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“Histórias aos quadradinhos” “Bande Dessinée”, “Litérature Graphique”,“Fumetti”, “Historietas”,
“Histórias aos quadradinhos”
“Bande Dessinée”,
“Litérature Graphique”,“Fumetti”, “Historietas”, “Comics”
“Sequencial art”,
Tantas denominações, tantos conceitos. No Brasil,
temos a mais sonora, mais bonita, mais sintética:
“Gibis”

IMAGEM e PALAVRA

sempre trabalharam juntas – e não é o caso aqui de nos dedicarmos a essa demonstração. Basta-nos limitar: os quadrinhos modernos, tal como os entendemos hoje, nascem da associação de palavras e imagens, contando uma história, com o objetivo de ser impressa. O primeiro a fazer quadrinhos modernos é o alemão Wilhelm Busch (1832/1908), aí por mil oitocentos e sessenta e poucos. Poucos anos depois, o italiano Ângelo Agostini (?/1910) coloca o Brasil entre os pioneiros do gibi, com “Nhô Quim” e “As Aventuras do Zé Caipora”. Mas é certo que existam produções contemporâneas em países europeus. Também não convém, neste momento, enveredar por essa investigação.

Nem mesmo podemos nos lançar, aqui,

a historiar, sumariamente que seja, a

produção brasileira que vem de Agostini até a contemporaneidade. É história que, tendo lá seus bons momentos, seus bons autores e suas boas revistas, fica muito além dos nossos presentes objetivos.

Para os modestos fins do presente

trabalho, consideraremos algumas formas

– charge, cartum, caricatura, desenho

de humor – como adjacentes e até mesmo confundíveis com as histórias em quadrinhos. Podem e devem ser tratadas como formas de expressão autônomas, mas não as considerar aqui seria empobrecedor. Para o caso de Curitiba, é trabalho já feito e bem feito.

Enquanto essas formas são desenvolvidas, os quadrinhos seguem em paralelo – via de regra, quem faz uma, faz todas.

O que ousaremos tentar contar, até onde tivermos apoio das nossas fontes e das nossas elocubrações, será o percurso dos quadrinhos em Curitiba.

Nos anos da Proclamação da República, circula na cidade “A Galeria Ilustrada”.

No ambiente brasileiro, essas revistas existiam com excelente padrão gráfico, literário, artístico – divulgando poesia, gravuras, documentação antropológica, noticiário cultural. No caso da nossa, também uma página de quadrinhos, intitulada “A gaveta do diabo”. Mais do que anticlericalismo ao sabor positivista, parece-me ver aí uma intenção de crítica impiedosa. Começando já na primeira edição, os desenhos de narciso filgueras acompanham a revista ao longo de dez números. Encontramos particularmente interessante a edição quatro, onde o texto do terceiro ”

e a cena mostra a Igreja da Ordem

quadrinhos começa com “Cá na terra como fundo de um agito.

começa com “Cá na terra como fundo de um agito. Página e quadrinho da Secção “A

Página e quadrinho da Secção “A GAVETA DO DIABO” Desenho Leovigildo Filgueras

“A GAVETA DO DIABO” Desenho Leovigildo Filgueras “GALERIA ILUSTRADA”, 20/12/1888 Reedição Facsimilar da

“GALERIA ILUSTRADA”, 20/12/1888 Reedição Facsimilar da Secretaria de Estado da Cultura e do Esporte de 1979

O tom é anti-germânico, mas são os alemães que, empresários em vários setores – como
O tom é anti-germânico, mas são os
alemães que, empresários em vários
setores – como a construção e as
indústrias gráficas – vão produzir
marcas do pioneirismo da cidade no
que entendemos por “Gibi”: revista
com quadrinhos.
Em 1935, o pequeno álbum “Die Streiche des
Alten Herrn”, de Fritz Winters, é publicado
pela tipografia de João Haupt. Em data que
desconhecemos mas que, pelo padrão gráfico
deve ser próxima, um tal Onkel Oskar
publica “Fred und Fritze” pela Impressora
Paranaense de Max Schrappe. Embora a
“Original Zeichnungen” seja atribuída a Hans
Nöbauer do Rio de Janeiro, trata-se de
iniludível cópia de Wilhelm Busch.
Página do álbum “DIE STREICHE DES ALTEN HERRN”
Desenho de Fritz Winters – Tipografia João Haupt
Curitiba, 1935
Antecedentes

Gibiteca de Curitiba

Página do álbum “DIE STREICHE DES ALTEN HERRN” Desenho de Fritz Winters – Tipografia João
Página do álbum “DIE STREICHE DES ALTEN HERRN”
Desenho de Fritz Winters – Tipografia João Haupt
Curitiba, 1935

O que não é de se admirar:

os descendentes de alemães guardaram os “Wilhelm Busch Album” cuidadosamente ao longo de décadas. Ninguém

menos que Olavo Bilac traduziu

as aventuras de Max e Moritz

para a Editora Melhoramentos.

Mas o decano do quadrinho regional, o autor que por mais de meio século marcou
Mas o decano do quadrinho
regional, o autor que por
mais de meio século marcou a
imprensa da cidade com seus
cartuns, charges, caricaturas e
quadrinhos, foi Alceu Chichorro.
Seus biógrafos – e mesmo seu
“roteiro biográfico”, que tudo
leva a crer seja auto-biográfico
– não estabelecem distinção
dentro de sua vasta produção.
Capas do Álbum “FRED UND FRITZE”
Onkel Oskar
– s/data – Impressora
Paranaense Max Schrappe, Curitiba
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A carreira iniciada em 1925 inclui poesia e crônica, e é centrada em Curitiba. Os
A carreira iniciada em 1925 inclui poesia e crônica, e é centrada em Curitiba.
Os calungas permanecem, os temas predominantes são a política (na charge) e
a vida doméstica (nos quadrinhos). Talvez a produção mais original de Chichorro
sejam as sequencias de caricaturas de políticos, formando cordões de carnaval,
com corpos femininos – uma sua maestria. Seu poder caricatural fustiga a
atuação dos políticos, com a ajuda de versos sob os desenhos. Não é conhecida
a forma pretendida pelo autor para publicação desses desenhos, mas podem ser
entendidos como quadrinhos panorâmicos, em que a sequencialidade é dada pelo
movimento e gestual dos retratados.
Sequencia de caricaturas de Alceu Chichorro
sem data (Publicada no Gibitiba 5 – 1978)
Capas de Livros de Alceu Chichorro: “MULHERES E MAIS MULHERES” Curitiba, Editora Litero-Técnica, 1964 “O
Capas de Livros de Alceu Chichorro:
“MULHERES E MAIS MULHERES”
Curitiba, Editora Litero-Técnica, 1964
“O TANQUE DE JERUSALÉM”
Curitiba, de Plácido e Silva, 1923

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O período entre guerras se caracteriza basicamente, a nível mundial, pelo surgimento dos super-heróis. Rapidamente, dominam o mercado norte- americano e invadem o Brasil. Aqui são publicados em revistas de grande tiragem com temáticas americanas – cowboys, policiais, super-heróis, militares – e diante deles a débil produção nacional quase desaparece.

