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Identidade e diáspora:

a redefinição identitária de estudantes africanos no Brasil


RILDA BEZERRA DE FREITAS *

Resumo: As intenções analíticas desse estudo circunscrevem a exigência de tecer


teórica e criticamente a relação existente entre identidade e diáspora. Trata-se,
portanto, de um esforço conceitual e reflexivo, na tentativa de identificar rupturas,
desconstruções e reconstruções da categoria identidade no âmbito das ciências
sociais e humanas, relacionando-a com os processos diaspóricos vivenciados por
estudantes de origem africana que migram para o Brasil em busca de concluir o
ensino superior. Para isso, tomou-se como quadro de referência teórico-
metodológica o “Campo dos Estudos Culturais”, circunscrito como campo de
estudo dinâmico, inacabado e em permanente mutação. O desafio é, pois, levantar
pontos para consubstanciar essa análise, na tentativa de aprofundar e acirrar o
debate sobre os deslocamentos, fluxos migratórios e processos de diáspora
vivenciados no tempo presente por estudantes africanos que migram para o Brasil.
Palavras-chave: Identidades; Fluxos migratórios; Processos de diáspora; Jovens
estudantes africanos.

Identity and diaspora: the identity redefinition of African students in Brazil


Abstract: The analytical purposes of this study involve the demand of treating the
critical and theoretical relation which there is between identity and diaspora. It
treats about therefore, a conceptual and reflexive effort, in order to identify
ruptures, deconstructions and reconstructions of the identity category involving the
human and social sciences, relating it to the diaspora processes. African students
have lived these processes when they move to Brazil in order to conclude their
superior education. In order to study this, the investigation was based on the
Cultural Studies Field as the theoretical and methodological picture reference. The
Cultural Study Field circumscribes the dynamic study field, not concluded and it
stays in changing. The challenge is therefore to discuss points in order to construct
the analysis, and this way to intensify the debate about the mobilizations, migratory
fluxes and diaspora processes in Brazil. Young African students have lived these
processes nowadays.
Key words: Identities; Migratory fluxes; Diaspora processes; Young African
students.

*
RILDA BEZERRA DE FREITAS é Doutora e Mestre em sociologia pela Universidade
Federal do Ceará (UFC).

1
1. Introdução tendência de transnacionalização e
globalização em curso na sociedade2.
1.1. O objeto de estudo em suas
exigências e sutilezas: A relação Sobre a tendência de
existente entre identidade e diáspora transnacionalização e globalização em
no contexto contemporâneo curso na sociedade, tomei de
O esforço analítico desse artigo resulta empréstimo a descrição de Boaventura
das demandas do próprio objeto de Sousa Santos (2001) sobre o tempo
presente. Nessa compreensão, a
investigativo, que exigiu pesquisas e
leituras sistemáticas sobre a questão das contemporaneidade constitui um
cenário de processos, transições e
identidades contemporâneas. Tais
leituras foram fundamentais para o mudanças radicais, as quais apontam
para um novo padrão civilizacional.
entendimento do chamado processo de
“fragmentação identitária” e Nessa perspectiva, é possível afirmar
que vivenciamos, hoje, uma fase de
“descentramento do sujeito”,
denominado por alguns autores de crise transição societal e paradigmática, que
desencadeia múltiplos enfoques acerca
identitária1. Em verdade, essa
compreensão hoje é entendida como um da discussão contemporânea de
contexto mais amplo de mudança social, identidade. Daí, o entendimento de que
que parece deslocar estruturas e a concepção de identidade, com origem
processos centrais das sociedades na teoria antropológica tradicional, hoje,
modernas, balançando, assim, os no contexto das ciências sociais e
quadros de referência que davam aos humanas, também passa por múltiplas
indivíduos uma ancoragem estável no discussões e rigorosas críticas.
mundo social. Para muitos autores, o contexto atual é
Diante da multiplicidade de enfoques definido como um período contraditório
que permeiam o conceito de identidade, e de “trânsito” societal. O que torna,
resolvi adotar o “Campo dos Estudos talvez, pertinente a critica sobre a
Culturais” (HALL, 2003) como concepção de uma identidade fixa,
referência teórica. De fato, optei por originária e essencialista,
utilizar aportes que retomam a questão consubstanciada pela luta por direitos
da identidade como base conceitual de humanos e de cidadania como
investigação, na tentativa de entender o 2. Chama-se globalização, transnacionalização
processo de deslocamento vivenciado ou mundialização, o processo de
por jovens africanos que migram para o interdependência entre os povos e países da
Brasil com o objetivo de realizar a terra. Como diz BHABHA (2007), somos
formação universitária, tendo ao fundo a obrigados a “viver nas fronteiras do presente”,
nas quais o indivíduo, a identidade, a história e a
cultura não se situam apenas no nível do grupo,
da classe, da nação e, “apesar de não perdermos
a fisionomia original, ultrapassamos fronteiras e
situamo-nos para além”. Além de nossa terra
natal, além dos nossos valores. A todo o
1
Vale destacar que o esforço investigativo desse momento se aprende novos valores através da
estudo não é avaliar se existe uma “crise de TV e dos meios de comunicação. O que
identidade”, ou em que consiste essa crise e que predomina hoje é uma sociedade mundializada,
direção ela está tomando, mas, sim, entender os global, na qual todas as marcas,
delineamentos acerca do conceito particularidades, segmentos e singularidades
contemporâneo de identidade para pensar os possuem traços e determinações conferidos pelo
processos diaspóricos de jovens africanos e seus movimento geral de uma sociedade capitalista
deslocamentos para o Brasil. mundial e integrada.

