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UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA

CENTRO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS


BACHARELADO EM DIREITO

Anderson Candeia Porto

RESUMO – ESTATUTO DE ROMA

JOÃO PESSOA

2018
Anderson Candeia Porto

RESUMO – ESTATUTO DE ROMA

Resumo desenvolvido no curso da


disciplina de Direitos Humanos como
requisito parcial para a obtenção de
êxito nesta no semestre 2017.2.
Professor Dr. Robson Antão de
Medeiros

JOÃO PESSOA

2018
O Estatuto de Roma, tratado que estabeleceu o Tribunal Penal Internacional -
TPI, foi adotado em 17 de julho de 1998, de modo que completa seus 20 anos de
existência. O documento foi resultado de um longo período de discussão da
Comissão de Direito Internacional da ONU acerca da criação de um tribunal
internacional permanente. A seguir tem-se uma síntese do contexto histórico que
levou à criação desse estatuto.

1. Antecedentes históricos

A ONU (Organização das Nações Unidas) foi fundada após a Segunda


Guerra Mundial para substituir a Liga das Nações (1919-1946), com os objetivos de:
manter a paz e a segurança internacionais; estabelecer relações cordiais entre as
nações do mundo, observando sempre o princípio da igualdade de direitos e o da
autodeterminação dos povos; incentivar a comunidade internacional na resolução de
problemas económicos, sociais, culturais e humanitários, entre outros.
A necessidade de criar uma nova organização, mais efetiva, foi percebida
devido, principalmente, aos casos de direto afronte aos direitos humanos que
ocorreram com a Segunda Guerra Mundial, notadamente o caso dos judeus, com os
campos de concentração, e os massacres étnicos na Europa (Sérvia) e África
(Ruanda), entre outros.
Assim, uma vez acabada a guerra, surgiu a necessidade de se criar uma
corte internacional direcionada a reprimir certas modalidades de crimes
internacionais, no intuito de punir as atrocidades cometidas durante o período bélico.
Desse modo, foram instituídos dois Tribunais Militares Internacionais: o de
Nuremberg e o de Tóquio.
As referidas cortes foram destinadas a processar e julgar os responsáveis, na
Alemanha e no Japão, pelos crimes de guerra, contra a paz e a humanidade, e,
apesar de constituírem apenas tribunais de exceção (ou seja, possuíam caráter
temporário e/ou excepcional), contribuíram para que crescesse a ideia de criação de
uma corte penal internacional permanente.
Não obstante seu caráter de tribunais de exceção, os precursores do TPI (que
foram, além dos já citados, o Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia e o
Tribunal Penal Internacional para Ruanda, ambos criados na década de 90 do
século passado pelo Conselho de Segurança da ONU) serviram de base para a
conformação dos princípios básicos da responsabilidade penal internacional e do
processo de desenvolvimento do Direito Penal Internacional.