Após a Segunda Guerra, a conjuntura histórico-cultural-quadrinística ferve. Os super-heróis continuam dominando o mercado, graças ao hábil mecanismo dos syndicates, mas cresce também um tipo de quadrinho mais inteligente, mais crítico, mais elaborado. A produção mais emblemática dessa fase talvez sejam os Peanuts de Charles Schultz (1950). No Brasil, o Saci Pererê de Ziraldo (1960).

As décadas de sessenta e setenta verão surgir, na Europa, produções de refinado gosto gráfico e literário, como Barbarella, na França, e Valentina na Itália. Abre-se a temática quadrinística até seus limites atuais.

Percebe-se que esse contexto – com trilha musical dos Beatles – tem seu grande momento no entorno de 1968, refluindo depois no neo- liberalismo que corresponde à reação das forças de inércia do capitalismo.

Nesse período, que começa, em termos gerais, de meados da década de sessenta e vai até a de oitenta – assiste-se ao resgate do gibi. Intelectuais com o prestígio de Umberto Eco escrevem sobre ele; instituições acima de qualquer suspeita como o Museu do Louvre (no Brasil, o MASP) expõem os autores clássicos dos quadrinhos; a prestigiosa Graphis, publicada na Suissa, faz duas edições sobre eles.

Mas, principalmente, gibi deixa de ser um punhado de folhas em papel barato, mal impressas, grampeadas na lombada, com uma capa espalhafatosa. Pode ser alvo de edições com a qualidade gráfica da Linus, da Eureka, da Il Mago (italianas), pode ser um luxo gráfico como a antologia dos Pieds Nickelés ou as edições de Eric Losfeld (francesas) ou o sério tratamento editorial da Nostalgia Press (americana).

No panorama brasileiro, as coisas andam devagar, mas andam. Álbuns de uns poucos autores de prestígio, como Ziraldo; livros de história e

crítica, como o de Álvaro de Moya; edições especiais sobre quadrinhos com as da Revista Vozes, a partir de 1969. No que continuamos pobres

é

em revistas, gibis mesmo: o único clássico do período é o Grilo.

“Cá na terra” temos o trabalho de Dante Mendonça, que coloca suas caricaturas na primeira página do jornal; o

Salão de Humor do Paiol, com a publicação do pioneiro “Gibi é coisa séria”. A Escola de Belas Artes promove a exposição “O cartaz de Quadrinho” em 1975, e em 1976 os tem como tema do Oitavo Encontro de Arte Moderna.

Cartaz da exposição “O CARTAZ DE QUADRINHO” – 1975 Galeria da Escola de Música e
Cartaz da exposição “O CARTAZ DE QUADRINHO” – 1975 Galeria da Escola de Música e
Cartaz da exposição “O CARTAZ DE QUADRINHO” – 1975 Galeria da Escola de Música e
Cartaz da exposição “O CARTAZ DE QUADRINHO” – 1975 Galeria da Escola de Música e
Cartaz da exposição “O CARTAZ DE QUADRINHO” – 1975 Galeria da Escola de Música e
Cartaz da exposição “O CARTAZ DE QUADRINHO” – 1975 Galeria da Escola de Música e
Cartaz da exposição “O CARTAZ DE QUADRINHO” – 1975 Galeria da Escola de Música e
Cartaz da exposição “O CARTAZ DE QUADRINHO” – 1975 Galeria da Escola de Música e
Cartaz da exposição “O CARTAZ DE QUADRINHO” – 1975 Galeria da Escola de Música e
Cartaz da exposição “O CARTAZ DE QUADRINHO” – 1975 Galeria da Escola de Música e
Cartaz da exposição “O CARTAZ DE QUADRINHO” – 1975 Galeria da Escola de Música e
Cartaz da exposição “O CARTAZ DE QUADRINHO” – 1975 Galeria da Escola de Música e
Cartaz da exposição “O CARTAZ DE QUADRINHO” – 1975 Galeria da Escola de Música e
Cartaz da exposição “O CARTAZ DE QUADRINHO” – 1975 Galeria da Escola de Música e

Cartaz da exposição “O CARTAZ DE QUADRINHO” – 1975 Galeria da Escola de Música e Belas Artes do Paraná

Cartaz da exposição “O CARTAZ DE QUADRINHO” – 1975 Galeria da Escola de Música e Belas
Cartaz da exposição “O CARTAZ DE QUADRINHO” – 1975 Galeria da Escola de Música e Belas
Cartaz da exposição “O CARTAZ DE QUADRINHO” – 1975 Galeria da Escola de Música e Belas
Cartaz da exposição “O CARTAZ DE QUADRINHO” – 1975 Galeria da Escola de Música e Belas
Cartaz da exposição “O CARTAZ DE QUADRINHO” – 1975 Galeria da Escola de Música e Belas

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O chargista Dante Mendonça com sua produção para a primeira página de jornal de Curitiba
O chargista Dante Mendonça com
sua produção para a primeira página
de jornal de Curitiba
Capa do “ÁLBUM DE FIGURINHAS E FIGURÕES” – 1989
Capa do livro “GIBI É COISA SÉRIA” – Edições Paiol
(Provavelmente o primeiro no Brasil sobre o tema)
Ainda no período, haverá farto noticiário
e
mesmo seções especiais nos jornais
locais; publicação de antologias de cartuns
temáticas (“Humor na Biblioteca”, “Prá
mim chega”) e autorais (Douglas Mayer,
Retamozzo, Solda, Miran). Publicações
culturais darão cobertura e espaço para
os
quadrinhos: Raposa, Nicolau, Zé Blue.
Arquivo K.I.J. Tira para publicação em jornal –desenho Original de Cortiano – 29 X 9
Arquivo K.I.J.
Tira para publicação em jornal –desenho Original de Cortiano – 29 X 9 CM Nanquim sobre papel
Capa de
Luis
Retamozzo
para
FIQUE DOENTE, NÃO FICÇÃO ”
Edições “Diário do
sem data
Paraná”
Cartaz
de lançamento do
álbum de Douglas Mayer
“O
JUGO DO BICHO”, 1978
Capas das Edições 1 e 2 de “ZÉ BLUE” – Junho de 1981

Antecedentes

Gibiteca de Curitiba

Acontece ainda o importante e pouco estudado Ciclo Grafipar. A partir do final dos anos 80, este se reveste de características inusitadas, chegando a gerar uma “comunidade quadrinística” ao seu redor. No entanto, a documentação está dispersa e não são conhecidas coleções significativas das revistas publicadas. É pesquisa a ser empreendida com a seriedade que merece.

