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UNIMONTES CIENTÍFICA

Montes Claros, v.12, n1/2 - jan./dez. 2010

O primado do significante sobre o significado no sistema lacaniano

The primacy of significant over the meaning on the lancanian system

João de Deus Leite1

Resumo: Com base na elaboração de Lacan, constante do Seminário A instância da letra no inconsciente ou
a razão desde Freud, escrito em 1957, justificamos o presente texto pela possibilidade de abordar a questão
do inconsciente pela via da homologia com os mecanismos de funcionamento da linguagem. Para tanto,
tivemos como objetivos: analisar e apresentar (de posse de algumas exemplificações tecidas por nós) os pos-
síveis aspectos sobre as leis e as funções do significante, tomando como referência o fenômeno da metonímia
e da metáfora.

Palavras-chave: Significante, Significado, Letra e Inconsciente.

Abstract: Based on the essays The Instance of the Letter in the Unconscious, or Reason Since Freud, written
in 1957 by the psychoanalytic theorist Jacques Lacan, here we discussed the unconscious issue by means
of homology with the mechanisms of the language. There were two main goals: to analyze and to present
(through some exemplifications) the possible aspects of the laws and functions of the significant by refer-
ence to the phenomenon of metonymy and metaphor.

Key-words: Significant, Meaning, Letter and Unconscious.

1 Aluno do Curso de doutorado no Programa de Pós-graduação em Estudos Linguísticos - Curso de Mestrado e Douto-
rado em Estudos Linguísticos do Instituto de Letras e Linguística da Universidade Federal de Uberlândia
O primado do significante sobre o significado no sistema lacaniano

LEITE, J. D.

INTRODUÇÃO
A rica reflexão freudiana sobre a manifes- Destacamos que esse empreendimento teórico-
tação do inconsciente e sobre o seu poder expres- epistemológico permitiu a Lacan problematizar a
sivo na vida psíquica do homem decorreu, em complexa relação entre as referidas áreas, a partir
grande medida, dos modelos clínicos de análise que de um percurso teórico de escrita que versou sobre
concediam um lugar proeminente aos mecanismos os pontos de contato e os pontos de afastamento da
de funcionamento da linguagem, seja pela dimen- psicanálise com a linguística, que consta do texto A
são investigativa da compreensão do sonho, seja instância da letra no inconsciente ou a razão desde
pela teoria do funcionamento dos atos falhos, seja Freud, escrito em 1957. Esse texto trata-se de um
pela via de análise da associação livre. Assim, emb- Seminário ministrado por Lacan em 9 de maio de
ora não fizesse uso do termo linguagem pelo viés de 1957, no anfiteatro Descartes, na Sorbone, cujas
uma formalização, no sentido de propor um corpo análises recaíram sobre a fase estruturalista de La-
de definições, Freud demonstrou a profunda corre- can.
spondência de formas e de domínios analíticos que Em tal texto, em consonância com Saussure
a psicanálise partilhava com a ciência da linguagem. (1916), Lacan mobilizou uma abordagem sobre a
Nesse sentido, a interpretação do sonho, a língua, focando-a em seu princípio de ordenação,
noção dos atos falhos e as reflexões sobre a associação que tem como constituição ser: relacional, oposi-
livre desempenharam o relevante papel de permitir tivo e negativo. Portanto, notamos a importância
a formulação de que o inconsciente tem uma con- da concepção de sistema nas contribuições teóricas
stituição de linguagem. Por isso, notamos que La- de Saussure, uma vez que o princípio essencial da
can efetuou a transposição do domínio das postu- língua se prende ao fato de ela ser concebida como
lações de Freud para o domínio da assertiva de que um sistema de signos, cuja descrição é feita por meio
“é toda a estrutura da linguagem que a experiência das relações internas ao sistema. Ainda para Saus-
psicanalítica descobre no inconsciente” (LACAN, sure, cada elemento do sistema depende dos outros
1998, p. 498). O que será relacionado e mantido, elementos do conjunto. Nessa ótica, podemos notar
por ele, pela noção de que “o inconsciente tem es- que a língua possui mecanismos de funcionamento
trutura de linguagem”, e que a prática clínica e as de base que, por sua vez, possibilita o desenvolvi-
produções teórico-psicanalíticas conduzir-se-ão mento dos processos de cada código linguístico.
pelas reflexões baseadas na atenção dada ao sistema Com base nessa concepção de língua, Lacan apreen-
da linguagem. Daí a prioridade técnica, ponderada deu a noção de cadeia significante.
por Lacan, quanto à formação do psicanalista em Dessa forma, percebemos que, especificamente
uma visada orientada pelo referido sistema, uma nesta fase, a psicanálise não esteve isenta das “apro-
vez que é do sistema que esse profissional recebe priações” teóricas da linguística; ao contrário, ela é
seu “instrumento, seu enquadre, seu material e até o condizente com a formatação epistêmica1 cunhada
ruído de fundo de suas incertezas” (LACAN, 1998, pela linguística, sem, contudo, apagar a emergên-
p. 497). cia radical de determinados pontos de afastamento,
Essa perspectiva lacaniana de conceber o como, por exemplo, a questão central do primado
trabalho analítico, de forma radicalizada, com os do significante sobre o significado, cujas teorizações
próprios princípios consubstanciados pela linguís- lidam com uma torção do algoritmo saussuriano.
tica, tomando como ponto de referência os estudos Assim, em vez de o algoritmo se basear em uma
saussurianos que dizem respeito à linguagem, teve relação de primazia do significado sobre o signifi-
o mérito de operar, com um rigor de articulação, cante, em Lacan, o modo de articulação entre essas
uma interface entre a psicanálise e a linguística. categorias segue o caminho contrário.
1 É pertinente ressaltar que toda trajetória epistemológica de filiação entre áreas de conhecimento é marcada por um deslocamento no
tratamento dos conceitos, visto que os modos de entrada destes se dão de maneira diferenciada das regiões de origem da rede conceitual