2. O Estatuto de Roma e o Tribunal Penal Internacional

O Tribunal Penal Internacional é, na atualidade, o principal órgão jurisdicional


internacional voltado ao combate aos crimes internacionais. Ele foi criado numa
conferência diplomática realizada em Roma, de 15 de junho a 17 de julho de 1998,
mais precisamente no último dia da conferência, mediante a aprovação do Rome
Statute of the International Criminal Court (aqui referido como Estatuto de Roma).
Diversos países assinaram o Estatuto esperando poder modificá-lo mais tarde
(o que foi feito, em parte, após a aprovação de diversas emendas). O Brasil passou
a ser signatário do referido tratado em 2002, quando o Congresso Nacional aprovou
o texto em junho daquele ano e o presidente Fernando Henrique Cardoso o
promulgou, através do Decreto Lei 4.388/02, no dia 25 de setembro.
A Corte iniciou suas atividades em 2003, é sediada em Haia (Holanda) e tem
personalidade jurídica de Direito Internacional Público. Nos termos do Estatuto de
Roma (art. 1º), é uma instituição permanente, e possui 18 juízes, eleitos entre
nacionais dos Estados-partes, para um mandato não renovável de 9 anos.
Essa Corte difere-se de outros tribunais não só por sua abrangência penal
internacional e sua missão de defesa dos direitos humanos, mas porque o próprio
tratado que lhe deu origem é de característica distinta, por ser de natureza
centrífuga, ou seja, ser um tratado que rege sua jurisdição através de uma
competência global. Os tratados de natureza centrífuga retiram o indivíduo de uma
jurisdição nacional para uma jurisdição internacional, global, universal.
Outra característica da Corte de Haia está na sua autonomia, expressada no
poder de exigir, por exemplo, que um Estado que ratificou o Estatuto tenha de acatar
determinada ordem do Tribunal, sem a necessidade de consulta prévia ou
consentimento por parte desse Estado.
Apesar disso, é importante destacar que a ação do Tribunal Penal
Internacional atualmente é excepcional e esporádica, cobrindo os casos em que
existirem incapacidade ou ausência de disposição dos Estados em processar e
julgar os responsáveis. Assim sendo, após controvérsias e pressões externas,
caracteriza-se o atual Tribunal Penal Internacional como o defensor dos direitos
humanos, perante o cometimento de crimes específicos expostos no Estatuto.
2.1. Os crimes de competência do TPI, segundo o Estatuto de Roma

De acordo com o Estatuto, compreendem a competência do Tribunal somente


quatro crimes, que, conforme afirma o preâmbulo, “constituem uma ameaça à paz, à
segurança e ao bem-estar da humanidade”; sendo assim, faz-se necessário
destacá-los: o crime de genocídio, os crimes contra a humanidade, os crimes de
guerra e o crime de agressão, abordados no art. 5º:
A competência do Tribunal restringir-se-á aos crimes mais
graves, que afetam a comunidade internacional no seu conjunto. Nos
termos do presente Estatuto, o Tribunal terá competência para julgar
os seguintes crimes: a) O crime de genocídio; b) Crimes contra a
humanidade; c) Crimes de guerra; d) O crime de agressão. 2. O
Tribunal poderá exercer a sua competência em relação ao crime de
agressão desde que, nos termos dos artigos 121 e 123, seja
aprovada uma disposição em que se defina o crime e se enunciem
as condições em que o Tribunal terá competência relativamente a
este crime. Tal disposição deve ser compatível com as disposições
pertinentes da Carta das Nações Unidas.
É importante salientar que a competência do tribunal sob estes crimes só
vigora a partir da entrada em vigor do Estatuto, ou seja, o Estado só irá submeter
alguém a um julgamento pelo TPI se o suposto crime tiver sido praticado após a
vigência do Estatuto. Além disso, a Corte só tem competência de atuação nos
territórios dos países que fazem parte de seu Estatuto, e apenas por meio de
acordos especiais pode agir também dentro daqueles que não fazem parte: esta
prerrogativa existe principalmente para a captura dos criminosos.
Assim, quanto aos crimes previstos pelo tratado: o crime de genocídio
encontra-se devidamente tipificado no art. 6º do Estatuto - sendo definido como um
ato cometido com escopo de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional,
étnico, racial ou religioso - numa redação bastante semelhante à reconhecida desde
os Tribunais de Nuremberg e Tóquio, bem como pela Convenção de 1948 sobre a
prevenção do crime de genocídio.
Analisando o tipo seguinte, o crime contra a humanidade, percebe-se que
este vem previsto de forma taxativa, no art. 7º, §1º, do Estatuto de Roma. Como
exemplos de atrocidades que se enquadram nesse sentido, tem-se a escravidão, o
extermínio (que, apesar de se assemelhar ao genocídio, se diferencia pelo fato do
agente não escolher etnia, cultura, etc... É um ato que pode se consubstanciar, por
exemplo, na privação de medicamentos ou alimentos para exterminar número
considerável de pessoas) e a tortura. Interessante também, e provavelmente
derivado de origens históricas, é a proibição do apartheid, uma vez que segregar um
determinado grupo racial sob outros grupos é de um quinhão desumano imenso,
como ficou provado na história dos Estados Unidos.
Importante ainda ressaltar que, para Alberto do Amaral Júnior, a peculiaridade
dos crimes contra a humanidade vai de encontro ao “fato de que são cometidos
como parte de um ataque deliberado, generalizado ou sistemático, contra a
população civil”. Também frisa o autor que, desta maneira, são assim considerados,
os crimes contra a humanidade, “atos perpetrados em larga escala contra os civis
em tempos de paz ou durante a eclosão de conflitos armados”.
Quanto aos crimes de guerra, estes encontram seu amparo legal no artigo 8º,
o qual afirma que a sua competência ocorrerá de forma genérica, porém
particularmente quando cometidos os referidos crimes de guerra como parte
integrante de um plano ou de uma política ou como parte de uma prática em larga
escala desse tipo de crimes. Posteriormente o Estatuto de Roma classifica o que se
entende por crime de guerra, no mesmo artigo, exemplificando os delitos de forma
individual.
Por fim, com relação ao crime de agressão, houve um grande impasse, que
resultou no art. 5º, § 2º, no qual se declara que a competência do Tribunal para o
crime de agressão somente ocorrerá após a aprovação de emenda ao Estatuto, na
forma prevista nos arts. 121º e 123º. Enfim, a grande resistência de alguns Estados,
especialmente daqueles com poder de veto no Conselho de Segurança da ONU, na
tipificação do crime de agressão, persiste, já que tiraria desse órgão o poder de
determinar com exclusividade a existência de situação de agressão, como hoje
ocorre. Em suma, a definição exata de crime de agressão nunca foi estabelecida,
mas o crime consiste em ações políticas ou militares, por alguém que detém o
poder, contra outro ente internacional.