A Grafipar começou com uma tira de divertimentos chamada ‘Passarola‛( ) foi precursora das revistas
A Grafipar começou
com uma tira de divertimentos
chamada ‘Passarola‛(
)
foi precursora
das revistas de bordo, a primeira lançada
pela Varig. (
)
Assim a Grafipar pegou o jeito
e começou a editar outras revistas.(
)
ela partiu para um procedimento erótico,
tinha uma revista chamada ‘Peteca‛,
( ) vendeu um monte.(
)
Depois
dentro
da
‘Personal‛ abrimos quatro páginas
para histórias em quadrinhos, nessa parte
chamamos Claudio Seto, Julio Shimamoto,
uma série de desenhistas e quadrinistas do Brasil
inteiro. (
)Essas
quatro páginas deram origem a
uma revista (
)
foi feita uma de erotismo e
terror que era a ‘Neuros‛. A partir dessa revista
vieram outras que agora não lembro o nome. (
)
Fizeram história no
mundo todo, começaram
com edições pequenas e imediatamente
passaram a cem
mil exemplares, que
na época era um monte.
RETAMOZZO
FABRIZIO
G randes nomes que participaram da
Grafipar, viraram professores da Gibiteca
de Curitiba. O Seto é um deles, o Paulo
Neri
e tem mais. (
)
A Grafipar foi
extinta em 84, a Gibiteca nasceu em
82. Então a gente pode falar com muita
certeza que elas foram contemporâneas
) (
Uma estava morrendo, que era a
Grafipar, dando seus últimos suspiros, e
a Gibiteca estava nascendo. Eu considero
uma continuação lógica da outra. A gente
vê elas como um todo.
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“SEXY COMICS”: A Grafipar tenta desembarcar na terra dos Syndicates
“SEXY COMICS”: A Grafipar tenta desembarcar na terra dos Syndicates
A Grafipar tenta desembarcar na terra dos Syndicates Começam, ainda nesse período, a surgir edições

Começam, ainda nesse período, a surgir edições antológicas autorais

e retrospectivas, mas até hoje muito escassas.

Nesse período, o

quadrinho brasileiro se refugiou em alguns nichos

de produção que, diante do mercado potencial, são mínimos.

Antecedentes

Gibiteca de Curitiba

20

Os Gibizinhos infantis, que Maurício de Souza irá ocupar quase sozinho, ea que até então
Os Gibizinhos infantis, que Maurício de Souza irá ocupar quase
sozinho, ea que até então eram uma exclusividade do grupo Disney;
A temática dita “de terror”, de origem americana, e que
permite a algumas pequenas editoras brasileiras consagrar
toda uma geração de bons autores. Sobrevivendo por poucos
anos, Edrel, Taika, Sanpa e outras se manterão por curtos
períodos à custa de vampiros, lobisomens e serial killers;
Nas águas turvas da ditadura navegam alguns gibis, mas
principalmente, cartuns de humor. Em suas mil edições,
o “Pasquim” dá origem a muitos seguidores e imitadores,
mas naufraga com as mudanças políticas no país.

Cabe aqui citar Ruth Escobar que, após apresentação de peça baseada nos quadrinhos de Henfil, no Teatro do Sesi de Curitiba, declarou em conversa informal:

“Só quem segura agora uma posição de protesto são os cartunistas. Os escritores estão exilados, a música sob censura, o teatro é muito visado também.”

Mas a censura está longe de ser o único – ou o mais grave – problema do gibi brasileiro:

a má distribuição é asfixiante também.

FRANCISCO UTRABO,

da Itiban

E u acho que essa questão se encontra em outro campo - que eu entendo
E u acho que essa questão
se encontra
em outro
campo -
que eu entendo um pouco mais - que é a
distribuição. A gente tem um país continental,
o Brasil é imenso, então logisticamente, para se
colocar um material nos lugares
Porque
somos
muito procurados por pessoas que não têm acesso a
um editor (
)
vão pela parte independente mesmo,
só que cai nesse problema, ficar com um monte de
caixas de material na mão (
)
Nós hoje, veja,
tantos anos depois de 75, estamos com o
mesmo problema, muito grande.

Esse panorama é desolador para quem escolheu os quadrinhos como forma de expressão e criação.

Antecedentes

Gibiteca de Curitiba

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No começo dos anos setenta, surge a válvula de escape: as chamadas “revistas alternativas”, presentes no país inteiro. Não por acaso, a maioria surge no meio estudantil reduzido ao silêncio.

Com grande concentração estudantil, Curitiba tem sua representante surgida dentro do jornal estudantil “kaostigo” – um dos circulando no ambiente.

O segundo número, de outubro do mesmo ano, demonstra crescimento em todos os sentidos. A tiragem passa de 500 para 1500. Permanecem os três desenhistas do grupo inicial – Cortiano, Círico, Guinski - ingressam dois autores já nacionalmente consagrados – Solda e Dante - e colaboram AUTORES DAS ÁREAS DE ARQUITETURA, ARTE E DESIGN

– Key, Rosário e Marcos Bento. A proposta

conceitual também se amplia: “cartum, conto

e cuadrim”. Participam ainda Karam, beneta e bonson, este de santa Catarina.

Abre-se o ciclo com a “Balão”, por estudantes

da USP, em 1972. Surgem ali autores que

adiante estarão entre os mais conhecidos

do cenário quadrinístico: Laerte, Carusos,

Angeli, Luis Gê e outros. O exemplo se

alastra, transcendendo o meio estudantil:

todas as maiores cidades brasileiras terão

suas representantes, em padrões gráficos

que variam do mimeógrafo eletrônico ao off-

set. Sendo caro – porém única tecnologia do

momento a permitir reprodução com qualidade

– o off-set exige dos editores a procura de

pequenos patrocínios, sacrifício das mesadas

e calote nas gráficas: tudo pela causa!

A “Casa de Tolerância” tira sua primeira

edição em Junho de 1976. O nome remete

um pouco à Curitiba de Dalton Trevisan, e

o editorial explica: “todo mundo sabe que

os desenhistas (de quadrinhos) nacionais

nadam em dinheiro, podemos até pagar

escola! (

quatro os autores presentes nas 16 páginas

com “HQB” – evidente analogia com “MPB”,

o que dá o tom nacionalista e regionalista

que perpassaria a vida da publicação.