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Como o autor indica, é necessário conceber CONTRIBUIÇÕES LACANIANAS PARA PEN-


O sentido da letra – primeira seção do trabalho so- SAR O PRIMADO DO SIGNIFICANTE SOBRE
bredito, em uma vertente na qual a letra é margeada O SIGNIFICADO
como “suporte material que o discurso concreto Na primeira seção do seminário mencio-
toma emprestado da linguagem” (LACAN, 1998, p. nado anteriormente, Lacan aponta que a linguagem,
498); depois, na segunda seção, é preciso estabelecer bem ao contrário da perspectiva de entendimento
as inter-relações de A letra no inconsciente de modo do trabalho, não é vista como resultado da produção
a procurar entender o circuito de manifestação do do homem. Portanto, o homem é tomado como el-
inconsciente como letra “em sua textura, seus em- emento constituído (emergente) e como elemento
pregos e sua imanência na matéria em causa” (LA- constitutivo (subjacente), respectivamente, na e
CAN, 1998, p. 513) e, por fim, é patente, na terceira pela linguagem, pois concebê-lo como elemento
e última seção, intitulada A letra, o ser e o outro, constituinte (fundador) da linguagem é pensar em
perceber a postura lacaniana indicativa de que “o homens sem linguagem que, através do trabalho,
inconsciente é o discurso do Outro com maiúscula” determinariam as origens dela (o simbólico). O
(LACAN, 1998, p. 529) e que, portanto, o homem que, conforme Riolfi (1999, p. 37), há “daí uma im-
tem sua “trama” enredada (é dizer, “as amarras de plicação de que haja uma antecedência de uma or-
seu ser”, Lacan, 1998, p. 531) pelos meandros do dem primeira natural – aquela na qual poder-se-ia
significante que, por sua vez, tem sua sede no in- pensar em homens sem linguagem – na qual algo,
consciente. O que marca a primazia do significante que tivesse como consequência o aparecimento da
sobre o significado. linguagem, teria havido”. Sendo assim, notamos
Como a proposta fomentadora desta enun- que Lacan destaca que a questão de a linguagem ser
ciação se refere à tessitura dos fios que compõem fundada/constituída pelo homem não pode ser sus-
a rede discursiva da “simbiose” entre psicanálise (a tentada nem pela linguística nem pela psicanálise,
partir de releituras de Lacan tomadas de Freud e de visto que não há, para essas áreas, exterioridade e
Saussure) e linguística (desenvolvida por Ferdinand anterioridade à linguagem. Eis textualmente, em
Saussure), a associação feita aqui dar-se-á pela via Saussure (1916), uma possível articulação teórica
das influências da linguística (cadeia significante) com o pensamento de Lacan (1998), corroborado
para a psicanálise. Para isso, levar-se-á em conta o por Riolfi (1999), a saber: “os indivíduos em larga
momento de elaboração de Lacan discursivizado no medida, não têm consciência das leis da língua (...)”
Seminário A instância da letra no inconsciente ou a (SAUSSURE, 1916, p. 87), então, “para que a par-
razão desde Freud, cujo aporte saussuriano (1916) tida de xadrez se parecesse em tudo com a língua,
é bastante patente nas incursões de Lacan (1998). seria mister imaginar um jogador inconsciente ou
Sob esse viés, conforme a configuração teórica do falto de inteligência” (SAUSSURE, 1916, p. 105), no
seminário em questão, no que tange à abordagem sentido de que “ o pensamento é como uma nebu-
do lugar preponderante do significante sobre o sig- losa onde nada está necessariamente delimitado.
nificado no sistema lacaniano, reportar-nos-emos Não existem idéias preestabelecidas, e nada
ao aporte teórico de comentadores de Lacan (1998) é distinto antes do aparecimento da língua” (Saus-
e de Saussure (1916), quando pertinente. sure, 1916, p. 130). Por conseguinte, “a linguagem,