3. A importância do Estatuto de Roma

Pelo que se depreende de todo o dito até aqui, é clara a importância do Estatuto
de Roma para o Tribunal Penal Internacional, que foi o resultado da lenta evolução
que a internacionalização dos sistemas de proteção aos direitos fundamentais vem
tendo, reclamando cada vez mais por uma resposta punitiva internacional, com
vistas a superar regras de imunidade dos agentes estatais e de aplicação de pena,
por intermédio de mecanismos supranacionais independentes, desvinculados dos
mecanismos internos de cada Estado.
De qualquer forma, apesar de alguns países ainda se mostrarem relutantes em
aceitar a jurisdição do TPI, este não deixa de ser um grande passo na repressão das
barbáries cometidas em situações de guerra, por exemplo, evitando a impunidade
de comandantes militares a até de governantes que porventura venham a praticar
crimes de guerra, contra a humanidade, de genocídio e agressão armada, passando
tais bens jurídicos a serem tutelados não só na esfera doméstica dos Estados, mas
num plano internacional, corroborando, assim, o sentido de que todos os direitos
humanos são universais, indivisíveis, interdependentes e inter-relacionados.

REFERÊNCIAS
DA SILVA, Marcos. Contextualização histórica e positivação do Estatuto de
Roma e do Tribunal Penal Internacional no Brasil e na União Europeia.
Disponível em:
<https://mvsilva1991.jusbrasil.com.br/artigos/222569349/contextualizacao-historica-
e-positivacao-do-estatuto-de-roma-e-do-tribunal-penal-internacional-no-brasil-e-na-
uniao-europeia>. Acesso em: 06 abr. 2018.
ESTATUTO de Roma do Tribunal Penal Internacional. Disponível em:
<http://pfdc.pgr.mpf.mp.br/atuacao-e-conteudos-de-
apoio/legislacao/segurancapublica/estatuto_roma_tribunal_penal_internacional.pdf>.
Acesso em: 06 abr. 2018.
ESTATUTO de Roma. Disponível em:
<https://pt.wikipedia.org/wiki/Estatuto_de_Roma>. Acesso em: 06 abr. 2018.
ESTATUTO de Roma: Convenção que instituiu o Tribunal Penal Internacional
completa 12 anos. Disponível em:
<http://www.migalhas.com.br/Quentes/17,MI111307,91041-
Estatuto+de+Roma+Tratado+que+instituiu+o+Tribunal+Penal+Internacional>.
Acesso em: 06 abr. 2018.
RAMOS, André de Carvalho. Curso de Direitos Humanos. 1ª ed. São Paulo:
Saraiva, 2014.