Fama e grana, lá vamos nós!” São

)

Dois meses depois, sai a terceira edição, ainda mais crescida:

tiragem de três mil exemplares, capa de Bellenda, participação do programador visual Humberto Boguszewski e nada menos de 21 artistas, elencados na contra- capa. O programa continua sendo “cuadrim cartum e texto” – este considerado importante para que a leitura não fosse muito rápida e a revista, considerada descartável.

CORTIANO D o meu ponto de vista, o que sempre tentamos fazer foi mostrar o
CORTIANO
D o meu ponto de vista, o que sempre tentamos
fazer foi mostrar o trabalho, era uma expressão
artística, (a gente) gostava de quadrinhos e queria
produzir aquilo. Por causa do que estava acontecendo, o
teor do que produzíamos era bastante político. Se você
a ler, ela tem bastante carga política, é aquela coisa de
tendência artística de acordo com o meio que o cerca,
você tenta expressar aquilo que sente e sentíamos
muito a repressão (
)
tudo isso acontecendo naquele
momento, tínhamos uma certa revolta.
A quarta edição
tempos pré digitais
bem, a quarta “Casa de Tolerância” teve sua arte-final montado (eram os
e não foi à gráfica. Ou melhor, foi a várias, talvez numa nova tentativa
)

de calote, como a anterior. Tinha até cartaz impresso em serigrafia, pronto. Mas um dia foi

Foi resgatada apenas a capa de José Humberto

a alguma gráfica e não voltou mais prá casa

Boguszewski, entre os trabalhos de mais de quarenta autores

CASA DE TOLERÂNCIA

Gibiteca de Curitiba

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Capas para a “CASA DE TOLERÂNCIA”
Capas para a “CASA DE TOLERÂNCIA”
Edições 1 e 2 : Cortiano
Edições 1 e 2 : Cortiano

CASA DE TOLERÂNCIA

Gibiteca de Curitiba

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Edição 3 : Luis Cesar Bellenda
Edição 3 : Luis Cesar Bellenda
Edição 4: Humberto Boguszewski Desenho original , não publicada (Março de 1977) Nanquim sobre papel
Edição 4: Humberto Boguszewski
Desenho original , não publicada (Março de 1977)
Nanquim sobre papel – a4 – Arquivo K.I.J.

CASA DE TOLERÂNCIA

Gibiteca de Curitiba

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Aqui

começa

a

história

da

G

IBITECA

de

Curitiba

Os dois primeiros

“artes” eram simples e o Cortiano fez em casa. A terceira e a quarta, mais complexas, foram feitas em escritório de arquitetura emprestado, em horários noturnos, com compreensível desconforto – cartunistas e quadrinistas são gente alegre e rumorosa - dos moradores do andar de cima do sobrado.

Então começa assim a idéia:

Um espaço público – vinculado, evidentemente, à Fundação Cultural de Curitiba – que pudesse polarizar encontros de quadrinistas. Que tivesse lugar não apenas para montar revistas (e mais tarde, os fanzines) quando isso fosse necessário, mas também para oficinas, de modo que autores já afirmados transmitissem seu conhecimento profissional e artístico aos iniciantes. Fazer exposições de autores e lançamentos de revistas – nessa época, eram feitos na Casa Romário Martins. Manter um acervo atualizado para leitura, de modo que nem todos os artistas precisassem adquirir todos os gibis.

Portanto, a instituição trabalharia em dois sentidos:

PRIMEIRO, favorecendo novos autores no preparo para ingressar num mercado de domínio restrito, praticamente exclusivo de empresas multinacionais;

SEGUNDO, educando um público para ser crítico em relação à compra e leitura dos gibis.

Esses dois trabalhos, esperava-se, produziria um outro efeito: o de motivar editores a romper com
Esses dois trabalhos, esperava-se,
produziria um outro efeito: o de
motivar editores a romper com o
confortável e barato esquema dos
Syndicates e investir em novas
opções para oferecer aos leitores.
A questão do nome foi menos
fácil do que parece. Já se usava
“gibiteca” para coleções de gibis, em
evidente analogia com “biblioteca” e
“discoteca” – essa ainda não era uma
denominação comum para lugares de
dançar no sábado à noite. Tinha o
inconveniente de se reportar apenas
ao acervo de revistas, o que não era
a preocupação principal.
Por outro lado, a palavrinha tinha
uma conotação negativa: a maioria
das pessoas preferia “Histórias
em Quadrinhos”, abreviada
eventualmente em “HQ”. Mas eu
pensava que a instituição que tinha
em mente deveria também ter um
boletim de estudos, como a Phenix
da Socerlid e a Giff-wiff da Celeg,
ambas associações francesas para
estudo e publicação de quadrinhos
clássicos. Na Itália surgiu, quase ao
mesmo tempo, a Anaf, que publicou
“Il Fumetto” com a mesma proposta.
Assim, a simpatia e simplicidade do
neologismo “Gibi”, nome de uma das
mais tradicionais e longevas revistas
brasileiras de quadrinhos e de certa
forma já assimilada na imprensa,
acabou se mostrando a mais adequada.
E o binômio “Gibiteca/Gibitiba” começa
em paralelo à Casa de Tolerância.
GÊNESE E ÊXODO