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com sua estrutura, preexiste à entrada de cada sujei- modo radical de abordagem da perspectiva do sig-
to num momento de seu desenvolvimento mental” nificante tanto pela concepção de cadeia (“ligações
(LACAN, 1998, p. 498). próprias do significante”, Lacan, 1998, p. 500) quan-
Em seu elaborado viés saussuriano, Lacan to pela importância dessa cadeia na constituição do
examinou que o sistema da língua é marcado por significado (“amplitude da função destas [ligações
princípios de ordenação (mecanismos) que neces- próprias do significante] na gênese do significado”
sariamente se referem à disposição relacional do Lacan, 1998, p. 500). Por isso, a importância de
vínculo de associação entre o significante e o signifi- livrarmos “da ilusão de que o significante atende à
cado; contudo, em Lacan, percebemos que o gesto de função de representar o significado, ou melhor di-
formalização do algoritmo postulado por Saussure, zendo: de que o significante tem que responder por
pelo fato de ser suscetível de sofrer uma torção, teve sua existência a título de uma significação qualquer”
sua disposição espacial invertida. Tal operação en- (LACAN, 1998, p. 501).
gendrou a primazia do significante sobre o signifi- Levando em conta essa direcionalidade que
cado, de modo a estabelecer notoriedade quanto ao Lacan atribui a sua “rota” teórica, percebemos pos-
fato de a significação não poder ser totalmente “cap- síveis apontamentos quanto à natureza do alcance
turada”, sob nenhuma redução ao algoritmo, e que do significante, sendo-o destacado com propriedade
foi articulada, por Lacan, pela noção de “uma barrei- pelo referido autor por meio de alguns exemplos,
ra resistente à significação” (LACAN, 1998, p. 500). entre os quais citamos a narração da experiência de
Para tentar detalhar a construção da moldu- duas crianças (um menino e uma menina) em uma
ra conceitual exposta por Lacan, visualizaremos o estação de trem que, ao depararem com o letreiro
funcionamento dessa situação avaliada por ele nesta das portas dos banheiros, cuja inscrição era homens
proposta de exemplo, cuja técnica de elaboração re- e mulheres, tomaram tais espécies nominais como
monta às bases da topologia, a saber: consideremos sendo o nome da cidade onde o trem havia parado.
uma folha de papel A4, por exemplo, com uma do- Como a disposição em que eles se encontravam era
bra exatamente ao meio, de modo que a folha fique um em frente ao outro, o menino afirmou que o
tendo duas partes superpostas. Depois, com a ajuda nome da cidade era mulheres, enquanto a menina,
de uma agulha de coser, faremos buracos em toda a por sua vez, afirmou que era homens.
superfície da folha, exceto na marca da dobra. As- Esse caso é capaz de explicar o funciona-
sim, notaremos que esses buracos transpassam as mento do significante, em cadeia, mostrando “a
duas partes da folha, gerando, em cada parte, um noção de um deslizamento incessante do signifi-
buraco. Agora, o resultado dessa operação na su- cado sob o significante” (LACAN, 1998, p. 506),
perfície da dobra será o surgimento de apenas um o que não rompe com o essencial da teoria saus-
buraco. De tal exemplo, é possível perceber que a suriana – nem é esse, aliás, o propósito de Lacan
diferença existente entre os pontos de superfície e – de que “as alterações jamais são feitas no bloco
os pontos de dobra não é imanente a eles (nenhuma do sistema, e sim num ou outro de seus elemen-
propriedade de conteúdo intrínseco), mas se faz tos, [...] sem dúvida, cada alteração tem sua re-
pela pura diferença posicional em relação aos out- percussão no sistema” (SAUSSURE, 1916, p. 102).
ros pontos. Percebemos também que essa diferença Ainda para Lacan (1998), “é na cadeia do signif-
possibilita o entendimento da singularidade dos icante que o sentido insiste, mas que nenhum dos ele-
pontos de dobra, pois eles, conferidos pelo ato de mentos da cadeia consiste na significação”1 (LACAN,
furar na dobra, se mostram como um buraco, en- 1998, p. 506), já que “nenhum dos termos (...) tem
quanto os pontos de superfície se configuram como valor por si mesmo ou remete a uma realidade sub-
dois buracos. Sob essa luz, no bojo teórico de Lacan, stancial; cada um deles adquire o seu valor pelo fato
compreendemos a operação e a demonstração do de que se opõe ao outro” (BENVENISTE, 1989, p. 43).

