o faz querer
buscá-los)
 Daí decorre que os modelos são, para você, representantes daquilo que você
pode realmente fazer, pois é o que o move. São também, portanto, medidas
de  aferição  do  seu  desenvolvimento  intelectual  (“não  está  bom  enquanto  não  
estiver  de  tal  jeito”). A modéstia intelectual, portanto, não pode existir.

2.2.2.2 MODELOS DE EDUCAÇÃO

Como auto-educação é educação, é preciso entender o que é ensinar e educar


antes de ensinar-se e educar-se. Portanto, é preciso ler uma boa História da Educação
e perceber os pontos da história em que a arte de educar atingiu seus picos de eficiência
e genialidade.
(1º momento: a própria pessoa de Sócrates;
2º momento: florescimento do ensino universitário nos séculos XII e
XIII;
3º momento: no Romantismo Alemão do final do século XVIII, início
do XIX;
4º momento: florescimento do ensino universitário em Viena no início
do século XX;
Outros: o ensino do Vedanta indiano, os letrados Chineses e mais.)
 Daí decorre que é preciso, desses pontos culminantes, tirar modelos de
inspiração ou técnica e aplicá-los no seu próprio estudo (como, por
exemplo, a estrutura de raciocínio de que fazia uso Sócrates quando queria
levar alguém a entender alguma coisa, a precisão descritiva de Aristóteles ou
a disputatio medieval da escolástica).

2.2.2.3 IDENTIFICAÇÃO STANISLAVSKIANA

Para compreender verdadeiramente a diferença entre as suas chaves de


percepção do mundo e as de outra pessoa e saber identificar onde elas incidem em erros
(e se incidem realmente), é preciso fazer uso do princípio de identificação
stanislavskiana (o mesmo processo da memória afetiva): perguntar-se como aquela
pessoa vê as coisas e colocar-se numa situação análoga à dela, participando imaginativa
e afetivamente das condições existenciais e imaginárias que geram aquela opinião,
entendendo não só o conteúdo verbal expressado, mas principalmente a percepção que a
pessoa teve e que a motivou a expressar-se sobre aquela coisa.
 Daí decorre que há um momento de compreensão que é anterior a qualquer
julgamento que se possa fazer sobre qualquer opinião de qualquer pessoa;
esta prática deve lhe levar a perceber que, na verdade e na grande maioria
dos casos, por mais que a expressão da pessoa esteja inadequada, sua
percepção foi verdadeira e real, havendo “apenas”  um erro no trajeto entre
percepção e expressão.

2.2.2.4 MEDITAÇÃO

A meditação procede ao contrário da demonstração ou prova: vai dos conceitos


abstratos que você lê até as experiências humanas de base que geraram aquele conceito;
vai do raciocínio lógico à memória/imaginação; é, portanto, ao contrário de uma
abstração, uma concreção. Você não necessariamente chega às situações exatas do
autor, mas àquelas das quais você poderia partir para chegar numa conclusão análoga –
isso remete à identificação stanislavskiana. Deve-se fazer esse trabalho de meditação
na segunda etapa do processo, em relação às leituras de bibliografia secundária, e em
praticamente todas as linhas que ler.
 Daí decorre que, na realidade, todo e qualquer conhecimento lido ou escrito
que não tenha raiz numa experiência real, nada vale, porque não ter
significado concreto significa ser maleável e aplicável a qualquer significado
concreto. Quando esse erro é cometido por grandes filósofos e adquire as
proporções de falha estrutural de um sistema filosófico inteiro, aí recebe o
nome de paralaxe cognitiva. A meditação é, portanto, antídoto contra a
paralaxe.

2.2.2.5 PENSAR O QUE PENSA

Para graduar sua confiabilidade nos seus conhecimentos, é preciso fazer o


exercício de expressar para você mesmo aquilo que está pensando (pensar o que
pensa). As opiniões que mais nos governam são as que não conseguimos expressar, as
que permanecem como que numa névoa pré-verbal e até parecem ser sentimentos,
reações ou emoções indizíveis. Quando as expressamos, percebemos que, em 99% dos
casos, tratava-se de pura besteira. É preciso também fazer esse exercício, depois, com
tudo que se ler: falar pra você o que parece que o autor está querendo dizer.

2.2.2.6 LEITURAS INSPECIONAIS

É comum e bom que se façam leituras inspecionais: alguns livros que você só
lê índice, prefácio, conclusões, uma parte ou outra do conteúdo etc. Isso o ajuda a
compor o conhecimento a respeito das diferentes áreas do saber humano e o que
corresponde a o que.

2.2.2.7 CONHECIMENTO DA CIÊNCIA HISTÓRICA

É preciso entender o significado do surgimento da ciência histórica dentro do


panorama cultural do século XIX, para que se compreenda o desenvolvimento dessa
disciplina também. Um bom autor é G. P. Gooch.