2
afirmação de uma “essência” negra, Nessa “explosão discursiva”, sustento a
feminina, indígena etc. Cabe aqui ideia de que esta categoria, ou seja, a
indagar: existiria uma essência negra, identidade assume uma posição central
indígena e feminina, de fato? Segundo na teoria e na prática contemporânea,
Stuart Hall (2003), essa é uma questão a legitimando-se por meio de uma forte
ser entendida sob um duplo ângulo: de conotação política no enfrentamento das
um lado, critica-se a concepção de desigualdades e no reconhecimento das
identidade fixa e essencialista, partindo diferenças. Tal visão elabora a crítica
da ideia de que outra inflexão temática que norteia a ruptura com a concepção
começa a se delinear no tempo presente; tradicional de identidade, atentando
de outro, ocorre uma efervescência de para o fato de que “as velhas
debates em torno da questão das identidades, que por tanto tempo
identidades, assumindo-as como assunto estabilizaram o mundo social, estão em
em pauta nas agendas políticas e sociais declínio, fazendo surgir novas
da contemporaneidade. Para o autor, identidades e fragmentando o indivíduo
vivenciamos hoje uma “uma explosão moderno, até aqui visto como um
discursiva” (2000, p. 103), em torno sujeito unificado” (HALL, 1999, p. 07).
desse conceito.
Nesse debate, se entrecruzam diferentes
Partindo desse duplo ângulo, Nestor vertentes teóricas e múltiplas
Canclini (2001, p. 165), questiona: representações construídas por sujeitos
“onde reside a identidade? Com que que experimentam os chamados
meios ela é produzida e renovada processos “diaspóricos” e as
hoje?”. Ou na formulação de Cuche redefinições identitárias. Daí, a ideia de
(1999, p. 107): “importa saber o que refletir sobre a saga de estudantes
significa essa “moda” das identidades africanos que migram para o Brasil em
[...], sobretudo, o que se entende por busca de formação profissional,
identidade?” Ou ainda, no dizer de tomando a discussão contemporânea
Santos (2006, p. 249): “as identidades sobre identidade como ponto fundante
contemporâneas são o produto de jogos da análise, a qual traz como arcabouço
de espelhos3 [...]. São sempre teórico-metodológico o Campo dos
relacionais, mas raramente recíprocas”. Estudos Culturais e, de certa forma, a
Teoria Pós-colonial4, como campos em
3
Segundo Boaventura de Sousa Santos, a permanente criação, ruptura e
identidade é originariamente um modo de reconstrução identitária. Teoricamente,
dominação que se assenta numa forma de o Campo dos Estudos Culturais possui
produção de poder que o autor designou por uma conotação política de forma
“diferenciação desigual” (SANTOS, 1995, p. 42
demarcada, no sentido de criticar os
- 428; SANTOS, 2000, p. 284-290). Para o
autor, “As identidades subalternas são sempre poderes tradicionais e as consequentes
derivadas e correspondem a situações em que o
poder de declarar a diferença se combina com o
poder para resistir ao poder que a declara complexidade embutida na metáfora dos jogos
inferior. Portanto, ao tratar de jogos de de identidade.
4
identidade, vale destacar que um determinado Segundo Hall, o êxito dos Estudos Pós-
sujeito, povo ou cultura pode ocupar os dois Coloniais deve-se à repercussão internacional
lados do espelho, ou seja, constituindo-se, ao dos Estudos Culturais. Sobre essa discussão
mesmo tempo, “próspero e subalterno”, vide: HALL, Stuart. Pensando a diáspora:
dependendo da compreensão e do ponto de reflexões sobre a terra no exterior. In: SOVIK,
vista. Um exemplo disso é a colônia Portuguesa, Liv (Org.). Da diáspora: identidades e
que esteve, ao longo da história, dos dois lados mediações culturais. Belo Horizonte, Ed.
do espelho: próspera e subalterna. Daí a UFMG, Brasília: UNESCO no Brasil, 2003