1 Os grifos são do autor


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Essas relações destacadas acima coadunam Daí, portanto, não ignorar os efeitos de verdade
com a força argumentativa da concepção de La- que a instância da letra imprime no homem, con-
can concernente às especificidades dos diferentes forme Freud empenhou em nos revelar.
movimentos que o significante realiza na cadeia, Na segunda seção, de imediato, ao lado de
sendo-os reconhecidos diante dos fenômenos da uma apresentação breve da importância fundante
metonímia e da metáfora. Notamos que a primeira da Ciência dos Sonhos (publicação da obra de Freud
forma de movimento do significante (a metonímia) A interpretação dos Sonhos, em 1900), naquilo que
está assentada na possibilidade de substituição dos ela aborda o sonho na condição de escrita do incon-
elementos da cadeia significante, enquanto a seg- sciente a partir da configuração de um rébus, Lacan
unda forma (a metáfora) está embasada no cotejo constrói seu argumento priorizando o valor de sig-
de dois significantes em que “um substituiu o outro, nificante da imagem do sonho, no sentido de que
assumindo seu lugar na cadeia, enquanto o signifi- esta não poderia ser tomada como valor de imagem
cante oculto permanece presente em sua conexão pelo fato de tal procedimento instaurar um erro.
(metonímica) com o resto da cadeia” (LACAN, Com efeito, percebemos que o valor de significante
1998, p. 510). Para cada uma dessas formas de permite que o valor da imagem migre de seu valor
reconhecimento do movimento do significante, La- pictográfico para se tornar “suscetível de significar
can associou uma fórmula correspondente, donde outra coisa além daquilo que o código lhe atribui
palavra em palavra estaria para a metonímia e uma a título de um objeto” (ALLOUCH, 1995, p. 67).
palavra por outra para a metáfora. Allouch (1995, p. 67) acentua, ainda, que “a es-
De modo totalmente imerso nessa perspec- crita hieroglífica também faz amplo uso do rébus
tiva de abordagem dos mecanismos da linguagem, de transferência, ‘desviando’, como diz a seu modo
ao final da primeira seção, notamos que Lacan nos Champollion, os ideogramas de sua expressão co-
provoca com a ideia de que a dimensão do funcion- mum para representar acidentalmente o ‘som’”.
amento do significante pode ser de relevante utili- Com relação ao desenvolvimento das ponder-
dade para o estudo do funcionamento dos mecanis- ações que se referem aos processos de ação do incon-
mos do inconsciente, uma vez que, se por um lado, sciente, notamos que Lacan reporta “à estrutura dos
o significante só pode “operar por estar presente tropos do discurso, como a metonímia e a metáfora”1
no sujeito” (LACAN, 1998, p. 508) – operação de (DOR, 1996, p. 267) para identificar os mecanismos
recalque –, por outro, a linguagem é condição do de funcionamento do inconsciente, como o desloca-
inconsciente. Nessa mesma vertente de concepção, mento e a condensação. De certa forma, trata-se de
Dor pondera que: um comentário detalhado sobre as leis do signifi-
cante – arrolado na primeira seção – que procura
apresentar os meios de encenação do inconsciente
Inconsciente e linguagem tornam-se solidaria- pela via da manifestação do sonho, tendo em vista
mente articulados, de tal modo que, se o incon- que “o trabalho do sonho segue as leis do signifi-
sciente é uma “diz-mansão” que se institui no
terreno do significante recalcado, a linguagem cante” (LACAN, 1998, p. 515). Eis, nas palavras de
não pode deixar de aparecer como a condição Lacan, os modos fundamentais de compreensão do
mesma do inconsciente. (Dor, 1996, p. 267) funcionamento do inconsciente:

1 Os grifos foram referendados por nós.

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A Verdichtung, condensação, é a estrutura de Nessa ótica, de posse do marco teórico de tais