Gibiteca de Curitiba

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Cartazes de lançamento do GIBITIBA 1 Outubro de 1976 O modesto boletim – que conheceria
Cartazes de lançamento do GIBITIBA 1
Outubro de 1976
O modesto boletim – que conheceria
quinze edições – começa junto com
a “Casa de Tolerância”. A primeira
edição não vai além de assinalar os
nomes dos vinte autores produzindo
na cidade , ainda que a nível
amadorístico. As duas publicações
são lançadas juntas na Casa Romário
Martins. Essa é a marca que data a
idéia da Gibiteca: setembro de 1976.
Formato A4 – Desenhos de Cristina e Cortiano
Muita gente foi azucrinada com
isso – todos achavam que “era uma
boa”, mas pouco provável: “ah,
vê se os caras vão investir em
gibi!” Quem não só gostou mas até
acreditou na idéia foi o jornalista
Aramis Millarch, ele mesmo leitor
e colecionador d gibis. Desde que a
Fundação Cultural não era mais que
uma salinha no subsolo do Palácio Rio
Branco, foi das principais figuras da
instituição, entusiasta agitador do
Teatro Paiol. E foi ele quem, não sei
por qual mecanismo, levou a idéia ao
prefeito Jaime Lerner.
Aqui deve-se abrir um parênteses
conceitual: o presente texto
tem caráter depoimental, e é
articulado pela história cultural.
Numa perspectiva administrativa,
haveria que considerar questões
relacionadas com as políticas
vigentes na cidade – o que
resultaria, sem dúvida, numa
narrativa bem diferente.
(a Gibiteca) foi criada pela Fundação OTÁVIO DUARTE Cultural. Foi criada pelo Jaime Lerner, na
(a Gibiteca)
foi
criada
pela
Fundação
OTÁVIO DUARTE
Cultural. Foi criada pelo Jaime
Lerner, na época (a FCC) era dirigida
pela Lucia Camargo (
)
Ele (Jaime
Lerner) veio com um conceito que ninguém
sabia o que era, o do lazer. Não havia
espaços para o lazer, ele tinha que explicar
o que era lazer. Por quê a calçada tinha
que ser aproveitada, porque os bares
tinham que colocar mesas na rua e
porque os parques para as pessoas
passarem horas com a família.
)
O povo
sabe que a cidade é
a sua arte, o povo sabe disso.
A cidade existe enquanto tem
produção de cultura. Sem isso não
tem história, memória, reflexão,
fantasia, não tem nada.”
(
Entendo que foi graças ao Aramis
Milarch que, em 1980, o prefeito
chamoudoisarquitetosabsolutamente
fanáticos por gibi – Domingos “Ópera
de Arame/Unilivre” Bongestabs e
eu para projetar uma Gibiteca para
a cidade. O projeto, pensado para o
local onde é hoje a Rua 24 horas, se
construído, marcaria para sempre a
cidade, transformando-a no centro
planetário do gibi.
Era o período das grandes obras desse
prefeito, que se tornaram emblemáticas
e a Gibiteca poderia perfeitamente ter
sido não mais uma – mas a principal delas.
No entanto, eis que se abate sobre o
País uma dessas crises do capitalismo,
nas quais todo mundo finge acreditar
mas sabe que, na essência, são manobras
do próprio capitalismo. E o projeto foi
para a gaveta, de onde nunca mais saiu
Cartão postal convite para a inauguração da Gibiteca de Curitiba, na Galeria Schaffer 16 de
Cartão postal convite para a inauguração da
Gibiteca de Curitiba, na Galeria Schaffer
16 de outubro de 1982
No entanto, a idéia da instituição em si, sobreviveu. E na tarde
do dia 16 de outubro de 1982, numa pequena sala da então
prestigiosa Galeria Shaffer, inaugura-se a Gibiteca de Curitiba.

GÊNESE E ÊXODO

Gibiteca de Curitiba

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Essa inauguração foi precedida porumaviagemdacoordenadora Lula Darcanchy, que visitou as principais editoras de
Essa inauguração foi precedida
porumaviagemdacoordenadora
Lula Darcanchy, que
visitou as
principais editoras de gibis do
momento, para iniciar o acervo.
A maior doação, que viabilizou o
início da atuação, foi
de Adolfo
Aizem, da Ebal. Houve também
doações de outras editoras e
de colecionadores da
cidade.
Fotografias das instalações da Gibiteca de Curitibaquando
da inauguração, na Galeria Schaffer, em 1982
Um dos coordenadores seguintes
foi Edson Bueno. Ele iniciou a
utilização dos painéis previstos no
projeto para exposições de autores
em Xerox ampliados e recortes de
revistas, como foi o caso do “Amigo
da Onça” de Péricles.
Fotos: K.I.J
E u fui prá casa e tive uma idéia ingênua, bobinha, inocente. Mas para aquela
E u fui prá casa e tive uma idéia ingênua,
bobinha, inocente. Mas para aquela época,
por incrível que pareça, começou a aparecer
a
ampliação Xerox, não existia computador.
Comecei a pensar que, se eu conseguisse
EDSON BUENO
destacar os grandes autores e quadrinhos,
ampliar em um tamanho bem bacana e fizesse
exposições mensais (
)
Pegava um Gibi e
ampliava em tamanho bem grande, o que era
novidade na época. Expor os quadrinhos com
legendas e programas ( )
Isso talvez desse à Gibiteca uma aparência
de local de cultura importante.
mês inventávamos uma exposição (
Todo
)
e
era simples, eu escolhia os quadrinhos,
criava a legenda e expunha, isso acabou
dando na cidade uma repercussão
muito
boa (
)deu
um outro ar para a Gibiteca
e me instigou a pesquisar mais
sobre
quadrinhos, buscar mais informações.
Coube a Marcia Squiba, coordenadora interina e depois efetiva, consolidar o conceito original da Gibiteca
Coube a Marcia Squiba, coordenadora interina e depois
efetiva, consolidar o conceito original da Gibiteca e
afirmá-la no cenário brasileiro. A intensa programação
de oficinas, cursos, exposições, a formação de grupos de
criação – como o “Boca Maldita Comics”- logo tornaram
o espaço da Schaffer insuficiente para tanta atividade.
Usou-se então a oportunidade da mudança para a Casa
da Baronesa – no complexo cultural “Solar do Barão” –
para um grande evento, o “Festival do Gibi”. Começava a
melhor fase da Gibiteca de Curitiba.
Grupo “BOCA MALDITA COMICS” na Gibiteca da Schaffer, 1988
Foto K.I.J.
GÊNESE E ÊXODO
Gibiteca de Curitiba

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Em 10 de junho de 1989, dezenas de atrações – lançamentos de publicações, palestras, apresentação
Em 10 de junho de 1989, dezenas de
atrações – lançamentos de publicações,
palestras, apresentação de vídeos,
entrega de homenagens, sessões de
autógrafos trouxeram milhares de
pessoas ao Solar do Barão.
Desenho de Guinski para o
cartaz e o convite do
“FESTIVAL DO GIBI”- 1989
Cartaz da Exposição
“OLHA AQUI” dos Cartunistas da
Revista “Guambia” de Montevideo 1987
Desenho de Marina Willer, em 1993
para“Bottom” da MOSTRA DA BIENAL
DE HQ do Rio de Janeiro - 1993
“GIBIFÓLIO” – Álbum de serigrafias
14 pranchas – 47 X 31 CM – 1989
É preciso esclarecer que essa
mudança fazia parte de uma idéia
anterior: ter nesse complexo
um “Museu Nacional das Artes
Gráficas”, assimilando a Gibiteca,
o Museu do Cartaz, a Casa da
Gravura e outras.
MARCIA SQUIBA E u comecei a convidar bandas para tocar na abertura das exposições (
MARCIA SQUIBA
E u comecei a convidar
bandas para tocar na
abertura das exposições
( )
E as bandas vinham
tocar, tudo de graça, então
uma
das coisas da Gibiteca
não é só
lotava o pátio. (
)
Tinha o
pessoal que vinha para ver
a banda e acabava vendo a
exposição, e tinha pessoal
ler. Nessa efervescência que teve, vinham
crianças, adolescentes e adultos, muitas
pessoas aprenderam a desenhar, ou a fazer
roteiros. Muita gente que hoje trabalha em
que
vinha ver a exposição e
jornais, TV, ou tem seu próprio estúdio de
acabava vendo a banda.
desenho. (
)
Vinha muita criança que não
tinha como pagar
era só dizer “não posso
pagar”, pronto, não precisava. Esse espaço
para a criança vir aprender a ler ( )
o
pessoal vinha passar sábados inteiros aqui,
ficavam jogando RPG, ficavam lendo. Ao invés
de estar na rua fazendo sei lá o quê, eles
estavam aqui.
O currículo oficial mostra, nos primeiros 22 anos, 135 exposições
- muitas com lançamento de publicações – individuais, coletivas,
temáticas, mostras históricas: tudo o que existia para ser feito.

