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CIDADE DO FUTURO, 19 de abril de 2018, Bárbara Guimarães.

O filme retrata um triângulo amoroso envolvendo dois rapazes e uma jovem que moram no
Oeste da Bahia, semiárido baiano. A cidade fica a cerca de 830 km da capital e foi escolhida
para receber famílias desabrigadas pela barragem de Sobradinho. Foram submersas as cidades
de Remanso, Casa Nova, Sento Sé, Pilão Arcado e Sobradinho, e o governo federal na década
de 70, ainda sob regime militar, criou Projeto Especial de Colonização de Serra do Ramalho.

Em meio aos relatos de como se deu a desapropriação das terras alagadas e a ocupação das
Agrovilas criadas em Serra do Ramalho, se passa a trama que envolve os jovens. Baseado em
fatos reais, os atores (Milla Suzart, Igor Santos e Gilmar Araújo) são os protagonistas da história
que inspirou o cineasta Cláudio Marques.

A sessão de lançamento do filme em terras baianas foi seguida de bate-papo com a equipe do
filme, que puderam explicar que ao filmarem documentário sobre a barragem de Sobradinho,
conheceram a história dos jovens e criaram roteiro premiado por Edital do IRDEB.

Milla fica grávida durante as filmagens e este fato é incorporado à trama com direito a
atendimento com médico cubano. O pai da criança é Gilmar que se relaciona com Igor, sendo
vítimas de comentários maldosos da comunidade e suas famílias por causa do relacionamento
homoafetivo.

A gravidez vem à tona e Milla é demitida da escola onde dava aula de teatro, Gilmar é afastado
do cargo de professor de História e Igor começa a fazer bicos para poder se sustentar, e é
espancado por homens do povoado.

A película foi comparada com outras do gênero e ficou notória entre a plateia a forma autêntica
e fidedigna de retratar a vivência numa cidade do interior do drama da escolha de vida dos
protagonistas. O diretor salientou que é uma obra de ficção e usou linguagem e expressão da
arte cinematográfica propositalmente.

É possível refletir sobre novas configurações familiares, sexualidade, homossexualidade,


homofobia, empoderamento feminino, violência. Milla, Igor e Gilmar escolhem estar juntos
para gestar e criar seu filho Heitor na comunidade em que nasceram e foram criados.
Escolheram não ser despatriados de seus laços afetivos, apesar da violência e rejeição que
sofrem.

Giddens (2001) traz que há estranhamento na sociedade contemporânea do formato da família


nuclear tradicional em função das transformações sociais, econômicas e culturais de maneira
definitiva, sem volta. A emancipação da mulher trouxe consequências para a instituição da
família, mas também o fim do casamento por interesse ou conveniência que deu lugar para a
aliança por escolha, a qual trouxe oportunidades e constrangimentos. As pessoas em busca de
amor nesse contexto estranho, inóspito e aversivo (por vezes) criaram novas configurações: as
famílias monoparentais, famílias recompostas, cohabitação, uniões homoafetivas, entre outras,
como a que retrata o filme.

Sobre mulher, seu empoderamento e emancipação tem a trajetória de Milla em seguir seu desejo
e assumir a gravidez numa aliança inesperada com Igor e Gilmar, que expressa sua coragem,
força e liberdade num contexto patriarcal e machista.

O filme é indicado aos interessados nas temáticas em questão, para estudantes e profissionais.
Na Psicologia, traz profundas reflexões sobre estilo de vida, feminismo, sexualidade e gênero.

REFERÊNCIA:

GIDDENS, Anthony. Sociologia. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.