superposição dos significantes em que ganha
formalizações, compreendemos que Lacan dimen-
campo a metáfora, e cujo nome, por condensar
em si mesmo a Dichtug, indica a conaturali- siona a consistência da barra na notação do processo
dade desse mecanismo com a poesia, a ponto significante, expressando a discrepância funcional
de envolver a função propriamente tradicional
que a barra imputa em cada fórmula. Na estrutura
desta. A Verschiebung ou deslocamento é, mais
próxima do termo alemão, o transporte da sig- metonímica, há a manutenção da barra que “consti-
nificação que a metonímia demonstra e que, tui, nas relações do significante com o significado, a
desde seu aparecimento em Freud, é apresen-
resistência da significação” (LACAN, 1998, p. 519),
tado como o meio mais adequado do inconsci-
ente para despistar a censura. (LACAN, 1998, sendo-a definida pelo sinal de (-). Já, na estrutura
p. 515). metafórica, há a transposição da barra que fomenta
“a emergência da significação” (LACAN, 1998, p.
Nessa medida, é possível contemplar as 519), sendo-a descrita pelo sinal (+).
postulações de Lacan sobre a densidade teórica da Ainda como abordagem teórica, muito sig-
questão do funcionamento do inconsciente, no âm- nificativa e essencial nesta seção, é o enfoque da
bito dos estudos da psicanálise, em uma dimensão teoria da subjetividade de natureza psicanalítica,
que coincide com os princípios da escrita algébrica, que abre possibilidade para pensar os efeitos que
pois, para ele, o papel constitutivo do significante o inconsciente exerce na demarcação (é dizer, na
não é tomado em si – percepção imediata – como singularidade) do sujeito. Assim, os traços de acep-
garantia do acesso à “verdade” do inconsciente, ção assumidos pelo termo identidade, no âmbito
sendo, portanto, necessário o intermédio da for- dos estudos filosóficos e dos estudos psicanalíticos,
malização significante. Para tanto, fazendo passar são articulados na discussão de Lacan, por meio
o próprio pensamento freudiano pelo fio condutor da problematização da perspectiva “existencial do
da psicanálise, para quem o não-saber é produção sujeito com sua transparência transcendental” (LA-
peculiar do inconsciente, Lacan vale-se daquilo CAN, 1998, p. 519).
que Freud sempre intuiu, para expressar, algebrica- É interessante aqui ressaltar que alguns anos
mente, a simbolização da estrutura da metonímia depois Lacan, no Seminário A identificação (1961-
e da metáfora, que na primeira seção do texto de 1962)1 , pensaria o problema teórico da noção de
Lacan teve seus mecanismos representados textual- representação para a filosofia. Contudo, já no texto
mente. Vejamos, na fundamentação teórica abaixo A instância da letra no insconsciente ou a razão
relacionada, a orientação de leitura, estabelecida desde Freud (1957), levando em conta algumas
por Lacan, quanto aos elementos das referidas fór- indicações presentes no texto, entre as quais cita-
mulas, tomando como ponto de partida o algoritmo mos esta sequência “[…] e se, em nome de ‘guerra é
transformado: guerra’ e de ‘um vintém é um vintém’, decido-me a
ser tão somente aquilo que sou, como desvincular-
me, aqui, da evidência de que sou nesse ato mes-
A estrutura metonímica, indicando que é a
mo?” (LACAN, 1998, p. 521), notamos a preocu-
conexão do significante com o significante
que permite a elisão mediante a qual o signifi- pação dele para com essa noção. Portanto, quando
cante instala a falta do ser na relação de objeto, julgarmos pertinente, articularemos em nossa dis-
servindo-se do valor de envio da significação
cussão apontamentos que se referem ao Seminário
para investi-la com o desejo visando essa falta
que ele sustenta [...] A estrutura metafórica, que de 1961-1962, como demonstra, a seguir, o percur-
indica que é na substituição do significante pelo so de análise da fórmula “A é A”, bem como comen-
significante que se produz um efeito de signifi-
tários de estudiosos que, de algum modo, admitem
cação que é de poesia ou criação, ou, em outras
palavras, do advento da significação em questão pressupostos que dizem respeito especificamente
[...]. (LACAN, 1998, p. 519) ao ponto teórico aqui tratado.
1 No Brasil, este Seminário foi traduzido, em 2003/2004, pelo Centro de Estudos Freudianos do Recife.

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Lacan retomou a fórmula “A é A”, pela qual Mas se é assim, X é o mesmo que Y, e, portanto, X
Heidegger diferenciou o princípio da identidade do que também é Y é, por transitividade da igualdade,
princípio da igualdade, sendo que, a partir de tal fór- o mesmo que X, donde X é X (ou Y é Y). Nesse caso,
mula, Heidegger estabeleceu que, para o esboço do o princípio da igualdade também é princípio de
primeiro princípio, era necessário apenas um ele- identidade, no sentido Heideggeriano. Heidegger
mento, enquanto, para o esboço do segundo princí- afirmou que
pio, seriam necessários dois elementos. Assim, Hei- Interpretamos a mesmidade como comum-
degger, em seu trabalho intitulado O princípio da pertencer (co-pertinência). Facilmente se rep-
resenta este comum-pertencer no sentido da
identidade, ponderou a abordagem da identidade identidade, pensada mais tarde e universal-
pelo caráter intrínseco de mesmidade: “todo A é ele mente conhecida [...] o ser é determinado a par-
mesmo o mesmo com ele mesmo” (HEIDEGGER, tir de uma identidade, como traço dessa identi-
dade [...] A mesmidade do pensar e ser, que fala
apud SOUZA, 1994, p. 3). na proposição de Parmênides, vem mais longe
Em contrapartida, Lacan mostrou um con- que a identidade metafísica, que emerge do ser e
tra-exemplo que pôs em xeque os limites do raci- é determinada como traço dele. (HEIDEGGER
1973 apud KAHLMEYER-MERTENS, 2008, p.
ocínio de Heidegger, a partir da substituição do A da 19)
fórmula por “meu avô”, resultando daí a expressão
“meu avô é meu avô”. Desse modo, a referida fór- A noção de co-pertinência entre o pen-
mula de Heidegger já não indicaria mais o princípio samento e o ser, por meio da qual Heidegger definiu
de identidade, pelo fato de o primeiro termo “meu o princípio de identidade, tem um aspecto limita-
avô” se referir ao indivíduo e o segundo termo “meu dor, para Lacan, que é o de ratificar a ideia de que o
avô” se referir ao caráter de parentesco. significante, como, por exemplo, o A, seja capaz de
Heidegger, ainda no trabalho supramen- fornecer ao sujeito uma unificação sintética numa
cionado, com base na seguinte formulação de Par- identidade. Para isso, Lacan integrou em sua teo-
mênides “o mesmo, com efeito, é tanto perceber ria da identificação simbólica, responsiva ao pen-
(pensar), quanto ser”, substituiu em tal formulação samento representativo, a referência à linguística
pensar por homem. Souza (1994, p. 3) destacou que saussureana, tomando como princípio a noção de
“Heidegger inverte a concepção da identidade en- significante “como sendo o que não são os outros
quanto propriedade do ser e passa a conceber identi- significantes” (LACAN apud SOUZA, 1994, p. 5).
dade como pertinência mútua entre o homem (pen- Assim, o princípio de identidade formulado por
samento) e o ser”. Então, o princípio de identidade Heidegger por meio de “A é A”, em que perpassa
caracterizado por “A é A”, após a inversão postulada a ideia de que o significante pode significar-se a si
por Heidegger, cedeu lugar para a abordagem da mesmo, não pode ser sustentada.
identidade à luz da co-pertinência entre o homem No entanto, Lacan ressaltou que, no que se
(pensar) e o ser, e essa co-pertinência pode ser ilus- refere a um objeto que está ao alcance do campo
trada nos termos da lógica, por meio de duas formas perceptível de determinada pessoa, a mediação
distintas de o mesmo se manifestar, a saber: se formu- entre esse objeto (ser) e a imagem (pensar) dele é
lamos que o mesmo é X, como também é Y, resulta perfeitamente possível, isto é, há uma formação de
que X é igual a Y, já que são dois termos diferentes imagem que garante o estabelecimento da identi-
subordinados à igualdade pela expressão o mesmo. dade entre o ser e o pensar.