3
desigualdades no mundo, Em verdade, os processos de
desenvolvendo, desse modo, uma deslocamentos e de redefinições
“crítica por dentro”, ao contrário dos identitárias vividos por aqueles que
Estudos Pós-Coloniais, que têm como mudam de lugar também representariam
proposta fazer uma “crítica de fora”, um forte sentimento de identidade ou
“uma espécie de descolonização identificação com a cultura de origem,
cultural” (DEWULF, 2005, p. 135). mantida através de costumes, crenças,
língua ou pelo sentimento de querer, um
No esforço de relacionar
dia, retornar. É inegável que essa forma
“identidade/diáspora”, cabe aqui
de sobrevivência alimente um estado de
indagar: qual vínculo existiria entre
espera para quem vivencia ou vivenciou
identidade e diáspora no contexto
este processo. Nas palavras de HALL
contemporâneo, afinal? Em resposta a
(2003, p. 415), essa espera só pode ser
essa questão, Stuart Hall (2003), em seu
livro sobre a Diáspora, afirma que, em entendida a partir do “enigma de uma
chegada sempre adiada”, mantida pela
pleno século XXI, a narrativa da
diáspora, como discurso de libertação, esperança em algo que ficou lá atrás.
Desse modo, quando se trata de pensar
de crença na redenção ou fuga da vida
as influências da diáspora na construção
de opressão está mais viva do que
de identidades culturais, é preciso
nunca, e pode ser resgatada para os dias
entender que, atualmente, as sociedades
de hoje. Desse modo, o autor retoma o
são compostas não só por um, mas por
debate sobre os modelos coloniais, em
que Nações-Estados constituídas diversos povos. Os sujeitos que
buscavam a formação de verdadeiros originalmente possuíam a terra, em
impérios pela apropriação e ocupação geral, pereceram – dizimados pelo
de terras no Novo Mundo, ou mesmo trabalho pesado, escravidão, peste e
em outros continentes (como o doenças de todos os tipos. E as trocas
africano), circunscrevendo sua análise identitárias – longe de constituir uma
até as correntes migratórias atuais, em relação de continuidade com o passado
que jovens africanos, em especial, vivido e com os valores herdados
buscam novas e melhores condições de originalmente, se construiu permeada
vida nos países considerados mais
pertenço a nenhum para viver uma experiência
desenvolvidos ou nos chamados “países
diásporica, longe o suficiente para experimentar
emergentes”, como é o caso do Brasil. o sentimento de exílio e perda, e perto o
Assim, Stuart Hall dá visibilidade aos suficiente para entender o enigma de uma
processos “diaspóricos” e suas ‘chegada’ sempre adiada” (HALL, 2003, p.
narrativas de deslocamento e construção 415). Sua trajetória foi marcada pelo
nascimento, infância e adolescência numa
das identidades culturais, sendo ele
família de baixa classe-média da Jamaica.
próprio considerado um dos “membros Contudo, toda a vida de adulto foi vivida na
cosmopolitas das diásporas5”, ao lado Inglaterra, conforme ele próprio relata: “vivi na
de Salman Rushdie e Homi Bhabha. sombra da diáspora negra – na barriga da fera,
tendo ao fundo uma vida de trabalho em estudos
culturais” (HALL, 1996, p. 68). Daí, talvez, a
5
Apesar de ter nascido na Jamaica, Hall afirma sua inserção nessa área de estudos, bem como,
que não viveu o processo de gestação da seu interesse em refletir sobre as questões que
consciência negra e do rastafarismo jamaicano. envolvem os processos de construção da
Daí o seu estranhamento relacionado à identidade cultural, com ênfase na análise crítica
experiência diaspórica. Segundo ele, nasceu na sobre o ocidente, que segundo ele, “normaliza a
Jamaica e deslocou-se para a Inglaterra, mas África e dela se apropria, congelando-a nalguma
sente-se um estrangeiro nos dois lugares: zona imemorial do passado primitivo imutável”
“conheço intimamente os dois lugares, mas não (HALL, 1996, p. 68-69).