Oficinas, impossível de contabilizar. Tornaram-se uma atividade permanente os cursos de motivação, iniciação e aperfeiçoamento na preparação de autores. Para os Workshops, vieram alguns dos maiores figurões do quadrinho nacional.

FULVIO PACHECO O próprio espaço da Gibiteca. Sábado se você passa na Gibiteca, é entupido
FULVIO PACHECO
O próprio espaço da Gibiteca. Sábado se você passa na Gibiteca, é
entupido de gente, em curso
um atrás do outro. Tem um pessoal que joga
Se tivesse mais salas nós teríamos mais turmas. Nós só temos uma
turma por dia porque só temos uma sala. Se tivéssemos um espaço com três
salas, teríamos várias turmas de quadrinhos. A turma de quadrinhos desse
ano fechou com o máximo que deu e várias pessoas tivemos que mandar prá
casa, porque não tinha (vagas).
O acervo superou rapidamente a marca das vinte mil publicações
disponíveis para leitura e consulta.

GÊNESE E ÊXODO

Gibiteca de Curitiba

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PÚBLICO NAS PROMOÇÕES DA GIBITECA Oficinas durante os 15 anos da Gibiteca Palestrante: Eli Leon,
PÚBLICO NAS PROMOÇÕES DA GIBITECA
Oficinas durante os 15 anos da Gibiteca
Palestrante: Eli Leon, da Editora Abril
Foto Marcia Squiba
Palestrante: Eli Leon, da Editora Abril Foto Marcia Squiba Revista Positivo – 15 de setembro de

Revista Positivo – 15 de setembro de 1994

GÊNESE E ÊXODO

Gibiteca de Curitiba

A Gibiteca me proporcionou ao mesmo tempo descobertas e

redescobertas, fui encontrando ao longo dos anos. Toda vez que vou lá, sempre mexo nas prateleiras e puxo alguma coisa, nunca

vou procurar especificamente algo (tipo) “eu preciso ler isso”, eu quero tentar descobrir algo. Numa dessas acabei descobrindo esta revista entre outras coisas que eu não imaginava que existissem.

Quando comecei a frequentar a Gibiteca ela recebia revistas

que eram caras prá mim, conseguia ter acesso lá. (

mantinha atualizado como leitor, eu fazia esse intercâmbio com

Estava começando a descobrir este

meus colegas de oficina

Isso me

) (

)

(

)

acervo de autores que o Brasil tem,frequentando a Gibiteca, com meus colegas de oficina e encontrando com essas pessoas

que o Brasil tem,frequentando a Gibiteca, com meus colegas de oficina e encontrando com essas pessoas

JOSÉ AGUIAR

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Aspectos parciais do acervo da Gibiteca na Casa da Baronesa Fotos K.I.J. – 1989
Aspectos parciais do acervo da Gibiteca na Casa da Baronesa
Fotos K.I.J. – 1989
Aspecto de oficina de desenho da figura humana Prof.Paulo Neri – 1996 - Foto K.I.J.
Aspecto de oficina de desenho da figura humana
Prof.Paulo Neri – 1996 - Foto K.I.J.
Os grandes festivais e encontros foram muitos, dos quais o coroamento é o Gibicon. Mas
Os grandes festivais e encontros foram
muitos, dos quais o coroamento é o Gibicon.
Mas houve o Festival do Gibi já mencionado,
a Mostra da Bienal de HQ, os cinco Festivais
Internacionais de Fanzines, os encontros
de RPG, do grupo Star Trek, da Magipar
(Associação Paranaense de Mágicos) e outras
comunidades adjacentes ou simpatizantes.
Capa com ilustração de Flavio Colin
para
o
“MANUAL
DO
LEITOR
DE
GIBI”, publicado pela Gibiteca - 1986
Capa da Revista “METAL PESADO” – 1997
Edição Especial comemorativa
dos 15
anos da Gibiteca de Curitiba
Cartaz comemorativo da mostra em homenagem
Ao “YELLOW KID” - Desenho de Tako, 1997

GÊNESE E ÊXODO

Gibiteca de Curitiba

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Folder da PRIMEIRA DE EXPOSIÇÃO INTERNACIONAL FANZINES na Gibiteca de Curitiba, em 1990 KID” em
Folder da PRIMEIRA
DE EXPOSIÇÃO
INTERNACIONAL
FANZINES
na Gibiteca de Curitiba, em 1990
KID” em fotográfico
Cartum
para ao a
mostra
homenagem
do “YELLOW
centenário
– K.I.J.
– 1997
pela QUADRINISTAS
ASSOCIAÇÃO
abrigada DE
Gibiteca
Cartaz e aspectos da Exposição “CEM CORAÇÕES” Curitiba em 1996 - Fotos K.I.J. GÊNESE E
Cartaz e aspectos da Exposição “CEM CORAÇÕES”
Curitiba em 1996 - Fotos K.I.J.
GÊNESE E ÊXODO
Gibiteca de Curitiba

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ALGUNS ÁLBUNS DE AUTORES CURITIBANOS “HUMOR NA BIBLIOTECA” Rio de Janeiro, Codecri, 1980 “FOLHETEEN” de
ALGUNS ÁLBUNS DE AUTORES CURITIBANOS
“HUMOR NA BIBLIOTECA”
Rio de Janeiro, Codecri, 1980
“FOLHETEEN”
de José Aguiar
São Paulo, Devir, 2007
“PRÁ MIM CHEGA”
Curitiba, Beija-flor, 1979
“O GRALHA”
Antologia de autores curitibanos
São Paulo, Via Lettera, 2001
“BRICHOS”,
de Antonio Eder
Curitiba, Paulo Munhoz, 2000
“BIFE SUJO & CIA”,
de Neri e Werneck, 1986

Não tentaremos, aqui, uma leitura temática dos quadrinhos produzidos em Curitiba, independente ou não da Gibiteca. Mas percebe- se facilmente que, embora os autores trabalhem temáticas universais, com frequência imprimem em suas histórias as marcas de sua aldeia.