2.2.2.8 ANTECIPAÇÃO DA LEITURA

Há outras formas de conhecer além de ler livros: perguntar algo a alguém,


explicar algo para você mesmo e até antecipar um conhecimento sobre determinado
objeto que está começando a investigar – essa antecipação (palpite), provando-se
correto ou não, cria como que uma superfície de contraste àquilo que você descobrir a
respeito daquele objeto, o que o ajuda a percebê-lo com mais nitidez. Essas três outras
formas, aliás, preparam melhores leituras.

2.2.2.9 LEITURA DE CRÍTICAS LITERÁRIAS

A leitura de críticas literárias sérias é recomendável, pois são literatura


também. A literatura é uma expressão estética da experiência real, a crítica literária é a
expressão estética da experiência de se ler a obra literária. Uma boa crítica pode fazer
com que a sua reação frente a uma grande obra de arte se enriqueça muito, podendo até
transcender a sua capacidade de expressá-la.
2.2.2.10 IMITAR A ESCRITA DOS GRANDES AUTORES

Imitar a escrita dos grandes escritores é uma questão de ouvido: não é escrever
as mesmas palavras sobre as mesmas coisas (porque isso é cópia, e não imitação), mas é
tratar de outras coisas com outras palavras e fazer aquilo soar como se fosse o autor que
está imitando. Às vezes não precisa nem ler em voz alta, porque o ouvido imaginário já
capta a semelhança.
(Teste: tente imitar dois autores muito diferentes e sentirá a diferença.)

2.2.2.11 FORMAÇÃO E MEMORIZAÇÃO LITERÁRIAS

Esforço de memorização só é válido não com obras de filosofia ou de ciências,


mas com grandes obras de literatura – Shakespeare, por exemplo. Porque seus versos
iluminarão diversos aspectos da vida e a cada nova experiência, você encontrará um
novo significado para aquele verso.
Uma formação literária é, portanto, indispensável – sem ela, nada feito. Passe
anos, então, lendo os grandes clássicos da literatura ocidental (incluindo as obras de
teatro), porque só se aprende a falar com os grandes escritores.

2.2.2.12 CONTROLE DE RESULTADOS

Aprender a controlar seus resultados medindo-os pelos resultados obtidos por


outras pessoas nos ambientes decentes das universidades de hoje em dia no mundo.

3. Meios de auto-defesa intelectual

3.1 JAMAIS CAIR NA CONDUTA HISTÉRICA

A vida intelectual séria requer que você seja capaz de distinguir entre o que está
realmente acontecendo e o que você está supondo. Nem sempre sua conduta vem da sua
mente, às vezes, ao contrário, sua conduta molda a sua mente e você passa a ajustar seus
pensamentos e reações para justificar determinados atos que fez, portanto não é
possível permitir que sua mente seja moldada por uma conduta histérica. A
conduta que não vem diretamente do coração, vem de alguma periferia – as periferias
são as muitas personalidadezinhas imitativas que fomos criando ao longo do tempo para
agradar ou manipular as pessoas –, portanto deve ser eliminada.
Uma conduta tem uma presença física, são atos, ao passo que o que está na sua
mente é apenas um fluxo informe de imagens, portanto a conduta tem um peso maior
que o pensamento. Então o que você não pode fazer é isso: ajustar seu pensamento para
justificar sua conduta. Você tem que reagir da maneira que for contra esse tipo de coisa,
protegendo sua mente, seus princípios e valores. Respeitar o que não merece ser
respeitado é desrespeitar o que merece ser respeitado.

3.2 MANTER INTACTO O SENSO ESTÉTICO

Existe um limite de exposição à feiura: para você que está tentando colocar
ordem na mente enquanto a desordem penetra seus olhos a todo o momento, é preciso
criar uma auto-defesa estética e um senso de forma harmônico.
3.3 RESPEITAR A ORDEM NATURAL DA INTELIGÊNCIA

Tem coisas que não dá pra ler agora mesmo, pois são tão artificiais e forçadas
que farão mal à inteligência por tentar impor na sua mente estruturas que contradizem a
ordem natural da sua inteligência – isso não é bom e nem pode acabar bem.

3.4 NÃO SUCUMBIR À FALSA INTIMIDAÇÃO

Não se permita cair no engodo de intimidação implícita e falsa criado pela


classe intelectual dominante de hoje, pois isso prejudicará a sua própria percepção da
realidade e, logo menos, se passar a acreditar no que imagina e não no que vê, cairá
numa conduta histérica: a diferença entre a conduta histérica e a saudável é que o
homem saudável gradua sua reação e seu medo pelo tamanho real da situação, enquanto
que o histérico gradua a imagem da ameaça pelo tamanho do seu medo e supõe que,
como está com muito medo, a coisa seja muito grande.

3.5 MANTER-SE EM CONSTANTE ABSTINÊNCIA DE OPINIÕES

Não tenha opinião nenhuma sobre coisa alguma, porque a opinião vem
sempre carregada de um aspecto emocional, que, por sua vez, está sempre acompanhado
ou de uma condenação ou de um louvor. O predomínio das emoções de amor e ódio é
altamente nocivo à inteligência e, portanto, não é necessário e muito menos normal ter
uma opinião a favor ou contra todas as coisas.