4
por marcas de rupturas violentas e entrevistados afirmou preferir voltar à
aterrorizantes. sua terra natal, salvo raras exceções. De
fato, o País de origem é a “comunidade
imaginada”, o vetor de retorno, lugar de
1.2. Fluxos migratórios, redefinição lembranças e memórias. Concomitante
identitária e a construção de “novos à vontade de retornar à suas
tipos de sujeitos”. comunidades originárias, esses jovens
Com base na perspectiva de Stuart Hall também acalentam o sonho da
sobre identidade cultural, busquei formatura, o desejo de contribuir com o
encontrar pistas que ajudem a refletir desenvolvimento de seu País e a busca
sobre os fluxos migratórios de jovens por emancipação social. Portanto,
africanos, circunscrito nas redefinições parece ser o esforço da emancipação o
identitárias vivenciadas por estudantes que torna o deslocamento para o Brasil
que experimentam processos de um “projeto de vida”.
deslocamento em suas trajetórias. Sobre Nessa perspectiva, o deslocamento
esses jovens, é importante assinalar que, mudaria a vida dos que migram para o
a grande maioria é proveniente de Brasil e retornam à terra natal; dos que
classes populares, os quais vivenciam migram e acabam permanecendo no
cotidianamente situações de privação, Brasil – por possibilidade profissional,
nomadismo, estigma e o desejo de vínculo empregatício ou casamento; e
empreender dias melhores, desejo este, daqueles que não se deslocaram, nem
que transparece nos relatos e narrativas6 jamais conheceram o Brasil – pais,
dos estudantes africanos. irmãos, filhos, parentes em geral – mas,
Entretanto, quando questionados sobre a que vivenciam um contato direto com
ideia de permanecer no Brasil, após os jovens estudantes, construindo, desse
concluir a formação profissional, a modo, “novos tipos de sujeitos”.
grande maioria dos estudantes
O fato é que essa intersecção cultural e
6
A rigor, esse estudo não possui a pretensão de
identitária propiciada no plano físico-
utilizar a análise de discurso como técnica geográfico pela diáspora, pelo
investigativa fundamental. Não se trata de dispersamento dos povos que saem de
interpretar exaustivamente as narrativas, sua terra de origem e passam a viver
discursos e relatos dos estudantes africanos – noutra, não faz com que haja o
alunos meus, com os quais tive contato durante
o semestre. Portanto, meu esforço analítico é,
abandono das origens. A origem se
sobretudo, “jogar” reflexões que venham a mantém, mas também se mistura na
descortinar a suposta relação entre identidade/ nova situação de vida apresentada,
diáspora, fluxos migratórios e redefinições sendo também modelada pelo desejo de
identitárias de jovens africanos que migram para um dia retornar ao seu lugar de origem.
o Brasil. Em seu aspecto empírico, a pesquisa
ainda está na fase exploratória/de coleta dos Nas pistas de Stuart Hall, (2003, p. 27-
dados, com algumas entrevistas realizadas 28), cheguei à ideia de que os sujeitos
durante incursões na FATENE – Faculdade
Terra Nordeste (instituição de ensino superior
que vivenciam processos “diaspóricos”
privada) e UNILAB – Universidade jamais poderão fazer a “viagem da
Internacional da Lusofonia Afro-brasileira volta” concretamente. O ato de voltar à
(instituição de ensino superior pública). Na terra natal ou à “cena primária” de suas
FATENE, apenas conversei informalmente com viagens, agora se traduz num momento
alunos e ex-alunos africanos, por ocasião do
período de aula e durante o acompanhamento do
posterior de suas rotas. É preciso
Grupo de Estudos sobre Identidade e Diáspora - vivenciar a formação profissional,
GEID. constituída por um período de quatro,