Recebemos três prêmios nacionais:

em 1991 e 1997, o “HQ MIX”, em 2001 o “ANGELO AGOSTINI”.

Nada disso impediu que, nos anos noventa, a Gibiteca fosse comprimida na garagem do Solar do Barão e se visse na iminência de ser fechada. A disputa por espaço com o Museu da Fotografia tirou-a do espaço que ocupava

– e ocupava bem, em tempo integral – por

uma instituição que mantém vazia a Casa da Baronesa. Contra os rumores de fechamento,

reuniram-se todos os interessados, a imprensa

e o público em geral.

todos os interessados, a imprensa e o público em geral. Folha de rosto do álbum de

Folha de rosto do álbum de Fúlvio Pacheco “FANTASIAS URBANAS” – Curitiba, Orbital, 2003

ANTOLOGIA DE CARTUNS de Solda e cartaz Curitiba, 2004 A crise, aparentemente, foi exorcizada –
ANTOLOGIA DE CARTUNS de Solda e
cartaz Curitiba, 2004
A crise, aparentemente, foi exorcizada – mas a
volta ao seu lugar de direito, como prometido,
ainda não aconteceu.

GÊNESE E ÊXODO

Gibiteca de Curitiba

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A

INSTALAÇÃO

da

Gibiteca

na “Galeria Schaffer” não tinha caráter provisório explícito. Era obra “fim de gestão” do prefeito Jaime Lerner. Tendo desistido do projeto grandioso de Domingos Bongestabs, a idéia era instalar a Gibiteca para que sobrevivesse ou morresse.

No final dos anos setenta, quando ainda estava no ar a Casa de Tolerância, ferviam os gibis da Grafipar. Havia um terreno que, não sei de onde, era pensado para ser uma gibiteca: na Rua Cruz Machado, onde está a Fonte de Belarmino & Gabriela. Havia um desenho-cartum de Abrão Assad sugerindo uma construção em forma de revistas. Com a proposta do Gibitiba, eu fizera também um projeto-cartum para o mesmo local, em forma de tira diária de quadrinhos.

A coisa começa a ficar séria quando Aramis Milarch leva a idéia ao prefeito, e este encomenda o grande projeto. Como já assinalamos, uma das periódicas “crises econômicas” do país encaminha o projeto para as gavetas municipais. Reconheçamos:

seria no mínimo complicado, beirando o suicídio político, investir tanto dinheiro nos gibis – ainda em fase de afirmação mesmo dentro da área cultural.

A “instalação possível na Schaffer” foi uma ação adequada e permitiu que, graças à hábil condução, a Gibiteca encontre seus verdadeiros caminhos se afirme e cresça.

Ocorre então a já citada mudança para a Casa da Baronesa, onde a aceitação e o crescimento são tão evidentes que fiz estudo para ocupar outro local – ainda abandonado apesar de suas excepcionais qualidades arquitetônicas: a Casa Vermelha.

Nos anos noventa, a mais ativa, mais eficiente e mais produtiva unidade da Fundação Cultural de Curitiba é alijada de seu espaço e instalada numa garagem, que inicialmente mal tinha condições seguras para abrigar seu acervo e atividades.

E lá está até hoje.

No entanto, apesar de algumas melhoras na manutenção, o local é escassamente adequado e não tem uma personalidade arquitetônica marcante – como a instituição merece.

Fato que não passou despercebido ao estudante de arquitetura Eder Luciano Mochi, que em 2001propõe, em seu trabalho de conclusão de curso, uma sede monumental, usando vazios urbanos na quadra da Igreja da Ordem. Assimilando outros espaços culturais existentes no local, o projeto se enquadra mais na idéia de Midiateca, extrapolando a gibiteca em si.

Em proposta feita em 2008 pela então formanda Cintia Negrão Nogueira, a Gibiteca volta a ser estudada e a ter uma proposta espacial convincente. Localizada na Praça João Cândido, mostruário quase completo das arquiteturas feitas na cidade, não há um bom prédio modernista. O terreno de uma sociedade, sem valor como patrimônio cultural, subutilizado e rejeitado pelos moradores, poderia comportar uma proposta definitiva para a Gibiteca, na proximidade de outros equipamentos culturais da cidade.

O que é uma Gibiteca, é um lugar onde só tem gibi? Não, é um
O que é uma Gibiteca, é um lugar onde só tem gibi?
Não, é um lugar que tem gibi, em que você consulta
um acervo raro, pesquisa sobre um tema, lugar que
tem oficinas, você pode aprender a desenhar, fazer
seu próprio gibi, fazer um fanzine
dá prá fazer um
evento ali, chamar um quadrinista. O Laerte foi na
Itiban, que ficou entulhada de gente
você poder ter
essa conversa gostosa sem a Itiban ficar aberta, com
a Silva Jardim quase impedida.
CINTIA NEGRÃO NOGUEIRA
A ARQUITETURA

Gibiteca de Curitiba

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A Gibiteca não tem um espaço próprio, ela sempre foi meio encaixada. A própria Fundação
A Gibiteca não tem um
espaço próprio, ela sempre foi
meio encaixada. A própria Fundação
Cultural nunca soube onde encaixar a
Gibiteca (
)
nunca teve espaço fixo.
A
Fundação tem
espaço para dança,
para escultura, para gravura
)Porque (
uma exposição de
artes visuais tem vinte pessoas
em um coquetel, na Gibiteca
tem duzentas pessoas. Não
sei porque não tem essa
valorização.

FULVIO PACHECO

E spero um espaço maior, verba para comprar livros, (fazer) assinaturas. Vai chegar uma hora
E spero um espaço maior,
verba para comprar livros, (fazer)
assinaturas. Vai chegar uma hora em
que isso aqui vai ficar pequeno, porque a
Gibiteca só cresce. Tem partes que não
cabe mais gibi, tem os encaixotados
porque não tem mais espaço.

MARISTELA GARCIA

A ARQUITETURA

Gibiteca de Curitiba

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Dissemos antes

que a Gibiteca deveria trabalhar em dois sentidos

1

 

AJUDANDO a formar autores e prestigiando sua produção, reforçando sua atuação e desempenho.

Dificilmente se poderá negar sua presença na “geração Gibiteca”. Nenhuma outra cidade brasileira terá produção comparável. Pelas estantes da Itiban Comic Shop já passaram, em épocas diferentes, e entre outras:

Revistas:

Dr.Clima, Manticore, Quadrinhofilia, Quadrinhópole, Anjos de Curitiba, Zongo Comiques, e outras;

Álbuns:

O Gralha, Brichos, Vigor Mortis, Folheteen, O Chalaça, Fantasias Urbanas, 7 vidas, Ato 5, Rua!, Marcozinho, Dom Casmurro, Tiras de quadrinistas da Gazeta do Povo, Contra a Bomba, Avenida, La Naturalesa e outros;

Tiras, virtuais ou publicadas:

 

Pryscila Vieira, Paixão, Pancho, Marchesini, Solda – das lembradas no momento;

 

Não estamos considerando aí presença dos nossos autores em antologias, edições que desconhecemos por questões de distribuição, ou trabalhando fora da cidade.