3.6 SOBREPOR-SE AO SISTEMA, E NÃO MUDÁ-LO

A questão não é mudar o sistema. Se você quer mudá-lo, é porque vive em


função dele e porque continuará vivendo só em função dele. É sair da peça de teatro que
todo mundo está vivendo, não reagir com a mesma espécie de conduta que eles, não ter
as mesmas motivações e não procurar ser entendido por ninguém. Portanto, não se trata
de mudar o sistema, mas de se sobrepor a ele, substituí-lo pela realidade que está
descobrindo. Quando você faz isso, você adquire um poder extraordinário.

3.7 INTERFERIR SÓ QUANDO NECESSÁRIO, FAZER SÓ O CERTO

Se o sujeito está dizendo besteira apenas num círculo de convivência pessoal


(em família, pequeno grupo de amigos etc.), é claro que você ignora e fica quieto (a não
ser que alguém lhe peça abertamente para interferir e desmascará-lo). Mas, se ele está
numa posição de profissional e falando para a sociedade (como é o caso do professor
universitário), aí você tem que interferir. Mas não é para dar a sua opinião, afinal só se
opina sobre aquelas questões em que se pode preferir uma coisa ou outra, mas não dá
para preferir que 2 + 2 sejam 5.
 Daí decorre que o que você tem que fazer é mostrar o conhecimento que
você tem a respeito daquela questão e os pontos exatos em que a burrice do
sujeito se manifesta. Será uma humilhação para ele, então você não tem que
buscar essas situações, mas deve fazer isso só quando a humilhação for
útil, para ele e para os outros, não apenas por você ter se irritado. Portanto,
não é para entrar em discussões em geral, mas só quando você vê que é
necessário quebrar o falso prestígio que vem se criando em torno de um
pangaré. Você só poderá fazer isso se, antes, tiver os meios e os
conhecimentos necessários. É simples: do the right thing; veja o que é bom
ser feito e o faça. Às vezes é bom que você fique quieto, às vezes não.

4. Mensagem

Vê-se que o trabalho que se tem a fazer é imenso. Primeiro, há todo esse
trabalho interior de remodelagem de conduta, sem o qual nada mais será possível. Um
dia você vai ter que trocar todos esses papéis que você foi levado a (ou escolheu)
representar e acabar com esse teatro. É sim uma espécie de psicanálise, mas sem isso...

A eficiência de tudo que fizer externamente é determinada pela profundidade


com que você atuou internamente. Se você consegue ir até a raiz do que faz, então isso
adquire certa força. E aí, mesmo que você não tenha os canais e meios sociais para fazer
valer sua opinião, ela vai pesar. Pois é essa justamente a força intrínseca da
autenticidade e da verdade, que é a única força da vida intelectual e, sobretudo, da
vida literária.

Em literatura, o fingimento e a hipocrisia são mortais. Por isso, então, a


abstinência de opiniões – porque você não está pronto ainda, se brigar vai apanhar. O
que vai lhe dar força é justamente esse aprofundamento, é a sua presença diante de
Deus, completamente pelado. Você saber que Ele vê tudo e acostumar-se com a ideia de
que não sabe o que Ele está pensando, mas que Ele sabe o que você está pensando. Na
reza, isso é fundamental: saber que aquela reza está sendo ouvida naquele exato
momento.

Essa é a base da sinceridade e é a base da força da palavra, que só tem força


quando vem muito do fundo – senão, não. Vir do fundo não é vir da intensidade da sua
emoção, isso é teatro. O fundo é a verdade do seu coração. É isso que você tem que
buscar vinte e quatro horas por dia.

É no caminho dessa busca que você vai percebendo as suas condutas imitativas.
Nem sempre você imita o que você admira, mas às vezes acaba imitando o que você
teme, na tentativa de, sendo igual àquilo, neutralizá-lo. Na hora pode até funcionar, mas
você continuará imitando aquilo inconscientemente. Então, contra essa imitação semi-
consciente, ponha no lugar uma imitação consciente de algo que você realmente queira
imitar e que valha a pena ser imitado. Quando não tem mais quem imitar por perto, aí
você inventa.

Portanto, esse aprendizado da vida intelectual implica toda uma operação


psicológica de grande porte e não há psicoterapeuta algum e nem ninguém que lhe ajude
nisso. Nem eu: eu estou dando as dicas, mas eu jamais vou fazer isso com você
diariamente – e nem conheço quem faça. O que pode ser bom é ler os diários dos
grandes escritores e santos; diários e livros de memória e confissões são
importantíssimos para a formação psicológica e moral das pessoas, é melhor do que
qualquer técnica. O exercício de sinceridade narrativa é essencial e o foi para todos os
grandes escritores e santos. Suas confissões são mostruários da sinceridade universal.

Mas, no fundo, tudo é muito básico: é só ser sempre o mais sincero possível.

Olavo de Carvalho