5
cinco ou mais anos de suas vidas. única, mas de várias identidades,
Assim, os processos de redefinição algumas vezes contraditórias ou não
identitária são mediados por um núcleo resolvidas [...]. O próprio processo
imutável e atemporal, que liga o de identificação, através do qual
nos projectamos em nossas
passado, ao futuro e ao presente numa
identidades culturais, tornou-se
linha ininterrupta. Esse cordão
mais provisório, variável e
umbilical que o senso-comum chama de problemático. (2005, p.12).
tradição, Stuart Hall e Homi Bhabha
entendem respectivamente como: “zona É, portanto, neste momento de trânsito e
de contato” e fronteira7. de entrelaçamento de valores e ideias,
de relações políticas e religiões, que
Nesta perspectiva, o hibridismo surgem novos sujeitos. É quando a
resultante da “fronteira” ou da “zona de cultura se renova e se amplia, bem
contato”, como expressa Pratt (1999, p. como a identidade cultural de pessoas e
27), não é livre de tensão. Ao contrário, povos que experimentam fluxos
ele se inscreve em relações de poder, migratórios e redefinições identitárias.
sendo representado pela própria relação Desse modo, os novos sujeitos, surgidos
construída não apenas dualisticamente, dos processos diapóricos têm seus
mas, a partir do entrelaçamento de valores reformulados, remoldados à luz
valores e costumes, onde o país de da “zona de contato” 8.
permanência para estudos e a terra natal
se confundem, numa fusão entre a Nesse entendimento, os jovens
“identidade/diferença”, africanos que migram para estudar no
“familiar/exótico”, “distante/perto”. Brasil, não poderão retornar à cena
Assim, o hibridismo vai resultar dos primária de suas vidas, uma vez que a
processos de entrelaçamento de valores, experiência com a cultura brasileira
culturas, ideias, posições políticas, estará guardada em suas lembranças.
religiões e combinações que estão Conforme é perceptível nos
sempre em processo de negociação, depoimentos abaixo:
assimilação e construção de “novos Não vejo muita diferença entre tá
tipos de sujeitos”. aqui no Brasil ou em África. Mas,
prefiro aqui... Pois aqui, eu posso
Sobre esses “novos tipos de sujeitos”,
estudar né? A maior dificuldade é tá
Stuart Hall sustenta que eles vêm longe da família. Mas, os amigos
passando por redefinições, ao destacar: aqui ajudam. Sempre tem alguém
O sujeito previamente vivido como que pode ajudar. E, também, as
tendo uma identidade unificada e moças são afetuosas... E até firmam
estável, está se tornando namoros consigo, né? Mesmo
fragmentado; composto não de uma quando não se tem dinheiro... Eu
gosto muito daqui. E até pretendo
ficar, se puder... (H. M. M., aluno
7
Nesse sentido, Bhabha (1998, p. 19) afirma
que: “a fronteira se torna o lugar a partir do qual
algo começa a se fazer presente, em um
8
movimento não dissimilar ao da articulação De acordo com Pratt (1999, p. 27), “[...] aquilo
ambulante, ambivalente, do além que venho que chamamos ‘zonas de contacto’, espaços
traçando: sempre, e sempre de modo diferente, a sociais onde culturas díspares se encontram, se
ponte acompanha os caminhos morosos ou chocam, se entrelaçam uma com a outra,
apressados dos homens para lá e para cá, de frequentemente em relações extremamente
modo que eles possam alcançar outras margens assimétricas de dominação e subordinação –
[...]”. Segundo o autor, a ponte fronteiriça como o colonialismo, o escravagismo, ou seus
“reúne enquanto passagem que atravessa”. sucedâneos praticados em todo o mundo”.