E nem todos esses autores têm uma relação direta com a Gibiteca, mas fazem parte do ambiente quadrinístico curitibano.

 
     
 

Não estamos considerando aí presença dos

E nem todos esses autores têm

 

nossos autores em antologias, edições que desconhecemos por questões de distribuição, ou trabalhando fora da cidade.

uma relação direta com a Gibiteca, mas fazem parte do ambiente quadrinístico curitibano.

Não estamos considerando aí presença dos nossos autores em antologias, edições que desconhecemos por questões de distribuição, ou trabalhando fora da cidade.

E nem todos esses autores têm uma relação direta com a Gibiteca, mas fazem parte do ambiente quadrinístico curitibano.

2

FORMANDO OS LEITORES

Tornando-os mais críticos e exigentes

Nesse sentido, as numerosas exposições e, principalmente, os grandes eventos,

tem desempenhado um papel relevante. Eventos como o Festival do Gibi, a

Mostra da Bienal de HQ, as cinco edições do Festival de Fanzines fazem

refletir, informam, cultivam.

Um evento da magnitude da Gibicon, à altura das grandes convenções

como as de Angoulèmme, Lucca, Napoli e outras, atesta a maioridade

da Gibiteca como geradora e da cidade em relação à produção e

consumo de literatura gráfica.

Como consequência desses dois sentidos de atuação, os

editores têm um mercado mais diversificado e mais absorvente para suprir.

Razões de sobra para um prestigiamento mais intenso da Gibiteca em instalações, recursos e atenções.

A Gibicon atesta a maioridade e maturidade da primeira Gibiteca brasileira
A Gibicon atesta a maioridade e maturidade
da primeira Gibiteca brasileira

Sedes

Galeria Schaffer
Galeria Schaffer
Casa da Baronesa
Casa da Baronesa

da Gibiteca CONCLUSÁO de Curitiba

Gibiteca de Curitiba

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58 Projeto de Domingos Bongestabs S edes para a GIBITECA de CURITIBA Projeto de Helder Koiti
58 Projeto de Domingos Bongestabs S edes para a GIBITECA de CURITIBA Projeto de Helder Koiti

Projeto de Domingos Bongestabs

S edes para a

GIBITECA de

CURITIBA

de Domingos Bongestabs S edes para a GIBITECA de CURITIBA Projeto de Helder Koiti Makishi Projeto

Projeto de Helder Koiti Makishi

para a GIBITECA de CURITIBA Projeto de Helder Koiti Makishi Projeto de Cintia Negrão Nogueira SEDE
para a GIBITECA de CURITIBA Projeto de Helder Koiti Makishi Projeto de Cintia Negrão Nogueira SEDE

Projeto de Cintia Negrão Nogueira

SEDE DA GIBITECA DE CURITIBA

Gibiteca na Garagem do Barão Fotos Nira Oliveira
Gibiteca na Garagem do Barão
Fotos Nira Oliveira

CONCLUSÁO

Gibiteca de Curitiba

Gibiteca de Curitiba

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Equipe de Produção

KEY IMAGUIRE JUNIOR

Pesquisa e Texto

VIDAL ANTONIO DE AZEVEDO COSTA ELIZABETE BERBERI

Historiadores

ANA APPEL JAQUELINE BONATO GOMES

Auxiliares de Pesquisa

NIRA OLIVEIRA

Gravação dos Depoimentos

e Reprodução Fotográfica

LOGAN PORTELA

Restauração de Imagens, Artes e Projeto Gráfico

Agradecimento NEREIDES CUSTÓDIO

Entrevistados

- Aguiar, José

- Aguiar, Fabrizio

- Bueno, Edson

- Cortiano, Edson José

- Duarte, Otavio

- Utrabo, Francisco

- Garcia, Maristela

- Imaguire Junior, Key

- Squiba, Marcia

- Cortiano, Edson José

- Negrão Nogueira, Cíntia

- Pacheco, Fulvio

- Retamozzo, Luis

- Squiba, Marcia

- Utrabo, Francisco

Arquivos consultados

- Arquivo da Gibiteca de Curitiba

- Arquivo da Casa da Memória de Curitiba

- Museu do Cartaz da Fundação Cultural de Curitiba

- “Arquivos Incríveis” de João Antonio Bührer d‛Almeida

- Arquivo pessoal de Márcia Squiba

- Arquivo Pessoal de Key Imaguire Junior

Referências Bibliográficas

Factos da actualidade; charges e caricaturas em Curitiba

01 1900/1950. Curitiba, Fundação Cultural de Curitiba, 2009. (Boletim da Casa Romário Martins, v.33 nº142)

- Carneiro, Newton. As artes gráficas em Curitiba. Curitiba, Edições Paiol, 1975.

- Carneiro, Newton. O Paraná e a Caricatura. Curitiba, Grafipar,

1975.

02 Galeria Ilustrada; edição facsimilar.

03 Homenagem a Alceu Chichorro. Curitiba, Casa Romário Martins, dez 1978 (Gibitiba 5)

04 GRAPHIS n.º 159 e 160 – Volume 28 – 1972/73 Zurich, Switzerland.

Observação: mais de trinta anos depois, a Graphis falará da Gibiteca de Curitiba

ANEXOS

Gibiteca de Curitiba

62

62 01 – 1976 – Autores Curitibanos 02 – 1977 – Mostra “Arte e Pensamento Ecológico”

01 – 1976 – Autores Curitibanos

02 – 1977 – Mostra “Arte e Pensamento Ecológico”

03 – 1977 – Primavera

04 – 1978 – Dia da Mulher

05 – 1978 – Homenagem a Alceu Chichorro

06 – 1979 – Dia da Árvore

07 – 1982 – Instalação da Gibiteca

08 – 1988 – (Sem tema)

09 – 1989 – Festival do Gibi

10 – 1990 – O Bat-morcego

11 – 1991 – Autores Locais: Cortiano

12 – 1991 – Autores Locais: Bife Sujo

13 – 1991 – Marco Zinho

14 – 1992 – Mostra da Bienal de HQ

15 – 1992 – Autocaricaturas (Dez Anos da Gibiteca)

01 02 03 04
01
02
03
04
05 06 07 08
05
06
07
08
09 10 11 12
09
10
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12
13 14 15
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ANEXOS

Gibiteca de Curitiba