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Se apresentarmos um donuts a alguém, e sou eu?) supera a capacidade de o outro saber quem
depois se o escondermos, então, esse alguém será somos nós e de dizer, por meio de uma expressão
capaz de reconhecer a imagem do donuts, ainda que verbal inequívoca, quem de fato somos nós. Nessa
não o veja. Se perguntarmos: a palavra donuts é o medida, compreendemos que Souza, coadunando
donuts?, a resposta certamente será algo como: o a ideia de Lacan, enfatizou que os significantes não
donuts não é as letras d, o, n, u, t, s. Isso pode ex- portam a tendência de abordagem das “dissemelhan-
emplificar uma possível identidade imaginária de ças qualitativas percebidas na realidade” (SOUZA,
um donuts, bem como a diferenciação do objeto 1994, p. 8), uma vez que a diferença exposta pelos
imaginário e o seu significante. Tal ilustração fig- significantes não se prende às questões de conteúdo
ura como exemplo de uma mediação em que ser e e, sim, pelo caráter posicional em relação aos outros.
pensar produz uma identidade. Mas, se pedirmos Sob essa luz, para entendermos a situação ex-
a esse alguém que pense em número seis e se lhe perimentada pelo ser humano, no bojo teórico de
apresentarmos o algarismo 6, ao ver esse símbolo, Souza, compreendemos que o significante abre
ele não poderia dizer que o número é o algarismo. a possibilidade para o ser humano “de não se re-
Na verdade, o número seis não está em nenhuma stringir a apenas ser, mas de também saber-se ser”
parte do campo perceptível, como muito poderá (SOUZA, 1994, p. 8), pois, assim como no caso dos
ser reconhecido, quando seis objetos estiverem no pontos, cuja identificação se realiza com a possibili-
imaginário desse alguém, e o que se tem não é o dade de furar e com o lugar de onde furar, o sujeito
seis, senão o imaginário dos objetos, sendo que isso também se identifica nesses mesmos moldes pelo
não é o seis. O verdadeiro seis é uma “ideia” que caráter serial dos furos e pela possibilidade de onde
traz à tona ao consciente algo que pode ser visto no desejar os furos. E, dessa série do contável, sem-
campo perceptível, pelo fato de o número ser um pre há um significante que desperta o interesse do
conceito abstrato e, em geral, ser identificado por sujeito, a ponto de este extrair o traço unário que
um significante que reclama o plano do inconsci- representa, para ele, a perda do objeto edipiano. Em
ente para melhor perceber seu significado, que só é Andrés, entendemos que
notado, em parte, dependendo das referências.
Um problema surge, de imediato, em relação
à abordagem do princípio de mesmidade entre ser A conceituação por Lacan do traço unário
e pensar, quando o caso é saber quem alguém é – freudiano passa de uma identificação imag-
inária para uma identificação propriamente
nas palavras de Lacan (1998, p. 520), de saber se simbólica porque a relação da falta com o traço
“quando falo de mim, sou idêntico àquele de quem institui a própria lógica do significante, cujo
falo”, visto que a imagem desse alguém não pode papel é marcar, a cada uma de suas voltas, uma
diferença [...] o traço unário, nessa medida, é
traduzir o seu íntimo, e esta questão “só pode ser uma ‘escansão em que se manifesta a presença
resolvida por uma identificação com o significante no mundo’ [...]1 (ANDRÉS, 1996, p. 562).
que, longe de produzir unidade, produz um sujeito
$, como efeito da cisão entre ser e significante (pen-
sar)” (SOUZA, 1994, p. 5). Desse ponto de vista, a extração do traço unário da
Souza recorreu aos estudos de Freire Costa série do contável fomenta a constituição do ideal do
para destacar, de forma discrepante deste, que, por ego, que “demarca ‘inequivocamente’ não o sujeito,
mais que o outro possa usar significantes em seu mas o lugar de onde o sujeito surge enquanto movi-
caráter não-predicativo como os operadores de in- mento de representação” (SOUZA, 1994, p. 11). Em
dividualização para nos representar, o nosso íntimo suma, para Souza,
(em que está ancorada a resposta à pergunta quem