6
do 3° semestre – curso de Ciências pedir socorro. Depois, os
Humanas/UNILAB). professores ajudaram. Mas, todo dia
eu fico imaginando quando vai
O Brasil é meu segundo País. Sinto
chegar à formatura e o dia da volta
que agora estou no meio, dividido
prá casa. O dia de abraçar a minha
entre África e Brasil. Quando vou
mãe, meu pai e irmãos. Só sabe que
para África, sinto falta de tudo que
é difícil, quem decide enfrentar e
deixei aqui no Brasil (amigos,
viver isso, né? ( A. L.M., aluna do
namorada, professores etc.) e
6° semestre de
quando volto para estudar em
Enfermagem/FATENE).
Brasil, a ”saudade da família” –
como se diz aqui – é grande. Mas, Diferentemente dos relatos acima, o
eu desejo terminar logo e voltar prá
jovem “M. Alfadjau”, afirma ter vivido
minha terra. (N. V. M, aluno do 7°
semestre – curso de serviço social/
no Brasil uma troca identitária marcante
FATENE). e um processo de aprendizagem de
grande envergadura: se eu tivesse ficado
Na tentativa de entender a fronteira – em África, não estaria formado, não
aquilo que é definido como o “meio” teria passado no mestrado em
pelo jovem africano em seu Administração de Empresas, nem
depoimento, o autor Homi Bhabha estaria com bolsa de pesquisa de CNPQ
(1998) esclarece da seguinte forma: e nem estaria fazendo estágio de
“são vidas na fronteira”, cuja “ponte docência agora. Sou muito grato ao
levadiça”, que liga os dois países de Brasil. Nesse caso específico, o
referência identitária, pode possibilitar estudante após concluir a graduação,
ou não o acesso a novas redefinições obteve aprovação no curso de mestrado
identitárias. Nesta perspectiva, a ideia em instituição pública e com grande
de renegociar com novas rotas e concorrência no Brasil, conquistando o
percursos só se torna possível, a partir terceiro lugar geral e sendo
do entendimento de que a própria contemplado com uma bolsa de estudos
diferença entre os sujeitos produz por uma agência de fomento à pesquisa.
processos de identificação
heterogêneos, ou seja: enquanto alguns Diante dos dados acima, percebe-se que
jovens referem que sentirão a redefinição identitária vivida por
falta/saudade do Brasil, outros afirmam estudantes africanos no Brasil, não pode
ter vivenciado experiências traumáticas ser interpretada de forma linear,
durante a temporada de estudos no solo homogênea e imutável para todos os
brasileiro. Sobre isso, vale assinalar os sujeitos que vivenciam ou vivenciaram
relatos a seguir: tal processo. No caso dos protagonistas
desse estudo, a experiência diaspórica é
Foi difícil... Tive muitos problemas
financeiros e quase não tive apoio descrita da seguinte forma: como
da Faculdade. No início ofereceram “válida/inválida” e até traumática. Dos
várias coisas, apoios, benefício, 08 estudantes entrevistados, 05 destes –
mas depois ficamos sós, entende? ou seja, a maioria – afirma ter
Tive que vender chocolate, doces, vivenciado uma experiência
balas prá continuar os estudos... Tô significativa e válida durante a
pedindo Deus que isso termine temporada de estudos no solo brasileiro.
logo. (I. M. M., aluna do 6° Por outro lado, os convênios firmados
semestre, Serviço Social/FATENE). em torno do acompanhamento e do
O ruim é ficar perdido. Foi assim apoio a ser destinado a jovens africanos
no início. Fiquei sem ninguém prá em missão de estudos no Brasil, ainda