1 Grifado por nós.


22
UNIMONTES CIENTÍFICA
Montes Claros, v.12, n1/2 - jan./dez. 2010

É este o campo inaugurado pela identifi- o Outro introduz na consciência do sujeito um de-
cação do sujeito com o significante, no qual
scentramento. E, sob a ótica do desconhecimento
todas as respostas que o sujeito vier a dar
à questão “quem sou eu”? serão marcadas da “excentricidade radical de si em si mesmo com
pelo caráter não-predicativo e serial do sig- que o homem é confrontado” (LACAN, 1998, p.
nificante, o que faz com que uma resposta
528), Lacan propõe um gesto de leitura psicanalítico
exija outra, que por sua vez exija outra, e as-
sim por diante [...] (SOUZA, 1994, p. 9). que se baseia na ênfase da referência ao dizer e não
no estabelecimento da referência ao ser, pois esta é
tributária a uma ideia de unidade e de estabilidade.
A articulação dos significantes em cadeia, Eis a abordagem desse aspecto contemplada por La-
por meio dos quais é possível cernir a especificidade can: “é que ao tocar, por pouco que seja, na relação
do sujeito do desejo (a presença do não-idêntico e do homem com o significante, no caso, na conversão
o registro da singularidade), resulta em um enigma dos procedimentos da exegese, altera-se o curso de
para a “filosofia natural”, visto que “[...] o sujeito sua história, modificando as amarras de seu ser”.
humano recebe sua determinação do simbólico; Esses argumentos elencados por Lacan
mais ainda, que o sujeito do desejo inconsciente, (1998), ao longo de todo o texto em questão, servem
causado por um não-saber, se presentifica, pontual- de contraponto para a abordagem do panorama
mente, numa estrutura de corte característica da traçado pelos postulados do conhecimento até en-
linguagem” (LEITE, 2000, p. 44). Daí a pertinência tão vigentes, isto é, da “situação do homem no ente”
do questionamento de Lacan, a partir da seguinte (LACAN, 1998, p. 532), uma vez que apostar em tal
indagação: “o lugar que ocupo como sujeito do sig- abordagem é admitir que o “âmago de nosso ser”
nificante, em relação ao que ocupo como sujeito do (LACAN, 1998, p. 530) tornar-se-ia “objeto de um
significado, será ele concêntrico ou excêntrico? Eis conhecimento”, como se fosse apanhado e aprovei-
a questão” (LACAN, 1998, p. 520). Mais adiante, ele tado em um domínio comprometido fortemente
parece responder taxativamente propondo que “o S com o conteúdo (percurso que sempre tende a ir
e o s do algoritmo saussuriano não estão no mesmo para o significado). Logo, em Lacan, notamos que
plano, e o homem se enganaria ao se crer situado o significante se mostra como estruturante da di-
no eixo comum a ambos” (LACAN, 1998, p. 521). mensão da verdade do sujeito e, como o algoritmo
E aí entram não só os efeitos da articulação entre os nos possibilitou visualizar, o significado se torna
significantes – inferir o lugar que o sujeito do de- subordinado a ele e “separado dele” (ARRIVÉ,
sejo ocupa na metáfora, mas também o resto que so- 1999, p. 84), por meio dos efeitos de resistência
bra de tal articulação como pilares para o trabalho que são exercidos pela barra que atravessa a dis-
analítico. Com base nessas duas fontes principais de posição espacial entre significante e significado.
formulação sobre a questão do sujeito, Lacan recon- Em suma, pudemos perceber que a instân-
hece que é na cadeia significante que o real insiste, cia da letra, a qual não se capturaria sob nenhuma
possibilitando o deslocamento previsto pelo próprio redução ao conceito, exige que se leve em conta a
sistema e, por sua vez, a inscrição do sujeito em uma natureza e o funcionamento do significante seja
verdade que decorre pela via do Outro, cuja operação em um trajeto de (re)lançar sempre para outro
é consolidada ou aludida pelo crivo da transferência. lugar (ação voltada para a ordem do desejo com
Finalmente, na última seção, dando uma uma ancoragem metonímica), seja em um per-
sequência lógica à anterior, Lacan fundamenta sua curso que contemple o sentido engendrado pela
teoria em uma assertiva – “o inconsciente é o dis- centelha poética (ação voltada para a manifes-
curso do Outro com maiúscula” (LACAN, 1998, tação do que surge no lugar daquilo que foi abo-
p. 529) – voltada para a busca do entendimento de lido – sintoma – com uma ancoragem metafórica).
que o Outro se torna lugar de significantes e de que A instância da letra no inconsciente ou a