7
parece frágil/incipiente. Eis aqui onde são produzidas as diásporas
algumas questões para reflexão: Que culturais.
tratamento, de fato, será dado a jovens
Dessa forma, a escolha de migrar para
africanos que buscam formação
outro lugar comportaria uma
profissional no Brasil? Continuaremos
experiência “pós-tradicional”, a qual
com a velha ideia eurocêntrica que
envolve não ocorre só uma mudança de
concebe o imigrante como alguém
rota ou percurso, mas uma redefinição
perigoso, “estranho”, “desconhecido”?
identitária. Nessa lógica, a noção de
Continuaremos chamando-os de
identidade como uma “celebração
“intrusos”, estrangeiros e forasteiros na
móvel” (HALL, 1999), constituída
“terra dos outros”?
historicamente e não biologicamente, se
Nesse contexto diaspórico, já não é coaduna perfeitamente ao caso dos
possível desviar o olhar e não querer ver estudantes de origem africana que
a quantidade de jovens africanos que migram para o Brasil em busca de
invadem a cena das cidades brasileiras. formação profissional. Nesse caso, a
A diáspora, em sua origem opção de sair de sua comunidade de
epistemológica – do grego diasporein, origem, talvez, esteja fortemente
cuja palavra significa semear a vinculada à busca de segurança, de
dispersão de povos – possibilitaria um conforto e apoio em outro lugar,
processo de “traduação” e redefinição partindo da percepção de que é possível
identitária. Nesse entendimento, povos exercer múltiplas identidades no
traduzidos e pessoas diaspóricas são contexto contemporâneo.
aquelas que vivem longe de sua terra
natal, real ou imaginária, mas a sua
origem se mostra ainda enraizada pela Considerações finais
língua falada, religião adotada, ou Não intenciono, aqui, elaborar
culturas produzidas. É a busca para conclusões exaustivas sobre os fluxos
retornar a sua “comunidade imaginada”, migratórios e processos “diaspóricos”
seu grupo, família, “tribo”, em meio a de jovens africanos que migram de seus
um contexto de transnacionalização, países para estudar no Brasil. Em
que Anthony Giddens (1991) define de verdade, não percebo esta empreitada
sociedade “pós-tradicional”. investigativa como um final da rota
analítica ou uma conclusão
Na perspectiva de Giddens, um fato
investigativa. A rigor, meus processos
caracterizaria essa nova realidade
de pesquisa sobre fluxos migratórios de
globalizada e “pós-tradicional”: é o
estudantes africanos, ainda são
“desencaixe”, ou seja, “o esvaziamento
incipientes. Trata-se de uma série de
dos contextos locais de ação e sua
incursões, estudos exploratórios e
reestruturação através de extensões
entrevistas com alunos da Faculdade
indefinidas de tempo-espaço,
Terra Nordeste – FATENE (Instituição
produzindo uma forte
de Ensino Superior Privada) e da
destradicionalização” (GIDDENS, 1991:
Universidade Internacional da
29). Contudo, não há em suas
Lusofonia Afro-brasileira – UNILAB
formulações a ideia de uma
(instituição de ensino superior pública),
“homogeneização cultural” como
ambas localizadas no Estado do Ceará.
consequência da
globalização/transnacionalização, mas, Nos percursos por mim trilhados, a
o entendimento de que é nesse nível seguir pistas e vias apontadas nas