23
O primado do significante sobre o significado no sistema lacaniano

LEITE, J. D.

razão desde Freud é um texto denso, minucioso, de si, cujas implicações se prendem ao inconsciente,
que recorre constantemente a numerosas con- enquanto aquela pelo fato de haver uma língua que
tribuições do próprio Freud e de linguistas, tais não deixa dizer tudo, sendo essa concepção acirrada
como: Saussure e Benveniste. Para isso, Lacan pela noção da espessura da barra, que estabelece o
registra e comenta – em longas e abundantes no- efeito do retorno daquilo que ficou como resto da ca-
tas de rodapé – os apontamentos teóricos pon- deia de significantes.
derados por esses pensadores, a fim de sustentar
suas ideias. Disso resulta um texto erudito, que
serve de horizonte para a prática psicanalítica de REFERÊNCIAS
modo a propor a configuração densa e compl-
exa da instância da letra no âmbito da psicanálise.
ALLOUCH, Jean. Letra a letra: transcrever, traduz-
CONSIDERAÇÕES FINAIS ir, transliterar. Trad. Dulce Duque Estrada. Rio de
Janeiro: Campo Matêmico, 1995.
Ao longo deste texto, optamos por desen-
volver uma argumentação que explorasse as poten- ANDRÈS, M. O outro. In: KAUFMANN, Pierre.
cialidades do papel investigativo do axioma lacani- Dicionário enciclopédico de psicanálise: o legado
ano, expresso pela afirmação de que “o inconsciente de Freud e Lacan, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1996,
tem estrutura de linguagem”. Assim, foi possível p. 562.
(re)construir ativamente o estatuto que regulava a
elaboração dos estudos relativos ao inconsciente ANDRÈS, M. O Curso de Lingüística geral: uma
desde Freud, dando notoriedade ao ponto de vista releitura. In: Linguagem e Psicanálise, Lingüística
aqui adotado, isto é, à questão da homologia entre os e Inconsciente – Freud, Saussure, Pichon, Lacan.
mecanismos de funcionamento da linguagem e do in- Trad. Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,
consciente. Para tanto, coadunando o marco teórico 1999.
proposto por Lacan, nos embasamos nas leis e nas
funções do significante, a fim de estabelecer uma ARRIVÉ, Michel. Linguística e psicanálise: Freud,
“apropriação” em que fosse possível abordar a ar- Saussure, Hjelmslev, Lacan e outros. São Paulo: Edi-
ticulação entre a linguagem e o inconsciente pela tora da Universidade de São Paulo, 1999.
via da metonímia e da metáfora.
Cumpre ressaltar que o recorte conceitual e BENVENISTE, E. Saussure após meio Século. In:
operacional que ora optamos por apresentar neste Problemas de Lingüística Geral I. Campinas: Pon-
texto nos possibilitou pensar em um desenvolvi- tes, 1995. p. 34-49.
mento da noção do primado do significante sobre
o significado no sistema lacaniano. Nesse sistema, DOR, J. Inconsciente. In: KAUFMANN, Pierre. Di-
os significantes só têm possibilidade de significar a cionário enciclopédico de psicanálise: o legado de
partir da estruturação em cadeia, e, por sua vez, essa Freud e Lacan, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1996, p.
cadeia possui uma falta que lhe é constitutiva, o que 267.
nos remete, de imediato, à espessura da barra que
atravessa a disposição espacial entre o significante FRANÇA, Júnia Lessa. Manual para normatização
e o significado. Portanto, é pertinente pensar que de publicações técnico-científicas. 8. ed. Belo Hor-
tanto a linguagem quanto o sujeito são marcados izonte, Ed. UFMG, 2007.
por uma opacidade; este pelo fato de não saber tudo FREIRE COSTA, Jurandir. Psicanálise e contexto

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UNIMONTES CIENTÍFICA
Montes Claros, v.12, n1/2 - jan./dez. 2010

cultural, Rio de Janeiro, Campus, 1989.


LEITE, N. V. A. Sobre a singularidade. In: Cader-
HEIDEGGER, Martin. Le príncipe d`identité. In: nos de Estudos Lingüísticos. v. 38. Campinas: IEL,
SOUZA, Octávio. Fantasia de Brasil: as identifi- 2000. p. 39-50.
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que sustenta a prática pedagógica: formação de
KAHLMEYER-MERTENS, Roberto S. Sobre a professor de Língua Materna (Tese de Doutorado).
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2008. tica Geral. Organizado por Charles Bally e Albert
Sechehaye com a colaboração de Albert Riedlinger.
LACAN, Jacques. A instância da letra no inconsci- São Paulo: Cultrix, 2006.
ente ou a razão desde de Freud. In: Escritos. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar, 1998. SOUZA, Octávio. Fantasia de Brasil: as identifi-
cações na busca da identidade nacional. São Paulo:
LACAN, Jacques. A Identificação. Trad. Ivan Cor- Escuta, 1994.
rêa e Marcos Bagno. Recife: Centro de Estudos
Freudianos do Recife, 2003.

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