8
trajetórias desses jovens, não foi formação profissional superior. Nesse
possível demarcar “pontos de partida ou tipo de processo “diaspórico”, onde o
de chegada”. Os passageiros contexto do País de destino – no caso, o
experimentam redefinições identitárias Brasil – apresenta alguma identificação
diversas. E, nestas andanças com a cultura da terra natal, ainda
ziguezagueantes, eles vão assumindo assim, os estudantes africanos
suas “posições de sujeito”, que parecem vivenciam processos de deslocamentos,
ser temporárias, em processos de viagens, mudanças, novos aprendizados,
metamorfose, ou seja, um percurso novos contatos, novas negociações de
sempre em aberto. No assumir de tais amizade e sociabilidades, novas regras e
posições, incorporam personagens valores.
diferenciadas no jogo das negociações
identitárias. São personagens em cenas Nesse “jogo das identidades”, importa
que vão se metamorfoseando: é o não só adentrar os interstícios das
estrangeiro, “os meninos e meninas da redefinições vividas por jovens
África”, o estudante de outro País, o africanos no Brasil. Importa, também,
diferente, enfim. compreendê-las, analisá-las, interpretá-
las. Na interpretação de Stuart Hall
Ao tentar fechar esse artigo, tenho a (2003), os processos diaspóricos são
consciência da incompletude da análise. capazes de produzir “novos tipos de
É preciso ir além, aguçar o olhar, focar sujeitos”, cujas identidades sofrem
as lentes da investigação com maior “metamorfoses”, as quais se cruzam ou
esforço. Daí, uma certeza: a consciência se “deslocam” mutuamente. A rigor,
do caráter “artesanal” da investigação, não existiria nenhuma identidade única,
respaldada na ideia de que o esforço do mestra e abrangente – por exemplo, de
pesquisador circunscreve um “trabalho classe social ou de gênero – capaz de
de fôlego e não [...] uma coisa que se alinhar todas as diferentes identidades.
produza de uma assentada, por uma Nesse contexto, o cenário político do
espécie de ato teórico inaugural, mundo moderno estaria se redefinindo,
original” (BOURDIEU, 1994, p. 26). embalado por deslocamentos e
Nessa empreitada, devo percorrer uma processos de identificação, advindos,
trilha de declives, veredas ambíguas, em especialmente, da erosão da chamada
busca dos fios e rastros que levem à “identidade mestra da classe” e da
compreensão das redefinições emergência de múltiplas identidades,
identitárias vividas por estudantes “pertencentes à nova base política
africanos no Brasil. E, em meio aos definida pelos novos movimentos
labirintos e teias do objeto, vou sociais: o feminismo, as lutas negras, os
ajustando o foco analítico, a partir do movimentos de libertação nacional, os
próprio movimento do objeto movimentos antinucleares e
investigado e de suas sutilezas. ecológicos”. (MERCER, 1990 apud
HALL, 1999, p. 21).
Em termos de resultados investigativos,
é possível afirmar que “identidade” e De fato, percebe-se hoje um novo
“diáspora” são conceitos tão imbricados padrão de relações internacionais. No
que é impossível separá-los. Tal Brasil, é evidente o número cada vez
percepção vem claramente à tona maior de estudantes de origem africana
quando se discute um tipo específico de que migram em busca de formação
fluxo migratório. Sair de casa, mudar de profissional, graduação e pós-
lugar, morar em outro país, fazer uma graduação, inseridos num contexto de

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transição/transnacionalização, que _______.Quem precisa da identidade. In:
circunscrevem novas formas de SILVA. Tomaz Tadeu da. Identidade e
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Publicado em 2013-06-11

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